terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Tutti gli incubi di Dylan Dog


Tiziano Sclavi, Angelo Stano, Giampiero Casertano. Tutti gli incubi di Dylan Dog. Milão: Arnoldo Mondadori.

L'Alba dei Morti Viventi: E foi aqui que tudo começou. A primeirissima  história de Dylan Dog, onde Tiziano Sclavi nos dá desde logo os traços gerais que se tornaram quase imutáveis. A campainha que grita no número sete de Craven Road, a casa cheia de memorabilia do fantástico, o toque do clarinete, o humor idiota de Groucho, o modelo de galeão que Dylan vai construindo (até hoje, não o terminou), a sua relação romântica com as mulheres com que se cruza, o caráter de aventureiro algo impotente, que apenas vê no sobrenatural como a hipótese que sobra depois de descartar as restantes. A única diferença que li neste Dylan inicial é um certo humor ácido, e não o ar nostálgico que depois viria a adquirir. A história em sim é brilhante, um início à altura da personagem. Sclavi faz aquilo a que nos habituou, criar histórias originais cheias de referências à literatura e cinematografia de terror. Para além das óbvias - morti viventi é uma história de zombies, temos demónios (se bem que Xabaras se irá converter mais tarde em pai de Dylan), toques de Frankenstein (completos com geradores vandegraaf) e uma genial referência visual a The Exorcist (basta uma vinheta, com uma criança zombie). Esta é uma história marcante, que deu a faísca a um dos personagens mais duradouros e influentes da Casa Bonelli.

Memorie Dall'Invisible: Para mim, esta sempre foi uma das mais enigmáticas histórias que Sclavi escreveu para Dylan Dog. É giallo puro, há um assassino em série à solta pelas ruas de Londres e Sclavi compraz-se em trocar-nos constantemente as voltas na busca de quem é o culpado, dando-nos sucessivos possíveis criminosos (um dos quais, apesar de inocente, confessar-se-á e será enforcado pelos crimes) até nos fazer a vontade e revelar o verdadeiro criminoso, se bem que deixa logo nas primeira vinhetas uma pista para a sua identidade. O enredo é tortuoso, como convém a um bom policial, com múltiplas linhas narrativas que envolvem Dylan, o inspector Bloch, um jornalista acérrimo no ataque ao trabalho da Scotland Yard (major spoiler: é este o assassino) e uma prostituta que organiza as colegas para contratar Dylan, numa tentativa para se defenderem de um criminoso que as tem como alvo. E uma outra linha narrativa, muito enigmática, sobre um homem em quem ninguém repara, aparentemente invisível, testemunha de um dos assassinatos e ele também caçador, por vingança, de um assassino que acabará por se revelar ser o seu irmão gémeo. Bizarro e enigmático, mesmo para os padrões da série. Sendo Sclavi um amante das referências, há uma verdadeira pérola do fumetti em que a história referencia Nighthawks, quadro de Edward Hopper sobre a solidão onde vemos da rua, iluminados pela luz da cafetaria, anónimos noctívagos ao balcão.

Jekyll: Novamente, uma aventura em registo de Giallo. Dylan cruza-se com um pacato professor universitário de psicologia que partilha o apelido com o lendário Doctor Jekyll do romance clássico de Stevenson. Uma alusão que parece mortífera, quando se começa a ver envolvido na morte misteriosa de mulheres com quem se relacionou, incluindo a ex-esposa e o filho. As mortes são violentas, aparentemente cometidas pelo alter-ego do pacado professor, e deixam sempre uma pista, uma pena de corvo. Tudo aponta para Hyde, que irá varias vezes a tribunal acusado das mortes, e acabará condenado depois de ser, aparentemente, desmascarado por Dylan Dog. Mas o mundo do giallo não é simples, e o verdadeiro culpado está na figura de uma personagem discreta, uma ex-aluna deste professor que ficou traumatizada por um ataque aleatório de um corvo numa das suas aulas, e assume vários papéis numa bizarra vingança, incorporando-se como o violento Senhor Hyde que reside dentro dos mais pacatos Jekills.

Golconda: Surrealismo puro cruza-se com toques de splatterpunk numa história com fortes contornos sobrenaturais. Londres é assolada por uma praga de figuras estranhas - homens de Magritte mortíferos, olhos gigantes que se deslocam de bicicleta, fadas que raptam Mortimer (um brilhante cameo, a replicar o estilo gráfico de E.P. Jacobs). Ao mesmo tempo, estranhos eventos desenrolam-se num bar underground apelidado de inferno, aparentemente invadido por demónios que assassinam noventa e nove vítimas num incêndio. Pelo meio, Dylan apaixona-se pela jovem dona do bar, uma mulher obcecada por Golconda, uma cidade indiana mas que também é o nome esquecido do local onde tinha o bar, uma antiga igreja que foi palco de rituais satânicos mortais. Para complicar o argumento, a intervenção demoníaca foi despoletada por um erro telefónico, com a dona do bar a ligar para os demónios por engano. Mas estes nada têm a ver com a explosão de surrealismo em Londres. Essa foi causada por um casal de jovens enamorados que, acidentalmente, tropeçaram num lugar mágico e abriram uma fenda no consenso do real. Sclavi oferece-nos uma aventura profundamente irreal, onde a não-linearidade narrativa e a procura do non-sense surreal se ligam a uma visão progressista do sobrenatural. O grande demónio, apesar do seu aspeto repelente, aparece mais como um gestor responsável do que uma criatura arrepiante.

Inferno: A encerrar a antologia, mais um toque de puro surrealismo. Na visão de Sclavi, não há um inferno único, antes muitos espaços infernais, alguns correspondem às imagens míticas, outras a verdadeiros paraísos. Não escolhemos o nosso inferno, é-nos tão aleatório como nascer onde nascemos. E há um muito especial, sob a cidade de Londres, um inferno burocrático onde um erro clerical mergulha Dylan Dog, a sua mais recente paixão e o espírito do marido desta numa aparente história de crime. É notável a visão surreal de um inferno cujos demónios são respeitáveis engravatados com cabeça de martelo, carimbo, ecrã de computador ou outros instrumentos de tortura burocrática.

domingo, 20 de janeiro de 2019

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Mars Express orbiter snaps stunning image of Korolev crater: É destas imagens que os sonhos de exploração espacial são feitos.

A missão Insight e a sua relação com os “dust devils” marcianos: Jorge Pla-Garcia é um dos cientistas responsáveis pelo controlo dos rovers marcianos. Neste artigo, conta-nos algumas das suas experiências na exploração remota da superfície marciana.

The Juul Fad Is Far Bigger Than I Ever Would Have Guessed: A quê, perguntam? E perguntam bem, a Juul é uma empresa que se dedica aos cigarros eletrónicos. Cujos lucros, nos estados unidos, dispararam para a estratoesfera graças aos adolescentes. O resultado: décadas de bem sucedidas campanhas anti-tabágicas colapsaram, e os adolescentes voltaram a consumir tabaco em grandes quantidades. O cigarro perde terreno, mas o uso da substância aditiva nicotina, presente nos produtos dos cigarros eletrónicos, disparou. E por cá? Uma coisa que me surpreendeu quando estive na Maker Faire Rome foi a promoção agressiva deste tipo de produtos junto dos adolescentes. Ou seja, como país periférico que somos, ainda não sentimos este impacto, mas iremos sentir...

Aboard the giant sand-sucking ships that China uses to reshape the world: E porque é que a China, que não é exatamente um pais pequenino, precisa de aumentar a sua área territorial reclamando terra ao mar? Há as razões óbvias, de infraestrutura costeira e proteção contra intempéries e subida do nível médio das águas do mar. E há as razões geopolíticas, construindo ilhas artificiais nos recifes Spratly e Paracel, áreas disputadas por todos os países que ladeiam o sul do mar da china, que contém ricos depósitos de petróleo e outras matérias primas.

