terça-feira, 19 de novembro de 2019

Trillium


Jeff Lemire (2014). Trillium. Nova Iorque: DC Comics.

Trillium é um objeto estranho, entre os comics e a ficção científica. Jeff Lemire escreve e ilustra uma história onde passado e futuro colidem e se influenciam, sob o espetro da extinção total da humanidade.

Estamos no futuro, e numa colónia de investigação remota uma cientista tenta aproximar-se de uma espécie alienígena que poderá deter a chave para a sobrevivência da humanidade. Pouco se sabe sobre eles, apenas que vivem numa aldeia que rodeia um enorme templo de aspeto maia, e em cujo território floresce uma planta com propriedades curativas. Serão estas as que poderão salvar a humanidade, sob ataque de um mortífero vírus consciente que a está a exterminar metodicamente. A colónia de investigação está a tornar-se o último reduto da humanidade. A cientista é acolhida pelos alienígenas, e levada ao interior do templo, onde descobre que as fronteiras do tempo são fluídas.

Estamos no passado, e um antigo soldado traumatizado pelas experiências nas trincheiras da I guerra acompanha o irmão numa expedição à selva amazónica. São atacados por uma tribo aguerrida, e ao fugir, depara-se com um templo no meio da selva, de onde sai uma mulher vestida com um fato de astronauta. Ele próprio irá ser empurrado para dentro do templo, e descobrir-se à num futuro que não existe, enquanto a cientista mergulha num passado que nunca existiu. As histórias entrelaçam-se, entre forças que desconhecem o verdadeiro potencial dos templos, flores e alienígenas, e a iminente extinção da humanidade. O segredo cósmico guardado pelos templos pode, realmente, ser a chave para a salvação.

Lemire mergulha fundo na ficção científica em Trillium. Viagens no tempo, segredos cósmicos, futuro no espaço, passado steampunk. Consegue misturar estas estéticas numa história eficaz, que gira à volta da relação improvável entre um homem do passado e uma mulher do futuro, que irá terminar na possibilidade de salvação da espécie humana. Lemire complementa o seu estilo gráfico com um forte experimentalismo narrativo. A história é feita de duas narrativas paralelas que se entrelaçam, e Lemire atreve-se a explorar isso no lado visual, com justaposições e inversões. Há todo um capítulo que se lê duas vezes, primeiro no sentido tradicional, e depois no inverso, em que as duas histórias decorrem em paralelo com imagens-espelho na prancha. E isto também é ficção científica, um género que não se limita a imaginar e especular sobre futuros, mas também a experimentar novos estilos e formas narrativas.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Almanaque Steampunk 2019


(2019). Almanaque Steampunk 2019. Barcarena: Editorial Divergência.

Dizem que o Steampunk está morto enquanto movimento. Pessoalmente, não concordo. Não tem o fulgor que tinha há alguns anos atrás, quando quase se tornou mainstream, mas é isso que agora o transforma num movimento. Agora longe das luzes da ribalta, é praticado pelos seus fãs mais dedicados. O Steampunk esteve em risco de se esvaziar como mero exercício de estilo estético. É mantido vivo por quem realmente acredita nele, e é isso que lhe confere interesse.

Quantas edições já tem o Almanaque Steampunk? Já algumas. Tornou-se um ritual anual, a sua edição a tempo do Fórum Fantástico. E continua, mostrando que é um projeto com raízes e continuidade. Suspeito que dentro de um ano estarei a ler o Almanaque 2020.

O Almanaque mantém-se fiel ao seu espírito meta-ficcional, com a sua estrutura que replica os antigos almanaques. A criatividade dos criadores participantes continua a explorar formas algo diversas do habitual na ficção fantástica. Supostas notícias, efemérides de fantasia, anúncios a vapor e até um horóscopo fazem esta edição, como sempre o fizeram. Se bem que este ano notei um reforço da ficção. Teria de me levantar da secretária para ir pegar nas edições anteriores, e isso francamente não me apetece. Mas suspeito que esta edição tenha mais contos do que o habitual nas anteriores.

Destes, destaco a poética revisão com engrenagens do mito de Perséfone de Um Coração Mecânico por Leonor Ferrão. Outra boa surpresa foi o steam brasileiro de Conexão Uruguaiana, por Nuno Vieira. Mas o meu grande destaque de leitura vai para o genial e de humor corrosivo A Segunda Lei, de João Ventura, que se atreve a imaginar políticos vitorianos cujo conservadorismo é ofendido pela segunda lei da termodinâmica, e tentam legislar a sua inexistência. Soa algo parecido ao crescer do espírito anti-científico nos dias de hoje, não soa? Mas ao contrário do crescente interesse em homeotretas e outras patacoadas do género, o conto de Ventura tem um final feliz.

Como sempre, o Almanaque é uma mistura homogénea de ficção e ilustração, um trabalho de amor por fãs que interpretam o Steampunk como algo mais que uma estética de adereços. Cá os espero para o ano, com o Almanaque 2020.

domingo, 17 de novembro de 2019

URL

Ficção Científica

The Comic That Explains Where Joker Went Wrong: Confesso que me considero conhecedor acima da média do mundo dos comics, mas não sabia que Alan Moore tinha acabado por rejeitar o trabalho que fez com Brian Bolland em Killing Joke, uma das histórias seminais de Joker e também uma das bases do recente filme homónimo. Onde Bolland é creditado, mas não Moore, que abomina as adaptações para cinema do seu trabalho (onde realmente não tem tido muita sorte, só Watchmen é um filme minimamente fiel à obra original - V for Vendetta está cheio de calinadas, e de The League of Extraordinary Gentleman é melhor nem falar, por ser tão mau). O que marcou este comic foi a transformação do palhaço sociopata numa personagem com profundidade emocional, explicando o porquê de Joker ser como é. Se bem que o que ficou dessa leitura foi o seu final, onde depois de uma história violenta, Batman se ri de uma piada de Joker, mostrando aquilo que todos sabemos, estes inimigos são inseparáveis.


Alfred Kelsner: Definitivamente, um ovni impressionante.

Sweet Wind 03: Mais uma leitura da nova banda desenhada portuguesa, um webcomic editado pela Gorila Sentado (sim, é mesmo um nome de editora, e porque não?).



Special Effects Demo Reel for Star Trek The Motion Picture: O que se fazia com matte painting, miniaturas e iluminação.

"Why so serious?" - Las películas de DC, ordenadas de más a menos serias: O universo cinematográfico da DC distingue-se do da Marvel pela opção pelo Grimdark. Os filmes da DC são sempre trágicos, tenebrosos, com paletas de cor saturadas e escuras. Mesmo quando usam personagens, como Superman, em que isso não funciona de todo. Este tom trágico não lhes rendeu um sucesso equivalente ao da Marvel. O mais recente Joker leva o grimdark a trevas ainda mais profundas. E fica no ar a questão: porquê tanta seriedade? Especialmente quando se sabe que é algo que assenta como uma luva em Batman, de raiz um personagem negro, mas não aos seus restantes personagens?

The Trailer for the Fourth Season of The Expanse Asks Hard Questions About Space Colonization: A próxima temporada de The Expanse vai seguir o livro que menos gostei da série, porque se focou numa aventura num novo planeta a ser colonizado e deixou de parte todo o fantástico enredo das facções da humanidade no espaço. No entanto, esta série é sempre boa.

What Ever Happened to Steampunk?: Anunciar a morte do Steampunk talvez seja prematuro. Continua a haver criadores e fãs deste sub género de estética marcante. O que é claro é que a onda Steampunk como cultura popular já se extinguiu. Como é natural. Em parte, por ser um movimento essencialmente estético, apesar de nos ter legado alguns livros marcantes. A estética sobrevive, praticada por comunidades de fãs - por cá, a Liga Steampunk mantém aceso o estilo steam, e a edição anual do Almanaque Steampunk é um desafio contínuo aos escritores para se inspirarem num passado futurista que nunca aconteceu.

Martin Scorsese arremete contra Marvel: "eso no es cine. Son como un parque de diversiones": Sim, e depois? O debate não é novo, é a velha dicotomia entre arte erudita e popular. Claro que um filme profundo de autor não se equipara a um filme pop comercial, mas a questão aqui é que para quem vê, tanto se pode apreciar um como o outro. Sem pretensões, um filme pop são 90 minutos de entretenimento, enquanto a obra de autor perdura e pode modificar a forma como pensamos. Isto é como as dietas. Querem-se diversas, não monótonas.


