quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Martin Mystère #359: Il custode delle sette vette



Alfredo Castelli, Paolo Ongaro (2018). Martin Mystère #359: Il custode delle sette vette. Milão: Sergio Bonelli Editore.

É curioso notar como Martin Mystère é uma personagem antiquada. Vem-nos diretamente de um outro tempo, tem muito mais a ver com a aventura clássica de banda desenhada do que com a contemporânea. A estrutura narrativa do cavalheiro solteiro, de inclinações literárias, que vive aventuras misteriosas com um fiel companheiro é algo que caracterizou a literatura e BD de aventuras de outros tempos. Para salientar mais o caráter classicista, os mistérios que Mystère investiga têm muito a ver com os mitos da Atlântida, com os vestígios daquela que na mitografia de Castelli, o seu argumentista de sempre, era uma civilização passada de alta tecnologia que deixou inúmeros resquícios e vestígios. As tramas são sempre elaboradas fugas a um clímax final. Diria que Castelli mantém viva na Casa Bonelli a tradição narrativa dos clássicos Blake e Mortimer, ou outras parelhas clássicas de aventuras com o misterioso.

Este Il custode delle sette vette não foge ao esquema, narra as desventuras de um descendente indireto de Aleyster Crowley que, durante um trekking no sopé do K2, é visitado por uma misteriosa visão que lhe dá um artefato inusitado. Parte daí uma história que envolve os antepassados do descendente, indianos em busca de riqueza, e a descoberta de uma base perdida atlante, cheia de robots encarregues de encher uma nave espacial tipo arca de noé.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Clássicos da Literatura Universal Vol. 4



Fraçois Cortegianni, et al (2018). Dsney Clássicos da Literatura Universal Vol. 4. Lisboa: Goody.

Novamente, este volume da coleção não traz nada de especial, apenas republica histórias das revistas da linha disney. Nada contra, até são divertidas inspirações na literatura que intrigam as crianças, mas falta o cuidado gráfico e narrativo que permitira considerar estas histórias como verdadeiras adaptações de clássicos. Neste volume temos histórias que se inspiram em Mundo Perdido de Conan Doyle e La Morte d'Arthur. Este segundo foca-se numa tábua redonda que sacia os mais glutões. A vénia do argumentista Cortegianni às aventuras do Professor Challenger é até uma história bem divertida e conseguida, bastante fiel ao original.

domingo, 11 de novembro de 2018

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Seven Square Miles: A geografia, reduzida à abstração estética e pictórica. Em cada foto, sete milhas quadradas do nosso planeta.

MOMENTOS ESSENCIAIS DO CINEMA DE FICÇÃO CIENTÍFICA: Este texto do João Seixas quase me convence a gostar da série Planeta dos Macacos.

Rise of robots ‘could see workers enjoy four-day weeks’: Ou então serem reduzidos à pobreza extrema, inimpregabilidade e estatuto de humanos excedentários. Estas questões não são uma consequência do inexorável progresso da tecnologia. São escolhas sociais. Podemos adotar a robótica para avançar a agenda neoliberal de lucro fácil a todo o custo, onde qualquer coisa que não distribue riqueza para os bolsos dos um percentistas e seus acólitos é visto como uma heresia, ou podemos, realmente, libertar o ser humano, utilizando a robótica e automação para gerar a riqueza necessária para sustentar a nossa sociedade. O cenário mais negro da redução do humano a quase desperdício numa economia global automatizada, que beneficia uma reduzida elite, só é inevitável se deixarmos que as forças que realmente querem isso se sobreponham nas decisões políticas e económicas (e sempre o quiseram, ao longo da história, se não é a automação é o salário mínimo, horas de trabalho justo, fim de mão de  obra infantil ou esclavagista, droit de seigneur, etc., que isto de argumentos para tentar manter concentrações excessivas de riqueza nas mãos de uns poucos tem sido uma constante histórica).

Why we can’t quit the QWERTY keyboard: Tl;dr:? Porque nos habituámos ao interface que aprendemos a utilizar. De tal forma que é-nos quase impossível mudar, e mesmo que o tentemos, percebemos que temos dificuldades em manter fluidez de escrita.

How trade unions are addressing automation: De forma muito pouco interveniente, parece-me, pelo menos por cá.

The End of the World Is Both Festive and Musical in the Latest Anna and the Apocalypse Trailer: O Nuno Reis tinha razão, quando no Motelx me disse que este filme se ia tornar num clássico de culto. Pessoalmente não o apreciei, apesar do conceito divertido e alguns momentos bem conseguidos, não por ser quirky, mas por achar que tinha falhas técnicas. Mas claramente conquistou os fãs de cinema de terror.


Robots at Work and Play: Ah, parem o que estão a fazer e saboreiem uns momentos de pura tecnoluxúria. Robots, disseram?

Show Us Your Tsundoku!: Dizer a coisa em japonês sempre soa melhor do que "estantes da vergonha", "pilha dos livros esquecidos", ou "monte acumulado que um dia hei de ler"...

THE BOOKISH LIFE: Pois. I can relate. Adorar livros e leitura tem pouco de lógico, muito de sensorial. Divagamos entre livros e ideias, acumulamos páginas, com tempo valorizamos o clássico sobre o contemporâneo.

Don't Panic Over a Bumpy Airplane Landing: Quando o voo começa aos saltos ou na aterragem há sobressaltos, repitam em modo de mantra: os pilotos são treinados para estas situações.


Archaeologists in Pompeii Have Discovered an ‘Enchanted’ Shrine Covered in Gorgeously Preserved Frescoes: Mais fotos das descobertas arqueológicas em Pompeia e Herculano, que trazem à luz maravilhas pictóricas da arte romana.

Entrevistámos um polícia do Facebook em Portugal que impediu coisas horríveis na rede social: Uma leitura que é, de facto, angustiante, não só pelo que o entrevistado nos faz entrever, mas pelas péssimas condições de trabalho dadas a quem tem uma função tão desgastante. Pouco mais do que o salário mínimo para lidar com registos do pior que a humanidade tem, entre suicídios, pornografia violenta, pedofilia, assassinatos, decapitações... ninguém consegue estar exposto a isto e manter a sua sanidade mental. É esta a mão de obra de baixo custo que nos protege, como utilizadores das redes sociais, dos piores conteúdos possíveis.

