sexta-feira, 23 de junho de 2017

Recordar os Esquecidos


Não estive presente em tantos quanto gostaria, mas a este recuso faltar. O imparável João Morales termina aqui o seu ciclo de tertúlias Recordar os Esquecidos, onde mensalmente convidava escritores para recordarem autores injustamente esquecidos, ou a cair no esquecimento. Do press release da Livraria Almedina:
Recordar os Esquecidos na Livraria Almedina Atrium Saldanha

(Última sessão)

A sessão deste mês do Recordar os Esquecidos reveste-se de um carácter especial. Calha no dia 24, como habitualmente, um Sábado, às 18h, e

encerra dois anos e meio de actividade ininterrupta desta iniciativa mensal. Para a conversa deste mês, trazemos quatro convidados muito especiais: os editores Guilhermina Gomes (Temas & Debates; Círculo de Leitores), João Rodrigues (Sextante), Maria Afonso (Antígona) e Hugo Xavier (E-Primatur), que vão partilhar connosco as suas sugestões de livros.

Numa época em que tantos milhares de livros são publicados a cada ano, a memória pode ser curta e traiçoeira. Recordar os Esquecidos foi um encontro mensal na Livraria Almedina Atrium Saldanha, em Lisboa, para falar sobre livros e autores que caíram no esquecimento ou até mesmo passaram (injustamente) despercebidos.

O nosso mais sincero agradecimento a todos os convidados, ao público, à equipa da Livraria Almedina Atrium Saldanha e, naturalmente, ao
jornalista João Morales, que conduziu as 29 sessões. Todos foram fundamentais para a concretização desta iniciativa.

Recordar os Esquecidos decorreu na tarde do último Sábado de cada mês, e começou em Janeiro de 2015, ano em que a Almedina celebrou 60 anos de existência.

E agora é esperar pela próxima iniciativa do Morales, uma daquelas pessoas que tem, felizmente para todos nós, uma tremenda incapacidade de estar quieto.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Dylan Dog: Destinato alla terra; Brucia, strega... Brucia!; Anarchia nel Regno Unito.


Giuseppe De Nardo, Luca Dell Uomo (2014). Dylan Dog #339: Destinato alla terra. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

 Dylan vive um amor inquieto com uma inspectora da Scotland Yard em processo de divórcio, enquanto se descobre envolvido na trama de um milionário que utiliza uma forma sangrenta de magia para adivinhar os movimentos do mercado. Julgando que Dylan nasceu no mesmo dia do seu, o milionário aprisiona-o para o eviscerar e adivinhar o futuro nas suas entranhas. História com alguns momentos interessantes, mas claramente de segundo nível.


Giuseppe De Nardo, Gabriele Ornigotti (2014). Dylan Dog #336: Brucia, strega... Brucia!. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Dylan é convocado à pequena cidade de Greenhaven, que parece estar suspensa no tempo e onde a modernidade tarda em chegar, para auxiliar o padre local na investigação de algumas mortes misteriosas. Suspeita-se de bruxaria, algo que na cidade tem tradição. Na sua praça principal há uma estátua dedicada a uma bruxa local que foi queimada viva nos tempos das caças às bruxas. De facto, paira uma maldição sobre a cidade, e o espírito da velha bruxa vai influenciado algumas mulheres que buscam os poderes do oculto.


Gigi Simeone, Roberto Rechionni, Giampiero Casertano (2014). Dylan Dog #339: Anarchia nel Regno Unito. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

A vida para Dylan Dog não ficou facilitada com a reforma do velho inspector Bloch. Os seus sucessores na Scotland Yard são-lhe abertamente hostis, e decidem fazer as suas apresentações a Dylan com um mandado de prisão, acusando-o de charlatanice. No entanto, enquanto Dylan é algemado, Londres irrompe em tumultos, com o espírito de um antigo combatente pelos direitos laborais, injustamente assassinado pela justiça, a possuir centenas de pessoas que, pegando em armas, sitiam e atacam os agentes na Scotland Yard.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

TLS Series Cidades



Joana Afonso, et al (2017). TLS Series Cidades. Lisboa: ComicHeart/G. Floy Studio/The Lisbon Studio.

Esta edição do The Lisbon Studio reúne alguns dos melhores artistas de banda desenhada portuguesa contemporânea. Não é por acaso. Funcionam como um coletivo de estúdio, num grupo fluído que se varia nos nomes que o compõem, mas que ao longo dos anos tem estabelecido uma continuidade e aposta de qualidade que tem levado à internacionalização dos artistas de banda desenhada portugueses. Não à da BD em si, isso seria outra luta difícil de travar, mas à da capacidade criativa dos nossos ilustradores. Se o tema da antologia é a cidade como fonte de inspiração, com a sua iconografia própria e palco único para desenrolar histórias, fica também a sensação que este livro é um mostruário das capacidades dos artistas do Lisbon Studio. Consignam em livro uma experiência que já tinham iniciado com os TSL Webmag. Bem, técnicas de maketing que engrossam a BD de qualidade disponível aos leitores... não vejo problemas nisso.

O destaque nas histórias vai para nomes esperados. Joana Afonso dá-nos a mestria gráfica e narrativa a que já nos habituou em Quiosque, Filipe Andrade transmite a opressão dos espaços urbanos exíguos de Hong Kong com um grafismo de cortar a respiração em Muralha, e Ricardo Cabral corta com o realismo implícito na antologia com um voo fantástico que faz recordar Druillet (embora sem o seu estilismo) em Os Muros de Terrea. É também interessante o sincretismo arquitectónico, iniciando com realismo e finalizando num misto onírico de perspetivas que representa a visão que temos da cidade de Lisboa, em O Rasto do Fantasma, com desenhos de Marta Teives e argumento de Pedro Moura. Cid Hades de Gonçalo Duarte e Oumun The Revenge de João Tércio representam o lado mais experimental da BD portuguesa, fugindo aos estilos mais realistas dos restantes autores. Já 24 Horas de Dileydi Florez encanta, pelo seu traço e pela simplicidade de uma história sobre o amor à cultura, sentimentos certamente comuns a boa parte dos leitores desta antologia.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Quest for Tula



Patrik Caetano (2016). Quest for Tula e outras histórias de Fantasia. Lisboa: Escorpião Azul.