Jodorowsky's Dune (2014) - HD Trailer: O mundo dos fãs de ficção científica tem algumas cisões profundas. Há o Star Trek Vs. Star Wars. E há os que admiram profundamente a adaptação cinematográfica de Dune por David Lynch, e os que a odeiam por a considerarem demasiado afastada da visão da série de livros (e, de facto, Lynch levou a sensibilidade de Dune a níveis que Frank Herbert nunca seria capaz de chegar) (já perceberam de que lado desta barricada estou, não perceberam?). Suspeito que estes segundos iriam odiar ainda mais se o filme tivesse sido feito como originalmente planeado, com um argmento insano do mexicano Alejandro Jodorowsky (se nunca viram Santa Sangre, a vossa cinefilia é deficitária), e contribuições visuais de Chris Foss, H.R. Giger e Moebius, entre outros. Por muito bizarro que o Dune de Lych nos pareça, é uma pálida visão do que poderia ser nas mãos de Jodorowsky, que graças ao forte conservadorismo estético de boa parte do fandom de ficção científica, teria ganho o estatuto de realizador mais odiado por muitos e amado por poucos, campo que hoje é ocupado ex-aequo por Lynch graças a Dune e Kubrick, cujo 2001 foi odiado por Clarke, autor do conto em que se baseia o filme, e do livro que foi escrito em simultâneo.

Apocryphus – Sci-Fi: Desde a apresentação da primeira edição deste magnífico projeto de banda desenhada portuguesa que vou perguntando ao autor um "e para quando uma edição dedicada à ficção científica?". Este foi o ano. Das Apocryphus, podemos sempre esperar um trabalho narrativo e gráfico por parte de talentosos autores portugueses. Lançado no Fórum Fantástico, já está na minha lista de leituras.


Dune sand worms. Art by John Schoenherr x 2, John Berkey, HR Giger: Shai-hulud, disseram?

Lançamento: Batman - O regresso do Cavaleiro das Trevas: Uma verdadeira prenda para os leitores portugueses de banda desenhada. Este é uma das mais importantes histórias de Batman, das melhores obras escritas e ilustradas por Frank Miller.

Sometimes Bruce Wayne, Sometimes Batman. Alltimes Orphan: Há uns tempos atrás, foi criado um bot literário treinado com mil horas de filmes de Batman. Os resultados foram, como já é habitual nestas coisas da inteligência artificial, completamente surreais. Agora, foram adaptados a banda desenhada.

Comic Book Cartography: O local ideal para nos perdermos nas geografias fantásticas dos mundos imaginários dos comics.

Tecnologia


Our future with robots: Sim, eles estão entre nós. Não há fuga possível.

The Martian Bases Of The Future May Be 3D Printed From Regolith And Ice: Conceitos para futuros habitats marcianos, usando materiais locais e impressão 3D para construir abrigos para os exploradores humanos no planeta vermelho.

Hong Kong bans makeup and masks so facial recognition cameras can identify protesters: Não prestamos atenção devida ao que se está a passar em Hong Kong, varrida por uma onda de protestos contra o governo chinês que dura há semanas. Um momento notável por diversas razões. Pelo constrangimento do governo chinês, que noutras cidades não hesitaria a esmagar os protestos com tanques, mas aqui não o faz; pela impassibilidade do protesto, porque Beijing nunca irá ceder à vontade democrática dos chineses de Hong Kong, se o fizer, corre o risco de contaminação à escala de todo o país; e, do ponto de vista tecnológico, por ser um conflito entre cidadãos e um regime conhecido pelo uso que faz das tecnologias de hipervigilância. Os protestantes usam máscara porque sabem que a combinação de câmaras com inteligência artificial na China é tão pervasiva, que não há fuga possível ao seu reconhecimento facial se não tomarem medidas de camuflagem urbana.

Ictíneo II: el primer submarino con motor a vapor fue español y salió del puerto de Barcelona: Uma história perdida da história da ciência e tecnologia, um submarino a vapor construido em Espanha que precedeu em décadas o desenvolvimento destas tecnologias.

China car startup dodges Trump tariffs with AI and 3D printing: A história no imediato é sobre como se torneiam sanções económicas com recurso à tecnologia. Mas a verdadeira história é o do potencial da fabricação digital para quebrar as cadeias de comércio global. Afinal, esta empresa chinesa de automóveis não precisa de navios para exportar os seus produtos. Envia para fábricas noutros países os ficheiros 3D, que serão impressos localmente.


NASA art by Rick Guidice, Martin Hoffman, John Solie, and Ren Wicks: Cenas old school.

How Libraries Are Bridging the Digital Divide: Promoção da literacia, hoje, já não se resume à leitura. Há o enorme campo da literacia digital, e as bibliotecas têm sabido adaptar-se e fornecer acesso aos seus utentes a vertentes aparentemente distantes da biblioteca clássica como fabricação digital e serviços digitais.

College Students Just Want Normal Libraries: Por outro lado, complementando e não contrariando o artigo anterior, o verdadeiro foco das bibliotecas é o acesso à informação. Se a adoção de novas literacias, espaços maker, fabricação digital, se tornam o centro do espaço bibliotecário, talvez quem alinhe nestas modas não perceba o que é que é verdadeiramente importante numa biblioteca.

Astronauts bioprint beef in space for the first time: Espaço, a próxima fronteira do hamburguer. Piadas à parte, esta experiência de impressão 3D de comida é interessante. Desenvolveu metodologias de impressão de biomaterial em gravidade zero, e mostra um caminho para alargar a dieta de astronautas em missões de longa duração. E, hey, spaceburguer dá um excelente meme.

The biggest threat of deepfakes isn’t the deepfakes themselves: Na verdade, apesar do perigo potencial dos deepfakes, para criar propaganda enviesada no mundo digital bastam simples imagens e frases que apelam aos preconceitos. O real problema dos deepfakes está na perda de confiança na imagem digital. Em suma, não conseguimos garantir que o que vemos no ecrã é real ou artificial. Basta a semente da dúvida para minar a confiança.

Computer historians crack passwords of Unix's early pioneers: Ah, aqueles velhos tempos em que usar o nome como palavra passe ainda não era um convite a ser hackeado. É talvez o que faz sorrir nesta história, o ver quão prosaicas são as palavras-passe destes pais do mundo da computação.

The Overlooked Benefits of Teaching Kids to Code: O artigo pode ser resumido a duas palavras, pensamento computacional. Ensinar as crianças a programar não é treiná-las em linguagens de programação, mas sim levá-las a apropriar-se da tecnologia, desenvolvendo competências avançadas de resolução de problemas e colaboração, entre outras. Claro, isto depende da forma como se usa a aprendizagem de programação com as crianças.

Un padre descarga e imprime en 3D un Lamborghini para su hijo que es fan de 'Forza': la broma de 'The IT Crowd' se vuelve realidad: Bem, a tecnologia é assim, afinal dá para fazer download de um carro. Diga-se em abono da verdade que é preciso ter grandes e boas impressoras, capacidade mecânica, chassis e motores de carros (qualquer chaço velho dá).

In The Skies Of Eastern Oregon, An Autonomous Robo Taxi Takes Flight: Os drones de transporte autónomos da Airbus estão mais próximos de chegar ao grande público.

Life with the Samsung Galaxy Fold: Uma análise profunda ao uso do telefone dobrável, um equipamento que sublinha a nossa necessidade de mobilidade, mas também de ecrãs de razoáveis dimensões para expandir o uso de dispositivos móveis.

Modernidade


We Are the Mutants: Las Vegas em 1987? Não é destino que me atraia, mas acho que nem hoje é assim. Delícias do retrofuturismo.

Why Are Plastic Army Men Still from World War II?: Confessem lá, nunca souberam que precisavam de saber isto, e agora ficaram mais recheados de cultura inútil. Mas divertida. O porquê dos soldadinhos de plástico terem ar de II guerra tem a ver com moldes antigos, ressurgimento do brinquedo por nostalgia, e preguiça dos fabricantes em renovar um tipo de objeto tão banal.

