quinta-feira, 26 de abril de 2018

Captain Harlock: Dimensional Voyage



Leiji Matsumoto, Kouichi Shimahoshi (2017). Captain Harlock: Dimensional Voyage Vol. 1. Los Angeles: Seven Seas.

Num futuro em que os habitantes da Terra parecem consumidos pela apatia e cobardia, num planeta tornado secundário pela fuga dos intrépidos e corajosos para os confins do sistema solar, e ameaçado pela invasão de alienígenas que reclamam o nosso planeta como seu segundo berço, só há uma força que tenta defender os terrestres. Uma força fora da lei, que não se dobra perante nenhum senhor ou governo, um pirata do espaço que, com uma indómita e excêntrica tripulação, é a única linha de defesa de um planeta cujos governantes o perseguem.

Este Captain Harlock é um misto do bom e do mau que o mangá tem. Se parte de uma premissa interessante, a história perde-se num estilo visual de personagens em pose hierática, longos cabelos fluídos, a debitar diálogos repetitivos. O lado de aventura de ficção científica perde-se por completo numa narrativa cansativa, feita de iconografias quase de telenovela, sem qualquer trabalho no envolvimento visual do mundo ficcional.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

The Time Traps


Richard D. Nolane,  Maza, Desimir Miljic (2018). Wunderwaffen #12: The Time Traps. Toulon: Soleil

Esta série era muito mais interessante quando se dedicava a explorar as míticas armas inovadoras alemãs, explorando os conceitos que na realidade não chegaram a sair do papel. Neste corrente arco narrativo, a história centra-se na influência de um alienígena cuja nave foi encontrada sob os gelos antárticos, cujo imenso poder influencia decisivamente o passado. Consegue manifestar uma força misteriosa na Normandia do dia D, impedindo o desembarque aliado e prolongando a guerra. Ao fazê-lo, sobrepõe temporariamente diversos tempos possíveis.

Visualmente continua a ser interessante, embora os talentos do ilustrador se revelem no retrato das aeronaves da época, quer as reais quer as que não passaram de conceitos, com um trabalho menos interessante nas cenas onde predominam os personagens.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Dylan Dog: Cronodramma; Gli anni selvaggi; Cose perdute.



Carlo Ambrosini, Werther Dell'Edera (2017). Dylan Dog #365: Cronodramma. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

É difícil apreciar qualquer coisa nesta confusão de história. Dylan é contactado por uma escritora milionária para a ajudar a resolver uma assombração, e o que se segue até poderia ser interessante: um assassino que não consegue matar um bebé e a entrega aos que lhe encomendaram o acto, uma criatura com aspeto de arlequim que está de alguma forma ligada aos infernos e manipula o tempo, um estranho desvio temporal em que medeiam seis anos entre o pedido de ajuda e a visita de Dylan a uma cliente que é, em si, uma assombração. Ingredientes para uma boa história, o que falha é a técnica narrativa, confusa e fragmentada.



Barbara Baraldi, Nicola Mari (2016). Dylan Dog #364: Gli anni selvaggi. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Dylan cruza-se com um amigo da juventude, recordando tempos mais wild em que faziam parte de uma banda. Dylan tornou-se polícia e posteriormente o detective dos pesadelos de que todos gostamos, o amigo persistiu, e encontrou o sucesso. Sucesso esse que é uma máquina imparável, que exige sangue em troca de luxos e riquezas. História mediana, a mexer com os lugares comum da mitologia da música popular.



Paola Barbato, Giovanni Freghieri (2016). Dylan Dog #363: Cose Perdute. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Enquanto Dylan se sente mergulhado em alucinações, intuindo um acontecimento traumático do passado, um assassino misterioso mata idosos sem aparente relação entre si. Dylan alucina e sonha com amigos invisíveis da infância, entre os quais se desta um rapaz dentro de um poço. Essa é a chave da história, que unifica as linhas narrativas. Essa é uma memória real, cujo verdadeiro horror o ainda miúdo Dylan não consegue compreender. Havia realmente uma criança dentro do poço, uma rapariga lá colocada pelo pai violento com forma de a disciplinar. Esta cresce, livra-se do pai tirano com meios violentos de quem ninguém desconfia, e é auxiliada por um psicólogo a ultrapassar o trauma. Um caso aparentemente bem sucedido, uma vez que ela própria se torna psicóloga. E agora vai concluir a sua terapia, de forma sangrenta, assassinando aqueles que, na sua infância, conheciam a maldade que lhe faziam mas não a ajudavam. Um argumento bem conseguido por Paola Barbato, que utiliza uma forma muito rígida de definir o layout das vinhetas.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Comics


