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terça-feira, 9 de junho de 2026

Astra Lost in Space


Kenta Shinohara (2025). Astra Lost in Space, Vol. 1. Palmela: Devir.

Peguei neste livro por curiosidade, dado ser rara a edição por cá de mangá focado na ficção científica. Não esperava muito dele, é shonen e por isso não seria de almejar histórias complexas e intrigantes. Não há nada de errado com isso, claro, seria ridículo da minha parte desprezar este género pela sua simplicidade, quando é apenas uma questão de segmentação de leitores, e este não é o meu segmento. Apesar disso, arrisquei, mais que não seja para conhecer um pouco de FC leve que escapa ao ónus dos mechas.

O livro não desiludiu. A história é obviamente simples. Estamos num futuro onde a humanidade se espalha pelo espaço, graças a naves capazes de velocidades superlumínicas (mas não perguntem o "como", vai além do âmbito do género). Um grupo de adolescentes parte para outro planeta, onde deveria ficar durante uma semana num programa escolar de sobrevivência na natureza. Mas, na superfície do planeta, são engolidos por uma misteriosa esfera que os deposita na órbita de outro planeta, convenientemente próximos de uma nave abandonada. Sobrevivendo a este primeiro ordálio, os adolescentes descobrem-se a uma distância inusitada do seu planeta, demasiado longínqua para uma viagem de regresso. Terão de se unir, cooperar e encontrar soluções para sobreviver, aproveitando os recursos planetários que encontrarão pelo caminho.

A história é clássica, misturando FC pura com o típico enredo de grupo de adolescentes que tem de aprender a conhecer-se. O foco principal está nas relações e nas histórias de cada um dos personagens, mas o lado de exploração de planetas alienígenas e quase-Hard SF está bem montado. Sem ser uma excelente leitura, acaba por se tornar interessante e divertida.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

The Horrors of Noroi Michiru

Noroi Michiru (2025). The Horrors of Noroi Michiru. Star Fruit Books.

O barroquismo da capa da edição que adquiri no espaço, sempre de excelente gosto, do editor da Sendai no Festival Contacto, prometia mergulhos num horror delirante a fazer inveja a Ito ou Maruo. Não que a leitura me tenha desiludido, mas o conteúdo do livro estava mais dentro dos padrões da normalidade do terror literário, sem voos de barroco macabro. Destaca-se a erudição literária, com muitos dos contos claramente a referenciar e homenagear o terror literário e fílmico clássico. A leitura foi menos aterrorizante do que esperava, mas deliciosa.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Pretty Guardian Sailor Moon: Livro 1


Naoko Takeuchi (2025). Pretty Guardian Sailor Moon: Livro 1. Lisboa: Distrito Manga. 

Não é bem o tipo de leitura que se ajusta ao meu género, idade e gostos literários, mas confesso uma certa atração nostálgica em conhecer  o porquê do sucesso iconográfico desta série. Perante esta edição portuguesa do mangá, arrisquei a leitura, e dei por mim mergulhado num mundo puramente infanto-juvenil. A história é simplista, como não poderia deixar de ser, e mostra-nos o encontro da aparentemente fraca e apagada adolescente Usagi Tsukino com a gata falante Luna, que a irá dotar de poderes que a transformam na Sailor Moon e combater o mal, incorporado numa rainha perversa que busca capturar um cristal que lhe permitirá dominar a humanidade. A adolescente irá encontrar, graças ao esforço da gata, outras companheiras de luta, e deparar-se-á com um misterioso e sedutor jovem de smoking, presença ambígua (e óbvio simbolismo para o despertar da sexualidade adolescente) que não se sabe bem se será aliado ou inimigo. 

Fica a referência e o conhecimento da origem desta personagem, e diga-se que fiquei a perceber o fascínio pela iconografia da série - as cenas onde as adolescentes se transformam em sailors são um primor do barroquismo manga, e só lamento que estejam a preto e branco, numa versão a cores suspeito que seria algo muito mais esplendoroso. É uma leitura divertida e simplista, e compreende-se a aura da série por este primeiro volume.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Espírito da Aventura


Kenji Tsuruta (2025). Espírito da Aventura. Lisboa: Sendai.

