quinta-feira, 28 de maio de 2015

Dylan Dog: L'imbalsamatore; Il Divoratore di Ossa.



Pascuale Ruju, Luigi Piccatto  (2011). Dylan Dog #301: L'imbalsamatore. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma história tétrica, sobre um cirurgião que desenvolve uma técnica perfeita de embalsamento. Tão perfeita que recupera o saber alquímico de antanho para manter vivo o cérebro dentro dos corpos preservados. Obcecado com a falecida mulher, que preservou imutável, vai acumulando cadáveres embalsamados dentro de uma fábrica abandonada, que converteu numa eterna soirée social onde mortos com uma faísca de vida estão condenados a uma aparente eternidade de fraque, vestido de noite e flute de champagne. Toda aquela energia negativa acumulada transmuta-se numa epidemia de assassinatos horríficos, que irá envolver Dylan neste mistério. A sequência inicial da atrocidade no metro londrino está brilhante. Distingue-se pelo traço do ilustrador, mais arrojado e expressivo do que o habitual no fumetti.


Giovanni Di Gregorio, Giampiero Casertano (2011). Dylan Dog #303: Il Divoratore di Ossa. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma aventura muito directa do Old Boy. Até porque a capa de Angelo Stano não deixa grande margem para dúvidas. Desaparecimentos misteriosos nas obras de trasladação de um cemitério abandonado revelam um segredo medonho: é habitado por um ghoul, criatura pacífica que nada mais quer do que roer os ossos dos mortos esquecidos mas que reage à destruição do seu habitat natural. Este ghoul é também, de forma pungente, o único amigo do envelhecido ex-coveiro deste cemitério onde os falecidos foram há muito esquecidos. Torna-se interessante pela ilustração, que se vale e bem da atmosfera soturna dos cemitérios abandonados. Casertano divertiu-se com a iconografia gótica e dá-nos vinhetas atrás de vinhetas de campas em ruínas, cenotáfios desertos e espectros arrepiantes. É série B gótico clássico até ao fim.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Dreaming 2074


Xavier Mauméjean (ed.) (2014). Dreaming 2074: An Utopia Created By French Luxury. Comité Colbert.

Uma antologia curiosa, que recupera a ficção científica como apontador de tendências em especulação informada e direccionada. Tem o seu quê de design fiction. Encomendada pelo Comité Colbert, um think tank que reúne as maiores empresas francesas da área dos produtos de luxo, revê a ideia de luxo à luz da ficção científica. Reunindo contos, peças musicais e ilustrações de autores franceses, centra-se num mundo pós-escassez com o problema da sobrecarga sobre o planeta resolvido com uma pandemia global. Tem um mundo ficcional partilhado, embora não seja algo aparente à primeira vista. Apenas em detalhes tecnológicos nos apercebemos que o universo ficcional tem mais pontos em comum do que ter o luxo como tema. É pervasivo o ponto de vista individualista, com forte integração da tecnologia no espaço íntimo do indivíduo. Ênfase no elitismo meritocrático de aparência benévola.

Antologia curiosa, mas que incomoda. Começa logo pelo tema, largamente removido da realidade da maioria. Estamos a falar do elogio dos píncaros rarefeitos do alto luxo, da celebração das sensações obtidas por ser detentor do inatingível. Mais preocupante ainda, resolve o óbrio problema das desigualdades de uma forma particularmente tétrica. Sabemos que uma utopia de perfeição luxuosa traz consigo a inevitável pergunta de saber o que acontece aos mais pobres. Neste mundo ficcional a coisa resolve-se com uma pandemia global. Sim, leram bem. Uma utopia futura de elegância e prosperidade constrói-se depois de se eliminar a maior parte das massas infectas de humanidade sem mérito. Algo muito incómodo de ler nestes tempos de manigâncias financeiras alastrantes, austeritarismos e meritocracias que se assumem como legitimadoras de democracias autocráticas. Afinal, esta especulação foi encomendada por casas de produtos de luxo. Estas conhecem bem a mentalidade dos seus clientes.

Lida como design fiction, a antologia tem os seus méritos. É uma utopia suave, elegante, misturando tecnologia com sensações únicas. Mas o modo de pensamento que a enquadra é fortemente incómodo. A antologia está disponível para leitura gratuita em vários formatos em Dreaming 2074.

Porphyrian Tree: No conto de Xavier Mauméjean a pergunta central é qual o maior dos luxos para aqueles que já têm tudo. A resposta está nas experiências, e o personagem principal deste conto é um dos melhores do mundo a criar experiências transformativas que melhoram a vida dos seus clientes, mostrando-lhes que apesar da sua riqueza há emoções. O seu maior desafio é uma recompensa, proposta pelas autoridades de saúde mundial, a uma artista que nos tempos mais tenebrosos de uma humanidade assolada por pandemias globais conseguiu dar esperança. Um conto que vale mais pela ambiência limpa e elegante de um futurismo luxuoso (essencialmente, o foco deste livro), com cidades lustrosas, elegância tecnológica e rápidas redes de transportes aéreos e ferroviários a transportar a meritocracia com todo o conforto por todo o globo.

Amber Queen: Vinho é o tema luxuoso de Olivier Paquet, que cruza a longa tradição vinhateira francesa com as exigências do mercado financeiro e a coligação entre intuição humana e inteligência artificial. A enóloga responsável pelas castas de uma casa vinhateira centenária apoia-se numa inteligência artificial simbiótica para perceber as potencialidades do vinho que produz. Ao reformar-se, decide legar a intuição artificialmente aumentada a todos os que beberem o vinho produzido pela vinhateira. Um conto que aproveita o tema do luxo para apontar um caminho curioso de integração homem/inteligência artificial em que o objectivo é a simbiose, com as valências humanas e digitais a socorrerem-se uma da outra.

Facets: O modo como vestimos diz muito sobre a nossa personalidade e emoções do momento. Neste conto de Samantha Bailly, a premissa recai sobre um tecido cujas cores e padrões se metamorfoseiam em tempo real de acordo com a biologia das emoções de quem os veste. A sua criadora junta moda e neurociência, depressa conquistando os escalões mais rarefeitos do mundo da moda de luxo. Mas sente que lhe falta algo, uma componente artística, e ao juntar forças com uma casa de alta costura tradicional atinge, finalmente, a simbiose entre tecnologia e perfeição artística com um vestido que mistura a luxúria dos materiais classicos com as possibilidades da biotecnologia.

Diamond Anniversary: Jean-Claude Dunyach, um dos veteranos da FC francesa, dá-nos uma jóia do conto. Ironia intencional. Nela, o herdeiro de uma casa de alta joalharia descobre que o segredo ancestral da família está ligado ao seu maior sonho, o ser astronauta. Um curioso conto sobre a luxúria das pedras preciosas e a possibilidade de minerar asteróides para extrair pedras raras.

A Corner of Her Mind: O conto de Anne Fakhouri mistura intriga empresarial com meios tecnológicos que permitem ler pensamentos, na busca de uma casa de peles de luxo pela manutenção da superioridade tecnológica nos seus produtos.

The Chimeras’ Gift: Há um toque demasiado óbvio de Cinderella neste conto de Joëlle Wintrebert que encerra a antologia. Centra-se numa bióloga ao serviço de uma casa de peles de luxo que vende um produto único, peles de quimeras, criaturas saídas do laboratório de uma bio-engenheira genial que misturando genes de focas e leões marinho cria seres capazes de mudar de pele, permitindo peças únicas sem matar animais. A relação entre esta e a gerência da casa degrada-se e a jovem bióloga é obrigada a invadir o laboratório da bio-engenheira. Tudo se resolve quando a filha autista da bióloga se mostra capaz de interagir com as quimeras e o filho da presidente da empresa intervém de forma romântica.

Para encerrar o livro Alan Rey cria um glossário de neologismos futuristas ligados ao luxo e às sensações que desperta.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Novas estéticas


Duas experiências estéticas que tocam, cada qual à sua forma, neste pulsar eléctrico-digital dos primórdios do século XX. A primeira surgiu-me no radar cortesia do Virtual Illusion. Vídeo publicitário para a marca de lingerie Coco de Mer, é deslumbrante e luxurioso no seu visual. Sensual e hipercinético, deslumbra com a justaposição acelerada de imagens de grande beleza em alta resolução, com as obrigatórias mas perfeitas desfocagens, desenquadramentos e efeitos glitch. Tem aquela perfeição de alta definição que associamos a um digital de pureza cirúrgica. Quase ballardiano na frieza da sua beleza.


No outro extremo da estética digital surge este vídeo para Double Bubble Trouble, da rapper britânica M.I.A.. Este explode com a estética internet, de video-memes, gifs gritantes, justaposições aleatórias a revelar uma fortíssima inspiração nos recantos mais radicais da net art. O seu visual caótico, de subúrbio deprimido de betão decadente, vive numa espécie de continuum thug life com Arduino, drones a pulsar com luzes de neon e impressoras 3D. É cultura urbana crua, de transgressão em busca de afirmação, onde o culto da arma se cruza com a impressão 3D e estilo burka chic da colisão entre a europa islamizada com a expressão do individualismo. 1984 is now e Yes we scan são os gritos deste pulsar dos realmente nativos digitais, utilizadores sabidos e desconfiados da pureza das stacks do mundo digital.

