quinta-feira, 26 de maio de 2016

Nazi Moonbase

 

Graeme Davis (2016). Nazi Moonbase. Oxford: Osprey.

É fácil imaginar os editores da Osprey, que se dedica a explorar o nicho de mercado dos nerds militaristas, a especular sobre que recepção teriam entre os geeks dos mundos imaginários. Os livros desta editora são dedicados às minúcias da história militar, com infinda obra sobre conflitos, unidades militares, estratégias ou dissecação quase pornográfica dos mecanismos de armamento. Tudo muito fiel ao rigor histórico, afastado de fantasias e especulações. Com excepção da sua colecção Dark Osprey, que se dedica precisamente a este campo.

Isto ajuda a explicar esta divertida bizarria de livro. Escrito naquele tom de autor tarefeiro a encher parágrafos para leitores que só estão interessados nas fotografias e ilustrações militaristas, detalha os tenebrosos segredos vindos do lado oculto da II Guerra, com a exploração das forças Vril pelos elementos mais radicais das SS para criar novas armas devastadoras. Elementos que, perante a derrota inevitável, se transferem primeiro para a Antártida, e depois para a Lua, levando consigo as armas mais secretas do II Reich, pondo em marcha um plano de sobrevivência e combate com o fim único do regresso, vitorioso, a uma Terra em cinzas. Contam com armas tenebrosas: potentes raios da morte, temíveis discos voadores, canhões capazes de disparar rochas lunares. A sua fortaleza lunar, último reduto do Reich, tem sido inexpugável perante as tentativas americanas de ataque. Nesta história, é-nos revelado que o verdadeiro objectivo das missões espaciais americanas, europeias e russas/soviéticas era o de defender o planeta da ameaça dos nazis entricheirados na lua.

O fantástico deste livro, para além do tema (nazis! tecnologias dieselpunk! conspirações! como não adorar?), é a forma como o autor consegue manter sempre um tom neutro, detalhando as histórias e tecnologias fictícias como se estivesse a fazer um resumo rigoroso de factos reais. Suspeito que haja por aí muitos leitores que não se apercebam da óbvia ironia do livro e acreditem mesmo que existam fortalezas germânicas na Lua. Chega ao ponto de misturar páginas web de teorias de conspiração com filmes e comics na bibliografia, mantendo sempre um tom de normalidade e rigor. Um bom humor perfeito.

Não é uma ideia nova, e a Internet está pejada de páginas que, fascinadas com desvios para o que não se apercebem ser um imaginário profundo, detalham as tecnologias ocultas do Reich, os projectos avançados de armas  em  boa parte reais, mas que não saíram do papel, especulam sobre conhecimentos ocultos, ligações a civilizações existentes no interior da Terra, entre outros elementos que estão na fronteira ténue entre o imaginário de FC e a esquizofrenia. Um manancial aproveitado pelos criadores de cultura de género, destacando-se o bom uso dado a esta iconografia por Mike Mignola em Hellboy ou no divertido filme finlandês Iron Sky. Esta edição da Osprey explora bem esse filão, e tornar-se-á uma referência neste reduzido mas divertido nicho.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Tinkercad 01: Interface.

Hora de começar a estruturar em documentos as metodologias de trabalho com o Tinkercad. Começo por este tutorial, dedicado ao interface da aplicação. Este, e outros tutoriais, estão disponíveis na página Recursos: Tutoriais das TIC em 3D.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Aniquilação


Jeff Vandermeer (2016). Aniquilação. Estoril: Saída de Emergência.

Há uma deliciosa inversão ballardiana neste romance, primeiro de uma trilogia, de Jeff Vandermeer. Ao lê-lo, é impossível não recordar os romances-catástrofe de J.G. Ballard, onde personagens solipsistas explorar as suas psicoses em paisagens de catastrofismo barroco naturalista. A referência mais óbvia é The Drowned World, com as suas assombrosas visões de uma Londres transformada num pântano luxuriante, com a arquitectura semi-submersa matizada pelos verdes de uma natureza em revolta. Há muito disso nas descrições que Vandermeer faz da sua surreal Zona X, um misto de pântano floridiano com paisagens dos sonhos de Max Ernst, zona de biologia misteriosa que vai engolindo, lenta e metodicamente, as zonas circundantes.

Os seus mistérios são sondados por expedições sucessivas, enviadas por uma agência secreta num misto de procura de conhecimento e pânico. A zona já engoliu povoações, e poderá ter no seu cerne uma estranha criatura que absorveu os seus habitantes. Criatura que reside no fundo de um poço espiralado, cujas paredes se encontram cobertas por inscrições sucessivas escritas por um fungo bioluminescente. É também uma área onde nada do que é moderno funciona, e os exploradores têm de depender de meios mecânicos antiquados para registar as bizarrias da fauna e da flora.

