quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

DC Universe by John Byrne


John Byrne (2017). DC Universe by John Byrne. Nova Iorque: DC Comics.

É curioso reparar que quase esqueci John Byrne, apesar do trabalho gráfico dele ter sido o que, quando adolescente a descobrir os X-Men escritos por Chris Claremont, me despertou o interesse para os comics. A razão para isso está bem patente nesta colectânea. Apesar do rigor formal, estética própria e de um olho especial para a iconografia da tecnologia, Byrne não tem um daqueles estilos visuais que ultrapassa o convencional no género. Se bem aproveitado na Marvel, onde ilustrou os X-Men e Alpha Flight, entre outros títulos, não parece ter tido a mesma sorte na DC. Esta antologia reúne histórias claramente menores, apesar do esforço visual colocado por Byrne em dar vida a argumentos medianos. Boa parte do livro é composto por capas, mostrando que este ilustrador, apesar de ter trabalhado para a DC, não foi aí que se tornou um dos nomes clássicos, embora menores, dos comics.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

aCalopsia: Os Labirintos da Água


Diniz Conefrey (2013). Os Labirintos da Água. Lisboa: Quarto de Jade.

Adaptação de três textos de Herberto Hélder por Diniz Conefrey, Os Labirintos da Água desafia classificações e formalismos. Editado em 2013, Os Labirintos da Água mostra a força pictórica do estilo visual de Diniz Conefrey. Um livro que surpreende pela estética, afastado do formalismo da Banda Desenhada, lendo-se como registo de estética pessoal, mais focada nas possibilidades visuais da pintura do que na narrativa em BD. Crítica completa no aCalopsia: Os Labirintos da Água de Diniz Conefrey.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Comics


Mother Panic - Batman Special #01: Dentro do crossover Milk Wars, que tenta levar os personagens mais radicais da chancela Young Animal para a continuidade da DC, este episódio foi uma boa surpresa. Mother Panic, aparentemente uma versão feminina de Batman, lutadora pela justiça com armadura high tech e uma mansão em Gotham que lhe serve de abrigo, com uma mãe que vive num jardim subterrâneo e um ex-vilão encantador de ratazanas que ocupa a cave e deita um olhinho à idosa isolada no seu jardim, é das personagens mais interessantes e sólidas desta chancela. Neste crossover não é destratada, tendo de enfrentar um Batman transformado em padre pelo efeito do leite que rectifica as origens dos personagens. Isto, claro, se sobreviver aos esforços  do coro de Robins que ajuda o padre Batman.



Young Monsters in Love #01: Com o dia dos namorados a aproximar-se, nada como umas edições temáticas para captar os leitores. A DC seguiu o caminho do humor subtil com esta edição dedicada ao lado mais terno dos seus monstros. É uma forma diferente de ver o Monstro do Pântano, Man-Bat, Solomon Grundy, Deadman, Etrigan, ou os The Creature Commandos. Valeu só pelo aparecimento fugaz do divertido Frankenstein Agent of S.H.A.D.E.. Nem os piores vilões escapam às emoções, como se pode perceber na reconstrução da ligação entre Monsieur Malah and the Brain, vilões clássicos de Doom Patrol. Tudo o que o grande gorila inteligente quer é que o cérebro do cientista que o criou volte a conseguir vê-lo.


Swamp Thing Winter Special #2018: Uma edição verdadeiramente especial, com aquele que é o novo super-argumentista da DC, Tom King, a assinar uma história inquietante da criatura. Traz também uma história clássica assinada por Len Wein com o traço expressionista de Kelley Jones, a homenagear o argumentista e criador deste e de tantos outros personagens dos comics, falecido em 2017, tal como Bernie Wrightson, lendário desenhador e co-criador de Swamp Thing.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

WTF?



Tim O'Reilly (2017). WTF?: What's the Future and Why It's Up to Us.  Nova Iorque: Harper Business.

Um livro surpreendente, de forma inesperada. WTF? começa com o estilo habitual que caracteriza o tecno-utopismo de sillicon valley, aquele misto de fé cega numa trindade de empreendedorismo, tecnologia e espírito de inovação sem olhar a consequências. Segue a litania habitual de sucessos de mercado versus decadência dos dinossauros, com uma forte pitada de "O'Reilly pensou/fez isto primeiro". São capítulos que pouco trazem de novo, enquanto o autor tenta caracterizar a piada elegante do seu título - WTF significa aqui what the future, procurando ser uma crónica da disrupção criativa tecnológica que nos apanha desprevenidos quando tentamos antever o futuro.

Este seria mais um livro banal, com as ideias habituais vindas daquele canto geográfico e ideológico, se não mudasse completamente de tom a meio. Sem qualquer aviso prévio, O´Reilly muda o tom de elogio do tecno-utopismo para uma profunda crítica do capitalismo neoliberal. Algo ainda mais surpreendente tendo em conta que estamos a falar de um escritor, mais conhecido como editor e empreendedor tecnológico, que está perfeitamente inserido no meio que critica.

A crítica vem de dentro, com uma lógica de sobrevivência de um sistema. Ao analisar inteligência artificial, algoritmia, automação e robótica, O'Reilly segue o caminho da crítica acérrima ao status-quo do sistema financeiro. Estas tecnologias são um perigo para humanidade, observa, não por qualquer caráter que lhe seja inerente, mas por serem instrumentalizadas por uma máquina aparentemente imparável de capitalismo predatório, que se foca em maximizar lucros a curto prazo, a custo do investimento em inovação e rendimento dos trabalhadores. A culpa, aponta, está na financeirização da economia, que mudou o foco do investimento do construir a longo prazo para o enriquecer a curtíssimo prazo.

O'Reilly dificilmente é um marxista convertido, de kalashnikov em punho pronto a derrubar a ordem global. A sua posição parte do pressuposto que os mercados, para funcionar, precisam de clientes. Que sem uma distribuição equitativa de riqueza, não há dinheiro para aquisição de bens numa sociedade de consumo de massas. E que a regressão ao elitismo representa a inversão de todo o progresso humano dos últimos séculos.

