quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Autonomous


Annalee Newitz (2018). Autonomous. Nova Iorque: TOR.

Há muitas ideias interessantes à solta neste livro. Robots com personalidade, um futuro biotecnológico onde o grande norte gelado, tornado mais habitável pelos efeitos do aquecimento global, pulsa como centro económico e cultural global. A prevalência do sistema de patentes e propriedade intelectual como uma das grandes indústrias de futuro, contrabalançado por pequenos assomos de cultura aberta. Um futurismo ao mesmo tempo progressista e distópico, neoliberal quanto baste, onde as capacidades de inteligência dos robots levam a uma curiosa inversão dos direitos humanos. Se seres artificiais têm de conquistar a sua autonomia, o mesmo também se aplica aos naturais, o que implica que se um humano não tiver a sorte de ter pais com capacidade financeira para lhe adquirirem autonomia, estão condenados a ser servos sob contrato até poderem ser livres. Um pormenor maquiavélico num futurismo que extrapola muito bem muitas das tendências culturais e tecnológicas que vivemos hoje.

Misturem aos ingredientes piratas de propriedade intelectual especializados em engenharia reversível de biotecnologia, uma droga aditiva criada por um laboratório para fazer os trabalhadores concentrarem-se nas suas tarefas que tem efeitos secundários catastróficos, cientistas libertários e agentes ao serviço da polícia dos direitos de autor que se socorrem de todos os meios para intervir em casos de propriedade intelectual, com extremo prejuízo. E, claro, robots inteligentes com consciência de si próprios, entre propriedade dos sistemas ou autonomia. Para apimentar a coisa, há ainda casos tórridos entre humanos e robots que desenvolvem simulacros de sentimento.

Parece a receita para um excelente livro de ficção científica, mas apesar do esforço, Newitz não chega lá. As ideias que o sustentam são excelentes e bem trabalhadas, mas no essencial o livro é uma história de caça ao homem, em que saltitamos constantemente entre os pontos de vista da perseguida e do perseguidor. E nisso, torna-se uma leitura entediante. O ritmo é marcado mas não me agarrou como leitor, e o final em tom sacaroso (sem spoilers: todos têm finais felizes, quer os maus, quer os bons) não ajudou.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Project Superpowers: Blackcross



Warren Ellis, Colton Worley, Tula Lotay (2016). Project Superpowers: Blackcross. Nova Jersey: Dynamite Entertainment.

Estranhos acontecimentos desenrolam-se numa pacata cidade do interior americano. Algumas pessoas são aparentemente tomadas por espíritos, e ganham super-poderes. A juntar à confusão, parece haver um assassino em série que atravessa a américa em linha reta, deixando vítimas mutiladas, tendo como destino a cidade de Blackcross. Este acaba por se revelar um carcereiro, que quer capturar seres super-poderosos de um mundo paralelo que, em fuga, decidiram manifestar-se no corpo dos seus duplos no nosso mundo. Fica no ar a dúvida, quem realmente é herói ou monstro.

Warren Ellis explora de uma forma inesperada antigos heróis dos comics, personagens esquecidas de editoras que faliram e, com isso, se perderam. Um projeto da Dynamite, que recuperou heróis dos pulp e comics dos anos 40 e 50, aqui com aquele retoque de inversão de conceitos que carateriza a obra do argumentista.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

URL


Point Reyes Lighthouse: Se forem como eu e considerarem The Fog de John Carpenter como um dos filmes das vossas vidas, o coração dá uns saltinhos com estas imagens do farol que foi um dos cenários do filme. Eu sei, não é uma obra perfeita, mas é daqueles filmes que me toca. Ainda hoje me arrepio com as imagens do nevoeiro a percorrer as ruas de Antonio Bay.

Our dystopian cyberpunk here and now: A zona de Xinjiang como laboratório de uma sociedade panopticon digital. É puro imperialismo, é a região chinesa mais próxima do médio oriente, com uma forte população muçulmana, e o governo faz tudo para assegurar o controle total sobre a população. Algo que, na era dos sensores ubíquos, conectividade, videovigilância e inteligência artificial, se tornou muito fácil.

jordan peterson’s fan club goes after computer science and big data: Quando a ideologia de extrema direita colide com a realidade. Não é um tema novo, o interessante é ver este debate chegar às ciências da computação, porque um daqueles mentecaptos que segue à risca as lições de Peterson ficou muito irritado por ter de ler um livro sobre enviesamento de dados em Inteligência Artificial.

How neoliberalism’s obsession with markets destroyed the heart and soul of key jobs: Quando os médicos deixam de ter pacientes e os professores alunos, porque se passa a considerar tudo como clientes, muita coisa acontece. Despersonalização, descrédito do papel do especialista, visto como um elemento descartável no mecanismo (e isso nota-se muito no mundo dos professores, a  uniformização extrema de métodos de trabalho e aprendizagens medidas por exames torna-nos profissionais intercambiáveis). Foco na satisfação do imediato e não na resolução de problemas a médio prazo. Efeitos de uma ideologia que só nos trouxe efeitos negativos nos direitos sociais, ambiente, desigualdade e progresso.


Why video games are made of tiny triangles: Porque é que se utilizam triângulos para representar superfícies tridimensionais? Sabia que era por serem a superfície plana mais simples, com três vértices, não sabia que no rendering, também facilitavam a atribuição dos valores de cor aos pixels.

How Technology Changes Our Concept of the Self: Com uma ligação direta a Wiener e à cibernética, talvez uma das mais influentes manifestações do conceito de hibridização entre o humano e a tecnologia que primeiro cria, depois o transforma.

A evolução da ficção especulativa em Portugal – uma perspectiva pessoal: Subscrevo esta visão da Cristina Alves. Também não faço parte da geração dos tempos em que havia muita edição de FC acessível, e até questiono se esses tempos eram assim tão bons, dado o que ouço em conversa sobre a pouca qualidade das traduções e edições. Não temos uma cultura sólida e abrangente de FC e Fantástico, mas temos um núcleo de autores e editores muito dedicado, que publica com a regularidade possível, mas não baixa os braços. Temos eventos, uns que se mantém, outros que surgem, no que se assinala como um crescimento sustentado. Temos uma blogoesfera pequena, mas crítica e atenta - o blog da Cristina é talvez o melhor exemplo disto, sem desvalorizar o trabalho do Candeias no seu blog e na Bibliowiki, a base de dados de ficção especulativa em português. São dois exemplos de continuidade, com outros que vão surgindo, novas vozes que querem falar de livros de FC e Fantástico em português. Se formos olhar para essa mítica era de ouro do passado, quantos livros editados eram, realmente, escritos por portugueses? Exceto, talvez, na mítica coleção de capa azul da Caminho, que surgiu no ocaso desses tempos. Hoje temos uma comunidade, de interesses diversos, entre literatura, banda desenhada, videojogos, cinema, jogos, cosplay, que é vibrante, cria e se expressa. Creio que é esse o espírito que temos de cultivar.

The Truth About the Gig Economy: Soa incrível, não é? Perante a radiosa perspetiva de eterna precariedade, sem apoios sociais, contratos de hora zero e instabilidade financeira, parece que as pessoas optam pelo entediante mundo do emprego tradicional. Curiosa, a forma como as pessoas rejeitam a utopia da gig economy, e só recorrem a ela como forma de complementar rendimentos ou em caso de necessidade extrema. Porque é que será? Porquê esta insistência das pessoas em não compreender a glória libertadora do late stage capitalism?