The First Smartphone War: A batalha de Mosul marcou um ponto de viragem na documentação da guerra, onde todos, soldados, insurgentes, civis, tinham consigo telemóveis e usavam as suas câmaras. A guerra crua, um imenso documento fragmentado em milhões de imagens pessoais. É o culminar de uma tendência de registo cru do campo de batalha, com raízes nas assustadoras visões da guerra de Goya (a primeira vez na história que os retratos marciais mostraram a violência pura), e que se intensificou com a invenção da fotografia. Toda a guerra contra o estado islâmico teve na imagem um fortíssimo campo de batalha, entre a fotografia vernacular dos envolvidos, as imagens sangrentas da decapitação da vítimas dos terroristas, e a propaganda de enorme riqueza visual dos terroristas.

Time for a New Liberation?: Aviso a navegação, este ensaio é longo. Mas vale bem a pena ser lido. Mostra-nos os perigosos caminhos onde a europa de leste se anda a meter, no seu flirt com os populismos autocráticos (aka fascismo sem uniformes e braços erguidos) que está a varrer a zona. A Hungria é o caso mais notório, que é um país da UE sem democracia funcional, mas o retrocesso também é notório na Polónia e na República Checa. Algo que se explica, em parte, pelas feridas aberta durante a queda do império soviético e transição destes países de satélites da URSS para democracias com economia de mercado; e, em parte, pela sensação que apesar de todos os esforços levados a cabo pelos leste-europeus para se integrarem na Europa, ainda continuam a ser visto como os bárbaros a leste.

Lisboa e o livro: singularidades de uma relação: Sabemos que Lisboa é uma cidade sitiada pela economia do turismo, que está a gentrificar as zonas tradicionais, expulsando de lá os seus habitantes e negócios tradicionais - aquilo que lhes confere a essência que os visitantes apreciam, para abertura de alojamentos e negócios de caça-níqueis ao turista. Os impactos são profundos, medem-se na descaracterização de uma cidade que se transforma em parque temático. E no nicho das livrarias, o efeito é ainda mais absurdo. Enquanto se anunciam apostas na leitura e reconhecimento do papel das livrarias oficiais, estas fecham a torto e a direito, incapazes de suportar o peso súbito de rendas que aumentam sem controlo. Eu também recordo os tempos em que no Chiado e Baixa havia muito mais livrarias do que a Fnac e a Bertrand. Se o turismo é parte importante da nossa economia, e em minha opinião um direito legítimo, porque é uma forma de conhecer outras geografias, outras culturas, há que perguntar se este oportunismo selvático é mesmo o que queremos para a nossa cidade, e até para a sustentabilidade do turismo a médio e longo prazo. É que aos parques temáticos só se vai uma vez. As cidades de cultura vibrante convidam sempre ao regresso.

How to Read “Gilgamesh”: Primeira grande narrativa da história, protótipica dos action heros e grandes heróis, também uma história de horrores, liberdade e amizade. Um poema épico perdido durante milénios, redescoberto com o decifrar dos alfabetos mesopotamicos, mas que deixou traços nas mitologias dos povos que sucederam aos assírios e babilónios (por exemplo, o relato bíblico do grande dilúvio claramente teve a sua origem neste poema épico). Uma leitura imprescindível para se conhecer o património literário global.

The Exquisite Boredom of Spacewalking: É, talvez, o problema da exploração espacial, a banalidade e normalidade de algo que é em si excitante e fantástico.


Besides his outstanding role in space exploration, #Leonov was a talented artist, and first man to paint in space. May he rest in peace.: Não queria anotar aqui o falecimento do cosmonauta Alexei Leonov, mas descobrir que além de ir ao espaço, também foi pintor, torna irresistível a nota.

Free trade zones: a Pandora’s box for illicit money: É cada vez mais óbvio para todos que a economia das zonas francas é danosa para o sistema global. Entre a fuga legal a impostos que a incorporação nestas zonas permitem e a lavagem de dinheiro do crime, todos ficamos a perder.

Why You Never See Your Friends Anymore: O pormenor intrigante deste artigo, é descobrir uma experiência de reorganização soviética do calendário que abolia as pausas de fim de semana e distribuía a população em categorias, cada qual com o seu dia de pausa laboral. Não funcionou, pela forma como atropelou relações humanas, separou casais, e retirou tempo livre comum. No entanto, as nossas rotinas e ritmos acelerados do mundo contemporâneo estão a ter efeito similar ao desta malfadada experiência.

Lost chapter of world's first novel found in Japanese storeroom: É sempre fascinante quando estas descobertas surgem. Aprofunda aqueles textos verdadeiramente milenares que formam o substrato cultural global.

There's an Automation Crisis Underway Right Now, It's Just Mostly Invisible: Os impactos da automação no mundo laboral já se estão a fazer sentir, mas não da forma como seguem as previsões de robots que roubam empregos. Simplesmente, as empresas automatizam processos e sistemas de produção, e com isso ou levam à extinção de postos de trabalho, ou à não criação de novos postos.

A Ilusão do Powerpoint e a Oralidade vs. Escrita: O foco na apresentação esquece, a maior parte das vezes, que esta é uma ferramenta de apoio à comunicação oral. Não é a comunicação em si, nem serve para espelhar as palavras do comunicador. Até porque, sem o registo oral, sem o fio condutor, grande parte das apresentações nem fazem sentido.

sábado, 16 de novembro de 2019

Lost+Found









Um outono que começa a pesar. Entre o parque ecológico da Venda do Pinheiro, Hospital Beatriz Ângelo, lojas em modo christmaspocalipse, Foz do Arelho e Foz do Lizandro.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Revolutionary War


Andy Lanning, et al (2014). Revolutionary War. Nova Iorque: Marvel Comics.

Os heróis britânicos da Marvel regressam, para combater uma invasão de andróides orgânicos da Mys-Tech, uma organização secreta de elites que venderam a alma em troca de poder, que se julgava extinta. O interessante nesta aventura não é a história em si, é o reviver, fugaz, de personagens exclusivos da Marvel UK. Nos anos 80, esta chancela da house of ideas atreveu-se a criar conteúdo totalmente britânico, e o resultado foram o tipo de super-heróis que se poderia esperar do retorcido humor inglês. O afundamento do mercado dos comics numa recessão pôs fim a essa experiência, embora alguns dos personagens tenham passado a fazer parte do alinhamento Marvel em títulos ligados aos X-Men. Estes heróis são bizarros, e há uma certa aragem anos 80 de coca misturada com london ale nesta história.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

House of Penance


Peter Tomasi, Ian Bertram, Dave Stewart (2017). House of Penance. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Visualmente deslumbrante, este House of Penance é uma variação da mítica casa Winchester. A mansão erguida pela viúva do dono da fábrica de armas, para combater a maldição que julgava ter caído sobre a sua família, motivada pelo ódio de todos os espíritos inquietos que foram mortas por armas saídas da sua fábrica. Este livro mergulha-nos dentro desse mito , levando-nos à casa de arquitetura bizarra, onde portas se abrem para o espaço e escadas não vão dar a lado nenhum, onde a regra é que o barulho dos martelos nunca cesse. A chegada de um assassino a soldo, que percebe logo qual o espírito da casa e o aceita, como redenção para as mortes que causou, irá catalisar o luto da viúva. O lado visual é impressionante, o narrativo nem por isso, mas sou suspeito. Creio que a melhor história sobre esta casa foi contada por Alan Moore na sua seminal temporada em Swamp Thing.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

As Sombras de Lázaro


Pedro Martins (2019). As Sombras de Lázaro. Vagos: Editorial Divergência.

É com muita justiça que este livro ganhou o prémio António de Macedo para literatura de terror. O romance está muito bem conseguido, com uma ambiguidade entre o psicopatológico e o sobrenatural, e é capaz de invocar terror que vai das sensações mais subtis ao gore escatológico. Uma obra que surpreende, uma história que conduz o leitor por caminhos com voltas sempre inesperadas.

Talvez esta seja uma história sobre um breakdown psicológico com consequências fatais. Ou talvez seja um sobrenatural justiceiro que intervém para castigar os crimes de um homem, punindo-o com a eliminação daqueles que mais ama com extremo prejuízo. Esta dicotomia percorre toda a narrativa que, se nos é apresentada como uma intervenção de criaturas sobrenaturais violentas na sua visão de justiça, está escrita de forma a nunca descartar por completo a possibilidade de todo o horror não passar de alucinações numa mente enlouquecida.

