segunda-feira, 16 de julho de 2018

Comics


The League of Extraordinary Gentlemen The Tempest #01: Um lançamento estranhamente discreto, tendo em conta que se trata da conclusão da série seminal de Alan Moore e Kevin O'Neill. The Tempest concluirá o tour de force metaficcional que homenageia a literatura pulp e fantástica. Como sempre, cheia de referências a personagens da literatura, banda desenhada e cinema, sempre revistas com um profundo toque de humor negro.



Outpost Zero #01: Um novo comic intrigante, de pura ficção científica. Claramente uma história de adolescentes que se descobrem e ao mundo, mas num mundo fechado: uma longínqua colónia humana, fundada por uma nave geracional, parte de uma diáspora que perdeu o contacto com o resto da humanidade.

domingo, 15 de julho de 2018

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The First Portable Computers Were the Size of an RV: A computação móvel adquire todo um novo sentido quanto o computador portátil é uma roulote. Estas pérolas esquecidas da história da computação mostram o quão rápida foi a sua evolução.

What Europe Can Teach America About Russian Disinformation: As batalhas de um futuro que já é presente não se travam nas trincheiras. São, antes de mais, batalhas de ideias onde o conceito de meme foi transformado numa arma eficaz, utilizando redes sociais e outros meios digitais como vetor de ataque. O jogo já é antigo, a forma como é travado é que se acelerou. Pela forma como a Europa está a regredir para a direita, diria que não estamos a ganhar a guerra.

The Unbearable Awkwardness of Automation: Automação, vista não na tradicional perspetiva de pulverização do emprego tradicional, mas na da alteração que traz aos espaços arquitetónicos, pensados para tipos de interação humana que a automatização está a extinguir. Os bancos são o primeiro exemplo, mas esta despersonalização em nome da eficácia alastra a todos os tipos de espaços urbanos: " The buildings that house banks are no longer sites for person-to-person interaction. They are places where people come to transact with machines".



That Merkel Photo Is More Like a Meme Than a Renaissance Painting: O que quer que digam sobre esta foto do encontro dos líderes do G7, o que salta à vista é o sentido de composição visual da imagem. Acaso do momento, toque de sorte entre as centenas de imagens que o fotógrafo tirou.

Terraforming Ourselves: Coisas que acontecem quando se dá um livro sobre história da literatura de FC a um crítico que não gosta do género. Entre as banalidades de dizer que vivemos num mundo pós-ficção científica a descrever os seus praticantes como mais interessados em disputas mesquinhas do que na evolução do campo literário.

Article: Why I read and review 50s-70s Science Fiction: Como refere o articulista, o foco é uma questão de estética e não um depreciar da FC mais recente. É especialmente acutilante a zurzir na ideia metastizada na cultura que a FC é uma espécie de oráculo preditor de futuros, desacreditando o género quando chegamos realmente a um tempo futuro e as predições não se concretizaram. É aquele argumento de a FC hoje é irrelevante porque vivemos na science-fiction condition.

Colecção Bonelli 10 - Dylan Dog: Os Inquilinos Arcanos: Artigo de João Lameiras sobre o último número da coleção Bonelli da Levoir, dedicado a Dylan Dog.

A computer program that learns to “imagine” the world shows how AI can think more like us: O objetivo parece simples - levar uma IA a conseguir definir uma cena a partir de um ângulo que não vê, a partir da análise dos restantes pontos de vista. É uma constância de espaço que as crianças desenvolvem nos primeiros meses de vida.

Stanford Researchers Trained a Neural Network to Make These Memes: E se treinarmos uma IA para fazer memes, isso quer dizer que a IA desenvolveu sentido de humor?

Why Do We Care So Much About Privacy?: Provavelmente, o melhor texto que li nos últimos tempos sobre a questão da privacidade e proteção de dados. Parece uma ironia perceber que a melhor defesa da liberdade individual é restringir fluxos de dados, mas o objetivo não é institucionalizar censuras, mas sim restringir o que terceiros (nomeadamente, empresas e governos) podem fazer com a imensidão de dados pessoais que recolhem: "This means the freedom to choose what to do with your body, or who can see your personal information, or who can monitor your movements and record your calls—who gets to surveil your life and on what grounds. As we are learning, the danger of data collection by online companies is not that they will use it to try to sell you stuff. The danger is that that information can so easily fall into the hands of parties whose motives are much less benign". E uma ideia elementar: "“the beginning of all freedom” is “the right to be let alone”—that is, the right to privacy".

This is where internet memes come from: memes como arma ideológica, e qual o seu ground zero. Reddit e 4chan, não há aí grandes surpresas, este estudo apenas confirma aquilo que qualquer conhecedor dos vetores de infeção memética online já sabe.


Why Horror VHS Artwork Was So F*cked Up: Tem o seu quê de desanimador perceber que as gloriosamente explícitas e violentas capas dos filmes de terror foram pensadas não como reflexo do género, mas como aplicação direta de técnicas de marketing. Resumindo, o fruto proibido é sempre o mais apetecido, e nada como boas polémicas para gerar interesse.

Space could become the battleground of the future: Não no sentido guerra das estrelas, claro. Dada a progressiva importância estratégica e económica do espaço na órbita terrestre, cientistas ligados ao World Economic Forum postulam a necessidade de legislar regras de combate no espaço, minimizando os danos civis de potenciais ataques de estados-nação à infraestrutura orbital.

Rolls-Royce's Hood Ornament Is Actually A Tribute To A Secret Affair: É giro descobrir que o famoso adorno que distingue os Rolls Royce começou por ser uma adição não autorizada, e a celebrar a amante de um aristocrata dono de um destes veículos de luxo. Um conhecimento completamente inútil, mas é giro ficar a saber.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

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GIF of the Day: Wire Frame PC: Um lost+found de 2016.


