sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Dead media
Professor, lembra-se de nos ter falado disto na primeira aula? Aula essa que é dedicada a episódios da história e evolução do computador, para que os alunos fiquem a saber um pouco sobre como evoluíram as tecnologias que hoje tomam como adquiridas. Faço uma pausa para falar dos palms, que durante muitos anos e três iterações foram os meus dispositivos móveis favoritos. E rever um (se bem que os meus estão cuidadosamente arquivados na minha biblioteca foi uma boa surpresa matinal. O meu pai comprou-o em 1994, disse-me o muito atento e curioso aluno. Já o meu primeiro data de 1998, e foi com ele que dei os primeiros passos na computação móvel, escrevendo pequenos textos, levando ebooks no bolso e aproveitando as longas viagens de comboio que fazia nesses tempos com jogos em glorioso monocromatismo. Para comparação, a minha máquina actual de... ok, ler livros e comics, algumas apps de vida digital, outras de desenho que apanham pó e pontualmente modelação 3D. Curiosamente se a tecnologia e os interfaces mudaram a forma como as utilizo não se modificou por aí além. Já usava os palms para experimentar grafismos.
Está visto que tenho de ver se os meus ainda se ligam, para mostrar ao aluno como é que se trabalhava com aquilo. Quanto aos palms, não sobreviveram à explosão dos smartphones, mais por estupidez dos seus gestores do que por incapacidade tecnológica. O Palm OS ainda sobrevive no quase extinto WebOS. Estes dispositivos são hoje curiosos artefactos dead media de arqueologia digital.
Fumetti: Barbara, La Palude Della Cittá Fantasma; Gordon Link, Un Baule Pieno di Gin.
Ricardo Barreiro, Juan Zanotto (1988). Barbara: La Palude Della Cittá Fantasma. Roma: Eura Editoriale S.P.A..
Mas não faltarão aqui umas letras? Assim uns lla? Diga-se que heroínas de banda desenhada europeia futurista dos anos 70 e 80 vão todas beber à semente de Barbarella. Sabemos o que esperar. Raparigas corajosas parcamente vestidas com um pendor para a nudez súbita a percorrer insólitos mundos futuros, alternado entre cair nos braços de belos homens de torso ao léu ou a fugir das intenções libidinosas de bandos de degenerados. Esta criação dos argentinos Barreiro e Zanotto distingue-se pelo sabor distintamente sul-americano. A variante no esquema narrativo implica uma terra futura pós-apocalíptica, com as cidades em ruínas e a humanidade decaída em tribos proto-históricas que guardam algumas memórias e tecnologias de um passado que foi o nosso presente. Como elemento adicional encontramos uma raça aguerrida de alienígenas humanóides militaristas que mantém postos de observação no plaenta, onde se dedicam a treinos militares e a escravizar os indígenas para sublimar sonhos colonialistas.
É nesta paisagem que a virginal Barbara, fugida da sua tribo por ter morto um sacerdote que se compraz no manter o droit de seigneur nos casamentos, vai viver aventuras que a levam a cruzar-se com um escravo fugido, uma base alienígena, uma tribo libertária, um grupo de soldados em treino de sobrevivência e estranhos frutos contendo substâncias psicadélicas que a colocam em contacto com uma espécie de consciência cibernética consumista. Está dentro dos padrões habituais deste género de personagens. O melhor disto é ver a iconografia pós-apocalíptica ao estilo Drowned World de Ballard com que Zanotto reinventa a cidade de Buenos Aires, transformada num pântano coberto de selvas neste distante futuro.
Gianfranco Manfredi, Raffaele Della Monica (1991). Gordon Link: Un Baule Pieno di Gin. Milão: Editoriale Dardo.
Fiapos do adn de Dylan Dog e Ghostbusters cruzam-se nas aventuras deste Gordon Link. E, dizem os entendidos, de Martin Mystère, mas não conheço suficientemente bem este personagem para verificar a veracidade da informação. Link é mais um herói do sobrenatural, caçador de fantasmas e outros mistérios do oculto, que conta com ajuda de um muito previsível grupo de personagens estereotipados: uma espírita boazona, o cientista de sanidade questionável, o músculo de serviço, bruto até às orelhas, uma planta carnívora e uma criatura peluda minúscula que devora entidades sobrenaturais. E sim, se estiverem a ler isto, leram bem a última frase.
Para primeira aventura Link e os seus comparsas são contratados para investigar ocorrências misteriosas num hotel onde um mago indiano lá hospedado liberta génios maus para se apoderar do corpo de jovens beldades. Porque magos de ar ameaçador têm sempre de se apoderar dos corpos de jovens beldades. Faz parte, é o que se espera. Que eu saiba ainda ninguém escreveu algo onde uma jovem beldade que desperta ardores de desejo se apodere do corpo engelhado de uma velhota caquética.
O que temos é mais uma iteração banal do conceito de investigador de mistérios ocultos. Dylan Dog é o arquétipo supremo no fumetti, e as imitações normalmente não se aproximam da grandeza surreal dos textos escritos por Sclavi, que isto quando os argumentos recaem sobre outros a conversa muda. Leu-se, registou-se nas anotações pessoais de descoberta do género, e segue-se em frente.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
All the social gains
"Yet it is not only the invincible universality of capitalism which is at issue: tirelessly undoing all the social gains made since the inception of the socialist and communist movements, repealing all the welfare measures, the safety net, the right to unionization, industrial and ecological regulatory laws, offering to privatize pensions and indeed to dis mantle whatever stands in the way of the free market all over the world. What is crippling is not the presence of an enemy but rather the universal belief, not only that this tendency is irreversible, but that the historic alternatives to capitalism have been proven unviable and impossible, and that no other socio economic system is conceivable, let alone practically available."
Frederic Jameseon (2005). Archaeologies of the Future. Londres: Verso.
Serenity
Joss Whedon, Brett Matthews (2009). Serenity: Those Left Behind. Milwaukie: Dark Horse Comics.
O comic que interliga a série televisiva Firefly com o filme Serenity. A caça à misteriosa River Tam inicia-se com um grupo de agentes secretos que recruta um velho inimigo de Mal, sedento que uma vingança que planeou meticulosamente. Mas com a best damn crew os melhores planos caem por terra e a vingança esvai-se sob as balas de Mal. A aventura é fracturante, com o Pastor a abandonar a nave para se juntar à colónia de Haven, e Inara a separar-se da tripulação. No final vislumbramos o implacável Operative, que irá dar caça sem tréguas a Serenity e ao seu capitão no filme que encerra o ciclo desta cativante série que se tornou transmedia por força das circunstâncias.
Patton Oswalt, Patric Reynolds (2010). Serenity: Float Out. Milwaukie: Dark Horse Comics.
