sábado, 28 de março de 2015

Curso de Banda Desenhada por Penim Loureiro


Eis uma boa oportunidade de aprender com mestres: um Curso de Banda Desenhada no Museu Bordalo Pinheiro, organizada por Penim Loureiro, com a colaboração do João Mascarenhas, André Oliveira, Daniel Maia, Susana Resende, Rosário Félix, Lígia Sousa e ainda uma aparição especial (como anfitrião do Lisbon Studio) Nuno Lourenço Rodrigues. Irá decorrer de 11 Abril a 30 Maio. No Leituras de BD podem encontrar o programa completo do curso.

Penim Loureiro, recordo, é autor do excelente Cidade Suspensa. Ter oportunidade de aprender com alguém cujo traço é de elevada mestria parece muito estimulante. Infelizmente para mim, que até precisaria de desenferrujar a mão que desenha, calha em datas de outras formações ligadas ao 3D. Mas promete ser uma boa experiência de aprendizagem.

Geometria



sexta-feira, 27 de março de 2015

Outras Literaturas


Leio isto e fico com aquela sensação de que mais uma vez uma instituição tida como séria e irrepreensível olha, com condescendência, para o que considera parafilias artísticas que até divertem pelo seu quê de freakshow: "Mas que outra literatura é esta que associa ao progresso tecnológico o thriller policial, o fantástico e o terror? É a Ficção Científica (FC) (...)". Como diria o David Langford, how the others see us...

De qualquer forma, é de destacar este evento na Gulbenkian que trará Banda Desenhada, Ficção Científica e Policial a um espaço mais conhecido pela vanguarda das artes contemporâneas. No caso da FC conta com convidados de peso: João Barreiros e Lauren Beukes. O brasileiro Fábio Fernandes desconheço e a moderadora Fátima Vieira, se não me falha a memória, é docente universitária especializada em utopias e cruzei-me com ela no primeiro workshop de Visões de Utopia. Aquele cujos resultados nunca mais organizo num epub. Parece ser receita para um painel muito interessante, especialmente sabendo o quanto Barreiros costuma deixar chocadas as audiências mais incautas.

Também interessante parece o painel dedicado à Banda Desenhada, se bem que nesse dificilmente poderei ir assistir. Dia 16 de maio já está marcado na agenda este colóquio integrado na iniciativa Próximo Futuro, que habitualmente traz a Lisboa uma amostra da arte contemporânea emergente. Boa descoberta esta da Cristina Alves no seu Rascunhos. Mas que outra literatura é esta que associa ao progresso tecnológico o thriller policial, o fantástico e o terror? É a Ficção Científica (FC)  tiva 

quarta-feira, 25 de março de 2015

iZombie


iZombie foi uma das mais divertidas séries recentes da DC Vertigo. Escrita por Chris Roberson e desenhada por Mike Allred, tinha elementos de comédia fantástica com toque retro. Fazia lembrar Scooby Doo mas com monstros no lugar dos heróis. No centro das histórias estavam as aventuras de Gwen, uma simpática coveira zombie que precisava de manter uma dieta estável de cérebros para se manter lúcida e não se tornar uma criatura a arrastar-se em decomposição. Com muita ética só comia os cérebros dos cadáveres que enterrava, o que lhe causava como efeito secundário o reviver das memórias dos falecidos. Acompanhada da fantasma de uma adolescente dos anos 60 e de um geek licantropo gay que nas noites de lua cheia se transforma em terrier, depressa se vê numa aventura apocalíptica em que um sedutor zombie milenar a tenta utilizar para invocar uma divindade destrutora do além espaço numa cidadezinha americana. Roberson escrevia numa divertida mistura de George Romero com Buffy Vampire Slayer e Allred deslumbrava com o seu estilo retro, que assentou como uma luva nesta série.

Chegou à televisão e o episódio piloto promete, apesar de divergir e muito do mundo ficcional original. Desapareceram o cemitério e os amigos sobrenaturais de Gwen, e o foco recai sobre um policial procedimental muito similar a Chew. Gwen é agora a aparente sobrevivente de uma infestação zombie, que desiste de uma promissora carreira como médica para trabalhar como assistente de um perceptivo médico legista que sabe precisamente com o que é que está a lidar. Para quem trabalha numa morgue criminal comer cérebros dá imenso jeito para ajudar a deslindar crimes violentos. Foi-se o apocalipse retro, e ficámos com uma espécie de CSI Zombie com um toque de romantismo meloso. Divertido, mas muito aquém da série original. Mas diga-se que a actriz que representa Gwen na série está perfeita no papel de zombie inteligente, a tentar levar a vida enquanto criatura morta dependente de refeições regulares de matéria cerebral temperada com molho picante para ficar mais tragável.

terça-feira, 24 de março de 2015

A Viagem


Edmond Baudoin (2015). A Viagem. Oeiras: Levoir.

Diria que é um anseio comum. Não se trata do simples fugir à rotina, mas partir para se encontrar a si próprio enquanto se deambula à descoberta pelo mundo. É o que faz o singular apático protagonista deste romance gráfico. A sua única acção decisiva é fugir às opressivas gaiolas mundanas e num impulso apanhar um comboio para algures. A partir daí segue em deriva, ao sabor de acontecimentos e impulsos. Vai-se descobrindo a si próprio a cada novo dia, enquanto vagueia por entre cidades, se apaixona e descobre amizades. Uma vontade que todos sentimos, a espelhar um pouco da biografia do autor.

