sábado, 6 de fevereiro de 2016

in medias




Tentem lá tirar sentido desta conjugação, vá, tentem. Recordem-se que o cérebro adora ver padrões onde estes não existem.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

The Demon: Hell's Hitman


Garth Ennis, John McCrea (2015). The Demon: Hell's Hitman. Nova Iorque: DC Comics.

Etrigan é um caso de dupla personalidade mergulhada no ocultismo psicadélico de Jack Kirby. Etrigan é um poderoso demónio acorrentado à alma humana do feiticeiro Jason Blood. Odeiam-se, mas são forçados a coexistir ao longo de milénios, sob efeito de uma maldição da qual não se conseguem livrar. Comic de terror ocultista da Golden Age, Etrigan/Blood foi redescoberto pela lendária época de Alan Moore em Swamp Thing. O trágico e amoral demónio rimador ganhou protagonismo, e desde aí tem sido personagem secundária recorrente, com algumas séries próprias de curta duração. A sua última aparição foi como parte da tentativa da DC de dar um cunho de fantasia medievalista aos seus heróis com a série Demon Knights.

Há vantagens em ser uma personagem de segunda linha. Liberta argumentistas e ilustradores do peso do histórico do personagem e das expectativas dos fãs. Notem que Daredevil só se tornou interessante quando Frank Miller pegou num comic que já ninguém lia e lhe deu um toque policial noir, que acabou por ditar o tom da série. Se bem que não tenha sido este o caminho seguido por Garth Ennis nesta sua época como argumentista de Etrigan, coligida neste TPB. Ennis trouxe um humor ácido e violento à personagem, num registo over the top de violência ridícula cheio de piadas mórbidas. Quer a eliminar demónios que controlam o mundo do crime em Gotham com extremo prejuízo e preferência por usar as mãos como arma, quer a combater zombies nazis que invadem a américa com ajuda de The Haunted Tank, o resultado é histriónico, roçando o absurdo, e por isso muito interessante. O traço grotesco de John McCrea, comparsa de Ennis nas suas aventuras mais radicais, consegue momentos de absurdismo perfeccionista, embora nem sempre consiga acompanhar a iconografia latente nos argumentos. Funciona perfeitamente em registo caricatural, falhando quando a narrativa pede algo mais ambiental. Da leitura fica a sensação que alguém na DC foi corajoso ou muito inocente, para permitir a publicação desta insanidade gráfica.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Dracula Unbound


Brian Aldiss (2015). Dracula Unbound. Nova Iorque: Open Road Media.

Brian Aldiss tentou safar-se com uma obra ambiciosa, originalmente publicada em 1991, que colide terror e ficção científica. Falha numa prosa que se leva demasiado a sério num romance cheio de premissas de sanidade duvidosa. Afinal, que lógica pode haver em misturar viagens no tempo com linhas temporais paralelas, futuros distantes, passado profundo, relíquias contemporâneas encontradas em estratos geológicos do mesozóico, Drácula, Bram Stoker e Van Helsing, comboios que atravessam os tempos, e vampiros como uma espécie parasítica animal, incapaz de pensamento consciente mas com capacidade autonómica de sobrevivência suficiente para conseguir domesticar a humanidade num futuro distante, cooptando as tecnologias que lhe convém para um domínio completo da história humana?

Pouca ou nenhuma. Parte do livro lê-se como um recontar do romance clássico de Stoker, parte como narrativa sobre paradoxos temporais que se acumulam, parte segue as técnicas do thriller de aventuras e mistérios, e ainda toca no romance biográfico histórico. Que dizer de uma história que termina com um bando de aventureiros a meter-se num comboio para ir ao futuro roubar uma bomba poderosa, detonando-a no final da era mesozóica para aniquilar um ajuntamento de vampiros vindos de todos os tempos, no processo aniquilando dinossauros, gerando uma enorme cratera onde hoje é a baía de Hudson, e provocando de facto a separação violenta entre eras geológicas que os geólogos denominam nível K-Pg? A bomba é lançada por um modelo telecomandado de um bombardeiro B-29 (o mesmo tipo de avião que lançou as bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáqui), se acham que este final não é suficientemente doido.

O problema do livro é querer levar-se a sério, apesar de deixar a sensação que Aldiss ia acumulando situações bizarras à medida que o ia escrevendo. Não deixa de ser uma leitura divertida, cheio de ideias bizarras, mas não é um dos pontos altos da obra deste grande mestre da FC.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Hysterie moderne des engrenages


O fascínio do steampunk, definido de forma certeira:
"De la science-fiction avec des boulons synthetisaient les uns". "L'an 2000 imaginé par nos arrière-grands-pères", s'enthousiasmaient les autres. Mais peu importent les definitions; en matière d'imaginaire, l'emotion primera toujours. L'ombre des dirigeables sur les toits cuivrés; l'hysterie moderne des engrenages et de la vapeur, les contorsions sensuelles de la petite fée absinthe, tout ce fatras baroque exerçait sur nos esprits romantiques une fascination sans partage. 

Fabrice Colin, Mathieu Gaborit (2015). Confessions d'un automate mangeur d'opium. Editions France Loisirs.


Visões




Europa Report (Sebastián Cordero, 2013)

Estava convicto que The Martian era o filme mais hard SF dos últimos tempos. Apesar de Ridley Scott ter conseguido não estragar a colisão marciana entre a engenhosidade de Robinson Crusoe e tormentos de Job do muito bem informado livro de Andy Weir, o rigor da sua plausibilidade empalidece perante a solidez de Europa Report. Filme discreto de 2013, distingue-se pela dureza cortante da sua visão hard SF, sempre a caminhar na linha da plausibilidade científica, sem concessões à espectacularidade e entretenimento. Não que seja um filme isento de questões. Há algumas incoerências nesta história de uma expedição organizada por uma empresa privada à mais intrigante das luas de Júpiter, em busca de vida debaixo do gelo de metano de Europa. Para começar, soa estranho que seja lançada uma missão de longa duração sem preparações prévias, algo que o filme muito cedo coloca de lado. E se Europa alberga vida (spoiler gigantesco nas palavras que se seguem, mas já sabem qual a minha opinião sobre este assunto), faz pouco sentido que se detectem vestígios bacterianos sem mais nenhum sinal do ecossistema até ao momento final, com o vislumbre da criatura tentacular lovecraftiana que encerra o filme. É um pouco como mergulhar num oceano terrestre, dar com uns líquenes, e levar com uma lula gigante em cima sem nunca se deparar com mais nenhum peixe, ou sequer uma análise à água revelar vida microscópica. São talvez as duas grandes falhas de um filme metódico, que se faz de representações plausíveis de missões espaciais e discussão científica na linha directa da FC clássica de exploração espacial numa história de dedicação à ciência e sacrifícios. A estética found footage é usada com muita eficácia para tornar sólida a história sem recorrer à espectacularidade previsível dos efeitos especiais expectáveis neste género de filme.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Comics


Art Ops #04: Apesar do argumento estar a ser menos interessante do que prometia, há um delicioso surrealismo estético, com a nítida influência da Pop Art no traço de Allred a transmutar e colidir nas vinhetas visões de diferentes movimentos artísticos. A história arrasta-se, mas a estética homenageia com muito humor as correntes da arte moderna e contemporânea.


Prophet Earth War #01: Este regresso de Prophet é, para mim, a boa notícia na edição de comics neste mês de Janeiro. De volta está o traço de Giannis Milonogiannis, com as suas curiosas variações orgânica ao estilo de Moebius. Prophet, uma space opera weird passada num futuro profundo onde da humanidade apenas restam uns combativos clones adormecidos e o universo é povoado pelos mais surreais alienígenas, sempre me pareceu um interessante sublimar das influências da banda desenhada de ficção científica de Moebius.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Insta




Estruturas moleculares, robots educativos que só se mexem quando uma criança pegar neles, e a génese das TIC em 3D.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Norstrilia


Cordwainer Smith (2014) Norstrilia. Phoenix Pick.