As similaridades entre estes dois vídeos são intrigantes. Se um é planificado até à perfeição, o outro é aparentemente desconexo e assumidamente grotesco. Ambos usam a mesma estética saturada que grita don't worry, m'am, we're from the internet. Mas se Coco de Mer nos dá a elegância de alta resolução da estratosfera do mundo digital, M.I.A. colide tecnologia com as ruas. Como observou William Gibson, the street finds its own uses for things.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Comics


The Fade Out #06: Depois de Fatale, este regresso de Brubaker e Phillips ao crime noir tem o seu quê de insosso. Falta-lhe o elemento weird que deu à série anterior a sua genialidade. Esta é aquilo que esperamos e conhecemos destes autores, num registo de policial com toques de Black Dahlia, vícios e depravações de Hollywood, sem esquecer as intrigas das depurações ideológicas da era McCarthy. Sean Phillips sabe o que está a fazer e apostou num visual iconográfico, que puxa pela nostalgia do cinema clássico, justapondo figuras larger than life aos comuns mortais.


Kaptara #02: Ainda estou para perceber onde é que Chip Zdarsky quer chegar com esta coisa estranha. Começa com a mais clássica das premissas de Ficção Científica, a expedição planetária arrastada por uma anomalia cósmica para partes desconhecidas, e mergulha-nos num mundo que pode ser melhor descrito como uma colisão alimentada a drogas psicadélicas das piores e mais ridículas séries de desenhos animados infantis de fantasia dos anos 80. Se esta imagem ainda vos deixa na dúvida, digamos que o vilão da narrativa se chama Skullthor. É difícil ser mais explícito do que isto, mas Zdarsky é-o, com um príncipe descrito como as bright as a black hole pela própria mãe, uma rainha claramente apaixonada pelo seu capitão da guarda real, cuja armadura veio decalcada de Flash Gordon. Do adorável mau filme dos anos 80, não da série clássica. Já o herói é um terrestre que se está nas tintas para salvar a Terra da ameaça da frota espacial de Skullthor (yep, este nome.. faz lembrar qualquer coisa, não faz?) e é servido por um atento robot servidor capaz de qualquer serviço excepto recordar-se do nome do seu amo. Suspeito que o argumentista esteja a exorcizar traumas de demasiadas horas a ver He-Man and the Masters of the Universe quando era criança. E traumas infantis são dos mais difíceis de ultrapassar.


Trees #09: É Warren Ellis, e para mim Ellis é maior que deus. Incrível, a forma como sente o pulsar da modernidade transformativa resvalante e a consegue transmutar para as suas histórias. Notem bem esta sequência, a forma como consegue integrar as correntes discussões sobre as problemáticas e potencialidades dos veículos robotizados. Sem infodumps didácticos, inserido na normalidade do mundo ficcional, mas a cristalizar quer as especulações quer a investigação mais recente sobre o tema. Se Ellis não for o argumentista mais pertinente da contemporaneidade, um William Gibson dos comics, não sei quem será.

sábado, 23 de maio de 2015

Verde frio




Porque a estufa quente estava fechada. A Estufa Fria continua a ser um daqueles recantos mágicos de uma Lisboa mais discreta.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Matérias


Entre finalizar de projectos e secretariado de exames e provas finais o tempo tem sido escasso nestes últimos dias. Faz parte das atribuições. Este, o Matéria Digital, está concluído. Bem, quase concluído. Falta ainda imprimir alguns dos objetos. Quando se passam quatro dias de volta de listagens e centenas de provas não sobra tempo para imprimir. Entretanto o ano lectivo vai terminando e outros projectos vão finalizando, enquanto se preparam novas iniciativas para arrancar no próximo ano. E não está esquecido o desafio que o Que a Estante nos Caia em Cima fez. Malandro. Sabe bem que fantasia é estigma para estes lados...

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Over The Top: Alternate Histories Of The First World War


Peter Tsouras (ed.) (2014). Over The Top: Alternate Histories Of The First World War. Barnsley: Frontline Books.

História alternativa é habitualmente terreno fértil para especulações informadas de autores de ficção científica e fantástico. O curioso neste livro é serem historiadores que sem se afasterem do rigor histórico e analítico se atrevem a especular sobre o que teria acontecido na I guerra se personalidades históricas tivessem agido de forma diferente ou decisões cruciais tivessem tomado outra forma. O que resulta não são aventuras em visões temporais alternativas, mas relatos estruturais que delineiam outros caminhos possíveis da história. Sabemos como se desenrolou na realidade de um passado sangrento, de violência incompreensível. Há nestas visões algo de pensamento desejoso por uma alternativa à carnificina da guerra das trincheiras, em direcção a uma visão mais clássica da guerra como de grandiosos movimentos, batalhas decisivas e não campos ensopados de sangue e cadáveres pelas máquinas mortíferas que se paralisam durante anos a fio.

Estas especulações ganham plausibilidade à luz dos factos históricos. Olhando para o passado pela lente do futuro, percebemos como alguns momentos decisivos poderiam ter forjado outros eventos. É nesse aspecto que as possibilidades traçadas neste livro se debruçam muito bem.

E se...

- No dealbar da I guerra o Plano Schlieffen, que obrigava a Alemanha a invadir a Bélgica para derrotar a França a tempo de virar os seus exércitos contra a invasão russa, não tivesse sido posto em prática, tendo o alto comando optado por reforçar a fronteira franco-germânica e enviado o grosso das forças forças para a fronteira russa? Teria sido a França a invadir a Bélgica, e parte do casus belli que mergulhou a europa na guerra, a violação da neutralidade belga, teria ocorrido de forma diferente. Com os ingleses neutros, os alemães na posição de atacados e russos e franceses rechaçados, a guerra termina depressa. Sem derrota, a Alemanha não irá ser terreno fértil para o nazismo, e a guerra curta não dá tempo aos bolcheviques de derrubarem o Czar. E tudo anda à volta de um pormenor táctico, que poderia ter acontecido. A decisão fatal de meter em marcha o plano Schlieffen poderia ser evitada senão pelo excessivo rigor do alto comando, inflexível a meter em marcha um dos planos possíveis de combate.

- Na batalha de Ypres, o recém-chegado corpo expedicionário britânico tivesse sido esmagado pelos exércitos alemães, dando-lhes uma vitória esmagadora que terminará a guerra em 1916?

- Para colocar de joelhos o império otomano o general inglês Kitchener apostasse numa incursão decisivia no porto turco de Alexandretta, apoiado por forças coloniais que colocam a ferro e fogo o levante?

- E se Venizelos, o agressivo primeiro ministro grego, tivesse conseguido convencer o rei a alinhar com os aliados desde a primeira hora? As experientes forças gregas, endurecidas pelas guerras dos balcãs, aconselham os generais franco-britânicos sobre as realidades de um desembarque em Gallipoli e, liderando brilhantemente as várias ofensivas sobre o império otomano, reconquistam Constantinopla.

- Com um aguerrido Teddy Roosevelt na presidência americana, a política externa não segue o isolacionismo de Woodrow Wilson. Esticando os limites da sua indústria para armar um pequeno exército em expansão, os Estados Unidos desembarcam em França e tomam conta do sistema de fortalezas de Verdun, onde apesar da sua inexperiência revelam combatividade capaz de inflingir pesadas derrotas aos exércitos alemães.

- A batalha da Jutlândia tivesse terminado com uma derrota decisiva da frota de alto mar alemã? Na história real a vitória inglesa foi pouco decisiva, com o grosso dos navios de guerra germânicos a escapar incólumes, refugiando-se nos portos sem se atreverem a mais acções decisivas. Nesta visão, as tácticas almirante Jellicoe metem a pique os mais portentosos navios capitais da frota de alto mar alemã.

- A incompetência dos generais russos na I guerra tornou-se quase lendária pela forma como desperdiçaram as massas humanas que tinham ao seu dispor e foram rechaçados pelos alemães e austríacos. Nesta hipótese, um primeiro ministro russo determinado promove os oficiais mais capazes aos comandos da Stavka, permitindo ao general Brusilov lançar uma ofensiva inesperada na frente austro-húngara que em poucas semanas obriga Viena a suplicar pela paz.

- A batalha do Somme ficou para a história como uma das mais sangrentas da I Guerra. Neste cenário, uma mudança nas tácticas utilizadas pelo BEF permite aos soldados britânicos alcançar os seus objectivos militares sem a carnificina da batalha real, mas as condicionantes logísticas e falta de experiência dos comandantes em campo não asseguram vitórias decisivas.

