quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Jessica Jones: Alias, Vol. 1


Brian Bendis, Michael Gaydos (2016).  Jessica Jones: Alias, Vol. 1. Maspalomas: G.Floy.

Suspeito que o grande mérito desta série seja o mostrar que, para argumentistas que se atrevam a forçar um pouco a coisa, os limites dos comics podem ser contornados. Em termos temáticos, há pouca volta a dar nos comics de super-heróis. Podem ser mais heróicos, mais grimdark, mais ambíguos, mas no fundo são o de sempre. Seres com poderes impossíveis, a protagonizar lutas dualistas onde o bem triunfa inevitavelmente sobre o mal.

Jessica Jones quebra esse paradigma. É um comic de super-heróis que evita os super-heróis. A sua protagonista foi uma membro menor de super-equipas, mas voltou as costas ao mundo dos uniformes e lutas para se tornar detective privada. Lutando para pagar as contas, aceitando habitualmente casos de esposas que querem saber com quem os seus maridos as andam a trair (uma boa desculpa para brincadeiras com fóruns online para gays que vivem dentro do armário). Nas duas primeiras aventuras da série, coligidas nesta edição portuguesa da G.Floy, Jessica Jones vai-se ver em apuros mais fortes quando os casos de pessoas desaparecidas em que se vê envolvida se revelam mais do que esperava. Num, é usada como peão numa conspiração para tentar desmascarar a identidade secreta do Capitão América. Noutro, os traumas de se ser um teenage sidekick de super-heróis são desenrolados com a busca por um Rick Jones que desapareceu para se livrar de uma mulher apaixonada. O argumentista atreve-se a ser realista com a sua personagem, dando-lhe medos muito reais, momentos de profunda normalidade, explorando vulnerabilidades emocionais, enquanto se socorre da presença fugaz dos heróis da Marvel para nos recordar que as suas histórias de detective se passam num contexto muito específico.

Para além do bom humor, negro quanto baste da série, outro traço que a distingue é a forma como todo o universo Marvel, na qual está inserido, é um mero elemento do cenário, omnipresente mas distante. Este comic de super-heróis consegue fugir aos lugares comuns, ao expectável, andando nas fímbrias destes universos ficcionais para contar histórias. Dentro de uma vertente da banda desenhada que está sobrevalorizada, profundamente explorada e que tenta constantemente passar o que no fundo é o mesmo de sempre como inovação e vanguarda narrativa, este título consegue, realmente, explorar uma vertente nova no género.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Proxy


Anton Stark (ed.) (2016). Proxy. Calvão: Editorial Divergência.

Mal suspeitava Norbert Wiener, que se enamorou com o potencial intuído da simbiose homem-máquina ao estudar a matemática do abate de aeronaves em voo acelerado, do impacto que teria o seu conceito de cibernética. Entre outras influências, da ciência e tecnologia à cultura popular, tornou-se a espinha dorsal de um género literário de Ficção Científica.

O termo cyberpunk invoca nos fãs de Ficção Científica um tipo muito específico de iconografias. Cidades de torres brilhantes no seu alto modernismo arquitectónico, destinadas às rarefeitas classes bem sucedidas, rodeadas de velhos bairros degrados, fervilhantes de actividade habitualmente pouco cumpridora da lei. Mundos virtuais paralelos, habitados por inteligências artificiais que se movem nas geometrias do éter binário. Robots e andróides, dos elegantes simulacros humanóides aos disformes engenhos mecanizados. Hackers rebeldes, magos da alucinação consensual sustentada por redes informáticas. Mesclas simbióticas de homens e máquinas. Frieza dos interesses de conglomerados empresariais face à resiliência dos indivíduos num mundo onde o consenso westfaliano se pulverizou, levando consigo o conceito de estado-nação. Cenários perfeitos para aventuras que, no seu âmago, procuram fazer sentido do que à altura era um nascente mundo digital.

As histórias desta antologia representam uma rara incursão de autores portugueses numa estética que, saída do imaginário de Bruce Sterling, Pat Cadigan, Vernor Vinge e William Gibson, escritores que nos anos 80 intuíram o domínio que a informatização iria exercer sobre a consciência humana, hoje nos parece ao mesmo tempo datada e intrigante. Seis escritores aceitaram o desafio, trazendo-nos contos que espelham influências cinematográficas, literárias e do mundo dos mangá. O resultado final pauta-se pela qualidade literária e solidez de mundos ficcionais que mostram como estes autores comseguiram sentir o pulsar estético do cyberpunk. Sem ser radicalmente inovadora, com uma abordagem convencional ao género, marca a diferença pelo atrevimento em trazer o Cyberpunk para o panorama do fantástico literário português, mais habituado à fantasia ou FC distópica.

Deuses Como Nós, Vítor Frazão: uma arquivista de tecnologias antigas é contratada por um magnata da élite de alta tecnologia da mega-cidade flutuante que se espraia ao largo da península ibérica. Este pretende encontrar o seu antigo colega de laboratório, agora um rebelde que luta contra a implementação de tecnologias de imortalidade cibernética que deram a riqueza ao magnata. Este conto de Vítor Frazão captura muito bem o misto de decadência e futurismo brilhante que caracteriza o género, invocando iconografias poderosas numa história que, fiel ao cyberpunk, mistura tecnologia avançada de aumentação humana com desigualdades sociais e hiperurbanismo.

Modulação Ascendente, Júlia Durand: Como sobreviver num mundo empresarial ultracompetitivo, onde os funcionários são descartáveis? A personagem principal deste conto, cuja longevidade e ascensão na hierarquia da empresa tem sido permanente, descobre que poderá precisar de mais do que competência e estar no lugar certo à hora certa. Poderá precisar dos serviços de um hacker, capaz de infiltrar o dispositivo musical do seu patrão, manipulando-lhe as emoções através do uso de música para garantir a desejada promoção. Conto com elementos intrigantes, como a esterelidade da cultura corporativa, a vibração dos sectores decadentes das cidades ultra-modernas, ou a manipulação informática de dispositivos pessoais para alterar percepções. No fundo, este conto é mais sobre o poder emocional da música do que cyberpunk por si próprio.

Pecado da Carne, Carlos Silva: Um conto muito sólido e bem construído, que nos leva a um futuro onde as cidades são controladas por seguradoras que asseguram a saúde e bem estar daqueles que conseguem pagar as apólices. Um mundo tornado possível graças a uma epidemia que vitimou grande parte da humanidade, e sustentando graças a uma sub-classe de humanos que vivem nos subsolos, sobrevivendo por entre as condutas de manutenção e portas de ligação das cidades com o mundo exterior. Numa dieta de perfeição nutricional, por vezes apetece um fruto proibido, e é aí que entra a anti-heroína, uma poderosa delegada de saúde, acordada de um sono criogénico para investigar indícios de tráfico de carne dentro da cidade. Sem entrar em spoilers, digamos que a carne tem origem inesperada, que neste mundo ficcional os delegados de saúde são temíveis, e as crianças têm respeito à fada da nutrição. Para além da boa história e do sólido mundo ficcional, este conto debate questões que de facto se estão a tornar reais, como a hiperprivatização, ou a interferência em padrões de vida individuais e privacidade por parte de empresas que, graças a tecnologias IoT, personalizam os seus produtos e colocam restrições comportamentais aos seus utilizadores em nome das suas definições de saúde ou segurança.

Y + T, Marta Silva: num mundo futuro, numa fábrica centrada numa poderosa esfera, dois amigos de infância dão por si em lados opostos de uma luta para derrubar as estruturas industriais e libertar os seus habitantes.

Alma Mater, José Castro: Se a história tem um sentimento familiar, com uma avançada consciência cibernética incorporada num andróide que foge dos laboratórios onde foi criado, cruzando-se com criminosos e rebeldes do mundo caótico que está para lá das fronteiras regradas dos centros corporativos, e até conhece o seu criador, o autor joga muito bem com os elementos da iconografia cyberpunk. Temos o futurismo decadente, o estilhaçar multicultural das velhas sociedades europeias, o contraste entre os sobreviventes no mundo exterior e as afluentes sociedades fechadas empresariais, as altas tecnologias obsoletas e recicladas por qualquer um que seja capaz de lhes mexer. Junte-se a isto uma Lisboa revista entre a velha cidade decadente e uma nova cidade futurista, inacessível, com a velha cidade dominada por gangs de descendentes das correntes comunidades emigrantes, e temos os ingredientes para o que é uma belíssima história, que desperta a curiosidade do leitor com o seu mundo ficcional bem montado.

Bastet, Mario Coelho: Um grupo de hackers é contratado por uma cliente empresarial para recuperar um artefacto roubado ao melhor criador de robots. A busca leva-os a enfrentar mafiosos que se modelam na Yakuza que admiram, para resgatar algo que é proibidissimo, neste mundo ficcional: uma inteligência artificial avançada. Conto cheio de acção, de muito bom ritmo, com uma prosa desprendida e visceral a contrabalançar um sólido mundo ficcional.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Conforming suburb of the soul


"I would sum up my fear about the future in one word: boring. And that's my one fear: that everything has happened: nothing exciting or new or interesting is ever going to happen again... the future is just going to be a vast, conforming suburb of the soul... nothing new will happen, no breakouts will take place."

É como se J. G. Ballard estivesse a prever a sensação de atemporalidade que caracteriza esta era hipersaturada de cultura online e digital. Onde mergulhámos num constante agora, que no momento nos parece cheio de constantes picos de interesse e diversidade, mas que se reduz a uma linha contínua normativa quando observamos à distância.

