Mostrar mensagens com a etiqueta fumetti. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fumetti. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 14 de abril de 2026

Comics: Wolverine and Kitty Pryde; Em busca da Pedra Zodiacal; Demoni e silicio


Chris Claremont, Damian Couceiro (2025). Wolverine and Kitty Pryde. Nova Iorque: Marvel.

Nem sempre é bom regressar ao passado. Claremont foi um argumentista de charneira, responsável por ter tornado os X-Men em personagens de sucesso, mas o que lá vai, lá vai. Aqui regressa a uma das suas sagas clássicas, em modo de prequela. Com aquela inspiração tão final dos anos 80 com a cultura japonesa clássica, que levou Wolverine ao Japão, reinventou a frágil adolescente Kitty Pryde numa algo sombria personagem, através de uma daquelas suas típicas narrativas convolutas que envolveu o domínio mental por parte de um sensei malévolo. Neste regresso, Claremont coloca-se entre o ponto final dessa saga e a restante continuidade da personagem, com uma bizarra e explosiva aventura que consegue cruzar samurais míticos e sentinelas superinteligentes. Um regresso explosivo, mas de sabor oco, a mostrar que o brilhantismo clássico ficou no passado (e merece ser revisitado), mas não consegue ser replicado.


Bruno Sarda (1990). Em busca da Pedra Zodiacal. Lisboa: Abril Controljornal.

Regressar à infância? Nem por isso. Cresci com estas bandas desenhadas, mas no formato americano, e as aventuras simplistas que me ocuparam tempos livres na infância são vagas memórias, sem que me tenha apercebido do significado de, por exemplo, Carl Barks. Só mais tarde descobri a outra Disney, a dos desenhadores e argumentistas italianos que ao meu olhar adulto, trouxeram uma curiosa voluptuosidade ao estilo gráfico uniformizado da Disney. De vez em quando sabe bem revisitar este estilismo, para redescobrir uma inusitada elegância num tipo de banda desenhada que foi concebida unicamente para consumo rápido, mas onde os artistas que nela trabalharam conseguiram dotar de um cariz próprio, indo um pouco além do estereótipo esperado.


David Rigamonti, Ivan Calcaterra (2016). Dylan Dog - I colori della paura n. 47: Demoni e silicio. Milão: Bonelli.

Como é que se cria um crossover entre o futurismo de Nathan Never e o momento presente de Dylan Dog? Esta curiosa aventura do investigador dos pesadelos mostra bem como. Estamos no futuro, onde o lendário agente principal da Agência Alfa está a lutar contra um temível e aparentemente insolúvel ataque informático. A resposta encontra-se nas ruínas de uma casa londrina, nas páginas de um diário onde estão as crónicas das aventuras de uma lenda do passado. A partir desse diário, os cientistas da agência Alfa recriam Dylan Dog como uma entidade virtual consciente, que se juntará a Never para combater um demónio no ciberespaço.

Confesso que Nathan Never é personagem que não me despertou as simpatias, apesar de estar no campo da ficção científica, é o tipo de herói infalível de queixo bem modelado em aventuras com final feliz. Dylan Dog, com as suas incertezas e inseguranças, está-lhe no espectro oposto.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Echi dall'Incubo


Tiziano Sclavi, et al (2025). Dylan Dog: Echi dall'Incubo. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Porque é que Dylan Dog se tornou uma das minhas paixões culturais? Não preciso de ir mais longe do que esta pequena pérola literária que é  La Piccola Biblioteca di Babele para demonstrar o porquê. Começa como uma subtil vénia borgesiana, que ganha outros contornos numa fantasia onde as bibliotecas infinitas contêm as minúcias das vidas de todos. Avança para o surreal graças a um musaranho de dentes adiados e apetite pelos pergaminhos, e um monge copista que elimina todo um livro para ocultar os danos provocados pelo roedor. 

Resulta um conto belíssimo sobre memória  e esquecimento, com momentos de pura irrealidade. As pessoas que se desfazem enquanto o rato rói os pergaminhos do incunábulo são um pormenor genial. Termina com um dos mais brutais pontos finais. Numa vinheta Dylan e o seu amor do momento escapam-se de uma terra que se apaga, na outra está a conduzir sozinho, a achar que está a bater mal por filosofar em voz alta sobre amores. Desaparecidas ficam as memórias das vidas, graças ao estratagema do monge.