Black Hammer Age of Doom #01: Esta prancha é um meme instantâneo: "We're the monsters and the ghouls. The misfits and the delinquents. The gifted and the damned... we're all the weird ones, love. And now you're with us". Jeff Lemire anda a arrastar a premissa desta série, mas nós perdoamos, porque compreendemos a sua pulsão meta-textual com toda a iconografia e estilismos dos comics.


Action Comics #1000: O que é que aconteceu ao carro da capa da lendária Action Comics #01, e ao seu condutor? Geoff Johns explica, uma das muitas pequenas histórias que celebra aquela que é talvez a personagem de comics que mais marcou a cultura popular. A Action Comics chega ao milésimo número, e Super Homem já é octogenário, mas continua a ser um colosso cultural.

domingo, 22 de abril de 2018

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The Overlooked Wonders of Soviet-Era Industrial Design: Design, elegância e beleza não são atributos que costumamos associar à tecnologia russa da era soviética, mas este livro mostra que nem tudo era brutalismo tecnológico nos produtos de consumo do paraíso do proletariado.


“Is curing patients a sustainable business model?” Goldman Sachs analysts ask: é este tipo de raciocínio, de neoliberalismo galopante, o que realmente me assusta nas discussões sobre impactos socais da IA, robótica e automação. Numa lógica economicista fria, é um argumento completamente racional. De um ponto de vista humanista, é aberrante. Não deixa de ser um vislumbre do que realmente se passa na mente dos servos da oligarquia económica global.

The ambitious proposal to create a space 'museum' in orbit: Entre a preservação de artefatos e o turismo espacial, uma ideia não assim tão descabida quanto isso (se bem que gostaria de saber como seria possível preservar as órbitas de artefactos muito para além da sua vida planificada).

When your dental insurer sends you a "free" Internet of Shit toothbrush: Noutras épocas, a ideia de sujeitar a vida privada às regras intrusivas de organizações seria visto como totalitarismo, um ataque às liberdades individuais e privacidade, típico de ditaduras sanguinárias. Se fosse a bem da nação, recusaríamos iniciativas que de facto controlassem o nosso comportamento no dia a dia. Mas embrulhado como serviço, aplicação ou produto, aderimos alegremente. Este é um exemplo: uma seguradora que penaliza os seus clientes, se estes não utilizarem uma escova eléctrica que regista dados de uso e os envia para a seguradora.

“2001: A Space Odyssey”: What It Means, and How It Was Made: Ainda de volta dos cinquenta anos deste filme intemporal: "Moon landings and astronaut celebrities now feel like a thing of the past. Space lost out".

Robot cognition requires machines that both think and feel : No fundo, não é apenas uma questão de máquinas inteligentes. Cognição é hoje entendida como conjugação entre intelecto e emoções.

Was There a Civilization On Earth Before Humans?: Apesar do título provocante, não é o que pensam. Não há memes com supostos arqueólogos cabeludos que reduzem tudo a aliens. Um artigo especulativo, que revê o impacto ecológico do antropoceno, perguntando-se se se conseguiria detectar uma possível civilização industrial pré-humana a partir de indícios geológicos.



The Secret Language of Ships: A partir dos registos fotográficos de um piloto de rebocadores, uma viagem pela linguagem naval, a iconografia que permite a qualquer navio ser entendido em qualquer porto do planeta. Um de muitos alfabetos industriais, incompreensíveis para quem está de fora.