MAD magazine exclusive: "The Future of Job Automation": Será que os robots, no seu caminho para nos tornarem obsoletos, irão replicar a forma como vemos o trabalho e economia? Uma piada da MAD, daquelas que faz pensar.


BruceS: Um lost+found de 2017.

Anonymity on the Net — updated:  O clássico on the internet, nobody knows you're a dog revisto. E uma versão ainda mais atual deste cartoon mostraria uma Inteligência Artificia ao serviço de uma rede social ou site compras.


The Antic Cyber Graphics Software: Um repositório dedicado aos primórdios da modelação 3D e CAD para computadores pessoais.


XKCD - Isolation: Outro lost+found, um excelente contraponto ao argumento de "os estão a tornar-nos anti-sociais". Será assim tão desejável estarmos sempre a ser sociais?



It’s got “Internet meme” written all over it: Ver para lá dos sinais de trânsito.


Adventures In Science Fiction Cover Art: The Space Station, Part III: Estações espaciais vistas pelo olhar dos ilustradores de capas de FC clássica.


Archie comic from 1972 about 2012: Mais especificamente, sobre música eletrónica. Groove is in the heart, como diz a canção.


Wernher von Braun’s Martian Chronicles: Recordar a visão clássica da exploração de Marte por Wernher Von Braun.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

O Sol Caiu



C. J. Cherryh (1989). O Sol Caiu. Odivelas: Europress.

No futuro distante, com o sol a enfraquecer e os filhos da Terra espalhados pelo espaço, restam no planeta as antigas grandes cidades, cada qual decaída nos seus mundos interiores. Este romance conta-se através de histórias passadas nestas exóticas cidades de um futuro, não o típico futuro de megalópoles hiper-tecnológicas a que estamos habituados, mas a uma visão exótica de urbanismo, onde os antigos grandes centros estão isolados em si próprios. Esta visão evocativa da degenerescência barroca da arquitetura é o ponto de interesse deste livro, composto de histórias de recorte algo surreal, que embora sejam evocativas, não são particularmente interessantes. Um típico romance fix-up, prática clássica da edição de FC que pega em contos de um autor e os publica como se de uma obra consistente se tratasse.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Charley’s War



Pat Mills, Joe Colquhoun (2018). Charley’s War Vol. 3: Remembrance - The Definitive Collection. Londres: Rebellion.

Se queremos ler a obra definitiva em banda desenhada sobre a I Guerra Mundial, Era a Guerra nas Trincheiras de Tardi é o livro incontornável. E, logo de seguida, diria Charley's War de Pat Mills e Joe Colquhoun. Tardi seguiu um caminho de rigor histórico com sentido crítico, retratando na perfeição o absurdo e horror da guerra. Um trabalho de rigor e crítica que lhe valeu a admiração dos leitores e, com uma certa ironia, honras militares do estado francês.

Pat Mills seguiu um caminho similar, mas mais discreto. A série Charley's War segue as aventuras de um soldado comum do exército britânico durante a I Guerra, acompanhando a dureza das trincheiras. Embora se mantenha dentro dos padrões dos comics britânicos, Mills aproveita a estrutura narrativa dos comics de guerra para passar uma forte mensagem crítica. Não há heroísmos, apenas a necessidade de sobrevivência face ao inimigo e à inépcia assassina dos comandantes, corrupção e estratificação social, e o horror do confronto diário com a morte violenta. Charley, retrato do comum bloke britânico, arregimentado para combater numa guerra que não é a sua, tudo suporta e sobrevive, apenas para receber em troca o ser um dos muitos desempregados de longa duração na depressão que se seguiu à guerra.

O trabalho de Mills é especialmente corrosivo se o enquadrarmos no contexto dos comics britânicos. São um meio comercial, e o género de guerra sempre seguiu narrativas elementares, meras histórias de aventura em combate, cheias do heroísmo dos bravos soldados britânicos e de fiabilidade histórica entre o duvidoso e o absurdo. Um estilo que ainda hoje sobrevive na interminável edição da revista Commando. Mills pegou neste estilo e conseguiu utilizá-lo para passar uma inesperada visão crítica da guerra e da sociedade britânica, mantendo o tom de aventura. Deve ter sido uma enorme surpresa para os leitores das revistas para rapazes britânicas quando, em 1979, as histórias das desventuras do soldado Charley Bourne começaram a quebrar o modelo narrativo dos comics de guerra.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

As ferramentas de imagem e a ilusão da realidade: um Gabinete de Curiosidades

sNotas da apresentação para o debate As ferramentas de imagem e a ilusão da realidade, no V Encontro Internacional da Casa das Ciências. Infelizmente, não pude estar presente quer no painel quer nos workshops de impressão 3D que iria dinamizar no evento. E perder uma excelente experiência de partilha e aprendizagem, bem como uma oportunidade de visita a Guimarães. Foi efeito colateral da greve de professores às avaliações.

 

Slide 1 - Apresentação


I don't want to live on this planet anymore. É um sentimento que por vezes ataca, quando se acede a uma rede social e se assiste a discussões inflamadas acríticas ou à estanquicidade das bolhas de informação. Um sentimento que extravasa para outros media, no jornalismo clickbait, cultura audiovisual do choque constante. Agrava-se quando as notícias nos mostram o triunfo de populismos, neonazis em marcha, ou as intensas diatribes que parecem marcar um discurso de retrocesso do progresso social, científico e económico nestes primeiros anos do século XXI. Nisto, qual é o papel das imagens, especificamente pela forma como podem ser construidas e manipuladas, disseminadas quase instantaneamente na sociedade em rede?

