quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O Velho Logan: Zonas de Guerra


Brian Bendis, et al (2017). Marvel Coleção Especial #02: O Velho Logan - Zonas de Guerra. Lisboa: Goody.

Confesso que nunca percebi muito bem a base da premissa de Old Man Logan - se se trata de um futuro distópico, um mundo paralelo ou uma alucinação de múltiplas realidades. A premissa é brilhante, com Wolverine como o único herói que, apesar de não ser dos mais fortes, é realmente capaz de aniquilar heróis com poder superior ao dele num ataque de fúria assassina, sob controle de alucinações induzidas. O mundo futuro, desprovido de heróis e dominado pelos piores vilões da Marvel, é uma distopia apocalíptica a funcionar muito bem num cenário de western. Neste arco, com Logan a reentrar no papel de herói, agora a tentar ser o libertador das populações oprimidas pelos gangs criminosos, atravessamos diferentes realidades numa história de redenção, que parece terminar no universo da continuidade principal da Marvel. Visualmente, a combinação de traço e cor de Sorrentino e Maiolo dá a este arco narrativo um estilo fortíssimo, quase abstrato, com personagens difusas que se perdem em manchas de cor. Uma excelente proposta da Goody para o seu segundo volume da coleção Marvel Especial.

(E se não percebo bem as premissas de Old Man Logan... isso tem bom remédio, é ir ler essa série).

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Almanaque Steampunk 2017


Pedro Cipriano (ed.) et al (2017). Almanaque Steampunk 2017. Calvão: Editorial Divergência.

O regresso do Almanaque Steampunk foi uma das boas notícias do Fórum Fantástico 2017. Criado com algumas limitações de tempo, regressou esta vénia da cultura de género ao clássico formato de almanaque que, por cá resistiu até aos anos 50, se não me falha a memória. O interessante deste livro é sempre o ser uma forma diferente de conceber a ficção. É, para todos os efeitos, uma antologia, mas não se mostra como tal. Recriando o estilo do almanaque, com anúncios, notícias, ilustração, reportagem e dicas, é uma forma muito meta-ficcional de explorar o steampunk. Abordagem essa que, diga-se, lhe fica muito bem, perfeitamente consentânea com um estilo que é em si uma mescla visual e literária. Analisar aqui o conteúdo seria exaustivo -nesta publicação, até os elementos mais discretos são ficção, mas entre os contos destaco Algoritmos de João Ventura, pela forma intrigante como usa a roupagem steampunk para abordar temáticas do impacto social da robótica e automação, que hoje sentimos como actuais, num conto onde um detetive, com auxílio da lendária Ada Lovelace, descobre que a razão de um erro em tabelas logarítmicas produzidas por engenhos analíticos se deve à quase invisível sabotagem de um dente numa engrenagem por um calculador consciente da sua obsolescência face à computação.

Preciso de explicar o que é um engenho diferencial, engenho analítico e calculador? Não estou para aí virado. Leiam sobre Babbage, Lovelace e história da computação para isso. Computer: A History of the Information Machine, por exemplo. Ou leiam o Difference Engine do Gibson e do Sterling para perceber a raiz de um género literário que, entre outras coisas, se atreve a imaginar como seria o mundo se os engenhos que Babbage concebeu tivessem funcionado de forma alargada (em sentido restrito, especialmente com cópias alemãs, funcionaram).

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Comics


Barbarella #01: Mike Carey já nos havia falado um pouco deste reboot do clássico da BD de FC francófona, e este primeiro número é intrigante. Carey pega na óbvia sexualização da personagem mas segue um caminho diferente do erotismo do clássico de Jean-Claude Forest. O lado sexual está muito presente, mas segue a vertente do feminismo e das lutas culturais que opõem os progressistas a conservadores, em que a posse moral do corpo feminino é um dos campos de batalha.


Batman #36: A temporada de Tom King como argumentista deste ícone da DC está a ser tão boa que tenho a sensação que não há semana que não destaque o seu trabalho. A linha narrativa do casamento entre Batman e Catwoman está a ser uma boa oportunidade para King explorar alguns dos tropes clássicos do personagem. Neste caso, foca-se na estranha amizade que une Batman a Superman. Ambos se respeitam e evitam, apesar de serem espicaçados pelas suas companheiras para se juntarem e conversarem. Numa onda muito old school, que passa até pela recuperação irónica dos velhos slogans dos personagens, King arranja maneira de cruzar Superman e Lois Lane com Batman e Catwoman.



domingo, 10 de dezembro de 2017

À Nossa Imagem


Osamu Tezuka nailing it nos idos dos anos 50, em Astroboy. Do mito de Pigmalião aos autómatos medievais, do turco mecânico à Olympia, dos autómatos barrocos às evas mecânicas da ficção, entre o RUR e as sexbots que já podem ser compradas, das tartarugas de Grey Walter (e posteriormente Seymour Papert) ao Aibo, ASIMO e criações da Boston Dynamics. Entre T-1000 e C3PO.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Astroboy


Osamu Tezuka (2010). Astroboy Volume 1. Lisboa: ASA.