Um livro curioso, vindo de um grande mestre da FC clássica. A história do homem que comprou a Terra marca um tom de comédia discreta que se mete com futuros longínquos e com formas de escravidão tão profundas que os escravos fazem tudo para proteger os seus senhores. Livro bizarro, com líderes políticos de agendas obscuras, sensuais mulheres-gato e outros seres humano-animalescos em busca do seu messias, e camponeses milionários que se recusam a abandonar as suas tradicionais formas de estar na vida, num vasto panorama de expansão milenar pelo espaço.

A comédia discreta reside no planeta inóspito Norstrilia, corrupção linguística de Old North Australia, colonizado por (yep, adivinharam) australianos que transplantaram a sua cultura, completa com uma veneração por uma rainha de uma Inglaterra desaparecida há milénios, e encontraram a riqueza da forma mais inesperada. Colonos dedicados a criar ovelhas, descobrem que os ares do planeta provocam-lhes uma doença que as leva a segregar uma substância que permite aos que a tomam prolongar a vida indefinidamente. Graças às ovelhas doentes, a humanidade espalhada pelas galáxias atinge a semi-imortalidade, e os norstrilianos riqueza imensa. Ciosos da rudeza das suas tradições, são riquíssimos mas vivem debaixo de leis altamente restritivas que os obrigam a uma vida simples nas suas quintas, a tratar das suas ovelhas. São tão ciosos do seus modos de vida que adoptaram uma forma de darwinnismo social, com um rito de passagem obrigatório para todos os adolescentes cuja não aprovação implica uma sentença de morte.

O personagem central deste romance, Rod, é um norstriliano cuja mutação das capacidades telepáticas comuns à humanidade lhe causa dificuldades nestes ritos tradicionais. Consegue ser aprovado, mas aguarda-o a conspiração de um ressabiado homem de poder, cuja imunidade à substância que estimula a imortalidade lhe assegura uma vida curta. Para se safar à conspiração, Rod pede ajuda ao computador da família, inteligência artificial electro-mecânica que em tempos passados foi usado para guerra económica. O computador propõe-lhe jogar nas bolsas, e numa noite, graças às manobras certeiras da inteligência artificial, o obscuro herdeiro de uma herdade de criação de ovelhas doentes torna-se o homem mais rico do universo, dono do longínquo planeta Terra. O resto é um mergulho por entre as forças poderosas deste universo, como labrego rico saído da ruralidade, levado até ao centro nevrálgico terrestre, e manipulado por todos com quem se cruza.

A manipulação mais profunda vem do sector mais ignorado da sociedade. No mundo ficcional de Cordwainer Smith, há seres de primeira, os humanos nas variadas formas que adquiriram sob sóis alienígenas, seres de segunda, os robots, e seres de terceira. Estes são o resultado do cruzamento de genes animais com humanos e são seres humanóides com mistura de características físicas de animais. São uma classe sem direitos, abatidos à mínima contrariedade, uma óbvia referência ao esclavagismo, utilizados como mão de obra descartável, desprezados em todos os níveis sociais. Um desprezo tão entranhado que mesmo os mais poderosos que revelem alguma simpatia por estes seres arriscam o ostracismo. O envolvimento de Rod parece à partida dar força às pulsões pela luta pela aquisição de direitos por estes seres desprezados, mas Cordwainer Smith dá a volta a esta linha narrativa de forma completamente inusitada, mostrando que afinal estas criaturas discriminadas têm um tão grande carinho pela humanidade que tudo fazem para a manter, sacrificando os seus direitos e as suas vidas para proteger aqueles que os oprimem. Isto é síndrome de Estocolmo à escala galáctica, uma amarga reflexão sobre a habituação a sistemas sociais opressivos, que retiram não só a esperança como o próprio conceito de uma vida diferente.

Este livro estranho, originalmente um fix up que expande alguns contos de Cordwainer Smith, é uma boa introdução ao trabalho deste grande mestre da FC. Terei agora de descobrir The Rediscovery of Man, a obra que organiza os seus contos da série Instrumentality, sobre o futuro longínquo de uma humanidade tão difusa e espalhada pelo espaço, com uma cultura que nos é tão estranha que a redescoberta dos valores do passado se torna uma moda avassaladora. Norstrilia pertence a este mundo ficcional, embora se tenha tornado um romance de direito próprio.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Printed it on Plastic


The old one had been running six or seven thousand years, and showed very little wear. When people had needed a supplementary one, they had simply printed it on plastic, set it in the floor, and turned it on with a few amps.
Referências à impressão 3D na literatura de ficção científica não são algo assim tão recente, apesar de só no último ano e meio ter detectado o uso do termo corrente para indicar esta tecnologia, bem como descrever usos plausíveis. Essa referência foi uma das boas supresas de Aurora de Kim Stanley Robinson, e forma a base do conto The Man Who Sold The Moon de Cory Doctorow para a antologia Hieroglyph. São dois exemplo recentes, e deve haver mais na corrente literatura de FC.

O conceito na FC não é assim tão novo. Leitores do cyberpunk dos anos 90 recordam os nano-fabricadores, máquinas capazes de fabricar qualquer objecto, elemento comum a muitas histórias do género, especialmente as que imaginam futuros luminosos post scarcity. Recordo algumas bem interessantes de Bruce Sterling, ou Forever Peace de Joe Haldeman. Ou as tentativas de Spider Jerusalem de modificar o seu nanofabricador caseiro para lhe dar drogas mais potentes, personagem do seminal Transmetropolitan de Warren Ellis. Se olharmos mais atrás na FC não podemos esquecer as inúmeras mas raramente explicadas máquinas miraculosas que libertam a humanidade de meter as mãos na massa e fazer coisas. Como os sintetizadores de matéria da série Star Trek, que definem a culinária na cantina da nave Enterprise. Usados, sistematicamente, pelo Capitão Picard para lhe servir o seu adorado tea, earl grey, hot. Frase que indica um dos mais clássicos problemas conceptuais da Impressão 3D, perceber para que ela serve. Algo que me vem sempre à mente quando visito feiras ou espaços de demonstração e vejo estas máquinas fabulosas a imprimir os obrigatórios Yoda, coelho de Stanford ou outras peças que traem alguma falta de imaginação na resposta à questão do que é que se pode imprimir com esta tecnologia. Boa parte das vezes é tea, earl grey, hot.


O que surpreende nesta referência é a data em que foi escrita. Encontrei-a em Norstrilia, curioso e algo atípico romance de FC de Cordwainer Smith, autor clássico da golden age do género, legando-nos a série de contos The Rediscovery of Man, da qual o romance Norstrilia faz parte. Smith não era romancista, e os seus romances são essencialmente fix ups, contos individuais de uma série, coligidos e modificados para se tornarem capítulos de um livro. Surpreende, ver este conceito de utensílios, peças ou objectos impressas em plástico, num romance originalmente publicado em 1975 mas cujas histórias de base foram escritas nos anos 60.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Visões


Mad Max Fury Road (George Miller, 2015)

Quando este filme estreou, evitei-o. Porque... era Mad Max, saga pela qual nunca tive particular pendor. Carros espatifados, cenários pós-apocalípticos e justiceiros atormentados. Não sendo eu um rapaz especialmente enamorado de automóveis, a piada de Mad Max sempre me passou ao lado. A combinação de tarde com a mente a precisar de estímulo cinematográfico num dia em que nem a Cinemateca ajudava e um feliz acaso no El Corte Inglés levaram-me a ver este Fury Road. Porque não, pensei. Afinal, aquilo é suposto ter efeitos especiais interessantes. E a malta que o viu gostou e jura a pés juntos que foi um dos melhores filmes que viu no ano de 2015. Deixei o Anomalisa para outro dia. Sem ânimo para depressões, entrei na sala de cinema com vontade de desligar o cérebro.

