terça-feira, 18 de setembro de 2018

Dylan Dog #200: Il numero duecento



Paola Barbato, Bruno Bridisi (2003). Dylan Dog #200: Il numero duecento. Milão: Sergio Bonelli Ediore.

Ficou entregue a Paola Barbato o desafio de comemorar o bicentésimo número de Dylan Dog. Como é habitual nela, dá-nos uma história bem ritmada e estruturada, que foge ao expectável. O ponto de partida é a casa da qual o inspector Bloch decide mudar-se, o número 200 de uma rua. As boas e más memórias são um pretexto para uma edição que se torna, de facto, a origin story de Dylan Dog.

Ficamos a conhecer os seus últimos tempos como inspetor da Scotland Yard, completamente consumido pelo álcool. Como, após despedir-se depois de uma última amarga discussão com Bloch, utiliza a indemnização para alugar a lendária casa de Craven Road e lança-se, por piada, como detetive do oculto. No seu primeiro caso, enfrenta o que parece ser uma assombração num sótão, que se revela ser Groucho. Dylan dá-lhe abrigo para a noite, e Groucho fica, tornando-se o seu assistente e levando-o a abandonar a bebida. Apesar de ser o comic relief da série, Groucho tem um lado mais profundo que de vez em quando é explorado pelos argumentistas.

Nos primeiros tempos da carreira de Dylan, são os dotes de ator de Groucho que fornecem as fantasmagorias que investiga. Tudo muda quando o par enfrenta o seu primeiro monstro real. No rescaldo desse evento, Dylan adquire aos seus clientes um certo VW Carocha descapotável, que aparece subtilmente em muitas vinhetas desta aventura. Até o modelo de galeão que Dylan passa a vida a nunca conseguir terminar de montar surge nesta aventura, referenciando Safará e Xabaras, duas importantes referências do universo Dylan Dog.

O toque melodramático é dado por um assalto a ourivesaria, com um dos assaltantes a fazer reféns e a exigir a presença de Dylan. O assaltante é o filho caído em desgraça de Bloch, um jovem convencido que o seu pai prefere Dylan, que acabará morto por um tiro da polícia inglesa. Sai daqui o profundo laço entre Bloch e Dylan, bem como a promessa deste se tornar abstémio.

Paola Barbato aborda muito bem a origem de Dylan, mostrando-nos como os principais elementos se formaram. Provavelmente, pegou nalgumas ideias de Sclavi e transmutou-as numa aventura que comemorou, muito apropriadamente, duzentas edições do indagatore dell'incubo.

domingo, 16 de setembro de 2018

URL


Text to Image: Este projeto de Chris Valenzuela permite-nos ver imagens geradas por redes neurais a partir das palavras que escrevermos no campo de texto. Claro que tive de lhe atirar com a citação clássica de Lovecraft, para ver que tipo de pesadelo antediluviano iria invocar.

One System, Universal Service?: Uma curta história dos primórdios das telecomunicações, mostrando como estas se desenvolveram das primeiras linhas de telégrafo ao telefone e transmissões de rádio e televisão. Uma história que hoje parece ser um parágrafo na evolução da sociedade da informação, mas à época tinha o dinamismo e ambiente competitivo de cortar à faca em tudo igual ao da bleeding edge das indústrias digitais de hoje.

See No Evil: Uma análise brilhante ao problema das cadeias de fornecimento que sustentam a economia global. É quase impossível traçar as matérias necessárias à fabricação de um produto até à sua origem, graças à intricada teia de relações laborais e comerciais entre milhões de entidades económicas. Um olhar sobre as infraestruturas que sustentam o mundo capitalista. E que permite coisas como esta: "The founder of Chocolonely, Teun (Tony) van de Keuken, founded the company with the goal of making the first (the “lonely only”) chocolate bar produced without labor exploitation. According to the company, this goal actually landed them in legal trouble: Bellissimo, a Swiss chocolatier, sued Chocolonely in 2007, allegedly claiming that “slave-free chocolate is impossible to produce.”



Canada and the United States in 2092: Uma imagem partilhada num grupo facebook sobre cyberpunk (o quê, acham que só frequento as redes sociais para ler os boring status updates dos amigos e partilhar fotos da minha cadela?), cujo original ilustrou uma coluna de opinião de Douglas Coupland sobre um referendo no Canadá. Digam lá se não é o tipo de imagem que desperta logo a imaginação. Tantos cenários what if ali...

Colecção 25 Anos Vertigo 1 - Hellblazer: Na Prisão: Texto de apresentação do primeiro volume da nova coleção da Levoir, dedicada à Vertigo. Diga-se de passagem que com tanto arco narrativo fundamental de Hellblazer escrito por Pete Milligan, escolher uma aventura com argumento de Azzarello parece-me uma decisão editorial estranha... a menos que os direitos de autor dos TPBs dos tempos de Milligan sejam demasiado elevados para a Levoir. O próximo volume da coleção, que irá trazer aos leitores portugueses as elegantes histórias da Morte no universo Sandman por Neil Gaiman, vai valer a pena.


From Beyond: Em homenagem aos 128 anos do nascimento de H.P. Lovecraft, Edgar Pêra partilhou um excerto lovecraftiano do seu filme Cinesapiens. Pessoalmente, estou muito curioso com o trabalho de homenagem a Lovecraft que Pêra está a preparar para o MOTELx.

As 1001 histórias: Descobrir as Mil e Uma Noites é mergulhar num mundo de exotismo orientalista, manchado pelas perceções e preconceitos dos ocidentais que adaptaram estes contos ao gosto europeu. É também mergulhar num dos textos fundamentais da história da literatura, este conjunto de histórias e lendas provenientes de várias épocas, unidas pelo fio condutor dos contos que Sheherazade contava ao sanguinário sultão Sharriar. Pessoalmente, recordo descobrir na infância estes contos maravilhosos, em livros algo carcomidos das edições Romano Torres que encontrei em casa.

Fake America great again: Mais um artigo que questiona o impacto nos sistemas políticos das imagens deepfake. Mesmo com ferramentas capazes de detetar vídeos falsos, o seu potencial disruptivo é avassalador. É, de facto, trivial criar vídeos falsos que apresentem responsáveis políticos a fazer ações ou declarações que nunca fizeram, e a rapidez com que as redes disseminam e discutem a informação garante que não há defesa possível para isto. Basta ver os danos causados por notícias falsas ou memes enviesados, muito menos sofisticados do que vídeos criados por inteligências artificiais, para perceber até que ponto a noção clássica de que o que vemos nos meios de comunicação transmite fatos reais está ameaçada.

'It's Not a Bug, It's a Feature.' Trite—or Just Right?: O conceito de bug antecede a história da computação, mas está indelevelmente associado aos erros de software. E transvasou para a linguagem comum, quando dizemos bugado para indicar algo que não funciona bem, a estruturas que se dizem concebidas a pensar em nós mas que requerem que nos adaptemos a elas.


  The fabulous illustrated history of the pocket calculator: Confesso que não li toda a thread do twitter, mas há aqui algumas máquinas fascinantes, recordações daquela que há uns anos parecia uma tecnologia imprescindível e hoje, é uma app no nosso smartphone.

Facebook wants to use AI to speed up MRI scans: Junto às fotos de férias e atualizações de estado sobre as refeições, a rede social azulinha agora também quer que partilhemos as nossas ressonâncias magnéticas? Nem por isso, trata-se de afinar algoritmos de machine learning e reconhecimento de padrões, desenvolvendo técnicas de Inteligência Artificial para melhorar a resolução da imagiologia diminuindo o tempo necessário para as executar. Não é altruismo. As técnicas desenvolvidas podem ser aplicadas ao reconhecimento facial e leitura automática de imagens, vertentes que afinam o facebook como máquina de fazer dinheiro com a nossa informação.

Self-Invasions and the Invaded Self: Na era das redes sociais, o conceito de privacidade ganhou uma enorme exposição mediática. Quando é que se começou a manifestar a necessidade de proteger a privacidade? Curiosamente, não com a corrente transparência mediada pela tecnologia, nem com os totalitarismos do século XX. O comportamento predatório do jornalismo amarelo nos finais do século XIX provocou a primeira instância de preocupação com a privacidade individual (para quem não perceber o que significa jornalismo amarelo, uma metáfora adaptada ao século XXI: clickbait).