Confesso que me senti em desvantagem quando me desafiaram a partilhar este espaço com especialistas nestas temáticas. Não é o meu caso, estou mais à vontade no uso de derretimento controlado de termoplástico com crianças Tenho um vago background em Belas Artes, resquício dos tempos das minhas ambições de adolescente, mas sou essencialmente um professor do ensino básico que emigrou de EVT para TIC. E que ao dedicar-se a aprender a ensinar todo um novo campo disciplinar, mergulhou com enorme curiosidade na história da evolução da tecnologia digital, da computação mecânica à IA.

Já ouviram aquele tipo de discurso sobre no século XXI não se poder ambicionar uma carreira única num campo específico, mas sim saltar entre diferentes áreas de atuação? Para mim, isso é uma realidade.

O que proponho nesta apresentação é uma espécie de gabinete de curiosidades. Durante o renascimento, o Gabinete de Curiosidades surgiu como forma de colecionar artefatos intrigantes, curiosidades que iam artes às então nascentes ciências naturais. Estão na génese direta dos museus de hoje.

Nesta apresentação, mostro um conjunto de curiosidades, que registam no radar pessoal que filtra a saturação das paisagens mediáticas. Vieram de notícias em meios de comunicação, sites dedicados à vanguarda da tecnologia e partilhas na blogosfera. Mostram técnicas de criação iconográfica que se relacionam diretamente com uma das problemáticas mais pertinentes da nossa vida digital: o como as imagens nos enganam.


Slide 2 - Se está na internet, então é porque é verdade!

Há outro enquadramento para esta minha abordagem. Como todas as crianças do final do século XX, imaginava com esperança que o XXI seria uma cornucópia de utopias tecnológicas. Pronto, um futurismo radioso talvez sem rayguns e jetpacks ou bases lunares permanentes, mas certamente que com progresso tecnológico, político e social a nível global. O que os anos mais recentes deste novo século nos trouxeram parece a inversão deste ideário optimista. O conceito de um futuro progressista está a ser fortemente abalada por inacreditáveis regressões: dominância dos extremismos no mundo, impensável subida ao poder de um populista inepto no país que se afirma como um farol da democracia. O inexplicável Brexit. O alastrar dos populismos numa Europa que parece ter esquecido as sangrentas lições da história do século XX. Qualquer um que esteja atento ao que se passa fica estarrecido com estes mergulhos na histeria colectiva. No momento em que escrevo estas linhas, o país mais influente do planeta separa crianças dos seus pais emigrantes e enjaula-as em centros de detenção.

É fácil demonizar a internet, culpá-la por todos os males que afligem o mundo contemporâneo. Não é um discurso que eu apoie. O mundo online abriu-nos horizontes fantásticos de partilha cultural e aprendizagem, bem como novos serviços e negócios. Mas é inegável que a internet tem estado no centro de muitas destas tendências. A prometida interconexão de uma aldeia global interligada pelas redes digitais evoluiu para a fragmentação das bolhas de informação, expressas em redes sociais ou fóruns que abrigam comunidades de interesses. O empoderamento trazido pela internet traduz-se num incrível acesso global à informação, mas também facilitou o trabalho aos extremistas, criando novos canais de comunicação e agilizando os seus vetores de propagação de propaganda. Alie-se a isto uns mass media em desagregação, cujo papel aparentemente inabalável de árbitros de ideias se pulverizou entre a multiplicidade de novas fontes e o decair dos media tradicionais nas estratégias do clickbait.

No epicentro destas tendências está a imagem, especialmente na forma como pode ser usada como vetor otimizado de transmissão de ideias.

Fomos treinados a confiar nas imagens, especialmente provenientes de fontes jornalísticas. Uma confiança que se mantém no mundo online, onde somos bombardeados com uma imensidão de imagens cuja veracidade aceitamos sem pestanejar. Uma característica que nos torna permeáveis à manipulação. Quem o faz, por razões religiosas, ideológicas, ciberguerra ou apenas para se divertirem, dos jihadistas aos trolls adolescentes do 4chan, sabe muito bem como tirar partido dos enviesamentos pessoais para utilizar a imagem como arma.

A ilustração é uma das muitas versões da Helicopter Shark, uma foto-montagem que há alguns anos atrás se espalhou viralmente nas redes sociais, levando muitos a acreditar que, de fato, um gigantesco tubarão tinha tentado devorar um helicóptero Blackhawk: http://hoaxes.org/photo_database/image/helicopter_shark


Slide 3 - Hiperrealismo digital


É fácil cair na tentação de pensar que criar imagens hiperrealistas com meios digitais é um processo simples. Os meios técnicos, técnicas de modelação 3D e texturização realistas estão em rápida evolução contínua, em parte impulsionados pelas indústrias dos jogos e efeitos especiais, sempre em busca de um cada vez mais elevado nível de realismo no ecrã. No entanto, criar este tipo de imagem não se resume a apontar e clicar, requer um imenso e meticuloso trabalho de modelação 3D com ferramentas complexas por artistas digitais dedicados.

Neste exemplo, aquilo que parece uma foto revela-se como um trabalho excelente de modelação, texturização e iluminação 3D. Uma constante evolução na produção de imagens sintéticas com níveis progressivamente superiores de realismo é uma expetativa habitual nos produtos de cultura popular, especialmente na animação 3D, indústria dos jogos ou efeitos especiais para cinema.

A imagem é da autoria do artista 3D David Karner, partilhada pelo blogger Jason Kottke: https://kottke.org/18/02/early-90s-computing-nostalgia

Slide 4 - Hiperrealismo digital?