Entrevista de Ballard a V. Vale, na mítica RE/Search dedicada à sua obra.

Comics


Brittania #01: Vestais, um centurião traumatizado tornado numa espécie de Sherlock Holmes romano, e druidas que invocam criaturas de pesadelo nas brumas da distante província britânica. Este primeiro número do novo comic de Pete Milligan seduziu pela colisão entre antiguidade clássica e terror puro. Também ajuda o ser ilustrado pelo traço espectacular de Juan Jose Ryp.


Hellboy and the B.P.R.D. 1954: The Black Sun #01: Oh, yeah! Hellboy está de volta com um dos meus prazeres culposos favoritos. Bases secretas na Antártida e discos voadores nazis. E Hellboy. Como não ficar excitado como um puto na loja de comics? É escapismo puro, mas do bom.

domingo, 25 de setembro de 2016

Fórum Fantástico 2016 - Escolhas Literárias

Desta vez, sem a apresentação de suporte. Com as minhas sobrecargas, foi a Cristina Alves do Rascunhos que se encarregou dessa parte. É, parece, tradição do Fórum Fantástico o painel das três, preparatório de chás das cinco e horas coca-cola, reunindo João Barreiros e alguns dos seus acólitos. Este ano reduzidos à Cristina Alves e a mim, com o João Campos impedido de participar. Com pena, sem ele no painel, o cinema ficou esquecido.

O melhor deste painel, e a verdadeira razão para a audiência nos dar atenção: o ar deliciado de João Barreiros, de puto guloso fechado na loja de guloseimas, com os docinhos todos à mão, enquanto narra as piores atrocidades sangrentas e bizarras dos livros que selecciona.

Deixo aqui a lista das minhas escolhas, com as correspondentes apreciações. Brevemente, as de João Barreiros e Cristina Alves poderão ser publicadas no Rascunhos.

Literatura Estrangeira:

Bill, the Galactic Hero, Harry Harrison
 
 A ficção científica é assunto sério, certo? Especulação futurista, minuciosos mundos ficcionais, aventuras audaciosas. O humor não tem lugar no meio de tanta coisa que deve ser levada a sério. Claro, pode haver por aí alguns livros mais a apostar nas piadas do que na essência do género, mas nunca farão parte do seu cânone. Se pensarem assim, peguem neste clássico de prosa satírica sem rédeas nem travões, a demolir com gosto os princípios mais comuns da FC, que mostra como utilizar o género para crítica social corrosiva, e auto-crítica bem humorada que expõe os vícios de forma e pressupostos culturais que lhe estão subjacentes. Este livro é uma sátira demolidora às referências clássicas do militarismo e patriotismo, virando ao contrário os pressupostos da FC militarista. Li algures en passant que Harrison começa por destruir o militarismo de Heinlein e depois desmantela as utopias de Asimov. É, de facto, uma descrição que assenta como uma luva a este livro, que também não tem medo de ironizar com os chavões da ficção de terror. As desventuras de Bill, um camponês proveniente de um planeta provinciano que se vê induzido a prestar serviço nas gloriosas forças do império são uma sátira destravada à importância inflada de valor militar, sentido de dever e patriotismo que caracteriza a FC militarista.

Dellamorte Dellamore, Tiziano Sclavi

Dellamorte Dellamore é hoje um livro raro e hoje impossível de encontrar. Os mais conhecedores de fumetti e Dylan Dog afirmam que está neste livro a génese do personagem. Talvez, embora entre o Francesco Dellamorte do livro e o Dylan do fumetti as semelhanças se fiquem pelo aspecto físico e o serem protagonistas de histórias de fantástico e terror. A colisão entre terror e surrealismo é constante neste livro, que pega nas premissas elementares dos contos de terror e as revê com uma estranheza de sensibilidade. Dellamorte Dellamore leva-nos à cidade de Buffalora, terra pacata, isolada e levemente decadente do interior italiano. Terra que é assolada por uma bizarra praga. No seu cemitério, os mortos recém-enterrados têm o irritante hábito de regressar como zombies ao fim de sete dias. Francesco Dellamorte é um coveiro com a tarefa dupla de aniquilar os mortos-vivos, voltando a enterrá-los. O livro constrói-se numa série de vinhetas que nos levam à dinâmica gótica deste guardião de cemitérios. Dellamorte não é nem herói nem anti-herói, age de forma inconsistente. O mundo exterior não parece existir, estando todo o ambiente centrado numa comunidade cuja singularidade e estranheza não é a da maldição que paira sobre o seu cemitério mas no óbvio isolamento, como se de um mundo à parte se tratasse.  O terror clássico, o surreal e a ironia entrelaçam-se neste romance estranho, de um horror onírico.

Arkwright, Allen Steele

É impossível não ler Arkwright como uma resposta classicista a Aurora de Kim Stanley Robinson e Seveneves de Neal Stephenson.  Ambos são livros que pegam em premissas de Hard SF clássicas e as desconstroem com cepticismo negativista, Arkwright lê-se como um contraponto suave e bem educado a estas visões críticas. Sublinha o seu classicismo iniciando-se com uma elegia da FC clássica, capturando o utopismo inocente daqueles que escrevendo histórias de aventura no espaço se preocupavam com o aprofundar da componente científica da ficção, e alicerçavam a sua prática ficcional numa crença inabalável e optimista de um futuro brilhante, proporcionado pela ciência e tecnologia. Steele regressa ao tema da nave geracional como forma de explorar as estrelas, combinando com inteligência artificial e engenharia genética para ultrapassar as dificuldades inesperadas da colonização de um planeta extra-terrestre. Mas muda o foco.  Imaginem se a nave geracional não fosse o artefacto a seguir a sua trajectória pelo espaço interestelar mas sim os cientistas que ficam na Terra, curadores de um projecto que sabem não ver concluído durante as suas vidas, que têm de manter uma dedicação através de gerações, com sucessores que talvez não estejam interessados em dedicar a vida a algo tão etéreo. Steele segue o caminho Hard SF no desenvolvimento da nave, um sistema automatizado baseado em propulsão a laser, controlado por inteligência artificial, e tendo como tripulantes não os avós de futuros colonos ou uma tripulação em hibernação, mas o ADN dos envolvidos em esperma e óvulos congelados que serão artificialmente fertilizados e gestados quando a nave chegar ao seu destino. Uma das surpresas da FC deste ano, Arkwright apela àquele utopismo inocente que sublinha a FC clássica, apesar de não se esquivar do rigor exigido pela Hard SF. Lê-se, também, como uma profunda homenagem à FC da era dourada, hoje recordada com nostalgia pelos leitores.

Nazi Moonbase, Graeme Davis

A Osprey é uma editora especializada no mercado dos cultos militares, com infindas séries de livros detalhando pormenores ínfimos de batalhas, forças militares e armas de combate. Pelo meio dos tomos dedicados aos uniformes napoleónicos e caças de combate, editaram isto. Escrito naquele tom de autor tarefeiro a encher parágrafos para leitores que só estão interessados nas fotografias e ilustrações militaristas, detalha os tenebrosos segredos vindos do lado oculto da II Guerra, com a exploração das forças Vril pelos elementos mais radicais das SS para criar novas armas devastadoras. Elementos que, perante a derrota inevitável, se transferem primeiro para a Antártida, e depois para a Lua, levando consigo as armas mais secretas do II Reich, pondo em marcha um plano de sobrevivência e combate com o fim único do regresso, vitorioso, a uma Terra em cinzas. Contam com armas tenebrosas: potentes raios da morte, temíveis discos voadores, canhões capazes de disparar rochas lunares. A sua fortaleza lunar, último reduto do Reich, tem sido inexpugável perante as tentativas americanas de ataque. Nesta história, é-nos revelado que o verdadeiro objectivo das missões espaciais americanas, europeias e russas/soviéticas era o de defender o planeta da ameaça dos nazis entricheirados na lua. O fantástico deste livro, para além do tema (nazis! tecnologias dieselpunk! conspirações! como não adorar?), é a forma como o autor consegue manter sempre um tom neutro, detalhando as histórias e tecnologias fictícias como se estivesse a fazer um resumo rigoroso de factos reais. Suspeito que haja por aí muitos leitores que não se apercebam da óbvia ironia do livro e acreditem mesmo que existam fortalezas germânicas na Lua.

Literatura Portuguesa e Lusófona:
 
Erotosofia,  António de Macedo

Se viram o filme Os Abismos de Meia Noite, leram este livro, que parte do argumento para aprofundar a narrativa. Pergunto-me o que teria feito António de Macedo se, ao filmar o incontornável Os Abismos da Meia Noite, tivesse tido acesso aos meios técnicos e digitais de efeitos especiais dos dias de hoje? Se no filme as paisagens fantásticas são mais sugeridas do que vista, essas visões são plenamente invocadas neste romance. Em evidência fica o peculiar imaginário de Macedo, entre o conhecimento gnóstico, saber científico, reconhecimento tecnológico, colisão entre o imaginário de raiz popular com os mitos da literatura fantástica temperado com muito bom humor, com particular homenagem a Lovecraft e aos seus Mythos. As iconografias invocadas por Macedo raramente se enquadram nos espertilhos estéticos do género fantástico. A sua FC segue os caminhos do surrealismo e o seu fantástico as visões do ocultismo, algo que não surpreende dado o seu interesse pelo tema, explorado em livros que são dos poucos dele que são fáceis de encontrar nas livrarias. Se tiverem, como eu, a sorte de se depararem com este livro num alfarrabista, não hesitem. Para além de uma boa história, ficam nas vossas estantes com um excelente elemento representativo do fantástico português.