How the Idea of Hell Has Shaped the Way We Think: O inferno são os outros, dizia Sartre (I can relate), mas estes são os infernos tradicionais do fogo e ranger de dentes da mitologia judaico-cristã. Uma imagética que é, de acordo com interpretações modernas dos textos bíblicos, um fogo de vista destinado a assustar os de mente fraca. O verdadeiro inferno das religiões é a ausência do sentimento divino, a solidão de quem sabe que não pratica o bem. Conceitos abstratos, é bem mais fácil invocar chifrudos belzebus, espíritos imundos e fogos ardentes pela eternidade. E divertido, diga-se...


11 Powerfully Resplendent Moments Of Accidental Renaissance: É uma questão de cultura visual, diria, quando imagens aleatórias se assemelham ao rigor compositivo e formal da pintura renascentista. E um pouco como aquele aforismo dos mil macacos que teclam cada um na sua máquina de escrever, estatisticamente há a probabilidade de um produzir um texto de Shakespeare. Entre os milhões de fotos tirados diariamente, nalgumas o acaso produz milagres.

SEYMOUR CRAY, FATHER OF THE SUPERCOMPUTER: Recordar o criador dos mais icónicos super-computadores. Os Cray-1 sempre deslumbraram pela mistura de técnica e estética, são daqueles objetos cujo futurismo não envelheceu.



The single greatest and most fascinating “futurist” architecture movement in the world right now is happening in Bolivia: Ok, isto é definitivamente estranho, como se o estilo arquitetónico pós-modernista dos anos 80 tivesse tomado doses massivas de cogumelos psicadélicos (indecisos sobre o que isto é? Pensem Torres das Amoreiras). A estética tradicional das culturas indígenas bolivianas está a ganhar uma nova expressão na arquitetura. Como todos os barroquismos, a saturação visual tem o seu quê de fascinante e cansativo, em simultâneo.


Our Inkblots, Ourselves: Há que admirar o caos implícito e ar de iminente catástrofe deste teste destinado a diagnosticar afasia. Uma curta história dos testes com imagens, uma ferramenta de diagnóstico psicológico. As manchas abstratas de Rorschach são o mais óbvio, mas há outros instrumentos igualmente na fronteira entre o surreal e o clínico.

One Film/One Shot: Indeciso entre isto ser estranho, bizarro ou maravilhoso. Um projeto em que as cenas icónicas de filmes bem conhecidos são editadas sempre com a mesma banda sonora.

Thieves of Experience: How Google and Facebook Corrupted Capitalism: Leitura longa, uma análise critica e profunda a um livro que analisa o modelo económico das grandes empresas de tecnologia e os seus impactos sociais e culturais. Não é novidade, sabemos que o que sustenta estas empresas não são os produtos que ostensivamente produzem, as aplicações e redes sociais que disponibilizam, mas sim os dados agregados recolhidos através do uso que fazemos dessas ferramentas, e a sua mineração em perfis de publicidade ou tendências de mercado. É esse o verdadeiro modelo económico das stacks, ou tech giants, e tem consequências: um desligamento da ligação entre produção e mão de obra, a transformação do comportamento humano num produto, e a capacidade inaudita de influenciar perceçoes e ações em grande escala. Excelente leitura de Carr, e resta ir ler o livro que recensiona para refletir mais sobre este tema.

The Government’s Secret UFO Program Funded Research on Wormholes and Extra Dimensions: Este curto artigo sobre um projeto secreto americano que investigava fringe science só dá vontade de enfiar um boné de folha de alumínio e sair pelas ruas a resmungar the truth is out there.  Há aqui um pouco de tudo, desde energia exótica à análise de objetos voadores não identificados, passando por buracos de verme e portais espaciais.

HOW SCI-FI HAS CHANGED YOUR LIFE, EVEN IF YOU DON’T REALIZE IT: As interrelações entre Ciência e Ficção Científica, exploradas em curtos vídeos da Vice que entrevistam académicos e autores de FC.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Hello World



Hannah Fry (2018). Hello World: How Algorithms will Define our Future and Why We Should Learn To Live With It. Nova Iorque: Doubleday.

Este é um belíssimo livro para nos ajudar a compreender os impactos da Inteligência Artificial. Não nos mergulha nos detalhes técnicos. Para isso, há obras bem mais completas e complexas, que nos mostram a confluência de matemática e computação que constrói os correntes desenvolvimentos em inteligência artificial. São livros que costumam detalhar a tecnologia, mas depois não exploram muito os exemplos da sua utilização. Este começa onde os outros terminam. Não se debruça nos pormenores tecnológicos, preferindo mostrar-nos uma grande variedade de exemplos de áreas específicas onde a IA já influencia e determina comportamentos humanos.

Soa assustador? Normalmente, quando falamos da interação entre algoritmos e humanos, o que nos vem à cabeça são os sistemas de recomendação dos agregadores de vídeo e música, ou comércio online, ou os algoritmos de seleção do que visualizamos nas redes sociais. Eventualmente, pensamos nos sistemas de condução de veículos autónomos. Não nos recordamos, ou sabemos, que sistemas de IA estão já no terreno, a apoiar as decisões de juízes ou assistentes sociais. Que em praticamente todas as áreas da economia e sociedade, da educação à arte, encontramos aplicações e implementações de IA.

Hannah Fry leva-nos num percurso que passa pela justiça, automóveis, saúde, redes sociais, crime e criatividade, dando-nos exemplos concretos de aplicação de algoritmos de IA nestes campos. Mais do que isso, não tem medo de apontar as questões éticas que estas ferramentas levantam, entre os já conhecidos enviesamentos (muitos, inconscientes) de algoritmos à interferência nefasta dos sistemas de automação nos operadores (induzem à distração e complacência). Problemas que têm muitas causas, entre fraca qualidade de dados-base para treino de IA, algoritmos mal concebidos, erros, ou foco na falta de transparência. O argumento de Fry não é anti IA e automação. Bem pelo contrário, instiga-nos a conhecer e abraçar estas tecnologias, mas também a ter uma atitude crítica proativa. A questão da transparência é essencial. Se estes algoritmos estão, já hoje, a determinar as nossas vidas, não podem continuar a estar ocultos debaixo do véu da propriedade intelectual. Esta opacidade legalmente induzida impede os criadores de serem responsabilizados quando há erros, e impede os afetados de saber exatamente que mecanismos sustentam as decisões algorítmicas. Em parte, isso combate-se com educação, com uma maior consciencialização do impacto desta tecnologia nas nossas vidas, e este livro foi concebido precisamente com essa finalidade.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

The Edge of Human: Blade Runner 2


K.W Jeter (2000). The Edge of Human: Blade Runner 2. Nova Iorque: Spectra.

Jeter faz um bom trabalho de continuação dos temas e linhas narrativas de Blade Runner. Do filme, não do livro em que este se baseia. A narrativa segue o estilo cinema noir do filme, com uma história convoluta de conspirações. Deckard, exilado numa cabana na floresta onde tenta prolongar a vida da andróide Rachael, pela qual se apaixonou, é forçado a regressar a Los Angeles para dar caça a mais um replicante. É obrigado a isso pela sobrinha de Eldon Tyrell, a jovem que serviu de modelo aos andróides Rachael, e que nutre um ódio profundo ao tio e a tudo o que representa. Um ódio tão profundo que a leva a colocar em marcha uma tortuosa conspiração que levará à destruição das Tyrell Industries.

