quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Ficções


Lisboa no Ano 2000: Um dos textos elementares da ficção especulativa portuguesa. Escrito em 1906 pelo jornalista Melo de Matos nas páginas da revista Ilustração Portugueza. Um futuro especulativo, os primórdios do século XXI vistos pela lente do final do século XIX, ainda a apostar na perenidade dos sonhos colonialistas e no eterno sonho da afirmação de Portugal como um país de poder e referência, com Lisboa como nexo de impérios, linhas comerciais e vias de comunicação. Vale pelo que vale, como texto de referência, que nos faz sorrir com este século XX de telégrados e crinolinas, de comboios a vapor nos túneis sobre o Tejo e frotas de dirigíveis a aportar ao grande porto comercial lisboeta. Reeditado pelo Projecto Adamastor em formato digital, primeiro da sua colecção Génesis de clássicos da ficção especulativa portuguesa.

O Indescritível Senhor Salcedo: Começa incerto, entre o tom policial noir e a sátira a este mesmo estilo narrativo, mas depressa se torna numa eficaz história de horrores demoníacos. Um inspector endurecido por anos de investigação de crimes vê-se obrigado a recorrer aos serviços de um untuoso e arrepiante investigador do paranormal, para conseguir deslindar um caso de assassinio misterioso que está a alastrar para os colegas de trabalho. Todos os que tocaram no corpo de um homem morto em circunstâncias excessivamente estranhas acabam também por sofrer mortes horrendas, excepto o intrigado inspector que tem uma rara imunidade natural ao sobrenatural. Resta o indescritível Salcedo, conhecedor íntimos dos horrores que se ocultam nas fímbrias obscuras do real, para colocar um ponto final na mortífera história. Um curioso misto de policial noir com fantasia urbana e horror, agradável leitura na prosa leve e escorreita de Renato Carreira.

Aparição: Renato Carreira é o criador da genial (e infelizmente pouco divulgada) série Alpha 33, uma brilhante sátira ao estado novo que mistura elementos de James Bond com portugalidade em estado puro (e, ao contrário da divertida eterna promessa do Capitão Falcão, não é vaporware). A visão satírica, bem estruturada dentro do género fantástico, desta série levou-me a nomear um dos seus contos para Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Conto (e, estranhamente, acabou como parte da lista final de nomeados). Já este Aparição revela-nos um outro Renato Carreira, em sátira mais subtil. Quase nem se nota, mas quem conhecer quer a história do século XX quer os mitos marianos sabe que está lá. Imaginem-se em S. Petersburgo em 1917, com a revolução vermelha a triunfar, Lenin a discursar à multidão triunfante, e de repende... surge uma Virgem Maria nos céus, a convidar à conversão dos heréticos russos vermelhos. Só Estaline é capaz de salvar a revolução, sugerindo a Lenine que há métodos de fazer a populaça esquecer momentos incómodos para o novo regime e assegurar que a história é escrita com as palavras certas. Um conto interessante deste autor.

terça-feira, 25 de Novembro de 2014

Work in Progress


Era daquelas coisas que me andava a apetecer fazer há algum tempo mas nunca mais arranjava vontade. E a seguir a isto talvez me meta com um Dalek, ou uma sonic screwdriver. O mote veio misto, da Timelord Academy e do workshop de Sketchup. Até porque o verdadeiro desafio não foi modelar uma Tardis, foi fazê-lo com precisão nas medições. É algo que não exploro muito (pronto, confesso, nada) ao usar o Sketchup. Raramente olho para as dimensões, as escalas não me preocupam, e o estilo de trabalho é mais livre. Aqui quis fazer o oposto: partir de medições rigorosas, usando as guias e a fita métrica do Sketchup. Lição número um: se se vai trabalhar com precisão de milímetros, é má ideia usar o template em metros. Muito má ideia. Segunda lição: componentes fazem um jeitaço ao trabalhar com precisão. Colocamos todo o esforço de rigor num elemento e o resto está alterável se necessário. Ah, e como suspeitava, o follow me safa-se muito bem com curvas complexas em revolução.

Ficções

Huxleyed into the full Orwell: O título resume na perfeição o carácter hacktivista do conto de Doctorow para a estreia da revista digital de Ficção Científica da VICE. Em nome da conveniência, entretenimento e falsa sensação de segurança vamos aceitando restrições às nossas liberdades pessoais e intelectuais que se acumulam em algo muito próximo de uma distopia orwelliana. A história em si projecta num futuro próximo os dilemas dos hackers white hat que se vêem amordaçados e ameaçados de prisão por exporem falhas óbvias nos sistemas. Amordaçados não por implicações de segurança mas porque ao fazê-lo caem dentro das intricacias da infracção de patentes.

The Brain Dump: Há uns meses atrás Bruce Sterling foi fazer turismo para as zonas secessionistas da Ucrânia. O resultado está à vista neste conto, narrado num inglês incerto sob o ponto de vista de um grupo de hackers encalhados numa garagem da cidade de Donetsk. Um bom tomar de pulso às utopias tecnicistas digitais, o tal clicktivismo que Evgeni Morozov tanto gosta de critica, quando se confrontam com a dura realidade da realpolitik na ponta do tanque, com uma boa dose de pessimismo das fímbrias geladas da europa em depressão austerizada.

segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Fórum Fantástico no Diário Digital


Este ano o Fórum Fantástico contou com uma parceria com o Diário Digital, cuja cobertura do evento se traduziu neste conjunto de artigos que deixo aqui, como preservação da memória do evento:

FF2014: O Universo do Fantástico está prestes a chegar a Lisboa

Lisboa: Fórum Fantástico 2014 arranca esta sexta-feira em Telheiras

Fórum Fantástico 2014: Uma homenagem a Julio Cortázar e muitas surpresas

FF2014: Mas afinal o que é isto do Fantástico?

A materialização do digital e o advento dos retrogamers

Cortázar, Hernández, Guillermo Cabrera Infante, Bolaño e Mutis, que terão em comum?

Uma excelente e completa cobertura do evento, que levou a um público mais abrangente a magia dos três dias do Fórum Fantástico 2014.

Comics


The Annihilator #03: Livre dos constragimentos das editoras mainstream, Grant Morrison mergulha-nos num psicadelismo introspectivo deliciosamente ambíguo. Estaremos a assistir às alucinações de um argumentista com um tumor cerebral? Será uma história de FC clássica com alienígenas a invadir a terra e um herói galáctico para a defender? Será uma introspecção sobre o processo criativo? Esta vinheta em que a história é um cancro na mente do escritor deixa-nos a pensar.


The Multiversity Pax Americana #01: Segunda dose de Grant Morrison, desta vez no épico Multiversity. Leva-nos a Earth-4, onde os heróis são os adquiridos pela DC à Charlton Comics, aqueles em que Alan Moore se baseou para o marcante e incontornável Watchmen. Aliás, este Pax Americana lê-se como Watchmen reescrito por Grant Morrison. Percebe-se a vénia a Moore, dentro da complexidade multimensional cujo fio condutor é a revista de banda desenhada que contamina os mundos paralelos. Este é um momento forte e implacável da série, com Morrison a não poupar os leitores com super-heróis rendidos ao establishment, outros amorais e outros que condescendem em tratar os inferiores humanos como se realmente os primatas ruidosos fossem dignos de atenção. Estou curioso com a próxima paragem da convoluta narrativa, e especialmente curioso sobre como irá Morrison encerrar a série. Será que no final tudo encaixará e fará sentido?


Victorian Secret Steam Queens #01: Há muito pouco de steam e vitoriano nesta edição saída de uma editora especializada em steampunk. Variante de War of the Worlds, adopta um sólido e cativante estilo dieselpunk. As publicações da Antartic Press não se distinguem pela complexidade narrativa, apesar de terem um certo encanto ingénuo de steampunk à solta. Visualmente, esta variante dieselpunk surpreende e agrada,


Tooth and Claw #01: Outra boa surpresa visual, com um argumento intrigante. Os talentos combinados de Ben Dewey e Jordie Bellaire dão vida com o melhor da estética do fantástico com toque steampunk. O argumento de Busiek promete. Dá-nos a entender que esta história de mito e magia se passa num futuro onde a magia é real e os animais antropomórficos falam. Mas houve um passado, e intui-se que a faísca da magia terá sido despertada por um humano. Parte de mim quer que a narrativa de fantasia mágica clássica continue, outra parte intui qualquer coisa no domínio das virtualidades e da tecnologia entendida como magia, numa espécie de Doutour Moreau cyberpunk. Intrigante, muito intrigante.

domingo, 23 de Novembro de 2014

Insta



Portugal Timelord Academy


Não resisti ao Dalek. Quero um destes para a minha biblioteca.