Lembranças da Terra,  Ângelo Brea

Dica da Cristina Alves, surpreendente no seu contexto, Lembranças da Terra é um livro muito curioso. Pelo que é, obra de FC de um autor galego, escrita num galego internacional que é quase indistinguível do português. Notam-se as diferenças em algumas expressões e construções frásicas, que dão um gosto especial de exotismo à leitura. Mas, essencialmente, pela sua banalidade interessante. Estranha combinação de ideias, bem sei, mas este livro de Brea não traz nada de novo ao campo da FC. Bem pelo contrário, é uma mistura de temas e estruturas narrativas clássicas do género. Um carácter que assume, e que trabalha de formas curiosas. É interessante notar que se cada conto apresenta sólidas construções de mundos ficcionais, na maior parte deles nada de concreto se passa.

Intervalo às 11 da Tarde, Nuno Coelho

Termino a parte literária das escolhas no Fórum Fantástico como comecei, com ficção fantástica de humor absurdista. Se há algo a que não resisto é a uma boa frase espirituosa, daquelas que brinca intensamente com a língua e os significados das palavras. Toda esta obra vive disso, de um non-sense em acelaração contínua, em sentido de surrealismo clássico bem humorado. A associação livre de ideias está bem viva, e recomenda-se nesta viagem alucinante a uma casa na Transilvânia, Trafaria, com a sua criada lúbrica, estorninhos indigestos, senhoria de fugir, vampiros anti-efeminados e escadas com propensão para ressacas depois de noites de festa rija. A tradição do surrealismo clássico convive com o bom humor absurdista e a linguística à rédea solta nesta belíssima surpresa literária.

Macunaíma: O Herói Sem Nenhum Caráter, Mário de Andrade

Isto é o périplo do anti-herói, jornada e aventuras de um personagem sem carácter, vivendo apenas para o seu prazer e impulsos, capaz de mentir, trair, matar, vigarizar, enganar, que deixa atrás de si um rasto de pessoas destruídas e mulheres atraiçoadas. A sua sucessão de aventuras dará em nada, sem objectivos, moral vencedora, ou recompensas. Desenganem-se se pensam que este é um jogo intelectual de inversão dos pressupostos da literatura fantástica. Macunaíma trilha outros caminhos, sendo um romance do alto modernismo brasileiro. Respira uma mistura de profundo tropicalismo, colidindo raízes portuguesas, africanas e índias de colisão inspirada em lendas índias com a modernidade dos princípios do século, profundamente surrealista na sua estrutura (ou falta dela) e altamente modernista no uso da linguagem. Este aspecto torna-o algo impenetrável. Mário de Andrade não poupa o leitor com o uso e abuso de expressões e nomes em línguas índias ou crioulas. É fascinante, mas para quem não seja brasileiro, quase incompreensível em muitos momentos. Romance do modernismo brasileiro que parte da riqueza da mistura de tradições culturais indígenas, africanas e europeias para rever uma antiga lenda índia à luz do surrealismo, Macunaíma vive também de criatividade linguística alicerçada dos dialectos e patois das falas do povo, longe do normativo erudito. As constantes referências ao património das lendas indígenas tornam-no também numa obra com um forte toque de literatura fantástica.



Não-Ficção:
 
James Gleick (2011). The Information: A History, A Theory, A Flood.
 
Um livro, em muitos sentidos, extraordinário. James Gleick aplicou a sua erudição e capacidade jornalística, que explora num tipo de divulgação científica que apesar de acessível não é simplista, ao conceito de informação. Não o tenta definir de acordo com as teorias mais recentes. Antes, pega-nos na mão e leva-nos ao longo de um périplo sobre a evolução de ideias e tecnologias aparentemente de relação ténue entre si que culminaram na contemporânea sociedade da informação. Há um padrão de constante e progressiva codificação e redução ao elementar, progressivamente apoiado em tecnologia, em que o corrente ponto alto dos dias de hoje será apenas mais um passo de uma evolução que não terminou. Gleick começa no início, na própria linguagem, mostrando como sucessivas codificações, cada vez mais apoiadas em tecnologias, moldaram a forma de conceber o mundo. A Informação é uma história de evolução contínua, de conceitos que se encaixam numa progressiva definição dos elementos da comunicação. É uma história de tendências, de procura por aprofundamentos, das intuições e trabalho de uma longa lista de gigantes nos ombros dos quais, algo que ainda nos surpreende, assenta a nossa contemporânea noção de sociedade. Termina com um inevitável borgesianismo. Vivemos, agora, num mundo informacional que tem ao mesmo tempo os seus quês da biblioteca infinita e do mapa que se torna o território. Reduzida ao seu elemento mais puro, a informação tornou-se a charneira de toda a sociedade. Talvez sempre o tenha sido, mas temos hoje as ferramentas mais avançadas de sempre que nos permitem dela tirar partido. Da leitura fica a ideia que o momento contemporâneo, a sociedade em rede, será, em si, mais um passo de uma profunda evolução.


Banda Desenhada e Comics:
 
Os Doze de Inglaterra, Eduardo Teixeira Coelho 
 
Esta reedição de um clássico da banda desenhada portuguesa, publicada originalmente no jornal infantil O Mosquito, é uma das boas surpresas editoriais deste início de 2016. Reaviva na memória pública o trabalho do açoriano Eduardo Teixeira Coelho, um dos grandes desenhadores de BD portugueses.  Antes de a ler, esta edição pareceu-me ser uma aposta da editora Gradiva no mercado da nostalgia, com requintes de empolamento de importância centrada na redescoberta de um clássico. Felizmente estava muito incorrecto na minha intuição. Após a leitura, o que sobressai é uma história que apesar de ligada à época em que foi escrita, continua empolgante, magnificamente adaptada, com um cunho visual marcante e surpreendente. Esta é uma obra que envelheceu bem e é, de facto, um clássico. Este livro merece destaque, pela sua qualidade e para que a memória da BD portuguesa não se perca. A BD não foi feita para ser pespegada numa parede. Por interessante e importante que seja conhecer as pranchas dos autores clássicos em exposições, o seu real valor percepciona-se pegando nas páginas impressas, levando o livro para o cantinho de leitura de eleição, e lendo. Foi para isso que foi inventada a banda desenhada. Esta reedição respeita mais o traço do ilustrador. Mostra-nos um estilo que deslumbra pela sua espectacularidade, expressividade e consistência. Tem ainda uma forte e rigorosa componente de investigação histórica, sublinhada pelo grande cuidado na verosimilhança de trajes, arquitectura, adereços militares e heráldica. Algumas das vinhetas de Eduardo Teixeira Coelho parecem directamente inspiradas na iconografia dos livros de horas e romances cavalheirescos medievais que chegaram até nós.

Revista H-Alt, editada por Sérgio Santos

A revista H-alt mostra uma aposta de continuidade como espaço de divulgação dos novíssimos autores de Banda Desenhada em Portugal, com um notórios saltos qualitativos de edição em edição, procurando, parece-me, marcar um espaço entre o fanzine e a edição convencional de BD.
O principal mérito desta revista está no ser um canal que dá espaço editorial a vozes novíssimas. Apostar nos novos tem os seus méritos, e também os seus riscos. A H-alt traz-nos excelentes surpresas gráficas e narrativas, mas também encontramos histórias cujo nível gráfico parece ter saído directamente da sala de aula de cursos artísticos do secundário, embora em número inferior ao que se podia encontrar na primeira edição. Apenas a qualidade narrativa se mantém como ponto fraco da H-Alt, com boa parte das histórias a denotarem a inexperiência dos argumentistas. Há muita juvenilia nesta revista, como não poderia deixar de ser. Sublinhe-se, no entanto, que não é fácil conseguir contar uma história em duas ou três pranchas. É algo que se aprende fazendo. onseguirá a H-alt manter-se, como fórum para novos autores, de qualidade crescente e com edição regular? Os próximos números o dirão. Para já, a fasquia colocada pelos seus editores está elevada

Strange Attractors, Charles Soule

É intrigante e inesperado ler um comic sobre algo tão abstracto como teoria de sistemas complexos. Charles Soule anda a explorar o conceito de efeito borboleta da teoria do caos, ideia que reflecte sobre o poder que pequenas alterações têm em provocar grandes mudanças, em sistemas de teia interrelacionados. Faz pouco sentido, o que escrevi? Soule exprime estas ideias muito melhor do que eu. Um comic sobre arquitectura e teorias matemáticas. Quem diria.

Faster Than Light, Brian Haberlin

O decifrar de uma mensagem alienígena proveniente de uma civilização extinta dota a Terra de tecnologia capaz de quebrar as distâncias galácticas, bem como de um mapa com a localização de outras civilizações. Parece ser uma nova era de descoberta e aventura, mas há um segredo, mantido oculto das populações. A força desconhecida que aniquilou a civilização que enviou a mensagem desloca-se na direcção da Terra, e as missões que supostamente são de exploração tornam-se um jogo de sobrevivência, com astronautas numa busca desesperada por aliados e tecnologias que permitam à Terra enfrentar a ameaça cósmica. Apesar de pouco homogénea na abordagem, Faster Than Light é space opera pura nos comics. É raro ver este nível de aventuras no espaço, mesmo numa época em que a ficção científica voltou a ganhar destaque na banda desenhada.