Por detrás do aparente simplismo deste mangá clássico podemos encontrar tendências curiosas. Há um forte transhumanismo proto-cyberpunk nestas histórias onde o herói é um robot que, construído como réplica mecânica do filho de um cientista, amargurado pela sua morte acidental, é por este abandonado porque a sua perfeição cibernética não simula por completo a criança humana em que se baseia. Recolhido por outro cientista, Astroboy tornar-se-á um herói, num futuro onde a humanidade coexiste com robots, entre o mecanismo e o humanóide, onde robots vão à escola com crianças humanas, e são, de facto, cidadão, nalguns casos muito de segunda. Temas que hoje discutimos e sobre os quais especulamos, sustentam um mangá juvenil dos anos 60.

Neste primeiro volume editado pela Asa, ficamos a conhecer a origem do personagem em O Nascimento de Astroboy lidamos com robots criados a partir de cães, numa conspiração para defender a lua de exploradores em O Regimento Hotdog, e assistimos a uma curiosa invasão da Terra por robots alienígenas vindos de um planeta extinto que, fiéis à sua programação, querem roubar metade da água do nosso planeta, em O Rapaz Planta.

A simplicidade das histórias é sublinhada pelo traço, também simples e fugindo do realismo em direção ao cartoon. Apesar disso, Tezuka surpreende com uma sólida estética futurista, retro aos nossos olhos, que dá vida e elegância à tecnologia.


Osamu Tezuka (2010). Astroboy Volume 2. Lisboa: ASA. 

Subjacente às aventuras de Astroboy está uma corrente de luta por direitos sociais. Na série, há sempre presente uma tensão entre a sociedade humana que criou e explora os robots, e a noção do robot como ser individual, com direitos, longe da ideia de mecanismo criado para servir.

Em Sua Alteza Deadcross, Astroboy combate um perigoso vilão que quer destituir o líder eleito de um país, o primeiro robot eleito para cargos políticos. No O Terceiro Mágico, um robot exímio nas artes da ilusão é raptado e clonado para executar assaltos impossíveis, o que leva o governo a querer eliminar os direitos dos robots. Planeta Branco, onde um jovem corredor descobre o segredo do carro robótico com que tem ganho corridas, encerra este segundo volume do clássico de Osamu Tezuka.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Miracleman: A Idade do Ouro



Neil Gaiman, Mark Buckingham (2017). Miracleman: A Idade do Ouro. Lisboa: G.Floy.

Se Alan Moore reinventou um personagem clássico, algo patético, da primitiva BD britânica de super-heróis, fê-lo seguindo temas e uma estrutura que se viria a tornar um padrão na sua obra. Do desconhecimento de si ao arquétipo, projetando no super-herói a necessidade mítica de um deus moderno. Quer siga a super-ciência como em Miracleman, o ambientalismo místico em Swamp Thing ou a magia mítica de Promethea. Neil Gaiman soube construir sobre essa base definida pelo seu predecessor na série, mudando o ponto de vista ao leitor. Moore centrou-se no herói e suas lutas, que culminam na apocalíptica destruição de Londres, momento fundamental para se forjar uma nova era dourada onde o todo-poderoso herói usa os seus poderes para instaurar um reinado benevolente, ditando assim os destinos da humanidade. É para a humanidade que Gaiman olha, perguntando-se como seria viver nessa utopia onde seres mais poderosos do que os mitos religiosos determinam, com benevolência, o devir humano. Um ponto de vista ingénuo, é certo, nada garante que este tipo de seres se sintam inclinados à bondade. É uma curiosa continuação da inacabada história do clássico Miracleman, agora trazida ao público português pela G.Floy, após editar num volume único toda a série de Alan Moore. É um livro especialmente notável pela ilustração de vanguarda de Mark Buckingham.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Comics


Batman Annual #02:  Tom King está a jogar a sério com a cartada do casamento de Batman e Catwoman. Uma relação ambígua deixada em suspenso por outros argumentistas, que King está a explorar até à sua conclusão lógica. O que explica este invulgarmente tocante Batman Annual, que nos leva a um futuro onde o manto do homem-morcego passou para a sua filha, e um envelhecido Bruce Wayne sucumbre a um cancro, sempre acompanhado pela sua apaixonada Selina Kyle. Uma surpresa inesperada na série.