Mostrando como é fácil enganar os nossos olhos, o que estão a ver não é uma animação por computador, dos primórdios das técnicas de animação digital. O realizador john Carpenter queria isso para o genérico do seu filme Escape From New York, mas o orçamento não era suficiente. A solução? Cobrir uma maquete com fita fluorescente, e filmar sob luz negra. O resto é trabalho de enquadramentos e movimentos de câmara. No entanto, o efeito conseguido é o da clássica estética cyberpunk. No cinema, a criação de cenários virtuais antecede em muito a revolução digital. As técnicas de matte painting criaram ilusões convincentes no ecrã, utilizando efeitos de perspetiva e pintura realista.

As cenas do genérico do filme foram redescobertas no tumblr Sculptures in Time: https://sculpturesintime.tumblr.com/post/154442055950/what-appears-on-those-screens-was-not

Para descobrir o longo historial de uso da pintura atmosférica para criar cenários de cinema, que conjugada com truques óticos de posicionamento de câmara, enquadramentos e lentes, criaram espaços ilusórios, recomendo o exaustivo blog Matte Shot (http://nzpetesmatteshot.blogspot.com/), que se especializa em publicar registos fotográficos dos cenários e filmagens nesta técnica clássica de efeitos especiais pré-digitais.

Slide 5 - Hiperrealismo digital

Se pensam que estão a ver uma singela pintura vagamente barroca, a remeter para a corte de do rei Luís XVI, desenganem-se. Em Francine, criada pela web designer  Diana Smith, a imagem é desenhada utilizando programação web de CSS, e altera-se de acordo com o navegador em que for vista.

Um verdadeiro tour de force de design web, que põe a nu a essência da imagem digital: desde a foto pessoal banal à reprodução de obras primas, para um computador não passam de um conjunto de instruções que lhe diz como reproduzir algo no ecrã. O código-fonte desta experiência visual está no Github: https://github.com/cyanharlow/purecss-francine

Slide 6 - Sonhos do Exterminador Implacável

A estranheza das imagens geradas por inteligência artificial despertou a atenção quando a Google divulgou as criações surreais de algoritmos de classificação de imagem, que ficaram conhecidos por Deep Dream. Essencialmente,algoritmos em redes neuronais que aprendem, através da análise de quantidades massivas de imagens, a reconhecer elementos específicos. Os algoritmos Deep Dream geram resultados psicadélicos, mas as verdadeiras aplicações destas tecnologias estão, entre outros campos, no desenvolvimento de veículos autónomos, reconhecimento de imagens e reconhecimento facial.

Não cabe no âmbito deste debate definir precisamente o que é Inteligência Artificial, mas digamos que embora disponhamos de ferramentas poderosas, nenhuma se aproxima sequer do ideal sentiente da Skynet e T-1000, o robot assassino vindo do futuro do filme Exterminador Implacável. Criar inteligência artificial generalista tem-se provado ser um objetivo muito fugidio. As aplicações correntes de IA dependem do processamento massivo de dados em aplicações específicas. Mais do que computadores inteligentes, assemelham-se a idiots savants.

Se treinarmos um algoritmo DeepDream com um tipo específico de imagens, ele vai traduzir tudo o que analisa dentro desses padrões. Os resultados estão entre o fascinante e o desconcertante. É tentador dizer que o algoritmo sonha. Chegou ao conhecimento público quando a Google publicou, em 2015, a primeira referência ao que os pesquisadores, na altura, denominavam inceptionism (referência ao filme de ficção científica Inception), e depressa se disseminou, com aplicações web que permitem a qualquer utilizador fazer upload das suas imagens para ser processado por estes algoritmos, obtendo resultados sempre bizarros: https://ai.googleblog.com/2015/06/inceptionism-going-deeper-into-neural.html

Slide 7 - Sonhos do Exterminador Implacável

Se os pintores Francis Bacon e Caravaggio acasalassem e tivessem um descendente mutante com traços de esquizofrenia e a capacidade de combinar os seus estilos pictóricos, provavelmente pintaria este tipo de imagens. Estas foram criadas por uma Inteligência Artifical, através da técnica de Generative Adversarial Network (GAN), aprendendo generativamente por contraposição de resultados a partir da aprendizagem de um banco de dados. O que mais intriga neste tipo de experiência é a forma como questiona a humanização inerente à arte, uma daquelas áreas de atividade humana que acreditamos imunes à inteligência artificial precisamente pela combinação de mestria individual, pensamento e carga emocional que só os humanos parecem capazes de atingir. Por complexos que sejam os algoritmos de IA, não são seres conscientes, com sentimentos, e no entanto parecem ser capazes de gerar iconografias inquietantes, para lá da fronteira do derivativo.

Estas imagens são o resultado do trabalho do investigador Robbie Barratt, que aplica técnicas GAN à criação de imagens: https://boingboing.net/2018/03/28/robbie-barrats-ai-generated.html

Slide 8 - Deepvideo, DeepFake

A transferência de estilos entre imagens diferentes dá-nos uma das mais arrepiantes utilizações: vídeos aparentemente verdadeiros, criados transferindo discursos para imagens reais. São concebidos alimentado uma Inteligência Artificial com bases de dados contendo fotos de uma personalidade. Algoritmos de machine learning adquirem os padrões que estruturam e identificam o rosto, e aplicam-no sobre outra face. O resultado é uma arrepiante transferência de faces. As implicações nos domínios da propaganda e veracidade da informação audiovisual são enormes. Imaginem, por exemplo, um ator a ler um texto violento, com a face de um político conhecido mapeada. Esta experiência já foi feita. Se conjugarmos a produção de imagens em movimento desta forma  com o imediatismo dos media e a falta de sentido crítico no mundo online, é arrepiante as questões que levanta sobre algo que julgávamos intocável.