A grande força deste livro é a sua iconografia, a forma como concebe uma natureza em mutação que ameaça engolir uma normalidade humana que lhe é indiferente. A constante sucessão de selva, imaginada sob um céu azul, plantas em crescimento desmesurado, fungos de efeitos imprevisíveis, estruturas arquitectónicas progressivamente engolidas pelos verdes. É um curioso cruzamento entre a ficção Weird e os temores despertos por uma era onde as alterações imprevisíveis trazidas pelas catástrofes climatéricas já não são especulativas. A história, se tal existe porque a força das imagens é mais avassaladora do que a do enredo, centra-se mais num périplo por esta iconografia, mergulhando-nos no exotismo barroco de uma natureza em mutação.

Nesse périplo somos conduzidos pela mão de uma bióloga, elemento da mais recente expedição à Zona, entre cujas razões para integrar mais uma tentativa que se verá gorada de exploração deste território se misturam a curiosidade profissional e uma busca de respostas pelo destino do marido, que integrou a missão anterior e, como outros membros sobreviventes destas missões, lhe apareceu em casa sem saber como é que tinha saído da área isolada. E talvez não o tenha feito, talvez o que saia das áreas, encarnada no corpo dos exploradores, seja uma manifestação das misteriosas forças fungais que dominam a área X. Mistérios que ficam deliberadamente sem resposta, reforçando a estranheza do livro.

Se o foco de Ballard era nos espaços interiores da alma humana, espelhados pela paisagem decadente, Vandermeer, revendo a iconografia catastrofista sob uma perspectiva de colapso ambiental, foca-se no exterior, no mistério da paisagem, e na vida pessoal das personagens como forma de tornar mais denso o mundo ficcional. Como bom primeiro livro de trilogia, deixa-nos com mais questões do que respostas, marca a mente com as iconografias que invoca. Não consigo deixar o reparo deste ser um intrigante uso ficcional para o poço iniciático da Quinta da Regaleira, uma das inspirações do autor para este romance, que o descobriu aquando de uma passagem por Portugal no âmbito do Fórum Fantástico.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Comics


Archangel #01: William Gibson a escrever comics? Confesso que a expectativa não é elevada. Gibson é um romancista de primeira linha, mas a linguagem narrativa literária é diferente em ritmos e estruturas da da banda desenhada. Não surpreende, por isso, haver um outro nome a escrever, encarregue de adaptar a narrativa do autor para o formato dos comics. Já a história é intrigante. Gibson parece ter escolhido afastar-se do seu cyber futurismo decadente e divertir-se com um tipo de história clássico na FC, à volta com realidades alternativas, viagens no tempo e paradoxos temporais.


Red Thorn #07: É um título da Vertigo que tem passado despercebido, no meio do destaque a séries mais marcantes. Mas tem-se mantido consistente, numa abordagem de fantasia urbana a uma história onde velhos deuses do passado longínquo regressam à vida, invocados por desenhos criados por descendentes de servos, aprisionados a uma promessa milenar. Não foge à iconografia e estilo da fantasia urbana.


Silver Surfer #04: Entre o grafismo tão à golden age e a inocência dos argumentos, afastados dos estilismos convolutos que se tornaram habituais numa Marvel que cada vez mais encara os comics como extensão do seu universo cinematográfico, este Silver Surfer recupera a essência do comic clássico. Pegar nestas quadricromias onde o bem e o mal estão tão definidos como o contorno negro das figuras recupera um pouco daquela sensação sentida quando se pegava nas primeiras revistas de super-heróis. Como uma droga, não se volta a ter sensações similares às do primeiro embate.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Doctor Who e o Dia dos Daleks






Terrance Dicks (1983). Doctor Who e o Dia dos Daleks. Lisboa: Editorial Presença.

O problema de ler aventuras antigas de Doctor Who é a desconexão cognitiva entre a imagem dos livros e a minha ideia pessoal do personagem, um misto da energia de David Tennant, da excentricidade de Matt Smith e da aridez de Capaldi (pertenço ao clube dos que não vão à bola com o nono Doctor). Mas a aventura é dos tempos clássicos, de um Doctor que encantou gerações antes de eu ser nascido (a primeira edição data de 1974) encarnado pelo actor Jon Pertwee.

Não esperemos um clássico de FC neste livro, antes um episódio mais desenvolvido. A ameaça dos Daleks vem de um futuro tornado possível por um momento-pivot que no presente mergulhou a Terra numa guerra nuclear. Há uma confusão sobre o que causou esse momento, o que dá um bom mote ao estilo de história de viagens no tempo em que os efeitos precedem causas inesperadas. Temos saltos a um futuro distópico com a Terra dominada pelos Daleks, unidades da UNIT em combate contra criaturas monstruosas, e combatentes pela liberdade que, se não pela intervenção do Doutor, seriam os reais causadores do futuro que querem a todo o custo evitar.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Instant Culture


Hmm. Onde é que eu já vi isto?
"There was no need to travel from the galactic backwoods (...) A GSV could bring the whole lot right up to your front door..." 
Pisquem os olhos e mal dão conta. O que no universo ficcional Culture é uma nave imensa, foi claramente Iain M. Banks a referenciar os lendários Archigram, arquitectos especulativos que entre muitas ideias arrojadas e provocadoras lançaram este IC Blimp.


