quinta-feira, 21 de junho de 2018

Martin Mystère: O Destino da Atlântida


Alfredo Castelli, et al (2018). Coleção Bonelli #07 Martin Mystère: O Destino da Atlântida. Lisboa: Levoir.

Apesar de não o ser, Martin Mystère lê-se como o tipo de banda desenhada de aventuras típica dos anos 40 a 60. Personagens focados com os seus acólitos., mistérios que misturam misticismo, arqueologia, história e conspirações. O sentimento de um tipo de aventura vindo de um outro tempo é muito forte ao ler esta personagem. A própria estrutura narrativa, sóbria, entre  o infodump e uma acção bastante tranquila, parece ter mais a ver com os clássicos franco-belgas do que com a BD contemporânea. Martin Mystère tem um ar tão clássico, que parece datado.

Nesta aventura que o introduz ao público português, o desaparecimento de um satélite militar ao largo dos Açores vai despoletar uma aventura de contornos inacreditáveis. Enquanto os militares americanos se afadigam para estudar os artefatos milenares atlantes ocultos sob os mares açoreanos que ainda poderão estar ativos, Mystère é atraído por um chamamento místico para o local, e acabará por ser transportado para o passado, para os tempos da Atlântida, onde se reunirá com um seu antigo inimigo com o qual terá de tomar uma decisão que poderá alterar o rumo da história humana. Num pormenor desanimador, o fantástico mundo atlante é em tudo parecido com uma das nossas megalópoles contemporâneas na Ásia.

A segunda história coligida neste volume da Levoir, Assunto de Família, é uma divertida vinheta sobre alienígenas e videocassettes (para os leitores mais contemporâneos, as precursoras dos vídeos no YouTube). A história é curta, mas somos constantemente levados em direções inesperadas, numa aventura cerebral sobre um vídeo que mostra uma incursão extraterrestre na Terra e, décadas depois, um descendente dos alienígenas incursores, uma espécie similar a formigas gigantes que assenta a sua civilização numa visão extrema de boa educação (ser indelicado é motivo para execução) que vem à Terra procurar esse vídeo, não para ocultar provas ou servir de registo histórico, mas porque é a última imagem que tem do seu avô. História esplendorosamente desenhada por Sergio Toppi.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

FabLab BootCamp no Lab Aberto


Irá decorrer de 12 a 15 de julho 2018, no espaço do LAB CENTER, em Torres Vedras, o XII BOOTCAMP FAB LAB, evento que reúne a comunidade de fablabs nacional. O Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro, em Mafra, é um dos parceiros na vertente educação do XII FabLab Bootcamp.

 Este ano, para além das partilhas de experiências da comunidade de utilizadores, o BootCamp contará com uma forte vertente pedagógica. Com o tema "Como Criar uma Escola a partir de um FabLab", desafiamos professores de todos os níveis de ensino a participar numa ação de formação com workshops de introdução a impressão 3D, robótica, programação e outras tecnologias, bem como partilhar experiências com Liz Whitewoolf, diretora do FabLab do Carnegie Science Center, Pittsburg, EUA, e Miquel Carreras, coordenador do FAB LAB do Liceu Politecnic de Barcelona.



Este evento é organizado pelo Associação LAB ABERTO FAB LAB, com apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras, Embaixada dos Estados Unidos da América, ISCTE-IUL, Instituto Politécnico de Leiria e Centro de Formação de Escolas de Torres Vedras e Lourinhã, Associação Nacional de FAB LABs, bem como associações de professores, escolas, fablabs e empresas. O programa está disponível em http://lababerto.pt/ e no site https://bootcamp2018.wordpress.com/.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Report On Probability A


Brian Aldiss (1977). Report On Probability A. Londres: Sphere Books.

Num gabinete, dois agentes lêem um relatório de espiões sobre a vigilância de uma casa. Num escritório, dois homens observam os agentes que lêem o relatório, enquanto são observados por terceiros. E. provavelmente, este encadeamento de observadores não termina aqui. Este não é um romance sobre voyeurismo, embora a constante sensação de observação e o listar exaustivo dos itens que compõem os espaços vigiados possa dar essa ideia. São mundos paralelos que se tocam, secção de possíveis sequências infindas de realidade. A multiplicidade de universos e realidades paralelas são o grande tem deste romance muito experimental de Aldiss.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Comics


Mister Miracle #09: Há que admirar o rigor dos argumentos de Tom King, a forma como espartilha as suas histórias em enquadramentos rígidos. Deve ser daqueles argumentistas que define tudo aquilo que a equipe gráfica tem de fazer, sem lhes dar espaço de manobra. Para além destes aspetos formais, o trabalho que desenvolve nesta série tem um toque adicional, na forma como intersecta o banal com o extraordinário, o portentoso com o humor.