Se a história é um hino à busca de si próprio e ao gosto pela deriva à descoberta do mundo, não deixa de ter o seu quê de ingénua. Nem todos os que partem encontram amigos de espírito semelhante com veleiros ou chalets na Sabóia. Nos tempos que correm tem sido mais barcos decrépitos e apinhados a afundar-se no mediterrâneo. O romantismo da viagem idealizada coaduna-se pouco com a realidade brutal, o que não invalida a beleza do romance. Afinal, quantos de nós não sonham, e o tentam concretizar com curtas fugas em tempos de férias, ou com mil e uma formas de combater a alienação trazida pela modernidade? Se o fazemos ou sentimos necessidade de o fazer é porque somos humanos.

Visualmente este é um livro deslumbrante. O traço de Baudoin afasta-se do realismo da banda desenhada, entrando num campo mais pictórico onde as vinhetas funcionam como quadros. Algumas, pelos enquadramentos e dimensões, remetem para a agora clássica pintura romântica e impressionista francesa, mas o traço do autor ganha mais vida em registos fortemente expressionistas que nalguns casos chegam a tocar a abstração. E funciona. Este é um daqueles livros de bd em que se percebe a força dos enquadramentos e da sequenciação visual para nos contar uma história muito para além da narração verbal. Sente-se, logo desde as primeiras pranchas, que a leitura passa mais pela imagem do que pelo texto, que compreendemos o personagem e os seus anseios através da linguagem visual. Nesta vertente há nesta obra momentos de cair o queixo. Sublinho uma, de muitas que poderia destacar: um enquadramento que se repete, de duas personagens vistas ao longe num cais de Paris, com duas barcaças que no mesmo plano se aproximam. Genial, pensei. Sente-se o tempo a fluir nestas duas vinhetas.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Comics


Chrononauts #01: Tenho uma relação conflituosa com os argumentos de Mark Millar. É um excelente argumentista, capaz de contar histórias cheias de acção mas com boas ideias que se perdem na procura de algo fácil com aproveitamento para outros media. Foi o que aconteceu com Kickass Kingsmen, criados a pensar directamente no cinema. E este Chrononauts vai pelo mesmo caminho. Diria que o que sai da cabeça deste argumentista é banda desenhada a metro no seu melhor. Divertida, mas a metro, e cuja leitura me deixa sempre com uma curiosa sensação de repulsa. Porque se percebe que aquilo que se lê é pensado para maximizar o lucro e não para explorar uma ideia. Infelizmente, Millar parte sempre de premissas interessantes que obrigam à curiosiade. Nesta nova série a mistura será de acção com viagens no tempo, e se dúvidas há que a história é estereotípica, atentem nos queixos dos másculos personagens. Quadrados. Como os clássicos heróis da ficção pulp.


Divinity #02: Um excelente exemplo de como dar cabo de um comic promissor com um simples virar de página. A ideia base de Divinity é fascinante. Um cosmonauta negro, isolado na União Soviética e enviado para o espaço profundo, que regressa após décadas de imersão em estranhas correntes estelares como algo mais do que o que era quando partiu. Conceito muito intrigante que prometia ser um excelente comic de ficção científica. Até virar uma página e deparar com o plantel de super-heróis da Valiant pronto para tentar exterminar com extremo prejuízo este cosmonauta divino. De uma vinheta para a outra passa de narrativa promissora a banal história de super-heróis. Que desapontamento.


Frankenstein Underground #01: É sempre de saudar ter Mignola a escrever um novo comic (e se estivesse a desenhar ainda mais seria), mas bolas, pobre criatura de Frankenstein, tão usada e abusada em comics, livros e filmes. Desta vez descobre-se nas profundezas mexicanas, algures num templo maia, caçada pelas criaturas demoníacas escravizadas por um alquimista do século XV que quer esta criatura do seu futuro para juntar ao seu gabinete de curiosidades.


The Manhattan Projects The Sun Beyond The Stars #01: Está de regresso a série mais weird dos comics contemporâneos, desta vez com um toque space opera. A dupla Hickman e Pitarra prometem agora espalhar o surrealismo conceptual do universo ficcional da série pela galáxia. Para trás fica a Terra com um Oppenheimer que contém multidões dentro de si, o biónico Von Braun ou os gémeos Einstein. Agora acompanharemos as gloriosas aventuras de Gagarin e Laika por entre as singulares criaturas que habitam vastos impérios galácticos. E se Hickman mantém elevado o tom weird, a ilustração não lhe fica nada atrás.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Leituras


This Cartoon Perfectly Sums Up the Optimism of 1950s Futurism: Sempre que leio artigos destes pergunto-me se no futuro iremos olhar para as nossas super-limpas e bem desenhadas design fictions futuristas com este sorriso de inocência patética com que olhamos para os futuros imaginados do passado.

Video Games Are Better Without Characters: Ian Bogost é quase um poeta do desenvolvimento de videojogos ao falar como fala da beleza inerente aos sistemas complexos, que permite gerar experiências mais imersivas e enriquecedoras do que os mais tradicionais que se centram no controle de um personagem. Termina de forma genial, certeira, a descrever na perfeição os limites das gaiolas douradas do mundo digital: We’ll sign away anything, it would seem, so long as we’re still able to “express ourselves” with the makeshift tools we are rationed by the billionaires savvy enough to play the game of systems rather than the game of identities. Não contente com esta afirmação incisiva, acerta também no enviesamento trazido pela metáfora digital de interpretar o mundo: only a fool would fail to realize that we are the Sims now meandering aimlessly in the streets of the power brokers’ real-world cities. Not people with feelings and identities at all, but just user interface elements that indicate the state of the system, recast in euphemisms like the Sharing Economy, such that its operators might adjust their strategy accordingly. No measure of positive identification can save us from the fate of precarity, of automation, of privatization, of consolidation, of attention capture, of surveillance, of any of the other “disruptions” that cultivate our culture like bulldozers click through sim cities. 