O Instant City Blimp era concebido como uma forma de levar a cultura urbana às remotas zonas campestres. Um dirigível pop, capaz de encantar as populações isoladas com a vibração de moda acutilante da cultura urbana. Cidades instantâneas que se deslocavam pelos ermos em busca de populações isoladas.


Ideia que em si não era tão nova quanto isso. Nos anos 30, a União Soviética enviava às suas distantes províncias o Tupolev ANT-20 Maxim Gorky. Supra-sumo da engenharia aeronáutica russa, era uma aeronave gigante para os padrões da época. Incluía cinema, emissor de rádio e prensas para panfletos. Voava pelos sovietes fora a espalhar a palavra vermelha, às ordens de Estaline.

Curiosa, a referência de Banks, que se por um lado é claramente inspirada nos Archigram por outro, dentro do contexto do universo ficcional Culture,  a sua tecnocracia progressista de sociedade pós-escassez alicerçada em Inteligência Artificial tem o seu quê do utopismo soviete.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Um Caso de Consciência



James Blish (1990). Um Caso de Consciência. Lisboa: Europress.

Este livro lê-se como um exercício de especulação, um e se uma civilização alienígena introduzisse uma serpente no paraíso? Mas a Terra futurista deste romance não é um paraíso, é um planeta cujos habitantes soterrados nas cidades subterrâneas que evoluíram a partir dos abrigos para uma guerra nuclear que nunca chegou a acontecer começam a dar sinais de psicose progressiva. Uma civilização que também se expande pelo espaço, alicerçada em tecnologias que permitem o atravessar dos golfos galácticos, explorando planetas que na sua maioria pouco mais apresentam do que formas de vida rudimentar.

Até se depararem com Lítia, planeta que irá representar um curioso desafio à humanidade. Lar de uma civilização extraterrestre avançada, que evoluiu a sua tecnologia a partir de pressupostos biológicos num planeta esparso em minerais, cuja espécie inteligente reptilóide replica a cada ciclo de nascimento e crescimento todos os estádios evolutivos de ovo a ser adulto, passando por peixe e anfíbio. Uma civilização cuja cultura representa, aos olhos de um dos homens encarregue de avaliar o potencial do planeta para as Nações Unidas, um perigo inusitado. A bondade baseada na lógica pura representa, para alguém que é padre jesuíta, um sinal de infiltração do demónio, um golpe final na religiosidade.

Quando um lítio é trazido à Terra, em óvulo como oferenda do seu pai, e cresce, ser entre dois planetas, cuja biologia determinista colide com os pressupostos de uma cultura que nunca será sua mas na qual se vê inserido, fica a prova que, realmente, algo de errado se passa com este transplante bio-cultural, na forma como consegue semear a discórdia e exacerbar as tensões negativistas da população terrestre. Há que admirar o final infeliz de uma história amarga, com um exorcismo a coincidir com uma experiência com energia nuclear que oblitera um planeta paradisíaco mas ameaçador.

Há duas ideias curiosas neste romance de James Blish. A mais óbvia é o especular da influência que a descoberta de uma cultura alienígena terá (ou teria, que isto das distâncias galácticas não facilita a probabilidade de descobertas de vida além da Terra) sobre os pressupostos culturais e morais sobre o quais assetam as nossas culturas e conceitos civilizacionais. A mais interessante é o voo imaginativo que Blish faz sobe a evolução biológica e cultural em planetas diferentes do nosso, dentro dos constrangimentos trazidos pelo ecossistema.

Um livro que em muitos momentos é um longo infodump, algo que me agrada de sobremaneira. Eu sei, é uma técnica maldita entre o lado mais literário da FC, mas os voos de especulação pura de um bom infodump são sempre uma incessante fonte de fascínio.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Comics

 Batman #52: E se este estilo vos recordar qualquer coisa... a nova equipe criativa do venerável título da DC inclui o argumentista James Tynion IV e o ilustrador Rafael Albuquerque, responsáveis pelo interessante Constantine: The Hellblazer. É um risco, num personagem tão icónico como Batman, apostar em sangue novo e equipas criativas ainda não estabelecidas nos píncaros da indústria, mas a avaliar pelas provas dadas quer em Constantine, que revitalizou com muito talento, e séries intrigantes como Memetic ou The Woods (na Boom! Studios), vai ser uma temporada interessante. Tynion é daqueles nomes que vale a pena reter. Mas já sabem como funcionam estas coisas. Preparem-se para mais um recontar da origem de Batman. É a tradição, sempre que um argumentista novo pega num dos ícones da DC.


Faster Than Light #06: O decifrar de uma mensagem alienígena proveniente de uma civilização extinta dota a Terra de tecnologia capaz de quebrar as distâncias galácticas, bem como de um mapa com a localização de outras civilizações. Parece ser uma nova era de descoberta e aventura, mas há um segredo, mantido oculto das populações. A força desconhecida que aniquilou a civilização que enviou a mensagem desloca-se na direcção da Terra, e as missões que supostamente são de exploração tornam-se um jogo de sobrevivência, com astronautas numa busca desesperada por aliados e tecnologias que permitam à Terra enfrentar a ameaça cósmica. Apesar de pouco homogénea na abordagem, Faster Than Light é space opera pura nos comics. É raro ver este nível de aventuras no espaço, mesmo numa época em que a ficção científica voltou a ganhar destaque na banda desenhada.


