quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Hail Hydra


Um dos defeitos, ou talvez virtude, dos comics enquanto género é a sua repetição cíclica. Os limites são estreitos, e em títulos com longas histórias de edição boa parte dos leitores não conhece o que está para trás. Num meio em que as origens estão constantemente a ser revistas, recontadas, reformuladas e reinventadas, é fácil perder o fio a uma meada acessível apenas aos fãs mais aguerridos de uma personagem.

A tira reproduzida acima saiu da revista Tales of Suspense #65, editada em maio de 1965 e reproduzida no Captain America Masterworks vol. 1. É uma das histórias originais de Stan Lee e Jack Kirby do Capitão América, escrita nos anos 60, quando a Marvel deixou de lado os títulos de western e romance para se focar nos super-heróis. Nesta, segundo capítulo da origem de Red Skull, vemos o impensável: o símbolo máximo do patriotismo americano a jurar fidelidade ao III Reich.


Soa familiar, não soa? Recentemente, o fandom ficou escandalizado por esta surpresa contida em Steve Rogesr Captain America #01. Novo título da Marvel, dedicado ao seu mais icónico personagem, surpreendeu todos graças a esta vinheta em que o sentinela da liberdade revela a sua lealdade à Hydra, organização que combateu desde sempre. O tom geral do fandom era de desilusão. Será que toda a mitologia do personagem iria ser revelada como falsa, anulando décadas de histórias? Bem, sendo o mundo dos comics o que é, claro que a reposta é mais elaborada e previsível. O Capitão encontra-se sob efeito de um artefacto cósmico cúbico, apropriado por Red Skull para lhe alterar as memórias em mais uma das suas vinganças contra o seu arqui-inimigo, que sabemos, pela própria natureza do género, que falhará redondamente.


Nos anos 60, bastou um gás hipnótico para fazer o serviço do cubo cósmico. Claro que o herói irá recuperar a sua memória a tempo de evitar uma catástrofe, que nesta história seria o assassinato de um comandante aliado para facilitar a vida aos exércitos nazis e desacreditar o Capitão. Nestas histórias, Lee e Kirby utilizaram as aventuras na II Guerra para criar o substrato do personagem que recuperaram da antiga Timely Comics. Curiosamente, uma estratégia similar à que foi desenvolvida no universo cinematográfico que a Marvel tem sabido aproveitar bem. O filme que introduziu a personagem ao cinema desenrolou-se nesta época, terminando com o acordar do personagem nos tempos contemporâneos.


E, por falar em Red Skull e cubos cósmicos... na história He Who Holds The Cosmic Cube, publicada na  Tales of Suspense #80, de julho de 1966, o arqui-inimigo do Capitão apodera-se de um cubo cósmico desenvolvido pelos cientistas da Advanced Idea Mechanics, e prepara-se para dominar o universo. Fica-se com a sensação que ao pegar em Steve Rogers Captain America, o argumentista Nick Spencer fez o seu trabalho de casa, releu as histórias clássicas de Stan Lee e Jack Kirby, e remisturou os seus elementos para chocar um fandom desconhecedor do lado mais arcano dos comics. Os comics vivem muito deste remisturar de material antigo, dando-lhe novas roupagens para se tentarem manter contemporâneos.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy



Filipe Melo, Juan Cavia, Santiago Villa (2016). Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy. Lisboa: Tinta da China.

Nunca me teria apercebido do espanto que se tornou esta série, bem como da pedrada no charco que foi no meio da BD portuguesa, se não pelo Amadora BD. Quando surgiu o primeiro volume, o título não me encantou por aí além. "Dog Mendonça e Pizzaboy? que título ridículo", mais um daqueles livros de BD jocosos, a ironizar os comics de super-heróis. Um pouco à semelhança de Luis Louro e o seu O Corvo, pensei, com um traço interessante mas argumentos a perder a durabilidade naquela piada fácil e ironia simplista que agrada no momento mas não sobrevive à segunda leitora. Vertentes que têm o seu espaço e fãs, mas não são de todo as minhas favoritas.