BARBIE IS WOKE NOW THANKS TO HER NEW VLOG: Ser uma barbie girl no barbie world de hoje... é vestir um rig de motion capture e incorporar uma boneca virtual, extensão digital de um ícone. Hoje, já não chega ser um objeto tangível, é preciso incorporar no virtual.

What next for photography in the age of Instagram?: Confesso que é mesmo o que prefiro no Instagram. A gigantesca diversidade de pontos de vista, o trabalho fenomenal de fotógrafos, alguns profissionais, outros vernaculares. O lado instantâneo da fotografia digital via smartphone veio alterar radicalmente as questões levantadas por esta forma de arte.


Daily Life of Robots by Nicolas Bigot: Um ensaio fotográfico bastante banal, embora visualmente interessante, sobre o nosso futuro robótico. É banal por assumir que a robótica é fundamentalmente antropomórfica.

The Absurdity of the First Man Flag Controversy: Já fui ver o filme e é esplendoroso, um hino à ciência, tecnologia, engenharia, espírito de missão e equipa. Não doura a pílula, não mostra a exploração espacial como algo de heróico e glamoroso, antes, mostra como depende de enormes esforços colaborativos, é perigosa e violenta. A fotografia é excecional. Um hino à exploração espacial, curiosidade científica e humana, e excelente homenagem a Neil Armstrong. No entanto, com as culture wars americanas, o que se debate por lá é o filme não ser patriótico porque não tem uma cena do implantar da stars and stripes no solo lunar, de preferência com uma banda sonora épica. Enfim, idiotas serão idiotas.

How Fish and Chips Migrated to Great Britain: Espera, o so very british fish 'n'chips tem origem... portuguesa? Na parte do fish claro, como prato levado para inglaterra pelos judeus expulsos da península ibérica nos tempos do rei D. Manuel I.

100 Websites That Shaped the Internet as We Know It: Literalmente, cem websites. E se a sociedade como a conhecemos foi irremediavelmente transformada pelo hotmail, altavista, 4chan ou facebook, a inocência da internet perdeu-se quando se descobriu o goatse (acreditem, não vão descobrir o que isto foi).

“Factfulness” (2018), factos e comunicação: Recensão de Nelson Zagalo ao último livro de Hans Rosling.

Rethinking AI through the politics of 1968: Muitas observações acertadas por aqui, e eu sem tempo para as comentar. Mas, essencialmente, desmistifica a suposta sapiência da IA:

"They are playing Go better than grand masters and preparing to drive everyone's car, while the media panics about AI taking our jobs. But this AI is nothing like HAL. It's a form of pattern-finding based on mathematical minimisation; like a complex version of fitting a straight line to a set of points. These algorithms find the optimal solution when the input data is both plentiful and messy. Algorithms like backpropagation[3] can find patterns in data that were intractable to analytical description, such as recognising human faces seen at different angles, in shadows and with occlusions. The algorithms of AI crunch the correlations and the results often work uncannily well. 

But it's still computers doing what computers have been good at since the days of vacuum tubes; performing mathematical calculations more quickly than us. Thanks to algorithms like neural networks, this calculative power can learn to emulate us in ways we would never have guessed at. This learning can be applied to any context that is boiled down to a set of numbers, such that the features of each example are reduced to a row of digits between zero and one and are labelled by a target outcome. The datasets end up looking pretty much the same whether it's cancer scans or Netflix-viewing figures. 

There's nothing going on inside except maths; no self-awareness and no assimilation of embodied experience. These machines can develop their own unprogrammed behaviours but utterly lack an understanding of whether what they've learned makes sense. And yet, machine learning and AI are becoming the mechanisms of modern reasoning".

E, claro, os dados que alimentam os algoritmos representam problemas de enviesamento e desigualdade:

"The delphic accuracy of AI comes with built-in opacity because massively parallel calculations can't always be reversed to human reasoning, while at the same time it will happily regurgitate society's prejudices when trained on raw social data. It's also mathematically impossible to design an algorithm to be fair to all groups at the same time.

For example, if the reoffending base rates vary by ethnicity, a recidivism algorithm like COMPAS will predict different numbers of false positives and more black people will be unfairly refused bail[6]. The wider impact comes from the way the algorithms proliferate social categorisations such as 'troubled family' or 'student likely to underachieve', fractalising social binaries wherever they divide into 'is' and 'is not'. This isn't only a matter of data dividuals misrepresenting our authentic selves but of technologies of the self that, through repetition, produce subjects and act on them. And, as AI analysis starts overcode MRI scans to force psychosocial symptoms back into the brain, we will even see algorithms play a part in the becoming of our bodies".

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Dylan Dog: nel nome del figlio; Perderai la testa.


Alessandro Bilotta, Gianpiero Casertano (2018). Speciale Dylan Dog n. 32 : nel nome del figlio. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Da primeira vez que li uma aventura de Dylan Dog da série il Pianeta dei Morti, achei que era um one off. Na verdade, trata-se de um universo alternativo onde Alessandro Bilotta cria novas aventuras para um agora verdadeiro old boy. O cenário é pós-apocalíptico. Dylan não conseguiu impedir uma epidemia zombie por ser incapaz de exterminar o primeiro vetor da infeção, o seu assistente Groucho. No entanto, a coisa não é exatamente zombieland. A vida é até bastante normal, apesar dos constantes ataques de zombies, chegando ao ponto de já ninguém ligar aos massacres. Uma perspetiva curiosa, e um recontar do universo de Dylan Dog com velhos personagens revistos, e novos personagens. Nesta aventura, Dylan cruza-se com o fantasma/zombie do seu filho, fruto de uma relação que teve nos primeiros episódios desta série. É, essencialmente, uma aventura de desencontros e mergulhos no passado, onde o tempo literário é difuso, é difícil perceber se estamos no presente da narrativa, se no seu passado, ou se em sonhos.


Barbara Baraldi, Emiliano Tanzillo (2018). Dylan Dog #385: Perderai la testa. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Dylan vê-se envolvido numa aventura que está, decididamente, fora da sua zona de conforto. Paris será o palco de uma história de contornos sangrentos. A decapitação súbita e muito pública de mulheres que usam uma jóia amaldiçoada está ligada com a história do fim de Maria Antonieta, e um joalheiro que usou os diamantes ensanguentados da antiga rainha para criar jóias que apelam aos mais mórbidos. A filha desse joalheiro decidiu que a sua missão de vida era resgatar as jóias, e colocar um ponto final na maldição. É ajudada nisso por uma espécie de Groucho francês, tão absurdo e irritante quanto o companheiro de Dylan Dog. A forma como a jovem decide pedir ajuda a Dylan é que não é das mais recomendáveis: rapta-o em Londres e trá-lo para Paris.