Spot the Doctor? Um dos organizadores do evento, em excelente cosplay.


Wow. Não é para todos. E bolas, tenho ido a tantos congressos apresentar trabalho, mas foi no meio de whovianos que me deram um lugar reservado... e bem acompanhado.


Why, Doctor, Why, ou como me deixei de preocupar e passei a adorar o Doctor Who. Com t-shirt a condizer.

Tive a honra e prazer de na passada sexta-feira, dia 21, ter estado presente na primeira Portugal Timelord Academy organizada pela Whoniverso. Adorei entrar na Faculdade de Ciências - Universidade de Lisboa e deparar com um grupo de cosplayers convictos (a impossible girl estava quase indistinguível) e fãs profundamente conhecedores da série, Aliás, no que toca ao público, era palpável que estávamos perante uma audiência altamente inteligente. Os meus sentidos de professor ficaram aguçados. Não é todos os dias que tenho a oportunidade de estar perante públicos destes. Não é que os meus alunos não sejam inteligentes (são-no, e ai de mim se estiver a meio gás numa aula) mas aqui o sabor foi outro.

A conversa à volta de Doctor Who começou com o brilhante e tri-doutourado John Brown a falar sobre o cérebro, e muito bem. Apresentação brilhante. Seguiu-se Alexandra Rolo, a falar-nos de bananas (whovians get it) e do hábito que o Doutor tem, nas suas várias regenerações, de saltitar entre épocas históricas. João Harkness, da Whoniverso, mostrou-nos Cardiff, onde está localizada a produção desta série quinquagenárias, e o Dr. José Pedro Mimoso veio-nos fala de timey wimey wibbly wobbly stuff na conferência Contra TempWhos sobre a teoria e história das viagens no tempo. Também participei, com uma intervenção mais pessoal sobre sense of wonder e suspensão de descrença, ou como alguém que se dedica à FC hard e apesar de gostar de FC televisiva e cinematográfica sou incapaz de não as desmontar com a lâmina de Occam. Excepto com o Doctor Who, que aceito, e gosto, tal e qual como é. Divertido, dinâmico, imparável, excêntrico. E que assim continue. Devo um agradecimento à Alexandra Rolo, ´que se recordou de mim quando o Whoniverso andou em busca de whovianos.


Ah, já agora, que dia é hoje? Parabéns, Doctor!

Alguém trouxe uma banana?


Cenas do meu workshop de Sketchup, ontem, no Museu das Comunicações. Para saber mais sobre o como e o porquê, visitem as TIC em 3D.

Coisas que descobri neste momento: aqueles que trabalham intensivamente com desenho vectorial adorariam que o Sketchup permitisse curvas de bézier (eu também); é preciso pensar como um escultor para perceber bem a modelação neste programa, wibbly wobbly aplica-se bem à geometria e operações complexas, já timey wimey nem por isso (whovians get it); ninguém tinha uma banana (one should always bring a banana to a party, novamente whovians get it).

Estou contente. Não foi um momento hashtag fa-ail! Tive cerca de oito formandos, apesar de uma lista de presenças que prometia muitos mais. Vejo isso como não foram só oito, já foram oito. Neste tipo de projectos, um pouco fora da ribalta das TIC, que neste momento passa, e muito bem, pela robótica, open hardware e programação, com um pé nas artes, não é muito óbvio à primeira vista qual a sua vantagem. Num final de um período lectivo particularmente difícil e humilhante para os professores, perante um ministério em fim de vigência que intensifica os esforços em todos os quadrantes para denegrir, prejudicar, dificultar as condições de trabalho, no fundo demolir a profissão docente, o cansaço e a desmoralização são se calhar factores que se têm em conta quando temos de acordar cedo a um sábado de manhã para ir a um workshop. Enfim. Pessoalmente faço estas coisas e não baixo os braços, mas faço-o com a plena consciência dos tempos danosos em que vivemos, da duplicidade das instituições que nos tutelam, dominadas por zelotas de interesses financeiros pouco claros mas muito óbvios, e dos caminhos de derrocada trilhados pelo sistema de ensino português. Os cada vez menos professores que investem em clubes, projectos e ideias inovadoras fazem-no apesar de todos os obstáculos com que cada vez mais se deparam.

Não consigo deixar de manifestar os meus agradecimentos à Associação Nacional de Professores de Informática, especialmente à Fernanda Ledesma, cuja tranquila discrição esconde um enorme dinamismo, a todos os participantes, e ao Dr. Vítor Cardoso, meu ex-orientador de mestrado e mentor nestas coisas do 3D virtual, que há uns anos atrás, nos primórdios da minha tese, me disse e que tal se experimentar um pouco de Sketchup (foi quase numa outra vida, e nalgumas dimensões da minha vida pessoal foi mesmo numa outra vida). Agora, próximo desafio: um workshop sobre animação 3D. E a seguir, uma acção de formação sobre 3D com sketchup (que, sem querer soar convencido, é capaz de ser a primeira acção de formação para professores dedicada ao 3D. Sou capaz de estar enganado, mas nas áreas geográficas/centros de formação em que me movo nunca dei com nenhuma do género).

sábado, 22 de Novembro de 2014

Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular


Oraculum Mortuum é uma notável exposição, patente na Galeria El Pep, Imaviz Underground. Gisela Monteiro expõe fotografias que revêem a iconografia dos arcanos maiores do tarot a partir de pormenores da arquitectura tumular. Se não compreendi as metáforas iconográficas do Tarot, por desconhecimento meu sobre o tema, fiquei rendido à estética das fotos. Poderosos contraste a preto e branco, um olhar para pormenores de encanto tenebroso, forte valorização das texturas, em fotos tiradas nos mais clássicos cemitérios de Lisboa, Porto, Dublin e Milão.


Tive a sorte (e privilégio)  de contar com a presença da autora durante a visita à exposição (pronto, confesso, pontaria que o evento teve anúncio prévio). Foi uma excelente conversa, que me deu a conhecer a longa tradição histórica e patrimonial tumular na europa. Encerrados dentro de muros, longe do olhar de um público púdico e temeroso que lhe recordem a inevitável finitude da vida, nos cemitérios das cidades europeias encontram-se pérolas da arquitectura e escultura, hinos à memória e à dor, mas também à vida e à eternidade. As fotos de Gisela Monteiro recordam-nos, ou revelam-nos, este património esquecido por uma modernidade que se recusa a enfrentar a inelutabilidade do destino.

Apesar do sujeito das imagens o poder parecer, morbidez é algo que está muito longe destas fotos. Destaco-as pela estética, e pelo olhar íntimo sobre um género de arquitectura que enfrenta a eternidade nos olhos. Mas deixemos a autora falar sobre Tarot, estética e iconografia tumular na apresentação da exposição. Vale a pena.

Wushu

Aquele momento na estrada, algures entre Alhandra e Vila Franca de Xira, em que deparo com um programa de rádio com lições de chinês. Começou muito pedagógico, com a revisão da matéria da aula anterior. Lá se ouviam umas frases pausadas em chinês, e as correspondentes em português. E aí caiu-me o queixo, ao ouvir o sotaque sino-lusitando da locutora a ensinar como pronunciar correctamente em Chinês coisas tão úteis como a menina quer dançar, vamos beber um copo, a menina é muito bonita e vamos jantar um dia destes?

Nada como ouvir uma aula de chinês que nos ensina frases de engate para quebrar o tédio da estrada.Com esta lição já posso tentar engatar as empregadas da próxima loja chinesa onde entrar. Com sorte ainda encontro os irmãos e primos, hábeis praticantes de wushu ou pelo menos conhecedores profundos da arte templária de Shaolin, que me irão entranhar a cultura chinesa intimamente em todos os meus ossinhos.

Wintermute




Zen, ou a arte de saborear a praia ao cair do inverno.

sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

Why, Doctor, Why?


(ou como aprendi a deixar de me preocupar e adorar Doctor Who)

Sou fã de ficção científica quase desde que me lembro. A estética de foguetões a descolar em direcção ao espaço profundo, realismo surreal de hipotéticos alienígenas, promessas de abstração digital e, confesso, um toque de rayguns são fontes de eterno fascínio. A mente culta exige mais do que a iconografia e a excitação da aventura imaginária. Delicia-se com os ícones mas saboreia melhor se forem acompanhados de minuciosas construções de mundos ficcionais, intrigantes projecções de futurismo informado que são de facto reflexões sobre a contemporaneidade, ou exercícios de imaginário em estado puro a esticarem a lógica para além dos limites das suas consequências. A ficção literária especulativa e a banda desenhada são capazes de responder a esta exigência mista de deslumbre e profundidade conceptual. Cinema e séries televisivas, mais focadas no estímulo visual, nem por isso.