Pelo caminho cruzamo-nos com outros personagens do filme, como o inspetor Bryant, Holden, o caçador de replicantes cujo falhanço fez Deckard entrar em jogo e cujo corpo foi reconstruído, sendo talvez ele próprio um andróide, e o humano que serviu de modelo a Roy Batty, tão psicopata como o andróide do filme. Pelo meio de uma narrativa de ação constante, Jeter vai questionando as fronteiras fluídas entre o real e o simulacro, entre o artificial e o natural. O final é algo surpreendente, com Deckard a deixar-se enganar e a fugir para fora do planeta com quem pensa ser a sua adorada andróide Rachael, mas é na verdade a mulher humana que lhe serviu de modelo, herdeira renegada das indústrias Tyrell. Não é uma leitura profunda, nem o pretende ser. Jeter expande o filme seguindo as mesmas lógicas narrativas, sublinhando um pouco mais a fina diferença entre ser andróide e humano no mundo de Blade Runner.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

H-alt: Altemente


Segurei a minha leitura de Altemente até ter oportunidade de comprar os três números. Queria lê-los em sequência, eliminando intervalos de tempo entre edições. A paciência foi recompensada. Deparei-me com a leitura de uma obra encantadora, escrita e desenhada com um refrescante olhar juvenil. Recensão na revista H-alt: Altemente.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

URL


Elon Musk’s vision of spaceflight is gorgeous: Isto parece ter saído da ilustração de FC dos anos 50, a nave proposta por Musk tem o seu quê de estilo retro. Quando lerem estas palavras é provável que já tenha efetuado o seu primeiro teste, devido ao desfasamento, intencional, de tempo entre escrever estas notas e publicá-las.

Vamos Falar (E Não Falar) Sobre Religião: Religião, ateísmo, e ligações com a ciência vistas com a habitual forma lúcida do SciMed.

Exporting the Technology of Occupation: Os benefícios da ocupação israelita dos territórios palestinianos não se ficam pela conquista de terreno, colonatos ou exploração de recursos e mão de obra. Deram um enorme impulso à tecnologia militar e de vigilância, com empresas israelitas a oferecer no mercado ferramentas similares às que usam para oprimir a Palestina. Ditaduras e estados a resvalar para ao autoritarismo agradecem. Pormenor irónico, em modo de ironia muito negra: o constante estado de revolta nos territórios palestinianos está a tornar-se um problema de marketing para estas empresas, dando a entender que os seus produtos são eficazes a vigiar e monitorizar, mas não conseguem debelar a revolta e manter as vítimas no seu lugar. Algo que a Rússia explora bem: anda a vender armas com o selo de testado na Síria. Sim, esta é daquelas leituras que abala profundamente a fé na humanidade.

Early Predictions of the Internet Date Back to 19th Century Sci-Fi: Ah, esta coisa de quererem muito que a Ficção Científica seja preditiva... há um certo longshot em chamar às antevisões do artigo predições da internet. Duas parecem-me uma extensão lógica do telégrafo e telefone (se se recebe mensagens, porque não de forma contínua, ou com imagens?), a terceira uma reflexão sobre o mecanicismo e os medos, que hoje nos parecem obsoletos, da sociedade industrial. Falar deles como antevisões da internet ou dos comportamentos em bolhas de informação mediadas por social media é esticar um bocado a coisa.

The Media’s Post-Advertising Future Is Also Its Past: O jornalismo assenta num modelo de negócio do século XX, que se esfumou na era da internet. E ficámos com um grave problema: mais que nunca, jornalismo isento e o seu papel social é fundamental nesta era de ruído amplificado pelas redes sociais. Mas não tem modelo de financiamento que o sustente. Não é uma pergunta de respostas fáceis, e creio que a corrente ideia de jornalismo como pilar isento da sociedade se irá, lamentavelmente, perder.

WHEN AMERICAN ARTISTS TRIED TO START A TELEVISION REVOLUTION: A revolução transmitida pela televisão (sorry, traduzir revolution will not be televised não tem impacto) parece-nos um breve blip dos primórdios da era digital. Mas deixou marcas, nem que seja pelo trabalho de Nam Jun Paik, cujo hábito de desvirtuar televisões com ímanes é um avôzinho dos artistas contemporâneos que se dedicam ao glitching.

Machine learning can offer new tools, fresh insights for the humanities: Ou o big data aplicado às artes. A análise estatística de grandes corpos de texto é uma forma nova de compreender as humanidades, vendo a história, literatura e outras artes por um prisma diferente, que encontra padrões no meio de enormes quantidades de dados aparentemente não relacionados. Não substitui outras formas de análise, permitindo um outro olhar.


ADVENTURES IN SCIENCE FICTION COVER ART: YVES TANGUY AND PENGUIN SF COVER ART: Este blog, que quando publica enche o olho e delicia a mente, desta vez olha para pinturas do surrealista Yves Tanguy que se tornaram capas de romances de Ficção Científica.

Never mind killer robots—here are six real AI dangers to watch out for in 2019: Verdadeiros desafios da Inteligência Artificial. Não os de especulação futurista, mas os reais, entre o excesso de confiança numa tecnologia ainda muito incipiente e o perigo invisível dos enviesamentos de decisão causados por falta de qualidade dos dados que sustentam os processos algorítmicos.


Uma breve história da ficção científica no cinema português: Há por aqui algumas raridades que nunca vi, nisso que em si já é uma raridade: cinema português de FC.

Inside Facebook's 'cult-like' workplace, where dissent is discouraged and employees pretend to be happy all the time: Mais do que um artigo sobre os males da rede social, mostra bem os problemas levantados pelos sistemas de avaliação de desempenho. Essa querida coqueluche dos administradores (uma praga, na educação), são muito bonitos no papel, formas de recompensar funcionários empenhados e competentes e estímulo aos mais fracos. Na verdade, cria culturas de competitividade agressiva, onde o objetivo é sobreviver, passando por cima de direitos laborais ou direitos sociais elementares.

The Many Lives of Liberalism: Se me perguntarem se ser liberal, hoje, é coisa boa lembro-me que a palavra serve para lavar a cara aos piores excessos da ganância e individualismo predatório. Mas tempos houve em que ser liberal era defender a liberdade, progresso e melhoria das condições sociais. Decaiu imenso...

Ya podemos ver el vídeo del histórico alunizaje en el lado oculto de la Luna y nuevas fotografías: A missão lunar chinesa deixa as suas marcas.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Gods and Robots


Adrienne Mayor (2018). Gods and Robots: Myths, Machines, and Ancient Dreams of Technology. Princeton: Princeton University Press.

Os vestígios do dispositivo computacional que chamamos de mecanismo de Antikythera são a ponta de um enorme iceberg de conhecimento desaparecido. O saber mecânico da antiguidade perdeu-se nos seus objetos físicos, ficando registado nos fragmentos de obras técnicas e históricas que nos chegaram da antiguidade. São histórias de mecanismos utilitários e maravilhas mecânicas, que nos fazem intuir uma continuidade ao longo dos tempos do desafio de construir máquinas, algumas a simular a vida.

Os mitos gregos também nos trazem uma enorme riqueza de referências que, vistas à luz da tecnologia actual, parecem falar-nos diretamente de andróides, inteligência artificial ou biotecnologia. Histórias de deuses e mortais, criadores de guerreiros metálicos (como nos épicos de Jasão ou o mito de Talos, o guerreiro de bronze que protegia Creta). Estátuas que ganham o sopro da vida, como no mito algo misógino de Pigmalião, ou mulheres construídas para semear a discórdia pelo mundo. Nunca me tinha apercebido que, no mito de Pandora, esta não era uma mulher de carne e osso, antes, foi construída pelos deuses com o propósito de soltar os males no mundo. Hephaestus, o forjador das armas e escudos dos deuses, teria criado tripés autónomos para o auxiliar, bem como belas damas de ouro. Estes, e outros mitos parecem mostrar que há uma continuidade entre o nosso contemporâneo fascínio pela tecnologia e sua possibilidades, e os substratos culturais que influenciaram a nossa cultura ocidental.

