quarta-feira, 23 de Abril de 2014

Downspiral: Prelúdio


Anton Stark (2012). Downspiral: Prelúdio. Maia: Editorial Arauto.

Tendo o trabalho deste escritor já cruzado o meu radar em contos publicados online e em revistas, tinha algumas expectativas elevadas quanto a este Prelúdio. Queria perceber se a elegância literária e a solidez da construção de mundos ficcionais que noto nos contos escalava bem para algo com mais fôlego. Uma das coisas que me intrigou ao lê-los foi o parecerem fragmentos de algo mais elaborado. Num livro há mais espaço para o desenvolvimento de ideias.

Após a leitura o que surpreende é a notória ambição da obra. Não se trata de uma história contida nos limites de um livro, antes, é o primeiro de uma trilogia proposta. Este lado ambicioso é ao mesmo tempo uma virtude e um embaraço. A tarefa não é fácil. Stark cria e estabelece um mundo ficcional muito coerente, cheio de pormenores intrigantes e de vasta amplitude, largo panorama ou tabuleiro de jogo onde poderá dispor as peças que entender. Estabelece as diferentes linhas narrativas de uma teia complexa que, neste primeiro volume, têm poucas intersecções aparentes. E é aqui que as coisas se embaraçam um pouco. Sabemos que há aqui pano para mangas, espaço para continuidade narrativa, mas será que virão a existir um segundo e terceiro livros que sigam com as aventuras, deslindem as intrigas e nos ofereçam uma conclusão para as tribulações do azarado e levemente inepto espião Alleth, fio condutor das intrigas que torneiam a vontade de um reino em dominar os seus vizinhos?

Os ventos de guerra percorrem a terra de Eos. Dominada por um aristocrata de ambição desmedida, o reino de Amorslea move-se para dominar os seus vizinhos. São os exércitos da confederação Gunnlander quem mais tem sofrido a pressão das espadas e dos robots a vapor amorsleanos. O conflito alastra, envolvendo uma ordem monástica de cavaleiros e, através das maquinações dos nobres amorsleanos, uma raça de homens-lobo que nada mais quer do que viver em paz nas suas terras. Neste turbilhão move-se Alleth, mercenário e espião ao serviço dos serviços secretos de Amorslea, cujos objectivos nem sempre são nítidos mas que revela uma divertida inépcia nas suas missões. Está sempre em apuros e é invariavelmente capturado. Este Alleth não pode ser acusado se ser nenhum Bond.

Não sendo um livro perfeito, agradou-me muito. Mesmo para um assumido desconhecedor do que se faz em fantasia épica como eu perceberam-se no livro as influências que animaram o autor. A curiosa mistura de medievalismo com steampunk funciona, se não formos puristas dos géneros e soubermos apreciar as delicadas bizarrias das zonas de fronteira. Neste quadro conceptual o livro está muito no limite do equilíbrio entre influências literárias e a voz do imaginário do autor, como até é de esperar de uma jovem voz que está em franca formação. O anglicismo do título é um óbvio indicador desta ambivalência, que no entanto ao longo do livro se estabelece com firmeza para o lado do imaginário pessoal. O estilo literário é o que esperava do autor, mas sou obrigado a assinalar que tem bastantes momentos que precisariam de melhor afinação. Também é algo que vai melhorando ao longo do livro.

Honestamente, o que me chateia neste livro é chegar ao seu final e ficar sem conclusão. Está prevista, mas estamos em portugal, país pouco motivador para a publicação de ficção de género, e esperemos que Stark insista, melhorando, nesta trilogia. Admiro a ambição narrativa, um risco muito grande corrido pelo autor que se nem sempre se sai bem é, no cômputo geral, bem conseguida. As descrições intrigam e encantam, as das cidades, fervilhantes de vida e do exotismo que associamos a este género ficcional, ou das batalhas que formaram na minha mente um misto de soldados setecentistas com armas medievas e enormes robots a vapor. Os personagens assumem-se dentro dos estereótipos da fantasia épica, distinguindo-se um vulpino comandante pela complexidade com que está retratado. Neste primeiro volume é frustrante seguir fios narrativos que só se irão enredar na continuidade, caso dos monges marciais, que não colidem com as restantes linhas da história.

No global, foi uma leitura interessante. Ambiciosa, nem sempre bem conseguida, a mostrar o peso das influências iconográficas e a precisar de alguns retoques estilísticos. Mas, depois de terminada, as imagens mentais suscitadas pela sua leitura persistem e continuam a intrigar a imaginação. Se houver segundo volume cá estarei para apreciar a continuação das aventuras no mundo ficcional de Eos. Sublinhada fica a voz deste autor como uma das mais promissoras nas novas gerações do fantástico em Portugal.

terça-feira, 22 de Abril de 2014

Contos Inomináveis


Robert E. Howard (2014). Contos Inomináveis. S. Pedro do Estoril: Saída de Emergência.

É em bom tempo que a Saída de Emergência nos traz uma antologia do horror pulp clássico de Robert E. Howard. Publica as traduções do clube de tradução literária da Lusófona no que é uma obra de referência para aqueles que desejem aprofundar o conhecimento da evolução histórica da literatura fantástica. Não sendo obras inéditas, fáceis de encontrar em edições anteriores ou online, o seu mérito está no ser uma tradução para português que as torne mais acessíveis ao público. Fica como obra de referência, mas também leitura divertida de um autor clássico que se hoje nos parece datado ainda nos oferece momentos interessantes de leituras. Nestes contos Howard andou à volta do cânone dos mythos de Cthulhu, que habitualmente associamos em sentido estrito a Lovecraft mas vão beber influências a Machen e foram visitados por autores como Derleth, Ashton-Smith e Bloch. A visão lovecraftiana tornou-se a mais prevalente mas as variantes destes autores têm o seu interesse. Estamos a falar de ficções, onde os cânones sólidos são referência mas o grande oceano de variantes é tão ou mais interessante do que o padrão literário.