Thor #01: Portanto, deixem-me ver se percebi. A Thor deixou de o ser, para conseguir tratar o cancro que corrói a sua forma humana, mas O Thor continua indigno de usar o seu martelo, regressando apenas como um personagem menos poderoso, enquanto os mundos de Asgard são consumidos pela guerra, e os asgardianos são refugiados na Terra? Pronto, ok, continuidades dos comics, têm a sua lógica muito própria. O notável neste novo título é dar-nos um futuro Thor, deus de uma Terra recriada no final dos tempos, e que terá de enfrentar uma última iteração da força fénix, desta vez encarnada em Wolverine. Essa, ninguém estava à espera. É de notar que se a fórmula Old Man Logan pegou, este personagem segue-a naquilo que pode ser descrito como um Old Man Thor.

domingo, 17 de junho de 2018

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A Gorgeous Guide to the First Wave of Personal Computers: Em reação a um anúncio da Apple que afirmava que o iPad definia o conceito de computador, um fotógrafo atirou-se aos arquivos dos museus de informática e computação para nos mostrar antigas visões do que é um computador. O fator retrocomputação reina nesta série de imagens.


Three Visions of Human Space Settlement: 1970s How NASA Imagined Life in Space: Ah, aqueles sonhos de utopias bucólicas encerradas em enormes O'Neills ou Esferas de Bernal em órbita. Estas imagens clássicas são bem conhecidas, mas é raro estarem disponíveis em alta resolução. Uma verdadeira celebração de um futuro que nunca aconteceu.

Some Simpson jokes that go over kids' heads: Bem acima. Algumas são mesmo muito malandras.


The Art Of Sci-Fi Book Covers: Dos anos 50 aos 70, o surrealismo inerente à Ficção Científica não escapou aos ilustradores, designers e diretores artísticos das editoras, que nos legaram uma espantosa iconografia visual.Por cá não foi exceção, como se nota nas capas da lendária coleção Argonauta. As capas arrojadas e provocadoras desses tempos foram hoje substituídas por um estilo mais convencional, menos interessante, feito de hiper-realismo digital.


Journey of a Single Line: Uma intrigante obsessão, de um arquiteto que explorou as combinações possíveis de desenho de padrões labirínticos formados por uma linha contínua.

How Superheroes Made Movie Stars Expendable: os universos cinematográficos da Marvel e Disney (Star Wars) como forma de sinalizar uma evolução no cinema de massas. Passámos do star system ao cinema de autor, em seguida vieram os blockbusters, agora o que dá cartas é o anonimato episódico de filmes que se espraiam em inúmeras sequelas, onde o que atrai os espectadores não é a história, personagens ou cinematografia, mas o mundo ficcional onde se desenrolam.


COMMODITY CITY from Jessica Kingdon on Vimeo.

Commodity City: Entre o horror vacui e o humanismo tocante, um retrato do maior mercado chinês de bens de consumo, onde as fábricas colocam mostruários dos seus produtos. Humanos aborrecidos de tédio, perdidos entre paisagens repletas dos mais banais bens de consumo.

How Autonomous Cars See The World: Entre sensores e implementações de inteligência artificial, uma listagem das tecnologias que se conjugam para permitir a um carro autónomo ver e interagir com o mundo que o rodeia.

When is fake ‘even better than the real thing’?:  O que é "falso"? Esta exposição intrigante cruza duas variantes, o mimetismo dos organismos e a artificialidade das criações.

To Build Truly Intelligent Machines, Teach Them Cause and Effect: A recordar que os progressos estrondosos nos domínios da inteligência artificial não são uma explosão de verdadeira inteligência, antes um aprofundar de técnicas sofisticadas: "All the machine-learning work that we see today is conducted in diagnostic mode — say, labeling objects as “cat” or “tiger.” They don’t care about intervention; they just want to recognize an object and to predict how it’s going to evolve in time.

I felt an apostate when I developed powerful tools for prediction and diagnosis knowing already that this is merely the tip of human intelligence. If we want machines to reason about interventions (“What if we ban cigarettes?”) and introspection (“What if I had finished high school?”), we must invoke causal models. Associations are not enough — and this is a mathematical fact, not opinion."

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O Diabinho da Mão Furada


António José da Silva (2010). O Diabinho da Mão Furada. Lisboa: Guerra e Paz.

Um soldado regressado de serviço na Flandres faz um amigo indesejável: um demónio que, por razões desconhecidas, se torna seu amigo. Não desiste de o desencaminhar, até porque é esse o papel do diabo, mas não se irrita quando as suas maquinações não surtem efeito no virtuoso soldado. As promessas de riqueza não o afetam, as ofertas de luxúria não o tentam, e o soldado acabará por tomar-se de hábito fradesco. Pelo caminho, o diabinho simpático vai mostrando ao soldado como tira partido das fraquezas humanas, e mostra-lhes visões moralistas do inferno e dos pecados.

Misto de comédia e peça moral, esta divertida obra clássica do dramaturgo António José da Silva, com o cognome de O Judeu, é no fundo uma profunda lição de moral e bons costumes. Escrita em 1700, traduz a tradição cultural cristã numa aventura com requintes de bom humor e um toque de fantástico.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Tex: A Pista dos Fora-da-Lei



Mauro Boselli, et al (2018). Coleção Bonelli #06 Tex: A Pista dos Fora-da-Lei. Lisboa: Levoir.

Sendo a mais popular das personagens Bonelli, com uma forte comunidade de fãs por cá, não surpreende que a Levoir esteja a dar um especial destaque a Tex. Algo deprimente, para aqueles que não são especialmente amantes do western. Nota: escrevo isto não por desdém, apenas por falta de afinidade com o género, e não é um comentário depreciativo à qualidade da série. Pelo contrário, a leitura das histórias selecionadas para esta coleção mostram um elevado nível de qualidade gráfica e narrativa. Algo especialmente patente na primeira aventura deste volume.