Entretanto, Nelson Zagalo apontou no Virtual Illusion um problema com as premissas de base de Bogost. A crítica à primazia da personagem sobre o sistema esquece um porquê essencial: esquecer "aquilo de que são feitos homens e mulheres que criaram esses objectos, homens e mulheres que consomem esses objectos, e homens e mulheres que analisam e criticam esses objectos". Ou seja, que o que desperta a atenção e nos leva a preferir um tipo de imersão narrativa em relação a outros não pode ser reduzido a um único factor, intuído em Bogost como economicista. A verdade é que uns de nós se deslumbram com sistemas, outros gostam de histórias. Os porquês disto prendem-se com as ciências cognitivas, que Zagalo aponta o serem pouco conhecidas pelas humanidades.

Five Books that Changed Me in one Summer: Com esta mistura explosiva de Moorcock, Ballard, Kerouac e Burroughs não admira que Warren Ellis tenha desenvolvido a sua tão pecular e vibrante voz literária.

Did a Human or a Computer Write This?: Spoiler: só um dos textos no link foi escrito por um humano. O resto é produto de algoritmos automatizados. Vejam lá se descobrem qual.

Stop Saying CGI: Bem visto. Não dizemos que um romance é uma belíssima peça de processamento de texto, ou que uma pintura um excelente exemplo de aplicação de pigmento com pincel. Este grito bem humorado recorda-nos que o mais potente dos softwares é, na sua essência, uma ferramenta ao serviço da criatividade humana. O mais poderoso dos modeladores 3D, o mais espantoso criador de imagens digitais, o mais mágico dos programas que iludem a realidade nada são sem a mão treinada e a imaginação dos criadores.

Ladybridge High School is Doing It Right — 15-Year-Old Students Create Unbelievable 3D Printed Lamps: Muito interessante, este projecto de introdução ao 3D que começa por ensinar modelação 3D e CAD a alunos de onze anos e acaba com estes projectos impressos... numa beethefirst, curiosamente. É um caminho interessante que mostra bem como posso levar o meu das TIC em 3D. Integrar o 3D no currículo é interessante, mas condena-nos a um eterno recomeçar. A cada semestre começa-se do zero, e pergunto-me se não está na hora de criar um espaço próprio, pensado com um tempo diferente e mais alongado, que possibilite aos alunos mais interessados ou com aptidão para estes projectos desenvolver mais a fundo as suas aprendizagens. Fica a dica.


Brutal but Beautiful: Book of 88 WWII Coastal Military Ruins: Bunker Architecture, elegante na sua decadência de betão armado carcomido pela erosão. Restos das fortificações nazis da festung europa que orlam as costas francesas, que também inspiraram Paul Virilio.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Gli Eroi del Fumetto di Panorama Dylan Dog #04


Tiziano Sclavi, Angelo Stano, Nicola Mari, Luca Dell'Uomo, Claudio Villa, Bruno Brindisi (2005). Gli Eroi del Fumetto di Panorama Dylan Dog #04. Milão: Mondadori.

Um dos encantos de Dylan Dog é ler o entretecer de linhas narrativas aparentemente sem relação entre si que só se intersectam quando Tiziano Sclavi o entende. É o caso de Il sorriso dell'Oscura Signora, história que abre a antologia. Começamos com uma misteriosa e sombria personagem que devolve à vida um assassino profissional morto numa anterior aventura de Dylan (o sublime Attraverso Lo Specchio). Somos levados a um hospital onde uma jovem tem um diagnóstico terrível que nunca chega a saber qual é, porque os médicos se distraem com o falecimento de uma velhota na cama ao lado. Essa mesma rapariga contrata Dylan para investigar uma atraente medium com que o seu pai, um político mais interessado no poder do que na família, se envolveu. Dylan desmascara a medium como uma fraude, com ajuda de um professor universitário que lhe prega um susto usando os truques banais do ofício. Infelizmente, ao exorcizar os medos do político, desperta neste a necessidade de mandar assassinar aquele que considera o seu pior inimigo, alguém que o persegue desde a infância, sempre a deitar-lhe as culpas pelos seus maus actos. Má ideia, porque este inimigo é um catalizador imaginário das falhas do político, e a história completa o círculo quando o assassino mata o político após este assassinar a medium que apanhou na cama com um jovem amante. Como habitual, Dylan assiste a tudo naquele estranho elemento narrativo de herói fulcral que não controla os eventos em que se envolve. Omnipresente está a sombra, que apenas Dylan consegue ver e confunde com a morte, mas acaba por se revelar uma representação da vida. Com um sentido de humor macabro, revela que afinal a tal doença da jovem é uma gravidez. Confessa, no final, que gosta de pregar partidas, porque a vida sem humor não faz sentido.