What Did Ada Lovelace's Program Actually Do?: Uma muito interessante contribuição para a discussão se Ada Lovelace criou, realmente, o primeiro programa de computador da história quando colaborou com Babbage no engenho analítico. A conclusão é surpreendente, o programa descrito por Ada nas suas notas, transposto para a linguagem C, não só funciona como tem bugs. O texto é algo pesado na matemática, o que se torna duro para pessoas matematicamente deficientes como eu (não estou a abanar uma bandeira de orgulho, é apenas um aceno às teorias de inteligências múltiplas e ao meu lado mais literário e visuo-espacial). É sempre divertido descobrir os pormenores da história da computação.

Where Vim Came From: Outro artigo do 2Bit History, que claramente se tornou leitura obrigatória pelas suas visões informadas pela história da computação. Neste, analisam a origem do VIM, um editor de texto para programação.

Facebook is rating users based on their 'trustworthiness': Daquelas notícias que parecem saídas de um argumento da série Black Mirror. Entre os esforços da rede social azulinha para combater as fake news e fontes fraudulentas, agora temos este - classificar os utilizadores de acordo com o seu nível de fiabilidade. A questão óbvia: os critérios de classificação são opacos, conhecidos apenas por quem desenvolve e aplica estas ações. Ah, admirável mundo novo, em que somos classificados pela fiabilidade por empresas privadas. Se fosse um estado a fazer isto, levantar-se-iam logo os coros de totalitarismo.

European lawmaker writes post warning about dangers of automatic copyright filters, which is taken down by an automatic copyright filter: Estas merdas não se inventam, ou a realidade consegue ser sempre mais bizarra que as bizarrias da ficção. Julia Reda, eurodeputada e ativista digital, publicou na sua página um artigo sobre os perigos da utilização dos algoritmos preventivos de identificação de propriedade intelectual propostos no infame artigo 13º da nova proposta de lei europeia sobre direitos de autor na era digital (daquelas leis tão UE, depois da preocupação com direitos individuais evidenciada pelo RGPD, propõe um tiro no pé que poderá ter como efeitos a supressão da liberdade de expressão na internet) (suspeito que o tipo de artigo que faço com estes URL seria ilegal ao abrigo dessa proposta legislativa, por linkar livremente para outras fontes de informação) (ou ter os posts sobre livros bloqueados por usar a imagem da capa). O tipo de algoritmos aconselhado pelos redatores da proposta de lei europeia bloqueou a publicação do artigo da eurodeputada. Antes que comecem a gritar "censura!", recordem, estes algoritmos são automáticos, não há ninguém de lápis azul em riste pronto a clicar num botãozinho quando lê um artigo que pode ser suprimido. O uso destes sistemas é ainda mais pervasivo e insidioso do que a censura tradicional.

Beauty Is, Mostly, in the Eye of the Beholder: Se parece difícil chegar a um consenso se algo é belo ou não, é natural. Para lá de alguns padrões comuns - como, por exemplo, a marcada preferência por curvas face a retas, o conceito de beleza tem muito de pessoal.

 
Meet the Nuclear Weapons Nerds: Há colecionadores para tudo. Estes são especializados no lado mais esotérico da tecnologia - artefatos, fotos e materiais ligados à bomba atómica. Algo arrepiante, a história do colecionador que decorou a casa com pedras de minério de urânio.

The Untold Story of NotPetya, the Most Devastating Cyberattack in History: O gestor de sistemas que há em mim (é o lado complexo do trabalho na escola, nem tudo são aulas e clubes de robótica) arrepiou-se todo ao ler esta reportagem sobre os efeitos globais do NotPetya. O foco está na Maersk, o gigante mundial dos transportes marítimos, e a rapidez com que a sua infraestrutura digital foi aniquilada no ciberataque. Durante alguns dias, a empresa paralisou. Os prejuízos directos contam-se em milhões, e é impossível de perceber quais os danos indiretos (em, por exemplo, fábricas paradas porque os materiais das cadeias de produção just in time não foram entregues no prazo certo). Esta foi uma de muitas multinacionais afetadas, e na Ucrânia, o efeito foi ainda mais devastador. O jornalista Adam Greenberg não hesita e aponta o dedo à Rússia, por ter libertado uma ciber-arma no que foi, de facto, um ato de guerra contra a Ucrânia (um de entre muitos), cujos danos colaterais ultrapassaram todas as expetativas.

Hey Artists, Stop Putting Shiny Crap Into Space: A órbita terrestre como tela de expressão, com artistas que criam artefatos para colocar em órbita como forma de expressão artística. O colunista do Gizomdo não é grande fã do conceito, apontando o dedo acusador entre a proliferação de lixo orbital ou a colocação de objetos brilhantes em órbita, que complicam o trabalho aos astrónomos.

 
The Abandoned, Apocalyptic Architecture of One Bold 1970s Retail Chain: Recordo que fiquei fascinado com este tipo de arquitetura vernacular quando me comecei a interessar por arte e arquitetura (tipo, à bué anos atrás, pensem final dos anos oitenta/princípo dos anos 90, sim, desse século chamado vinte). Décadas depois, o que resta deles são fotos em livros sobre arquitetura. A corajosa experiência de arquitetura lançada pela cadeia de lojas não sobreviveu à sua falência. Os edifícios, em espaços suburbanos, foram demolidos apesar do seu interesse artístico e arquitetónico.

The Impossible Job: Inside Facebook’s Struggle to Moderate Two Billion People: Uma leitura longa, mas vale bem a pena. O Vice infiltrou-se nos sistemas de filtragem e moderação de conteúdos para perceber como funciona. O que sobressai é um quadro de esforço contínuo, entre linhas-guia restritas e muita discussão sobre o que deve ser banido ou mantido. O problema real está na natureza humana, essa coisa complicada que parece determinada em derrotar os mais sorridentes optimistas: “Making their stock-and-trade in soliciting unvetted, god-knows-what content from literally anyone on earth, with whatever agendas, ideological bents, political goals and trying to make that sustainable—it’s actually almost ridiculous when you think about it that way,” Roberts, the UCLA professor, told Motherboard. “What they’re trying to do is to resolve human nature fundamentally.”

How social media took us from Tahrir Square to Donald Trump: Zeynep Tufekci faz uma brilhante análise do impacto político das redes sociais, desde o optimismo inicial das primaveras árabes à amargura trumpista. O que pareciam ser ferramentas de comunicação libertadoras foram cooptadas pelas velhas forças e usadas para dominar o espaço de ideias. Duas notas importantíssimas, tiradas de um texto brilhante: "He hadn’t understood that in the 21st century it is the flow of attention, not information (which we already have too much of), that matters", sublinhando que não é a quantidade informação que conta, é a forma como se lhe dá uso, e "Security isn’t just about who has more Cray supercomputers and cryptography experts but about understanding how attention, information overload, and social bonding work in the digital era", mostrando também que se as manipulações da opinião pública e o hacking direto tiveram influência nas eleições que elegeram o impensável Trump, na verdade, apenas aproveitaram os enviesamentos introduzidos pelas consequências do desinvestimento social, crise económica e outras forças sociais e políticas.



Magic Leap One Teardown: Quando os primeiros vídeos da Magic Leap apareceram, a coisa prometia o impossível: realidade virtual e aumentada à frente dos nossos olhos. Agora está a chegar ao mercado, e acaba por ser mais um par de goggles de realidade virtual. Não diria que a montanha pariu um rato, quem compreende VR e AR sabe que tem de haver um qualquer tipo de ecrã a mediar a sobreposição do virtual sobre o real.

Waymo’s Robot Cars, and the Humans Who Tend to Them: Faz-me lembrar uma frase de um conto de P.K. Dick, for have I not been tending well of my machine? Apesar de todos os ganhos de autonomia dos veículos autónomos, há situações que não conseguem resolver, e aí entram em campo as equipas humanas de apoio. Como Alexis Madrigal observa com a sua habitual acutilância, "What humans lack in regularity, precision, and relentlessness, we (typically) make up for with manual dexterity, adaptability, and excellent visual sensors". Juntem especialista em apoio à condução de veículos autónomos às listas de profissões do futuro.


Look what I got!: Esta é para whovianos (se não sabem o que isto é, claramente não o são). A nova Sonic Screwdriver já está aí... e é... bizarra, muito bizarra, mais orgânica, com qualquer coisa de dildo Klingon e luzes amarelas a piscar. Sendo este um brinquedo, resta saber se na série a screwdriver da nova Doctor vai ser mesmo assim.