Wash, o ás dos ares exímio na pilotagem da nave Serenity pelos mais ínvios e perigosos caminhos do espaço é recordado em três curtas histórias que mostram a sua perícia aos comandos de qualquer nave que lhe calhe nas mãos, a sua agilidade em esquivar-se das piores ameaças de combate espacial e a dedicação aos companheiros. Três curtas, ligadas por um momento de reminiscência entre três aventureiros e a viúva de Wash, com argumento do überg33k Patton Oswalt.
Joss Whedon, Zack Whedon, Chris Samnee (2010) Serenity: The Shepherd's Tale. Milwaukie: Dark Horse Comics.
Quem é o pastor? Homem de deus com queda para se safar de situações complicadas, vagabundo em deriva alcoólica, comandante ambicioso que sacrifica a sua nave em nome da glória pessoal, aniquilando milhares de inocentes, agente secreto independentista infiltrado nos altos escalões da Aliança, ou um rapaz que fugiu de casa e nunca mais regressou? Whedon vai-nos levando numa viagem progressiva ao passado de uma das personagens icónicas de Firefly.
Joss Whedon, Brett Matthews (2011). Serenity: Better Days. Milwaukie: Dark Horse Comics.
Imaginem que enriqueciam para lá dos vossos sonhos mais luminosos? O que fariam do resto das vossas vidas? Num dos acasos da vida de aventuras a best damn crew e o seu comandante de honestidade flexível capturam um tesouro milionário e vêem-se na rara contingência de ter dinheiro para perseguir os seus sonhos. Enquanto uns imaginam paraísos tranquilos, outros o comandar de potentes naves, ou apenas uma vida familiar sem sobressaltos, têm de combater mercenários ao serviço de construtores de robots e acabam por ser roubados, perdendo a fortuna e voltando a vaguear no espaço em busca de aventuras lucrativas. Mas para o capitão da Serenity talvez sejam esses os melhores dias, correndo pelo espaço, vivendo aventuras acompanhado pelos seus fieis companheiros.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Ceres, rejubilante.
Dizem as mitologias que a culpa é das romãs. Pela intensidade fotossintética diria que Perséfone já fez a malas e está pronta a sair das cavernosas mansões infernais.
Interzone #250
Uma boa razão para ler regularmente a Interzone é a não ficção. O ansible link é um vício confesso, a coluna de Jonathan Calmont é sempre provocatória, as críticas literárias uma mina de sugestões de leitura e as de cinema não poupam argumentos nem se deslumbram com o brilho dos efeitos. A Mutant Popcorn deste mês está particularmente acutilante. O tema é a representação do feminino no cinema, já por si com pano para mangas na análise da visão simplista e estereotipada do cinema comercial norte-americano. Não é por isso surpresa que arrase o Frozen como veículo para venda de peluches e simpatize com o Carrie por ter usado uma actriz adolescente no papel de jovem adolescente, coisa rara no meio (ou, como o colunista tão bem coloca, "played by actresses with the wrong side of twenty well behind them"). Já no Gravity a precisão no caracterizar do filme é brutal. Chama-lhe "a triumph of filmmaking over writing, situation over character, and the technology of spectacle over its human passenger" com o desempenho de Sandra Bullock, em constante e brutal movimento, "a grueling mechanical simulation of the cinematic gaze". Não esquece as incongruências ideológicas de um filme que sublinha viver no sonho de uma realidade alternativa onde os velhos paradigmas da corrida espacial ainda são válidos.
Na ficção a aposta ficou-se pelo pretensiosismo literário, com dois contos muito interessantes, The Damaged e Wake Up, Phil, a ser a excepção a esta tendência. Dos restantes pouco se aproveita, apesar de Labirynth of Thorns ter alguma graça cyberpunk e Bad Times to Be in the Wrong Place um certo encanto mitológico.
The Damaged: um conto muito poderoso, que nos remete para os sonhos e ideário à volta dos andróides e inteligência artificial com um toque re rebelião anti-corporativa e o seu quê de serial killing. Num futuro onde andróides realistas são mercantilizados como máquinas de companhia com uma vida breve de cinco anos. Sendo epítomes da perfeição pós-humana, alguns apresentam um erro recorrente que de alguma forma os danifica. Estes robots acabam nas ruas, concorrendo com as multidões de sem-abrigo pelos recantos esquecidos pelo olhar do mundo. Uma artesã da fábrica de andróides começa a recolher e a trazer para sua casa alguns destes mecanismos danificados, mas o seu altruísmo esconde uma curiosidade mórbida pela intricacia semi-viva dos seus mecanismos. Essa curiosidade leva-a a dissecar os andróides, com óbvias consequências. Mas será que matar algo que apenas simula viver é assassínio? Tudo termina quando se envolve com um modelo obsoleto que, num momento reminiscente de uma das mais tocantes cenas do filme Blade Runner, insiste numa variante de penetrar na fábrica onde foi gerado para conhecer os segredos dos seus criadores. Conto de Bonnie Stufflebeam.
Bad Times To Be In The Wrong Place: este conto de David Tallerman não é nada por aí além, essencialmente uma metáfora de abandono e final de relação amorosa. Tem um momento interessante, quando o personagem se cruza com três estranhos, algo mais nítidos do que a realidade circundante, e fica a saber que o real poderá não passar de uma cópia de segurança com prazo de existência finito. Intrigante variação sobre o conceito de realidade como simulacro digital. Suponho que cada universo artifical holográfico/simulatório digital terá de ter as cópias de segurança em dia, senão algum percalço pode anular a experiência?
The Labyrinth of Thorns: debaixo de muito palavreado aspirante ao literário esconde-se uma fortíssima veia cyberpunk à moda antiga, num conto que, fiel aos princípios do género, nos mostra a percepção de uma metrópole do futuro vista por um agente da lei que se infiltra mentalmente nas redes informáticas de cibercriminosos. Um exercício curioso de Allegra Hawksmoor.
Beneath the Willow Branches: traços de Ballard e Leiber ecoam neste conto onde a viagem no tempo se tornou possível graças a um dispositivo implantado no cérebro que permite recuperar e modificar memórias do passado. Um cirurgião tenta salvar a mulher, inventora do dispositivo, de um coma no presente mergulhando no passado e vai eliminando linhas temporais até a salvar e com isso ficar fora do tempo. Há também uns toques de misticismo de sabor nipónico no conto de Caroline Yoachim que, francamente, disfarça a incoerência debaixo de reminiscências poéticas.
Predvestniki: uma história indecisa, que não sabe se é um mergulho numa falha de realidade durante uma viagem a Moscovo ou uma banal história de relações e traições amorosas. Tenta ser ambos e falha redondamente nos dois aspectos, apesar de ter um começo promissor com um turista que descobre arquitecturas intermitentes no espaço geográfico moscovita. Conto de Greg Kurzawa.
Lilacs and Daffodils: outro conto com pretensões literárias, muito difuso e a roçar o incompreensível. Nos momentos mais lúcidos remete para o clássico Quatermass e sugere tratar-se das reminiscências de um computador consciente que se imagina nas memórias de uma menina de sete anos. Conto curto de Rebecca Campbell.