Os gostos de género têm o seu quê de geracional. Recordo ler alguns romances populares da viragem do século XIX para o XX, o chamado romance de capa e espada, editados em coleções acessíveis, literatura de um género  que fez palpitar os corações dos nossos avós, do pulp ao cinema, e que hoje desapareceu por completo. A geração que apreciava os feitos dos espadachins extinguiu-se. Associo muito o western, com aquelas visões libertárias do velho oeste, à geração dos meus pais. Suspeito que quando essa geração se for, o western decairá por completo. Na literatura pulp e nos comics já se foi, no cinema tem breves lampejos. Também poderia fazer um paralelo com as ficções de aventura nos mares ou aventuras de pirataria, outros géneros que deleitaram leitores e encheram páginas, hoje ausentes do panorama literário. Não é um bom augúrio, pensando como fã de ficção científica. Nisto, o sucesso de Tex é um curioso anacronismo, ou talvez o canto de cisne de um género que nos legou ícones da cultura popular.

Se não forem fãs de Western, A Pista dos Fora-da-Lei é a aventura perfeita para se ler. O argumento de Mauro Boselli desenrola-se como um filme passado no velho oeste, com um fortíssimo dinamismo e um ritmo implacável. O trabalho gráfico de Carlos Gomez sublinha bem a intensidade da história. Um argumento que, dentro dos limites de um género popular, tem uma multilinearidade bem estabelecida, que conflui num confronto inevitável de linhas narrativas com um final inesperado. Tex e os seus companheiros dão caça a um bando de ladrões, no mesmo território onde um bando de apaches enraivecidos estão à solta. No centro da acção está uma cidadezinha mineira, alvo potencial dos ladrões para mais um assalto, desculpa perfeita para uma atrocidade vingativa dos índios rebeldes, e cujos habitantes se mostrarão mais corajosos do que o esperado. A história conta-se em múltiplos pontos de vista, não se centra na progressão linear de um personagem.

O Assassino de Índios, a segunda história coligida nesta edição, segue uma estrutura narrativa mais clássica, com os heróis a desvendar o mistério de um assassino em série de índios, que leva consigo os seus escalpes. As pistas levam-nos a uma cidade isolada, quase esquecida, onde irão descobrir quer o culpado das mortes, quer o segredo escondido pelos homens mais importantes da cidade. Narrativa linear, muito procedimental, com os obrigatórios cowboys violentos a soldo e uma história trágica do passado a motivar os crimes do presente.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Comics


Man of Steel #02: Num único painel, os dilemas do jornalismo tradicional hoje, forçado a sobreviver num ecossistema de imediatismos, recorrendo ao clickbait, sensacionalismo  e jornalismo amarelo como norma de atuação.


Shipwreck #06: Um final enigmático para a estranha série de Warren Ellis sobre mundos paralelos e estéticas de colapso sistémico.

domingo, 10 de junho de 2018

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265 MattesThat You Probably Never Saw: O Matte Shot raramente publica, mas quando o faz, é um dilúvio de delícias visuais. Todo o site é um tributo à pintura de imagens para cinema, e é sempre surpreendente ver imagens que no cinema pareciam completamente reais, mas que foram criadas com o trabalho meticuloso dos pintores de cenários.

Old memories, accidentally trapped in amber by our digital devices: Mensagens esquecidas, registos de login em redes que nos recordam de locais por onde viajamos. Indícios vestigiais, a versão moderna dos bilhetes de comboio ou de cinema que deixamos dentro dos livros, para mais tarde sermos surpreendidos com recordações.

How the Enlightenment Ends: Um ensaio muito pertinente de Henry Kissinger. Pensando no real papel deste homem na história do século XX, pensei que seria um resmungo conservador e retrógrado, mas na verdade  é um ponto de vista desafiador, intensamente humanista: "Heretofore confined to specific fields of activity, AI research now seeks to bring about a “generally intelligent” AI capable of executing tasks in multiple fields. A growing percentage of human activity will, within a measurable time period, be driven by AI algorithms. But these algorithms, being mathematical interpretations of observed data, do not explain the underlying reality that produces them. Paradoxically, as the world becomes more transparent, it will also become increasingly mysterious. What will distinguish that new world from the one we have known? How will we live in it? How will we manage AI, improve it, or at the very least prevent it from doing harm, culminating in the most ominous concern: that AI, by mastering certain competencies more rapidly and definitively than humans, could over time diminish human competence and the human condition itself as it turns it into data."

AI Made These Paintings: Antes de começar a antever a morte da criatividade humana, convém sublinhar que em termos estéticos, tudo o que estas IAs conseguem é repetir técnicas e estéticas já existentes. São derivativas, e não criam nada que seja realmente novo. Aplicam estética e técnicas como algoritmos, mas falta-lhe a intuição, a faísca que tem feito evoluir a cultura visual. Ter uma IA capaz de repetir a iconografia de pintores do século XIX é intrigante, não preocupante.



The Iridescent History of Light: uma belíssima infografia da Atlantic, que traça a história da luz artificial do fogo pré-histórico aos lasers de hidrogénio.



