sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Work in Progress


Só falta finalizar. No que respeita ao 3D está pronto.

O Estranho Mundo de Zé do Caixão


R.F. Lucchetti, Nico Rosso (1969). O Estranho Mundo de Zé do Caixão. L&PM Editora.


Um prenúncio do que esperar: misto de sensualide e horror, com a omnipresência do obscuro anfitrião.


Do sincretismo: criaturas amaldiçoadas, esqueletos, altares primevos e bruxas saídas das selvas afro-brasileiras.


Nos trópicos, sê tropicalista, diz-nos este Diabo que não esqueçe o pé de cabra da tradição europeia.


Gatos pretos e cemitérios na noite escura. Mais clássico que isto não há.

Uma enregelada rajada de vento do horror pulp brasileiro dos anos 60. Zé do Caixão, alter-ego gótico-tropicalista do cineasta José Mojica Marins, dispensa apresentações entre os conhecedores do fantástico. Bizarra mistura de terror gótico com o sincretismo afro-brasileiro, misturando elementos do horror clássico vitoriano com as tradições da bruxaria sobrenatural num registo que oscila entre o visceral e o onírico. É algo estranho, mesmo para os padrões das ficções estranhas.

Mais do que um personagem, Zé do Caixão é uma longa série cinematográfica com alguns desvios para a banda desenhada. Conheço pouco, não irei falar disso. Sou um apaixonado pelo À Meia Noite Levarei Sua Alma, primeiro filme do personagem que oscila entre o surreal e o brilhantismo do mau cinema. Foi uma boa surpresa encontrar, pelas travessas mais obscurar da internet, este álbum de BD que se inspira no personagem como anfitrião de contos de terror. Álbum este que tem pesos pesados do pulp brasileiro. Escrito por R.F. Lucchetti, o prolífico mestre do terror pulp brasileiro recém-redescoberto pela internet, conta com ilustrações dentro da linha visual do terror clássico de Nico Rosso.

A história em si é um conto algo moralista, sobre um homem que vende a alma ao diabo para salvar a sua filha. É algo ambíguo, porque se trata de um bom homem, prestes a perder o pouco que tem enquanto assiste impotente à agonia dolorosa da filha e ao desinteresse de médicos pouco preocupados com os destinos de gente pobre. No desespero da noite, à beira de um cemitério, cruza-se com uma bruxa repelente que lhe oferece um pacto como a única saída possível. Esse pacto irá trazer-lhe riquezas e a salvação da filha, mas terá um preço irónico, elevado e trágico. Como convém neste tipo de histórias, que, claro, mostram com preeminência as sombras da noite sobre as cruzes que encimam as campas em cemitérios tenebrosos. É um terror muito clássico, apesar de resvalar para o surreal, o deste Zé do Caixão.

Livro curioso, que nos mostra a potência da prosa de qualidade discutível de um mestre do pulp, acompanhado por ilustrações notáveis que espelham bem um estilo datado mas icónico.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Citações


"First-generation electronic computers fostered first-generation nuclear weapons, and next-generation computers fostered nex-generations nuclear weapons, a cycle that culminated in the Internet, the microprocessor, and the multiple-warhead ICBM." Esta frase de George Dyson no interessantíssimo Turing's Cathedral é um pouco como ler o primeiro parágrafo do livro do Génesis aplicado à história do computador. Sublinha a fortíssima ligação entre o nosso espantoso mundo digital e as necessidades militares por armamento avançado, algo que esteve na génese directa do trabalho fundamental que nos legou a computação contemporânea.


"All individuals were issued a device called "teletotal", connected to a global computer network with features similar to the Google and Facebook of today. "Teletotal threw a bridge between the thought world of the computer - which operated via pulse sequences at the speed of nano-seconds - and the thought world of the human brain, with its electrochemical nerve impulses"". George Dyson a citar Hannes Alfvén, físico sueco nobelizado que nos anos 60 legou a obscura mas curiosamente presciente ficção especulativa de The Great Computer: A Vision.

Ficções

Attack of the Giant Ants: Marabunta para a hipermodernidade. Um conto leve de Rudt Rucker que imagina formigas mutantes inteligentes e adaptáveis a invadir a cidade de São Francisco, acordadas de um longo sono nas profundezas pelos terremotos induzidos pela extracção de petróleo por fracking. Quando o Terraform ameaçou que queria publicar FC com o pulso na contemporaneidade, era isto que eu temia: grandes nomes a despachar uma historieta para enquadrar na temática. Confesso que dos que abriram esta variante do Vice Motherboard dedicado à FC só o do Bruce Sterling me impressionou.

Targeted Strike 2: Judgement Database: Não percebi. A sério. Não percebi. Isto é uma história de FC militarista? Uma variante da estrutura clássica da guerra futura? Uma sátira ao gaming e aos filmes de acção que usam FC militarista como adereço? Fiquei sem perceber. Estes elementos estavam todos dentro deste conto, mas não havia uma linha clara que nos indicasse onde o conto quer chegar. E, ao contrário de ficções mais arrojadas que fazem da inexistência de fios condutores excelentes contos, supõe-se que este pretendia chegar a algum lado.

Father Christmas A Wonder Tale Of The North: Charles Vess a escrever ficção? Sim, é encantador. E a sua ficção escrita é tal e qual o seu grafismo. Classicista, feéerica e inocente, com uma clareza de imagética que mostra porque é um dos melhores ilustradores contemporâneos de fantasia. A história em si é simples, uma variação sobre lendas do pai natal com trolls e muita ambiência mítica das florestas geladas da europa do norte. Encanta pelo classicismo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Work in Progress


Nove da manhã: iniciar o render. Ir para reuniões. Seis da tarde. Render pronto. Cabeça em água.

