sexta-feira, 4 de setembro de 2015

The Star Diaries

 

Stanislaw Lem (1976). The Star Diaries. Nova Iorque: Avon Books.

Um destes dias tenho de procurar uma biografia ou estudo literário sobre a obra deste singular escritor polaco de Ficção Científica. Gostaria de perceber se o que dele se conta é real. Se a historia, provavelmente apócrifa, de Lem ser um escritor apaixonado pela FC anglo-americana que impedido de a ler por estar do lado de lá da cortina de ferro, escrevia da forma como pensava que os grandes nomes que idolizava escreviam. Algo que lhe causou desilusões quando finalmente pode contactar com as obras reais dos autores que idealizava.

A obra literária de Lem representa um tipo de ficção científica que talvez só agora esteja a atingir o reconhecimento público. Não me refiro à obra do autor, claro, que essa é bem reconhecida, mas à ideia de FC que não se fica pela aventura ou pelo didactismo especulativo. Um tipo de FC mais experimental, aberta a influências de outras áreas da literatura. Algo que Ballard explorou, e que escritores nossos contemporâneos (Mieville, Tidhar, tantos outros) estão a abordar, fazendo evoluir o âmbito da FC de tal forma que grupos mais tradicionalistas invocam a tristeza dos cachorrinhos para tentar impor visões retrógradas de um belíssimo antigamente é que era.

Não que a ciência, parte fundamental do binómio ficção científica, esteja ausente da obra de Lem. Ela está lá, e em força. Física, exploração espacial, cibernética, paradoxos temporais, robótica, evolução histórica, biológica e social são temas que encontram espaço nos seus contos. É na forma como se manifestam que se distingue o estilo único da voz deste escritor. Elementos que na Hard SF seriam rigorosamente explanados ou fariam parte do cenário no género aventuras no espaço são usados por Lem com uma sorridente ironia, peripatética, excêntrica e inesperada. Como se se tratasse de uma colisão optimista entre as visões do mundo de Borges e Ballard.

O que fica da leitura são histórias abrangentes, que mesclam o fantástico com ironia, mais profundas do que aparentam ser. Traem uma visão do mundo talvez condicionada pelas incongruências da vida num regime e sociedade distópicos que se viam como utópicos. Os absurdos dos sistemas políticos não questionados pelas populações são um dos grandes elementos destes diários.

A ficção científica de Lem segue um caminho diferente da FC clássica. Assente na especulação científica,  não segue didactismos especulativos,  optando por entender o futuro como um espaço cheio de possibilidades imprevisíveis.  Espaço amplo,  onde tudo poderá ter lugar. Perfeita razão para explorações onde o inaudito e o surreal imperam. O futuro não tem de ser uma projecção extrapolativa do presente,  e a nossa condição de normalidade pode parecer altamente bizarra aos olhos de outros.

The Seventh Voyage: Com o foguetão paralisado por uma avaria, Tichy mergulha numa zona onde o tempo colapsa e a nave começa a ficar infestada de Ijons Tichys do passado e do futuro, que coexistem numa ruidosa simultaneidade.

The Eight Voyage: Ijon Tichy é eleito delegado da humanidade para a sua introdução na comunidade de planetas unidos, mas a história violenta, as conquistas científicas destrutivas e a falta de progresso social não convencem as restantes civilizações de que a vida na terra seja inteligente e civilizada.

The Eleventh Voyage: Tichy é enviado numa missão secreta a um planeta dominado por robots, que expulsaram os humanos e professam odiá-los de morte. Mas, na superfície, acaba por descobrir que os robots originais enferrujaram há muito, e o que aparentam ser robots são humanos disfarçados, outros agentes secretos julgados como mortos pelos que os enviaram, incapazes de perceber que a sociedade que infiltraram não existe. O se perpetuou foi um mito imposto pelo governo do planeta, às mãos de um frágil homem que se esconde por detrás de um aparente super-computador.

The Twelvefth Voyage: Testando um novo dispositivo de dilatação temporal inventado pelo inefável professor Tarantoga, Tichy sofre uma experiência aterradora num planeta distante. Os nativos capturam o dispositivo, o que provoca uma evolução acelerada, e Tichy vai-se alternado entre deus, pária e sacerdote até o conseguir reaver e regressar à Terra. As evoluções sociais dos indígenas alienígenas são uma amarga caricatura da nossa história.

The Thirteenth Voyage: Partindo em busca do mais brilhante pensador da galáxia, Tichy vê-se capturado num planeta cujo governo embarcou numa missão progressista única. Ali, a submersão é vista como o mais desejável, e as cidades vão-se afundando progressivamente para que os habitantes se habituem a respirar debaixo de água. Quando consegue escapar desta utopia aquática, é capturado pelos habitantes do planeta vizinho, que têm como regra o mudar de vida e profissão de 24 em 24 horas.

The Fourteenth Voyage: Depois de reparar o seu foguetão com um cérebro eletrónico novinho em folha, Tichy decide fazer um safari num planeta distante. Este planeta é constantemente assolado por meteoros, mas mal se nota. Tudo existem em duas e terceiras vias, prontas para substituir o que quer que seja destruído nos cataclismas diários. Até os seus habitantes têm substitutos que são também substitutos de substitutos. Assim, o local mais terrível da galáxia passa por paraíso de placidez e estabilidade.

The Twentieth Voyage: Regressado de mais uma viagem, Tichy é confrontado por um futuro Tichy que se materializa na sua sala de estar. O seu destino, diz-lhe, é ir para o futuro liderar uma organização que se dedica a corrigir a história cósmica, para tornar todo universo um local mais agradável. Tichy aceita, mas tudo corre mal. Todos os planos são estragados pelos cientistas da organização. Uma experiência azarada dá origem ao sistema solar, sucessivas tentativas de endireitar o eixo de rotação da Terra deixam-no na posição em que o conhecemos, biólogos criativos divertem-se a criar formas de vida ao longo das eras geológicas. Desistindo da evolução geo e biológica, o instituto vira-se para a história, mas nem aí as coisas correm bem, com a complicação adicional das interferências dos cientistas caídos em desgraça que Tichy exila no passado. Ou seja, toda a evolução do sistema solar, planetária, das espécies e da humanidade como a conhecemos teve origem nos falhanços da tentativa de criar uma humanidade perfeita. As grandes mentes da humanidade são cientistas do futuro exilados no passado. O que consola Tichy é que se assim não fosse, ele não existiria para ser o director do instituto cujas intervenções, por correrem mal, deram origem ao mundo como o conhecemos e para correcção do qual se tornou necessária a criação do instituto cujas intervenções desastrosas provocaram as situações que visa corrigir. Paradoxos temporais absurdistas e a história humana como laboratório de alucinações temperam esta história. Hyeronimus Bosch como um biólogo exilado para a idade média por ter povoado a era paleozóica de criaturas que contrariaram os diktats institucionais.

The Twenty-First Voyage: Aterrando a sua nave num planeta onde os utensílios crescem nos campos e nas florestas são percorridas por mobiliário selvagem, Tichy é acolhido por um grupo de monges robots que se dedicam à completa não-evangelização. Nos livros que estes lhe emprestam, o intrépido explorador do cosmos descobre a história de um planeta cujas ciência e filosofia levaram os seus habitantes a ultrapassar todos os limites da carnalidade, excedendo-se na manipulação dos seus organismos. Essencialmente uma longa meditação sobre os absurdos dos transcendentalismos, quer por tautologias religiosas quer por manipulação biológica.

The Twenty-Second Voyage: Pensando que perdeu o seu querido canivete, Tichy viaja de planeta em planeta à sua procura. Num planeta remoto conversa com um padre evangelizador, que lhe conta a triste história de um colega. Com a tarefa de evangelizar a espécie alienígena mais bondosa da galáxia, é tão bem sucedido que estes o torturam até à morte, replicando no seu corpo as histórias pias dos mártires da igreja, acreditando febrilmente que a martirização é o que o evangelista mais deseja.

The Twenty-Third Voyage: Uma visita ao planeta mais exíguo da galaxia, onde os diminutos habitantes têm mesmo muito pouco espaço para viver, leva Tichy a descobrir as maravilhas de um revolucionário sistema de transportes. Sempre que um dos habitantes do planeta se quer deslocar, vai até um atomizador para ser desfeito, guardado e enviada uma cópia para o seu destino.

