quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

The Motion Demon


Stefan Grabinski (2005). The Motion Demon. Ashcroft: Ash-Tree Press.

Há uma intrigante mistura de classicismo e modernidade nestes contos de Stefan Grabinski originalmente coligidos em 1919. O oculto, o sobrenatural, o irreal e o estranho coexistem com a modernidade da velocidade e da tecnologia. O combóio é o fio condutor destes contos, onde a ferrovia é envolta numa atmosfera exacerbada de profunda estranheza. Os personagens são meras peças destinada a cumprir o fio narrativo, como peões nas mãos de um xadrezista determinado. A prosa é pesada, sem floreados, e apesar de serem histórias curas as linhas narrativas são pouco lineares. Os primeiros parágrafos causam impressões que são levadas em direcções inesperadas pelo escritor.

Escritor obscuro, Grabinski é considerado o Poe polaco e tem vindo a receber mais atenção graças a projectos de tradução e à publicação de um dos seus contos por Jeff e Ann Vandermeer no The Weird, uma das suas influentes e impecavelmente editadas antologias de literatura fantástica. The Motion Demon pode ser descarregado no Goodreads.

Engine Driver Grot: o fascínio pela viagem sem fim, pelo ultrapassar das fronteiras geográficas, metastatizado num maquinista de comboios que sublima o sonho perdido de construir e voar numa máquina voadora com o estender dos limites de uma viagem de longo curso de comboio. O final mortal é uma espécie de final feliz, uma vez que só a morte ardente na colisão de uma locomotiva irá libertar o maquinista.

The Wandering Train: Uma intrigante variação sobre assombrações. Há um comboio que está a arrepelar os cabelos dos maquinistas e engenheiros. Ninguém sabe de onde vem nem para onde vai, não está nas tabelas e horários, e pela velocidade com que se desloca deve ser um expresso. Os indignados funcionários do caminho de ferro suspendem a respiração quando o inevitável acontece e o comboio vagabundo colide com uma composição parada numa estação. Mas a catástrofe não chega a acontecer. O comboio desconhecido atravessa o outro como uma névoa.

The Motion Demon: Um escritor sofre de uma estranha propensão para dar consigo a centenas ou milhares de quilómetros do local onde vive. Por detrás dessa propensão está uma obsessão com a velocidade, que o leva a embarcar amnésico em comboios expresso. Numa dessas viagens, trava conversa com um empregado dos caminhos de ferro que lhe confessa o deslumbre com a corrente tecnologia ferroviária, algo repelente ao escritor, para quem o comboio apesar de ser rápido não o é o suficiente e está limitado pela obrigação de circular por um destino traçado. Acelerar e viajar sem limites é a vocação, mas os limites físicos tornam-se grilhões.

The Sloven: Há nos caminhos de ferro um revisor experiente, lendário pela ordem que impera nas suas carruagens. Onde passa não há apertões, excesso de passageiros ou desordeiros. Mas a imagem fugaz de um passageiro assombra-o. Cruzou-se pela primeira vez com ele momentos antes de um catastrófico acidente ferroviário, e agora, anos depois, volta a vê-lo na sua carruagem. Teme o pior, mas nada acontece. Só que com um revisor tão rigoroso possibilidades perdidas não são aceitáveis. Opta por enganar o sinaleiro, provocando um acidente que crê, intimamente, ser inevitável.

The Perpetual Passenger: Um homem que não é o que deseja. Humilde funcionário de tribunal durante o dia, mal termina o expediente dirige-se à estação de comboios para fazer o que realmente gosta. Viajar, viajar sem destino. O parco salário e a obrigatória normalidade obrigam-no sempre a regressar, mas o apelo dos carris nunca se desvanece.

In the Compartment: A alta velocidade, sedução, sexo, traição, morte. Os instintos primevos vêm ao de cima durante uma viagem onde um homem rico partilha um compartimento com um engenheiro ferroviário e a sua não muito bela mas curiosamente atraente esposa.

Signals: Histórias de assombrações à volta com os sistemas de comunicação ferroviário. Ao final do dia um grupo de sinaleiros junta-se para partilhar cigarros e uns dedos de conversa. Um conta como uma combinação arquetípica de sinais fez desaparecer um combóio para a quarta dimensão, suspenso no tempo até que por algum acaso a combinação se repita. O conto arrepia e intriga o grupo. Mas outro sinaleiro contra uma história ainda mais arrepiante. Parece que há anos atrás trabalhava numa estação que começou a receber sinais misteriosos sobre a iminente colisão de composições. Investigam a linha e nada, não há quaisquer combóios em rota iminente de colisão, e os funcionários da estação anterior nada sabem do que se passa. As mensagens continuam, e os técnicos da companhia passam a linha a pente fino até encontrarem uma estação sinaleira cujo operador morreu. As mãos esqueléticas do seu cadáver descomposto agarravam os manípulos operadores do sistema de sinais. Os técnicos sepultam-no e os sinais misteriosos páram. Na semana seguinte dois combóios colidem, precisamente como previsto pelas mensagens fantasmagóricas.

The Siding: Rumores de estranhas carruagens com o poder de transformar os seus incautos passageiros espalham-se durante uma conversa num comboio apinhado. Depois dessa conversa a maior parte dos passageiros sente uma inexplicável necessidade de sair na estação mais próxima, quer esta seja ou não o seu destino. Restam treze ocupantes, levados a fazer parte de uma secreta irmandade que visa mergulhar nos mistérios das linhas laterais, onde por entre os carris abandonados se ocultam segredos. Estes intrépidos passageiros dão por si a viajar por entre um vasto vazio, sabendo que no espaço real um estranho acidente parece tê-los vitimado.

Ultima Thule: Um funcionário de uma estação de montanha sente dentro de si o chamamento de algo maior. É capaz de percepcionar a escuridão que se oculta por detrás do real e sente que a sua presença no preciso lugar onde se encontra é necessaria para impedir que a escuridão transvase para a realidade.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

The Definitive Silver Surfer


Stan Lee, Jack Kirby, John Buscema, John Byrne, Jean Giraud (2007). The Definitive Silver Surfer. Tunbridge Wells: Panini.

A sintonia com os estados de espírito da adolescência é uma das grandes marcas dos mais icónicos personagens da Marvel. Percebi isso quando, ainda adolescente, fiquei cativo das aventuras dos X-Men escritos por Chris Claremont. Aquilo era mais do que histórias de aventuras com lutas à mistura. As vidas pessoais dos personagens encadeavam-se, cada qual com os seus dilemas, e a sofrer com as injustiças de uma sociedade que não os compreende. Uma óbvia metáfora para os sentimentos que passam pela turbulenta alma adolescente, onde o corpo e o pensamento se desenvolvem em conflito com as estruturas e o normal se redefine a cada dia. Os X-Men, lutadores injustiçados por uma humanidade que os ostraciza, são um dos exemplos desta linha de pensamento, que é encarnada na totalidade pela eterna adolescência do Homem-Aranha.

Há um personagem que leva aos limites este espírito de homem contra o mundo, de honra face à injustiça, de emoções levadas ao épico e, confessemos, pomposo. Silver Surfer é um dos mais icónicos personagens de segunda linha da editora, hoje alvo de um bem humorado tratamento em estilo retro. Na sua origem, às mãos de Stan Lee e Jack Kirby, tornou-se admirável pela forma hiperbólica como encarnou o espírito de sacrifício com uma importante veia psicadélica. Surfista das ondas do cosmos, sacrifica-se para salvar o seu planeta tornando-se arauto de Galactus e sacrifica-se novamente para salvar a Terra, ameaçada por uma força cósmica indiferente aos destinos humanos. Galactus em si é uma personagem muito interessante, metáfora das forças primevas que estão para além do nosso controlo e não se enquadram na dicotomia do bem e do mal. A sua história de origem original (porque estas coisas estão sempre a ser reinventadas no mundo dos comics) qualifica-o como sobrevivente de uma civilização avançada do universo anterior ao nosso, com o big bang a torná-lo uma entidade cósmica essencial à estrutura do universo. Anos 60. O que é que o Kirby e o Lee andariam a ler e a tomar para ter ideias destas?

As histórias de Silver Surfer são sempre aventuras de incompreensão. Não por acaso o seu arqui-inimigo é Mefisto, um demónio dominador que utiliza enganos e ilusões como armas. A humanidade que tanto ama, ao ponto de sacrificar várias vezes a sua liberdade por ela, considera-o uma ameaça e recebe-o a tiro de artilharia ou caça-o com aviões de combate. Por muita amargura que Silver Surfer sinta, a consciência da bondade humana elementar nunca o abandona. Imensamente poderoso, resiste a usar toda a sua força para enfrentar aqueles que vê como seres equivocados. Apenas alguns dos seus pares, super-heróis todo-poderosos, o conhecem e respeitam. O grupo não é grande. Fica-se pelo Quarteto Fantástico e o Doutor Estranho. Silver Surfer sempre foi demasiado icónico e unidimensional para se tornar um personagem de primeira linha da Marvel.

The Definitive Silver Surfer não é um compêndio do personagem. Reúne algumas das suas melhores histórias, dando-nos uma imagem que caracteriza o personagem. Começamos pela primeira aparição nas páginas de Fantastic Four, onde estes enfrentam a ameaça cósmica de Galactus e Silver Surfer se sacrifica. Da sua revista original é reimpresso o primeiro número, um delírio do traço de ficção científica de Jack Kirby, que nos leva a Zenn-la, o seu planeta de origem e nos apresenta ao seu inabalável amor, a bela Shalla Bal. O rigoroso humanismo e persistência do personagem são postos em evidência por confrontos contra um enraivecido Hulk, o insidioso Mefisto e o horror de Drácula. A primeira fuga bem sucedida à barreira que o prende à Terra, ajudado pela super-ciência de Reed Richards, confronta-o com as consequências da sua decisão ao encontrar os sobreviventes de Zenn-La após Galacutus o ter devastado, desobrigado da sua promessa pela rebeldia de Silver Surfer. Para terminar, temos a marcante parábola que uniu duas lendas dos comics. Stan Lee descreve um futuro amargo onde Galactus, vingativo, regressa à Terra para influenciar o pior da alma humana no caminho da auto-destruição e apenas o discreto mas sempre vigilante Silver Surfer lhe resiste. Moebius ilustra, naquela que ficou registada como uma das mais lendárias incursões do mestre da BD francófona no mundo dos comics.

