quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Own it.


Era assim que se utilizavam os computadores nos tempos primordiais do Eniac. Gosto de imaginar que estas operadoras estão a executar programas escritos por Von Neumann ou algumas das primeiras investigações de algoritmos evolutivos simuladores de vida de Nils Barricelli.

Os meus alunos sofrem um bocado com o meu gosto pela história da tecnologia digital. Estão eles prontos a ligar o computador e começar a fazer coisas e têm de me aturar em prelecções sobre como evoluiu algo que para eles sempre fez parte do seu ambiente. Penso que é importante perceber como é que evoluiu a tecnologia digital, porque é que surgiu, quais foram os passos que levaram a abstracção matemática de Leibniz a Turing a materializar-se. Sem muitos, detalhes, claro, porque não quero traumatizar crianças e sim, é muito mais importante fazer coisas. Mas também o é saber um pouco mais e ter noções sobre como nasceu a geografia dos espaços digitais.


Entretanto, vindo através do fluxo de feeds (sim, porque sou um fã incorrigível de RSS) apanhei este estado da arte vanguardista de tecnologias computacionais de 1900. Complexas máquinas de cálculo para tabulações, uma das raízes da computação que surgiu não pela vontade humana de partilhar fotos de gatos em redes sociais mas sim pelas necessidades de cálculo para navegação, criptografia e balística, entre outras aplicações. O admirável mundo digital em que vivemos foi uma consequência inesperada e de todo não planeada. Imaginariam os tabuladores de 1900, orgulhosos detentores destas engenhocas reluzentes de cobre, ou os simuladores de explosões atómicas em milhares de tubos de vácuo, que nos primórdios do século XXI estaríamos interligados, dependentes de sistemas digitais complexos e a temer as consequências da automação algorítmica/robótica? Alguns autores de ficção científica sim, tiveram essa intuição um pouco mais tarde, mas isso são outras conversas e uma perigosa aproximação à ideia elementar mas incorrecta que a FC é um oráculo preditor de futuros.


Porque é que é importante conhecer outros aspectos da tecnologia para além do seu uso? Suspeito que este poster da iFixit explica tudo. Saber como evoluiu e para que serviu ajuda-nos a conceber novos usos, novas vertentes. Apropriarmo-nos da tecnologia alarga o espectro das suas aplicações, liberta-a de estar limitida a uma elite rarefeita de iniciados nos seus arcanos mistérios ou controlada por interesses estritamente económicos. O Cory Doctorow explica isto muito melhor do que eu, mas digamos que partilho a visão do potencial da tecnologia como libertador da criatividade humana, e limitar os utilizadores é reprimir a evolução da tecnologia.

Não estou a querer entrar na visão romântica dos hackers que criam invenções capazes de mudar o mundo na sua garagem. É uma visão recorrente, mas falaciosa, para não dizer falsa. Note-se que para o Jobs e o Wozniak começarem a inventar na garagem teve de haver generais a apostar naqueles engenheiros estranhos que pegavam em tubos de raios catódicos para aplicar à lógica matemática. Mas... own it. O conhecimento é valioso. Façam takeown ou sudo à tecnologia para libertar o seu potencial e as vastas capacidades criativas humanas. Criatividade é o único recurso natural que não esgota, mas depende da energia que lhe é dada pelo conhecimento. Descobrir ideias gera novas ideias.

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Babel x3D


O portal Babel X3D está de regresso. Dedicado aos mundos virtuais e tecnologias subjacentes, reúne ligações, espaços virtuais tridimensionais, recursos e tutoriais para todos os interessados nesta temática. E, breve haverá mais novidades, com reforço da área de notícias e novos tutoriais de introdução ao 3D. Visitem-nos em http://portal.babelx3d.net/.

Impressão 3D no Fórum Fantástico 2014


A edição deste ano do Fórum Fantástico contará com a presença da BeeVeryCreative, que virá ao auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro mostrar a tecnologia de impressão 3D e as impressoras Beethefirst.


Empresa portuguesa sediada em Aveiro, a Beeverycreative apostou na impressão 3D desenvolvendo aquela que é a primeira impressora 3D desktop nacional. Apostando num mercado alargado que inclui educação, design ou prototipagem conceberam uma impressora que atravessa a fronteira do espaço maker/diy deste género de equipamentos com uma máquina pensada para ser fácil de utilizar por qualquer um. A ideia é disseminar ao máximo o potencial da impressão 3D. O conceito, tecnologia e design  da impressora têm vindo a conquistar prémios, dos quais os mais recentes foram as distinções como Best Consumer Printer e Best Prosumer Printer no 3D Printshow em Londres.


Num evento dedicado ao Fantástico nas diversas vertentes artísticas é muito importante contar com a presença das tecnologias criativas. O potencial da impressão 3D/manufactura aditiva é enorme e aponta para intrigantes possibilidades transformativas nas artes, sociedade e economia. No Fórum também se pensa o futuro e a presença desta vanguarda tecnológica mostra formas de expressão criativa potenciadas pela tecnologia. Nesta oportunidade, graças à amável colaboração da Beeverycreative, o público do Fórum Fantástico 2014 poderá tomar contacto com uma fantástica tecnologia inovadora.