This Camera Turning Into George Lucas Will Haunt Me Until I Die: Morphing, vindo diretamente dos anos 80, com resultados arrepiantes.

The Surface of a Terrestrial Sea: Da série visões de um futuro distópico típico do antropoceno. Regiões cujo solo cede, como um oceano de geologia, por causa do efeito de décadas de prospeção petrolífera e mineira, que deixaram vestígios abandonados que fragilizam o subsolo.

How Tolkien became the man who made Middle-earth: Confesso não ser grande fã de Tolkien, mas admiro-lhe a visão, persistência, e a forma como entreteceu os seus mitos pessoais, baseando-se nas estruturas da mitologia nórdica e anglo-saxónica, num mundo ficcional que se tornou basilar no domínio da fantasia.

Lost, stolen, blown up and fed to pigs: the greatest missing masterpieces: As tristes histórias por detrás de algumas das mais lendárias obras primas perdidas da história.

15 Years Ago, the Military Tried to Record Whole Human Lives. It Ended Badly: A ironia destas experiências militares falhadas é que, poucos anos depois, boa parte da humanidade participa alegremente em iniciativas de life logging alargadas, partilhando os detalhes das suas vidas diárias. Chamamos-lhes redes sociais.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Le Storie: Sangue e Gelo




Tito Faraci, Pasquale Frisenda (2018). Colecção Bonelli #05 Le Storie: Sangue e Gelo. Lisboa: Levoir.

A coleção Bonelli está a fazer um excelente trabalho de mostrar aos leitores portugueses um panorama abrangente do trabalho da casa editorial, entre personagens clássicos, novos e títulos que não cabem dentro dos espartilhos narrativos das séries tradicionais. Este Le Storie é uma amostra de uma série Bonelli que dá liberdade aos seus autores para contar histórias independentes. Outro ponto interessante desta coleção é mostrar um tipo de banda desenhada que escapa ao pretensiosismo intelectual da BD europeia, geralmente centrada na aura de peso cultural da BD francófona, que apesar do estatuto é de facto uma indústria como a dos comics ou mangá. As edições Bonelli não se assumem como BD intelectual, mas conseguem atingir elevados níveis de qualidade estética e narrativa dentro de um ambiente comercial muito peculiar, com um formato de edição próprio que escapa ao arco francófono das séries de álbuns, à rotina dos floppies em comics ou à sobrecarga de páginas do mangá.

Sangue e Gelo pega na história da retirada francesa da rússia, com a invasão napoelónica derrotada pelo general inverno, para nos mergulhar numa narrativa onde a violência da guerra e a visceralidade das tradições míticas eslavas se cruzam num ambiente de puro horror. Um grupo de soldados a tentar fazer o seu caminho de regresso pela rússia gelada é atraído para o que parece ser uma salvação abnegada, mas acaba por se revelar uma armadilha. Enclausurados numa aldeia arruinada, acossados por criaturas de pesadelo, os soldados descobrem-se num inferno povoado pelos seres horríficos da mitologia eslava, antigos deuses poderosos que foram subsumidos como demónios com a cristianização dos povos russos. Uma armadilha da qual a morte será a única fuga possível, e que terá um final deliciosamente ambíguo. O toque lovecraftiano da narrativa é complementado por um excelente trabalho visual, num registo de cinzentos a transmitir o gelo profundo do inverno russo, quebrado pela violência avermelhada do horror arcaico.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Thanos: O Regresso do Vilão Cósmico



Jeff Lemire, Mike Deodato (2018). Marvel Coleção Especial #08 Thanos: O Regresso do Vilão Cósmico. Lisboa: Goody.

A Goody está a saber gerir muito bem o hype à volta do filme Avengers: Infinity War. O filme estreou sensivelmente a meio da publicação da mini-série Vingadores: Infinito, e tendo esta terminado, edita a seguir um volume da coleção Marvel Especial que é uma continuação da história de Thanos após a mini-série. Boa estratégia, a capitalizar na visibilidade do personagem em cross media para alargar públicos.

Guerra do Infinito coligiu as histórias de Jonathan Hickman para The Avengers, onde estes se afastam da Terra para combater uma ameaça cósmica, deixando-a à mercê do titã louco. É Hickman no seu melhor e no seu pior. Uma história de proporções cósmicas, contada naquele estilo hierático e pomposo que caracteriza o argumentista. O Regresso do Vilão Cósmico colige os primeiros seis números de Thanos, com Jeff Lemire como argumentista. Este autor tem uma queda para a Ficção Científica, e há um sabor a Space Opera na forma como aborda Thanos. Nestas histórias, o semi-deus imparável perdeu o seu poder, no rescaldo de Infinito, e descobre-se vítima de uma doença que o corrói.