Espelho retrovisor

Num mooc que estou a frequentar, Competências Digitais para Professoresas discussões iniciaram-se com este vídeo, What the Internet is Doing to Your Brain, essencialmente uma animação bonitinha que repesca o catastrofismo digital conservador de Nichlas Carr, autor de The Shallows e do controverso Is Google Making Us Stupid. a coisa caiu que nem um docinho no meio de gulosos. Suspeito que boa parte dos participantes neste mooc tivesse tido ali o primeiro contacto com este lado crítico. Que, refira-se, já não é novo.

O mcluhanismo pode ser assustador, sabemos Essa ideia de que as ferramentas que usamos modelam-nos tanto ou mais do que as modelamos a elas mexe com conceitos que nos são elementares como livre arbítrio, auto-controle ou liberdade de pensamento. E se lhe metermos uma nova tecnologia dá sempre espaço às visões apocalípticas sobre a catástrofe civilizacional iminente porque as novas gerações não serão como a nossa e daí nada de bom poderá advir.

Adoro aquela história (se não me enganto via Brian Winston, Media Technology and Society, um livro excepcional, apesar de ter uma prosa árida, sobre a evolução das tecnologias mediáticas)sobre os tempos em que não havia internet, televisão, videogames ou radio e os romances eram considerados perniciosas influências sobre a mente juvenil. Curiosamente vieram a tornar-se clássicos da literatura, caso de Werther de Goethe, várias vezes acusado de incentivar o suicídio nos jovens da época romântica.

How is the internet changing the way we think foi a questão Edge para 2010. Edge, para aqueles que não conhecem, é um projecto coordenado por John Brockman que todos os anos faz uma pergunta, respondida pelos maiores nomes da ciência, pensamento e tecnologia da actualidade. Vão ler, são fascinantes. Das respostas para 2010 cito esta em especial: "Before cuneiform, we revered the epic poet. Before Gutenberg, we exalted good handwriting. We still gasp at feats of linear memory". Ou, como numa disputa literária Warren Ellis (fãs de bd por aqui conhecem a importância deste escritor) observou: "Some beardy druid from the oral tradition, a few thousand years back: I don’t want to wake up and look at paper. I feel like as a society, we try to put everything on that same (Brythonic swear word) piece of paper, and pretty soon we’re going to be eating on paper or, forsooth, making love through paper. It’s just sort of like: "Why does everything have to be on the paper?"

O que não quer dizer que isto seja uma questão linear. Carr não deixa de ter alguma razão, especialmente na necessidade de reflexão e afastamento do constante fluxo. Ok, fluxo é palavra que não chega para descrever. Torrente de informação. Para não variar, o que nos é mais eficaz está no cruzamento dos argumentos. Em 2008 Carr perguntou Is Google Making us Stupid, na revista The New Atlantic (outra leitura regular recomendada). Seis anos depois, digam-me lá, sentem-se mais.. pronto, serei elegante: menos inteligentes?

Junto a este vídeo havia outro, criado pela biblioteca da universidade de Bergen, para despertar a atenção sobre as problemáticas do plágio. Tinha um jovem estudante com prazos a cumprir que, distraído pelas mamocas das namoradas, cai na tentação de plagiar para entregar um trabalho a tempo e horas. A coisa segue um caminho dickensiano, com um fantasma do futuro a mostrar-lhe as consequências perniciosas do seu acto. Não cede e é recompensado com uma festa onde acaba rodeado por cheerleaders de mamocas generosas e vestes curtas. Difícil de descrever a incredulidade com que vi uma instituição académica a objectificar o corpo feminino para ensinar a boa ética anti-plágio. O filme até tinha killer robots, mas mesmo assim não se desculpa. Percebe-se a tentativa de tornar leve e divertido um tema complexo, mas só lhes faltou recorrer ao estragema pr0n de meter uma biblitecária jeitosa pronta a tirar os óculos e o resto das parcas vestes para recompensar a consciência ética do estudante.

(Suspeito que eventualmente serei proscrito deste curso, se continuar com os meus desvios à linha de pensamento institucional.)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Work in Progress


Ok, acho que já está quase lá. Com mais atenção ao excesso de iluminação.

Sudo

O porquê da real importância de incentivar o uso de tecnologias com os nossos alunos vai mais além da visão de pesquisar/organizar conhecimento, fazer pontes geracionais, estimular o interesse das crianças ou aproveitar tecnologias e apps com potenciais pedagógicos.

Tem mais a ver com o conceito de capacitação. Takeown (ou sudo, se preferirem linux): a ideia que a evolução tecnológica, e especialmente a social, vista num espírito de liberdade progressista, depende de todos nós e não de élites esclarecidas. Gosto da palavra take/own, comando do windows, porque é mesmo isto: pegar/apropriar. O poder da tecnologia nas nossas mãos está aí, na capacidade ao alcance de cada um de nós de abrir de novas possibilidades, que podem ir do simples prosuming ao inventor de garagem que cria robots autónomos só porque sim. Algo que é abertamente combatido pelas instituições, porque sentem a sua base de poder ameaçada ou é mais fácil lucrar com o corrente estado das coisas. Funciona em duas frentes: restrições legais e incentivar a utilização na óptica do utilizador, esse belo termo das TI que designa aquele que apenas usa e não percebe nada do que se passa por detrás do teclado/ecrã táctil. O incentivo ao consumir, ver, manter vivo o medo de abrir, perceber como é que a coisa é feita, como se pode fazer, pode transformar a maioria dos utilizadores nos couch potatoes do século XXI. Sobrevive a este darwinismo digital uma élite quase sacerdotal daqueles que sabem, criam, constroem, fazem, vistos com um misto de apreensão e deslumbre pelos restantes. Suspeito que quando nos sentimos inclinados a concordar com o alarmismo do Nicholas Carr, ou tememos a associalização por efeito de tecnologias que nos interligam a grandes distâncias mas podem quebrar os laços mais próximos, o que realmente nos apoquenta seja mesmo isto: a sensação que o poder transformativo da tecnologia não está nas nossas mãos e depende do controle de eminências cinzentas.