A impressora Beethefirst e a equipe da Beeverycreative estarão no Fórum Fantástico no dia 15 de novembro.

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Festival Área de Contenção


Área de Contenção já tem página oficial. Já está também disponível o programa final e os horários das sessões. O programa promete. Para além dos filmes e curtas metragens contemporâneas a vénia deste festival aos clássicos é profunda. Estão agendadas projecções de filmes tão fundamentais do terror como O Gabinete do Dr. Caligari, Plan 9 From Outerspace, The Phantom of the Opera, Frankenstein, Vampyr e o incontornável Nosferatu. A obra de Ed Wood, aquele que é considerado o pior realizador do mundo, também tem direiro a ciclo próprio dentro do festival.

Resta fazer as escolhas e rumar ao Cartaxo. Visitem o site do festival Área de Contenção para mais informações.

Comics


The Devilers #04: Este comic escrito por Joshua Fialkov para a Dynamite não se distingue por fugir à banalidade. Tem uma premissa muito clássica, naquela vertente do sobrenatural e oculto em colisão com a igreja católica como instituição. Um grupo de pessoas com capacidades além do normal funcionam como grupo de intervenção ao serviço do papa num momento em que os infernos invadem a Terra. A diferença, em relação ao que é habitual nestas estruturas narrativas, é que apenas um dos membros do grupo é católico devoto. Os defensores da igreja incluem um muçulmano, um hindu, uma letal judia treinada pela mossad e até um ateu. Pormenor curioso. Um ateu a combater por algo que é para si uma impossibilidade. E a páginas tantas Fialkov vai um pouco mais longe e mete deus a aparecer aos heróis... uma divindade única, que se metamorfoseia de acordo com a crença de cada crente. Até a do ateu. Pormenor curioso, que dá algo extra a uma série banal mas divertida.


Trees #06: Ainda não se tornou clara a ligação entre os personagens dispersos por zonas geográficas distantes criados por Warren Ellis para Trees. O que têm em comum é estarem imersos em processos de auto-descoberta, sempre na sombra das indiferentes àrvores alienígenas. Ellis anda em busca de algo neste comic, às voltas com normalidades catastrofistas, instituições clássicas que se querem manter poderosas enquanto sofrem processos sociais e políticos de erosão acelerada, mundos atomizados onde a globalização do pensar local assume contornos estranhos. As árvores alienígenas são um catalizador para aquilo que é uma reflexão sobre os dilemas da contemporaneidade.


Wild's End #02: Animais antropomórficos encantadores contra tenebrosos monstros mecânicos vindos de Marte. Abnett mantém bem o equilíbrio entre o texto clássico da guerra dos mundos e a inocência das fábulas antropomórficas de inspiração vitoriana. Culbard consegue no seu estilo gráfico inconfundível misturar a iconografia de inspiração vitoriana destas fábulas com o classicismo tecnológico das visões sobre a obra de Wells. Este título da BOOM! Studios merece a leitura.


Judge Dredd Megazine #353: Termina de forma muito abrupta o interessante Ministry of Space. Não se percebe. Tanto trabalho a criar um mundo ficcional sólido, a urdir um enredo com ameaças alienígenas, funcionários públicos austerizados e astronautas do passado regressados de missões secretas ao espaço para... terminar de repente. Dá a sensação que os editores estão mais preocupados em lançar séries novas do que em aprofundar as existentes. Esta parecia um corpo estranho na Megazine, normalmente às voltas com o universo alargado de Judge Dredd. Pode ter terminado de forma abrupta, mas terminou a intrigar e a manter espaço em aberto para uma continuidade que merece ter.

domingo, 19 de Outubro de 2014

Pedagogia e Tecnologia Criativa


E porque é que me lembrei de Giotto, pensei. Porque me recordei das aulas de Geometria Descritiva no liceu com o velho professor Luís Gonçalves, adepto de usar um pau de vassoura e as paredes para demonstrar as projecções das retas nos quadrantes. Recordei o que ouvi, décadas atrás, sobre Giotto ter sido um dos precursores da geometrização do corpo e do espaço. Ou seja, um dos primeiros a tentar descrever o corpo humano attavés de formas geométricas, conceito radical e inovador que fazia parte da perspectiva, essa nova tecnologia transformativa que revolucionou as formas de ver e representar o mundo nos velhos tempos do renascimento, há quinhentos anos atrás. Há uma linha de continuidade entre a geometria no espaço da sistematização perspéctica e as magias virtuais do 3D, descendentes directas dos frescos de Giotto e da experiência de Brunelleschi no baptistério florentino. Foi algo que me passou pela mente durante o workshop ABC da Animação 3D, inserido num dia de partilhas de projectos e experiências.