A Pior Leitura do Ano:
 
Welcome to Night Vale, Joseph Fink e Jeffrey Cranor

Pronto, este não foi o pior livro que li este ano. Recordo com algum carinho masoquista uma história alternativa portuguesa. Que tem um capítulo memorável, onde William Beckford e Bocage visitam as masmorras sexuais do bordel oculto nas vastas caves do Café Nicola, repleto de latagões angolanos bem fornecidos e chão que é um lago de sémen. Não digo que livro é. Fiquemo-nos por um the thing that shall not be named, ou melhor, the thing that should not have been.

Night Vale é um genial podcast que, mimetizando um programa de informação na rádio, transmite as notícias sobre a estranha comunidade de uma cidade perdida no tempo. brinca, cheio de elegância e absurdismo, com as iconografias e pressupostos da ficção de terror. Escalar o conceito de formato áudio para livro é um passo lógico, que permitiria explorar mais a fundo o interessante mundo ficcional de Night Vale. Nesse sentido, o livro é bem sucedido, mergulhando mais a fundo nalgumas das bizarrias da vila, que formam a base do podcast. Como, por exemplo, as criaturas aterrorizantes que são as bibliotecárias da biblioteca, local onde raros são os bibliófilos que entram e sobrevivem para contar a história. Como romance de terror, desilude. Morno, fraquinho, sem especial interesse. Funciona apenas como expansão do mundo ficcional, com o formato narrativo a permitir aprofundar elementos que, necessariamente, ficam difusos no podcast. A grande falha do livro é a manifesta incapacidade dos autores de transpor para o livro o elemento que dá ao podcast o seu toque especial, a liberdade associativa de ideias assente na oralidade.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Descoberta de si Próprio



Vladimir Savchenko (1988). Descoberta de si Próprio. Lisboa: Caminho.

Um cientista apagado de um centro de investigação secundário na ordem académica soviética, ao experimentar com componentes químicos e um computador consegue um resultado inesperado. De um berço bio-digital sai um ser, em tudo a si igual. Ao tentar simular o corpo humano, o computador deu um passo em frente e reconstruiu-o à imagem do seu criador. O que se segue é um livro confuso, pouco interessante, onde os doppelgänger do cientista coexistem, ajudam-no no seu trabalho, apaixonam-se pela mesma mulher, e filosofam muito sobre o potencial do homem aumentado pelos sistemas bio-digitais que querem desenvolver. Se em termos conceptuais tem uma curiosa premissa, e um mistério no ponto de partida, com a morte misteriosa do primeiro cientista a revelar a existência dos seus duplos, o livro arrasta-se em ruminação pseudo-científica de contornos sociológicos. Algo que em si não tem nenhum mal, mas o longo infodump que é não o torna um dos melhores exemplos da famigerada FC soviética.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

The Shadow of a Terrible Thing



Massimo Rosi, Eduardo Mello (2016). The Shadow of a Terrible Thing. Markosia.

A premissa é interessante, apesar de não ser novidade, mas falha numa narrativa previsível e inconsistências de contexto. No final da II guerra, a Terra é invadida por alienígenas, que querem exterminar a humanidade e sugar os recursos planetários, aproveitando os corpos humanos para gestar uma raça de criaturas. As nações em guerra unem-se para travar uma guerra desesperada, e alguns dos membros mais capazes são agrupados numa equipa de combate que intervém nas situações mais perigosas. O seu objectivo é capturar alienígenas e sua tecnologia, para desenvolver novas defesas contra a ameaça. A salvação da humanidade está nas mãos de um duro criminoso siberiano, duro e violento, que se sacrificará para destruir a nave-mãe extraterrestre.

Poderia ser um comic divertido, com os seus combates contra alienígenas, paisagens catastróficas e tecnologias exóticas, mas desenrola-se de forma demasiado banal. Não há muito cuidado com a linguagem visual da banda desenhada, essencial para estruturar a narrativa, e o estilo gráfico, que no início do livro é prometedor, vai decaindo ao longo das páginas.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Captain America Masterworks Vol. 1


Stan Lee, et al (2010). Captain America Masterworks Vol. 1 (Tales of Suspense). Nova Iorque: Marvel Comics.

Ler estas histórias clássicas do segundo início dos comics de super-heróis, nos anos 60, mostra o quanto o género evoluiu até hoje. Escrevo segundo início porque, após o período inicial nos anos 30 e 40, os comics comerciais abriram-se aos mais variados géneros, do western ao horror, passando pelo romance. As pressões moralistas que se mestastizaram na Comics Code Authority, organismo de auto-censura criado pelas editoras para garantir um selo de segurança moral, limitaram os criadores a temas que não fossem considerados ofensivos. Os divertidos excessos do horror ao estilo Warren Publishing foram postos de parte, títulos de humor, cartoon e romance foram perdendo leitores. A moralidade binária dos super-heróis, segura dentro dos parâmetros do Comics Code e capaz de atingir contornos patrióticos, aliada às histórias de aventura de seres com poderes especiais, tornou-se um filão de exploração segura, de tal forma que as restantes vertentes se eclipsaram do mainstream. Os antigos heróis dos anos 40 foram recuperados, novos foram criados, a partir de padrões narrativos que têm sido replicados de forma exaustiva.

Não podemos esperar muito em termos gráficos e narrativos destas histórias, simplistas pelos padrões de hoje. Aventuras contidas em dois ou três episódios, viviam da acção, das cenas de luta onde o herói, com a sua força, agilidade e bom humor, sempre prevalecia. Se o desenho pode ser interessante - e no caso deste Masterworks do Capitão América, com o traço de Jack Kirby, é-o, falta toda a linguagem narrativa de encadeamento de pontos de vista e enquadramentos que caracteriza, hoje, a BD. À época, estes comics eram sucessões de imagens, com continuidade assegurada apenas pela narrativa verbal da história.

Este volume traz de regresso aos leitores as primeiras histórias do Capitão América escritas por Stan Lee, recuperado ao catálogo da Timely pela então incipiente Marvel. São curiosamente centradas no legando antigo do personagem, revendo a sua origem e aventuras dos tempos da II guerra. Curiosamente, há no livro uma aventura contemporânea, passada num Vietname representando como cenário operático por Kirby, mas sente-se que o tema é demasiado sensível para a época, que o que funcionou nos anos 40 - comics patrióticos, com heróis a vencer o III Reich e a ameaça nipónica com o poder dos seus punhos, já não pega no ambiente moralmente mais ambivalente dos anos 60. A II Guerra, e os inimigos clássicos do herói, são terreno seguro que Lee soube explorar muito bem.

Para quem não conheça o passado desta personagem, apreciando a Marvel pelo seu universo cinematográfico, pode ficar surpreendido pela forma como os filmes relativos ao Capitão América são fiéis às primeiras histórias no que toca à origem e primeiras aventuras da personagem, a cor de pele de Nick Fury, que durante décadas foi uma espécie de all american Bames Bond antes de ser revisto como Black Motherfucker no cinema, aparições fugazes da agente Carter, a aparição de Red Skull ou as primeiras iterações de Zemo, Hydra, Shield e IMA. O que vemos hoje, explorado no universo transmedia da Marvel, são variantes e transposições do substrato estabelecido por Kirby e Lee nos anos 60.

Uma leitura nostálgica, muito válida como documento que mostra um estádio clássico da evolução das linguagens gráficas e narrativas dos comics.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Science-Fiction Nightmare World

'nuff said.

Comics


Doom Patrol #01: Pode-se ser mais WTF do que Grant Morrison? É difícil, mas não impossível, e Gerard Way parece querer provar isso com esta ressurreição de Doom Patrol. Se conseguirem perceber alguma coisa deste primeiro número, parabéns. Eu não consegui, ficando no ar a suspeita que todos os bizarros fios soltos se irão unir em algo coerente mais à frente.


Hadrian's Wall #01: É policial procedimental, com assassínios e investigadores, mas... é no espaço sideral. Mais um reforço na curiosa aposta da Image em Ficção Científica, pura ou como ponto focal de outro tipo de histórias.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Visões: Motelx, 10ª Edição



O festival Motelx é a minha grande tradição de rentrée educativa. Nada melhor para celebrar as agruras e desafios de mais um ano lectivo do que mergulhar num transe induzido por filmes de terror. Saí da edição do ano passado com o firme propósito de see moar films, mas as datas do ticEduca apanharam-me e passei parte dos dias do festival a aprender e partilhar ideias sobre tecnologia educativa. O que deu origem a curiosos sincronismos, como estar de manhã a ouvir Sugata Mitra em conferência, e assistir à tarde a uma apresentação e filme de António de Macedo, e perceber que em áreas e experiências diferentes, ambos disseram o mesmo sobre o poder da felicidade individual como elemento basilar para a construção de uma melhor sociedade. Mitra expôs a ideia através de uma matriz de características a incentivar nos alunos, Macedo num diálogo do seu filme, onde um presidente de câmara comenta com um padre de aldeia que por vias ínvias (é um filme de Macedo...) vê o seu sonho de um natal cheio de brinquedos para as crianças pobres, que "mas olhe que isso não resolve o problema social". "Estão felizes, " responde, "é o primeiro passo".

Yep. Conexões entre áreas díspares sem ligação aparente ente si. É um vício, confesso.