O livro acaba com discussões sobre possibilidades pós-capitalistas, de uma sociedade onde a produção de riqueza está automatizada e ao humano fica o papel de, simplesmente, ser humano (é uma visão clássica de sociedade de lazer sustentada pela tecnologia, que tem estado ausente da discussão futurista nos últimos tempos). O'Reilly alinha-se ao lado daqueles que defendem o rendimento básico universal, e das sinergias aumentativas homem-tecnologia, defendendo sempre que as mais avançadas tecnologias são, em essência, uma ferramenta ao serviço da humanidade e não um instrumento de enriquecimento de elites. O up to us do título não se refere a nós, mas sim aos que fazem parte do ecossistema habitado por O'Reilly, do mundo empresarial tecnológico, capitalismo de risco e financeiro. São os que, na sua visão, podem dar passos para mudar um sistema deturpado por uma visão de mercado que colocou a ganância acima de todas as prioridades.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Life on Mars


Parece mau photoshop, por isso deve ser real, comenta-se. Dos objetos que poderíamos esperar ver em órbita, um carro descapotável é talvez dos mais improváveis. No entanto, foi essa a carga que o foguetão pesado Falcon Heavy da Space X lançou ontem, para uma órbita em direção à cintura de asteróides. O destino original era Marte, mas parece que os motores do módulo orbital funcionaram bem demais. Entre as imagens fascinantes do lançamento, fomos surpreendidos com uma especialmente inaudita: um carro em órbita, com um boneco vestido com fato de astronauta, don’t panic no ecrã do tablier, David Bowie a cantar Life on Mars no auto-rádio.

Piada geek, golpe publicitário, ação inconsequente dos engenheiros de uma empresa que se assume como revolucionária no domínio da exploração espacial? Artefactos lançados ao espaço não costumam ser tão frívolos, ou são aplicações tecnológicas ou objetos com forte simbolismo. Descapotáveis vermelhos não são algo que se enquadre nessas categoria. Numa história de exploração espacial cheia de marcos reverentes, lançar um carro para o espaço parece muito absurdo, face às primeiras pegadas na lua ou à memória humana a bordo das sondas espaciais que se tornaram os primeiros artefactos humanos a ultrapassar as fronteiras do sistema solar.



Há um óbvio lado de marketing nisto. Lançar um Tesla para o espaço é puro marketing viral, e tendo em conta que foi lançado como carga inerte num voo de testes, é capaz de sair mais barato do que uma campanha publicitária. A ideia até pode ter sido lançada por piada, mas de certeza que alguém se lembrou que poderia dar um excelente anúncio. O lado de piada geek é mais notório, Elon Musk cultiva uma aura de génio nerd, tão à vontade com capital de risco e motores de foguetões como com referências reverentes à cultura de ficção científica. Astronautas, referências a Douglas Adams num carro que vai à boleia de um foguetão, definitivamente um to boldly go where no car has ever gone before, ao som de Bowie. Cultivar auras é algo que Musk faz muito bem. Notem a forma como consegue projetar a imagem da Space X como desbravadora de fronteiras, quando os lançamentos para o espaço são hoje bastante rotineiros (embora não no domínio do setor privado, reconheça-se).

 
Não deixa de ser altamente simbólico que uma empresa que se dedica a tornar mais barato, logo mais acessível, o acesso ao espaço, tenha colocado um automóvel em órbita. Especialmente se recordarmos que Musk, o seu dono, também fabrica automóveis e anda a fazer umas experiências com túneis e mobilidade pessoal. O carro é o grande símbolo da mobilidade libertadora do século XX, que refez paisagens de naturais a riscadas por miríades de estradas, condicionou o urbanismo, redefiniu a economia global e se tornou marco do desenvolvimento económico, como objeto de desejo representativo da ascensão à classe média. Um boneco ao volante de um descapotável com o planeta em fundo bate aos pontos os milhares de anúncios de espaços naturais amplos, com um veículo a sulcar a imensidão, símbolo do desejo de liberdade evocado pelo automóvel.

O momento mais impressionante do voo de ontem foi a aterragem em sincronia dos foguetões auxiliares, normalizando a sua reutilização. Mas foi a imagem do descapotável vermelho a passar pelo nosso planeta, ao som de Life on Mars, que captou os corações. O meu não foi excepção. O que irão pensar os futuros exoarqueólogos deste estranho artefactos à deriva na direcção da cintura de asteróides? O grande símbolo da hipermodernidade dos primórdios do século XXI, em que bilionários geeks se divertem a disparar carros para o espaço só porque, acima de quaisquer outras razões, o podem fazer? 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

K.O. em Telavive



Asaf Hanuka (2017). K.O. em Telavive. Lisboa: Levoir.

Utilizar a BD como crónica de costumes, utilizando a vida pessoal do autor como ponto de partida para, em modo biográfico, retratar a sociedade que o rodeia, tem sido uma das principais vertentes do género. Sem puxar muito pela memória, Crumb, Spiegelman, Pekar ou Delisle são alguns dos expoentes desta vertente. Não é um estilo que me atraia muito, precisamente devido ao forte cunho pessoal destas obras. Têm um foco algo umbiguista, de exploração de neuroses e dramas pessoais, que sendo totalmente legítimo e bem explorado em termos artísticos, não me toca por aí além. Não gostar de temas não implica que se descredibilize obras, há que saber olhar para além do instinto pessoal.

O que me levou a quebrar o evitar deste tipo de banda desenhada foi a proveniência do autor. Israel é um país do qual pouco conheço, à exceção de apontamentos históricos e do que dele se discute nas notícias, raramente pelas melhores razões. Como será viver uma vida normal naquele país, militarizado, que aparenta uma mentalidade de estado de sítio permanente, sob ameaça de guerras e terrorismo, que ocupa impunemente territórios conquistados e empurra para o que de facto são ghettos a população palestiniana? É possível ser-se normal, definindo esta normalidade pelo profissionalismo e vida de classe média?

A sociedade em geral, os conflitos, medos de ataque e violência nas ruas, estão muito presentes ao longo desta obra. Raramente como centro das suas histórias. Fazem parte de um ensurdecedor ruído de fundo, mas o que sobressai é o elogio da banalidade. Hanuka traça um retrato de si próprio como artista, pai e marido, alguém que teme o acumular de contas, tem as suas obsessões pessoais, luta para manter uma vida tranquila com os filhos e manter acesa a chama do amor pela mulher no meio das banalidades da vida. Em essência, é a história de todos nós, excetuando alguns pormenores específicos da cultura judaica, este K.O. tanto poderia ser em Telavive como em Lisboa ou num aldeia, algures.

Hanuka é um desenhador arguto, o melhor das suas narrativas passa-se ao nível visual, sente-se que o texto meramente acompanha a história. As metáforas visuais que invoca, de um surrealismo critico, são o seu elemento narrativo fundamental.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Comics


Hungry Ghosts #01: Comida e kwaidan? É o que promete este novo título, com o patrocínio do chef Anthony Bourdain. Comic antológico, seguindo o tema de contos à ceia para nos dar várias histórias incomuns.