Diria que se queremos ler manga realmente interessante em português, temos de prestar atenção ao catálogo da Sendai. Esta editora é muito consistente nas suas propostas, e traz sempre livros desafiantes para os leitores. Que me perdoe A Seita, que também tem trazido algumas leituras bem interessantes, e a Devir, que tempera o seu catálogo de mangá para adolescentes com obras de maior fôlego. Mas, para trabalhos independentes, fora da caixa, inesperados ou de estéticas inesperadas, é a Sendai que nos alimenta.

O trabalho de Tsuruta já é conhecido por cá, graças à edição da ficção científica poética e romântica dos vários volumes de Emanon, que ilustrou com argumentos de Shinji Kajio. Espírito da Aventura é um trabalho a solo, que reúne um conjunto de contos interligados entre si que foi desenhando ao longo de décadas. É ficção científica pura, mas féerica, pejada de personagens obcecadas com as suas investigações em tecnologias etéricas ou de teletransporte. Não são histórias a pensar na especulação verosímil. Podemos esperar velhotes que vão a Marte de dirigível, aventureiros obcecados em descobrir os tesouros dos avós nas cidades submersas, ou formas de projeção que permitem ir à Lua, sem na verdade ter de sair da Terra. Como podem perceber, não se trata de FC clássica, mas sim da sua apropriação poética. O traço sublinha isso, com um elegante barroquismo algo vitoriano na sua estética, sem que se tenha uma noção concreta de tempos passados ou futuros.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Então, Michael?!


Makoto Kobayashi (2025). Então, Michael?!: Desventuras de um gato. Lisboa: Sendai

Gatos não são muito a minha cena, sou mais pessoa de cães. Comprei o livro para a minha esposa, minha antagonista nestas discussões (e a gata dela não tem uma boa relação com a minha cadela). Claro, não resisti a espreitá-lo,  e fiquei rendido ao humor destravado deste livro. Nem sempre compreensível, há piadas e formas narrativas que julgo que apenas os japoneses iriam perceber, mas o retrato do gato, das suas tropelias e desventuras é ao mesmo tempo encantador, divertido, e quem tem de aturar esses bichos do demo no dia a dia, muito descritivo das suas atitudes e comportamentos.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Sensor


Junji Ito (2025). Sensor. Lisboa: Presença.

É sempre de regojizar pegar numa nova edição de Ito em português, mesmo que neste caso seja um livro claramente menor no seio da sua longa obra. Diga-se que um Ito mediano é vastamente superior à larga maioria do mangá que se lê por aí, claro. A história é de um surreal terror cósmico, cruzando misteriosas laldeias desaparecidas e um tempo fluído mas cíclico em que o presente depende de ir ao passado. É curioso que a personagem principal, a jovem rapariga cujos cabelos dourados vão despertar a estranha sequência de acontecimentos, assuma um papel secundário, mais canal do que protagonista, e será uma personagem secundária, um jornalista obcecado com a jovem, que nos leva ao longo das várias vinhetas desta história. O resto, são cultos tenebrosos, uma lenda do apssado que depende do futuro para existir, e um confronto com um discreto mas intenso horror cósmico.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Tomie Volume 2


Junji Ito (2024). Tomie Volume 2. Lisboa: Devir.

É um marco, para os leitores portugueses, a edição completa de Tomie traduzida para português pela Devir. A série do inigualável Junji Ito é um dos grandes clássicos do manga de horror, e sem dúvida bem conhecida pelos fãs quer da BD japonesa, quer do j-horror. Faltava esta tradução, garantindo uma maior acessibilidade de uma obra clássica e incontornável. 

Recordo Tomie como um dos meus primeiros recontros com o manga de terror, e deixou-me seduzido às primeiras páginas. Como resistir a esta sedutora adolescente, que incorpora a iconografia de discreta Lolita, e que é na verdade um espírito malévolo que se compraz em levar à loucura os homens e mulheres com que se cruza? Se o lado perturbador da óbvia atração sexualizante sobre adolescentes sentida por homens vos escapou, diria que é mesmo o cerne do horror de Tomie. Começa mesmo por aí, e mostra a capacidade perversa de Ito no brincar com iconografias, tabus e emoções.

Tomie é muito mais do que isto, e depressa decai para extremos de loucura, com grafismos intensos e viscerais. A cada nova história, somos surpreendidos com uma diferente obessão, com inesperadas escatologias e um terror implacável. Tomie existe para enlouquecer, jogar com sentimentos, obcecar, transformar pacatas pessoas em assassinos que a desmembram. Imperturbável, sedutora, implacável, Tomie está a agora mais acessível aos leitores portugueses.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Sunny


Taiyo Matsumoto (2023). Sunny. Devir.