The Big Bang Theory Was Cancelled Because Jim Parsons Wanted to Move On: Por cá, o escândalo mediático tem a ver com a ida da Cristina qualquer coisa para um canal concorrente ao programa da manhã que mesmeriza a terceira idade com o Goucha (lamento, mas tenho a infelicidade de morar na Malveira, terra da famosa apresentadora, e não consigo evitar estas coisas mesmo que comece a bater com a cabeça na parede como um autista profundo em crise). Mais pertinente para mim e todos os geeks, a Big Bang Theory vai finalmente chegar ao fim. Sempre tive uma relação dúbia com esta série, que para geeks que se levam a sério é o equivalente a assistir a um desastre de comboio em slow motion. Por um lado, divertia-me com as idiosincrasias dos übergeeks da série. Por outro, não conseguia libertar-me da sensação que a cultura geek está a ser objeto de gozo. No entanto, nos últimos tempos a sensação preponderante tem sido de tédio.


Restricted Areas: Uma delícia, estas imagens de um projeto fotográfico que documenta as ruínas das utopias tecnológica soviéticas, num incrível minimalismo onde o branco da neve é a cor dominante.

Welcome to the Age of Privacy Nihilism: Os perfis hiper-personalizados de preferências alimentados por big data e geridos por IA são a variante mais recente do inexorável esforço da indústria da publicidade para afinar as suas técnicas.

Steampunk Internacional – Vários autores: Resenha a uma excelente iniciativa da Divergência, que está no topo da minha pilha de livros a ler.

99 Things That Robots Were Supposed to Be Doing by Now: Confrontar os sonhos com a realidade da robótica, em noventa e nove coisas que os robots ainda não são capazes de fazer.



Tri-Triplane Monster Plane (1921): Entre os achados gráficos curiosos e raros que o JF Ptak partilha, esta abetarda destaca-se. O Caproni Noviplano, projetado pelo pioneiro italiano da aviação, voou tão bem como a sua belíssima forma aerodinâmica faz intuir: despenhou-se no voo de testes.

Plano Tecnológico da Educação: dez anos depois como estão as escolas do futuro?: Grande parte das minhas agruras no dia a dia da escola têm a ver com as consequências deste projeto. À altura, foi de facto fundamental, dotando todas as escolas de meios digitais - acesso à web, computador e projetor em todas as salas de aula, quadros interativos (estes últimos são praticamente inúteis, sempre o foram). Permitiram às escolas e professores dar o salto tecnológico, ambicionar ir mais longe, mas é de notar que o PTE falhou em dois pontos fundamentais. Foi criado com base na lógica build it and they will come, dotou as escolas de meios técnicos, mas não fez um trabalho de formação alargada que desse aos professores a faísca para os potenciar. Nesse aspeto, boa parte do parque informático é ainda hoje sub-utilizado (para ser honesto, ter um computador por sala dá para pouco mais do que apresentações em apoio a aulas tradicionas, ou projeção multimédia, nesse contexto, o computador é para uso do docente como meio pedagógico, não pelos alunos, que é onde realmente está a verdadeira aprendizagem digital). No entanto, com a disponibilidade de equipamentos, o aspeto do uso tem vindo, lentamente, a melhorar. Há aqui que sublinhar o papel de algumas associações de professores (ok, estou a ser discreto, mas a apontar o dedo à ANPRI) que se têm esforçado por, no terreno, incentivar o uso da tecnologia com iniciativas práticas e muita formação, essecialmente fazendo o trabalho que o ministério foi incapaz de fazer. E ainda bem, é no lado grass roots que estes projetos ganham raízes. A verdadeira falha, calamitosa, do PTE foi a sua sustentabilidade. Não chega dotar as escolas de meios informáticos, é preciso conceber estratégias sustentadas de renovação períodica. É inacreditável que se despeje nas escolas máquinas que ao fim de dez anos ainda são as que temos, sem cenários de substituição à vista. O envelhecimento, praticamente obsolescência, do parque informático das escolas só não é um escândalo nacional graças ao trabalho dos professores de TIC e informática, que na maioria das escolas asseguram essa tarefa impossível que é a manutenção de máquinas com dez anos em ambientes de uso muito intensivo. Dez anos após o PTE, o que me deixa acordado à noite (pronto, uma de muitas razões de insónia, confesso), é a sensação que sou responsável por um parque informático mission critical, quer nas salas de aula quer nos espaços administrativos, envelhecido ao ponto do obsoleto, sem previsão à vista de investimento na renovação. Multipliquem isto pelas escolas todas do país, e misturem uma dose de ironia com o corrente deslumbre do ministério da educação por inovação tecnológica, salas de aula do futuro e papel das TIC na flexibilização curricular.

Paradise Lost How Tourists Are Destroying the Places They Love e Travel Has Become Almost a Human Right: A pressão exercida nos destinos pitorescos pelo turismo de massas está a criar fissuras sociais, descaracterizar a vida tradicional nas àreas visitadas, substituída por um simulacro tipo parque de diversões, gentrificar da pior maneira espaços urbanos, ao ponto de despejar os seus habitantes locais. A Spiegel analisa os problemas do moderno turismo de massa, em dois artigos sérios que fogem aos lugares comuns de demonizar o turismo, ou apontar que quem se queixa dos seus impactos é um mal agradecido. Pessoalmente, tenho mixed feelings sobre este tema. Por causa do turismo, evito ativamente zonas inteiras de Lisboa. Deixei de ir a um Chiado que se tornou parque temático, ou à zona ribeirinha que é terreno de borracheira para bandos de turistas embevecidos com as imperiais ou cocktails hipster. Por outro lado, não me coíbo de utilizar os meios low cost para viajar sempre que posso, sabendo que a poupança em bilhetes de avião e hotel me permite conjugar o gosto por pisar outros solos e o orçamento limitado de professor com salário congelado há dez anos. A questão fundamental talvez seja a condição humana, as massas que se deslocam em busca de experiências verdadeiras e pitorescas dentro dos redis dos negócios caça-turistas, ou que mal saem do avião se dedicam a comportamentos que não se atrevem a ter em casa. Pessoalmente, dou graças pela era low cost flying e travelsites, permitem-me ir àqueles museus de referência ver obras que só conheço através de reproduções, calcorrear as ruas (ruminando sub-vocalmente contra os magotes de turistas nalguns recantos) de outras cidades, ou (prazer muuuito geek) perscrutar as estantes de livrarias, mesmo em países cuja língua me é incompreensível.


Math + The Mechanics: Intrigante ensaio sobre a Curta, uma máquina de calcular portátil mecânica, cujo desenvolvimento literalmente salvou o seu criador da morte nos campos de concentração nazis. A Curta é considerada um epítome dos meios matemáticos totalmente mecânicos, surgindo no dealbar da era da computação digital.

TOP TEN Séries de BD: O Notícias de Zallar deixou aqui um top ten seu de banda desenhada. Não seriam as minhas escolhas, pergunto de The FadeOut ou Southern Bastards sobreviverão ao teste do tempo, como Watchmen ou V for Vendetta o fizeram, mas não deixam de ser boas dicas de leitura.

Information overload is nothing new: Queixamo-nos da sobrecarga de informação nesta era de múltiplos canais de televisão, diversidade imensa de meios online, constantes interrupções por mensagens e emails. No entanto, este sentimento que a informação que produzimos e dispomos é uma sobrecarga congitiva, já tem um longo historial. Não deixa de nos parecer excêntrio ler sobre Erasmus de Roterdão a queixar-se do excesso de livros publicados no final da idade média (coitado, imaginem-o hoje, ao entrar numa qualquer livraria, teria uma apoplexia), ou Leibiniz a refilar sobre massas crescentes de livros.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

The Ceremonies



T.E.D. Klein (1985). The Ceremonies. Nova Iorque: Bantam Books.

Há uma forte reverência pela literatura clássica de horror neste thriller de cozedura lenta. Arranca com um ritmo lento, cuja cadência se acelera até um final frenético, não aquele frenesi da ação pura mas o culminar explosivo de um excelente crescendo de terror. Klein mistura muito bem o terror clássico com a sensação de apocalipse lovecraftiano e as iconografias das seitas religiosas tradicionalistas americanas neste The Ceremonies.