Silver Surfer é um dos mais intrigantes personagens do universo Marvel. De convicções inabaláveis, vítima de um estilismo algo stürm und drang romântico, hiperbólico na sua dignidade e perserverança, e com o toque psicadélico dado pela referência ao poder cósmico, nunca atingiu a popularidade das personagens mais icónicas mas tem presença suficiente para não se tornar secundarizado. Esta mistura de surf, psicadelismo e emoções, continua hoje a deslumbrar os fãs com as suas aventuras pelo cosmos fora, que sulca sempre equilibrado na sua fiel prancha.

TIC em 3D na Lisbon Mini Maker Faire


A Lisbon Mini Maker Faire é o primeiro evento do género a ser realizado em Portugal. Reúne makers das mais variadas áreas, da robótica à impressão 3D e outras tecnologias experimentais. O Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro também estará presente, divulgando o trabalho dos nossos alunos do domínio da modelação e animação 3D. Venha visitar-nos!

Para além dos trabalhos dos nossos alunos poderá ainda ver e experimentar riftcycles de realidade virtual, drones, aplicações de tecnologia de ponta, robótica, picosatélites e espectáculos de bobines Tesla, entre outras aplicações que misturam tecnologia com arte, investigação e criatividade. O evento irá decorrer no Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva de 19 a 21 de setembro, sendo que os melhores dias para o grande público são 20 e 21. A entrada na Maker Faire requer bilhete/registo gratuito, que pode ser feito antecipadamente online no EventBrite-Lisbon Mini Maker Faire ou no local. Para saber mais, visite: Lisbon Mini Maker Faire, EventBrite - Lisbon Mini Maker Faire, Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva3D Alpha.

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

MOTELx 2014


Já na sua oitava edição (bolas, como o tempo voa), o MOTELx continua a afirmar-se com um excelente festival de cinema de terror, ainda mais precioso para aqueles que, por motivos laborais, não podem ir ao clássico Fantasporto e ficam por isso muito contentes com ter um festival destes por Lisboa. Tive sorte, ou pontaria, com os filmes que escolhi ver na edição deste ano. Se do ano passado apenas recordo dois filmes interessantes, A Promessa de António de Macedo e Lords of Salem de Rob Zombie, este ano todos os filmes que tenho visto são interessantes. Mesmo o mau filme da secção Quarto Perdido, que funciona como uma visita referencial à pequena história do cinema português de género. As escolhas pontuaram-se por critérios tão rigorosos como visitar referências históricas em  Society de Yuzna ou O Cerro dos Enforcados, descobrir filmes novos (Witching & Bitching, Open Windows), ir ao acaso para acompanhar amigos e até ter uma boa surpresa (Life after Beth) e, enfim, porque é de rigueur,  alinhar no cerimonial do encerramento do festival (Stage Fright) e ficar encantando com a sala apinhada do S. Jorge. Quem a conhece sabe que é uma sala de cinema à antiga, daquelas onde cabem pequenas multidões.

É sempre bom ver o S. Jorge cheio de fãs e participar nesta celebração anual do filme fantástico. Para o ano haverá mais. E esperemos que o investimento da secção Quarto Perdido em mais vertentes do que as cinematográficas na recuperação da memória do fantástico em Portugal se mantenha.

Society: Um clássico do body horror, este primeiro filme de Brian Yuzna é gloriosamente medíocre daquela deliciosa forma que só nos anos 80 seria possível. Más actuações, um festim de roupas e penteados que foram moda na delirante e felizmente distante década de 80. A história mistura inadaptação adolescente com elites conspiratórias que sugam num sentido muito literal os mais pobres. A melhor frase do filme? "I'm not paranoid, my fears are real." Termina com um festim orgiástico de carnes que se dissolvem e indivíduos que se mesclam enquanto sugam as carnes das vítimas. Se o vampirismo é elegante o sugar é repelente. Os efeitos especiais das cenas finais são surpreendentes pela qualidade.

Life After Beth: Confesso que ando sempre a fugir aos filmes de zombies nestes festivais. É que já não há paciência. Há para aí uns dez anos atrás achava-os interessantes. Delirei com o remake do Dawn of the Dead pelo Zack Snyder, redescobri com gosto a saga de Romero e ia-me divertindo com as zombie fanfics do homepageofthedead. E depois a coisa rebentou no mainstream, começaram a chover filmes do género, a coisa alastrou para a BD, romances, televisão e blockbusters. O problema é que normalmente quem vê um destes filmes vê-os a todos. O racismo fóbico implícito no gosto pelo decapitar ou rebentar com os miolos de hordes andrajosas que querem destruir a bucólica normalidade pequeno-burguesa esgota-se depressa. E, por favor, assumam lá que Walking Dead é uma banal telenovela com cadáveres putrefactos aos tombos. Quando descobri que este filme era de zombies, bolas, pensei logo. Mas a supresa é boa. Ao invés de seguir o caminho habitual de catástrofe apocalíptica segue uma estética de filme indie com diálogos de sitcom. Está mais próximo de Shaun of the Dead do que de Dawn of the Dead. O foco do filme está no drama do jovem protagonista, cuja namorada morre mas, misteriosamente, regressa à vida sem se recordar. Sabemos que se trata de uma epidemia de zombies, mas os personagens não. Entre os pais protectores e os assomos românticos de toque necrófilo a decadência vai-se acentuando e o bom humor do filme também. Já alguém selembrou de fazer um filme romântico com zombies, para mal da humanidade, mas esta zom-rom-com até acaba a funcionar muito bem. O que mais se aprecia no filme é a subtileza. Os mortos vão reaparecendo mas como todos estão demasiado absorvidos nas suas vidas nem estranham. O melhor é quando os personagens estão a discutir os seus dramas pessoais, no inimitável estilo de cinema indie de toque autobiográfico, enquanto ao fundo tiros dispersos ou explosões fazem notar que talvez as coisas estejam a descarrilar.

O Cerro dos Enforcados: No reduzido panorama do cinema fantástico nacional, qualquer obra antiga ganha interesse pelo simples facto de existir. À partida, este filme realizado por Fernando Garcia até prometia. Clássico a preto e branco dos anos 50, baseado num conto de Eça de Queirós, com um cuidado notável nos cenários que nos transportam para o Portugal medieval. O décor acaba por ser mesmo o mais interessante do filme, reflectindo a visão romantizada da idade média propagandeada pelo estado novo. O mesmo estilismo que infecta o padrão dos descobrimentos, as celebrações medievas da exposição do mundo português ou a estátua de Afonso Henriques em Guimarães é o que caracteriza os cenários e vestuário do filme, se bem que o matte painting não se esforça muito por ser realista. Mas estas imperfeições dão aquele encanto aos filmes de terror que tanto atrai os cinéfilos. A história é interessante, com um nobre ciumento, uma dama vitimizada e um garboso cavaleiro a formar um muito púdico triângulo amoroso, que um enforcado ao serviço de uma santa irá salvar. O que descarrila e torna quase insopurtável o filme é o estilo de representação, obsoleto já na época em que foi filmado. Os actores não representam, declamam com ímpeto as falas num português elaboradérrimo enquanto assumem poses hieráticas. Nem o zombie/enforcado se safa. Nunca vi criatura do além tão eloquente, articulada e gramaticalmente erudita. Estátuas com voz off fariam o mesmo efeito, até nas imóveis cenas de acção. O filme é mau, são duas horas de bocejo contínuo e ditos eloquentes. Parece que após este filme a produtora faliu e o realizador nunca mais voltou a filmar. Não admira, e creio que também tão houve grande perda. Foi visto pelo que é, uma referência histórica do cinema nacional de género. Algo que, como já observei, é tão raro que até um mau filme se torna intrigante.

Open Windows: A sinopse apelidava este filme do espanhol Nacho Vidalongo de "janela indiscreta do século XXI". Talvez o comparar com um clássico de Hitchock seja exagero, mas a ideia é certeira. A história tem um ritmo alucinante de plot twists em sucessão rápida, mas é no tema e na estética que o filme se torna realmente num hino visceral ao voyeurismo. O conceito de uma actriz seguida e envolvida numa trama complexa com hackers black e white hat acerta em cheio no hipervoyeurismo mediatizado das celebridades. Mas é na estética que o filme deslumbra, apostando num registo hipermoderno onde o ecrã cinematográfico se desmultiplica em múltiplas janelas, misturando imagem real com janelas de programas e fluxos de vidovigilância, chegando até à reconstrução do real em visão computacional a partir de múltiplos pontos de vista capturados por uma infindade de lentes, algo que visualmente funciona como um quadro cubista em movimento.

Witching & Bitching: Alex de la Iglésia dispensa apresentações como um dos grandes cineastas de terror espanhol. O seu mais recente filme não segue, no entanto, o susto visceral como caminho. A estética do horror está lá, entre o suspense e o gore, mas o objectivo é fazer rir os espectadores. O que resulta num filme diveritdo, a brincar com os problemas dos homens e das mulheres com um grupo de criminosos desastrados a envolver-se com um bando de bruxas muito à antiga nos vales tenebrosos do país basco. Visualmente espantoso, cheio de momentos de delírio surreal, mas a deixar uma certa sensação de humor forçado. O toque genial está na criatura adorada pelas bruxas. Não um fálico satã, ou uma elegante súcuba de estonteante beleza, mas uma vénus pré-histórica, gloriosa no grotesco das suas carnes volumosas. Belíssimos efeitos especiais, horrores a fazer rir e uma mestria assinalável no jogo de equilibrismo com os ícones e lugares comuns do género e o inevitável toque de Goya no momento fulcral.

