sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Just bleedin' works.


Vão ter de me desculpar se nos próximos... dias... (cof, cof) meses... ficar muito chato com esta coisa da impressão 3D. Digamos que tenho razões para estar contente e entusiasmado, e vou partilhando este novo processo de aprendizagem pelo TIC em 3D. Algo de fantástico é ontem ter estado a desempacotá-la e hoje já estar a imprimir em sala de aula. Não foi tão fácil quanto soa, mas muito menos difícil do que esperava, ou do que seria possível com outro tipo de impressoras. Nestas coisas concordo cada vez mais com o Warren Ellis. As novidades e a bleeding edge tecnológica são fascinantes mas quando se quer criar precisa-se de algo que just fuckin' works. Já imprimir... digamos que se a primeira experiência foi boa, a segunda foi um desastre e à terceira não foi de vez mas ficou bem melhor.


Bem vindos à minha sala de aula. E não, não sou imune à ironia do passar do real ao digital e do materializar o digital no real. Apontamentos e resmungos nas TIC em 3D.

Interzone #253


Uma edição mediana, que se destaca pela afirmação de Neil Williamson como autor a prestar atenção. Quanto ao resto, há por aqui muita prosa que roça o ilegível. Apenas Van Pelt consegue manter-se interessante, e há uma boa surpresa de conto amador. Mas revistas como a Interzone servem para isto mesmo, permitir aos leitores descobrir vozes novas e perceber quais destas mostram reais possibilidades de se tornarem nomes notáveis da FC e fantástico. É o caso de Williamson, que se continuar no caminho que tem mostrado se revelerá uma voz muito própria, herdeiro conceptual do estilo weird de Miéville e Tidhar.

My Father and the Martian Moon Maids - James Van Pelt: a casca exterior mostra-nos um homem de luto pelo pai recém-falecido. O cerne deste conto é um hino nostálgico à FC e fantástico, onde os dramas do presente são aliviados pelos sonhos futuristas de um passado que se vai desvanecendo na memória. Um conto com uma tonalidade muito devedora a Ray Bradbury.

Flytrap - Andrew Hook: aparentemente, venusianos andam por entre nós. E alguns têm um estranho fascínio com plantas carnívoras. Ao longo deste conto um grupo de personagens aparentemente desconexas percebe que os seus sentimentos de falta de pertença espelham o de facto não pertencerem à humanidade. O alienismo é mais espiritual do que físico. Há aqui um regressar aos mistérios da ficção científica de série B, com referências directas ao Invasion of the Body Snatchers. Mas o tom geral é etéreo e desinteressante.

The Golden Nose - Neil Williamson: depois de ler este conto e The Posset Pot na Interzone anterior, percebi que Williamson é um daqueles nomes a manter debaixo de olho. Há aqui potencial. A prosa é de alta qualidade, a capacidade narrativa agarra o leitor, e nota-se o desenvolvimento de um imaginário New Weird com forte inspiração na FC e no surreal. Parece-me vir a ser daqueles autores que se destaca da manada de contistas de FC e fantástico, com uma voz muito própria e promissora. Este conto é fabuloso. Fantástico, surreal, com um toque kafkiano e fetishista. O ser passado em Viena dá-nos o toque de decadência aristocrática europeia. A história é brilhante. Um homem que fez dos cheiros a sua vida vê-se ameaçado pela tecnologia. Depois de ter trabalhado para as mais importantes casas de perfumes enfrenta a obsolescência. O que o salvará é um curioso artefacto, um nariz artificial que acentua de tal forma a acuidade olfactiva que transforma o seu portador no mais raro e sensível detector de olfactos. Mas o artefacto traz consigo uma maldição. O seu portador corrompe-se irremediavelmente. Sendo capaz de detectar as mais raras fragrâncias, emana um cheiro próprio cada vez mais nauseabundo. O sucesso é inevitável. Os seus dotes olfactivos voltam a estar na lista das obrigações de todas as empresas que trabalham com produtos de agradar ao olfacto, mas o cheiro progressivamente nausaebundo que o personagem deita torna-o um proscrito. A mulher abandona-o, os clientes fazem tudo para tratarem de negócios à distância, os vizinhos do bairro organizam uma petição para que mude de casa. Mas, num fantástico toque de modernidade bizarra, não é o ostracismo social o destino deste personagem trágico. Estamos no século XXI, e através da internet organiza-se um grupo de fetichistas que se excita sexualmente com os odores horrendos do artista do olfacto. O portador do nariz terminará os seus dias a satisfazer os desejos sexuais deste grupo ínfimo mas afluente. Deliciosamente bizarro e bem escrito, este é o melhor conto desta edição da Interzone.