We finally started taking screen time seriously in 2018: O comentariado encontrou uma nova demonização hipsterizante: o tempo que passamos a usar dispositivos móveis. E, como sempre, a reação é de negação, explorada em miríades de artigos a postular os benefícios de desintoxicação de dispositivos digitais, publicados e partilhados em plataformas digitais lidas em dispositivos (não é irónico, é a voracidade da economia da atenção que sustenta a publicação digital). Gostei especialmente deste, por a autora confessar que o uso de iPhones lhe deu cabo da capacidade de atenção e concentração... num artigo longo e coerente, o tipo de texto que requer atenção e concentração para ser escrito. Notem que de facto os criadores de plataformas digitais e apps sabem explorar os seus efeitos aditivos sobre o nosso cérebro, mas o hipsterismo do digital detox não é a solução para isto.

Don’t worry about screen time – focus on how you use technology: Sim, é isto. Um discurso moderado, assente não nas impressões e histerias do momento, mas em investigação. Não é a quantidade de tempo, é o que fazemos com as ferramentas digitais, e os usos que encontramos para melhorar as nossas vidas. Não negando que os excessos, especialmente os induzidos pelo design intencionalmente aditivo das aplicações, são prejudiciais, mas olhando para o que nos leva, realmente, a usar tecnologias digitais. Não é o consumo que nos motiva: "With increasing attention to the effects of technologies, we should not only be concerned with their potential harms. As I’ve observed, experimenting with how – not just how much – we use technology might uncover unexpected ways to make life better".

Democratic Capitalism’s Future: É um bocadinho tenebroso, nesta infeção neo-liberal de late stage capitalism que descapitaliza o bem público para favorecer uma elite, aprofunda o fosso das desigualdades e empobrece ativamente a maioria enquanto dá à minoria riquezas nunca atingidas na história global. Estamos no ponto em que a ganância e arrogância dos um percentistas destrói ativamente as bases sociais que lhes permitiram enriquecer. A ironia histórica é que nem sempre foi assim, houve momentos na história em que o capitalismo, mal grado as suas bases ideológicas, soube reconhecer a necessidade de contribuir ativamente para o bem público, não através de filantropia espúria ou iniciativas pontuais, mas de forma sistémica. Nessa altura, todos beneficiámos. O desmantelamento neo-liberal desse compromisso está a ser uma ameaça civilizacional.

How ‘Makers’ Make the Classroom More Inclusive: Sim, é isto. Ir além da estanquicidade dos currículos, despertar a criatividade através do mexer. Parece revolucionário, mas é elementar.

The League Of Extraordinary Gentlemen: The Tempest #3 – It’s All About Control: Intrigante ponto de vista. Quando li este volume da Liga dos Cavalheiros Extraordinários, pensei que a forma como Moore saltita entre diferentes registos e grafismos de banda desenhada tinha apenas a ver com o lado metaficcional da narrativa, replicando estilos clássicos da BD comercial. Por outro lado, a ideia de controlar ao pormenor todos os elementos do livro é algo que carateriza muito todo o trabalho de Moore.

How Much of the Internet Is Fake? Turns Out, a Lot of It, Actually.: De certa forma, é o corolário lógico do uso intensivo de algoritmos para classificar e mediar dietas de consumo de media. Reduzindo ao absurdo, não é necessário que o conteúdo seja realmente visto, lido ou ouvido por humanos, o que conta é a métrica, e isso pode ser otimizado sem qualquer interferência humana. Bots que produzem conteúdos acedidos por bots para alimentar algortimos de análise estatística de interações online. Algo que extravasa para o mundo real.



E já que falamos em fake digital, este tweet de Evgeni Morozov define na perfeição esta questão.

The biggest technology failures of 2018: Por falhanços, a equipe da MIT Technology Review quer  dizer tecnologias que são mesmo muito má ideia, entre a primeira e nada ética experiência de edição de genes com CRISPR em bebés chineses, o marketing de cigarros eletrónicos que fez disparar o consumo de nicotina entre adolescentes, ou a manipulação dos algoritmos de redes sociais para acicatar ódio e violência, sem que as redes sociais façam nada para evitar isso.

the automation paradox in developing nations: Colocando a coisa de forma simples. As economias em desenvolvimento tinham até agora um caminho que ia da passagem da agricultura às indústrias leves, criando condições para indústrias pesadas e, finalmente, serviços. Mas com o desenvolvimento da robótica, um dos motores desse desenvolvimento - a deslocalização de indústrias leves dos países desenvolvidos para países em vias de desenvolvimento para diminuir custos de produção, desaparece.
 

HOW THE HUMBLE ROBOTIC ARM TOOK OVER THE WORLD: Um curto vídeo que nos mostra as origens da automação industrial com o clássico Unimate, e nos fala dos impactos laborais das tecnologias de automação. Por um lado, eliminam postos de trabalho, por outro, permite a criação de novas áreas da economia.

Edward Gorey and the Power of the Ineffable: A Atlantic traça um perfil daquele que é o mais gótico e irónico escritor e ilustrador de literatura infantil de sempre. Bem, infantil é um eufemismo. Há muitos adultos a quem o trabalho de Gorey passa completamente ao lado...

HMV: The rise and fall of a music icon: Tenho recordações de infância de passar ao lado de uma loja e ver o inigualável ícone da His Master's Voice. Aquele cão a ouvir a grafonola sempre me encantou. Distraído como sou, sempre pensei que a HMV era uma marca de gira-discos e não uma cadeia de lojas de música...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Batman: The Dark Knight: The Master Race


Frank Miller, Brian Azzarello, Andy Kubert (2018). Batman: The Dark Knight: The Master Race. Nova Iorque: DC Comics.

Tendo em conta o caráter progressivamente ranzinza dos argumentos de Frank Miller, temi que este Master Race fosse levado muito à letra, nalguma aventura em que Batman combateria terroristas islâmicos ou liberais. Não segue esse caminho, felizmente, e esta é uma boa história da personagem, continuando o mundo ficcional de Dark Knight Returns. Continua a ser um futuro próximo onde os heróis estão proscritos. Os grandes isolaram-se e exilaram-se, mas começa a haver complicações quando a filha de Super-Homem e Mulher Maravilha procura as suas raízes alienígenas, explorando a fortaleza da solidão em que o pai se isolou, nos gelos árticos. Recebe um pedido de ajuda da cidade kriptoniana de Kandor, miniaturizada e mantida dentro de uma garrafa, e acredita estar a ajudar alistando os serviços de Ray Palmer para reverter a miniaturização. Algo que liberta os antigos kriptonianos, mas na verdade estes são uma seita religiosa que proclama a sua supremacia, assassina os conterrâneos que não os seguem, e exigem a submissão do planeta.

Entretanto, na cidade de Gotham, a sucessora de Batman é uma proscrita, ao combater a violência policial sobre as minorias. Mas quando a ameaça se torna premente, apenas o génio e inflexibilidade de Bruce Wayne dão uma hipótese contra os novos invasores. Algo que irá remexer nos brilhos do passado, e recuperar heróis no exílio. O que se segue são um conjunto de batalhas que envolvem os velhos heróis e as amazonas, que culminará na previsível derrota dos vilões, e no surgir de novos heróis - a sucessora digna de Batman, e a filha do Super-Homem, cuja aproximação ao racismo da sua herança kriptoniana colide com a honra clássica do seu lado de amazona e, ganhando humildade com a experiência, resta-lhe aprender a ser humana.

Uma história divertida, mas não excelente. Soa a tentativa de estabelecer uma nova continuidade DC dentro dos parâmetros do universo Dark Knight Returns. Nada de inesperado, as editoras são mesmo assim, testam mercados. O argumento a duas mão de Miller e Azzarello toca nalguns pontos interessantes, especialmente na forma como retratam o mundo da informação mediada por ecrãs televisivos, em si um dos aspetos mais interessantes da obra original. A visão dos heróis clássicos, mais envelhecidos, com algumas rugas, azedume e experiência é talvez um dos elementos intrigantes nesta série. No entanto, está demasiado dentro dos padrões dos comics de linha para se tornar verdadeiramente interessante. A linha narrativa é previsível, percebe-se logo nas primeiras páginas qual a direção que segue. Fiquemo-nos com o que é um divertido regresso a este universo, e pouco mais.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Wolverine: The Death of Wolverine


Marc Guggenheim, Howard Chaykin (2008). Wolverine: The Death of Wolverine. Nova Iorque: Marvel Comics.