Rick and Morty's Latest Multiverse Trip Takes Them to My Little Pony: Se forem como eu, o vosso coração deu um pulo ao ver esta menção à mais awesome das séries de animação. Mas não, ainda não é o regresso das temporadas de Rick & Morty. É apenas uma fugaz aparição num episódio da série de culto dos bronies. De qualquer maneira, digam pony rick! naquela voz com que dizem pickle rick!

Why we should stop panicking about robots stealing our jobs: John Naughton certeiro, a mostrar os enviesamentos ideológicos que pautuam as discussões, e especialmente os medos, sobre os impactos sociais e económicos da robótica, Inteligência Artificial e automação.

New collection asks if we should fear artificial intelligence: Leitura obrigatória para quem se interessa pelos potenciais positivos e negativos da Inteligência Artificial. Conjunto de ensaios referenciados, escritos por cientistas a pedido dos serviços de investigação do Parlamento Europeu, como base de informação para eurodeputados envolvidos na análise e legislação sobre estas questões, mas também disponível para o grande público. Discretamente disponível, como muitas coisas interessantes que a UE faz.

Post-Authenticity and the Ironic Truths of Meme Culture: Nem vou tentar destilar este artigo sobre o estado das coisas nos media digitais (e, por extensão em osmose, nos tradicionais). Fiquem com o comentário de Warren Ellis na sua newsletter, Orbital Operations: "An absolute tour-de-force in modern media literacy. It's like a cheat sheet for WHAT THE FUCK IS HAPPENING 2018 and you will be smarter and better for it".

If AI Thinks Like a Human It May Get Depressed: Apetece perguntar: sonharão os andróides com carneiros elétricos? E imaginar algoritmos anti-depressivos para inteligências artificiais afligidas por maus estados de alma.

OLPC’S $100 LAPTOP WAS GOING TO CHANGE THE WORLD — THEN IT ALL WENT WRONG: recordam-se do projeto de Nick Negroponte no MIT, que queria dar um portátil a todas as crianças? Com o seu foco em linux, redes abertas, muito baixo custo e potencial pedagógico, o OLPC nunca conseguiu atingir os seus objetivos. Mas não foi um falhanço. Levantou a questão da acessibilidade da tecnologia para os mais jovens, especialmente nas zonas desfavorecidas. As tecnologias que foram desenvolvidas para responder aos requisitos do projeto criaram um novo segmento de mercado na computação, os netbooks. A Asus, que criou os modelos-base do OLPC, capitalizou esse know-how com a gama Asus EEE. Pequenos computadores pensados para crianças são hoje um mercado, dominado pelos modelos Classmate da Intel, por cá conhecidos como Magalhães. Mesmo sem cumprir a promessa de uso alargado, grass roots, open source do OLPC, pergunto-me se seria possível, hoje, falarmos de tablets na educação se não fosse pela ideia maluca que Negroponte teve nos idos de 2000.

Reflection, Refraction, Mutation: Alex Garland’s ‘Annihilation’: O We Are The Mutants atira-se com o seu habitual estilo ballardiano ao filme baseado na obra de Jeff Vandermeer, que os estúdios decidiram relegar para a Netflix.

Stop calling these Dark Design Patterns or Dark UX — these are simply a**hole designs: Exemplos de design de interface pensados ao pormenor para confundir o utilizador. Malevolamente genial, o anúncio desenhado como se fosse uma manha no ecrã, para levar o utilizador a pensar que está sujo e tocar para limpar, ativando o anúncio.

sábado, 21 de abril de 2018

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Stratos



Miguelanxo Prado (2000). Stratos. Lisboa: Meribérica-Liber.

Um tremendo e mordaz humor negro atravessa esta digressão clássica de Miguelanxo Prado no terreno da FC distópica. Visitamos um mundo futurista estratificado numa sequência de pequenas histórias amargas, que nos levam desde o nível mais baixo dos proletários descartáveis ao dos administradores de uma sociedade computorizada, maximizada para o lucro. Não há bondade ou moral em nenhum dos estratos sociais, excepto talvez nalguns dos elementos de topo, que engendram a queda da sociedade corrupta e desumana que se mantém para enriquecer elites. O traço do autor anda ainda longe da mestria pictórica no uso de cor que hoje o caracteriza, segue aqui um realismo negro com toque de caricatura disforme, que sublinha o humor negro das histórias.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Thor: A Deusa do Trovão


Jason Aaron, et al (2018). Marvel Coleção Especial, #6: Thor - A Deusa do Trovão. Lisboa: Goody.