JLA-Doom Patrol Special #01: O problema deste reboot de Doom Patrol por Gerard Way é ser-se conhecedor do psicadelismo que Grant Morrison deu à série. Way tenta lá chegar, mas não é nenhum Morrison. Com termo de comparação, este reboot fica a perder, mas mesmo assim, não deixa de ser a coisa mais divertidamente esquisita no corrente alinhamento da DC. Que, no habitual gosto da DC por crossovers, está contaminar o restante universo. Com um apropriado humor negro: a nova Doom Patrol defronta-se com uma Liga da Justiça revista como uma retcon das suas personagens. Conseguem dizer... Comics Faster than a speeding bullet! More powerful than a locomotive! Able to leap tall buildings in a single bound! Milkman?

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Guardiões da Galáxia: Mãe Entropia

 

Jim Starlin, et al (2017).Guardiões da Galáxia: Mãe Entropia. Lisboa: Goody.

A terceira oferta da coleção Marvel especial da Goody traz-nos um grupo que, de personagens secundárias em comics mais obscuros da editora, se tornaram muito populares graças à sua inclusão no universo cinematográfico. Os filmes dos Guardiões da Galáxia foram sucessos tremendos, talvez dos mais interessantes e divertidos desta nova vida dos super-heróis nas telas de cinema.

Se quiserem ler space opera weird em comics, procurem algo escrito por Jim Starlin. Em Mãe Entropia, os intrépidos mas falidos aventureiros são contratados em missão diplomática para proteger um emissário, mas como é habitual nestas coisas, tudo corre mal. O emissário morre de morte natural, a nave é assaltada por mercenários em busca de um artefacto trazido pelo emissário, e para piorar a coisa esse artefacto despoleta-se e lança os Guardiões, junto com Pip, outro personagem de caráter duvidoso que Starlin introduziu na saga de Warlock, para uma dimensão paralela onde se cruzam com a Mãe Entropia. Uma entidade fungal, que após contaminar toda a sua realidade, procura agora novos universos para se espalhar. E quase o consegue, com o nosso universo a ser contaminado pelos fungos que imobilizam qualquer ser. Menos Groot, que é imune e conseguirá graças isso salvar o universo. Esta história conta com ilustração do clássico Alan Davis.

Para encerrar, uma curta cheia de ação, um crossover entre Rocket Raccoon e Deadpool. Uma aventura de violência e absurdismo, escrita por Tim Seeley, argumentista que há alguns anos atrás deixou uma marca brilhante com a série Hack/Slash, mas a partir daí não fez mais nada de interessante, apesar de se estar a tornar um nome comum em argumentos para comics. Este Bye Bye Macho Gomez não escapa à banalidade, é mais uma das habituais histórias de Deadpool, cheias de piadas secas e insinuações de ultraviolência sangrenta sem que em algum momento se veja, realmente, sangue. Confesso que me é muito difícil compreender a fama deste personagem.

No entanto, não vale a pena fazer análises excessivas a estas edições da Goody. São revistas, trazem-nos alguma da continuidade da Marvel, claramente o critério de escolha das edições não é trazer os arcos narrativos mais marcantes. São edições divertidas, excelentes para distrair numa boa hora de leitura. E nada mais que isso.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

The Universe Next Door

 
Frank Swain (ed.) (2017). The Universe Next Door: A Journey Through 55 Alternative Realities, Parallel Worlds and Possible Futures.  Londres: John Murray.

Os cenários E Se... costumam ser característicos da ficção científica e especulativa, mas tem-se tornado moda a sua utilização noutro tipo de contextos. É o caso deste livro, onde analistas e cientistas são convidados pela New Scientist a fugir ao rigor científico e a especular sobre cenários prováveis. Começa de forma quase psicadélica, com o potencial mind-bending das teorias de multiversos, e segue depois pelos caminhos habituais da história das ciências, perguntando-se o que teria acontecido se quer factos pivot no desenvolvimento humano, quer tendências mais profundas, ou não tivessem acontecido ou tivessem sido ligeiramente diferentes.

É o que é, uma leitura especulativa leve em que provavelmente não teria pegado se não por impulso para aliviar o tédio de aeroportos. Até porque a capa é qualquer coisa de horrendo. Pessoalmente, ainda estou a matutar na ideia que dentro da teoria dos multiversos é matematicamente possível sobreviver a um jogo de roleta russa, tornando-se o único eu sobrevivente de todos os diferentes eus dos outros universos.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Lançamento Adamastor: O Futuro à Janela.



A capa está uma delícia. E a novidade também. O Futuro à Janela, clássico da FC portuguesa de Luís Filipe Silva, é a mais recente edição digital do Projeto Adamastor.

Nunca terei palavras suficientes para elogiar este projeto, totalmente independente, que depende do trabalho de voluntários para editar na internet literatura portuguesa de forma gratuita. Estão a recuperar a memória de clássicos e livros esquecidos, caídos em domínio público ou com direitos cedidos, em edições digitais cuidadas.

Comics


Doomsday Clock #03:  Provavelmente a melhor cena desta edição de Doomsday Clock, embora os comentadores prefiram destacar o momento em que a arma imaginária de um vilão conhecido como mimo, tem efeitos reais. Um Batman com pouca paciência para universos alternativos e super-seres que puxam os cordelinhos da sua realidade leva o sucessor do infame Rorschach ao lugar mais lógico: o asilo de Arkham.

Doomsday Clock começa a mostrar o que é, uma tentativa forçada de enfiar o cânone alternativo de Alan Moore dentro da continuidade da DC. A tática de Geoff Johns, em emular o estilo narrativo e composicional de Moore, funcionou nos primeiros momentos, mas começa a mostrar os seus limites. Johns tenta ser Moore, com o ritmo seco e marcado deste, mas não chega lá. O que se pressente ser suspense para aguentar a narrativa durante doze números começa a ser, apenas, entediante. A DC está a ser igual a si própria, a misturar propriedade intelectual para maximizar a sua rendibilidade, disfarçando a coisa como um pomposo evento. Com Promethea foram menos subtis, e enfiaram uma personagem que tem pouco a ver com os temas habituais dos comics na continuidade de uma das suas séries. Se estivesse morto, Alan Moore estaria a dar voltas na campa. Watchmen e Promethea originais não saem diminuídos por estas manobras financeiras, e só os fãs mais acéfalos de comics não irão continuar a valorizar, ou nos mais novos, descobrir, estes marcos narrativos do género. Aliás, se o primeiro contacto de fãs com estes universos for via estas tropelias da DC, e depois forem descobrir os originais, diria que irão ter uma enorme surpresa.


The Wild Storm #11: Não são ovnis quaisquer. São haunebus, as máquinas imaginárias favoritas dos fãs de teorias da conspiração sobre ovnis nazis. Uma piada visual que só podia ter sido feita por Warren Ellis. É tão o seu estilo.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

The DC Universe by Mike Mignola



Mike Mignola, et al (2017). The DC Universe by Mike Mignola. Nova Iorque: DC Comics.