Saí de lá exausto, com os sentidos sobrecarregados e os músculos doridos de tanto salto na cadeira. Este Fury Road é um portento de filme, que se assume como algo que não é para levar a sério e com isso se liberta para explorar e ultrapassar todos os limites da sua estética. Sim, o filme é essencialmente uma longa cena de perseguição automóvel, feita com uma cinematografia invejável e com designers em rédea solta para criarem os mais insanos e implausíveis veículos. Um espectáculo frenético de efeitos visuais, ritmo imparável, constante ultrapassagem de limites, mas apesar de todo o over the top assumido é um filme curiosamente comedido. Digo isto porque no meio de tanta chama, metal estraçalhado e colisão com extremo prejuízo nunca o olhar da câmara nos revela o que acontece à carne humana no impacto com o aço cromado. Outros filmes cederiam à tentação do choque gore, mas este move-se por outras estéticas do absurdo. Os maus filmes só pioram com as suas pretensões a ser algo mais pertinente do que realmente são. Este assume o seu absurdismo, a implausibilidade do seu espaço ficcional, a incoerência em que se baseia. Há que admirar essa coragem, levada ao extremo das situações, efeitos e ritmo.

Como classificar este filme? Talvez se o cinema apocalíptico, maus filmes de série B italianos com mutantes pós-industriais, malhas de guitarra hard rock clássico, estética industrial, cyberpunk decadente, cultura dos muscle e custom cars, visões do rescaldo das catástrofes nucleares, fins de civilização e os detritos da sociedade de consumo se juntassem numa orgia intensa e, após gestação cuidada com substâncias psicadélicas, parissem este Fury Road. Com um toque de Metropolis e a sua máquina de Moloch nos elevadores mecânicos accionados por moles humanas na Cidadela de Immortan Joe. Onde sim, percebemos bem a piada da acqua cola e dos vícios da sua adição a estes tempos de neo-liberalismo austeritário, com os seus êxodos de zonas de conforto e submissão do bem estar geral às vontades caprichosas das elites financeiras. Sempre imersos numa imensa vastidão árida, sublinhando os fantasmas surreais que assombram os miasmas dos desertos do real. All shiny and chrome.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

FreakAngels (#02; #03)


Warren Ellis, Paul Duffield (2009). FreakAngels Volume 2. Rantoul: Avatar Press.

Expiação é o tom dominante deste segundo volume de Freakangels. Warren Ellis aprofunda mais as personagens, definindo melhor cada uma, e dá-nos vislumbres progressivos dos poderes psiónicos dos Freakangels, retratados nalgumas vinhetas como uma espécie de Children of the Damned em versão pós-punk. Somos também levados  conhecer melhor o apocalipse que inundou a Grã Bretanha e teve consequências ainda não deslindadas no resto do mundo, pondo um fim à civilização tal como a conhecemos. o evento catastrófico foi induzido pelos freakangels, que expiam as consequências do seu acto mantendo em Whitechapel uma ilha de relativa prosperidade num mundo arruinado. Algo sublinhado numa narrativa focada na reacção a um ataque de um grupo de refugiados desesperados, que obriga os Freakangels a repenseram os seus limites para tentar minorar um pouco mais o sofrimento que causaram à humanidade.



Warren Ellis, Paul Duffield (2009). FreakAngels Volume 3. Rantoul: Avatar Press.

É interessante notar como Ellis, por intermédio de Paul Duffield, utiliza a luz para sublinhar os estados colectivos de alma nesta série. Há um optimismo utópico na primeira parte, com os Freakangels a encontrar soluções engenhosas para albergar, alimentar e manter em boa saúde os que se refugiam em Whitechapel. Até se fala em trazer de regresso a música. Mesmo um assassínio sangrento não quebra esse optimismo, que só começa a ceder quando um dos Freakangels é condenado pela sua tendência de usar os seus poderes para controlar pessoas. No entanto, o assassínio, cometido ao estilo de Jack o Estripador (Whitechapel é um bairro com história), acaba por revelar o início de algo muito mau, com o regresso de um Freakangel renegado.

A transição é simbolizada pela atmosfera, com um sol luminoso a sublinhar o progressismo utópico de recuperação das catástrofes, e uma cinzenta tempestade que se abate quando as coisas começam a correr mal. Axiomática é a linha narrativa que se centra nas capacidades dos Freakangels, na sua relutância em explorar os seus limites, sujeitos a um código de ética peculiar que os impede de se tornarem quase divindades, dominadores dos inferiores humanos. Mas nem todos os Freakangels pensam desta forma.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Comics


Phonogram The Immaterial Girl #06: Tem o seu quê de sincronismo. No final desta nova série de Phonogram, Kieron Gillen homenageia a música pop de David Bowie nos painéis finais em que, solto dos constrangimentos da narrativa, se deixa levar pelo que a série realmente é: varições e divagações com o amor pela música à mistura. Sabendo que o ritmo de produção e edição habitual de uma série de comics implica que esteja terminada muito antes de chegar às bancas, esta não é uma elegia de Gillen a Bowie. Mas o acaso é curioso, e estas vinhetas que nos recordam Modern Love do cantor serem lidas uma semana depois do seu falecimento... isso, é puro sincronismo jungiano, parece-me.


Silver Surfer #01: Yay! O estilo retro está de regresso! O personagem sobreviveu essencialmente intocado pelo mais recente crossover da Marvel. Um Surfista Prateado humanizado com uma companheira humana, viajando pelas galáxias, salvando planetas, com paragens pela Terra para relaxar nos sofás com um bom filme, com os talentos gráficos do casal Allred a canalizar uma elegante estética retro e os argumentos descontraídos de Dan Slott. Talvez o único comic de super-heróis que vale a pena ser lido pelos que já se fartaram do simplismo e banalidade deste sub-género.

domingo, 24 de janeiro de 2016

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

The Cthulhu Encryption


Brian Stableford (2011). The Cthulhu Encryption: A Romance of Piracy. Borgo Press.

Nada como um lovecraftianismo para ajudar a passar o frio destas noites de inverno. Este romance de Stableford não ganhará certamente pontos por ser uma obra profunda, daquelas que nos apaixona por novas ideias ou muda o sentido da vida, do universo e de tudo o resto, mas é um divertido e muito bem urdido pastiche que remistura personagens clássicas da ficção fantástica com personagens reais de contornos fantasistas, lendas arturianas, folclore bretão, tesouros perdidos de danados piratas, bibliófilos convictos e uma boa dose daquele cujo sono sob as profundezas de R'lyeh não deve ser incomodado.

A história gira à volta de uma misteriosa louca internada num notório asilo parisiense, que manifesta no seu corpo estranhas inscrições que o olhar atento do detective Arséne Dupin detecta ser um criptograma incompleto que invoca o tenebroso Cthulhu. O resto é pura aventura, com shoggots a possuir o corpo de criminosos comuns, amuletos contendo segredos, e homens que talvez sejam mais velhos do que aparentam, semi-imortais graças a técnicas de meditação avançada que lhes permitem dormir e sonhar durante décadas, sendo com isso capazes de ver mais além das fronteiras ténues do real.