Transformar Thor, esse ícone da masculinidade pura, entre o selvagem dos longos cabelos louros e testosterona musculada, numa mulher visualmente mais frágil mas com uma enorme força foi dos momentos mais interessantes que a Marvel nos legou, recentemente. Antes de tecer elogios à forma como a editora se adapta à mudança dos tempos, é bom recordar que a mudança, com novos títulos e personagens com maior diversidade de género, cultural e étnica é essencialmente um teste aos mercados, uma forma da editora procurar novos públicos. Mas transformar O Thor em A Thor não deixa de ser uma interessante inversão dos pressupostos tradicionais dos comics.

Esta edição da coleção Marvel Especial da Goody traz-nos os primeiros momentos da nova Thor. Vemos a incapacidade do Thor original em merecer empunhar o lendário martelo, mergulhamos nas políticas internas de uma Asgard à qual regressou Odin, iniciando um confronto entre as velhas e as novas maneiras de governar (no fundo, essa dicotomia entre a tradição masculinizante clássica e a abertura a um mundo mais diverso parece-me ser o tema central desta nova abordagem a Thor), bem como o ressurgir de velhas ameaças. O mais interessante é ver os primeiros passos, titubeantes, da nova personagem, e sondar o mistério sobre a sua real identidade. Diria que esta foi a melhor edição desta coleção da Goody.,

domingo, 15 de abril de 2018

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Congressional Testimony: XKCD a ser certeiro. As catástrofes perigosas para a liberdade estão a vir de onde menos se espera.


Down the Tubes: um bocadinho de delícia visual UrbEx/industrial decay.

Humankind’s Most Important Material: do humilde vidro das janelas à fibra óptica, uma curta história de um material que mudou o mundo.

The Era of Fake Video Begins: A Atlantic descobriu os deepfakes: "manipulated video will ultimately destroy faith in our strongest remaining tether to the idea of common reality". Talvez não o fim da realidade consensual, mas certamente mais um sinal da importância de treinar o sentido crítico e não confiar cegamente na informação online.

Can We Make a Musical Turing Test?: Mais um contributo para o debate incómodo sobre a automatização da arte. Se o instinto artístico não é reduzível a computação, as estruturas que utiliza para expressão podem sê-lo: "Does a machine have to be truly ‘creative’ to produce something that someone would find valuable? To what extent would listeners’ attitudes change if they thought they were hearing a human vs. an AI composition?"

In blockchain we trust: O blockchain como a tecnologia com impacto global que emergirá da corrente bolha especulativa à volta das criptomoedas, utilizando código aberto como forma de automatizar os processos de confiança contratual.

Bitcoin would be a calamity, not an economy: Como é que realmente funcionaria uma economia baseada em bitcoin? Mal, aparentemente. Concentração excessiva, falta de proteção em caso de crise financeira, latência excessiva nas transações e tendência para especular sobre o seu valor e não em dar-lhe uso monetário.

The demise of the nation state: Globalização, estados falhados, populismo, renascer dos nacionalimos e neo-fascismos, regionalismos exacerbados, terrorismo, crises de refugiados, aquecimento global: "National governments possessed actual powers to manage modern economic and ideological energies, and to turn them towards human – sometimes almost utopian – ends. But that era is over. After so many decades of globalisation, economics and information have successfully grown beyond the authority of national governments. Today, the distribution of planetary wealth and resources is largely uncontested by any political mechanism". A ordem política do século XX colapsou mas ainda não se apercebeu da sua queda, arrastando-se como um zombie num mundo transformado?

Apresentação da colecção Bonelli: João Lameiras apresenta a coleção Público/Levoir dedicada aos heróis italianos da Bonelli, que trará ao público português Dylan Dog, Martin Mystére, Mister No, Dampyr e Tex, entre outros.