A Escola Secundária D. João II em Setúbal acolheu o ArdRobotic, evento organizado pela Anpri que permitiu reunir no mesmo espaço diversos projectos de utilização das tecnologias na educação e entidades que trabalham na vanguarda da inovação. Por entre os muitos projectos de robótica e open hardware com Arduino estava este As TIC em 3D, mostrando o trabalho realizado pelos alunos do Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro nos campos da modelação 3D, animação 3D e mundos virtuais. Projectos que se sentem um pouco perdidos no meio de tanta robótica, electrónica e programação mas que mostram uma outra vertente do uso criativo das tecnologias.



No espaço das TIC em 3D mostravam-se modelos de Sketchup criados na área curricular de TIC, mundos virtuais de turmas de 2.º ciclo criados em projectos interdisciplinares, e vídeos de animação 3D, 3D Scanning e realidade aumentada que têm vindo a ser criados ao longo dos anos pelos alunos do Agrupamento.

Porque, desculpem-me a especulação, o evento estava pensado como uma mostra de tecnologia nas escolas mas foi de facto uma mostra de pedagogia nas tecnologias criativas. Os projectos participantes distinguem-se por usarem tecnologia como um meio e não um fim. Interessa desenvolver ideias, criar, e não aprender conceitos. É talvez por isso que sejam tão intrigantes e despertem o interesse para tecnologia vista não como elemento de consumo mas como ferramenta ao serviço do engenho criativo.


Estavam presentes algumas empresas. A Nautilus com os seus projectores que permitem transformar qualquer superfície em ecrã interactivo, a Artica com os robots Farrusco  e a Printoo com os seus circuitos modulares flexíveis. Estes intrigaram-me, pela demo com um dirigível criado com motores, circuitos printoo e balões a hélio (tenho um fascínio pouco saudável por zeppelins e similares), e por dinamizarem actividades de AEC com alunos do primeiro ciclo que incluem electrónica e modelação 3D.


Outros espaços da escola estavam abertos aos visitantes. Na biblioteca recordavam-se gerações anteriores da tecnologia digital com uma pequena mostra de scanners portáteis, equipamnto diverso e dois Spectrums com ar de muito uso e que quase me levaram a perguntar se ainda funcionariam. Não é impossível, e aqueles que se interessam por retro computing devem saber como.


Talvez o mais encantador dos presentes no encontro foi o Robot Zeca e o seu criador, José Carlos Fernandes. Não confundir com o autor da fabulosa bandadesenhada A Pior Banda do Mundo, mas igualmente genial e cativante. Ver o ZECA em acção, e em especial a interacção das crianças com a máquina, é algo que espanta. Não resisti a uma experiência com o 123D que agradou ao criador do robot.

Foi muito interessante poder conversar com o seu criador, que veio ter comigo para perceber um bocadinho do que é a modelação 3D. Só tenho a quarta classe, disse-me o construtor de CNCs, robots e que por andar a experimentar com o dar relevo a fotografias para criar baixo e alto relevo na CNC quis descobrir um pouco sobre a modelação 3D. Eu tenhou um pouco mais que isso como formação, mas note-se que naquilo que trabalho com os alunos e vim mostrar e demonstrar no ArdRobotic sou autodidacta. Há aqui uma lição a retirar, e não, não é de alguma suposta inutilidade do ensino formal. Antes, é o poder da curiosidade, do interesse despertado, da vontade de aprender quando algo nos toca no coração, apaixona a mente e dá ideias. Do experimentar, não ter medo de estragar, e assim aprender, evoluir e criar. Nunca cessa de me fascinar esta que é a mais elementar das competências artísticas - é, na sua essência, o acto de desenhar, aplicada ao mundo da tecnologia. Notável, o robot ZECA, pela máquina que é e pela postura de inquietude cognitiva do seu criador.



Os projectos pedagógicos presentes incluíam modding por Rui Cabral; a criatividade desenfreada do Clube de Robótica da Escola Profissional de Almada (quase com um momento whoviano com o seu orgão a laser a tocar samples passando a mão pelos sensores); o Clube de Robótica do AE de S. Gonçalo, daqui mesmo ao lado em Torres Vedras, com resultados de excelência nos festivais de robótica nacionais e internacionais; o dinâmico Robotis, clube de robótica da AE D. Dinis; a diversidade do Projecto de Arduino da AE Augusto Cabrita, e O Robot Ajuda, projecto de robótica educativa de Paulo Torcato na Escola Secundária da Portela.


Este robot futebolista de S. Gonçalo dá toda uma nova dimensão à angústia do guarda redes antes do penalty. Todos os projectos em exposição têm em comum o abordar a tecnologia através da apropriação criativa dos meios. É por isso que este primeiro ArdRobotic, mais do que um encontro sobre robótica e arduino (com 3D infiltrado) se tornou um encontro sobre tecnologia criativa.