A história é divertida, dentro do esperado na série, mas o que se destaca mais é o trabalho gráfico do ilustrador Emiliano Tanzillo. Expressivo e elegante, exímio a retratar o encanto de Paris.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

H-alt: Jardim dos Espectros


Há aqueles raros livros que funcionam tal e qual como saem da mente, e do traço, dos seus criadores. Este Jardim dos Espectros é uma dessas exceções. Fiquei surpreendido com a idade do autor, o trabalho que mostra neste livro revela uma maturidade narrativa e gráfica muito elevada. Recensão completa na H-alt: Jardim dos Espectros.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Robótica e Trabalho: O Futuro Hoje


António Moniz (2018). Robótica e Trabalho: O Futuro Hoje. Lisboa: Glaciar.

O intrigante neste livro é propor-se a fazer um estudo sobre os impactos da robótica na economia portuguesa. Algo que consegue, de forma difusa, num misto de escassez de dados disponíveis e tendência muito recente da introdução de tecnologias de robótica na indústria e serviços por cá. Mas deixa bem claro que está a acontecer, especialmente ao nível de médias e grandes empresas das áreas industriais. É curioso descobrir que os trabalhadores da AutoEuropa reivindicam a sua substituição por robots nalgumas tarefas que trazem danos para a saúde, ou a experiência de pequenas e médias empresas na área metalúrgica, que vêem na robótica um fator decisivo para serem competitivas ao nível global.

Como introdução ao campo da robótica, este livro é muito interessante, especialmente por não ter sido escrito por engenheiros e roboticistas. O autor-coordenador e seus colaboradores são economistas, esta é uma obra sobre tecnologia firmemente ancorada nas ciências sociais. Olham para a tecnologia na perspetiva do impacto económico, dividindo com rigor os campos da automação e da robótica. Socorrem-se dos dados hard, cheios de tabelas cheias de números, que os economistas tanto gostam, e que mostram, mesmo por cá, uma tendência crescente da adoção de robots na economia.

Resta refletir sobre o seu potencial disruptivo no mundo do trabalho. Aqui, o livro mantém-se num sóbrio meio termo entre as visões utopistas e as apocalípticas. Não escondem o fato que a adoção de robots tem impactos diretos na substituição de postos de trabalho, mas apontam para o fato destas máquinas não serem verdadeiramente autónomas, obrigando a recriar postos de trabalho ou a criar novas ocupações. Apontam casos em que trabalhadores substituídos ganham novas funções trabalhando em conjunto com robots, ou novas profissões decorrentes da necessidade de técnicos para lidar com máquinas. É uma visão fluída, longe de alarmismos, que reconhece que a robótica traz impactos ao mundo laboral, mas não numa perspetiva de extermínio de postos de trabalho. Alerta para a apatia dos sindicatos e organizações laborais nestas questões.

Talvez o maior mérito deste livro é ser, tanto quanto sei, o primeiro livro de autores portugueses que aborda estas questões.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Amadora BD 2018


Esta foi a edição em que me perguntei porque raios me dei ao trabalho de pedir acreditação para fotografar o festival sem os assistentes me chatearem, se não há nada de interessante para fotografar. E, também, assinar uma declaração de consentimento no âmbito do RGPD criada pela câmara da Amadora que está mal construída e viola o RGPD.

Já vinha preparado. Os comentários à pobreza franciscana do festival nas redes sociais colocaram-me de sobreaviso. Bem, algum, porque também conheço bem a predisposição dos fãs de BD portugueses para o zurzir no Amadora BD. É uma espécie de desporto do fandom. Mas dou-lhes razão. Ao entrar nos pavilhões do festival, imperava a desolação. A um sábado à tarde, creio que estariam presentes mais pessoas ligadas à organização do que visitantes. Mergulhar nas exposições não me deu muito para ver.


O destaque ao Brasil é um tema deveras contemporâneo, dado o recente contexto de eleições fraturantes no país, e de facto foi uma exposição com sumo, que nos trouxe o trabalho de autores brasileiros contemporâneos. Boa exposição, mas não sei se se justifica como de charneira. Recorde-se que graças à Polvo, parte desses autores já são editados em Portugal, e têm tido mostras em edições anteriores do festival. Esta exposição pouco trazia de novo.

A outra exposição de charneira, dedicada ao autor em destaque, vencedor dos prémios Amadora BD no ano passado, só a consigo definir com um credo!. Não que Sousa Lobo seja um mau desenhador. Aliás, a sua obra é muito pictórica, com um forte sentido plástico. Mas representa um lado muito experimental da banda desenhada que, se deve ter lugar na edição e apreciação crítica, não é muito esplendorosa. Isso estava patente numa exposição fria, austera, um tipo de exposição que vou alegremente ver ao CCB ou ao MAAT, mas que no contexto do Amadora BD, se traduz por um grande vazio. Se calhar estou a ser reducionista e a rejeitar Sousa Lobo por ser demasiado cerebral. Mas, de fato, foi a outra exposição de charneira, que não atraía de forma alguma a atenção. Para rematar, o piso um tinha uma retrospetiva de desenhadores premiados em festivais de banda desenhada europeus.


Os espaços amplos do piso inferior estavam um pouco mais animados, pelas apresentações de livros a decorrer. Já as exposições mantinham o ar desertificado. Destaco, por deprimente afinidade profissional, a dedicada aos cartoons de Álvaro.


As pranchas com o espantoso traço de Luís Louro para o seu mais recente livro.


A mise-en-scene da exposição dedicada a Salazr e Maria, recente edição da Polvo de um autor francês que nos descobriu pelas memórias da sua ama portuguesa.

Ainda neste piso, destacaria algumas excelentes surpresas gráficas no concurso de banda desenhada para alunos do secundário, havia por lá pranchas extraordinárias de miúdos com imenso talento. A exposição antológica de Artur Correia tinha também muito a descobrir, e refletir sobre a história da banda desenhada e ilustração infantil em Portugal.