Não tem de ser assim. A panóplia de tecnologias ao nosso dispor para contrariar a tendência da redução à óptica do utilizador é enorme e em crescimento. Podemos usar os humildes blogs, wikis ou apps para estruturar conhecimento, fazendo com que os alunos ponham a funcionar os neurónios para além da dúbia absorção de informação. Podemos ir mais longe: com programação (scratch, kodu, e linguagens mais profissionais para adolescentes), incentivando pensamento computacional e mostrando-lhes o cerne do mundo digital; Arduino e open hardware, tocando no making, no fazer, no estímulo ao engenho, misturando bits com ferros de soldar e resistências; 3D printing, fazendo a ponte entre arte e tecnologia, incentivando a procura por soluções individuais em objectos que materializam o digital; hacktivismo, usando as redes digitais para excercer cidadania activa. Ou como o Cory Doctorow diz muito melhor do que eu, "Freedom in the future will require us to have the capacity to monitor our devices and set meaningful policies for them; to examine and terminate the software processes that runs on them; and to maintain them as honest servants to our will, not as traitors and spies working for criminals, thugs, and control freaks."

Creio que a maior dádiva que podemos dar aos nossos alunos é despertá-los para as possibilidades que o futuro lhes trará, capacitando-os para serem criativos e intervenientes, não servos automatizados sujeitos aos caprichos da finança e economia do capitalismo terminal. Isso requer da nossa parte um esforço acrescido de procura de conhecimento sobre o mundo digital (não vai lá só com formação, cuja falta é queixa comum entre os docentes) e flexibilidade de abordagens. Não é tarefa fácil. Mas é a competência digital essencial para professores que se queiram manter pertinente a educação no futuro próximo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Work in Progress


Por tentador que seja aterrar a caixinha azul numa paisagem alienígena, prefiro uma spacescape.

Comics


Afterlife With Archi #07: Depois de surpreender com o détournement dos pressupostos do simplismo clássico do all american boy, a série regressa entrando em território Walking Dead. Faz sentido. Todas as histórias com zombies têm o seu lado de périplo, com a obrigatória procissão por paisagens urbanas ou campestres decadentes temperadas com ataques de hordas de mortos vivos. Aguirre-Sacasa continua a temperar de vermelho profundo a quadricromia dos comics Archie, aproveitando a procissão em busca de sobrevivência para levar ao extremo as neuroses caricaturadas no bom humor normalizado do universo ficcional original destes personagens. Catanas, ao que parece, são uma excelente terapia para uma rapariga resolver de vez os seus problemas com um irmão impositivo. O estilismo de Francavilla continua a sublinhar que estamos a anos-luz do mundo adolescente luminoso de Archie e dos seus amigos.


Coffin Hill #14: Confesso que nunca esperei que esta série se revelasse tão consistente e boa. Pensei que fosse mais uma história de terror com bruxarias com o seu quê de bruxas de Salem temperadas com algum lovecraftianismo e assassínios rituais. Coffin Hill mexe, de facto, com estes elementos mas fá-lo com uma consistência admirável. Tudo gira à volta da localidade misteriosa onde reside uma família com segredos tenebrosos e uma jovem e problemática herdeira que lida com fantasmas do passado e regressa à terra após uma experiência falhada como polícia. Ou melhor, começa aí. Caitlin Kittredge supreende-nos com argumentos que não estariam nada mal como excelentes filmes de terror, temperando a visceralidade expectável com um sentido fortíssimo de ambiência arrepiante. Apesar de discreta, esta série inesperada é talvez a melhor a ser publicada no momento pela DC/Vertigo, mesmo levando em conta os interessantes Bodies e The Numbers, sem esquecer o incontornável Sandman Overture.


Little Nemo: Return to Slumberland #03: O fabuloso traço de Gabriel Rodriguez já é razão suficiente para se acompanhar este regresso do personagem clássico de Winsor McKay, e Eric Shanower destaca-se de forma admirável pelo cuidado que coloca no argumento, a trilhar o caminho certo entre a inovação e o respeito profundo por uma obra original tão marcante quando Little Nemo é na história da banda desenhada. Desconheço se McKay alguma vez se cruzou com M. C. Escher, Se o tivesse feito, suspeito que teria sido algo como esta profunda vénia que homenageia o marcante ilusionismo visual do artista holandês dentro do feérico onirismo infantil do ilustrador americano.


Wild's End #04: Irresistível. Como fã de H.G. Wells, não consigo deixar de estar curioso pelas diferentes abordagens que o marcante clássico War of the Worlds tem tido. Misturar este texto clássico sobre invasões alienígenas com o bucolismo anglófono e classicista dos animais antropomorfizados é um conceito brilhante que Dan Abnett vai levando com uma dose discreta de humor. E depois temos o traço de Culbard, sempre tão simples e elegante, e tão certeiro no tom neo-vitoriano que confere à série.

sábado, 13 de dezembro de 2014

aCalopsia: Blue Exorcist


Terceira crítica para o aCalopsia, desta vez um bocadinho fora das minhas leituras habituais. Manga young adult de terror, que não assusta muito mas tem uns cenários de cair o queixo: Blue Exorcist vol. II. Editado em português, e ainda bem, a dar alimento e formar leitores por cá.