Nas ruínas de Titã, Thane, o seu filho, cuja tentativa de morte foi o grande pretexto para a linha narrativa de Thanos em Infinito, ele também diminuído de poderes, arregimenta um grupo de poderosos mas rebeldes heróis cósmicos, com ligação familiar ao titã louco, com o propósito de o matar, exterminando a ameaça que representa para o universo. Thane irá revelar-se ser filho do seu pai, ao mostrar que a aliança era um pretexto para adquirir a lendária força Fénix (cujo ponto de partida foi a clássica saga Fénix de Chris Claremont em X-Men), recuperando poderes e tornando-se capaz de exterminar o seu pai. No entanto, no momento crucial, Thane decide poupá-lo, deixando-o vivo mas reduzido à insignificância de ser sem quaisquer poderes. No entanto, estamos a falar de Thanos, que mesmo sem poderes representará uma ameaça de proporções cósmicas. A grande instigadora desta aventura é a Morte, que trocou o pai pelo filho e seduz Thane com visões de poder ilimitado.

No fundo, tudo regressa à clássica série Infinity Gauntlet, escrita por Jim Starlin e desenhada por George Pérez nos anos 90. É a pedra de toque de Thanos, à volta da qual todas as suas histórias orbitam. Lemire mantém estas entre a space opera e o buddy movie, e a ilustração pesada de Mike Deodato dá-lhe aquele ar tenebroso que associamos a este super-vilão do panteão Marvel.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Comics


2000AD #2083: Só a capa da edição desta semana já merecia destaque, com a sua profunda vénia à cultura geek. Mas a diversão continua nas páginas de Survival Geeks. Esta é a primeira vinheta do capítulo... de Rick and Morty a Doctor Who (obrigatório, num comic inglês), passando por Futurama. Yep, isto é um docinho muito saboroso para qualquer geek que se preze.


Man of Steel #01: É a transferência mais discutida do ano no mercado dos comics, com Brian Bendis a mudar-se para a DC Comics. A fasquia está elevada, e a grande pergunta que os fãs colocam é até que ponto Bendis vai meter o Superhomem de pernas para o ar. Para já, estreia-se com a mini-série Man of Steel, e tem tranquilizado os fãs prometendo uma espécie de renovação na continuidade.

domingo, 3 de junho de 2018

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What Artists Can Teach Us About Making Technology More Human: Uma combinação interessante. Investigadores dos Bell Labs colaboram com artistas para criar obras de arte que utilizam tecnologias de ponta como meio de expressão.: "Technology is no longer a novelty—it’s a given. And artists, who might have in the past approached technological advancement with a hint of idealistic curiosity, now question the impact it’s had on the way humans interact with one another".

Conspiracy Theory As Art: A inter-relação entre arte e tecnologia é mais profunda do que a tecnologia ser um simples meio de expressão. Há interpolação de significados e linguagens que se influenciam para gerar uma estética própria: "It might seem counterintuitive to think so, but the popular dissemination of technology is necessary for the electronic image to function as conceptual art. This isn’t necessarily true with any other medium and has much to do with the value that we as postmodern consumers of images and memes place on a removed and ironic perspective. For example, conceptual video art didn’t reach its proper golden age until the 1960s, with the advent of relatively cheap portable recording equipment".


Welcome to the Future: 6 Creepy Advances in Potentially Dystopian Technology: Ignorem o título clickbait, este é um apanhado interessante de notícias recentes sobre robótica e inteligência artificial. Alguns são fascinantes, como as experiências da Boston Dynamics, outros realmente aterrorizantes, como os sistemas de reconhecimento facial na China.


How to Appreciate Saturn as Abstract Art: Exatamente o que pensei quando vi pela primeira vez estas imagens compósitas, criadas a partir dos dados da missão Cassini-Huygens a Saturno. Há uma pureza de abstração absoluta nestas imagens.

 An "Undark Age": Societal collapse due to overabundance and overcomplexity of information: Ok, é um texto do reddit, sem contextualizações ou referências, mas a ideia da sua premissa é uma intrigante reflexão sobre o potencial destrutivo da distração - a sensação que estamos tão mergulhados no fluxo contínuo de informação que acabamos por não fazer mais nada do que seguir o fluxo.

Ancient Rome’s Collapse Is Written Into Arctic Ice: Análises a amostras de gelo profundo colhidas na Gronelândia mostram que as sociedades humanas deixam vestígios inesperados, sob a forma do efeito da poluição que produzem. Aqui, as ciências que estudam as alterações climáticas contribuem para a história da Antiguidade Clássica. Os ciclos de crise e prosperidade da República e Império Romano deixaram mais vestígios do que estruturas arqueológicas, o impacto ambiental da poluição causada pela exploração da prata, necessária para cunhar a moeda romana, acompanha os ciclos de crise e prosperidade.



Apollo Lunar Module: Recordar uma das mais extraordinárias aeronaves de sempre, a única que, até agora, levou humanos à superfície de um corpo celestial.

sábado, 2 de junho de 2018

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Julia: O Eterno Repouso



Giancarlo Berardi, Sergio Toppi (2018).  Colecção Bonelli #04 Julia: o eterno repouso. Lisboa: Levoir.

E se por momentos pensarem que estão a olhar para a Audrey Hepburn, isso não é coincidência. Mas não esperem que Julia seja uma série de histórias sobre uma jovem bela e cheia de vida que desconhece o fascínio que exerce sobre os homens que a rodeiam. Este fumetti está muito longe de Breakfast at Tiffany's, apesar da óbvia e assumida referência visual. Julia é uma criminóloga, estudante académica das artes criminais, colaboradora da polícia de Garden City, que acaba sempre por se envolver mais do que gostaria nos casos que ajuda a investigar. Vive sozinha, num casarão mantido pela sua fiel empregada, de visual inspirado em Whoopy Goldberg (e, pelo aspeto simiesco que o ilustrador lhe deu, suspeito que este não seja grande fã desta atriz), tem como melhor amiga a avó, que vive num lar, e conduz um velho Morgan. Dedicada à criminologia, não tem grandes relações para lá das amizades profissionais com os polícias da cidade.