Não tenho grande paciência para as versões diluídas da FC em série televisiva. Fico insensível, por muito bons que sejam os cenários e CGI de séries como Star Trek ou Galactica. Tenho um fraquinho por Firefly, porque equilibrava bem o drama humanista típico do formato série com o estímulo ao imaginário de aventura exótica. E por ter terminado ao fim de uma época, ficando como um momento auto-contido e não se arrastando até à irrelevância de episódio em episódio. Gostando de ideias intrigantes, infodumps estimulantes e meticulosas construções literárias, não consigo perceber como é que me fui apaixonar pela série Doctor Who.

(I'm the Doctor. Doctor? Who? Exactly.)

Devo confessar que sou das pessoas menos indicadas para estar a falar de Doctor Who. Não conheço intimamente os detalhes historiográficos da série. Não distingo o ecossistema de alienígenas pelas suas primeiras sílabas. Sou incapaz de avaliar a linha narrativa de Hartnell a Capaldi. Não escolho favoritismos de personagens, épocas ou linhas narrativas.

Sei que é um alienígena avançado, Senhor do Tempo detentor de tecnologias incompreensíveis, herança da sua extinta civilização, capaz de dobrar o espaço e o tempo com a lampejante facilidade de um mestre de origami. Tem um carinho especial pelos primatas simpáticos deste terceiro calhau a contar do sol. Apresenta-se como um excêntrico com uma caixa azul, que saltita entre espaços e tempos e se safa das aventuras capacitando sempre os mais fracos.

Dentro da Ficção Científica, Doctor Who é das coisas mais afastadas do seu cerne que poderia imaginar. Claro que mete alienígenas e naves espaciais, viagens no tempo e outras coisas scifi, brinca com a ciência, mas tem um nivel de plausibilidade a tocar no raso. E é assumido nisso. Entretém. Diverte, não pretende ser didáctica. Especialmente, não pretende. Podemos acusar os argumentos convolutos de algum pretencisosimo, mas não a série em si. Assume-se como é. Coisa rara na cultura pop nos dias que correm, que pretende sempre parecer mais profunda do que realmente é.

Afastada do cerne intelectual da ficção científica, adapta muito bem as suas estéticas como um camaleão. Um Zelig da FC, como naquele filme de Woody Allen em que o personagem principal parece pertencer a todos os estratos sociais com que se cruza sem que realmente lhes pertença. Mas ao contrário de Zelig, Doctor Who não se dissolve e assume esta sua identidade. Veste todas as peles da FC, do Steampunk ao dieselpunk, aos monstros no espaço, à space opera ou à exploração espacial, aos robots assassinos e monstros incompreendidos, aos saltos no tempo entre passados, futuros e presentes divergentes. Toca no horror arrepiante. E fá-lo sempre bem, talvez por que o faça com leveza e entusiasmo, sem pretensões de aceder a uma profundidade que não está vocacionada para ter. No que toca ao género fantástico, Doctor Who comporta-se como o seu psychic paper, induzindo visões no espectador a cada novo episódio.

(Don´t blink.)

Os seus adversários replicam a glória low budget da cinematografia fantásticas de série B. Porque é que Daleks, cilindros ovóides equipados com desentupidores e batedeiras, nos aterrorizam? Como é que suspendemos a descrença perante os Cybermen com as suas cabeças que são óbvias chaleiras falantes presas a um desajeitado corpo mecânico? Não cesso de me arrepiar com o brilhantismo dos Weeping Angels, estátuas aterradoras que se mexem em tempo quântico (não me enganei, pois não?) e se apropriam do maravilhoso fúnebre da estatuária angélica. A gloriosa tradição do fato de borracha disforme e do monstro mais absurdo do que monstruoso vive e prospera a cada novo episódio da série.

Todas as semanas o Doutor, nas suas diversas encarnações, faz-nos saltar entre tempos e espaços, sem preocupações sobre paradoxos temporais, mas muito bom humor. Brinca, abertamente, com ideias e conceitos sem medo de consequências ou necessidade de verosimilhança. Nós, espectadores, suspendemos a descrença e encantamo-nos com aventuras em que tudo vai correr mal, mas termina sempre bem, e termina capacitando os aparentemente mais frágeis. O doutor pode ser um louco com uma caixa azul, mas não resolve nada. Mostra aos companheiros como resolver.

(It's bigger on the inside.)

Enche-nos o ouvido com frases que se tornam meméticas. Bowties ARE cool. It's bigger on the inside. I'm not sure I'm a hugging person now. Allons-y! E tantas, tantas outras. Cada episódio tem belíssimos momentos orais contextualizados do brincar com palavras, alguns deles trasnvasaram para para o espaço da cultura popular e tornaram-se uma espécie de aperto de mão secreto que distingue os whovianos.

A britishness focalizada na excentricidade da série e do personagem é algo que não é alheio ao fascínio que desperta nos fãs. Se David Tennant me encantou pela energia e espanto inocente que colocou na personagem, Matt Smith deslumbrou pela excentricidade em descarrilamento contínuo. Já Capaldi faz-me querer ser como o Doctor quando crescer. Irascível, impaciente, manipulador porque a idade trouxe-lhe experiência e sabe que algumas coisas são óbvias, outras inevitáveis, mas as surpresas aparecem de onde menos se espera. À beira dos quarenta suspeito que já não me falta muito. E já não falo em mais ninguém. Até porque não teria muito para dizer. Também não vou entrar em comparações de qualidade entre argumentistas. Goste-se ou não do seu trabalho, a verdade é que mantiveram na consciência global uma série idiosincrática com cinquenta anos.

(I must invent a wood setting.)

Mas porque é que eu gosto de Doctor Who? É um programa infantil, apesar de uma complexidade insuspeita para algo dedicado a crianças. Frenético. Ruidoso. Mas sempre maravilhoso, mesmo naqueles momentos menos bem conseguidos. E é aí que fico cativo das loucas aventuras do senhor do tempo com as suas inocentes companheiras e a sua caixa azul com interior muito espaçoso. Ah, e a chave de parafusos. Como esquecer essa epítome da tecnologia que é uma chave de parafusos sónica, colisão de phasers, blasters, tricorders, babelfish e tudo o mais que se quiser de tecnologia que se assemelha a magia? A sonic scredriver é como uma varinha mágica de um mago da tecnologia.

Sense of Wonder é um conceito importante para fãs de ficção científica, e descreve o deslumbramento com o ideário e iconografia do género. O que Doctor Who nos dá é sense of wonder em estado puro, recordando-nos o deslumbramento infantil que caracteriza os primeiros embates com o género. Longe das distopias, do cinismo cyberpunk, mais perto das space opera futuristas e do optimismo tecnológico dos primórdios do género. Doctor Who é FC vista pelos olhos de uma criança, e recupera dentro de nós esse deslumbramento inocente.

(Gasping, but somehow still alive/This is the fierce last stand of all I am - mas a referência é a uma canção dos Smiths.)

É este o porquê do meu fascínio, que não me deixa perder os episódios, analisar os guiões, ler as adaptações (se bem escritas, o que raramente é o caso) e admirar a iconografia. Sabendo que está a anos-luz de distância da FC hard/tecno-utopista/hipermoderna que me fascina. Mas tendo lá o cerne: puro sense of wonder. E ao perceber isto deixei de me preocupar. Passei a venerar as sublimes aventuras do The Doctor.


Notas para uma intervenção na Portugal Time Lord Academy, hoje na Faculdade de Ciências - Universidade de Lisboa. Quando me desafiaram para isto a minha primeira resposta foi não, mas a verdade é que não consigo dizer não a coisas interessantes. Sem saber bem o que poderia contribuir para um evento destes, pensei: e porque não tentar definir com precisão aquilo que me faz gostar de Doctor Who?

Lilith: Cuore di Tenebre


Luca Enoch (2013). Lilith #10: Cuore di Tenebre. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma viagem ao coração das trevas selvagens, livremente inspirada no livor homónimo de Joseph Conrad e que pelo meio ainda mete traços de Stanley & Livingstone e missões ao interior da selva para salvar Emin Pacha. Enoch brinca com as histórias icónicas dos tempos dos exploradores que penetravam <in darkest africa em busca de territórios. A sua veia interventiva não fica de fora, com um retrato fortíssimo da violência da escravatura. O levar a luz da civilização ao interior do continente negro, lema dos bravos exploradores, acabava habitualmente a reluzir no metal que agrilhoava os nativos escravizados. Quanto às aventuras de Lilith, recordem que esta série é episódica, sendo mais um pequeno passo da personagem para eliminar um triacanto num passado para poder salvar o futuro. Enoch vai deixando transparecer que talvez a coisa não seja tão linear quanto isso mas não leva esses vislumbres muito longe, centrando-se mais na magia da reconstituição histórica com alguma fantasia e muito sentimento social. Este misto interventivo de conhecimento histórico com ficção científica de aventura é o que dá interesse à série.

quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

Na Sombra das Palavras


(2014). Na Sombra das Palavras. Vagos: Editorial Divergência.