- Os tanques foram uma das inovações da tecnologia bélica trazidas pela I guerra, mas as suas experiências nos campos de batalha não foram especialmente decisivas. Mas e se, em vez de utilização pontual em ofensivas clássicas, as forças francesas e inglesas mantivessem em segredo total o desenvolvimento dos carros de combate e os largassem numa ofensiva massiva apenas quando já dispunham de um número muito elevado destas máquinas de guerra?

- Para terminar, um e se...? mais tenebroso. Imagina os bombardeamentos alemães com Zeppelins e Gothas mais intensos do que realmente foram, com um precursor do Blitz sobre Londres que revolta as populações. Após a morte do primeiro-ministro britânico às mãos de uma turba revoltosa depois de um bombardeamento alemão, as rédeas do poder são entregues a um barão dos jornais, que suspende as liberdades e garantias, faz desaparece as vozes políticas críticas e mergulha o Reino Unido num proto-fascismo de punho fechado.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O Mandarim


Eça de Queirós, O Mandarim.

Devo começar por confessar que até agora não tinha lido este texto clássico da literatura portuguesa. Vergonhoso, bem sei, e culpo o desleixo na obrigatoriedade que tive de ler os grandes autores no liceu que me deixou traumatizado. Mesmo quando anos mais tarde os redescubro, sinto sempre aquele peso do ler por imposição e não por curiosidade e descoberta. Ridículo, eu sei, mas prefiro gastar dinheiro em livros do que em sessões de psicoterapia para resolver este trauma. Desafiado pela sessão sobre Ficção Científica no Livros a Oeste, decidi pegar neste clássico encantador e acutilante.

Sendo livro de um autor canónico, é daqueles que nem me atrevo a dissecar. Outros, mais conhecedores e melhores analista que eu, já o fizeram em inúmeros artigos e teses. Fico-me pelo salientar de aspectos que me surpreenderam e intrigaram.

O primeiro aspecto que me surpreendeu, e não deveria, é a força das palavras de Queirós. Sentimo-nos levados para o interior de uma narrativa que não perdeu a sua força. As descrições vívidas fazem sentir que estamos com os pés bem assentes a calcorrear a Lisboa do final do século XIX. O outro aspecto está na impiedade queirosiana. De todas as personagens talvez aquele que seja mais honesto seja o diabo de fraque. Pelo menos desse sabemos à partida o que esperar. Os restantes, apregoando de alto as suas boas intenções e morais incorruptíveis, são volúveis e facilmente corrompíveis. Teodoro, o escriturário que com o tilim tilim da campaínha irá matar o distante mandarim e herdar a sua vasta riqueza, com o seu quê de ingénuo, tem nos remorsos e tentativas de redenção do crime que cometeu para saciar as suas ambições de fama e riqueza um lampejo moral. Nada disso é aparente nos que o rodeiam, sequiosos pelo dinheiro e influência, prestáveis aduladores do estatuto conferido pela riqueza. Nisso, tal como muito do que Queirós escreveu, esta pequena fábula de fantástico mantém-se actual no retrato que faz de lados imutáveis que perpassam o espírito dos tempos.

O terceiro aspecto tem a ver com o lado fantasista, de literatura fantástica, desta obra. Temos polidos e elegantes demónios, uma acção impossível que se traduzirá em consequências inesperadas, e uma viagem orientalista que trai o fascínio dos finais do século XIX pela chinoiserie. Fábula moral, revê os pressupostos sociais sob a lente colorida do fantástico.

Sendo obra em domínio público podem encontrar versões digitais gratuitas e legais deste livro. Li a do Luso Livros, apesar de ter de a reconverter no Calibre porque a codificação original fixa o corpo da letra no tamanho mínimo e não permite ampliação. Nada que uma reconversão não resolva, mas fica o aviso para que for descarregar e ao tentar ler deparar com letra de corpo 1.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Dylan Dog #182: Safarà


Pascuale Ruju, Giovani Freghieri (2001). Dylan Dog #182: Safarà. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma série de mortes sangrentas parece estar ligada a um fotógrafo medíocre que, estranhamente, alcança o sucesso com fotos de belas modelos. Nós, leitores, conduzidos pela mão de Sclavi que traçou as linhas gerais do argumento de Ruju sabemos que há algo mais do que um fotógrafo com tendências de assassino em série. Até porque não é ele que causa as mortes. Há uma força milenar à solta, que toma conta de uma agente de modelos enfraquecida pela sua beleza desvancente, força essa que está interligada com a máquina fotográfica que deu ao fotógrafo todo esse sucesso. Uma máquina que adquiriu quando, desesperado por dinheiro, vendeu a sua máquina moderna e comprou esta mais antiga numa misteriosa loja habitualmente oculta nas ruas de Londres. É uma história clássica, que nos leva por diferentes caminhos enquanto tentamos adivinhar quais as causas da assombração. Há mistérios, monstros, mortes sangrentas e um puzzle final, resolvido com o nome da loja que Dylan conhece bem e onde o incauto fotógrafo compra a funesta máquina: Safarà.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Comics


Coffin Hill #18: Depois desta imagem, ainda restam dúvidas que este é o comic mais creepy actualmente editado? Os argumentos são convolutos e Kittredge espreme bem um conceito clássico, de uma família de bruxas numa cidade pequena da Nova Inglaterra, com um toque visceral inesperado. Tem-nos dado momentos arrepiantes, sem cair na visceralidade bacoca de comics que abusam do sangue e das tripas para pretender ser chocantes. Coffin Hill mantém um delicado equilíbrio entre o horror clássico, o terror psicológico e a alucinação sangrenta.


Harrow Country #01: Confesso que tenho alguma dificuldade em dissociar este comic de Coffin Hill, apesar da Dark Horse o designar como a southern gothic fairy tale. A geografia desloca-se das névoas da Nova Inglaterra para os calores do mítico sul norte-americano de Faulkner, mas o esqueleto da premissa está lá. Cidade pequena e isolada, bruxas vingativas que amaldiçoam os seus habitantes, jovem rapariga que herda um pesado fardo sobrenatural, eventos misteriosos e arrepiantes. Diria que todos os itens da lista foram devidamente verificados. Sabe a clone, mas a clone bem feito, e este primeiro capítulo intrigou. Vamos ver como prossegue.


Injection #01: Para terminar esta triologia de imagens sangrentas saídas dos comics da semana (garanto que não foi intencional), eis a forma como Warren Ellis encerra o primeiro Injection, com um toque hilariante de humor g33k no seu mais macabro. Para perceberem bem a piada digamos que a personagem é uma hacker de élite chamada a fazer apoio técnico informático. O comic revela-nos Ellis em modo de avalanche apocalíptica, com memes arcanos de hipermodernidade a colidir com o real e o habitual grupo de aspergers funcionais altamente qualificados com ligações cognitivas íntimas ao que causa as colisões. Um tema recorrente na obra deste autor, que o aproveita muito bem para nos transmitir as batidas que sente do pulso da modernidade contemporânea. Ficamos a saber muito pouco neste primeiro número, implicando que estamos a ser preparados para jogadas narrativas a longo prazo. Sabemos que o século XXI está corrompido e o resto promete ir ainda mais longe do que Trees no niilismo catastrófico. Nos argumentos de Ellis a força das ideias estranhas que navegam nas fímbrias do futurismo esmurra a modernidade, e de Injection esperam-se muitas mazelas.

aCalopsia: Solomon


Carlos Pedro (2014). Solomon.

Novo texto no aCalopsia, sobre este livro e um gato que nos parece frágil e zarolho, ele vê mais além do que o que nós conseguimos ver. Solomon, felino preto de ar frágil e sem um olho vigia a cidade contra ameaças vindas de outros mundos, dá fôlego a um livro que se lê mais como exercício de estilo do que obra narrativa, com forte influência da estética manga. Crítica completa no aCalopsia: Solomon de Carlos Pedro.

domingo, 17 de maio de 2015

Insta



Contrastes.

Outras Literaturas: Ficção Científica


João Barreiros, Lauren Beukes, Fátima Vieira e Fábio Fernandes no auditório 3 da Gulbkenkian.

Saí da Gulbenkian com a sensação que ficou a faltar qualquer coisa. Não me interpretem mal. A sessão sobre ficção científica promovida como parte integrante do festival Próximo Futuro foi uma conversa muito interessante ue juntou três autores, o brasileiro Fábio Fernandes, o português João Barreiros e a sul africana Lauren Beukes, moderada por Fátima Vieira. Barreiros, eterno enfant terrible da literatura de FC portuguesa (sempre que posso uso isto para o qualificar), dispensa apresentações. Fernandes é escritor, docente e tradutor, e Beukes argumentista e escritora com um livro, Zoo City, distinguido com um prémio Arthur C. Clarke. Fátima Vieira dedica-se ao estudo e análise de utopias, campo próximo da ficção científica. O Próximo Futuro ainda incluiu paineis sobre Banda Desenhada, ao qual não pude ir por calhar em horário lectivo, e literatura Policial sob o tema Outras Literaturas.