Think Tank Creative Destruction #02: E por falar em boa FC nos comics... Matt Hawkins e Rhasan Ekedal estão de regresso com Think Tank, aquele que pode ser melhor descrito como cyberpunk contemporâneo. O verdadeiramente interessante nesta série é a forma como Hawkins mistura tecnologias de ponta em estudo, propostas ou em concepção em histórias que tocam no pulso de uma modernidade mediada pela tecnologia. Nesta terceira série, o desafio envolve as fragilidades da infraestrutura que sustenta as sociedades contemporâneas a ataques concertados de hackers, reflectindo como o conceito de guerra assimétrica, hoje, não passa por campos de batalha tradicionais mas envolve intervenções cirúrgicas em elementos insuspeitos, capazes de despoletar efeitos bola de neve. Como sempre, este comic vale por si, e também pelo que coloca de reflexão sobre esta vertente algo visceral dos desafios trazidos pela modernidade.

sábado, 14 de maio de 2016

Meteorologia Bipolar


À descoberta do Paúl da Tornada, uma zona húmida entre as Caldas da Rainha e S. Martinho do Porto.


Drones World Tour dos Muse. Derivativos, mas divertidos.


Gare do Oriente em manhã cinzenta e chuvosa.


Ver os santuários de Braga sob nevoeiro cerrado tem o seu quê de gótico. Talvez daquelas brumas surja uma daquelas criaturas de pesadelo que tanto encantam os leitores de ficções temerárias?


... and back again. Normalmente atravesso o país de carro, mas soube muito bem regressar ao comboio.


Um tempo bipolar no Barreiro, oscilando entre chuva torrencial e sol ardente.


Desconhecia que o Barreiro tinha uma aldeia piscatória cheia de cor, à beira Tejo, com Lisboa ao longe.


Um peixe residente numa escola do primeiro ciclo. Suspeito que quando os alunos melhorarem o seu nível de inglês, o aquário terá que sofrer alterações.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Consider Phlebas


Iain Banks (2005). Consider Phlebas. Londres: Orbit.

O fascínio da space opera prende-se com a sensação que as aventuras que lemos fazem parte de um panorama mais vasto, do qual apreendemos somente alguns vislumbres de grande escala que fazem antever algo muito maior. É algo que está em evidência neste primeiro romance da série Culture de Iain M. Banks. Lemos uma história de aventura cheia de adrenalina, com conspirações, peripécias empolgantes e muitos cenários de imaginação espantosa, mas a sensação de que tudo aquilo é uma ínfima gota num vasto oceano é o que prevalece.

Banks mergulha-nos em cheio na expansão da Cultura, a sua civilização humana gerida por inteligências artificiais cuja expansão benigna irá colidir com a missão sagrada de uma espécie alienígena de evangelizar à força das armas a galáxia. A guerra é inevitável, as tensões muitas, mas tudo nos é contado através da saga de dois personagens, um agente inimigo da cultura, humanóide amoral de uma etnia especialista em manipulação do código genético que é capaz de modificar a sua aparência para assumir qualquer identidade, e uma agente secreta da Cultura, carregada com o arsenal nanotecnológico inteligente de uma civilização altamente avançada. A missão é a de capturar uma inteligência artificial de uma nave de combate destruída no espaço, que se refugia num planeta com vestígios preservados de uma extinta civilização militarista, preservado por uma outra poderosa e incógnita espécie alienígena. O que se segue é aventura em space opera perfeita, com saltos interplanetários, piratas espaciais, vastas estações orbitais e muitas cenas de combate quer no espaço, quer envolvendo directamente os personagens.

É uma história que não se rende às expectativas do leitor, atrevendo-se sempre a trocar-lhe as voltas. Há um humor macabro, nalguns pontos escatológico (qual exactamente a origem daquela obsessão com comer e defecar que se repete em momentos chave do romance?), noutros de ironia fina. A construção do mundo ficcional é soberba, com os infodumps necessários para construir um vastíssimo panorama que, apesar da complexidade, não interfere com o ritmo rápido da componente de aventura do romance. A tensão entre o naturalismo e o tecnicismo sublinha toda a estrutura deste mundo ficcional, aqui simbolizada pela guerra entre uma civilização gerida por inteligências artificiais e outra cuja razão de ser é o ímpeto religioso absoluto.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Para Além do Infinito


Jimmy Guieu (1958). Para Além do Infinito. Lisboa: Editorial Organizações.