O horror começa no passado, com uma criança que descobre um monstro que se oculta nas florestas do interior de Nova Jérsia. Vai tornar-se o instrumento desse monstro, tendo como missão liberar o horror primevo, algo possível através de um elaborado rito cerimonial que só pode acontecer nas raras ocasiões em que um mês de julho tem duas noites de lua cheia, calhando a segunda na data de uma antiga festividade celta. Estamos nos anos 80 e os elementos do elaborado ritual assumem o seu lugar. A tarefa é meticulosa, já foi tentada anteriormente sem sucesso, mas a combinação de um inocente académico em busca de umas férias calmas no campo, uma inocente bibliotecária virgem a tentar descobrir a vida e um casal de agricultores de uma seita religiosa conservadora que vive numa tensão com a comunidade a que pertencem são os ingredientes finais, as vítimas cujo sangue selará a cerimónia. O resto é uma história de manipulação subtil, com uma magia telúrica que não deixa nenhum personagem incólume.

Com tanto crescendo apocalíptico, o final é quase anti-climático. Como qualquer boa história de terror, o mal perde no fim, as intenções malévolas são derrotadas. Mas como leitor, acabei por simpatizar mais com a personagem da criança que se torna ancião, que manipula os indícios mais subtis no cumprir da sua missão centenária, por horrífica que esta seja.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

MOTELX 2018


Havia um espírito diferente no ar durante este MOTELX. Notava-se uma ausência de elementos decorativos nos espaços do festival. Não houve morcegos pendurados no teto, ou enxames de balões vermelhos. Nada de sangue falso nas casas de banho. O único espaço mais decorativo foi montado pela TVCine, com props alusivas a séries  e filmes numa zona criada com o sentido estético de uma loja chinesa. Todo o ar de evento in e fashionista que se tem feito sentir no festival estava bastante discreto. De tal forma que quando correu o rumor da presença de James Franco numa das sessões não se traduziu numa multidão de selfies. Pessoalmente, quando me disseram isso e o apontaram nas pessoas que saíam da sala Manoel de Oliveira, pensei mas este não é o Jess Franco, é demasiado novo, e espera, o Jess Franco ainda é vivo?” Continuo a fazer uma ideia muito pálida de quem é James Franco. E, empinando o nariz, estou bem assim. A minha cinefilia é mais de estruturas narrativas e estéticas fílmicas.

Para grande surpresa minha, não dei com sessões esgotadas. Terão sido efeitos da sobreposição com a Comic Con? No meu caso, como  a minha experiência na convenção no Porto não foi especialmente apelativa (como alguém me disse este fim de semana, na Comic Con, pagas bilhete para gastar dinheiro, e se essa não é a melhor descrição do evento, não anda longe), escolher o MOTELX foi no brainer.

Senti que estava realmente num festival de cinema. Poucos hipsters, muitos fãs e uns polvilhos de celebridades, porque estamos em Portugal e dá-se valor a essas coisas. Ajudou ter visto uma seleção de filmes que, tirando um (spoilers: não é o musical com Zombies), eram interessantes,  consistentes e até arrepiantes, sensação rara para cinéfilos endurecidos.

Fraquinho, fraquito foi o spot MOTELX. O do ano passado roçava o perturbador, este ano a coisa foi mais convencional com Templários, livros envoltos e relâmpagos e esqueletos com toques de Ray Harryhausen. Visualmente bem feito, mas de uma temática banal.



Ghostland (Pascal Laugier, 2018)

Coisa estranha. Dei por mim a sentir arrepios na espinha. Este é um daqueles filmes surpreendentes, que nos troca as voltas. Começa como drama, a explorar as tensões entre duas irmãs, e segue pelo que aparenta ser um banal torture porn. Depois muda, passa pelo terror psicológico e história de fantasmas clássica, até nos atingir no estômago com um brutal regresso  à violência. A história desafia continuamente as expetativas do espetador, e a realização magistral agarra-nos à  cadeira. A premissa do argumento parece um banal episódio de policial procedimental. Duas irmãs, são raptadas  e torturadas na casa isolada para onde vão viver por dois psicopatas. Assistem à  morte da mãe e só lhes esperam horrores às mãos dos raptores. Uma das jovens, aspirante a escritora de terror e apaixonada pela obra de Lovecraft, mergulha num mundo de fantasia para não aceitar a realidade violenta. Terá de despertar, enfrentar os seus captores e junto com a irmã  sobreviver. O filme vive de uma desavergonhada estética vitoriana decadente, com uma casa envelhecida recheada de bric a brac e bonecas creepy. No fundo  foi  obra mais Grand guignol que vi nos últimos tempos.


Anna and the Apocalypse (Jon McPhail, 2017)

Uma comédia musical de zombies é o tipo de ideia que pode funcionar espetacularmente ou falhar redondamente. Este filme consegue falhar nas duas vertentes, tal a inépcia do realizador. O seu verdadeiro problema é ser inconsistente. Tenta ir à comédia, ao drama, ao musical e ao horror. Esforça-se imenso por isso, tem gags de comédia sangrenta deliciosos, mas não se sustém em linha contínua. Os momentos dramáticos são pouco convincentes e no que toca ao terror, a mesma coisa (o que, sendo comédia, faz sentido). No musical, diria que o melhor é a falta de sincronização entre os atores e a voz. Imaginem um videoclipe com cantores desfasados com a música, a abrir e fechar a boca como peixes fora de água. O realizador bem tenta usar referências irónicas à teen comedy no musical, mas a forma como filma não funciona. O argumento narra as desventuras de Anna, uma jovem a acabar o liceu e cheia de vontade de ir viajar pelo mundo, e dos seus amigos, família e tirânico diretor da escola durante um zombie outbreak. Tem premissas sólidas, ironiza e muito os filmes de adolescentes, mas não consegue chegar onde poderia. Dei por mim a passar  o tempo a combater a vontade de ir ver que horas eram. Safa-se uma cena, onde uma jovem adolescente a encarnar a iconografia de cantora sexy dos anos 50 canta uma canção muito marota numa festa de Natal na escola, completa com uma coreografia de ajudantes adolescentes de pai natal vestidos só com calçõezinhos em poses sugestivas com bengalas. Shaun of the Dead continua a ser a referência na comédia de terror zombie. Anna and the Apocalypse queria juntar-se ao clube, mas não consegue. Apesar das suas deficiências, tem momentos divertidos, e persiste na memória dos fãs do género como algo que não se leva a sério mas homenageia com ironia os pressupostos dos zombies.


The Ranger (Jenn Wexler, 2018)

Uma jovem punk e os seus amigos estão em fuga depois de uma rusga onde um polícia foi esfaqueado. O plano passa por se esconderem numa casa isolada nas montanhas, onde a jovem passou a sua infância com um tio morto em circunstâncias misteriosas (correndo o risco de spoilar, envolve a jovem, armas de fogo e memórias traumáticas suprimidas). Mas a montanha é protegida pelo guarda florestal from hell, um agente da lei que leva demasiado a sério as infrações ao código do parque florestal e as pune com extremo prejuízo. O filme demora a arrancar, passando muito tempo a explorar as tensões internas do grupo de amigos e as contradições do anarquismo punk. Quando chega o ponto certo, explode num varrimento sangrento de slasher/psychokiller. Mais thriller do que horror, é um filme eficaz filmado numa saturação suave que invoca os anos 80.


Gonjiam Haunted Asylum (Beom-sik Jeong, 2018)

Este foi o segundo filme desta edição do MOTELx que genuinamente me arrepiou. Obra sul-coreana, aplica a estratégia cinema vérité/found footage à clássica história de casa assombrada. É uma técnica que Blair Witch Project e suas imitações levaram à banalidade, e que neste filme se distingue por replicar a estética, ou falta de, do streaming para o YouTube. Todo o filme está concebido para nos colocar no papel de alguém que segue um canal, com múltiplos pontos de vista e uma sensação de improviso constante. Não o é, claro, senão o filme não seria tão eficaz, mas simula muito bem o estilo vlogger. A história é típica casa assombrada, com os personagens a visitar à noite um lendário asilo em ruínas assombrado pelos espíritos dos seus pacientes. O objetivo é filmar um evento para canais de vídeo online ganhando dinheiro com visualizações, e para isso alguns dos personagens falsificam efeitos de suposto sobrenatural. Mas o horror está lá, violento, visceral e inexplicável, e quando se manifesta fá-lo de formas completamente arrepiantes. Ver este filme, a obra mais creepy que vi nos últimos tempos, é ter garantidos saltos na cadeira e arrepios na espinha.