Há muitas referências ao desenvolvimento de técnicas de transferência de imagem por inteligência artificial em vídeo. Este, a ser mostrado na edição de 2018 do Siggraph, é dos mais recentes: https://web.stanford.edu/~zollhoef/papers/SG2018_DeepVideo/page.html

Slide 9 - Regra 34 e Machine Learning

Por óbvias razões, não irei mostrar exemplos daquela que é das mais prevalentes aplicações dos algoritmos Deep Fake. Fiquemo-nos com o rosto do ator Nicholas Cage mapeado na face de uma atriz. É em netspeak o que se chama de regra 34: se existe, pode-se fazer uma versão pornográfica. A tecnologia de aprendizagem de máquina é facilmente acessível online (a Google disponibilizou a tecnologia TensorFlow, que sustenta aplicações para machine learning e redes neuronais), e estas implementações depressa se tornaram uma técnica de gerar pornografia falsa, em que a imagem de celebridades é aplicada a filmes porno.  Onde encontrar as imagens? Bem, reparem na enormíssima quantidade de fotos que é publicada online, em redes sociais, aplicações, galerias, fóruns de partilha… na verdade, sempre que partilhamos online fotos do nosso dia dia, estamos a alimentar bases de dados vastíssimas, utilizadas pelos investigadores de inteligência artificial para alimentar algoritmos de machine learning.

Um bom artigo sobre o lado mais lúbrico dos DeepFakes, com menção a implicações legais inesperadas. Se um deepfaker faz um vídeo em que transfere imagens de uma celebridade enquanto criança para um filme pornográfico, isso constituirá pornografia infantil? https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2018/05/realitys-end/556877/?utm_source=feed

Slide 10 - Basta descrever, que a IA faz o filme

A imagem gerada por IA oscila entre o fascinante e o assustador. As técnicas de machine learning que transferem estilos visuais entre imagens , interpretam imagens com base em reconhecimento de padrões e criam imagens aparentemente originais, criam o sentimento que somos incapazes de garantir a fiabilidade em imagens.

Sobre o uso de algoritmos de inteligência artificial para automatizar a produção de imagens falsas, deixo mais esta técnica: uma IA que, com acesso a uma enorme base de dados de videos, pode criar pequenos filmes a partir das descrições dadas pelos seus utilizadores: https://www.technologyreview.com/the-download/610370/a-new-ai-creates-original-video-clips-from-text-cues/

Como é que isto é possível? A explosão de uso da internet teve, entre outros efeitos, o de um crescimento exponencial na quantidade de dados disponíveis globalmente. Estes algoritmos, apesar de serem de inteligência artificial, não são verdadeiramente inteligentes, dependem do processamento de enormes quantidades de dados para aprender. Não é por acaso que a explosão nas aplicações de IA, machine learning e outras técnicas se deu com este boom na massificação da internet. A quantidade de dados que partilhamos são o que as alimenta. Lembrem-se, da próxima vez que partilharem algo em rede sociais (ou, se usarem um serviço gratuito de email, enviarem uma mensagem): qualquer que sejam os dados que estejam a enviar, estão a contribuir para o treinar de inteligências artificiais.

Slide 11 - Memes: armas virais na guerra cibernética


Tecnologias de processamento avançado de imagem baseadas em IA levam-nos a questionar a fiabilidade das imagens que visionamos, mas quando queremos influenciar mentes não necessitamos de grandes recursos. Aqueles que utilizam a imagem como arma nas técnicas de propaganda digital não recorrem a grandes aparatos técnicos, preferem iconografias low tech apropriadas e descontextualizadas que apelam aos enviesamentos ideológicos e cognitivos dos seus alvos. Os memes são a forma mais conhecida deste tipo de uso de imagem, verdadeiramente viral, admitidamente como arma de desestabilização social. Quantos de nós, ao navegar pelas redes sociais, não se deparam com imagens deste calibre, que nos despertam reações viscerais? Não é preciso ser-se um expert em criação de imagem para criar iconografias destas.

Os memes como arma são apenas a mais recente manifestação de algo bem antigo, a imagem enviesada como forma de propaganda.

Apelar aos sentimentos viscerais, incentivar enviesamentos, são técnicas bem conhecidas e com um longo historial de uso. O que muda é a rapidez e intensidade com que somos bombardeados por este tipo de informação.

Para os mais aventureiros, uma visita ao 4Chan ou ao Redditt permite uma descoberta dos fóruns onde os memes são criados. Aviso à navegação: é provável que um mergulho nestes sites provoque traumas e um descrédito generalizado na capacidade humana para a bondade. 

Como os memes são utilizados como arma: https://www.salon.com/2018/02/24/how-memes-are-being-weaponized-for-political-propaganda/

Memes, do conceito de viralidade como forma de propagação de ideias ao seu uso como ferramentas de combate cultural e ideológico: http://www.mondo2000.com/2018/06/21/the-ends-dont-justify-the-memes/

Slide 12 - Constância do Engano



A primeira, é  uma imagem clássica. São as Cottingley Fairies (https://en.wikipedia.org/wiki/Cottingley_Fairies), e há cem anos atrás, o escritor Conan Doyle contava-se entre os que acreditavam que estas imagens mostravam que as fadas existiam realmente. Notem que esta fotomontagem nem sequer foi muito sofisticadas, eram simples recortes de livros infantis fotografados por duas adolescentes. Pouco tempo depois, o regime soviético descobriu a importância da reescrita dos registos históricos, adulterando fotos para eliminar das memórias institucionais aqueles que o estalinismo recorreu fez desaparecer por cair no desfavor político.