Aventura divertida, que se distingue pelo sentido de ambiência com que Stableford constrói a narrativa. Somos levados aos arrepios das noites escuras, aos mistérios dos ocultistas, à colisão entre o lendário e o real, revendo algumas personagens ficcionais clássicas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Visões



Star Wars: The Force Awakens (J.J. Abrams, 2015).

It is I, Threepio, diz solícito o clássico C3PO a interromper o reencontro entre Han Solo e Leia Organa em The Force Awakens. Terei ouvido bem? Uma piada do Allô Allô no meio do mais recente episódio da saga Star Wars? Que é, de facto, o filme que precisávamos para voltar a gostar desta série incontornável. Tem sido criticado por se colar muito aos três primeiros, os clássicos que se cimentaram na cultura popular, com estruturas narrativas e cenas específicas deles decalcadas. Ao fazê-lo, recuperou o espírito de aventura pura da série, perdido com as três maçudas prequelas que exploraram mais enredos telenovelísticos bizantinos e o fascínio com efeitos especiais digitais do que os aspectos que tornam Star Wars interessantes. JJ Abrams recuperou o deslumbre da aventura num filme que, não sendo isento de problemas e falhas de lógica (se bem que estamos a falar de uma série cinematográfica de ficção científica que deixa a lógica, a especulação científica e a plausibilidade do lado de fora da porta da sala de cinema), é empolgante e captura muito bem o espírito clássico dos filmes originais, actualizando alguns aspectos para uma cultura global mais apreciadora de diversidades de género e etnia.

Com este filme, Star Wars evolui de aventura de e para rapazes brancos para algo mais inclusivo, rodando à volta de uma heroína feminina, espelho mais desenvolto do que o cândido Luke Skywalker original, e de um ex-stormtrooper afro-americano contra um vilão mais birrento que assustador. Aspectos que estão lá mas não formam o cerne do filme, que continua a ser aventura old school revivalista. Atrevam-se lá a dizer que não se empolgaram com a carga de caças X-Wing sobre o campo de batalha em que se tornou o castelo de Maz Kanata ou o reviver das cenas marcantes da saga original, copiadas por George Lucas de Battle of Britain e The Dambusters, no ataque final à terceira iteração da Estrela da Morte? Que não sorriram quando os personagens faziam referências sorridentes a momentos icónicos? Don't you have a garbage chute, pergunta Solo nas entranhas da arma final. Que não perceberam a caricatura às tropes dos romantismos young adult, com um Kylo Ren a querer parecer imponente, com uma voz digital verdadeiramente arrepiante, mas a revelar-se um puto mimado dado a birras violentas e de competência duvidosa? Rever os envelhecidos Solo, Leia, Chewbacca e Luke é um mimo, bem como o redescobrir das proezas do Millenium Falcon.

Meter-se com uma série com este historial e sobreviver com um filme memorável é feito raro, que nem o seu próprio criador conseguiu, e JJ Abrams trouxe uma muito necessária revitalização que equilibra o classicismo com a evolução narrativa de Star Wars. Um carácter que fica marcado logo na primeira cena do filme, com o cruzador imperial a sobrepor-se ao planeta numa diagonal que parte do canto inferior direito para o superior esquerdo do ecrã, curiosa inversão da cena que abre o primeiro filme da série Star Wars. Sublinha o enorme cuidado com a cinematografia, sobre a qual corre a história. Deixando as lógicas da FC mais séria fora da sala de cinema, claro, mas Star Wars é assim. Temos todas as razões para a detestar mas não conseguimos deixar de gostar.


Childhood's End (Syfy Channel, 2015).

É bom ver o SyFy Channel a querer regressar à FC pura, afastando-se dos maus filmes de série B com que tem ficado conotado. Esta inflexão tem-nos trazido séries divertidas como Dark Matter e Killjoys, e a excelente adaptação de Expanse. Uma mini-série que adapta um conto clássico de Arthur C. Clarke teria à partida tudo para ser bem sucedida, mas falha redondamente. Childhood's End mantém-se fiel à narrativa clássica dos sonhos de transcendência e imagens de consciências universais da obra de Clarke, mas as filmagens parecem ter sido entregues às equipas veteranas dos maus filmes do canal. O resultado é um tédio de série, cheio de cenas ponderadas em que os personagens olham com ar pesaroso/assustado/determinado/imponente para o infinito, num ritmo tão lento que se sente a passagem dolorosa dos segundos. A cinematografia é horrenda, mais apropriada a telenovela do que a série de aspiração cinematográfica. Salvam-se as sequências passadas dentro das naves dos Overlords, uns belíssimos cenários de tecnologia de aspecto orgânico. De resto, toda a série é um pretensioso tiro ao lado, que torna oca e muito chata uma obra clássica de FC. É um regresso ao pior do que o canal já nos habituou. Pelo menos sem tubarões dentro de tornados.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Comandante Serralves: Despojos de Guerra



Carlos Silva et al (2014). Comandante Serralves: Despojos de Guerra. Imaginauta.

Um livro corajoso. O panorama contemporâneo do fantástico literário português é vibrante, embora nos pareça pequeno. Estamos em Portugal, e por cá tudo nos parece pequeno. Vibrante, mas com autores mais interessados em desenvolver obra nos domínios da fantasia ou sobrenatural. Não que dai venha mal ao mundo. São bem vindos, e quanto mais melhor, mas para aqueles que se sentem mais intrigados com a reflexão do impacto da ciência e tecnologia no modo de conceber o mundo que nos rodeia falta qualquer coisa. Novos escritores transreais, de fantasia clássica ou urbana e sobrenatural há. As colectâneas e contos online multiplicam-se. Mas falta a ficção científica. E é por isso que este livro é corajoso, ao desafiar escritores a experimentar criar FC em português. Porque o género não tem de começar e acabar em João Barreiros. Não se esgota neste escritor, claro, mas é o nome incontornável quer pela qualidade quer pela tenacidade. Livros como este mostram a vontade de sangue e ideias novas no género. Esperemos que seja uma experiência que dê frutos.

O dar frutos é um dos grande objectivos do projecto. Ambicioso, parte de um universo partilhado de contornos definidos mas com imenso espaço para a imaginação. Os contos são o ponto de partida de um conceito que se quer afirmar no espaço transmedia, sublinhando a sua coragem e ambição. Bem concebido, o universo partilhado de Comandante Serralves está muito bem explorado nesta sequência de contos que, respeitando a ficção científica enquanto se deixam levar pela aventura, são metódicos na forma como desvendam ao leitor os elementos que constituem este universo ficcional.



Aviso à navegação: os apontamentos de leitura que se seguem contêm spoilers, coisa tremenda para aqueles leitores que, focalizados no enredo, lêem apenas para ficar a saber o final da história.

Métodos de Evasão, Carlos Silva: Que melhor forma haverá de nos introduzir ao intrépido Comandante Serralves do que mergulhar-nos numa das suas arriscadas missões, em que este se deixa capturar pelos seus inimigos para poder salvar a companheira, presa na órbita de Júpiter numa nave roubada à Aliança que combatem. Não só nos apresenta a personalidade aventureira larger than life do Comandante, como nos dá os primeiros enquadramentos do seu mundo ficcional, onde rebeldes aguerridos combatem a Aliança totalitária que sucedeu às Nações Unidas, no rescaldo de uma guerra que opôs a humanidade à invasão dos alienígenas Pahoehontes. Este conto sólido marca à partida a antologia, com o seu ritmo marcado entre aventura e construção do ambiente narrativo.