Dylan e os amores é uma constante, o ser um eterno pinga-amor é uma das tropes da série, tal como o carocha branco, o assistente exímio em piadas secas, o tocar  mal clarinete, o nunca terminar o modelo de veleiro, e a campaínha avariada no número 7 de Craven Road, que soa a gritos e não ao toque habitual. O seu quinto sentido e meio é exímio em levá-lo a aventuras onde se cruza com o sobrenatural, embora, num dos toques de profunda ironia do personagem, não acredite por aí além em assombrações e monstros, embora lide regularmente com eles.

Devemos ao génio de Tiziano Sclavi esta personagem peripatética e as suas aventuras, bizarras, surreais, oníricas e tocantes. Sclavi deu corpo ao personagem, e revelou-se sempre o seu melhor argumentista (que me perdoem os fãs de Roberto Recchioni e Paola Barbato, que também se safam muito bem com o personagem). Algo que sempre me surpreende nas histórias por ele assinadas é a mestria como consegue gerir o ritmo das vinhetas, concluindo pequenas narrativas dentro da narrativa maior, ou tocando a tecla certa do suspense, no ponto exato onde se vira a página e se pode mudar de fio narrativo ou querer continuar a história. 

Echi dall'Incubo foi a minha prenda de natal para mim próprio. Colige vinte e quatro histórias curtas, escritas por Sclavi e ilustradas pelos suspeitos do costume - Bruno Brindisi, Corrado Roi, Angelo Stano ou Franco Saudelli, entre outros ilustradores da Casa Bonelli. É um mergulho no Dylan Dog clássico, revisitando pérolas da sua história editorial.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Dylan Dog. Il castello della paura


Tiziano Sclavi, Giuseppe Montanari (1997). Dylan Dog. Il castello della paura. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Confesso, já tinha saudades de ler um bom Dylan Dog clássico. Por cá raramente se encontram, apesar da tentativa da Seita em trazer aos nossos leitores este personagem icónico. Este, dei por ele completamente por acaso nas caves da livraria Castro e Silva. É uma edição antiga, com uma aventura tipicamente sclaviana, a comprazer-se num misto de terror gótico com castelos assombrados, mistérios e tensões entre familiares de uma herança milionária, com uma criadagem sui generis à mistura. Algo que aprecio na forma como Tiziano Sclavi desenvolve os seus cenários é a complexidade que consegue colocar no meio do rigor formal do formato fumetti. Há sempre diferentes histórias dentro da grande narrativa, algumas que se resolvem ou intuem entre paineis. 

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Bestas Humanas


Claudio Nizzi, Vincenzo Monti (2018). Tex Coleção Nº 483: Bestas humanas. Mythos.

De vez em quando sabe bem regressar a Tex, este anacronismo editorial. Apenas a casa Bonelli parece manter viva a tradição do western como forma de ficção popular, mantendo as aventuras de Tex e alguns personagens conexos para os fãs italianos (e não só, por cá a personagem tem uma intrigante comunidade de admiradores).

Fiel ao seu espírito, esta é uma aventura no velho oeste que partindo de um aparente corriqueiro assalto a um comboio, depressa nos mergulha numa conspiraçáo criminosa onde os donos britânicos de um banco aproveitam a cupidez de um dos seus gestores para urdir uma teia complexa (leiam esta complexidade nos limites do fumetti). Este convence fazendeiros desesperados a roubar valores do banco, mas também é apanhado pela perfídia dos seus patrões. Este par de herdeiros da fortuna bancária, exímios atiradores, combate o tédio viajando pelo mundo em busca de caça grossa, e vieram ao velho Oeste em busca da presa mais complexa de matar - querem caçar homens. Infelizmente, Tex Willer cruza-se no seu caminho.

Uma narrativa de entretenimento competente, ilustrada no estilo clássico do personagem.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Comics: The Voices of Water; Ablaze Artist Spotlight Collected Set – Werther Dell‘Edera


Werther Dell'Edera, The Voices of Water.

Quando um homem começa a ouvir vozes quando está próximo de água, isso poderá significar algo de irreal ou sobrenatural, ou indícios de doença grave. Não serão as causas físicas que interessam, mas sim os efeitos mentais de se ouvir estranhas vozes. Sclavi sempre foi exímio a apontar a surrealidade da normalidade, a contar histórias onde o estranho acontece nos interstícios da banalidade. 