Um aspirante a doutoramento pela Universidade de Gallifrey demonstra os princípios da aerodinâmica pré-TARDIS. Ou melhor, um momento do workshop ABC da Animação 3D. Neste, os participantes puderam ter uma iniciação rápida ao Sketchup, potente e intuitivo modelador 3D, e sofreram um percurso pelas técnicas de trabalho que utilizo para trabalhar com os alunos. No Sketchup mostrou-se a modelação simples e alguns truques mais avançados (a modelação por revolução surpreende sempre quem a está a descobrir). Para a animação 3D fez-se o percurso de criar um objecto no Doga, criar um cenário em Bryce, importar o objecto e criar a animação, sempre com referências à geometria, matemática, perspectiva, artes, trabalho interdisciplinar. Porque, como gosto sempre de assustar os alunos nas primeiras aulas, 3D é matemática. São coordenadas de pontos no espaço cartesiano. São pontos que traçam segmentos que formam superfícies e geram formas. São os pontos de vista, a perspectiva e os alçados. E o trabalho no digital vem de uma longa continuidade histórica e estética. O workshop em si permitiu afinar estratégias para os que serão dinamizados em Novembro e Dezembro no Museu das Comunicações.

Só posso agradecer à Anpri o convite para estar presente neste evento de partilha. Num sábado, em Setúbal, nas instalações de uma escola, mas que mesmo assim teve muitos visitantes. Pela presença, pela oportunidade de partilha. Fez sentir um pouco menos sozinho. Tenho a consciência que o 3D é zona de nicho, entre as Artes, cujos professores olham mais naturalmente para os media tradicionais, vídeo e fotografia, e a Tecnologia, cujos professores entendem numa via mais... tecnológica, falhando-me agora le mot juste. Quando um grupo de alunos visitou o espaço das TIC em 3D e depois de uma discussão sobre técnicas, programas e ideias me deu os parabéns pelo trabalho dos meus alunos, ganhei emocionalmente o dia. Porque é isso. É o trabalho dos alunos, as suas aprendizagens espelhadas nas suas criações, o cerne deste projecto.


Em exposição estava este dispositivo de resposta electrónica, talvez um avô dos clickers de resposta tão admirados pela vertente mais instrutivista da tecnologia na escola, adepta de quadros interactivos, vídeos e aplicações de aprendizagem estruturada. São úteis, e importantes para alguns aspectos do acto de aprender, mas pode e deve-se ir mais longe,

Aprende e ensinar com tecnologia, hoje, já vai muito mais longe do que o aprender processos de trabalho em aplicações específicas. É isto o que o ArdRobotic sublinha. As tecnologias não são um fim pedagógico, são um instrumento potenciador da criatividade. Os projectos partilhados mostraram o poder dessa dimensão criativa, de tinkering, making, empreendedorismo, o que lhe quiserem chamar: o ter ideias, ir aprender mais, pegar nas ferramentas e experimentar, um processo evolutivo onde cada novo passo não nos aproxima do fim mas mostra outros caminhos a desbravar. Um evento deste mostra o que já hoje se faz nas nossas escolas, apesar das pressões destrutivas do formalismo educativo, de um ministério mais apostado em reduzir a educação ao mínimo do que em investir no futuso, da degradação das condições de trabalho dos professers. Todos os presentes fazem o que fazem para além da sua carga lectiva, com dispêndio do seu tempo e recursos pessoais. E fazem-no porquê? Não consigo responder pelos outros, apesar de lhes notar o entusiasmo. Pessoalmente, porque intriga, torna o dia a dia mais interessante, e pelo brilho nos olhos dos alunos quando se apercebem do que conseguem fazer com as ferramentas digitais.


Termino com esta imagem, que mostra o poder da vontade de aprender, da criatividade e do conhecimento tecnológico aplicado. Agradeço ao Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro a abertura e apoio neste projeto das TIC em 3D, e à Anpri pela presença num evento que espero que se repita e ganhe maior dimensão. A organização está de parabéns por ter proporcionado este momento de partilha que pôs em contacto criadores e professores que apostam na criatividade tecnológica para potenciar os seus alunos.

DataGram



sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Ficções

Headache: A TOR anda a ganhar muito justamente a fama de melhor e-zine de ficção científica e fantástico da actualidade. Não é por acaso que nos Hugo deste ano não só o conto vencedor saiu deste site, como boa parte das nomeações para conto e novella. O cuidado na curadoria editorial é elevado, o que resulta numa grande diversidade de estilos literários que desbravam as fronteiras ficcionais do género. E também nos dá supresas destas, como a tradução de um conto de Cortázar, que pela primeira vez deu a conhecer aos leitores anglófonos um dos mais obsessivos e surreais contos daquele que foi o outro grande escritor argentino do fantástico literário. HeadacheCefalea no original, mergulha-nos num mundo onírico onde uma inexplicável dor provoca males de estar num narrador que habita um espaço entre o irreal e o tangível. No aviário das delicadas mancúspias, animais frágeis aos quais uma falha de precisão pode provocar devastadoras fatalidades, o cérebro é acometido por dores lancinantes enquanto o quotidiano se recusa a prosseguir em eixos previsíveis.