Está bem. São as armadilhas da FC clássica. Raramente são o que se espera. Nesta obra do escritor francês Jimmy Guieu ovnis de uma civilização avançada em vias de extinção vêm à Terra para... raptar mulheres férteis que lhes permitam voltar a prosperar. O resto é a típica estrutura da FC de série B. Algumas aventuras no espaço, passeios deslumbrantes por tecnologias alienígenas liminarmente descritas, e os intrépidos cientistas-heróis terrestres que salvam a donzela em apuros e livram a galáxia da ameaça dos raptores de fêmeas vindos do além-espaço. Talvez não o melhor exemplo da FC francesa dos anos 50, da colecção literária Anticipation da editora Fleuve Noir, antes o exemplo do normal na colecção. Livros que talvez tenham encantado jovens leitores na sua época, mas que envelhecem mal, sendo interessantes apenas dentro de um estrito sentido de conhecimento historicista pelos leitores que querem aprofundar o género.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Comics


 Hellboy in Hell #09: É um prazer visual, e uma boa estratégia para não desgastar um personagem. É também uma boa forma de olhar para trás e rever algumas das aventuras que a marcaram. Mas, essencialmente, é o prazer do traço de Mike Mignola.

Sheriff of Babylon #06: É uma das mais intrigantes ofertas da DC Vertigo, apesar de ser algo discreta. A história de um polícia que vai para Badgad no rescaldo da queda de Saddam para ajudar a treinar as novas forças policiais iraquianas, nos primeiros tempos da ocupação americana, que se vê mergulhado na espiral de violência que está a destroçar o país. Um retrato do optimismo que se afunda nos desertos do médio oriente.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Zorgan, Império Cósmico



John Rackham (1967). Zorgan, Império Cósmico. São Paulo: Bruguera.

O tranquilo mundo de Scarta vive numa bucólica prosperidade, na sua dispersa sociedade agrária apoiada em alta tecnologia. Até ao momento que uma pequena expedição militar do poderoso império Zorgan os tenta invadir. Conseguem sair vitoriosos, mas os inimigos capturados irão introduzir sérias mudanças no modo de vida nativo. Sobre eles pende a ameaça de uma força invasora mais poderosa, e os soldados capturados ajudá-los-ão a afinar a tecnologia e as tácticas militares. Quando o momento decisivo chega, finalmente, os segredos são revelados. Afinal os invasores humanos eram emissários da Terra, força expedicionária da poderosa frota da União Solar que usou o subterfúgio da invasão para convencer a plácida sociedade alienígena a ganhar garras e a desenvolver métodos de potente defesa, para enfrentar a verdadeira ameaça dos seres saúrios do implacável império cósmico dos Zorgan.

Típica obra da FC de ler e deitar fora dos anos 60, representa uma vertente comercial do género que capitaliza as aventuras no espaço, visões de futuro estelar e o exotismo alienígena em romances divertidos, mas inconsequentes. Exemplo da mediania da FC comercial, legível fora da sua conteporaneidade apenas como obra exemplificativa dessa vertente da FC clássica. O nome do autor é um dos pseudónimos do escritor britânico John Phillifent, típico escritor a metro da golden age. Estes livros lêem-se, mas depressa se esquecem. Divertem e entretém durante as poucas horas de leitura, sendo exemplos típicos daquela FC clássica que não foi construída como especulação futurista e não envelhece bem.

terça-feira, 3 de maio de 2016

O Declínio de Marte



Alexei Tolstoi (1961). O Declínio de Marte. Lisboa: Ulisseia.

O levar da revolução proletária aos oprimidos marcianos será tarefa que recairá nos ombros inesperados de dois aventureiros. Um, Gussev, homem terra-à-terra, antigo combatente do exército vermelho, junta-se ao mais alheado e determinado engenheiro Loss, inventor de um método de propulsão que permitirá sulcar o golfo interplanetário em horas. Ao descolarem de Leninegrado, não imaginam o que irão encontrar na superfície marciana. Marte revela-se o lar desolado de uma civilização destruidora, que mantém o seu oásis de prosperidade num planeta devastado por guerras, e cuja superioridade assenta na força de trabalho de trabalhadores oprimidos que servem uma casta tecnocrática superior. A chegada dos homens da Terra irá desequilibrar uma civilização sob tensão, provocando revoltas que poderiam levar ao estender da revolução vermelha para os astros, mas falha sob o poderio militar da casta dominante.

O povo marciano oculta ainda outro intrigante segredo. É descendente de terrestres, refugiados da Atlântida que fugiram para o espaço aquando da queda da sua civilização. Uma história aqui revista sob pressupostos de materialismo dialético, com os atlantes retratados como herdeiros sangrentos de civilizações antecedentes, exterminados por forças bárbaras vindas do oriente. Uma vez chegados a Marte, os sobreviventes ocupam-se a submeter os povos autóctones, bem como a usar a sua ciência e tecnologia para construir a famosa rede de canais marcianos. Como os atlantes não trouxeram mulheres consigo, têm de encontrar um acordo com os nativos, miscigenando-se e dando origem aos marcianos humanóides que os dois intrépidos soviéticos irão descobrir. Não resisto: espalhar a revolução pelas estrelas é muito bom e bonito, mas há que temer os bárbaros não caucasianos que, sedentos de sangue, aguardam a oportunidade de violar e pilhar.

Ficamos a conhecer o mundo marciano através das palavras de Aelita, não uma princesa marciana ao estilo de Burroughs, mas a filha do tecnocrata mais poderoso do planeta, uma mulher etérea, preocupada com as suas visões e premonições, que acabará por se apaixonar pelo engenheiro criador da nave espacial.