Bom arranque da Editorial Divergência, com um livro que sabe mais a revista/fanzine e que se calhar poderia estar aí uma aposta. Apesar de haver muitas publicações de contos por cá não há uma publicação regular e contínua, sem ser online. Não é um arranque perfeito, mas bolas, sejamos honestos. O facto de sermos uma cultura de nicho num país períferico tem de implicar que a mão-cheia de autores que se dedicam ao fantástico tenham de ser uns génios literários cheios de ideias hipermodernas ou tenebrosas, com prosa acima de prémio nobel em qualquer parágrafo que escrevam? Por vezes, ao ler-se as discussões em torno destas obras, fica-se com esta incómoda sensação. Três bons contos e dois menos bem conseguidos é o saldo final desta primeira antologia da Divergência. A curiosidade para a antologia Mundos Divergentes ficou aguçada.

O Livreiro: belíssimo conto de Fábio Ventura, a tocar o horror e o surreal na história de um incauto livreiro que é seduzido por uma sensual aparição nocturna por entre as estantes e é progressivamente transformado num homem de papel. Ou aliás, um homem de letras num sentido muito literal do termo. A ambiência e o conceito estão, a meu ver, com aquele misto de estranheza e irreal que cativa e intriga o leitor.

A Lista de Deus: João Ventura é brilhante nos seus microcontos mas também não está nada mal em registos mais longos. Distingo-o pelo deslumbramento pueril, no melhor dos sentidos. Os seus contos são luminosos, bem humorados, assentes numa escrita límpida e metódica que nos remete para o longo historial da tradição literária fantástica. Neste, a descoberta de um manuscrito milenar contendo os parágrafos finais do livro do Génesis não augura nada de bom para a humanidade. Na boa tradição mágica e talmúdica que o pronunciar das palavras gera o real, é ao ler o último parágrafo do genesis que a humanidade se extinguirá, naquele sentido bíblico cheio de horrores que caem do céu.

O Panóptico: conto algo confuso de David Camarinha, sobre alguém que se encontra preso dentro de um cárcere habitado por estranhos seres. Ou sobre um personagen que ganha vida no papel mas que é apagado pelo escritor insatisfeito? Apesar de ter alguns interessantes momentos de pesadelo literário, não chega a solidificar-se numa narrativa coerente. A base promete, mas a falta de clareza narrativa não o deixa avançar.

O Labirinto de Papel: outra boa surpresa, sobre os horrores dos labirintos burocráticos dos empregos mais entediantes. Prosa límpida, foco certeiro e um bom conto de terror no sentido clássico de Ângelo Teodoro.

Tabula Rasa: conto ambicioso mas algo estereotipado de Mário Seabra, o que não surpreende. Repetir estereótipos faz parte de qualquer processo de aprendizagem em áreas artísticas. Difusamente futurista, olha para agentes cujas memórias do passado foram eliminadas por processos intencionalmente traumáticos. Mas o passado recusa-se a ser reduzido à amnésia. Algo me irritou neste conto. A opção por nomes anglófonos, que penso sempre reflectir em demasia as influências literárias dos autores. Se bem que é natural que a mente criativa tente imitar o que admira. Mas como leitor, já me cansei de nomes de sonoridades estrangeiras em contos portugueses. Não é um agitar de bandeirinha nacionalista, tem mas a ver com o fluir da língua.

quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

Tutoriais Sketchup


Tenho estado a trabalhar num conjunto de tutoriais simples sobre as ferramentas elementares do Sketchup Make. Não é programa sobre o qual se possa dizer que haja pouca abundância de tutoriais por aí. Qualquer dúvida, técnica avançada, dica, processo de trabalho ou afim é fácil de encontrar resposta entre sites de referência, repositórios e YouTube. Mas faz-me falta qualquer coisa simples e em português que sintetiza os passos que dou com os meus alunos. São, para já, meros pdfs procedimentais. Tenho um em vídeo na forja mas isso dá mais trabalho e demora mais tempo, se o quiser bem feito. Também sintetiza o que vou desenvolvendo e descobrindo neste meu percurso autodidacta. Vão sendo arquivados há medida que vão sendo feitos na página de tutoriais das TIC em 3D (o meu outro projecto fantástico longe do fantástico). Para já vai desde o interface à visualização com grafismo, passando pelas ferramentas elementares de traçagem, extrusão, movimento/rotação e follow me. Tudo Creative Commons, como não poderia deixar de ser. Rumem aqui se estiverem interessados ou vos fizer jeito: TIC em 3D - Recursos: Tutoriais.

Escolhas Literárias - Fórum Fantástico 2014


Um dos momentos tradicionais do Fórum Fantástico, com as selecções de literatura escolhidas pelo tio João Barreiros e seus dilectos sobrinhos. O momento em que o decano dos escritores de ficção científica portugueses, dono de uma vastíssima cultura literária, nos mima com pérolas literárias. Com achegas de outros fãs do género.

A lista de recomendações de João Barreiros incluía Of Bone and thunder de Chris Evans, World of trouble de Ben H. Winters, American Elsewhere  de Robert Jackson Bennet, Bird Box de Josh Malerman, Echopraxia de Peter Watts, The Peripheral de William Gibson, Authority de Jeff Vandermeer, Bête de Adam Roberts, Three parts dead de Max Gladstone, e London Falling de Paul Cornell. Sempre recomendadas com o seu estilo muito próprio de enfant terrible. A lista de livros marcados no radar inclui Charles Stross com The Rhesus Chart, Stephen King com Dr. Sleep, Peter F, Hamilton com The abyss beyond dreams, Alastair Reynolds  com On the steel breeze, Stephen Baxter com Proxima, Michael Faber com The book of strange things, David Mitchell com The bone clocks, e Walter Moers com The Alchimist apprentice. The Revolutions de Felix Gilman e The girl in the road de Monica Byrne foram apontados como os piores livros com se se cruzou neste ano.

João Campos falou-nos do livro incontornável do ano, Ancillary Justice de Ann Leckie. Passando para as escolhas cinematográficas, listou Edge of Tomorrow, Guardians of the Galaxy, Zero Theorem, The Congress, Interstellar e Under the Skin como os bons visonamentos do ano, Já Godzilla mereceu a distinção de pior filme do ano.

Cristina Alves trouxe-nos como recomendações Trafalgar de Angelica Gorodischer, Among Others de Jo Walton, Dead Man's Hand: An Anthology of the Weird West, The Night Circus de Erin Morgenstern, War Stories, Kindred  de Octavia Butler, Gorel and the Pot Bellied God de Lavie Tidhar e Station Eleven de Emily Mandel.  Marcou no radar Dead Man's Hand: An Anthology of the Weird West e The House of war and witness de Mike Carey. Open Your Eyes de Paul Jessup e Sono de Haruki Murakami foram as suas distinções de pior leitura.

Das minhas falarei com mais detalhe. Este ano quis dar atenção ao trabalho dos escritores portugueses e destaquei estes livros:

Antígona Gelada, peça de teatro de Armando Rosa: É raro encontrar teatro directamente inspirado na ficção científica, embora os géneros não sejam incompatíveis. É ainda mais raro, e inesperado, encontrar um exemplo português de teatro que vai beber directamente a um género mal visto no meio cultural português. É esse o caso de Antígona Gelada escrito por Armando Rosa e estreada pelo Cendrev em 2008.  Para além de Sófocles há uma influência declarada do transrealismo de P.K. Dick, misto de paranóia com futurismo tecnológico. Os impactos e questões levantadas pela tecnologia contemporânea estão também presentes no texto, que toma a clonagem e a fluidez de géneros sexuais possibilitada pelos avanços na medicina como algo de banal mas ainda a inquietar indivíduos.  Intrigante, o texto destaca-se pelo insólito de ser peça teatral de FC portuguesa, revendo um clássico com muita inspiração nas fímbrias mais provocantes do género.