A Pedra Negra recorda-nos o quanto a ficção pulp consegue ser boa. Não há palavras ao acaso neste conto onde todos os elementos são expressamente criados para despertar sensações de curiosidade ao leitor. A progressão narrativa em espiral vai-nos revelando camadas ocultas e espicaçando a curiosidade, enquanto a linguagem cerrada mistura com muita eficácia elementos da ficção de horror. Apesar de escrito por um autor pulp há mais de cinquenta anos, o conto tem um poder enorme de agarrar o leitor. Howard leva-nos por vários caminhos, desde mistérios bibliográficos a lendas daquela europa mais selvagem para lá das fronteiras do antigo império romano, até nos revelar que monstruosas criaturas com forma de sapo foram, em tempos, adoradas por tribos obscenas que a espada dos crentes se encarregou de eliminar. Os fragmentos de memória despertos pelos parcos vestígios que sobrevivem são capazes de levar os homens à loucura. Se a história nos diverte, o que realmente surpreende é a qualidade da prosa.

O carácter pulp da ficção de Howard está patente em Vermes da Terra, outra perfeita mistura de prosa de aventuras selvagens com o gótico grotesco do horror oculto. Buscando vingança pelas acções injustas de um general romano, Bran Mak Morn, rei legítimo dos Pictos que visita incógnito as legiões de Roma, vai despertar horrores do passado que os seus antepassados, a muito custo, empurraram para as profundezas da terra. O conto torna-se mais interessante porque consegue misturar na perfeição diferentes géneros. O militarismo da história antiga em conflito com antepassados selvagens encaixa muito bem com os horrores inomináveis que se ocultam nas sombras.

Se o título O Povo Pequeno nos parece conduzir a um bucólico conto de fadas, Howard depressa nos troca as voltas. A curiosidade de duas crianças pelas criaturas míticas que se ocultam nas ruínas megalíticas leva-as a cruzar-se com os descendentes degenerados dos povos pré-neandertais que, milénios atrás, foram reduzidos às sombras pelas espadas dos homens primitivos. As criaturas de mito são aqui visões degeneradas de horror.

O mergulho nas entranhas cavernosas da terra no conto O Povo das Tervas leva os personagens a reviver dramas do passado. Para Howard a história é cíclica, repetindo os dramas numa circularidade que transcende o tempo. O amante despeitado que quer assassinar o homem amado pela mulher que ama e os leva ao interior de uma caverna descobre-se numa aventura em tempos antediluvianos. Todos reencarnam num passado bárbaro onde os motivos são os mesmos, as acções também, e a redenção final sacrificial se repete. Tempo circular com criaturas monstruosas e bárbaros à misturas.

Talvez seja um traço de época (Lovecraft, por exemplo, não era nada inocente nestas problemáticas) mas há uma forte componente de xenofobia a percorrer Os Filhos da Noite. O início do conto, com o conclave de sábios preocupados com a sua pureza racial anglo-saxónica, aponta para um forte racismo no ideário de Howard. A história depressa resvala para campos mais obscuros no domínio da ficção fantasista que nos dá vislumbres dos horrores ocultos que demolidores de sanidade e, num traço curioso patente noutros contos reunidos nesta colectânea, um acidente dissolve o tempo e leva um dos personagens a reviver outras vidas. Não incidentalmente, revive lutas contra horrendos seres primitivos, humanos degenerados cujo extermínio é visto como um dever civilizacional. É difícil ser mais xenófobo que isto. Redimindo um pouco a memória do autor note-se a profunda poesia surreal da sua visão do tempo como um fluxo circular que se toca nos momentos mais inusitados: "O tempo e as várias épocas não são mais do que as rodas de uma engrenagem, que giram cada uma por si, sem saberem da existência das outras. Por vezes, se bem que muito raramente, os dentes dessas rodas conseguem encaixar-se; as peças começam a juntar-se momentaneamente, dando ao Homem vislumbres para lá do véu da cegueira diária a que chamamos realidade". Sem querer defender o indefensável, a xenofobia explícita nestes textos é marca de época.

Entramos no lado mais lovecraftiano da ficção pulp de Howard com A Avantesma no Telhado. Aqui o horror vem de mistérios esquecidos perturbados pela curiosidade humana e o conto tem uma forte componente bibliográfica, girando à volta do conhecimento secreto contido no lendário livro dos Cultos Inomináveis. A mistura entre biblioteca bafienta e horror sangrento final remete para o mais clássico terror.

Os horrores conjurados pela literatura proibida sublinham as desventuras do herói de O Monstro com Cascos. Um plácido mas dinâmico homem suburbano trava conhecimento com o literato mas misterioso vizinho da sua noiva, enquanto que a cidade onde vivem sofre uma vaga de raptos misteriosos que começa com inocentes animais mas depressa resvala ao desaparecimento de crianças. O culpado é o pacato literato, que oculta na sua casa um pesadelo resultado das suas experiências com invocações demoníacas, criatura de horror que requer alimentação constante.

Deste tema de crimes do passado envolvendo invocações e ritos ocultos vive Não me Cavem uma Sepultura, conto em tom de gótico grotesco onde o falecimento misterioso de um aristocrata de assinalável longevidade despoleta acontecimentos macabros que culminam num demónio arábico que reclama o que é seu. Novamente, este é um conto de perfeita literatura pulp, com cada palavra pensada para arrepiar e causar estranheza no leitor.

Do pulp de horror regressamos ao pulp de aventuras exóticas, desta vez com um fortíssimo pendor yellow peril. Se nos contos sobre valentes bárbaros em luta contra sub-humanos degenerados se notam pontas de xenofobia, neste em que perigosos orientais conspiram para mergulhar o mundo em guerras nos becos recônditos de Xangai a visão do perigo amarelo é perfeitamente notória, mesmo que no final se revele que os revoltosos foram peões manipulados por um homem branco que se disfarça de lama e cujas lealdades recaem não com os indígenas mas com os horrores inomináveis do além-espaço. O Urso Preto Morde vive do extremismo pulp, com um indomitável herói capaz de travar à bala hordes de chineses armados até aos dentes e derrotar os perigosos cultistas da revolução.