Scheherazade: Uma incursão de banalidade intrigante vinda de um escritor que nos habituou a analisar à lupa e descobrir o imprevisível encerrado no aparentemente predizível. Um homem solitário tem como único contacto com o mundo uma enfermeira de meia idade que rotineiramente lhe trás comida, leituras e ainda presta de forma muito cirúrgica serviços sexuais, que não se chega a perceber se fazem parte da gama de serviços prestados ou são uma concessão sensual da mulher. A relação é solta e mecanizada, não há amores ou paixões envolvidos em infidelidades casuais. O que realmente fascina o homem são as histórias que a enfermeira, qual Sheherezade das mil e uma noites, conta após o acto mecanizado. Estas são as janelas que a mulher vai abrindo para o seu interior, revelando uma curiosa irreverência onírica. O conforto da solidão colide com as dimensões inesperadas dos outros com que nos cruzamos neste conto de Haruki Murakami.

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

Modo Analógico

As TIC em 3D em modo analógico. Não teria dado por isto se uma das senhoras da secretaria não me dissesse olhe, acho que li qualquer coisa sobre si no jornal. E, realmente, lá estava, o texto alinhado para a página e jornal da escola, e que o Director do Agrupamento enviou aos meios de comunicação locais. Apareceu no jornal mafrense O Carrilhão. É bom, Tem o seu quê de promoção, mas mostra o que se tenta fazer para lá dos limites curriculares e imposições externas no domínio da educação. Tinha prometido a mim próprio não voltar a abordar a MakerFaire por aqui, que isto do recordar os sucessos que já passaram não é coisa saudável. Mas suspeito que ninguém levará a mal o deixar aqui esta pequena alegria. Made my day, como não resisti a dizer com esta mania da anglicidade intrusiva.


Mas a sentir-me um bocadinho azedo, hoje, com a notícia de mais um corte brutal previsto na educação, de acordo com a proposta do novo orçamento de estado. A pensar, mas ainda não lhes chega? Não chega o esmagar das escolas? As carreiras destruídas? A sobrecarga de alunos por turma? O clima de desilusão que se instalou na minha classe profissional? A pobreza que precariza o futuro de todos, mas principalmente do futuro destes alunos que tanto me surpreendem e motivam? E tantas, mas tantas outras injustiças, que outros sabem enumerar e criticar muito melhor do que eu, que fujo da realidade com estas virtualidades, pensando que o que se vai conseguindo progredir acontece apesar de e não por causa de. Não são os apoios, os governos e ministérios, as instituições que nos dão condições. Por cá vamos conseguindo evoluir apesar das pressões negativas daqueles que supostamente nos representam e deveriam trabalhar para o bem comum. E fazêmo-lo porque... não sei. Pelos com que me vou cruzando que também não desistem não posso falar. Eu sei porque o faço. É o meu espaço. A minha muralha. A minha forma de não ceder. A maneira como mostro à comunidade aquilo que, no fundo, sabem: que vale a pena investir num futuro melhor, e que o podemos fazer com liberdade, consciência e vontade de ir sempre mais além.

(Não, não lhes chega.)

Encontro ArdRoboTIC


O Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro estará presente no encontro ArdRoboTic, que decorrerá em Setúbal no próximo dia 18 de Outubro. Organizado pela ANPRI, será um encontro e partilha de práticas de clubes escolares e projetos nos domínios da robótica, open hardware e outras experiências pedagógicas com tecnologias. Estaremos presentes com o projeto TIC em 3D, um workshop sobre Sketchup e se o nível de sanidade se mantiver duvidoso ainda haverá espaço para umas brincadeiras experimentais com 3D Scanning. Para saber mais visitem a página do encontro: ArdRoboTic.

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Ficções

Spring Festival: Happiness, Anger, Love, Sorrow, Joy: Um conto muito intrigante de FC chinesa por Xia Jia, traduzido por Ken Liu. A tradição milenar potenciada pela automatização digital, realidade virtual e algoritmos, contada em pequenas vinhetas de especulação. Um casal antevê a vida futura do seu recém-nascido numa milenar celebração tradicional onde a simulação tecnológica traça todo o caminho da vida da criança. Um cidadão anónimo, desgostoso com a propensão comunitária para reality shows participativos, descobre-se o foco das câmaras de um reality show por cortesia de um vizinho. Uma jovem rapariga em busca de esposo rende-se aos algoritmos de predição de uma empresa de encontros, que vão progressivamente traçando os futuros possíveis com os homens candidatos a esposo até acertar no amor perfeito e eterno. Uma avó centenária comemora o seu aniversário na presença virtual da sua larga família, até que sente a mão de uma bisneta que num tempo onde a telepresença é habitual se atreve a fazer-lhe uma visita física. Conto interessante, que no fundo analisa o impacto das tecnologias nas culturas e mentalidades tradicionais.

Patterns of a Murmuration, in Billions of Data Points: Um aparente acidente que vitima milhares de participantes num comício é o ponto de partida para uma investigação em busca de potenciais culpados. Em evidência está um complexo sistema de inteligência artifical, panopticon sentiente atomizado em milhares de locais e dependente de uma vasta rede de sensores. Criada como arma na luta sem quartel entre duas facções políticas, percebe que está acima disso e dá passos que a aproximam perigosamente de uma autonomia letal. Conto de Jy Yang, a brincar muito bem com os conceitos positivos e negativos da inteligência artificial.