Wake Up, Phil: P. K. Dick faz uma aparição, disfarçado como elemento narrativo deste conto estranho mas interessante que sublima com muito estilo os psicadelismos e realidades alternativas em colisão que caracterizam a obra do escritor. As realidades são difusas neste conto de Georgina Bruce em que uma mulher, fiel à empresa onde trabalha e vive num regime futurista feudal começa a sentir a sua realidade a dissolver-se após se ter tornado sem querer cobaia em testes a um produto de emagrecimento. Por vezes é a fiel servidora de uma das duas grandes empresas que dominam a vida no sistema solar, por vezes é uma dona de casa dos anos 60, por vezes uma fiel servidora da outra empresa que domina, senhora feudal do futuro neoliberal, sobre uma humanidade de servos. Esta dissolução de realidades encerra a ficção desta edição da Interzone numa nota muito positiva.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
I Saw It; Dampyr
Keiji Nakazawa (1982). I Saw It. Educomics.
Um manga que aborda um tema poderoso, mas que oscila entre o banal e o visceral. Nakazawa sobreviveu ao bombardeamento de Hiroshima e esse momento transformativo marca-o para a vida. A bomba está sempre presente no que acaba mais por ser um historial da sua vontade de ser bem sucedido e das suas experiências de vida. É uma crónica do seu percursos de jovem estudante vindo de uma família destroçada pela bomba a bem sucedido criador de banda desenhada. Autor da série Barefoot Gen e outros mangas que lidam com os traumas do bombardeamento atómico, Nakazawa deixa aqui algo que é mais autobiografia do que visão traumática. No entanto, ao detalhar o momento da explosão e os que se lhe seguiram não poupa o leitor aos horrores da guerra nuclear. Particularmente assombrosas são as visões de queimados cuja pele se derreteu pelo calor, a arrastarem-se pela paisagem arrasada pelo fogo, ou os cadáveres de vítimas que tentaram fugir ao inferno de chamas mas acabaram carbonizados em depósitos de água. Esses são os momentos memoráveis deste livro, o aviso dos horrores da guerra absoluta, embora a própria história de vida do autor também seja um símbolo do que acontece a um país cujos líderes colocaram as ambições marciais acima de tudo. Documento e testemunho de uma época e de um momento que, felizmente, a história não repetiu.
Mauro Boselli (2000). Dampyr: Filho do Vampiro.
Se eu não soubesse que a série Dampyr se resume sempre ao mesmo até ficaria intrigado por este primeiro número. Mas se calhar não seria má ideia explicar melhor. Dampyr é um personagem de fumetti de vertente sobrenatural. Sendo fumetti, não tenho que dizer que é italiano, pois não? Filho da união entre uma mulher humana e um vampiro primordial, este Dampyr tem a capacidade de eliminar vampiros graças ao seu sangue tóxico para as criaturas da noite. Caçador destas entidades sobrenaturais, percorre o mundo acompanhado dos seus fiéis companheiros, entre os quais se encontra uma vampira que se esforça por manter a sua humanidade, a combater a ameaça das tenebrosas criaturas que subsistem sugando o sangue humano.
Este primeiro episódio, que nos leva a conhecer a personagem e a sua história, surpreende pela visceralidade inicial. Os argumentistas não fazem por menos, levando-nos para a violência extrema da guerra na ex-jugoslávia e para uma aldeia na terra de ninguém onde os sanguinários guerrilheiros se vão deparar com um perigo ainda maior do que os advindos da xenofobia potenciada a balas de AK47.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Technology is the quiet driver of most modern history
Ainda a meio da leitura desta entrevista de Gregory Benford publicada na IEET, não pude deixar de reparar nesta afirmação estrondosa sobre a incapacidade da literatura mais erudita em lidar com as reais forças que moldam o nosso mundo contemporâneo. Note-se que é uma reflexão, não um assalto à cultura literária tradicional vindo de um cientista/escritor implantado nas zonas perigosas dos géneros. Vista em contexto, este é um acutilante pensamento sobre o poder da Ficção Científica para nos levar a compreender as forças transformativas que caracterizam o momento contemporâneo:
"I often sense a thinness in contemporary fiction about the way the world operates, making the conventional world primary when it’s not. That’s just a lazy habit. The universe science reveals to us is comically unrelated to what our primitive senses report, after all.
I feel that science and its Baconian link to technology is the quiet driver of most modern history, and we should realize that if we’re to master our own times. Sf speaks to and for the community behind that powerful driver. Most fiction evades the real power afoot in our times. I don’t dislike conventional literature; I’m merely not a fan of naïveté."
A chave está na afirmação "technology is the quiet driver of most modern history", algo que é recordado no ar frenético da discussão mais mainstream sobre as transformações sociais trazidas pela tecnologia, em discursos que oscilam entre surpresa com a rapidez transformativa, deslumbre com as delícias dos gadgets ou temores catastrofistas sobre o colapso iminente da humanidade perante a ameaça dos teares mecânicos/fábricas tayloristas/máquinas inteligentes/inteligências artificiais/redes sociais/isolamento na internet. Naqueles acasos do inconsciente colectivo deparei recentemente no Sublime Dreams of Living Machines de Minsoo Kang com esta citação de Samuel Butler, nos idos do século XIX, a temer em relação às máquinas industriais que "we are daily giving them greater power and supplying by all sorts of ingenious contrivances that self-regulating, self-acting power which will be to them what intellect has been to the human race. In the course of ages, we will find ourselves the inferior race". A tecnologia que criamos modela-nos, como intuiu McLuhan, e de facto as expressões culturais mais populares fogem da cultura científica, nalguns casos ignorando-a intencionalmente. E depois surpreendem-se.
A entrevista, que não se fica por estes tiros na guerra cultural entre culturas mainstream e de género, recomenda-se: A scientist-author at the heart of hard science fiction.
Playtime
A fazer experiências com o 123DCatch, intrigado com os potenciais estéticos da captura em 3D do real. Num acesso de narcisismo investigativo pedi aos meus alunos que me capturassem e tenho estado a processar a mesh 3D em modo experimental. Sou cobaia das minhas experiências... e tenho alunos a trabalhar com esta tecnologia. Nesta experiência andei a testar métodos de redução do número de polígonos utilizando o Meshlab. Fui capturando o resultado de reduções incrementais de 50% numa mesh que originalmente tinha mais de trinta mil polígionos até chegar aos seiscentos, tentando sempre ver até onde poderia manter uma forma humana reconhecível. Abaixo de seiscentos já ficou demasiado irreconhecível. Gif animado no Gimp.