Foi numa edição do clássico festival, numa exposição dedicada ao segundo volume da série, que me apercebi que talvez estivesse errado nesta minha impressão. O momento de clic deu-se ao ver as espantosas ilustrações de Juan Cavia e Santiago Villa, mostrando visões fabulosas de uma Lisboa reinventada para o visual horror retro deste comic. Arrisquei, e rendi-me. Li, ao contrário do que esperava, uma belíssima e divertida história que, apesar de se aguentar por si, é também uma profunda homenagem ao terror clássico no cinema e literatura.

Esta história de merecido sucesso gerou três álbuns inéditos, e algo que, que eu saiba, é completamente inédito na BD portuguesa: a publicação na Dark Horse Presents, revista antológica editada por uma das maiores editoras de comics norte-americana. Haver ilustradores portugueses a trabalhar para as maiores e mais icónicas editoras de comics já não é, felizmente, novidade. Mas histórias portuguesas editadas nos espaços editoriais de língua inglesa são-no, tanto quanto sei. Este é outro mérito conseguido por Filipe Melo com a sua série. São estes os contos coligidos neste quarto volume da trilogia, trazidos ao público português pela Tinta da China como epílogo merecido.

As histórias publicadas na Dark Horse Presents expandem a história do carismático lobisomem de Tondela. São necessariamente curtas, mas conseguem evidenciar os elementos que tornam Dog Mendonça e Pizzaboy numa merecida série de culto: a sublimação da iconografia do terror clássico, claramente alimentada por uma dieta do argumentista composta por demasiados filmes de série B, e um mundo ficcional original, que parte da influência cinematográfica para se afirmar como universo próprio. Sublinham também a combinação qualitativa que deu o sucesso à série: o argumento de Filipe Melo, o traço realista com toque de cartoon de Juan Cavia e a paleta cuidada de Santiago Villa.

Estas três histórias curtas, encadeadas, constituem uma história de origem do personagem e, por extensão, do seu mundo ficcional. Uma narrativa que é temperada por uma selecção cuidada dos elementos mais esgrouviados do horror clássico: lendas de lobisomens, circos de horrores, nazis com propensão para experiências com o oculto, seres monstruosos mas bondosos que vítimas de perseguições implacáveis. Aqui, sublinho o detalhe das notáveis vinhetas de recorte Myazaki com o périplo dos monstros em fuga. Não surpreende, é mais uma das muitas referências ao cinema que abundam nesta obra. Termina com uma aventura curtíssima a brincar com os mitos do Monstro do Loch Ness, que mostra o equilíbrio entre horror tradicional e bom humor que caracteriza a série.

É interessante notar que os autores têm sabido fugir à tentação de dar continuidade à série. Os fãs gostariam, certamente, e suspeito que os editores também não se importariam, mas sente-se que a série terminou no terceiro volume da trilogia, agora completo com contos. A vontade de ler mais aventuras deste universo ficcional é grande, mas conhece-se o risco de se esgotar e banalizar. A continuidade das colaborações entre Melo e Cavia está assegurada, com o recente lançamento de Os Vampiros.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Comics


Brigg's Land #01: Depois de futurismo proto-contemporâneo apocalíptico, o próximo desafio de Brian Wood são as seitas libertárias extremas, armadas com armamento pesado, balas e bíblias. Com uma vertente de abordagem curiosa: o líder, tipicamente desprezível e carismático, está preso, e é a sua habitualmente submissiva esposa que vai tomar as rédeas ao grupo. Intrigante.


Descender #14: Se é bom ler uma space opera com toques cyberpunk, o que dá valor adicional a esta série de Lemire é o traço solto, aguarelado, de Dustin Nguyen. Toca na estética da FC, sem se perder nos barroquismos a que estamos habituados nestas iconografias.

domingo, 21 de agosto de 2016

Letargia Estival


Castro Verde


Pulo do Lobo


Castro Verde


Cabo Sardão


Vila Nova de Milfontes


Odemira


Mértola


Beja


Cais Palafítico da Carrasqueira


Cais Palafítico da Carrasqueira


Minas de S. Domingos


Pomarão


Vila Real de Santo António


Ayamonte


Castro Verde


Beja


Grândola

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Computador: Universo!


AE Van Vogt (1983). Computador: Universo! Odivelas: Europress.