Bonelli, o outro nome da BD popular: Para completar a excelente introdução de Lameiras ao trabalho editorial da Casa Bonelli, um artigo onde Pedro Moura faz uma análise crítica ao historial desta editora, que define, na prática, o fumetti.

Public goods are REALLY good: thousands of years later, the Roman roads are still paying dividends: Uma curiosa correlação entre zonas desenvolvidas na Europa contemporânea e a rede de estradas construída pelo império romano.

Why Authoritarians Attack the Arts: isto: "Art creates pathways for subversion, for political understanding and solidarity among coalition builders. Art teaches us that lives other than our own have value". 

sábado, 14 de abril de 2018

quinta-feira, 12 de abril de 2018

20th Century Boys


Naoki Urasawa (2009). Naoki Urasawa's 20th Century Boys, Volume 01: Friends. São Francisco: Viz Media.

O mangá segue uma forma narrativa episódica, em que sabemos à partida qual o sentido da história. O resto são peripécias a cada novo episódio, que adensam a narrativa. Não é o caso destes 2oth Century Boys, em que ao fim dos dez episódios coligidos o leitor fica sem saber qual o rumo da história. É intencional. Em vez de largar a premissa central como pedra angular da narrativa, Urasawa revela-a muito subtilmente ao longo de cada episódio. Sabemos, pela sinopse, que nos primeiros anos do século XXI a humanidade esteve ameaçada por uma catástrofe e só os rapazes que irão ser retratados nas aventuras a travaram. Mas isso não nos é expresso nas histórias, que cumulativamente constroem um ambiente de conspiração bem medido, com símbolos misteriosos e seitas secretas. As histórias olham para o passado, para a infância de um grupo de jovens adultos que descobre, na notícia do suicídio de um deles, indícios de que algo mais se irá passar. Urasawa é um mangaká com um estilo narrativo dinâmico, e um belíssimo construtor de histórias envolventes.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Megatech: As Grandes Inovações do Futuro



Daniel Franklin (ed.) (2017). Megatech: As Grandes Inovações do Futuro. Lisboa: Clube do Autor.

Um conjunto de ensaios que reúne cientistas, futuristas, empreendedores, filósofos, analistas, tecnólogos e autores de ficção científica que tenta extrair sentidos e caminhos num futuro próximo marcado pela aceleração tecnológica. Parte dos textos mantém-se no optimismo acrítico que caracteriza este tipo de livros. Outros focam-se no impacto social das previsões sobre avanço da tecnologia. Alguns mostram pontos de vista interessantes, que contrariam o discurso alarmista sobre inteligência artifical e automação, temperado a especulação com dados sobre os seus potenciais e limites.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Comics


2000AD 2075: Judge Dredd está no seu melhor não como policial futurista, mas como ironia corrosiva onde cidadãos normais se vêem encurralados em armadilhas kafkianas por um sistema jurídico proto-fascista.  Os arcos narrativos publicados na 2000 AD exploram outros caminhos, mas de vez em quando a revista dá-nos a pura essência de Dredd, uma personagem de profunda crítica social e política disfarçada de policial futurista.


Batman #44: Com o grande evento de casório entre Batman e Catwoman a aproximar-se, Tom King mostra-nos a evolução da ambígua ligação entre os dois personagens, com um forte tom retro.

aCalopsia: Dragomante

 

Descobri-me algo surpreendido por ter dado conta que li, e gostei, de uma edição de fantasia épica. Visualmente deslumbrante, com uma história interessante, Dragomante é uma excelente proposta de banda desenhada portuguesa co-editada pela Comic Heart e G.Floy numa edição cartonada, de luxo. Um livro que não deixa os leitores indiferentes, mesmo que não se seja fã de fantasia épica. Crítica completa no aCalopsia: Dragomante.