Parece estranho estar num colóquio com estes quatro grandes nomes ligados á literatura fantástica e sentir que algo de importante ficou para trás. A conversa foi rica e interessante, mas faltou olhar para a estrutura, reflectir sobre o porquê da importância da FC como género literário, a sua pertinência face à modernidade contemporânea. A moderadora ainda tentou levar a conversa por outros caminhos, sublinhando os aspectos sociais, mas o fluxo seguiu mesmo a partilha de experiências, o enumerar de livros, o deslumbre com as ideias galopantes, intrigantes e bizarras da FC. O que é sem dúvida interessante, especialmente com um Fábio Fernandes muito comunicador, João Barreiros igual a si próprio, espremendo prazer no chocar a audiência (como habitual, as expressões faciais de quem não está preparada para seu o estilo muito próprio de comunicação são de surpresa com toque de repelência descrente e Vieira não foi excepção). Lauren Beukes, por nos trazer a realidade trans-nacional do mundo anglófono, tocou em aspectos importantes patentes na sua obra sobre igualdade de géneros, desequilíbrios sociais gritantes, afro-futurismo e o impacto cognitivo de um presente que em muitos aspectos ultrapassa as mais bizarras especulações. Look, we have robots - drones, bombing people in the skyes, it's insane! I could never predict that in my book, disse. Apesar de interessante pela perspectiva global e pelo contexto em que estava inserida, não foi, fundamentalmente,  uma sessão muito diferente das inúmeras sessões de apresentação de livros onde os autores discorrem em grande detalhe sobre o seu trabalho esquecendo por completo o contexto maior em que estão inseridos. Inúmeras, mas nunca suficientes, digo eu como inveterado leitor.

Se calhar estou a ser demasiado exigente. Mas sinto, talvez por trauma meu, que a Ficção Científica requer uma quase constante legitimação externa, que mostre aos que a desconhecem e desdenham como entretenimento escapista a importância que nós, fãs e leitores, nela intuímos. A FC é campo privilegiado de reflexão sobre o papel da ciência e tecnologia,  de especulação informada sobre as linhas estruturais quase invisíveis que torneiam as modernidades contemporâneas (e a já longa história da FC passou por várias contemporaneidades), das transformações sociais e humanas trazidas por um mundo onde os atefactos tecnológicos fizeram explodir as possibilidades ao alcance dos nossos dedos, da busca prometeica e algo utópica pela contínua expansão das fronteiras do que sabemos. O seu amplo espaço de imaginário possibilita ferramentas únicas de analise, extrapolação e especulação informada. Talvez, creio, a melhor forma de comprovar esta intuição óbvia para os fãs conhecedores do género não seja ficarmo-nos pelo pormenorizado enumerar geek de bizarrias literárias e dissecação dos barroquismos da construção de mundos ficcionais. Contra mim falo, que também me comprazo como geek que sou (tecnicamente acho que pelos meus interesses académicos sou mais nerd) com livros cheios de ideias outré, conceitos de especulação sem limites, livros influentes e as intricacias dos mecanismos de world building. Mas olhar e analisar a FC vistas sempre de dentro ignora a sua pertinência face ao momento contemporâneo. Fala-se na morte da FC, tornada irrelevante por uma modernidade que a parece ter ultrapassado no futurismo galopante, quando se mantém relevante nas partes que não fossilizaram nas utopias tecnocráticas de outras eras.  Como provar a sua contínua relevância e pertinência a outros públicos? Nós,  fãs conhecedores,  sabemo-lo intuitivamente. Como passar esta ideia fundamental para lá do nosso  espaço conceptual? E, até, afirmar que o lado escapista é também fundamental como escapismo especulativo que nos leva a olhar mais além pelos olhos do imaginário? Os tempos complexos em que vivemos desafiam os futurismos luminosos com uma angústia de um presente desagregado que augura um futuro pouco prometedor. As utopias falharam, o positivismo converteu-se no neo-liberalismo destrutivo, e os leitores refugiam-se nas distopias, porque no fundo retratam o que sentem sobre o momento contemporâneo, ou fogem para passados míticos onde o mundo parecia menos complexo. Diria que, mais que nunca, correndo o risco de soar epocalista, a Ficção Científica tem uma palavra a dizer que ultrapassa fronteiras de géneros ou gostos.

A meio da conversa entre Fernandes e Barreiros houve uma intrigante oportunidade perdida, quando Fátima Vieira os questiona sobre as possibilidades dos media digitais. As respostas depressa resvalaram quer para o gosto pela materialidade do livro enquanto objecto quer para as intricacias da publicação digital. Mas percebia-se que a pergunta daria para outras especulações, apontando para a natureza conservadora das estruturas narrativas da Ficção Científica. As possibilidades técnicas do hipertexto podem trazer o lado especulativo e inventivo da FC estilhaçando a própria estrutura linear das narrativas, criando, por exemplo, diferentes percursos de leitura. Algo que a Banda Desenhada já experimenta com os motion comics, e que um livro como Night Film de Marissa Peshl fez muito bem, utilizando recortes e outros elementos arrastados da web para o espaço das páginas que eram elementos fundamentais da história. É um dos paradoxos do género, o afirmar-se como irreverente e criativo mas depender de formalismos conservadores. Tema este que daria pano para outras discussões, especialmente nas tentativas de restringir a especulação e os temas a um consenso clássico, rejeitando aberturas formais e temáticas ao grande mundo que está para lá do espaço de ideias anglo-americano. Nem na Gulbenkian nos livramos dos sad puppies.

Se a reflexão mais estrutural se mostrou elusiva, estas três horas de discussão à volta da FC souberam a pouco. A partilha de experiências foi riquíssima, e as perspectivas exteriores trazidas por Beukes e Fernandes um belíssmo retrato das possibilidades globais da Ficção Científica. Saí de lá com uma enorme curiosidade pelo trabalho de Beukes e Fernandes, vontade de reler Barreiros, e de pegar nas sugestões literárias afloradas durante a discussão. Sublinho também a abertura da Fundação Gulbenkian por ousar desafiar a discussão desta e outras literaturas de género como parte do programa Próximo Futuro. Mas não se fiem nas minhas palavras. O festival disponibilizou no Livestream as sessões do Próximo Futuro.

Edit: entretanto, se quiserem visões menos opinativas e mais descritivas sobre esta sessão rumem ao Rascunhos e ao Viagem a Andrómeda.

sábado, 16 de maio de 2015

H2O



Cuidado com o monóxido de dihidrogénio.

Sustos às Sextas (V)


A má notícia é que terminou. A boa, é que ficou muito em aberto, quase certa, diria, a possibilidade de uma segunda temporada. Pela última vez rumei às wildlands do sprawl suburbano para a quinta edição desta tertúlica classicista dedicada ao Terror literário, que durante cinco semanas se entrecruzou no grande salão do neo-medievo Palácio dos Aciprestes. Que, ao que consta, é assombrado, o que explica alguns ruídos estranhos que se ouviram naquelas noites. E, talvez, um crepitar temeroso da lareira durante uma leitura de um conto de horror.


Para encerrar a primeira temporada Rogério Ribeiro, o infatigável organizador do Fórum Fantástico, levou-nos numa sinuosa viagem pela história da ciência cruzando o rigor científico e as superstições espíritas. Como não podia deixar de ser, também nos levou a uma curta viagem pela iconografia do cientista louco, definitivamente cimentada nos anos 20 com Rotwang de Metropolis naquele misto de sabedoria sem fronteiras com tendências hubrísticas de domínio. Como sublinhou neste momento, o lado prometeico, de curiosidade sem limites, traz sempre consequências e quer a Ficção Científica quer o Horror sublinham o lado mais catastrófico e, de certa forma, moralista. Recordei-me daquele ditado popular que nos diz que a curiosidade é a principal causa de morte por entre os gatos, reflectindo este paradoxo entre uma humanidade desde sempre dependente de tecnologia e ciência que del desconfia, vendo com olhos melindrosos os espíritos inquietos que questionam, investigam e fazem avançar as fronteiras do conhecimento, imortalizando o querer ir mais alto com o castigo da queda em chamas.

Emanuel Marques, autor do conto O Aniversário, vencedor do concurso literário do Sustos, recebeu o prémio das mãos de Safaa Dib, editora da Saída de Emergência, e António Monteiro, organizador do evento. O conto foi lido, e será publicado na próxima edição da Revista Bang!.

Para encerrar com chave de ouro, sublinhando a progressiva informalidade de um grupo de fãs do fantástico que com este tipo de eventos aprofunda laços, participámos num quizz sobre Terror. Desafiado pelo Rogério Ribeiro, alinhei na equipe dos Cientistas Loucos (tecnicamente trabalho em Ciências da Educação). Para surpresa mútua demos conosco na ronda final, derrotados apenas pelo implacável David Soares. Mas hey, perder para o eminente escritor dos melhores livros de terror que se publicaram nos últimos tempos por cá é uma honra. E nada mau, os tipos dos foguetões e das rayguns aguentaram-se bem no meio dos espectros que assombram e das criaturas da noite.