O estilo gráfico de Mike Mignola evolui de forma distintiva a partir dos constrangimentos estéticos dos comics, que exigem um forte realismo. Mignola seguiu noutra direcção, num expressionismo gótico que se coaduna muito bem com o ambiente de histórias de terror. O estilo visual que tornou Hellboy um sucesso começou a desenhar-se nas páginas e capas de diversas revistas da DC, algumas das quais são coligidas nesta antologia. É intrigante notar a evolução do traço, de um realismo banal já com algumas indicações dos caminhos que iria seguir, até ao emergir do cunho pessoal do ilustrador.

A antologia não começa bem, com a republicação de uma série dedicada a Phantom Stranger, um daqueles personagens da DC que funciona muito bem enquanto personagem secundário mas que nunca teve um tratamento interessante em série própria. A seguir melhora, com algumas das icónicas histórias que Mignola assinou para Superman, cuja estética exótica e diferente veio a influenciar as novas representações cinematográficas do personagem. Contém também algumas histórias de Batman, onde o estilo gótico do ilustrador é assumido com mais força.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Tecnologia versus Humanidade



Gerd Leonhard (2017).  Tecnologia versus Humanidade: O confronto futuro entre a Máquina e o Homem. Lisboa: Gradiva.

Humanismo tem sido uma ideia muito ausente do corrente debate sobre o impacto, sentido já hoje, da combinação de inteligência artificial, robótica/automação, machine learning, big data e algoritmia no futuro da nossa sociedade global. As visões costumam oscilar entre as tecno-utopias quasi-religiosas dos singularitários, deslumbramento com o brilhantismo de um futuro pós-mecanicista, ou visões aterradoras da humanidade como resquício num mundo automatizado, combinando os piores aspetos do capitalismo com a tecnologia. Apesar do título aparentemente bombástico, que nos remete para as visões mais assustadoras do impacto das tecnologias, Gerd Leonhard segue um caminho inesperado.

Uma questão que é constante ao longo do livro é a "se somos capazes de fazer, isso significa que devemos fazer"? Não é uma questão habitual nas leituras futuristas que tenho feito, que assumem a rápida evolução como inevitável. Quer como efeito de progresso acelerado, quer através do argumento "se nós não o fizermos, outros o farão".  Uma variante do lema move fast and break things da tecno-elite financeira, com antevisão da trabalheira que dará limpar os cacos da aceleração.

Leonhard segue o habitual esquema deste tipo de livros, mapeando, a partir da sua experiência, o crescimento dos campos do costume. Redes sociais, algoritmos, automação, robótica, inteligência artificial, bio tecnologias estão no radar deste futurista, que as detalha com admiração mas sem se perder no deslumbramento. O humano, a ideia que a tecnologia existe para servir a humanidade e não por si só, está no centro das suas preocupações. As questões são colocadas com lucidez, sem ceder à tentação de pregar um abrandamento ou regressão para proteger a humanidade de uma possível extinção (uma das lógicas mais radicais do futurismo transumanista).

Constante é a sua preocupação com as consequências, quer positivas quer negativas, de um desenvolvimento tecnológico que se tornou fundamental para a nossa sociedade. Inerente a esta preocupação está uma visão do espaço público com obrigação interventiva, entre o pessoal e o social, apontando problemáticas, apontando e travando excessos, colocando moratórias no desenvolvimento de algumas tecnologias. Algo que deixa nervosos os correntes paladinos da evolução tecnológica livre, mas já tem precedentes em muitas áreas, desde a ética biomédica ao nuclear.

Poder fazer não torna o fazer inevitável, há que saber analisar problemáticas e tomar decisões informadas. O impacto global das tecnologias NBIC já se faz sentir, embora de forma assimétrica a nível global, e também entre os seus aspectos positivos e negativos. Reforçar o valor do humanismo, ou melhor, recordar-nos que apesar do fascínio, a evolução tecnológica não existe por si só, parte de uma tradição focada nas necessidades humanas, é o grande papel desta adição ao catálogo da literatura futurista contemporânea.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Comics


Days of Hate #01: Ales Kot é um argumentista que não foge de temas pesados, e está aqui bem acompanhado pelo grafismo de Danijel Zezelj. O tema é bastante óbvio, e reduz ao absurdo as inacreditáveis pulsões de racismo, autoritarismo, proto-fascismo e guerra cultural que nos chegam do momento contemporâneo nos Estados Unidos. Se o inacreditável já aconteceu, com a eleição de um milionário incompetente que consegue encarnar algumas das piores emoções humanas, até onde poderá ir a decadência rápida desta sociedade?
Danijel Zezelj


Ice Cream Man #01: Começa com aranhas, mas promete mais. Fugindo ao conceito de série, esta nova edição da Image promete reciclar o conceito de comic antológico, em que cada edição traz uma nova história, sem continuidade com as anteriores, embora mantenha um fio condutor. No entanto, gá que notar que o caráter luminoso do traço do ilustrador Martin Morazzo não consegue criar aquela sensação de terror que se espera de um comic destes.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Deadpool: Os Erros Pagam-se Caro

 
Gerry Duggan (et al) (2018). Deadpool: Os Erros Pagam-se Caro (Marvel Coleção Especial, #4). Lisboa: Goody.

Segunda leitura que faço de coisas destas personagem, e continuo sem perceber a sua atração e popularidade. Apesar de, em abono da verdade, esta edição da Goody incluir um conjunto de pequenas histórias sobre personagens secundárias do universo Deadpool que estão bem concebidas. Diria mesmo que o problema que tenho com Deadpool está mesmo aí, as suas histórias não são verdadeiras narrativas, são sucessões de piadas e punchlines com poses à mistura. O personagem é suposto ter piada, e a justaposição de humor negro com violência até funciona, o que falha é que os seus comics não passam disso. De certa forma, Deadpool representa um regredir da narrativa em comics até aos tempos dos argumentos simplistas da golden age, uma fuga à complexidade que se iniciou nos anos 70.

Por outro lado, não sou o público-alvo desta série, mas não é isso que me incomoda. É o foco excessivo na piada, esquecendo todos os restantes elementos narrativos. Uma característica que pode ter popularidade a curto prazo, mas dificilmente vejo este personagem a sobreviver ao inevitável esgotar da boa vontade dos fãs. Esta edição da Goody tem outro pormenor preocupante: a editora fez crer aos leitores que a sua série Marvel Coleção Especial seria composta por arcos narrativos fechados, o que torna algo surpreendente as histórias principais terminarem com um "continua num próximo volume da série". Defrauda as expectativas sobre esta coleção. Não faria mais sentido criar um título só para este personagem?

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O Algoritmo do Poder

 

Pedro Barrento (2018). O Algoritmo do Poder. Edição de autor.