Francesco Artibani, Tizlano Sclavi, Werther Dell'Edera, Ablaze Artist Spotlight Collected Set – Werther Dell‘Edera 

O grafismo expressivo do ilustrador italiano está em destaque nesta edição, que colige dois dos seus trabalhos. Em He Who Fights With Monsters, somos levados à Praga da II guerra, numa história que revê o mito do Golem. Em The Voices of Water, o desafio gráfico é maior, num registo expressivo de linha sem cor. 

terça-feira, 5 de março de 2024

Dylan Dog: Picada Mortal


Alberto Ostini, Francesco Ripoli (2024). Dylan Dog: Picada Mortal. Lisboa: A Seita.

É sempre bom regresar a Dylan Dog, algo que por cá só se consegue após idas fugazes a Itália, ou nas edições com que A Seita nos brinda.  Esta proposta, que publica em portuguès uma aventura do detetive dos pesadelos saído da coleção Old Boy, é uma aposta segura. Os Dylan Dog Old Boy focam-se no espírito clássico do personagem, replicando um estilo mais antigo, e afastado dos caminhos da série principal (que têm causado palpitaçóes cardíacas profundas em muitos fãs, mas isso creio que se pode atribuir mais à incapacidade intelectual destes, que não compreendem que um personagem pop evolui e não se mantém igual ao que era nos anos 80, do que a reais desmandos feitos sobre o unverso ficcional dylaniati).

As melhores histórias de Dylan Dog são aquelas que mantém até ao fim a ambiguade entre o natural e o sobrenatural, em que os acontecimentos apontam para a influência de forças estranhas, mas que acabam por se revelar como nada sobrenaturais, mas nem por isso menos violentas. Ostini mantém essa ambiguidade nesta aventura em que Dylan regressa a um amor de adolescência, e a uma cidade aparentemente assolada por um assassino em série, que o desenrolar da narrativa irá mostrar que está mais ligado a alucinações induzidas do que na figura real de um psicopata. Grande spoiler? Bem, se são daqueles que lêem para saber como acaba a história, confundem o destino com a viagem.

Uma boa proposta da Seita, que aquece o coração dos fãs deste personagem de fumetti, infelizmente menos conhecido do que deveria ser.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Dylan Dog: Inferni


Tiziano Sclavi, Gustavo Trigo, Carlo Ambrosini (2022). Dylan Dog: Inferni. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Os infernos de Sclavi são sempre inesperados. Em La Belezza Del Demonio, o inferno é a Terra, à qual uma bela demónia é condenada a viver durante duzentos anos, após uma invocação demasiado bem sucedida. Um piscar de olhos no inferno, uma eternidade na Terra, e uma história onde a alma esquecida de um homem executado serve de fio condutor à libertação da criatura dos infernos aprisionada numa vida humana. 

Já em Inferni, o inferno é uma imensa repartição burocrática onde trabalham almas penadas e criaturas que invocam Bosch, com adereços modernos no lugar da cabeça. Ou o inferno poderá ser outros infernos, alguns que se assemelham às visões de pesadelo da mitologia cristã, outros sendo quase paraísos - porque o inferno é o outro lado, o que nos espera para lá da morte, como nos mostram os mitos da antiguidade, e tanto pode ser um lugar de ranger de dentes como uma calma vila suburbana onde velhos  casais ainda apaixonados vivem uma velhice eterna. Em Inferni, Sclavi mergulha no surreal, numa história onde a previsibilidade da repartição, onde todos os dossiers contém toda a informação sobre o que aconteceu e vai acontecer, é quebrada por um erro informático no dossier de Dylan Dog, que se vê envolvido nas tentativas de uma antiga amiga em contactar o espírito do marido. 

Infernos que quebram as iconografias da mitologia cristã que define a ideia que deles temos. Sclavi aposta no surreal, no tocante, no espaço além da realidade. E, também, na aleatoriedade, em descidas a infernos inesperados. Esta recente edição em capa dura faz regressar duas histórias clássicas de Dylan Dog, em grande formato e coloridas.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Tutti i misteri di Dylan Dog


Tiziano Sclavi (1995). Tutti i misteri di Dylan Dog. Milão: Mondadori.

Sob a égide de Tiziano Sclavi, Dylan Dog atingia níveis brilhantes, com histórias inovadoras, experimentais, inspiradas, que cruzavam diversas influências. Este volume recolhe algumas destas histórias, tendo o conceito de mistério como tema.