Não a morte de Wolverine, mas uma de muitas tentativas de morte. Desta vez, um grupo terrorista em ascendência escolhe o herói como alvo, e conta com um forte trunfo. Aparentemente, parte do segredo dos poderes do mutante tem um toque sobrenatural. Durante as aventuras de Logan nas trincheiras da I Guerra, terá enfrentado e vencido uma entidade mística que corresponde ao anjo da morte. Os terroristas aliam-se a esta entidade, tentando vencer o invencível Wolverine.

À parte do traço de Howard Chaykin, a série não é especialmente interessante. Mais uma variação sobre a história de origem do personagem, com as habituais sequências de luta violenta e a clássica introspecção de Wolverine sobre os seus instintos enquanto estraçalha os oponentes.

domingo, 13 de janeiro de 2019

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O Humano no Algoritmo: Podem as imagens geradas por Inteligência Artificial ser consideradas arte? As criações visuais de algoritmos GAN desafiam a nossa perceção visual com uma estética inesperada. A visão artificial é-nos profundamente surreal, quase alienígena. No entanto, o método pelo qual estes algoritmos produzem não é em si criativo, dependendo de quantidades massivas de informação visual. O projeto AmalGAN leva mais longe este questionar, introduzindo a intuição humana como parâmetro decisivo na geração artificial de imagens.

The Search for Alien Life Begins in Earth’s Oldest Desert: Estudar as formas de vida que existem nos ambientes mais extremos do nosso planeta dá-nos pistas importantes, quer para perceber como procurar indícios de vida noutros planetas, quer para compreender melhor como surgiu a vida no nosso planeta.

The New Silk Roads: the Present and Future of the World review: Estamos sem dúvida no século chinês, alicerçado em investimento em zonas do planeta às quais tradicionalmente não damos importância.

What Cafés Did for Liberalism: A cultura dos cafés como cadinho para discussão de ideias, tertúlias e partilha livre de opiniões. Deliciosa a história onde um alto responsável do império austro-húngaro despreza os indícios da revolução russa, apontado para um cliente de um café vienense enquanto dizia que se calhar, aquele seria um dos lideres da revolução. O cliente apontado era Trosky.

Rascunhos na Voz Online – Mike Carey: Aproveitando a presença do escritor por cá no âmbito do Mensageiros das Estrelas, a Cristina Alves entrevista Mike Carey para o seu sempre interessante podcast.

Early TV-Age Media Theorists Understood A Lot About Our Current Age: McLuhan, Innis, Postman e outros como arautos proto-digitais da nossa contemporaneidade. Não é um argumento novo, não é por acaso que McLuhan é considerado o santo padroeiro da internet. Como observa o articulista, nos primeiros momentos de uma tecnologia que viria a ganhar expressão final no digital, "a sort of prophetic canon that collectively catalogs our species’ first reaction to these newfangled contraptions, with their blinking lights and blaring speakers". E no que toca aos discursos catastrofistas sobre os efeitos culturais dos media digitais, acerta em cheio quando diz isto: "Think how such a conversation would once have been limited to rarefied elites, and probably not accessible within a 1,000-mile radius of your hometown". Nem mais. Em parte, o catastrofismo deve-se mesmo a este caráter democratizador da internet, e à perda de poder das elites culturais tradicionais. Apesar do lixo online que também prolifera. Trolls e extremistas, simples patetas ou sociopatas estão no mesmo pé que as vozes mais sensatas. O como gerir isso, mantendo a liberdade de expressão, é um dos problemas que enfrentamos no mundo digital.


Google turned cloud storage traffic into mesmerizing works of art: Visualização de dados enquanto experiência estética, nestes gráficos de análise de tráfego digital.

No, You Don’t Really Look Like That: Mal nos apercebemos, mas a imagem digital é cada vez mais sintética. O que as lentes captam não é o real cru, é uma interpretação mediada por software:  "The cameras know too much. All cameras capture information about the world—in the past, it was recorded by chemicals interacting with photons, and by definition, a photograph was one exposure, short or long, of a sensor to light. Now, under the hood, phone cameras pull information from multiple image inputs into one picture output, along with drawing on neural networks trained to understand the scenes they’re being pointed at. Using this other information as well as an individual exposure, the computer synthesizes the final image, ever more automatically and invisibly".

Inside Shenzhen’s race to outdo Silicon Valley: Indícos do século chinês: a aceleração criativa e produtiva de Shenzen, o investimento fortíssimo naquelas áreas do planeta que o mundo ocidental ignorou. E o cadinho de ideias possibilitado pela aproximação laxista aos direitos de autor.

My Stepdad's Huge Dataset: Pornografia e vanguarda da internet sempre combinaram. A sério, achavam que o que despoletou o vídeo online foram os clipes de gatinhos no YouTube? A relação continua: o que hoje determina a produção de filmes pornográficos não é a penetração de nichos de mercado (lamento, não consegui resistir à piada), ou a criatividade dos produtores. O que determina scripts, falas e atos sexuais é a análise algorítmica dos dados das pesquisas online dos consumidores de pornografia.

O fim (anunciado) da Goody: Em jeito de elegia, Pedro Cleto analisa  o papel da Goody na edição de BD popular em Portugal. Desconhecia que trabalhavam de perto com a comunidade para selecionar edições. O fim da Goody deixou mossa, perdemos a única editora que publicava comics em banca.

The most common forms of censorship the public doesn’t know about: Combater a censura online alterando os protocolos que sustentam a internet, tornando-os mais opacos e reforçando a privacidade ao nível da infraestrutura de base.


How Pixar Helped Win 27 of the Last 30 Oscars for Visual Effects | WIRED: O perfil do Render Man, um software de animação 3D que tem sido fundamental para a explosão de qualidade e realismo na animação, cinema e efeitos especiais.

7 Arguments Against the Autonomous-Vehicle Utopia: Essencialmente, ainda há muito que desenvolver a tecnologia até termos veículos totalmente autónomos. O que não quer dizer que a adoção de sistemas com elevado grau de autonomia não esteja a acontecer, progressivamente.

Disruption, Drones, and Big Airports: Impossível não ver isto como uma espécie de teste de conceito. Resta saber se de terrorismo, ciberguerra ou cibercrime. Mandar abaixo um avião é uma tragédia, mas tem um impacto real muito reduzido. Parar um aeroporto durante 36 horas tem um impacto social e económico tremendo direto, e com repercussões a nível global, num efeito dominó. Os voos cancelados não afetam apenas os passageiros que ficam em terra, mas todos os voos previstos das companhias que voam para o aeroporto afetado, com repercussões noutros aeroportos. É um pequeno ataque local, cujas ondas de choque são potencialmente globais.. Agora observem o mapa dos aeroportos que servem Londres, e imaginem uma ação concertada em que drones apareçam nas proximidades de Heathrow, Gatwick, Luton, Stansted, Southend e City em simultâneo. Já vi cenários de ciberguerra menos plausíveis... O John Robb aponta, e muito bem, que é um tipo de ataque com um enorme ROI: baixo custo, automatizável (meta-se o drone a seguir uma rota pré-programada por GPS) e de alto impacto económico, com baixo risco de custo de vidas humanas. Perfeito como ciber-operação de terrorismo ou militar de baixa intensidade.

THE 'FUTURE BOOK' IS HERE, BUT IT'S NOT WHAT WE EXPECTED: E ainda bem, nunca percebi muito bem a piada do conceito de livro como objeto multimédia. A grande evolução fez-se de forma discreta nos dispositivos de leitura - um e-reader permite ter bibliotecas inteiras no bolso, na facilidade da auto-edição digital e física, nos novos modos de ler, escrever e discutir leituras da blogoesfera.

