sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Fumetti: Barbara, La Palude Della Cittá Fantasma; Gordon Link, Un Baule Pieno di Gin.


Ricardo Barreiro, Juan Zanotto (1988). Barbara: La Palude Della Cittá Fantasma. Roma: Eura Editoriale S.P.A..

Mas não faltarão aqui umas letras? Assim uns lla? Diga-se que heroínas de banda desenhada europeia futurista dos anos 70 e 80 vão todas beber à semente de Barbarella. Sabemos o que esperar. Raparigas corajosas parcamente vestidas com um pendor para a nudez súbita a percorrer insólitos mundos futuros, alternado entre cair nos braços de belos homens de torso ao léu ou a fugir das intenções libidinosas de bandos de degenerados. Esta criação dos argentinos Barreiro e Zanotto distingue-se pelo sabor distintamente sul-americano. A variante no esquema narrativo implica uma terra futura pós-apocalíptica, com as cidades em ruínas e a humanidade decaída em tribos proto-históricas que guardam algumas memórias e tecnologias de um passado que foi o nosso presente. Como elemento adicional encontramos uma raça aguerrida de alienígenas humanóides militaristas que mantém postos de observação no plaenta, onde se dedicam a treinos militares e a escravizar os indígenas para sublimar sonhos colonialistas.

É nesta paisagem que a virginal Barbara, fugida da sua tribo por ter morto um sacerdote que se compraz no manter o droit de seigneur nos casamentos, vai viver aventuras que a levam a cruzar-se com um escravo fugido, uma base alienígena, uma tribo libertária, um grupo de soldados em treino de sobrevivência e estranhos frutos contendo substâncias psicadélicas que a colocam em contacto com uma espécie de consciência cibernética consumista. Está dentro dos padrões habituais deste género de personagens. O melhor disto é ver a iconografia pós-apocalíptica ao estilo Drowned World de Ballard com que Zanotto reinventa a cidade de Buenos Aires, transformada num pântano coberto de selvas neste distante futuro.


Gianfranco Manfredi, Raffaele Della Monica (1991). Gordon Link: Un Baule Pieno di Gin. Milão: Editoriale Dardo.

Fiapos do adn de Dylan Dog e Ghostbusters cruzam-se nas aventuras deste Gordon Link. E, dizem os entendidos, de Martin Mystère, mas não conheço suficientemente bem este personagem para verificar a veracidade da informação. Link é mais um herói do sobrenatural, caçador de fantasmas e outros mistérios do oculto, que conta com ajuda de um muito previsível grupo de personagens estereotipados: uma espírita boazona, o cientista de sanidade questionável, o músculo de serviço, bruto até às orelhas, uma planta carnívora e uma criatura peluda minúscula que devora entidades sobrenaturais. E sim, se estiverem a ler isto, leram bem a última frase.

Para primeira aventura Link e os seus comparsas são contratados para investigar ocorrências misteriosas num hotel onde um mago indiano lá hospedado liberta génios maus para se apoderar do corpo de jovens beldades. Porque magos de ar ameaçador têm sempre de se apoderar dos corpos de jovens beldades. Faz parte, é o que se espera. Que eu saiba ainda ninguém escreveu algo onde uma jovem beldade que desperta ardores de desejo se apodere do corpo engelhado de uma velhota caquética.

O que temos é mais uma iteração banal do conceito de investigador de mistérios ocultos. Dylan Dog é o arquétipo supremo no fumetti, e as imitações normalmente não se aproximam da grandeza surreal dos textos escritos por Sclavi, que isto quando os argumentos recaem sobre outros a conversa muda. Leu-se, registou-se nas anotações pessoais de descoberta do género, e segue-se em frente.

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