The Twenty-Fifth Voyage: Seres misteriosos atacam foguetões nas proximidades de um sistema remoto. Acabam por se revelar batatas, transplantadas para um ambiente inóspito que as leva a evoluir até se tornarem uma espécie predatória. Após descobrir o segredo dos misteriosos seres, o Prof. Tarantoga parte em busca de uma civilização que vive no plasma de uma estrela. Tichy persegue-o, tentando manter um encontro ao qual se atrasou por avaria no foguetão. O conto termina com os seres plasmáticos a reflectir sobre o ridículo que seria haver vida inteligente baseada em proteína, longe das altas temperaturas das atmosferas estelares.

The Twenty-Eight Voyage: Numa longa e distante viagem, Tichy recorda os feitos bizarros dos seus antepassados, inventores idiosincráticos de sistemas e equipamentos que chocaram os seus contemporâneos. Termina reflectindo que navigare necesse est.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Styx



Bavo Dhooge (2015). Styx. Nova Iorque: Simon & Schuster.

Raphael Styx é um típico polícia veterano, corrompido pelo sistema. Acredita piamente na justiça enquanto espanca suspeitos e faz negócios com criminosos ligados ao contrabando. Também acredita na felicidade familiar, apesar do filho não lhe falar e a mulher estar cheia de vontade de pedir um divórcio. Tem de aturar na esquadra um chefe demasiado intrometido na sua vida pessoal e um colega novo, um belga de raízes congolesas que decidiu passar a vestir-se como um sapeur após o suicídio da irmã.

Styx está embrenhado numa caça ao homem. A sonolenta e provinciana cidade de Ostende está a ser palco de uma vaga de assassínios macabros cometidos por um assassino em série que se inspira nas obras icónicas dos pintores surrealistas belgas para dispor os corpos das suas vítimas. Quando confronta o assassino, o impensável acontece. Styx é abatido, mas renascerá como um zombie que vai apoderecendo pelas ruas da cidade enquanto continua a busca pelo psicopata. Renascido na morte, confronta os dilemas da sua antiga vida, descobre que é capaz de saltos ao passado para visitar a Ostende da Belle Époque, apercebe-se que de vez em quando convém dar umas trincadinhas em carne humana para se manter um morto-vivo apresentável, e só poderá contar com a ajuda do colega cuja propensão para roupa cara e garrida não consegue compreender.

Um mimo, este pequeno romance policial com um toque de horror do escritor belga Bavo Dhooge. Leitura rápida que desperta e mantém a curiosidade do leitor, faz bom uso das estruturas narrativas do policial com um toque do visceralismo do terror zombie. O recordar das belas artes belgas, com referências a Ensor, Delvaux e Magritte, dão-lhe uma certa elegância erudita. Styx será editado em novembro de 2015.

Mergulho na Fé

Arquivar em coisas bizarras que se ouvem na rádio: escutar a voz cristalina de uma apresentadora a falar de fait divers, pronunciando duas ou três vezes a expressão em inglês. Soava a qualquer coisa como faith divers.  Em vez de factos diversos, disse mergulhadores da fé, algo que até poderia soar bem se ela não estivesse mesmo a falar de faits divers. Ninguém entre os restantes apresentadores pareceu dar conta do torpedeio linguístico. Até fiquei em dúvida. Será que andei toda a uma vida a pronunciar mal a expressão?

Vou empinar o nariz e comentar que é típico das caras bonitas intercambiáveis que funcionam como figuras de renome na nossa paisagem mediática.

(Com a extinção de facto mas não de jure do Francês no ensino básico e sua substituição por Espanhol, devo pertencer a uma das últimas gerações de portugueses que ainda compreendem a língua francesa.)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

As Mil e Uma Noites Volume 1: O Inquieto


"Então é assim, Fortuna, relegas para a sombra os mais sábios, e o governo do mundo abandonas aos mais néscios".

Surpreende-me que não tenham ainda saído a público vozes que critiquem a estreia desta trilogia de Miguel Gomes em época eleitoral. Talvez por fazer parte daquele tipo de cinema português do qual se lê com pontinha de orgulho nacionalista a boa crítica saída no estrangeiro mas que não enche salas de cinema. O tipo de cinema que não chega às massas, passando debaixo do radar daqueles tipos engravatados e bem apessoados que estão nos meios de comunicação a comentar as actualidades, explicando-nos tudo muito bem explicadinho porque não temos a sabedoria necessária para entender a justeza e grandeza das decisões que nos afectam. É que este não é um filme cómodo e subserviente aos interesses das principais forças políticas. Muito pelo contrário.

Oscilando entre a fina ironia e o documentário puro, As Mil e Uma Noites Volume 1: O Inquieto assume à partida uma postura crítica destes anos de austeridade, troika, contracção económica, perda de direitos sociais e empobrecimento generalizado. Começa como documentário puro, levando-nos ao rescaldo do encerramento dos estaleiros de Viana do Castelo intercalado com as aventuras de um inventor que combate uma invasão de vespas asiáticas. Mas depressa se revela incapaz de enfrentar a realidade, dura, inquietante, e refugia-se numa fantasia que inspirando-se no feérico das mil e uma noites vai permitir olhar de frente para os dramas que nos dilaceram enquanto nação. Com as inúmeras possibilidades de vozes documentais que se consolidariam num padrão, resta a metáfora para nos contar a história real. Aquela que conhecemos da nossa experiência pessoal de viver num país-laboratório de técnicas de regressão social e económica camufladas

Não é um filme que nos deixe indiferentes. Sorrimos com a ironia ou a crítica em humor sem limites. Dá um certo gozo saber que o primeiro ministro português é retratado como um idiota incapaz e impotente (a caricatura inclui o pin com a bandeirinha à lapela), que as audiências dos festivais internacionais de cinema vão poder ver esse retrato. As mesmas audiências que vão ouvir os relatos dolorosos dos trabalhadores descartáveis e desempregados varridos pela sanha neoliberal. O fantástico surreal está ao serviço de uma fortíssima consciência cívica, através da qual os dramas do viver neste país austerizado são sublimados. A narrativa não é linear, sendo episódica e geograficamente dispersa.

De certa forma, este filme fez-me pensar o quanto parece uma inversão de O Princípio da Sabedoria de António de Macedo. Este também é episódico e fantasista (e delirante, delicioso, surreal e com uma estética espantosa), mas o carácter que mais sobressai é o seu optimismo. Filme de 1975, mostra que era possível sonhar, pensar, fazer e agir de forma livre. Sintoma da promessa de um país liberto do jugo da ditadura e ao qual o futuro parecia abrir-se. Quarenta anos depois, a primeira parte deste As Mil e Uma Noites mostram num 2015 a derrocada dessas utopia num país amargo e sem futuro. E não se augura que as restantes sejam mais risonhas. É uma chapada cultural na complacência com a nossa ruína, o retrato do que conhecemos e que contraria o discurso optimista de responsáveis políticos interessados em ofuscar a dura realidade em que nos mergulharam.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Finches of Mars

 
Brian Aldiss (2015). Finches of Mars. Nova Iorque: Open Road.

A acreditar no que se lê sobre este livro, é com esta vénia que Brian Aldiss despede-se da ficção científica. E que vénia. Finches of Mars é FC depurada, mais próxima do experimentalismo literário legado ao género pela New Wave do que da rígida estrutura narrativa entre aventura e infodump que caracteriza a maior parte desta literatura. O enredo é traçado com grandes pinceladas, sem mergulhar em pormenorizações. Se este livro fosse um quadro, seria uma obra impressionista. Ou uma paisagem abstracta de De Stäel. O todo está lá, mas quando nos aproximamos para contemplar os pormenores esfumam-se nas pinceladas largas.

Fugindo aos pressupostos do que deve ser um romance de FC, assemelha-se a um rascunho estrutural que, nas mãos de outros escritores, daria material para uma infindável série de múltiplos livros que explorariam até à exaustão os inúmeros caminho que Aldiss expressa.  A tentação de escreve escritores menores que Aldiss é grande, mas seria incorrecto. Grandes escritores de FC também fariam o mesmo. Mas é bom ler esta capacidade sintética, pegar num livro com o seu quê de épico e saber que não se vai espraiar ao longo de milhares de paginas em diversos volumes.

O título não nos prepara para o romance, embora o defina na perfeição. É algo que só nos apercebemos ao terminar o livro, demonstrando a escrita de um mestre como Aldiss, que nos vai levando pela mão através dos caminhos ínvios da sua mente até a um destino certo. Os tentilhões do título, referência directa à Origem das Espécies de Darwin, são a chave da obra.