domingo, 8 de abril de 2018

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Robbie Barrat's AI-generated nude paintings make Francis Bacon look like a genteel pre-Raphaelite: Se Bacon e Caravaggio acasalassem e tivessem um descendente mutante com traços de esquizofrenia e a capacidade de combinar os seus estilos pictóricos, provavelmente daria nisto. Imagens criadas por uma IA com a técnica de generative adversarial network, aprendendo generativamente por contraposição de resultados a partir da aprendizagem de um banco de dados. O que mais intriga neste tipo de experiência é a forma como questiona a humanização inerente à arte, uma daquelas áreas de atividade humana que acreditamos imunes à inteligência artificial precisamente pela combinação de mestria individual, pensamento e carga emocional que só os humanos parecem capazes de atingir. Por complexos que sejam os algoritmos de IA, não são seres conscientes, com sentimentos, e no entanto parecem ser capazes de gerar iconografias inquietantes, para lá da fronteira do derivativo.

Crooked Masters: How He-Man Colonized a Generation’s Imagination: A série camp clássica de animação revista nos seus pressupostos. E se Skeletor for o verdadeiro herói, combatente pela libertação da sua pátria, reunindo os oprimidos contra a tirania da ocupação pelos convenientemente louros e caucasianos Masters of the Universe?

Do Inferno. Alan Moore & Eddie Campbell (Biblioteca de Alice): Crítica profunda à edição portuguesa da Devir de From Hell, por Pedro Moura.

2001: A Space Odyssey Predicted the Future—50 Years Ago: Stephen Wolfram reflete na forma como, cinquenta anos após a sua estreia, o filme 2001 ainda invoca visões de puro futurismo.

50 years of 2001: A Space Odyssey – how Kubrick's sci-fi 'changed the very form of cinema' : Comemorando os cinquenta anos da estreia de 2001, personalidades ligadas ao cinema refletem nas vertentes de influência deste filme na cultura cinematográfica.

Dostoievski desvelado"Pois vejo antes de tudo isso, uma capacidade para antever o ser humano na sua infinita complexidade e variabilidade, e uma recusa da simplificação desse humano, daí o surgimento de "Crime e Castigo"". Pergunto-me se o título do post é uma referência a Isis Unveiled? Linguística, não temática, claro.

The Best Science Fiction Movies and Shows on Netflix Right Now:  Netflix and... chill with SciFi.

When the Heavens Stopped Being Perfect: Galileu, a invenção do telescópio e a forma como o olhar frio do cientista pode destruir as visões do imaginário.

sábado, 7 de abril de 2018

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Travelling to Utopia


Michael Moorcock (2014). The Michael Moorcock Collection: Travelling to Utopia. Londres: Orion Books.

Três romances de Moorcock, reunidos em antologia. Não partilham universos comuns, apenas uma ideia longínqua de utopias, quer artificiais (The Wrecks of Time, onde a Terra é um constructo artificial criado pelos sucessores da humanidade), pós-apocalípticos (The Ice Schooner, onde a Terra congelou, e os sobreviventes erguem uma nova civilização) ou longínquos (The Black Corridor, onde um planeta habitável poderá ser o único refúgio de uma Terra em desagregação violenta). Moorcock é um mestre da prosa rápida, com histórias que se lêem a bom ritmo.

The Wrecks of Time: duas organizações lutam entre si com Terras paralelas como palco. Após a descoberta da existências de mundos paralelos, uma dedica-se a salvar os habitantes de outras Terras de cataclismos terminais, enquanto a outra organização os parece provocar. A verdade é mais complexa. Todas as Terras são simulações, criadas por seres que transcenderam a humanidade ao explorar os multiversos, e, regressados ao berço, recriam continuamente o seu planeta de origem para perceber como evoluiu a sua civilização. Os habitantes das Terras estão vivos, mas são apenas elementos de complexas simulações que invariavelmente terminam com o extermínio do planeta onde vivem. O criar de um novo simulacro, conjugado com as ações das fações em luta e a interferência de agentes andróides dos criadores, permitem uma direção inesperada para esta longa experiência. A premissa do romance é muito interessante: o que aconteceria se as simulações fossem habitadas por seres vivos e conscientes. O estilo narrativo de Moorcock mantém essa ideia em desenvolvimento lento, enquanto a narrativa se centra nas disputas entre organizações e a descoberta progressiva do mistério das Terras paralelas.