Insta




Reduzir o real aos limites rigorosos de um quadrilátero. Ver através do véu de filtros que metamorfoseia a impressão dos fotões no ccd.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Leituras


When Science Fiction Stopped Caring About the Future: O que me chateia neste artigo é o título. Não, a FC não deixou de se preocupar com o futuro. Aliás, cada vez mais se sente uma preocupação em combater o doom and gloom distópico hoje tão do agrado de leitores. E é aí que resite o problema neste artigo que coloca o dedo na ferida da visão popular da FC. Ao optar por um rótulo generalista, corre o risto de meter tudo no mesmo saco, embora o seu foco na FC cinematográfica de grande espectáculo seja certeiro. No cinema não se correm riscos, especialmente nas produções de grande orçamento, e isso implica a aposta na repetitividade e no lado nostálgico. Mas duvido que isso se passe apenas no cinema de FC. Por muito que custe, esta análise é certíssima: "Tomorrow isn't a potential where things might be better, or even different; it's just a place to rearrange the robots on a Titanic that never sinks. Progress has conquered the present so thoroughly it doesn't even need to push forward anymore. In pop sci-fi, we're all always already picking up the shiny new old lightsaber; there is no other future, and no other dream". Mas não confundamos a floresta com as árvores. Ou, como pensei quando deparei com este artigo, vá ler um livro que essa sensação de irrelevância da FC depressa lhe passa.

The Hideous Unknown of H.P. Lovecraft: Quando se lê esta descrição dos fãs e escritores de ficção de horror fica-se com alguma vontade de ir até casa do crítico literário e pedir-lhe explicações. Com um cacete:  "The authors of these horrific fictions sit in the back of the classroom avoiding eye contact, rarely speaking to anybody. Shabbily dressed, fidgety, tattooed, hysterically sullen, they are bored by realism and reality when not actively hostile to both. When asked about their reading, they will gamely mumble the usual list of names: Neal Stephenson, Stephen King, J.G. Ballard, and Philip K. Dick. But the name that I have heard most often mentioned in these litanies is that of H.P. Lovecraft, whom they revere. He is their spirit-guide". Percebe-se que o real horror do crítico for ser obrigado a ir mergulhar em Lovecraft para este artigo na New York Review of Books. Sim, sabemos que Lovecraft caminhou na linha ténue entre a sanidade e a depressão, que era antiquado, misógino, racista e capaz de verdadeiros descarrilamentos de adjectivos. Mesmo assim gostamos dele. Algo de inexplicável para os elegíacos da literatura com letras maiúsculas. O único ponto em que o crítico consegue ver algum mérito na obra está no borgesianismo arquitectónico das suas arquitecturas imaginárias de atrocidade construtiva. De resto limita-se ao arrasar, percebendo-se um desgosto pela literatura de género em geral, convenientemente arrumada na prateleira de coisas para adolescentes ou coisas para adultos irresponsáveis que se recusam a crescer. Francamente já não há paciência para estes simplismos dos académicos incapazes de admitir que há todo um universo para além da sua visão restrita e tacanha. Que pode não ser perfeito, mas é interessante, e até mais do que o umbiguismo existencialista da banalidade que caracteriza boa parte da literatura convencional. Antes de acenarem a bandeirinha fanboy a dizer wow, Lovecraft na NYRB, notem que quem teve a tarefa de analisar a obra claramente odeia o escritor. Posso estar enganado, mas quando P.K. Dick foi editado pela mais prestigiada colecção de literatura clássica americana foram mais simpáticos. Entretanto S.T. Joshi já respondeu à letra a este artigo, apontando que o seu autor tem credenciais nulas na investigação académica lovrecraftiana, e mete o dedo na ferida: o preconceito exposto é o do crítico, que abomina o género sobre o qual teve de escrever. Mas note-se, uma coisa é ser imune aos géneros, outra é demolir por tacanhez mental. Também David Soares faz um ataque certeiro a este faux pas (estou a ser muito simpático) da NYRB, recordando-nos que é um erro avaliar figuras do passado apenas segundo os nossos conteporâneos padrões, e que se o fizermos... digamos que muitos dos heróis celebrados pela história ganham toda uma nova dimensão tenebrosa. Eu cá por mim ainda estou engasgado com a estupidez de afirmar que há uma literatura para adultos e tudo o resto é para desprezar com o rótulo de coisas imaturas para gente imatura que se recusa a crescer como deve de ser. E o "como deve de ser", do meu ponto de vista, roça demasiado o moralismo bacoco fascizante e cinzentista.

Diary: É preciso tê-los no sítio para fazer o que este jornalista fez: fingiu-se de neo-fascista britânico e infiltrou-se entre os perigosos e tenebrosos aurora dourada na Grécia. Há algo que ressoa neste artigo, para lá da óbvia coragem do jornalista e da mistura entre revanchismo, máfia e nacionalismo deste movimento neo-nazi: a mistura entre violência escapista geralmente excercida sobre estrangeiros, válvula de fuga de uma sociedade esmagada pelas medidas de salvação impostas pelos ideólogos neoliberais, e a alternativa caritativa, fornecendo comida e cuidados médidos básicos a uma população abandonada pelo seu governo: "In a country with ineffective – or vanishing – public services, these measures are important enough to make many Dawn voters look past the party’s veneration of Hitler." Temo que seja esta a nova europa, forjada nos fogos ideológicos da City londrina e bancos de Frankfurt pelos analistas da escola Goldman Sachs com ajuda da geração de políticos europeístas do calibre de Merkel ou Juncker, mais atentos aos caprichos das elites financeiras do que às vontades dos seus cidadãos.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

aCalopsia: Perdido na Dimensão Z.


Esta semana no aCalopsia olha-se para o Perdido na Dimensão Z, que apesar de todos os defeitos traz de volta o meu vilão favorito do universo Cap: Arnim Zola. Podem ler a crítica ao Capitão América: Perdido na Dimensão Z no aCalopsia. Leitura pouco recomendável a fãs de Red Skull ou apoiantes da Panini Comics.

Segurem-se.


Wallpaper inspirador para workshops.

Um livro real para uma personagem ficcional.