Nesta aventura, Julia irá investigar um macabro homicídio num lar de idosos no centro da cidade. A história não é a de um crime linear, acabará por se revelar um suicídio aproveitado pelos residentes do lar para regressarem à memória pública, como forma de protestar contra o iminente encerramento do edifício, ameaçado pela gentrificação da zona. É um policial calmo e bem montado, que segue os seus passos lógicos até à revelação final.

Neste quarto volume da coleção Bonelli, a Levoir traz-nos um personagem já conhecido dos leitores portugueses. Policial é o género em evidência, e Julia nisso intriga por ser uma vertente muito soft do policial procedimental, quase sem violência e com muita introspeção, uma espécie de Crime Disse Ela do fumetti, com uma protagonista mais atraente. Não sendo, pessoalmente, fã do género, sublinho que a aventura está bem montada, com uma técnica narrativa que mantém o interesse na leitura. A ilustração está a cargo de Sergio Toppi, esse fantástico desenhador italiano, que aqui tem o seu grafismo pessoal domado pelo espartilho estilístico da série.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Espirais


A boa surpresa da semana, entregue via DHL: a edição em português da Devir - Brasil de Uzumaki, de Junji Ito. Por lá é o quarto volume da Tsuru, coleção que por cá já nos trouxe autores como Jito Taniguchi e Shigeru Mizuki. O que é que esta edição tem de especial para mim, para além, claro, ser um trabalho awesome de um dos meus mangaká favoritos? A editora da Devir desafiou-me a fazer um texto curto sobre o autor, para esta edição. Deu imenso prazer, e fui recompensado com um dos livros. Como pormenor divertido, notei algumas diferenças formais entre o meu texto e o que está publicado no livro. Ou seja, o meu português foi traduzido para brasileiro...

É coisa pouca, mas não deixa de dar um certo gosto ver o nosso nome impresso nas páginas de um livro. Muito obrigado à Devir pelo desafio, muito por culpa do trabalho que tenho feito para o aCalopsia. Seria interessante que este autor chegasse também ao público português. Como a Tsuru também é por cá editada, talvez a Devir, cuja estratégia cuidadosa de edição respeito, ampliando a gama de obras disponíveis sem saturar o mercado com lançamentos em catadupa (ou seja, aquilo que a Goody faz, que é quase dumping editorial), eventualmente nos faça chegar uma edição portuguesa de Uzumaki.

Mundo Sem Estrelas


Poul Anderson (1967). Mundo Sem Estrelas. Lisboa: Editorial Panorama.

A tripulação de uma nave de transporte comercial que segue em direcção a uma civilização recém-descoberta no espaço intergaláctico despenha-se num planeta desconhecido, não identificado na sua rota. As hipóteses de salvação são mínimas, é preciso reconstruir um dos salva-vidas para que um dos tripulantes siga até ao planeta de destino e monte uma missão de salvação. Tempo não é problema, os humanos deste futuro são praticamente imortais graças ao progresso da medicina, mas os tripulantes precisam de mão de obra para os ajudar a reparar a nave.

O contato com os indígenas do planeta é inevitável. Seres bípedes inteligentes de aspeto vagamente marsupial, estão divididos em duas grandes facções. Uma, mais selvagem, de tribos livres no hinterland planetário, e outra, com uma civilização de construtores navais que domina as zonas costeiras. Há uma outra espécie inteligente no planeta, anfíbios descritos com aspeto similar a golfinhos com poderes telepáticos, fundadores de uma civilização milenar que fez evoluir por indução mental a outra espécie inteligente do planeta, utilizando-os como os utensílios que a sua morfologia não permite usar. São deuses para os civilizados, e demónios para os selvagens. Esta civilização é estática, teme a mudança, e decide manter cativos os tripulantes da nave acidentada. Estes percebem que a sua única opção é acicatar uma guerra civil que mantenha os seres dominados por telepatas à distância. Tudo isto num planeta de um sistema solar no espaço intergaláctico, sob um céu onde raras estrelas se vêem.

O que segura este livro é a história de Valland, um vagabundo do espaço que se contenta em vaguear pelos sistemas trabalhando a bordo das naves comerciais. Tudo o que quer é regressar ao planeta Terra de vez em quando, ostensivamente para visitar a sua esposa, à qual é tremendamente fiel num futuro onde a fluidez de relações é a norma. Um imortal antiquado, mantém bem vivas as memórias do passado terrestre antes da imortalidade e expansão espacial, com forte pendor para cantar velhas canções do século XX. A sua personalidade gregária e sentido histórico serão o elemento que serve de fio condutor a esta história.