Esperemos agora pela próxima temporada. A organização, a começar por António Monteiro, e estendendo-se a muitos outros (não listo porque correria o risco de ser injusto), está de parabéns quer pelo evento quer por ter mantido elevada a qualidade e o interesse. Estes Sustos às Sextas foram uma delícia. Como dizia Monteiro, é preciso ler mais M.R. James.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mort Cinder


Héctor Oesterheld, Enrique Breccia (2015). Mort Cinder. Oeiras: Levoir.

Ao longo desta extraordinária leitura a questão que me vinha à mente é quem é Mort Cinder? Nunca o sabemos ao certo. Sabemos que este personagem enigmático as barreiras do tempo se estilhaçaram, apesar de poder morrer. Viajante nos tempos, sofre de uma estranha imortalidade que o leva a regressar ao passado centrando-se nas curiosidades que vão chegando às mãos de um antiquário apaixonado pelas relíquias do passado, seu amigo e por vezes companheiro de aventuras, mas mais habitualmente a encarnação do leitor curioso e intrigado que ouve, sonhador, as histórias das aventuras de Cinder pelos passados longínquos.

Este personagem clássico mistura ficção científica pura com uma ambiência de realismo mágico, sublinhados pela profunda e por vezes cortante expressividade do traço de Enrique Breccia. As histórias de Oesterheld são um mimo à antiga de aventura fantástica, levando-nos para aventuras com cientistas loucos empenhados em dominar o mundo, para as trincheiras da Flandres, numa mesopotâmia onde a Torre de Babel é construída como rampa de lançamento para uma nave que levará assírios à lua, às prisões do interior americano dos anos 20, a vitrais sob maldições aztecas, a alienígenas que se misturam com tumbas egípcias ou, num final desesperante, à batalha das Termópilas. Sente-se o peso do tempo nestas histórias escritas nos anos 60, que ao contrário de tantas outras não se sentem datadas ao fim destes anos todos. Um final digno para esta excelente colecção da Levoir.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Em Busca de Peter Pan


Cosey (2015). Em Busca de Peter Pan. Oeiras: Levoir.

Esta história romântica e algo ingénua sobre um escritor que encontra o amor nos braços da filha de um falsário enquanto busca inspiração para um novo romance de sucesso e descortinar um mistério filial é pouco convicente. Especialmente se olharmos para o perigo do glaciar que cede e soterra uma vila de montanha e os denodados polícias que estão na pista do falsário. Mas suspeito que este é um daqueles livros onde a narrativa serve de moldura ao fascínio do autor por uma determiniada região num tempo específico - no caso, o Valois do princípio do século XX.

É a sensação opressiva e magnífica das montanhas geladas que repassa ao longo do livro. Estão lá, sempre, quer como pano de fundo quer no centro da imagem. Isso e o modo de vida simples dos montanheses, romantizado pelo olhar de Cosey. É no transmitir a majestosa dimensão da natureza que este livro mais se revela ao leitor.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Bando de Dois


Danilo Beyruth (2015) Bando de Dois. Oeiras: Levoir.

Bolas, que isto é coisa boa. Imaginem-se no final de uma longa semana, cheia de desafios interessantes mas cansativos, desmoralizados porque perderam algo que vos é muito querido, cansados, muito cansados, mas incapazes de deitar a cabeça na almofada e dormir. Imaginem que pegam neste livro, pensando em folheá-lo de relance para o arrumar na pilha de leituras a curto prazo. E quando dão por vós estão na última página.

Bando de Dois é um daqueles livros que, insuspeito, nos apanha na curva deixando-nos agarrados às suas páginas. Curto, rápido, ritmado, implacável, lê-se esticando os limites cinematográficos da estética da BD. Beyruth faz ao folclore dos cangaceiros brasileiros o que Leone fez aos westerns, e fá-lo muito bem. Este é um livro que se lê com se vê um filme, algo que a narrativa sublinha, mas antes de mais se denota nos enquadramentos a remeter para o wide screen que o desenhador usa e abusa muito bem. Como o descrever? Imaginem um cruzamento dos anti-heróis de The Good, The Bad and The Ugly de Leone com o final apocalíptico de Butch Cassidy And The Sundance Kid de Peckinpah em sotaque nordestino e ficam com uma boa ideia do que é este livro. Encerra com chave de ouro a colecção de novelas gráficas da Levoir.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Hécuba O Sofrimento Desmedido


Tive o privilégio de is ver esta brilhante peça no Teatro S. Luiz. A partir da peça de Eurípides, Hécuba O Sofrimento Desmedido leva-nos a redescobrir os textos da antiguidade clássica, hoje tão esquecidos e tão raros de hoje se reencontrar. Tem interpretações brilhantes, com destaque para uma brilhante Carla Galvão, um cenarismo baseado na iluminação espantoso na forma como gere a cor e as sombras, canalizando o hieratismo elegante da estatuária grega clássica. Dá-nos intensos momentos de arrepio, em que no silêncio opressivo do negro do palco, quebrado pelos toques de luz intensa iluminando estas mulheres milenares que para lá do desespero gesticulam, entretecendo fios imaginários enquanto sussurram fiapos de pensamento, como se as profundas vozes do tempo nos falassem através dos murmúrios das benevolentes euménides. É uma história trágica, profundamente feminina, tão infelizmente contemporânea, porque por mais que queiramos esquecer os antigos parecemos condenados a repetir os seus erros. Está até dia 17 de maio no S. Luiz. Recomendo vivamente.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Comics


Arcadia #01: O cyberpunk clássico vivo e de boa saúde nesta nova série da Boom! Studios. Depois de uma pandemia global quase ter exterminado a humanidade os sobreviventes mantém gigantescas quintas de servidores que albergam as cópias digitais da humanidade desaparecida, artificialmente vivas num planeta Terra virtual apelidado de Arcádia. Se bem que o utopismo bucólico do classicismo de et in arcadia ego não se coaduna muito com cyber-distopias, mas enfim. O arranque foi intrigante, com a divisão entre um real e um virtual que se assume como real, cujos simulacros pretendem claramente ser mais do que meras linhas de código a correr num super-computador complexo para encontrar uma cura para o vírus pandémico e construiram uma réplica do seu mundo real, ao estilo Matrix. Curiosa, esta premissa de as classes empobrecidas ficarem reduzidas à condição de avatares de baixa resolução. Vivemos hoje num mundo que, em muitos aspectos, se assemelha em demasia às distopias cyberpunk. Será intrigante ver como se desenrola esta série de premissas clássicas onde intervém a sabedoria trazia ex post facto pela pervasividade contemporânea do digital potenciaso pelas redes de telecomunicação.


Afterlife With Archie #08: Se esta cena parecer familiar... é porque o é. Aguirre-Sacasa e Francavilla aproveitam este oitavo número desta brilhante série para homenagear The Shining, mais a venerar Stanley Kubrick que a piscar o olho a Stephen King. Os sobreviventes de Riverdale refugiam-se num hotel com o seu quê de Overlook e Archie consome as suas mágoas com um fantasmático Jughead a canalizar Lloyd, o arrepiante barman do hotel do filme The Shining. Há mais referências polvilhadas ao longo da edição, com quartos assombrados e uma cena com skates a fazer a obrigatória vénia à fabulosa cena do filme em que Danny, correndo pelos longos corredores no seu triciclo, se depara com as gémeas arrepiantes.

Acabei que reparar que as iniciais do realizador e do escritor são as mesmas. SK,SK. Coincidência? Creio que não, digo com voz sepulcral.


The Names #09: E, numa simples vinheta, a constatação daquilo que torna The Names uma série com uma premissa tão interessante. Esta incredulidade de uma mente humana habituada à lentidão milenar de um progresso turbinado pela explosão de velocidade do mundo computacional. O mundo em que vivemos é mesmo assim, estruturado por algoritmos complexos que reflectem escolhas de decisores e programadores que desconhecemos. Mas ainda nos imaginamos num mundo em que a decisão do indivíduo é fundamental. Quanto à série, termina de forma apressada e amarfanhada, tal como Hinterkind. Suspeito que a Vertigo ande a limpar a casa para mais uma revoada de séries.

sábado, 9 de maio de 2015

Fugas


Ceres em Cáceres.

Marvão reduzido à geometria.


A luz que se desvanece em Portalegre


A crescer sobre as ruínas da cidade romana de Ammaia.


Sob chuva nas Portas de Rodão.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Vindos de um Outro Mundo


A falar de livros e ideias de Ficção Científica na semana da Feira do Livro do Centro de Recursos Poeta José Fanha. Falar de FC, mas sublinhar que no fundo o que conta é ler. Seja romance, policial, ficção, não ficção. É lendo, no diálogo entre as palavras lidas na página e o cérebro do leitor, que partilhamos conhecimentos e descobrimos ideas novas que nos intrigam. 

Slide 1: Vindos de um outro mundo: breve introdução à ficção científica para alunos do AE Venda do Pinheiro. Uma viagem pessoal pela história, literatura e cinematografia de FC.