Parti para O Algoritmo do Poder sem fasquias elevadas. Auto-edição significa que tirando os amigos do autor não houve olhar crítico editorial sobre o texto, e as produções literárias de autores que estão fora dos núcleos mais activos da FC em Portugal raramente surpreendem pela sua qualidade ou inventividade. Isto não é um elogio a grupos, antes um apontar que criadores que se cruzam e discutem o seu trabalho conseguem levá-lo mais longe do que aqueles que estão isolados nos espaços. Seria este mais um daqueles livros bem intencionados, mal escritos e com ideias banais que fazem as delícias das editoras vanity predadoras?

No seu cerne, a ficção científica e especulativa não trata de prever ou imaginar futuros. A lente da FC não é um oráculo de Delfos, antes, é um espelho das pulsões sociais e culturais da sua contemporaneidade, alimentada pelo fascínio e possibilidades da ciência e tecnologia. Os futuros da FC são em essência uma redução ao absurdo dos momentos presentes, um tirar de travões aos contextos do tempo cultural e levá-los às suas conclusões lógicas. Este não é, claro, um raciocínio que caracterize toda a Ficção Científica, e ainda bem, senão não teríamos divertidas aventuras no espaço, cheias de raios laser, explosões e estrelas da morte. Divertidas, mas inconsequentes, que não nos surpreende e deixa a reflectir como faz o lado mais maduro do género. Podemos apreciá-lo pelas naves espaciais, mas o que verdadeiramente apaixona é o raciocínio sobre possibilidades que nos desperta.

Este tipo de especulação está no cerne de O Algoritmo do Poder. Apesar de estruturado como romance-périplo, um daqueles livros que pega nas mãos do leitor e o leva através do mundo ficcional (utilizando a definição de Aldiss em A Billion Year Spree), é em essência um longo infodump sobre a forma como Pedro Barrento vê algumas questões estruturais que já hoje caracterizam a sociedade global. Infodump, mas daqueles bem feitos, em que os dados que informam o leitor sobre as premissas do mundo ficcional são elementos da narrativa e não aqueles longos discursos onde um personagem perora longamente para nos ajudar a perceber as premissas do universo.

Se não estivermos particularmente sintonizados com questões como a influência dos algoritmos nos comportamentos sociais, bolhas de informação, inteligência artificial e automação, ecologia e alterações climáticas, pode ser fácil desconsiderar O Algoritmo do Poder como uma banal distopia. Um mundo futuro fragmentado, regredido, onde a globalização foi substituída por uma hiperlocalização, com a heterogeneidade social eliminada pela existência de regiões habitadas exclusivamente por quem partilha de ideais ou religiões específicas. Imaginem que os países não são ricos cadinhos culturais onde diferentes grupos se cruzam e interagem, mas regiões de monocultura social. Que a memória colectiva é limitada a uma espécie de constante agora, sem memória do passado nem vontade de projetar futuros. Que os níveis de vida e de tecnologia tinham de facto regredido, mas ninguém se importa com isso porque não imagina sequer que haja alternativas ao mundo onde sempre viveram. Pessoas que não imaginam sequer que o mundo seja mais vasto do que a pequena região que habitem, onde viajar é passar entre localidades próximas. Um estado de coisas facilitado por um governo global automatizado, baseado em algoritmos, que redistribui a riqueza por todos e assegura uma normalidade global. Um mundo que é de facto uma gaiola, não dourada, até bastante enferrujada, mas quem nela está encerrado julga-se no melhor dos mundos porque a memória colectiva é controlada pelos omnipresentes algoritmos.

Agora, olhem à vossa volta. A discussão pública está cada vez mais dependente de redes sociais onde nos agrupamos em bolhas de informação, verdadeiros enclaves de ideias que geram em cada um de nós a falsa sensação de um consenso global. Fluxos de informação controlados por algoritmos cada vez mais avançados, e que sem que nos apercebamos transvasam para as nossas vidas. Quantas das nossas decisões não foram influenciadas por algoritmos invisíveis? Não são entidades espirituais, são ferramentas industriais usadas em nome da eficácia dos serviços e da interconexão global de que todos dependemos. E se a nossa memória comum não foi riscadas e esquecida, até que ponto o estado de constante atemporalidade gerado pelos media e internet nos leva a esquecer a rica textura do fluxo histórico?

Certamente o maior desafio do nosso momento contemporâneo são as alterações climatéricas. É um problema tremendo, que coloca em risco o planeta e a nossa viabilidade como espécie a longo prazo, e o nosso estilo de vida a curto prazo. Debate-se muito, faz-se pouco, aposta-se na tecnologia que ainda está por inventar para nos salvar dos desastres ambientais. Mas, e se a resposta for regredir? Isolar as comunidades, esquecer a globalização, produzir localmente, encontrar formas de reduzir drasticamente a população? Este é outro dos alicerces de O Algoritmo do Poder, que Barrento explorou muito bem numa variante da metáfora que Elon Musk chama o problema da fábrica de clipes de papel. Imaginem uma inteligência artificial criada para optimizar a produção de clipes, que percebe que a conclusão lógica para uma produção de eficiência perfeita passa pelo extermínio da humanidade. Não é uma inteligência artificial criada para aniquilar, antes, a aniquilação é uma consequência dos seus processos lógicos. Sem querer entrar em muitos spoilers, Barrento usa esta lógica para algoritmos sociais que combatem a pressão demográfica através da eliminação selectiva daqueles que se tornam um fardo social, idosos ou doentes prolongados.

Estas minhas observações fazem parecer que O Algoritmo do Poder é um longo tratado filosófico. Pelo contrário, é uma história, e uma boa história, cuja estrutura me fez recordar o romance O Último Europeu de Miguel Real, com o qual também tem similaridades temáticas, especificamente ao nível da desestruturação do mundo como o conhecemos e erradicação da memória histórica coletiva. Uma história que se passa em dois tempos, mas essencialmente numa só cidade.

Estamos em Lisboa de um presente e futuro próximo, berço implausível de um movimento global que visa revolucionar a política, substituindo a democracia parlamentar por um governo automatizado, controlado por algoritmos e indivíduos interconectados em rede. Um movimento utópico, alicerçado na computação, que será cooptado por um homem arguto à beira da morte, e que irá acabar por dominar o globo, derrotando governos e a oligarquia um percentista com a inexorabilidade das redes digitais.