Stage Fright: Nisto das sessões de encerramento a minha referência está no ano em que o perturbador e violento American Mary reduziu ao silêncio a plateia do S. Jorge. É difícil repetir um momento desses. O filme que encerrou o festival este ano seguia por outros caminhos, que se têm vindo a fazer notar nas várias edições do MOTELx. A abordagem ao terror segue com profunda ironia e bom humor. Stage Fright pode ser descrito como um cruzamento entre os slashers clássicos dos anos oitenta com psicopatas de facas afiadas à solta em acampamentos de jovens e as comédias musicais delicodoces ao estilo de Glee. Aliás, sendo preciso, se se misturar Glee com Friday the 13th com pitadas de Scary Movie, Phantom of the Opera e uma piscadela de olhos a Carrie já transmito a noção do que é este filme musical de terror. Sim, leram bem, um musical que ironiza a estrutura narrativa do género de filmes e séries em que um grupo de inadaptados se sublima através da música e dos palcos com doses fortes de terror gore que também ironiza as tropes do género.

Aproveitar o MOTELx para uma dose forte de filmes de terror tornou-se uma espécie de ritual pessoal de arranque de ano lectivo. Enquanto o sangue e as vísceras escorrem no ecrã vou-me lembrando da absoluta normalidade do dia seguinte. Pessoalmente acho que é uma excelente forma de carregar baterias mentais antes de um novo ano de aulas.

Comics


East of West #15: Boa questão. Haverá realmente diferença entre o real e uma sua simulação de elevado rigor? O weird wild west de Hickman parece estar a ser levado a uma inexorável e catastrófica conclusão, ou pelo menos a um ponto de viragem na série. Suspeita-se que o confronto final entre as nações da américa, os cavaleiros do apocalipse, a morte e o senhor da destruição final se aproxima. Sendo Hickman, será certamente algo de profundo e cósmico. E por muito que se goste das bizarrias dos mundos ficcionais do argumentista, é bom vê-los terminar,levados à conclusão lógica, e não arrastarem-se e perder o interesse em série sem fim.


Captain Marvel #07: O tom de space opera bem humorada continua com uma nova aventura em modo cats are evil. Parece que a gatinha que a Capitã levou consigo para o espaço é afinal uma perigosa alienígena que acabou de pôr ovos de criaturas felinas de garras afiadas. E os companheiros querem resgatá-los. Ou não. Será a gata da Capitã uma praga alienígena? Conseguirá a Capitã salvar-se a si, à nave, ao irascível Rocket Racoon e à teenage sidekick  que se lhe colou no final da aventura anterior? Bem, saber isso não é assim tão importante quanto isso. Há melhores comics a serem editados. Mas no alinhamento habitual da Marvel este anda a destacar-se pelo bom humor e pela elegância da ilustração. Quase torna a personagem principal um pouco menos sexualizada...


Anihilator #01: Grant Morrison deve imaginar-se muitas vezes a teclar visceralmente frente ao processador de texto, urdindo enredos inacreditáveis e rodeado de meninas jeitosas em trajes inexistentes. Mas a mistura de uma casa assombrada, um argumentista cheio de vícios e em trajectória descendente, um tumor cerebral inoperável e o transvasar do ficcional para o real quando uma das suas personagens parece ganhar corpo, promete um daqueles delírios imparáveis que fazem o estilo de Morrison.


Wild's End #01: Encantadora, esta nova série da Boom! Studios. Dan Abnett canaliza a anglicidade da fábula infantil numa mistura entre Wind in the Willows e War of the Worlds enquanto o traço inimitável de Culbard consegue aquela mistura de fantástico quase abstracto que mostra que não é preciso ser hiperreal para despertar a imaginação dos leitores. Numa idílica aldeia inglesa do princípio do século XX a normalidade da vida local e das suas comissões de festa de província é abalada por indelicados artefactos caídos do céu que insistem no desagradável comportamento de incinerar os animais antropomórficos com que se cruzam. Uma prometedora série infantil, com aquele toque britsh clássico que é tão apreciado.

domingo, 14 de Setembro de 2014

Estilo internacional




Uma Lisboa que se sonhou moderna e cuja arquitectura de estilo internacional envelhece com charme. Por entre a Avenida Estados Unidos da América e o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian.

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Red Plenty


Francis Spufford (2010). Red Plenty. Londres: Faber & Faber.

A história não é só feita de factos, dados e estatísticas. É também, ou primordialmente, composta pelas histórias de quem viveu nas épocas passadas. Para melhor se compreender os tempos que já foram, não chegam relatos de feitos épicos ou análises às correntes que fazem mover as engrenagens da evolução histórica. As histórias, o que foi sentido por quem noutros tempos, é o elemento que confere humanismo à visão do passado. É isto que torna interessantes, por exemplo, as histórias orais, memórias da percepção daqueles que foram levados pelas enxurradas da história. Mas neste Red Plenty o passo é outro. Trata-se da história das tendências, factos e dados contada através de relatos que misturam ficção com facto histórico. Uma história real contada como um romance ficcional, misturando personalidades reais com personagens fictícias que encarnam tipologias de indivíduos.

Red Plenty olha para uma época de viragem na história da antiga União Soviética. Nos anos 50, findo o estalinismo, vitoriosos da II Guerra, após todos os sacrifícios e atrocidades cometidas em nome de um desenvolvimento industrial acelerado, a economia soviética parecia estar finalmente capaz de dar aos cidadãos o tão prometido paraíso proletário. A diminuição das privações, o elevar do nível de vida, o acesso a comida e bens de consumo sem necessidade de enfrentar filas de distribuição ou anos de espera pareciam, finalmente, possíveis. Spufford, através das suas histórias que se baseiam em factos e dados históricos, mostra-nos como a combinação de burocracias, ineficiências induzidas pela hiperbólica rétorica de agrado ao partido dominante, ideologias obscurantistas que impediam desenvolvimento científico e tecnológico em áreas chave da ciência e tecnologia, baixo nível de qualidade de uma produção mantida artificialmente elevada para cumprir objectivos estatísticos, e políticas de preços indutoras de pobreza real nos níveis de base da economia se aliaram à competição militarista com o ocidente para travar a utopia e transformar a sociedade soviética no monolitismo cinzentista que caracterizou as suas décadas finais.

Essencialmente, Spufford mostra-nos a insanidade de centralizar, sistematizar e planificar todo um complexo sistema económico como se de uma máquina bem oleada se tratasse. Ficam de fora os factores humanos e os imponderáveis. Alguns dos momentos mais hilariantes do livro contam-nos as elaboradas sabotagens provocadas pelos gestores das fábricas para culpar nas avarias ou defeitos de equipamento a incapacidade de cumprir as metas impostas pelos gabinetes de planeamento central. Spufford também captura os tempos de maior abertura no pós-estalinismo de Krushchev, com um retrato preciso deste colorido líder soviético, e o resvalar para o sufoco ideológico dogmático das eras que se seguiram.

O livro retrata a ciência, a economia e a política, mas fá-lo de forma brilhante através de pequenas histórias que nos levam dos escalões mais humildes à estratoesfera do regime soviético. Termina com uma nota amarga, com Spufford a citar um Krushchev deposto pelo comité central e exilado para uma luxuosa dacha a reflectir que "‘Paradise’, he told the wheatfield in baffled fury, ‘is a place where people want to end up, not a place they run from. What kind of socialism is that? What kind of shit is that, when you have to keep people in chains? What kind of social order? What kind of paradise?’" Frases reais, utilizadas num contexto ficcional que sublinha o falhanço da utopia soviética.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Ficções


Desde la Tierra más allá del Bosque: Há aqui um certo ar de transgressão de propriedade intelectual neste divertido cruzamento entre Sherlock Holmes e Drácula. Martinez leva-nos ao dealbar do século XX, com Sherlock e o seu fiel companheiro Watson a depararem-se com um tétrico mistério onde um aristocrata britânico morre em circunstâncias suspeitas mas após o funeral é visto durante a noite pelas ruas de Londres. Um àparte: esta questão de Watson como fiel companheiro de Sherlock é sugerida por Martínez em níveis de companheirismo que empalideceriam Conan Doyle. Mas apenas sugerida. Entretanto, o Doutor Seward, proto-psiquiatra do romance de Bram Stoker, regressa às terras da Transilvânia para participar num congresso de alienistas e, movido pela curiosidade, decide visitar as ruínas do castelo de Drácula. Aí apercebe-se que afinal a tremenda luta sua e dos seus companheiros não conseguiu eliminar de vez o decano dos vampiros, que voltou a adquirir forma corpórea e regressa a Londres com nefandos propósitos.

A partir daqui já se está mesmo a ver por onde vai andar esta história. É uma mescla divertida dos mundos  ficcionais de Stoker e Conand Doyle. Temos Holmes todo contente por encontrar em Drácula um adversário à sua altura, algo que não sucedia desde o desaparecimento do Professor Moriarty, o habitualmente panhonha Inspector Lestrade a ser... panhonha, e Watson como fiel cronista. E temos o imortal vampiro, imune às estacas e decapitação graças a uma arcana capacidade de eliminar espíritos vivos e manter os agora catatónicos corpos como receptáculos vazios para refúgio em caso de necessidade extrema, perseguido pelo impiedoso Van Helsing e com Seward a relatar no estilo diarista do romance. Este é um dos bons pormenores desta novela. Martínez replica as vozes de narrador interveniente de Conan Doyle e de fragmentos diaristas de Stoker conseguindo um todo coerente. Uma interessante proposta de literatura fantástica espanhola, disponível e gratuita na editora digital Sportula.