Um manga tocante. Sunny, um velho Datsun abandonado num terreno baldio junto a um orfanato, é o veículo dos sonhos das crianças abrigadas na casa. Num veículo imóvel e decrépito, move-se o poder do imaginário. Mais do que isso, é a porta de entrada para o orfanato, para as vivências das crianças nele acolhidas. Um mundo da energia infantil, das suas alegrias e excitações, mas também dos seus dramas e tristezas. Por detrás de cada tropelia e de cada sorriso, há uma história de abandono. Na família improvisada da casa de acolhimento, encontram o carinho que as famílias biológicas não lhes dão, embora o regresso ao lar seja o sonho de todos. As histórias destes orfãos, abandonados por pais incapazes ou mães que recusam assumir esse papel, vão sendo contadas num registo que apela ao sentimento. O traço de Matsumoto, com um estilo detalhado e expressivo que vai além do formalismo da banda desenhada japonesa, torna mais encantadoras estas histórias de esperança e sentimento. 

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Coleção de contos: Best of Best


Junji Ito (2022). Coleção de contos: Best of Best. Palmela: Devir.

É um pouco discutível, o título desta antologia. Não que os contos não sejam bons, mas porque o trabalho de Junji Ito é consistentemente bom. Considerar estes os melhores dos melhores é deixar tantos outros para trás. Sendo prolífico na sua obra, este mangaka tem um enorme corpus de trabalho, espelhado em séries, livros e antologias. E muito raramente desilude.

Para neófitos no grafismo e estilo narrativo deste autor, este livro é um excelente ponto de partida, dá-nos um panorama do tipo de temáticas que aborda. Mostra adaptações literárias, no caso de contos fantásticos japoneses de autores clássicos, recontros com monstros quasi-absurdos, e viagens de um surreal apocalíptico onde os personagens são compelidos à sua destruição. É o cerne da obra de Ito, de um criador que sempre surpreende com a enorme bizarria do seu imaginário, que nos seduz com  um traço elegante e assumidamente convencional para depois tirar o tapete com as piores atrocidades ou as monstruosidades mais absurdas. 

Diria que o que torna Ito tão popular é esta dualidade, a sua suave linha clara e mestria de realismo gráfico são colocados ao serviço da representação dos mais bizarros pesadelos gráficos. Editada em português pela Devir, esta antologia marca a primeira vez que a obra de Junji Ito chega na nossa língua ao público. Os leotires portugueses só têm a ganhar com a descoberta do trabalho deste mestre do terror gráfico japonês.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

O Preço da Desonra


Hiroshi Hirata (2023). O Preço da Desonra. Lisboa: A Seita.

De excelência, esta que é a mais recente proposta de manga da A Seita. O traço e palavras de Hiroshi Hirata leva-nos ao âmago do Japão feudal, à época onde clãs de samurais lutavam entre si por fugazes supremacias, em constantes e sangrentos jogos de poder. Mas o livro não é sobre esse tipo de história. É mais focado e visceral. Acopanhamos um sisudo e implacável cobrador de dívidas, que tem a seu cargo uma tarefa singular: cobrar dívidas de sangue contraídas no campo de batalha, quando combatentes prestes a enfrentar a morte trocavam a vida pela promessa de dinheiro. Promessas essas que, ao não serem cumpridas, obrigavam à entrada em ação destes cobradores, homens ao mesmo tempo honestos, minuciosos, procurando sempre ser justos, mas também temíveis lutadores, capazes de enfrentar os lacaios daqueles cujas dívidas procuravam cobrar.

Este não é um livro simpático, mitificando passados gloriosos, heroicizando a figura do samurai. Muito pelo contrário, sublinha a violência e venalidade de homens que nada mais conheciam do que as constantes guerras, o desprezo pela vida humana, o baixo papel da mulher.  O dualismo moral daqueles que se afirmam honrados combatentes sempre dispostos a perder a vida, mas que no momento crucial, perdem a coragem. 