Comics
Alex + Ada #04: Reboot. O momento do reiniciar capturado com uma subtileza notável. Os nossos computadores não se comportam desta forma, mas a andróide futurista desta intrigante série da Image vai descobrir que é mais inteligente do que esperava. Esta série move-se por caminhos que por vezes são esperados mas por outras surpreendem. Não trilham o caminho óbvio de criar uma relação amorosa entre o dono da robot e o artefacto simulador de vida. O que move o incauto dono é a extrema subserviência programada na inteligência artificial e a sua intuição que apesar de ser uma máquina mereceria ser capaz de pensamento independente. É muito uncanny valley. E é curioso centrar-se numa intuição humana mal explicada ao invés de raciocínios lógicos. O dono da andróide procura torná-la mais autónoma e capaz de ir além de simular a vida e ao fazê-lo depara-se com uma cultura muito subterrânea de donos de andróides e máquinas sentientes. Convenientemente, para efeitos de estrutura narrativa, os andróides já dispõem de potentes inteligências artificiais capazes de auto-conhecimento, estando restritas pro software e vendidas como limitadas para não assustar a sociedade. Mas quem sabe e procurar mais vida para a sua máquina viva encontra formas de remover os bloqueios e potenciar o poder da IA. As consequências virão na próxima edição deste comic muito discreto mas com premissas fortíssimas e capaz de despertar interessantes linhas de raciocínio.
Disney Kingdoms Seekers of the Weird #02: Pois é, meus caros, temos tendência para esquecer que graças à magia financeira dos jogos corporativos a Disney e a Marvel são hoje a mesma coisa em termos empresariais. Não tem havido ideias, pelo menos públicas, de concatenar os diversos mundos ficcionais das propriedades intelectuais geridos por esta criatura híbrida, até porque tal só faria sentido para algum alucinado com fortes desejos de ver os cavaleiros Jedi a lutar ao lado dos Vingadores para defender Patópolis. É melhor ficar por aqui e não dar ideias que não devem andar longe das mentes de executivos à procura de maneiras rápidas de lucrar com filmes ou comics de quinta categoria promovidos como produtos de excelência. É sempre bom recordar que tal como Cinderella, Branca de Neve, Ariel ou as outras Princesas Disney a princesa Leia também é uma princesa. Não perco a esperança de ver um alinhamento de princesas Disney que inclua Leia, de preferência com o fato que usou no antro de Jabba. Quanto ao comic, devo confessar que tem a sua piada. Nota-se que está criado com muito cuidado, aliando o savoir-faire da Marvel nos comics à vastíssima propriedade intelectual da Disney. A ideia é recuperar elementos da lendária atracção dos parques temáticos, Haunted House, e está feita sem correr grandes riscos. O argumento é tudo o que se poderia esperar de uma série young adult: um par de adolescentes levemente estranhos com os habituais problemas de afirmação pessoal e a suas famílias que escondem segredos, uma história de aventuras trágicas que terá um inevitável final feliz que os leva a descobrir que segredos formam a sua herança familiar. Nada de extraordinário, mas também nada mau.
The Extinction Parade #05: Vampiros versus Zombies nesta edição do comic de Max Brooks. Raulo Caceres ilustra e, sendo editado pela Avatar, venha daí o gore. Não tenho mais nada a dizer. É mesmo isto, apenas. É por isso que a série cativa, por ser aquilo que afirma ser. Tem um subtexto curioso, com Brooks a mostrar os vampiros como pouco mais do que sanguessugas incapazes de algo mais do que se aproveitar das glórias da humanidade, incapazes até de perceberem que hordes de zombies a comerem-lhes o gado humano são uma óbvia ameaça à sua existência. Tem o seu quê de crítica muito ínvia à ganância das oligarquias contemporâneas.
God is Dead #07: Azar o meu que não reparei no subtil apóstrofe que indicava Jonathan Hickman's God is Dead. Hickman terminou a série no sexto número mas a Avatar seguiu uma estratégia muito habitual no mundo dos comics de sugar ao tutano uma ideia com interesse e entregou o argumento a Mike Costa, que dá continuidade ao mundo ficcional de Hickman onde os deuses regressam à Terra para escravizar os humanos e lutar entre si, sendo finalmente derrotados por uma deusa criada artificialmente que se apropria de Gea e instaura o seu paraíso na Terra. O final tinha sido amargo e Costa dá-nos a continuação, com uma missão de evangelização ao continente australiano, onde os habitantes aliaram misticismo aborígene com tecnologia e se refugiaram no tempo dos sonhos (dreamtime, certo?), sendo por isso poupados aos desígnios sangrentos dos opressivos deuses amorais de Hickman. Só que... é continuar algo que foi bem terminado, só porque a série despertou interesse. Normal nos comics, e a Avatar já deu cabo de títulos divertidos como a Jenniffer Blood de Garth Ennis, entregando a continuidade a argumentistas menos dotados e a ilustradores pouco talentosos que acabam por enterrar as séries. Mas pronto, dê-se a Costa o benefício da dúvida, até porque teve tomates para nos mostrar o deus, sim, o todo-poderoso judaico-cristão, com os miolos esparramados sobre o trono celestial. Nietzsche não faria melhor.
Undertow #01: Vestígios de Robur animam esta muito surpreendente nova série da Image. É daquelas que não se tem ideias pré-concebidas ao pegar nela e que até se espera que não passe da mediania, o que torna a surpresa ainda mais saborosa. Estamos num passado profundo, com a humanidade ainda nos estádios de hominídeos a começar a dar sinais de inteligência, e nos mares reina a avançada civilização Atlante. Não a atlântida das lendas platónicas mas a outra variante, a de homens que vivem nas profundezas dos mares. A sociedade atlante é rígida e com tendências fascistas, mas há um homem (... homem? homem-peixe?...) que se propõe dar liberdade aos que não aguentam a opressão dos bons costumes. Estes reúnem-se numa espécie de tribo que voa sobre a terra emersa num vasto dirigível cheio da água necessária à respiração destes atlantes exilados que trocaram o mar pelos céus. Este arranque é prometedor e o expressivo estilo gráfico do ilustrador dá força a esta série surpreendente. Resta saber se a próxima edição conseguirá manter o nível. Já são tantas as séries que começam muito bem mas depressa decaem para o banal que não me atrevo ainda a maiores elogios.
The Unwritten Apocalypse #02: Mike Carey está positivamente didáctico no seu toque final à série mais amada actualmente pelos leitores da DC/Vertigo. A linha narrativa secundariza-se perante constantes referências a estruturas literárias, personagens tipo e artifícios narrativos. Carey parece estar a querer meter no mesmo panelão os elementos mais díspares do fantástico e do erudito na literatura e atear-lhe o fogo popularizador dos comics. O que até tem lógica. The Unwritten sempre foi um comic metaficcional, e é apropriado que termine numa espécie de apocalipse de ficções.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Say we need a revolution
Bem vindos ao século XXI, pensei quando vi esta extraordinária foto de David Rose em Kiev. A imagem em si é fortíssima, mas para leitores aguerridos de comics que estimulam o intelecto é curiosamente reminiscente do trabalho de alguns dos seus mais viscerais argumentistas. Terei de invocar a santíssima trindade dos argumentistas que melhor sentem o pulso da modernidade acelerada pela tecnologia.