Não sei se foi desafio ou não, mas este post no Que a Estante nos Caia em Cima deixou-me a pensar. Bolas, detesto quando isto me acontece nas alturas menos propícias. Tenho francamente mais que fazer. Não necessariamente melhor, mas mais tenho. Mas os neurónios estão insistentes e nos recantos menos luminosos do cérebro têm andado a magicar sobre isto. Quem poderia escolher? E que livro?

Personalidades públicas ficaram à partida fora das possibilidades. Não tenho paciência para figuras públicas. É um defeito, eu sei. Não, não planeio fazer nada acerca disso. É outro defeito, eu sei. Restam as ficcionais. Mas quais? O meu admirado Raskólnikov? Provavelmente iria chegar fogo ao livro para se aquecer no gelo siberiano. A Olympia? Aquilo apenas aparenta estar vivo, o E.T.A. Hofffman deixa isso bem claro. Duvido que tenha algo a ensinar ao Dr. Caligari, mas talvez um manual de hipnotismo for dummies não fosse mal recebido. Não me convém incomodar as coisas que não podem ser denominadas, ou acordar aquele que dorme sob as ruínas submersas de R'lyeh. Não tenho tempo livre que chegue para me perder em labirintos infindos de horror cósmico. Com o The Doctor não me safo. Já viram a biblioteca da Tardis mais recente? Todos aqueles livros à volta da consola central? E com tanto espaço no interior devem lá caber várias bibliotecas de Babel. Fora de questão.


Resta o meu querido Dylan Dog, o incauto e ineficaz detective dos pesadelos. A imagem fá-lo parecer mais heróico do que realmente é. Ele é um tipo estranho, para detective do sobrenatural. Investiga pouco. As situações estranhas e inexplicáveis cruzam-se com ele. Não tem um arsenal de armas secretas ou encantamentos infalíveis para aniquilar os horrores do além. Até é habitual levar grandes coças destes. Não é mago ou estudante do oculto. Costuma esquecer-se da pistola ferrugenta. Incorpora a estranheza e o onirismo, a paixão pelo fantástico literário e o gosto pela sua cinematografia. Nunca mais termina o modelo de galão que começou a construir em 1986. A campainha avariada do número sete da londrina Craven Road abre-nos a porta para um casarão mágico, cheio de artefactos feéricos e... uma boa biblioteca.

Bolas. Assim é difícil responder ao desafio.

Dylan terá de certeza consigo uma cópia do raro Dellamorte Dellamore. Talvez, numa noite mais solitária, sorria ao sentir-se espelhado na obra . Dylan e o livro partilham o mesmo criador, Tiziano Sclavi. Um daqueles livros que, um dia, gostaria de ter na minha biblioteca. Poderia oferecer-lhe Todas as Cosmicómicas de Italo Calvino, italiano como Dylan, dos primeiros escritores a esbater a fronteira entre literatura vista como séria e os voos imaginários do fantástico. Mas suponho que oferecer Calvino a um italiano seja como oferecer Shakespeare a um inglês. Ou um DVD da primeira época do reality show Big Brother a um holandês. Fui mauzinho, agora. É um defeito, eu sei. Não, não planeio fazer nada acerca disso. É outro defeito, eu sei.

Qualquer coisa de Conan Doyle? Dylan poderia aprender algo com Sherlock Holmes, o seu preciso oposto no que toca a técnicas detectivescas. Mas suspeito que estaria mais à vontade nas selvas primevas de The Lost World. Sei que os modernismos de J.G. Ballard ou William Gibson o deixariam desgostoso. A solidão de Dylan é outra, não se alicerça no modernismo arquitectónico ou na alienação tecnológica. Carnacki The Ghost Finder seria insultuoso para alguém que está constantemente entrançado entre fantasmas, vampiros, espíritos inquietos e outras criaturas de arrepio.


Talvez lhe consiga oferecer algo mais seguro. Um clássico. Deve ser coisa destes gelados dias invernais, uma certa necessidade de ler palavras com cinquenta ou cem anos. Mas um clássico que espelhe a poesia do acaso consciente que tanto admiro em Dylan Dog. Labyrinths, a colectânea editada pela Penguin que me introduziu a Jorge Luis Borges. Não é uma escolha ao acaso. Tiziano Sclavi colocou muito de Borges em Dylan Dog. Na mais encantadora das suas aventuras as pessoas, a cidade e a mulher que Dylan ama se desvanecem sem deixar rasto nem memória, culpa da incúria de um bibliotecário que procura disfarçar os livros comidos por ratos na biblioteca que tem a cargo. Nos livros estão destinos, porque por vezes o mapa é o território.

Está decidido. A biblioteca da casa de Craven Road aparenta ser temível e Borges não será um inquilino estranho. Mas posso sempre tornar especial este livro, escrevendo do seu (talvez) único fã português na dedicatória. Acham que irá gostar?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Revoluções Educativas

What Technology Will Revolutionize Education: Para dar que pensar. um vídeo que nos recorda quão facilmente esquecemos as tecnologias que iam revolucionar a educação... só que não o fizeram: "but i think the reason technology didn't revolutionize education is something else. something that goes to the very heart of what education is." Genial, a referência aos videodiscos como tecnologias de mudança de paradigma na educação. Quem diria que esses dinossauros extintos teriam alguma vez sido alvo de optimistas estudos académicos que os caracterizaram como revolucionários. O vídeo é sóbrio. Recorda-nos que essencialmente aprender está nas mãos dos indivíduos e que se as tecnologias dão uma grande ajuda, especialmente ampliando o espectro do que se pode fazer, não são revolucionárias per se. Não há pílulas mágicas da sabedoria, apesar de todo o hype geralmente propalado por quem tem interesse económico em vender dispositivos. É o que penso sempre que leio ou vejo algo sobre os "revolucionários" quadros interactivos, tablets ou escolas virtuais. O vídeo ironiza, recordando-nos que ideias como grafonolas, rádio ou televisão já foram consideradas revoluções pedagógicas que redefiniriam o papel do docente. Yep, Algo que em retrospectiva nos faz sorrir, mas que repetimos alegremente com quadros interactivos ou ipads. Professores ligados às tecnologias reconhecem a pedadogia Tech and Learning, da revista de tecnologia educativa cheia depoimentos de professores ao lado de catálogos de empresas de venda de equipamentos e software. É confundir o utensílio com o acto. É esquecer que somos humanos, que a transmissão de conhecimento não é um processo automatizável, que o papel do professor é o de guiar e abrir horizontes.