Mundo Sem Estrelas é uma típica obra de aventuras pulp, vinda dos tempos em que a FC se podia permitir voos especulativos imaginários sem grande preocupação de fiabilidade científica. Abundam planetas habitados, todos com atmosfera compatível com os humanos, cheios de vida nativa inteligente, a humanidade tornou-se imortal graças a um soro, e deixa de temer as vastidões do espaço-tempo intergaláctico. Uma leitura divertida para quem conhece o estilo da FC clássica.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Comics


2000AD #2082: Os Survival Geeks, talvez a mais atípica série do alinhamento da revista britânica, estão de regresso. Divertido aceno à cultura pop geek, esta série segue as aventuras de um grupo de fãs que vive numa casa à deriva pelos continuums espácio-temporais. Que, nas suas aventuras, adoptou um simpático Cthulhu, porque enfim, nenhum geek o pode verdadeiramente ser sem invocar o seu lado lovecraftiano.

Black Panther #01: Suspeito que este título não vá granjear amigos a Ta-Nehisi Coates. Argumentista que, recordemos, é um jornalista e ensaísta defensor da cultura afro-americana, com um olhar muito crítico sobre o branqueamento do passado esclavagista dos estados unidos. Aos comandos do personagem mais africano da Marvel, Coates dá-nos agora esta prometedora mas nada politicamente correta space opera futurista. Há uma óbvia ironia em ter um escritor afro-americano a projetar um futuro onde os descendentes de uma nação africana fundam um império hegemónico, baseado na expansão militarista, estratificação social, violência institucional e esclavagismo. Que Coates não tem medo de trazer o peso da reflexão geo-política aos comics já se tinha notado no seu reviver da personagem, essencialmente uma longa meditação sobre o fardo do poder, os sacrifícios exigidos pela democracia e a adaptação das tradições milenares às exigências da modernidade.

domingo, 27 de maio de 2018

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An online collection of high-res scans of M.C. Escher’s prints: Já fui mais fã do trabalho do clássico Escher. A mestria técnica é inegável, bem como a criatividade matemática. Mas, fundamentalmente, é formalista, essencialmente um longo exercício de estilo. No entanto, não deixa de ser visualmente intrigante.

American Capitalism Is Suffocating the Endless Possibilities of Space: Ir ao espaço, colonizar as estrlas. Utopia para os 1%, mais do mesmo para a restante humanidade, presa ao pesadelo neoliberal?

Why ‘Fahrenheit 451’ Is the Book for Our Social Media Age: Mal imaginaria Ray Bradbury que a sua crítica à acefalia dos mass media se tornaria tão acutilante na corrente era das redes sociais, tão presa ao imediatismo e a uma banalidade acelerada.

The Weird, Dangerous, Isolated Life of the Saturation Diver: Uma profissão rara, nos limites da resistência humana: mergulhador de profundidade.



The History of Robots: From the 400 BC Archytas to the Boston Dynamics' Robot Dog: Não muito profunda, mas a mostrar que a robótica é algo de milenar. Os mitos já fazem referência a criaturas artificiais instiladas com o sopro da vida, e mecanismos que simulam criaturas já são conhecidos desde a antiguidade clássica.

How much is a human worth?: O Nuno Reis, do Sci-Fi World, muito certeiro e assertivo: "Old jobs will disappear faster than new ones can be created. Unless we can prepare a new generation is less than a decade to be more than computer savvy and take the jobs of the future, we will have a huge gap between the I.T. people and the others. The ones with high paying jobs and the ones without a job."

FacialRecognition Tech Is Creepy When It Works—And Creepier When It Doesn’t: Para lá do pesadelo de atentado à privacidade, o reconhecimento algorítmico ainda levanta outras questões. A fiabilidade não é total, com consequentes problemas de injustiça levantados quando alguém é erroneamente preso por causa de um erro de software.

Google Duplex will call salons, restaurants, and pretend to be human for you: Não há grandes surpresas aqui, é mais uma questão de quando. Esse quando começa a ser agora. Tudo o que for rotineiro ou rotinável será algoritmizado.

Digital Forensics Reconstructs Seven Lost Masterpieces: Alguns quadros são famosos precisamente pela sua invisibilidade, tornados lendários pelo seu desaparecimento. Com as tecnologias contemporâneas, e muito trabalho cuidado dos historiadores de arte, poderemos voltar a ver obras que imaginávamos perdidas para sempre.

Watch these newly discovered film clips from the glamorous birth of Technicolor: artefactos fantásticos, vindos dos primórdios do cinema a cores.

Glitch Capitalism: How Cheating AIs Explain Our Glitchy Society: O real problema da automação não é a tecnologia em si, são os aproveitamentos dela em nome de um neoliberalismo arrasante, que considera o humano como desperdício na incessante otimização de lucro.

Should I use an algorithm here? EFF's 5-point checklist: Sabemos que o enviesamento dos dados de origem para os algoritmos é um problema de efeitos potencialmente nocivos. Face à tendência de automatizar tudo, porque não analisar antes de aplicar? A EFF tem aqui cinco pontos de análise pertinentes.

 
 Antologia «Dentro da Noute: Contos Góticos»: O Projeto Adamastor continua o seu esforço de digitalizar a literatura portuguesa, com foco especial no fantástico, e nesta antologia reúne contos góticos de autores portugueses e brasileiros. Como sempre, um trabalho de excelência, que respeito enormemente. Tentei colaborar com este projeto, estão sempre a precisar de ajuda nas digitalizações e leitura das primeiras versões dos textos digitalizados, à caça de erros e incorreções, mas não tinha tempo para me dedicar como era necessário.