Don't Breathe (Fede Alvarez, 2016)

Thriller procedimental muito bem estruturado e montado, apesar de bastante banal na sua premissa. É um misto de casa assombrada/de horrores com um anti-herói violento, que vai dar caça à um grupo de jovens que trespassa a santidade do seu lar, podendo revelar os segredos tenebrosos que as paredes ocultam. Há aqui umas variantes. Ninguém é inocente, as vítimas são pequenos ladrões, e o formidável e imparável adversário é cego. Imaginem um Mr. Magoo muito badass, e já perceberam o filme. Destaca-se pelo uso da paisagem suburbana de uma Detroit caída ao abandono para a sua estética do isolamento geográfico, estrutura implacável e ritmo mantido sempre elevado. A técnica cinematográfica deste filme, de excelente nível, está afinada para manter sempre o espectador intrigado com o inesperado.

Este filme abriu, e muito bem, o festival. Dispensava-se era a longa introdução (mais de uma hora, creio), dos organizadores. Sim, certo, o festival está a crescer e ainda bem, patrocinadores oblige e há que os mencionar, e claro que um simples declaro o festival aberto também não teria piada, mas era mesmo preciso passar tanto tempo a abrir o festival?


O Segredo das Pedras Vivas (António de Macedo, 2016)

Nos anos 90, António de Macedo realizou para a RTP uma série de temática natalícia, que mais de vinte anos depois, com esquecimento e bobines perdidas pelo meio, consegue realizar como o gostaria de ter feito na altura, como narrativa cinematográfica. Com este realizador, já se sabe que a abordagem seguirá caminhos de recorte misticista, na confluência da modernidade contemporânea da época filmada com tradições milenares e esoterismo. Com o seu humor e acutilância muito própria, leva-nos a um Alentejo interior onde as antigas tradições colidem com os interesses venais. Quando um arquitecto chega a uma aldeia para trabalhar na encomenda de uma casa por parte de um grande proprietário local, descobre-se num mundo ancestral, onde antigos ritos são mantidos vivos por mulheres sensíveis, a religião é uma instituição carinhosa, enriquecido pelos dramas, amores, desamores e idiossincrasias de cada um, a tensão entre lucro e tradição é muito grande. Omnipresentes, mas ameaçadas, as pedras, cromeleques e megalitos milenares espalhados pelas terras, talvez alinhados pelas linhas de força telúrica do planeta.

É o grande ponto alto do Motelx deste ano. Pelo regresso deste veterano realizador, já tão tardio e que já tanto tardava, pela homenagem à sua carreira e personalidade. Arrepiou, ver o público que enchia a Sala Manuel de Oliveira do cinema S. Jorge a aplaudir, de pé, este grande e tão esquecido mestre do cinema fantástico português.



The House on the Edge of the Park (Ruggero Deodato, 1980)

Evitei deliberadamente a sessão de Cannibal Holocaust, optando por este para preencher a lacuna na minha cultura fílmica que é não conhecer a obra de Ruggero Deodato. O exagero chocante de exploitation não me atrai. Esperava deste um filme incómodo, sangrento, perverso, a fazer jus à fama do autor. Passei a sessão com sérias dificuldades em manter-me acordado, imune à sucessão de imagens de erotismo violento desta história que parecia ser uma situação em que jovens ficam à mercê de personagens violentos mas no final se revela uma vingança perversa, com as vítimas a deixarem-se vitimizar deliberadamente para justificar um assassinato por vingança. O melhor do filme foi as dessincronização entre o som e a imagem, que nos legou momentos de comédia acidental. Com este filme coloquei um visto no nome de Deodato e pus de lado. Os prazeres viscerais do voyeurismo da exploitation não são de todo uma vertente que goste no cinema fantástico.


K-Shop (Dan Pringle, 2016)

Não tinha quaisquer expectativas sobre este filme, candidato ao prémio de longa metragem do festival. A apresentação do realizador, observando que íamos ver british people behaving badly, despertou a atenção. O filme vive dessa tensão, entre filme de terror tradicional que segue as façanhas de um serial killer e a acidez do comentário social sobre a lad culture e a tradição de bebedeiras sem limites, com todos os comportamentos violentos e degradantes que lhe estão associados e a cupidez de empresários sem escrúpulos que incentivam estas culturas. Ainda toca nas tensões étnicas, com descendentes de imigrantes como alvo da xenofobia de bêbedos violentos. Apesar de algumas linhas narrativas demasiado desenvolvidas face a uma poderosa história fulcral, é um filme forte e divertido. Sem querer fazer muitos spoilers, digamos que o destino que aguarda os bêbedos que vandalizam a loja do jovem ex-estudante de uma prestigiada universidade londrina, herdada do seu pai, refugiado de guerra, nunca mais vai deixar os espectadores deste filme olhar para um kebab da mesma maneira. Tastes like chicken, diziam os antropófagos. Ah, esse é o bónus do filme. Boas lições sobre como fazer kebab caseiro, com ingredientes frescos e naturais. 



Tiaga/A Princesinha das Rosas (Noémia Delgado, 1981)

Um dois em um,  recuperando a cinematografia de Noémia Delgado através de dois episódios televisivos que dramatizam contos fantásticos de autores portugueses. Em Tiaga, adaptado de um conto de Aquilino Ribeiro, acompanhamos uma mulher idosa que revive o viço da juventude, através das artes mágicas de um peregrino tomado pelo espírito do demo. A Princesinha das Rosas mergulha-nos  num decadentismo medievalista de fin de siecle, a partir de um conto de Fialho de Almeida. Conta a história de Naíde, filha dos amores de um pescador e de uma sereia, adoptada por um rei que a encontra, quando bebé, à deriva numa barcaça pelos rios.

Filmes de uma estética notável, belos nos seus enquadramentos e iconografias. A velha e o seu bode preto nas serranias áridas, as sereias caprichosas nas águas, o peregrino a ser possuído pelo demo, a noiva defunta que se eleva da sua campa num cemitério oculto sob o céu nocturno. São imagens poderosas, compostas com um forte sentimento estético. O hieratismo dos filmes, de uma teatralidade monumental nas suas declamações, a lentidão do seu ritmo, marcam o estilo de um certo cinema português, apreciado pelos intelectuais, mas não muito adaptável aos gostos mais generalistas. Visualmente espantosos, mesmo vistos em cópia degradada, são filmes pesados e maçudos.



The Devil's Candy (Sean Byrne, 2015)

Um filme apropriado para encerrar o festival, num registo de terror clássico. Tem uma curiosa indecisão entre filme de assassino em série e possessão demoníaca, apesar de se centrar numa casa amaldiçoada por uma possessão, e na família de um pintor que tem entre os seus clientes um galerista chamado de Belial. Difícil ser mais óbvio que isto. O filme tem um forte pendor para as sonoridades e iconografia do metal, usando muito o som como elemento de tensão. Vai em crescendo até ao final deliciosamente violento e apocalíptico. Não se tornará um clássico deste género de cinema, mas garantiu um final divertido do Motelx.



The Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman, 1975)

Suspeito que se tornará tradição no festival. Depois da sessão memorável do ano passado, esta delícia de mau cinema regressou, desta vez numa sessão ao ar livre no largo de S. Carlos. Parte do warm up do festival, foi interessante ver o largo cheio de fãs, cosplayers vestidos a rigor (com especial predilecção por Magentas, já que para se encarnar como doutor Frank N Furter é preciso muita coragem), e bastante público atraído pela proposta de cinema ao ar livre numa morna noite de verão. Estes últimos de certeza que não estavam à espera deste tipo de filme.

A sessão sublinha o quanto este filme mostra que se o cinema, hoje, poder ser visto em múltiplos ecrãs e formatos, é na experiência social de ir ao cinema que está a essência desta arte. Este filme, assumidamente mau e over the top, não funciona se for visto em isolamento. É a interacção entre o público e a imagem projectada, canonizada em guiões seguidos à risca pelos fãs, que torna o seu visionamento uma experiência fantástica.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Computer: A History of the Information Machine


Martin Kelly, et al (2013). Computer: A History of the Information Machine. Boulder: Westview Press.

Uma história concisa da evolução do computador, que não segue o caminho habitual do foco nalguns projectos icónicos e personalidades influentes. Mostra os enormes esforços de investigação aplicada quer em centros académicos quer empresariais que, de forma algo imprevista, deram origem ao mundo da computação como hoje o conhecemos. O ser conciso torna-o algo superficial, algo especialmente notório nos capítulos dedicados aos momentos mais recentes da evolução do computador - a massificação do software, o desenvolvimento do computador pessoal e a internet. É muito interessante quando aborda toda a história (apesar de centrada na experiência americana) de calculadoras mecânicas, computadores electromecânicos de uso específico, computadores como pessoas empregadas em tarefas de cálculo rotineiro, de todo um movimento de automação do escritório iniciado em finais do século XIX que preparou o terreno (e criou algumas das principais empresas, ainda hoje gigantes da informática) para a burótica contemporânea.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Rise of the Machines: A Cybernetic History



Thomas Rid (2016). Rise of the Machines: A Cybernetic History. Nova Iorque: W.W. Norton and Company

O que é que queremos dizer quando afixamos o prefixo ciber a qualquer conceito? Cibernético, ciberespaço, ciberguerra, cyborg, cyberpunk. São termos que nos rodeiam num dia a dia contemporâneo, dependente de tecnologias digitais. Neste livro, Thomas Rid leva-nos numa viagem à descoberta da origem deste termo, mostrando como está intimamente relacionado com uma ideia muito específica de simbiose entre homem e máquina, intuída nos conceitos invocados por este termo.