Dariya: Uma notícia no portal Europa SF a dar conta dos nomeados para o prémio Ignotus 2014 levou-me numa busca pelos textos escolhidos. O prémio é o equivalente espanhol dos Hugos, com categorias nas vertentes romance, novela e conto a distinguir autores espanhóis e internacionais. Ler os contos nomeados revelou-se tarefa difícil. Ou o meu google-fu anda em baixo, ou não há versões publicadas online. Parece que só nas antologias em papel é que estes podem ser lidos. Apenas consegui ler este Dariya, de Nieves Delgado, que surpreendeu pela elegância literária de um conto que homenageia Asimov e as suas histórias de robots. A autora estrutura a narrativa tal como Asimov o faria, concentrando-se num possível paradoxo induzido pelas leis da robótica, e no processo vai revelando a sua visão de futuro num elegante infodump que nos deixa a imaginar avançados andróides de cérebros positrónicos. Só o final se afasta do espírito asimoviano, com uma revelação chocante sobre a percepção individual do que é real que remete para a paranóia de P. K. Dick. O paradoxo que desperta a narrativa é a incompreensível inação de uma andróide avançada, quase indistinguível de um humano, ao assassínio do presidente americano. Detida para averiguar se violou ou não a primeira lei da robótica, acaba por revelar que não necessitava de ter agido para salvar o presidente porque este também era um andróide. Um intrigante mas previsível plot twist, que encerra na perfeição com a revelação que o engenheiro cibernético, programador de cérebros positrónicos, a quem foi dada a tarefa de interrogar a andróide também não é humano. Fica no ar a suspeita. No mundo deste conto será que já não há humanos, substituídos por máquinas que esqueceram a sua origem artificial através de amnésias induzidas? Conto intrigante, bem escrito, um pequeno vislumbre da forte comunidade editorial de ficção científica espanhola, cujo carácter vibrante se mostra através destes prémios e do trabalho de editoras e clubes literários regionais, um pouco por toda a Espanha.

A Benção da Floresta: O que encanta nos contos de Carina Portugal é uma certa ingenuidade infantil que se traduz em fábulas que mesmo que sejam negras descaem-se sempre para um deslumbre mágico com os mundos de sonho permitidos pela fantasia. É muito o caso deste conto, variante da antiquíssima estrutura narrativa do amor que quebra barreiras e maldições, aqui revisto através de um caveleiro abrigado por uma árvore enquanto atravessa uma floresta na neve, árvore essa que se revela uma donzela cujo amor pelo cavaleiro lhe irá permitir regressar à humanidade. Lê-se como uma bem escrita e deliciosa fantasia romântica adolescente.

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

O Nome Dela é Claire


Ross Pynn (1983). O Nome Dela é Claire. Lisboa: Europress.

É à custa de livros destes que Roussado Pinto ficará como uma infame nota de rodapé nas letras portuguesas. Nota, note-se, porque o elevado e rarefeito meio literário só a muito custo reconhece o gosto e o valor da literatura de género e quando o faz, é em nota de rodapé. Se é verdade que se encontra muita leitura medíocre, e que os constrangimentos da escrita de género assustam os altos literatos, é de notar que é existem pérolas da má literatura, exemplos de prosa atroz que contrariam o expectável e são leituras interessantes. Este romance policial é um típico caso destes.

O fio narrativo é de uma simplicidade extrema. Um assassino é recrutado por uma agência governamental secreta para eliminar uma espia soviética que está a ser bem sucedida no tráfico de segredos de estado para Moscovo. Mas desenganem-se se estão à espera de uma aventura gelada ao estilo de Le Carré. Pynn produzia a metro hard boileds sórdidos e neste há poucos limites que não ultrapasse. Começa por Mack, personagem principal cujo nome me faz pensar no clássico de jazz Mack the Knife. Se bem que este Mack é mais fã de tesouras do que de navalhadas e é condenado a fritar na cadeira eléctrica por ter arrancado as gargantas da mulher e da mãe à tesourada. É só uma questão de saber cortar no sítio certo. A descrição da antecipação dos mortais choques electrizantes é um sublime exemplo de grand guginol, que termina com o nosso anti-herói a acordar dentro de um caixão. O modo de recrutamento da agência secreta obrigava ao simular da execução de forma tão perfeita que apenas o médico legista, co-conspirador, sabia que não iria matar o condenado.

A ligação de Mack à agência liderada por um obscuro Fury (ligar a Nick Fury Agent of Shield é algo que me parece muito duvidoso, não entremos por aí) passa por uma mulher fatal, também ela uma condenada salva da cadeira eléctrica. É a Claire que dá o nome ao romance, por quem Mack se apaixona. Ou aliás, sendo mais correcto. Pynn cria um casal de obsessões sexuais fetichistas. A paixão aqui é algo de sórdido. Nestes livros o romantismo clássico arrepia-se de medo e foge a sete pés. Pynn até mete a meio umas cenas de voyeurismo com um velhote dono de um hotel rasca que se chateia com os seus hóspedes por achar que tem todo o direito de espreitar pelas fechaduras e gozar o espectáculo das suas proezas sexuais. Que no caso de Mack terão sido tão de excelência que o hoteleiro lhe dá o privilégio de ter toalhas limpas à disposição sem ter de pagar mais.

Para ajudar à festa Pynn retrata um personagem com sérios problemas psiquiátricos, ou, como coloca na sua prosa inimitável, "a sofrer do bestunto". Sempre mergulhado no seu sadismo interior, obcecado com a opressão da figura maternal, intepreta a realidade sob um prisma muito distorcido. Acaba por se tornar um retrato intrigante da forma como um psicopata vê o mundo. Quase me atreveria a dizer que há aqui um toque do mesmo gosto em questionar a percepção do real através da psicologia de P. K. Dick, mas os caminhos e os destinos são diferentes. Pynn quer chocar o leitor, porque sabe que é isso que o estimula a continuar a leitura. Ter um psicopata assassino salvo da cadeira eléctrica com obsessões doentias e um gostinho especial pela aplicação de tesouras a goelas é um desses elementos de choque.

A missão de Mack é eliminar uma agente soviética, Liliana Tovarich, que se integrou na sociedade americana como grande figura do feminismo, apregoando a inutilidade masculina e a necessidade de supremacia feminina. Leram bem. Tovarich. Que nome tão apropriado para uma espia russa. E sim, leram bem. A vilã oculta-se sob um disfarce feminista. É uma pequena amostra do nível estratosférico de misoginia deste livro. Retratar o feminismo como hipocrisia é um ataque menor num livro onde abundam cenas de sumbissão feminina à masculinidade do herói. A de mais perfeita misoginia é aquela em que Mack espanca Claire e esta, sorrindo em êxtase, confessa que nada mais a satisfaz do que um homem que saiba pôr a mão numa mulher. Comentários destes nos dias hoje deixariam um autor em sérios sarilhos na praça pública, a menos que seja escritora de romances eróticos em tons de cinzento. Note-se que não estou a defender a misoginia deste livro. Percebo-a como elemento de ficção escapista destinada a um público masculino que gosta de ser titilado com descrições próximas da pornografia sado-masoquista enquanto se revê na nostalgia da superioridade machista e sonha com aventuras arriscadas onde a coragem do homem triunfa contra todas as adversidades. A misoginia de Pynn, que já notei com outros contornos em "So Long" Jim, lê-se como a xenofobia de Lovecraft. Um defeito a apontar que não retira qualidade ao autor.

Leia-se qualidade de forma muito livre. Roussado Pinto era um consumado batedor de textos a metro, capaz de pegar nos mais sórdidos lugares comuns e urdi-los numa teia ritmada em livros para consumo imediato. Não estamos a falar de nenhum grande escriba, mas de alguém que apesar da prosa descuidada e estereotipagem dos temas até se consegue safar com livros divertidos. O que atrai em Pynn é o ter-se atrevido a levar aos limites uma prosa arriscada que não tinha grandes objectivos para além de vender livros brochados, nem quaisquer pretensões literárias. A malta gosta, a malta compra, o homem escreve e o livro vende-se, lê-se e depressa é posto de lado para se ler o próximo prazer culposo de sordidez sado-erótica em aventura policial dura.

A história termina mal. Nenhum dos personagens sobrevive. Claire sofre torturas sádicas às mãos da Tovarich que acaba atirada por Mack da janela depois deste lhe espetar um bisturi no olho. Cena descrita com todos os requintes sangrentos que poderíamos esperar. Pensem num Cão Andaluz de Buñuel cheio de gore. Mack cai sob as balas da fiel ajudante da espia, mulher sem filhos que se encantou quando Mack a confunde com a sua mãe.

Romance perverso e pervertido, que puxa de todos os recursos imagináveis de sordidez, crime e sadismo para chocar o leitor, O Nome Dela é Claire é um refinado exemplo de exploitation literária. Um tipo de livro difícil de imaginar no panorama literário português, e talvez só possível no momento de explosão das liberdades que se seguiu à queda do regime fascista. Se bem que aqui confesso o pouco conhecimento que tenho das datas de publicação original destes livros tão risqué, talvez ainda uma válvula de escape de necessidades libertárias dentro do obscurantismo estado-novista. A edição que tenho é uma reimpressão pela Europress nos anos 80 de obras que já foram reimpressas nos anos 70, pelo que consegui descortinar. O que fica é a surpresa destas obras de um bom péssimo escritor, algo que os bibliófilos sabem muito bem que não é paradoxo nenhum.

terça-feira, 9 de Setembro de 2014

"So Long" Jim


Ross Pynn (1982). "So Long" Jim. Lisboa: Europress.

Sim, maus livros também existem. E são tantos, como os bibliofagos mais experimentados bem sabem. A maioria são indigestos e bocejantes crimes contra a natureza, tristes desperdícios das árvores que foram abatidas para produzir o papel em que foram impressos. Felizmente, hoje, o papel recicla-se. Mas nem todos os maus livros são desperdício. Há literatura que se assume como má, focalizada na repetição formulaica de estruturas narrativas de leitura prazeirosa. Prazeres culposos, é certo, mas mesmo assim prazeres. Sabemos ao que vamos quando abrimos um desses livros. Não esperamos surpresas, apenas algum esforço do escritor em contar uma boa história que entretenha um bom par de horas. E nada mais. E porque não? No cerne de toda a literatura está o acto de partilhar uma boa história. A curiosidade e a capacidade narrativa são o que atrai leitores da Odisseia a Ulisses, das ficções de género mais banais às experiências estéticas hipermodernas.