Slide 2: Ficção científica é uma forma de ficção que lida principalmente com o impacto da ciência e tecnologia, verdadeira ou imaginada, sobre a sociedade ou os indivíduos. Esta ideia foi proposta primeiramente por Hugo Gernsback para promover e sustentar as suas publicações focalizadas em histórias cujo cerne incidia sobre especulações técnicas e científicas.

Slide 3: De onde veio a FC? Ao longo da história da literatura existem muitos exemplos de ficções pré-FC, no campo das utopias e mundos imaginários. Mas talvez o primeiro livro que teve como premissa uma ideia de base científica, à época, foi Frankenstein de Mary Shelley. Parece-nos estranho, uma vez que o vemos como monstro de terror, mas no livro a criatura monstruosa nasce não de explicações sobrenaturais ou mágicas mas sim da aplicação de ideias científicas ligadas à medicina e electricidade. No século XIX e princípios do século XX o que se viria a tornar FC ganhou popularidade e leitores, quer com a vertente de aventuras com tecnologia de Júlio Verne os seus seguidores, com a visão do papel da tecnologia de HG Wells, ou com as aventuras que misturam tecnologias futuristas à época (caso das edisonades, inspiradas na figura de Edison), e guerras futuras, um género muito em voga na viragem do século XX que ainda hoje se mantém vivo. 

Slide 4: Imaginem um tempo onde não abundavam os meios de entretenimento. Sem televisão, internet, jogos. Só cinema e rádio para os mais afortunados. Ler era um passatempo, ea abundavam revistas cheias de contos empolgantes que encantaram os seus leitores. Estas publicações ajudaram a FC a afirmar-se como género por direito próprio. Foram, e ainda hoje são, a primeira linha de publicação para os autores, muitos dos quais se tornaram grandes nomes do género. A maior parte da FC pulp é elementar, de entretenimento rápido, sem grandes aspirações, mas saíram daqui alguns dos maiores autores do género. Das revistas clássicas salientam-se a Amazing Stories editada por Hugo Gernsback que se caracterizava por uma aproximação mais rigorosa à ciência na FC, e o foco no deslumbre com ciência e tecnologia da Astounding SF de John W. Campbell. Algumas destas revistas, como a Analog, Asimov e Magazine of F & SF ainda hoje são publicadas. Das mais recentes destaca-se a New Worlds, que apostou numa FC mais literária e experimental, e a Interzone, das poucas de FC europeia que ainda se mantém em publicação.

Slide 5: A banda desenhada tem sido um dos campos onde a FC se afirma. Desde os tempos da BD clássica (Buck Rogers, Flash Gordon, Weird SF e tantos outros) até aos dias de hoje os autores de BD têm aproveitado as possibilidades visuais da BD para despertar sonhos do imaginário futurista. Destaco aqui, da BD franco-belga, o incontornável Hergé com Tintin a ir à lua; o surrealismo de Enki Bilal; a FC em estado de pura magia de Moebius (Jean Giraud). Do Fumetti italiano destaco o retro-futurismo inspirado em Verne de Greystorm e as viagens pacifistas no tempo de Lilith de Luca Enoch. Dos comics modernos muita coisa poderia ser dita, mas sublinha-se o futurismo de Warren Ellis, talvez dos melhores actualidade. A série Saga, a ser editada em portugal, Hickman em Manhattan Projects. Hoje, a BD é um dos campos onde a mistura de ideias especulativas e iconografias desafiantes da FC consegue ir mais longe, graças ao carácter intrínseco da BD como mistura de texto, imagem e técnicas narrativas mistas.

Slide 6: E por cá, há FC? Sim, mas pouca. O século XIX legou-nos uma lisboa sonhada no ano 2000; dos tempos do estado novo sonhos de um império português do futuro. Mais recentemente, autores como Luís Filipe Silva, António de Macedo e JoãoBarreiros têm-se preocupado em escrever FC de qualidade. E há novos autores a experimentar o género, caso do universo partilhado do comandante serralves. O género tem tido alguma expressão, mas muito reduzida, apesar de um número considerável de obras publicadas por autores portugueses. E, até no cinema português encontramos exemplos de FC: os filmes Os Emissários de Khâlom e Os Abismos da Meia Noite de António de Macedo, Aparelho Voador a Baixa Altitude de Solveig Nordlund, e os recentes RPG de David Rebordão e Collider de Jason Butler.

Slide 7: Há três autores que são incontornáveis quando se está a descobrir a ficção científica. Ray Bradbury, algo atípico, mais próximo do realismo mágico do que da FC pura, que imbuiu os seus livros de um eterno deslumbramento pelos mundos reais e imaginários. Foi dele o primeiro livro que li que me despertou e apaixonou pela FC, as Crónicas Marcianas, um conjunto de histórias sobre a conquista do espaço sem grandes aventuras nem épicas batalhas espaciais. Dele também há o livro que arrepia, aquele em que os bombeiros servem para queimar livros e que é uma ode ao amor à literatura e liberdade de pensamento.
Asimov é outro dos grandes clássicos. Autor prolífico, legou-nos as três leis da robótica, que explorou nos contos que se coligem em I, Robot. É dele uma das primeiras séries de romances que olha para o poder das ideias e não das tecnologias como elemento definidor, Foundation, onde o grande personagem são as tendências estruturais que modelam uma sociedade galáctica milenar.
Mestre da FC hard, Arthur C. Clarke centrava-se na ciência como transformadora. É o maior nome daquela FC clássica feita de personagens estereotípicos cujos dilemas se centram nos desafios trazidos pela ciência e tecnologia.

Slide  8: O melhor da FC está na forma livre como especula. Podíamos falar de sub-géneros, que definem tipos de histórias características, como viagens no tempo, guerra futura, space opera, cyberpunk, mas no seu melhor a FC transcende géneros e, imaginando futuros, desafia-nos a reinventar o presente. Alguns exemplos, pessoais: Channel Sk1n: a televisão e internet enquanto vírus; Hav: um guia de viagens a um país que não existe que atrai leitores incautos a agências de viagens; O Homem do Castelo Alto: e se… a américa vivesse ocupada pelos japonese e alemanha nazi e um livro proibido contasse a história do que seria se os aliados tivessem vencido a II guerra? The Drowned World:  e se o aquecimento global inundasse as cidades mundiais e Londres se transformasse numa selva semi-submersa? A Invenção de Morel: uma ilha onde o presente e o passado coexistem mas não se tocam; Babel 17: uma língua que é uma arma que muda a maneira de pensar de quem a fala; O Senhor da Guerra nos Céus: acordar numa avalanche dos himalaias e descobrir um novo mundo cruzado por dirigíveis; Olá América: a américa abandonada é redescoberta por uma expedição arqueológica.

Slide 9: Vivemos na era digital, numa hipermodernidade em que todos os dias a ciência e tecnologia nos trazem novidades radicais que se entranham no dia a dia. Eis alguns livros, já antigos, que quase anteveram o mundo de hoje (e, nalguns casos, inspiraram directamente cientistas e engenheiros): Schismatrix: a humanidade espalha-se pelo sistema solar e modifica radicalmente a sua genética; Neuromancer: um hacker no meio de intrigas entre empresas e inteligências artificiais, legou-nos o termo ciberespaço; Brasyl: o presente, o passado e o futuro nos trópicos colidem enquanto a física quântica derruba as barreiras temporais; Snow Crash: descreve mundos virtuais em 3D realistas habitados por avatares.

Slide 10: Nem só de língua inglesa vive a FC. Nos últimos anos mutliplicam-se as vozes europeias e mundiais. Trazem à FC outras sensibilidades, expandido o campo literário, mostrando outras visões do mundo e dos futuros que não a ocidental. Alguns exemplos: A Mecânica do Coração: uma história de amor steampunk em que um jovem busca a rapariga que ama e detém a chave do seu coração mecânico; The Bookman: lagartos alienígenas invadem a terra, fingindo-se humanos, num século XIX cheio de dirigíveis e raios da morte; Mémoria: o mais perigoso assassino da galáxia viaja entre planetas para descobrir que é uma inteligência artificial que se escapou de um laboratório; The Three-Body Problem: um jogo de computador funciona como cavalo de tróia para uma civilização extraterreste invadir a Terra; 10 Billion Days e 100 Billion Nights: demasiado estranho para explicar. Jesus e Siddharta lutam ao longo dos séculos utilizando civilizações e mísseis atómicos de curta distância; Aurorarama: os dias da cidade gelada que é a Veneza do pólo norte.

Slide 11: Alguns livros imperdíveis, de autores portugueses ou recentemente editados por cá: O Marciano, de Andy Weir: um astronauta abandonado em marte faz tudo para sobreviver e ser resgatado, em breve será filme; O Baile, de Nuno Duarte e Joana Afonso: um agente da PIDE investiga estranhos acontecimentos numa aldeia de pescadores; Se Acordar Antes de Morrer: os contos de João Barreiros; Cidade Suspensa: o imaginário português revisto pelo traço espantoso de penim loureiro.