Mergulhamos numa casa senhorial no interior, habitada pelo último descendente da gente de bem local, que após a morte do pai regressa à terra natal com a sua família. Este descendente sempre quis distância da sua herança, graças aos traumas de uma infância passada com um pai alcoólico e amante da disciplina violenta. Mas com o falecimento deste, resigna-se a regressar à velha casa, onde passa os seus dias de volta das suas paixões, a pintura, e os livros sobre oculto. Do antigo grande corpo de criados apenas resta uma idosa mulher a dias, que sempre viveu naquele pequeno solar, e cujo trabalho é o suficiente para a pequena família que lá vive. A pacatez desta vida é destroçada por um problema psiquiátrico grave, que o leva ao internamento num instituto. Pesadelos e alucinações que causam o seu descalabro mental. Mas, com o natal a aproximar-se e aparentes melhorias no estado mental do homem, a sua esposa decide trazê-lo a casa para passar a consoada consigo e com o filho, esperando talvez que isso ajude à sua recuperação total.

Mas depressa percebemos que não será assim. O mal mental tem uma causa muito específica, num segredo guardado pelo homem. Numa noite escura, numa estrada isolada, atropelou mortalmente uma criança, e com medo das consequências do seu ato, decide enterrá-la numa estuda abandonada. Mas não sem antes sucumbir ao impulso mórbido de a retratar na sua morte. A quebra mental poderá ser causada pelos remorsos do seu ato, mas os leitores são mimados com momentos de puro horror visceral. E a intervenção de espíritos vingativos, invocados pelo crime numa obra oculta que chega às mãos do homem de forma misteriosa. Num final de apoteose sangrenta, estes espíritos aplicam a sua visão de justiça eliminando primeiro aqueles a quem o homem mais ama, antes de lhe aplicarem a tortura final. É a lei de Talião, aplicada por seres que como as erínias, atormentam os criminosos, mas ao contrário destas criaturas mitológicas, são capazes de muito mais do que atormentar quem praticou o mal.

As Sombras de Lázaro surpreende pelo seu crescendo de horror. Mantém-se ambíguo, entre a possibilidade de visões alucinatórias ou real intervenção sobrenatural, um artifício que lhe permite explorar diversas vertentes do horror. Crimes, casas soturnas, assombrações grotescas e um final deliciosamente gore é o que espera os leitores deste livro surpreendente.

domingo, 10 de novembro de 2019

URL

Ficção Científica


Inside a future space station built for twelve humans. Concept art from NASA's "Man in Space: Space in the Seventies," 1971: Parece algo claustrofóbica para doze habitantes, e aquele chuveiro totalmente transparente seria uma tentação para voyeurs especiais interessados na beleza das astronautas, parece-me (de vez em quando, sabe bem ser maquiavélico).

Portuguese artists at the 30th International Festival of Comics and Games in Lodz: A mais recente edição deste festival polaco de banda desenhada contou com uma forte presença de artistas e projetos portugueses.

LA’s ultimate horror movie filming locations map: Um guia turístico para cinéfilos com gostos tenebrosos, a arquitetura dos filmes de terror que são na verdade habitações do dia a dia.

One Hero, No Tomorrow: The Post-Apocalyptic Films of Cirio H. Santiago: Confesso algumas saudades destas cinematografias exploitation, agora que vivemos na era onde as culturas de género se dedicam à referencialidade e já poucos se dão ao trabalho de fazer filmes assumidamente maus. Há uma certa inocência neste cinema a metro, ultra low budget e very high (provavelmente, até mesmo em substâncias) shlock.


Vincent Di Fate: As visões que formaram o meu gosto pela ficção científica.

O leite da via láctea. Manuel Zimbro (Sistema Solar): Não quero ser mauzinho, mas suspeito que vale mais ler esta crítica, recheada de intersecções entre arte erudita e banda desenhada, do que a obra em si, que me pareceu mais exercício de estilo vindo de um artista a experimentar meios de expressão do que uma obra de BD completa. Posso estar enganado, se alguma vez der com este livro (caso seja mesmo editado e não objeto de exposição em galeria), logo vejo. Já a crítica, sublinho, vale a pena ler.

O QUE AINDA NÃO SABIAS SOBRE DRÁCULA, SUPER-HOMEM E OUTROS MONSTROS FABULOSOS: Confesso que peguei neste livro do Alberto Manguel mal o apanhei nas livrarias, porque premissa irresistível. Ensaios literários sobre criaturas de ficção, escritos por um bibliófilo de erudição extrema (o seu dicionário de locais imaginários é um livro obrigatório para qualquer geek que se preze, e queira ultrapassar a medianiedade dos universos televisivos e cinematográficos). O artigo da Estante não vai tão fundo, mas é uma razoável apresentação a ajudar a despertar a curiosidade.

Long Read: A Great Big Doomsday Clock/DC Comics Conspiracy Theory: Isto é um mergulho talvez demasiado profundo nas possíveis intenções de Geoff Johns com o seu pastiche de Alan Moore, a tentar integrar as personagens de Watchmen na continuidade principal da DC.


Alien concept art by H. R. Giger: Houve um ciclo perfeito de retroalimentação entre o artista e o filme. As suas visões definiram o filme, mesmo nas sequelas e prequelas, que mesmo que tentem não conseguem fugir ao seu visual profundamente alienígena. E Alien lançou a carreira de Giger, embora ele já fosse um artista estabelecido, o alcance global da sua fama deve-se ao impacto do filme.

In This Trailer for BBC's War of the Worlds, There's a Lot to Be Concerned About: Uma adaptação da Guerra dos Mundos fiel à época do romance? Shut up and take my money. Com tantas voltas que esta história marcante levou, entre a adaptação rádio de Orson Welles, o filme icónico dos anos 50, ou a dura visão contemporânea de Spielberg (todas se recomendem, apesar da de Spielberg desagradar aos puristas), creio que nenhuma retrata a época do conto. A história original passa-se numa Inglaterra no auge do seu poderio imperial, depressa colocada de joelhos pelo poderio militar mais avançado dos marcianos. Tal como fazia aos países que colonizou e transformaram o Reino Unido na grande potência global. H. G. Wells assentava a sua ficção científica num firme sentido histórico, que não fugia de visões críticas. Talvez esta série da BBC consiga, finalmente, trazer essa visão para o ecrã.



Tecnologia


Portugal’s navy reveals “tech guerrilla” unit creating tech toys that kill: Daquelas notícias que os media portugueses, avessos a qualquer ciência e tecnologia que não seja o gadget da moda, ignoram. A Marinha portuguesa tem uma unidade dedicada à investigação de computação, automação e robótica aplicada à defesa, que tem apresentado resultados interessantes no domínio dos rov militares com capacidade ofensiva.

From Pocket Computers to Palmtops: An Early History of Mobile Telecomputing: Comecei a usar computadores nos tempos dos pesados desktop com ecrãs CRT (mas já a correr windows 95, não sou assim tão ancião), e sempre me perguntei porque é que a computação era tão fixa e não móvel como na ficção científica. Claro está que mal pude, adquiri o meu primeiro palmtop, um PDA da Palm com uns gloriosos 1mb de memória, e no fundo as incipientes funcionalidades do que hoje é a computação móvel em tablet e smartphone (sempre quis ter um Nokia Communicator, mas o salário de professor nunca permitiu essas veleidades). Hoje, faço de tudo no meu inseparável tablet, entre interagir em redes sociais, gerir fluxos de email, modelar em 3D e até mesmo escrever estes textos. Neste artigo, alguns dos primeiros computadores verdadeiramente de bolso, dispositivos que anteciparam a nossa era de mobilidade computacional.

The Tech Revolution Was Supposed To Be Fun. So What Happened?: De facto, é um paradoxo. A revolução digital tem bases libertárias, e sempre se assumiu como livre e contracultural, no entanto a sociedade hipercapitalista que gerou é tudo menos libertadora.

Artificial Intelligence Has Become A Tool For Classifying And Ranking People: A Forbes descobriu a pólvora. Entre sistemas de apoio à decisão de contratação e métricas de produtividade de funcionários, a inteligência artificial tem mostrado que é uma ferramenta essencial para catalogar indivíduos. Com todas as consequências negativas daí advindas para a nossa sociedade de liberdades e garantias. Ainda não é o modelo chinês de créditos sociais, mas quase que são elementos constituintes.