Beside The Dammed River - D.J. Cockburn: A edição de julho-agosto tem por tradição publicar o conto vencedor de um concurso literário anual restrito a autores amadores. A primeira reacção é passar à frente, mas se o fizesse perderia um excelente conto. Mistura CliFi com futurismo tecnológico numa prosa atraente que nos leva numa pequena aventura numa zona ressequida do Camboja. Uma funcionária de uma empresa de mineração espacial acompanha o carregamento de um asteróide raro cuja trajectória de inserção orbital não correu como planeado, mas a camioneta avaria no meio de uma aldeia perdida. Encontra aí o mais inesperado dos ajudantes, um ex-professor universitário desiludido com o seu país, que usa os seus conhecimentos técnicos para ajudar uma população abandonada à sua sorte a sobreviver. Este conto foi uma surpresa interessante, e, para um autor amador, muito melhor do que outras propostas de escritores profissionais publicadas nesta edição.

Chasmata - Catherine Tobler: um conto que sofre muito da doença do pretensiosismo literário. Tão pretensioso que se torna ilegível. Percebe-se vagamente que a história tem qualquer coisa a ver com colonos marcianos e os seus filhos, primeira geração humana nativa do planeta vermelho que se parece tornar marciana. Remete para Dark They Were, And Golden Eyed, conto clássico de Ray Bradbury que leva a extremos a ideia de assimilação jungiana, mas como o autor talvez suspeite que o leitor não perceba a relação termina a invocar o nome de Ray três vezes. Já tínhamos percebido. A vontade que dá é recomendar ao autor que esqueça a FC e se dedique às ficções etéreas. Aí é capaz de encontrar o seu público.

The Bars of Orion - Caren Gussoff: este conto parte de uma premissa muito interessante. E se a realidade colapsasse, com dois sobreviventes a descobrir-se refugiados numa realidade paralela, similar à sua mas onde as pessoas que sempre conheceram têm outros nomes e outras vidas, onde os espaços físicos são os mesmos mas não são bem os mesmos? Intrigante, mas o conto segue a via da comiseração psicológica, com um dos personagens a lidar com o sentimento de não-pertença frequentando uma psicóloga que, estranhamente, não o interna no asilo por afirmar que veio de um universo paralelo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Bee The First!


Não é todos os dias que podemos dizer que o futuro chegou à nossa escola. Hoje foi um desses dias. Na sequência do prémio Inclusão e Literacia Digital conseguimos finalmente verba para um investimento já há algum tempo pensado. O projecto original estava desenhado para impressoas RepRap, mas o valor financeiro do prémio permitiu voar mais alto e arriscar a aquisição de uma BeeTheFirst. Se perdemos o lado do it yourself ganhamos tempo, uma vez que o processo de arranque de trabalho com a bee será certamente mais rápido do que com uma Prusa que requer montagem, calibração, soldadura e configuração da placa arduino. E ainda nos aquece o coração ter conseguido apostar em tecnologia portuguesa. Tecnicamente as bee partem das RepRap, mas são desenvolvidas e comercializadas por uma empresa portuguesa que teve a coragem de apostar num mercado prematuro mas potencialmente explosivo, que tem recebido distinções em fóruns internacionais dedicados à impressão 3D e que mete muito do que se faz em Portugal no seu produto. Como a espátula para ajudar a retirar as peças impressas, fabricada em Leiria pela Icel. É um pormenor delicioso.