This Was the Year the Robot Takeover of Service Jobs Began: E sem grandes fanfarras. Notem o alastrar discreto da automação em áreas tão díspares como o homebanking à fast food. Muitas vezes, estes sistemas automatizam processos e passam a fazer cair sobre os clientes o ónus do serviço.

The Cost of Living in Mark Zuckerberg’s Internet Empire: Confesso que a paciência para este tipo de argumentos, de virgem ofendida na sua inocência com os reais modos de agir da rede social, começa a ser diminuta. É preciso ser-se muito néscio, ou totalmente tapadinho, para aceder a estes serviços pensando que existem por puro altruísmo dos seus criadores. Podemos escolher ficar embasbacados, ou tentar manipular o sistema para os nossos objetivos. Não quero com isto dizer que estes serviços, e a coleta indiscriminada que fazem de dados com usos questionáveis, não deva ser regulada, mas também é preciso conhecer e saber jogar com as regras do jogo.

The GPS wars have begun: Primeiro, era só um. Agora, multiplicam-se as constelações de sistemas de posicionamento por satélite. Há muitas razões para esta proliferação, entre a segurança de não depender de um sistema controlado por um único país, aos potenciais económicos destas tecnologias.

Friends Without Brains: Um artigo que olha para a nossa tendência para formar laços emocionais com máquinas. E consegue colocar de forma excelente a questão de se o computador é, realmente, uma máquina capaz de pensar: "Can computers actually think? Well, they are designed to perform functions that humans perform through thinking. They expertly process information, present it at appropriate points in a conversation, and use it to draw reasonable conclusions. But thinking in this sense can just be a kind of high-level functioning. (...) they gener2ate output without being literally aware of doing the calculations or of what the calculations mean.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Akira Vol. 1


Katsuhiro Otomo (2018). Akira Vol. 1. Lisboa: JBC Portugal.

Ofereci-me este livro como prenda de natal, mas resisti a lê-lo na consoada. Achei que deveria esperar por dia 1 de janeiro de 2019 para iniciar a leitura. Afinal, é nessa data que arranca a ação de Akira. É lamentável, bem sei, como fã de FC e cada vez mais apreciador de mangá, nem nunca ter ainda lido o livro o livro ou sequer visto o filme (a segunda explica-se com a minha pouca paciência para ver cinema em ecrãs que não o das salas de cinema). Esta edição portuguesa da JBC, se bem que um bocadinho puxada no preço, veio colmatar essa lacuna no meu espírito de fandom. Esperava iniciar a leitura no primeiro dia do ano, o que não esperava era ler tudo de uma assentada. A culpa é do ritmo alucinante da narrativa escrita e desenhada por Katsuhiro Otomo.

Akira faz jus à fama que tem. É cyberpunk clássico, com o inconfundível estilo futurista do mangá dos anos 80 e 90 a olhar para um hiperurbanizado futuro próximo. Agentes governamentais que ocultam experiências secretas, gangues de motoqueiros e rebeldes que procuram descobrir que segredos o governo oculta cruzam-se de forma explosiva nas ruas de Neo-Tokyo, a cidade que ressurgiu das cinzas da metrópole original, arrasada num conflito atómico mundial. No centro de tudo está o mistério do que poderá ser Akira, para já algo encerrado numa câmara estanque no terreno zero da explosão nuclear, mas que também terá a ver com mutações e drogas indutoras de poderes extraordinários nalguns seres. Este primeiro volume é explosivo, pura ação num brilhante registo gráfico. Agora resta-me aguardar pelos próximos lançamentos da JBC para continuar a história, prometo que me vou manter spoiler free e continuar a ignorar aquele ficheiro mkv intitulado Akira que está a apanhar pó no meu disco rígido.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Il Dylan Dog di Tiziano Sclavi 12: Morgana


Tiziano Sclavi, Angelo Stano (2018).  Il Dylan Dog di Tiziano Sclavi #12: Morgana. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Provavelmente, das histórias mais surreais que Sclavi criou para Dylan Dog. Ao longo da aventura, são equilibradas linhas narrativas em confronto que não parecem fazer sentido. Temos Morgana, uma mulher que não sabe que está morta, zombie sobrevivente do fim de Xabaras e das suas experiências de imortalidade. Atraída inexplicavelmente por um certo endereço londrino, parte em direção ao encontro inevitável com Dylan. Ela parece viver em dois mundos, o nosso, e um mundo paralelo onde os zombies dominam e os poucos humanos se rendem à condição de desmemoriados.

Essa dualidade de mundos parece ser a que carateriza Reed Crandall, um personagem secundário discreto que se mantém como um dos fios condutores da história de Morgana. Não o personagem em si, que tem aparições fugazes, mas o que ele faz: desenha uma banda desenhada que replica tudo o que vemos desenrolar-se nas páginas desta história. Um pormenor metaficcional que dá ainda mais estranheza a esta história. Tão meta que a fisionomia deste desenhador é um retrato de Angelo Stano, um dos decanos ilustradores da série.

Finalmente, Dylan, como sempre a funcionar como atrator estranho do que centro narrativo. Sente-se apaixonado por alguém que não conhece, enredado numa trama de augúrios nas sessões espíritas de Madame Trelkovsky, que vislumbra um futuro de ruínas e mortos vivos. O cruzamento com Morgana é inevitável, a paixão já estava anunciada, e no estranho mundo de Dylan Dog a condição de morte não é impedimento para o amor. Mas a personagem precisa de paz, por isso o destino leva-os à Escócia, às ruínas da casa onde o alquimista que se virá a revelar o pai de Dylan fez as suas medonhas experiências. Tudo terminará na campa, onde a morta-viva, na escuridão da tumba, vai dormindo e sonhando.

Nas mãos de outro argumentista, esta história indecisa e fragmentada seria ilegível, nem faria sentido. Mas Sclavi é um mestre da estranheza, do surreal, da coerência do incoerente. Morgana é uma história de profundo lirismo, onde o terror é discreto. Originalmente publicado como vigésimo quinto número da série, esta história é agora reeditada na coleção Il Dylan Dog di Tiziano Sclavi.

domingo, 6 de janeiro de 2019

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The Man Making Art From Government Surveillance: Muito intrigante. Usar as infraestruturas invisíveis da indústria da vigilância como forma de expressão artística.

After a Year of Tech Scandals, Our 10 Recommendations for AI: Que, no fundo, passam pela necessidade de regulação. A IA já se faz sentir nas nossas vidas, no nosso dia a dia, enquanto ferramenta pouco visível de gestão digital e apoio a decisões. Decisões que têm impactos. Essencialmente, o que estes investigadores pedem é mais transparência: regular aplicações (não a tecnologia em si, note-se, mas a forma como é usada), tornar claro o fluxo de informação dos dados originais à tecnologia que os trata, especialmente em usos públicos, e comprovar a utilidade das ferramentas em investigação científica.

What Straight-A Students Get Wrong: O quê, existe vida para além das boas notas? E isto define muito bem o paradoxo em que nós, professores, tanto insistimos: "Academic grades rarely assess qualities like creativity, leadership and teamwork skills, or social, emotional and political intelligence. Yes, straight-A students master cramming information and regurgitating it on exams. But career success is rarely about finding the right solution to a problem — it’s more about finding the right problem to solve". Ter um elevado desempenho académico não é sinónimo de competências alargadas, apenas significa que estamos bem treinados para superar provas e exames em contextos muito específicos.

The Golden Age of Rich People Not Paying Their Taxes: Também conhecida como a era dourada das austeridades, em que as pessoas ricas nos dizem que vivemos acima das nossas possibilidades e temos todos de empobrecer, a bem da economia. E depois vão a rir-se para o banco salvo da derrocada pelo dinheiro dos nossos impostos, buscar os lucros dos rendimentos de capitalismo rentista.

Discovering Interactivity: Como ir, na computação, de máquinas utilitaristas a sistemas verdadeiramente interativos? As empresas não o fariam, não antevendo necessidades dessas. Os militares, ao investir no sistema de deteção computorizado por radar SAGE, permitiram aos cientistas da computação criar o primeiro sistema interativo, precursor da computação contemporânea.