Lospec, a resource site for "digitally restrictive art": Devo dizer que o conceito é estimulante. Numa era em que as ferramentas digitais parecem capazes de atingir o ilimitado, procurar restrições pode ser um ato de criatividade.


Space shuttle concept art by Roy Gjertson for General Dynamics, circa 1971: Se o Elon Musk tivesse visto isto, se calhar a Spaceship da SpaceX teria um design diferente.

The birth and rise of Ethernet: A history: Mais do que o Wi-Fi, a rede Ethernet sustenta a conectividade das organizações (como observa, mordaz, o artigo, é o que liga os access points Wi-Fi à internet). Nasceu do trabalho de Bob Metcalfe no Xerox Parc (o berço de boa parte do mundo digital), e sobreviveu à competição com outros potenciais standards para se tornar dominante. Há que adorar a razão para o nome que tem, uma homenagem ao conceito de meio ubiquo que era o éter, substância que se julgava permear tudo até se provar a sua in existência. Ethernet significa mesmo isso, um permear eletrónico de informação que está à nossa volta.

3D printing community hit by LEGO takedown notices: Não há aqui grandes surpresas. A impressão 3D é a maior inimiga do modelo de negócio da Lego, e desde que me lembro tem sido usada para desenvolver alternativas às peças, quer versões das mais caras, quer peças específicas, quer peças capazes de interconectar diferentes sistemas (entre Lego e Meccano, por exemplo). Se o brick clássico é considerado domínio público, as peças compostas não o são e é por aí que a multinacional dinamarquesa ataca. Nalguns casos, de forma plenamente justificada, noutros, fazendo desaparecer o trabalho de Makers e fãs que se inspiram na estética lego para as suas criações.

MIT creates blackest black that is darker than Vantablack: O famoso pigmento super negro só absorve 99% da luz recebida. O criado pelo MIT, chega aos 99,995%. É negro puro, causado pela ausência de luz (em bom rigor, absorção quase total). A tecnologia que permite esta negritude absoluta baseia-se no alinhamento vertical de nanotubos de carbono.

Excavating AI The Politics of Images in Machine Learning Training Sets: A visão computacional depende da categorização e etiquetagem de milhões de imagens. E aqui reside um problema não técnico, mas ético. As escolhas de categorias e etiquetas podem traduzir preconceitos e visões distorcidas. Usadas para treinar algoritmos que nos afetam no dia a dia, os problemas éticos levantados pela classificação deixam de ser académicos, passando a afetar vidas.

The Coming Age of Imaginative Machines: If you aren't following the rise of synthetic media, the 2020s will hit you like a digital blitzkrieg: Como em, a produção de texto, imagem e vídeo por redes neuronais e outros tipos de algoritmos de Inteligência Artificial vai-se tornar a norma e não a exceção. O nosso mundo de ideias, mediado por media digitais cada vez mais automatizados, irá sofrer impactos que hoje começamos a descortinar.

THE BOUNDARY BETWEEN OUR BODIES AND OUR TECH: Vivemos num fluxo contínuo entre o real e o virtual, as nossas trocas de informação através do digital são extensões do nosso ser, parte fundamental da nossa individualidade. A ideia em si não é nova, tem uma linha direta com a teoria das tecnologias como extensão das capacidades humanas. Mas há um elemento adicional. Essas interações são filtradas por algoritmos, não somos nós quem decide o que nos aparece nas linhas de tempo e cronologias de publicações através das quais interagimos com outros. Colocar-se a questão do e se esses algoritmos, fundamentados na necessidade de filtrar a enorme e crescente quantidade de informação, não estão deliberadamente a condicionar o que vemos de forma a modificar os nossos comportamentos e percepções.

Before the internet broke my attention span I read books compulsively. Now, it takes willpower: I can relate. Mas não diria que se trata de um estilhaçar da capacidade de focar a atenção, antes o impulso da curiosidade alimentada pela incessante torrente digital, combinada com  a vontade de interagir e participar no rio de discurso. Entre as exigências profissionais e o estímulo digital, diria que o que realmente complica a coisa é a sensação de falta de tempo.

Mundo Contemporâneo


Radar Offline: Abandoned Secret Soviet Base In Latvia: Quando a exploração urbana e os vestígios da guerra fria se cruzam.

In praise of cultural elitism: Pessoalmente não partilho da opinião do articulista, que gostaria de regressar aos bons velhos tempos do snobismo cultural. Por outro lado, a ideia das culture wars como lutas de afirmação de gostos parece sedutora. Hoje, a discussão cultural está demasiado reduzida à polarização extrema, onde as ideologias se sobrepõem à real qualidade das obras. E se tenta censurar ativamente, em nome da liberdade (ah, como Orwell nos ensinou tão bem a apreciar esta negra ironia), aqueles que tenham violado normas sociais e culturais. Dois exemplos recentes no campo da Ficção Científica: o escândalo prémio Campbell, e as recentes (e muito patéticas) declarações de Dan Simmons sobre Greta Thurnberg, que vão ter como efeito o boicote à sua obra, independentemente da qualidade literária.


Beautiful Books, Terrible Times: The Free Expression of Soviet Children’s Lit: Os primeiros tempos da União Soviética foram terríveis, entre guerra civil, fome, atrocidades e posteriormente as depurações ideológica do regime. No entanto, mesmo nesses tempos negros fazia-se literatura infantil, e com um espaço de expressão surpreendentemente livre. Talvez porque, como observa o artigo, este tipo de literatura não é para ser levada a sério, e por isso não punha em perigo dogmas ideológicos. Visualmente, são muito interessantes, num registo moderno e arrojado de inspiração futurista (o movimento artístico), o mesmo tipo de experimentalismo visual que os comissários da cultura depressa se apressaram a esmagar a favor do estéril realismo de retrato das glórias do regime.

Dining with Stalin: Há um fascínio perverso num livro académico dedicado aos banquetes de Estaline. Eventos luxuosos, onde o favorito de um dia que se sentava ao lado do ditador podia estar no dia seguinte preso no Lubianka ou executado sumariamente.


China Unveils A New Supersonic Spy Drone During Massive Military Parade In Beijing. And Here’s Our Analysis: Shanzai D21? Na era dos satélites um drone hipersónico parece algo vagamente retro, mas num campo de batalha de alta intensidade é capaz de ser muito útil.

China’s Path Forward Is Getting Bumpy: As agruras da nova rota da seda, esse imenso investimento global chinês em infraestrutura um pouco por todo o planeta. Um toque de soft power, aposta em rotas comerciais novas e milenares, mas também em zonas do planeta onde a modernidade passou ao lado.


Final Eurofighter Typhoon delivered to the Royal Air Force: Não resisto. Se o Brexit for em frente, e os lunáticos que chegaram ao poder no Reino Unido conseguirem transformar o país na sua terra de sonho (provavelmente uma espécie de ditadura populista algo similar à distopia de V for Vendetta - mais a do filme que a do livro), a RAF terá de mudar o nome à sua frota de Eurofighters? Porque fica mal a referência a um projeto de cooperação europeu que deu excelentes resultados em tecnologia avançada?

Chinese drones hunt Turkish drones in Libya air war: Há que apreciar esta globalização do armamento automatizado. Adicionem algoritmos de IA e a notória falta de ética dos regimes turco e chinês, e ainda teremos a Líbia como precursora do uso de armas autónomas em combate. Mas para já, o notável é a forma como as milícias em combate no lamaçal líbio usam drones, descartando armamento convencional mais complexo. Para quê aviões, caros de manter e a requerer pilotos, quando drones baratos fazem o serviço?

The Man Who Went to War With Canada: Uma história do fascínio por desoladas terras remotas, no caso uma ilha deserta ao largo da Nova Inglaterra, e de resquícios bizarros onde a geografia, história e política geraram verdadeiras terras de ninguém. Ou, no caso desta, uma ilha de soberania disputada entre americanos e canadianos há séculos, mas à qual nenhum governo dá qualquer importância. E figuras locais larger than life que exploram estes vácuos geográficos.