Para encerrar o livro outro conto pulp de estrutura clássica, que põem em evidência os vícios do género. Cara de Caveira mergulha-nos na Londres do virar de século, numa aventura mirabolante às voltas com cultos afro-asiáticos, casas de ópio e os perigos de conspirações dominadas por criaturas misteriosas que traçam as suas origens à Atlântida. Howard mete dentro deste conto todos os ingredientes da ficção pulp de aventuras. Múmias que regressam à vida, mistérios do passado longínquo, beldades ameaçadas, cultos sangrentos, antros de ópio em Limehouse, valentes agentes da Scotland Yard, aventureiros caídos em desgraça que se esforçam por se libertar dos males que os algemam, hordes degeneradas de africanos e orientais determinadas em exterminar o homem branco através da invocação de terríveis divindades, combates corpo a corpo até à morte, rusgas, antros decadentes, lojas de antiguidades cheias de intrigantes artefactos, criptas a transbordar de restos humanos ressequidos e drogas capazes de atordoar os sentidos. É provável que tenha deixado algo de fora nesta longa lista. E sim. é notório que o racismo é evidente. Isto é narrativa pulp no seu mais elementar, dependendo de acção contínua cheia de peripécias em catadupa, num estilo narrativo curto e descritivo que vai levando o leitor de situação implausível a situação inacreditável até ao aparente triunfo final do mal, debelado à última da hora pela coragem dos heróis.

segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Comics


Batman #30: Sott Snyder poderia ter seguido o caminho mais fácil e ressuscitado o Joker como arqui-inimigo do homem-morcego nesta revisão ao clássico Batman. Mas não. Pegou no habitualmente patético Enigma e transformou-o num super-vilão de primeira linha, capaz de catástrofes de primeiro plano. Como dominar toda a Gotham, separada do continente por um exército de drones. É interessante a forma como Snyder está a revitalizar o personagem, dando vénias aos seus melhores momentos e atrevendo-se a desafiar as expectativas.


D4VE #04: Divertido e bem ilustrado, D4VE é uma belíssima sátira futurista aos robots na ficção científica. No futuro distópico em que os robots exterminam a humanidade mas depois se entretêm a recriar a sociedade humana D4VE é um inadaptado, ameaçado de exterminação por despedimento (porque máquina despedida é máquina obsoleta), e o único capaz de combater uma invasão de alienígenas insectóides. E sim, como o robot entra dentro de uma vasta mainframe que controla o mundo robótico, há um momento "d4ve, I'm afraid I cannot do that".


Frankenstein Alive Alive! #03: Dois mestres a revisitar um clássico. Steve Niles dispensa apresentações no que toca a comics de horror e Bernie Wrightson não é um estranho a adaptar a sua mestria à obra clássica de Mary Shelley. O seu Frankenstein é um dos grandes marcos gráficos na adaptação da obra original. Neste Alive Alive! a narrativa é reconstruída com toques de fantasmagoria gótica. Nada de muito inventivo, mas a mestria gráfica e o gosto puro de Wrightson são um mimo para o leitor.


Rover Red Charlie #05: O quê, Garth Ennis a dar-nos um momento bucólico de felicidade canina? Os nossos três intrépidos heróis conseguem atravessar o continente e chegar à grande água e, sendo cães, mergulham com alegria no mar. É estranho, muito estranho. Ennis a dar-nos uma edição feliz e sorridente. Suspeito que a coisa vá acabar mal.


Skinned #01: Reflectir sobre a ilusão da virtualidade é tema em alta na cultura popular. No cinema temos The Congress, e agora a Monkeybrain estreia este comic que teve um arranque interessantíssimo. Estamos num futuro distópico ultra-neoliberal onde realidade aumentada pervasiva gera um consenso alucinatório imposto pela elite reinante, que gosta de disfarçar o real com um exotismo orientalista. Tem um toque de fantástico medievalista - a elite reinante estiliza-se como família real e o resto da população como servos mas a alta tecnologia virtual e a sua distorção sobre as percepções do real são o foco do argumento. Mais uma interessante visão crítica do even better than the real thing.

The replacement of the writer by the automatic printing press!

"This will furnish me with all the future volumes of my magaine; I won't have to read manuscripts anymore. This is wonderful for both editor and publisher: the elimination of the author from the literary business! The replacement  of the writer by the automatic printing press! A triumph of technology!".

Kurt Lasswitz, The Universal Library. A escrever no final do século XIX um conto sobre matemática que, diz-se, viria a inspirar Borges a escrever a sua Biblioteca de Babel. É irresistível não destacar esta passagem, que ecoa as nossas especulações contemporâneas sobre produção automatizada de textos possibilitada por algoritmos computacionais.

domingo, 20 de Abril de 2014

Estrada fora




Solidão nocturna do asfalto.

Distribuição não-uniforme

(A reciclar textos)

“Utopia” é uma palavra carregada. Está sempre um pouco além do horizonte, a fazer-nos sonhar enquanto caminhamos, porque não queremos escapar ao impulso de construir um mundo melhor e o deixarmos como legado. Podem tentar-nos convencer do oposto, mas não há utopias prontas a consumir, devidamente embrulhadas a vácuo higienizado e prontas a aplicar. Há que as construir, sabendo que são por definição inacabáveis e que o paciente colocar de peças no lugar para criar o edifício perfeito nunca termina. O progresso humano é um fluxo permanente, hoje acelerado pelas ciência e tecnologia em alta rotação, conceitos sociais evoluem, modos de viver transformam-se. Nunca conseguiremos atingir utopias. Felizmente. Se chegássemos à perfeição estagnaríamos, e num mundo pluralista a perfeição de um não tem de ser o sonho do outro. Esta alucinação consensual que é a realidade degusta-se melhor na multiplicidade de visões. Já as utopias, se são inatingíveis como um fim, como processo motivam-nos a lutar por uma contemporaneidade mais justa e avançada.

Somos professores, talvez das profissões mais amargas neste momento de profunda distopia onde os valores iluministas e progressistas estão sob assalto cerrado de forças poderosas, novas variantes de antigos poderes que apreciam um mundo maleável aos seus desejos. Este é um momento em que conquistas que acreditávamos serem já elementares nos são retiradas em nome de uma ideologia de responsabilidade financeira que mal disfarça o revanchismo dos herdeiros das antigas oligarquias dominantes.
Somos professores e estamos na linha da frente do que é de facto uma guerra contra a construção de uma sociedade justa, igualitária e progressista. Tentamos mitigar as baixas que observamos nas crianças, vítimas de um empobrecimento advindo por escolhas políticas. Estamos sob constante ataque à dignidade profissional e laboral. E, de forma insidiosa, ao cerne do que realmente fazemos, com uma constante pressão normalizadora centrada num ensino nivelado pelo menor denominador comum onde só há espaço para a competência mensurável pela estatística, hoje arma afiada na guerra de ideias que sentimos estar a perder. Na tirania dos dados e do back to basics, dizem-nos, não há lugar para coisas acessórias como o sonhar ou culturas que extravasem os estreitos limites do basic. São obstáculos que prejudicam o que nos querem impor como uma bem oleada máquina de aprendizagem elementar. Vive-se um momento crítico. Velhas forças contra-atacam com uma ferocidade quase esquecida enquanto o progresso científico e tecnológico nos dão a possibilidade de um futuro melhor, vislumbrado pelos sonhadores da ficção científica mas hoje tornado possível e quase banal.