Adrienne Mayor leva-nos num périplo aprofundado pelos mitos, e vestígios históricos. O fio condutor é a tecnologia, nas suas vertentes de simulação de vida e criação de vida artificial. Mostra que as preocupações que hoje temos, de tecnologia fora do controlo, o que é, realmente, ser vivo quando os mecanismos simulam a vida, os riscos da tecnologia militarizada, estavam presentes na mitologia grega. Hoje, a ciência e tecnologia estão no limiar de nos colocar nas mãos meios de realizar os sonhos dos mitos. Mayor mostra-nos essa linha de continuidade, levando-nos a perceber o fio condutor cultural e de ideias que alimenta a busca incessante pelo elevar dos patamares do desenvolvimento tecnológico.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

2062: The World that AI Made


Toby Walsh (2018). 2062: The World that AI Made. La Trobe University Press.

Olha para o futuro, mas é essencialmente uma reflexão sobre os tempos presentes. Walsh analisa, à luz do que já acontece hoje, em que medida a IA se poderá tornar uma força transformativa na nossa sociedade, e quais os seus impactos éticos, legais e sociais. O panorama não é animador. Se as correntes tendências se mantiverem, o mundo de 2062 vai ser mais dominado por algoritmos ao serviço de interesses neoliberais, com correspondente perda de privacidade, direitos civis, liberdades (o caso chinês é emblemático) e retrocesso nas condições de vida. Mas ainda vamos a tempos de escolher o futuro que esta tecnologia nos poderá proporcionar. A chave está na regulação. Não da tecnologia em si, mas da forma como será utilizada, garantindo que não nos retire privacidade (o RGPD europeu é apontado como um bom exemplo), limite liberdades ou fique apenas ao serviço das agendas neoliberais ou totalitaristas mais gananciosas. O problema, aqui, é que boa parte das pessoas não tem hoje noção da interferência que estas ferramentas já têm nas suas vidas, quanto mais lutar para manter o humanismo num futuro dominado por algoritmos.

domingo, 27 de janeiro de 2019

URL


DeepDream Creator Unveils Very First Images After Three Years: Recordam-se do DeepDream, a primeira instância que nos mostrou o que a Inteligência Artificial podia criar aplicada à imagem? O Artnome recorda-se, e mostra-nos a primeira imagem criada por um algoritmo que, durante algum tempo, surpreendeu todos os que se interessam pela confluência entre arte e tecnologia. E, claro, são gatos. É aquela cena, the internet was made for cats. Algo que me irrita, como dog person que sou.

"E manda ainda o Senhor Deus pretos a este mundo": Uma entrevista muito incómoda, a um historiador que estudou o trabalho forçado nas colónias portuguesas entre os anos 40 e 60. O que emerge é um total desmontar da retórica oficial da colonização portuguesa como benévola e tranquila. Contam-se histórias de tremenda violência, de trabalho supostamente remunerado com elevadas taxas de mortalidade, de populações deslocadas à força entre territórios para mão de obra, de violência sobre os indivíduos. Na prática, trabalho escravo, promovido pelos autoridades coloniais. Em pelo século XX. Com a conivência do governo central, da metrópole, que ia disfarçando a exploração e o racismo com retóricas sobre igualdades legais ou benevolência para com os nativos. Um tipo de discurso que ainda hoje perdura como o oficial sobre o colonialismo português. Estudos como este são muito importantes para desmontar mitos e perceber-se a realidade de cupidez, exploração e violência das colónias.

La tortuga que nos enseñó a programar: la historia de Logo, el primer lenguaje de programación diseñado para niños: Uma curta história da linguagem Logo, precursora do Scratch e da corrente explosão de abordagens de programação para crianças. É de salientar que as primeiras implementações datam do final dos anos 60. Uma ideia muito à frente para a época, pensar que se podia estimular aprendizagem e competências metacognitivas nas crianças, usando programação.

The Orville blends science fiction and science fact into a winning mix: Esta série é uma das pérolas discretas da FC na televisão. Homenagem ao espírito clássico de Star Trek, mistura boa FC com humor e muita atenção à especulação científica.

The Internet, Through A Filter: Uma história da inevitabilidade dos filtros de conteúdos na internet, o tipo de ideia que agrada aos conservadores e aos que querem meios automáticos de proteger os inocentes do que é publicado na internet.

Belt, Buckled: Coisas que não se sabiam e ficamos um pouco melhor depois de as saber. Uma pequena história do cinto de segurança, esse objeto logicamente obrigatório nos automóveis cujo uso, durante décadas, foi recusado pelos fabricantes.

In 1983, Isaac Asimov predicted the world of 2019. Here's what he got right (and wrong).: As predições envelhecem mal, mas é de notar que Asimov acertou nalgumas coisas que geralmente se vieram a verificar, especialmente no que toca ao alastrar do digital na sociedade: "Society will need a "vast change in the nature of education must take place, and entire populations must be made "computer-literate" and must be taught to deal with a "high-tech" world." (...) This education transition will be difficult for many, especially as world population grows at unprecedented rates".

All the science fiction and fantasy books we’re looking forward to in 2019: São muitas, e boas sugestões. Não tenho tido tempo para ler muita FC nestes dias, empatado como estou em projetos e estudos, mas esta parece-me uma excelente lista para me atualizar no género. E, claro, estou mortinho para que saia o próximo volume de The Expanse!

The Thinking Machine: Recordar os contos policiais de Jacques Futrelle e o seu personagem Professor Van Dusen, um daqueles super-detetives da ficção que com dedução pura resolvem os mais intricados crimes.

‘Doctor Who’: The 12th Doctor’s Flawed but Ambitious Run [BC Rewind]: Uma belíssima análise às temporadas de Capaldi como Doctor Who, entre a rezinguice de quem já viveu muito, crises de meia idade e um refrescar, regressar às premissas originais da série. Moffatt nunca reuniu consensos como argumentista principal da série, mas foi indubitavelmente ambicioso na sua visão do Doctor.

Submarine Psychiatry: Serão os ambientes arquitetónicos que construímos potencialmente perigosos para a saúde mental? Um daqueles ensaios que só Geoff Manaugh se lembra, a misturar J.G. Ballard com os efeitos psicológicos da vida nos submarinos, extrapolados para a arquitetura modernista.


The West End At Christmas: If you're tired of London... daqueles posts do A London Inheritance que dá vontade de apanhar o próximo voo (pessoalmente, estou a poupar dinheiro enquanto espero para ver no que a confusão do Brexit vai dar).

As melhores leituras de 2018 – Banda desenhada: Os destaques da Cristina Alves nas leituras de banda desenhada de 2018. Li parte das escolhas, são excelente sugestões.

The Modern Dignity of an Uncontacted Tribe: Soa inacreditável, neste mundo globalizado e esquadrinhado ao milímetro, que ainda existam bolsas de tribos indígenas indiferentes à modernidade. Valerá a pena trazê-las para o seio da civilização contemporânea? Talvez não. Algumas têm de ser ativamente protegidas contra os interesses económicos rapaces que lhes cobiçam os territórios. Outros isolam-se e reagem violentamente contra quaisquer tentativas de contato. Outros ainda vão mantendo pontos de contato, mas não se deixam seduzir. Em comum, têm uma lenta extinção, de perda irremediável de culturas nunca documentadas.


A Close Look at the Most Distant Object NASA Ever Explored: Ver mais longe. Na passagem de ano uma sonda aproximou-se do objeto mais distante que já pudemos estudar no sistema solar. Ultima Thule promete enriquecer o nosso conhecimento sobre a formação do sistema solar. Por mim, é apenas muito awesome que estejamos a conseguir expandir as fronteiras da nossa exploração espacial.