Não esperemos um futuro risonho. O futurismo, aqui, é desolador. Estamos num futuro próximo, com a humanidade a começar a dar os primeiros passos no sistema solar. A Lua é habitada continuamente, apesar de haver uma restrição de noventa dias de permanência por razões de saúde. As primeiras bases marcianas, financiadas por uma improvável coligação de universidades, estabelecem a primeira colónia humana no planeta vermelho. Quem para lá vai sabe que não há possibilidade de regresso. Aldiss não é um optimista, sublinhando os efeitos nocivos das viagens pelo espaço sobre o corpo.

Abrigados em torres, os colonos marcianos vivem uma vida regrada na nova fronteira. São assolados por um trágico mistério, que coloca em perigo a viabilidade da colónia. É impossível levar a cabo uma gravidez bem sucedida no planeta, e as tentativas dos colonos traduzem-se numa desolação de fetos nado-mortos. Talvez, intuem, sejam necessárias adaptações biológicas evolucionárias para que os ventres humanos possam parir noutro planeta.

Aldiss não escapa à tentação de povoar o planeta com formas de vida alienígena. Fá-lo com uma espécie de lagartos mamíferos que sobrevive nas profundezas marcianas, onde há água em abundância, e talvez o ecossistema que permite a sua existência. Estranha-se este uso do artifício da criatura isolada encontrada num planeta desprovido de vida, esquecendo que formas de vida complexas não existem por si só mas dependem de ecossistemas, mas as pinceladas amplas do romance abrem espaço a esta ideia.

Sabendo que não há regresso possível, que a vida é difícil num planeta inóspito, que não parece haver esperança numa primeira geração de colonos nascidos em Marte, o que é que os leva a fazer a viagem? Aldiss, claramente influenciado pelos tempos contemporâneos, traça um retrato de um planeta à beira da extinção. As guerras violentas sucedem-se, os mais poderosos países são invadidos e os conflitos envolvem o uso desregrado de armas nucleares. Mesmo no final do livro, Marte perde o contacto com a Terra, e se não nos é dito o porquê, não é difícil intuir.

Para romance de FC, este é especialmente desolador. Mas haverá um bizarro, quase surreal mas também nostálgico, toque de esperança. Os sobreviventes em Marte serão visitados pelo que a principio parecem ser alienígenas, mas se revelam humanos vindos do futuro, seres cuja biologia evoluiu para se adaptar à vida fora do planeta Terra. E os colonos marcianos, que se julgam à beira da extinção pela incapacidade orgânica de levar a gravidez a cabo, são os antepassados directos desta futura humanidade que aos nossos olhos parece alienígena. É aqui que entram os tentilhões de Darwin, referência erudita à teoria da evolução. O momento do primeiro contacto é uma homenagem de Aldiss à FC clássica, com um casal a ser surpreendido por uma nave que aterra e de onde saem três estranhas criaturas que os saúdam. É um momento tão filme de série B que é impossível não sorrir.

Finches of Mars é um romance inquietante. Desolador, longe do optimismo da FC mais actual, mas também a não se meter no campo das distopias. É... diferente. Essa diferença é sublinhada pelo forte lado experimental na técnica narrativa. Não há longos infodumps a enquadrar aventuras bem gizadas. Este romance constró-se em fragmentos, por vezes dispersos, sem um grande esforço em aprofundar as personagens nem em definir os momentos da história. Este carácter fragmentário, em mãos menos experientes do que as de Aldiss, condenaria o livro. Não é o caso. Lê-se como se contempla um quadro impressionista. São manchas fragmentadas o que vemos de perto, e é quando nos afastamos que nos apercebemos da beleza do conjunto.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

aCalopsia: Haikasoru


Haverá literatura fantástica japonesa? Sabemos que sim, através de raras antologias de história literária, e pela forte tradição do fantástico no mangá e anime. Também sabemos que existem escritores, convenções sobre a temática e prémios anuais, como os Seiun - o equivalente nipónico dos prémios Hugo - atribuídos desde os anos 70. A recente edição de All You Need Is Kill, pelas Edições Devir, tornou pertinente falar um pouco da edição em traduções de literatura de Ficção Científica e Fantástico japonesa trazidas até nós pela Haikasoru, uma chancela especializada da Viz Media que aguça a curiosidade sobre a FC nipónica. Mais no aCalopsia: Haikasoru.

Comics


 Hellboy in Hell #07: Metódico, e longe da espectacularidade a que estava obrigado durante a sua época de maior sucesso, este regresso de Hellboy foge às rotinas seguidas pela série B.P.R.D. e regressa às raízes do personagem: histórias de horror sem continuidade novelística e o traço pessoal de Mike Mignola. Matar o personagem e retirando-o das publicações contínuas foi uma decisão sensata, que permite que este não se dilua como tantos outros grandes personagens dos comics.


2000AD #1945: Terminou o episódio, mas regressará. Hellium é FC pura com um traço de beleza admirável, e o mundo ficcional é demasiado abrangente para se ficar por um único episódio. São histórias como esta que mantém a 2000AD como título de referência nos comics. Quando se dedica à FC, fá-lo com estilo.


Mind MGMT New MGMT #01: Apesar de um belíssimo final, não resisto a dizer ufa, que já terminou. A parábola de Matt Kindt sobre agentes secretos e poderes especiais que manipulam o mundo nos seus bastidores teve momentos excelentes, mas ao longo de três anos o prolongamento da sua resolução final tornou-se cansativa. O que se manteve sempre consistentemente brilhante foram as vinhetas iniciais e finais, pérolas de um fantástico onde Le Carré se cruzava com Borges.

domingo, 30 de agosto de 2015

Insta




Square to be hip.

It Was a Dark and Stormy Night...



Não resisto a partilhar estas pérolas, que descobri no blog da Forbidden Planet. Começa com uma serie de cartoons de Charles Schulz desenhados nos anos 60 que brincam com os clichés do escrever histórias. A noite de tempestade trovejante, o grito, a surpresa inesperada, o romance, o final feliz, com o estilo minimalista de Charlie Brown.

Sem Snoopy, mas a fazer uma profunda vénia ao trabalho de Schulz, o também lendário Len Wein, acompanhado pelo ilustrador Walt Simonson, replica na íntegra o texto e o espírito deste cartoon numa curta história de Batman, publicada originalmente na Detective Comics #500 em 1981.



Uma noite escura e tempestuosa, sem dúvida. Mesmas palavras, uma história diferente, e nem o pormenor do navio pirata escapa. O Comic Book Resources conta-nos a história por detrás desta e de outras lendas e surpresas dos comics.

sábado, 29 de agosto de 2015

Estradas para



Westernlands. Por Óbidos e Caldas da Rainha.

3D Printing Hype Cycle 2015


Olhares mais atentos que o meu, no 3D Printing Industry e na Forbes, tiveram acesso à análise mais detalhada dos hype cycles da Gartner sobre impressão 3D. O destaque vai para a rapidez com que os usos biomédicos da tecnologia estão quer a chegar à estabilidade quer a desbravar novas aplicações. Já no que nos diz mais respeito, a impressão 3D aplicada à educação, as projecções são menos optimistas.

A Classroom 3D Printing, de acordo com estes analistas, está em ascensão no crescendo de interesse entre a faísca inicial de inovação e o primeiro embate que desperta a curiosidade do grande público. É uma visão com que concordamos. O interesse na impressão 3D ligada à educação está agora a iniciar, com projectos piloto altamente experimentais, um grande despertar da curiosidade dos professores e um número ainda pequeno mas crescente de estudos académicos sobre o tema. Mas quem já traz impressoras 3D para a sala de aula sabe que há ainda muito por perceber sobre a sua pertinência pedagógica. Há que estudar aplicações, integração curricular com as diferentes áreas educativas, metodologias de trabalho.

A própria tecnologia subjacente, apesar de avançada, tem o seu quê de Ford Modelo T. Apesar de ser de ponta, é ainda algo rudimentar, com alguns problemas de fiabilidade e usabilidade que tornam, nesta fase, a impressão 3D algo mais próximo de uma arte do que uma técnica. Não tem ainda a fiabilidade a que outras tecnologias já nos habituaram, o que complica um pouco a adopção da impressão 3D por professores com pouco tempo e experiência. Sublinhe-se que não queremos com isto dizer que a tecnologia não é fiável. Mas problemas com o hardware acontecem. Os extrusores bloqueiam, as mesas têm de estar calibradas, passar da modelação 3D à impressão não é um processo linear, a impressão pode falhar porque um aluno acidentalmente desligou a impressora da corrente... são pequenos obstáculos torneáveis por quem está habituado a lidar com tecnologias mas que no dia a dia de uma sala de aula dificultam os processos de utilização, aprendizagem e consequentemente de adopção da tecnologia. E não podemos esquecer que para tirar verdadeiro partido da impressão 3D é preciso aprender a modelar em 3D, algo já mais acessível, mas que depende muito de aplicações profissionais que não foram pensadas para uso com crianças e jovens, havendo falta de aplicações simples que permitam uma iniciação à modelação. Estas começam a surgir, como se nota pelo excelente exemplo da Morphi, cujos criadores se esforçam pela integração curricular directa da modelação e impressão 3D. É um conjunto significativo de factores que dificultam a adopção desta tecnologia por outros que não os early adopters.