La Zona del Crepuscolo: Talvez uma das mais poéticas histórias de zombies jamais escritas. A pacata e isolada vila escocesa de Inverary tem um segredo: a sua população está toda morta. Mas não se apercebe disso, graças aos esforços do médico local. Este encontrou alguns dos segredos de Xabaras, o eterno inimigo de Dylan Dog que procurava um soro de imortalidade. O médico de Inverary consegue um método que preserva os corpos semi-vivos, e utiliza o hipnotismo para manter a consciência no corpo, e os mortos-vivos esquecidos da sua condição. Algo que os pesadelos de uma jovem, através dos quais suspeita da sua real condição, ameaçam derrocar quando esta apela a Dylan. Um conto de horror terno e gótico, com homenagens a Edgar Allan Poe e ao cinema de zombies.

Accade Domani: Uma daquelas histórias que nos mostra como Sclavi conseguia ser genial nos seus argumentos. Esta aventura constrói-se a partir de um cruzamento de outras histórias que não parecem ter nada a ver entre si. Inicia com um homen que alucina a sua própria morte, que acaba por decorrer tal e qual como a sonhou. Um jornalista envelhecido encontra-se com um espírito do passado. Outro jornalista, provavelmente já espírito, amigo de Dylan, dá ao detetive dos pesadelos o exemplar de um jornal que contém as notícias do dia seguinte, entre as quais a nota do falecimento de Dylan Dog. Numa base aérea, um piloto alcoolizado prepara-se para uma missão, mas acabará por se ejetar da aeronave ao cruzar-se com o que julga ser um ovni. Numa prisão, um homem inocente que foi confundido com um violador assassino suicida-se, perante o desespero de provar uma inocência que será comprovada meses após a sua morte. E Dylan, com a sua nova paixão, decide-se por uma pequena viagem ao campo com a rapariga que corteja, em parte para fugir ao destino previsto no jornal, mas a rapariga acaba por ser raptada por um violento violador assassino, ao qual Dylan dará caça. Todas estas narrativas díspares e aparentemente desligadas entre si irão cruzar-se num final explosivo (digamos que o assassino morre, quando afugentado por Dylan ao salvar a sua jovem namorada, rouba o célebre maggiolino que acaba destruído quando o caça de combate cujo piloto se ejetou acaba por se despenhar). Uma historia brilhante, que nos mostra sucessões de acasos interligados.

Ombre: Entre o giallo e o sobrenatural. Dylan recebe misteriosas cartas anunciando a morte de crianças numa aldeia inglesa. Estas acabarão por se revelar ligadas a um psíquico e ao seu filho, uma criança que manipula sombras. Uma história que brinca com a alegoria da caverna de Platão, bem como com as iconografias da disney aplicadas ao terror.

Terrore dall'infinito: Outra estranha história, daquelas que joga bem com a ambiguidade. Um homem desesperado contacta Dylan Dog, julga-se perseguido por alienígenas. Apesar de não ser o habitual nas suas investigações, Dylan avança com o caso, e alista a ajuda de um psicólogo hipnotista, que conseguirá compreender os profundos e recalcados traumas de infância que norteiam a vida do homem. E, no entanto, alienígenas benévolos fazem a sua aparição, ajudando o homem a recordar terríveis memórias reprimidas e, com isso, curar o seu desespero.

L'uomo que visse due volte: Uma aventura frenética, entre o mistério e o gore violento. Um homem sem memória aparece à porta de Dylan, que o ajuda a descobrir as suas recordações. Entretanto, de um cemitério levanta-se um cadáver sedento de vingança, que deixará à sua volta um rasto de mortes violentas. O intrigante, é que ambos parecem ser o mesmo homem, embora o pacato desmemoriado pareça pouco em comum com o cadáver vingativo de um criminoso violento. E, no entanto, poderão ser a mesma pessoa. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Dylan Dog: Io ti proteggerò; Cavalcando il fulmine; L'alba dei morti viventi.


Giulio Antonio Gualtieri, Luca Raimondo (2022). Dylan Dog n. 432: Io ti proteggerò. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Uma aventura do Old Boy em modo puro giallo. Quando uma médica bem intencionada vai fazer um domicílio a casa de uma paciente presa a uma cadeira de rodas, depara-se com uma família fortemente disfuncional. Dominada pela mãe, viúva alucinada de um assassino, com uma filha entrevada e um filho incapaz de perceber a patologia da mãe, esta família procura o mais profundo isolamento na sua casa, encarando o mundo exterior como uma ameaça.

