quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Serenity

Normalmente tenho uma certa relutância a comics que adaptam mundos ficcionais de outros media. Tentam colmatar lacunas nas histórias originais ou expandir os espaços conceptuais, mas boa parte deles vive de argumentos repetitivos e ilustração de segunda linha. É, talvez, uma questão de linguagens e expectativas. Personagens e ideias desenvolvidas com cinema ou televisão em mente partem de linguagens narrativas bastante diferentes das da banda desenhada, apesar de partilhar elementos comuns. O respeitar do conceito original acaba por ser uma limitação nestes comics, que não conseguem oferecer experiências visuais tão ricas como as audiovisuais, o que tem o seu quê de dissonância. Estes produtos transmedia assumidos são procurados como uma forma simples de manter o interesse nas aventuras de personagens que ganharam o favoritismo do público sem grandes preocupações de qualidade gráfica e narrativa, não muito diferente das séries estabelecidas nos comics ou na ficção popular (e aqui recordo à cabeça a longevidade de Perry Rhodan).

Serenity não é muito diferente no que toca ao grafismo, mas os seus argumentos conseguem aprofundar as ideias soltas e as intuições sobre esta série de promessas não cumpridas. É nisto que diverge da habitual mediania das adaptações para BD/comic. A série televisiva original deixou fãs e fama nos meios ligados à FC, algo que o filme veio reforçar, mas quaisquer promessas de continuidade são anuladas pela falta de interesse das redes televisivas. Resta o olhar para outros media para manter e expandir a série, e Whedon tem feito isso através de comics que funcionam como novos episódios da mítica série. É notável não haver exageros nem cedência à tentação comercial de inundar o mercado com inúmeros clones e variantes. Esta estratégia funcionou no caso de Star Wars, mas parece-me que a comunidade de fãs de Firefly é mais conhecedora da FC, e pouco apreciadora da banalização de um universo ficcional de que tanto gostam. Exige qualidade, e vai recebendo em doses metódicas que pontualmente fazem o leitor regressar aos bons tempos da série. Não é certamente por acaso que o argumentista destes livros seja o criador da série, e que se encontre muito pouco para lá disto. Há umas novelizações a partir de argumentos e guias de referência visual. 

A escassez é um bom método para manter o interesse num produto... e se se sentirem ofendidos por esta ideia tão comercial, lembrem-se que a cultura popular é essencialmente composta por produtos culturais criados especificamente para serem consumidos. A larga maioria é esquecida, por ser banal e sofrível, mas o intrigante e o interessante acontecem quando algo criado como objecto de consumo consegue transcender as limitações do meio e tornar-se, por via das ideias que contém, aquilo que os amantes das ficções de género tanto gostam: livros, BDs, séries ou filmes que ultrapassem a mediania e nos façam sonhar. Note-se que não são muitos. De entre a enxurrada de produtos culturais com que somos diariamente bombardeados, quantos são capazes de realmente nos cativar?


Joss Whedon, Brett Matthews (2009). Serenity: Those Left Behind. Milwaukie: Dark Horse Comics.

O comic que interliga a série televisiva Firefly com o filme Serenity. A caça à misteriosa River Tam inicia-se com um grupo de agentes secretos que recruta um velho inimigo de Mal, sedento que uma vingança que planeou meticulosamente. Mas com a best damn crew os melhores planos caem por terra e a vingança esvai-se sob as balas de Mal. A aventura é fracturante, com o Pastor a abandonar a nave para se juntar à colónia de Haven, e Inara a separar-se da tripulação. No final vislumbramos o implacável Operative, que irá dar caça sem tréguas a Serenity e ao seu capitão no filme que encerra o ciclo desta cativante série que se tornou transmedia por força das circunstâncias.


Patton Oswalt, Patric Reynolds (2010). Serenity: Float Out. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Wash, o ás dos ares exímio na pilotagem da nave Serenity pelos mais ínvios e perigosos caminhos do espaço é recordado em três curtas histórias que mostram a sua perícia aos comandos de qualquer nave que lhe calhe nas mãos, a sua agilidade em esquivar-se das piores ameaças de combate espacial e a dedicação aos companheiros. Três curtas, ligadas por um momento de reminiscência entre três aventureiros e a viúva de Wash, com argumento do überg33k Patton Oswalt.


Joss Whedon, Zack Whedon, Chris Samnee (2010) Serenity: The Shepherd's Tale. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Quem é o pastor? Homem de deus com queda para se safar de situações complicadas, vagabundo em deriva alcoólica, comandante ambicioso que sacrifica a sua nave em nome da glória pessoal, aniquilando milhares de inocentes, agente secreto independentista infiltrado nos altos escalões da Aliança, ou um rapaz que fugiu de casa e nunca mais regressou? Whedon vai-nos levando numa viagem progressiva ao passado de uma das personagens icónicas de Firefly.


Joss Whedon, Brett Matthews (2011). Serenity: Better Days. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Imaginem que enriqueciam para lá dos vossos sonhos mais luminosos? O que fariam do resto das vossas vidas? Num dos acasos da vida de aventuras a best damn crew e o seu comandante de honestidade flexível capturam um tesouro milionário e vêem-se na rara contingência de ter dinheiro para perseguir os seus sonhos. Enquanto uns imaginam paraísos tranquilos, outros o comandar de potentes naves, ou apenas uma vida familiar sem sobressaltos, têm de combater mercenários ao serviço de construtores de robots e acabam por ser roubados, perdendo a fortuna e voltando a vaguear no espaço em busca de aventuras lucrativas. Mas para o capitão da Serenity talvez sejam esses os melhores dias, correndo pelo espaço, vivendo aventuras acompanhado pelos seus fieis companheiros.

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