Doctor Radar #01: Um pouco de bande dessinée, via a editora britânica Titan Comics. Em estilo retro, com mistérios e assassínios entre cientistas que, nos anos vinte do século XX, ousam tentar alcançar a lua.

domingo, 3 de dezembro de 2017

aCalopsia: A Última Nota

 
Mais uma edição da Escorpião Azul lançada no Amadora BD, a apostar em novos criadores da BD portuguesa. A Última Nota é uma leitura divertida e leve, com falhas estéticas e narrativas que teriam sido limadas com um verdadeiro trabalho de edição. Algo que é um padrão, na oferta editorial da Escorpião Azul. Crítica completa no aCalopsia: A Última Nota.

sábado, 2 de dezembro de 2017

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

DC Universe By Alan Moore

 
Alan Moore, et al (2011). DC Universe By Alan Moore. Nova Iorque: DC Comics.

O maior contributo de Alan Moore para o universo DC foi a sua reconstrução basilar de Swamp Thing, recriado a personagem num misto de mito, sobrenatural e ecologia. Um trabalho que ainda hoje forma uma das espinhas dorsais da DC Comics, entre Constantine e o próprio Monstro do Pântano. Este volume colige argumentos para outras personagens, e lido à distância, longe das continuidades de séries e arcos narrativos dos anos 90, sente-se o quanto Moore não ligava muito ao género. As suas histórias seguem sempre uma métrica precisa e desapaixonada, e nalgumas, especialmente as que desenvolveu para Green Archer, Green Lantern ou para os heróis da Wildstorm, percebe-se que Moore estava apenas a escrever a metro. O grande destaque aqui vai para as duas histórias seminais que Moore escreveu para Superman, reimaginando o futuro da personagem se o seu planeta de origem não tivesse sido destruído em For The Man Who Has Everything, ou pensando o inimaginável, a morte de Superhomem em Whatever Happened To The Man Of Steel. Aqui é Moore no seu melhor, expandindo a mitologia do personagem em direções inesperadas. Também surpreende a mini-série que escreveu para Voodoo, tentando recriar a personagem indo às raízes da religião vodu, escapando à história original da Wildstorm. Voodoo viria a ser recuperada pela DC como híbrido humano-alienígena. Uma série que falha, pela excessiva sexualização da ilustração.


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

aCalopsia: Lugar Maldito

 
Entre o lado negro das tradições e o terror psicológico, Lugar Maldito mergulha-nos num drama familiar com o isolamento do interior como pano de fundo. Entre as pulsões da paixão e da paranóia, e as forças sobrenaturais arreigadas na tradição popular, em Lugar Maldito a relação de um jovem casal irá sucumbir numa espiral de horror e violência. Com um argumento ritmado de André Oliveira e o traço expressivo de João Sequeira, esta edição da Polvo posiciona-se como um dos melhores livros de Banda Desenhada de autores portugueses do ano de 2017. Entre o terror e a cultura popular tradicional, dá-nos uma história eficaz com ilustração marcante. Crítica no aCalopsia: Lugar Maldito.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Goliath


Nicola Mari, Ruju (2017). Dylan Dog Tome 3: Goliath. Saint-Ergève: Editions Mosquito.

Numa plataforma isolada do mar do norte, os prospectores ao encontrar uma jazida profunda de petróleo libertam um mal antigo. Oculto sob as profundezas abissais, um organismo antediluviano regressa à superfície. Uma espécie de cancro viral, que se apossa dos corpos das suas vítimas e as envolve numa espécie de mente-enxame para se propagar. Com a plataforma dominada pelo organismo, a empresa que a detém perde o contacto. 

Dylan Dog e Groucho integram a equipa que irá à plataforma investigar o sucedido. Tudo corre pelo pior, com uma viagem debaixo de uma violenta tempestade e o naufrágio do navio que transporta a equipe de socorro. Presos na plataforma, resta aos sobreviventes compreender a dimensão da ameaça e tentar aniquilar esta ameaça vinda de um passado longinquo.