Não é ligar, imprimir e aprender. Mas o mesmo pode ser dito de todas as tecnologias com potencial educativo, desde os tablets à internet, sem esquecer o próprio computador. Medeia sempre um considerável intervalo de tempo desde que chegam à escola até se generalizarem pedagogias que saibam tirar bom partido de novas tecnologias. Não há aqui pós mágicos, nem inovação por simples presença. É este lado complexo, vindo da experiência de integração de tecnologias, que nos leva a concordar com a forma como estes analistas descrevem o ciclo de maturação desta (e de outras) tecnologias. Depois do deslumbramento inicial, começam os problemas e as questões de isto afinal serve mesmo para quê. Suspeitamos que parte daqueles que hoje investem na impressão 3D nas escolas, dentro de um ano ou dois as tenham colocado de parte por problemas de uso ou falta de ideias (excepção feita aos cursos profissionalizantes, onde a aplicação é directa). É um processo que vimos acontecer com a introdução de outras tecnologias na escola. Dois exemplos rápidos: a introdução de computadores portáteis no primeiro ciclo, que seis ou sete anos depois de ter sido feita (e com os equipamentos já obsoletos e inexistentes com o fim do projecto) tem agora condições para ser aproveitada com o projecto de Introdução à Programação no 1º. Ciclo; ou os tablets, que começaram a chegar à escola nas mãos dos alunos, cujas questões de utilização são agora alvo de estudos de implementação prática, caso do TACCLE2.

A simples presença de uma nova tecnologia na sala de aula não garante a pertinência do seu uso. São precisas estratégias, metodologias e ideias para assegurar eficácia pedagógica. Esperemos é que nisto a análise da Gartner erre por cautela. A maturação da Classroom 3D Printing está apontada como acontecendo num intervalo de mais de dez anos entre o arranque inicial e a sua disseminação (o plateau of productivity da curva). Esperemos que o trabalho pedagógico, que pelo que temos visto arrancou com força, acelere esta pouco optimista escala temporal.

O gráfico 3D Printing Hype Cycle 2015 está disponível no site da Gartner. Já o relatório que especifica melhor os tópicos está acessível apenas para os seus clientes.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Hype Cycle 2015 e Impressão 3D

A Gartner publicou o seu hype cycle para 2015, apontando a evolução das tecnologias de ponta desde o momento em que se fazem sentir na consciência colectiva até se integrarem no dia a dia das economias. Estas curvas de crescimento são um conceito interessante, apesar de não ser muito claro em que critérios se baseiam. Sendo uma empresa privada de análise, não tem critérios transparentes ou, nestes gráficos explica as metodologias que utilizaram. Talvez na edição paga explicitem como chegam às suas conclusões. Mas a curva descreve bem o evoluir das tecnologias de ponta do surgimento até à integração. Especialmente naquele factor wow!! que depressa se traduz em desilusão perante a falta de aplicações práticas a curto prazo mas que culmina inevitavelmente na integração da tecnologia. a médio e longo prazo. Se isto vos parecer muito esotérico, reparem como os telemóveis, smartphones ou tablets evoluíram na consciência que temos deles. Este ciclo de onda aplica-se bem à forma como nos apercebemos que estes dispositivos acabaram por estar tão integrados no nosso dia a dia que nem damos pela novidade da sua existência.

Quanto à impressão 3D, olhem bem por onde ela anda. A bioimpressão 3D está a despertar a atenção. A impressão 3D de nível empresarial e industrial está a atingir a maturidade. A impressão 3D de consumo está a iniciar a longa descida. Despertou atenções, impressionou e intrigou, e começa agora a mostrar-se ainda incapaz de corresponder às expectativas elevadas lançadas. De acordo com a Gartner, a maturidade da Consumer 3D printing será atingida num espaço de tempo entre os cinco a dez anos. Começa agora o trabalho de afinar os usos da tecnologia, tirando-a do nicho de curiosidade e explorando as suas aplicações práticas que inevitavelmente a integrarão como tecnologia madura. É a hora de deixar de especular sobre as revoluções trazidas pela impressão 3D e trabalhar nas suas possibilidades de aplicação nas diversas áreas.

Agora é um momento interessante para explorar esta tecnologia fantástica. Hora de começar a cumprir a promessa de inovação e transformação que nela intuímos, e criar as aplicações que a irão integrar como tecnologia madura. Boa altura de aprofundar o trabalho sobre o que se pode fazer com impressão 3D e educação, que certamente revelará caminhos novos de aprendizagem e descoberta. Muito trabalho para as TIC em 3D.

O Pátio das Cantigas


Surpreendeu-me este filme não ser tão mau como esperava. A fotografia é muito boa, e a cinematografia caracterizou-se por algumas cenas muito bem filmadas, especialmente num bem conseguido tracking shot no meio de uma festa dos santos populares. De resto, é o que se espera de um produto comercial pensado para o mercado da nostalgia. Aposta de lucro certo ao reunir nomes conhecidos dos media pop em registo de comédia leve com acenos ao cinema popular clássico português. O argumento pega na base icónica do filme original, salpicando-o com uma modernização que apela à imagem tão em voga de uma Lisboa típica enriquecida com lojas gourmet e tuk tuks como destino típico para turistas, de preferência gay em hostels, para ser ainda mais hipster, com pitadas de multiculturalismo para parecer mais contemporânea. Tenta ir mais longe, procurando aprofundar as histórias das vidas das personagens unidimensionais, aí falhando por completo. Já essa imagem de Lisboa empreendedorista no pós-crise financeira doura a amarga pílula da especulação imobiliária desenfreada, da transformação dos espaços públicos em parque temático típico para turistas, ou a avalanche de tuk tuks carregados de turistas alcoolizados a trepar pelas colinas da cidade. Algo que neste filme parece saudável e desejável, retratado com sorrisos e as cores garridas dos santos populares.

Com a sua premissa e tipo de personagens é quase impossível que os actores tenham um péssimo desempenho. Não é preciso esforçarem-se muito ao declamar as linhas supostamente hilariantes dos diálogos. Fazem-no da mesma forma como nos habituaram na televisão. Grande parte dos papéis está atribuído a comediantes da nossa praça, que no fundo se representam a si mesmos ao interpretar as personagens. Difícil falhar, com a fasquia tão baixa. Miguel Guilherme ainda se esforça um pouco, tentando replicar o estilo icónico de António Silva (o nome clássico da comédia tradicional portuguesa), mas ao fazê-lo entra em overacting profundo que, ou por falha dele ou do realizador, não transmite a ironia pretendida. Digamos que ao fazê-lo soa a alguém com algo maciço espetado num local pouco confortável do corpo. Restam ainda umas carinhas larocas com corpo a condizer para fazer o papel de interesses amorosos/sexualizados e arregalar os olhos machistas dos actores e espectadores. Algumas das quais já vi em teatro e são excelentes actrizes, mas que neste filme são reduzidas a corpos de formas sesnuais.

(Escrevi supostamente hilariantes porque sou imune à maior parte da comédia que por cá grassa. Lamento, devo mesmo ser um tipo sisudo, incapaz de se rir com as graçolas dos sketchs televisivos, as piadas stand up ou o hipsterismo do Canal Q.)

A regressão tradicionalista dos papéis femininos foi algo que me deixou de boca aberta neste filme. As mulheres só servem como interesse amoroso, de preferência com dotes culinários, ou objecto sexual que procura fama fugaz. Estamos a falar de um filme que se safa com uma piada destas: um personagem, ao pedir a mão da mulher que o ama em casamento, não resiste a observar que por esta ser divorciada já é produto em segunda mão. Ela ri-se, o público também. Eu fiquei boquiaberto. A cultura do piropo, também bem patente na história, ainda pode ser defendida como caricatura do popularucho. Uma piada destas é apenas ofensiva. Dito isto, há no filme uma boa piada, sobre DJs e pens que fazem todo o espectáculo.