Ghost Stories (Jeremy Dyson, Andy Nyman, 2017)

Este é o terceiro filme que vi no MOTELx este ano que conjurou momentos de arrepio. Tem uma estética antiquada, muito literária. Há muito de MR James e Arthur Machen (com referências muito óbvias a The White People). O espírito do horror vitoriano é muito bem invocado numa história que vive de sombras onde se ocultam forças estranhas, capazes de levar os homens à loucura. Quem ler estas linhas poderá pensar que este é um filme de época. Bem pelo contrário. A história é contemporânea, sobre um investigador do paranormal que se especializa em desacreditar místicos e a mostrar que as histórias do oculto não passam de mistificações ou efabulações. Contactado pelo seu inspirador, investiga três casos arrepiantes que testam os limites do seu ceticismo, e acabam por o mergulhar em memórias aterrorizantes de adolescência. O final é um inesperado plot twist, que ata as pontas com uma lógica realista. Este tipo de artifício narrativo é em si mais um aceno à tradição literária do terror britânico.


Veronica (Paco Plaza, 2017)

Inspirado num caso real acontecido na Madrid dos anos 90, este é um daqueles filmes de pavio lento, que segue o seu caminho de forma metódica, avolumando a sensação de terror até ao final explosivo. Muito bem conseguido em termos de ritmo, sempre em suave crescendo sem dispersar a atenção do espetador. A história, apesar de pender muito para o sobrenatural clássico, não deixa para trás alguma ambiguidade. Verónia pode ser uma adolescente que atraiu espíritos malévolos após uma sessão mal concebida de espiritismo seguindo as instruções de uma enciclopédia em fascículos, durante um eclipse solar, ou uma jovem que entra em colapso mental ao sentir as pressões da puberdade. Há muito invocar da sensação de presença de espíritos imundos, uma estética que evoca muito bem os anos 90, um desempenho excelente dos atores mais jovens, que levam o filme aos ombros, e um constante remeter para a música dos Heroes del Silencio.


Aparelho Voador a Baixa Altitude (Solveig Nordlund, 2002)

Todos os anos o festival recupera um filme esquecido do cinema fantástico português (é pouco, mas existe). Confesso que é o meu momento favorito do MOTELX, por poder ver obras que só quem tem acesso aos arquivos da Cinemateca normalmente veria. Não são necessariamente bons filmes - a cinematografia de António de Macedo é a grande exceção, alguns estão muito datados, mas mostram que ao longo da história do cinema português houve muitos cineastas que se atreveram a contrariar a dicotomia entre cinema altamente erudito ou muito popular, que sempre caracterizou os nossos meios culturais.

E este é mesmo um filme inesperado. É mesmo uma ave rara no panorama cinematográfico português. É de ficção científica pura, apesar de não ter rayguns nem naves espaciais. Adapta uma obra JG Ballard, um dos maiores escritores de FC do século XX. Fá-lo transportando fielmente para o ecrã, com parcos meios, a estética literária do autor.  A FC aqui é o fantástico inner space dos autores da New Wave dos anos sessenta, com personagens solipsistas em paisagens decaídas e mundos de apocalipse lento. As ruínas inacabadas do complexo turístico de Tróia, à altura da filmagem ainda não revitalizadas e transformadas (ah, a ironia) no espaço profundamente ballardiano que são hoje (leiam Super-Cannes e percebem onde quero chegar), são o pano de fundo de uma história onde um mundo envelhecido mas que se recusa a desaparecer é obrigado a dar lugar ao seu sucessor. Num filme sem pretensões mas a ir muito longe, Solveig Nordlund canaliza na perfeição a estética própria de JG Ballard. De todas as adaptações cinematográficas da sua obra, este é, talvez, o filme que melhor transmite a visão estética de uma modernidade solitária, ostensivamente de resorts brutalistas com a água azul das piscinas a brihar sob o sol do deserto do real.


Brother’s Nest (Clayton Jacobson, 2018)

Diz muito sobre a monotonia um filme quando adormeci durante boa parte e mesmo assim não perdi o fio à meada da história. Não que este seja um mau filme. É uma história de um profundo humor negro, sobre dois irmãos que decidem matar o enteado para recuperar a herança da casa. Tudo correrá mal, e morre quase tudo, enteado, mãe e um dos irmãos . O filme vive do diálogo entre os dois irmãos, numa progressiva espiral de loucura homicida. O problema é que não passa muito disso. É daqueles filmes que se vê enquanto se faz outra coisa. Como dormitar um pouco para retemperar energias.


Errementari (Paul Urkijo Alijo, 2017)

Foi com este filme que terminei o meu MOTELX deste ano, e que final em grande! Começo pela ironia de ver um filme espanhol que os espanhóis só podem ver com legendas. Todos os diálogos estão em basco, essa língua que soa a invocação do demo. Errmentari vai buscar a sua estética ao folclore do país basco, numa história cativante sobre um ferreiro que, depois de vender a alma a um demónio, acaba por o aprisionar na sua forja. Este verdadeiro mean son of a bitch (isto tem basco deve soar melhor), tem na verdade um bom coração, que se revela com a interação com uma jovem orfã, pela qual se atreve a descer aos infernos para o salvar. Para grande azar dos demónios. História divertida, fortemente enraizada no folclore quer basco quer espanhol, e com uma fotografia fortíssima, de fazer suspender a respiração.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Lisbeth


Claudio Chiaverotti, Andrea Fattori (2018). Morgan Lost Dark Novels n. 8: Lisbeth. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Não estava à espera deste título. Atraiu-me a capa, e o formato pareceu-me longe do estilo Bonelli, achei que fosse de outra editora. Não é. Este é um personagem cuja edição iniciou em 2015, um caçador de recompensas daltónico que vive as suas aventuras na cidade de Heliopolis, num mundo com recortes dieselpunk fortemente inspirado nos anos 50.

Como descoberta de um personagem, esta não foi uma má introdução. O universo é trágico e grimdark, alicercado num estilismo preto e branco quebrado com tons de vermelho, referência ao daltonismo de Morgan. Nesta história, traído pelos poderes que o empregam, tenta salvar a mulher que ama da execução por assassinatos que cometeu. Falhará, não por falta de esforço, mas porque esta prefere o suicídio.

Grimadark pesado, soturno, Morgan Lost despertou a curiosidade sobre as aventuras deste personagem.

domingo, 9 de setembro de 2018

URL


After the Gold Rush: A descoberta de um acervo perdido de filmes dos primórdios do cinema torna-se o ponto de partida para conhecer os destinos de uma antiga boomtown da corrida ao ouro canadiano no final do século XIX.

Look up from your screen: Artigo estritamente no shit. sherlock, apontando que a tendência de incentivar a educação através da mediação por ecrãs (com apps, cursos online e outras aplicações) esquece que a aprendizagem não se resume ao mero treino e memorização de factos. Aprendizagens ricas são envolventes, com as mãos na massa, estimulam a criatividade e sim, os ecrãs são uma  importante ferramenta nestes contextos. O erro está em usá-los para dar uma roupagem de inovação a esse cadáver, fedorento mas que ainda mexe, dos métodos tradicionais de ensino.

The Cognitive Biases Tricking Your Brain: Enviesamentos cognitivos que nos afetam nas decisões que tomamos.


The rise and fall of Pixel QI – How it shaped the e-reader revolution: Há alguns anos atrás, a Pixel Qi desenvolveu um verdadeiro graal dos ecrãs, com um dispositivo de baixo consumo elétrico capaz de ser bem visível sob luz solar direta. Qualquer um que tenha que andar à luta com as definições de luminosidade do telemóvel na rua, ao sol, onde os ecrãs se tornam praticamente impercetíveis, percebe a vantagem deste tipo de tecnologia. No entanto, não foram bem sucedidos, em parte por um focar do investimento na área militar, combinado com a perda da fábrica chinesa que manufaturava os ecrãs, mas não em quantidade suficiente para lhes ser rentável. O legado da Pixel Qi, um ofshoot do projeto OLPC, ainda se faz sentir nos ecrãs e-Ink. Apesar de usarem tecnologias diferentes, a concorrência direta da Pixel Qi obrigou a e-Ink a melhorar os seus ecrãs, tornando-os mais nítidos e com melhores resoluções. Se alguma coisa aprendi nestes anos de leitura digital, é que o formato mais adequado para a concentração e não sobrecarga ocular é o do ecrã de e-Ink. Vê-se perfeitamente com luz natural, não depende de retro-iluminação, as baterias duram semanas, e o ser um dispositivo dedicado garante baixo nível de distração. Ler num tablet é mais desconfortável e cansativo.

Tech’s Fractal Irresponsibility Problem: Avolumam-se os casos em que a atitude move fast and break things das indústrias da tecnologia deixam mais destroços do que real inovação. Entre o AirBNB a contribuir para a desertificação das cidades a todas as formas como as redes sociais são cooptadas para disseminar informação falsa e manipular opiniões.