When Tablet Turns Teacher: Uma boa observação (ironia, claro) sobre o papel dos professores, cortesia do Nicholas Negroponte/OLPC (dois nomes que qualquer professor que se interesse pelas tecnologias educativas tem que conhecer). Parece, aparentemente, que basta fazer cair do céu tablets para que em pouco tempo miúdos de zonas isoladas lhes consigam dar a volta sem qualquer auxílio de adultos. Descobrem sozinhos como os utilizar, como os programa e hackar. Nenhum tipo chato a dar lições necessário. Fantástico, não? Do ponto de vista da FC seduz, esta ideia de largar dispositivos computacionais in darkest africa e meses depois ir ver se os nativos desenvolveram algum tipo de culto de carga à volta das maravilhas digitais. Do ponto de vista de um pedagogo sublinha o tempo que se perdeu. Certo, as crianças deram sozinhas a volta à tecnologia, mas se tivessem por perto alguém que as guiasse e lhes mostrasse possibilidades, se calhar tinham lá chegado mais depressa e mais longe. Ao criticar o convencionalismo do professor como sage on the stage, esta iniciativa clicktivista esqueceu o poder do professor como guide on the side. Sim, é fantástico saber que estas crianças por si só souberam apropriar-se da tecnologia, mas por outro lado se a cada geração tivessemos que reinventar a roda, é bem provável que ainda andássemos de carroça.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Citações


Beacuse there was Buck Rogers. O astronauta Charles Bolden a fala sobre algo que o inspirou a acreditar nas estrelas, recolhido por David Langoford na Interzone #255.


"I was aware that I was taking inordinate pleasure in small, technological events and objects, and that's this was probably a semiconscious tactic meant to evade confronting certain agonizing life events which were probably not resolvable and were destined to cause unreleting pain and distress; yet the pleasure was real, and I took it greadily". David Cronenberg a descrever com precisão o sentimento de oco preenchimento de vazio interior que caracteriza o consumismo em Consumed: A Novel.

Contos do Androthélys


António de Macedo (1993). Contos do Androthélys. Lisboa: Caminho.

O equilíbrio mágico entre os ditames do coração e os do intelecto é frágil, bem sabe o endiabrado Androthélys, criatura angelical das esferas superiores que começa a desesperar com a orientação de Vallatius, aprendiz de magia superior que já vai na sexta encarnação sem conseguir aceder às esferas etéreras. A causa é a sua paixão culposa por uma Sílfide que está disposta a perder a sua imaterialidade por amor. As pulsões carnais atrapalham a ascensão, ou talvez não. A corrente encarnação de Vallatius está num humilde guarda-livros lisboeta, cuja vida cinzenta e apagada é irremediavelmente transformada por um estranho encontro nocturno com um árabe livreiro que por preço simbólico lhe dá os mais raros livros de esoterismo, e com isso despoleta uma aventura em que os sábios etéreos, mestres de Vallatius, se descobrem ameaçados por uma terrível força sobrenatural. E no final o que salvará os sábios e os outros é o amor entre o aprendiz e a sílfide. Mas talvez o Androthélys sempre tenha sabido isso, mantendo distâncias e provocando sobressaltos para testar a força do amor.

Em tom de parábola inspirada na literatura mágica, este livro é um mergulho na poesia esotérica de António de Macedo. É sempre interessante ler a forma como o romancista e realizador de cinema, homem dedicado ao Fantástico nas artes, sublima a tradição de conhecimento esotérico através de histórias cheias de poesia onírica, com o seu inimitável bom humor.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Offroad


Desde há algum tempo que me tenho esforçado por evitar auto-estradas. São caras, entediantes e convidam à aceleração. São-me úteis quando o tempo está contabilizado e convém estar a horas nos sítios, mas fora desses momentos a estratégia é de fuga. Opto cada vez mais por estradas nacionais ou secundárias. É uma tendência habitual nestes tempos de crise. Poupa-se na portagem, melhora-se a eficiência de consumo de combustível conduzindo a velocidades mais baixas. As estradas nacionais obrigam a conduzir mais devagar. Não só por imposição legal. Há por aí muito sítio onde andar perto da velocidade máxima legar pode ser potencialmente letal.

Se evitar gastos desnecessários, escapando à economia rentista, é uma das razões que me leva a esta fuga, outra é estética. Desacelerar, contrariando a tendência do futurismo. Poder parar. Encontrar recantos inusitados. Poder contemplar a paisagem ao retrovisor e no pára-brisas. Atravessar aldeias, vilas e cidades e sentir-lhes o isolamento, ou o fervilhar. As auto-estradas são estéreis, construídas como artérias que ignoram deliberadamente a arquitectura estática. Na via-rápida somos um borrão na paisagem. Na estrada cruzamo-nos com recantos, casario, pontes e rios. O tempo alonga-se e ficamos com mais tempo para pensar, ou apenas aproveitar o intenso prazer contemporâneo de conduzir e ouvir música. Aquele sentimento fantástico e banal de on the road, nós, o veículo, a estrada e as paisagens que se sucedem.