A chegada da médica a uma casa suja vai precipitar as patologias da família. Profundamente perturbados, acabam por raptá-la para garantir acompanhamento médico para a jovem doente. Mas esta médica é o mais recente amor de Dylan Dog, que tudo fará para a libertar. Uma história de raptos violentos e patologias mentais, com um final infeliz.


Diego Cajelli, Corrado Roi (2022). Dylan Dog n. 433: Cavalcando il fulmine. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Uma história interessante e bem construída, entre o horror e o giallo, soberbamente ilustrada por Corrado Roi (menos não se esperaria deste ilustrador). Quando uma modelo contacta o investigador por suspeitar que vive numa casa assombrada, começa a desvendar-se uma história que se iniciou muito antes, com a execução de um prisioneiro inocente numa cadeira elétrica. Após morrer, este homem, índio, descobre-se na Londres de hoje. Tem uma missão, travar o mau espírito que habita a cadeira elétrica, devoradora de homens que agora está em exposição num museu dedicado ao crime violento. Museu esse cujo dono cai sob a influência do espírito que habita a cadeira, matando em seu nome e deixando-se eletrocutar, o que permite ao espírito adquirir um corpo, mas acabando por ser derrotado por Dylan. A história diverte, apesar da sucessão de lugares comuns. Não sendo um excelente episódio das aventuras de Dylan Dog, vale pela ilustração, o traço expressivo e soturno de Roi dá à história uma ambiência mais tenebrosa do que intuída pelas palavras.


Tiziano Sclavi, Angelo Stano (1996). Dylan Dog n. 1: L'alba dei morti viventi. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Regressar ao início, ao ponto inicial da longa história de Dylan Dog. L'alba dei morti viventi foi a primeira aventura do investigador dos pesadelos, vinda do longínquo 1986, e uma que marca à partida o que se viria a tornar  tom da série. Jogos erudidos com a estética do horror, um personagem principal pouco convencional mas dado aos casos amorosos, o idiossincrático sidekick que é Groucho, aparentemente inútil mas na verdade muito útil. É também o primeiro cruzamento de Dylan com Xabaras, o mais complexo e recorrente dos seus adversários. A história em si é um clássico filme de zombies transposto para a banda desenhada, com recortes de cientista louco. Ler esta primeira aventura é descobrir um Dylan Dog ainda muito verde, incipiente, mas já bem traçado, as suas marcas evolutivas já se encontravam logo nas primeiras páginas deste livro incontornável para os fãs do personagem.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Bonelli Story

Daqueles bons acasos de viagem. Ao passar no Hospital dos Inocentes em Florença, descobri uma exposição dedicada à história da Bonelli. Visita irresistível, claro.


Algumas das principais personagens Bonelli de hoje.






Merchandising, e algo que desconhecia, o formato das primeiras edições de fumetti como Tex ou Zagor.







Os fumetti de aventura.




Giallo e mistério.








A secção dedicada ao meu favorito, Dylan Dog.




A ficção cientifica, com Nathan Never, mas também outros títulos de vida mais curta. Greystorm e Lilith foram excelente leituras.


Antevisões: novas pranchas para histórias futuras de Dylan Dog.

E, claro, o favorito dos portugueses, Tex (que, confesso, não faz o meu gosto).

A exposição antológica era belíssima, podíamos contemplar pranchas dos personagens marcantes da Bonelli, quer do presente, quer do passado, e alguns artefactos alusivos. Uma história da editora, contada pela evolução das suas edições, pelos seus personagens, e pelos criadores que para ela trabalharam.

Pois, aquela cara de happy geek, apesar de estoirado pelos longos calcorreares de Florença e dos seus espaços. O Hospital dos Inocentes até estava fora da minha lista de visitas, mas, como resistir ao fumetti?

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Dylan Dog: Golconda e altre follie


Tiziano Sclavi, et al (2022). Dylan Dog: Golconda e altre follie. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Um regresso ao melhor do imaginário de Tiziano Sclavi. Este volume reúne algumas das suas mais surreais histórias, aquelas onde o autor e criador de Dylan Dog deixou a imaginação mais à solta. Abre com Golconda, uma das mais sublimes e bizarras aventuras do old boy. Uma história que é uma homenagem ao surrealismo, à banda desenhada, mas também ao humor. Começa com um telefonema enganado, que despoleta uma estranha invasão demoníaca em Londres, e um amor que levará Dylan de carro à Índia. E se vos parecer estranho que um carocha em eterno estado de avarias vá da Inglaterra à Índia, isso indica-vos os volteios que a lógica leva nesta história. Afinal, é a aventura onde a cidade é invadida por homens de chapéu de coco caídos do céu (referência a Magritte, e a funcionar bem) ou um olho gigante anda de bicicleta nas estradas.