Roussado Pinto não terá lugar no grande cânone das letras portuguesas, mas foi um prolífico autor de maus livros numa época onde eram publicadas colecções de literatura de bolso a baixo custo. Pulps, à portuguesa, de capas provocantes e conteúdos titilantes a tentar leitores nas bancas de jornais. Algo que com a evolução dos consumos mediáticos desapareceu de todo, mas deixou marcas na história das ficções de género. Os fãs de ficção científica reconhecem a importância da colecção argonauta, apesar das suas más traduções, e o gosto pelo policial foi durante décadas alimentado por inúmeras colecções de livros de bolso que hoje ainda se encontram facilmente em feiras do livro, alfarrabistas ou feira da ladra. Um pormenor interessantes destas edições, que a Argonauta nunca seguiu, foi o terem misturado autores portugueses com os anglo-americanos e francófonos. Se bem que normalmente a escrever sob pseudónimo estrangeirado sonante. Sintomas daquela velha desconfiança lusa sobre o produto cultural nacional e o deslumbre pelo que vem de lá de fora. A ombrear com Spillane e Simenon encontravam-se nomes intrigantes como McShade ou Pynn, pseudónimos de autores especialziados em escrever a metro para estas colecções.

Roussado Pinto ficou imortalizado como Ross Pynn, escritor de policiais hard boiled ou westerns implacáveis. Como as colecções de FC só apostavam nas traduções de qualidade duvidosa de autores americanos e ingleses Pynn nunca escreveu histórias de aventuras no espaço, mas se o fizesse algo de divertido iria surgir. Também meteu a máquina de escrever no horror erótico com as mirabolantes aventuras de Zakarella, cópia mal disfarçada e mais desnuda de Vampirella. São histórias tão más e mirabolantes que têm de ser lidas para se acreditar que alguém as escreveu.

Este carácter transgressor é um dos pormenores curiosos deste género de livros, editados nos tempos opressivos do regime do estado novo e que por serem meros policiais escapavam à censura, que lhes dava pouca ou nenhuma importância. Zakarella já espelha o espírito libertário pós-25 de abril mas o grosso desta literatura descartável que chocava para atrair leitores e os libertar dos seus tostões de Pynn e outros autores similares foi publicada no regime ditatorial. No fundo, forma inócua de escape ao sufoco ideológico e cultural, pequenas transgressões às leituras próprias da moral e bons costumes que deixam sentimentos de culpa e prazer.

"So Long" Jim é um personagem de westerns, um género outrora popular que hoje caiu em esquecimento. Confesso que me recordo de, nos anos 80, me chegarem às mãos pequenos livrinhos de capas provocantes e histórias empolgantes sobre os feitos aventurosos de cowboys no velho oeste. Era mesmo muito novo, note-se. Hoje, com as leituras de género firmemente estabelecidas nos campos do romance, fantasia, ficção científica e policial tenho a sensação que ninguém se lembra do antigo sucesso das cobóiadas literárias. O que até faz sentido, se olharmos para a cultura popular como um todo e recordarmos a perda de importância deste género no cinema após a saturação de filmes dos anos 50 e 60, desde os grandes clássicos de Hawks e Peckinpah à máquina de fazer filmes da Cinnecittá com os seus western spaghetti onde o Colorado e a sierra Nevada ficavam ali para os lados da Andaluzia ou Sicília.

Pegamos num livro destes e pouco esperamos dele, mas Roussado Pinto dá-nos um western tão hard boiled que quase está carbonizado. A história é linear, previsível e cheia de personagens de nula profundidade. Temos o que esperamos. O pistoleiro imbatível aparentemente amoral mas com consciência, terror dos piores facínoras e paixão das mulheres que viviam no duro velho oeste. As mulheres, enquadráveis nas categorias "mulher perdida cheia de vícios", "mulher de vida dificil mas bom coração que sobrevive nos saloons e bordéis" e "mulher de espírito rijo capaz de prender um homem à terra", e sempre descritas como de estonteante beleza. Os bons, pobres homens que se esforçam para obter parcos rendimentos numa terra inclemente, e os maus, homens que não olham a meios para enriquecer à custa dos outros. Homens que matam, que lucram com os vícios, e que detém o poder à força da intimidação.

So Long Jim é um estereótipo do cowboy nómada, hábil com a pistola, cujos valores ocultam uma moralidade firme, que vagueia de terra em terra cruzando-se com aventuras em que se vê obrigado a intervir, com resultados sangrentos. Nesta aventura, primeiro dos dois livros onde surge o personagem, Jim chega a uma cidade sem lei dividida entre dois homens sem escrúpulos. Samuel Benedict é um implacável criador de gado que não olha a meios para expulsar os restantes criadores dos seus ranchos e construir um império latifundiário. Emmett McDermett é o cacique local de uma cidade sem lei, dono de todos os negócios que se alinham na rua principal ladeada de barracões. E sim, amantes das leituras risquè, deliciem-se a entaramelar a língua com este Emmett McDermett, também conhecido como o vilão tttt (e sim, esta expressão aparece várias vezes no livro). O resto é o que se espera. So Long Jim cruza-se com ninfomaníacas, mulheres caídas em desgraça, pacatos rancheiros levados à loucura pela violência dos homens a soldo e acaba por eliminar com elevado prejuízo os vilões, limpando a cidade antes de partir solitário em direcção ao sol nascente. É o pormenor final do livro, que inverte o habitual cowboy ao so poente, que termina com um sorriso este perfeito pastiche.

O que sobressai da leitura é que de facto a aventura está bem escrita, apesar de uma prosa cheia dos piores estereótipos da literatura pulp. Sim, há másculas descrições de cowboys mal cheirosos. Sim, há deliciosos diálogos de violência. Sim, há descrições lúridas onde mulheres atraentes se libertam ao abandono nos másculos braços do herói. Imaginem milhentas cenas dos mais banais filmes do velho oeste passadas ao papel com descrições austeras e conseguem fazer uma boa ideia da narrativa descritiva do livro. Mas a verdade é que a linha narrativa é implacável e o ritmo de encadeamento obriga a uma daquelas leituras de virar compulsivo de página. Lê-se de uma só assentada, e não surpreende que seja assim. Foi escrito com esse propósito. Representa ao mesmo tempo o melhor e o pior da literatura de género. A repetição de temas, as personagens unidimensionais, o baralhar de iconografias banalizadas, assentes numa linha narrativa bem ritmada que conduz o leitor naquilo que é apenas uma boa e divertida história, contada sem pretensões de classicismo literário.

segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

Comics


The Death-Defying Doctor Mirage #01: A nova série da Valiant está com um arranque promissor. Uma medium discreta mais poderosa do que aparenta. Um milionário de passado tenebroso, segredos inomináveis e um castelo trasladado para a cave da sua mansão. Um contrato perigoso que envolve descer ao perigoso mundo das almas dos falecidos, mais arriscado do que as simples reuniões de velhinhas à espera de mensagens dos entes queridos no além. Sendo um comic da Valiant estamos perante o recuperar de um título esquecido, com uma variante contemporânea. Neste caso, o doctor mirage que dá o título é a esposa do personagem original, que apesar das suas capacidades de ocultista não consegue contactar o espírito do marido perdido no além. O tom narrativo do argumento é impecável, tornando elementos algo previsíveis numa história que desperta a curiosidade.


Moon Knight #07: É preciso coragem para se chegar à frente na condução de um título depois de seis números de um brilhantismo absoluto por Warren Ellis. Quando sair o trade tem lugar garantido nas minhas estantes. Brian Wood, também um peso pesado do futurismo tecnológico de utopias desilusórias, está encarregue da continuidade e conseguiu um equilíbrio entre o ritmo austero e implacável de Ellis e o seu estilo narrativo. Para começar, quebra o rigoroso espartilho gráfico da série, até agora de uma rígida horizontalidade cinematográfica, com tiras dinâmicas a puxar para o diagonal. Marca a diferença, mas mantém o ritmo bem batido e a narrativa fílmica que Ellis imprimiu ao título. Esta dualidade de vozes também se sente no estilo narrativo, a manter a secura das histórias anteriores mas dando já espaço a outro tipo de voz. As aventuras continuam auto-contidas, com finalizações muito satisfatórias. Como fiel fanboy, fico triste por ver terminada a época de Warren Ellis como argumentista de Moon Knight. Conseguiu transformar uma espécie de batman medíocre da Marvel num personagem forte e intrigante. Mas Wood traz consigo um outro pulsar da modernidade, amplamente demonstrado em séries marcantes como Channel Zero, DMZ ou The Massive. E nota-se. O Cavaleiro da Lua combate um soldado rebelde de forças especiais com camuflagem digital que não hesita em lançar um ataque de pulso electromagnético que deixa Nova Iorque às escuras para tentar eliminar um sanguinário ditador africano na véspera da sua recepção nas Nações Unidas. Não é Ellis, mas anda lá perto...


The Names #01: Peter Milligan a meter-se com a estética dos 1%. Começa com a morte violenta de um financeiro de Wall Street, cuja jovem e atlética esposa jura investigar e vingar. O lado kill bill é óbvio, sublinhado pela imagem de uma aguerrida vingadora sensual. Mas o que desperta o interesse é o vislumbre que Milligan deixa sobre o que causa os assassínios. Não se dá ao trabalho de pegar num mistério de tipo policial procedimental e assume logo a violência homicida. O porquê é deixado em aberto, mas parece envolver algoritmos financeiros que atingiram uma forma de inteligência e que vão fazendo experiências numéricas com a economia mundial. A matemática financeira como ameaçador espírito arcano. Milligan canaliza algo que todos os que estão do lado dos 99% sentem.

sábado, 6 de Setembro de 2014

Insta



Salvage and Demolition


Tim Powers (2013). Salvage and Demolition. Burton: Subterranean Press.