Temos responsabilidades acrescidas. Ao combate contra as velhas tiranias reformuladas com respeitabilidade metrificada temos de juntar algo que só faz sentido no dia a dia com os nossos alunos. O não baixar os braços, insistir que há mais mundo para além das visões redutoras dos programas ministeriais, que há espaço e necessidade para a cultura, ensinar-lhes que não têm de se resignar a viver numa sociedade estratificada de elites poderosas e um imenso lúmpen que lhes serve de massa para consumo ou força laboral precária. O futuro existe, mas não está uniformemente distribuído (e isso diz William Gibson, crédito a quem é devido), e temos um papel importante na possibilidade de melhor distribuição.

São estas vertentes que tornam momentos como este Utopias 2014 tão importantes. O seu carácter transdisciplinar, o assumir-se como espaço experimental de aprendizagem, a ênfase no diálogo e discussão de ideias, e, principalmente, a insistência na multiplicidade de expressões culturais e na sua importância para uma educação global. São aspectos que estão sob ameaça na escola esmagada pela pressão deste momento distópico contemporâneo mas que são elementares para a escola enquanto instituição formadora, transmissora dos valores das sociedades em que se insere. É por isto que é perigosa, é por isto que temos de a defender, e reflectir sobre a sua abrangência uma forma de atacar o peso da normalização estatística.

sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Erros algorítmicos


O algoritmo de reconhecimento facial a ver para lá do real. Identificou um rosto num pormenor de uma foto tirada à noite à fumarada que avermelha o céu numa fábrica de papel. Existirá por entre o fumo da noite um rosto demoníaco a espreitar? O algoritmo acha que sim.


You had one job! Porque para anunciar um jogo de fantasia medievalista com cavaleiros e batalhas de espada nada melhor que um carro de corrida.

Sad and Damned




À noite, os brinquedos solitários revelam-se arrepiantes. No Museu do Brincar em Vagos.

Analog Science Fiction and Fact Vol. 134, #04


Que boa surpresa, pensei ao entrar na Tema em busca da Interzone e deparar com a Analog. Tive de esfregar os olhos e mirar com atenção, não fosse alguma edição mais antiga que andou esquecida em fundos de colecção e agora estivesse no escaparate a tentar coleccionadores. Mas não, era mesmo a Analog mais recente, e pelo que já ouvi parece que é capaz de regressar aos leitores portugueses. A Asimov seria melhor, no meu ponto de vista que sempre teve um fraquinho por ela, mas a Analog não está nada mal. Até porque são revistas-irmãs. Claro que hoje há formas legais ou nem por isso de ler digitalmente estas revistas, mas nisto há uma certa componente emocional de fisicalidade. Gosto de me deslocar à loja, folhear, e adicionar às prateleiras. É uma fraqueza analógica que ainda me aflige, diria.

Surpreende-me a imutabilidade da revista. Os últimos números que estão nas minhas estantes têm um hiato apreciável com este e pouco, ou nada, mudou. Continua o foco na hard SF, as colunas e momentos editoriais estão no mesmo sítio, e continua a ter um artigo de especulação científica pura para fazer jus ao Fact do título.

A Fierce, Calming Presence - Conto de Jordan Jeffers com algumas variantes interessantes ao western in space. Um ecologista desloca-se a um asteróide colonizado por mineiros na orla do sistema solar para resolver o problema levantado por ataques de gaivotas semi-inteligentes nativas aos colonos. No processo vê-se envolvido numa conspiração para exterminar a vida autóctone no asteróide, aumentado a margem de lucro das empresas de exploração mineira. Esta história de criaturas aladas semi-inteligentes num asteróide nunca é bem (ou sequer) explicada, mas estamos no campo da estética da fronteira do velho oeste transplantada para o espaço, onde as clivagens entre governos centrais e espíritos libertários e um sentido do exótico se sobrepõem ao realismo especulativo de base científica.

Pollution - uma surpresa interessante, misturando robótica, zombies e preconceitos sociais. Num mundo futuro zombies criados por um vírus de preservação de vida, com a massa cerebral inútil substituída por processadores, são uma nova forma de trabalho escravo. Um americano deslumbrado pelo Japão aprofunda o seu conhecimento do país e a sua peculiar cultura enquanto dá aulas de inglês em Nagoya. Responsável por um zombie avariado, trava conhecimento com uma sub-classe de japoneses, tradicionalmente relegados como indesejáveis. E, num clássico final irónico de FC, entra em coma devido a um acidente e é transformado num zombie robótico para passar uma segunda vida como serviçal automatizado. Conto de Don Webb.

The Oracle of Boca Raton - há coisas que se lêem e relêem e fica-se sem preceber sobre o que versam. Nalguns casos são textos de reconhecida complexidade, mas na grande são maioria desastres literários. É o caso deste conto de Eric Bayliss, texto desconexo que não consigo perceber como é que passou o crivo editorial. Vai traindo alguma nostalgia pelo futurismo da FC clássica no meio da algaraviada, mas pouco mais se compreende deste texto.

Wind Reaper - Então e o resto, pensei depois de terminar esta curta vinheta de John Hakes escrita num estilo muito descritivo. Junta como ingredientes futuros pós-apocalípticos e turbinas de vento numa história onde aeronautas especializados em caçar energia de furacões são capturados pelas forças de uma cidade costeira que os acusa de roubar a energia eólica que recolhem no seu parque de aeroturbinas. Soube muito a pouco.

It's Not ‘The Lady or the Tiger?’, It's ‘Which Tiger?’ - a palavra empreendedorismo é o sufuciente para despertar arrepios intelectuais. Ian Stroch cria aqui o sonho húmido dos jovens neoliberais com um pendor para a FC: um eterno empreendedor, que destrói as suas empresas mal começa a ser bem sucedido porque lhe interessa mais o desafio do que a estabilidade financeira e laboral, que é convidado por um seu descendente vindo do futuro a colher os frutos do seu sucesso.