Uma premissa intrigante, a que agora estamos habituados mas era, na altura, inconcebível. Este livro baseia-se na ideia que um computador poderia dominar um país, gerindo a economia, sendo responsável pela automatização dos transportes, e libertando os humanos da necessidade de trabalhar. No entanto, perde-se numa história confusa e pouco interessante, entre militares com sede de poder, rebeldes com capacidades de mutação corporal, e uma curiosa funcionalidade do mega-computador em captar e registar uma espécie de alma humana, composta por esferas luminosas. Não é Van Vogt no seu melhor.

No entanto, a ideia de um super-computador, capaz de vigilância pervasiva através de uma rede de câmaras e sensores, com circuitos automatizados para gerir toda uma nação, baseada numa mainframe tem o seu quê de singular.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Dicionário de Lugares Imaginários



Alberto Manguel, Gianni Guadalupi (2013). Dicionário de Lugares Imaginários. Lisboa: Tinta da China.

Nesta era em que cada milímetro quadrado do planeta está mapeado com rigor, observado pelo olhar lenticular dos satélites em órbita, cada recanto registado pelas suas coordenadas no espaço abstracto dos meridianos e paralelos, fotografado nos espectros do infravermelho ao ultravioleta, calcorreado por exploradores, aventureiros ou servos de gigantes tecnológicos apostados em digitalizar o planeta, traçado em atlas e mapas pixelizados, precisamos talvez mais do que nunca de espaços desconhecidos, de vazios nos mapas que prometem dragões e ao fazê-lo despertam os voos mais exóticos da imaginação humana. Foi este o meu primeiro pensamento ao folhear este delicioso tomo. Escrevi isto antes de o abrir com olhos de leitor, e só depois li o fantástico prefácio de Manguel, que espelha com precisão esta necessidade de imaginar o desconhecido na era onde as luzes do conhecimento iluminam o mais recôndito, longínquo ou obscuro. Não só, mas também o fascínio pelos voos de imaginação, pelos locais que existem em mapas que mapeiam não a geografia física mas os escolhos e penedos da imaginação sonhadora.

A lista é longa e exaustiva, itemizada de A a Z. Duvido que tenha esgotado as geografias imaginárias da literatura. Não vi por lá referências à FC, tendo os autores ido beber às especulações filosóficas, história antiga, fantástico, fantasia e surrealismo. Depois do longo mergulho nos apontamentos sobre estes mundos, há padrões que se fazem notar. Um é o óbvio encantamento dos autores por uma certa fantasia épica, bem como de alguma fantasia infantil. Richard Adams, Ursula K. LeGuin e Tolkien têm um peso muito elevado nas entradas deste dicionário. Os mundos de Oz e Dr. Doolittle não são tão interessantes quanto o peso que têm neste livro. O outro grande padrão é a evolução conceptual dos mundos de ficção. Apesar do livro não estar ordenado de forma cronológica, nota-se que há uma evolução das geografias imaginárias. Nos textos mais antigos são utilizados como parábola filosófica, utópica, satírica ou religiosa. A tónica está na mensagem que os autores pretendiam inculcar nos seus leitores, e não na coerência dos mundos ficcionais. Um elemento que se altera, com a ficção a explorar estas geografias do imaginário apenas pelo prazer de criar novos mundos, algo que caracteriza a fantasia de hoje.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Comics


Providence #10: Metodicamente, Alan Moore começa a ligar as pontas e a mostrar-nos a sua visão dos mythos lovecraftianos. E se, pergunta-nos através deste diálogo, Lovecraft não tivesse imaginado as suas criações, mas sido escolhido como mensageiro de forças para lá da nossa compreensão, que entram no nosso mundo, se alojam na mente sob a cobertura de inócuos sonhos de literatura pulp? Digamos que o enciclopédico argumentista conseguiu unificar os diferentes contos de Lovecraft, bem como a biografia do autor, e as ramificações que o antecedem e sucedem em Robert Chambers, Ambrose Bierce e Robert Bloch numa continuidade lógica que faz justiça à paranóia discreta do horror lovecraftiano. Moore é um velho mestre. Tem construído este Providence com método e discrição, evitando momentos de elevado horror, com tudo a apontar para um final apocalíptico, apropriado aos mythos.