The Information War Is On. Are We Ready For It?: Não, não estamos. Enquanto a larga maioria dos utilizadores de redes sociais acreditar piamente que todas as notícias vindas de sites manifestamente fake e memes abrasivos que reforçam enviesamentos cognitivos são a mais pura verdade, não só não estamos prontos para combater guerras informacionais como já estamos derrotados. Podemos perorar sobre o papel dos algoritmos, políticos e organizações com interesses sombrios, ou dos deveres das redes sociais, mas o verdadeiro problema está nos utilizadores, que aceitam alegremente os estreitos limites das suas falsas bolhas de informação. Hey, recordam-se dos tempos em que o conceito de informação personalizada, o usar meios digitais para filtrar a informação considerada pertinente para o utilizador, era visto como um desenvolvimento positivo? Sempre que nas redes sociais vejo amigos com formação superior a partilhar alegremente memes raciscas e fascistas, ou alinhar nas fake news das máquinas de propaganda partidária, penso logo que yep, a coisa correu mesmo bem.


*Enjoy Websurfing: Yep, essencialmente é assim que vemos a esmagadora maioria das páginas de internet.

See over 300 artworks in the Uffizi without going to Italy: Mais um exemplo do potencial das tecnologias 3D na partilha de informação cultural e artística. Desta vez é a Uffizi que partilha digitalizações de parte do seu enorme acervo.

Entering the Gray Zone: O livro de James Bridle começa a levantar ondas.

Before They Were Called Automobiles, Cars Had a Lot of Terrible Names: Um divertido recordar dos nomes que se davam aos automóveis antes do termo "automóvel" se ter tornado norma.

Scott McCloud, professor ou criador: A partir de uma crítica a The Sculptor de Scott McCloud, parte-se para uma reflexão muito pertinente sobre os atos de criar e ensinar.

Britain’s New Spy Planes Are Practically Spacecraft: Uma plataforma aérea de vigilância capaz de voar durante dias, na estratoesfera.

Augmented reality software shows where pipes and other underground structures are: Um intrigante uso de realidade aumentada no urbanismo, permitindo ver as infraestruturas de gás, eletricidade, água, esgotos e comunicações que se ocultam sob o solo urbano.

You Can Learn Everything Online Except for the Things You Can't: Poderia ser um excelente artigo sobre as elevadas taxas de insucesso nos moocs ou o lado social da aprendizagem e partilha de ideias, mas fica-se pelo conceito de universidade como experiência social, de amizades e descoberta pessoal. Argumento legítimo, mas não responde à questão de porque é que a aprendizagem meramente online é redutora.

Google, you auto-complete me: O crescente uso de inteligência artificial na predição e sugestão dos nossos comportamentos levanta a questão: serão os algoritmos assim tão capazes de predizer o que queremos fazer, com base na análise de dados de padrões de comportamento, ou seremos nós a adaptar os nossos comportamentos às sugestões dos algoritmos: "At what point does Google’s power of suggestion grow so strong that it’s not about how well its services anticipate what we want, but how much we’ve internalized their recommendations—and think of them as our own? Most of the conversation around artificial intelligence today is focused on what happens when robots think like humans. Perhaps we should be just as concerned about humans thinking like robots".

Don’t Let TripAdvisor Kill Adventure: Numa era onde todos partilham as suas dicas sobre os melhores locais a explorar quando em viagem, onde fica o espaço para o acaso, a descoberta, aqueles inesperados que fazem valer a viagem?

BDpress #489 – APATIA texto de João Ramalho Santos no JL: Uma análise ao recente lançamento de Afirma Pereira pela Levoir, adaptação de Pierre Gomont do romance de Antonio Tabucchi. Livro que está na minha lista de leituras futuras.


The Beauty of Books: Journey Through The World’s Most Ornate Libraries: Bibliotecas clássicas, lugares de sonho e desejo para os bibliómanos e bibliófagos.

Atlantis, Aliens, and Time Warps: The Enduring Mystery of the Bermuda Triangle: Na era do gps, começa a ser ridículo acreditar nas histórias de desaparecimentos misteriosos naquela que é uma das zonas do planeta com mais tráfego marítimo. E, no entanto, o mito perdura. Porque gostamso de mitos e do sentido do mistério, mesmo que a nossa mente racional olhe para as evidências e mostre a falsidade das crenças.

Leonardo the Enigma: Do fascínio com uma personalidade que nos acompanha desde o renascimento.

Apresentação da Colecção 25 Anos Vertigo: João Lameiras apresenta a nova coleção da Levoir, dedicada à Vertigo. Uma coleção com propostas muito interessantes.




Rachel Maclean: my month in hell as the Bullring bunny: Uma residência artística no nada idílico espaço de um centro comercial revela-se uma experiência traumática para uma artista cujo trabalho está entre a sátira e o fascínio com os detritos da cultura comercial.

We Are Merging With Robots. That’s a Good Thing.: Sem nos apercebermos, e longe das visões de mesclagem homem-máquina da FC, estamos a tornar-nos cyborgs, cada vez mais interdependentes de mecanismos e algoritmos no nosso dia a dia. Algo que levanta questões e desafios, especificamente ao nível da igualdade e da manutenção do nosso humanismo face à tentação de ceder decisões a algoritmos.

There Will Never Be an Age of Artificial Intimacy: Sherry Turkle reflete sobre o real significado do valor que damos aos robots. Preferimos máquinas que simulam emoções ao real, porque nos sentimos confortáveis e protegidos. Um robot não nos parte o coração, desilude ou entristece. Temer o contacto com o outro, ter medo de interagir de forma humanista, é o grande impulso sobre o fascínio com o potencial dos robots de companhia.

"As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay" de Michael Chabon: Um livro que é uma ode ao amor pelos comics.

Seis drones – Novas histórias do ano 2045 – António Ladeira: Devo dizer que fiquei muito curioso sobre estes contos do que, pela recensão da Cristina Alves, me parecem ser de pura FC.

Reading Horror Can Arm Us Against A Horrifying World: O melhor deste ensaio: o notar que, ao contrário dos horrores da vida real, as histórias de horror têm sempre um ponto final.


Photos of Abandoned Russia: Estética da decrepitude nos espaços vastos da rússia pós-soviética.

There Is No Tech Solution to Deepfakes: O surgir desta tecnologia de transferência de imagem coloca um ponto final no consenso sobre a validade dos media. Passa a ser impossível ter a certeza da veracidade das declarações filmadas. Propaganda através do enviesamento de reportagens não é nada de novo, é até muito comum no corrente ambiente da comunicação social (basta ver a forma como determinados telejornais por cá alinham e enviesam notícias para comunicar pontos de vista e não fatos). O que as técnicas deepfake trazem é a indetetabilidade. Não há sentido crítico ou literacia dos media que nos prepare para isto.



Highlighting photo cliches on Instagram: Delicioso e absurdo comentário sobre a estética dos influenciadores das redes sociais, através de um bot que colige fotos de iconografias similares vindas de diferentes contas. Coloca a nu a repetitividade da estética influencer no instagram.

The end of Sharknado: saying goodbye to the silliest movie franchise ever: Adeuzinho, e não voltes. Sharknado resume tudo o que está mal no único canal televisivo dedicado à FC: filmes e série abaixo de série B, com premissas ridículas e maus efeitos especiais, acenos progressivos à fantasia, e desinvestimento total na ficção científica. Um Sharknado até era interessante, como ironia auto-reflexiva que não se levava a sério, mas para não variar, foi explorado para lá da exaustão.

Marvel to Celebrate 80th Birthday with ‘Decades’ Best-of Collections: Quem diria, a Marvel, octogenária. Desta nova coleção, vou guardar espaço na biblioteca ao volume dedicado aos monstros dos anos 70.

Learn the Story Of The SR-71 Blackbird, America's Most Bad Ass Spy Plane: A história de uma aeronave única, ímpar na história da aviação e da tecnologia.


A Visit to Tuvalu, Surrounded by the Rising Pacific: Este local idílico está na linha da frente dos efeitos catastróficos das alterações climáticas. Os atóis paradisíacos que formam o arquipélago de Tuvalu, no Pacífico Sul, estão sob ameaça crescente da subida do nível das águas do mar. Uma nação que se prevê estar, dentro de alguns anos, submersa.