Let’s Save Blogging: Ainda é relevante blogar na era das redes sociais? Talvez mais do que nunca. Por aqui não há a tirania dos likes nem algoritmos a determinar o que cada leitor lê. A blogoesfera pode não ter a vitalidade dos primeiros tempos, as interações mudaram-se para as redes sociais, mas em compensação amadureceu. Quem bloga, hoje. é porque tem mesmo algo para dizer, e não se quer cingir às mediações das stacks.

Censoring China’s Internet, for Stability and Profit: Interessantes insights, quando um dos responsáveis por uma empresa dedicada à censura da vasta internet chinesa observa que os algoritmos de IA não são fiáveis, porque as pessoas conseguem dar-lhes a volta, e por isso precisa de trabalhadores humanos capazes de detetar nuances de discurso. Trabalhadores bem tratados, porque os seus clientes - empresas que querem manter-se no mercado chinês, não querem censores distraídos ou cansados por trabalhar horas excessivas. Na china, há consequências muito reais para quem deixar passar conteúdos nas redes que o governo determinou como proibidos. Outra nota, a apatia generalizada dos chineses para com a política. Impressionante, perceber que os candidatos a censores não sabem, por exemplo, o que foi o protesto da praça de Tiananmen. A curiosa mistura de comunismo com capitalismo e vigilância high-tech deu ao governo chinês o sonho húmido dos ditadores: uma população que se auto-vigia aos níveis mais íntimos.

Why robots are getting cuter: Simples. A antropomorfização associada ao design kawaii foge ao uncanny valley: "“One of the pitfalls of designing life-like things is falling into the ‘uncanny valley’,” says Kate Darling, a researcher at the MIT Media Lab who specialises in human-robot interaction. “I have this robot cat at home which looks like a cat, but it doesn’t move quite like a cat or meow quite like a cat, and it just comes across as creepy.” She says that “intelligent robot design moves away from that and towards things which we perceive as alive but which don’t try to mimic something that we already know too strongly.”

Technology, Ranked: Cem das tecnologias mais influentes da história da humanidade, numa seleção que reflete a visão de Matt paleofuture Novak. Com algumas bem intrigantes, como escolher armas pelos danos que fizeram à humanidade.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Excalibur Visionaries: Warren Ellis



Warren Ellis, et al (2010). Excalibur Visionaries: Warren Ellis, Vol. 1. Nova Iorque: Marvel Comics.

É um pouco estranho  ver a voz pouco convencional de Warren Ellis em argumentos de comics mainstream. O seu estilo frio e capacidade de criar personagens com obsessões muito vincadas é algo dissonante no panorama estilístico dos comics. Neste volume, que colige parte da sua temporada como argumentista de Excalibur, leva-nos em aventuras muito ao seu estilo. Explora obsessões, mergulha em mundos de magia e conspirações, e de certa forma humaniza estes personagens. Nem pelo divertido que é ter uma running joke ao longo das histórias sobre o mau café que se bebe na ilha de Muir.


Warren Ellis, et al (2010). Excalibur Visionaries: Warren Ellis, Vol. 2. Nova Iorque: Marvel Comics.

Nesta edição, Ellis segue uma linha mais normalizada, dando aos personagens de Excalibur um tratamento mais próximo da fórmula de sucesso de Chris Claremont com os X-Men: equilibrar a aventura de super-heróis com um forte foco nas relações interpessoais entre os personagens. Encontros, desencontros, amores e desamores fazem o tecido que os une entre as aventuras. O momento mais divertido do livro está nas histórias que envolvem os Starjammers. Aí, Warren Ellis dá-se ao luxo de entrar em modo de space opera sem limites, numa violenta linha narrativa em que os corsários do espaço se encontram no meio de uma guerra galática entre os Shi'ar, que já combatem como força anti-fascista, e o poder aparentemente imparável de uma raça guerreira que se dedica a invadir mundos para exterminar a religião. Intriga, guerra espacial e muita aventura numa divertida história, com o toque especial de Warren Ellis.


Warren Ellis, et al (2010). Excalibur Visionaries: Warren Ellis, Vol. 3. Nova Iorque: Marvel Comics.

A encerrar a temporada de Ellis com Excalibur, em modo de aventura acelerada. O super-grupo tem de enfrentar as ameaças de um renovado Hellfire Club, sediado em Londres, e ficar de lado enquanto o Professor X enlouquece e quase destrói os heróis. Encerra com uma mini-série onde Kitty Pride e o seu namorado britânico Pete Wisdom caçam um serial killer mutante nas ruas de Londres, numa daquelas histórias onde Ellis passa todos os limites da bizarria.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Tutti gli incubi di Dylan Dog


Tiziano Sclavi, Angelo Stano, Giampiero Casertano. Tutti gli incubi di Dylan Dog. Milão: Arnoldo Mondadori.

L'Alba dei Morti Viventi: E foi aqui que tudo começou. A primeirissima  história de Dylan Dog, onde Tiziano Sclavi nos dá desde logo os traços gerais que se tornaram quase imutáveis. A campainha que grita no número sete de Craven Road, a casa cheia de memorabilia do fantástico, o toque do clarinete, o humor idiota de Groucho, o modelo de galeão que Dylan vai construindo (até hoje, não o terminou), a sua relação romântica com as mulheres com que se cruza, o caráter de aventureiro algo impotente, que apenas vê no sobrenatural como a hipótese que sobra depois de descartar as restantes. A única diferença que li neste Dylan inicial é um certo humor ácido, e não o ar nostálgico que depois viria a adquirir. A história em sim é brilhante, um início à altura da personagem. Sclavi faz aquilo a que nos habituou, criar histórias originais cheias de referências à literatura e cinematografia de terror. Para além das óbvias - morti viventi é uma história de zombies, temos demónios (se bem que Xabaras se irá converter mais tarde em pai de Dylan), toques de Frankenstein (completos com geradores vandegraaf) e uma genial referência visual a The Exorcist (basta uma vinheta, com uma criança zombie). Esta é uma história marcante, que deu a faísca a um dos personagens mais duradouros e influentes da Casa Bonelli.

Memorie Dall'Invisible: Para mim, esta sempre foi uma das mais enigmáticas histórias que Sclavi escreveu para Dylan Dog. É giallo puro, há um assassino em série à solta pelas ruas de Londres e Sclavi compraz-se em trocar-nos constantemente as voltas na busca de quem é o culpado, dando-nos sucessivos possíveis criminosos (um dos quais, apesar de inocente, confessar-se-á e será enforcado pelos crimes) até nos fazer a vontade e revelar o verdadeiro criminoso, se bem que deixa logo nas primeira vinhetas uma pista para a sua identidade. O enredo é tortuoso, como convém a um bom policial, com múltiplas linhas narrativas que envolvem Dylan, o inspector Bloch, um jornalista acérrimo no ataque ao trabalho da Scotland Yard (major spoiler: é este o assassino) e uma prostituta que organiza as colegas para contratar Dylan, numa tentativa para se defenderem de um criminoso que as tem como alvo. E uma outra linha narrativa, muito enigmática, sobre um homem em quem ninguém repara, aparentemente invisível, testemunha de um dos assassinatos e ele também caçador, por vingança, de um assassino que acabará por se revelar ser o seu irmão gémeo. Bizarro e enigmático, mesmo para os padrões da série. Sendo Sclavi um amante das referências, há uma verdadeira pérola do fumetti em que a história referencia Nighthawks, quadro de Edward Hopper sobre a solidão onde vemos da rua, iluminados pela luz da cafetaria, anónimos noctívagos ao balcão.