War Stories #19: Esta mistura de ficção com realismo histórico que Garth Ennis tem vindo a desevolver nesta série resulta num trabalho excelente. War Stories, apesar do tema, não é militarista, revisionista, incitador a emoções marciais nostálgics ou focado na guerra como aventura juvenil. Os seus episódios ficcionais baseiam-se num óbvio trabalho de pesquisa profunda, que retratam momentos das guerras que marcaram o século XX. Desta vez, o argumentista vira-se para os primeiros defensores britânicos dos céus nocturnos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Bill, The Galactic Hero



Harry Harrison (1976). Bill, The Galactic Hero. Hammondsworth: Penguin.

A ficção científica é assunto sério, certo? Especulação futurista, minuciosos mundos ficcionais, aventuras audaciosas. O humor não tem lugar no meio de tanta coisa que deve ser levada a sério. Claro, pode haver por aí alguns livros mais a apostar nas piadas do que na essência do género, mas nunca farão parte do seu cânone. Se pensarem assim, peguem neste clássico de prosa satírica sem rédeas nem travões, a demolir com gosto os princípios mais comuns da FC, que mostra como utilizar o género para crítica social corrosiva, e auto-crítica bem humorada que expõe os vícios de forma e pressupostos culturais que lhe estão subjacentes.

Li algures en passant que Harrison começa por destruir o militarismo de Heinlein e depois desmantela as utopias de Asimov. É, de facto, uma descrição que assenta como uma luva a este livro, que também não tem medo de ironizar com os chavões da ficção de terror ou a grandiosidade da space opera. As desventuras de Bill, um camponês proveniente de um planeta provinciano que se vê induzido a prestar serviço nas gloriosas forças do império são uma sátira destravada à importância inflada de valor militar, sentido de dever e patriotismo que caracteriza a FC militarista. As tropes habituais - a recruta, os laços de companheirismo forjados no combate, o valor e heroísmo nas batalhas, são implacavelmente satirizados e ridicularizados. O que se segue não é melhor. Bill vai-se descobrir no centro do império, uma cidade-planeta reluzente de falso metal, que sob a sua gloriosa aparência oculta caos urbanístico, infantilidade política, burocracia infernal e formas absurdas de gerir o ingerível. Claramente, o oposto aos Trantor e Coruscant que brilham no centro dos impérios galácticos da FC. A guerra é interminável, e existe porque o Império tem de lutar uma guerra, não porque a espécie antagónica de pequenos lagartos inteligentes seja especialmente aguerrida ou ameaçadora. É toda uma máquina ferrugenta, a pingar óleo e a desmanchar-se em peças, que se mantém em movimento para se justificar a si própria.

Só me recordo de ter lido outro livro que ridiculariza de forma tão certeira o militarismo ficcional. Ao contrário do Valente Soldado Chvek (outra história de um camponês simples que se vê de uniforme nas trincheiras da I guerra, acompanhando a derrocada do Império Austro-Húngaro), aqui mais do que a exaltação de sentimentos patrióticos ao serviço da visão de grandeza de elites está  em evidência. É também toda uma sátira à FC como género, às suas estruturas narrativas, conceitos, temas e tipos de prosa.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A Oeste do Éden


Harry Harrison (2005). A Oeste do Éden. Lisboa: Gradiva.

Uma das marcas da má ficção científica é o tipo de história em que homens primitivos, boa parte deles com a fisionomia de actrizes blonde bombshell de filmes de série B, coexiste com dinossauros. A menos, claro, que estejamos a falar de histórias de viagem no tempo. Recordo-me de pelo menos uma, excepcional, de Ray Brabdury, onde a coexistência de homens e dinossauros em caçadas temporais vai provocar subtis mas determinadas alterações ao fluxo da história humana.  Mas estou a divagar.