Estamos também na Lisboa de um futuro mais distante, uma cidade que já não tem o nome de sempre numa língua original que foi esquecida na homogeneização linguística trazida pela rede, irreconhecível numa região que sucedeu a um fragmento de Portugal (e se me permitirem o comentário, belíssima piada a que Pedro Barrento faz com a região a sul do rio Tejo). Uma cidade onde reside a única força que escapa à rede omnipresente, o legado também em si esquecido de uma das programadoras originais dos algoritmos que sustentam este pouco admirável novo mundo, que cedo se apercebeu do seu potencial distópico. Uma força que, graças ao ponto fraco desta sociedade futura, poderá ser a sucessora no domínio global, embora num recanto do globo os herdeiros da velha sociedade se preparem para o momento em que a rede global falhar.

É esse o ponto fraco de uma sociedade automatizada, que não evolui nem se renova. Com uma população dócil, dividida em grupos de interesse e com as sua necessidades cuidadas por um sistema automático que não tem ninguém que zele por ele. Onde o progresso científico parou e as conquistas da tecnologia são uma memória esquecida. Um colapso que se começa a gizar no final do romance, mas que Barrento não nos revela, recusando-se a continuar o livro a partir do ponto em o leitor monta por completo o puzzle do seu mundo ficcional.

O resto é história, são os dramas e aventuras de um grupo de personagens eclécticos cujas ações têm consequências à escala global. Confesso que não empatizei muito com os personagens, fiquei mais seduzido pelo espaço de ideias que sustenta o livro. Barrento tem uma técnica narrativa muito directa, encadeando bem a acção com a necessidade de explicar ao leitor o que a sustenta. A leitura é rápida, divertida, apesar de uma certa sensação de estranheza pela colisão da familiaridade dos locais da história com o ambiente de ficção científica do livro.

A olhar para um ecrã divido em várias janelas enquanto termino esta recensão, com um olho no editor de texto e outro no navegador onde vão passando as novidades que os algoritmos das redes sociais escolhem para o meu olhar, a partir do perfil da minha bolha de informação, percebo onde Pedro Barrento quis chegar com a sua distopia. Não podemos confiar cegamente em quem desenha os algoritmos. Nem correr o risco de perder a memória colectiva. Não leiam O Algoritmo do Poder como mais uma aventura distópica. Este livro é muito mais do que isso.

Fiquei surpreendido. Confesso que não tinha grandes expectativas para este livro. Uma auto-edição, de um autor que não está, tanto quanto sei, associado aos núcleos necessariamente amadores da ficção científica em Portugal que reúnem autores e fãs e têm funcionado como redes de apoio à melhoria do nível literário das novas vozes do género. Do autor, recordo vagamente uma fugaz e algo controversa passagem por um painel dedicado à auto-edição e promoção numa edição já longínqua do Fórum Fantástico. Fiquei ainda mais de pé atrás quando fui contactado por ele para fazer uma leitura ao livro, por me considerar um influenciador de opinião. O teu algoritmo precisa de ser afinado, respondi. O meu blog é um caderno de apontamentos, tal como as páginas do Goodreads, e estamos muito bem assim. Já tenho uma carreira que me valoriza o suficiente, não preciso nem quero entrar nos jogos de promoção de autores e editores para ganhar notoriedade. O meu blog é um espaço livre daqueles posts ctrl+c -> ctrl+v de promoção de editoras, as minhas leituras são as que me apetece fazer e não dependem de agendas editoriais. Tão pouco me interessa se tenho muitos ou poucos leitores, ou estar posicionado nos rankings.

Apesar desta proposta ter o seu quê de entrar no jogo de promoção de uma obra literária, aceitei. É tão grande a escassez, por cá, de produção literária neste género que me inspira e é tão querido que não deixo passar oportunidades de descobrir novas leituras. É uma vertente que explica algumas leituras bizarras e algo inesperadas de tentativas goradas de obras no domínio da FC YA que vou encontrando esquecidas nos fundos da prateleiras de livrarias, embora ainda não tenha decaído ao ponto baixo de ler livros da Chiado. No caso de O Algoritmo do Poder, valeu a pena a leitura.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Comics


Barbarella #02: Tendo em conta que a série está a ser desenvolvida para o mercado americano, não surpreende que Carey esteja a evitar a sexualização clássica da personagem. O caminho é outro, uma meditação sobre as consequências de sistemas políticos baseados no dogmatismo e ignorância alardeada. Tipo, se calhar, um trumpismo religioso?


X-Men Gold Annual #01: A Goody está a editar por cá no seu alinhamento de revistas estes títulos algo revivalistas do X-Men. Talvez cá chegue este anual, que revisita uma das super-equipas clássicas dos anos 90, os sempre bem humorados Excalibur. Se se recordam, esta foi a resposta de Chris Claremont às bizarrias de Alan Grant com Captain Britain, criando um grupo de heróis misturando X-Men icónicos com personagens da Marvel inglesa para viver aventuras onde imperava o bom humor. Este revivalismo segue-lhe as pisadas, com os nossos heróis a regressar a Inglaterra via voo comercial, porque o combustível para o Blackbird anda muito caro.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Cosmic Odyssey: The Deluxe Edition



Jim Starlin, Mike Mignola (2017). Cosmic Odyssey: The Deluxe Edition. Nova Iorque: DC Comics.

Uma aliança improvável para lutar contra uma ameaça tremenda. O malvado Darkseid, os novos deuses de Nova Genesis e um punhado de heróis terrestres alia-se para derrotar um mal absoluto. Nada menos que a encarnação da equação anti-vida, incapaz de sobreviver na nossa realidade, mas nem por isso incapaz de a destruir. Quatro dos seus emissários criam condições para destruir sistemas solares chave, cujo colapso iniciará uma reação em cadeia capaz de aniquilar a galáxia. Uma encarnação consciente de uma arma criada por uma civilização extinta, cuja xenofobia a condenou a um eterno estado de guerra. Argumento divertido de Jim Starlin, e ilustração explosiva de Mike Mignola.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

La chute de l'Empire humain



Charles-Edouard Bouée, François Roche  (20179. La chute de l'Empire humain : Mémoires d'un robot. Paris: Grasset.

A discussão sobre os impactos da inteligência artificial, robótica e automação geralmente termina numa de duas conclusões: ou as do caos nos sistemas sociais, com a redundância do ser humano numa economia automatizada, ou as utopias singularitárias que prometem libertação e transcendência dos limites humanos graças aos avanços tecnológicos. Dado o estado das coisas no início do século XXI, tempos de capitalismo terminal, neoliberalismo alastrante e desastre ambiental global em curso, o espaço de ideias inclina-se mais para as primeiras e mais distópicas opções.

Mas, e se houvesse uma terceira via? Não uma que nos libertasse das agruras e sonhos dos dois pólos clássicos destas discussões. Uma que os une, traçando uma sociedade futura progressivamente definida  pela IA, robótica e automação, conjugando a obsolescência de parte da humanidade, sem emprego possível numa economia automatizada, com a transcendência potenciada pela tecnologia dos limites humanos para aqueles com riqueza suficiente para pagar as tecnologias. Algo que em si já é uma perspetiva pouco animadora, tornada ainda mais distópica por uma característica que já se nota hoje nestes campos.