Mari e Ruju dão-nos nesta aventura do Old Boy uma clássica história de terror claustrofóbico, com um grupo isolado em espaços exíguos a tentar sobreviver a uma ameaça assassina. O toque lovecraftiano, com criaturas antediluvianas tentaculares vindas das profundezas, cruza-se com a óbvia referência a The Thing de John Carpenter.

Como curiosidade, esta aventura originalmente publicada num almanaque Dylan Dog está aqui como edição francesa no formato álbum, que não se ajusta muito a este tipo de banda desenhada. As revistas têm um formato diferente da prancha de álbum. A personagem e continuidade Bonelli estão mostradas de forma muito discreta, porque como observou João Lameiras na loja da Dr. Kartoon no AmadoraBD, os franceses não gostam muito de evidenciar estas personagens.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Comics


Doomsday Clock #01: Ah, Watchmen, a série brilhante que Alan Moore criou com personagens esquecidos da Charlton para a DC Comics. Também a origem da lendária zanga de Moore com a DC, porque este esperava que os direitos de autor da série revertessem para si a partir do momento em que a editora deixasse de a publicar... algo que nunca aconteceu, com reedições constantes, filme, e extensão do universo ficcional com a série Before Watchmen. Agora o passo seguinte é o lógico: inserir os personagens de Watchmen na continuidade principal da DC Comics. Algo que, pelo tom deste primeiro Doomsday Clock, será feito em rota de colisão, com um Dr. Manhattan a funcionar como relojoeiro entre universos. O mundo de Watchmen está em colapso iminente, com a conspiração de Veidt desmascarada, e em risco de guerra nuclear. O estilo gráfico e narrativo está muito próximo do original, com Geoff Darrow a manter a estrutura rígida de prancha para marcar a narrartiva que Alan Moore usou, e o ilustrador Gary Frank a aproximar-se muito do estilo visual de Brian Bolland. Goste-se ou não das trafulhices que a DC fez a Moore, a verdade é que Geoff Darrow tem sido um cuidadoso cuidador de Watchmen, trabalhando para que a visão original não se dilua na expectável banalidade do comic de super-heróis. Um esforço que é notório neste primeiro Doomsday Clock.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Mr. Higgins Comes Home



Mike Mignola, Warwick Johnson-Cadwell (2017). Mr. Higgins Comes Home. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Para comemorar em cheio o halloween deste ano, Mike Mignola oferece-nos este conto de terror tão inspirado na literatura vitoriana como nos filmes clássicos de série B da Hammer. Nos recantos obscuros da Transilvânia, o castelo do temível vampiro conde Golga congrega numa festa anual os mais terríveis monstros da escuridão. Um par de caçadores de vampiros descobre-se convidado deste festim fantasmagórico, e traz consigo Mr. Higgins, uma vítima do vampirismo do conde que se revelará ser um lobisomem. Soltem um lobisomem sedento de vingança numa festa social de vampiros o resultado não será agradável, para quem for vampiro. Uma história divertida de Mignola, ilustrada num estilo visualmente deslumbrante, a remeter tanto para a inocência do conto infantil como para a iconografia gótica do terror, por Warwick Johnson-Cadwell.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Man-Computer Symbiosis


"The political process was a favorite example of his. In a McLuhanesque view of the power of electronic media, Lick saw a future in which, thanks in large part to the reach of computers, most citizens would be “informed about, and interested in, and involved in, the process of government.” He imagined what he called “home computer consoles” and television sets linked together in a massive network. “The political process,” he wrote, “would essentially be a giant teleconference, and a campaign would be a months-long series of communications among candidates, propagandists, commentators, political action groups, and voters. The key is the self-motivating exhilaration that accompanies truly effective interaction with information through a good console and a good network to a good computer.”"

A ironia de ler esta visão do potencial libertador da tecnologia, enunciado por JCR Licklider, um dos grandes pioneiros da computação em rede, na era em que a promessa libertadora da rede se esfumou nas bolhas cognitivas, fake news, e enviesamento da opinião pública através dos algoritmos de redes sociais. Os peritos russos em desinformação, só para citar um dos grupos de experts em manipular consciências através do implante de falsas informações e opiniões bombásticas em redes, estão a fazer muito bom uso desta intuição de Licklider nos anos 50.