Ships infected with ransomware, USB malware, worms: Fico indeciso entre perceber qual destas histórias é o pior cenário de horror em tecnologia. Navios incapazes de navegar porque os computadores de navegação foram infetados por vírus, e não há mapas em papel; sistemas air gapped comprometidos por simples dispositivos USB; computadores de bordo obsoletos que paralisam com atualizações e deixam navios à deriva em corredores navais concorridos. Num mundo digitalizado, a segurança é um fator primordial.

Scientists Virtually Reconstruct Magnificent Pre-Incan Temple: Um uso muito intrigante de impressão 3D. Vestígios de um templo pré-inca em Tihaunaco foram digitalizados e impressos à escala, permitindo aos investigados experimentar diferentes configurações e perceber como poderia ter sido um edifício do qual só se conhecem as ruínas.


Marvel’s Uncanny X-Men Wipes Out Centres of Catholicism, Islam and Hinduism: O Bleeding Cool dispara ao lado do elemento verdadeiramente perturbante desta nova série dos X-Men. Perturba, se se for fundamentalista dos mitos católicos, claro. Ter um personagem aparentemente todo poderoso que encarna a iconografia do catolicismo, completo com um ar demasiado próximo a Jesus para conforto. Bem, nada de ofensivo para a maioria, mas certamente capaz de provocar alguns ataques cardíacos naqueles iludidos que levam a religião mesmo a sério. E tendo em conta as culture wars americanas, é um curioso risco que a Marvel está a correr. Já o Bleeding Cool não se mete no assunto e prefere apontar inconsistências com as linhas narrativas dos X-Men.


Every Mickey: a chimera made by combining every available online 3D model of Mickey Mouse: Such stuff as nightmares are made off. Como projeto artístico e comentário sobre a banalidade da cultura pop não está nada mal, mas pergunto-me como é que o artista tem a certeza que encontrou todas as variações de STLs do Mickey?

Our “Algorithmic Music Culture” Is Making Music Poorer: por música e algoritmos, não se está a referir à produção musical assistida por IA. O artigo é sobre a normalização de gostos musicais trazidos pelo uso de algoritmos de sugestão de preferências, fundamentais para ouvir música online. O problema está no facto destes algoritmos nos sugerirem novas músicas com base na análise das nossas preferências, recomendando músicas similares. As consequências são uma normalização dos gostos, não nos é sugerido nada que quebre o padrão registado de preferências.

Have We Made Technology Too Easy To Use?: Sempre que leio algo sobre as novas gerações parecerem ser naturais no uso de tecnologias, penso que talvez a real razão dessa suposta fluência está na simplificação dos interfaces. Este artigo vai um pouco mais longe, e observa que talvez necessitemos de complexidade, que o desafio de enfrentar dificuldades nos estimule, desde que não sejam demasiado complexas.

Milagre Mecânico na Catedral: Algumas notas sobre a história da robótica e automação, que tem raízes na antiguidade clássica.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

New Super-Man, Vol. 1: Made in China


Gene Luen Yang,  Viktor Bogdanovic (2017). New Super-Man, Vol. 1: Made in China. Nova Iorque: DC Comics.

Fiquei curioso. Exatamente que público-alvo pretendeu a DC atingir com esta série? Tendo em conta que a história vai por caminhos ideologicamente carregados, diria que dificilmente seria a edição na China. Talvez jovens sino-americanos, com heróis chineses para os atrair para os comics, fazendo-os sentirem-se representados? A série mexe com super-heróis chineses, criados por uma organização secreta, que imitam os poderes da Liga da Justiça. Os inimigos que têm de enfrentar são combatentes pela democracia, transformados em super-vilões. As aventuras são leves, com um forte tom de humor, e à medida que a série evoluiu, vamos ganhando empatia com personagens que vão ficando bem desenvolvidos. Tem também um forte sentido de humor.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Antologia de Ficção Científica Fantasporto


(2012). Antologia de Ficção Científica Fantasporto. Alfragide: ASA.

Devo dizer que fiquei muito surpreendido, pela negativa, com esta antologia. São poucos os contos que realmente são interessantes, só terminei a leitura por obrigação, e na vaga esperança de apanhar, mais à frente, algum texto que a fizesse valer. Este livro foi o resultado do desafio a alguns escritores e a um concurso de contos no âmbito do festival de cinema Fantasporto. Surpreende-me, por saber que uma das personalidades mais dinâmicas e consistentemente defensoras da melhoria da qualidade na FC e F nacional esteve fortemente envolvida neste projeto. Que, lamento, está muito aquém daquilo que é capaz de fazer como editor e divulgador.

O Tempo Tudo Cura Menos Velhice e Loucura - António de Macedo aplica o seu surreal bom humor às viagens no tempo. A história versa sobre um pacato e mal casado ex-burocrata dos CTT, reformado por achaques dolorosos, que descobre uma forma de viajar no tempo e se vê arrastado para uma quase infinidade de tempos paralelos, vivendo diferentes possibilidades para a sua vida. Algo que Macedo explora com toques de divertimento macabro.

A Inimaginável Materialização de Samira - conto curto, bem urdido, do brasileiro João Vaz, que imagina um cenário futuro onde o contato humano é feito por meios virtuais.

O Robot Auris - Um exercício de estilo de Beatriz Pereira, cheio de banalidades sobre robots e emoções. O típico conto de FC escrito por pessoas que acham que conhecem o género, mas não o conhecem.

O Festival - Ainda estou para perceber exatamente sobre o que era este conto de Filipe Fonseca. Salganhada é a descrição apropriada desta história sobre um concerto do silêncio, terroristas, loops temporais e sei lá mais o quê.

Virgílio Bentley e o Extraterrestre - Um delicioso conto de Ágata Simões, com o seu incómodo e escatológico Senhor Bentley a servir de anfitrião a um inocente alienígena.

As Mãos e as Veias - Escrito como um diálogo teatral, Afonso Cruz, muito igual a si próprio (convenhamos, é um autor algo monocórdico) cria uma fábula sobre marionetes que não acreditam num mundo mais vasto do que o seu teatro.

Tsubaki - Passado e futuro cruzam-se no conto de Bruno Soares, onde a hibernação de astronautas numa viagem a Júpiter corre mal devido a erros de programação no software indutor de sonhos.

Uma Alforreca no Quintal - Laivos lovecraftianos de Colour out of Space, com alforrecas, neste conto de António Carloto.

Fogo! - E se o fogo desenvolvesse consciência, se tornasse inteligente ao arder? É essa a premissa deste conto de João Ventura.

O Cão - Conto curto e bem estruturado de Isabel Pires, onde acompanhamos o fiel companheiro de uma bióloga que investiga as formas de vida numa colónia extraterrestre... e que no plot twist final, talvez não seja bem um cão.

O Mistério dos Uivos - Este conto de Madalena Santos é ambicioso, no seu world buliding abrangente, que nos leva a intuir um mundo ficcional vasto onde coexistem humanos, alienígenas, cyborgs e robots. Tudo se passa numa colónia remota, assolada por misteriosos uivos que ninguém consegue determinar a sua origem. Aproveitando uma expedição para deslindar o mistério, o responsável por inteligência artificial da base toma conta das máquinas, e provoca o caos na colónia. Tem pontos de interesse, mas nunca se percebe bem por onde vai a história.

Expedição ao Futuro - Neste conto de José Cardoso, dois homens viajam para o futuro... à velocidade do pensamento. O ponto positivo da obra está no retratar de um afrofuturismo, mas é demasiado difusa para ser compreensível.

Deja Vu - um conto por Luis Amabile, de encontros no fim do mundo, entre um brasileiro e uma japonesa que se cruzam na Patagónia, enquanto o mundo parece sucumbir debaixo de um dilúvio interminável.