Todo o mundo ficcional de A Oeste do Éden parte de uma curiosa questão. "E se", pergunta-se Harry Harrison, não tivesse ocorrido o impacto do asteróide apontado como causa para a extinção dos dinossauros? Sem os desequilíbrios ecológicos trazidos pelo impacto, teriam estas criaturas evoluído até adquirirem inteligência, desenvolvido uma sociedade de base tecnológica? E teria sido possível aos mamíferos iniciarem o processo de evolução que deu origem à humanidade? Neste intrigante romance, as respostas a estas questões são positivas. O resultado é um fantástico voo especulativo, que coloca duas civilizações visceralmente antagónicas em contacto.

Este livro não se aguentaria senão pelo fortíssimo detalhar das suas premissas. A construção do mundo ficcional assenta em bases especulativas sólidas e num meticuloso pormenorizar dos seus elementos. Harrison imaginou civilizações plausíveis, mas suficientemente estranhas para mostrar que o mundo não evoluiu como o conhecemos.

Toda a civilização sáuria é um espantoso voo de imaginação, assente no explorar de possibilidades científicas. Harrison cria uma sociedade avançada, apesar de fortemente estratificada e assente no respeito incondicional pela vontade dos superiores. Elementos advindos dos condicionamentos biológicos de uma espécie matriarcal, que nasce para o mar, e que não é uniforme no desenvolvimento dos indivíduos. Poucos são capazes de atingir as competências intelectuais superiores, caracterizadas pelo desenvolvimento de um sistema de linguagem complexo que mistura vocalizações e postura corporal. A sociedade tem uma base científica curiosa, assente na capacidade de manipulação genética de organismos. Os seus utensílios, veículos e equipamentos são animais cuja evolução foi manipulada para se tornarem objectos tecnológicos. Organizam-se em cidades bio-construídas, manipulando a natureza para se organizar em espaços arquitectónicos.

O desenvolvimento da espécie espelha e condiciona o dos indivíduos. Após nascerem, as criaturas desenvolvem-se naturalmente nos oceanos, sem sistemas formais de treino, gerando com isso laços fortíssimos entre ninhadas e assimetrias de desenvolvimento. Na base da pirâmide social ficam aquelas que não são capazes de desenvolver as capacidades linguísticas, com uma sucessiva estratificação onde a inteligência depende da linguagem. Os machos são considerados seres inferiores, meros cuidadores dos ovos das futuras crias. Harrison imagina esta intrigante civilização a espalhar-se pelos continentes, colonizando-os com a expansão das suas cidades. Uma expansão que está a atingir os seus limites, tornados mais estreitos pelo avizinhar de uma era glaciar, que provoca o caos numa civilização de criaturas que não suportam o frio.

A necessidade de expansão para sobrevivência em climas quentes vai colocar estes saurópodes inteligentes em contacto com outra civilização. Desenvolvendo-se num continente isolado, os mamíferos irão gerar uma espécie humanóide inteligente. Esta também está a desenvolver civilizações. Harrison cria os primeiros contactos com tribos nómadas de caçadores-recolectores. O choque entre civilizações de seres antagónicos dará o mote a este livro fascinante.

De certa forma, este é um romance-périplo, em que as peripécias em que o personagem principal se vê envolvido são as maneiras do autor pegar na mão do leitor e levá-lo a descobrir os seus mundos ficcionais. Primeiro na avançada mas homogénea civilização saurópode, depois a humanóide, com os seus vários estádios civilizacionais, entre caçadores-recolectores nómadas e incipientes civilizações agrárias. O conflito é inevitável. Apesar de inteligentes, ambos os seres partilham sensações de revulsão. O impulso é forte, primitivo, de nojo profundo perante o estranho. Ambos se vêem como pouco mais do que animais. Algo especialmente sublinhado no lado sáurio, onde raros são aqueles que não recusam ver os proto-humanos como algo mais do que animais selvagens, apesar dos óbvios sinais de inteligência.

Civilizações antagónicas em choque, num mundo primitivo que nunca existiu. A partir de questões bem formuladas, Harry Harrison construiu um mundo sólido e intrigante, palco de conflitos em que somos mergulhados acompanhando um jovem humano que, capturado por saurópodes, aprende a sua língua e civilização, mas tornar-se-á o seu inimigo mais mortal. Uma leitura surpreendente, de um nome clássico mas algo esquecido da Ficção Científica.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Colecção Barbante (II)



A Colecção Barbante, da Imaginauta, continua a sua aposta nas novas vozes do fantástico em português. Quatro novos contos, editados no seu formato singular, a mostrar que apesar das dificuldades de um nicho reduzido ainda há quem se atreva a criar nestes domínios. Aguardamos os próximos.