Remembering Tom Wolfe, One of the Central Makers of Modern American Prose: O obituário crítico da New Yorker ao trabalho de uma das vozes marcantes, e especialmente gritantes, da literatura americana do século XX. 

Even With a Name Like Aloha Wanderwell, You’ve Probably Never Heard of Her: Vidas extraordinárias, cujos factos rivalizam com as mais bizarras ficções, depressa esquecidas pela marcha da atenção humana.

Evidence of an Alien Ocean Found in Defunct 1990s Spacecraft Data: Mais do que a notícia em si, é pertinente recordar como nunca podemos considerar algo totalmente estudado e conhecido. Mesmo uma nova análise a dados antigos, com novos instrumentos e metodologias, nos trará algo de novo.

Darpa's Next Challenge? A Grueling Underground Journey: Depois dos carros autónomos e dos robots andarilhos, o próximo desafio da DARPA: robots capazes de se deslocar no subsolo.

Why 'Stories' Took Over Your Smartphone: Porque, argumenta Ian Bogost, este talvez seja o primeiro formato narrativo totalmente nativo da internet móvel: "But since 2007, people have been filtering their lives through the window of the smartphone. That name is vestigial now, because it’s only incidental that an iPhone or a Pixel is a telephone. Instead, it’s a frame that surrounds everything that is possible and knowable. A rectangle, as I’ve started calling it. The rectangle now frames experience. Information is rectangle-shaped, retrieved from searches in Google or apps or voice assistants. Personal communication comes in the form of a list of bubbles spilling down a rectangle. The physical world can be accessed by a map scaled to the boundaries of the rectangle, which can also provide way-finding through it. Music, movies, and television appear on these screens, and increasingly there alone. The rectangle is also an imaging device, capable of capturing a view of the world in front of it and the operator behind it".

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Doctor Who: Heroes and Monsters Collection

 

Justin Richards, et al (2015). Doctor Who: Heroes and Monsters Collection. Londres: Puffin.

Uma antologia de contos curtos, com aventuras dos vários Doctor Who, dos seus companions, amigos ou inimigos, um pouco por todo o tempo e espaço. Algumas são detalhes de episódios da série, outros remetem para momentos-chave, a maioria são pequenas vinhetas que exploram o universo Doctor Who. Leitura leve, sem complicações, como é habitual com este personagem. Pensado para crianças, encanta adultos, e é dos raros universos de ficção científica que assume o lado pulp de sense of wonder sem ser pretensioso. Sabe sempre bem mergulhar neste universo ficcional. Nas palavras do décimo Doctor, allons-y?

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Dylan Dog: A Saga de Johnny Freak



Tiziano Sclavi, et al (2018). Colecção Bonelli #03: Dylan Dog: A Saga de Johnny Freak. Lisboa: Levoir.

O terceiro volume da coleção Bonelli é um brinde para os fãs do Old Boy. Dylan Dog regressa ao público português, depois da edição de Mater Morbi, e é um regresso muito especial. É a primeira vez que em Portugal se editam histórias de Tiziano Sclavi, o seu criador e melhor argumentista da série (apesar de Roberto Recchioni e Paola Barbato terem aguentado muito bem o manto de excelente argumentistas de Dylan Dog).

O volume colige duas aventuras do detetive dos pesadelos. Em Johnny Freak, Sclavi conta-nos uma história decididamente perturbadora, longe do registo sobrenatural mas bem dentro do incómodo. Apesar da sua forte conotação ao sobrenatural, as aventuras de Dylan Dog são suficientemente ambíguas para atravessar géneros, do policial ao fantástico, e até ficção científica. Nesta saga, o tom é decididamente grand guignol.

O protagonista é um jovem surdo-mudo, excecionalmente dotado para a pintura e música, mantido em cativeiro pelos pais numa cave. Estes adoram o seu primeiro filho, vítima de uma doença rara, e conceberam Johnny para ser repositório de orgãos e membros para o primogénito. Sempre que um dos seus orgãos falha, este é amputado a Johnny para os substituir. Quando este quase morre num fogo na casa de família, conseguindo escapar apesar das suas enormes deficiências físicas, cruza-se com Dylan Dog, que aturdido com a profunda maldade deste caso, fica especialmente sensibilizado com Johnny. A história acabará mal, com o irmão, que o odeia e aos seus pais pelo que estão a fazer para o manter vivo, a conseguir assassinar este surdo-mudo deformado cujo olhar atravessa o coração. Sclavi não poupa o leitor, manipulando as suas emoções, levando ao máximo a sensibilidade narrativa, entre a monstruosidade de alguns personagens e o carinho de Dylan Dog.

Na segunda história coligida neste volume, O Coração de Johnny,  o tom grand guignol segue decididamente para o gótico. O desesperado irmão do falecido Johnny Freak, às portas da morte, vinga-se daqueles com que se cruzou, a começar pelos próprios pais. No entanto, uma centelha da bondade de Johnny Freak mantém-se no seu coração. Se Sclavi exagera deliciosamente no chocante, o estilo visual segue um toque de grotesco gótico, muito apropriado à história.