Na segunda das duas imagens, Yezhov, diretor da polícia política soviética, é apagado após ter sido morto às ordens de Estaline (http://www.alteredimagesbdc.org/#/stalin/). A foto-montagem, coexiste com a utilização da imagem fotográfica desde os seus primórdios, quer como forma de expressão artística, quer para manipular perceções e distorçer o que se acredita ser um retrato fiel do real.

Estes dois exemplos mostram uma continuidade, a da facilidade da crença na veracidade das imagens que vemos, e que as formas de manipular perceções individuais ou públicas através de imagens adulteradas tem uma longa história. Acreditar no que vemos, sem questionar, antecede a corrente aceleração tecnológica. O que se alterou, hoje, é o ritmo, velocidade e intensidade a que somos expostos a uma imensidão iconográfica, parte da qual fortemente questionável. Como observa Jason Kottke, we are bombarded on all sides by propaganda, conspiracy theories, and broadly discredited theories from the past pushed upon us by entertainment news outlets and social media algorithms — we’re under a constant denial-of-service attack on our ability to think and reason.

Slide 13 - Filtrar a Treta


Há um padrão na forma como estas imagens nos podem manipular, sublinhando a importância de ter um sentido crítico afinado.Se tivesse seguido uma abordagem mais respeitável nesta apresentação, falaria agora da importância do estímulo ao pensamento crítico ou da educação para os media. Mas prefiro a leveza do crap filter, que o investigador Howard Rheingold e o teórico dos media Neil Postman nos legaram. No fundo, é uma maneira divertida de falar de sentido crítico na era da saturação mediática.

Depois de se dedicar a investigar realidade virtual, Howard Rheingold estudou os primórdios das redes sociais, nas comunidades online que se formavam a partir de fóruns de discussão, aquilo que agora reduzimos à interação via facebook.

É fácil ceder à tentação de considerar técnicas avançadas como o 3D ou geração de imagem por inteligência artificial como os grandes perigos da fiabilidade da informação visual nos media tradicionais e digitais. Não nos é difícil imaginar situações potenciais em que, usando técnicas de Deep Fake, as imagens que vemos em vídeo, quer online quer na televisão, sejam completamente falsas. Arrepia saber que a única forma de as detetar envolve utilizar outros algoritmos de Inteligência Artificial. Soa a ficção científica distópica, a um episódio especialmente arrepiante da série Black Mirror. E já é realidade, nos laboratórios e comunidades da internet.

No entanto, se há algo que as redes sociais nos demonstram, é que as abordagens visualmente rudimentares são tão ou mais eficazes. O que os trolls do 4chan, propagandistas russos, extremistas islâmicos, neonazis ou ativistas radicais nos mostram é que bastam simples imagens, muitas vezes de má qualidade, para influenciar o pensamento e contribuir para mudanças sociais negativas. Memes virais, que tocam nos nossos preconceitos e enviesamentos, são simples de criar. Armas pouco sofisticadas mas altamente mortíferas nas guerras ideológicas que encontraram nas redes sociais o campo de batalha perfeito.

O nosso desafio como professores? De qualquer área? Ajudar os nossos alunos a afinar os seus crap filters. O sentido crítico, colocando a questão de maneira mais formal. Mas não é uma tarefa fácil, e as mais recentes aplicações tecnológicas, aliadas ao imediatismo das redes, não augura uma evolução positiva. Manipulação de mentalidades utilizando imagem é algo que sempre existiu, mas hoje, face à intensidade com que somos bombardeados e às técnicas de criação, entre rudimentares e sofisticadas, como é que poderemos ter a certeza que aquilo que os nossos amigos partilham online é fiável e verídico, e não um eco do trabalho de meme warriors, bot farms ou propaganda de ciberguerra?

Como fazer? Adoraria ter resposta na ponta da língua. Receitas prontas a aplicar. Ou, aderindo ao fascínio com o pensamento computacional em TIC, algoritmos que definem procedimentos a adotar. Não tenho, apenas o sentimento que a literacia da imagem é fundamental na formação do sentido crítico.

Há muitas formas de estimular literacia digital dos media, e sentido crítico. Este  é um tema transversal, que não se restringe a áreas específicas e compartimentadas. Para aqueles que gostam de fazer, de criar, talvez uma boa abordagem seja atrever-se a desafiar os alunos a descobrir o que está debaixo do capô. Ficar a conhecer como se produzem imagens, por meios digitais, e descobrir como estas podem ser manipuladas, entre os meios mais exóticos e os rudimentares. É algo que cai no âmbito da disciplina de TIC, em cujo novo programa da disciplina a imagem e o vídeo estão contemplados.

Slide 14 - Agradecimentos, notas, identificação.



Artur Coelho talvez sofra os efeitos psicológicos da inalação de derretimento termoplástico numericamente controlado. Acumula com uma voracidade maníaca de leitura em Ficção Científica e Especulativa. Na camuflagem com que sobrevive no mundo real, é professor de TIC e coordenador PTE no Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro, mestre em Informática Educacional, formador e colaborador do fablab Lab Aberto.