Slide 12: É através do cinema que a FC chega ao grande público. Legou-nos iconografias espantosas, que ficam na memória visual e marcam o que conhecemos de FC. Como a imaginamos. Seleccionam-se aqui alguns filmes marcantes, fugindo aos mais esperados. Tudo começou em 1902, com a viagem à lua de Meliès. E continua, hoje, com filmes que deslumbram pelo lado visual e intrigam pelas suas concepções futuristas, que nos inspiram a imaginação.

Slide 13: Desafio: distribuindo cartões visões de utopia, perceber desafios contemporâneos a partir de ideias futuristas.


Slide 14: Já chega. Ide-vos, humanos.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Around and around


Hoje, a iniciar a sessão sobre literatura de Ficção Científica no Centro de Recursos Poeta José Fanha. Boa sessão, a despertar uma turma que conheço desde o quinto ano para o espaço de ideias da FC. Acabámos de livros na mão a discutir ideias como inteligência colectiva, terraformação, cyborgs, automação e mais uma mão cheia de ideias estranhas mas actuais e bleeding edge da tecnologia. Acho que só um aluno adormeceu.


Elegi o robot do Tinkerplay impresso em 3D como uma espécie de mascote nestes eventos. A ideia surgiu no 6.º CIPCA e irá continuar. Por onde iremos andar a seguir?


Ontem, no festival Livros a Oeste. Uma sessão que poderia ter corrido melhor. Por razões alheias quer à organização, quer ao festival que me pareceu fantástico, quer aos que estiveram presentes, estive a meio gás, e acabei com grande esforço. Se pudesse não ter ido, não iria. Fui para lá de coração nas mãos, e saí de lá vazio, por uma razão forte que me é alheia mas abalou profundamente. O futuro é imprevisível, e as piores notícias por vezes escolhem aqueles que tudo apontaria serem os melhores momentos. Apesar de tudo trago de lá uma boa memória. A amargura vem de uma perda muito pessoal. E espero não ter deixado uma má impressão. É frustrante, depois de tanta preparação, sentir que se falha, mesmo sabendo que há coisas que não podemos controlar. Como o curso natural da vida, que tem de ter o seu ponto final nalgum momento.

Mas os caminhos não terminam e fica a pergunta: onde é que o robot impresso irá aparecer a seguir? Não sei. Confesso que os projectos e responsabilidades dentro da escola são muitos e sinto alguma fadiga a pesar no corpo. Sei que não irá ficar confinado à prateleira, junto do foguetão que Hergé criou para Tintin e dos livros de Arthur C. Clarke e PK Dick. Podia pô-lo ao lado do Asimov, mas a ironia seria demasiado óbvia.

Toda a Literatura é Fantástica: Cruzamentos entre cinema, tecnologia e literatura


Apontamentos para uma conversa com João Morales no Festival Livros a Oeste. A ideia era explorar algumas vertentes da Ficção Científica, usando o cinema como faísca e levando para os livros e tecnologia para alunos de nono ano. Muitos slides, como ponto de partida para conversas, e excertos do melhor que o cinema de FC nos deu para partilhar. Levei a minha mascote impressa em 3D. Era de rigueur.

Slide 1: Toda a Literatura é Fantástica: Cruzamentos entre cinema, tecnologia e literatura. João Morales e Artur Coelho

Slide 2: Para iniciar, mostrar o trailer do filme Ex Machina.

Slide 3: Este é um filme actualmente nos cinemas. Se calhar já o viram. Ainda não o vi, mas pelo trailer percebe-se que é uma história sobre um cientista que cria uma mulher artificial, incorporando o imaginário contemporâneo sobre robótica, andróides e tecnologia futurista.

Slide 4: Mas esta história é milenar. Tem origem possível no mito grego de Pigmaleão, o escultor/rei de Creta que esculpe uma estátua do seu ideal feminino. Esta é tão perfeita que se apaixona por ela, tendo os deuses a insuflado com a dádiva da vida.

Slide 5: É intrigante ver que a nossa contemporânea obsessão com vida artificial já vem da antiguidade clássica. Os deuses, dizia-se, eram servidos por autómatos, e a ilha de Creta era protegida por um gigante de bronze. A robótica avançada contemporânea mantém ecos distantes de algo que sempre esteve presente na cultura europeia. Sabe-se que os antigos gregos conheciam mecanismos, há relatos de animais mecânicos a deliciar os cortesãos nas cortes medievais arábicas e europeias.

Slide 6: Na época barroca Jacques Vaucauson legou-nos autómatos que ainda hoje, cuidadosamente preservados, persistem. Estas imitações de vida com movimentos restritos e mecanizados impressionaram os nossos antepassados. Vaucauson tornou-se o mais famoso mas não é caso único. Atradição de construir autómatos persistiu até ao século XIX. São objectos delicados, movidos a corda e engrenagens, que repetem as mesma acções até a energia contida nas molas de dissipar.

Slide 7: Deliciavam os nossos antepassados com a su estranha capacidade para escrever, desenhar ou emitir sons. Alguns pareciam questionar o próprio sentido da vida, parecendo animados de inteligência. É o caso do Turco Mecânico, um autómato jogador de xadrez capaz de bater os mestres do jogo, que na realidade era controlado por um anão escondido dentro da caixa dos mecanismos.

Slide 8: Algumas leituras: Sublime Dreams of Living Machines, de Minsoo Kang, uma história dos criadores de autómatos e suas criações desde a antiguidade até à época moderna; Alone Together de Sherry Turkle, uma análise sobre o impacto da internet e da robótica nas relações sociais; I Robot de Isaac Asimov, livro clássico de Ficção Científica sobre robots. Legou-nos a ideia das três leis da robótica.

Slide 9: Qual é aqui o papel da literatura? É lá que encontramos, postas em papel, as iconografias que animam a nossa visão contemporânea. E são bastante mais antigas do que se poderia pensar. No século XVII Jan Potocki descreve no seu romance fractal, Manuscrito Encontrado em Saragoça. É um romance daqueles em que uma personagem conta uma história que tem personagens que contam histórias cujas personagems contam histórias que.. bem, já perceberam, certo?. Descreve um castelo italiano enfeitiçado onde delicados autómatos servem deliciosas iguarias numa caverna de encantos.

Slide 10: Mais tarde Villiers De L'Isle Adam fala-nos da sua Eva do Futuro, um autómato que incorpora o ideal da mulher perfeita. E.T.A. Hoffman descreve no conto O Homem de Ariea Olympia, a mulher que deixa apaixonados quem a conhece e não sabe que é um autómato de cera e madeira. Faz parte dos Contos de Hoffmann, livro clássico da literatura fantástica. Leituras: Manuscrito Encontrado em Saragoça, Jan Potocki; Contos de Hoffman, E.T.A. Hoffman.

Slide 11: A Ficção Científica pegou em força no ideário do homem/mulher mecânico. É uma ideia incómoda, que arrepia perante a mitificação da imagem da mulher como boneca maleável aos desejos e comportamentos aceites pelo homem. O cinema apanhou a onda e legou-nos vários robots que se tornaram parte da iconografia da Ficção Científica.

Slide 12: Talvez o mais famoso é Maria, do filme Metropolis, encarnação da obsessão do cientista Rotwang numa cidade distópica do futuro.

Slide 13: Ex Machina é apenas a expressão mais recente destas obsessões milenares, com ideais masculinos de perfeição feminina e vida artificial. A sua estética replica bem a visão clássica para a Astounding Magazine, a ilustrar o conto Helen O'Loy de Lester delRey. Antigamente com o fogo da vida insuflado por deuses, hoje com o fogo prometeico da ciência.

Slide 14: Trailer de Frankenstein (1931)

Slide 15: Poderá o homem criar vida? Com o poder da ciência e a ferramenta da razão sobrepor-se ao antigo direito dos deuses? Esta ideia dá a faísca a Frankenstein, aquele que é considerado o primeiro romance de ficção científica. Esta é uma classificação discutível e difícil de atribbuir com precisão. As utopias e mundos feéricos da literatura europeia já andavam perto do que se veio a tornar a FC.

Slide 16: Olhamos para Frankenstein como algo saído do terror, um monstro, mas a história é sobre a obsessão e a culpa de um cientista que tentou insuflar vida com energia eléctrica matéria morta. É algo que nos parece pura fantasia, mas á época em que este livro foi escrito a electricidade, hoje tão banal, era uma descoberta recente e pensava-se que poderia reanimar mortos. É uma das muitas ideias científicas que a evolução da investigação científica veio a provar como falsas. Tal como a teoria da terra oca, que antes dos exploradores polares terem desbravado os pólos norte e sul parecia plausível imaginar que nos extremos da terra havia aberturas para todo um interior cheio de estranhas criaturas e requintadas civilizações. Ideias que na sua época eram tão válidas como as nossas correntes hipóteses científicas. Dá que pensar. Quais das nossas ideias de hoje, quais das premissas que aceitamos como inconstestáveis, serão no futuro vistas como quaint patéticas? Dá que pensar? Frankenstein distingue-se porque o monstro, a criatura, não é sobrenatural, é meticulosamente montada a partir do saber anatómico e eléctrico do doutor Frankenstein. Daí ser ese o primeiro romance que coloca a ciência, o seu saber, tecnologia e consequências no centro de uma narrativa. Pois é. O Frankenstein que imaginamos como Frankenstein não o é, realmente. Este é o nome do cientista. A sua criação não tem nome. Este romance intemporal foi escrito por Mary Shelley, filha da feminista Mary Wollstonecraft. Amiga do poeta Lord Byron, que teve uma filha chamada Ada Lovelace. Um nome fundamental para quem, como nós e vós, não consegue conceber o dia a dia sem computadores ou dispositivos computacionais. Leituras: Mary Shelley, Frankenstein.