Já conhecia Diabolo Il Grande, uma estranha história de assassínos em série levados a cabo por um prestigitador assombrados por um boneco de ventríloquo que o obriga a assassinar todas as mulheres que se assemelham à sua mãe. O curioso nesta história é Sclavi ter decalcado o boneco articulado com o aspecto de Erich von Stroheim. Il Paradiso dei Turisti é uma história muito curta e divertida, em que Dylan é levado a uma casa onde o habitante lhe mostra que a porta de uma das divisões o transporta para paraísos terrestres, mas outra porta leva-o aos locais de maior pesadelo genocida e pobreza. Sente-se lesado. Afinal, prometeram-lhe que a Terra era um paraíso turístico, e pede que Dylan Dog o ajude a resolver o problema da segunda porta. Non, temo di no, responde Dylan a este turista que se revela um alienígena desencantado com este planeta onde o sublime e o funesto tantas vezes se cruza.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Registos


O prémio atribuido ao projecto As TIC em 3D em destaque na imprensa regional, com uma pequena nota no jornal mafrense O Carrilhão e direito a impressão a cores. Arquivado para memória futura.

Doctor Grordbort Presents: Onslaught


Gred Broadmore (2014). Doctor Grordbort Presents: Onslaught. Londres: Titan Books.

Que livrinho desapontador. Greg Broadmore é ilustrador e criador que trabalha para a Weta, os estúdios neo-zelandeses de efeitos especiais que ganharam projecção mundial graças a Peter Jackson e têm deslumbrado o público dos blockbusters com a sua genialidade. Já Broadmore ganhou fama pelas rayguns que construiu nos estúdios, que ampliou para um universo de futurismo steampunk visualmente fascinante. Mistura o estilismo steam com uma forte ironia retro, reflexiva do passado colonial britânico, do heroísmo dos penny dreadfuls e dos exploradores que iam civilizar a darkest africa, transplantada para as funestas selvas venusianas, também a ressoar com a FC pulp clássica.

Se a estética é deslumbrante e as premissas intrigantes, a prosa falha redondamente. Broadmore não se consegue afastar da piada histriónica fácil e do humor de puto com sete anos de idade. A banda desenhada vive de um bom argumento e nisto o autor mostrou ser incapaz de contar uma boa história. Talvez o fosse, se não estivesse tão interessado em ter piada. Recomenda-se que se fiquem pelas belíssimas esculturas steampunk e pelos desenhos deslumbrantes, e fujam a sete pés deste desastre narrativo.

terça-feira, 17 de março de 2015

Abreijos

Abreijos. Que coisa irritante. E arrepiante de infantilidade. Pertence à categoria expressões fixes que não são nada fixes. Como cantautor. Só me dá vontade de dar tau tau a quem usa esta expressão. Ou desejar bom fds, que talvez por ter uma mente perversa não consigo de forma alguma ler como bom fim de semana. Outra particularmente irritante é funcionalidades. Percebe-se, quem usa isto quer dizer que o objecto ou serviço serve para muita coisa, mas prefere usar esta palavra que se afocinha a arranhar dentro do canal auditivo. As línguas são flexíveis e evoluem com o tempo, eu sei, mas ele há cada expressão tão deselegante...

Rewind and Come Again.


Confesso que dos Batida prefiro o programa de rádio à sua música. A sua fascinante sonoridade  tropicalista mistura ritmos kuduro, afro-beat, reggae, electrónica e mais umas quantas coisas que me escapam por completo mas soam muito bem dentro do ecletismo musical. Mas não é o tipo de som que me enche as veias de electricidade. Na rádio são espantosos, misturando sonoridades tradicionais, clássicas, retro e contemporâneas dessa grande cultura afro-brasileira que nos está também no ADN, por via do nosso pouco falado e tantas vezes branqueado passado colonial. Foi na rádio que os descobri, algures entre as estradas nacionais, com ritmos africanos dos anos 60 a travarem o meu saltitar impulsivo entre estações de rádio.


Sabendo-os em cartaz no Centro Cultural das Caldas da Raínha não resisti a ir vê-los ao vivo. Fui sem saber o que iria dali sair, armado apenas com o conhecimento de algumas canções dos álbuns Dois e Batida, algumas em rotação pelas rádios nacionais. Músicas ritmadas e agradáveis, que intrigam o meu ouvido mais habituado a rock, blues, clássica e contemporânea. Deve ser por isso que Batida me atrai. Quem sente o coração aquecido por Xenakis ou Varèse tem de estar aberto a sonoridades fora do comum. Do atrair ao sentir vai uma longa distância, e percebi neste concerto que esta música só faz sentido ao vivo.

Começa pela disposição do palco. Ao entrar percebi que iámos ver o concerto em cima do palco, rodeando os músicos. Pedro Coquenão, o génio musical por detrás dos Batida, explicou-nos logo que queria mesmo assim, como se estivessemos numa roda no largo da aldeia. Recordou-nos que a música é uma experiência partilhada, profundamente social, ao derrubar a barreira que a convencionalidade logistica ergueu entre músicos e audiência. O resto foi uma explosão imparável de ritmo e sonoridade. Impossível de ficar quieto e não seguir a batida. Não se deu pelo tempo passar enquanto Coquenão, os seus músicos, vj e dançarinos nos atiravam à papo-seco para os trópicos contemporâneos, entre rap/reggae/kuduro, video, e discos antigos com beats fascinantes. Nunca me imaginei a dançar ao som de Bonga. Yep, aconteceu. O concerto terminou em festa apoteótica, com os Batida a demonstrar que a música sente-se no momento com uma versão de Alegria que... enfim, ninguém ficou indiferente aos ritmos hipnóticos e visuais psicadélicos. A partilha e interacção com o público foram um dos eixos do espectáculo, onde as barreiras não existiam. Saí de lá rendido. Continua a não ser o meu som de eleição, mas de facto sentir isto ao vivo é uma experiência extraordinária e a repetir. Podem ter uma pequena ideia do que foi este concerto vendo o vídeo de um recente boiler room em Lisboa: Batida Boiler Room. Vejam, e imaginem este concerto com o público imparável a dançar à volta dos músicos, com Coquenão mais intimista a falar-nos do projecto nas suas mais variadas vertentes.