Algures em 2045, Fábio Carvalho - um pequeno toque de distopia, num futuro próximo onde as ameaças terroristas são utilizadas como ferramenta de controlo social e são tão prevalentes que têm previsões diárias como a meteorologia. Tem também um curioso sub-texto de crítica à corporatização do mundo contemporâneo, com as culturas reduzidas a segmentos de mercado.

Danças, Júlia Pinheiro - mais exercício de estilo onírico do que narrativa linear, intriga pela iconografia mental que desperta, num misto entre o simbolismo de Redon e o expressionismo de Ensor. Este conto literário tem uma linguagem eminentemente plástica, lê-se como um quadro.

A Verdade, Sérgio Santos - um toque de bom cyberpunk, num conto onde um andróide superior descobre ser manipulado pelo mesmo tipo de ilusões que afectam máquinas inferiores. Há aqui um toque baudrillardiano de realidade ilusória , construída pela mente através de sensores manipulados para ofuscar a realidade real.

Verum, Mário de Seabra Coelho - um conto mais interessante pelo que deixa intuir do que pela narrativa. O seu mundo futuro, claramente pós-apocalíptico, dominado pela religião de recorte islâmico, controlado por um ser que usa a religião para manter o seu domínio mas dependendo da ciência para assegurar longevidade, é muito intrigante.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

A Pencil


Neil Gershenfeld a sublinhar a importância do desenho com forma primária para esquematizar ideias, perceber objectos, iniciar processos de materialização de ideias que podem ser concluídos com as maquinações mais avançadas:
The most affordable, and in many ways versatile, engineering design tool costs around ten cents: a pencil. This often underrated instrument has a number of desirable features. Its user interface is easy to understand, the response to commands is immediate, it's portable, and it creates high-resolution images.
Neil Gershenfeld (2005). FAB: The Coming Revolution on Your Desktop–from Personal Computers to Personal Fabrication. Nova Iorque: Basic Books.

The Ring: O Aviso


Koji Suzuki (2005). The Ring: O Aviso. Porto: Civilização Editora.

Recordo ter sido apanhado de surpresa quando vi o filme baseado nesta série de livros. O japonês original, entenda-se, não a versão edulcorada para agradar às audiências generalistas. Intrigou a figura arrepiante do monstro, Sadako, a misturar sensualidade com grotesco, inesquecível no poder daquele olho arregalado no meio do farto cabelo. Surpreendeu o conceito de horror, onde não há um acto de redenção que liberte as criaturas da maldição a que estão sujeitas. É um dos factores que define a tradição europeia do terror, a redenção que liberta o destino a que estão condenadas as assombrações. Quer seja por exorcismo, vingança, perdão ou repouso. Este elemento está ausente desta série, onde o tradicional exercício de busca pelo elemento redentor que irá salvar aqueles que estão assombrados pela criatura é inútil.

É uma característica que percebi ser inerente ao horror japonês, daquilo que vou conhecendo do género. O trabalho em mangá de Junji Ito é similar, com maldições ou criaturas que perpetuam o seu terror e violência, num ciclo imparável. Diria que também é uma boa forma de alimentar longas séries literárias, mangá ou cinema, sem ter de recorrer a artifícios para manter a premissa de base.

O filme, por necessidade da linguagem cinematográfica, é conciso no horror e forte na estética. Já o livro em que se baseia segue o caminho oposto, com uma deliberada estética de banalidade suburbana contraposta ao horror inominável de Sadako. A prosa oscila entre o ambiental e a narrativa acelerada. O pormenor da assombração depender de uma cassete de vídeo torna-o datado, colocando-o num tempo específico, mas sem que com isso a história perca força. Se no filme a salvação daqueles que visionam a cassete amaldiçoada que liberta Sadako está no levar outros a ver as cenas assombrosas gravadas em vídeo, o livro leva muito mais longe esta ideia. Sem redenções, o objectivo do monstro é propagar-se, mantendo o ciclo sobrenatural. Liberta aqueles que funcionam como vector de infecção viral, e elimina quem não é capaz de a transmitir. Esta vertente, intuída no filme, torna-se o foco final de um livro que, pegando nos estereótipos clássicos da literaturas de terror, troca as voltas ao leitor com a inevitabilidade do mal que assombra as personagens.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Comics