These Are The Best Images Of Royal Australian Air Force Aircraft Flying Over Brisbane For Sunsuper Riverfire 2019: Imagens de caças de combate a voar por entre prédios são geralmente típicas e filme, exceto neste caso. A RAAF tem a tradição de participar num festival em Brisbane, de uma forma decididamente destemida.

sábado, 9 de novembro de 2019

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

H-alt: Zone Komics - Zone Comics - Warper e Contacto


​Duas propostas de leitura de banda desenhada, vindas da Zone Komics. Um projeto editorial que surgiu para dar espaço a novas vozes que se querem afirmar na banda desenhada portuguesa. Algo que é muito interessante, o procurar criar condições para fazer os seus trabalhos chegar aos potenciais leitores. Por outro lado, estamos a falar de autores novos e algo inexperientes, com trabalho prometedor mas ainda muito verde. No fundo, um trabalho similar ao da H-alt, embora apostando em diferentes formatos. Resenha completa na H-alt: Zone Comics - Warper e Contacto.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

História Verdadeira


Luciano de Samósata (1989). Historia Verdadeira. Lisboa: Editorial Estampa.

Este é considerado com um dos livros de proto-ficção científica. Falar dele nestes termos é, talvez, querer dar o peso da antiguidade clássica ao género, cooptando trabalhos que não foram especificamente criados como obras de antecipação ou especulação com base científica. Se bem que esta História Verdadeira é fortemente especulativa, e de forma assumida. Escrita como uma sátira, brinca com as histórias de viagem da época, satirizando a propensão para descrever terras, criaturas e costumes sem que sequer se lá tenha posto os pés. E Luciano não faz por menos. Coloca-se num barco que, apanhado numa tempestade atlântica, voa e vai ter às ilhas no céu, mergulhando-o diretamente numa luta entre habitantes da Lua e seres de outras estrelas. Com a cena de batalha fantástica entre os exércitos estelares, quase dá vontade de apontar este como um exemplo de proto-space opera.

O fantástico e o imaginário, na vertente satírica, chegam-nos da antiguidade neste texto, que vale a pena conhecer. Luciano tomou liberdades imaginativas, entre a mitologia de que era contemporâneo, e as suas especulações sobre terras imaginárias e seus habitantes. As guerras lunares não fazem a história desta História Verdadeira (o título é uma piada, explicada logo nos primeiros parágrafos). Luciano e os seus companheiros são engolidos por uma baleia, escapam para se deparar nas ilhas afortunadas, o paraíso das almas gregas. O que é sempre uma boa oportunidade para Luciano nos falar dos grandes gregos e romanso do seu, e nosso, passado. Expulsos da cidade de bem venturança por Radamante (esse mesmo, ó sabedores dos mitos) depois de um dos companheiros de Luciano se ter metido com Helena (yep, essa mesma, parece que Tróia não foi lição suficiente), seguem viagem, atravessando os infernos, parando na ilha da ninfa Calíope, e quase sendo devorados por belas mulheres com pés de burro que se alimentam dos viajantes que seduzem. Chegados a outra ilha, o seu barco despedaça-se, mas as aventuras que viveram ficariam para outras histórias. Tão verdadeiras quanto esta, certamente. Ler as Histórias Verdadeiras é tomar contato com um texto proto-histórico da FC, embora a ligação seja muito ténue. Mas, essencialmente, é ler e sorrir com uma elaborada piada que atravessou milénios, e não perdeu a força.

Portal: Legendary Horror Stories


A versão internacional da recensão ao zine Legendary Horror Stories já está disponível no Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction. Porque, claro, doing my bit pela cultura geek portuguesa.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

The World of Tiers, Volume 2


Phillip José Farmer (1987). The World of Tiers, Volume 2. Londres: Sphere Books.

Ler estes livros em sequência coloca muito a nu o seu lado de fórmula. A estrutura, o objetivo narrativo e os principais elementos são sempre os mesmos. As histórias seguem um padrão previsível: os heróis descobrem-se num novo universo artificial, têm de lutar para sobreviver, triunfarão no fim, e pelo meio cruzam-se com muitos elementos de exotismo.

Behind The Walls of Terra: Continuando os eventos do romance anterior, Kickaha e a senhora de mundos que se enamorou dele, encontram-se na Terra, numa dupla missão: perseguir as ameaças que tinham conseguido derrotar, e localizar Wolff e a sua amada Chriseys. Para isso, terão de se envolver com o senhor do universo da Terra, muito discreto, que não se revela nem interfere nos destinos dos universos. Chegados ao planeta, espera-os surpresas. Primeiro, o senhor da Terra foi destronado por um rival. Segundo, ficamos a saber que a própria Terra e o universo que nos rodeia é, afinal, um mundo artificial construído pelos Senhores, o primeiro deles, que é uma cópia do seu universo original. Ou talvez o seu universo não seja original. A infinitude do cosmos é uma ilusão, os limites do nosso universo ficam-se por Plutão, e sendo este uma cópia de um outro universo, fica no ar a suspeita que os todo-poderosos Senhores e a sua ciência avançada sejam, eles também, criaturasde um universo artificial construído por entidades desconhecidas. De resto, o livro segue no seu habitual ritmo de aventura. Aqui, não há criaturas míticas, terão de enfrentar os gangsters a soldo dos senhores em guerra, e no final do romance, ver-se-ão num outro universo, ainda em busca dos seus amigos. Um pormenor deste livro, logo no início:  Farmer revela uma opinião muito baixa sobre os hippies e cultura contemporânea dos anos 60, ao colocar um Kickaha de regresso à sua Terra, mas a ter de descobrir como a cultura evoluiu nos vinte anos que este longe. O seu cruzamento com uma banda de músicos na estrada é um excelente exemplo de conservadorismo social expresso na literatura.

The Lavalite World: Há um claro encadeamento narrativo nesta série, com cada livro a continuar a aventura do anterior. Neste, Kickaha e Anana, a sua amante que pertence à espécie dos Senhores, descobrem-se junto com os dois Senhores do romance anterior num novo universo, que deveria ser o dominado por um deles. Neste livro, a história é o mundo, Farmer deliciou-se a criar um universo de impossibilidades, num planeta cuja paisagem está sempre em mutação e as árvores são carnívoras e foram desenhadas para atacar as suas presas com projéteis, entre outras ideias inesperadas. O resto é a fórmula de sempre, cheia de peripécias, encontros com seres exóticos, e traições sucessivas pelos Senhores, mesmo que dependam dos heróis para sobreviver.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Un Mundo Robot


Javier Serrano (2018). Un Mundo Robot. Córdova: Guadalmazán.

Este é talvez um dos livros mais exaustivos sobre os potenciais impactos da robótica, automação e inteligência artificial que li. Adota o ponto de vista de que esta transformação tecnológica que se está hoje a começar a fazer sentir vai ter um impacto tremendo na sociedade e mundo do trabalho, seguindo a cartilha de que a automação avançada vai custar empregos irrecuperáveis. E preocupa-se com o mundo que se poderá construir, num futuro próximo em que a economia estará em grande parte automatizada e, para milhões de pessoas, ter um emprego poderá ser uma impossibilidade.

O autor cobre as bases para sustentar os seus argumentos, com uma visão das tecnologias e tendências de IA e robótica, olhando também para a história da mecanização e seu impacto laboral. Torna-se mais interessante quando olha para as consequências sociais disto. Não assume a perspetiva de travar esta nova revolução industrial, até porque a pressente imparável. Traça futuros possíveis, que vão do sonho neoliberal de pobreza generalizada e concentração de riqueza nas mãos de uma elite, àquela visão clássica de utopia pós-escassez, com a humanidade liberta do rigor do trabalho mecanizado, sustentada por mecanismos de rendimento básico assegurado, dedicando-se ao ócio, à arte, às ciências. E, pelo meio, algumas variantes possíveis.

Do livro, retiramos uma visão da necessidade de humanizar a revolução tecnológica. Afirma claramente o óbvio: os impactos sociais da automação, IA e robótica na economia serão sempre uma escolha social e política. As sociedades não podem olhar com nostalgia para os passados e recusar esta revolução. Mas também não podem deslumbrar-se com as maravilhas tecnológicas e deixar de tomar medidas para que a distribuição de riqueza se torne mais equalitária. A preocupação de ter IAs superinteligentes que nos extingam ou domestiquem poderá ser uma eventual probabilidade a longo prazo, mas a curto prazo teremos algo mais arrepiante: o empobrecimento generalizado, a retirada de perspetivas de vida a milhões de pessoas, tornadas descartáveis por um sistema económico que substitui a força laboral humana por algoritmos e robots. Provavelmente, já estaremos a sentir esse impacto. Resta-nos decidir, como sociedade, o que fazer. Seguir a cartilha da maximização do lucro e enriquecimento de uns poucos, que parece ser a narrativa dominante na sociedade contemporânea, ou usar a tecnologia para evoluir enquanto humanidade.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

H-alt: Apocryphus Vol. 4 - Sci-Fi


A primeira Apocryphus surpreendeu pela qualidade e maturidade das suas histórias. Artistas de traço experiente juntavam-se a argumentistas talentosos, com um nítido esforço para que as suas contribuições fossem boa banda desenhada. É esse o grande mérito da revista, a aposta independente no melhor que os nossos artistas de banda desenhada conseguem fazer.