É o momento e o contexto. Goste-se ou não destas sonoridades, desta forma é impossível resistir-lhes. Tão bom, que quando se aproximava o final Coquenão defeniu com precisão o que sentíamos: quando a música é boa e está a terminar, rewind and come again.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Comics


Constantine #23: Um pouco do clássico John Constantine transpareceu no final de mais um arco eminentemente esquecível. Simplificar o personagem para o público mais mainstream não trouxe lá grandes resultados e no aquecimento para mais um mega (bocejo) evento da DC fica no ar mais uma renovação do personagem. Enfim. Constantine é demasiado icónico para ir para a prateleira, com aparições fugazes nos comics escritos por argumentistas mais conhecedores, e demasiado iconoclasta para o público juvenil. O fumador desencantado não se coaduna bem com esta renovação como mago que lança raios mágicos dos punhos sempre a salvar o mundo de poderosos arqui-inimigos, e depressa perdeu o gás. A ver vamos o que a editora lhe reserva para a próxima encarnação.


Coffin Hill #16: Já o disse, já o repeti: há um excelente título de terror clássico na Vertigo. Bruxarias, cidadezinhas americanas antigas e creepy com segredos tenebrosos, sobrenaturais assassinos em série, multidões de esqueletos nas florestas e até splatterpunk puro. Coffin Hill tem sido consistente e arrepiante na forma como lida com a iconografia clássica do terror.


Hexed #08: Confesso, fiquei espantado. Até agora Hexed tem sido um banal comic de sobrenatural com artefactos mágicos e lutadores do bem a oporem-se aos arquetípicos maus. Lia-se, é divertido, mas valia mais pela elegância do traço do ilustrador. Até esta edição, em que a heroína decide vingar a morte da sua mentora fazendo precisamente aquilo que o bem nunca faz quando luta contra o mal: assassina os inimigos com extremo prejuízo, num banho de sangue que invocará os piores pesadelos. Curiouser and curiouser, diria Carroll.

sábado, 14 de março de 2015

Sustos às Sextas (III)


Este mês repetiu-se a coincidência simpática desta tertúlia sobre terror decorrer numa sexta-feira 13. Rumar à arquitectura neo-medievalista dos anos cinquenta do século XX no Palácio dos Aciprestes, passar um simpático serão a falar de livros e de terror, e sair de lá sempre com leve depressão cronal. É um ritual, diria.


A opinião era consensual. Este homem invisível que tanto enche o olho, do ilustrador Nuno Duarte, é um dos pontos mais altos da exposição Figuras Clássicas do Terror. A organização do Sustos teve, e muito bem, a ideia de desafiar criadores de BD e ilustradores a recriar ícones do horror clássico. Como já é habitual nestas coisas de desafios aos artistas ligados à BD, o resultado final é de elevado nível, com todos os desenhos a mostrar uma enorme qualidade gráfica. Cá o meu olho foi mais atraído pelo Cthulhu de Jerónimo Rocha que se agigante sobre as naus, mas sou lovecraftiano, por isso muito suspeito.


Menos elogiado pelos visitantes, mas a ilustração de Ana Oliveira foi a que mais me fez sorrir. Esta pobre Medusa incompreendida, desabafando os seus dilemas interiores a um Freud petrificado. Coincidências: nem faz uma semana que revi a cena animada pelo Ray Harryhausen em que Teseu enfrenta a Medusa em Clash of the Titans. E hei de a revisitar para um projecto. Pedagógico, entenda-se.


Finalmente a provar os já icónicos morcegos comestíveis.


Eis João Barreiros, orador convidado desta sessão. Fiel a si próprio, deu-nos uma aula sobre a neurociência do terror recheada de referências à ficção científica. Sai-se sempre de uma conversa com Barreiros com longas listas de livros a descobrir, e esta não foi excepção. Eterno enfant terrible das letras fantásticas portuguesas, foi igual a si próprio. Do meu ponto de vista conseguia-se ver o rosto dos mais incautos e pouco habituados ao estilo de Barreiros a oscilar entre fascínio e um ar de espanto chocado com aquilo que nos contava.


Pelo poder da imaginação, que este novelo de lã se transforme na funesta pata de macaco! Para terminar, leitura dramatizada do conto clássico de horror, tantas vezes referenciado na cultura pop. Momento que teve o seu quê de serão erudito de família. Num evento que conta com António Monteiro, só podia ser algo de profundamente clássico. Nota-se a continuidade da aposta num evento que mistura discussão, troca de experiências, outros olhares e literatura pura. Ou seja, uma tertúlia.

Infelizmente já percebi que saio sempre de lá com uma leve depressão. E porquê, perguntam? Porque depois destas sessões só apetece enrolar-me no sofá com contos de M.R. James e William Hope Hogdson, desempoeirar Lovecraft, ler visceralidades splatterpunk, ir descobrir os autores que se afloram nestas conversas. Infelizmente o tempo anda demasiado sobrecarregado com projectos a que não se pode ou quer dizer que não. Infelizmente sei que não terei tempo de ir visitar estas literaturas sem ser naquele tempo das sextas-feiras assustadoras. Enfim. Estas interrupções provocam depressões cronais. A relatividade e a física quântica ensinam-nos que o tempo é fluído e flexível, mas há tempos em que não se consegue dar por isso. Estas últimas semanas têm sido daquelas em que não chego para as encomendas e o tempo anda escasso para mergulhos no terror clássico. Mas o gostinho está cá...