Não é a única má piada do filme, mas é a que sublinha melhor a incapacidade assumida e intencional de olhar para todo o contexto do filme original, valorizando aquela nostalgia do tradicionalismo portuguesista tão querida ao Estado Novo com roupagens contemporâneas. Recordemos que as comédias clássicas do cinema português, mais do que produtos de entretenimento, tinham uma vertente de propaganda ideológica destinada a veicular os valores do portuguesismo apreciado pela ditadura. A tradição pitoresca, o travar de ambições vistas como desmedidas, o manter as coisas como estão, a noção de portugal dos pequenitos. Para mim, uma das cenas mais sublimes do Pátio das Cantigas original é aquela em que Vasco Santana, a meio de uma briga de bairro, abriga as crianças numa barca chamada Salazar enquanto lhes diz que ali estão seguros e protegidos. A subtileza disto diz tudo. Já o novo filme não decai a níveis tão óbvios. Não há barcas chamadas Passos Coelho para proteger os infantes. Fica-se mesmo pela apologia do ideal empreendedorista que nos têm enfiado à força pela garganta abaixo nos últimos anos.

Até o tracking shot que admirei sofre de racismo e boçalidade. A câmara acompanha um habitante indiano do bairro, que atravessa a festa sempre a perguntar qualquer coisa em hindi. Ninguém o percebe e dão-lhe as respostas mais estapafúrdias. Yep. Filme popular no portugalito do século XXI  tem de gozar com minorias e etnias, bem como ter gajas boas para arrebitar os espectadores. No cinema, o público ria-se.

É impossível não reparar como se tornou possível fazer um filme revivalista destes nos tempos que correm. Sintoma do retrocesso social nos valores e direitos para um conservadorismo bafiento com referência num certo passado dourado que, para a maioria da população, nunca o foi. Coisas do espírito dos tempos. Este filme não é nem pretende ser uma caricatura irónica exagerada que nos leva a reflectir sobre o ridículo e o lado negativo da herança de um passado ditatorial que nos últimos tempos anda a ser revisto com cara lavada. Algo que, por exemplo, Capitão Falcão faz de forma magistral.

Tentando renovar um clássico em registo bem intencionado mas superficial, consegue apenas ser uma suposta comédia leve e desconexa, com actores que se representam a si próprios, não fugindo à sua imagem de marca como cómicos do mercado.  Salva-se a fotografia, que faz jus à iconografia típica dos bairros lisboetas nos santos populares, fazendo brilhar a Vila Berta na Graça com aquele tom acobreado da luz lisboeta ao final da tarde. A cinematografia tem momentos muito bons mas descamba ao serviço de uma montagem que a partir do meio do filme começa a querer resumir muito perante o entrançar de demasiadas linhas narrativas. Termina de forma inexplicável com uma cena ao estilo Bollywood, que apesar de bem filmada foi claramente criada só porque sim e porque parece que é fixe. Em suma, é o que se espera, produto assumidamente comercial que puxa pela cultura da nostalgia para lucrar. Terá bom impacto nos balancetes, mas impacto nulo na cultura. Negativo não digo, porque não acredito na dicotomia cega entre cultura elevada e baixa, e por nariz empinado que seja não acho que tudo o que se vê, ouve e escreve tenha de ser evangelizador dos altos valores estéticos. Este Pátio das Cantigas é o que é, destina-se a ser destacado até à exaustão pelos media comerciais até aparecer novo produto similar.

Bolas, para mau filme até despertou um texto longo. Fui vê-lo por razões familiares. Depois de adormecer com um dos Hobbits, o que até é compreensível, ou ficar nada impressionada com Gravity em IMAX 3D, desisti de trazer a minha mãe ao cinema sem ser para filmes ajustados ao seu nível demográfico. Ela saiu de lá a sorrir, com isso diria que valeu a pena o ordálio a que me submeti. Ao contrário do que esperava, o nível de imbecilidade não provocou suicídios colectivos dos meus neurónios, e monte de esterco por monte de esterco, a experiência de ver uma coisa ofensiva e patética como A Gaiola Dourada foi bem pior que isto. E com este parágrafo final consigo manter imaculado o meu street cred de elitista cultural de nariz empinado com foco na ficção científica e até fazer passar uma imagem quase humana, com o seu quê de carinhoso. Ah, já me ia esquecendo. Devo dizer que adorei estar sentado ao lado de um grupo de betos normalóides que adoraram tanto o filme que o transformaram numa experiência interactiva, com gargalhadas encimadas de comentários de muito bom, muito bom de piada em piada. É sempre interessante, num sentido antropológico, ver que há mesmo pessoas que gostam e vibram com estas coisas. Fica-se a conhecer melhor o largo espectro do comportamento humano.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Europe at Midnight



Dave Hutchinson (2015). Europe at Midnight. Solaris.

Europe at Midnight parte de uma premissa fantástica para gerar o seu mundo ficcional. Lê-se a bom ritmo, com um enredo interessante que nos mantém agarrados à obra para perceber por onde é que a história se vai desenvolver. Apesar disto, tem alguns defeitos estruturais que dificultam a sua compreensão.

Vamos por partes. Primeiro, o mais interessante. O mundo ficcional deste romance que mistura ficção científica com distopia e policial procedimental desenrola-se num futuro próximo. A Europa colapsou, vítima das pressões trazidas por crises económicas e uma misteriosa pandemia que matou milhões. Os próprios estados colapsaram, com micro-países a irromper um pouco por todo o território de uma União Europeia que parece ainda existir no papel. A Inglaterra já não é um reino unido, com a Escócia e Gales independentes, e a Cornualha a travar uma guerra civil.

Mas há mais territórios, e mais Europas. Numa curiosa mistura entre ficção científica hard e fantasia, Hutchison fala-nos de dois territórios paralelos, pequenos mundos circunscritos que coexitem com o nosso planeta. A explicação para a sua existência mistura topologia n-dimensional com um acto de criação levado a cabo séculos antes por um casal de geógrafos, que ao mapear regiões ficcionais acabou por lhes dar origem. É este o elemento mais interessante do romance, fazendo recordar um dos episódios do arco narrativo de Air, comic de G. Willow Wilson e M. K. Perker, em que os personagens aterram num território encastrado entre a Índia e o Paquistão esquecido pelos mapas. Se bem que a principal inspiração talvez tenha sido a ideia de que o mapa forma o território, tão bem lançada pelo magistral conto Tlön, Uqbar e Orbis Tertius de Borges.

O romance vive de tensões de espionagem e jogos de poder entre o mundo real e as realidades paralelas. Uma é um enorme campus universitário, outra uma segunda Europa que se estende da península ibérica a Moscovo que se assemelha a uma gigantesca Inglaterra idílica. Há pontos de contacto entre os mundos, caminhos que parecem seguir um percurso mas levam a outro. E há algo mais soturno. Se o nosso mundo desconhece as realidades que lhe são paralelas, o mundo universitário vive encerrado numa espécie de redoma conceptual. Já a Europa paralela, colonizada por famílias vindas da Europa real, conhece bem e influencia o mundo mais vasto que está para lá da sua topologia.

São estas tensões que formam uma linha narrativa próxima do romance de espionagem. Oscilamos entre o ponto de vista de um agente de segurança inglês, que descobre, atónito, a existência destes mundos paralelos, e um refugiado do mundo universitário, também ele um agente secreto que se verá envolvido em diversas conspirações que, metodicamente, nos vão revelando os segredos deste mundo fascinante.

É na duplicidade de pontos de vista que o romance falha. Oscilamos entre narração de primeira e terceira pessoa com alguma desconexão, nem sempre sendo aparente quem é o narrador. A sequenciação da linha narrativa depende de uma multiplicidade simultânea de eventos que só nos é apresentada, muitas vezes, demasiado tarde. Apesar destas falhas, é um romance intrigante que desperta a atenção pela premissa em que se baseia. Uma ficção sobre ficções que se tornaram reais. Não resisto a destacar o pormenor da arma cronenberg, uma pistola totalmente orgânica de um só tiro que não deixa quaisquer pistas sobre a sua utilização. Quem se recorda de Videodrome percebe o aceno.

Europe at Midnight será editado em novembro. Esperemos que até lá as inconsistências estruturais que prejudicam um divertido livro sejam limadas graças às indicações dos leitores que leram a ARC.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Os Marcianos Somos Nós


 Nuno Galopim (2015). Os Marcianos Somos Nós. Lisboa: Gradiva.