The Ice Schooner: Um daqueles livros que se lê de uma assentada, em parte pela típica escrita escorreita de Moorcock, autor especialista em literatura que agrada ao leitor, em parte para se perceber como é que o autor encerra uma premissa que é óbvia desde as primeiras linhas. The Ice Schooner mergulha-nos nas aventuras de um capitão caído em desgraça, que encontra numa cidade rival da que é originário uma nova vida e inúmeras aventuras. Tudo por ter, em plena desolação gelada, salvo um homem que se vem a revelar como o líder da cidade. O resto é intriga e aventura, com o capitão a ganhar um novo comando, liderando os descendentes do líder e uma tripulação inquieta num navio que sulca os gelos, em busca da mítica cidade de Nova Iorque.

É aqui que reside o cerne do mundo ficcional do romance. O futuro trouxe uma nova idade do gelo, e a humanidade sobrevive em cidades escavadas sob o planalto gelado que cobre a antiga amazónia. As extensões geladas são percorridas pelos navios de gelo, construídos com tecnologias já esquecidas como quilhas em fibra de carbono e cordame de nylon, em comércio ou à caça de manadas de baleias, que largaram os oceanos e ganharam pelagem, atravessando o gelo interminável. Corremos com a tripulação do navio de gelo para a mítica cidade de Nova Iorque, desejosos de saber como é que Moorcock monta o puzzle deste universo. Encontramos lá os descendentes de outros sobreviventes dos primeiros gelos, que foram capazes de preservar a ciência e tecnologia, e que sabem que as idades do gelo são cíclicas e uma nova mudança vem a caminho, com o degelo progressivo do planeta.

The Black Corridor: Numa nave espacial em fuga de uma Terra em desagregação, o único tripulante que se mantém fora de hibernação começa a sofrer de alucinações. Um tema comum em Moorcock é o apocalipse por fragmentação, a acontecer não por conflitos entre grandes blocos de nações mas pela fragmentação em grupinhos nacionalistas que se guerreiam até à extinção (os romances que compõem o Cornelius Quartet vivem essencialmente disto). Um pequeno grupo de sobreviventes foge de uma Inglaterra onde a própria cidade de Londres se pulverizou em bairros que se combatem com armas nucleares, e escapa-se do planeta em direcção a um possível planeta habitável a orbitar a estrela de Barnard. Nunca saberemos se lá chegarão. Todo o romance é um mergulho na progressiva decadência mental de um homem, atacado pela solidão profunda no espaço sideral.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

aCalopsia: Descender



A Ficção Científica é um género que vive muitas mortes anunciadas. Uma visão cíclica, vinda não do poder editorial (as novas edições de FC no mercado internacional não são às pazadas, são mais comparáveis a porta-contentores atafulhados em risco de rebentar) mas de uma certa ideia de estagnação e isolamento face ao mainstream da cultura popular. Algo que se alia à sensação que hoje vivemos em plena science fiction condition, que este género já não tem voz refrescante ou nada que nos desperte as ideias numa era de constante banalização de prodígios da ciência e tecnologia. A contrariar os prenúncios fatalistas, o cinema tem-nos legado excelentes visões de FC no grande ecrã, ou diretamente para os pequenos ecrãs fragmentados da diáspora digital (caso do recente Anihiliation, baseado no romance homónimo de Jeff Vandermeer, relegado para a Netflix por decisão de executivos culturalmente conservadores). A banda desenhada também não foi alheia a este movimento, especialmente graças à Image, que tem dado luz verde aos seus criadores para editarem séries de ficção científica pura. Há dois ou três anos atrás, grande parte dos novos títulos da esditora eram pura ficção científica e especultativa. Um impulso que agora tem perdido alguma força, com o regresso progressivo dos géneros fantasia e crime. As temáticas editoriais são cíclicas, respondendo aos interesses dominantes do público. Crítica completa no aCalopsia: Descender Volume 1.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Dark Water


Koji Suzuki, Meimu (2004). Dark Water. Houston: ADV Manga.