A história começa na II Guerra Mundial, quando o matemático Norman Wiener, às voltas com o problema de controlo de fogo anti-aéreo, se fascina com as possibilidades de sistemas que conjuguem automatização computorizada e o homem. Criou o termo cibernética, definido como o controle automatizado de sistemas. O conceito alastrou numa época em que forma dados os primeiros passos do que viria a ser o nosso moderno mundo digital, com o desenvolvimento das arquitecturas e tecnologias de computação. A visão futurista de mescla homem-máquina passou do campo da investigação aplicada para a psicologia popular, e daí para a contra-cultura dos anos 60, numa mistura curiosa de químicos alucinogénicos e filosofias de transcendência dos limites humanos através da tecnologia digital. William Gibson leva o conceito para a literatura de ficção científica, deixando a marca indelével do seu conceito de ciberespaço como alucinação consensual mediada por computador. Outros escritores de FC mostram-se influentes neste campo, como a visão de mundos virtuais por Vernor Vinge em True Names que inspira as experiências de incipiente realidade virtual, ao mesmo tempo que confluem tecnologias de simbiose homem-máquina militares, especulações trans e pós-humanistas de índole académica, e crescimento do uso de computadores e da então nascente internet. Rid ainda nos fala do fenómeno cypherpunk, quando a matemática se tornou uma arma controlada devido ao poder dos algoritmos de encriptação, e das guerras entre activistas e governos para levantar restrições a esta tecnologia. Termina com o fascínio militar pelo conceito, com as ideias sobre guerra no ciberespaço e análises ao potencial de ataques digitais aos sistemas informáticos que se tornaram a estrutura da nossa sociedade.

O autor resiste à tentação de nos dar um quadro único, mostrando que o conceito, bem como a forma como o entendemos, evoluiu a par com as tecnologias e os seus impactos na sociedade. Mais do que uma ideia estanque, o cyber aplica-se às míriades de vertentes onde o controle humano se mescla com capacidades aumentativas tecnológicas. Quer sejam os velhos sonhos de cyborgs, que a tecnologia médica parece trazer cada vez mais próximo do banal, quer os sistemas complexos civis e militares que pervadem o mundo contemporâneo, e de uma forma especialmente individual a extensão para geografias electrónicas dos espaços onde cada um de nós se move, age e intervém.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Heart of Empire



Bryan Talbot (2008). Heart of Empire, or The Legacy of Luther Arkwright. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Esta aventura bizarra e psicadélica leva-nos ao mundo paralelo onde o Império Britânico renovado por Luther Arkwright triunfou e domina o mundo. Mas a sua própria existência, bem como a dos multiversos por onde Arkwright é capaz de viajar, está ameaçada. Uma estranha criatura inconsciente, misto de humano e algo disforme, prepara-se para aniquilar todos os universos. Entretanto, uma poderosa rainha britânica mantém-se de boa saúde graças aos latagões da sua guarda irlandesa, resistindo a um monge assassino enviado pelo Vaticano e às conspirações dos seus ministros, a sua filha, herdeira do trono, afadiga-se com os preparativos da grande exposição londrina e envolve-se com os agitadores pró-democracia que querem instaurar uma república. Os exércitos reais, com a sua tecnologia superior, acabam de arrasar o império nipónico e preparam-se para consagrar a sua hegemonia conquistando as comunidades russas e os rebeldes da ex-colónia americana.

Bizarro, divertido, daqueles livros em que parte do gozo da leitura é perceber os desvios e paralelos da linha temporal ficcional face à continuidade histórica. Uma obra que vive do fabuloso traço de Bryan Talbot, um deslumbramento retro-futurista misturando as estéticas Steampunk e fin de siècle numa Londres pejada de arquitecturas fabulísticas, máquinas voadoras e engenhos mecânicos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Comics

 

Eclipse #01: Mais uma aposta da Image no domínio da Ficção Científica. Apesar da narrativa seguir os caminhos seguros do policial procedimental, o mundo em que assenta é intrigante. Uma Terra devastada por manchas solares, com os sobreviventes a viver uma vida mais ou menos normal no subsolo das cidades.

Faster Than Light #10: Decididamente, a space opera mais descarada do momento. Desta vez até mete micro-universos sentientes aprisionados, à espera da oportunidade de fazer o seu big bang...

domingo, 11 de setembro de 2016

Ambition



Yoshiki Tanaka (2016). Ambition. S. Francisco: Haikasoru

Este segundo capítulo da série Legend of the Galactic Heroes mantém o estilo de Space Opera geoestratégica. Novamente, o foco da narrativa está nos movimentos e manobras de massas, nas estratégias e técnicas de combate, com o elemento humano relegado para detalhe complementar. Desta vez, as guerras entre o Império Galáctico e a Aliança dos Planetas Livres entra em pausa. Uma guerra civil, que opõe as ambições do intrépido Reinhard Lohengram aos decadentes aristocratas tradicionais dilacera o Império. Para evitar que os rebeldes se aproveitem da fraqueza temporária, Lohengram instiga um golpe de estado na Aliança, que obriga o célebre almirante Yan Weng Li, o grande herói da série, a tomar acções decisivas para restabelecer a legitimidade democrática. No meio destas lutas, os líderes de um planeta obscuro e esquecido que é o berço da humanidade apertam as malhas do seu plano de restaurar a Terra ao lugar de centro do domínio humano sobre a galáxia.

Esta série não agrada a todos. O seu foco nas questões tácticas e de estratégia, com os grandes momentos de combate descritos como movimentos de massa e sem um pingo da tradicional aventura individualista da Space Opera, parece Ficção Científica para historiadores. É uma forma diferente de abordar o género.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

FAB: The Coming Revolution on Your Desktop


Neil Gershenfeld (2005). FAB: The Coming Revolution on Your Desktop–from Personal Computers to Personal Fabrication. Nova Iorque: Basic Books.

Mentor dos laboratórios de fabricação (fablabs), em essência da democratização do acesso à tecnologia e estimular do saber fazer junto das comunidades, figura de base do que hoje chamamos de cultura maker, Neil Gershenfeld estruturou em 2005 um conjunto de ideias-base e experiências práticas que, na altura, estavam restritas a contextos específicos, mas que hoje alastraram num movimento dinâmico à escala global.

Grande parte deste livro é o que se espera. Gershenfeld detalha algumas das tecnologias de base dos Fab Labs (microcontroladores, linguagens de programação acessíveis, ferramentas de maquinação e manufactura aditiva), mostrando exemplos de múltiplas aplicações localizadas que contrariam o paradigma de design industrial vigente. São exemplos que vão de escolas indianas a projectos universitários, e têm em comum a procura de soluções locais para problemas que se fazem sentir em comunidades reduzidas. Esse é um dos elementos estruturais da cultura maker, do DIY, que lhe confere poder social transformativo.

Mais pertinentes, do ponto de vista de um educador, são duas outras ideias contidas neste livro. Gershenfeld traça uma relação muito directa entre o tipo de trabalho propiciado pelos Fab Labs e novas formas de aprender, centradas não na memorização de conhecimentos padronizados mas na aprendizagem dinâmica, significativa, onde conhecimento teórico e prático se unifica no trabalho de projecto. Este aspecto do fazer (propiciado pelo saber) prático, com implicações na expressão e criatividade e no desenvolvimento de competências técnicas e aprendizagens CTEM é uma das grandes mais-valias trazidas pelas metodologias de trabalho potenciadas pelos Fab Labs/makerspaces. Este argumento baseia-se muito no trabalho de Seymour Papert, colega de Gershenfeld no MIT, e talvez o maior proponente do conceito de aprendizagem construtivista, que parte das teorias de desenvolvimento cognitivo de Piaget, influenciadas pelo potencial das tecnologias digitais aplicadas a uma aprendizagem estruturada em projectos práticos.

Outra grande ideia que sustenta os argumentos de Gershenfeld é o potencial desta abordagem no derrubar das barreiras entre conhecimentos artísticos, técnicos e intelectuais. Quebrar a separação pouco natural entre a técnica e o conhecimento, herdeiros do que Gershenfeld aponta como uma tradição vinda do renascimento que valoriza o intelectualismo e relega a aplicabilidade prática para um remoto segundo plano. Uma ideia explorada em dois níveis, na quebra de barreiras epistemológicas e no reconhecimento do potencial expressivo, artístico e criativo das capacidades consideradas como meramente técnicas (programação, concepção tecnológica, design).

Apesar de escrito em 2005, FAB ainda se sente como revolucionário. Onze anos depois, a cultura maker está em crescimento, mas ainda é vista como algo à margem da normalidade técnica e cultural. A impressão 3D, algo incipiente à data de edição deste livro, afirmou-se como tecnologia de fabricação e prototipagem. As necessidades de preparação das crianças para um futuro exigente, aliadas à progressiva disponibilidade de tecnologias de baixo custo (impressão 3D, arduino, entre outras), têm levado os professores e educadores a apostar neste tipo de abordagens, traduzindo-se numa grande diversidade de experiências no domínio da robótica, introdução à programação, sensores/controladores e impressão 3D. As artes adoptaram as linguagens estéticas específicas às tecnologias como forma de expressão plástica. A mudança prometida por este conceito já não é uma especulação.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Networks of New York



Ingrid Burrington (2016). Networks of New York: An Illustrated Field Guide to Urban Internet Infrastructure. Nova Iorque: Melville House.