Comics


Hellboy and the B.P.R.D. #01: Teremos Hellboy de regresso aos comics? Talvez, metodicamente. Mignola foi inteligente na estratégia de não banalizar o seu melhor personagem com exploração excessiva. Mas vai mimando os fãs com algumas edições pontuais, como o genial Hellboy in Hell, em que não só nos devolveu durante um curto tempo o personagem como também o seu traço inigualável. Neste novo título olhamos para um Hellboy jovem, antes de se tornar o simpático monstro desbocado de que tanto gostamos. Não sendo um regresso total, é uma dose a conta gotas, desta vez interligado com o muito menos interessante Bureau for Paranormal Research and Defense, série que consegue transformar o apocalipse num longo bocejo. Com ênfase em longo.


Max Brooks The Extinction Parade War #05: Este comic escrito pelo celebrizado autor de World War Z fica algo aquém das expectativas, apesar de uma premissa curiosa. Com hordes de zombies a avassalar a península malaia, restam os vampiros, que vêem o seu estilo de vida como predadores da humanidade ameaçado pela extinção humana à dentada de zombie. É uma boa desculpa para o tipo de desenhos viscerais em que a Avatar Press se especializa, com um Raulo Cáceres especialmente capaz de grafismos provocadores de vómitos. A história segue nos moldes previsíveis, com duas vampiras a catalizarem uma união de defesa que vai eliminando zombies com extremo prejuízo, mas neste número cinco a história desvia-se para a ironia fina, com as anti-heroínas a cruzarem com um grupo de vampiros que se proclama um exército organizado. Têm os uniformes, as armas, os brinquedos de alta tecnologia e estão cheios de teorias lidas nos mais eruditos manuais dos téoricos militares. Mas não passam de um exército de pacotilha, incapaz de agir porque apesar do aspecto profissional não faz a menor ideia do que tem de fazer. Um toque de fina ironia anti-militarista.


Hinterkind #13: Apesar de ter Ian Edginton no argumento, Hinterkind tem sido de uma mediania arrepiante. A ideia até prometia: um futuro pós-apocalíptico em que uma praga viral destruiu grande parte da humanidade, com os sobreviventes escravizados pelas criaturas míticas. Com o desaparecimento dos humanos ogres, fadas, silfos, centauros e todas as outras criaturas que assustam o imaginário voltaram a ocupar o seu lugar no planeta. Mas não passou de uma rotineira história-périplo que terminou com uma intrigante invasão de nosferatus militaristas europeus que atravessaram o oceano em dirigíveis para encontrar novos terrenos de caça nas américas. Neste número Edginton arrepia caminho e vai aos primórdios do seu mundo ficcional, começando a mostrar como é que a humanidade foi exterminada por vírus manipulados pelas criaturas míticas. Talvez agora Hinterkind ultrapasse a mediania.


War Stories Castles in the Sky #03: Um final curiosamente feliz para este episódio na série em que Garth Ennis dá asas ao seu gosto especial pela história da II Guerra. Acompanhamos as aventuras de um tripulante de bombardeiros da oitava força aérea, rapaz meio adolescente que é obrigado a crescer frente ao horror da guerra nos céus. Termina com um fantástico relato do que teria sido uma missão banal da oitava força aérea, um raid de rotina onde as frotas de B-17 e B-25 são constantemente assoladas por vagas sucessivas de Me109s, FW-190 e até caças nocturos (oHE-219 uhu é um pormenor perfeito). Não sendo dos melhores trabalhos de Ennis, apesar de nos colocar no lugar de um jovem a encarar o visceral horror da guerra, distingue-se mais pela precisão do traço do ilustrador Keith Burns. O seu traço regista na perfeição a tecnologia militar da II guerra.

Bilionários anarquistas


"The only way out of capitalism is to take it further, to follow its lines of flight of deterritorialization to the absolute end, to speed-up beyond the limit of capital itself." Benamin Noys, Malign Velocities: Accelerationism and Capitalism.

Não sei porquê, é-me difícil imaginar bandos de bilionários anarquistas, enriquecendo obscenamente para acelerar o capitalismo ao ponto de colapso, almejando a derrocada da ordem financeira enquanto sonham em ser destituídos das suas riquezas faraónicas pelas plebes enfurecidas, regressadas às chamas das revoluções pelo alastrar do empobrecimento galopante.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Marchar




Sem GPS, que é mais divertido.

Arranca Corações


Acreditam se vos disser que abriu um espaço steampunk em Lisboa? Bem me parecia, por isso cá ficam as fotos para mostrar um pouco do belíssimo espaço de O Arranca-Corações, casa de cafés e petiscos com temática steam e donos literatos que abriu recentemente na Calçada do Cardeal, mesmo atrás de Santa Apolónia, ou abaixo da Feira da Ladra, como preferirem.


O espaço é Steampunk q.b., com adereços suficientes para nos fazer entrar na fantasia deste género sem cair no barroquismo de muito que há por aí de steam. Chamei-lhe espaço, porque não se enquadra na ideia de café, bar temático ou restaurante. Para ser mais estritamente neo-vitoriano (ou, se quisermos ser rigorosos, neo-edwardiano), poder-lhe-iam chamar casa de pasto. Que não, não tem essa conotação animalesca que pensam. "Casa de pasto" era o termo que designava locais que serviam comida antes do termo "restaurante" ter entrado no vocabulário popular, em virtude do progresso científico ligado à medicina com a ideia de que a comida fornecia energia para o corpo. Daí "restaurante" como lugar onde se restaura a energia. A etimologia está cheia destes detalhes curiosos.