Sinais, Vítor Frazão: O tom de space opera exótica aprofunda-se neste conto onde Serralves revela o seu lado mais obscuro, capaz de violentas missões tão secretas que nem os seus companheiros podem saber delas. É também uma esplêndida história de ambientes, mergulhando o leitor numa cidade exótica que protege a sua liberdade em túneis e grutas da selva vietnamita. Fiel ao tom da antologia, é uma narrativa em ritmo de acção, que nos desvenda mais alguns segredos do universo ficcional. Ficamos a saber o segredo da longevidade do Comandante, com uma tecnologia alienígena que o transmite para outro corpo quando o corrente anfitrião está em estado terminal, bem como outros pormenores que enriquecem o mundo ficcional da série.

Dodgson, Inês Montenegro: O segredo da longevidade do Comandante é intuído no conto anterior, sendo este aquele que se constrói à volta deste elemento narrativo. Após uma missão falhada, a consciência de Serralves irá ocupar outro corpo, desta vez o de um homem ligado a uma facção rebelde que pretende construir uma bomba temporal que reverta o tempo aos momentos que antecedem o catastrófico nascimento da Aliança. Este carácter metódico de expansão dos conceitos que sustentam este universo ficcional sublinha um pormenor importante que confere solidez a este mundo partilhado. Os elementos não nos são revelados à partida e cada novo conto é mais do que uma aventura do personagem, trazendo-nos novos dados que o aprofundam.

Despojos de Guerra, Carlos Silva: Se o conto anterior aprofunda mais um elemento do mundo ficcional, este monumental conto é um infodump muito bem construído que desenvolve muito o universo do Comandante Serralves. Tão bem construído que não damos por ele, no meio de uma imparável acção que nos leva de um ataque pirata a uma nave de transporte de carga à superfície venusiana, onde se ocultam os perigosos destroços de uma nave alienígena. Pelo meio temos cenas de acção pura no espaço e uma obrigatória visita a um mercado negro numa cidade flutuante venusiana, local onde os mais indizíveis vícios e necessidades encontram satisfação pelo preço certo. Continuando a sublinhar a forma metódica como os elementos que compõem este mundo ficcional vão surgindo, é neste conto que temos o primeiro vislumbre da nave Maria, o artefacto alienígena onde Serralves viaja pelo sistema solar.

Das Eigentum, Ana Ferreira: Sabemos que parte do universo Comandante Serralves assenta sobre uma invasão alienígena, mas até agora ainda não nos foram dados mais do que pequenos vislumbres dos invasores. Este conto muda isso, centrando-se no que são os Pahoeontes e no porquê da sua invasão, algo que tem a ver com a destruição da ecologia do seu planeta natal. Toda a história gira à volta de um alienígena sobrevivente, escondido numa lixeira terrestre, atazanado por crianças das quais se recusa defender, tentando interpretar o mundo através de um tradutor automático. Mais do que conto que adensa o mundo ficcional, é uma curiosa reflexão sobre diferenças linguísticas e a impossibilidade de compreensão profunda de algo que nos é estranho, apesar das melhores traduções.

A Guerra Esquecida, Joel Puga: Há um certo sabor de Indiana Jones neste conto em que Serralves reencarna no corpo de uma rebelde nórdica, cuja célula está a investigar uma missão secreta da Aliança. Perto do círculo polar árctico, investigadores de uma organização secreta dedicada a investigar tecnologia alienígena deparam-se com uma base de tecnologia avançadíssima, mas estranhamente de origem não extraterrestre. Parece que os Pahoeontes já tinham feito uma tentativa de invasão nos tempos da mítica Atlântida, e que os atlantes dispunham de armas capazes de os derrotar. A possibilidade da temível fonte de energia que ainda continua activa ao fim de milénios cair nas mãos da Aliança faz com que os rebeldes se sacrifiquem para a destruir. Para além de expandir no tempo o universo ficcional da série, este conto detalha-nos como Serralves se reencarna, graças ao sacrifício de uma enorme rede de voluntários que dispõem de nano máquinas implantadas que se activam ao receber a consciência de Serralves.

Static Falls, Rui Leite: a encerrar a antologia, um conto que explora de forma diferente o universo ficcional de Serralves, numa história sobre uma colónia perdida no sistema solar. Os seus habitantes vivem na ilusão que são os únicos sobreviventes de uma guerra nuclear, acreditando que estão na Terra, rodeados de um deserto radioactivo. Não imaginam que a cidade construída como réplica de uma vila americana dos anos 50 é na verdade um asteróide protegido por uma redoma, com a informação estritamente controlada por uma rede neuronal que abriga a consciência do fundador da colónia, um milionário dos tempos pré-alianca. Numa missão diplomática, Serralves irá cruzar-se com este peculiar mundo fechado. O sentimento de paranóia e percepções controladas por entidades exteriores tem o seu quê de influência da obra de P. K. Dick.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Gene Mapper


Taiyo Fujii (2015). Gene Mapper. São Francisco: Haikasoru.

Um delicioso thriller biopunk passado num futuro próximo onde a engenharia genética consegue produzir alimentos desenhando de raiz o código genético das plantas transgénicas. Uma inovação que promete acabar de vez com a fome no mundo, mas que pode sofrer um fortíssimo abalo quando uma plantação experimental do mais avançado arroz transgénico é corroída por uma praga desconhecida. Um dos desenhadores do mapa genético do novo arroz é desafiado a investigar, e descobre-se no meio de uma conspiração que une jornalistas sem escrúpulos a eco-terroristas, que soltam uma arma biológica, um insecto transgénico concebido por cientistas da DARPA programável para uso militar, numa tentativa de derrotar o consenso sobre a genética com um ataque terrorista disfarçado de tragédia natural.

Livro com um ritmo de leitura rápido, bem desenvolvido nas suas premissas, tem três pontos especiais de interesse no domínio da ficção especulativa. O primeiro é o ponto de vista inocente sobre o potencial benéfico da manipulação genética. Uma visão cândida, benévola, de utopias de abundância trazidas pela engenharia genética, muito distante da mais habitual e paranóica visão dos seus perigos inesperados e usos tenebrosos. O segundo ponto de interesse está no conceito de criação de uma forma de vida totalmente desenhada em laboratório, incluindo um kit de desenvolvimento e uma api para programar o que é essencialmente descrito como uma computação em nuvem, distribuída em enxames de insectos artificiais biológicos.

Apesar de ser um thriller utópico de biopunk, Gene Mapper encerra dentro de si uma brilhante especulação cyberpunk. O terceiro ponto de interesse especulativo do livro é a forma como concebe a pervasividade da realidade aumentada como forma de comunicação, recorrendo a avatares, espaços virtuais e recriações tridimensionais tal com hoje comunicamos por telefone ou texto. Neste futurismo que deve alguma coisa aos cardboard futures saídos das empresas tecnológicas dominantes, redes de implantes corporais permitem uma transição constante entre espaços reais e virtuais, assentes numa rede robusta que substituiu a velhinha internet, eliminada numa catástrofe digital e da qual só restam alguns arquivos de vastas cópias de segurança, subtraídos por hackers previdentes durante a derrocada da rede global.

Com interessantes especulações sobre o futurismo próximo, apesar de uma certa inocência sobre intenções e consequências da manipulação genética, lê-se como um thriller imparável onde a melhor acção se passa no espaço das ideias. Boa surpresa literária, trazida do Japão pela Haikasoru.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Comics


Faster Than Light #05:  Não sendo isenta de incoerências e imperfeições, esta série é uma lufada de space opera clássica nos comics contemporâneos. A humanidade, na posse de um artefacto alienígena que é um mapa das civilizações na galáxia, parte em busca de auxílio para combater uma invasão iminente. Boa desculpa para histórias de primeiro contacto, exotismos extraterrestres e aquele sentimento de exploração do grande vazio que só a FC clássica consegue transmitir.