Chegado ao fim da visita, a sensação foi de ter visto muito pouco. Este foi de facto o Amadora BD menos ambicioso de que me recordo. Não frequento o festival pelos programas paralelos de apresentação de livros e sessões de autógrafos, nada contra, apenas não é a minha cena. As exposições que visitei tinham muito pouco sumo, estavam abaixo do nível esperado do festival. Aliás, sejamos honestos, há bastante tempo que o festival se tem revelado bastante medíocre, embora tenha sempre pontos de interesse. Este ano, o único ponto de interesse foi ter-me abastecido de leituras de BD de autores portugueses e brasileiros (com exceção para Mizuki, e imensa pena por ter deixado ums Breccia muito apetecíveis na Dr. Kartoon, mas a combinação salário merdoso de professor mais propinas da pós-graduação obrigam-me a ser ainda mais cuidadoso este ano). Para ser honesto, as livrarias foram o maior ponto de interesse do festival, este ano.

Poderia ser uma questão menor, mas o Amadora BD não é organizado por amadores (embora pareça). Tem um orçamento substancial, a máquina organizativa de uma Câmara Municipal por detrás, e a projeção de ser o mais internacional dos festivais portugueses. No ambiente cultural português, o Amadora BD é o elefante na sala, mas nos últimos anos tem estado tão acomodado ao estatuto de too big to fail que se reduz, cada vez mais, à insignificância.

domingo, 4 de novembro de 2018

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The Expanse Is Back With a Quick, Tantalizing Look at Its Fourth Season: Oh yeah! A melhor série de FC da atualidade sobreviveu ao desinteresse do SyFy channel e mantém-se em continuidade. Está na hora de ir à descoberta do que está para lá do portal no sistema solar (spoilers: terá o seu quê de western, com monstros e artefatos alienígenas). Aqui há dias li de relance o porquê do canal ter largado o seu melhor produto: o contrato não incluía os direitos de streaming, que são agora a componente mais lucrativa do modelo financeiro televisivo.

TWENTY FIVE OF OUR ALL-TIME FAVORITE BOOKS: Uma lista menos interessante do que esperava. Alguns dos clássicos do cyberpunk, entre Sterling, Stephenson e Gibson, algum comentário mais profundo sobre tecnologia, mas o resto é mercados, mercados, mercados. Foi por isto que deixei de lera a Wired em revista, quando o deslumbre superficial pelo hype passou a ser a sua imagem de marca.

Puppy Cuteness Is Perfectly Timed to Manipulate Humans: A fofura dos cachorros como estratégia de sobrevivência, garantindo uma ligação com humanos que lhes permita sobreviver. Como dog person que sou, diria que funcionou.


The first woman Doctor Who to be commemorated with a limited-edition Barbie: Ok, esta não estava a imaginar. Claramente, a produção de Doctor Who anda à procura de outros públicos-alvo. À data em que escrevo estas linhas, a nova temporada acabou de estrear e ainda não vi o primeiro episódio com a nova Doctor, mas os zunzuns que ouvi nas redes dão esperança na série.


BruceS: Functionally Automatic?

Godmother of intelligences: Frankenstein enquanto metáfora, especialmente acutilante na era da robótica e inteligência artificial.



Celebrate NASA’s 60th birthday with these vintage photos from space: Nunca me canso de ver fotos vintage da Terra vista da Lua.

Looking back at Google+: Agora que a Google decidiu declarar defunta a rede social que ninguém usa, diria que acho que passei mais tempo a ler este artigo sobre a história da g+ (que sabe a elegia) do que realmente a usar a rede social...

Rascunhos na Voz Online – Rogério Ribeiro (Fórum Fantástico): Nesta edição, o convidado é o sensei do Fórum Fantástico.

Isto se calhar só lá vai com um empurrãozinho - Grupo LeiTugas: Nada má esta ideia do Jorge Candeias. Eu até alinho, resta saber se invento tempo para isso.

The Autocracy App: Por vezes penso que damos demasiada importância ao papel das redes sociais. Afinal, há vida para lá das apps. Depois lembro-me que vivemos numa realidade mediada por ecrãs (como anteriormente o era pelo ecrã de televisão ou página de jornal) e o quanto as redes sociais se tornaram espaços de discussão e partilha de informação. E, também, como parecem refletir o pior do ser humano, com enviesamentos, exposição pública de ódios, xenofobias, misoginias... creio que o que verdadeiramente nos entristece nas redes sociais é perceber o quão imperfeita é a humanidade. Os resmungos usam a tecnologia são mero bode expiatório para sentimentos de profunda descrença face ao ser humano.

Instagram now uses machine learning to detect bullying within photos: Boa ideia? Má ideia? Por um lado, isto cabe no tipo de filtros de conteúdos que a infame proposta de lei europeia de direitos de autor online quer implementar, embora diria que aqui os propósitos são mais nobres. Por outro lado, ajuda a detetar automaticamente casos graves de bullying. O problema aqui é que me parece que a única coisa que faz é detetar e bloquear conteúdo. Resolve o problema da imagem do Instagram enquanto rede social segura, mas não o problema mais grave do bullying.

sábado, 3 de novembro de 2018

Lost+Found







Voltas e voltas. Acompanhar alunos ao Andakatu, atividade que os colocou em contato com arqueólogos que recriam as técnicas e instrumentos da pré-história, sair do IEUL  e passar pela zona desolada que um dia foi a Feira da Ladra, encontrar cosplayers no Festival Bang!, dar um salto à praia em Óbidos com o outono a anunciar-se pesado, e dias cinzentos de chuva na sala de espera do Hospital Beatriz Ângelo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Clássicos da Literatura Universal Vol. 3


Fausto Vitaliano, et al (2018). Clássicos da Literatura Universal Vol. 3. Lisboa: Goody.

O primeiro volume desta coleção foi interessante, uma verdadeira homenagem à literatura. Já este, nem por isso. Claramente recicla conteúdos das revistas, e a ligação aos livros que homenageia é bastante ténue. Se a primeira história remete para Don Quixote, a segunda nem se percebe por onde é que anda, com laivos de in darkest africa e She de Ridder Haggard. Note-se que não vem mal nenhum ao mundo com estas visões literárias muito diluídas com personagens Disney. Como professor, até sei o quão importante são para despertar a curiosidade dos jovens leitores. Depois de lerem estes divertimentos, ficam despertos para as referências. Fiquei foi algo desiludido no âmbito da coleção, que prometia edições mais cuidadas, tal como no primeiro volume, e não a simples transposição de histórias num formado mal adaptado ao da edição. Literalmente, o tamanho da prancha da BD Disney no meio da página em formato comic. Podemos sempre imaginar que aquelas largas tiras brancas, de espaço que sobra, são tipo as tiras negras dos filmes em cinerama.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Os Contos Mais Arrepiantes de Howard Phillips Lovecraft


H. P. Lovecraft (2018). Os Contos Mais Arrepiantes de Howard Phillips Lovecraft. Porto Salvo: Saída de Emergência.

Só podia, pensei. Só mesmo o António Monteiro para falar de M.R. James no primeiro parágrafo de um longo prefácio que detalha a vida de obra de Lovecraft. Não surpreende, este reconhecido fã da literatura de terror é um irredutível de James, e isso não o impede de uma boa e profunda introdução ao autor de Providence. O resto é o esperado neste tipo de livros da Saída de Emergência. A editora pegou nos textos do projeto de traduções da Universidade Nova, que tem editado na coleção de contos de Lovecraft, e selecionou um best of para esta edição.