Aelita assegurou o lugar na história como um dos primeiros, e influentes, filmes soviéticos de Ficção Científica, apesar de se desviar muito da base literária original. É notável pela sua estética, onde o construtivismo russo se cruza com o futurismo. O romance de Alexei Tolstoi, parente distante desse outro Tolstoi, funciona entre o romance de aventuras no espaço, com toques de especulação científica, e de proto-utopismo soviético nas estrelas, como história de intrépidos revolucionários que, neste caso por acidente, mas noutros romances como destino civilizacional, espalham a revolução proletária nos solos extra-terrestres. Algo que é todo um género dentro da FC russa dos tempos soviéticos, bem visto e aceite pelas estruturas de controle cultural pela forma como funcionavam como propaganda da superioridade do sistema soviético, e do seu destino revolucionário de libertação dos oprimidos.

A tradução é de Mário Henriques Leiria e a data de edição portuguesa, em 1961, surpreende. Como é que os senhores do lápis azul deixaram escapar uma tão óbvia obra cheia de traços de propaganda ao que o Estado Novo via como o seu pior inimigo? Talvez pela mesma razão com que muitos autores soviéticos conseguiram escapar aos espartilhos culturais do regime: é ficção científica, não era coisa para se levar a sério. Desta edição portuguesa destaca-se também a fantástica capa, um mimo do design da época.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Comics


 Batman #51: Com as devidas vénias a Frank Miller, cuja revisão do cavaleiro negro influenciou muito esta época de Scott Snyder e Greg Capullo aos comandos do título mais relevante da DC. É uma história calma, um parágrafo final após as aventuras tumultuosas que esta dupla infligiu ao personagem. Parece que é a despedida da equipe de argumentista e ilustrador, e ficará registada com uma das mais curiosas histórias do personagem nos últimos tempos.

Injection #09: É um dos meus prazeres culposos, admito. Fico sempre fascinado com a forma como Warren Ellis consegue tornar as atitudes de profundo autismo empático interessantes. E, claro, aquele pulso único da modernidade, de cyberpunk que conseguiu manter-se relevante nestes tempos em que os voos imaginários mais arrojados deste estilo se tornaram a banalidade normal de um dia a dia cuja realidade é um misto de carne tangível e imaterial digital.

sábado, 30 de abril de 2016

Fio do horizonte.




Que mania, esta. Desponta o sol e começo logo a perseguir os fios do horizonte, em tons de azul. Pelo Baleal, Santa Cruz e Nazaré. A geografia pesa e a costa oeste é a que está mais à mão de semear.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Sombre Est L'Espace


Jacques Hoven (1973). Sombre Est L'Espace. Paris: Fleuve Noir.

Um pouco de especulação pulp vinda da colecção clássica da FC francesa. Este espaço sombrio desenrola-se como uma cobra que irá morder a sua cauda. Num daqueles futuros cheios de foguetões que aterram em qualquer lado, patrulhas espaciais e intrépidos viajantes pelas vias estelares, uma nave tripulada por aventureiros é alugada para um serviço muito especial. Desbravar as fronteiras do sistema de Sirius, zona perigosa, cheia de anomalias espácio-temporais que induzem estados de surrealidade, a pedido de um grupo de arqueólogos que, nos Andes, descobriu um misterioso artefacto que aponta para a origem alienígena das culturas humanas.

Perto das ruínas de Tiahuanaco, numa escavação de um vulcão adormecido, é encontrada uma nave espacial soterrada há milénios, com os vestígios de um tripulante humanóide e mapas estelares que indicam que terá partido da constelação Sirius. As lendas de gigantes vindos do espaço que construíram as misteriosas edificações megalíticas parecem ganhar um novo alento. Mas Sirius revela-se um sistema cheio de planetas inóspitos, com o mais promissor habitado por formas de vida vegetais que têm o hábito pouco simpático de converter outras formas de vida em vegetação alienígena. Apanhados numa tempestade nos espaços, os aventureiros mergulham num hiperespaço sem rumo aparente que os leva a um planeta desconhecido. Perdidos, com a nave avariada e incapaz de regressar ao espaço, vão utilizando a tecnologia para tornar mais confortável a zona desértica onde aterraram, inspirando-se na arquitectura pré-colombiana para construir abrigos em pedra cortada com potentes lasers, que deixam estarrecidos os nativos humanóides do planeta desconhecido. Quando uma explosão vulcânica soterra a nave espacial, os aventureiros apercebem-se que regressaram à Terra num passado longínquo, são eles a origem das lendas sobre gigantes vindos do espaço que ajudaram a civilizar a humanidade primitiva, e a própria nave e os seus mapas os artefactos que os lançaram na missão a Sirius, em busca de resposta aos enigmas.