Um livro curioso, que olha para elementos da paisagem urbana que estão expressamente concebidos para passarem despercebidos. O foco está nos indícios físicos das redes digitais, imperceptíveis ao olhar dos transeuntes mas legíveis para quem conhece os seus códigos linguísticos específicos. Passa por edifícios cuja única função é albergar e interligar infraestruturas de rede, pela taxonomia das caixas que albergam desde antenas wifi a câmaras de video-vigilância e sistemas pouco conhecidos de vigilância tecnológica, até às tampas de esgoto, sinalizadas de acordo com as empresas que controla, as condutas subterrâneas para passagem de cabos de dados e telefone. De forma concisa, apesar de explorar o tecido empresarial e estatal que sustenta estas redes, este livro é um pequeno guia visual de catalogação e reconhecimento dos elementos urbanos de infraestrutura digital.  A vida nos ecossistemas do antropoceno é feita destas tecnologias. Desenhadas para serem invisíveis, acessíveis através de uma linguagem de logotipos e equipamentos, compreensível apenas por aqueles que estão encarregues de lidar com estes sistemas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

aCalopsia: H-alt #02



O quarto número está previsto, o terceiro editado em formato digital, e o segundo disponível em papel nas livrarias El Pep e Leituria. O segundo número da revista H-alt mostra uma aposta de continuidade como espaço de divulgação dos novíssimos autores de Banda Desenhada em Portugal, com um notório salto qualitativo em relação à primeira edição. Crítica completa no aCalopsia: Revista H-alt #2, editada por Sérgio Santos.

Overcomplicated




Samuel Arbesman (2016). Overcomplicated: Technology at the Limits of Comprehension. Nova Iorque: Current.

É algo complicado perceber qual é o propósito deste livro. Promete ser uma reflexão sobre os sistemas complexos que suportam o nosso dia a dia, desde as infraestruturas tecnológicas aos códigos legais. Tem uma linha de pensamento muito clara: da colisão da expansão do conhecimento e desenvolvimento tecnológico surgiram sistemas de elevada complexidade, dos quais dependemos para manter a funcionar a economia, instituições, e cada vez mais, com a computação pessoal e a internet, as nossas vidas pessoais. Complexidade exponencial, que leva a que poucos sejam realmente capazes de compreender todos os elementos dos sistemas, e ao surgir de paralisações ou avarias inesperadas com causas difíceis de descobrir. Analisa o papel da progressiva especialização no domínio do conhecimento, reflectindo sobre a necessidade de abordagens transdisciplinares que preservem a flexibilidade de um pensamento generalista face ao isolamento trazido pela hiper-especialização.

São argumentos interessantes e pertinentes, mas o livro lê-se essencialmente como um longo resmungo acerca das condições da modernidade contemporânea. Os sistemas tecnológicos complexos que dão o tema ao livro são abordados de forma liminar, sem nada mais  profundo do que pequenas histórias de momentos em que bugs ou anomalias fizeram algo correr mal. Ao falar de alguns tipos de sistemas complexos, sente-se até que o grande problema apontado pelo autor está na diversidade de necessidades humanas, que obrigam à complexidade bizantina dos sistemas legais. As leis seriam de facto mais simples se houvessem menos direitos a respeitar. Apesar de abordar questões pertinentes, acaba por ser ler como um misto de análise angustiada e síndrome de choque do futuro.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Visões


From Beyond (Stuart Gordon, 1986)

Vagamente inspirado no conto homónimo de Lovecraft, From Beyond é um delírio de efeitos especiais entre o gore e o viscoso. A premissa das criaturas que estão no limiar da nossa percepção, tornadas visíveis graças a um mecanismo electromagnético criado por dois cientistas que estimula a glândula pineal, é levada a níveis escatológicos pela mesma equipa do lendário mau filme Re-Animator. As criaturas do além são amplificadas pela incorporação em carne maleável do espírito de um dos cientistas que criou o dispositivo cujo campo magnético consegue trazer os seres do além para a nossa realidade. Sádico, com predilecção por couro e chicotes, metamorfoseia-se sem parar em aglomerados tentaculares de criatura disforme, piadas macabras com a carne, enquanto tenta viola a psicóloga que quer ajudar o outro cientista a curar o que parecia ser uma alucinação esquizofrénica, mas se revela ser um horror real e disforme, que nos rodeia continuamente mas, para bem da nossa sanidade, está para lá da percepção. Um festim visual, típico filme de terror chocante dos anos 80.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Comics


Afterlife With Archie #10: São os detalhes, claro. Como é que se percebe num só balão que esta história vai ser sobre vampiros? Fãs que conhecem bem o clássico filme Drácula de 1931 percebem logo esta referência, com o "I never drink... alcohol." Não sendo a mais fiel adaptação do romance de Stoker, este filme marcou a história do cinema de terror ao introduzir Bela Lugosi, cuja caracterização do vampiro ficou icónica. Vem de um momento desse filme a expressão "I never drink... wine...", um duplo-sentido óbvio não entendido pelas restantes personagens, que só mais tarde irão descobrir o vampirismo do conde.

Witchfinder: City of the Dead #01: Templos esquecidos no subsolo londrino, cemitérios assombrados, organizações secretas dedicadas a invocar o inominável, cadáveres intocados pela decomposição ao fim de séculos no esquife. Esta nova série de Sir Edward Grey, Witchfinder, inicia-se com um delicio e old school toque de horror gótico.

domingo, 4 de setembro de 2016

Introduction to the History of Computing



Gerard O'Regan (2016). Introduction to the History of Computing: A Computing History Primer. Berlim: Springer.

Apesar de ser um manual introdutório, é interessante pela forma sequencial como fala da evolução histórica das diferentes vertentes da computação. Sem entrar em muitos detalhes, destaca os passos da história da computação, do computador, internet, telecomunicações, inteligência artificial, software, sistemas operativos e (esta não esperava) bases de dados. Boa referência para partir à descoberta, contextualizar e aprofundar a evolução da tecnologia digital.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ficções

Rios de Sangue, Pedro Cipriano: Basta um pequeno detalhe. Somos mergulhados numa guerra de trincheiras, sob o ponto de vista de um soldado que tem de conviver com a morte, dureza dos combates diários, sobrevivência no ambiente hostil e manutenção da sanidade, enquanto se defende do ataque de inimigos que não nos são explicados. Parece, em tudo, uma narrativa inspirada nas trincheiras da I guerra mundial, excepto pelo tal pequeno detalhe que faz toda a diferença (e, de facto, torna esta história uma narrativa de género fantástico): a velha arma que o soldado empunha foi feita nos tempos da antiga União Europeia.

Totem Poles, Rudy Rucker e Bruce Sterling: Suponho que Rucker ficou encarregue do weird e Sterling do favela chic. Estes dois veteranos juntam-se para contar uma história sobre invasões alienígenas benignas, que estão a salvar o planeta, e os puristas que os combatem até serem digeridos pelas entidades alienígenas, tornando-se forças de perfeição planetária.

Sgt. Augmento, Bruce Sterling: Depois de uma temporada como soldado nas forças progressivamente automatizadas de combate americanas, um veterano dedica-se a suplementar o seu rendimento mínimo garantido servindo de cobaia a empresas que se dedicam a desenvolver algoritmos de autmatização a partir da observação do trabalho de humanos. O veterano sabe que está a contribuir para que drones sejam cada vez mais prevalentes na substituição de humanos nas tarefas, mas não se preocupa muito com isso.

I come from future, Darine Hotait: Mais experiência linguística do que conto coerente, foca-se demasiado no estilismo de uma linguagem arcana futurista para funcionar como narrativa coerente.

Landscape with intruders, Jean-Claude Dunyach: Um vigia de floresta, habituado à solidão que mitiga com bebidas de destilação ilegal, acorda ressacado depois de uma noite de consumo liberal sob as estrelas infestado por uma estranha praga. Descobre-se colonizado por seres minúsculos, que exploram as geografias do seu corpo até, talvez de conhecimento saciado, lançarem um foguetão que os levará a outro mistério.


Folding Beijing, Hao Jingfang: Vencedor dos prémios Hugo, este conto é um poderoso comentário às desigualdades económicas e sociais numa era de avanços tecnológicos. A futura Beijing é uma cidade origami, que se dobra ciclicamente em três. As élites e aqueles que as servem vivem na primeira cidade, espaço de luxos e refinamento. A segunda cidade está reservada às classes médias, fundamentais para manter os serviços de que depende a sociedade. A terceira está reservada aos excedentários, aqueles que estão à margem de uma sociedade progressivamente automatizada. Sem fábricas ou campos, agora trabalhados por drones, resta aos habitantes trabalhar na reciclagem dos desperdícios da cidade. Um processo que também poderia ser automatizado, mas não o é para manter as massas empregadas. A cidade dobra-se sobre si própria regularmente. Os habitantes das cidades dentro da cidade ficam protegidos dentro de casulos enquanto dura o período da cidade que está activa. É impossível não ler a reflexão sobre as tendências tecnológicas, económicas e sociais da modernidade neste retrato de três mundos que, coexistindo num mesmo espaço físico, estão separados por barreiras inultrapassáveis.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Vermillion Sands



J.G. Ballard (2016). Vermillion Sands. Londres: Penguin

Não sendo um livro que me seja desconhecido, não resisti a esta nova edição da Penguin. Aquele padrão OpArt na capa, que ganha vivacidade graças a um plástico reticular incluído no livro, atrai o olhar. A colecção em si é daquelas que quer empolar o lado erudito da FC, não apresentando os livros como de ficção científica, mas como futuros vintage. Inclui escritores como Huxley (Admirável Mundo Novo), Zamiatin (We), Atwood (Handmaid's Tale) ou Gilman (Herland). É uma lógica aceitável. Muitas destas obras estão na zona de fronteira entre géneros, desbravando territórios e desmontando os conceitos de género literário, esses constructos teóricos úteis para categorizar leitoras, tornados espartilhos conceptuais pelo público, academia e escritores.