Um livro excelente para as manhãs, ou as tardes, deste verão. Dá-nos uma intrigante viagem pelo real e pelo imaginário do planeta Marte. Não sendo muito profundo, é abrangente, conseguindo tocar quer na história literária das visões fantásticas sobre o planeta, quer na história da exploração científica progressiva que nos permite conhecer cada vez melhor este planeta do sistema solar.

Para fãs conhecedores da literatura e cinema de ficção científica, este livro sabe um pouco a fazer o trabalho de casa. Sublinhe-se que Galopim traça uma visão abrangente da forma como esta literatura abordou o fascínio pelo planeta, comparando a evolução nas ficções com o conhecimento progressivamente ampliado pela investigação científica. Com base no saber de cada época, são-nos dadas recensões de obras ficcionais que imaginaram a vida, as possíveis civilizações e a exploração e colonização do planeta. Este diálogo entre saber científico e imaginário é o fio condutor da obra. Para quem conheça mal, ou não conheça, a literatura de ficção científica este livro vai-lhe parecer uma pequena enciclopédia. Fiel ao seu carácter multidisciplinar, Galopim não esquece o cinema nem a música.

De fora fica uma possível visão sobre Marte de autores portugueses de Ficção Científica (como A Verdadeira Invasão dos Marcianos de João Barreiros). O título também tem o seu quê de infeliz. Suspeito que na livraria onde o comprei as funcionárias pensavam que seria  um livro de auto-ajuda ou esoterismos. É muito curioso, e muito bom, ver este livro que mistura de forma exemplar ciência com ficção científica editado pela marcante colecção de divulgação científica da Gradiva.

Com uma boa análise quer na ficção científica quer na investigação, este livro é uma excelente forma de descobrir quer o género literário quer o que se sabe sobre Marte.

Frisson

Depois de cinco anos de serviço fiel decidi reformar o meu fiável e funcional vaio. Nem precisaria, se os meus requisitos computacionais se ficassem pelo navegar na web, produzir texto e editar imagens. Ao fim destes anos a bateria ainda dura um bom par de horas e tirando algum sobreaquecimento por bloqueios na ventilação o vaio continua excelente. Dando ou tirando alguns riscos no chassis, a marca de um pc com uso muito intenso. Com a corrente tendência de plataformas móveis o pc clássico acaba por ser uma máquina de uso restrito para a maioria dos utilizadores, daquele tipo que os utiliza essencialmente como máquina de escrever, ecrã de televisão e redes sociais. Mas os meus requisitos vão um pouco para além disso e apesar de se esforçar, e me prestar bom serviço nestes anos, o vaio já se arrastava na modelação e impressão 3D. Hora, por isso, de investir.

Contemplei, babado, os Lenovo (os posts do Cory Doctorow no Boing Boing sobre os seus Thinkpads abriram o apetite) mas lembrei-me dos desastrosos spyware e malware que os génios da empresa decidiram instalar nos seus computadores. Não quero silverfish no disco rígido, muito obrigado. Decidi-me por um HP cujas especificações de RAM, processador e placa gráfica se ajustavam ao que preciso e ao preço que estou disposto a pagar. E quando cheguei a casa para o estrear recordei-me o quanto detesto teclados da HP. Grr. Tenho os dedinhos e a percepção corporal habituada aos teclados aconchegados dos vaio e o espaço largo dos HPs sempre me irritou. Especialmente quando o dedo vai instintivamente clicar naquela tecla e sai outra que não era bem aquela que estava à espera.

Algo que me apercebi, ainda quando estava a ponderar as escolhas e a processar a compra, é o quanto me falta a paciência para as rotinas de configurar um novo computador e migrar as aplicações e dados. Bolas, pensei, é que não me apetece mesmo nada. É um sinal da integração completa das tecnologias digitais no meu dia a dia, esta fadiga com as novidades tecnológicas. Houve tempo em que sentia aquele frisson ao redescobrir sistemas operativos e novo hardware. Agora, nem por isso. Só penso no tempo que não vou poder utilizar de forma produtiva enquanto instalo aplicações e transfiro pastas de dados. Suspeito que o meu trabalho tenha algo a ver com isso. Sou professor, mas sou um professor que passa boa parte do tempo com o nariz mergulhado nos sistemas informáticos da escola (vai acima da centena, se querem saber). Há quem diga que ando sempre a reformatar computadores. Pudera, desde que percebi que o trabalho que dá resolver problemas numa rede que me rendi ao espera aí vinte minutos, vou só reformatar com a ferramenta de clonagem e já volto. Vinte porque demoro cinco a ligar/desligar/ligar ao domínio. Confesso que com tanta reformatação e instalação de sistemas operativos cansei-me das novidades.

Ainda estou a correr Windows, porque preciso dele para algumas aplicações que me são essenciais, e vou manter-me no 8.1 durante umas semanas antes de arriscar o 10. Não que desconfie dele, mas acabou de sair e... lá está, tenho melhores coisas para fazer com o meu tempo do que estar a servir de cobaia enquanto se alisam os vincos do novo sistema. Não me interessa participar num programa de beta testing à escala global.

Novo computador significa que alguns projectos que tenho adiado vão poder finalmente ir em frente. Vamos ver se me safo como autodidacta em Blender e Unity? Entretanto, vamos ver se me habituo aos teclados HP.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Os Últimos Contos de Cantuária



Jean Ray (1983). Os Últimos Contos de Cantuária. Lisboa: Vega.

Memorizei o nome de Jean Ray numa das sessões da tertúlia Sustos às Sextas, quando alguém, provavelmente o classicista António Monteiro, trouxe Malpertuis à baila. Por isso, ao deparar com esta edição amarelecida, nem pestanejei. Aconteceu numa destas tardes de verão, povoadas por hordes de turistas em Óbidos, onde aproveitei para vasculhar os alfarrábios da Livraria do Mercado em busca de preciosidades literárias. Algo mais difícil do que parece num espaço com um enorme acervo, mas muito pouco daquilo que desperta o olhar de leitores de ficção científica e fantástico. Mas não deixa de permitir colher algumas curiosidades intrigantes, como este livro de Ray. Que, diga-se, é uma delícia literária composta de curtos contos.

Inspirando-se nos contos homónimos de Chaucer, reúne um grupo peripatético de viandantes improváveis de várias eras que se cruzam numa noite escura, na taverna onde, seiscentos anos antes, os companheiros de viagem e de histórias de Chaucer tinham partido para Canterbury. Percebemos que estamos perante um livro muito especial quando é o próprio Chaucer a fazer as honras da antologia, confessando ao leitor que as distâncias temporais são quebradiças e fluídas. Leitor esse que chega à taverna pelas mãos do secretário de um clube literário de luminárias menores, cuja prodigiosa microscópica produção os leva a pertencer ao legado estabelecido postumamente por um milionário inglês com um peculiar sentido de humor.

Sentido de humor, de uma forma elegante e corrosiva mas também estranha e decadente, é uma das sensibilidades que caracterizam estes contos que se destacam especialmente por um apurado sentido do macabro, do cruel, do tétrico e do insólito. São pérolas literárias eruditas e decadentes do sangrento.

Que contos cruéis nos aguardam, prontos a saltar para nos surpreender de dentro das páginas amarelecidas? Temos restaurantes onde as iguarias têm proveniência canibal. Uma bruxa que se diverte a atormentar os carrascos no momento em que os cadafalsos de Tyburn entram em acção. Uma idólatra que encontra forma de sacrificar crianças a Baal na sua sala de estar. Um simpático carrasco de Tyburn que casa com uma mulher que tem uma segunda vida como assaltante de estradas. Um Falstaff irritado porque a memória literária recorda-o como bonacheirão e não pelos seus feitos militares. Um fantasma que se humaniza, para seu desespero. E muitas outras histórias de humor negro, de crueldade elegante, propiciadas por um ser que assumindo forma humana, é um Satã que se diverte.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Maker Faire Lisboa

 
Devo dizer que... em cheio: "O que mais motiva Artur Coelho e os seus colegas é o sorriso de deslumbre nos rostos dos seus alunos quando vêem os seus trabalhos a serem impressos em 3D." Como temos estado de férias, quase passou despercebida a entrada no blog da Lisbon Maker Faire 2015 sobre o nosso projecto. De 18 a 20 de setembro, lá estaremos. Para não variar, o arranque do ano lectivo vai ser um típico hit the ground running. A grande velocidade. Para ficarem a conhecer os projectos fantásticos que estarão na Faire, visitem o site da Lisbon Maker Faire.