2000AD #1992: Note-se que este é um comic britânico editado nas semanas pós-brexit. O tom é irónico, claro, e percebe-se que nesta terceira iteração de Scarlet Traces Edginton e D'Israeli vão escolher um ser considerado de terceira como herói. O tom apelativo à xenofobia, ao rejeitar da contemporaneidade em nome do regresso de um pretenso passado mais simples, é muito bem ironizado pelos autores nesta sequência de vinhetas.


Kill of be Killed #01: Ed Brubaker e Sean Phillips regressam aos terrenos do fantástico. Revêem a clássica história do vigilante que, armado de razão absoluta, punhos e armas de fogo, vai eliminar com extremo prejuízo aqueles que considera indignos e merecedores da sua justiça. O que é que isto tem a ver com fantástico? Anda um demónio a incentivar o herói a exterminar pessoas más.

 

Trees #14: Apenas isto. Tom de apocalipse com drones. Warren Ellis a distorcer a modernidade daquela forma inesperada que é tão a sua marca.


Unfollow #10: Como muitas outras da Vertigo, esta série é mais morna do que a sua premissa promete. No entanto, com o seu foco nas redes sociais, de quando em vez acerta uma. Como nesta: "what's the point of doing something unless you can tell the whole world?" É a emoção que a cultura de partilha digital social nos trouxe.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Dentes Afiados


É silly season, eu sei. Mas a ViraLatas surripiou-me esta foto da Alice e quando dei por mim, percebi que está a ser apreciada por um número apreciável de fãs da página. Não consigo deixar de pensar que se tivesse uns cêntimos por gosto, poderia comprar muitos ossinhos, bolinhas e outros brinquedos que os dentes afiados da cadela estraçalham em poucos minutos.

Aventuras Extraordinárias de Kiá, o Rei dos Repórteres



Reinaldo Ferreira (2007). Aventuras Extraordinárias de Kiá, o Rei dos Repórteres. Carnaxide: Livros do Brasil.

Suponho que para os fãs de literatura policial a vida e obra mirabolantes de Reinaldo Ferreira não sejam de todo desconhecidas. Sendo eu mais amante de foguetões e rayguns do que crimes e castigos, tinha uma ténue ideia de quem era o lendário Repórter X. Este livro pareceu-me uma boa oportunidade de descobrir a sua prosa. Não desilude. É escrita a metro, sem preocupações estilísticas ou literárias, focalizada apenas no despertar de sensações no leitor. As aventuras são sempre histórias de espanto, estruturadas de formas que roçam a incoerência. Percebe-se na personagem do repórter anónimo, conhecido como Kiá porque ao começar a carreira importunava as redacções perguntando o que há de notícias a dar, uma certa projecção de um escritor e jornalista que, convenhamos, não ficou famoso pela isenção e veracidade das suas reportagens. Esta pequena antologia é uma boa forma de ficar a conhecer um clássico da literatura policial pulp portuguesa. Nota de leitura: as histórias passam-se na Lisboa dos inícios do século XX, entre os anos 20 e 30. É uma temporalidade a ter em conta na leitura.

O Homem dos Três Braços: uma aventura mirabolante, em que o repórter anónimo desmascara um agente soviético que leva, oculto dentro de malas, um general russo raptado para os quartos luxuosos do hotel lisboeta Avenida Palace. O lendário agente soviético tem um braço mecânico que lhe confere uma força sobre-humana e sequazes apropriadamente violentos, mas nada detém o engenho do repórter, apostado em ajudar a bela filha do general e conseguir manchetes para o jornal onde trabalha.