Injection #06: Depois do futurismo catastrofista, Warren Ellis dedica-se a aprofundar as personagens do seu think tank que libertou um vírus memético para tornar o futuro interessante, e tem agora de gerir as consequências inesperadas desse acto. O foco, agora, está num cavalheiro culto, de bom gosto e discernimento, cujo palato está treinado para discernir os diferentes sabores da carne humana, e é detentor de reflexos invejáveis. Ellis refere que este é o mais excêntrico dos personagens desta série. Não sei se é o conceito mais apropriado.


Johnny Red #03: Não é novidade que Garth Ennis tem um profundo fascínio pela época da II Guerra Mundial. É um tema que explora muito bem, nas vertentes histórica e iconográfica, quer em comics mais rigorosos como War Stories quer em revisões de banda desenhada militarista clássica, caso do divertido e estranhamente realista reboot de Battler Britton. Este Johhny Red insere-se na segunda vertente, com a recuperação de um antigo personagem da banda desenhada britânica militarista para rapazes. Mantendo a base narrativa, Ennis foge ao simplismo do original e dá-nos uma boa história da guerra, respeitando o rigor histórico. Rigor este que caracteriza a abordagem do argumentista a este tema. Infelizmente, nem sempre o ilustrador que acompanha Ennis está à altura, explorando a espectacularidade gráfica e fidelidade iconográfica das histórias. É um mal que tem prejudicado War Stories, desenhado por ilustradores de baixo nível (excepto num dos arcos narrativos, sobre os raids de bombardeiros sobre a Europa, tão bem ilustrado que se tornou a imagem de marca da série). Felizmente, nesta série a Titan Comics soube desafiar o artista certo. O argumento de Ennis, já de si excelente, sai valorizado pelo desenho, com vinhetas de grande espectacularidade, expressivas,  empolgantes. E, nunca é demais sublinhar este aspecto, de retrato rigoroso da tecnologia militar da época. É um pormenor que valoriza a série.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Weltanschauung of the mob

Charles Stross a falar do triste espectáculo de Trump nas eleições americanas, e no processo a definir na perfeição um elemento fundamental da corrente cultura global:

"2007 is when the human species accidentally invented telepathy (via the fusion of twitter, facebook, and other disclosure-induction social media with always-connected handheld internet devices). Telepathy, unfortunately, turns out to not be all about elevated Apollonian abstract intellectualism: it's an emotion amplifier and taps into the most toxic wellsprings of the subconscious. As implemented, it brings out the worst in us. Twitter and Facebook et al are fine-tuned to turn us all into car-crash rubberneckers and public execution spectators. It can be used for good, but more often it drags us down into the dim-witted, outraged weltanschauung of the mob."

Uma das grandes promessas da internet era a de aplanar os campos mediáticos, dando a todos plataformas que permitissem o exprimir das vozes individuais. Em, tecnicamente, pé de igualdade com os canais mediáticos tradicionais. Foi esse o princípio que tornou os blogs no espaço de voz alternativa que ainda hoje são, bem como outras plataformas que permitem a qualquer um publicar. Curiosamente, a mais quente em 2016 parece ser a velhinha mailing list. Vão ler a do Warren Ellis, geralmente a minha melhor leitura da semana, se duvidam de mim.

A promessa de democratizar a publicação, de dar voz a todos, teve de facto com o surgir das redes sociais esta estranha inversão. Basta tremer perante os comentários nas redes sociais, o acumular de likes, o fenómeno (que não é tão novo quando isso, sensacionalismo sempre houve) do clickbait, para se perceber que quem realmente aproveitou bem este libertar da voz foi o Id e não o ego ou super-ego da consciência global. Se bem que, como qualquer frequentador de cafés em Portugal bem sabe, cheios de opinadores especialistas em qualquer assunto, esta corrida para o fundo possibilitada pelas redes sociais também não é nada de novo, apenas amplifica e globaliza uma velha tendência humana para a má língua e cretinice.

Bolas. Comecei este post de forma tão erudita e termino-o como troll. Infecções virais meméticas. Não há como lhes escapar.

Sustos às Sextas 2.0 (I)

João Castanheira, a abrir o primeiro (ou o sétimo?) Sustos às Sextas.

Rumar novamente, numa noite gelada de janeiro, ao assíncrono Palácio dos Aciprestes, com a sua curiosa arquitectura neo-gótica implantada no meio do sprawl suburbano da periferia lisboeta. There, and back again, e esse é o único tolkienismo que me ouvirão proferir. Regressou o Sustos às Sextas, a tertúlia dedicada ao terror literário e noutras artes, acolhida no grande salão deste palácio com o sempre erudito António Monteiro como anfitrião.  A segunda edição desta iniciativa que nos cativou no ano passado promete ser mais ambiciosa, mantendo o formato de cruzamento entre artes e presença de convidados para entrevista ou palestra, mas apostando num visual mais cuidado e no registo das sessões. Também investiram numa série de adereços, que diria que são uns coleccionáveis interessantes. Especialmente as canecas, que se tornaram no troféu a atribuir aos convidados do evento.

 António Monteiro, Vanessa Fidalgo e João Castanheira à conversa sobre o lado mais leve do sobrenatural da tradição popular contemporânea.

A sessão arrancou com uma interpretação em piano a quatro mãos da Danse Macabre de Saint Saens, que surpreendeu pelo talento e capacidade técnica das pianistas. Confesso que tenho alguns traumas com este tipo de "momentos musicais" (expressão que abomino). Recordo com um muito arrepelado carinho um em especial, com uma menina balofa de oito anos a assassinar inocentemente Bach sob o olhar babado de pais, professores e burocratas da Direcção Geral de Educação numa cerimónia de entrega de prémios educativos. E nem foi dos piores a que já fui submetido. Por isso, sempre que leio "momento musical" num programa de evento, temo o pior. Não tem sido o caso dos Sustos, e o de ontem foi surprendente, e muito bom. Quatro mãos, um piano bem afinado na acústica envolvente do salão, o distante ruído da lareira a crepitar, e impossível não reparar no pormenor fantasmagórico das mãos reflectidas no verniz negro do piano, a dar a sensação de desincorporação.

Seguiu-se a conversa entre António Monteiro, João Castanheira e Vanessa Fidalgo, a convidada da primeira edição desta segunda temporada. Vanessa Fidalgo é jornalista e demonstra uma ponta de carinho com as histórias e tradições do sobrenatural português, que tem recolhido em livros editados pela Esfera dos Livros. Na conversa, a autora falou-nos de como nasceu o seu gosto pelo sobrenatural, nutrido pela literatura fantástica, e partilhou algumas histórias das suas reportagens e investigações de recolha de tradições, lendas orais e histórias de maldições, assombrações e outras inquietudes. Aqui por este blog o tom dominante é ficção científica e tecnologia, apesar de não se desdenhar um bom susto, desde que não seja filamento derretido a entupir o extrusor. Desconheço os livros de Vanessa Fidalgo, mas a curiosidade ficou desperta. Intrigou-me a postura de curiosidade e fascínio, explorada num registo jornalístico com toques de recolha antropológica, mas sem os espartilhos trazidos pela necessidade de rigor académico.

 Release the bats?

Os morcegos estão de regresso. Confesso que não os provei. Dediquei-me a devorar fantasmas. É este o outro bom pormenor desta tertúlia, o permitir reunir fãs do fantástico literário e reencontrar amigos e conhecidos que partilham este interesse, para conversar sobre estas ideias que nos fascinam entre uma dentada num morcego e um gole de café. Sempre muito café, no meu caso, que isto as sextas-feiras são sempre longos dias no final de longas semanas.