Nome de Código Portograal, o romance de Luís Corredoura justamente distinguido com o Grande Premio Adamastor de Literatura Fantástica Portuguesa: História alternativa acidental, um elaborado e bem montado e se...? de especulação bem alicerçada em dados históricos. O livro brilha na sua narrativa central. A hipótese colocada é o que é que aconteceria se Portugal tivesse sido invadido pela Alemanha na segunda guerra. É uma hipótese bem estrutura, melhor pesquisada e desenvolvida com uma invejável precisão métrica. Corredoura revela-se um profundo conhecedor da história geo-estratégica da época e sabe muito bem onde desviar o curso da história para criar uma alternativa verosímil, na linha do especular sobre os desenvolvimentos plausíveis de pequenas modificações cirúrgicas à narrativa histórica. A especulação é bem fundamentada e o conhecimento da época é de uma solidez invejável, a geografia do espaço ficcional espelha a dos locais reais. Lisboa sob as botas cardadas da Wermacht poderia ter acontecido, e Corredoura pega nessa premissa para criar um romance impressionante que nos provoca, leva a reflectir e ainda fala de muitos pormenores sobre a forja da Europa contemporânea que foi a II Guerra.

Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, romance de Jorge Candeias: Frenético não chega para descrever a sensação de leitura desta hilariante montanha russa. A ficção científica é utilizada como base para a caricatura satírica dos usos e costumes dessa classe seriíssima e pouco danosa para o interesse comum que é a política. As personagens hiperbólicas do romance são claras caricaturas das patéticas figuras públicas que se arvoram do direito de pensar em nome de todos. Satirizando a pomposidade patética do real através de um ficcional hiperbólico, Candeias exorciza um pouco as trevas sobre nós caídas neste tempo em que a propaganda oca e hipócrita domina o ideário popular. A FC dá o mote mas o que inspira o livro é a sátira à lorpice pomposa das classes políticas contemporâneas. E nisso é implacável.

Para as sugestões de ficção científica internacional listei:

The Wandering Earth de Liu Cixin, que suspeito que com The Three-Body Problem ser o cavalo de tróia que trará a FC chinesa ao público euro-americano: Há qualquer coisa que me incomoda neste conto do escritor chinês Liu Cixin. Não é o conto em si, uma utopia negra de sobrevivência da humanidade face a ameaças cósmicas. É o tom, submissivo, de deferência perante a sabedoria dos líderes, de dissolução do indivíduo perante um ideal imposto por cima, o que me deixa inquieto na obra. A deferência à suposta sabedoria daqueles em posição de autoridade pervade todo o conto. É este o carácter que trai a sua origem. O espírito humano submisso à necessidade colectiva imposta pela autoridade esclarecida, misto de confucionismo com ideologia imposta pelas cúpulas de partidos únicos dá um tom muito intrigante a este conto vindo do vasto mas pouco traduzido manancial da FC chinesa.

The Second Machine Age, não ficção de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee: Será que o grosso da humanidade estará condenada à indigência enquanto a economia se mantém pujante e uma nova aristocracia enriquece com os frutos da riqueza produzida por exércitos de autómatos robóticos e de software inteligente? Este livro dá-nos respostas interessantes. Os autores mergulham na vanguarda da investigação e desenvolvimento, dando-nos um amplo panorama do estado actual da tecnologia de automação e robótica. Em seguida levam-nos ao lado assustador. O impacto sobre o trabalho como o concebemos  poderá ser devastador e os primeiros passos já estão dados. Parecem haver poucas áreas de intervenção humana imunes ou à substituição do trabalhador por um robot ou à automação por software. O incentivo económico para o fazer é muito elevado. A médio prazo os robots custam menos, não reclamam, trabalham 24 sobre 24 horas, não têm necessidades, não necessitam de salários e sistemas de saúde. A possibilidade de eliminação de postos de trabalhos é muito real, já em andamento, e uma inevitabilidade lógica sob o ponto de vista da eficiência.

Transcendental, space opera old school de James Gunn: O transcendentalismo tecnológico é o tema deste regresso de um autor veterano, mas desenganem-se.  na forma de peregrinação quase religiosa de indivíduos representativos das várias espécies de uma galáxia num misto de ultrapassar dos limites do ser e da cultura. Gunn vai desvendando de forma metódica e implacável visões progressivamente mais vastas de uma civilização galáctica assente no consenso entre diferentes espécies alienígenas, coligação de potências com fronteiras bem definidas e fortíssimas tendências xenófobas, possibilidade de existência de civilizações num outro braço da via láctea e o impacto presumível num conselho galáctico que busca o equilíbrio homeostático de forma tão acérrima que optou, em tempos, por não responder nem investigar mensagens provenientes de outra galáxia. O equilíbrio é tudo, a manutenção do status-quo a primeira prioridade.Esticou a especulação sobre possibilidades de vida alienígena a novos limites com as espécies que descreve, como uma raça de paquidermes herbívoros respeitada pela sua força tranquila, criaturas similares a furões cuja fibra moral faz os espartanos parecerem sibaritas, nativos da estrela Sirius capaz de controlar temperaturas onde os machos são comidos pela prole de que cuidam, apesar do progresso social ter conseguido aumentar a taxa de sobrevivência entre os pobres machos da espécie,  uma civilização de inteligências artificiais que traz consigo no périplo pela galáxia os últimos sobreviventes dos seus criadores congelados num caixão,  flores inteligentes, em mente-enxame que  desenvolveu por selecção mendelianae ao espaço em naves biológicas. O livro que recupera a estrutura narrativa celebrizada por Chaucer para a space opera. Tal como os contos de Canterbury este Transcendental conta-se pelo ponto de vista do personagem principal mas inclui as histórias narradas pelos vários personagens que Gunn decidiu salientar. Cada qual tem a sua história mas estas tocam-se, entretecendo-se numa linha narrativa fortíssima. Obra de mestre, Transcendental leva-nos de enxurrada para um mundo de vastos panoramas cósmicos e ficção especulativa de alto calibre. Com um ritmo preciso e ideias intrigante a cada virar de página, é um daqueles raros livros que é impossível de pousar.

Nos comics, fumetti e Banda Desenhada (no fundo tudo o mesmo, eu sei, mas estas distinções fazem algum sentido) foram estas as minhas escolhas:

Cidade Suspensa, o notável livro de Penim Loureiro: Devo dizer que estamos perante um dos melhores livros de BD editados este ano pelo expor de pura mestria do traço deste autor. A narrativa percorre a história recente de Portugal pelo olhar de toque autobiográfico de um narrador cuja história pessoal o leva a intersectar-se em curvas sinuosas com amigos atomizados por um mortífero e misterioso acontecimento nas areias do Saara. Pelo caminho vão surgindo referenciais oníricos que remetem para a sempre elusiva ideia de um imaginário fantástico de raiz portuguesa. O livro deslumbra-nos com um referencial iconográfico de grande riqueza, onde podemos encontrar alusões à estrutura gráfica da BD de Loustal, vénias ao Incal de Moebius, e um singular uso de ícones portugueses como o sebastianismo, virgens marianas, galos de Barcelos (muito úteis para contrabandear pistolas, note-se) e esplendorosas passarolas, arquitectura de uma Lisboa que tanto nos leva da elegância art-deco de Cassiano Branco aos palácios setecentistas e novecentistas, ao estilo modernista aportuguesado de António Ferro que se tornou marca de uma nova cidade, sem esquecer a contemporaneidade de edificações arrojadas.

Dylan Dog: Mater Morbi, porque não poderia deixar de falar do meu querido Dylan, de Roberto Rechioni e Massimo Carnevale: Dylan Dog divide-se claramente em duas vertentes. O surrealismo weird fantasista de Tiziano Sclavi e o mistério sobrenatural encarrilado nos pressupostos do costume dos restantes argumentistas.  Dylan é acometido por violentos achaques num momento de elevado romantismo e internado de urgência num hospital. Aí cai nas mãos de um médico que serve uma entidade obscura, que se compraz em prolongar o sofrimento dos pacientes. Utilizando o argumento de manter a vida a qualquer custo alonga as dores daqueles que supostamente procura curar, servindo as vontades da obscura Mater Morbi, a encarnação da morbilidade, a senhora das doenças que se alimenta nos seus domínios sobrenaturais da fragilização dolorosa da doença. Numa vénia perversa a Gaiman Recchioni incorpora a morbilidade numa sensual dominatrix que se compraz a torturar Dylan. Fetichista, surreal e visceral, Mater Morbi é um dos mais surpreendentes episódios da longa série de aventuras de Dylan Dog.