Whaliens - Lavie Tidhar num registo delirante de FC bem humorada. Baleias alienígenas inteligentes que ameaçam destruir a terra se não se puderem converter a uma das nossas religiões (mormonismo e cientologia ficam de parte e tornam-se baleias judaicas), escritores de FC arrebanhados pelos serviços secretos para ensinarem os políticos a lidar com as ameaças alienígenas, e os verdadeiros donos do planeta: gatos com poderes psiónicos, que por detrás da aparência plácida manipualam a vontad dos humanos e se vêem ameaçados pela presença das baleias extraterrestres. Uma sátira auto-crítica cheia de ironia que nos faz sorrir com o dissecar das idiosincrasias da FC e caricatura traços de personalidade dos seus maiores nomes.

Lockstep - A Analog publicou o recente romance de Karl Schroder em episódios, mantendo uma tradição clássica nas revistas do género. Sendo uma parte de algo mais vasto não me atrevo ainda a analisar com cuidado. Fiquei surpreendido pelo conceito - uma civilização que se desenvolve e se espalha pelo espaço graças à criogenia e que se sincroniza num ritmo de hibernações. O que para os seus habitantes são curtas décadas para o mundo em tempo real são milénios, e nesses milénios novas civilizações despontam e novos planetas são abertos à colonização. É uma visão interessante sobre dois elementos clássicos da FC, a hibernação criogénica com os seus efeitos de dilatação temporal e a colonização do espaço interestelar. Por outro lado o motor do romance pareceu-me demasiado centrado nas intrigas familiares dos elementos da família que há décadas-milénios (depende do ponto de vista) liderou o exílio para o espaço e mantém o controle sobre a tecnologia de criogenia.

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Comics: Challengers of the Unknown; Big Baby.


Howard Chaykin (2006). Challengers of the Unknown: Stolen Moments, Borrowed Time. Nova Iorque: DC Comics.

Se Chaykin se distingue pelo seu estilo visual dinâmico há momentos em que o excessivo dinamismo acaba por complicar a leitura. É o caso deste Challengers of the Unknown, que até parte de premissas interessantes mas descamba no estilismo comunicativo do argumentista-ilustrador. A sua revisão a estes personagens clássicos que, volta não volta, a DC tenta ressuscitar sem grande sucesso envolve ex-assassinos programados em luta contra uma conspiração de oligarcas que já domina o mundo. Tem um ponto de muito interesse. A páginas tantas Chaykin coloca-os na lua, onde os oligarcas construíram uma base saída dos sonhos da ilustração dos anos 50. O ilustrador deleita-se a recriar a iconografia clássica das naves, aeronaves, foguetões e design retro-futurista, iconografias que lhe são queridas. conceptualmente consegue tocar na manipulação dos media por interesses financeiros específicos, mas o tom geral de excessivo dinamismo anula as leituras possíveis desta revisão aos clássicos desafiadores do desconhecido. O falhanço torna-se mais evidente porque se percebe o esforço colocado no argumento para levar as aventuras dos personagens para além dos limites desta curta série.


Charles Burns (2007). Big Baby. Seattle: Fantagraphics.

O surrealismo grotesco de Burns está em evidência nesta visão distorcida do bucolismo suburbano vista pelo prisma inocente mas transformado pela cultura pop de horror de uma criança. São histórias do banal macabro transformadas pela visão de Burns em algo que remente para o sobrenatural dos comics clássicos. Não sendo um trabalho tão visceral como Black Hole, vive do grafismo pessoal do autor.

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

O Baile; Living Will #02.


Nuno Duarte, Joana Afonso (2012). O Baile. Lisboa: Kingpin Books.

Tem sido difícil apanhar um exemplar deste livro desde que o vi pela primeira vez, apresentado há dois anos atrás numa edição do Fórum Fantástico. Nesse intervalo a obra já teve espaço de reedição (coisa rara na BD portuguesa), ganho prémios e cativado leitores. E com muito mérito, diga-se, e digo depois de finalmente a ler. 

O Baile conjuga bem um excelente argumento com grafismo na fronteira entre a legibilidade gráfica e o registo artístico de cunho pessoal. É uma perfeita história de terror clássico, com inspirações lovecraftianas e em todos os filmes e contos onde uma aldeia à beira-mar é aterrorizada por misteriosas criaturas maléficas. O enredo do inspector da PIDE, com as suas dúvidas pessoais, que é enviado ao lugar pobre e esquecido para vigiar a pureza ideológica da nação faz a ponte entre a iconografia literária do horror clássico e a realidade histórica portuguesa. Não pude deixar de notar uma certa semelhança conceptual entre este livro e o filme A Promessa de António de Macedo, também este um reflexo da colisão de velhos mitos, condições de vida no Portugal do antigo regime e choques de modernidade. 

O traço de Joana Afonso dá ao livro o carácter fortemente cinematográfico que lhe vem do argumento. Para além do estilo pessoal da ilustradora, realista com um toque forte de expressionismo, há um trabalho muito cuidado de enquadramentos que contribuem para a leitura da história. Este é um livro marcante no panorama da BD e do fantástico em Portugal.


André Oliveira, Joana Afonso (2014). Living Will #02. Lisboa: Ave Rara.

A história de um homem que ao sentir a morte aproximar-se parte em busca de redenção pelo passado é desenvolvida de forma encantadora nesta série. Apanhei o segundo volume, e agora terei de ir, implacável, à caça do primeiro e manter sob vigilância apertada a edição das restantes. Muito boa escrita de banda desenhada ilustrada pelo traço expressivo de Joana Afonso. Se a obra em si e a ilustração já são cativantes o pormenor final do elemento redentor ter sido de natureza aleatória deixou-me rendido à série.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

BD: Les Damnés du Reich; La Main Gauche du Führer; Antinéa.


Richard Nolane, Milorad Vicanovic (2013). Wunderwaffen #03: Les  Damnés du Reich. Toulon: Soleil.