Os Cinco Cadáveres do Doutor Máximo: um jovem funcionário do ministério vê-se embrulhado numa misteriosa trama, ao chegar a casa e encontrar o que parece ser o cadáver de uma mulher com que esteve envolvido no passado. O cadáver desaparece, deixando rastos de cera, e a trama adensa-se quando o funcionário é preso e acusado de roubar segredos de estado. Felizmente, o repórter Kiá é seu amigo de infância, e coloca os seus poderes dedutivos a trabalhar no mistério. Não lhe é difícil desmascarar o espião francês Dr. Máximo, especialista em bonecos de cera que, com a sua atraente companheira, envolvem incautos funcionários em ardis para roubo de informações secretas que vendem ao melhor preço.

A Mulher Águia: os amores malquistos entre um príncipe sérvio e uma bailarina francesa levam-nos a refugiar-se em Lisboa, onde Kiá os ajudará a derrotar uma conspiração que visa obrigar o príncipe a regressar à Sérvia, forçado pelo rapto do filho do casal.

A Regra de X em Vermelho: duas mulheres mortas de forma violenta, uma num tasco perdido das ruelas de alfama, outra nos quartos requintados do Avenida Palace. Haverá ligação? Kiá consegue descobri-la, ligando os seus amantes, comparsas de crime internacional, curiosos companheiros de ilícito, em que um é um vulgar ladrão do povo, e outro um requintado senhor.

Um Romancista e um Fantasma: a encerrar a antologia, aquele que é o conto mais surpreendente, e mais interessante do ponto de vista literário. Contado sob o olhar do próprio romancista, dissolvendo as fronteiras entre o escritor/narrador e a sua personagem. O mistério prende-se com o sentimento de solidão ao terminar a escrita de mais um romance, e a suspeita que alguém lhe está a mexer nas notas e apontamentos. Está, de facto, alguém, um homem cuja mulher que ama adora os romances do escritor, e que numa noite escura o ameaça, querendo influenciar o enredo do último romance para que a mulher se sinta segura em escolhê-lo como marido. Conto entre o policial e o surreal, similar a Misery de Stephen King, que antecede em décadas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

The Red Virgin and the Vision of Utopia


Mary Talbot, Bryan Talbot (2016).  The Red Virgin and the Vision of Utopia. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Há uma ironia amarga neste livro, lido e escrito num início de novo século onde a utopia é vista com desconfiança. Os sonhos de mudança social radical que dominaram o século XX deixaram um legado de ruína, guera ou desvio do progressismo para reforço do poder de elites.  Tememos conceber mundos melhores,  quando o fazemos somos logo recordados dos falhanços das utopias que nascidas no século XIX moldaram o XX.

Mary Talbot dá-nos a conhecer Louise Michel, figura destacada do feminismo e das lutas por direitos sociais,  sobrevivente da Comuna de Paris. Somos mergulhados no idealismo esmagado a canhão e bota cardada de uma primeira experiência de construção de um mundo diferente,  equalitário. A elegia da vida desta mulher notável recorda-nos os enormes sacrifícios feitos por gente comum que ousou desafiar governos e instituições, legando-nos progressos sociais que se tornaram norma no mundo em que vivemos. É uma história de luta amarga, de idealismo imparável mesmo pela bala, de prisão,  degredo e regresso a uma Paris aburguesada sem perder a vontade de lutar.

É,  também,  uma profunda homenagem à ficção científica da viragem de século,  ao seu lado utópico de construtor de mundos imaginários que ousaram sonhar com progressos sociais e científicos. A história de Louise é-nos contada em conversa entre a filha de uma amiga íntima da personalidade e Caroline Gilman, escritora feminista americana da viragem de século que utilizava a FC para explorar visões do mundo em que a mulher tinha plenos direitos. Herland, uma variante das histórias de mundos esquecidos, onde um grupo de exploradores descobre uma civilização avançada de mulheres no planalto amazónico, é a sua obra mais marcante.

O conceito de FC como libertadora do imaginário ao serviço do progresso social está muito em evidência ao longo desta história biográfica onde Wells, Verne e Shelley são figuras que modelam o pensamento das personagens,  entre as quais se encontra Albert Robida. Um livro surpreendente, que leva o leitor a reflectir sobre as agruras do progressismo,  tornado mais saboroso pela sua homenagem aos primórdios da ficção científica.