Giants: hard SF de estilo clássico num conto de Peter Watts onde uma nave de exploração espacial se depara com um forte obstáculo na sua viagem pelas estrelas. A trajectória planeada passaria por um banal sistema solar só que ao aproximar-se da zona a inteligência artificial apercebe-se que algo está errado. As órbitas planetárias rigorosas previstas pelos dados de observação revelam-se erradas, e os corpos celestes soltos por algum cataclisma estelar derivam em órbias erráticas. A única forma da nave ultrapassar este imprevisto é atravessar os limites exteriores da estrela, mas ao fazê-lo é atacada por possíveis criaturas alienígenas, plasma eléctrico que exibe comportamentos autónomos e, talvez, inteligência. Tudo está nas mãos de uma IA de personalidade restrita e dois tripulantes, um de consciência integrada com os sistemas e outro que representa uma facção que se revoltou contra a intrusão da inteligência artificial e foi posta em sono criogénico para acalmar a revolta. A nave em si é um asteróide oco, contendo zonas fabris, laboratórios e zonas verdes, com recursos naturais capazes de sustentar a tripulação durante um longo périplo pelas estrelas, controlada por uma inteligência artificial conceptualmente limitada pelos seus criadores, que não queriam correr o risco dela se tornar auto-consciente.

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

Festival Área de Contenção


Devo dizer que fiquei muito intrigado quando começaram a surgir notícias sobre este festival de cinema de terror que irá decorrer no Cartaxo. Sim, leram bem, não em Lisboa, Porto, Coimbra ou outra cidade mais habituada a este género de eventos, mas num dos corações do Ribatejo. Surpreende, e bem, uma vez que a cultura não pode nem deve restringir-se aos sítios de sempre com as ideias de sempre. Será interessante ver se este festival conseguirá vingar e impôr-se como um dos eventos de cinefilia de horror e fantástico, a par com o Fantas no Porto e o lisboeta MOTELx.


O Área de Contenção – Encontros Internacionais de Cinema Fantástico de Horror do Cartaxo vai decorrer nos dias 31 de Outubro, 1 e 2 de Novembro no Centro Cultural do Cartaxo. Têm através das redes sociais divulgado as curtas metragens a concurso e os filmes em cartaz. Não encontramos nomes de primeira linha, apesar de haver entre os portugueses alguns já bem conhecidos do MOTELx e Fórum Fantástico, como Pedro Santasmarinas ou Pela Boca Morre o Peixe, vencedor do prémio Motelx deste ano. E ainda bem que há por aqui pouco nome sonante. Significa que será um festival para ir descobrir e ser surpreendido por novas cinematografias e autores emergentes do cinema de horror.


Uma das boas surpresas é a exibição de Escape from Tomorrow, filme surreal de horror e ficção científica filmado à socapa e estilo guerrilha, sem quaisquer autorizações da parte da Disneyland. Para além do vislumbre do futurismo retro da Tomorrowland original ainda somos mimados com visões dos arrepios provocados pela banalidade da estética Disney fora de contexto, ruminações de um homem de meia idade atraído por um par de jovens francesas, princesas Disney com o seu quê de ninfomania e mais algumas bizarrias. O filme é um pouco desconexo, mas vale bem a pena quer pela estranheza quer pela técnica de filmagem, e suspeito que só pela sua exibição valha a pena uma expedição ao Cartaxo.

O Área de Contenção tem divulgado o cartaz cartaz completo na sua página do Facebook e no  Twitter. O blog CinEuphoria divulgou recentemente a selecção do festival. Para breve a organização do festival divulgará um sítio próprio na web. As sessões irão decorrer no Centro Cultural do Cartaxo. Os preços são muito convidativos. 9€ pelo bilhete diário, 4€ por sessão e 2€ para as sessões infantis. Os bilhetes poderão ser adquiridos no Centro Cultural do Cartaxo nos dias do festival ou reservados com pedido para o email centroculturalcartaxo@gmail.com.O

O festival intriga, a selecção é interessante, e falta ainda saber o programa completo para agendar uma merecida visita ao Cartaxo. Se não tiverem ideias sobre o que fazer no Halloween, aproveitem este festival. Eu vou. Finalmente sentirei arrepios no Cartaxo que não foram provocados por libações com o lendário carrascão da terra.

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

Prémios Adamastor

Uma das grandes novidades do Fórum Fantástico 2014 será a primeira edição dos Prémios Adamastor, que visam distinguir o melhor que se publica na Ficção Científica e Fantástico de língua portuguesa. Distinguir e estimular, contribuindo para combater a escassez de obras de literatura de género por cá publicadas, apesar do vibrante panorama de escritores e leitores. O regulamento dos Prémios Adamastor está na página da Trëma, onde também se podem encontrar as listagens das obras elegíveis para esta primeira edição dos prémios.