Esta continuidade de grande qualidade não se perdeu nas edições seguintes, uma dedicada ao crime, e outra ao poder da mulher. Aliás, evoluiu a todos os níveis. Estava em falta uma dedicada em exclusivo à Ficção Científica, lacuna que ficou preenchida com este quarto número. Se bem que é mais que justo observar que desde o primeiro número que a Apocryphus inclui histórias dentro deste género, apenas não o fazia como tema de desenvolvimento. Resenha completa na H-alt: Apocryphus vol. 4 - Sci-Fi.

domingo, 3 de novembro de 2019

URL

Ficção Científica


Miyazaki: Digging into the Subconscious: Não tenho muito a dizer. Apenas 💖 (mostrei o Totoro a alunos meus recentemente. Inexplicavelmente, uma achou-o algo creepy).

'The Orville': la serie del creador de 'Padre de Familia' que es un sensacional homenaje a 'Star Trek' y su legado: Nunca me canso de repetir. A par com Expanse, The Orville é das séries de ficção científica televisiva mais interessantes da atualidade.

Back to Watchmen and Batman With Tom King: Porque é que estou a destacar esta notícia? Para sublinhar o absurdo desperdício que é a finalização antecipada da temporada de Tom King à frente de batman. A sua capacidade narrativa é genial, com um ritmo de leitura incrível, e tem-se atrevido a questionar profundamente o personagem. Esta sua run é das mais marcantes que conheço, e se a DC não a tentar esquecer, será uma das que define a continuidade de Batman.

Jack Kirby’s Star Wars: Colocar Jack Kirby a ilustrar Star Wars tem destas. O seu estilo gráfico não estava muito dentro do cânone limpo da série.

Is science fiction past its sell-by date?: Oh boy, belíssimo takedown de dois conceitos falaciosos, o if it walks like a duck and quacks like a duck, não é um pato porque "respectable authors don’t write and discerning readers don’t read" patos; e "o não precisamos de FC porque vivemos na era em que a FC é facto" (que é daquelas ideias irritantemente epocalistas). E termina assim: "Genre SF remains the only form of literature that takes seriously, and takes to heart, the universe of non-human nature that science has discovered. Its readers get from it a particular kick, a bite, that they don’t get anywhere else. The world still needs that smack upside the head from the infinite reality beyond human affairs". Na imortal expressão de Stan Lee, 'nuff said.


"Servicing Hubble" by John Solie for the NASA Art Program, 1994: Saudades dos tempos do Vai-Vém espacial.

Mr. Robot Creator Sam Esmail Is Rebooting Battlestar Galactica | #SciFiSunday: Isto é uma boa notícia? Não. Por muito que Galactica seja divertida, é essencialmente uma variação sob uma série clássica. E enquanto se investe em reboots, não se investe em séries originais que se tornem os futuros marcos culturais que Galactica e Star Wars são hoje.


Dreaming of Mars in vintage concept art from the collection of @SDASM: É preciso justificar ou explicar?

Memory: The Origins of Alien Dives Deeper Into a Classic Than You Could Possibly Imagine: Daqueles clássicos intemporais, Alien é um daqueles filmes que não perde a força com o passar do tempo, nem com a sucessão de sequelas e prequelas que oscilam entre o mau e o patético. Por vezes, é melhor não continuar uma boa história.


Robert McCall: Ok, certo, muito giro, mas vivemos no futuro e as cidades continuam a não ser assim.

'Blood Machines' es el nuevo delirio hiper-ochentero de Carpenter Brut, el señor oscuro del synthwave: Se me perguntarem qual o melhor filme que vi no Motelx deste ano… claro que foi este genial delírio psicadélico, que me fez pensar tanto, tanto, no rebento cyberpunk de uma união blasfema entre Jodorowsky e Druillet. Um visual assombroso, imagens de um surrealismo barroco, e um estilo de space opera seventies que eu já não julgava ser possível.


MetropolisRemix: Metropolis (1927) Colorized & Dubbed: Sinceramente não sei o que pensar sobre isto. Por um lado, é uma visão inesperada sobre um filme fundamental da história do cinema e da ficção científica. Por outro, Metropolis é um filme que se solidificou na cultura global pelos seus cenários do futuro a preto e branco. Mas suspeito que Lang o teria filmado a cores, se dispusesse dos meios técnicos.


martinlkennedy: Morris Scott Dollens was a prolific writer and…: Há uma certa inocência perdida nas cores garridas destas ilustrações clássicas.

Balada por Sophie - Novo livro de Melo e Cavia em 2020: Uma excelente notícia para os leitores de banda desenhada, numa edição que promete.

No vivimos en 'Futurama', pero casi: siete inventos de la serie que parecían una locura pero se han hecho realidad: Mais do que eventual preditor de tecnologias, Futurama foi uma daquelas séries perfeitas. Mordaz no seu retrofuturismo assumido, e limitada no tempo, sem se prolongar até à irrelevância.

To Boldly Go with the Force: Popular Culture as Political Discourse: Star Trek vs. Star Wars é bem mais do que uma discussão de Geeks sobre naves ou personagens. São duas visões em oposição: a fé no poder do liberalismo assente em instituições fortes, capaz de trazer prosperidade, igualdade e futuro positivista a todos de Gene Roddenberry, e o olhar mais desencantado de George Lucas, que vê instituições como instrumentos ao serviço de corruptos com sede de poder, e uma fé no potencial de liderança de alguns indivíduos. As bases destes dois universos ficcionais mostram visões sobre o presente e o futuro onde os ideais políticos são centrais.

Marvel Stopped the Presses to Remove Mark Waid’s Captain America Essay From Marvel Comics #1000: Quando um bilionário trumpista dono da maior editora de comics se chateia com uma visão política que lhe é inconveniente, é literalmente um pára tudo. Mais um pormenor da interferência ideológica nepotista na cultura pop a que temos assistido nos últimos tempos. E creio que nisto todos concordamos, independentemente de que lado ideológico estejamos. O verdadeiro problema desta história está na censura ativa de um ponto de vista por alguém com outra visão, que usa o seu poder financeiro para censurar aquilo que não aprecia. Isso é inaceitável nos dias de hoje. Aliás, sempre o foi.

Alguém Precisa Ver Uns Filmes de Kurosawa: Francamente, duvido que realismo e retrato cultural rigoroso de época tenham sido preocupações dos produtores de 47 Ronin.

Kieron Gillen Opens Up About Once & Future's Mythical Exploration of British Identity: Um comic onde o mito do rei Artur, que dorme numa sepultura perdida à espera de acordar na hora mais negra de Inglaterra, é revisto como uma força demoníaca ao serviço do nacionalismo xenófobo violento. Daqueles que irá levantar sobrancelhas e granjear inimizades aos seus autores.


Tecnologia


BruceS: O MacBook original versus o de hoje.

Video: Ars talks Civilization with the man himself: Sid Meier: Se houve jogo que me fez passar horas à frente do ecrã, foi esta obra marcante de Sid Meier.

No todo lo pasado fue mejor... y lo sabes: la tecnología de antes no molaba: Bem, o Xataka a falar de tecnologias antigas é cada tiro cada melro na asneira. É redutor olhar para uma tecnologia obsoleta apontando o dedo e dizendo ainda bem que já não temos que usar isto. Pois, isso é óbvio, mas aqueles objetos hoje ridicularizados formam as tecnologias desejadas do seu tempo. Há um tempo para tudo, e passado obsoleto já foi em tempos um futuro luminoso. Não perceber isto é óbvia falta de visão histórica.