O traço acompanha o caráter pesado das histórias. As vinhetas explodem em dinamismo, quer contido, quer explícito, quando retrata violentas cenas de luta que não são complacentes e são de extrema violência. O Japão feudal era um lugar violento, e Hirata não esconde isso, nem branqueia esse passado por detrás de vernizes de coragem militarista. Uma obra dura, violenta, e imperdível.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Tomie 1 no Motelx

 



Apanbado no Motelx, onde a Devir me desafiou para participar do lançamento de Tomie 1, o primeiro volume do lendário, fascinante, perturbador e fabuloso manga de terror do mestre Junji Ito. A sessão decorreu no lounge do festival, como conversa entre mim e a editora. Foi uma oportunidade para partilhar o gosto pelo trabalho deste grande mestre da banda desenhada.
@archizer0 Uma graciosa surpresa da Devir. Para já, só à venda no Motelx. Para a semana chega às livrarias. #booktok #booktokpt ♬ Berlioz Symphony Fantastique, Op 14, 5 - The St Petra Russian Symphony Orchestra

Quanto ao livro, foi-me oferecido pela Devir, e posso dizer-vos que é uma excelente edição, num tamanho que faz justiça à qualidade do traço de Ito. Só conhecia este trabalho através das edições da Dark Horse (livros venerados na minha biblioteca), e foi bom reler em português, com pranchas grandes. O livro chegou às livrarias esta semana, e espero que seja bem sucedido, para que a Devir continue a aposta também neste género de mangá, mais adulto e erudito.

Infelizmente, este ano foi o único momento em que tive oportunidade de ir ao Motelx. O encerramento do 3Digital em Aveiro quebrou-me a tradição de mergulhar no cinema de terror antes de iniciar as atividades letivas.

terça-feira, 18 de julho de 2023

Chainsaw Man, Vol. 1


Tatsuki Fujimoto (2023). Chainsaw Man, Vol. 1.  Lisboa: Devir.

Daquelas histórias bizarras de que só os japoneses são capazes. Um jovem abandondo aos infortúnios da vida caça demónios junto com o seu cão-motosserra, um demónio simpático pelo qual se afeiçoou. Vive para pagar uma dívida do pai à Yakuza, mas tudo corre mal quando estes mafiosos o decidem vender a um demónio criador de zombies. Será salvo pelo seu fiel cão-motosserra (ah, esta expressão!), que lhe reconstrói o corpo mutilado com os seus poderes, e se incorpora dentro do rapaz. E, com isto, este humano sofrido ganha poderes especiais, tornando-se capaz de tranformar partes do corpo em motosserras para exterminar ameaças com extremo prejuízo. 

Arregimentado por uma unidade especial de polícia japonesa, o rapaz ganha finalmente uma missão na vida, assegurar-se que tem boa comida, um luxo para quem viveu sempre em extrema pobreza. A sua integração na força policial é amarga, está apaixonado pela sua inatingível chefe, mas acaba por ser manipulado pela sua colega de trabalho, ela também um demónio, que promete cumprir um dos sonhos do rapaz se este salvar o seu gato das garras de um poderoso demónio. Bem, dado que o sonho é uma muito compreensível vontade de acariciar seios femininos, o rapaz lá se mete nas garras demoníacas, que acaba por exterminar graças às motosserras que expele dentro do seu corpo.

De facto, é uma história que não faz qualquer sentido, bizarra e absurda. Mas, para já nestas primeiras histórias, nota-se que não se leva muito a sério, é mesmo aquilo que parece, uma japonesice bizarra e divertida que entretém pelo seu sangrento grand-guignol surreal.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Manga: Blue Period; Monkey Peak


Tsubasa Yamaguchi, Blue Period

Um jovem adolescente, bom estudante e esforçado, mas que sente não se enquadrar bem com os amigos, entra num clube de arte na escola. O seu objetivo é ter créditos extra sem grande esforço, mas no clube, acaba por descobrir uma paixão pela criação artística. As histórias deste manga centram-se nesse tema, de um jovem que tem de equilibrar as expetativas sociais e familiares, enquanto vai aprendendo o lado técnico da criação artística, dentro do hipercompetitivo ambiente liceal japonês, com a sua tónica no esforço para entrar na universidade. 