Bolas, que livros destes deixam-me com dor de cabeça. As viagens no tempo podem propiciar enredos convolutos e tortuosos, e esta novela de Tim Powers faz malabarismos com a não-linearidade. Tudo começa no presente, com um agente literário a tomar posse do espólio de uma escritora obscura, e a descobrir um manuscrito de tradução de um poema milenar que poderá invocar a não existência de um deus que se suicidou antes do início dos tempos. Confusos? Ainda piora. O nosso protagonista é contactado por uma velhota que se diz executora testamentária literária da escritora, e que só quer ver o manscrito destruído. O contacto físico com esta personagem leva o agente a dar um salto ao passado, onde o espera uma jovem escritora que lhe conta que esta primeira vez que se encontram é afinal a segunda, que horas antes ele havia-a salvo de raptores e tinham acabado a fazer amor enquanto escondiam o fatídico manuscrito. De regresso ao presente o agente literário é assaltado por um muito idoso homem com que já se tinha cruzado no passado e por um comparsa, que pelas suas contas poderá ser o filho da fugaz relação que teve no passado. Confusos? Ainda piora. O manuscrito é de existência difusa, pode ter sido ou não destruído durante estes saltos temporais, aliás, é destruído num salto do futuro ao passado que coincide com o momento em que o agente literário regressa ao passado mas que para a escritora é o primeiro encontro em que a salva. Terminamos com a revelação que a velhota que se diz executora do testamento literário é afinal a escritora obscura, que assumiu uma identidade falsa, e deixa uma mensagem de amor num livro de bolso que atravessa as décadas na caixa cuja chegada às mãos do agente literário despoleta toda a convoluta situação. Confusos? A prosa clara de Tim Powers guia-nos pelos tortuosos caminhos dos paradoxos temporais. Se Anubis Gates é um tour de force das narrativas de viagens no tempo, esta novela é uma complexa pérola tortuosa.

sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

The Second Machine Age


Erik Brynjolfsson, Andrew McAfee (2014). The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies. Nova Iorque: W. W. Norton & Company.

Suspeito que este livro seja o culpado pela recente explosão de interesse no impacto da automação/robótica no futuro do trabalho que temos assistido recentemente. Entre o relatório do Pew Internet Research, um vídeo alarmante no YouTube que despertou a atenção dos technorati e as inúmeras respostas e contra-respostas nos sítios do costume, algumas muito pertinentes. Será que o grosso da humanidade estará condenada à indigência enquanto a economia se mantém pujante e uma nova aristocracia enriquece com os frutos da riqueza produzida por exércitos de autómatos robóticos e de software inteligente? Este livro dá-nos respostas interessantes.

A primeira impressão que nos dá provoca sorrisos de utopia. Os autores mergulham na vanguarda da investigação e desenvolvimento, dando-nos um amplo panorama do estado actual da tecnologia. Levam-nos a visitar os automóveis autónomos da Google, os robots multi-funções programáveis da Baxter, analisam o impacto da inteligência artificial apoiada em bases de dados massivas, entre outras aplicações. Em seguida levam-nos ao lado assustador. O impacto sobre o trabalho como o concebemos  poderá ser devastador e os primeiros passos já estão dados. Parecem haver poucas áreas de intervenção humana imunes ou à substituição do trabalhador por um robot ou à automação por software. O incentivo económico para o fazer é muito elevado. A médio prazo os robots custam menos, não reclamam, trabalham 24 sobre 24 horas, não têm necessidades, não necessitam de salários e sistemas de saúde. A possibilidade de eliminação de postos de trabalhos é muito real, já em andamento, e uma inevitabilidade lógica sob o ponto de vista da eficiência.

O livro torna-se ainda mais interessante pela forma como os autores olham para esta problemática. Assumem-na como inevitável e até desejável, sob uma perspectiva humanista da libertação do espírito humano das tarefas rotineiras. Isto algo que tem estado presente na robótica desde que Hans Moravec começou a imaginar utopias futuras de uma humanidade em ócio servida por legiões de máquinas. No entanto, assumem a elevada importância do impacto no mundo laboral. Se, tal como noutras evoluções tecnológicas anteriores, a robótica criará novos tipos de trabalho e emprego não é claro que a médio prazo permitam aos novos excluídos recuperar a sua posição no mercado laboral. A possibilidade de criar um vasto desemprego estrutural é muito real. E, como os autores nos mostram, a solução não passa por restringir a tecnologia. É uma questão política e ideológica, que pode ser abordada revendo o conceito de trabalho, ou investindo em políticas activas de diminuição dos impactos. Sugerem algumas, como a existência de taxação negativa ou de um rendimento mínimo garantido para todos, que possibilite aos mais afectados manterem-se como consumidores mas mantenha o incentivo a formas criativas de trabalho. Mostram também que os maiores ganhos no uso da automação não estão na substituição do humano por bots, mas no emparelhamento com pessoas formadas. A aposta na educação é vista como algo de elementar.

Este livro intriga pela sobriedade com que aborda este tema. Mostra-nos as brilhantes possibilidades e os perigos sociais, mostrando também que as mudanças serão inevitáveis, graduais mas minoráveis através de escolhas políticas. Em essência, transmitem uma visão de progresso mais abrangente do que a aplicação de lógicas económicas à tecnologia, vendo-a como uma ferramenta humanista com o poder de modificar para melhor o desenvolvimento humano. A capacidade de o fazer é uma escolha da sociedade, o seu impacto não tem de ser negativo. Se o for, talvez releve mais sobre a nossa falta de humanidade do que da frieza desumana das máquinas.

quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

Le Successeur de Pierre


Jean-Michel Truong (2012). Le Successeur de Pierre. Paris: Gallimard.

Pode um conjunto de boas ideias tornar-se um bom livro? Sim, se o escritor souber trilhar o caminho periclitante entre concisão, estrutura narrativa coerente e conceitos intrigantes. Não é o caso deste livro, penosa leitura que nos vai revelando um world building interessantíssimo mas internamente inconsistente, que se perde numa vastidão de páginas para contar uma história que, de facto, é o início do que poderia ser a real história.

Vamos por partes. Seccionar e isolar as ideias deste livro poderá ser a melhor forma de tirar algum sentido da salganhada. O título tem tudo a vr com um fio narrativo às voltas com um pergaminho contendo um segredo perigoso sobre o catolicismo que se perde na China com missionários nestorianos em fuga que recebem abrigo dos mongóis. Este é o leitmotiv do livro, apesar de raramente tocado, e só no final fazer sentido. O segredo não tem nada de esotérico, trata-se da admissão que a igreja é apenas o mais recente vector de transmissão de um meme inteligente, uma entidade sentiente talvez surgida com o big bang, espécie de lado femenino da divindade, que se vai socorrendo das formas de vida planetárias e das sociedades que criam para evoluir e escapar aos limites do planeta.

Estão a ver o que quis dizer por amontoado de ideias interessantes? Segredos da igreja e documentos secretos é coisa que pulula por aí em romances conspiratórios de maior ou menor sucesso. Até agora nunca me tinha deparado com nenhum que levasse a este nível a ideia de memes inteligentes que se propagam influenciado a criação de estruturas culturais. Mas, no que toca ao livro, esta não é uma caçada para encontrar o segredo. Estamos num futuro distópico, e este cenário é ao mesmo tempo o maior ponto de interesse e o elemento mais mal conseguido do romance.

Truong criou aqui uma intrigante especulação distópica. Imagina um futuro em que a humanidade vive enclausurada em contentores, acumulados em unidades de sobrevivência. Não há contacto humano, e os espaços exíguos contém tudo o que é necessário ao indivíduo, com uma grande dose de comunicação digital e virtual. A migração humana para as unidades de sobrevivência dá-se como consequência de uma pandemia global que por pouco não extermina a humanidade. As autoridades globais, em pânico, aprovam a lei zero-contact (pronunciem em francês, claro) e isolam a humanidade em contentores individuais. Só escapam os NoPlugs, rebeldes que insistem em viver na superfície planetária. A coisa não é tão simples como isto. As elites económicas e governamentais sobrevivem em cidades subterrâneas e estão a construir cúpulas nas principais cidades europeias e americanas que lhes permitam voltar a passear pelas largas avenidas e apreciar as caras mansões citadinas. Outro dos aspectos desta distopia é o secretivo pacto de Davos, que une a elite globlal num projecto secreto. Sim, sendo Davos, podem esperar algumas trafulhices dos 1%.

As inconsistência começam aqui. Truong descreve a humanidade sobrevivente dentro de pirâmides de contentores geridos por municipalidades que asseguram as necessidades básicas, mas aplica aos habitantes as leis de mercado. E o leitor pensa: em que é que ficamos? sobrevive-se num contentor ou aluga-se o espaço? O que é que acontece se a pessoa perde os rendimentos possíveis apenas através de uma plataforma online de trabalho? É que o autor não nos fala de bandos de excluídos das pirâmides.

À partida, esta concepção parece sólida, mas quando Truong insere uma linha narrativa determinante para a história a coerência colapsa. Esta envolve uma conspiração da élite global para submeter a China vermelha ao sistema de Davos. É estranho que o autor regresse à territorialidade do presente e nos dê uma imagem da China não como um conjunto de pirâmides de sobrevivência mas de cidades e territórios. A coisa envolve uma acusação massiva de pirataria, tensões com os EUA, uma invasão chinesa de Taiwan com demonstrações massivas de apoio nas ruas, uma escalada nuclear que resulta na atomização de Hong Kong e Shangai, e a inevitável rendição chinesa. O que não funciona aqui é que se no futuro a humanidade vive dentro de contentores, não faz sentido haver disputas territoriais, e muito menos manifestações de rua.