Starlight: Se o argumento de Millar faz uma vénia cheia de ironia à FC clássica a ilustração de Goran Parlov vai ainda mais longe. Imaginem o prototípico herói de queixo quadrado a entrar na terceira idade, reformado num anonimato inclemente com as suas histórias de aventura e glória em mundos alienígenas. E imaginem que esse herói tem uma segunda hipótese de regressar aos bons velhos tempos. A ironia é óbvia e a referência a Flash Gordon, Buck Rogers e tantos outros personagens deste género é sólida. Mas Parlov consegue subir o nível com um estilo gráfico que parece ir buscar referências a Moebius, ao anime e aos monstros clássicos do cinema de série B dos anos 50.

Moon Knight: Encarregue de revitalizar uma personagem de segunda linha, Warren Ellis criou seis historias excepcionais, que redefinem o personagem num cenário de hipermodernidade catastrofista potenciada pela tecnologia. Histórias de ritmo marcado por uma fortíssima linguagem cinematográfica.

Trillium: Jeff Lemire conjurou o melhor da FC com toques de space opera e viagens no tempo com um fortíssimo experimentalismo gráfico pouco habitual nos comics. A série ficará como uma das melhores que a DC/Vertigo nos legou em ficção científica. Viagens no tempo, encontros com alienígenas, aventuras na selva, história alternativa, space opera e até steampunk. Lemire não deixa muitas vertentes por explorar nesta história de paradoxos e tortuosidade mental, onde até a própria disposição das vinhetas na prancha serve para reforçar o seu carácter circular, de duas histórias que de facto são uma e ciclicamente se entrosam.

Dos muitos livros que fazem ping no meu radar destaquei estes:

Consumed, o romance David Cronenberg cujas primeiras leituras diagonais revelam uma frieza cirúrgica, fortíssima linguagem visual e obsessão mórbida com o corpo.

Scale Bright de Benjanun Sriduangkaew. Por mera curiosidade, como será o exotismo aplicado à FC/Fantástico? Entretanto descobri que o autor foi desmascarado como um dos piores trolls do fandom. Péssima escolha para a carreira, parece-me.

Trees: Os humanos como formigas. Deprimente, a premissa de uma humanidade que se acomoda a uma invasão alienígena de seres gargantuescos e aparentemente imóveis que apenas estão, sem se incomodarem com o fervilhar da humanidade que os rodeia. Como nós, a quem o fervilhar do mundo dos insectos na nossa casa passa despercebido. Warren Ellis.

Memetic: Ataques meméticos são um conceito intrigante mas pouco utilizado na ficção científica. Que me recorde apenas encontrei esta ideia explorada no conto Blit de David Langford (graffitis nocivos que provocam epilepsias e esgotamentos mentais infestam as ruas urbanas) e no episódio Invasive da série Global Frequency por Warren Ellis (uma mensagem alienígena decifrada por um computador ligado ao SETI@Home revela-se uma forma de vida víral memética que modifica os cérebros dos infectados).  James Tynion não nos poupa e dá-nos esta simpática preguiça, cuja iconografia remete para os memes virais da internet, a espalhar-se como fogo em mato seco através das redes digitais.

Como o pior do que li este ano listei Limit de Frank Schätzing . Uma história que é interessante entre a exploração lunar por consórcios privados e conspirações na china futurista. O problema é que o autor é excessivamente prolífico em detalhes e arrastar de situações. Quase tão mau como o Neal Stephenson nisso. O outro livro foi Le Successeur de Pierre de Jean-Michel Truong. Pode um conjunto de boas ideias tornar-se um bom livro? Sim, se o escritor souber trilhar o caminho periclitante entre concisão, estrutura narrativa coerente e conceitos intrigantes. Não é o caso deste livro, penosa leitura que nos vai revelando um world building interessantíssimo mas internamente inconsistente, que se perde numa vastidão de páginas para contar uma história que, de facto, é o início do que poderia ser a real história. Especulação distópica, um futuro em que a humanidade vive enclausurada em contentores, sem contacto humano, e os espaços exíguos contém tudo o que é necessário ao indivíduo, com uma grande dose de comunicação digital e virtual. Esta migração dá-se como consequência de uma pandemia global que obriga autoridades globais a aprovar a lei zero-contact e isolam a humanidade em contentores individuais. Escapam os NoPlugs, rebeldes que insistem em viver na superfície planetária. As elites económicas e governamentais sobrevivem em cidades subterrâneas e estão a construir cúpulas nas principais cidades. E, pelo meio, há um segredo bíblico sobre a linha sanguínea do primeiro Papa.

De fora deixei alguns livros que gostaria de ter falado, mas éramos mais três na mesa, há que dar a mereceida preeminência ao João Barreiros, e o tempo não chega para tudo. Registo-os aqui:

Na FC e fantástico portuguesa e lusófona, Coração de Corda de Carina Portugal, uma história  bastante directa e bem ritmada, com um inventor que é atraído pelo encantos de uma bailarina do teatro e que, ao tentar conhecê-la melhor, vai deparar com uma conspiração para levar a cabo um atentado na cidade. A voz literária da autora caracteriza-se por uma forte veia poética que, sublimada com a elaborada iconografia steampunk, poderá resultar em excelentes leituras; e Revista Trasgo, que do lado de lá do atlântico tem trazido boas surpresas para os fãs de FC mais curiosos com outras visões literárias e vozes fora do espectro anglo-americano. Boa forma de conhecer o sabor literário da FC brasileira.

O surpreendente The Martian de Andy Weir seria outra escolha da FC internacional: se a fábula de Daniel Defoe espelha a visão iluminista do homem como senhor da natureza, graças à força dos braços e do pensamento, Andy Weir revê, talvez inconscientemente, este ideário à luz do optimismo tecnológico. O rigor científico e tecnológico é o grande ponto forte deste livro. Não há aqui tecnologias avançadíssimas de voos imaginários de space opera, com aventureiros corajosos a desbravar as selvas marcianas. Weir conhece claramente os estudos que se têm feito sobre missões a Marte com a tecnologia contemporêna, e espelha isso no livro.

De fora das sugestões de comics ficou Afterlife With Archie, a inesperada série da Archie Comics. Esta especializa-se num grupo de personagens eternamente adolescentes centrado no epónimo Archie, teenager prototípico à volta do qual se reúnem duas eternas rivais pelo seu coração e um grupo estereotipado de amigos, mas a american way of life vai ser perturbada por um surto de zombies que terminará num apocalipse lovecraftiano. Para rematar em cheio Francesco Francavilla ilustra com um estilo que está a anos-luz do visual a quatro cores claras habitual nestes comics. Realmente surpreendente.

No radar queria ainda ter falado de O Engenho dos Sonhos de Carina Portugal e o universo partilhado de Comandante Serralves: Despojos de Guerra. Até na secção de piores leituras tive de abandonar Legs Weaver, com que me deparei ao procurar FC em fumetti. Um mundo acidentalmente retrofuturista, aventuras policiais algo patéticas, o cerne é o romance inconfessado entre legs e a sua colega may (que, por razões óbvias, acaba sempre nua nas aventuras). Vale pelos cenários, tudo o resto é não só esquecível como imuniza incautos descobridores do fumetti.

E pronto. Cansado mas com a faísca alimentada pelos três dias dedicados ao fantástico nas artes, este minion do tio Barreiros despede-se. Até para o ano, onde talvez esta sessão decorra à lareira. 

terça-feira, 18 de Novembro de 2014

Tecnologia 3D no Fórum Fantástico 2014


Na edição deste ano do Fórum Fantástico tive o prazer de moderar um painel sobre tecnologias 3D, essencialmente sobre impressão 3D. Estariam presentes representantes da BeeVeryCreative, que graciosamente aceitou o convite feito pela organização para trazer a sua tecnologia à IX edição do Fórum, e José Alves da Silva, ilustrador 3D e character designer.

A BEEVERYCREATIVE criou e comercializa a primeira impressora 3D nacional desenvolvida em Portugal para o mercado de consumo. Foi distinguida recentemente na 3DPrintshow 2014 com os prémios BEST CONSUMER e BEST PROSUMER, e esta semana considerada Rookie of the Year pela Make Magazine. Qual o conceito, porquê a aposta nesta tecnologia, será um longshot a médio prazo ou haverá já massa crítica global que justifique e será o 3d printing disruptor e transformativo, ou apenas nicho, especialmente no que toca às indústrias criativas, seriam as perguntas que gostaria de ter feito no painel. Infelizmente o elemento da empresa não esteve presente por motivos de saúde.


Remeti-me para um vídeo demonstrativo da tecnologia da Bee e para Luís Alves, que tinha uma bee a funcionar no átrio do auditório a deslumbrar os visitantes. 