Koji Shinasaka, Akihiro Kumeta, Monkey Peak

Quando o patrão de uma farmacêutica com problemas decide fazer um exercício corporativo de espírito de equipa, todos os seus funcionários têm de alinhar. O dito exercício é uma caminhada nas montanhas. Mas o que era suposto ser um passeio fácil depressa se transforma num pesadelo. A montanha é amaldiçoada, habitada por uma violenta criatura simiesca que se compraz em esquartejar os visitantes à sua montanha. Acossados pelo monstro, desorientados, sem água e víveres, o grupo cada vez menor de sobreviventes atravessa os trilhos, desesperado, e a cair numa profunda paranoia que os vira uns contra os outros. Só o personagem menos bem amado, o funcionário taciturno que tem alguns traumas e poucos colegas sabem que é boa pessoa, terá a coragem para enfrentar o deus assassino simiesco da montanha. Um manga eficaz e direto, mas extremamente repetitivo na forma como anda à volta da sua premissa de base, sem evolução narrativa.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Manga: Nejishiki; Area 51

 

Yoshiharu Tsuge, Nejishiki.

Um livro quirky, algo incómodo. Composto por histórias curtas surreais, difíceis de explicar, onde a lógica se distorce nas obsessões do autor. Há uma certa (daí o incómodo) propensão para a violência sexual, e uma visão do feminino meramente submissivo. Visualmente é interessante, tanto oscila entre intenso realismo como em visuais esfumados mais oníricos. 

Masato Isa, Area 51.

Imaginem uma zona proibida, patrulhada por uma task force americana. Uma zona secreta, para onde os governos do mundo enviam os seres sobrenaturais que habitavam os seus territórios. Area 51 é esse submundo paralelo, habitado por deuses, monstros, assombrações e todas as espécies de criaturas míticas, que vivem em segredo à parte de uma humanidade que já não incomodam.

McCoy é uma detetive humana que sobrevive nessa cidade. Encerra em si um segredo, e um desejo de vingança. O seu corpo alberga uma lâmina mágica, cobiçada por muitas das criaturas que disputam jogos de poder na Area 51. O mais fiel companheiro da detetive é a sua pistola, um artefacto com vida própria. Mas McCoy também contará nas suas aventuras com ajuda de um médico centauro, de um príncipe encantado que perdeu a Branca de Neve, e de Zeus, que se retirou das disputas divinas (imaginem todos os panteões míticos encerrados numa cidade) e vive uma vida pacata como dono de um restaurante.

Masato Hisa mistura aqui com muito humor o policial e o sobrenatural, com aventuras que exploram tudo o que pode correr mal quando se encerram criaturas míticas numa cidade secreta

quinta-feira, 14 de julho de 2022

A Raposa e o Pequeno Tanuki #03


Mi Tagawa (2022). A Raposa e o Pequeno Tanuki #03. Midori.

A bucólica saga da raposa castigada com o proteger o jovem guaxinim continua. Desta vez, o par vê-se envolvido num tortuoso enredo sobre o desaparecimento de jovens gatos. Uma aventura que mostra as rivalidades entre os diversos grupos de animais míticos, e as poucas almas sinceras que conseguem ultrapassar estereótipos milenares. Que é, precisamente, o que a Deusa da Montanha pretende, levando os personagens a perceber, pelas suas experiências e desventuras, que os seus papeis tradicionais evoluem. E nisso, não há melhor exemplo do que o da malévola raposa, que embora não o admita, está completamente rendida à inocência do pequeno tanuki que tem de proteger.

Se a história é um divertido mergulho no encanto dos mitos com animais japoneses, o que realmente  nos encanta é a forma extraordinária com que  Mi Tagawa a ilustra. A sua elegância delicada na forma como desenha os animais é admirável, deixa-nos a sorrir com a capacidade que tem de dar expressões às criaturas. Este terceiro volume mantém-se tão encantador quanto os anteriores.

terça-feira, 28 de junho de 2022

H-alt: Ilha dos Gatos


Ilha dos Gatos é uma daquelas obras que se delicia em ser ambígua. Em leitura linear, percebe-se com um conto de terror, com monstros, pessoas obcecadas, atrocidades hediondas e aquele sentimento fatalista e fuga à coerência do horror japonês. Mas, enquanto acompanhamos a linearidade deste horror, não podemos deixar de nos questionar se estamos a ler uma velada metáfora, onde o ponto de vista sobrenatural oculta uma história de crime pulp, com contornos psicológicos. Recensão completa em H-alt: Ilha dos Gatos.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