O elemento que vai aglutinar todas estas estruturas é a tal inteligência oculta que saltita de sociedade em sociedade. Esta descartou a igreja como vector e utiliza as élites globais como vector de transmissão. Graças ao desenvolvimento tecnológico vê a possibilidade de finalmente sair do planeta, mas para isso é preciso assegurar que os recursos económicos fluam na sua direcção, e não para alimentar as massas sujas de humanos que começam a ser descartáveis. Nasce aqui a ideia macabra posta em prática pelas élites de fazer um downsizing global da população, eutanizando os habitantes das pirâmides, reduzido a população à nova aristocracia dos 1% e seus servos clonados. O rendimento económico está assegurado pela total automação e aqueles que não pertencem a este sistema - essencialmente, toda a humanidade, são vistos com prejuízo económico.

Ficamos a saber tudo isto de forma desconexa, através da história de Calvin, o jovem protagonista que vivendo isolado no seu casulo tem a companhia fiel de um curioso grupo de amigos que se vai revelando ser mais importante do que aparenta. Há um velhote chinês, que se vai revelar ser o mítico líder da China comunista renovada. Uma mulher que o trata de forma maternal mostrar-se-á a sua mãe real (na sociedade dos contentores as crianças são geradas por inseminação artificial e retiradas cedo às mães biológicas), um tímido académico que lhe ensina tudo sobre a cultura global é uma desculpa do autor para ilustrar o processo maquiavélico de eutanização (diminuir rendimentos, criar dívidas e convidar ao suicídio assistido), e outro amigo de pendor académico irá revelar-se o guardião do segredo eclesiástico, e nada menos do que o corrente papa. O interesse em Calvin prende-se com a sua escolha como novo guardião do segredo e esperança da sobrevivência humana face a uma manipuladora entidade obscura que se prepara para descartar os incómodos macacos inteligentes na sua constante busca evolucionária.

Truong tece uma ambiciosa teia narrativa, tentando colar um conjunto muito intrigante de ideias. A distopia futura de uma humanidade isolada como resposta a uma pandemia é um bom princípio. A crítica ao neoliberalismo alastrante encarnada pela predação das élites globais e injustiças de uma economia autofágica que trata o trabalho como um recurso descartável é acutilante e pertinente. O conceito de meme inteligente como uma criatura obscura que vai parasitando a humanidade para sobreviver e evoluir intriga e abre possibilidades. Mas estes elementos não colam, há pouca atenção às inconsistências levantandas pela junção dos conceitos de base. A prosa é penosa, estendendo-se por um número elevado de páginas, boa parte das quais inúteis para a narrativa central. Chega a haver um desvio narrativo sobre um serial killer que se infiltra nos sistemas dos autómatos que permitem contacto sexual entre os habitantes dos casulos e esventra algumas vítimas incautas, que é levado a lado nenhum.

Surpreende que este livro tenha recebido a distinção de grand prix de l'imaginaire do ano 2000. Não é que este seja um péssimo livro, apenas um conjunto de ideias interessantes unidas por uma narrativa mal conseguida. Talvez nesse ano a colheita de romances de FC franceses tenha sido medíocre, e esta a obra que melhor se safava no meio dos crimes ecológicos e literários? A edição de bolso da FolioSF de 2012 foi a minha porta de entrada para este escritor de FC  francófona, que não faz jus à elevada tradição do género em língua francesa.

quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

O Engenho dos Sonhos



Carina Portugal é uma jovem escritora portuguesa de literatura fantástica cuja prosa se caracteriza por uma notável imaginação, prosa delicada e uma encantadora visão inocente com que explora o lado mais tradicional da ficção fantástica. Publica agora na plataforma Smashwords uma colectânea de alguns dos seus contos e poemas, reunindo alguma da obra dispersa no Fantasy & Co e nas suas páginas pessoais. É gratuito e pode ser lido facilmente em pdf, epub, mobi ou no browser. Visitem, leiam e apaixonem-se pela prosa simples e imaginário desta escritora: O Engenho dos Sonhos. E já que estão pelo Smashwords aproveitem e levem também o belíssimo steampunk de Coração de Corda, também desta promissora autora.

Salammbô


Philippe Druillet (2010). Salammbô, L'Integrale. Issy-Les-Moulineaux: Drugstore.

Inspirado no romance homónimo de Flaubert, Salammbô leva o intrépido Lone Sloane, personagem de Druillet, a um planeta que espelha as guerras civis cartaginenses. Mistificado pela beleza da sacerdotiza Salammbô, Sloane encarna-se como um dos mercenários que irá combater os exércitos púnicos numa revolta sem quartel, sendo salvo no último momento possível pelos fieis companheiros, tripulantes da nave de geometria variável que sulca os abismos espaciais.

Se a narrativa é pesada, com uma forte dose de pomposidade grandiloquente, o que espanta neste álbum é o talento gráfico de Druillet à solta, sem restrições. Cada vinheta é um espanto, cada prancha um mergulho num psicadelismo gráfico que se constrói a partir de um traço horror vacui. Cidades exóticas, estranhas criaturas, portentosos combates, monstros grandiosos, estonteantes sacerdotisas, arquitecturas, féericas, entre tantos outros elementos oníricos e surreais que induzem sensações de espanto no leitor. Ou, em bom rigor, no fruidor, porque este é um daqueles livros em que a leitura é algo de secundário. É o acto de ver, de fruir da iconografia, que agarra quem o lê. E o autor nem esquece ilusões de óptica a servir de moldura a textos. Druillet é um dos mestres da bande dessiné, com um estilo algo datado, é certo, mas que não deixa de ser deslumbrante pela representatividade de uma época e puro sense of wonder gráfico. A narrativa fica em segundo (ou terceiro...) plano. Nesta obra, é o prazer fantasista do desenho que está em evidência.

terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Ficções

The Water That Falls On You From Nowhere: A difícil e corajosa afirmação da identidade sexual, complicada pela pesada teia de tradições asiáticas, é o tema desta história onde um jovem engenheiro biotecnológico sino-americano ganha coragem para apresentar o seu noivo a uma família que o vê como produtor de bebés para assegurar a tradicional continuidade do nome e do sangue. John Chu intriga ao colocar sobre os membros mais novos uma tremenda carga homofóbica enquanto os mais velhos apenas aceitam e sugerem que na biotecnologia está a solução para a continuidade famililar. O lado fantástico deste conto é dado por cargas de água gelada vindas de nenhures que encharcam no acto quem disser falsidades, por mais que as dilua em metáfora. Escrito numa prosa elegante, concisa e fortemente estilizada, este foi o conto vencedor na respectiva categoria dos prémios Hugo deste ano. E, depois de o ler, há que perguntar porquê. Bom conto, pertinente e bem escrito, mas os elementos de fantástico estão diluidos na temática. É mais slipstream do que fantasia e certamente que não é ficção científica. E o slipstream presente é muito ténue. Uma obra destas estaria mais confortável a criar ondas num festival literário mais mainstream do que os Hugos, tradicional bastião do fantástico e FC. O porquê da vitória tem certamente a ver com o desconforto sentido nas temáticas de género dentro da FC e fantasia. Note-se que esta vertente também é sentida em Ancillary Justice, que ganhou o prémio de melhor romance, se bem que as questões de género são apenas um aspecto de um livro que é um portento de space opera. A ficção de género é regularmente acusada de insensibilidade, machismo ou redutora no que toca à sexualidade, e boa parte é-o, mas não toda. Compreende-se que a comunidade queira valorizar ficção progressiva que queira ir mais além nestas questões. Só que, e aqui eu talvez esteja a ver as coisas numa perspectiva old school, os Hugos premeiam ficção científica. Apesar da qualidade literária, este conto tem pouco ou nada de elementos deste género literário. Certo, FC não é só tecno-utopias, cyber-narrativas ou hard SF e space opera, mas ao sobrepor a necessidade imperiosa se se mostrar progressista e aberta às suas raízes não se estará a desvirtuar? Note-se que com isto não estou a entrar em acordo com as parvoíces dos ranzinzas ultra-liberais ao estilo Vox Day que trollaram as nomeações dos Hugo deste ano. Estou apenas a reflectir que a vontade de agradar aos sectores progressistas traz consigo o risco de afastamento do que torna os Hugo os prémios de excelência na FC. Éticas e ideologias à parte, a ideia é que o galardão mostre o que de melhor se faz naquilo que é a FC, e este conto de John Chu não é fc ou fantasia, ficando-se por um erudito mas ténue fantástico. Daí não vem mal ao mundo, as fronteiras literárias estanques só interessam aos aguerridos defensores das suas quintinhas. E John Chu, como vão perceber mais à frente neste post, tem a capacidade de criar excelentes visões de FC numa prosa rigorosa e sóbria que, a meu ver, o torna herdeiro de J. G. Ballard pela frieza narrativa e de Ted Chiang pela espectacularidade discreta das suas ideias.

Unlocked: An Oral History of Haden's Syndrome: Serializado na Analog, Lock In é o novo romance sobre uma pandemia de Jonh Scalzi que, por coincidência macabra, está a ser editado no momento em que um surto viral de ébola assusta o mundo. No romance de Scalzi um vírus a princípio semelhante ao da gripe causa uma epidemia à escala global. Alguns dos infectados sobrevivem, outros não, e outros desenvolvem uma condição em que estão vivos e conscientes, mas incapazes de controlar o corpo. Não há cura, mas  combinação de redes neuronais implantadas no cérebro das vítimas com andróides controlados pela mente permite aos paralisados recuperar a vida. Scalzi traça neste conto um resumo, no estilo de história oral, contando através de depoimentos de testemunhas os primeiros sustos com a pandemia, o esforço investigativo para desenvolver curas, as descobertas das redes neuronais e próteses robóticas, as consequências sociais da nova classe de robots tele-operados, e os desejos de virtualidade daqueles cuja mente está presa num corpo inerte e dependem da tecnologia para percepcionar o mundo.