Patrik Caetano tem sido um dos desenhadores mais consistentes e interessantes a ser publicado nas páginas da H-alt, revista de banda desenhada e história alternativa que dá espaço de publicação às vozes mais novas da BD em portugal. Caetano tem um traço muito distinto, expressivo e alicerçado na iconografia clássica da fantasia épica pós-tolkieniana, e um uso esplendoroso da cor, com paletas cuidadas em tons dominantes. São características plenamente evidentes neste Quest for Tula, livro que colige as suas histórias curtas para a H-alt e outras experiências, editado pela Escorpião Azul.

Pergunto-me que ordem define a escolha das histórias. Como qualquer jovem desenhador, Caetano tem um estilo gráfico em desenvolvimento. Apesar de já ter um traço seu, olha-se para os seus desenhos e percebe-se que só poderiam ser seus, percebe-se que ainda falta muito caminho a percorrer. Isso nota-se na heterogeneidade gráfica das histórias, algumas com traço mais incipiente, outros claramente apurado. A nível narrativo há também ainda muito que desenvolver. As histórias também escritas pelo autor são simples, nalguns casos quase pueris na forma como a narrativa se desenvolve. Sendo histórias curtas, percebe-se a dificuldade, mas na aventura mais longa e que dá o título ao livro continuam a notar-se as inconsistências narrativas, saltos temporais, personagens pouco estruturadas que agem de forma pouco clara.

Não é por acaso que a melhor história deste livro, O Bom Filho, conte com argumento de Vítor Frazão. Aí, a parceria brilha numa história bem medida e esplendorosamente ilustrada. Destacaria também Eyaer pela qualidade gráfica, só com manchas de cor a definir as imagens, e L. Gaiteiro quer pelo grafismo quer pela divertida ironia da história. As restantes parecem mais incipientes, passos de aprendizagem em que o autor vai afinando o seu estilo e técnica narrativa. Os estudos e concept art que encerram o livro mostram que Patrik Caetano pode e vai mais longe no seu grafismo. Suspeito que seja um nome a ter em conta quando se falar no futuro da BD portuguesa.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Comics


2000AD #2035: Ah, a ironia. Pat Mills a brincar com a banda desenhada, nas página de Defoe, a sua aventura proto-steampunk na inglaterra puritana assolada por hordes de zombies.


Winnebago Graveyard #01: Steve Niles no seu ambiente natural, o comic de terror. Pelo que nos dá a mostrar no primeiro número desta nova série, vai mexer com elementos icónicos: cultos secretos, invocações demoníacas, circos malditos, cidadezinhas perdidas no meio da américa profunda, e tensões familiares expostas em roadtrips.

domingo, 18 de junho de 2017

Visões



Wonder Woman (Patty Jenkins, 2017)

É raro, mas acontece. Ir ver um filme sem quaisquer expectativas, e sair da sala de cinema contente, tendo visto uma boa surpresa cinematográfica. Eu nem sequer tinha planeado ir ver este Wonder Woman, não sendo uma das minhas personagens favoritas do universo DC, mas depois de umas horas a vaguear na Feira do Livro num dia com temperaturas a rondar os 40º, precisava de um cinema com ar condicionado... e o único filme apelativo no UCI El Corte Inglés era este.



Como personagem de comics, Wonder Woman nunca me cativou por aí além. Era interessante como símbolo, mas toda aquela construção narrativa de semi-deusa poderosa mas rendida aos dramas dos humanos nunca me tocou. Mesmo na época em que George Pérez esmagou a série sob um brilhante estilo neoclássico, a remeter para a tradição greco-romana que está subjacente à personagem. Não resisto à comparação. A Marvel também inclui semi-deuses gregos no seu universo, mas Hércules é um personagem muito, muito secundário. Na DC, a semi-deusa amazona é um dos pilares do universo da editora.

Como filme, quase nem nos apercebemos que se trata de um filme de super-heróis. É esse, talvez, o seu melhor ponto. Toda a história se desenrola como uma aventura clássica ao estilo Hollywood, com personagens de moralidade duvidosa, que não olham a meios para fazer sempre a coisa certa, em aventuras rocambolescas cheias de acção. Apesar de toda a história de Diana, a Mulher Maravilha, ser central no filme, a vertente super-herói é deixada de lado, tornando-a mais uma personagem de aventuras. Uma que oscila entre a coragem e ingenuidade, fazendo contraponto aos inadaptados de bom coração que se unem, arriscando o sacrifício, numa missão impossível para travar uma arma de extermínio que poderia mudar o curso da I Guerra Mundial.

Apesar de não sublinhar o lado super-heróis, o filme tem espantosas cenas de acção. Aí, o filme brilha, explosivo, com coreografias excepcionais de luta filmadas com bom ritmo, em encadeamentos de acção que não deixarão os espectadores indiferentes. O realizador tira bom partido dos poderes da personagem, fazendo-a brilhar de uma maneira eminentemente física.Gail Gadot encarna a personagem como uma luva. Consegue ser ao mesmo tempo altiva e impositiva, ou ingénua e corajosa. Tem uma presença que enche o ecrã e captura a lente da câmara. Foge também ao estereótipo de Wonder Woman como all american girl, com as curvas voluptuosas e uniforme que as sublinha. Gadot é mais atlética, com uma beleza mais europa do sul do que americana, e retira muita da sexualização simplista de que é impossivel dissociar Wonder Woman nos comics. Apenas falha no confronto entre alguém saído de uma ilha isolada do tempo e o mundo moderno. Diga-se que aí o filme perde muito, levando demasiado longe o comic relief das incongruências e incompreensões da princesa das amazonas perante os usos e costumes do princípio do século XX.