A pose desafiante do homem registado pelos pixeis do fotojornalista tem o seu quê de Warren Ellis, com um olhar de olhem para mim, seus cabrões, arraso-vos com a minha caçadeira de dois canos. Estou protegido pelo capacete enferrujado pelo sangue dos meus avós na II guerra, e estes óculos protectores anti-gás deixa-me invencível. Vou-me a todos com a força do meu smarphone hiperconectado.
Tambem recorda Grant Morrison a provocar a mente dos leitores com o seu say we want a revolution, citando a velha canção dos Grand Funk Railroad. Logo nas primeiras páginas do modificador de realidades The Invisibles. onde o psicadelismo e a fluidez das percepções de realidade tomam de assalto os neurónios de quem se atreve a prestar atenção às páginas coloridas.
Ou talvez seja mais perverso. Talvez isto seja o século XXI a nascer, em gritos de revolta e placenta de fogo na ruas, após as contracções transformativas saídas de think tanks rarefeitos e instituições respeitáveis que a partir dos anos 80 asseguraram hoje que o domínio dos oligarcas seja completo e o humanismo fique enterrado sob os escombros das ruínas do progresso clássico. Recorda-me as facas afiadas de um cirurgião e as entranhas as mulheres da noite postas a nu nos becos de um bairro londrino que Alan Moore postulou serem o parto do século XX em From Hell, parto iniciático que gerou o novo século numa placenta de sangue arterial e vísceras. Talvez estes anos de regressão violenta e os refluxos de revolta sejam o parto deste novo século. Note-se o acelerar da frequência de revoltas violentas, povo nas ruas e prelúdios de guerra civil.
Quem é que escreveu que os séculos não começam verdadeiramente nos anos 0, recordando que o que nos antecedeu abriu os olhos nas trincheiras da Flandres?
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Lover of the grave's pained felicities.
Edgar Allan Poe como um amante das felicidades dolorosas dos prazeres da campa. Honestamente é a melhor qualificativa que posso pensar para este autor.
Aqui Aldiss demole com muito estilo o argumento da FC enquanto preditor oracular de futuros. Sim, tem essa vertente, mas é a liberdade especulativa o que anima e dá vitalidade ao género.
E continua. O prever é apanágio os videntes. Antever e imaginar, especular futuros com base no substracto histórico, progresso científico e acumular de visões utópicas deixa sempre vítimas pelo caminho. Boa parte delas são as brilhantes visões de futuros que nunca aconteceram.
Frases que hoje continuam, infelizmente, acutilantes. E fica a pergunta. Alguma ficção distópica anteviu o emergir da nova aristocracia financeira que devora o grosso da riqueza mundial e domina o espaço ideológico global?
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Legs Weaver: Vampyre Story; C'Era Una Volta Una Regina; Il Dormiente.
Michelle Medda , Pier Nicola Gallo (1997). Legs Weaver #19: C'Era Una Volta Una Regina. Milão: Sergio Bonelli S.P.A..
Fico estupefacto como de um mês para outro esta série oscila entre o interessante e o patético. É o caso desta espécie de fábula mal amarfanhada, que pretende pegar em elementos da Branca de Neve com estranhos sete anões e uma rainha má que vê em Weaver uma rival na luta pelo título de mulher mais bela do mundo. Não consegue fazer nada com isto e o episódio está demasiado para cá da fronteira do ilegível. O problema desta vertente de banda desenhada é ser normalmente banal, com alguns rasgos de génio e demasiados momentos atrozes.
Antonio Serra, Giancarlo Olivares (1997). Legs Weaver #20: Il Dormiente. Milão: Sergio Bonelli S.P.A..
Recordo-me de uma história clássica do Capitão América, ilustrada pelo divino Jack Kirby, onde o herói do escudo com estrela enfrentava um robot adormecido, mais um dos vestígios da lendária tecnologia avançada nazi que se ergueu do seu refúgio nas areias dos desertos americanos em mais uma tentativa de vingar o terceiro reich que o super-herói anula. Este episódio de Legs Weaver segue uma estrutura similar, pegando numa mítica forma de energia capturada por nazis no final da II guerra que servirá para dar energia a um robot controlado por um sobrevivente do regime que se transformou em cyborg para manter viva a chama do III reich. Antonio Serra diverte-se metendo no mesmo saco o judeu errante, clones nazis, história da II guerra e batalhas entre mechas, um deles pilotado pela boa menina (duplo sentido intencional) May, que se especializa em combater robots gigantes em lingerie. Porque.. enfim, não há explicação lógica.
Vou colocar aqui um ponto final nas minhas leituras desta personagem. Cheguei a ela tentando perceber se há alguma tradição de FC em fumetti, e deparei com conceitos interessantes numa visão futurista coerente apesar de fortemente datada. Mas o foco da série não é a FC, antes esta é um adereço em linhas narrativas de aventura policial com elementos de sensualidade softcore. Teve alguns bons momentos, mas na generalidade reina uma medíocre mediania. Chega, é hora de partir para outras leituras. Depois da experiência de Legs Weaver já percebi que não vale a pena perder tempo com Nathan Never mas os álbuns da série Agenzia Alfa parecem prometedores. Mas confesso que vou ter algumas saudades da escultural May, com a sua tendência para acabar despida nas histórias e um soutien que se desmontava nas peças de uma pistola para utilizar nos momentos mais apertados. Sim, leram bem. E com esta desço a cortina sobre a série Legs Weaver. Exeunt.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Visions of Utopia
Edward Rothstein, Martin Marty, Herbert Muschamp (2003). Visions of Utopia. Nova Iorque: Oxford University Press.
Este é um daqueles livros com título intrigante que as agruras do tempo ocupado consignaram ao esquecimento nas zonas mais poeirantas do e-reader. O tema é ambicioso, com três ensaios que procuram reflectir sobre a utopia, esse conceito que tanto nos fascina. Service not included, o ensaio de Herbert Muschamp, reflecte sobre a arquitectura de Richard Loos, o fin de siécle vienense, surrealismo e variantes do budismo. Tudo coisas interessantes para amantes budistas de arquitectura contemporânea de Freud e Klimt, para mim um capítulo pouco relevante que foi lido em diagonal. Escrever isto não é apontar que seja intrisecamente mau, apenas que não está na frequência de onda que procuro. Martin Marty desperta algum interesse em An Ironic Perspective on Utopias com um dissecar cheio de ironia de três visões clássicas. Mostra como a Utopia de Thomas More assenta num ideário revoltante para os padrões contemporâneos, criada por alguém que durante o dia se dedicaba a caçar e queimar heréticos aos dogmas da cristandade. Reflecte na felicidade do falhanço das visões de utopia santificada do pregador reformista Thomas Müntzer, visões pregadas do alto do púlpito que culminaram numa sangrenta revolta camponesa depressa esmagada pela aristocracia mas que de facto são antecessoras da violência criadora de sociedades utópicas que os sovietes ou os nazis tão bem souberam explorar. E, sublinhado o totalitarismo inerente às utopias, fala da visão ultra-ortodoxa da utopia religiosa do século XVII, um paraíso terrestre para os sobreviventes dos necessários massacres que purificariam os pecadores e assegurariam a pureza do paraíso religioso.