Suponho que deve haver piores desculpas para se ler livros sobre aeronaves de sonho. A história que vai tentando dar fio condutor a esta série envolve as desventuras de um ás dos ares alemão que odeia o regime nazi mas não pode ser eliminado como incómodo ao regime por ser um bom elemento de propaganda. Mas pronto. Não é uma má história mas serve para o que se pretende: ter um espaço narrativo para recriar os projectos de aeronaves futuristas da Luftwaffe em combate aéreo nos céus de uma história alternativa onde em 1946 a Alemanha nazi ainda resiste, graças à superioridade das suas armas avançadas. É nisto que reside o encanto deste livro, para os fãs de aeronáutica, o poder visualizar máquinas voadoras que não passaram de projectos recriadas pelo traço firme do ilustrador.


Richard Nolane, Maza (2013). Wunderwaffen #04: La Main Gauche du Führer. Toulon: Soleil.

A série Wunderwaffen lê-se para saber quais as aeronaves retro-futuristas e outras tecnologias secretas nazis que não saíram das pranchas dos engenheiros. Nos dois últimos volumes o destaque vai para os Focke-Wulfe Triebflügel (aeronaves bizarras com turbojactos nas pontas das asas e capazes de descolar verticalmente). A série redime-se do argumento elementar com algumas vinhetas brilhantes de aquecer o sangue destas aeronaves em combate contra B-29s e Lockheeds P-80 nos céus italianos. Quanto ao argumento em si, entramos finalmente no campo das bizarrias sobre a lendária Neue Schwabenland, a famosa (entre os círculos das teorias da conspiração) base antártica nazi que é o cerne de tantos mistérios da II guerra. Ou lendas. Pessoalmente vejo-as mais como lendas do que mistérios, mas anda por aí muito boa gente que jura a pés juntos sobre a veracidade dos haunebus, vrils, nazis sobreviventes na antártida e outras mitologias na fronteira da dúvidas sobre sanidade mental. São ideários bizarros mas divertidos, de espírito especulativo em estado puro e não contaminado por pormenores do real. Num sentido estrito são perfeitas aplicações do "e se" da ficção especulativa.


Jean-Pierre Pécau, Leo Pilipovic (2013). Le Grand Jeu #06: Antinéa. Paris: Delcourt.

Suponho que as aventuras de Nestor Serge devam agradar aos saudosistas francófonos, com esta visão alternativa de uma França ainda poderosa após o armistício que travou a II Guerra mundial na frente ocidental e que aliou o regime germânico ex-nazi às potências ocidentais contra a ameaça soviética. Algo que até foi um bem conhecido sonho do grande ditador.  Mas a série não fica nestes detalhes, que são encarados como bases de um mundo ficcional onde as bizarras teorias da terra oca são um perigoso segredo que ameaça a humanidade. As aventuras do jornalista, instigadas por uma eminence grise do Eliseu, levam-no aos recantos obscuros do planeta onde eventos misteriosos sinalizam a existência de entradas para o mundo subterrâneo. Desta vez vamos para uma Argélia ainda colónia mas com pulsões independentistas onde um massivo rochoso no deserto oculta uma civilização perdida dominada por uma milenar mulher fatal, uma de muitas variantes da Ayesha de Ridder Haggard. A série tem premissas interessantes mas o desenvolvimento narrativo arrasta-se. Edições anteriores tinham como bónus o trabalho do ilustrador a dar corpo às visões de tecnologia retro-futuristas. Nesta nem isso, embora as rainhas de reinos perdidos sejam uma boa desculpa para recuperar a iconografia do exótico selvagem das velhas histórias passadas nas profundezas das áfricas.

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Comics


Coffin Hill #07: Era o título que eu pensava ser menos prometedor neste insuflar de novo fôlego na DC-Vertigo. Se Trillium foi genial e Sandman Overture corresponde às expectativas, Hinterkind vai acumulando criaturas na esperança de captar a atenção dos fãs de comics estilo Fables e Federal Bureau of Physics, apesar de ter umas ideias interessantes e se basear na normalidade das realidades distorcidas, não consegue agarrar-me como leitor. Já Coffin Hill prometia não passar de uma história de terror em contornos clássicos, com famílias misteriosas, bosques assombrados e bruxas dilaceradas por dilemas existenciais. De facto não passa daí, mas vai-se adensando com uma notável solidez literária evocativa do espírito da literatura de horror. A série tem sabido manter o interesse e a consistência ao longo das suas edições.


East of West #11: Chineses na Califórnia. Confederados do Sul. Texanos republicanos. Norte federado. Reino dos escravos negros libertos que dominam o petróleo. O que é que faltava no weird wild west de Hickman? Os índios, já que variantes de cowboys há e de sobra. Ei-los chegados, com os seus toucados cibernéticos para um conclave decisivo desta realidade alternativa que procurar colapsar-se sobre si própria.


Flash Gordon #01: Adivinharam. Editado pela Dynamite, que se especializa em recuperar os personagens clássicos. Nada de novo por aqui, mas não consigo deixar passar despercebido o toque lovecraftiano destes krakens gigantes que ameaçam a nave de Flash na sua fuga aos soldados do impiedoso Ming.


Captain Marvel #02:  Space opera com... gatinhos? Esta nova iteração da Capitã Marvel não tem medo das aventuras no espaço à moda antiga. Mas isto de ser dona de um gato mal humorado é uma chatice. Ninguém na Terra quis enfrentar as unhas afiadas deste felino. Resta à capitã enfrentar os perigos do espaço profundo com o seu gatinho ao lado. E ter de aturar um membro dos Guardiães da Galáxia que tem uma alergia especial a gatos, mitigada por tiroteios na direcção geral dos bichos.

domingo, 13 de Abril de 2014

Anicomics 2014


Com pena minha tenho falhado consistentemente em visitar o Anicomics. As datas calham sempre em momentos de sobrecarga ou congressos, o que explica esta ter sido a minha primeira vez neste evento dedicado à cultura bedéfila de anime e comics.


Confesso que... esperava mais. O evento é interessante, mas o espaço da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro revelou-se exíguo para tantos participantes. O acesso ao auditório para visitar o concurso de cosplay era missão impossível, nos espaços de atelier e comerciais os visitantes acotovelavam-se. O conjunto de actividades oferecidas não é assim tão elevado que justifique um preço de entrada que está mais para cá do significativo do que do simbólico. É um evento independente e privado, eu sei, mas mesmo assim o preço de acesso é um pouquinho elevado para quem vem visitar. É que depois de dar uma volta pelos stands, aproveitar para comprar alguma BD ou manga e contemplar os cosplayers, não há assim muito mais que se possa lá fazer dentro de um espaço minúsculo. Para ser justo, é de sublinhar que foram organizados workshops e torneios de jogos digitais e de mesa.