Mesmo sem conhecer bem a história de Wonder Woman, sei que o filme tomou algumas liberdades com o historial da personagem. Vinda da era dourada dos comics, iniciou-se nas lutas contra o mal na II Guerra e não na primeira, como mostra o filme. No entanto, o mundo dos comics é conhecido pela forma fluída como encara as continuidades e histórias de origem, em constante reinvenção. Estes atropelos cinematográficos não prejudicam a personagem. Quanto ao filme, é uma excelente surpresa, convincente, divertido, com doses certas de drama e acção, estilisticamente bem conseguido. Zack Snyder foi um dos produtores, e nota-se um dedinho dele na estética de poses hieráticas e cores saturadas deste filme. É obra de entretenimento, claro, mas é-o sem defraudar expectativas ou querer fingir ser mais do que isso.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Doctor Strange Epic Collection: A Separate Reality


Roy Thomas et al (2016). Doctor Strange Epic Collection: A Separate Reality (Doctor Strange (1974-1987)). Nova Iorque: Marvel Comics.

Um mergulho no lado mais psicadélico de Doctor Strange, com histórias clássicas onde os conceitos de realidade se fundem, o feiticeiro enfrenta os mais terríveis inimigos, e se vê obrigado a matar o seu mestre para que este transcenda a realidade física. Especialmente divertida a série de histórias em que Strange se cruza com aldeões reptilianos de uma cidadezinha da costa leste, culminando com lutas contra criaturas que dormem sob as profundezas do oceano. Uma brincadeira lovecraftiana entre The Shadow over Innsmouth e Call of Cthulhu, apesar de nos créditos das histórias os personagens serem atribuídos a Robert E. Howard e não a Lovecraft.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Ultimate Human



Warren Ellis, Cary Nord (2008). Ultimate Human. Nova Iorque: Marvel Comics.

Dentro do universo Ultimate, que modifica os personagens clássicos da Marvel para estarem mais alinhados com o universo cinematográfico, Warren Ellis usa o seu habitual futurismo amoral para recriar a narrativa clássica de lutas entre Hulk e outros heróis. Bruce Banner contacta Tony Stark para este usar a sua nano-tecnologia para o curar da maldição do Hulk, neste universo específico não o resultado de uma exposição a raios gama mas de uma tentativa frustrada de recriar o soro que tornou Steve Rogers no Capitão América. O resultado é a criatura conhecida como Hulk, de uma biologia avançada capaz de se adaptar a todas as condições e ameaças. Os nano-robôs que permitem a Stark ser o Homem de Ferro prometem uma cura para a condição de Hulk, mas a intervenção de um vilão inglês desestabiliza tudo. Este vilão é uma óbvia caricatura do vilão clássico dos comics e literatura pulp: um agente secreto inglês, que se aproveita de um programa de pesquisas secreto para se dotar de super-poderes. Infelizmente, a ciência não produz os resultados esperados e o que resulta é uma mutação cerebral com corpo atrofiado, que busca nos nano-robôs de Stark e no sangue do Hulk a fórmula potencial para se tornar o ser super-poderoso que sonha ser. Divertido, com a linguagem visual cinematográfica que marcou a série Ultimate, e Ellis a misturar o estilo marvel com as suas peculiaridades como argumentista.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Comics


Batman #24: O argumentista Tom King tem sido muito explícito a explorar a relação intuída entre Batman e Catwoman, que tem sido sempre daquelas químicas mantidas em suspense na história do personagem. Agora, dá um passo estilo Homem-Aranha (recordem-se do evento casamento do Homem Aranha) e dá-nos isto. É o mundo dos comics, um super-herói e uma super-vilã, Batman tem sempre de ter uma vertente sofredora e grimdark, sabemos que não vai acabar bem. Mas King tem sabido criar boas histórias, sem fugir ao estilo clássico do personagem. Vamos ver por onde ele levará agora este título.


The Divided States of Hysteria #01: Assassinos em série, criminosos, transsexuais, agentes de um estado de perpétua vigilância e terroristas islâmicos. Chaykin está de regresso com o seu estilo pessoal e obsessões peculiares, num título que, como confessa no final deste episódio, pensava ser absurdo mas, entretanto, a administração Trump aconteceu...


The Unsound #01: Mantendo o excelente Harrow County na Image, Cullen Bunn explora outras vertentes do terror na Boom! Studios. Neste novo título, leva-nos aos horrores que se alimentam da loucura palpável dos pacientes de um asilo de lunáticos. O arranque da série foi subtil, como é habitual neste argumentista, que prefere as ambiências progressivamente opressivas ao simplismo do impacto do terror chocante.

sábado, 10 de junho de 2017

Old haunts...







... e novos desafios. Breve visita a terras do passado, e pausa para dèrive entre desafios. Ericeira e Funchal.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Exodus to the Stars


Andreas Brandhorst (2015). Perry Rhodan Lemuria 3: Exodus to the Stars. Rastatt: PMW.

Duas linhas narrativas entrelaçam-se neste episódio. Alguns dos companheiros de aventura de Rhodan investigam um misterioso asteróide, que alberga uma base automatizada esquecida cuja inteligência artificial tem como missão exterminar toda a vida não-humana, como artefactos nunca desactivado de uma guerra esquecida. É a parte da narrativa pensada para dar acção ao episódio, mas não funciona, tornando-se intrusiva no desenvolvimento da saga.

Entretanto, Rhodan mergulha num coma profundo, sob efeito de um antigo chip de memória lemuriano. Através deste expediente narrativo somos levados à antiga lemuria e aos primórdios da sua era espacial. Ficamos a conhecer o segredo das naves geracionais, e o porquê da sua criação, sob influência de um personagem imortal que aparece misteriosamente e consegue convencer a civilização lemuriano que a Diáspora pelas estrelas é a única forma de assegurar a sua sobrevivência face a uma tremenda e ainda desconhecida ameaça alienígena. É-nos dado a entender que este personagem ou vem do futuro ou conhece o futuro, introduzindo um elemento de laço temporal que já tinha sido intuído no episódio anterior, com um personagem fugaz que, adormecido durante séculos numa nave lemuriana, é também um velho companheiro de Perry Rhodan.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Ghost in the Shell 2: Man-Machine Interface



Masamune Shirow (2005). Ghost in the Shell 2: Man-Machine Interface. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Ghost in the Shell original surpreende e aguenta o teste do tempo, como aventura cyberpunk bem humorada. A consciência humana que anima o corpo robótico da Major Kusanagi oscila entre acção pura e a consciência de ser um ser cuja humanidade se resume à sua consciência dentro de um corpo mecânico, num mundo onde a interligação homem-máquina é cada vez mais prevalente.