Vale por isso mesmo, coligir aqueles que são os mais influentes contos deste autor. The Colour out of Space, Call of Cthulhu, The Thing in the Doorstep, Shadow over Innsmouth, Whisperer in Darkness, Pickman's Model, The Music of Erich Zann, The Haunter of the Dark, são alguns dos contos entre o gótico e o moderno, na prosa intricada de Lovecraft, que se tornaram influências seminais na ficção de horror moderna. Cada conto é ilustrado por desenhadores portugueses convidados, que trazem a sua visão da literatura de trevas cósmicas do bardo de Providence. Uma boa edição da SdE, apesar de um pouco cara, que é uma excelente introdução ao terror lovecraftiano.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

SitRep

Neste fim de semana dei um salto ao Festival Bang!, aproveitando o já estar em Lisboa para ter aulas no IEUL, e conheci finalmente em pessoa o Jorge Candeias, autor do Bibliowiki e da Lâmpada Mágica, agora a dedicar-se também à recolha de artigos dispersos na blogosfera portuguesa e brasileira sobre FC. E, também, grande (des)conhecido do grande público como tradutor da saga de George R.R. Martin (que, lamento, Candeias, nunca irei ler, porque não é mesmo my cup of tea). E, também, alguém com quem partilho princípio políticos e cujos posts nas redes sociais têm tendência para libertar o ironizador que há em mim.

Se num local bem definido por coordenadas geográficas e temporais param, à conversa, eu, Candeias e Cristina Alves, está lá praticamente metade da blogosfera portuguesa que se dedica à leitura e discussão de Ficção Científica. Não sejamos convencidos, notem que o número de blogs dedicados ao fantástico em geral tem crescido, mas os focos principais estão na fantasia e banda desenhada. E na conversa, o Candeias recordou-nos da sua iniciativa LeiTugas: e que tal tentar fazer pelo menos um post por mês de uma leitura de FC de autor português? Parece-me muito bem, apesar de nestes dias estar algo apertado de trabalho. Falta de tempo é queixa comum entre todos, e dessa maleita ando a padecer com agudeza.

Também, a culpa é minha. Ninguém me manda meter nestas coisas. Este ano estou a leccionar TIC a todas as turmas de 5.º e 7.º ano da escola (não me atrevo a contar o número de alunos, para não ficar deprimido, mas são dezasseis turmas), com o desafio acrescido de trabalhar com programas novos. Sétimo é fácil, o programa envolve 3D e multimédia, no quinto estou, literalmente, a desbravar novos terrenos (leia-se inventar, mas um inventar informado na minha experiência pedagógica e preparação técnica). Para complicar, este foi o ano letivo em que a minha escola migrou, finalmente, para uma nova plataforma de gestão de backoffice administrativo e pedagógico, da qual os meus colegas só se apercebem de algumas das pontas do iceberg, os sumários eletrónicos e a gestão online de avaliações e direção de turma. Alguns que me ouvem dizer isto rolam os olhos e dizem só agora, na escola onde estive em (inserir data aqui), mas esquecem que se a implementação inicial disto é feita pela empresa que comercializa o software, cabe a alguém nas escolas fazer o grosso do trabalho de configuração das bases de dados e sua gestão. Estas coisas não são chave na mão.

Já seria lenha suficiente para me queimar, mas ainda insisto em dar formação de 3D na ANPRI e envolver-me em projetos como o 3Digital ou a presença do Robot Anprino em Maker Faires. Roma, awesome!, já foi, e em breve é na Galiza. Ah, e porque acho que tenho de aprofundar as minhas competências técnicas, e refletir sobre o lado mais profundo da utilização de tecnologias na educação, atirei-me à pós-graduação em Robótica e Programação no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Um desafio que está a ser muito estimulante, e, claro, a dar trabalho. Some-se a isso o ser tutor online de uma cadeira de Sistemas de Informação para Bibliotecas na Universidade Aberta (foi um desafio do meu ex-orientador de mestrado, e eu devo-lhe tanto que dizer não não é possibilidade). Para rematar, há ainda um projeto editorial chamado Bit2Geek, onde com os meus contributos espero ajudar o seu criador a criar, em Portugal, um site de referência na discussão acessível de temas ligados ao espaço e impacto da tecnologia.

Ufa. Isto posto assim, até percebo porque é que tantos colegas de trabalho me perguntam quando é que tu dormes...

Quem sofre com isto são as leituras, o tempo diminui e o foco passa para livros de não-ficção dedicados à robótica, programação, pedagogia e inteligência artificial. É um cocktail, diria que, curioso. Quem estiver atento a este blog reparou que a secção semanal dedicada a comics desapareceu. Mesmo assim, nem que seja para deixar o cérebro respirar, vou tentar alinhar neste desafio do Candeias. Só não o prometo fazer no imediato...

domingo, 28 de outubro de 2018

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Behind White Shadows: É uma boa oportunidade de redescobrir o trabalho de Rosa Menkman na glitch aesthetics e databending. O ensaio é curto, e reflete sobre a apropriação do corpo feminino na imagem digital, recordando que a imagem que ainda hoje é a referência de calibração de cor da norma JPEG é a de uma modelo da Playboy.

The Spooky Genius of Artificial Intelligence: Normalmente não associamos criatividade à inteligência artificial. Mas será que não poderemos considerar como criativas as soluções estranhas, mas lógicas, a problemas que os algoritmos de IA resolve de forma inesperada?

Taiwan Can Win a War With China: Será? O artigo observa que apesar da enorme superioridade militar chinesa face a Taiwan, a invasão seria dificultada ao ponto de se tornar impossível vencer. Honestamente, espero que esta questão se mantenha como exercício de especulação...