É em Utopia and its Discontents, o ensaio de Edward Rothstein que abre este livro, que encontramos a mais provocatória e intrigante análise das visões de utopia. Rothstein não perde tempo em recitar a história das utopias literárias, apesar de listar um ideário que se estende de Thomas More ao lado mais proselitista da FC contemporânea, sem esquecer suspeitos do costume como Edward Bellamy, Butler, Huxley e Orwell. Esperem lá, Huxley? O autor da distopia de felicidade eterna que é Admirável Mundo Novo? E Orwell? O mundo de 1984 e das botas cardadas a esmagar a liberdade como visão de perfeição a almejar? Sim, leram bem, e é esse o ponto onde Rothstein toca. As noções de utopia são inerentemente totalitárias, requerendo uma uniformização consensual de opiniões e estilos de vida. Ou, colocando a coisa de forma mais visceral: os horrores futuristas do mundo novo de Huxley ou da Airstrip One de Orwell seriam um paraíso para as maiorias. Apenas para os dissidentes seriam os pesadelos que todos sabemos ser. Para além deste autoritarismo consensual alastrante interente ao conceito de perfeição utópica Rothstein aponta uma vertente messianista às ideias de utopia. Aqui faz pontes intrigantes com os profetas da era digital e apologistas de McLuhan, notando que a sua visão de uma nova sociedade virtual vai beber às raízes do pensamento utópico. Em essência, este ensaio refere a impossibilidade prática das utopias graças à extrema diversidade do espírito humano.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Ficções
Tesla Time: A adolescente rouba ao pai as chaves do carro para poder ir para a noite divertir-se, e o pai não se apercebe de nada. Troquem pai por Tom Strong, carro por nave espacial e ir para a noite por festa sem limites numa discoteca num asteróide onde os amantes de folias da galáxia se cruzam. O argumento é de Alan Moore, o que ajuda a apreciar esta delícia.
Reborn: A TOR pediu a alguns escritores que se inspirassem numa ilustração para criar histórias e esta foi a contribuição de Ken Liu. É uma narrativa poderosa, onde a sociedade terrestre sucumbiu perante uma invasão por alienígenas aparentemente imortais. A extrema longevidade tornou os seres extra-terrestres imunes ao poder das memórias, tendo evoluído para mudarem as células cerebrais como as cobras mudam de pele. Periodicamente, mudam de memórias e ao fazê-lo alteram as suas personalidades. De implacáveis invasores metamorfosearam-se em benévolos ditadores, ansiosos por legarem à humanidade as suas avançadas tecnologias. O problema reside na sede de vingança dos humanos traumatizados pela conquista. Apesar de rotineiramente sujeitos a processos artificiais de alteração de memórias, ainda resistem fiapos vestigiais que permitem reconstruir a história de indivíduos constantemente sujeitos a amnésias artificiais. Um conto muito intrigante, misturando o enredo clássico da invasão extra-terrestre com uma reflexão sobre o poder da historiografia e a fiabilidade da memória humana.
¿Podemos celebrar ya la victoria?: E que tal dar um pulinho à FC espanhola, com uma leitura deste intrigante conto de Victor Muñoz, nomeado para os prémios Alberto Magno? Cá fica o resmungo. Por lá há universidades que lançam concursos literários anuais, e não se esgota aí o panorama literário dedicado à FC do lado de lá da fronteira. Por cá... esperemos que os prémios Adamastor criem, finalmente, essa tradição. Por mim gostaria que o Livros de Utopia desse o seu contributo, mas sobrecarregado como estou a coisa anda difícil. Prometo que não desisto, mas com esta vida de professor/administrador de sistemas com pézinho na investigação pedagógica e gosto pela semi-crítica literária que ainda quer arranjar tempo para desenhar e modelar em 3D, e que ainda se vê envolvido em projectos algo áridos mas necessários como auscultar as necessidades de toda uma comunidade educativa, digamos que isto do tempo anda escasso. Mas adiante, chega de resmungos e vamos ao conto que é bem interessante.
Escrito em ritmo space opera militarista, leva-nos a um planeta distante onde a humanidade combate seres biotecnológicos especializados em invadir e modificar o código genético de outras espécies. Medusas gigantes são a mais eficaz arma de combate, capaz de aniquilar batalhões de soldados terrestres. Um grupo de sobreviventes da invasão de uma colónia distante está a retirar para o ponto de evacuação quando se deparam com uma unidade secreta que conseguiu o impossível: utilizar a tecnologia terrestre para controlar os bioconstructos alienígenas. Aguerridos, estes ficam para contra-atacar os invasores e resta ao pelotão de sobreviventes chegar à cidade escolhida como local de evacuação. A sua sobrevivência é imperativa, pois transportam consigo o segredo que poderá dar a vitória à humanidade. Mas a vitória ainda está distante, e é preciso atravessar uma barragem de máquinas extra-terrestres e sobreviver aos ataques imparáveis.
O ritmo forte alicerça-se naquele tipo de vocabulário tecno-futurista que os fãs de FC tanto gostam. A sugestão de tecnologias avançadas, mecanismos dos sonhos tecnológicos e paisagens de aventura alienígena reforçam a solidez do mundo ficcional deste conto. Daqui, ficou aberto o apetite para ficar a conhecer melhor o que se escreve de FC no lado de lá da fronteira.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Nem bule nem WV Carocha, mas...
Isto não é uma fotografia. É um render em Bryce criado com um modelo 3D obtido através de uma sequência de fotografias mapeadas em mesh pelo 1234 Catch. Por piada, decidi usar a minha nemesis para testar o retratamento da mesh quer na app, quer no meshlab.
Se o Ivan Sutherland tinha o carocha da esposa,
Mike Newell o bule de chá...
e a malta dos algoritmos de processamento de imagem uma pinup da playboy, eu vou seguir as minhas experiências com uma das mais longas running jokes que tenho com os alunos. Ei-la, em glorioso 3D.
Night Film
Marisha Pessl (2013). Night Film. Nova Iorque: Random House.
Para os leitores sofisticados e imunizados de hoje o terror clássico não é suficiente. As velhas histórias de fantasmas e assombrações, os sustos das criaturas horrendas que saltam à frente e provocam calafrios, já não pegam. Esqueletos e espectros parecem-nos pueris, o CGI destruiu a visceralidade dos monstros. Resta o mistério, ou a escatologia pura das vísceras à mostra ou das atrocidades sangrentas, para nos causar aqueles delicioso desconforto que caracteriza o terror ficcional. Um pensamento que me ia correndo na mente enquanto mergulhei neste deliberadamente infenido Night Film.