Ghost in the Shell 2 - Man-Machine Interface não é a continuação direta do primeiro, vai muito mais longe numa história onde outra operacional da agência japonesa Secção 9 está ainda mais integrada no mundo digital, capaz de transferir a sua consciência através das redes, distribuir-se por diversos corpos robóticos, e talvez esteja perto de atingir uma forma de transcendência digital.

O tom é de um cyberpunk barroco, muito visível no exagerado estilo visual, que ultrapassa o do mangá original. O traço de Shirow anda a solta, fascinado com a visão do digital que ainda hoje caracteriza a sua iconografia. No entanto, esta obsessão com a estética e mitografia cyberpunk distrai da história. Shirow passa mais tempo a tentar fazer o equivalente em BD das cenas cinematográficas de hackers a invadir sistemas e a lutar no virtual do que a estruturar uma narrativa coerente.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Dylan Dog: Spazio Profondo; Mai Più, Ispettore Bloch; La Morta Non Dimentica.


Roberto Recchioni, Nicola Mari (2015). Dylan Dog #337: Spazio Profondo. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Tinha que ser Recchioni, talvez o melhor argumentista de Dylan Dog a seguir a Sclavi, a arriscar esta mistura de terror e FC. É elegante a forma como resolve a incompatibilidade entre uma personagem contemporânea e o futurismo da FC. Estamos num futuro longínquo, em que as naves da grande Albion sulcam os vazios do espaço, e são confrontadas com uma epidemia de assombrações que o espírito de lógica científica do futuro não consegue explicar. é preciso alguém com outra sensibilidade para compreender e erradicar os assomos sobrenaturais. Dylan acorda no futuro, dentro de um corpo robótico que em tudo se assemelha ao seu, não como espírito transposto por meios sobrenaturais mas como constructo digital, andróide com memórias implantadas a partir da reconstrução virtual da sua personalidade a partir de diários e relatos em jornal. A sua tarefa: investigar uma nave assombrada, junto de uma equipa de outros andróides que representam um detalhe da sua personalidade. A história desenrola-se num bom ritmo de FC-terror, com os personagens a tentar sobreviver a monstros vampíricos que encarnam as suas memórias. Só o final destoa, com a aniquilação final da nave e dos monstros a lançar este Dylan andróide numa dimensão infernal paralela. É um gimmick que resulta mal, a encerrar uma belíssima aventura do Old Boy.


Paola Barbato, Bruno Brindisi (2015). Dylan Dog #338: Mai Più, Ispettore Bloch. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

O Inspector Bloch é uma das personagens indissociáveis de Dylan Dog. Não é um Lestrade para um Sherlock; Bloch não serve como desculpa para o genial investigador revelar como conquista os mistérios. A relação é de simbiose e amizade, com Bloch a socorrer-se de Dylan nos casos estranhos e este a pedir favores a Bloch quando precisa de informações policiais. Partilham bebidas nos pubs, apesar de Dylan ser abstémio e beber água enquanto Bloch saboreia uma pint. Em 2015, a relação de sempre foi revista pela equipa editorial de Dylan Dog. Bloch, cuja principal preocupação nos casos em que se vê envolvido é não perder a sua reforma, passa finalmente à reforma. A lógica é insuflar ar fresco na série, levando Dylan a ter de interagir com outro interlocutor na Scotland Yard.

E como é que um inspector encara o facto de, de um dia para o outro, deixar os seus afazeres? Muito bem, aparentemente, mas de facto cai na depressão. Será salvo por um estranho aliado, que não se interessa especialmente pelo ex-inspector mas se interessa muito por Dylan Dog. À beira do suicídio, Bloch redescobre o gosto pela vida graças a este novo amigo, mas há consequências disso. Durante uns tempos, ninguém é capaz de morrer em Londres. Cadáveres mantém-se vivos, os idosos nos lares estão vivos apesar de tudo apontar o contrário, vítimas estropiadas de acidentes fatais mantém-se vivas. A Morte tirou umas férias, deixando o seu trabalho de lado para ajudar Bloch a encarar a vida. A amizade entre a Morte e Dylan Dog é um dos temas recorrentes da série. Chegaram até a jogar partidas de xadrez, num aceno a Bergman.

Dylan apercebe-se disso ao investigar o caso de uma mulher morta que não consegue morrer. No decorrer da história, percebendo que o novo amigo de Bloch é a Morte, pega na sua foice e tenta matar de vez a mulher morta, mas não o consegue. Se alguém vivo tenta ceifar alguém morto com a foice da Morte, o resultado é o inverso, e a vítima fica condenada a uma morte viva.


Paola Barbato, Bruno Brindisi (2015). Dylan Dog #349: La Morta Non Dimentica. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

No episódio em que Bloch se reforma, Dylan Dog inadvertidamente condena à vida um par de criminosos mortos. Se ele é um perfeito pau mandado, ela, que iniciou parte dos eventos desse episódio, decide vingar-se de Dylan por este não lhe ter dado o descanso final. É neste episódio que o fará, com ajuda de uma taxidermista excepcional. A polícia londrina depressa se vê no meio de uma epidemia de taxidermia, com cadáveres preservados em poses naturais a aparecer um pouco por todo o lado, e a morta-viva quase consegue vencer Dylan, ameaçando o seu amigo Bloch. Uma história bem montada por Paola Barbato, que sem ser exepcional lida bem com o personagem.

terça-feira, 30 de maio de 2017

The Sleeper of the Ages



Hans Kneifel (2015). Perry Rhodan Lemuria 2: The Sleeper of the Ages. Rastatt: VPM.