Slide 17: Trailer de Ghost in the Shell.

Slide 18: O filme Ghost in the Shell partiu do manga de Masamune Shirow.

Slide 19: O mundo de hoje é digital, computacional, regido por algoritmos complexos, interface de ecrãs. Nem sempre foi assim. Nos tempos da linha de comandos, do texto verde sobre ecrã preto, houve escritores que se atreveram a imaginar o potencial e consequências da computação sobre nós e sobre a sociedade. Destes, os mais conhecidos são Bruce Sterling, que percebeu o efeito das redes sobre as pessoas, permitindo interligar e gerar novas ideias; William Gibson, que imaginou hackers a interferir com os espaços de dados e nos legou o termo ciberesepaço.

Slide 20: Neal Stephenson, que imaginou a vida dividida ente o espaço físico e o virtual tridimensional. Estes e outros inspiraram um género denominado de cyberpunk, que se atreveu a pensar no impacto do computador sobre a sociedade. Não preveram, reflectiram e inspiraram. Como curiosidade, William Gibson escreveu o romance Neuromancer, onde nos lega o conceito de ciberespaço, numa máquina de escrever. Leituras: Neuromancer, William Gibson; Schismatrix, Bruce Sterling; Nome de Código Samurai (Snowcrash), Neal Stephenson; Brazyl, Ian McDonald.

Slide 21: Mostrar clip do filme Hellboy II - The Golden Army.

Slide 22: Um visual fascinante, não é? Encanta o olhar, esta estética de mecanismos de relojoaria dourados a latão, barroquismo, fatos elegantes e antiqudados. Hellboy é um personagem de Mike Mignola, mas este filme inspira-se numa estética denominada de steampunk.

Slide 23: (Cosplayers portuguesas da Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas) Inspira-se em visões de um futuro determinado pela era vitoriana. Época Edwardiana, para ser mais preciso, mas a rainha Vitória marcou fortemente a imaginação. Os fãs de steampunk misturam a tecnologia de hoje com estética e materiais típicos do século XIX.

Slide 24: Reclamam como faísca o livro The Difference Engine, escrito por Bruce Sterling e William Gibson.

Slide 25: Obra que se inspira no Engenho Diferencial, um dos primeiros projectos de computadores. Concebido por Charles Babbage, nunca chegou a ser construído, por ser demasiado complexo e exigir uma precisão inatingível pelos artesãos do ferro da altura.

Slide 26: Lembram-se de Ada Lovelace, a filha do amigo de Mary Shelley? Foi assistente de Babbage e criou a primeira liguagem de programação para este computador que nunca foi construído. Mas e se tivesse sido concretizado, como poderia ter evoluído o mundo? É daí que parte o romance que deu a faísca ao Steampunk.

Slide 27: Esta estética Steam veio beber inspiração a dois filmes muito específicos dos anos 50: The Time Machine e 20.000 Léguas Submarinas. O primeiro baseia-se num romance de H.G. Wells, e o segundo no livro homónimo de Júlio Verne. Estes autores da viragem do século XIX para o XX estão na linha directa da génese da Ficção Científica como género literário.

Slide 28: Trailer de 20000 Leagues Under The Sea.

Slide 29: Verne é marcante como autor de romances de aventuras científicas, sendo justamente considerado um dos pais da FC.

Slide 30: Já Wells escrevia sobre sistema sociais e impactos da tecnologia. Ficou para a historia o romance A Guerra dos Mundos, cuja adaptação radiofónica nos anos 30 por Orson Welles convenceu os ouvintes que os marcianos tinha mesmo aterrado e estavam a invadir a América. Nos anos 70 fez-se uma adaptação na rádio portuguesa que teve o mesmo efeito. Fechando o círculo, o steampunk aponta Júlio Verne como a outra grande influência na sua estética.

Slide 31: Um pouco de Time Machine (1960) a mostrar a influência visual que virá a excercer no Steampunk.

Slide 32:cCena do filme The Time Machine, com o viajante a assistir à aceleração do tempo. Livros: The Difference Engine, Bruce Sterling e William Gibson; The Time Machine e War of the Worlds, H.G. Wells; A Volta ao Mundo em Oitenta Dias e Da Terra à Lua, Júlio Verne.

Slide 33: Os futuros imaginários concebidos na viragem do século também deixaram por cá a sua marca. Em 1906 o engenheiro Melo de Matos imagina a Lisboa no ano 2000 numa série de artigos para a revista Ilustração Portuguesa. Um dos textos elementares da ficção especulativa portuguesa.

Slide 34: Os primórdios do século XXI vistos pela lente do final do século XIX, ainda a acreditar na perenidade dos sonhos colonialistas e no eterno sonho da afirmação de Portugal como um país de poder e referência.

Slide 35: Lisboa é um nexo de impérios, linhas comerciais e vias de comunicação.

Slide 36: É um texto de referência, que nos faz sorrir com este século XX de telégrados e crinolinas, de comboios a vapor nos túneis sobre o Tejo e frotas de dirigíveis a aportar ao grande porto comercial lisboeta.

Slide 37: Recentemente, João Barreiros lançou um desafio a escritores portugueses do fantástico a reimaginar Lisboa no ano 2000 como se a visão de Melo de Matos tivesse determinado a evolução do século XX. O resultado é esta divertida antologia.

Slide 38: Trailer do filme The Box.

Slide 39: E se uma acção aparentemente inócua mas algo imoral nos mudasse a vida para melhor?

Slide 40: Se, tocando numa campaínha que fazia tilim tilim caísse fulminado alguém do lado de lá do planeta cujas riquezas passariam para as mãos daquele que tocou no botão? Esta resposta já foi dada pelo escritor português Eça de Queiroz no clássico O Mandarim, onde um pacato funcionário enriquece à custa de um mandarim morto na longínqua China. Se as riquezas o embevecem, o espectro do chinês morto irá atormentá-lo para o resto da vida. E não há nada, nem a queda na dissolução moral ou a piedade caritativa, que o liberte desse fardo.

Slide 41: O filme The Box parte de um conto de Richard Matheson. Este escritor e argumentista multifacetado é um daqueles escritores cujas histórias são bem conhecidas mas quem poucos conhecem. Se viram o filme I Am Legend conhecem a variante da história de Drácula deste escritor, onde todos são vampiros e o humano é o monstro.

Slide 42: Trailer do filme Fahrenheit 451 (1966).

Slide 43: Como é que um leitor se apaixona pela literatura? Não posso falar pelos outros, apenas de mim. Tem a ver com o filme cujo excerto acabaram de visualizar. Não, em bom rigor, pelo livro em que é baseado, mas por uma outra obra mais antiga do autor, Ray Bradbury.

Slide 44: Guardo com muito cuidado e carinho o exemplar do livro As Crónicas Marcianas, que, na adolescência, me fez apaixonar pela FC. como algo de mágico. Uma história de marcianos com foguetões e alienígenas, mas sem lutas, futuros longínquos ou naves espaciais a explorar galáxiasdistantes. Bradbury também escreveu Fahrenheit 451, a partir do qual este filme de Truffaut foi feito.

Slide 45: Imaginem que  os bombeiros serviam não para apagar fogos mas para atear fogueiras onde eram queimados livros. Os livros vivos, aqueles que preservavam na sua memória o conteúdo das obras reduzidas a cinza pelo totalitarismo de rosto sorridente, mostram-nos a importância da literatura para encantar a imaginação.

Slide 46: Se se estão a perguntar qual é a lógica desta discussão, ela toca em aspectos da literatura fantástica que se intersectam com a tecnologia e a cultura popular. Não como preditora de futuros presentes. Estamos a falar de especulações e não predições oraculares. Mas como análise de ciências e tecnologias contemporâneas que desafiam a perceber por onde caminhará o presente. E são aspectos de um gosto, que em parte não se explica por ser emocional, pelas literaturas fantásticas e especulativas.

Há fantásticos na literatura, da Ficção Científica, fantasia, policial, ou da literatura tradcional. Sempre que um autor desafiar os leitores, atrevendo-se a imaginar, a pensar o mundo não como espaço adquirido mas como um e se cheio de possibilidades libertas pela imaginação, toda a literatura é fantástica.