Watch Moebius's "Starwatcher," a pioneering 3D computer animation from 1991: Recorrentemente, a internet recorda-se desta raridade, uma animação 3D onde Moebius participou. A estética deste mestre da banda desenhada, recriada em 3D com os meios técnicos (que hoje nos parecem rudimentares) dos anos 90.

Why haven't we heard from any extraterrestrials yet?: Pista: porque lá fora, o espaço é muito, muito grande, e vasto, muito, muito vasto. Ao fim de décadas, os projetos de rastreamento do espetro rádio que procuram por indícios de inteligência alienígena apenas conseguiram analisar uma ínfima parte do espaço que nos rodeia. É complicado. Até porque os extraterrestres podem estar lá agora, mas só daqui a milhões de anos é que nos aperceberemos da sua existência. O limite de c é um chato.


On the origin of the word processor: Um interessante artigo sobre as origens do processamento de texto, que se inicia não no software, mas nas primeiras máquinas de escrever, onde se originou o conceito. Não havia corretor ortográfico automático e Clippy (essa praga que deixou memória) (confesso, tinha um fraquinho por aquele clip com olhos expressivos) nas maquinas de escrever puramente mecânicas do século XIX, mas foi aí onde o processamento de texto começou. Tem também um insight interessante sobre a padronização de tecnologias. Porque é que utilizamos o teclado Qwerty, e não outros? Porque nos habituámos, e o trabalho que nos dá aprender a usar outro tipo de teclados não compensa. Ou é mesmo difícil. Eu que o diga. Depois de sete anos a usar o layout de um teclado qwerty dos Vaio, a minha memória muscular habituou-se de tal forma à localização das teclas de função nesse teclado que agora, ao fim de dois anos e picos a usar um HP, ainda não consegui reaprender a usar de forma automatizada teclas como o del, home e end... porque não estão precisamente naquela posição onde a minha memória muscular as registou.

If the Point of Capitalism is to Escape Capitalism, Then What’s the Point of Capitalism?: Estamos nos primórdios de um  novo século e já todos percebemos que o capitalismo tradicional, com as suas desigualdades, falta de humanismo, impacto ambiental e enviesamento de concentração de riqueza, não é uma solução sustentável.


The Computers That Changed the World: Os desafios de manter tecnologia obsoleta a funcionar, para memória histórica. A história da computação não é feita só de objetos, há o software que neles corria, e para se compreender a sua evolução histórica, não basta o computador em si, é preciso saber de que forma funcionava.

Why Real Change Won’t Come From Billionaire Philanthropists: A The Atlantic não é o sítio onde espero ver críticas acérrimas à ordem capitalista e à filantropia dos um percentistas. Mas o artigo tem razão. Precisamos de resolver problemas, não deixar que grupos de interesse causem problemas e depois os mitigem levemente com a capa da generosidade.

Russian operatives increased Star Wars Last Jedi fan divide: Tipo, LOL. Provavelmente foi um bom treino para os operacionais do FSB e exércitos de trolls arregimentados. Começa-se com um alvo fácil, o fandom, e depois de bem aprendidas as técnicas avança-se para outros setores da sociedade.

Writers No One Reads: Bem, eu li Virgilio Piñera. Graças ao trabalho de impecável curadorida do editor da Snob, que nos trouxe O Grande Baro e outras histórias. É de facto um escritor de difícil digestão, uma espécie de Borges mal comportado, com uma prosa fascinante.


Control Panel: Vai um pouco de fétiche com botões e controladores?

Now in print: William S Burroughs' lost guide to overthrowing a corrupt government: Isto deve ser interessante. Burroughs em full on anarchist mode. E ainda por cima com frases destas, tão prescientes na nossa era de clickbait, fake news, envieasmentos e outras manipulações do real mediado por tecnologia: "I have frequently spoken of word and image as viruses or as acting as viruses, and this is not an allegorical comparison. It will be seen that the falsifications in syllabic Western languages are in point of fact actual virus mechanisms.”For a start you scramble the news all together and spit it out every which way on ham radio and street recorders. You construct fake news broadcasts on video camera. . . .And you scramble your fabricated news in with actual news broadcasts".

Portugal em 1941 segundo a literatura: Comecei a minha carreira de professor precisamente na Escola Básica Soeiro Pereira Gomes, em Alhandra. Onde duvido que a maior parte dos meus colegas se tenha dado ao trabalho de ler Esteiros. Quando o li, fiquei espantado com a similaridade entre os meninos do livro e os meninos alhandrenses que tinha como alunos. Não todos, claro, a evolução dos tempos e dos modos ditou que a vila tivesse ido de aldeia à beira-rio para subúrbio industrial e posteriormente subúrbio classe-média. Mas ainda existiam velhas famílias, de pobreza geracional, porque nestas coisas por vezes é muito difícil quebrar o padrão, que correspondiam em tudo ao que o escritor neo-realista registou neste romance.


Enchanted garden of frescoes unearthed at Pompeii: Fico sempre fascinado quando se redescobrem raros exemplos da policromia pictórica do mundo antigo. Viviam, de fato, num mundo recheado de cores. Bem longe da monotonia da pureza do mármore branco que, durante muito tempo, se julgava caracterizar o mundo plástico greco-romano.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Tudo Isto Existe


João Ventura (2018). Tudo Isto Existe. Vagos: Editorial Divergência.

A ficção de João Ventura situa-se num espaço muito próprio e pessoal entre humor e fantasia. As suas histórias, afiadas e bem afinadas como um instrumento de precisão, nunca nos deixam indiferentes, entre o sorrir pelo humor inesperado ou o sonho invocado. Parte do seu encanto reside no minimalismo de vinheta, aparentemente simples. Quando as lemos sentimos que têm o tamanho certo, não precisam de ser mais longas ou expandidas. É precisa uma enorme capacidade narrativa para se ser tão sintético e agarrar o leitor com ideias sempre intrigantes e inesperadas.

De todos os autores com que poderia comparar a escrita de João Ventura - Borges é logo o que salta  à mente, diria que é Ted Chiang o autor de FC e fantástico que mais se aproxima. Como em Chiang, nota-se em Ventura um rigor estrutural fortíssimo assente num trabalho muito profundo do texto,que no entanto se traduz numa leveza da leitura. Os seus temas são fortemente cerebrais. João Ventura não tem medo de se meter com conceitos abstratos, transmutando-os para ficções encantadoras.