Partículas de luz



quinta-feira, 12 de março de 2015

The Whispering Swarm


Michael Moorcock (2015). The Whispering Swarm. Nova Iorque: TOR.

Numa entrevista recente Moorcock referiu que este livro será, provavelmente, a última vez que conseguirá tentar fazer algo de novo em literatura. É notável que um veterano de longa idade resista ao conforto dos seus louros e insista em inovar na sua prosa. O resultado é um pouco desconcertante. The Whispering Swarm lê-se demasiado como o Hemingway de A Moveable Feast, embora contada por um exímio fabulista que entretece o fantástico com o real. Boa parte do livro incide num Moorcock auto-biográfico que nos fala e reflecte sobre a sua vida, a sua dedicação à literatura e as aventuras na Londres dos swinging sixties. No meio das muitas histórias da sua vida vai colocando pitadas de sobrenatural, que incrementa gradualmente até ao momento em que o fantástico que tanto desejamos toma conta do livro e coloca de lado a biografia do fabulista.

O romance não tem sido bem recebido pelo público, talvez por ser tão desconcertante e contrariar expectativas. Esperamos algo dentro do fantástico tradicional e sai-nos uma autobiografia fabulista em que a vida real vai perdendo terreno para um imaginário táctil ao longo das páginas. Algo que certamente desagradará aos fãs mais hardcore que estariam à espera de mais umas espadeiradas moralmente ambíguas à Elric ou deslumbres proto-steampunk com Cornelius.

No seu cerne está um mistério sondável, e um conceito fascinante para aqueles que como eu adoram os jogos geométricos do espaço urbano. Moorcock faz situar no centro histórico de Londres um local onde as regras do tempo se alteraram. Atravessar os portões e entrar no quarteirão junto ao rio que designa como Alsacia é entrar num mundo onde passados, presentes e futuros se misturam. Uma espécie de zona franca dos tempos possíveis, onde personagens históricos e ficcionais se mantém vivos para lá do seu tempo. Um local que parece fixo num eterno século XV, completo com casas soturnas à beira-rio, verdadeiras estalagens de taberneiros e um templo nominalmente cristão no seu epicentro. Um espaço isolado do fluir do tempo, mas que não lhe é imune. A arquitectura fixou-se num pós-medievalismo, os habitantes vivem num perpétuo século XV, os personagens das ficções pulp das várias eras partilham canecas de boa cerveja na estalagem, mas os artefactos das eras mais recentes encontram-se nas lojas e o jornal da abadia no centro do quarteirão é impresso nas gráficas da vizinha Fleet Street. Afinal, um jornal é um jornal, porque não ser impresso onde o eram os maiores jornais londrinos?

Em parte, este romance é um hino à cidade, a uma Londres vivida, nostálgica e idealizada, talvez longe do recreio europeu dos super-ricos em que parece estar a tornar-se. Hino à Londres do passado real de Moorcock, entre os swinging sixties, os clubes de música, as redacções dos jornais e revistas por onde passou. E hino à Londres histórica e fabulista, a capturar a imaginação de leitores e escritores.

O lado nostálgico também é perceptível neste livro. A vénia ao pulp clássico, aos heróis dos penny dreadfuls vitorianos ou dos romances juvenis do princípio do século, é muito profunda. Moorcock recupera personagens esquecidos e envolve-se romanticamente com uma aventureira do século XVI, porque, enfim, neste romance a barreira entre a realidade e ficção não existe. Alsacia é um espaço onde a ficção é real. Um dos homenageados é um certo Príncipe Rupert, que Moorcock nunca completa com o óbvio de Hentzau, que viaja pelo mundo em busca de elementos para um artefacto de mecânica cósmica e envolve Moorcock numa atribulada aventura para tentar salvar o pescoço do rei inglês deposto do machado dos algozes do parlamento de Cromwell, aventura cheia de peripécias dignas de Os Três Mosqueteiros. Que, já que os menciono, são personagens que também participam no livro. Refira-se que a homanegem às narrativas aventureiras do passado também é expressa pela própria estrutura do livro, feita de pequenos capítulos que se seguem a bom ritmo e deixam sempre algo em suspenso para ser continuado no seguinte.

Moorcock não faz grande segredo do artefacto guardado pela estranha ordem de monges que, nas suas próprias palavras, não se chateiam que sejam confundidos com cristãos porque isso lhes facilita a vida. Curiosa ordem sincrética, que conta entre os seus membros dispersos muçulmanos, judeus, budistas e hindus. Veneram a essência do divino sem se preocupar com a forma exterior e guardam um velhote quase eterno, um rabi de sabedoria intemporal.

The Whispering Swarm é um livro desconcertante. Não é o que se esperava do autor, com uma mistura entre ficção e auto-biografia que apesar da excelente prosa se torna por vezes cansativa. A veia geográfica, a homenagem à ficção popular de outros tempos e a um espírito mais inocente intrigam os leitores mais conhecedores das referências de que o autor se apropria. É daqueles livros que nos agarra sem que saibamos precisamente porquê.

quarta-feira, 11 de março de 2015

aCalopsia: Eu Mato Gigantes


Joe Kelly, Jm Ken Niimura (2014). Eu Mato Gigantes. Lisboa: Kingpin Books.