Jekyll: Novamente, uma aventura em registo de Giallo. Dylan cruza-se com um pacato professor universitário de psicologia que partilha o apelido com o lendário Doctor Jekyll do romance clássico de Stevenson. Uma alusão que parece mortífera, quando se começa a ver envolvido na morte misteriosa de mulheres com quem se relacionou, incluindo a ex-esposa e o filho. As mortes são violentas, aparentemente cometidas pelo alter-ego do pacado professor, e deixam sempre uma pista, uma pena de corvo. Tudo aponta para Hyde, que irá varias vezes a tribunal acusado das mortes, e acabará condenado depois de ser, aparentemente, desmascarado por Dylan Dog. Mas o mundo do giallo não é simples, e o verdadeiro culpado está na figura de uma personagem discreta, uma ex-aluna deste professor que ficou traumatizada por um ataque aleatório de um corvo numa das suas aulas, e assume vários papéis numa bizarra vingança, incorporando-se como o violento Senhor Hyde que reside dentro dos mais pacatos Jekills.

Golconda: Surrealismo puro cruza-se com toques de splatterpunk numa história com fortes contornos sobrenaturais. Londres é assolada por uma praga de figuras estranhas - homens de Magritte mortíferos, olhos gigantes que se deslocam de bicicleta, fadas que raptam Mortimer (um brilhante cameo, a replicar o estilo gráfico de E.P. Jacobs). Ao mesmo tempo, estranhos eventos desenrolam-se num bar underground apelidado de inferno, aparentemente invadido por demónios que assassinam noventa e nove vítimas num incêndio. Pelo meio, Dylan apaixona-se pela jovem dona do bar, uma mulher obcecada por Golconda, uma cidade indiana mas que também é o nome esquecido do local onde tinha o bar, uma antiga igreja que foi palco de rituais satânicos mortais. Para complicar o argumento, a intervenção demoníaca foi despoletada por um erro telefónico, com a dona do bar a ligar para os demónios por engano. Mas estes nada têm a ver com a explosão de surrealismo em Londres. Essa foi causada por um casal de jovens enamorados que, acidentalmente, tropeçaram num lugar mágico e abriram uma fenda no consenso do real. Sclavi oferece-nos uma aventura profundamente irreal, onde a não-linearidade narrativa e a procura do non-sense surreal se ligam a uma visão progressista do sobrenatural. O grande demónio, apesar do seu aspeto repelente, aparece mais como um gestor responsável do que uma criatura arrepiante.

Inferno: A encerrar a antologia, mais um toque de puro surrealismo. Na visão de Sclavi, não há um inferno único, antes muitos espaços infernais, alguns correspondem às imagens míticas, outras a verdadeiros paraísos. Não escolhemos o nosso inferno, é-nos tão aleatório como nascer onde nascemos. E há um muito especial, sob a cidade de Londres, um inferno burocrático onde um erro clerical mergulha Dylan Dog, a sua mais recente paixão e o espírito do marido desta numa aparente história de crime. É notável a visão surreal de um inferno cujos demónios são respeitáveis engravatados com cabeça de martelo, carimbo, ecrã de computador ou outros instrumentos de tortura burocrática.

domingo, 20 de janeiro de 2019

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Mars Express orbiter snaps stunning image of Korolev crater: É destas imagens que os sonhos de exploração espacial são feitos.

A missão Insight e a sua relação com os “dust devils” marcianos: Jorge Pla-Garcia é um dos cientistas responsáveis pelo controlo dos rovers marcianos. Neste artigo, conta-nos algumas das suas experiências na exploração remota da superfície marciana.

The Juul Fad Is Far Bigger Than I Ever Would Have Guessed: A quê, perguntam? E perguntam bem, a Juul é uma empresa que se dedica aos cigarros eletrónicos. Cujos lucros, nos estados unidos, dispararam para a estratoesfera graças aos adolescentes. O resultado: décadas de bem sucedidas campanhas anti-tabágicas colapsaram, e os adolescentes voltaram a consumir tabaco em grandes quantidades. O cigarro perde terreno, mas o uso da substância aditiva nicotina, presente nos produtos dos cigarros eletrónicos, disparou. E por cá? Uma coisa que me surpreendeu quando estive na Maker Faire Rome foi a promoção agressiva deste tipo de produtos junto dos adolescentes. Ou seja, como país periférico que somos, ainda não sentimos este impacto, mas iremos sentir...

Aboard the giant sand-sucking ships that China uses to reshape the world: E porque é que a China, que não é exatamente um pais pequenino, precisa de aumentar a sua área territorial reclamando terra ao mar? Há as razões óbvias, de infraestrutura costeira e proteção contra intempéries e subida do nível médio das águas do mar. E há as razões geopolíticas, construindo ilhas artificiais nos recifes Spratly e Paracel, áreas disputadas por todos os países que ladeiam o sul do mar da china, que contém ricos depósitos de petróleo e outras matérias primas.

We finally started taking screen time seriously in 2018: O comentariado encontrou uma nova demonização hipsterizante: o tempo que passamos a usar dispositivos móveis. E, como sempre, a reação é de negação, explorada em miríades de artigos a postular os benefícios de desintoxicação de dispositivos digitais, publicados e partilhados em plataformas digitais lidas em dispositivos (não é irónico, é a voracidade da economia da atenção que sustenta a publicação digital). Gostei especialmente deste, por a autora confessar que o uso de iPhones lhe deu cabo da capacidade de atenção e concentração... num artigo longo e coerente, o tipo de texto que requer atenção e concentração para ser escrito. Notem que de facto os criadores de plataformas digitais e apps sabem explorar os seus efeitos aditivos sobre o nosso cérebro, mas o hipsterismo do digital detox não é a solução para isto.

Don’t worry about screen time – focus on how you use technology: Sim, é isto. Um discurso moderado, assente não nas impressões e histerias do momento, mas em investigação. Não é a quantidade de tempo, é o que fazemos com as ferramentas digitais, e os usos que encontramos para melhorar as nossas vidas. Não negando que os excessos, especialmente os induzidos pelo design intencionalmente aditivo das aplicações, são prejudiciais, mas olhando para o que nos leva, realmente, a usar tecnologias digitais. Não é o consumo que nos motiva: "With increasing attention to the effects of technologies, we should not only be concerned with their potential harms. As I’ve observed, experimenting with how – not just how much – we use technology might uncover unexpected ways to make life better".

Democratic Capitalism’s Future: É um bocadinho tenebroso, nesta infeção neo-liberal de late stage capitalism que descapitaliza o bem público para favorecer uma elite, aprofunda o fosso das desigualdades e empobrece ativamente a maioria enquanto dá à minoria riquezas nunca atingidas na história global. Estamos no ponto em que a ganância e arrogância dos um percentistas destrói ativamente as bases sociais que lhes permitiram enriquecer. A ironia histórica é que nem sempre foi assim, houve momentos na história em que o capitalismo, mal grado as suas bases ideológicas, soube reconhecer a necessidade de contribuir ativamente para o bem público, não através de filantropia espúria ou iniciativas pontuais, mas de forma sistémica. Nessa altura, todos beneficiámos. O desmantelamento neo-liberal desse compromisso está a ser uma ameaça civilizacional.

How ‘Makers’ Make the Classroom More Inclusive: Sim, é isto. Ir além da estanquicidade dos currículos, despertar a criatividade através do mexer. Parece revolucionário, mas é elementar.