Esta coletânea de alguns dos seus textos, uns inéditos, outros já conhecidos do público através do blog Das Palavras O Espaço, ou editados em antologias de contos de FC e Fantástico, dá aos leitores, finalmente, uma visão abrangente da capacidade literária de João Ventura. Um autor discreto, criador meticuloso de delicadas peças narrativas, curtos mas intricados mecanismos literários que não nos deixam indiferentes.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Retrogaming: Da nostalgia pixelizada à história dos videojogos


O retrogaming está entre a nostalgia e a arqueologia digital. Para uns, é uma oportunidade de reviver experiências de jogo, um regresso ao passado onde a velocidade dos processadores se media em megahertz e alta resolução gráfica significava pixels um pouco mais pequenos nos ecrãs CRT. Para outros, um mergulho na história dos jogos de computador, permitindo descobrir títulos clássicos, perceber como se deu a evolução temática, tecnológica e de jogabilidade dos jogos de computador.

O Games Nostalgia é um repositório que permite descarregar alguns títulos clássicos, que correm nos computadores modernos graças a um emulador. Não é o único site do género, dedicado ao abandonware, mas distingue-se pela curação cuidada e facilidade com que os antigos jogos correm em PC ou mac, utilizando o DOSBox como tecnologia de emulação. Os jogos arquivados neste site foram produzidos por empresas hoje extintas, ou esquecidos, tornados obsoletos pela rápida evolução da tecnologia. Considerados abandonados, são disponibilizados por grupos que se dedicam à recuperação de abandonware, mantendo viva a sua memória.

Mergulhar neste site é descobrir as raízes da história dos videojogos. Podemos perceber porque é que Duke Nukem 3D foi um jogo tão politicamente incorreto, ou simular corridas criadas com técnicas antigas de animação em Outrun ou Crazy Cars. Para os fãs da série clássica Knight Rider, existe no Games Nostalgia uma versão do jogo do mesmo nome que nos faz sentir como uns verdadeiros David Hasselhoff ao volante do KITT. Podemos descobrir porque é que Doom é um jogo historicamente tão influente, bem como o seu predecessor, Wolfenstein. Estas lendas dos jogos FPS estão de volta ao mundo do gaming, com versões renovadas nos gráficos hiperreais da tecnologia de jogos de hoje.

Os jogos de simulação estratégica estão bem representados, com as primeiras versões de Sim City e Civilization, entre outros títulos clássicos. Os fãs da simulação de voo podem experimentar vários títulos clássicos da série Star Wars ou redescobrir os céus da I Guerra no clássico Red Baron. Na secção plataformas, podemos encontrar as primeiras versões de Prince of Persia ou Pitfall. Ultima ou Heroes of Might and Magic podem ser redescobertos na secção de RPG. Estes destaques são apenas uma amostra do conteúdo de um site dedicado à preservação desta vertente da história da computação. A maioria dos jogos está disponível para download, aqueles que ainda estão claramente abrangidos por direitos de autor são direcionados para portais de aquisição de jogos.

Para quem quiser explorar mais deste mundo dos jogos clássicos, o Internet Archive é um dos melhores recursos. Esta gigantesca biblioteca digital dedicada ao arquivo e preservação da memória da Internet conta com um acervo enorme de jogos de DOS. Indo um pouco mais longe, é possível jogar online títulos clássicos da Sega MegaDrive ou, num cuidado trabalho de portação e simulação digital de circuitos, antigos jogos para consolas portáteis, aqueles equipamentos com ecrãs de LCD monocromáticos que fizeram as delícias de infâncias passadas.

Por interessante que seja experimentar jogos clássicos online ou nos computadores de hoje, há um encanto especial em descobrir ou redescobrir antigos equipamentos de jogo, experimentando-os. Há algumas iniciativas de fãs que tornam possível, hoje, experimentar o que é jogar em computadores ZX Spectrum, consolas antigas, Amigas, Amstrads ou Sega Classic, até mesmo experimentar os primeiros óculos de realidade virtual da Sony. Em Linda-a-Velha podemos encontrar o espaço Nostalgica, dedicado a criar um museu que preserva mais de quatro décadas da história dos videojogos, mantendo hardware antigo em condições funcionais para que os jogadores de hoje compreendam os antigos sistemas de jogo.

Para alguns, redescobrir estes jogos é um processo de nostalgia, recordando o gosto dos jogos clássicos. Para outros, é partir à descoberta da história e evolução dos jogos de computador. Estes artefactos são mais do que simples entretenimento. Hoje, os videojogos são ao mesmo tempo ndústria e forma de arte, conjugando tecnologia digital avançada com elevados níveis de criatividade no concept design e poderosas técnicas narrativas imersivas, capazes de envolver os jogadores. Regressar aos seus primórdios é uma divertida forma de melhor compreender a evolução do mundo dos videojogos.


domingo, 21 de outubro de 2018

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Watch the Silent Film that Brought Rocket Science to the Masses: A Motherboard redescobriu o clássico Fraum im Mond, talvez  o primeiro filme de FC verdadeiramente fiel à ciência. Não em tudo, claro, os astronautas vão à lua pesquisar ouro e respiram normalmente a atmosfera lunar. Onde o filme é arrepiantemente prescientes é na antevisão do que seria o lançamento de um foguetão. É uma sequência admirável, em tudo igual ao que hoje é o procedimento normal de lançamento de foguetões. Não é para menos. Fritz Lang, o realizador, que viria a realizar essa obra prima do cinema de FC que é Metropolis, contratou o pioneiro da astronáutica Herman Oberth para o aconselhar sobre esta tecnologia, que há época estava ainda nos seus humildes primórdios.

How Cyborgs Took Over Popular Music: Não só na estética, mas na criação de um som mesclando o homem e a máquina. Não estamos a falar dos dj's mete a pen e faz efeitos, mas de verdadeiras experiências musicais na vanguarda estética, que tiram partido das sonoridades mecânicas analógicas e digitais. O artigo começa, e muito bem, em Kraftwerk, e tem a ousadia de chamar a Bowie um poseur que se apropriou momentâneamente destes registos antes de experimentar outras estéticas. Ficou de fora a musique concréte e Pierre Henry, mas há que perdoar o esquecimento, o artigo é sobre música pop e não erudita.


Found: An Ancient Roman Comic Strip With Speech Bubbles: Mais um artefato a juntar aos baixos-relevos assírios, coluna de Trajano, e tapeçaria de Bayeux como precursores da arte da banda desenhada. Desta vez, frescos romanos preservados numa tumba descoberta na Jordânia.