Uma história de fantástico juvenil mais profunda do que aparenta ser. Reflecte sobre desafios, dilemas do crescimento e a força que temos de encontrar para os superar. Visualmente inquietante e atraente, recorda-nos também o valor da estética expressiva sobre formalismos estéreis. Mais sobre este livro que recorda bem o que é ser criança no aCalopsia: I Kill Giants.

Fucking Czerny

Numa cerimónia de entrega de disitnções a audiência teve direito àquilo que hoje se tornou a irritante moda de apelidar de "momento musical". Daquelas expressões que me faz arrepelar o cérebro. Quando uma das alunas da escola de música convidada sobe ao palco ouve-se o apresentador a anunciar que iria tocar um prelúdio de Carl Czerny. Esse, o compositor-professor, cujos trechos se tornaram cânone de ensino. The fucking Czerny, pensei. Lembrei-me de Henry Miller. De ler no... Plexus? ou no Nexus? o quanto este lendário escritor detestava os trechos de piano que foi obrigado a aprender quando o que realmente queria era saber de outras coisas. Que coisas? Se conhecem Miller sabem que não é assunto muito apropriado para abordar num momento musical numa escola. Se não conhecem, o que esperam? Suspeito que ficarão surpreendidos com uma escrita que assenta num erotismo visceral mas atinge os píncaros do alto modernismo de cariz surreal. Para mim o melhor de Miller é quando a sua prosa entra em livre associação, em parágrafos de imagética imparável. Curiosas coincidências, pensei, enquanto a rapariga se safava com mestria desta obra para piano e se atirava a Beethoven. Faz sentido. Estava numa escola, em contexto de pedagogia, só poderia ter de ouvir the fucking Czerny.

terça-feira, 10 de março de 2015

A Louca do Sacré-Coueur


Moebius, Alejandro Jodorowsky (2015). A Louca do Sacré-Coueur. Oeiras: Levoir.

Um filósofo de meia idade, óbvia caricatura dos super-académicos e pensadores da França moderna, debate-se com um problema ético: deverá ceder às tentações da carne e envolver-se com uma aluna que lhe confessa a sua paixão? No meio de um divórcio humilhante, cede... e aí começam os problemas. A aluna leva os seus ensinamentos místico-filosóficos demasiado a sério, e vê no filho que gera do filósofo um profeta de um novo misticismo quase cristão. Envolve-o com um ex-muçulmano que venera a filha louca de um traficante colombiano que se julga uma maria e acaba por se transmutar numa jesus andrógina. O nosso pobre professor conhece a ruína, descobre que o medo lhe provoca ataques de diarreia, mergulha na insanidade mística dos alucinados que, unidos a um poderoso cartel de traficantes, assumem proporções revolucionárias, e acaba por se renovar num êxtase místico propiciado por cogumelos alucinogénicos. As tropelias hilariantes sucedem-se, imparáveis.

Os fãs dos misticismos cósmicos e das comédias descontroladas adorarão esta obra que é corpo estranho no corpus destes autores. Fica-se com a sensação de que as desventuras deste elevado filósofo, alimentadas por sexo e misticismo, são Moebius e Jodorowsky a rirem-se de si próprios. O ilustrador assina como Moebius mas desenha como Giraud, numa série de livros cuja estética anda muito longe dos devaneios do fantástico que lhe associamos, mas muito próxima do realismo sintético de Tenente Blueberry. Sente-se esta ironia com especial acutilância no argumento. Jodorowsky é adepto místico e de filosofias sincréticas, e através do registo de humor ironiza consigo próprio. Elementos que são encarados como sérios nas suas outras obras aqui são levados ao absurdo. Dois mestres, a rirem-se de si próprios, sorrindo e afastando os véus da imponência do seu estatuto.

Uma nota: esta edição da Levoir, para além de ser a primeira tradução portuguesa deste trabalho talvez menor destas lendas da bande dessinée, publica a integral dos três álbuns.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Comics


Descender #01: Que Jeff Lemire dá cartas na ficção científica já se tinha percebido com o excepcional e experimental Trillium para a DC/Vertigo. Agora na Image lança esta ambiciosa space opera misturando o clássico império estelar ameaçado por forças incompreensíveis com uns laivos de temor robótico com o seu quê de Supertoys Last All Summer Long de Aldiss e Dune (cujo mundo ficcional, recordem-se, envolveu uma revolta contra a tecnologia de inteligência artificial). A tela é grande e o argumentista ambicioso. Depois desta, tenho de dar o braço a torçer: o melhor da FC contemporênea encontra-se não no cinema ou na literatura, mas na banda desenhada, que consegue aliar o vanguardismo dos conceitos literários à espectacularidade visual.


The Names #07: Torna-se notório que Pete Milligan anda a despachar o policial procedimental que forma uma das vertentes da série. Porque, compreende-se, mais uma história de homicídio e vingança é algo de muito corriqueiro. E as outras linhas narrativas são mais interessantes. A élite de financeiros habitualmente ocupada a maximizar lucros a qualquer custo que se vê forçada a combater inteligências artificiais predadoras que lançam ataques aleatórios sobre a economia é indubitavelmente mais intrigante. E verdadeiramente interessante é a premissa das inteligências artificiais em si, talvez traduzivel por uma quase autista personagem da série. É este o elemento-charneira que Milligan está, finalmente, a aprofundar, depois das habituais tropelias de violência homicida.