Gutenberg’s Revenge: No meio do dilúvio digital, que veio desmaterializar a forma como consumimos cultura, um meio parece curiosamente imune à digitalização: o bom e velho livro, cujas vendas como objeto físico se mantém a crescer, sem efeitos aparentes da concorrência do livro digital. Há várias razões para este fator, entre a facilidade de uso de um livro face ás versões digitais, ao gosto pelo folhear e pelo objeto físico, bem como o poder mostrar uma boa biblioteca. Entretanto, o resto - cinema, música, televisão, imprensa, migrou definitivamente para os meios digitais.

New Horizons may have detected hydrogen wall at solar system’s edge: Depois das sondas Voyager nos terem transmitido os primeiros indícios da fronteira do sistema solar, é a New Horizons que deteta os limites do nosso recanto no universo.

The World Economic Forum warns that AI may destabilize the financial system: Se os guardiões da ordem neoliberal temem a IA, só pode ser coisa boa, certo? Há um certo ar de ameaça a pairar sobre as instituições financeiras tradicionais com os novos serviços possibilitados pelas ferramentas de IA. Mas há pior, o risco de instabilidade financeira permanente com o trading algorítmico capaz de intensificar flash crashes, quedas abruptas das bolsas financeiras que acontecem em milisegundos. Um sistema financeiro desregulado já nos conduziu ao abismo da crise económica, e esta combinação entre regulação laissez faire e algoritmos opacos de transações financeiras amplia e muito os perigos de colapsos finaceiros, com consequências devastadoras na sociedade global.

Finding nostalgia in the pixelated video games of decades past: Uma análise da nostalgia inerente ao retrogaming, sustentada por estudos psicológicos que encontram correlação entre nostalgia e o consumo de jogos de computador antigos.

After the bullets, the brushes: how the First World War transformed art: O fascínio modernista com a máquina colapsou no sangue derramado nas trincheiras. A I Guerra como ponto de viragem na arte moderna, onde a violência do combate manchou a promessa do então novo século XX.

Children Are Easily Peer Pressured by Robots, Study Finds: O tipo de investigação não é novo, esta análise sobre os efeitos da pressão social nas opiniões e decisões que explicitamos publicamente. O intrigante é este tipo de estudo ter sido feito com robots, e as crianças se terem submetido à pressão grupal mesmo com robots. Os perigos disto? A robótica de companhia é um mercado crescente, e a programação de um robot não é um ato neutro, reflete os objetivos de quem os constrói e comercializa. Aquele brinquedo robótico que compramos para as crianças pode estar a fazer mais do que diverti-los, pode estar a inculcar-lhes valores de forma subreptícia.

The Soviets May Have Once Built a Secret Nuclear-Powered Land-Submarine to Attack America: Arquivar em ideias que soam tão exageradas que provavelmente são falsas, mas demasiado divertidas para descartar. Máquinas tuneladoras capazes de funcionar como submarinos subterrâneos? Isto faz os haunebus parecerem triviais.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Dylan Dog: La Casa delle Memorie; Nuovo Cinema Wickedford; Il saldo; Il ponte del diavolo



Alessandro Bilotta, Giampiero Casertano (2015). Speciale Dylan Dog #29: La Casa delle Memorie. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Estamos no futuro, e o mundo tenta viver no meio de uma praga global de zombies. Infestação que tem a sua origem no próprio Dylan Dog, quando no meio de uma das suas aventuras Groucho é mordido por um zombie e Dylan não consegue ter coragem de matar o seu amigo, assegurando que a infestação se propaga globalmente. Agora, no futuro, Dylan está de regresso à Scotland Yard, chefiando uma unidade especializada na contenção de zombies. Não é um trabalho que encare com muito gosto, voltando a refugiar-se no álcool. Triste com as memórias, abandona a casa de Craven Road e refugia-se num casebre num cemitério, onde passa as noites (um aceno de Alessandro Bilotta a Dellamorte Dellamore, numa história pensada em memórias). Para além dos zombies, há um outro grupo de pessoas que começa a surgir nas ruas: desmemoriados, homens e mulheres que perante o colapso da sociedade, escolheram abrigar-se num oásis utilizando drogas para lhes anular as memórias. Dylan, com tanta vontade de morrer que marca um compromisso final com um serviço de eutanásia, decide investigar este último caso, envolvendo-se com uma mulher que procura perder as memórias e descobrindo um oásis secreto, onde homens e mulheres que esqueceram o seu passado vivem numa réplica da cidade de Londres. Dylan acabará por se lhes juntar, mais um cujas memórias do passado se desvaneceram.

 
Davide Barzi, et al (2015). Dylan Dog Magazine #1: Nuovo Cinema Wickedford - Il saldo. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Nuovo Cinema Wickedford: perdido na estrada para visitar o seu amigo ex-inspector Bloch, Dylan dá boleia a dois documentaristas que se dirigem a Wickedford para investigar um misterioso e nunca visto filme de terror, cujos atores e realizador decidiram passar a sua reforma na vila piscatória. A sua chegada coincide com a morte violenta destes. A história do filme de terror esconde um mistério tétrico: anos atrás, por acaso, a equipa de cinema encontrou nas minas abandonadas da vila um monstro que escravizou para servir de criatura no filme. Décadas depois, o filho dessa criatura é liberto, e procura vingança. Excelente trabalho visual do ilustrador Bruno Brindisi.

Il Saldo: Sempre sem um tostão na conta bancária, Dylan recebe uma prenda inesperada de notas caídas numa caixa multibanco. As suas tentativas de devolver o dinheiro são goradas, e chega a ser perseguido por agentes que querem à força que este não questione a origem do dinheiro. A resposta é bizarra: uma caixa multibanco consciente que se condoeu da falta de dinheiro de Dylan e lhe ofereceu uma dádiva. Caixa essa que fala e se explica ao próprio Dylan Dog, nos seus momentos finais antes de ser desligada por ir contra os princípios do sistema bancário.


Giovanni Gualdoni, Giovanni Freghieri (2015). Dylan Dog: Il ponte del diavolo.
Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Álbum curto distribuído aos visitantes de uma exposição sobre Dylan Dog num festival de banda desenhada em Lugano, esta aventura de Dylan leva-o em sonhos para a cidade suíça, onde descobre os mistérios que se ocultam nas profundezas da ponte do diabo, e conhece a criatura de aspeto demoníaco que protege os habitantes da cidade dos horrores ocultos sobre as águas.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Maxi Dylan Dog Old Boy #33

 
Rita Porreto, et al (2018). Maxi Dylan Dog Old Boy #33 : Final cut - Horror Express - Il feroce desiderio. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Três histórias clássicas, entre o sangrento e o macabro, que têm em comum o serem desconcertantes nas suas premissas.

Final Cut: Nesta história escrita por Rita Porreto e Silvia Mericone, com desenhos de Montanari, Dylan enfrenta um aparentemente perigoso serial killer. Um assassino que instiga multidões e flash mobs violentas, que filma os seus crimes e segue como método um jogo infantil, que recria com extremo prejuízo. O assassino acaba por ser revelado como um humilde operador de câmara que decide cometer uma série de assassinatos como forma de ganhar fama, e a grande ironia desta aventura de Dylan Dog é que o consegue.

Horror Express: Uma aventura bizarra, em que a cidade de Londres é assolada por locomotivas ou autocarros que se materializam sobre as ruas. A chave do mistério está num jovem adolescente que canaliza o espírito de um outro adolescente, falecido novo, cuja curta vida foi passada a ajudar o pai a criar dioramas detalhados e que agora, depois de morto, usa os dioramas como uma espécie de boneca vodu para canalizar a sua raiva. Argumento de Gigi Simeone e ilustração de Montanari.

Il Feroce Desiderio: A encerrar esta edição de Dylan Dog, outra história que nos leva por estranhos caminhos. A pedido de uma amiga psicólogia, Dylan desloca-se a uma casa senhorial britânica para ajudar o filho de uma família da alta sociedade. A casa é estranha, sempre iluminada sem que haja sombra em nenhum canto, e durante a sua estadia Dylan é assolado por pesadelos constantes e perde o sentido do tempo. Falha na sua missão de ajudar o adolescente, e a razão é-nos revelada no final: a família não era humana, eram variantes de vampiros, e os problemas de adaptação do jovem eram um necessário rito de passagem para aceitar a sua condição inumana. Argumento de Bruno Enna e ilustração de Montanari.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Comics


2000AD #2096: Os Survival Geeks estão de regresso, e desta vez numa aventura inspirada nos filmes slasher. Pronto, chamem-me nostalgista ou saudosista que perde o sentido crítico sempre que se depara com histórias que referenciam o fantástico.