The League Of Extraordinary Gentlemen: The Tempest #3 – It’s All About Control: Intrigante ponto de vista. Quando li este volume da Liga dos Cavalheiros Extraordinários, pensei que a forma como Moore saltita entre diferentes registos e grafismos de banda desenhada tinha apenas a ver com o lado metaficcional da narrativa, replicando estilos clássicos da BD comercial. Por outro lado, a ideia de controlar ao pormenor todos os elementos do livro é algo que carateriza muito todo o trabalho de Moore.

How Much of the Internet Is Fake? Turns Out, a Lot of It, Actually.: De certa forma, é o corolário lógico do uso intensivo de algoritmos para classificar e mediar dietas de consumo de media. Reduzindo ao absurdo, não é necessário que o conteúdo seja realmente visto, lido ou ouvido por humanos, o que conta é a métrica, e isso pode ser otimizado sem qualquer interferência humana. Bots que produzem conteúdos acedidos por bots para alimentar algortimos de análise estatística de interações online. Algo que extravasa para o mundo real.



E já que falamos em fake digital, este tweet de Evgeni Morozov define na perfeição esta questão.

The biggest technology failures of 2018: Por falhanços, a equipe da MIT Technology Review quer  dizer tecnologias que são mesmo muito má ideia, entre a primeira e nada ética experiência de edição de genes com CRISPR em bebés chineses, o marketing de cigarros eletrónicos que fez disparar o consumo de nicotina entre adolescentes, ou a manipulação dos algoritmos de redes sociais para acicatar ódio e violência, sem que as redes sociais façam nada para evitar isso.

the automation paradox in developing nations: Colocando a coisa de forma simples. As economias em desenvolvimento tinham até agora um caminho que ia da passagem da agricultura às indústrias leves, criando condições para indústrias pesadas e, finalmente, serviços. Mas com o desenvolvimento da robótica, um dos motores desse desenvolvimento - a deslocalização de indústrias leves dos países desenvolvidos para países em vias de desenvolvimento para diminuir custos de produção, desaparece.
 

HOW THE HUMBLE ROBOTIC ARM TOOK OVER THE WORLD: Um curto vídeo que nos mostra as origens da automação industrial com o clássico Unimate, e nos fala dos impactos laborais das tecnologias de automação. Por um lado, eliminam postos de trabalho, por outro, permite a criação de novas áreas da economia.

Edward Gorey and the Power of the Ineffable: A Atlantic traça um perfil daquele que é o mais gótico e irónico escritor e ilustrador de literatura infantil de sempre. Bem, infantil é um eufemismo. Há muitos adultos a quem o trabalho de Gorey passa completamente ao lado...

HMV: The rise and fall of a music icon: Tenho recordações de infância de passar ao lado de uma loja e ver o inigualável ícone da His Master's Voice. Aquele cão a ouvir a grafonola sempre me encantou. Distraído como sou, sempre pensei que a HMV era uma marca de gira-discos e não uma cadeia de lojas de música...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Batman: The Dark Knight: The Master Race


Frank Miller, Brian Azzarello, Andy Kubert (2018). Batman: The Dark Knight: The Master Race. Nova Iorque: DC Comics.

Tendo em conta o caráter progressivamente ranzinza dos argumentos de Frank Miller, temi que este Master Race fosse levado muito à letra, nalguma aventura em que Batman combateria terroristas islâmicos ou liberais. Não segue esse caminho, felizmente, e esta é uma boa história da personagem, continuando o mundo ficcional de Dark Knight Returns. Continua a ser um futuro próximo onde os heróis estão proscritos. Os grandes isolaram-se e exilaram-se, mas começa a haver complicações quando a filha de Super-Homem e Mulher Maravilha procura as suas raízes alienígenas, explorando a fortaleza da solidão em que o pai se isolou, nos gelos árticos. Recebe um pedido de ajuda da cidade kriptoniana de Kandor, miniaturizada e mantida dentro de uma garrafa, e acredita estar a ajudar alistando os serviços de Ray Palmer para reverter a miniaturização. Algo que liberta os antigos kriptonianos, mas na verdade estes são uma seita religiosa que proclama a sua supremacia, assassina os conterrâneos que não os seguem, e exigem a submissão do planeta.

Entretanto, na cidade de Gotham, a sucessora de Batman é uma proscrita, ao combater a violência policial sobre as minorias. Mas quando a ameaça se torna premente, apenas o génio e inflexibilidade de Bruce Wayne dão uma hipótese contra os novos invasores. Algo que irá remexer nos brilhos do passado, e recuperar heróis no exílio. O que se segue são um conjunto de batalhas que envolvem os velhos heróis e as amazonas, que culminará na previsível derrota dos vilões, e no surgir de novos heróis - a sucessora digna de Batman, e a filha do Super-Homem, cuja aproximação ao racismo da sua herança kriptoniana colide com a honra clássica do seu lado de amazona e, ganhando humildade com a experiência, resta-lhe aprender a ser humana.

Uma história divertida, mas não excelente. Soa a tentativa de estabelecer uma nova continuidade DC dentro dos parâmetros do universo Dark Knight Returns. Nada de inesperado, as editoras são mesmo assim, testam mercados. O argumento a duas mão de Miller e Azzarello toca nalguns pontos interessantes, especialmente na forma como retratam o mundo da informação mediada por ecrãs televisivos, em si um dos aspetos mais interessantes da obra original. A visão dos heróis clássicos, mais envelhecidos, com algumas rugas, azedume e experiência é talvez um dos elementos intrigantes nesta série. No entanto, está demasiado dentro dos padrões dos comics de linha para se tornar verdadeiramente interessante. A linha narrativa é previsível, percebe-se logo nas primeiras páginas qual a direção que segue. Fiquemo-nos com o que é um divertido regresso a este universo, e pouco mais.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Wolverine: The Death of Wolverine


Marc Guggenheim, Howard Chaykin (2008). Wolverine: The Death of Wolverine. Nova Iorque: Marvel Comics.

Não a morte de Wolverine, mas uma de muitas tentativas de morte. Desta vez, um grupo terrorista em ascendência escolhe o herói como alvo, e conta com um forte trunfo. Aparentemente, parte do segredo dos poderes do mutante tem um toque sobrenatural. Durante as aventuras de Logan nas trincheiras da I Guerra, terá enfrentado e vencido uma entidade mística que corresponde ao anjo da morte. Os terroristas aliam-se a esta entidade, tentando vencer o invencível Wolverine.

À parte do traço de Howard Chaykin, a série não é especialmente interessante. Mais uma variação sobre a história de origem do personagem, com as habituais sequências de luta violenta e a clássica introspecção de Wolverine sobre os seus instintos enquanto estraçalha os oponentes.

domingo, 13 de janeiro de 2019

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O Humano no Algoritmo: Podem as imagens geradas por Inteligência Artificial ser consideradas arte? As criações visuais de algoritmos GAN desafiam a nossa perceção visual com uma estética inesperada. A visão artificial é-nos profundamente surreal, quase alienígena. No entanto, o método pelo qual estes algoritmos produzem não é em si criativo, dependendo de quantidades massivas de informação visual. O projeto AmalGAN leva mais longe este questionar, introduzindo a intuição humana como parâmetro decisivo na geração artificial de imagens.

The Search for Alien Life Begins in Earth’s Oldest Desert: Estudar as formas de vida que existem nos ambientes mais extremos do nosso planeta dá-nos pistas importantes, quer para perceber como procurar indícios de vida noutros planetas, quer para compreender melhor como surgiu a vida no nosso planeta.

The New Silk Roads: the Present and Future of the World review: Estamos sem dúvida no século chinês, alicerçado em investimento em zonas do planeta às quais tradicionalmente não damos importância.