Comics


Caliban #07: Um final morno para uma série desapontadora. O início prometia, com uma nave espacial carregada de colonos em sono criogénico a colidir no hiperespaço com uma nave alienígena. A colisão provocou uma fusão entre as duas naves e libertou uma criatura misteriosa que se apodera dos corpos dos tripulantes. E o resto lê-se como uma das infindas variações sobre o tema de caça e sobrevivência a criaturas letais nos misteriosos espaços confinados de uma nave espacial. A ilustração teve alguns momentos interessantes mas Garth Ennis desenvolveu uma história de ficção científica rotineira.


The October Faction #01: O regresso do horror classicista de Steve Niles com ilustrações num fabuloso estilo gráfico. A premissa parece batida, com as desventuras de um caçador de monstros sobrenaturais reformado que tem uma família altamente disfuncional. Mas Niles trabalha sempre muito bem este tipo de registos e a IDW não tem medo de investir em ilustradores que fogem aos realismos estilizados tão comuns na estética dos comics.


Chilling Adventures of Sabrina #01: Isto de ter uma CEO considerada demente pelos seus empregados dá bons frutos. A tradicionalérrima Archie Comics tem levantado sobrancelhas ao meter o seu estábulo de personagens all-american em situações pouco comuns ao conservadorismo deste sub-género dos comics. Temos Archie a defender o casamento homossexual (o que levou à fúria de alguns sectores da sociedade americana) e esta fantástica carta branca ao argumentista Roberto Aguirre para transformar os cartoons adolescentes em sagas de horror. Começou com Afterlife with Archie, que parte da banal infestação zombie para culminar num apocalipse lovecraftiano sublimemente ilustrado por Francesco Francavilla, e tem continuidade nestas aventuras em que Sabrina, a teenage witch, vai realmente fazer jus às bruxarias.

Aguirre assumiu que estas aventuras iriam passar-se nuns estilizados anos 60 e o tom gráfico aponta para um horror retro visualmente evocativo da iconografia dos filmes de série B. A série aproveita para reeditar algumas histórias clássicadas da personagem. No primeiro número faz-nos descobrir ou redescobrir a primeira aparação de Sabrina, e... bolas, que Dan deCarlo desenhou uma teenage witch deveras malévola... há uma decadência sensual neste olhar que está muito fora da iconografia da sorridente quadricromia deste género de comics.


War Stories #01: É bom ver Garth Ennis de regresso a um tipo de histórias que sabe contar muito bem, passadas na sua meticulosamente visão sobre a II Guerra Mundial. São histórias de guerra onde o heroísmo fica de fora e a precisão na reconstituição histórica é enorme. Não serão muitos os ilustradores capazes de acompanhar Ennis nestes voos, mas só por esta vinheta Matt Martin mostra que tem garra.


Dark Ages #03: O traço inconfundível de Culbard alia-se muito bem à solidez dos argumentos de ficção científica de Dan Abnett. Neste Dark Ages somos transportados à idade média, onde um grupo de mercenários embate contra o que parecem ser demónios dos infernos, capazes de derrotar exércitos com luzes que queimam e dar vida aos mortos. Num mosteiro onde se abrigam reside o verdadeiro seguredo: a Terra como um de muitos palcos de guerra interestelar, e um emissário azarado que se despenhou, dificultando a tarefa de avisar os indígenas do planeta da ameaça que aí vem. O equilibrio entre futurismo HardSF e antiguidade histórica é perfeito.

Forja matemática


"The digital universe and the hydrogen bomb were brought into existence at the same time. "It is an irony of fate," observes Francoise Ulam, "that much of the high-tech world we live in today, the conquest of space, the extraordinary advances in biology and medicine, were spurred on by one man's monomania and the need to develop electronic computers to calculate whether an H-bomb could be built or not.""

O lado quase mitológico do mundo digital, forjado no fogo atómico pelos Vulcanos da era contemporânea, exímios praticantes da mais abstracta das artes. Do intrigante Turing's Cathedral: The Origins of the Digital Universe de George Dyson, uma história da gestação da computação digital às mãos de matemáticos e engenheiros que meticulosamente quebraram barreiras académicas, inventaram o inédito, aplicaram as exótias teorias matemáticas à engenharia electrónica, e com isso tornaram possível o admirável novo mundo digital em que hoje vivemos.

sábado, 11 de Outubro de 2014

Storytelling em vídeo: acção de formação


plano de formação do Centro de Formação da Associação de Escolas Rómulo de Carvalho (o de Mafra, encurtando um nome longo) para este ano inclui uma acção sobre edição de vídeo destinada a professores de todas as áreas. O objectivo é experimentar edição de imagem direccionada para vídeo, captura audio e edição não linear de vídeo com recursos avançados. No final da ação de formação os formandos deverão conseguir: editar e corrigir imagens fotográficas; captar e melhorar a qualidade de som; compreender princípios elementares de edição não-linear de vídeo; efetuar montagem de clips de vídeo com edição; criar vídeos recorrendo a filmagens próprias, fotos e áudio capturado/narrado; elaborar uma narrativa em vídeo coerente sobre um tema, integrando os recursos multimédia necessários. Usar-se-ão o GimpSony Vegas e Audacity como ferramentas de trabalho.