A inteligência artificial de que hoje já dispomos potentes exemplos distingue-se pelo poder de computação, pela capacidade de analisar enormes quantidades de dados com uma rapidez e eficácia impossíveis aos humanos. É essa a sua grande promessa, de com isso ser capaz de aumentar as capacidades humanas. No entanto, quando olhamos para lá do deslumbre para os sistemas saídos da IA Watson da IBM, com utilização em apoio a actos médicos, para as proezas das IAs específicas que analisam possibilidades e probabilidades concatenadas com sistemas de aprendizagem (IAs como a Alpha Go, que bate os campões deste jogo asiático, ou os algoritmos de redes neuronais de que a Google faz uso), notamos uma singular fraqueza. Ser capaz de analisar quantidades imensas de dados não é equivalente a gerar novos dados. Para isso, é precisa a intuição e conhecimento humanos, todas as nossas dimensões de inteligência que estão para lá do processamento de informação. Analisar dados, com a potência já disponível hoje nos produtos de inteligência artificial, é uma capacidade imensamente útil, capaz de auxiliar humanos na análise e diagnóstico de situações. Resta a questão da origem dos dados a analisar.

Uma ideia que é sublinhada quase na conclusão deste intrigante ensaio. Ao traçar cenários possíveis de evolução social sob impacto de IA, robótica e automação, Bouée faz notar que para além da quasi-religiosidade da transcendência singularitária e da potencial obsolescência de uma humanidade condenada ao desemprego, um futuro dominado por Inteligência Artificial seria eminentemente estável. O imprevisto e o desconhecido não são quantificáveis, e IAs evoluídas a partir de software analítico teriam uma tendência a estabilizar o conhecimento, não produzindo nada de novo, aconselhando os humanos com base em padrões estáveis. A singularidade aqui torna-se uma imensa estagnação do progresso.

Infelizmente, não é esta a conclusão deste longo ensaio. Nele, Bouée começa por nos levar aos primórdios da computação para nos guiar no desenvolvimento potencial da Inteligência artificial, focando-se nas tendências que hoje a caracterizam. IAs de apoio decisório, robótica industrial mas também pessoal e afetiva, automatização da economia, controle de sistemas sociais com base em algoritmos. São elementos que já hoje se fazem sentir. Projectando um futuro próximo, segue o óbvio caminho da aquisição de consciência por parte do software, enquanto sublinha o potencial estagnador da IA. Querendo terminar numa nota optimista, imagina que as instituições políticas e sociais do futuro serão capazes de reagir e travar este progresso, visto como perigoso para a sobrevivência da espécie humana.

Talvez os robots no futuro olhem com nostalgia para memórias de uma humanidade que os criou e eventualmente se extinguiu, como consequência desse acto de criação. Ou talvez nos mesclemos com as máquinas, transcendendo os nossos limites. Talvez nos estejamos a condenar a um futuro de capitalismo automatizado, sustentando com largueza uma minoria de elites, com o resto da humanidade condenada à pobreza, inatividade e obsolescência. Ou talvez o planeta entre em colapso ambiental antes de termos tido tempo para chegar a este ponto de desenvolvimento, quebrando os sistemas complexos de que depende a nossa sociedade global. O melhor deste tipo de livros está em mostrar-nos que o futuro próximo está cheio de desafios, que a evolução tecnológica acelerada irá mudar radicalmente as nossas noções de sociedade, algo para que temos não só de estar preparados para enfrentar mas também, fundamentalmente, modelar. Apesar do título a roçar a distopia e de um final mais cor-de-rosa do que merecia, este ensaio distingue-se pela sobriedade com que traça o passado, presente e prováveis futuros do desenvolvimento da Inteligência Artificial.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Comics


Batman #38: A temporada de Tom King como argumentista de Batman tem sido impecável. Tem sido excelente em todas as edições, e de uma forma tranquila conseguiu imprimir um novo rumo à personagem, com o arco do casamento com Catwoman. Também de forma tranquila, revisita e desmonta alguns dos mitos fundadores do universo ficcional de Batman. Como a clássica história da sua origem, ponto obrigatório para todos os argumentistas. O interessante é que King não se mete pelos caminhos habituais de voltar a contar a origem de Batman, com alguma variante pessoal. Segue um outro caminho, o da psicose pura, com uma história sobre um jovem milionário de que Bruce Wayne é amigo, com um mordomo fiel, cujos pais são violentamente assassinados. Quase parece um novo Batman, mas este jovem traumatizado decide tornar-se assassino em série. Como bónus, o estilo visual desta história é uma homenagem aos tempos da série com Dennis O'Neill e Neal Adams, cujo traço inspira o do ilustrador desta nova aventura da personagem.


Dastardly & Muttley #05: E isto, caros, é Garth Ennis a divertir-se colidindo iconografias da cultura pop. Ando a vasculhar as minhas memórias de infância, mas não me lembro de Os Malucos das Máquinas Voadoras ser assim tão bizarro.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Perdido nos Museus






Tate Britain, British Museum e National Gallery. Em rota de colisão com os rebanhos de praticantes de selfie com o quadro famoso em série.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Persepolis Rising


James S. A. Corey (2017). Persepolis Rising. Nova Iorque: Orbit.


No final de Babylon's Ashes, o universo de The Expanse parecia em risco de colapso. Com a Terra devastada por ataques com asteróides, as facções de Belters em guerra entre si e a aperceberem-se do tremendo risco de colapso económico, com a única fonte de materiais biológicos do sistema solar em risco de extinção, uma aliança militar entre marcianos e terrestres para dar caça aos rebeldes. Lá longe, muito longe, para lá do portal alimentado pelas estranhas tecnologias da civilização desaparecida que o criou, que nas fímbrias do sistema dá acesso a outros sistemas solares, cada qual com os seus mistérios, um grupo de colonos parece estar a criar uma civilização emergente.