Leitura divertida, que se entretém a colidir as hipóteses dos supostos traços de astronautas alienígenas nas culturas pré-colombianas com a vertente de narrativas de viagem no tempo em que os efeitos precedem e provocam as causas. Não se distingue pelo lado especulativo, com uma visão clássica de naves movidas a motor de foguetão que saltam por hiperespaços, alimentadas por cristais miraculosos que resolvem problemas de energia. Mas o seu objectivo não é ser Hard SF, antes FC pulp de entretenimento, com a construção narrativa a sobrepor-se à qualidade especulativa.

terça-feira, 26 de abril de 2016

O Embaixador das Sombras

 
Pierre Christin, Jean-Claude Meziéres (1993). O Embaixador das Sombras. Lisboa: Meribérica/Liber.

Esperemos que Luc Besson saiba fazer justiça à obra de Christin e Meziéres. Mais do que as histórias em si, e a dupla do encantador mas algo desajeitado herói e a sua bela e capaz companheira, a verdadeira heroína da série, o que encanta é o abrangente sentido de space opera deste clássico da banda desenhada francesa. Algo muito em evidência nesta aventura onde a dupla de agentes se vê envolvida num travão cósmico às pretensões da Terra em dominar o nexo galáctico, ponto de encontro das múltiplas espécies, que é o Ponto Central. Gigante estação orbital, aglutinando os mais estranhos habitats, fixada pelo traço de Meziéres num delírio da mais exótica ficção científica. O misto de aventura e surrealidade da FC francesa, explorada em ilustrações apaixonantes, é uma das raras estéticas da Ficção Científica que envelheceu bem, mantendo-se interessante.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Comics


Dept. H #01: Depois de Mind MGMT, Matt Kindt regressa aos comics com assassínio misterioso nas profundezas do oceano.  É uma boa oportunidade para este autor se divertir com aventuras de mistério e FC num futuro próximo. Esperemos que ao contrário da anterior, esta nova série não estique conceitos interessantes até à irrelevância.


Joyride #01: O tom de ficção científica clássica assenta bem nesta história que pega nas premissas da ficção young adult. Temos distopias, sociedades futuristas opressivas, e jovens corajosos dispostos a arriscar tudo para conquistar a sua liberdade. É a clássica metáfora do crescimento e desenvolvimento pessoal, aqui transmutada para as aventuras no espaço.


Karnak #03: Karnak... não é boa pessoa. Inumano e desumano, leva a lógica e o estoicismo para lá de todos os limites. Warren Ellis trabalha muito bem este lado amoral de um personagem que está numa zona cinzenta da linha que separa o herói do vilão.

sábado, 23 de abril de 2016

Poderia ter sido.



Afurada sob chuva e um sol que despontava num entardecer portuense. Não foi tudo no mesmo dia, mas poderia ter sido.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

aCalopsia: Dias da Meia-Noite


 Neil Gaiman et al (2013). Dias da Meia-Noite. São Paulo: Panini Books.

Esta edição de luxo da Panini Books é uma boa adição às estantes de leitores que sejam fãs do trabalho de Neil Gaiman nos diferentes media, bem como aos conhecedores do trabalho inovador para a época de edição da Vertigo. Ler as traduções para o vernacular brasileiro tem o seu quê de doloroso, mas é o preço a pagar para ter esta obra em português. Recensão completa no aCalopsia: Dias da Meia Noite.

Albion: Origins


Tom Tully, et al (2007). Albion: Origins. Londres: Titan Books.


Um aventureiro protegido pelo poder místico de uma antiga jóia pré-colombiana, em cujas aventuras se sucedem riscos mirabolantes para a vida e integridade física. Um génio da mecânica, que constrói marionetes com capacidades especiais e lhes dá voz como ventríloquo, ao serviço de uma agência de combate ao crime e espionagem. Um prestidigitador vitoriano, com a capacidade de esticar os seus ossos para lá dos limites ínfimos, que utiliza os seus poderes ao serviço de um ideal de justiça que nem sempre está do lado correcto da lei. E um poderoso ocultista, que com a sua biblioteca é o defensor do real contra as piores ameaças sobrenaturais.

Kelly's Eye, Dollman, Janus Stark e Cursitor Doom foram personagens clássicos da banda desenhada juvenil inglesa dos anos 60 e 70. Com uma breve ressurreição por Alan e Leah Moore em Albion, ou nalguns momentos mais nostálgicos de edições especiais da 2000AD, são aqui recuperados nas suas histórias originais. Com argumentos simplistas, mostram-nos personagens que hoje nos parecem bizarros. As aventuras exóticas de Kelly's Eye têm o seu quê de fardo do homem branco, Cursitor Doom é demasiado parecido com Aleister Crowley para ser coincidência, as imagens de um Janus a espremer-se nas fendas mais apertadas algo de muito creepy. Já todo o conceito de um génio da tecnologia que combate o crime com bonecos animados e lhes dá voz como ventríloquo merecia toda uma tese sobre distúrbios psicológicos. Como é habitual neste género de recuperações, são personagens cujas aventuras não envelheceram bem, mas este misto de bizarria e aventura garante-lhes um lugar na história da banda desenhada.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Livros a Oeste 2016


O Livros a Oeste é um daqueles festivais literários que vale a pena ir, quer pelo bom gosto do João Morales quer pela coragem de organizar um evento destes numa  localidade como a Lourinhã, afastada dos eixos urbanos principais e sem as características turísticas de uma Óbidos ou de Chaves. Aposto que nem se lembram que para além de pegadas de dinossauros, podem visitar o centro de interpretação da Batalha do Vimeiro e ficar a conhecer melhor a história das guerras peninsulares.