António Monteiro invocando monstros na serra do Caramulo.

Para encerrar esta primeira sessão, António Monteiro sublinhou o lado literário deste evento lendo um dos seus contos, recordando-nos do papel que a literatura em geral, e a fantástica em particular, tinha nos tempos passados, onde os serões eram passados à luz bruxuleante da vela a ouvir ler. Um toque de dead media, nestes dias em que o cérebro tem muito à escolha para se distrair, em que a ubíqua electricidade conquistou há muito as trevas da noite e já mal recordamos o princípio elementar de todas as histórias: a voz humana a cortar o silêncio.

Bolas, isto soou algo pretensioso. Suspeito que esteja a precisar de reabastecer a chávena de café.

Sabe bem ter de volta este evento. Momentos em que os fãs destes géneros culturais se encontram rareiam. No ano passado a informalidade do Sustos às Sextas afirmou-o como mais um espaço de encontro, este ano a proposta renova-se, com algumas novidades. Uma delas deixa-me incerto. A colaboração de uma empresa de multimédia corporate na recolha de imagens e posterior edição vídeo das sessões traduz-se na presença de técnicos de câmara ou microfone em punho às voltas por entre os participantes. É distractivo, quebra a informalidade, e tem o seu quê de irritante estar concentrado nos momentos do evento mas ter na visão periférica aquela sensação de vigilância que se sente quando uma lente está nas proximidades. Os técnicos não foram muito subtis na sua presença, ontem. E, já agora, uma dica técnica: talvez não seja boa ideia usar sistemas sem fios de comunicação entre projector e computador para projectar. Questões de largura de banda.

A próxima sessão está marcada para dezanove de fevereiro. Está na agenda, claro.

sábado, 16 de janeiro de 2016

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Machines of Loving Grace


John Markoff (2015). Machines of Loving Grace. Nova Iorque: HarperCollins.


Um livro que parte com o objectivo ambicioso de detalhar os progressos e impactos da automação, inteligência artificial e amplificação de inteligência na tecnologia, economia e sociedade, mas falha redondamente, reduzindo-se a um deslumbramento com a cultura sillicon valley.

Não deixa de ter o seu valor. Markoff consegue de facto traçar um panorama da evolução da automação e inteligência artificial desde os seus primórdios até aos dias de hoje, marcando as diferenças entre a automação na economia com o pressuposto da inteligência artificial em ultrapassar os limites humanos, contrapondo com o potencial da amplificação da inteligência através de meios digitais ou robóticos inteligentes em parcerias que potenciam as capacidades humanas.

Aflora, de forma consistente mas por breves momentos, as piores implicações da automação e IA na economia, com um possível impacto tremendo na forma como concebemos o trabalho e as relações laborais. Não é assunto novo, e Brynjolfsson e McAfee fizeram-no de forma muito melhor em The Second Machine Age. Markoff invoca o aparente falhanço do argumento keynesiano de substituição de profissões tornadas obsoletas através de novas tecnologias com novas e impensáveis profissões, mas não se detém muito neste assunto, preferindo apontar os temores de forma pontual enquanto detalha as histórias de evolução quer da inteligência artificial quer de algumas implementações recentes que despertaram a atenção dos media, como os veículos autónomos e a SIRI, o assistente virtual incluído pela Apple nos iPhones.

O problema deste livro está na forma como mergulha de forma acrítica numa espécie de narração subserviente ao estilo sillicon valley. Ao detalhar a evolução de tecnologias de inteligência artificial/robótica/amplificação de inteligência, Markoff prefere centrar-se nalgumas figuras de charneira ao invés de detalhar a evolução tecnológica. Grande parte do livro é um longo organigrama sobre quem fez o quê e especialmente onde o fez. Tendência que se sente logo nos primeiros capítulos, onde o foco é necessariamente na academia e investigação universitária, e descarrila por completo quanto mais se aproxima dos dias de hoje. Torna-se uma espécie de reportagem frívola a falar de engenheiros, investigadores e programadores que fizeram projectos e geraram empresas que depois foram engolidas por outras empresas e saíram para fundar empresas que agora são outras empresas... e podia continuar com esta recursividade. É um típico discurso de um certo jornalismo económico, centrado na visão acrítica da cultura das startups como faísca da inovação e desenvolvimento tecnológico, mas faz falhar um livro que à partida afirma pretender analisar os grandes impactos da evolução tecnológica.

Se querem ler um quem é o quê e fez o quê nestes campos, Machines of Loving Grace é o livro indicado. Mas para perceber os potenciais e problemáticas trazidos pelas tecnologias avançadas de hoje, há obras bem melhores. E que nos recordam que se o panorama pode ser angustiante, as tecnologias inteligentes de robótica e IA que nos parecem quase mágicas hoje são de facto rudimentares e embrionárias, primeiros passos em campos de elevada complexidade, e ainda muito longe dos sonhos distópicos de Exterminadores Implacáveis, AMs e outras máquinas robóticas ou computacionais que reduzirão a humanidade  a artefacto arqueológico com extremo prejuízo.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

The Best of Warren Ellis: DOWN and Tales of the Witchblade


Warren Ellis (2006). The Best of Warren Ellis: DOWN and Tales of the Witchblade. Los Angeles: Top Cow Productions.

Duas histórias do Warren Ellis dos anos 90, mais escatológico e virado para a violência do que o hipermoderno Ellis de hoje. Interessante por vir de quem vem, mas a ler-se como produto comercial de uma época muito específica. Em Down, uma detective com propensão para abater a tiro qualquer culpado de violação é obrigada a infiltrar-se numa organização criminosa liderada por um polícia que, na sua missão secreta de infiltração, acaba por se tornar um rei do crime. A detective infiltra-se, com extremo prejuízo para os restantes criminosos, mas ao apanhar o seu alvo em flagrante violação, não se contém. Mata-o a tiro e decide tomar o seu lugar, planeando mergulhar a cidade numa onda de violência criminal.

Tales of the Switchblade leva-nos a um futuro próximo pós-escassez, com a imortalidade assegurada por tratamentos diários. O segredo de como foram desenvolvidos esses tratamentos revela-se quando uma série de assassínios violentos abala uma cidade que já não está habituada a este tipo de violência. O detective encarregue de investigar as mortes recorre à ajuda de uma ex-agente da CIA, que se revela portadora da Witchblade e o mergulha num mundo inesperado de sexualidade e violência.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Ciencia ficción: Guía de lectura

 

Miquel Barceló (1990). Ciencia ficción: Guía de lectura. Barcelona: Ediciones B.

A ironia é que este até é um bom guia sobre ficção científica, num estilo pocket lonely planet ou guia turístico similar. É um bom mapa, se bem que algo desactualizado, sobre o que é a FC, quais os seus temas, jargão, prémios, fandom, leituras sugeridas, listas de autores e uma apreciação do género em Espanha. Mas fica-se pela enumeração e listagem, recusando a entrada nos terrenos mais complexos da importância histórica, crítica e conceptual da FC. Bom mapa introdutório para muggles, incautos, descrentes ou desconhecedores de tudo o que é FC literária, que foi recentemente reeditado em versão actualizada.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

L'Impératrice de Therm

 
K.-H. Scheer, Clark Darlton (2011). Perry Rhodan #282: L'Impératrice de Therm. Paris: Fleuve Noir.