Despojado de toda a aura de mistério e tonalidades de policial noir, este é um livro que replica o mais clássico dos terrores literários, a história de bruxaria. O que despoleta a história é o suicídio de uma jovem possuída, alguém cuja vida está nas garras das forças do mal. Temos um concílio de bruxos, centrado na figura de um esquivo realizador de filmes polémicos que se isola numa vasta propriedade para, com uma equipe de acólitos dedicados, criar cinema que mexe profundamente com os espectadores e é apresentando apenas em sessões ocultas do olhar da sociedade mainstream. Até, numa homenagem clara a Lovecraft, nos é dada uma mansão de família decadente, habitada por pessoas degenaradas que se dedicam ao mais tenebroso ocultismo, cujos túneis subterrâneos são portais para horrores inomináveis.
Ou então, num curioso aceno ao final mais clássico do conto de terror, não temos nada disto. Temos um segredo, uma doença física, um pai preocupado que procura curas longe das luzes da ribalta, terrores que são aluncinações, mal entendidos e acções que são interpretadas como manifestações do oculto mas são meras protecções de um segredo que se vai desvendando. O que dá força a este livro é o não se cingir deliberadamente a um estilo narrativo, apresentando inúmeras facetas que contribuem para a construção de uma imagem criada a partir de fragmentos. É na ambiguidade que residem os arrepios, na falta de certeza que se abre a porta para a possibilidade do horror.
A história é-nos contada pelo ponto de vista céptico de um jornalista cuja história anterior com o discreto mas poderoso realizador o levou a cair em desgraça. Passo a passo, de fragmento em fragmento, vai construindo e desvendando os segredos de uma família conotada com o oculto, vai perdendo um cepticismo que acaba por recuperar e, finalmente, abandonar. O seu périplo coloca-o em contacto com personagens que, de uma forma ou de outra, foram tocadas pela jovem suicida e pelo misterioso pai. Ler este livro assemelha-se a montar um puzzle particularmente difícil, onde o lugar das peças raramente é o que se supõe ser e nem no final se consegue ter a certeza de que está completo. O final do livro não encerra o mistério, e as hipóteses ficam todas no ar.
O carácter ambíguo da narrativa é espelhado pela sua forma fragmentada. Cada curto capítulo de uma aventura necessariamente linear dá-nos mais uma peça do puzzle narrativo, mas estas não surgem em sequência linear. Há momentos em que estamos a ler uma pura história de fantasmas, outros em que o tom é o de relato de atrocidades do oculto, momentos de infodump sobre a tradição da sabedoria mágica, outros puro policial procedimental com toque noir. A autora vai ainda mais longe neste carácter fragmentário recorrendo ao poder do digital para abrir o espaço do livro. Para além da narrativa dá-nos, na linha directa do modernismo de John dos Passos na hoje clássica trilogia U.S.A., fragmentos de informação, artigos, fotografias, sítios web, que graças à tecnologia contemporânea extravasam os limites físicos do livro e se abrem ao mundo online. A mensagem é óbvia: se a história que conta está meticulosamente planeada ela não é dada de mão beijada ao leitor. Este tem que a reconstruir, a partir dos fragmentos que são dados num ritmo implacável. Como no melhor contar de histórias, está em jogo o diálogo entre o leitor e o escritor.
A profundidade da homenagem à ficção de género está patente no final. Começa por recorrer ao artifício clássico de, após um crescendo de horrores, apresentar tudo como uma mera alucinação e interpretação errónea do banal. Conclui com um virar da mesa que leva o protagonista ao local mais recôndito do sul das américas, numa ilha isolada ao largo da Terra do fogo. Aí, como uma aranha no centro da sua teia, está o realizador de cinema, urdidor de ficções inquietantes e capaz de remisturar o real, modificando permanentemente a percepção daqueles que com ele se cruzam. Está lá, como o Coronel Kurtz nos interiores enevoados do Mekong ou o comerciante Kurtz nas trevas primevas do Congo. E só se chega a ele percorrendo um caminho de loucura, neste livro um de alteração de percepções do real ao invés da violência de Heart of Darkness, que transforma irremediavelmente aquele que percorreu um caminho que tem o seu quê de iniciático.
É revelador que o último parágrafo do livro nos prometa uma revelação final da verdade que nunca nos será dada. O que fica é uma obra brilhante, cuja leitura deixa um gosto a arrepio. Construída com precisão implacável, contada num ritmo que obriga o leitor a não parar de ler, é desaconselhável como leitura nocturna. Porque, mesmo sabendo que é um bem elaborado produto da imaginação, ficamos com uma sensação de inquietude quando fechamos o livro e apagamos a luz. Na escuridão, é uma sensação que demora a esvair-se.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Comics
Astro City #09: Confesso que não tenho grande paciência para o iluminismo olímpico de Kurt Busiek. Percebe-se onde quer chegar, recriando o comic de super-heróis sob uma luz mítico-futurista com o seu quê de deificação greco-romana (o eu chamar-lhe olímpico tem mesmo a ver com o monte Olimpo e não com eventos desportivos). Já às ilustrações de Alex Ross não se resiste. Mas o que atraiu o olhar nesta edição foi uma palavra nesta vinheta: Grandenetti. Não, não é um santo fictício, é uma subtil homenagem a um dos mais marcantes ilustradores do comic clássico de terror. O que ele desenhava para a EC Comics misturava expressionismo com horror e distinguia-se, em revistas onde a qualidade do desenho era o ponto fundamental. Ao contrário de outros ilustradores dessa época, Grandenetti ficou remetido para uma certa obscuridade, tornando-se daqueles nomes que poucos conhecem mas que influencia os mais conhecidos autores e ilustradores da actualidade.
The Fuse: A Image aposta muito na ficção científica e nesta semana lançou nova revoada de títulos, alguns dos quais a usar descaradamente a FC como inspiração. É o caso deste, que aparenta ser mais uma variante do género policial no espaço. Intriga pela ideia de espaços orbitais habitados, embora o ilustrador não tenha ido mais longe do que isto na visualização das estações espaciais. O conceito promete mais do que o tépido desenvolvimento, que se fica pelo velho artifício da dinâmica entre polícia novato e agente veterano na investigação-périplo que enquanto vai desvendando crimes leva os leitores a visitar as geografias ficcionais da narrativa.
Fatale #20: Onde é que já vi esta imagem? Faz-me lembrar um clássico do cinema mudo, com Buster Keaton pendurado num relógio sobre Nova Iorque. Quanto à série, a boa notícia é que está a chegar ao fim. Pronto, não é uma notícia tão boa quanto isso, porque o que Brubaker e Phillips fazem nesta série genial que mistura policial noir com terror lovecraftiano é delicioso. É por isso que é bom que termine, para que a criatividade não se esgote na repetitividade de fórmulas, caminho seguido por tanta outra série intrigante. O final promete um desvendar dos mistérios da atraente femme fatale e dos cultos ocultos que a perseguem. Já os autores desvendam nas páginas editoriais o seu grande golpe: terem um contrato de absoluta liberdade criativa com a editora, o que promete muito. É de recordar que esta dupla tem sido consistente na genialidade dos seus comics.