Esperávamos em Persepolis Rising a continuação desta história, talvez uma aventura difícil por entre o ambiente de recuperação em tempos muito difíceis. Mas os autores trocam-nos as voltas, seguindo um outro caminho que não é de si inesperado, focando-se nas acções e ambições dos colonos que, no sistema solar de Laconia, estão a criar uma civilização emergente. Pistas que os Corey nos tinham deixado ao longo dos últimos volumes da série, com os habitantes de Laconia (rebeldes marcianos que roubam um terço da frota militar planetária) a formar importantes narrativas secundárias. O que é inesperada é a deslocação temporal. Entre Babylon's Ashes e Persepolis Rising passam-se trinta anos.
Isto significa que o Rocinante já não é a nave novinha em folha, ex-cruzador marciano apropriado pelo intrépido capitão Holden e sua divertida tripulação. A poderosa nave começa a dar sinais da sua idade. Também os aventureiros já não caminham para novos, a meia idade começa a fazer-se sentir, os cabelos a esbranquiçar. Pelo menos, somos poupados aos minuciosos dramas e politiquices da evolução da sociedade de The Expanse, a fórmula que os Corey sempre exploraram nesta série. Passaram-se trinta anos e as sociedades estabilizaram, a Terra recuperou do desastre ecológico, Marte mantém o seu poder, a sociedade Belter organizou-se numa união que controla a zona de transporte entre sistemas solares, e a sociedade terrestre espalhou-se por entre os mil e trezentos planetas acessíveis a partir do portal.

A princípio, parecemos ir mergulhar em mais uma história-périplo, com o Rocinante a ser enviado a um planeta colonizado por libertários em missão punitiva e Holden, como sempre, a fazer as coisas à sua maneira. Levamos o primeiro baque quando este anuncia que está cansado, quer retirar-se da vida de aventuras, e entrega o comando da nave à ex-marine marciana Bobbie. Como leitores, ficamos intrigados sobre como será a série Expanse sem o seu personagem principal e ponto de charneira. Poderemos esperar uma história com a tripulação do Roci a adaptar-se a uma nova vida, com Holden e Naomi a viver uma tranquila reforma longe de aventuras?

Os Laconianos são as grandes personagens deste livro. Ficamos a saber que, em isolamento voluntário do sistema solar e colónias, desenvolveram uma sociedade militarista e ambiciosa. Sem limites éticos, exploram ao máximo os potenciais das tecnologias alienígenas e da protomolécula. Winston Duarte, o ex-almirante marciano que fundou a sociedade laconiana, está a injectar-se regularmente com um soro destilado a partir do sangue de vítimas da protomolécula. Aos que são considerados criminosos na espartana sociedade laconiana, espera-os um destino atroz nos laboratórios de pesquisa, onde são infetados com a molécula para morrer e, no processo, servirem de colheita de dados e fluídos. Controlando a interacção da molécula alienígena com o corpo humano, Duarte almeja tornar-se imortal, líder único do que pretende ser um império humano que abranja todos os sistemas estelares de The Expanse. Depois de consolidar o seu poder e fazer avançar as suas armas, com incorporação de muita possibilidade tecnológica exótica trazida pela protomolécula, resta-lhe dar o primeiro passo de conquista.

Bastam duas naves. As modificações e tecnologia exótica dos laconianos estão demasiado à frente de tudo o que o sistema solar tem. Com muito pouco esforço, ocupam Medina, a antiga nave geracional Nauvoo, agora estação que orbita o portal entre sistemas solares. Uma das naves segue em direção ao centro nevrálgico do sistema solar, derrotando todos os esforços para a travar. O poderio combinado das potentes frotas terrestre, marciana e da união é incapaz de fazer frente a uma única nave laconiana. A derrota é previsível, a capitulação torna-se a única forma de salvar vidas. Apesar de militaristas e assentes em poderoso armamento, os Laconianos tentam projetar uma aparência de benevolência, mostrando que a invasão é apenas uma forma desagradável de criar uma inevitável e desejável união de toda a humanidade. A situação é desesperada, agravada pela violência da ocupação de Medina. Aos antigos belters, junta-se a tripulação encalhada do Roci. A resistência é inevitável, Holden e o seu bando de aventureiros honrados tem, mais uma vez, um papel decisivo a travar. Para complicar um pouco mais a narrativa, o uso extensivo de tecnologias baseadas na protomolécula atraiu uma atenção indesejada. Algures no passado, a civilização que criou a protomolécula foi extinta por algo ainda mais avançado. Algo que Holden intui quando visitou pela primeira vez o artefacto que se tornaria o ponto de contacto entre mundos, e que volta agora a surgir. Mais do que o risco do universo de The Expanse se tornar uma hegemonia ditatorial militarista, haverá algo ainda mais terrível a caminho.

Como sempre, esta série é escrita comercial no seu melhor. Não perde tempo com grandes especulações sociais, assenta num mundo ficcional muito sólido e plausível, e o encadeamento narrativo é daqueles que não nos deixa parar a leitura. O virar de páginas é compulsivo, queremos sempre saber o que está mais à frente, que aventuras ou desventuras esperam os nossos personagens. É este o grande ponto de interesse de The Expanse. Apesar de muito bem feito, não pretende ser mais do que é, ficção científica de puro escapismo.


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Titus - O herdeiro de Gormenghast



Mervyn Peake (2010).  Titus - O herdeiro de Gormenghast. Porto Salvo: Saída de Emergência.

Há um tremendo ar de grandiloquência barroca neste clássico de Mervyn Peake. O texto é excessivamente trabalhado, filigranado, caricatural a roçar o grotesco. É um ambiente pesado, profundamente gótico no sentido sturm und drang. As personagens são caricaturais, arranstando-se em acção teatralizada por palco decadente, vasto e semi-arruinado. Isto não é fantasia no sentido clássico, de visões bucólicas e feitos heróicos. E é isso que torna este livro interessante.

Este primeiro livro da série Gormenghast (vá, pronunciem a palavra, saboreiem a sua arquitectura gutural, e percebem o barroquismo decadente do livro) é em essência um longo apresentar de personagens, dispondo-as num convoluto tabuleiro de xadrez narrativo. Ficamos a conhecer a incrivelmente disfuncional família senhorial do condado de Gormenghast, com o seu conde moroso, esposa que se interessa unicamente pelos seus gatos, filha semi-selvagem e irmãs gémeas com óbvia deficiência mental. Somos apresentados à caricata entourage de altos funcionários que de se dedicarem a funções fortemente ritualizadas, tornaram-se eles próprios ritualizados. Isto num castelo vasto, entre o sombrio e o assombroso, centro de uma terra que em si também encerra esquisitices quanto baste.

A história, contada com uma lentidão agonizante, narra-nos os primeiros anos de Titus, o filho varão do conde e grande esperança do reino. Um herói que nada faz, é um personagem secundário na sua própria história. O grande personagem é Steerpike, um inteligente e ambicioso anti-herói, jovem que consegue encontrar forma de se erguer de mero escravo de cozinha até se posicionar para se tornar o de facto dono do poder em Gormenghast. Sinuoso e implacável, capaz de manipular com fina inteligência aqueles que o rodeiam, um líder apropriado para a decadência ritual do condado.

A lentidão narrativa é em si outro artifício literário. Sublinha o filigranado barroco do texto, o caricatural das personagens e o teatral das peripécias da narrativa.