Fiquei fã da ambiência e das tibornas. Por enquanto não têm chá, mas suspeito que isso fica em breve resolvido. Vai-se tornar um sítio habitual para pastar, ou restaurar energia vital, sempre que passar por Lisboa.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Sala 7


O professor sabe quem é que faz estes desenhos?" Fiz um ar descomprometido. Já viu? Isto todas as semanas é uma frase nova. É como se fosse uma pista. Será tipo um jogo? São frases inspiradoras! E olhe, stor, hoje li uma outra... e a partir daqui a conversa seguiu noutro sentido. É giro sair da sala a meio de uma aula para ir buscar material à sala dos servidores (por causa de um projecto simpático para as escolas do primeiro ciclo) e reparar que quem vê de fora é isto que vislumbra pela porta aberta. O quadro não está ali como bloqueio visual. Resquício útil para outros professores que usam a sala TIC, tenho que o mudar para esta posição porque ao aumentar a capacidade da sala com mais computadores aproveitei todos os recantos. Até mesmo aquele ao lado do quadro interactivo que fazia tanto jeito para arrumar o quadro de giz. Tem rodinhas, não dá muito trabalho. Note-se que ensinamos muitas vezes mais pelo que fazemos ou dizemos casualmente do que quando estamos efectivamente a trabalhar matéria. Ser professor tem destas coisas. Não é só nos noventa/quarenta e cinco minutos das aulas formais. É a cada passo que damos nos corredores, a cada encontro e conversa trocada com os alunos, a cada bom dia, a cada pequena impressão fugaz.

Wunderwaffen T06: Le Spectre de l'Antartique


Richard Nolane, Maza (2014). Wunderwaffen T06: Le Spectre de l'Antartique. Toulon: Soleil.

A ucronia de Richard Nolane tem a sua piada, mas o argumentista consegue sempre fugir ao lado mais interessante da forma como brinca com a história da II guerra e os mitos sobre o ocultismo nazi. Temos armas secretas, tecnologias futuristas, ocultismos, histórias alternativas... e o foco da acção são nas lamechas desventuras de um piloto que, felizmente, vai sempre parar a zonas de acção, senão a série certamente que não teria chegado a este sexto volume.

Desta vez Nolane brinca com os mitos sobre bases nazis na antártida e lança uma task force aliada sobre a base das SS na Nova Suábia, onde se oculta um meteorito misterioso de estranhas capacidades que os para-cientistas da Ahnenerbe estão a começar a estudar. Uma boa desculpa para meter submarinos na antártida, armas secretas nazis a defender os segredos ocultos sobre os gelos perenes e uma belíssima batalha aérea nas costas antárticas.

Como sempre, o que dá gosto a esta série é o trabalho gráfico do ilustrador Maza, que nos deslumbra com as suas visões precisas das armas secretas nazis que na história real não chegaram a sair dos estiradores.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Leituras

The Neurological Side-Effects of 3D: Uma notícia bizarra sobre um estudo científico que recomenda que as crianças não sejam expostas a visualizações tridimensionais para não correr risco de danos cerebrais inspirou Geoff Manaugh a ir um pouco mais longe. Porque aqueles que temem os horrores mentais do 3D não estão a levar em conta os efeitos da arquitectura, essa sublime forma de dominar o espaço tridimensional: "we are already surrounded by immersive and complexly 3-dimensional spatial environments, built landscapes often complicated by radically diverse and confusing focal lengths. We just call it architecture". E se, em nome da saúde infantil, as crianças não pudessem entrar em determinados edifícios para que o seu desenvolvimento cerebral não seja prejudicado? A ideia do 3D como danoso para o desenvolvimento cerebral é estapafúrdia, no mínimo. Desenvolver a abstracção e percepção espacial, aliás, é coisa que se faz pouco nas escolas, onde impera o plano. Pessoalmente fiquei intrigado com a ideia de poder estar a traumatizar criancinhas quando lhes ensino perspectiva ou a trabalhar com ferramentas 3D.


The Paris Horror Show: Da Messy Nessy não podemos esperar textos muito profundos, mas o seu olho para as delícias visuais é imbatível. Neste artigo leva-nos ao interior do já desaparecido Théatre Grand Guignol, cujo pendor para o horror sangrento e macabro se tornou um adjectivo apreciado pelos fãs de ficções mais aterrorizantes. Muitas imagens, com o preto e branco das fotos desvanecidas a sugerir a exuberância sangrenta da maquilhagem e cenas em palco, e pequenas histórias, como a da actriz Paula Maxa, talvez a mulher mais assassinada da história do teatro.

Big, bad tech: how America’s digital capitalists are taking us all for a ride: Não só americanas. O neo-liberalismo encontrou na automação e big data uma ferramenta de sonho. Tornou-se possível lucrar com investimentos que não vão além de infraestruturas digitais mínimas colocando os clientes/consumidores no papel de empregados/trabalhadores. Naughton observa, e muito bem, que são empresas que "that uses technology in order to intervene/operate in the offline world. It has, however, borrowed two ideas from the pure internet operators. First, it takes the standard tech business model of being a “platform” (translation: intermediary) – putting buyers in touch with sellers, taking a cut, harvesting the data and taking no responsibility for anything". As tecnologias de vigilância e medição que permitem isto seriam noutros contextos consideradas pesadelos totalitários orwellianos, mas neste são consideradas importantes ferramentas de flexibilização e eficiência. Os media ficam-se por retratos acríticos destes empreendedores disruptivos, que como Naughton observa certeiro, são "new digital capitalism is neoliberalism red in tooth and claw, which is why they minimise the number of “ordinary” (ie non-geek) workers on their payrolls, outsource everything they can, despise trade unions, view regulators as barriers to “innovation” and are outraged by the temerity of European institutions that seek to curb their freedoms of action".

Lego car becomes an avatar for a worm: Traduzindo: reproduziu-se digitalmente o ADN de um organismo vivo (um nemátodo), e este ficheiro foi utilizado para controlar o brick de um robo Lego Mindstorms, que se moveu de forma autónoma com um cérebro virtual que replica um animal real. O próximo passo é induzir mutações no organismo virtual. Se vivesse no nosso tempo contemporâneo Viktor Frankenstein seria um homem feliz.