Tive alguma dificuldade em descortinar os comics no meio de tanto anime, mas existiam e sempre deu para (finalmente) trazer uns livros ilustrados pela Joana Afonso que tinham lugar cativo nas minhas estantes. De resto, a oferta livreira estava direccionada aos fãs de manga, escolha comercial compreensível dado o público-alvo do evento.


Os cosplayers, vestidos a rigor como os seus personagens favoritos, deram o maior gosto a este meu pulinho ao Anicomics. É de elogiar o cuidado e rigor que os fãs colocam na recriação dos seus personagens favoritos. Alguns estavam um verdadeiro deslumbre.


Para mim, o espaço mais interessante no Anicomics foi a zona de exposições de pranchas originais, com alguns trabalhos de excelente qualidade e outros muito prometedores. Eu sei. Com tantos fanboys e fangirls é um bocadinho difícil de o ver. Sublinho aqui que apesar de ser um belíssimo espaço a BMOR torna-se exígua nestes acontecimentos. Já se sentiu isso no Fórum Fantástico.

É bom haver um evento em Lisboa que vá além do classicismo do Festival de BD da Amadora, e isso nota-se na afluência dos jovens fãs de manga e fantástico. A pouca oferta livreira desiludiu-me (mas tranquilizou a minha conta bancária), o empenho e entusiasmo dos fãs encantou-me, o espaço atravancou-me e o preço do bilhete de entrada deixou-me a resmungar. Pese embora os lados menos positivos destaque-se o Anicomics pelo seu carácter independente e direccionado ao fandom.

A Promessa




No átrio superior da Cinemateca está uma pequena exposição sobre o Cinema Novo onde, para além de cartazes, fotos de produção e material cinematográfico utilizado nalguns dos filmes mais importantes do movimento, podemos deliciar-mo-nos com esboços e desenhos de produção de António Casimiro para o filme A Promessa de António de Macedo.

sábado, 12 de Abril de 2014

encerrar...



(mete em pausa, vá.)

Utopias 2014


Foi assim, neste sábado passado no Centro Cultural de Cascais, onde decorreu o workshop Visões de Utopia no âmbito do Utopias 2014. Seis participantes a descobrir um vislumbre da vasta história da FC, a folhear o que se fez e se faz por cá nos domínios da FC & F, e ideias arrojadas a serem reconstruídas e intepretadas em micro-ficções e vinhetas gráficas. Foi uma experiência muito recompensadora. Apesar de estar a falar sobre temas que me intrigam e um género literário que me apaixona estava muito longe da minha zona de conforto no que toca a dinamizar workshops. Das vezes que já o fiz teve mais a ver com colocar professores a descobrir que o 3D não é tão difícil quanto isso do que fazer algo no campo literário. Fui como leitor e fã, para partilhar ideias e desafiar os participantes a brincar com percepções sobre tecnologias de vanguarda que nos prometem futuros. Espero que tenham gostado. Fiquei com a sensação que sim.


Foram dois dias dedicados a respirar ideias. No meu caso dia e meio que tinha uma aula que queria mesmo dar e optei por faltar à primeira manhã do Utopias. Fui recompensado com um belíssimo wokshop de fotografia que me fez pensar no que significa o acto de fotografar e aprender elementos técnicos sobre máquinas com que até agora nunca me tinha preocupado. No dia seguinte, para além desta maravilhosa oportunidade ainda assisti a espectáculos que impressionavam pela qualidade - o grupo de teatro distinguiu-se pela sua fortíssima expressividade e uma conversa final onde Teresa Ricou nos recordou a importância de arregaçar as mangas e não desistir, Paulo Guinote traduziu o espírito de revolta de uma classe profissional e Valter Hugo Mãe nos recordou qual a real importância da escola pública: assegurar, ou pelo menos tentar, igualdade de oportunidades.

Dois dias de partilhas num modelo de formação de docentes diferente do usual, sem discursos impostos e a convidar a parar para reflectir. Também dois dias cinzentos de chuva que terminaram com o raiar do sol no final do Utopias. Será uma metáfora?


Parece, mas não, não passei o tempo a ler os livros e revistas de FC e fantástico portuguesas que ensaquei e acartei para o espaço que me foi destinado no Centro Cultural de Cascais. Os responsáveis do Centro, quando lá passei a fazer o reconhecimento prévio do espaço no dia anterior, disseram-me que aquele era o espaço possível porque era o único onde havia uma parede branca para projectar. Sem o saber fizeram-me um favor. Teve um gostinho especial conversar sobre estes temas no meio da obra pictórica do Pedro Zamith, tão próxima das estéticas da BD e dos comics.

A imagem foi do momento de trabalho, onde os participantes iam escrevendo micro-contos e íamos conversando sobre os livros que estavam disponíveis para pegar, folhear, ler e descobrir o nosso manancial do género. É interessante ver como o design do Almanaque Steampunk deslumbra quem nele pega, que a Bang! desperta a atenção pela sua existência, e que todos têm memórias da lendária colecção de capa azul da Caminho. Tinha planeado que o workshop terminasse com uma hora dedicada à leitura, mas acabou por se desenrolar em leituras e conversa sobre ideias de futuros.


Em breve ficarão online as notas e materiais que organizei para o workshop. Já o ebook vai demorar mais um pouquinho. Há que transcrever os textos. E também preciso de descansar um pouco. Mas não muito, que os meus relógios cerebrais já me recordaram que outros desafios estão a aproximar-se dos prazos de necessárias conclusões.

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

Leituras

Who Will Guard The Geeks?: John Naughton sobre o recente romance Flash Boys.  Provoca arrepios pensar em sistemas de inteligência artificial dedicados à especulação no mercado financeiro que operam em milisegundos. Sistemas intencionalmente desenvolvidos como predatórios sem supervisão por comités éticos, como observou David Brin há pouco tempo. Ficção Científica? Não, indústria rentável. Se há coisas chatas com este fluxo de inovação permanente é que mal imaginemos um futuro improvável há alguém que o já o esteja a desenvolver e implementar. E outros a lucrar.