No final do primeiro episódio deste arco, Perry Rhodan vê o segredo de uma nave geracional lemuriana escapar-se-lhe das mãos, pela captura imposta por uma armada dos akonianos, rivais dos terrestres nas vias espaciais. Mas uma cientista akoniana faz o impensável, e através de um subterfúgio permite que uma sobrevivente lemuriana da nave parta junto com Rhodan e os seus companheiros de aventura. Isso permitir-lhe-á descobrir novos segredos, como o de uma outra nave geracional a sulcar as estrelas, vinda de uma Terra de há cinquenta mil anos atrás.

Esta segunda nave não vive no clima de obscurantismo opressivo da primeira, mas não está isenta de problemas. Os sistemas dão sinais de degenerescência, restam poucos tripulantes, e muitos sofrem com mutações e doenças. No tempo relativo da velocidade sub-lumínica cinquenta mill anos reduzem-se a quinhentos, mas mesmo a avançada tecnologia desta arcaica civilização não consegue travar a entropia. O líder lemuriano decide parar num sistema solar capaz de albergar vida, para que os sobreviventes crescam em número e reparem a nave antes de prosseguir a sua viagem, mas um punhado de asteróides destrói a nave em órbita e partes desta despenham-se num planeta. Os sobreviventes terão de aprender a viver longe de tudo o que sempre conheceram. Felizmente, Rhodan e os seus aliados, em busca dos mistérios lemurianos, conseguirão ajudá-los.

O planeta também tem vida inteligente, seres de energia com mente colectiva que olham para os visitantes com um misto de medo e curiosidade. No passado, combateram militares akonianos, que na sua retirada deixaram nos pólos uma base com perigosos segredos. Os seres nativos do planeta sentem que estes novos visitantes não representam qualquer perigo, mas não deixam de os testar. Sendo seres de energia, é-lhes fácil manipular as tecnologias terrestre e akoniana para limitar o que estes podem fazer, o que irá causar algumas dores de cabeça a Rhodan e aos seus companheiros.

Ainda resta um último mistério, um ser estranho que veio, isolado, na nave lemuriana e que será libertado pelo desastre. Uma interessante aventura da série, cheia de peripécias, segredos intrigantes e mundos ficcionais exóticos. Diga-se que na série Perry Rhodan, a equação de Drake é esticada para lá dos limites da sanidade mental, com a proliferação de alienígenas nas vastidões intergalácticas.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Comics


2000AD #2032: Impossível não olhar para esta tira de D'Israeli para a terceira aventura de Scarlet Traces, correntemente serializada na 2000AD, e tentar procurar referências e easter eggs. Só consigo detectar uma: a Fireball XL-5 no canto inferior direito da segunda vinheta.


Black Hammer #09: Ainda não percebi onde é que Jeff Lemire quer chegar com esta série. É obviamente nostálgica, mistura com mestria todas as iconografias e estruturas narrativas dos comics clássicos. Resta saber o seu objetivo. Será que se tornará uma daquelas séries intermináveis que capitaliza na ironia pós-moderna e mercado da nostalgia, ou Lemire quer chegar a um ponto final conclusivo?

sábado, 27 de maio de 2017

Saudades do Inverno




A ironia do calor. Quando aperta, perde-se a vontade de sair. O frio é-me muito mais agradável. Entre o Palácio dos Aciprestes e o Museu da Eletricidade.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O Último Europeu



Miguel Real (2015). O Último Europeu. Lisboa: D. Quixote.

Há algo de incongruente quando lemos as tentativas de escritores mainstream na ficção científica. Alguns nem vale a pena lê-los, pelo óbvio desrespeito a um género que ironizam com desprezo. Depois, há aqueles que se nota que levam o género a sério, fizeram um esforço, algumas leituras bem escolhidas, e perceberam a mecânica da ficção científica e a sua iconografia. O leitor mais conhecedor não consegue deixar de sorrir com as construções de mundos ficcionais, com as descrições de tecnologias e sociedades futuristas. Percebemos o esforço do escritor mainstream, mas não conseguimos deixar de pensar que tantos escritores de ficção científica já fizeram algo semelhante, e melhor. Parte deste livro de Miguel Real é assim, um futurismo que se aguenta enquanto obra de um escritor que não pratica FC, mas que não sobreviveria dentro do género. Mas estaria a ser injusto se reduzisse a apreciação desta leitura a este aspecto, porque se Miguel Real é, do ponto de vista de um leitor apreciador de FC, bastante desastrado no seu futurismo, compreende perfeitamente uma das principais funções da ficção científica especulativa: compreender melhor o mundo que nos rodeia, projectando-o em futuros prováveis ou improváveis.

A reflexão de Miguel Real neste Último Europeu é sobre em que Europa pensamos que vivemos, o que é isso, realmente, de ser europeu no mundo contemporâneo. A resposta é difícil, e não surpreende que o final do livro seja amargo, com a extinção final de uma Europa encarnada no último homem que leva consigo para a campa, imutáveis, os seus valores e ideais, extintos ou corrompidos num mundo implacável.

Neste futuro imaginado de Miguel Real, a Europa é um bastião de perfeição num mundo convulsivo. A Europa representa a sociedade perfeita, pós-escassez, tecnologicamente avançada, rigorosa, humanista e liberta das piores pulsões da alma humana, com o individualismo suprimido e o racionalismo como valor maior. Mas é também rarefeita e de elite, coexistindo no seu território com uma outra europa, bárbara, nacionalista, guerreira e dividida. A analogia ao nosso ideário de Europa e unidade europeia face à realidade da europa contemporânea, onde as velhas pulsões que se julgavam extintas face ao imperar de elites esclarecidas se sentem a regressar ao de cima, é óbvia. Uma Europa que se encontra ameaçada pelos asiáticos, social e tecnicamente inferiores, mas que encontram forma de invadir a europa e dizimar os europeus. A utopia europeia, pacifista, indefesa e que não ser verga, perece aí, sem sobreviventes. A escolha para a sobrevivência era entregar os seus avanços tecnológicos a uma sociedade bélica que almeja o domínio planetário, e ver os seus cidadãos entregues ao esclavagismo na sempre explorada África.