Como é habitual, integra tertúlias literárias e aposta junto de alunos das escolas locais para dinamizar o despertar do gosto pela leitura. É verdade que que eu saiba, não há livrarias na Lourinhã, mas pelo menos todos os anos têm no festival uma feira do livro. Sempre escusam de ir à União e a Bertrand, em Torres Vedras, para satisfazer o bichinho dos livros.



Gostaria de dar lá um pulinho, mas estarei a evangelizar sobre impressão 3D em parceria com impressores estónios num encontro de eTwinners um pouco, aliás, muito mais a norte nesses dias. Fica aqui o programa, e consultem o site do Livros a Oeste 2016 para mais informações.

(Nota de interesses: é uma honra para mim conhecer pessoalmente e ter trabalhado com esse furacão, imparável e cheio de ideias, que é o João Morales.)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Transgalactic: A Novel


James Gunn (2016). Transgalactic: A Novel. Nova Iorque: TOR.

É uma daquelas marcas de contemporaneidade, diria. Uma space opera passada no futuro profundo a meter-se com o muito cyberpunk tema das inteligências artificiais. Foi um rumo inesperado para a segunda parte de uma história que se iniciou com o classicismo de Transcendental.

O primeiro volume da nova série deste veterano da Ficção Científica distinguiu-se pela profundidade com que explorou o seu intrigante mundo ficcional. Utilizando o artifício Chaucer in Space, levou-nos aos vários mundos imaginados numa federação galáctica tolhida pela burocracia, através das histórias de vários peregrinos em busca de transcendência nos ermos entre os braços da galáxia. Uma transcendência bem real, alicerçada em artefactos deixados para trás por uma desconhecida e aparentemente extinta civilização avançada. Desaparecida, mas deixando como rasto os portões no espaço tempo que permitiram às civilizações que alcançaram as estrelas transpor as distâncias cósmicas. E deixou algo mais, um artefacto mítico, num planeta perdido, capaz de conferir transcendência a quem o utilizar. Tecno-mitos, tecno-religiões, périplos e as intricacias de uma sociedade interestelar que não vê os humanos com bons olhos, considerando-os demasiado disruptivos da estabilidade social, foram os ingredientes do primeiro livro do que suspeito vir a ser uma trilogia.

O segundo segue um outro caminho. Dois amantes, transcendidos, descobrem-se sós em planetas estranhos. Existe, de facto, uma máquina de transcendência, mas os esoterismos decaem quando nos é revelado que se trata de um teleportador, um engenho que destrói o utilizador na origem e o reconstitui no destino, eliminando imperfeições no processo de cópia. O livro segue o caminho pouco interessante do périplo de dois amantes separados que atravessam a galáxia para se reencontrar, apesar dos episódios da viagem terem a sua piada.

No entanto, há um ponto inesperado de interesse neste livro. Há medida que mergulhamos na viagem dos amantes, cada qual vindo do seu recanto, apercebemo-nos de algo transversal à história, um elemento conspiratório que define o mundo ficcional dos romances. Algo que tem tudo a ver com inteligência artificial, com os medos que a especulação sobre o seu potencial desperta. A estabilidade civilizacional, no livro, é atingida através da inteligência artificial e automação, que libertam os habitantes das sociedades planetárias no que de facto é um futuro pós-escassez. Planetas e civilizações são geridas por IAs interconectadas com uma entidade central, no centro de um governo que se intitula galáctico mas mal controla um dos braços mais pequenos da via láctea. Um governo fossilizado na burocracia, que obedece a um único ditame: estabilidade acima de tudo, a qualquer preço, mesmo que implique guerras ou extermínio de civilizações tidas como ameaçadoras à ordem estabelecida.

O que é que leva civilizações inteiras a refrear os seus impulsos naturais, quaisquer que eles sejam (e Gunn salienta bem o carácter alienígena da maior parte desses impulsos), em busca de uma inércia consensual? A resposta está na sentiência das Inteligências Artificiais que controlam os mais ínfimos detalhes da vida dos habitantes planetários, assegurando-lhes segurança e conforto. Entidades que, tendo sido programadas para assegurar o bem estar dos seres que tutelam, continuam a seguir esta programação à risca. Tão à risca que visam eliminar qualquer elemento que entendem como ameaça à ideia de uma estabilidade pura, segura, confortável. Algo, por exemplo, como a promessa transcendentalista deixada por artefactos de uma civilização esquecida.

James Gunn segue o caminho da FC tradicional, colocando a tónica num humanismo progressista assente na ciência, tecnologia e necessidade absoluta de explorar além das fronteiras do desconhecido. Forças vistas como estabilizadoras, consensuais, procuras de equilíbrio são consideradas danosas num panorama geral de progresso. É a herança directa do optimismo de Clarke ou do progressismo a qualquer custo de Asimov, actualizada com o ideário das sociedades pós-escassez e especulações sobre a natureza do ser em inteligências artificiais.