Manifest Destiny #04: Este é um título da Image que tem sido discreto, mas vai melhorado a cada edição. O que à partida parecia ser mais um recontar em tons patrióticos da odisseia de Lewis e Clark tem-se revelado um visceral weird wild western. Chegados à imensa Louisiana para vistoriar a nova aquisição da república americana, deparam-se com um oeste imenso habitado por tribos aguerridas, florestas ameaçadoras, homens-bisonte com um gostinho gourmet por carne humana e uma praga de zombies vegetais que devastou as esparsas colónias. Podemos resumir esta série a... esperemos o inesperado. Hão de chegar às costas californianas, digo com alguma esperança de encontrar ainda mais fortes voos imaginários.
The Royals Masters of War #01: Deixem-me desde já deixar claro que acho a premissa deste comic patética. Acreditem que disse isto de forma simpática. A ideia de aristocratas como seres super-poderosos que não se metem nas guerras dos seus súbditos meramente humanos, até que um lá se digna a auxiliar em nome do patriotismo, parece mais um sonho infantil de um aristocrata do que argumento digno da Vertigo. Mas como sou um fascinado por qualquer coisa que tenha a ver com a II guerra, até mesmo por ucronias mal amanhadas de premissas patéticas, tive que experimentar. Se a história é aquilo que esperava dela, ou seja, não é grande coisa (a menos que se seja um leitor de sangue azul, a quem esta leitura despertará sonhos de poderes incomuns), já as ilustrações são de topo. Simon Coleby desenha um belíssimos e muito precisos Spitfires. E faz o mesmo a Wellingtons na espectacular abertura do comic. Não é o estilo limpo de Romain Hugault, mas não foge à representação precisa das aeronaves. Lá está, sendo um comic Vertigo, alguma coisa de bom havia de ter.
The Mercenary Sea #01: Para terminar, mais um novo título da Image. A história não promete muito, andando à volta com mercenários esquivos que sobrevivem de formas vagamente legais nas vastidões selvagens do Pacífico Sul. O que desperta o interesse é o grafismo fortemente estilizado, cheio de vinhetas deslumbrantes, apesar de nem sempre esta iconografia digital funcionar bem. Estilo não implica profundidade de conteúdos. Visualmente fez-me lembrar o espantoso Mister X, também uma série de grafismo marcante que se destaca no panorama dos comics, mas o argumento banal destes mercenários não chega aos calcanhares do retro-futurismo borgesiano de Dean Motter.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Playtime
A inspiração veio deste delicioso livro infantil soviético sobre exploração espacial. E pergunta rápida: quem é que ainda se lembra do que significam as iniciais CCCP sem ter de ir googlar?
Vingadores #01
Se gostam de banda desenhada, comics, filmes de super-heróis ou leituras divertidas experimentem estas novas revistas. Na primeira edição a super-equipe do Homem de Ferro, Capitão América, Hulk e Thor enfrenta uma ameaça cósmica em Marte e, capturada pelos vilões, tem de recorrer... e mais não conto, vão ler! Vi a notícia no Leituras de BD e, poucos dias depois, numa saída culposa da Fnac deparei com este à venda. Saiu de lá a acompanhar o Dicinário de Lugares Imaginários. E não resisto a um finalmente. Esta iniciativa recupera para edição portuguesa alguns dos mais icónicos comics da Marvel. A Panini vai colocar regularmente nas bancas os Vingadores, o Homem-Aranha e os X-Men. Só se pode aplaudir a iniciativa, e esperar que cative leitores. Tal como o Leituras de BD eu também preferiria comics da DC, mas parece-me que o importante aqui não é agradar aos fãs de sempre do género mas sim cativar novos leitores. O preço é relativamente acessível, mas recompensador se notarmos que cada edição colige três histórias. A aposta na Marvel não foi certamente feita às cegas e pessoalmente suponho que tem tudo a ver com a fortíssima investida da editora no mercado transmedia, recriando-se no cinema e unificando o universo ficcional dos seus comics com a reinvenção para o grande ecrã. São filmes que atraem as atenções dos jovens e a extensão à publicação regular de comics é uma boa ideia.
Os fãs são-no e sempre serão. Se estes novos títulos, impressos em papel de boa qualidade, cheios de histórias actuais e de preço acessível forem bem sucedidos nas faixas etárias mais jovens criam-se condições para a continuidade do fandom. Novos leitores são sempre bem vindos. Honestamente penso que há espaço e interessados. Basta-me olhar paras os meus alunos e os seus gostos pelo manga e anime. Se houver oferta acessível vão pegar nela e começar a gostar, até porque já têm pontes com o que vão ver aos cinemas. O que me recorda: hora de chatear a coordenadora da biblioteca da minha escola, porque estas revistas não ficariam nada mal na oferta aos alunos que frequentam o Centro de Recursos.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
One escape route from urban culture is to destroy it
A ler o Trillion Year Spree, a bem fundamentada e muito opinativa história da FC segundo Brian Aldiss. É um texto revelador, quer pela visão abrangente sobre os textos e autores seminais do género quer pera largura de horizontes. E pelas pérolas que vai deixando cair nos textos, como esta correlação entre aumento da publicação de livros e as leis sobre escolaridade.
Esta visão das transformações trazidas por novas tecnologias aos livros está hoje, no momento do advento dos textos electrónicos, mais acutilante que nunca.
A psicologia do gosto pela fantasia é posta a nu nesta visão das narrativas fantásticas como sublimar de medos íntimos. É uma visão válida, mas sublinhe-se que não a única.
A citação perfeita para as eternas e intermináveis discussões sobre alta literatura versus literatura de géneros. Talvez seja este o poder das ficções fantásticas, o de tocar nos arquétipos que, ocultos sob a sofisitação argumentativa, são a espinha dorsal da concepção de se sentir humano.
One escape route from urban culture is to destroy it: com esta frase fez-se um click mental e fiquei a perceber melhor a tendência do João Barreiros para arrasar a cidade de Lisboa. Pronto, estou a ser mauzinho. Pronto, confesso, a frase encerra alguns parágrafos para alguma FC popular catastrofista da era pré-pulp.
Já esta... como fã de FC, fico a matutar se é uma observação pertinente sobre o poder do imprinting (o nome científico da tal ideia do Lorenz) ou um insulto muito elaborado ao carácter ferrenho do fandom mais acérrimo.





















