Sobrevive um punhado de europeus, escolhido pelo conselho de dirigentes europeus para não deixar extinguir a chama do ideal europeu. O local escolhido para refúgio fica numas ilhas semi-arruinadas por vulcanismo, no meio do oceano atlântico, um território que pertence ao império americano, um dos outros grandes blocos políticos deste futuro ficcional. Será nos açores que a europa perfeita poderá renascer, seguindo um plano rígido de crescimento demográfico e transmissão de valores. Mas as circunstâncias tudo mudam e o que se julgava a reconstrução de uma sociedade perfeita altera-se em função das vontades dos indivíduos, longe do racionalismo original, e terminará em genocídio.

Num mundo violento, quer na ásia desesperada por territórios e recursos, na américa isolada e tecnocrata, na oceania racista ou na américa do sul dominada por esclavagistas, o ideal progressivo de uma sociedade que se aperfeiçoou é um perigo. A escuridão não tolera raios de luz, e as utopias têm, inevitavelmente, de sofrer a amargura da sua derrocada.

É esta reflexão que torna o livro de Miguel Real como obra que vinda de alguém claramente externo ao campo da ficção especulativa, merece ser lida com atenção pelos fãs de FC (uma comunidade que, diga-se, por cá está mais em vias de extinção do que os novos europeus do romance). Real toca no que nos incomoda no mundo do século XXI, em que os ideais progressistas e humanistas do século XX parecem ter falhado, onde a globalização é desculpa para novos totalitarismos e desrespeito pela condição humana. A própria Europa sofre da dicotomia que Real caracteriza no romance, a separação entre um ideal progressista e uma realidade cada vez mais fragmentada, com a divisão entre elites esclarecidas e um conjunto cada vez maior de cidadãos que se sente alienado e procura a sua voz no recrudescer das velhas pulsões violentas. Sem ilusões, a amargura da utopia é o conhecimento que para lá dos portões, os bárbaros aguardam-nos, sempre, recusando redenções e elevações. Certeiro e surpreendente, este romance, apesar dos desajeitos de género que lhe acabam por conferir um certo encanto de inocência num género literário específico.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Jessica Jones: Avenger



Brian Bendis, Michael Gaydos (2016). Jessica Jones: Avenger. Nova Iorque: Marvel Comics.

A piada de Jessica Jones reside no seu estatuto de super-heroína falhada, encarnando uma versão feminina neurótica e problemática de Philip Marlowe, tendo o foco central dos comics da Marvel como pano de fundo e não centro da acção. Esta inversão dos pressupostos do género, com os super-heróis como elemento de cenário e não o foco das atenções, refresca um género que os fãs, convenientemente, esquecem ser repetitivo e sobre-explorado. No entanto, os crossovers entre série são inevitáveis, com a popularidade da personagem. Nas histórias coligidas neste livro, Bendis mete uma incerta Jessica Jones no meio da continuidade dos Vingadores, em episódios onde surge como quase-heroína, ou alguém que se afasta do grupo. Noutras, histórias individuais, interage com os heróis durante as suas investigações. Termina com um What If que imagina Jones como uma super-heroína no sentido tradicional. Não traz em si nada de novo, apenas colige extensões da série Jessica Jones noutros títulos da Marvel.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Ark of the Stars



Frank Borsch (2015). Perry Rhodan Lemuria #1: Ark of the Stars. Rastatt: PMW

A série Perry Rhodan não pretende ser mais do que o que é, uma série de FC de entretenimento, essencialmente uma longa e interminável Space Opera onde o imortal Rhodan vive sucessivas aventuras. A escala da série é cósmica, como não poderia deixar de ser com mais de quarenta anos de publicação mensal regular. São raras as suas incursões fora do espaço germanófilo, e esta edição de cinco livros da recente série Lemuria em inglês uma boa surpresa para aqueles que são fãs do personagem mas incapazes de ler em alemão.

O início de Lemuria coloca Rhodan a bordo de uma nave de prospecção numa zona disputada da galáxia. Por acaso, cruzam-se com um misterioso artefacto nas vias espaciais, que se revelará ser uma nave geracional lemuriana. Partida há milénios do planeta que se viria a tornar a Terra, representa um vestígio vivo de uma civilização antiga, que nos mythos de Rhodan surgiu na Terra, se espalhou pelo espaço, e colapsou em guerra com alienígenas invasores. O seu colapso deixou vestígios, sendo os lemurianos antecessores dos humanos na Terra, e das suas colónias sobreviventes evoluíram as principais civilizações alienígenas humanóides da série, Arkon e Akon.

Esta é uma história contada em múltiplos pontos de vista. Mergulhamos dentro do mundo fechado da nave lemuriana, onde nos deparamos com uma sociedade fossilizada e regredida, que desconhece e teme o mundo exterior, controlada pelo computador de uma nave que, com o passar dos milénios, cada vez mais mostra sinais de degradação. O computador é implacável a perseguir aqueles que se desviam da linha de comportamento por ele definida, especialmente com quem se atreve a contrariar o dogma do perigo das estrelas. No entanto, com os sistemas em falha progressiva, os habitantes da nave têm de ser capazes de sair da nave e colonizar um planeta.

Por outro lado, temos os terrestres prospectores, surpreendidos pelo artefacto e dispostos a investigá-lo, reclamando-o como seu. Uma pretensão travada por uma nave Akoniana. Os rivais dos terrestres também reclamam a nave lemuriana, e resta a Rhodan mediar entre representantes de civilizações antagonista para exploração conjunta da nave. Ao iniciar a descoberta dos seus mistérios, uma frota de combate akoniana toma conta da situação, e Rhodan vê-se obrigado a recuar. Sendo o primeiro de uma série de cinco livros, o recuo é apenas uma peripécia ao longo dos episódios.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Comics


Secret Empire #02: Confesso que não percebo muito bem a polémica neste evento Marvel que coloca o Capitão América como um ditador fascista ao serviço da Hydra. Claro que subverte toda a tradição do personagem, mas é isso que o torna interessante. Não se esqueçam que estamos no mundo dos comics. No final tudo acabará bem. Quanto à iconografia do herói, sublinhe-se que o ideário do Capitão América pode ser visto noutras partes do mundo como um símbolo altamente imperialista. Se calhar é isto que choca os leitores americanos, o perceber que os seus patriotismos não são globais.