A Cost-Benefit Analysis of the Proposed Trade-Offs for the Overhaul of the Barricade: Um conto complexo de John Chu que vai revelando um worldbuilding soberbo que ultrapassa largamente os limites desta história. O planeta pode ser a Terra ou um qualquer outro, alienígena, abrigo de incontáveis civilizações desvanecidas à força por uma turbulência eterna. A barreira que protege os humanos é erguida e continuamente expandida por exércitos de engenheiros que materializam as peças das suas construções através do pensamento. Bibliotecas selvagens, contendo o conhecimento de civilizações perdidas, são domesticadas por denonados bibliotecários que trabalham em espaços de nove dimensões. No centro deste turbilhão temos um jovem e inseguro aprendiz de engenharia, filho do maior e mais genial de todos os engenheiros, que num momento de catástrofe descobre o seu real talento.

segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Comics


Letter 44 #09: Acabei de reparar num pormenor curioso. Num comic sobre uma potencial invasão alienígena da Terra que inclui uma nave espacial tripulada por cientistas e militares que se encontra na órbita de Júpiter para analisar a possível ameaça de um portentoso artefacto alienígena, ainda não nos foi dado um vislumbre dos extra-terrestres. Nove edições, e não há um etzito de ar repugante, exércitos imperiais de criaturas exóticas ou seres ultra-poderosos para além da imaginação. Houve um vislumbre de formas geométricas de alta energia, e nada mais. Nove edições, e nem um levantar do véu de algo que habitualmente se despacha nas primeiras vinhetas. É um bom artifício narrativo do argumentista Charles Soule, que com isso consegue intensificar o incógnito alienígena da ameaça. Continuamos com o revelar das intrigas do ex-presidente americano, que financiou pesquisas secretas em armamentos avançados e provocou guerras no terceiro mundo para endurecer as forças americanas para um conflito que anteveu ao perscrutar as primeiras imagens remotas do artefacto, e com as desventuras dos cientistas e militares na órbita de Júpiter, que começam a ter os primeiros recontros mortíferos com os extra-terrestres. Mas note-se que Soule, ao não nos revelar mais sobre a história, está a deixar muito em aberto o caminho que irá percorrer. Vamos pelo sentido directo de uma invasão que provocará uma guerra entre terrestres endurecidos e alienígenas de tecnologia inimaginavelmente avançada? Ou o inevitável mas muito adiado primeiro contacto irá alterar o rumo da história? O que é facto é que este comic é um dos mais interessantes do momento. Soule, note-se, também tem a cargo Swamp Thing na DC e também aí está a fazer um bom trabalho, afastando-se discreta mas metodicamente da eterna repetição do classicismo de Alan Moore, algo de muito habitual nas abordagens ao personagem.


The Manhatthan Projects #23: Dose mensal de high weirdness. Hickman em modo cuba libre com Brezjnev, monstro mutante alienígena que vai manipulando a União Soviética para espalhar a sua espécie no planeta, a invadir a Cuba revolucionária para lobotomizar Fidel Castro e Che Guevara com auxílio de um cirurgião muito exímio no transplante de cabeças. A crise dos mísseis assume toda uma nova perspectiva com mutantes extra-terrestres à mistura.


Silver Surfer #06: Há algo de profundamente clássico nesta nova série do ex-arauto de Galactus, reluzente surfista das ondas cósmicas. O estilo gráfico retro de Allred remete para a Marvel clássica, invocando a rudeza do traço de Jack Kirby e o surrealismo de Steve Ditko. Suspeito que seja mais do que coincidência, a forma como Allred desenha o Hulk de uma forma que quase replica a iconografia original de Kirby. Já as místicas formas curvilíneas com olhos a envolver o Doutor Estranho são um toque directo das histórias do personagem às mãos de Stan Lee e Ditko, marcos do psicadelismo gráfico dos anos 70.


POP #01: Suspeitamos que as estrelas da cultura pop sejam artificiais, e nesta nova série da Dark Horse são-no. Construídas por engenheiros genéticos de acordo com as especificações dos investidores, as futuras estrelas nascem em laboratório. Uma divertida, embora óbvia, mistura de FC com crítica à artificialidade induzida da cultura popular de massas. O estilo gráfico convence, a premissa é interessante, mas espero que esta história consiga sair da tradicional estrutura de boy meets girl, sendo que a girl é um clone fugido do laboratório perseguida por facínoras a soldo de executivos empresarias e o boy uma alma solitária à beira do suicídio.


Star Spangled War Stories #02: Parecia à primeira vista uma variação de Unknown Soldier, mas não. É um zombie, agente secreto ao serviço do governo americano, que acompanha uma agente que vai curar ataques de stresss pós-traumático por entre campónios armados em revolucionários com acesso a armas avançadas. Jimmy Palmiotti escreve, com uma perfeita cara de pau, algo que parte de uma premissa algo absurda e que espelha o mais intrigante iZombie. Mas no meio da seriedade consegue passar momentos de puro bom humor. Afinal, um agente secreto zombie tem as suas vantagens. Não pode ser morto, é imune a torturas. Há uma cena brilhante no primeiro número, com a companheira a cortar-lhe as mãos para ser aceite pelo perigoso grupo de revolucionários paramilitares. E, claro, comer cérebros dos vivos fica moralmente justificado como um serviço patriótico. E, claro, permite momentos como este, a caricaturar Dr. Strangelove.

domingo, 31 de Agosto de 2014

sábado, 30 de Agosto de 2014

Maneki Neko




Chungking Express na cidade antiga, ou um novo souk na velha Mouraria. O exotismo de uns é a normalidade de outros. O Martim Moniz tornou-se o melting pot onde a Lisboa tradicional se cruza com as ramificações chinesas e indianas na baixa-mar dos sonhos orientalistas.

sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

Dylan Dog: Il pianto della banshee; Color Fest #10.



Giovanni Gualdoni, Corrado Roi (2013). Dylan Dog #322: Il pianto della Banshee. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Será o grito de uma banshee que está por detrás de uma série de assassínios numa aldeia irlandesa? Está, mas não da forma que esperamos. A morte em circunstâncias estranhas de um homem na sua noite de núpcias despoleta uma aventura intrigante de Dylan Dog. É a jovem esposa que é vista como culpada. Julgando-se amaldiçoada por uma banshee, está internada num hospício enquanto Dylan e a polícia local vão-se deparando com mais assassínios. A verdade é ao mesmo tempo banal e fantasista. Por detrás da pretensa maldição sobrenatural encontram-se as bem reais maldições do machismo e pobreza. O casamento de final funesto foi motivado por dinheiro. Quer o noivo quer o pai da noiva são homens violentos por natureza. E os amigos que suspeitam da verdade vão sendo eliminados pela assassina, a mãe da noiva. Quando Dylan a desmascara reflecte que as banshees são bem reais, são o grito das mulheres vitimizadas. Mas o argumentista não se limita a uma história policial e vai deixando indícios do fantástico. Há criaturas que se ocultam na névoa, e uma aterradora caleche negra conduzida por um lacónico psicopompo que percorre as ruas da aldeia. Esta ambivalência difusa cai bem dentro do ambiente sobrenatural da personagem. O ilustrador consegue alguns momentos gráficos memoráveis.


Alessandro Bilota, et al (2013). Dylan Dog Color Fest #10. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Confesso que não esperava especulação deste género nas páginas de Dylan Dog. É um personagem maduro, com longa história editorial, e as especulações da série andam mais à volta dos monstros e pesadelos do que da natureza da personagem. Rever o mito é o cerne deste Color Fest, que pega nas suas premissas, baralha e redistribui as ideias. Se as histórias são interessantes, o tratamento gráfico não lhe fica nada atrás. As primeira e terceira aventuras estão ilustradas com estilos gráficos expressivos que vão além do esperado no género.

Addio, Groucho: Vamos ao futuro, onde um envelhecido Dylan Dog tenta salvar Groucho, ferido por uma mordida de zombie. Num mundo decrépito que flui como um sonho Dylan vai-se cruzando com alguns dos personagens mais marcantes da série, incluindo uma Morte que lhe confessa que para quem vive na ficção o inferno é a vida normal. Onírica e inconclusiva, com um toque leve de futurismo decadente, esta ambígua aventura distingue-se por um riquíssimo grafismo.

La banda maculata: E se Dylan Dog fosse um detective na Londres vitoriana? Nesta aventura metaficcional Dylan vai investigar a morte misteriosa de uma rapariga na casa do seu padrasto, regressado da Índia e com um enorme gosto pelas artes ocultas indianas. Se parece similar a uma das primeiras aventuras de Sherlock Holmes, é porque o é. Dylan Dog vitoriano a enfrentar nagas é-nos revelado como um produto da imaginação de Conan Doyle, rejeitado pelo editor da revista Strand. Perante a rejeição, Doyle opta por criar histórias detectivescas baseadas na lógica do método dedutivo...

I giorni oscuri: Dylan Dog reimaginado como um personagem grimdark de fantasia épica. Ao invés do século XX, Dylan surge como caçador de monstros no século XVII, defensor da humanidade contra as experiências malévolas de Xabaras, o seu pai, que busca um elixir da imortalidade e que para isso vai transformado a humanidade em zombies. Tem um final memorável, com o seu quê de I am Legend de Matheson, com Dylan como único homem vivo a enfrentar um mundo cheio de hordes de zombies às ordens do seu funesto pai.

Doppia identità: E se... Dylan não fosse o detective dos pesadelos mas um jovem otaku, encerrado no seu casulo de cultura pop em casa dos pais? Frustrado, incapaz de se relacionar com raparigas, é também um assassino perseguido por Dwight Dog, famoso detective de casos arriscados. Ou então tudo não passa de um delírio de Dylan, hospitalizado após travar um perigoso serial killer.