H-alt: Na Prisão


Desenhado com um estilo gráfico muito pessoal, Na Prisão lê-se como um exorcizar acrítico de memórias e experiências. Registo gráfico autobiográfico, procura serenidade e não a crítica profunda. Mostra-nos que, para muitos, e talvez também para o autor, a opressão do cárcere é uma libertação do fardo do ser. Resenha completa em H-alt: Na Prisão.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Manga: Dai Dark; Zom 100: Bucket List of the Dead


Q. Hayashida, Dai Dark.

Uma bizarra, mas menos interessante do que esperava, mistura de ficção científica com horror. Sanko é um adolescente que viaja pelo espaço na companhia de Avakian, uma entidade que se manifesta através de ossos. Há um constante saltitar entre dois mundos, o aparente real, povoado por personagens de moralidade muito duvidosa, e um de trevas, onde os devoradores de ossos se congregam. Criaturas essas que apesar do aspeto tenebroso e propensão para o horror, são no universo de Dai Dark forças curiosamente bondosas.


Haro Aso, Kōtarō Takata, Zom 100: Bucket List of the Dead.

Perante um apocalipse zombie, o que fazer? Bem, no caso de um jovem salaryman explorado até ao tutano por uma empresa sem escrúpulos, a resposta é libertadora. Com as ruas japonesas cheias de mortos-vivos e o mundo a colapsar, o jovem decide não só sobreviver, como aproveitar para fazer tudo aquilo que sempre quis fazer, mas o trabalho não deixou. Horror comedido e comédia deliciosa, numa série ilustrada com um estilo explosivo.

segunda-feira, 14 de março de 2022

H-alt: A Raposa e o Pequeno Tanuki, Vol. 2


A editora Midori volta a mimar-nos com o segundo volume das deliciosas aventuras da Raposa e o Pequeno Tanuki, soberbamente escritas e ilustradas por Mi Tagawa. É uma obra apaixonante pela sua inocência, que nos seduz na sua aparente simplicidade narrativa e estilo visual. O livro promete fofura em todas as páginas (estou a citar a contra-capa do livro), e não desilude. É logo esse o pormenor que nos faz render, o traço elegante de Tagawa, a forma como dá vida aos seus personagens, a elegância e expressividade que coloca no desenho dos seus animais. Resenha completa em H-alt: A Raposa e o Pequeno Tanuki.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Manga: Lady Snowblood


Kazuo Koike, Kazuo Kamimura: Lady Snowblood: The Deep Seated Grudge.

Letal, e sensual. Mas essencialmente letal. Lady Snowblood é uma assassina a contrato, no Japão do final do século XIX. É exímia em usar a sua aparente fragilidade feminina, ou a sua sensualidade, para distrair as suas vítimas. E, nos momentos cruciais, surpreende-as com a complexidade das suas maquinações, ou com explosões de violência terminal. Assassina a soldo de quem a contratar, Lady Snowblood nasceu sob uma maldição. Tem como real missão vingar a mãe, que morreu na prisão depois de matar um dos homens que lhe matou o marido e a violou, aproveitando a incerteza de uma época de revoltas. Entre as várias missões, Lady Snowblood dá caça a estes homens, procurando não só matá-los, como destruí-los. 

Por detrás destas histórias negras, está um excelente estilismo visual. A ação é profundamente cinematográfica, quebra a habitual estética do mangá em direção ao tipo de ritmo e enquadramento que encontramos no cinema. Ação sangrenta numa estética impecável, é o que caracteriza Lady Snowblood.

Kazuo Koike, Kazuo Kamimura: Lady Snowblood: The Deep Seated Grudge.

Regressar a Lady Snowblood, esse ponto alto da estética da violência estilizada. As histórias seguem as aventuras da assassina a soldo, motivada por uma vingança para a qual foi preparada ainda antes de nascer. Mas o que dá a este manga a sua beleza é a forma como o ilustrador colide o estilo clássico do desenho japonês com a ação pura das artes marciais. Lady Snowblood é isto, é tanto contemplarmos uma prancha que parece saída da arte japonesa clássica, como ficarmos sem fôlego com enquadramentos de ação num ritmo cinematográfico. Visualmente deslumbrante, imparável, com um toque de sensualidade, sempre num ritmo narrativo fluído e cinemático.