Lick’s thoughts about the role computers could play in people’s lives hit a crescendo in 1960 with the publication of his seminal paper “Man-Computer Symbiosis.” In it he distilled many of his ideas into a central thesis: A close coupling between humans and “the electronic members of the partnership” would eventually result in cooperative decision making. Moreover, decisions would be made by humans, using computers, without what Lick called “inflexible dependence on predetermined programs.” He held to the view that computers would naturally continue to be used for what they do best: all of the rote work. And this would free humans to devote energy to making better decisions and developing clearer insights than they would be capable of without computers. Together, Lick suggested, man and machine would perform far more competently than either could alone. Moreover, attacking problems in partnership with computers could save the most valuable of postmodern resources: time. “The hope,” Licklider wrote, “is that in not too many years, human brains and computing machines will be coupled . . . tightly, and that the resulting partnership will think as no human brain has ever thought and process data in a way not approached by the information-handling machines we know today.”

Mais à frente, um ideário sobre o impacto da automação e robótica, também da mesma altura e do mesmo pioneiro, uma visão positivista completamente inversa dos nossos correntes receios sobre o potencial de uma humanidade obsoleta, num mundo automatizado e algoritmizado.

in Hafner, K., Lyon, M. (1998). Where Wizards Stay Up Late (The Origins of the Internet). Nova Iorque: Touchstone

Dormir Com Lisboa

 

Fausta Pereira (2017).  Dormir Com Lisboa. Santiago de Compostela: Urco.

Este é um livro curioso. De autora portuguesa, publicado apenas na Galiza por ter sido vencedor de um concurso literário galaico, leva-nos a uma Lisboa de todos os dias que, repentinamente, parece revoltar-se com os seus habitantes e aqueles que por ela passeiam e passa-a a engoli-los, aleatoriamente. Buracos inesperados que se abrem nos pavimentos e devoram transeuntes insuspeitos.

Estará a cidade a revoltar-se contra os seus habitantes? Será um reflexo da descaracterização e transformação em parque temático provocado pelos excessos do aproveitamento turístico? Será o último grito da ideia que temos da cidade clássica face às transformações da modernidade? Políticos, militares e cientistas procuram explicações e soluções, mas não as encontram. A cidade fica em estado de sítio, só saem à rua os mais incautos ou corajosos, a qualquer momento, em qualquer rua ou beco, pode-se abrir um buraco devorador. Nada se sabe dos desaparecidos, que não deixam qualquer rasto. Enquanto se agudiza a confusão dos responsáveis políticos, a razão dos desaparecimentos vai-nos sendo revelada, envolvendo a encarnação de uma entidade que se assume como o grande arquitecto da cidade e que rapta temporariamente lisboetas para lhes ler os sonhos, interpretando-os em Lisboas que nunca existiram, ou que já existiram mas desapareceram. Encontrará aqui traços do que é a cidade, e para onde ela se poderá desenvolver.

É aqui que o livro falha um pouco. O foco centra-se muito nas discussões e decisões dos políticos que tutelam, os cientistas que investigam, e os militares que policiam. O retrato é bastante expectável, naquele registo de ironia fina que retrata a mesquinhez, pequenez e competência duvidosa que projetamos nestas personalidades. Muitas páginas com isso, e comparativamente poucas onde o livro consegue ser espantoso, nos retratos oníricos de uma Lisboa que poderia ter sido. É nesses momentos, retratados nos depoimentos dos desaparecidos que reapareceram tão misteriosamente como tinha desaparecido, que esta história ganha asas, força e envolve emocionalmente o leitor.

Lisboa é aqui revista num toque de realismo mágico, próximo do fantástico. Uma forma diferente, inesperada porque vinda de fora, apesar da escritora ser lisboeta, de imaginar a cidade de que tanto gostamos.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Comics


Batman #35: Toda uma edição dedicada a uma luta entre Catwoman e Thalia al'Ghul? Estamos a perceber o que fizeste, Tom King. Subtil, mas está lá, o cheesecake de uma catfight. Disfarçado debaixo do desenrolar da história, temperado com frases icónicas, mas essencialmente vinte e tal páginas de duas mulheres atraentes à porrada uma com a outra. Com espadas aguçadas, para dar mais intensidade à coisa.