Nameless #02:Bolas, pensei quando me apercebi que não dei pelo tempo que demorei a ler este segundo Nameless. Grant Morrison está num auge da sua capacidade narrativa nesta série. O ritmo é fortíssimo, e o menu conceptual de uma diversidade alucinante. Ultra-bilionários que se aliam para estimular a exploração espacial para salvar o planeta de um cometa, que se revela ser um fragmento de um antigo planeta do sistema solar aniquilado no passado remoto, cuja superfície encerra hieroglifos enoquianos, com a queda dos anjos nos infernos revista como um conflito galáctico? Drones de telepresença, bases lunares, artefactos alienígenas, possessões e no meio deste turbilhão um ocultista mal humorado. Fora dos espartilhos das editoras mais mainstream Morrison vai constantemente além dos limites.


Swamp Thing #40: A culpa disto é do Alan Moore, que reviu o Monstro do Pântano como avatar da força elementar do verde. Charles Soule tem abusado muito bem do conceito, criando um avatar para a consciência digital que tem nesta edição um final irónico do arco narrativo do seu surgimento. Digamos que depois de perder o confronto com o Monstro do Pântano acaba aprisionada num aibo para aprender e ganhar maturidade. Soule não se ficou por aqui e decidiu dar protagonismo ao mundo das ideias, a encarnação da força natural da criatividade representada pela palavra. Belíssimo conceito, com o seu quê de Borgesiano, a recordar a inflexão literária que Moore também introduziu nas aventuras do personagem.

domingo, 8 de março de 2015

Works in Progress


Estas últimas semanas têm sido algo sufocantes, mas pelas melhores das razões. O tempo para leituras tem sido escasso, que isto entre andar a preparar textos para apresentações, exposições para recepção de prémios, dominar a impressora 3D fazendo com que as crianças imprimam os seus projetos, terminar uma acção de formação onde o meu ego de formador torturou vinte professores, mergulhar na teoria cinematográfica à séria com uma formação interessantíssima do Plano Nacional de Cinema, graças à qual a minha tendência para analisar os filmes que vejo ainda vai ficar pior, e as mil e uma coisas do meu dia a dia que tem dias que parece mesmo um cartoon do XKCD.


Este. Salvaguardado as devidas distâncias, claro. Mas aquela sensação de se chegar à escola vindo de receber um prémio sobre uso inovador de tecnologias e levar com colegas que me descrevem extensivamente os seus dilemas com o PowerPoint, ou resolver um dos inúmeros fogachos que os sistemas de backoffice têm, yep, já a vivi.


Das coisas giras que me têm acontecido nos últimos dias é ter participado nas cerimónias de entrega de prémios que projectos que dinamizo receberam. Eis-me de stand de animação 3D, VRML e 3D Printing no teatro Thalia para receber o prémio Inclusão e Literacia Digital. Prémio que confesso que não lhe dei grande importância quando soube que tinha sido um dos distinguidos, mas depois de perceber que o meu projecto foi um dos dois vindos de escolas, distinguidos em conjunto com centros de competência, universidades e politécnicos, empresas e câmaras municipais, naquela que foi a primeira edição destes prémios... bolas, penso, isto afinal tem importância.


O outro prémio recebido nesta semana foi o de desenvolvimento do concurso de ideias Ciência na Escola. Que, vítima dos algoritmos das redes sociais, despertou uma onda de likes e parabenizações que me deixou relutante em desiludir os gostadores com a informação que apesar da pompa, este prémio tem pouca importância. É atribuído a todos os projectos que passam à fase de desenvolvimento. O que dinamizo é um de trezentos. Traz a vantagem de ter um apoio financeiro directo para a escola, que nos dias que correm aproxima-se do simbólico quando se quer implementar um projecto complexo, mas não é de desprezar. Custeará muito rolo de filamento para a beethefirst.


Na cerimónia de entrega dos prémios de desenvolvimento do Ciência na Escola - Fundação Ilídio Pinho, no auditório da escola secundária Vergílio Ferreira. Aquele sorriso de tive de explicar um pouco de impressão 3D a um engenheiro que digamos que é uma personalidade controversa do mundo da educação. "Controversa" é um epíteto simpático. O projecto em si será a modelação em 3D de brinquedos tradicionais por alunos de sexto ano, e talheres adaptados a crianças com NEE por alunos de sétimo, com prototipagem por impressão 3D.

Nenhuma destas distinções existe só porque sim. É o resultado da confluência do esforço dos meus alunos, do bom ambiente de trabalho que tenho na escola, coisa rara nos dias que correm, e dos esforços de divulgação que faço em contextos académicos e redes sociais. Sabe bem recebê-las, mas recuso-me a esquecer que são passos em frente e não fins em si. Não resisto, com alguma vaidade, a mostrar uma pontinha de orgulho, mas não é isso que irá passar a definir-me. Até porque nunca tive paciência para os one hit wonders ou para aqueles que destacam no seu currículo aquela única vez em que foram distinguidos por algo que fizeram. Cada dia é uma nova aventura e matutar constantemente no dia que passou não é saudável. Fica este post babado para a posteridade, mas não se preocupem que não me vou tornar aquele tipo chato que vos está constantemente a recordar que recebi uns prémios importantes.

Olho para estas placas e diplomas, e não penso que orgulho. Penso e agora, qual será o próximo desafio?

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... if that's all there is, then let's keep dancing...