As águas escuras da baía de Tóquio são a fonte de inspiração para estas histórias curtas de Koji Suzuki. Dark Water é a mais conhecida, dando origem ao filme do mesmo nome. É de facto a história mais complexa desta curta antologia, sobre as angústias de uma mãe solteita a viver num prédio decrépito, encimado por uma torre de água que poderá abrigar o espírito de uma criança assassinada. As restans histórias são mais curtas, seguindo esquemas de horror clássico, sem grandes surpresas nem construção de um clima de terror eficaz. Apenas a última, Forest Under The Sea, com a sua evocação de cavernas semi-submersas, consegue despertar algum interesse acima da mediania. O estilo visual do ilustrador, embora competente, não consegue criar sensações ou ambientes de histórias de horror.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Comics


2000AD #2074: Deadpool tem fama de ter o mais divertido dos heróis amorais com violência extrema. Pessoalmente, discordo. Nestas coisas, pensar que uma personagem pop é um pico criativo geralmente significa que não se conhece mais do que isso. Para quem achar que piadas infantis e quantidades elevadas de sangue, vísceras e balas são a epítome do humor negro, bem, enfim, apresento-vos Sinister Dexter. A dupla de assassinos profissionais mais bem sucedida de Downlode, cidade futurista que tem o seu quê da Miami de Miami Vice, mas no futuro e com forte tendência para nomes em língua eslava. Dan Abnett tem nas páginas da 2000 AD sido especialmente cáustico no explorar do potencial de humor violento presente nas personagens de Mr. Sinister e Mr. Dexter. Não poupa nas quantidades elevadas de sangue, vísceras e balas, mas o humor negro é bem negro.


Doomsday Clock #04: Geoff Johns anda a tentar ser mais Alan Moore do que o próprio Moore nesta série. A validade do conceito de trazer os personagens de Watchmen para a continuidade da DC é discutível. São propriedade intelectual, já o eram antes de Moore os ter reinventado, e a DC é uma editora comercial. A cultura pop é mesmo assim. Já o mérito da forma como estão a ser introduzidos é que é discutível. Doomsday Clock tem sido anunciado com enorme fanfarra e empolamento, na realidade é um comic pedante e pretensioso, que vive da imitação estética e estrutural do trabalho de Moore e Gibbons. O trabalho visual é mesmo o melhor da série, já que o esforço intelectual de Geoff Johns vai todo no sentido de emular o original, uma forma de alguém claramente pouco talentoso reclamar louros como autor de um suposto clássico dos comics.

domingo, 1 de abril de 2018

aCalopsia: Hanuram, o Dourado



Baixinho e encorpado, a puxar para o roliço, de cabelo esparso. Mas não se deixem enganar pela aparência insignificante. Hanuram é duro, e sobrevive a todas as temíveis criaturas que os deuses, irados com as suas ações, lhe colocam pela frente. Já aos adversários, a sobrevivência é impossível. Um bárbaro feiote é dificilmente o herói típico das epopeias de espada e feitiçaria, mas o traço e capacidades narrativas de Ricardo Venâncio torna este um dos livros de banda desenhada portuguesa mais interessante dos últimos tempos. Crítica completa no aCalopsia: Hanuram, o Dourado.

sábado, 31 de março de 2018

Lost+Found






Coisas de outros dias, depois de uma semana passada em pontos das reuniões de avaliação de alunos.

Rascuhos na Voz Online


Tenho andado com pouco tempo para o fandom geek, culpa das aventuras no derretimento controlado de termoplásticos. Esta notícia já me tinha cruzado o radar, mas ainda não a tinha registado. É uma iniciativa significativa, que mostra o crescimento sustentado da comunidade de fãs de fantástico, ficção científica e fantasia por cá. Não parece, mas o crescimento de iniciativas, eventos e edições tem sido assinalável, muito graças ao dinamismo de algumas das personalidades que se destacam no meio cultural. Um programa de rádio online, regular, a discutir literatura de FC & F e coisas geek só pode ser mais uma excelente iniciativa, e a Cristina Alves está de parabéns pelos programas. Podem ouvi-los na página Mixcloud da Rádio Voz Online. Pessoalmente, vou testar se não são dissonantes com o zumbido do extrusor a depositar filamento.