Batman #23: Tom King continua a sua temporada excepcional ao leme do título icónico da DC. Desta vez oferece-nos duas raridades: um Batman bem humorado, e um tratamento soberbo a Swamp Thing.

domingo, 21 de maio de 2017

Sustos às Sextas: Sugestões de Leitura



O João Castanheira, da organização desta tertúlia literária que decorre no palácio dos Aciprestes, convidou-me a vir à última sessão da terceira temporada dos Sustos às Sextas para partilhar sugestões de leitura sobre ficção científica e terror, o tema de uma sessão que contou com um painel de gigantes com  o João Barreiros, Cristina Alves e Luís Filipe Silva.

Se aceitei com entusiasmo, até porque ficaria finalmente com uma das famosas canecas da tertúlia, ao aproximar-se a data da intervenção a vontade de a fazer era muito pouca. Não por descrédito à tertúlia. Digamos que desde o momento em que recebi o desafio e o dia de o cumprir, um projeto muito especial da minha vida profissional acelerou enormemente e o tempo livre reduziu-se muito. Os workshops e demonstrações sucedem-se, o entusiasmo é muito, mas os dias passados a falar sobre impressão 3D, de volta da robótica, em eventos e demonstrações pesam nos ossos. Isso, e os quilómetros que tenho feito. Desta temporada dos Sustos, só compareci a esta sessão. Uma vergonha, bem sei, mas tenho chegado às sextas-feiras extenuado e a precisar das horas de sono para no dia seguinte me meter à estrada e ir para outros desafios.

É um mal que afeta outras vertentes. De tal forma que quando cheguei aos Aciprestes, a mulher do João Barreiros comentou que estava a assistir ao regresso do desaparecido. Pois, certeiro com muita graça e razão... e foi um regresso fugaz. Tenho falhado os Sustos e os jantares dos Devoradores de Livros. Confesso que me faz falta o mergulho nas culturas para equilibrar as tecnologias. Aliás, mais do que equilibrar, ganhar inspiração, porque (se me permitirem o convencimento), o que me distingue nas abordagens à tecnologia é a minha postura de incentivo ao seu uso como ferramenta criativa. Despedi-me deles com um até ao Sci-Fi LX. Aí não conto faltar.

As páginas de um livro de terror são umas das minhas recordações literárias de infância. Lembro-me de os meus pais me terem oferecido um monte de livros, teria para aí seis anos (fui um leitor precoce, ensinado a ler em casa por uma antiga preceptora e o método João de Deus). Desse monte, só me recordo de um, pelos arrepios e pesadelos que provocou. Recordo-me de o abrir e ficar assuatadissimo pelas imagens de um castelo sombrio, povoado por espectros que atazanavam o pato Donald e os seus amigos. Era, curiosamente, um livro da Disney... não revista, um livro ilustrado sobre a Casa Assombrada.

Sendo mais inclinado para os voos especulativos da FC, não há muito que vos possa oferecer no que toca ao horror na literatura. Gosto de um bom arrepio literário, mas não é esse o foco das minhas leituras. Aliás, nestes tempos sinto que estou a viver profundamente mergulhado na science fiction condition. Nos dias que correm, o verdadeiro horror para mim é ter uma daquelas peças de oito horas de impressão a falhar ao fim de sete horas e meia porque o filamento se enrolou, ou limpar um extrusor e tocar no nozzle esquecendo-me que aquela jiga-joga está aquecida a 200º. Acreditem que são coisas que provocam gritos lancinantes do mais profundo e doloroso horror.

Suspeito que depois das sessões anteriores e sugestões dos seus convidados, esta minha lista peque pela banalidade, pelo esperado. Sem querer fingir ser um expert em literatura de terror (e se o tentasse, o António Monteiro logo me desmascarava), deixo aqui uma lista de sugestões, que destaco não pela sua importância literária, qualidade intrínseca, mas por terem sido livros que me tocaram, arrepiaram, ou deixaram a sonhar com paisagens tenebrosas. Alguns, insuspeitos, surpreenderam-me pela sua ligação com a ciência e tecnologia.



Começo com o primeiro livro de terror que me recordo de ter devorado, Dracula de Bram Stoker. De tudo o que se pode dizer sobre essa obra fundamental no horror, diria que o aspecto que me surpreendeu foi a sua modernidade. Já imaginaram que este livro, à época em que foi publicado, poderia ser uma verdadeira obra de ficção científica sobre o futuro próximo? Suspeito que lido pelos olhos de um leitor do século XIX, Dracula pareceria quase futurismo próximo. O terror medieval do vampiro é combatido com as armas da ciência e tecnologia da época. As velhas superstições são complementadas por perseguições de comboio, ou personagens que registam as suas narrativas utilizando gravadores de som.



Se falamos de futurismo e terror, Frankenstein de Mary Shelley é o livro incontornável. Aliás, a sua associação com a literatura de terror é algo injusta, uma vez que no livro o monstro não é a criatura, é o seu criador, e a criação é feita com as ferramentas da lógica, química e electricidade, não com encantamentos cerimoniais do além. Diria que este romance é o mito original que, nesta era dependente da tecnologia, nos define.


Não se se recordam que houve um tempo antes da internet? Em que não havia Amazons, e-books e quando marcávamos encontros tínhamos mesmo que estar nos locais à hora certa, porque não havia telemóveis para comunicar. Soube de Lovecraft nesses tempos, através de artigos em zines e revistas, mas demorou até ter conseguido lê-lo. Os Demónios de Randolph Carter, na edição tenebrosas das Edições B, foi o meu primeiro mergulho na obra do bardo de Providence. Impossível não ficar apaixonado pelo misto feérico de exótico e orientalismo das suas visões do mundo dos sonhos que Carter atravessa.