The Wildstorm #09: O irresistível momento Warren Ellis. Só ele é que se atreveria a colocar uma raygun clássica de Buck Rogers dentro de uma série sobre agências super-secretas, alienígenas benevolentes, tecnologias no limiar do racional e uma luta entre forças, uma que domina na Terra e outra na sua órbita, em essência uma variante do alquímico em cima, tal como em baixo.

domingo, 19 de novembro de 2017

aCalopsia: SINtra


Sob a cobertura da noite, seres amaldiçoados percorrem o arvoredo em busca de vítimas inocentes, procurando alimento para os seus demónios. Uma das mais recentes edições da Escorpião Azul, SINtra leva-nos a descobrir os mistérios tenebrosos que se ocultam sob a floresta de uma serra mais conhecida pelo seu lado bucólico. Dos lançamentos mais recentes da Escorpião Azul, este SINtra surpreende. Com uma história bem contada, que agarra o leitor, e um grafismo marcante, bem desenvolvido, é uma das mais interessantes propostas de uma editora que está a dar voz aos novos talentos da banda desenhada portuguesa. Crítica completa no aCalopsia: SINtra.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Deadpool: O Mercenário Desbocado


Gerry Duggan, et al (2017). Marvel Coleção Especial #01 - Deadpool: O Mercenário Desbocado. Lisboa: Goody.

Não tendo visto o filme nem seguido atentamente a continuidade do universo Marvel, ainda não percebi em que se baseia a enorme popularidade de Deadpool. A irreverência e o tremendo humor negro em ambiguidade moral destacam-no do geralmente mais simples universo de ideias da Marvel. Não que nesta editora não abundem personagens moralmente ambíguos, mas são geralmente representados em tom grave e trágico. É essa a diferença que marca Deadpool, cuja irreverência é irresistível.

No entanto, é preciso mais do que um conjunto de boas piadas e uma personagem irreverente para contar uma boa história. É o que se sente nesta edição da Goody, que colige um arco narrativo da série numa edição especial. Não é uma aventura especialmente interessante, apesar dos bons momentos de humor, mas também não vem mal ao mundo por isso. Os comics são eminentemente de entretenimento, e isso é conseguido. Nem todas as leituras têm de ser clássicos instantâneos.

Já a iniciativa da Goody é interessante, apesar de me parecer algo saturadora de mercado. Depois da aposta no regresso dos comics infantis da Disney, agora cativa novos públicos e agrada aos fãs clássicos com edições Marvel. Sem prometer continuidades editoriais, optando pelo formato séries para trazer estes comics ao público português. Parece que está a resultar. Os Vingadores e Homem Aranha irão para segunda série e foram reforçados com esta coleção especial.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

aCalopsia: O Rio Salgado

 
Uma das novidades editoriais da Polvo apresentadas no Amadora BD, O Rio Salgado de Jan Bauer surpreende pelo seu rigor estético e plasticidade do grafismo. Em O Rio Salgado, uma caminhada no remoto deserto australiano é o palco de um amor condenado, com a omnipresente paisagem a captar o olhar do leitor. “Outras histórias são verdadeiras, isso quer dizer que foi a vida a escrevê-las” é talvez a frase que melhor explica este livro. Junto com a assombrosa ilustração paisagística, forma uma muito interessante proposta de leitura. Crítica completa no aCalopsia: O Rio Salgado de Jan Bauer.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Cassini Huygens A Probe to Titan Eric Pailharey, Fred Vignaux


Eric Pailharey, Fred Vignaux (2004). Cassini Huygens A Probe to Titan. Noordwijk: ESA ESTEC.

Esta publicação da ESA é um típico exemplo de banda desenhada pedagógica, essencialmente um longo infodump sobre ciência, exploração espacial e a missão Cassini/Huygens. Visualmente não se afasta do estilo de bd ilustrativa, com toques de cartoon. Está apropriada ao seu público-alvo, apesar de não ser especialmente cativante. Há outras formas de contar a história da exploração espacial em bd que funcionam melhor.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Comics


Injection #15: A piada whoviana é um aceno ao fim deste arco narrativo da série de Warren Ellis. Para lá do futurismo decadente do autor, Injection é também uma homenagem intertextual sua aos personagens icónicos da cultura pop britânica. Neste arco, claramente, o visado é Doctor Who.



Port of Earth #01: Histórias de FC com primeiro contacto com alienígenas seguem habitualmente dois caminhos, o da benevolência ou da tirania de civilizações superiores, com consequências para a nossa. Mas e se os alienígenas se estiverem nas tintas? Trees, de Warren Ellis, explora isso num campo abstrato. Este Port of Earth segue outro caminho. Os extra-terrestres estão apenas interessados na Terra como ponto de passagem, e o seu porto estelar é, essencialmente, uma estação de serviço num rochedo remoto povoado por indígenas sub-desenvolvidos.