This Picasso painting had never been seen before. Until a neural network painted it.: Um uso interessante de Inteligência Artificial na história de arte, usar algoritmos de transferência de estilo para analisar e recriar elementos perdidos da obra de artistas plásticos.
Boeing MQ-25 Stingray Carrier-Based Aerial Refueling Drone flies for the first time: Este drone aeronaval já passou por várias encarnações. Começou por ser um projeto de aeronave de combate autónoma, mas o conceito interferiu com a mentalidade top gun. Voa agora como aeronave sem piloto para reabastecimento.

This Nightmare Game Was Designed by a Dentist in MS Paint: Para aqueles que são acometidos por pesadelos sobre dentistas sádicos, brocas e falta de anestesia, este é um projeto algo arrepiante. Mas muito interessante, especialmente por mostrar que mesmo com meios rudimentares se conseguem criar excelentes produtos multimédia. O foco está na capacidade imaginativa.

Here's How Google Sends Advertising Dollars to Fake News Sites: A relação incómoda entre a publicidade e os sites de notícias falsas. No fundo, são os algoritmos de leilão de anúncios que ajudam a financiar sites que outros setores da Internet combatem ativamente.

Nerd,’ ‘Nonsmoker,’ ‘Wrongdoer’: How Might A.I. Label You?: Um projeto artístico que usa bancos de imagens e bases de etiquetas sublinha que os dados com que treinamos a inteligência artificial pode ser facilmente enviesados.

Week in Review: Is a new golden age of piracy around the corner?: A pirataria aparece quando os meios tradicionais de consumo de media se tornam empecilhos. Vivemos na era dourada da escrita para televisão, as séries excelentes multiplicam-se, mas a vontade dos telespetadores esbarra no progressivo crescimento do serviços de streaming com conteúdos exclusivos. Tendo em conta o preço de aderir a todos os serviços, a oração a S. Torrente a acaba por ser a solução mais lógica.


Windows 3.1 Screensavers, Now On Twitter: Utilizadores veteranos do Windows poderão mergulhar na nostalgia com esta coleção de screensavers clássicos. Porque houve uma altura em que era cool ter tostadeiras com asas no ecrã do computador.

The Ifs: así son los robots para aprender a programar desde los tres años sin pantallas ni cables: Descobri este projeto espanhol de programação tangível para crianças na Maker Faire Rome no ano passado, e é bom saber que evoluiu da fase de protótipo. Estes kits de programação são uma delícia.

Facebook announces Horizon, a VR massive-multiplayer world: Confesso que não percebo a perenidade dos mundos virtuais 3D semi-imersivos (e parte da minha tese de mestrado tocou nesse tema). O Facebook tem feito umas coisas nos mundos virtuais, mas a metáfora continua a ser a mesma de sempre, chatrooms, avatares 3D, espaços virtuais. Ao mesmo tempo fascinante e redutor. O conceito em si não é novidade, os veteranos dos metaversos recordam os mundos VRML, o Second Life (acho que ainda existe), o OpenSim, e os múltiplos clones falhados de empresas que investiram no nosso fascínio por mundos de fantasia. Agora é a vez do Facebook. Se não tivesse assistido à ascenção e queda de tanto mundo virtual, até poderia ficar entusiasmado.

Computing and artificial intelligence: Humanistic perspectives from MIT: ética e uma maior transparência sobre os black box algorithms, é o tema comum a estas visões de diferentes académicos sobre qual deverá ser o objeto principal de estudo de um novo centro do MIT dedicado à inteligência artificial.

A guided tour of Dublin’s physical Internet infrastructure: Esquecemos que a Internet é tangível. Para suportar os bits que sustentam o virtual, existe uma enorme infraestrutura de cablagens submarinas e subterrâneas, centros de ligação e quintas de servidores. Este projeto artístico irlandês mostra os locais anónimos onde o virtual assume forma física em Dublin, um dos epicentros da economia digital.

Why Would You Want to Picture It – On being a vector inside a neural network: Arte como uma forma de compreender a inteligência artificial. Este projeto olha para dentro de um algoritmo, mostrando os percursos de um vetor ao longo do processo de decisão.

A.I.nktober: A neural net creates drawing prompts: Se estão sem ideias para desenhar no Inktober (uma iniciativa informal de um desenho por dia durante o mês de outubro), porque não deixar que um algoritmo de Inteligência Artificial vos dê temas?

THE PROBLEM WITH DIGITAL COMPUTERS: Essencialmente, as representações matemáticas, por completas e complexas que sejam, não passam de aproximações que nunca conseguiram traduzir toda a complexidade dos fenómenos.

Researchers Are Using Artificial Intelligence to Reconstruct Ancient Games: Poderemos nunca conhecer as regras exatas dos jogos antigos descobertos em vestígios arqueológicos, mas utilizando inteligência artificial, poderemos inferir como se teriam jogado. Redescobrir jogos de civilizações perdidas tem o seu quê de humanismo profundo, permite empatizar com pessoas que viveram há milénios e que, fundamentalmente, talvez não tenham sido assim tão diferentes de nós. Amavam, sofriam, ficavam alegres, tinham as suas mesquinhices, e sempre que podiam divertiram-se com uma partida do seu jogo favorito.

Modernidade


Going underground: the rise of Europe’s metro railways: Um bocadinho de história para alimentar o fascínio com os mundos subterrâneos, nesta coleção Europeana dedicada aos metropolitanos europeus.

How Blake Kathryn pulls futuristic 3D dreamscapes from her subconscious: Nada como um toque de psicadelismo digital.


In Case You Didn’t Know, There Exists A Pakistani “Top Gun” Movie Featuring PAF JF-17 Thunders vs IAF Mirage 2000s: Na verdade, um filme sobre duelos entre JF-17 (essencialmente um Mig shanzai) e Mirage é algo de deliciosamente retro nos dias dos caças de quinta geração. E, na volátil fronteira indo-paquistanesa, estes caças high tech dos anos 80 cruzam-se regularmente. Mas aposto que ficaram curiosos logo no pakistani Top Gun. As imagens não são nada más, pena serem CGI.

Masterpiece by 13th century Italian painter Cimabue found in French woman’s kitchen: Incrível como ainda hoje é possível fazer descobertas destas.

The Highest Suicide Rate in the World: A rápida é forçada adaptação de um povo à modernidade traz consequências fatais. A colisão entre mundo moderno e tradições milenares, complicada por um historial de violência e rejeição forçada de culturas e geografias ancestrais, causaram um dano tremendo ao povo Inuit que ainda hoje perdura.

Gallery: SpaceX’s Starship Mk1 spacecraft prototype in pictures: Ainda não consegui perceber se o design retro da Starship da SpaceX é um preciosismo visual ou um conceito funcional. O que sobressai é a fortíssima homenagem ao visual clássico da Ficção Científica.

The Wildly Appealing, Totally Doomed Future of Work: Não, este artigo não é sobre o iminente desastre laboral trazido pela IA. Lê-se como um elogio subtil a uma empresa específica, mas tem pistas curiosas. Parte da evolução empresarial tem passado pela sucessiva subcontratação como serviços de elementos anteriormente considerados fundamentais, da infraestrutura digital aos funcionários, até ao ponto em que o próprio espaço físico de trabalho de pode tornar mais um serviço externalizado.

We Are on the Cusp of a Revolution in Spaceflight: Most People are Unaware: O efeito SpaceX, baixar o custo do acesso à órbita, e mostrar que o espaço não tem de ser o domínio das instituições académicas e governamentais.

After the passage of the EU Copyright Directive, Google nukes Google News France: Não há surpresas aqui. Todos foram avisados de quais seriam os efeitos da aplicação dos piores artigos da diretiva europeia sobre direitos de autor. E se vêem aqui uma oportunidade para os serviços de informação assumirem um papel mais destacado na economia digital, desenganem-se. A sua sustentabilidade é assegurada por tráfego, e sem agregadores, ou partilhas, ninguém vai site a site ler as notícias. Mas há coisas mais sinistras nesta primeira implementação da diretiva em França: a transposição legislativa "opted for a very restrictive "link tax" rule that gives news sites a veto over who may criticise their works and the right to charge for the privilege". Ou seja, para além do argumento financeiro ainda inclui um moral (daquele moralismo danoso), um "se publicares algo sobre mim que eu não gosto posso recusar-me a que referencies com hiperligações tudo o que faço". O que é um ataque direto ao princípio da liberdade de informação.