The Long Journey: Arquivar na categoria "coisas fantásticas que se fazem". É uma história de banda desenhada, contada como um infindo scroller que nos mergulha sem parar em níveis cada vez mais profundos. Quer pelo conceito quer pela estética 8bit, este é um webcomic que surpreende.

If all stories were written like science fiction stories: Faz sorrir, até porque é certeiro. Estão cá expostos todos os vícios da FC, desde a narrativa-périplo ao foco nas tecnologias e os infodumps. Mas é mesmo isso o que a torna interessante e intrigante. Nem todas as ficções têm de ser entretenimento ou exposições de estados de alma. O grande valor da FC está neste carácter especulativo com vertentes didácticas e técnicas. Já agora, como seria uma história de ficção científica escrita como literatura mainstream? Mas eu nisto sou suspeito: adoro os momentos em que o autor, através do discurso das personagens, se dirige ao leitor para lhe demonstrar os voos conceptuais dos infodumps.

The Next Arab-Israeli War Will Be Fought with Drones: Bem vindos ao admirável mundo novo da jihad robótica. Não são só estados a investir em frotas de aeronaves semi-autónomas. Grupos terroristas e estados-pária já se aperceberam do potencial militar de uma tecnologia relativamente barata face aos desafios do armamento high tech convencional. E não se ficaram pelas teorizações.

quinta-feira, 10 de Abril de 2014

Dylan Dog, Trash Island; The Celestial Bibendum


Luigi Mignacco, Nicola Mari (2013). Dylan Dog #328: Trash Island. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Sendo personagem icónico Dylan Dog já cativa pela sua aura. Mesmo que as suas aventuras sejam mais fracas se comparadas com os pontos altos da série, o personagem já se solidificou na consciência cultural popular. É o caso deste Trash Island, que se resume a um périplo onde Dylan e outros investigadores do oculto atravessam uma ilha assombrada por zombies, máquinas assassinas e plantas vivas que serve de zona de treinos de artilharia da marinha britânica. Pensando que vão à ilha resgatar pessoas desaparecidas, foram na verdade cooptados por agentes secretos militares que sabem que não têm outra forma de convencer místicos e ocultistas a atar as pontas soltas de uma experiência de militarização do sobrenatural que correu mal. Se bem que esta é uma revelação que só nos é dada, de chapa, no final. É um bocadinho enervante ler algo que se vai arrastando ao longo de dezenas de páginas para acabar resolvido em três ou quatro pranchas. Mas é Dylan Dog, que é sempre um prazer ler, por isso até se desculpam os momentos mais banais.


Nicolas de Crécy (2012). The Celestial Bibendum. Paris: Humanoids.

A espectacularidade do traço de de Crécy dá o lustro a esta série de um profundo weird surreal. A história não é algo que se explique, vivendo de um absurdismo com vertente de crítica política e social em caricatura grotesca das normalidades instituídas, contada através das desventuras de uma foca deslumbrada que atraca nas glórias urbanas da majestosa Nova Iorque-no-Sena. São notórias influências do urbanismo decadente retro-futurista de fin de siècle, dos estilos gráficos de George Grosz e Mattotti e do surrealismo literário de Ligotti e Queneau. O livro é visualmente deslumbrante, estando ao nível do melhor do trabalho de Nicolas de Crécy, mas o carácter bizarro da narrativa é levado a extremos por vezes excessivos.

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

Red Sonja: Queen of Plagues


Gail Simone, Walter Geovani (2014). Red Sonja Volume 1: Queen of Plagues. Mt. Laurel: Dynamite Entertainment.

Nunca imaginaria dar quatro estrelas (valha o que isso valer) a um comic de fantasia épica sexista, baseado num clone banal de Conan com formas voluptuosas para deixar adolescentes babados. Mas o humor seco de Gail Simone, a dar um toque extra a um argumento típico do género, convenceu-me. A argumentista até consegue quebrar o estereótipo da personagem e colocar Red Sonja vestida com roupas mais apropriadas às suas aventuras do que o bikini de cota de aço sobre a pele nua com que costuma ser representada.

Gail Simone atraiu a atenção ao ser despedida da DC por ter sido demasiado explícita na sua abordagem à homossexualidade de Batwoman. Explícita não em termos eróticos, note-se, que isso seria bem tolerado pelos leitores, mas na vertente emocional com uma forte dose de realismo a temperar a ilustração fluída de JH Williams. Os fãs de comics ficaram com um arranque memorável de uma série DC'52 e a Dynamite apressou-se a contratar a argumentista, dando-lhe para as mãos esse outro bastião de iconografia pensada para despertar a baba na boca dos adolescentes que é Red Sonja, clone feminino de Conan criado por Roy Thomas, tomando algumas liberdades com o universo ficcional de Robert E. Howard.

Simone consegue afastar-se da abordagem mais previsível à série. Temos aventuras passadas no ambiente de fantasia bárbara medievalista da série, mas a sublinhar um fortíssimo carácter feminista. A visão fascinante do corpo escultural coberto por um reduzido bikini de cota de malha fica-se mesmo pelas capas. Simone nota o absurdo da armadura e veste a personagem. Nem vale a pena descrever as roupas. Basta escrever que a veste para se perceber que estamos perante um desvio radical do esperado neste género de comics. E ainda a dota de características tipicamente masculinas, como um gosto desmesurado por tascas e oblívio viti-vinícula.

A história mete-se pelos caminhos ínvios das disputas entre reis benévolos e forças malévolas, entre os homens e as criaturas inferiores da era hiboriana. Destaca-se o humor seco com que Simone nos vai contando as aventuras. Basta um comentário espirituoso para nos levar a conhecer situações que outro argumentista espalharia por algumas dezenas de pranchas.

Os homens estão ausentes destas aventuras. Simone extermina-os convenientemente no início, restando a imagem de um rei bondoso e alguns personagens malévolos. É às mulheres que cabe o papel de heroínas, e se Sonja o é por inerência, Simone dá destaque ao crescimento em coragem e decisão de duas jovens desastradas mas bem intencionadas que, contra o que se esperaria, acabam por liderar o seu povo e libertar-se do jugo de forças invasoras.

Com toda esta carga de carácter e vertentes de interpretação, não deixa de ser uma boa história de aventuras de espada e feitiçaria. Uma boa surpresa, pedrada no charco das estereotipias do género.