Are Hosts, Replicants, and Robot Clones Closer Than We Think?: Estará a tecnologia próxima de nos oferecer a imortalidade artificial, permitir-nos transpor os limites da carne, digitalizando a nossa consciência e transferindo-a para corpos robóticos ou clonados? É um velho sonho humano, vencer a mortalidade talvez seja o nosso mais antigo anseio desde que tomámos consciência da nossa finitude, e que a ficção científica tem sabido explorar. Agora, nesta era dourada de desenvolvimento tecnológico, há quem esteja a experimentar tecnologias que, dizem, têm o potencial de nos fazer transcender esses limites. Mas há problemas, e muitos. Comecemos pelo mais essencial: a neurociência ainda não consegue definir o que nos torna conscientes. Só mapear o cérebro e as suas ligações parece não chegar, o que mete por água abaixo boa parte das aventuras de FC sobre consciências humanas convertidas em inteligência artificial. E se formos capazes de criar simulações fiéis de nós próprios, elas serão conscientes, ou apenas simularão consciência? E se... a consciência que temos de nós, a nossa individualidade, não for mais do que simulacros, efeito secundário da soma de comportamentos emergentes biológicos ao nível celular e macro-celular que nos permite ser criaturas vivas?

Low pay, poor prospects, and psychological toll: The perils of microtask work: Arquivar em "a sério, no shit, sherlock?" Parece que as plataformas de tarefas remuneradas, que se apregoam como uma forma de ganhar trocos nos tempos livres, são afinal zonas de trabalho árduo e pago muito abaixo do preço de mercado, muitas vezes a lidar com material traumático, como moderação de conteúdos em redes sociais.


Happy 10th anniversary, Android: Confesso que gostaria de ter experimentado o HTC G-1. O sistema operativo Android comemora o seu décimo aniversário, e o TechCrunch recorda-nos alguns dos dispositivos que foram seminais neste sistema.

Novidade: Conversas com os putos e com os pais deles – Álvaro: Suspeito que se tivesse paciência, também escreveria um divertido livro de recolha de comentários estapafúrdios apanhados na escola. Mas acho que não seria sobre alunos, sim sobre a incapacidade generalizada dos professores em utilizar os mais simples elementos da tecnologia digital.

Suspiria Is a Living, Breathing Work of Art: Ok, estou intrigado. Nunca percebi bem a ideia de fazer um remake da obra prima de Dario Argento, mas é uma cena, e está pronta a estrear. Aparentemente, o realizador decidiu ser ousado e garantir uma experiência estética extrema. Resta-me ver o filme para saber se é um remake entediante, a banalização de um filme excecional, ou uma vénia à estética inquietante, de cor vibrante e exagero cromático, do original.

12 Unforgettable Sci-Fi Movies About Memory: Total Recall fica acima de todos. É um péssimo mau filme, mas com a idade, vai-se apreciando a sua cheesiness.


Hybridizer: Release your Inner Beast: Um divertido webtoy, que vai buscar ilustrações naturalistas do século XVII para as combinar em criaturas híbridas. As criaturas feéricas podem ser exportadas em gif animado ou vídeo.

Has Artificial Intelligence Given Us the Next Great Art Movement? Experts Say Slow Down, the ‘Field Is in Its Infancy’: Pois claro. Agora vivemos num momento de deslumbre, em que pensamos que os algoritmos de IA conseguem ser criativos. Na verdade, isso é desconhecimento sobre como, realmente, funcionam estes algoritmos: apenas trabalham dentro de estreitos limites de decisão, não aprendem, ou seja, o que desenvolvem é esquecido quando se introduzem novos parâmetros, e não podemos descontar o papel humano, do programador, investigador ou artista que utiliza e experimenta com IA enquanto ferramenta de criação visual. O que não quer dizer que as criações de IA não possam ser uma forma de expressão artística. Não o são é da forma como a concebemos na cultura popular, com a IA como espécie de ser consciente, autónomo e criativo, tal como nós, mas artificial.

Haverá vida nos lagos de Marte?: O problema com a ciência a sério é que tem o seu quê de deprimente. Anda-se a especular sobre little green men e na verdade, nem microorganismos parecem pulular por aí.


Quantifying Mark Rothko: A relação que cada um de nós tem com a arte é algo de intensamente pessoal. O que gostamos, a forma como a apreciamos, é essencialmente algo ligado à nossa individualidade. Descrever a obra de um pintor através de quantificações é, de facto, tão relevante como fazê-lo através das sensações que nos desperta.

Zahna: Joana Afonso tem um novo livro, e parece estar muito longe do seu registo temático habitual, embora o gráfico seja aquele estilo incisivo a que nos habituou.

Detailed look at Google's secret, censored, spying Chinese search tool: Lembram-se dos tempos em que o lema da Google era do no evil? Agora, desenvolvem soluções orwellianas a pedido de regimes totalitários.

The Existential Void of the Pop-Up ‘Experience’: Afinal, não estou sozinho a pensar que aqueles pseudo-museus feitos para serem visitados em modo de tiragem constante de selfies são, essencialmente, uma patetice.


Boeing/Saab joint T-X design wins Air Force’s jet trainer competition: Daquelas imagens que enchem o olho, o protótipo vencedor do concurso de novas aeronaves de treino da USAF.

As 21 Lições de Harari: Confesso que quando vi este livro a ser anunciado com todo hype achei que não iria trazer nada de novo, era um capitalizar rápido do sucesso do autor. Apesar do seu brilhantismo, não me parece que Harari seja capaz de produzir um novo livro em poucos meses, e suspeitei que este fosse, no essencial, um repetir de ideias, quase uma versão condensada para os que estão atrasados no apanhar do comboio. Esta recensão de Nelson Zagalo confirmou as suspeitas.

The Strike That Could Shape the Future of European Labor: O ponto de interesse deste artigo está logo nos primeiros parágrafos. Se a União Europeia tem empresas verdadeiramente inter-europeias, que vivem do mercado único e interligam todas as zonas da europa, porque é que algo similar não existe para as leis laborais?

Meio século de aventuras eletrónicas: Aqui há dias ia no carro e lembrei-me: o que é que aconteceu a Jean Michel Jarre? Adorava as sonoridades eletrónicas dele quando era adolescente, e agora tenho uma certa relação de prazer culposo. É bom saber que está a ser alvo de uma antologia musical, que dá perspetiva a uma carreira entre o pop e a música eletrónica experimental.