Vermillion Sands é um livro clássico que se equilibra nas zonas de fronteira. Estes contos de Ballard, organizados no ambiente coerente de uma estância à beira mar, são das primeiras obras que assumem essa ambivalência literária, que se atrevem a desbravar os limiares das fronteiras. A FC aqui não olha para as estrelas, alimentada de aventuras no espaço entre alienígenas exóticos e portentosas naves espaciais. Olha para os espaços interiores, para as neuroses de um espírito humano contaminado de forma indelével pela modernidade, transformado pelo automóvel e ângulos frios da arquitectura modernista. O tal innerspace que Ballard sempre explorou tão bem, na sua sublime combinação do frio abstraccionismo do alto modernismo e da clareza hiper-real do surrealismo.

Desenganem-se quem pense que a estância balnear de Vermillion Sands é uma amálgama das terras descaracterizadas para suporte de turistas de verão que se encontram por todo o mediterrâneo, do Algarve à Grécia. Conhecem o estilo horrendo, vilórias antigas semi-esquecidas, rodeadas por prédios de betão pintado de branco e vivendas vernaculares com piscinas, rodeadas de vias-rápidas e mar de azul profundo. Vermillion Sands é isso, mas também tem esculturas sónicas, viveiros de plantas cantoras, escultores de nuvens, vestidos de tecido vivo e desertos navegáveis por iates em busca de mantas. Entre a aridez da paisagem e arquitectura, é uma arena onde personalidades danificadas se dedicam a perseguir as suas neuroses e obsessões.

A prosa de Ballard está no ponto de colisão estético entre Dali, Magritte e Tanguy. A sua capacidade narrativa sempre se distinguiu pela clareza com que narra o surreal, entre a aridez inquietante de Tanguy, o surreal hiperreal de Magritte e o delírio de Dali. Os contos de Vermillion Sands mergulham-nos de chapa, sem sobreaviso, nestas estéticas.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Visões


Two Evil Eyes (Dario Argento e George Romero, 1990)

Two Evil Eyes é um filme antológico em que George Romero e Dario Argento juntam forças para olhar para a obra de Edgar Allan Poe. Romero revê The Facts in the Case of M. Valdemar como uma história contemporânea de cupidez, em que a mulher e o médico de um homem às portas da morte utilizam o hipnotismo para convencer o moribundo a liquidar bens e acelerar o processo de herança. Com Valdemar a falecer enquanto hipnotizado, abre-se a porta dos horrores, com o seu espírito preso ao corpo decomposto e congelado. É aqui que a parte de Romero ganha algum interesse, depois de um longo preparar do terreno narrativo que prima por ser morno. Como é de esperar, Romero transforma Valdemar num zombie, animado pelas almas que estão no limbo do além. Utiliza bem o anacronismo de suspensão de vida e morte do conto original, com alguns requintes gore, mas perde-se numa história entediante, com a lendária scream queen Adrienne Barbeau a ficar muito aquém do que era capaz.

 
Já com a secção de Dario Argento o maior problema é convencer o espectador que o gato, tranquilo e pacholas, é a criatura ameaçadora de The Black Cat. Oscilando entre o giallo e o terror gore, com os toques surreais típicos do realizador, esta secção é a mais forte do filme. A história de terror e morte é actualizada com a relação em dissolução de um fotógrafo e uma violinista. O fotógrafo é especialista em cenas de crime, o que dá a Argento uma boa desculpa para cenas de terror visual puro. É assim que inicia o segmento, com o rescaldo de um assassínio inspirado em The Pit and the Pendulum, ou outro em que um dentista demente viola campas para arrancar os dentes a noivas recém-enterradas.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Visões


Lo and Behold: Reveries of the Connected World (Werner Herzog, 2016)

Não consigo libertar-me da primeira crítica que li a este documentário do lendário cineasta Werner Herzog, no Kottke.org, creio. Dizia algo como famoso cineasta deslumbra-se em conversa com cientistas e líderes tecnológicos, e de facto é uma boa caracterização deste Lo and Behold. Deslumbramento com as origens, infraestruturas e possibilidades do mundo digital é talvez a palavra que melhor descreve um documentário que não parece pretender dar respostas a questões. Antes, é o registo meditativo de um percurso de aprendizagem pessoal, do olhar de um homem - o realizador, à descoberta do que para ele é um novo mundo. É uma perspectiva com a qual empatizo, recordando o meu fascínio crescente com a história da tecnologia digital, da evolução de algo que se tornou prevalente para os nossos dias. Herzog traz o seu olhar muito próprio ao mundo da internet, o que se traduz em entrevistas intrigantes, onde as palavras são contrabalançadas pela capacidade do realizador em captar um misto de fascínio e inocência no rosto dos entrevistados. As suas estéticas contemplativas conseguem traduzir a poesia dos servidores interligados por cabos, nos padrões aleatórios de luzes a piscar com o tráfego binário, ou a inocência humana daqueles com que se cruza. Os seus documentários têm o seu quê de experiência zen.



É sintomática a forma como Herzog inicia Lo and Behold. Com acordes do início de Das Rheingold de Wagner em crescendo, simbolizando o conceito de fluxo, um dos grandes temas inerentes a este documentário, mostra Leonard Kleinrock a contar a história do IMP-1 e da primeira mensagem enviada pela internet. Esperava-se que seria log, de log in, mas o computador receptor no SRI crashou antes de receber a letra g. Nos registos ficou a primeira mensagem ficou registada como lo, que Kleinrock, com o ar deslumbrado de quem reflectiu muito sobre esse momento, refere como parte da expressão inglesa de surpresa lo and behold!, em prenúncio de todo um novo território a desbravar. Suspeito que se dissermos the imp messaged lo, as in lo, and behold, talvez a expressão mude de sentido.

Parte daí uma viagem documentada a diferentes vertentes deste mundo conectado que tanto fascina Herzog. Com a sua maliciosa inocência, tanto entrevista personalidades de charneira como Robert Khan (um dos criadores da arquitectura da internet), Ted Nelson (criador do conceito de hipertexto, nunca na sua opinião utilizado da forma que defende como a correcta), Lawrence Krauss, Sebastian Thrun, Kevin Mitnick ou Elon Musk, como cientistas, especialistas em cibersegurança, astrofísicos, famílias vítimas de bullying online ou os habitantes da zona protegida de radiações perto do rádiotelescópio de Green Bank, que encontram no isolamento radiológico necessário para a ciência a cura para a sua hipersensibilidade às ondas electromagnéticas das redes celulares e wifi. Da origem da internet à robótica e inteligência artificial, Herzog dá-nos o seu retrato deslumbrado do mundo em hoje vivemos. Um mundo em que monges budistas parecem meditar olhando para os estritos confins do ecrã do seu smartphone, onde as  mudanças sociais e comportamentais possibilitadas pelo alastrar das tecnologias de comunicação nos surpreendem e chocam, embora como Lawrence Krauss observa ao extrapolar um futuro de isolamento humano no meio de redes, IA e robots, maybe for them, it will be good, ilustrando a forma como a percepção do que consideramos socialmente bom e aceitável muda com o passar do tempo.

Apesar do deslumbramento, a isenção de Herzog é admirável neste documentário. O fascínio é inerente à descoberta. Habituados como estamos a tecnologias que se banalizaram no nosso dia a dia e simplesmente funcionam, cuja infraestrutura nos passa despercebida, este olhar cheio de sense of wonder recupera o deslumbre pelo progresso tecnológico.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Comics


The Hellblazer #01: Mais um relançamento para John Constantine? Refira-se que o último, interessante e muito bem feito, era talvez demasiado arrojado para os gostos mainstream da DC. Este é mais comedido e regressa às origens do personagem, mas não deixa de fazer sentir que há mundo para lá dos comics. Como neste cartucho sobre Hitler e a sua promessa de make Germany great again. Parece o discurso de um certo candidato à presidência americana, não parece?


Weird Detective #03:  A banalidade do policial procedimental cruza-se com o horror lovecraftiano. O detective weird é um ser extra-terrestre que se incorpora como um polícia corrupto que mantém em coma na sua casa, para combater as miscigenações tentaculares entre criminosos de rua e os descendentes decaídos dos grandes anciãos. Imprescindível, para fãs de tentáculos à Lovecraft.


Wacky Raceland #03: Quando anunciaram que a série de desenhos animados Wacky Races (A Corrida Mais Louca do Mundo em português) iria ser revista pela DC, pensei que seria mais um título legacy act revivalista. Aparentemente, não foi esse o caminho seguido. As aventuras infantis dos corredores com as suas loucas geringonças foram revistas como delírio pós-apocalíptico. De desenho animado infantil com o grafismo tão anos 60 característico dos estúdios Hanna Barbera, passou a uma estética inspirada em Mad Max Fury Road e Desolation Alley. Com uma narrativa a seguir o mesmo caminho. Os excêntricos personagens e os seus absurdos veículos passaram a caricaturas insanas com automóveis delirantes controlados por inteligências artificiais. A hipérbole é tão exagerada, tão over the top que sobe bem acima dos telhados.