Comics


 2000 AD #1944: Depois do intrigante The Man From The Ministry que desenvolveu para a Judge Dredd Megazine, Gordon Rennie regressa às páginas da clássica revista de comics britânica para insuflar vida num novo personagem. Suspeito que The Alienist seja um cruzamento dos detectives clássicos do sobrenatural britânico (pensemos em John Silence ou Carnacki) com criaturas extraterrestres.


The Infinite Loop #05: Este é um comic fortemente indeciso. Tanto é história de aventuras com paradoxos e laços temporais como um grito de libertação LGBT nos comics. Consegue ser interessante nas duas vertantes, apesar de desconexo. E se histórias de volteios paradoxais com laços no espaço-tempo há muitas, esta é talvez a primeira que assume abertamente ser um caminho de auto-descoberta homossexual. Este carácter progressista da série é o elemento que lhe dá carácter (lamento, mas não resisti).

domingo, 23 de agosto de 2015

City

 
Clifford D. Simak (2015). City. Nova Iorque: Open Road.

Um livro intrigante, inquietante ao inverter as premissas humanistas da FC clássica. Em City, Simak entrega o planeta aos cães, num sentido muito literal. As espécies caninas vão-se tornar na forma dominante de vida inteligente numa Terra abandonada pelos humanos, partidos em busca de paraísos reais ou virtuais. As histórias, originalmente publicadas em diversas revistas de ficção científica, vão nos mostrar a evolução do planeta ao longo de milénios. O que é para nós um relato, é-nos apresentado como uma lenda, contada pelos fiéis companheiros de uma humanidade da qual apenas guardam vagas recordações. A Open Road reedita este clássico da Ficção Científica em formato digital, respeitando a sua estrutura e adicionando um interessante prefácio que nos ajuda a compreender melhor a obra.

O que intriga neste livro, colecção de contos dispersos com um fio condutor bem vincado, é a forma como Simak antecipa algumas das nossas correntes contemporâneas de ficção científica e pensamento tecnológico. Simak mostra-nos as consequências de um almejado futuro pós-escassez, onde a pobreza é eliminada graças à tecnologia. Fiel ao optimismo tecnocrático vigente nos anos 50, condena a humanidade a um ócio eterno, que a irá estagnar. Visão contrastante com a nossa, que aceita que a pós-escassez, a acontecer, será dominada por uma restrita elite, deixando o resto da humanidade na pobreza.

As transcendências singularitárias são também antevistas nestes contos. Quer com o destino da humanidade, transformada em criaturas pós-humanas, quer com o destino das restantes espécies animais, que com alguma ajuda humana irão evoluir até desenvolverem inteligência e civilizações próprias. Será que David Brin se inspirou nestes contos para a sua série Uplift?

Os impactos imprevistos do progresso tecnológico nas sociedades são também evidenciados nestes contos, com um curioso aceno às virtualidades digitais. Décadas antes de se falar em realidade virtual, Simak fala-nos de uma parte da humanidade que se refugia num sono eterno, habitando mundos electronicamente induzidos.

City: Uma variante progressista de visões de futuro pós-escassez, com a automação, energia abundante e novas técnicas de cultivo a tornar obsoletos os modelos económicos e sociais vigentes. Num futuro destes, as cidades estão a ser abandonadas por populações que já não precisam delas. A pressão social agora é regressar ao campo. Com as quintas tornadas obsoletas por formas de cultura hidropónica e técnicas baratas de construção de casas, qualquer um pode ter uma grande propriedade nos vastos confins rurais. Restam nas cidades os arreigados aos antigos sistemas, incapazes de compreender a profundidade das mudanças, e os que foram levados pela enxurrada da inovação, cujos modos de vida se tornaram obsoletos neste admirável mundo novo. Mas não temam. Simak escrevia no auge do positivismo tecno-científico, onde estas alterações eram vistas como benignas, e onde o conceito de ajuda ao ajustamento funcionaria como mitigante para os impactos negativos de um progresso globalmente visto como positivo. Curioso contraste com as nossas assustadoras visões contemporâneas sobre o progresso da automação e o impacto negativo que terá nas relações laborais. Tem ainda um pormenor curioso, específico da guerra fria: um dos objectivos deste impulso de regresso ao campo foi, em tempos, o de dispersar populações e recursos para minimizar o impacto de possíveis guerras nucleares. Daí parte uma inexorável marcha que mudará a face do planta. Curiosa reflexão de Simak sobre a forma como as consequências previstas dos planos futuristas raramente são aquelas que modelam os futuros.

Huddling Place: Há um nome de família, os Webster, que surge no primeiro conto, com um personagem que resgata a cidade da destruição para a transformar num museu natural. Essa família irá tornar-se o fio condutor das várias histórias que formam este livro. Nesta segunda, um cirurgião de renome vê-se impedido de salvar a vida de um amigo, filósofo marciano, ao descobrir que sofre de agorafobia. Há duas correntes neste conto. Por um lado, o sentimento de segurança quebrável por deslocações como grilhão que começa a prender uma humanidade acomodada na pós-escassez. Os efeitos morais perniciosos da libertação da pobreza e escassez são um tema que estará em evidência ao longo dos contos. Simak parece fazer notar que se as utopias paradisíacas são belos sonhos, sem vicissitudes ou desafios o espírito humano definha. Noutro, directamente relacionado com a sequência narrativa, a morte do filósofo vai negar à humanidade uma descoberta fundamental para a psique.

Census: Um governo mundial a esboroar-se perante uma humanidade cada vez mais rarefeita envia um recenseador até às terras selvagens. A sua missão é a de documentar grupos de humanos cujas mutações lhes conferem inteligência avançada e longevidade. De caminho tropeça na mansão familiar dos Webster, com os seus robots atenciosos e os cães capazes de falar, algo tornado possível graças a experiências médicas que conferiram o dom da palavra aos fiéis companheiros do homem. Já os mutantes revelam-se donos de um intelecto verdadeiramente superior, e o recenseador entrega-lhes o trabalho incompleto do filósofo marciano.

Desertion: Nem toda a humanidade se rende à inércia. Alguns atrevem-se a explorar o sistema solar, desbravando os planetas. Em Júpiter, um cientista e o seu fiel cão decidem-se a enfrentar o desconhecido. Perante o falhanço do regresso de exploradores enviados para o planeta, o cientista e o seu cão são metamorfoseados em criaturas de jupiterianas para tentar concretizar a missão de exploração. Que mistérios se ocultam na atmosfera de Júpiter? Tomando a forma das criaturas gasosas que o habitam, descobrem que a pressão insuportável e a atmosfera de metano são locais idílicos para as suas novas formas, praticamente imortais e capazes de se compreender através de telepatia.

Paradise: Alguém se sacrificou para regressar à humanidade, trazendo-lhes notícias do paraíso. Num curioso artifício, o conto anterior leva-nos a entender que seria o cientista, deixando para trás o seu fiel cão. Neste percebemos que foi o cão que regressou, tomando forma humana graças à tecnologia que permite transformar homens noutras criaturas. As notícias que para atingir um paraíso eterno bastaria à humanidade vir até Júpiter e tomar a forma das suas formas de vida gasosa não é bem recebida. A promessa da felicidade poderá dar a machadada final numa humanidade cada vez mais amorfa. Mas enquanto se debatem com o dilema de divulgar ou não esta notícia, algo estranho acontece. Os mutantes que fizeram a sua aparição em Census revelam o segredo filosófico que se julgava perdido com o falecimento do pensador marciano, e ao fazê-lo despertam uma capacidade psíquica latente na humanidade, tornado todos capazes de ler e compreender pensamentos.

Hobbies: Em cada conto Simak faz-nos avançar uma geração. Como elementos de continuidade temos a família Webster e a sua casa, à qual regressamos num conto que nos mostra uma humanidade cada vez mais rarefeita. A larga maioria optou pela fuga para a pós-humanidade nos céus de Júpiter. Os que restam vão vivendo uma espécie de vida vazia, centrados em Genebra como último centro humano, quase um museu vivo onde os habitantes, libertos de qualquer necessidade, se entregam a um incessável e superficial ócio. E começam a escolher outro destino, optando por uma espécie de criogenização com sonhos digitais, fuga completa à fisicalidade terrestre. Neste périplo sobre um tipo de futurismo proto-singularitário, trazendo à mente esta filosofia futurista antes de ter sido criada, somos conduzidos por mais um Webster, descontente com que sente ser a decadência e ocaso de uma humanidade mais preocupada com a gratificação sensorial momentânea do que com a sua evolução. Mas talvez a fuga da humanidade tenha algo de positivo, permitindo a outra espécie desenvolver-se e atingir o seu potencial. Os cães, cuidadosamente cuidados pelos robots centenários da casa Webster, dotados de fala e capazes de intervir no mundo graças a robots especializados criados especificamente para eles, começam a afirmar-se como civilização, prometendo uma nova forma de vida inteligente sobre a Terra. Não sendo mecanicistas como os humanos, apostam na empatia e nas capacidades perceptivas, sendo capazes de intuir outras dimensões potencialmente habitadas que coexistem com a nossa. Enquanto a humanidade se condena ao ocaso, exilando-se para paraísos eternos, serão os seus fiéis companheiros a herdar o planeta.