Acordar o Profeta - Este conto de João Leal é sem dúvida o mais interessante e provocador de toda a antologia, e desenrola-se na estrutura clássica do conto de FC, com um toque inesperado no final. Um obscuro antropólogo é contatado para participar num projeto secreto. Descobre-se numa base secreta, onde cientistas humanos e alienígenas estão a desenvolver uma nova religião como forma de assegurar controle social ao nível planetário. Uma das piadas deste conto é dizer-nos que todas as religiões terrestres foram mitos implantados por alienígenas, mas os próprios alienígenas são praticantes fervorosos de uma religião.

- Neste conto de Manuel Alves, o único sobrevivente de experiências genéticas para gerar seres humanos avançados tenta todos os meios para se libertar dos seus criadores. Cyberpunk puro e clássico.

As Moças do Campo - Telmo Marçal assume um tom definitivamente chocante nesta história, onde o futuro decadente se prende com uma praga sexualmente transmitida que ameaça a humanidade. Marçal vai baixo, contando-nos a história entre pregadores, clientes de prostitutas, prostitutas e proxenetas, e um médico renegado que se dedica a infetar vetores de transmissão da doença.

A Besta-Fera  - Conto do brasileiro Rodrigo Silva, que nos fala de um cientista consumido pelo desejo de encontrar um elo perdido entre os antropóides e os andróides. É bem menos interessante do que soa por esta descrição.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Mi Chiamo Dog


Li, finalmente, L'Alba dei Morti Viventi, a primeira história de Dylan Dog. Não é a última leitura do ano, tecnicamente. Não encontrei uma primeira edição dos anos 80 nalgum alfarrabista italiano. E se foi reeditada na fantástica coleção Il Dylan Dog di Tiziano Sclavi, livros de capa dura e coloridos que reeditam as melhores histórias do personagem, deixei essa edição nas bancas da Bonelli Point. A colorização não traz nada a história, esta primeira aventura tem de ser saboreada a preto e branco. Esta leitura faz parte de uma coletânea que inclui outras histórias clássicas. Como ainda faltam mais quatro (incluindo o avassalador Memorie Dall'Invisible), um quinto de um livro não faz a última leitura finalizada do ano. Apanhei-a na secção de livros em segunda mão de uma livraria em Navigli. É um pouco por isto que não encomendo muito via internet. Desta forma, trago livros e memórias.

Porque é que destaco isto? Pela forma como Sclavi nos apresenta aquele que viria a tornar-se um dos mais influentes e interessantes personagens de fumetti (lamento, fãs de Tex, de que por cá há tantos, mas o western é démodé). As primeiras páginas são dedicadas ao estabelecer do ambiente narrativo da história, e quando finalmente somos levados pela primeira vez ao número 7 de Craven Road, a introdução ao personagem não é imediata. Levamos com a campainha que soa a gritos, descobrimos o humor absurdo de Groucho, antevemos aquele hall cheio de memorabilia de horror, e finalmente a sequência que nos dá a conhecer Dylan. No início de uma prancha, primeiro de costas, e em seguida em retrato, com esta apresentação, ponto de partida de tantas e tão boas histórias. Outros argumentistas colocariam logo o seu personagem principal a apresentar-se nas primeiras páginas. Sclavi conhecia o valor do efeito adiado.

Curiosamente, existe mesmo uma Craven Road em Londres, mesmo ao pé da estação de Paddington. E no número sete há um café dedicado a Dylan Dog. Não é um local extraordinário, fiz questão de ir lá tomar um english breakfast numa manhã de neve. A recordação que de lá trago é a de dois agentes da metropolitan police a questionar o dono do café sobre que personagem era aquele que estava nos azulejos da casa. Like a super hero? Nem por isso. Prometo que da próxima vez que tiver oportunidade de lá ir, levo um Dylan Dog para ler enquanto bebo uma fumegante chávena de english breakfast.

Foi aqui que tudo começou. A primeira história de Dylan Dog, onde Tiziano Sclavi nos dá desde logo os traços gerais que se tornaram quase imutáveis. A campainha que grita no número sete de Craven Road, a casa cheia de memorabilia do fantástico, o toque do clarinete, o humor idiota de Groucho, o modelo de galeão que Dylan vai construindo (até hoje, não o terminou), a sua relação romântica com as mulheres com que se cruza, o caráter de aventureiro algo impotente, que apenas vê no sobrenatural como a hipótese que sobra depois de descartar as restantes. A única diferença que li neste Dylan inicial é um certo humor ácido, e não o ar nostálgico que depois viria a adquirir. A história em sim é brilhante, um início à altura da personagem. Sclavi faz aquilo a que nos habituou, criar histórias originais cheias de referências à literatura e cinematografia de terror. Para além das óbvias - morti viventi é uma história de zombies, temos demónios (se bem que Xabaras se irá converter mais tarde em pai de Dylan), toques de Frankenstein (completos com geradores vandegraaf) e uma genial referência visual a The Exorcist (basta uma vinheta, com uma criança zombie).

É bom ter terminado este ano de 2018 com a leitura de um momento marcante da história do fumetti.

domingo, 30 de dezembro de 2018

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Inside the world of AI that forges beautiful art and terrifying deepfakes: Já escrevi tanto sobre isto para o Bit2Geek que já me cansei... ou não, fico sempre fascinado com as produções visuais dos algoritmos GAN. Notem que as acho interessantes e imaginativas, de uma forma algo alienígena, mas não verdadeiramente criativas. Estes algoritmos criam imagens reproduzindo e afinando padrões a partir de imagens já existentes. Parece-nos novo, mas não é verdadeiramente novo. Mas engana bem o olho, no caso das deepfake, e isso é muito preocupante.

Dezembro: Hora de Fazer Uma Hora do Código: Algumas ideias sobre o estímulo à literacia digital, introdução à programação e pensamento computacional, através da organização de Horas do Código.

Welcome to the stochastic age: Ou melhor, a era onde com a influência das redes digitais, há um fosso enorme entre a primeira e segunda linha, em que o sucesso mediatico se mede em curvas exponenciais. A aposta tem sido no aleatorizar, disparar em todas as direções na esperança que alguma encarrile e se torne bem sucedida, algo que é possível graças à facilidade e baixos custos da publicação digital. Algures a meio do artigo dou com isto, que resume muito bem a razão pela qual os media tradicionais e os dinossauros dos direitos de autor querem impor restrições apertadas e censórias à partilha digital: "But I put it to you that as gatekeepers’ power has diminished, and the number of would-be directors, CEOs, and pundits has skyrocketed, while the costs of trying have shrunk — randomness has become a more and more important factor". Ou seja, estão a proteger os seus modelos de negócio da concorrência das novas vozes que usam plataformas digitais para se expressarem. A concorrência, parece, só é boa quando o campo está inclinado para o lado certo.

The Bootleg Video Vans of the Soviet Union: Samizdat em VHS para descobrir a cultura pop dos anos 80 nas traseiras de carrinhas. Intrigantes modos de disseminação cultural underground, vindos das memórias da antiga União Soviética.


Let's Take the Rocket Car: A History of Science-Fiction Auto Futurism: Ok, por "história", é só um apanhado de imagens alinhadas de forma pouco conexa, e muitas vezes com a referência errada. Quando mostra um lightcycle do remake de Tron como se fosse o orignal dos anos 80, fica-se algo pasmado. Mas hey, pelo menos tem eye-candy retrofuturista.

Instagram Is the New Evite: Uma interessante e inesperada tendência de uso de dispositivos móveis, redes e aplicações pelos adolescentes: usar o Instagram como forma de gerir convites para festas. Em vários níveis, desde os grupos mais pessoais a grandes eventos onde ser aceite pelo perfil da festa implica participar no convite, e mostrar o instagram à entrada é condição de acesso.

How to Build a Museum in Outer Space: Uma ideia intrigante. Preservar os vestígios da exploração espacial in situ, e os problemas que daí advém.