What Cafés Did for Liberalism: A cultura dos cafés como cadinho para discussão de ideias, tertúlias e partilha livre de opiniões. Deliciosa a história onde um alto responsável do império austro-húngaro despreza os indícios da revolução russa, apontado para um cliente de um café vienense enquanto dizia que se calhar, aquele seria um dos lideres da revolução. O cliente apontado era Trosky.

Rascunhos na Voz Online – Mike Carey: Aproveitando a presença do escritor por cá no âmbito do Mensageiros das Estrelas, a Cristina Alves entrevista Mike Carey para o seu sempre interessante podcast.

Early TV-Age Media Theorists Understood A Lot About Our Current Age: McLuhan, Innis, Postman e outros como arautos proto-digitais da nossa contemporaneidade. Não é um argumento novo, não é por acaso que McLuhan é considerado o santo padroeiro da internet. Como observa o articulista, nos primeiros momentos de uma tecnologia que viria a ganhar expressão final no digital, "a sort of prophetic canon that collectively catalogs our species’ first reaction to these newfangled contraptions, with their blinking lights and blaring speakers". E no que toca aos discursos catastrofistas sobre os efeitos culturais dos media digitais, acerta em cheio quando diz isto: "Think how such a conversation would once have been limited to rarefied elites, and probably not accessible within a 1,000-mile radius of your hometown". Nem mais. Em parte, o catastrofismo deve-se mesmo a este caráter democratizador da internet, e à perda de poder das elites culturais tradicionais. Apesar do lixo online que também prolifera. Trolls e extremistas, simples patetas ou sociopatas estão no mesmo pé que as vozes mais sensatas. O como gerir isso, mantendo a liberdade de expressão, é um dos problemas que enfrentamos no mundo digital.


Google turned cloud storage traffic into mesmerizing works of art: Visualização de dados enquanto experiência estética, nestes gráficos de análise de tráfego digital.

No, You Don’t Really Look Like That: Mal nos apercebemos, mas a imagem digital é cada vez mais sintética. O que as lentes captam não é o real cru, é uma interpretação mediada por software:  "The cameras know too much. All cameras capture information about the world—in the past, it was recorded by chemicals interacting with photons, and by definition, a photograph was one exposure, short or long, of a sensor to light. Now, under the hood, phone cameras pull information from multiple image inputs into one picture output, along with drawing on neural networks trained to understand the scenes they’re being pointed at. Using this other information as well as an individual exposure, the computer synthesizes the final image, ever more automatically and invisibly".

Inside Shenzhen’s race to outdo Silicon Valley: Indícos do século chinês: a aceleração criativa e produtiva de Shenzen, o investimento fortíssimo naquelas áreas do planeta que o mundo ocidental ignorou. E o cadinho de ideias possibilitado pela aproximação laxista aos direitos de autor.

My Stepdad's Huge Dataset: Pornografia e vanguarda da internet sempre combinaram. A sério, achavam que o que despoletou o vídeo online foram os clipes de gatinhos no YouTube? A relação continua: o que hoje determina a produção de filmes pornográficos não é a penetração de nichos de mercado (lamento, não consegui resistir à piada), ou a criatividade dos produtores. O que determina scripts, falas e atos sexuais é a análise algorítmica dos dados das pesquisas online dos consumidores de pornografia.

O fim (anunciado) da Goody: Em jeito de elegia, Pedro Cleto analisa  o papel da Goody na edição de BD popular em Portugal. Desconhecia que trabalhavam de perto com a comunidade para selecionar edições. O fim da Goody deixou mossa, perdemos a única editora que publicava comics em banca.

The most common forms of censorship the public doesn’t know about: Combater a censura online alterando os protocolos que sustentam a internet, tornando-os mais opacos e reforçando a privacidade ao nível da infraestrutura de base.


How Pixar Helped Win 27 of the Last 30 Oscars for Visual Effects | WIRED: O perfil do Render Man, um software de animação 3D que tem sido fundamental para a explosão de qualidade e realismo na animação, cinema e efeitos especiais.

7 Arguments Against the Autonomous-Vehicle Utopia: Essencialmente, ainda há muito que desenvolver a tecnologia até termos veículos totalmente autónomos. O que não quer dizer que a adoção de sistemas com elevado grau de autonomia não esteja a acontecer, progressivamente.

Disruption, Drones, and Big Airports: Impossível não ver isto como uma espécie de teste de conceito. Resta saber se de terrorismo, ciberguerra ou cibercrime. Mandar abaixo um avião é uma tragédia, mas tem um impacto real muito reduzido. Parar um aeroporto durante 36 horas tem um impacto social e económico tremendo direto, e com repercussões a nível global, num efeito dominó. Os voos cancelados não afetam apenas os passageiros que ficam em terra, mas todos os voos previstos das companhias que voam para o aeroporto afetado, com repercussões noutros aeroportos. É um pequeno ataque local, cujas ondas de choque são potencialmente globais.. Agora observem o mapa dos aeroportos que servem Londres, e imaginem uma ação concertada em que drones apareçam nas proximidades de Heathrow, Gatwick, Luton, Stansted, Southend e City em simultâneo. Já vi cenários de ciberguerra menos plausíveis... O John Robb aponta, e muito bem, que é um tipo de ataque com um enorme ROI: baixo custo, automatizável (meta-se o drone a seguir uma rota pré-programada por GPS) e de alto impacto económico, com baixo risco de custo de vidas humanas. Perfeito como ciber-operação de terrorismo ou militar de baixa intensidade.

THE 'FUTURE BOOK' IS HERE, BUT IT'S NOT WHAT WE EXPECTED: E ainda bem, nunca percebi muito bem a piada do conceito de livro como objeto multimédia. A grande evolução fez-se de forma discreta nos dispositivos de leitura - um e-reader permite ter bibliotecas inteiras no bolso, na facilidade da auto-edição digital e física, nos novos modos de ler, escrever e discutir leituras da blogoesfera.

This Was the Year the Robot Takeover of Service Jobs Began: E sem grandes fanfarras. Notem o alastrar discreto da automação em áreas tão díspares como o homebanking à fast food. Muitas vezes, estes sistemas automatizam processos e passam a fazer cair sobre os clientes o ónus do serviço.

The Cost of Living in Mark Zuckerberg’s Internet Empire: Confesso que a paciência para este tipo de argumentos, de virgem ofendida na sua inocência com os reais modos de agir da rede social, começa a ser diminuta. É preciso ser-se muito néscio, ou totalmente tapadinho, para aceder a estes serviços pensando que existem por puro altruísmo dos seus criadores. Podemos escolher ficar embasbacados, ou tentar manipular o sistema para os nossos objetivos. Não quero com isto dizer que estes serviços, e a coleta indiscriminada que fazem de dados com usos questionáveis, não deva ser regulada, mas também é preciso conhecer e saber jogar com as regras do jogo.

The GPS wars have begun: Primeiro, era só um. Agora, multiplicam-se as constelações de sistemas de posicionamento por satélite. Há muitas razões para esta proliferação, entre a segurança de não depender de um sistema controlado por um único país, aos potenciais económicos destas tecnologias.

Friends Without Brains: Um artigo que olha para a nossa tendência para formar laços emocionais com máquinas. E consegue colocar de forma excelente a questão de se o computador é, realmente, uma máquina capaz de pensar: "Can computers actually think? Well, they are designed to perform functions that humans perform through thinking. They expertly process information, present it at appropriate points in a conversation, and use it to draw reasonable conclusions. But thinking in this sense can just be a kind of high-level functioning. (...) they gener2ate output without being literally aware of doing the calculations or of what the calculations mean.