Aesop: A referência a Esopo no título justifica-se num conto que faz regressar o planeta ao tempo em que os animais falavam. Passados alguns milhares de anos após os eventos do último conto, restam alguns raros humanos num estado semi-selvagem, vivendo em harmonia numa sociedade onde os cães souberam transmitir a sabedoria e evolução aos restantes animais. Imaginem uma inversão moral da Ilha do Dr. Moreau de Wells e ficam com uma noção desta arcádia onde todos os animais se compreendem e o matar foi abolido. Esta nova forma de viver é guardada com bonomia por um robot já milenar, eterno servente dos Websters, nome de que família passou a designar os humanos restantes. Com o planeta entregue a um bucolismo arcádico, a humanidade transmigrada para formas de vida gasosa em Júpiter ou adormecida sob Genebra, são os robots selvagens que mantém acesa a chama do progresso, construindo naves que os levarão às estrelas.

The Simple Way: Tal como os seus ancestrais humanos, chega agora a hora dos cães e restantes animais sentientes partirem para outros espaços. Fazem-no não através da tecnologia, mas da capacidade psíquica de aceder a dimensões paralelas, pelas quais se espalharão até a Terra, o seu berço ancestral, se tornar um mito. Mas o planeta não ficará desprovido de vida inteligente. As formigas começaram a dar sinais de desenvolvimento de uma civilização, cooptando robots para construir edifícios que ameaçam ocupar todo o planeta.

Epilog: Resta ao simpático robot que acompanhou esta evolução milenar de espécies planetárias, o único que recorda os tempos áureos da humanidade, partir. Partir e abandonar de vez um planeta-berço, agora vazio, mas que espalhou incontáveis formas de vida.

Notes To...: Cada conto é acompanhado de uma pseudo-nota bibliográfica. Este é um dos pontos mais interessantes do livro, que dá maior coerência a um conjunto de histórias ligadas entre si. Suaviza as problemáticas de construir um livro através de contos. O ritmo disperso da publicação original força-os a repetir as principais linhas narrativas para manter o contexto, algo que se torna cansativo quando coligidos. Já as notas adensam, para além das páginas dos contos, o ambiente narrativo. São observadas através do ponto de vista dos cães, descrevendo num tom irónico de análise literária a sua perplexidade perante o que consideram mitos que talvez tenham fundo real.

Insta





sábado, 22 de agosto de 2015

Leitura Híbrida

Difícil, mas não impossível. O que distingue este código QR é ser legível tanto por máquinas como por humanos. Um projecto intrigante do Fluid Interfaces Group do MIT, que podem testar aqui: HRQR: Human Readable Quick Response Code. A aplicação gera SVGs com textos convertidos para este tipo de letra de leitura híbrida humana e digital.

Estrada fora




Yepes, Escorial e llanos de Ávila.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Send Your Name To Mars


Vai o nome, já que não pode ir o resto... a NASA lançou um divertido website onde podemos inscrever o nosso nome para ser enviado a bordo da sonda Insight para Marte. Em troca, para além daquela sensação de calor no coração ao saber que daqui a alguns anos o nosso nome estará na superfície marciana, recebemos um cartão de embarque. Cá por mim, vou imprimi-lo para pendurar no meu gabinete de trabalho.

Roadtrip 2015 (III)






Medievalismo e religiosidade em Ávila.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

El Sabueso y otras historias

 
 Gou Tanabe (2015). El Sabueso y otras historias. Barcelona: Editorial Ivrea.

É intrigante constatar o fascínio contínuo que a obra de H. P. Lovecraft excerce hoje sobre escritores e desenhadores. A prosa deste autor pulp que quase caiu no esquecimento, com todos os seus defeitos estilísticos e temáticos, conjura um tipo muito próprio de terror classicista que exerce um fortíssimo fascínio nos apreciadores e criadores do género. Esta adaptação para mangá de Gou Tanabe de três dos seus conhecidos contos (The Hound, The Nameless City, The Temple), cruza a estética da banda desenhada japonesa com o terror visceral e europeísta de Lovecraft. O registo gráfico é notável, sumptuoso nas trevas e no invocar das deformidades aterrorizantes que caracterizam a obra lovecraftiana.

El Templo: A interpretação gráfica que Tanabe dá a este conto distingue-se pela forma como retrata os espaços claustrofóbicos de um submarino alemão cuja tripulação enlouquece. À deriva submerso no oceano, condenado pelos motores destruídos, aproxima-se de um misterioso templo debaixo das águas, talvez um resquício de estilo helenista da antiga atlântida. É curiosa a forma como Tanabe nos leva da claustrofobia do interior do submarino a espaços visuais amplos onde os mistérios submersos se cruzam com um formalismo baseado na arte grega da antiguidade clássica.

El Sabueso: Versão de The Hound, a história aterrorizante de dois jovens decadentes cuja busca insaciável pelos prazeres mórbidos os leva a deparar-se com um aterrorizante defensor de um artefacto misterioso. São muito interessantes os contrastes gráficos entre uma certa elegância mórbida dos jovens protagonistas e a escuridão profunda dos momentos de terror.

La Ciudad Sin Nombre: Se o estilismo de Tanabe se caracterizou pelo rigor formal nas duas primeiras histórias, o seu traço torna-se mais solto e expressivo ao abordar The Nameless City. As ruínas soterradas sob os desertos arábicos ganham um curioso ar bizantino que é muito eficaz a invocar o ambiente de fascínio e estranheza pelos locais remotos que ocultam segredos tenebrosos que caracteriza o conto original.

Pormenor curioso: comprei este livro na livraria Fnac de Callao, no centro de Madrid. Livraria essa que conta com toda uma secção dedicada ao mangá, dividido pelos seus géneros. As secções de banda desenhada e comics não lhe ficam atrás, e até se encontra algum fumetti. O Mater Morbi de Recchionni estava em destaque. Tudo em espanhol, traduzido e editado. Por lá há mercado. E é um mercado tão dinâmico que esta edição do mangá lovecraftiano de Tanabe foi comprada em agosto mas assinalada como editada em setembro de 2015...

Roadtrip 2015 (II)








Sentir a energia de Madrid.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Comics


 Injection #04: Ninguém gosta de futuros sem uma pontinha de sal, muito menos os futuristas profissionais. Mas acelerar o futuro traz consigo consequências imprevisíveis. Ellis está a construir uma narrativa muito sólida que entre cada inexorável passo nos aproxima de um cataclisma explosivo que apenas intuímos.


Phonogram The Immaterial Girl #01: O regresso desta série de Kieran Gillen é talvez o mais intrigante lançamento das últimas semanas. Phonogram anda vagamente às voltas com os dilemas de feiticeiros sonoros, mas no fundo é uma homenagem pessoal do argumentista à música que mais gosta. Esta nova série promete continuar a levar-nos aos fascínios estéticos da música pop.


Providence #03: Este toque de Innsmouth sublinha a ambição de Moore nesta sua homenagem a Lovecraft. Tem uma cadência lenta e metódica que parece seguir em crescendo a cada edição. O jovem jornalista homossexual com ambições literárias, desgostoso após o suicídio do seu amante, vai mergulhando em profundezas progressivamente tenebrosas ao fazer investigação para o seu primeiro livro. A partir desta premissa somos levados num périplo pelo mundo ficcional de Lovecraft, com a promessa de um horror telúrico a finalizar.


Starve #03: Como é que os produtores dos inúmeros e banais concursos de culinária que entopem os canais televisivos nunca se lembraram de uma destas? Certamente que um MasterChef ou outro da sua igualha seria bem mais cativante para as audiências se para além de cozinharem pratos elegantes e rarificados os concorrentes também tivessem de matar e esquartejar animais em directo na televisão. Quanto, inevitavelmente, com a corrida para a descida do mínimo denominador comum que caracteriza o sórdido e patético mundo dos reality shows, aparecer algum programa onde os concorrentes matem e cozinhem, lembrem-se: leram isto primeiro num comic escrito por Brian Wood.