Daredevil Annual #01: Uma leitura surpreendente e agradável. Um regresso ao passado, com Daredevil a cruzar-se com Misty Knight antes desta se ter tornado super-heroína. A história gira à volta da tensão entre um herói atípico e uma futura heroína que, como polícia, detesta super-heróis, que vê com empecilhos ao seu trabalho.


Lex Luthor & Porky Pig #01: A DC Comics decidiu terminar o mês de agosto em modo silly season, com um conjunto de comics que emparceira personagens da DC com os Looney Tunes. Imaginem Harley Quinn com Gossamer, Daffy Duck com o Joker, ou uma luta entre a parceria Catwoman/Sylvester e Black Canary/Tweety. É ainda mais pateta do que soa, e francamente a leitura é desperdício de tempo. Safa-se, por se atrever a usar os comics para falar de assuntos sérios, esta parceria Lex Luthor/Porky Pig, que se mete com redes sociais, trolls, manipulação da informação ou uso de propriedade intelectual para extorquir dinheiro em mercados cativos (por exemplo, ser o único fornecedor de um medicamento essencial para salvar a vida a pacientes e cobrar verbas excessivas por isso - recordam-se do caso de Shkreli e as injeções anti-alérgicas?). Diga-se que um Porky Pig desenhado de forma realista é muito creepy.

domingo, 2 de setembro de 2018

URL


Photos: Made in China: Claramente, o século XXI será o século chinês. Fábrica do planeta, e a apostar cada vez mais em competir em pé de igualdade com as restantes nações tecnologicamente avançadas.

The ACLU showed that Amazon's facial recognition system thinks members of Congress are felons, so now Congress is taking action: Estas coisas, por vezes, só vão lá à chapada. Por avançados e bem desenvolvidos que os algoritmos de reconhecimento facial e os do mais arrepiante "policiamento preditivo", apresentam taxas de erro muito elevadas. E, no caso dos de policiamento preditivo, são treinados com bases de dados que, de forma inconsciente, agudizam padrões sócio-económicos e étnicos nas suas geografias de atuação. As taxas de erro não preocupam muito os mais interessados na adoção destes sistemas, mas como quem já alguma vez tenha tido interações negativas com as forças da lei por causa de mal entendidos, o que na estatística é um erro para uma pessoa é um trauma. O que estes ativistas fizeram foi, essencialmente, mostrar como é fácil ser-se apanhado por um erro no algoritmo, assustando um grupo de pessoas que se julga imune a este tipo de problemas.

4 Billion New Minds Online: The Coming Era of Connectivity: Ainda falta interligar sensivelmente metade da humanidade à internet. As tecnologias que permitirão que o acesso à rede se espalhe por todo planeta já existem: aeróstatos que cobrem áreas geográficas com wifi, protocolo 5G e constelações de satélites dedicados à transmissão de dados.


Researchers Have Discovered a New Shape, and It’s Inside Your Skin: Provavelmente, a leitura mais inesperada que fiz recentemente. Estudar a forma como as células da pele humana se unem em estrutura levou à descrição de uma nova forma geométrica.

What Rereading Childhood Books Teaches Adults About Themselves: Como o regresso às leituras formativas que fizemos na infância e adolescência nos leva a refletir sobre o percurso da vida.

Gala Dalí’s Life Wasn’t Quite Surreal, but It Was Pretty Strange: Musa inspiradora do grande mestre do Surrealismo, e mulher de negócios sagaz, que sabia gerir muito bem os meandros do mundo artístico.

Technologies That Changed the Art of Cinema: O cinema é, talvez, a forma de expressão artística em que as decisões estéticas estão um equilíbrio entre a capacidade da tecnologia e a sua constante expansão. A forma como as narrativas são construídas em cinema relaciona-se de forma muito íntima com as tecnologias de imagem em movimento.

'The discourse is unhinged': how the media gets AI alarmingly wrong: O discurso público sobre Inteligência Artificial fica-se muito pelo alarmismo ou deslumbramento. Raramente a análise é sóbria, e reflete o verdadeiro estado da arte na investigação em IA.

How AI could transform the way we measure kids’ intelligence: Mais um argumento para o discurso a escola tem de mudar. Apostamos cada vez mais em competências multidisciplinares, ao invés do conhecimento estanque e metrificável em testes padronizados, mas como, realmente, medir a eficácia desse tipo de aprendizagens? A IA pode ter um papel a desempenhar nisso.


'Perry Rhodan' Astronaut and Space Hero From the Future: Um artigo muito detalhado sobre a série cássica de FC alemã. Pena é que termine com a confissão do autor de nunca ter lido nenhum livro de Perry Rhodan. Não é fácil, mas o mercado anglo-saxónico também conta com algumas traduções deste herói alemão.

A Russian neo-Nazi football hooligan is trying to build an MMA empire across Europe: Há cada vez menos dúvidas que o renascer do fascismo é uma das maiores ameaças à democracia progressista neste século. É especialmente perigoso pelo seu caráter transnacional, pela forma como os grupos neonazis e nacionalistas se unem em redes à escala europeia e global, influenciando-se mutuamente e recrutando novos membros.

How to crack consciousness: É um paradoxo. Todos sabemos que estamos conscientes, mas não conseguimos provar que o somos.

Point, Shoot, and Forget: Uma história da máquina fotográfica descartável, que, curiosamente, já existe desde os primeiros tempos da massificação da fotografia.


Thousands of Unseen Photos Featuring Andy Warhol and Celebrity Pals to Be Digitized: Warhol foi um dos lifeloggers originais, documentando a sua vida com milhares de fotos. Estas vão agora ser digitalizadas. É de notar que aquilo que para Warhol era uma afirmação artística, hoje é um ato banal, comercialmente explorado pelas redes sociais.

How they did it (and will likely try again): GRU hackers vs. US elections: Um guia detalhado à forma como os serviços secretos russos conseguiram interferir nas eleições norte-americanas, entre hacking clássico e operações de contra-informação.

Frozen earthworm revived after 42,000 years in the permafrost: O conhecedor de livros e filmes de ficção científica que há em mim só pensa: ressuscitar uma criatura com quarenta mil anos? Isto só pode correr mal...

Global Trendometer – Essays on medium- and long-term global trends – July 2018: O gabinete de pesquisa e apoio ao parlamento europeu publicou a sua análise anual de tendências. As sobre sociedade digital e  Inteligência Artificial são muito preocupantes: "Over forty years, labour compensation as part of the national income shrank, while the share of capital increased. This trend correlates with the rise in inequality. Digitalisation, globalisation and demographic change might further decline the labour share"; "Artificial intelligence can diminish or increase democratic freedoms. It can polarise or enliven the political debate. It will probably take a central place in pro- or anti-democratic beliefs. One thing is certain: AI will force democracies and authoritarian states to adapt"; "A ‘deep fake’ is disinformation based on digitally manipulated data, for example videos. Due to the plausibility of such forms of data, they have a great negative impact. Artificial intelligence and declining trust might make this worse. What will such practices do to journalism and privacy standards?"

Myths, monsters and the maze: how writers fell in love with the labyrinth:  Entre a arte minóica e a biblioteca de Borges, uma linha sinuosa que atravessa a história das ideias, o fascínio com os labirintos.


Ancient Androids: Even Before Electricity, Robots Freaked People Out: Uma interessante história dos autómatos, entre maravilhas mecânicas à proto-computação, desde a antiguidade clássica aos primórdios do século XX.

First 3D colour X-ray of a human using CERN technology: Uma intrigante adição ao mundo da visualização 3D. As técnicas de deteção de radiação e processamento de imagem desenvolvidas no CERN encontraram uma aplicação na medicina, com a possibilidade de raios X a cores.

Leitura armadilhada: Da leitura desta recensão de Nelson Zagalo, retiro que o clássico Catch 22 vale, essencialmente, pelo conceito.

Identifying People by Metadata: 96% de taxa de sucesso em identificação de um elemento no meio de dez mil, apenas através dos metadados de mensagens no twitter. Arrepiante.

Why Westerners Fear Robots and the Japanese Do Not: tl;dr: essencialmente, questões culturais e religiosas. Num país modelado pelo shintoismo, onde o ser humano não tem um carácter de exceção e entidades espirituais abundam, a ideia de seres mecânicos não atemoriza nem assusta.

Why Mistranslation Matters: As traições das traduções.