A conversa decorreu com José Alves da Silva, artista na área do 3D focalizado na ilustração em 3D e concepção de personagens. Os fãs do fantástico conhecem o spotlight na revista Bang. Trabalhou com Bre Pettis, criador da makerbot, no projecto de filme Margo, primeira iniciativa da divisão Bold Machines da Stratasys. O seu trabalho é descrito, e aqui passo citar Nelson Zagalo no seu perfil do ilustrador para o Virtual Illusion, como de “ uma qualidade incrível (…) o detalhe, a assimetria e a “rugosidade” das formas e os pormenores na construção dos cenários. Depois em termos de textura e shadings é tudo tão absolutamente perfeito, bem saturado, realista mas suficientemente cartoonizado. Ou seja, o trabalho de José Alves da Silva não é daqueles que dizemos ser tecnicamente perfeito, ele é apenas e só, artisticamente brilhante.” Parti com quatro questões bem definidas, sobre como surgiu o interesse pela impressão 3D, como funciona o processo criativo de design para impressão 3D, que potencialidades estéticas são despertas pela tecnologia de impressão 3D, e se a introdução ao 3d printing foi através do “filme” do Bre Pettis ou houve outras experiências antes  da aventura com a Bold Machines



Fui surpreendido com uma encantadora partilha sobre design em 3D, processos de trabalho, aventuras entre os dinamizadores desta tecnologia, e muita mostra de trabalho de nível elevadíssimo. Fiquei espantado quando vi que as peças que trouxe, impressas numa Makerbot utilizando processos de concepção que do ponto de vista mais tradicional do desenho contrariam o senso comum, tinham peças interiores móveis directamente impressas. Isso e o elevadíssimo nível de detalhe da impressão, tendo o autor ressalvado que com outros tipos de impressão o detalhe é ainda mais minucioso. Foi um dos muitos pontos altos de uma apresentação que ainda tocou nas diferentes tecnologias de 3D printing e no equilíbrio entre as condicionantes técnicas e a vontade estética.



Esta (o 3D Printing) é uma tecnologia que se está a destacar pelo seu potencial e iminência de abrangência ao grande público. A impressão em 3D saiu dos laboratórios, instalou-se nos ateliers e oficinas e ameaça chegar a todos os utilizadores. O 3D printing traz para os meios digitais esses processos tão normais em pintura, escultura, em qualquer expressão criativa que solidifique num material o imaginário do criador. O que intriga é esta nova forma de ser artesão com ferramentas digitais. Das várias tecnologias de impressão 3D (estereolitografia, corte por laser, impressão de camadas, impressão multi-cor e multi-materiais e sinterização a laser), sendo a extrusão de filamento a que consegue chegar a um público alargado. Será disruptora, modificando irremediavelmente modelos de produção colocando nas mãos de cada um formas de materializar as suas ideias? Será um nicho?

Os fãs de FC conhecem bem conceitos como nanofabricadores, máquinas capazes de manipular a matéria para gerar objectos ou comida. Como faz o Capitão Picard no Star Trek para tomar o seu chá earl grey no final de mais uma aventura onde nenhum homem se atreveu a ir antes.

É intrigante observar esta explosão tecnológica, comparável às vagas iniciais da internet ou da computação pessoal. O fascínio humano pelo objecto físico encontra no virtual uma nova dimensão, e a possibilidade de concretização física do virtual abre novos e intrigantes campos de actuação. Num futuro muito próximo, será possível a qualquer um imprimir peças mecânicas, objectos artísticos, brinquedos, enfim, tudo o que a imaginação e o domínio de ferramentas de CAD e modelação 3D lhe permitir.

Era assim que gostaria de ter começado a apresentação: Mas não foi assim que comecei. Perante um público literário sublinhei que o foco não iria incidir sobre a óbvia relação quase fetichista entre ficção científica e tecnologia, ou nesta como instrumento de trabalho, mas sim nas possibilidades criativas de tecnologias cada vez mais acessíveis. Poderíamos estar a falar de arduinos, robótica ou coding, mas ficamo-nos por algo que não sendo recente (as primeiras patentes foram registadas há mais de trinta anos) deslumbra-nos pela materialização que faz do virtual. E recordei Bruce Sterling com a sua observação de que o verdadeiro cyberpunk hoje não se encontra nos efeitos especiais de Hollywood mas sim nas demoscenes ou nos vídeos em Processing. Enquanto dizia isto reparei em alguém lá ao fundo da sala a sorrir e agitar os braços. Seria um demoscener ou um coder? Ou um fã dos discursos de encerramento do Bruce Sterling no SXSW?


Tive ainda tempo para uma conversa com Luís Alves, destacado pela Bee para nos vir trazer a impressora ao Fórum Fantástico. Esclareceu-me uma das questões que tinha sobre a empresa: como sobreviver e crescer em Portugal com um produto de vanguarda. A resposta foi... fora de Portugal. Por cá as vendas não têm expressão. O interesse é grande, mas o investimento reduzido. Sublinhou o esforço da empresa em tornar toda a produção das bee cem por cento nacional. Até nas espátulas que servem para retirar o objecto impresso da base, feitas na leiriense ICEL.Só lhes falta localizar a produção de filamento PLA, que me foi dito que graças a um acordo com uma empresa alemã irá em breve começar a ser produzido por cá. Outro ponto que me deu mais vontade de apoiar a Bee, apesar de sentir que no que toca aos meus objectivos pedagógicos algo mais próximo do conceito open source das reprap seja o mais indicado. Quero que os meus alunos compreendam a tecnologia que está por debaixo do capot e não se fiquem pela impressão dos objectos que conceberem. Claro que por enquanto esta é uma questão académica, mas se não a colocar e estudar bem o campo do 3D Printing nunca passará de um daqueles devaneios inatingíveis. 

Nota mental: da próxima vez que tiver de moderar algum painel, convém não esquecer que no final se abre tempo para questões do público...

segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

Génese



A boa notícia do dia é que o Projecto Adamastor lançou a primeira obra da sua nova colecção de ficção especulativa clássica portuguesa. Começa aqui a Colecção Génesis, dedicada a presevar digitalmente e divulgar a memória da FC portuguesa. Começa com este intrigante Lisboa no Ano 2000 de Melo de Matos, uma visão sobre uma Lisboa possível vinda dos primeiros estertores do século XX. O livro que serviu de inspiração à antologia Lisboa no Ano 2000, editada a ferro e fogo por João Barreiros para a Saída de Emergência e vencedora do prémio Adamastor Distinção do Público no Fórum Fantástico 2014.

Os prémios Adamastor e o Projecto Adamastor partilham o nome mas são distintos. Os primeiros são uma iniciatica da Trëma/Fórum Fantástico para premiar o melhor que cá se faz em ficção fantástica, e o Projecto uma meritória iniciativa de uma equipa dinamizada por Ricardo Lourenço que desde 2013 tem consistentemente trazido ao digital versões renovadas e com distinção gráfica de clássicos da literatura fantástica portuguesa. Porquê tantos adamastores? É difícil escapar a este ícone como símbolo máximo do Fantástico literário português. Suspeito que Prémios Passarola ou Projecto V Império não seriam tão certeiros.

Rumem ao Projecto Adamastor e descubram a possívle Lisboa de hoje sonhada em 1900.

Comics


Batman #36: Era muito estranho a DC manter morto um dos mais icónicos super-vilões da continuidade de Batman. Scott Snyder anda a revitalizar o homem-morcego para uma nova geração e depois de um alucinante arco generativo, com The Riddler a mostrar-se o super-vilão que nunca foi com outros argumentistas, ressuscita agora o Joker, que teve o atrevimento de matar antes de redefinir Batman. Este i've got better do super-vilão foi o toque final num Batman modernizado e rejuvenescido, mais violento e visceral, que mantém a estrutura de sempre mas se actualiza face à época e às encarnações transmedia do personagem. Este  Year Zero e sequelas, que faz largas vénias a Year One, um dos momentos marcantes de Frank Miller, ficará como um bom momento no historial de um personagem clássico.


Deep State #01: Nova série da Boom! Studios, com o seu quê de X-Files nas aventuras de dois agentes de uma organização governamental ultra-secreta encarregues de manter em segredo os segredos mais secretos. Sim, repeti-me, mas não digam a ninguém, mantenhamos isto em segredo. O primeiro grande segredo tem a ver com as viagens à lua. Parece que Neil Armstrong não foi o primeiro americano na lua. Antes foram lá duas missões, limpar algo descoberto pelo primeiro cosmonauta a pisar solo lunar. Décadas depois, esse algo consegue reparar a decrépita nave soviética e desce à Terra. Fiquei intrigado. Não resisto a estas premissas de teoria da conspiração e astronautica retro.