As ferramentas digitais possibilitam e potenciam novas formas de expressão com aplicabilidade em contextos pedagógicos. Destas, o vídeo pode ser utilizado como discurso por professores e alunos, recorrendo ao storytelling para apresentação de conteúdos, resultados de aprendizagem ou projetos específicos. Indo beber à gramática visual explorada pela tradição cinematográfica, a democratização dos meios de captura e edição de imagem em movimento coloca nas mãos dos interessados uma elevada gama de possibilidades estéticas e narrativas. A diversidade de aplicações que permitem explorar edição vídeo é grande, mas não é habitual encontrar processos de trabalho integrado que permitam aos utilizadores individuais aceder a fluxos procedimentais de nível semi-profissional. Propomos nesta acção um percurso de aprendizagem que incide na introdução à edição de imagem, edição áudio e edição de vídeo não-linear multipistas.

A formação é gratuita e as inscrições podem ser feitas na página do CFAERC.

O conceito e processo de trabalho da acção baseiam-se no que faço com os alunos de 8.º ano no campo da edição vídeo. Algumas experiências num contexto de formação para professores de história em que participei foram a inspiração para responder ao desafio que o CFAERC me lançou.

InstaBend




sexta-feira, 10 de Outubro de 2014

The Invent To Learn Guide to 3D Printing in the Classroom: Recipes for Success


David Thornburg, Norma Thornburg, Sara Armstrong (2014). The Invent To Learn Guide to 3D Printing in the Classroom: Recipes for Success. CMK Press.

Encontrarmo-nos sem saber o que fazer com uma impressora 3D chegada à sala de aula é, suspeito, um problema que durante muito tempo continuará a ser incomum nas escolas. E ainda bem que assim é. Se há algo que as recentes experiências de melhoria das competências tecnológicas em Portugal conseguidas através do dilúvio de equipamentos nas escolas nos ensinaram é que se o ter acesso aos meios é condição essencial, o não ter estratégias e objectivos concretos e adequados às realidades locais se traduz numa enxurrada de meios digitais de rápida obsolescência e uso limitado aos mais elementares potenciais. É o paradoxo das tecnologias. Sem ovos não há omoletes, mas sem frigideiras também não. E se algo falhou nos projectos PTE/Magalhães foi o desiquilíbrio do build it and they will come quando quem veio não sabia em grande parte muito bem o que fazer com tanta coisa nova. Projectos de abordagem ao estímulo das tecnologias na aprendizagem que sejam excessivamente uniformizadas e monolíticas não parecem ser as mais eficazes nem as que permitem resultados mais interessantes.

Este livro mostra um outro caminho possível. Não é uma obra complexa, cheia de especulações sobre o brilhante futuro da manufactura aditiva ou abordagens técnicas às suas diferentes vertentes tecnológicas. É o que é. Um guia, quase um livro de receitas que estrutura ideias muito concretas para tirar partido das impressoras 3D na sala de aula com o necessário enquadramento pedagógico. São projectos simples, que requerem poucos conhecimentos de modelação mas que integram saberes de diferentes áreas. O foco está centrado nas TIC e CTEM, com muitas actividades de concepção e impressão em 3D de objectos como jogos de lógica, módulos para pavimentações, elementos para construção de sólidos ou engrenagens funcionais. Já o lado mais artístico fica-se pela modelação de um templo grego (daqueles projectos que me deixou logo a pensar "mas bolas, isto faço regularmente com os meus alunos") e algumas sugestões finais.

Receitas simples, procedimentais e de objectivos enquadrados nas áreas curriculares americanas, mas suspeito que muito fácil de adaptar às nossas. Sugerem algum software curioso, como o MeshMixer ou o KnotPlot, que desconheciam, e integram muito bem o desenho vectorial 2D em Inkscape com a extrusão em 3D feita no OpenScad e melhorada no Meshlab. Isto é outro ponto de interesse, mostrando diferentes técnicas de trabalho. Seria mais simples centrar-se no Sketchup ou outra ferramenta, em vez de sugerir esta variedade. Quanto ao foco nas CTEM, é suavizado por uma visão conceptual abrangente. Os autores não compartimentalizma os saberes e conteúdos curriculares, mas mostram como diferentes conhecimentos interligados são necessários para criar, num processo que reforça aprendizagens recorrendo a conhecimentos adquiridos e à experiência prática de resolução de problemas. Ou, como referem de forma muito sintética, "Design is where the mathematical reasoning, artistic sensibility, and engineering processes come to the fore.". E, ponto fundamental tão óbvio que me ia passando despercebido, mostra como é possível às crianças utilizar esta tecnologia.

Chegar à sala de aula e ver lá uma impressora 3D não é um problema com que nos deparemos a curto, ou sequer a médio prazo. Caso isso aconteça, livros como este dão ideias sobre o que fazer. Pessoalmente, eu sei precisamente o que fazer com crianças do ensino básico e impressoras 3D. Ter uma na sala é só o passinho que falta ao ensinar-lhes a modelar em 3D.

60 anos




Montras de lojas tradicionais de Torres Vedras