If Doggerland Had Not Drowned: Uma terra mítica, que terá alimentado mitos celtas e arturianos sobre terras perdidas, uma parte do continente europeu que realmente se afundou sobre os oceanos. Não por cataclismo, caso do mito atlante, mas porque uma subida de 4 a 5 graus na temperatura média da Terra provocou degelos e a subida no nível das águas do mar, há cerda de dez mil anos. Se essas alterações climatéricas não tivessem acontecido, a geografia do continente europeu seria radicalmente diferente, e certamente que a sua história também. Este brilhante exercício de história, geografia e socio-economia especulativa tem por detrás uma ideia mais assustadora. Enfrentamos agora novas alterações climáticas, provocadas pela ação humana, sabemos que a subida das temperaturas médias é já inevitável, estamos apenas a tentar mitigar o pior. Sabemos também que as áreas costeiras planetárias estão em risco de inundação e ficar submersas a médio prazo. Mais do que especulação sobre um passado possível, esta história de Doggerland é uma visão do futuro próximo.

'The Pirate Bay of Science' Continues to Get Attacked Around the World: Quando estava a fazer a minha tese de mestrado, fiquei pasmado com os valores que as editoras científicas pediam para consultar artigos. Trabalho que não financiaram, nem compensaram os seus autores. Resultado de pesquisa pública, que fica trancado por detrás de paywalls incomportáveis. É um modelo de negócio criminoso, porque restringe abertamente o acesso ao conhecimento. Na altura não havia Sci-hub, trabalhei apenas com recursos open access. É intrigante, e muito significativo, que se fale da necessidade de reforma deste sistema, embora quando é preciso agir a tendência seja "“With the major science funders around the world declaring war on the likes of Springer, it's bizarre that they're focused on Sci-Hub, rather than addressing the fact that the entire world of science practitioners and funders thinks that they're useless and greedy parasites.”

AI software can dream up an entire digital world from a simple sketch: Costumo dizer aos meus alunos que ter competências criativas é a melhor defesa deles num mundo dominado por Inteligência Artifical. E, no que toca ao 3D, defendo que aprender estas ferramentas é uma excelente forma de garantir possível empregabilidade nas indústrias criativas. Depois, dou com notícias destas. Se uma IA consegue gerar ambientes virtuais, será que os estúdios ainda irão precisar de modeladores dedicados?

The Fun Is Back in Social Media…Again!: Jason Kottke topa uma tendência interessante. Sempre que aparece um novo produto de social media, imediatamente os analistas e comentadores produzem textos hiperbólicos sobre quão divertido e inovador é o novo serviço. Melhor, pega em quatro análises, a quatro redes sociais diferentes, em vários momentos passados... e a hipérbole é sempre a mesma. Plus ça change...


These Were the Jobs of the Future, According to Experts in 1988: Coisas que colocam em perspetiva as correntes predições sobre empregabilidade futura num mundo dominado por Inteligência Artificial, robótica e automação, e mostram o quanto a evolução do real tem tendência a divergir das predições de oráculos e futuristas.

In 1961, India Finally Kicked Portugal off the Subcontinent: O War is Boring recorda-se de uma nota de rodapé da história do século XX, o fim do império português no oriente com a anexação de Goa, Damão e Diu.

Those violent 'yellow jacket' protests in France? Facebook's behind that, too.: Fico sempre desconfiado quando leio estes argumentos do tipo é por causa do facebook que rebentou a manifestação/violência/protesto. Não, não é. Se não houver razões estruturais para descontentamento generalizado, as páginas organizadas em redes sociais ficam-se pela refilice. Agora, se há descontentamento generalizado e as redes sociais possibilitam formas fáceis e informais de organizar protestos, temos receita explosiva. Diria que é isso que que está a acontece em França. As mudanças ao algoritmo apontadas no artigo são um meio facilitador, não a real causa da desordem. Olhando de forma mais abrangente, é notório que estamos, e estaremos durante muito tempo, a colher os frutos da esclarecida política de austeridade que nos empobreceu a todos (menos aos bancos e um percentistas).

TUMBLR'S PORN-DETECTING AI HAS ONE JOB—AND IT'S BAD AT IT: Ok, o tumblr decidiu acabar com posts pornográficos ou eróticos. E depois? Bem, podemos discurdar, mas é uma decisão da plataforma e o que não falta por aí são meios de publicação digital. O que realmente me está a interessar é o como isto está a ser feito: algoritmos de machine learning analisam as imagens e identificam as que consideram pornográficas. O problema é que o número de falsos positivos é enorme... o que pode significar várias coisas: erros na conceção do algoritmo, bases de dados para aprendizagem máquina desadequados, ou que o algoritmo de machine learning, ao efetuar a aprendizagem para identificar conteúdos, não aprendeu o que se esperava que aprendesse (é um problema clássico nesta tecnologia). O resultado é... algo caótico, com imensos posts perfeitamente SFW classificados como pornografia. Mas ok, o que é que isto realmente interessa? Notem que este tipo de algoritmos são a tecnologia que permite implementar os famosos filtros automáticos preconizados pelo infame artigo 13º da proposta de diretiva europeia sobre direitos de autor. Ou seja, a UE pretende que o nosso discurso online seja previamente mediado por algortimos censórios, de fiabilidade duvidosa.

Four Days Trapped at Sea With Crypto’s Nouveau Riche: Provavelmente, o mais divertido artigo que li nos últimos tempos. Uma jornalista com sentido crítico é convidada a participar num cruzeiro pelo mediterrâneo, organizado por empreendedores das cripto-moedas. É uma das raras mulheres a bordo que não foi contratada como esbelta acompanhante para... acalmar os desejos dos fanboys das critpmoedas que frequentaram o evento. O resto é um olhar sobre o absurdo dos ultra-libertários gananciosos, entre os meramente fascinados e os sociopatas. A frase com dificuldades éticas é das coisas mais spot on que tenho lido.

Marcha para a Morte!: Pedro Cleto analisa a edição portuguesa do clássico de Mizuki.

More than an auto-pilot, AI charts its course in aviation: Podemos antever aviões comerciais a voar sem piloto, mas o impacto da IA na aviação, que já se faz sentir, não passa por aí. No cockpit, a IA é cada vez mais uma ferramenta para auxiliar e diminuir a carga cognitiva sobre os pilotos, mas a aeronave evolui na direção de sistema centauro, onde o controle humano está presente para avaliar as decisões da máquina. Imaginem o que acontece se há erros de software, ou sensores a funcionar mal, em processos de decisão totalmente automatizados. Mas a IA na aviação não se esgota aí. Controle de tráfego, gestão de operações e handling, bilhética e serviços aos clientes, são tudo áreas onde as companhias de aviação estão a investir no uso de Inteligência Artificial.

Are We Living in the New Golden Age of Comic Books?: É um argumento curioso, estamos sempre a elogiar o que se fez no passado e a lamentar a falta de qualidade do presente. Mas é um argumento pertinente, porque como observa o articulista, boa parte do material que está hoje a ser editado é de grande qualidade gráfica e narrativa.

The Ancient Origins of Automation: As servas douradas de Hephaestus, Talos, o gigante de metal que protegia a ilha de Creta dos piratas, carruagens que se deslocavam sem serem puxadas por cavalos. As ideias do autómato, de automação, de seres artificiais, têm o seu substrato na antiguidade clássica.

All hail the AI overlord: Smart cities and the AI Internet of Things: Uma análise ao conceito de cidades inteligentes, com exemplos de metrópoles que usam ferramentas de Inteligência Artificial para processar, identificar padrões e melhorar a qualidade de vida a partir de uma imensidão de dados recolhidos no espaço urbano. Não é uma super-inteligência sensata que determina o que é bom e saudável, são diferentes ferramentas retiram conhecimento do dilúvio de dados produzidos pela atividade nas cidades.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Subsídios para o Estudo da Educação em Portugal: da reforma pombalina à 1.ª República


A. Bárbara (1979). Subsídios para o Estudo da Educação em Portugal: da reforma pombalina à 1.ª República. Lisboa: Assírio e Alvim.