Referências e bibliografia

Museum of Hoaxes: Helicopter Shark. Obtido a 2 de junho de 2018, de http://hoaxes.org/photo_database/image/helicopter_shark

Wikipeda: Cabinet of Curiosities. Obtido a 23 de junho de 2018, de https://en.wikipedia.org/wiki/Cabinet_of_curiosities

Sculptures in Time: Escape from New York. Obtido a 20 de junho de 2018, de https://sculpturesintime.tumblr.com/post/154442055950/what-appears-on-those-screens-was-not

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Altered Images. Obtido a 21 de junho de 2018, de http://www.alteredimagesbdc.org/#/stalin/Wikipedia: Cottingley Fairies. Obtido a 3 de junho de 2018, de https://en.wikipedia.org/wiki/Cottingley_Fairies

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Comics



Batman #50: É o momento incontornável dos comics desta semana. Se ainda não leram, fiquemo-nos por um spoiler óbvio, ainda não é desta que Batman encontrará a felicidade. Algo que o argumentista já tinha deixado expresso em muitas pistas ao longo da aventuras que antecederam o momento. Este herói sempre foi uma figura trágica, e King joga muito bem com isso. É curioso que o momento não encerra o arco. Fica no ar o porquê do falhanço do casamento, com um regresso em força dos piores vilões da série. A última vinheta é verdadeiramente interessante. Tal como esta sequência, em que Wayne, com um leve gesto, reconhece tudo que deve ao seu mordomo.


Captain America #01: Depois do excelente trabalho em Black Panther, Nehisi-Coates vira-se para o icónico Capitão América. A nova série promete ser incómoda, lidando com o rescaldo de Secret Empire, e a imagem de um herói danificada pela sua associação com a Hydra.


The Man of Steel #06: O hype à volta da ida de Bendis para a DC foi enorme, e esta série seria o seu primeiro choque com os fãs. Mas... a leitura não nos deu nada de especialmente majestoso ou interessnte. Bendis altera subtilmente a iconografia dos personagens, altera as posições narrativas, e pouco mais. Como reboot, foi muito discreto. Vamos ver se a promessa se cumpre, se aqueles anúncios de página inteira com Bendis como Super-Homem sempre se justificam.

domingo, 8 de julho de 2018

URL


Adventures in Science Fiction Art: The Amazing Science Fiction Magazine Covers of Mike Hinge: O corrente hiper-realismo da ilustração de FC empalidece face ao nível de experimentalismo plástico das capas de livros dos anos 70.

70 Long-Lost Japanese Video Games Have Been Discovered in a 67GB Folder of ROMs on a Private Forum: Para os gamers, regista-se o significado cultural de poder aceder a jogos que julgavam perdidos. Mas, essencialmente, o artigo leva-nos a refletir sobre o papel da pirataria no domínio da preservação digital.

How We Discovered 840 Minor Planets Beyond Neptune—and What They Can Tell Us: O nosso sistema solar é mais vasto e estranho do que concebemos.

Toil and trouble: How ‘Macbeth’ could teach computers to think: Ironicamente, a narrativa é também uma boa estratégia de aprendizagem para os humanos. Nisto recordo um episódio da série Cyberwar, sobre memes enquanto estratégia de combate ideológico, onde um dos entrevistados fala da narrativa enquanto forma perfeita de mudar mentalidades. Enquanto factos encalham nos pré-conceitos dos interlocutores, as narrativas ficcionais funcionam como vírus, mudando subtilmente a mente das pessoas.


Brilliant new photography book captures the American West's vanishing signs and symbols: O momento visual ballardiano do dia. Crónicas da estética vernacular em néon, símbolos de uma modernidade desvanecida.

Exploring The Digital Ruins Of 'Second Life': É, em essência, o triste destino das plataformas digitais, depois de passado o hype e do interesse das massas se desvanecer. Ficam os resistentes, aqueles que encontraram significado como utilizadores destes mundos virtuais, até : "Our digital spaces can suddenly be destroyed or altered in disturbing ways without our consent. Why don't we have control over them? Why can't we? Always remember: Facebook and Instagram and Twitter are malls, not parks."



The Original VFX Team Behind Firefly Made the Best Anniversary Video in the 'Verse: Grande parte do encanto de Firefly é, precisamente, a aura de promessas por cumprir que tem. Se a vontade dos fãs fosse cumprida e a série tivesse tido continuidade, acabaria na irrelevância de múltiplas temporadas em progressivo esgotamento criativo. Mas ficámos só com a primeira temporada, com a enorme promessa de uma série de FC que assume o wagon trails in space, entre o western e a space opera. Com o gosto de rever os maus comportamentos do Capitão Reynolds e da sua tripulação de inadaptados. Este vídeo, a comemorar os quinze anos da série, é uma excelente homenagem.

Are You Oversharing On Social Media?: Saber gerir a presença e imagem em redes sociais é um processo de aprendizagem, que alguns conseguem fazer muito bem, e outros não. É tudo uma questão de objetivos, e perceber que imagem se quer projetar: "When sharing on social media, we all need to ask ourselves a few key questions, but the most important distinction we should make about any post is whether we’re putting ourselves on display or encouraging communication. If social media is supposed to be about relationships – about sociality – then communication should always be the goal".

Norman, the world’s first psychopath AI: De certa forma, mostra que a IA não escapa ao velho paradigma computacional garbage in, garbage out. O mesmo se aplica em psicologia e pedagogia: exponham uma criança a conteúdos maioritariamente xenófobos e ideologias radicais, e o resultado não é um adulto equilibrado. No lado computacional, experiências destas mostram a importância de, como sociedade, não nos limitar-mos ao deslumbramento pelas capacidades da automação, machine learning e IA, mas questionarmos ativamente a origem e composição dos dados massivos que alimentam esta explosão de evolução contínua na inteligência artificial restrita.

How Monet created motion pictures: O impressionismo foi uma revolução na forma como concebemos a arte, pelo seu foco na perceção visual pura da cor em sobreposição à forma, e vontade de captar a instantaneidade do momento. Neste artigo, o articulista mostra como nalguns casos, o impressionismo foi ainda mais longe, capturando na tela a sensação da passagem do tempo.