Ai confini del tempo é outra das grandes histórias clássicas do personagem. Um arranha-céus ultramoderno está infestado por estranhas aparições, que na verdade são as barreiras do tempo a desintegrar-se e a fazer coexistir no mesmo espaço londrinos milionários e dinossauros de dentes afiados. Para ajudar Dylan, Sclavi invoca um personagem que homenageia Wells, veste-se como um druida, e cruza computadores com magia celta. Il diavolo nella bottiglia é uma variação da clássica história da concessão de três desejos e suas consequências, mas vinda de Sclavi, as variações são distorcidas e divertidas, nesta história onde um demónio em excesso de zelo provoca uma ida de Dylan aos infernos. Que não são altos-fornos de almas, mas sim um lugar de imensa burocracia liderado por um manga de alpaca. Verso un mundo lontano é uma forte vénia a Slaughterhouse 5 de Vonnegut, mas também um aceno para a violência doméstica.

Se Dylan é um personagem comercial, com imensas histórias em edições mensais, o seu melhor saiu das mãos do seu criador. Através da erudição e inventividade de Sclavi, muitas das suas histórias transcendem os limites do comercial, são pérolas da banda desenhada de terror. Ler Golconda com todos os seus detournements, é perceber porque é que vale a pena descobrir Dylan Dog, mesmo que nas suas versões mais recentes não tenha tido argumentistas capazes de chegar a estes níveis.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Scacco a Diabolik


Angela e Luciana Giussani (2021). Scacco a Diabolik. Mondadori.

Quatro histórias onde o jogo de Xadrez desempenha um papel. Em parte, pelo eterno jogo travado entre o anti-herói deste fumetti de giallo e o inspetor que nunca desiste de o perseguir. E, também, o xadrez enquanto mcguffin das aventuras criminais de Diabolik. Confesso que apesar de achar sedutor o lado retro de Diabolik, não consigo tornar-me fã. O anti-herói criminoso, implacável mas justo, acompanhado nas perigosas aventuras pela sua eterna Eva, é interessante, mas as suas histórias parecem congeladas no tempo, estagnadas. Este livro mostra isso, republica aventuras dos anos 60, 90 e já no século XXI, e nada muda, a estrutura, o estilo visual, o tipo de argumento. 

terça-feira, 31 de maio de 2022

In fondo al tuo cuore


Maurizio de Giovanni, Paolo Terracciano, Alessandro Nespolino, Giovanni Preziosi, Daniele Bigliardo (2022). Le stagioni del commissario Ricciardi vol. 7: In fondo al tuo cuore. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Um regresso ao mundo do comissário Ricciardi, esse curioso cruzamento de policial procedimental com nostalgia dos anos 30. Nesta história, os males de amor, as escolhas que se fazem entre paixão e ambição são o grande tema, quer da narrativa principal, quer das paralelas. A investigação é despoletada pela morte de um médico da universidade, defenestrado. Na dissecação da vida da vítima que se segue, alinham-se os suspeitos, desde o namorado da jovem prostituta que mantinha como amante, a um antigo rival que quer proteger o filho, até um jovem pai que gritou por vingança por o parto ter resultado na morte da mulher. Nenhum destes será o assassino. Típico nesta série, as pistas são nos dadas logo no início, mas só farão sentido no final da história. Em paralelo, seguimos as desventuras amorosas do trágico Ricciardi (entende o seu dom de ver aparições dos mortos com violência como uma maldição, com que não quer sobrecarregar nenhuma mulher), ou do seu fiel agente Raffaele, algo desconfiado das andanças da esposa. Uma das personagens secundárias da série irá falecer, terminando esta história num tom triste.

Em parte, a arte do fumetti é a do enchimento, há que encher as páginas, e as histórias arrastam-se. É um padrão no género. Aqui, há que assinalar o excelente uso do policial enquanto estrutura narrativa. Sabemos o que esperar da história, percebemos a sua estrutura, e deixamo-nos levar enquanto todas as peças se encaixam metodicamente. A ilustração sublinha o lado de nostalgia de época da série, com uns aguarelados sépia a colorir o formalismo clássico do traço.