Um achado intrigante numa feira do livro. Interessante, porque traça uma breve história da evolução da escola em Portugal, desde a época dos descobrimentos até ao fim da 1ª república. Tem pormenores intrigantes. A criação de um sistema de ensino veio das reformas do Marquês de Pombal, até essa altura quem não fosse nobre ou do clero aprendia as letras com professores que abriam escolas privadas. Com a reforma pombalina vieram ideias como a de ter um currículo ou a de apostar na educação como forma de fazer evoluir o país. É de notar que aquilo que hoje sentimos, que em educação se sonha imenso, promete muito, fala bastante e se faz pouco ou nada, é notório nas diversas reformas e falsos arranques do sistema educativo registados neste livro. Tudo muito interessante no papel, mas raramente aplicado na prática, e sempre ao sabor de interesses e influências. É aliás esse um dos grandes argumentos deste livro: a desconfiança, ou melhor desprezo, das elites do país pela ideia de uma educação abrangente e equalitária, por lhes retirar protagonismo, poder político e económico. Diria que é algo que ainda hoje está presente na mentalidade nacional.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

A Loucura de Deus


Juan Aguilera (2010). A Loucura de Deus. Lisboa: Saída de Emergência.

Não esperava muito deste livro. Peguei nele na banca da SdE no Festival Bang! um pouco por obrigação, já que há muito pouco no seu corrente alinhamento editorial que me estimule. A sinopse pareceu-me intrigante, por isso, why not? Poucos dias depois, dei por terminada uma leitura que me surpreendeu. Aguilera conjura aventura com sabor medievalista, numa história onde o sábio medieval Raymon Lull se vê envolvido numa demanda pelas terras do Preste-João, esse mítico reino cristão nas ásias. É a busca pela imortalidade que leva um mercenário aragonês, ao serviço do império bizantino, a procurar o mítico reino, com ajuda do sábio.

Parte do livro mergulha-nos nos tempos violentos da longa queda do império romano do oriente. São histórias de batalhas e intrigas, onde o turco é o inimigo, mas entre os aliados reina a violência e desconfiança. Mas à medida que a história se desenrola, o romance segue por caminhos decidiamente de ficção científica. A demanda do reino mítico leva os aventureiros a uma cidade oculta na ásia, onde a herança científica grega não se perdeu. Evoluíram a um nível tecnológico próximo do do século XIX, e socialmente muito mais além. É um mundo utópico, ameaçado por um temível horror que se oculta no norte. Um horror que Lull interpreta como o demónio em pessoa, mas que se revelará ser uma criatura nascida com o planeta, parte de uma espécie que ocupa planetas capazes de albergar vida, instrumentalizando-a para lutar nas suas guerras internecinas.

Grandes voos para o que parecia ser uma mera fantasia medieval, certo? O livro passa por batalhas sangrentas, cidades futuristas, aeróstatos e profundezas infernais a invocar os círculos de Dante. Uma leitura surpreendente, daquelas que não se descansa até ao virar da última página.

domingo, 23 de dezembro de 2018

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The Socialist Memelords Radicalizing Instagram: A revolução vai ser memetizada? Faz todo o sentido. Um dos vetores de infeção do corrente crescendo do extremismo de direita partiu do uso agressivo das redes sociais, desinformação digital e memes. Se as forças progressistas quiserem reverter este literal resvalar para o obscurantismo, é preciso saber em que armas pegar. Hoje, um meme bem feito faz efeitos mais duradouros do que um inflamado discurso político.

The Rise Of Digital Natives: Em essência, as questões sobre a diferença entre nativos e imigrantes digitais são uma variante das eternas diferenças entre gerações. Se bem que há que assinalar que as diferenças hoje são ainda mais profundas do que tem sido historicamente o fosso entre gerações. Algo a que temos de prestar atenção, mas ao cair  no argumento fácil do denegrir e relativizar, notem isto: "Remember this: No one expects to get old. One of these days, you might find yourself in the role of the irritable senior citizen shaking your finger at the misguided youth, and when you do, your title of digital native really won’t matter as much as it did — mostly because it never mattered in the first place. Despite your best efforts, you’ll probably end up on the outside looking in, lost in the remnants of the old world watching all the children run about plugged into their VR headsets and spewing slang that hardly sounds human."

Snapping point: how the world’s leading architects fell under the Instagram spell: Choques com a modernidade contemporânea. No seu pior, temos o lado vernacular a puxar para o azeiteiro dos edifícios pensados apenas para encher o olho nas redes sociais. No seu melhor, temos arquitetura que desperta o olhar mediado pela lente do telemóvel.

Man Bites Dog: Da importância do jogo, do brincar, do simular, para compreender o mundo que nos rodeia.

The Fifth Risk: Michael Lewis explains how the "deep state" is just nerds versus grifters: Uma leitura assustadora, sobre o conflito entre técnicos bem preparados que têm de resolver, ou mitigar, problemas muito complexos, e os nomeados politicamente para os controlar. É especialmente assustador por ser ver perfeitos idiotas, presos ao pior da ideologias, a contrariar dados e fatos, com risco de enorme prejuízo.

I’ve got a bridge to sell you. Why AutoCAD malware keeps chugging on: Arquivar em coisas inesperadas e impensáveis, mas que fazem sentido. Hackers exploram vulnerabilidades em software de CAD para roubar planos de arquitetura e engenharia. É uma forma muito engenhosa de espionagem industrial.

Glimpses of China’s parallel tech universe: A chave para o artigo está no final. Habituados como estamos à hegemonia das stacks ocidentais, de um mundo digital controlado pela Google, Facebook, Amazon e outras, é-nos difícil de conceber alternativas. E elas existem. O caso chinês mostra-o bem. As empresas e serviços locais são preponderantes, e os grandes conglomerados ocidentais têm fatias muito diminutas de um mercado colossal.

Rule by robots is easy to imagine – we’re already victims of superintelligent firms: Interessante ponto de vista sobre o que é a inteligência artificial, comparando a figura da corporação empreserial, uma supra-entidade abstrata com consequências muito reais na sociedade.

Time to break academic publishing’s stranglehold on research: É, de facto, o negócio perfeito. Investigadores financiados pelo erário público desenvolvem investigação paga por bolsas e universidades; entregam os artigos para publicação, fazem revisão, porque é um requisito para a carreira de investigador. Finalmente, editoras aproveitam-se de todo esse trabalho gratuito ou financiado por dinheiros públicos, e colocam-no atrás de paywalls caríssimas. Para além das questões éticas, há toda a questão da restrição do acesso ao conhecimento, acessível apenas para aqueles que o podem pagar, ou trabalham em instituições com capacidade financeira para isso. É um perfeito negócio da china.


Facebook Censors Art Historian for Posting Nude Art, Then Boots Him from Platform: O que é que pode correr mal com filtros algorítmicos automatizados? Este é um bom exemplo. Um historiador de arte que usou o facebook como arquivo de acervo digital de imagens artísticas, foi bloqueado e perdeu todo o seu trabalho quando um algoritmo identificou  uma foto de escultura hiper-realista como imagem pornográfica. Algo que poderia ser torneável, se o oversight humano funcionasse, e os sistemas de reclamação fossem eficazes. Notem que é este tipo de análise algorítmica que o infame artigo 13 quer impor a todos os conteúdos colocados online.

Sing, Goddess: A mitologia grega vista sob um ponto de vista feminino, e a coisa não é boa. A Ilíada no ponto de vista da mulher é uma história de violência, morte e escravidão sexual, em que as mulheres são botim de guerra, condenadas a perder os maridos e filhos, e a tornarem-se as mulheres dos seus conquistadores. Uma forma de apontar a profunda violência dos mitos.

Ambitious VR Experience Restores 7,000 Roman Buildings, Monuments to Their Former Glory: Um uso fantástico de realidade virtual e 3D na reconstituição da antiga Roma. Um trabalho académico, que envolveu historiadores e artistas 3D.

Southwest Airlines Apologizes After Agent Laughs at 5-Year-Old Named 'Abcde': Confesso que quando li esta notícia, o meu primeiro pensamento não foi para a óbvia falta de ética do funcionário da linha aérea, mas para o absurdo da escolha de nomes por parte dos pais da criança.

E Ink debuts a new electronic drawing technology: Tinta digital? Suportes de desenho e escrita? Shut up and take my money!