Séries de space opera de aventura como a veterana Perry Rhodan tornam-se interessantes pela liberdade criativa contida nas fronteiras de um espaço conceptual muito restrito. Não estando obrigadas à plausibilidade ou à especulação informada, podem expandir-se nas direcções mais bizarras ou intrigantes. É o lado positivo de uma Ficção Científica mais virada para entretenimento, socorrendo-se de estruturas narrativas repetitivas centradas nas aventuras de um punhado de personagens. É também o que ajuda a explicar a longevidade de séries como esta. Sendo repetitivas, dão sempre aos leitores algo que esperam e conhecem, misturado com algo de novo e improvável.

Este volume das longas aventuras de Perry Rhodan começa com uma longa cronologia de um universo ficcional que se iniciou nuns longínquos anos 50, com o cruzar entre a missão lunar falhada de Rhodan e os decadentes arkónidas e um futuro longínquo onde o herói imortal sulca o universo em busca de um planeta Terra oculto noutra galáxia. Sim, é estranho, e o caminho para lá chegar não menos bizarro, em episódios quinzenais de cinquenta páginas que ainda hoje não chegaram à conclusão.

L'Impératrice de Therm reúne quatro episódios, originalmente publicados em 1977, em que Rhodan navega pelo espaço na gigantesca nave geracional Sol em busca do segredo da localização do planeta Terra (certo, algo óbvio na FC, mas muito complicado na cronologia da série). Cruza-se com a Imperatriz de Therm, uma espécie de inteligência artifical que controla todo um sector galáctico e se prepara para uma guerra sem quartel com outras inteligências artificiais que se espalharam pelo espaço. Uma delas, Bardioc, controla a zona da galáxia onde se oculta a Terra perdida.

Reunido quatro episódios da série, embora tal não se note na estruturação desta tradução francesa, lemos quatro aventuras de um Perry Rhodan que só numa delas desempenha um papel importante. A primeira é a mais interessante, que nos mostra a origem da inteligência artificial. Numa civilização estelar em decadência acelerada, dependente dos seus sistemas informáticos (tiotrónicos, porque estes textos datam de uns anos 70 pré-internet), faz um gesto desesperado e transmite todo o seu conhecimento numa onda que irá atravessar o espaço enquanto a civilização que lhe deu origem cai na senescência. Milénios depois, a onda cruza-se com um planeta onde encontra formas de vida cuja evolução consegue controlar. Origina-se aí o império de Therm, onde uma inteligência artificial que reside no interior de estruturas cristalinas vive em simbiose com os Kelsires, uma civilização matriarcal naturalista e telepática cuja evolução no seu planeta foi condicionada pela onda de Therm, e com os Choolks, uma civilização tecnológica que dá à imperatriz a forma de se deslocar pelo espaço. Este voo quase surreal de biologias alienígenas, civilizações perdidas e formas de vida não biológicas é o melhor momento deste livro.

Nos restantes episódios, Rhodan e a nave Sol entram na órbita de Therm, planeta coberto por uma massiva matriz cristalina, e entram em contacto com a imperatriz. Esta dar-lhes-á dois desafios, para perceber se os acólitos do Estelarca (título algo pedante do imortal Rhodan) serão bons aliados na luta que antevê contra a inteligência artificial inimiga mais próxima. O prémio será o revelar da localização do planeta Terra. Estes desafios formarão os restantes dois episódios. Num, um destacamento da nave Sol dirige-se a outro planeta do sistema Therm, local misterioso onde as matriarcas Kelsires são exiladas no final das suas vidas. O mistério prende-se com o lado negativo da onda civilizacional que deu origem a Therm, cujo lado negro se cristalizou num planeta onde a luta do bem contra o mal, ou das luz contra as trevas, tem de ser vencida para equilibrar o sistema. No episódio final, outro destacamento da nave Sol irá explorar um misterioso continente isolado do planeta Therm, onde descobrem qual é o destino que espera os viajantes estelares que entram no espaço controlado pela Imperatriz. Nesse continente, centenas de espécies alienígenas inteligentes estão sob quarentena, aguardando  pelo momento em que a Imperatriz as considera aptas para lhes devolver a liberdade. Um momento que pode demorar gerações inteiras a surgir, ou então nunca acontecer.

Quatro de uma série que conta com mais de quatro mil episódios. Perry Rhodan é algo frustrante neste aspecto. É, talvez, hoje fisicamente impossível que alguém a venha a conhecer por inteiro. São demasiados volumes, numa continuidade invejável, inaudita e praticamente desconhecida fora da Alemanha.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Comics


The Fade Out #12:  Um final amargo, apropriado para esta série onde Brubaker e Phillips regressam às suas origens de policial noir. O cruzamento entre Black Dahlia e Hollywood Confidential era assumido numa história sobre a corrupção inerente ao studio system, onde o desejo de estar sobre as luzes da ribalta ultrapassa quaisquer escrúpulos ou pudores.


Swamp Thing #01: Desde que Alan Moore transformou aquele que era um pouco interessante personagem de segunda linha num dos mais intrigantes e populares da DC Comics, que o Monstro do Pântano tem sofrido das mais arrojadas tranformações. A época de Moore foi lendária, e constantemente reinventada ao longo dos anos por diferentes argumentistas que perceberam o quão longe Moore soube levar o personagem. Com uma origem e mitografia tão revistas, como inovar o personagem? E que tal regressar às origens absolutas? A DC incumbiu o veterano Len Wein, criador original do Monstro do Pântano, de escrever uma nova série. O resultado é o que se espera. O argumentista não renega a história posterior da personagem, mas quer visualmente quer em termos narrativos este é o Monstro clássico que Wein criou. O regresso ao passado ficaria completo se tivesse sido Berni Wrightson a ilustrar, se bem que Kelly Jones não deixa de ter o seu quê de anos 80.

Não deixa de ser interessante ver a DC a recorrer à estratégia legacy acts, aquela que tem servido à indústria musical para manter lucros recorrendo às bandas antigas.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Comics: FreakAngels #1; Nanking


Warren Ellis, Paul Duffield (2008). FreakAngels Volume 1. Rantoul: Avatar Press.

Em 2008, Warren Ellis juntou-se ao ilustrador Paul Duffield para uma experiência de edição digital. Semanalmente publicavam na página de Ellis uma prancha de FreakAngels, comic vagamente pós-apocalíptico sobre um estranho grupo de jovens com poderes estranhos que protegem o bairro de Whitechapel, numa Londres semi-submersa após uma catástrofe global. Com um ritmo que só se torna aparente ao fim de muitas semanas, é um primeiro passo de Ellis nos domínios dos apocalipses de hipermodernidade que explora correntemente nas séries Injection e Trees. O primeiro volume é essencialmente um estabelecer de cenários, introduzindo os personagens com as habituais personalidades desviantes de que Ellis tanto gosta, e mostrando as tensões entre a periclitante utopia social de Whitechapel, apoiada numa cultura faça você mesmo aliada às capacidades dos FreakAngels, e as facções violentas que dominam os restantes bairros da cidade semi-submersa.


Zong Kai, Nicolas Meylaender (2011). Nanking. Paris: Les Editions Fei.

Algo deprimente, constatar que por efeitos do acaso a primeira leitura de 2016 foi um comic sobre as atrocidades cometidas pelos japoneses em Nankim, num dos violentos prelúdios da II Guerra Mundial que foi a guerra sino-japonesa. Claramente panfletária, esta BD centra-se na história de uma criança, que permite três diferentes visões de atrocidades que apesar de bem documentadas não estão tão presentes na consciência global quanto as alemãs na Europa. Talvez porque até mesmo no campo do choque moral dos genocídios as diferenças de etnia continuam a pesar. O livro em si é interessante por se atrever a focar nesta página mal conhecida da história do século XX, com um grafismo expressivo que faz lembrar a propaganda agit-prop.