Dark Ages #04: Termina esta série bem contada por Abnett e Culbard sobre mercenários medievais apanhados nos resquícios de uma guerra interestelar entre robots inteligentes e bio-engenheiros genéticos. Curta e divertida, valeu pela ideia de misturar inteligência artificial com nanomáquinas e manipuladores de biologia num ambiente medieval.

Aquisições


Este ano fui forçadamente mais comedido nas minhas aquisições literárias no Fórum Fantástico. Vim de lá muito leve, comparado com anos anteriores. Mas não pude deixar de trazer as antologias da Editora Divergência Por Mundos Divergentes  e Na Sombra das Palavras.


Também não deixei de trazer o romance de Joel Gomes, A Imagem, e tive sorte. Em promoção ainda recebi o livro Um Cappuccino Vermelho e este cd, que irá ficar inviolável. Não tive coragem de dizer ao simpatiquíssimo autor que sou pós-CD e DVD. Foi uma escolha consciente quando comprei o meu último computador.


Começo a habituar-me a caçar autógrafos. Por pouco não ia apanhando Rhys Hughes, a quem poupei a obrigatoriedade de dedicatórias. The problem is finding what to write here, disse-me, e não quis insistir. E chega-me, porque pedi o autógrafo como forma de apreço ao trabalho do autor e não para ter uma longa dedicatória dedicada a alguém que não conhece. Diga-se que só pela elegância do autógrafo tudo o resto se secundariza. Mais um pormenor a dar valor emocional aos dois livros que tenho dele e adquiri muito por acaso em Guimarães, ao simpático e erudito livreiro da Snob. Também pedi a alguns autores do Na Sombra das Palavras e Comandante Serralves: Despojos de Guerra um autógrafo. Pelo apreço pessoal que lhes tenho e porque, na eventualidade de repetir workshops Visões de Utopia, em que insisto sempre em trazer comigo obras representativas da FC e fantástico portugueses, sentir que quem pegar nestes livros sentirá mais valor ao ver a letra dos escritores.

Habitualmente as bancas da Saída de Emergência têm pouco para mim. Não vem daí mal ao mundo. A editora tem uma aposta bem montada e um público específico. Tento não perder as edições arriscadas que fazem no domínio dos clássicos de FC e fantástico, ou das antologias de autores portugueses, mas ultimamente, felizmente para a minha carteira, têm saído poucas. Agruras da crise em que vivemos. Gostaria de ter feito um raid certeiro à Dr. Kartoon e Chili Con Carne, mas não pude. Tenho a minha pequenina e querida cadelinha a envelhecer e avizinham-se despesas com veterinários para a manter bem de saúde. Não há ADSE ou segurança social para ajudar a tratar aqueles que nos acompanham nos dias e que é da mais elementar humanidade cuidar. Tem que ser, pensei, enquanto contemplava o impecável bom gosto da selecção bedéfila de João Lameiras.

domingo, 16 de Novembro de 2014

Fórum Fantástico 2014


Três dias, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro de Telheiras, dedicados ao Fantástico literário e artístico nas vertentes literárias, fílmicas, musicais, gráficas, e neste ano com um pouco de tecnologia.


(Foto via Morrighan/Sofia Teixeira)

No painel sobre blogs no fantástico, bem acompanhado pelo João Campos, Nuno Reis, Luís Pinto e moderado por Sofia Teixeira. Descobri que o meu blog tem nove anos. Damn, I'm getting old. Also, I do need an haircut.


Noite dedicada à música no Fantástico, com João Morales em modo videojockey a ir buscar algumas pérolas da música inspirada pela literatura. Pérolas, algumas coisas que não conseguimos desver, e um toque muito erudito com Kagel. Começou da forma mais fantástica (passe a expressão) possível: com o astronauta Chris Hadfield a cantar Space Oddity na Estação Espacial Internacional. É este o espírito da ficção científica.


Madalena Santos e João Barreiros a ler contos fantásticos numa emissão ao vivo do programa Contos Não Vendem.


(foto via Folha em Branco)

Um prazer, ter conversado com José Alves da Silva, sobre a criatividade no 3D Printing. Terça feira ficam online os meus apontamentos do painel.


As criaturas concebidas pelo ilustrador, impressas em Makerbot para um projecto da Bold Machines. E sim, este é o ponto de vista da mesa, ou, colocando melhor a coisa, da baliza onde o guarda redes tem de defender o pénalti. Piada muito pouco óbvia sobre os nervos que nos afectam nestes momentos, especialmente no imediatamente antes.


Cláudio Jordão da KotoStudios e Luís Velez da BeeVeryCreative a analisar peças da makerbot. Um bom momento de partilha com as bee a imprimir ao vivo no auditório da BMOR.


A acompanhar a Bee acabei por ter pouco tempo para ver a malta do Comandante Serralves a falar do seu projecto. Carlos Silva, num ambiente decididamente menos hostil do que o das suas bactéricas badass.


Uma das fotos que mais me tocou da exposição Cortázar Frames, de fotografias inspiradas na obra de Julio Cortázar. Não foi a vencedora, mas o vencedor espelha bem o espírito futurista do fórum fantástico. Fotógrado que trabalha no dia a dia como videomapper. Quantos anos tem esta profissão?


Rhys Hughes, escrito convidado deste ano, e Pedro Piedade Marques conversam sobre literatura fantástica sul-americana no final do segundo dia do fórum.


Os Prémios Adamastor foram uma das novidades da edição deste ano. António de Macedo foi o merecidísismo distinguido com o prémio de personalidade, pela vasta obra literária e cinematográfica mas especialmente pela sua dedicação ao Fantástico, que tantos entraves lhe colocou na sua carreira. Na foto, Luís Corredoura recebe o Grande Prémio Adamastor de Literatura Fantástica Portuguesa, entregue por um orgulhoso Rogério Ribeiro. No Viagem a Andrómeda estão todos os premiados desta primeira edição dos Prémios Adamastor. Quando tiver tempo deixo qualquer coisa por aqui com os vencedores e lista final de nomeados.


There, and back again. O auditório silencioso à espera de mais um dia em cheio.


A já tradicional rubrica de escolhas literárias (e cinematográficas), desta vez com outro ritmo.


(foto via Folha em Branco)

E cá estamos, no painel mais conhecido como o do Tio Barreiros e seus sobrinhos. Ei-lo, a falar de dragões senis, acompanhado pelo João Campos, Cristina Alves e por mim, que estava a olhar para o telemóvel. Por razões legítimas. Descobri que faz imenso jeito ter um powerpoint na dropbox para se controlar melhor a sequência de uma apresentação deste género.



Evocar o Marquês de Fronteira, também apreciador de literatura fantástica e dinamizador de eventos ligados ao género, no arranque do painel comemorativo dos trinta anos sobre o ciclo de cinema de ficção científica organizado pela Gulbenkian e Cinemateca. Fiquei surpreendido com Rui Vieira Nery, numa excelente e encantadora apresentação. Realmente nunca me tinha lembrado que o Ensaio Sobre a Cegueira de Saramago tivesse muitos pontos em comum com o Day of the Triffyds de John Wyndham. E que Bénard da Costa tivesse sido educado na cinematografia de FC por João Barreiros.


Para terminar esta evocação, nada como um excerto de Metropolis.


É por estas que Penim Loureiro tem no seu Cidade Suspensa o melhor livro de BD português deste ano. A mestria do seu traço é algo de espantoso.


Novidade a marcar no radar: André Coelho (Terminal Tower e ilustrador do Sepultura dos Pais) está a trabalhar em adaptações da obra de J. G. Ballard. Ainda por cima de Myths of the Near Future. A imagem espelha de facto a iconografia precisa do conto ballardiano.


O Fórum encerrou com a estreia de Homem Ocupado, documentário ficcional à volta do conto Casa Ocupada de Cortázar. Sem querer entrar em spoilers digamos que João Morales foi encontrar uns fios de fantástico que vão de Lovecraft a Tartini, passando por Casanova e os míticos 4'33'' de Cage. Até se recordaram de Grant Morrison com o seu Danny the Street e The Painting that ate Paris. A música de Filipe Homem Fonseca está perfeita para esta homenagem que imagina se a casa do conto fosse em Lisboa.

Termina aqui mais um ano de Fórum Fantástico. Poderia escrever mais, mas em jeito de balanço gostaria de sublinhar o seu contínuo forte pendor literário com cada vez maior transdisciplinaridade, É fantástico, mas não apenas o fantástico da fantasia ou ficção científica. É a música, o trasnreal, a banda desenhada, o cinema, o realismo mágico, até o 3D. Cada vez mais o Fórum assume uma zona de fronteira onde géneros e media se tocam, dando faísca à criatividade.