At the Mountains of Madness e as geometrias não-euclidianas da cidade sob os gelos cimentaram o gosto, os contos fizeram o resto. Mesmo sabendo que pelos nossos padrões a misogenia e racismo de Lovecraft são complicados de aceitar.


Imajica, de Clive Barker, seduziu-me precisamente por esse aspecto de fantástico grotesco. Já não recordo o enredo e as aventuras, e honestamente não me sinto particularmente disposto a a revisitar o livro. O que ficou foi a visão sedutora, orientalista, exótica, das arquitecturas de mundos de fantasia invocados pelo autor. Books of Blood e Cabal à parte, a obra de Barker sempre me pareceu ser bastante banal, mais a apostar na escatologia sexualizada e a repetir-se nos esquemas narrativos.

E quanto ao terror literário em português?


Talvez a melhor descoberta tardia que fiz este ano, O Físico Prodigioso de Jorge de Sena seduz pela forma mágica como entretece o imaginário medieval, antigas lendas e um fantástico carregado de erotismo.

 
Quanto a Lovesenda de António de Macedo, podia salientar qualquer outro livro deste autor e cineasta, mas olho para este por ser o mais recente e potencialmente dos menos lidos (baixa tiragem, editora independente). Mistura uma capacidade fortíssima de nos levar ao ambiente do passado histórico com o fantástico místico e gnóstico que é a marca de Macedo.
 

Os Ossos do Arco Íris de David Soares: Foi o meu primeiro choque com o autor, e a descoberta que existia uma corrente cultural portuguesa contemporânea nas culturas de género. Poderia salientar qualquer outro livro deste autor, aponto este por ter sido indicador de algo maior. Um pouco isolado do contexto da FC e Fantástico nacional, suspeitava que alguns autores existiam, suspeita alimentada por números perdidos da Simetria que encontrava esquecidos em livrarias, ou os nomes portugueses nas capas azuis da lendária coleção da Caminho.

 
Museum of Horror de Junji Ito foi a obra que me deu a conhecer o mangá de terror japonês, com uma personagem arrepiante, Tomie. Fantasma de rapariga assassinada por um namorado obcecado, compraz-se fascinar homens e mulheres com a sua atração sobrenatural, levando-os à loucura homicida ou à degradação violenta do body horror. Sem redenção. Nesta série, o que o espírito procura não é o alívio da sua dor, mas a propagação abjecta da sua morbidez. É o aspeto que mais seduz nesta obra, o contraponto à nossa tradição que dita que o espírito malévolo apenas procura a o descanso final da redenção.



Os Vampiros de  Filipe Melo e Juan Cavia. É impossível não falar deste trio de autor e ilustradores, pelo impacto que tiveram no panorama da BD portuguesa com a trilogia Dog Mendonça e Pizzaboy, e, no caso específico de Filipe Melo, pela sua importância como ícone da cultura g33k. Neste seu livro mais recente, misturam história portuguesa contemporânea, hordas vampíricas e a claustrofóbica mentalidade de cerco de personagens cercados numa casa. O resultado é um livro eficaz, que tanto seduz os amantes do fantástico como os defensores de culturas mais "sérias".
 

Não consigo deixar de falar de uma das minhas obsessões pessoais. Dylan Dog é um dos meus fascínios, personagem de fumetti que investiga casos sobrenaturais. Não é nenhum Sherlock ou caçador de monstros, vive ao sabor dos casos com que se cruza e é pouco interventivo, muitas vezes um assistente nas suas aventuras. Tiziano Sclavi destila a história do terror literário e cinematográfico neste personagem melancólico, tocador de clarinete e construtor de um modelo de galeão eternamente inacabado, sempre a apaixonar-se pelas mulheres com que se cruza. Attraverso lo Specchio é um bom exemplo das suas aventuras, num cruzamento de Poe com horror clássico, Lewis Carroll e slasher movies.

 
Afastado da série, a personagem está entregue a outros argumentistas, dos quais se destaca Roberto Recchioni. Não tão texturado ou referencial como Sclavi, mas compreende bem o personagem. Mater Morbi é das suas melhores histórias, quase fetichista na iconografia.


Falar de Dylan Dog obriga a falar de Dellamorte Dellamore, romance em fragmentos de Sclavi, um dos pontos de partida do que se viria a tornar o personagem de fumetti. Francesco Dellamorte é o coveiro do cemitério da cidade esquecida de Buffalora, na Itália profunda. Como coveiro, a sua principal tarefa é manter os mortos enterrados, num cemitério onde poucos dias após o enterro os defuntos regressam a vida como zombies. O filme de Michele Soavi que passou, recentemente, no Nimas, faz justiça à bizarria desta obra, mas o livro vai muito mais longe no seu surrealismo tétrico.



Para finalizar, sugestões de leitura contemporâneas. Providence, um longo e profundo mergulho de Alan Moore no Mythos lovecraftiano, entretecendo fios condutores entre a sua obra, as dos seus seguidores (Derleth, Bloch e Chambers são referênciados) e influências culturais, com um final apropriado de apocalipse surreal que nos mostra que, talvez, as ficções que nos deleitam são m verdadeiro mundo em que habitamos.



Harrow County, a ser editado em português pela G.Floy, onde a ruralidade do Sul profundo nos anos 20 como palco para histórias de terror cheias de mitos tradicionais. Cullen Bunn aborda este título um pouco como um Faulkner do horror.

 Afterlife with Archie: e que tal pegar num comic de piadas adolescentes e transformá-lo num épico de terror com zombies e criaturas lovecraftianas? Uma proposta inesperada e divertida, onde Roberto Aguirre-Sacasa, acompanhado por Francesco Francavilla na ilustração, destrói a premissa dos comics da Archie - a vida de eternos adolescentes numa small town americana, com extremo prejuízo.



Para finalizar, as iconografias clássicas da Creepy, notável pelo formato influente de história curta com final macabro e irónico, mas especialmente como caldo onde germinaram alguns dos mais influentes artistas dos comics, Alex Toth, Bernie Wrightson, Steve Ditko, entre muitos outros, cujos grafismos inconfundíveis marcaram de forma indelével a estética dos comics de terror.