What if ET is an AI?: Dada a incapacidade que temos tido até agora de detetar sinais da existência de civilizações alienígenas, e a impossibilidade estatística de vivermos no único planeta em todo o vasto cosmos que desenvolveu viva inteligente, há que perguntar: e se a inteligência ultrapassa os limites da biologia? Seria, sequer, reconhecível por nós?

This 1966 Article About 'Computer Danger' Predicted a Bleak Future of Bank Crimes and Info Leaks: Como reflete o Matt Novak, autor do blog Palofuture, o verdadeiramente interessante é este artigo preceder em três anos o despertar da Arpanet. De resto, muito presciente: "Electronic surveillance through “listening devices”? Check. Financial institutions having too much control of your private data? Check".

sábado, 7 de julho de 2018

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Dylan Dog: Os Inquillinos Arcanos.



Tiziano Sclavi, et al (2018). Coleção Bonelli #10 Dylan Dog: Os Inquillinos Arcanos. Lisboa: Levoir.

Para os fãs de Dylan Dog, este décimo volume e último da coleção Bonelli é encerrá-la com chave de ouro. Em vez de uma aventura completa do investigador dos pesadelos, somos mimados com três histórias curtas, provenientes das revistas Comic Art e Color Fest, publicações da Bonelli que abrem espaço a algum experimentalismo gráfico e narrativo, que não se encontra na série mensal. Chegada ao fim esta coleção, há que perguntar: para quando o regresso deste personagem aos leitores portugueses? Fazem falta mais edições deste personagem por cá. E nem precisam de ser neste formato luxuoso que a Levoir adotou para as suas coleções, uma trasnposição do formato original serviria perfeitamente, até porque permitira ter um preço mais acessível para os leitores, neste momento de saturação do mercado da banda desenhada em Portugal.

Num edifício, não amaldiçoado mas construído como abrigo para espíritos inquietos e almas penadas, Dylan vê-se envolvido em três diferentes e surreais aventuras. Na primeira, o fantasma de um antigo inquilino manifesta-se na casa de banho de uma bela condómina, apontando para o fim violento que sofreu às mãos de um comprador de casa que se cansou de esperar que o corrente ocupante morresse de morte natural. Notem, é Dylan Dog, tem sempre de haver uma mulher enigmática para o apaixonar. Na história seguinte, cruza-se com um homem que parece não existir, reclamando uma casa que ninguém encontra e um emprego onde nenhum o reconhece. Para terminar a trilogia, é o próprio edifício que se manifesta, após ser arrasado para construção de um arranha-céus. Estas três histórias curtas são Tiziano Sclavi no seu estilo clássico, enigmático, bem humorado, algo surreal e a referenciar a longa tradição da cultura fantástica.

Em seguida, um argumento de paradoxos temporais de Luigi Mignacco, com a ilustração de Enrique Breccia a roubar o protagonismo, numa história onde Dylan se vê transportado a um futuro apocalíptico, com forte homenagem a Eternauta, clássico da banda desenhada argentina. Para terminar, uma história clássica de fantasmas, entre colégios internos e velharias, com um leve toque de Carrie. Uma aventura que se distingue por ter sido ilustrada pela irmã de Milo Manara, que tem um estilo gráfico muito próximo do deste grande mestre da banda desenhada italiana.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Thor: Deusa e Poderosa


Jason Aaron, et al (2018). Marvel Coleção Especial #09 Thor: Deusa e Poderosa. Lisboa: Goody.

Quando surgiu, a coleção Marvel Especial parecia ser dedicada a arcos narrativos completos ou edições standalone. A Goody depressa alterou isso, aproveitando a série para editar títulos que não colocou no seu alinhamento mensal. Deadpool foi o primeiro, e a partir daí tem sido sempre assim nas seguintes. Como leitor, sinto-me algo defraudado, espero ler um arco narrativo completo mas acabo a leitura sempre como um continua na edição X da coleção. Mais valia transferirem este tipo de iniciativa para as mini-séries que editam.

Apesar deste fator negativo, é interessante ler esta nova página de um dos ícones da Marvel. Este novo Thor é inquietante, o deixar de lado o latagão musculado de sempre para reencarnar como mulher deixa boa parte dos fanboys irritados (se bem que, se isso os irrita muito, isso diz mais sobre o seu caráter pessoal do que sobre a personagem). É algo que Aaron explora no próprio comic, tornando-a proscrita entre os seus pares asgardianos. Outro ponto curioso é que esta personagem parece estar a seguir o caminho do Captain Marvel nos anos 90. A sua forma humana sofre de cancro, e sempre que assume o papel de Thor os efeitos dos tratamentos são revertidos. Os seus poderes condenam-a. Tal como Mar-vell, o guerreiro Kree que encarnou o clássico Captain Marvel, cujos poderes cósmicos causaram o cancro que o matou.

Nesta edição, seguimos mais alguns números da continuidade editorial da revista Thor, com a nova deusa dividida entre o seu drama pessoal como humana, frágil e paciente de quimioterapia, e as forças que se unem contra ela: ser proscrita por uma Asgard revoltada por o martelo Mjolnir ter escolhido ser empunhado por uma mulher, pondo a nu o machismo inerente à apropriação da mitologia nórdica pela Marvel, os conflitos interiores da sociedade asgardiana, em progressivo resvalar para uma guerra civil entre os apoiantes de um Odin que se tornou um tirano e as forças mais liberais encabeçadas pela sua esposa, e a guerra surda lançada pelo conluio entre o rei dos elfos negros e o milionário dono da Roxxon,  uma das grandes corporações do universo Marvel, que dá armas aos elfos em troca de poder explorar os recursos naturais nas terras que conquistam. São linhas narrativas interessantes, bem exploradas e ilustradas.