A impressão 3D é uma resposta à espera de perguntas. Partilham-se cada vez mais novas e intrigantes utilizações desta tecnologia, Ideias, experiências e especulações não faltam. No nosso caso, será que é uma tecnologia com potencial pedagógico no ensino básico? E que tipo de projectos poderão ser desenvolvidos que sejam mais do que o imprimir objectos pré-feitos, possibilitando envolver os alunos nos processos de criação, concepção e materialização? São ideias que vamos começar a explorar em breve. O primeiro passo está dado. A seguir teremos o obrigatório hello world. Depois disso, é explorar as possibilidades que se colocarem.

Hoje sou um professor particularmente feliz. Esta impressora possibilita mais um passo na investigação sobre o estímulo ao uso criativo de tecnologias digitais em contextos de projectos práticos por crianças e jovens. Vai permitir materializar algum do trabalho digital que já é feito. Possibilita explorar vertentes de projecto interdisciplinar (já estão dois alinhados) e até integrar a comunidade envolvente, se bem que esta ambição seja mais a médio prazo. Primeiro, há que dar os primeiros passos e dominar as técnicas. Sempre com os alunos, claro. Porque é essa a minha resposta à questão para que serve uma impressora 3D. Com uso pessoal percebi que depois de imprimir uns bonecos depressa esgotaria as suas aplicações. Outros terão as suas vias de investigação, como se observa pelo vibrante campo das experiências com impressão 3D. Como professor intuí que na área da educação esta tecnologia pode abrir horizontes aos alunos, estimulando aprendizens que apliquem conhecimentos de várias disciplinas em projectos concretos. E, claro, colocá-los em contacto com esta tecnologia. Porque, mais do que a mim, caberá a eles encontrar resposta para esta e outras perguntas trazidas pelos ritmos inesperados do desenvolvimento tecnológico. Daí a necessidade de arriscar, expôr, e experimentar.

Não resisto a uma última reflexão. Sou professor do sistema público de ensino, e este projecto é uma mais valia para a escola pública onde trabalho. Refiro isto com uma óbvia ponta de orgulho, mas não é aí que quero chegar. O dinheiro que nos permitiu dar este passo veio da FCT, através de um prémio. Não foi o primeiro a que nos candidatámos nem será o último. Poder-se ia arriscar orçamento da escola, seria difícil mas não impossível, ou seguir o caminho do donativos de associações de pais, mas desde que a ideia começou a ser cozinhada há meses atrás que a estratégia foi a de procurar financiamento externo para projectos. Isto é demasiado incipiente e experimental para arriscar o dinheiro de todos nós. E também confesso algum trauma por ter acompanhado a implementação do Plano Tecnológico nas escolas e percebido a forma leviana como os recursos financeiros foram geridos num projecto útil mas aplicado com níveis de eficiência organizativa cuja compreensão me escapou. Não faz sentido para mim trabalhar desta forma, por isso seguiu-se a via da paciência e do arriscar projectos. Nestas coisas o não é sempre garantido, mas se não se tentar o sim nunca é atingido. Tenho gosto em afirmar que esta mais valia tem um custo zero de dinheiro público. Se conseguirmos os nossos objectivos, foi dinheiro bem aplicado. Se falharmos, não desperdiçámos algo que é de todos.

A impressora chegou hoje. Amanhã o desafio será fazer o hello world. Mas o maior orgulho será quando finalmente puder mostrar algo criado e impresso pelos alunos. Em breve, penso, em breve... por enquanto estou a resistir a escrever os clichés de quem trabalha alcança e  quem arrisca atinge o sucesso. Oops. Desculpem-me, os dedos escorregaram no teclado...

Athena Voltaire Compendium


Steve Bryant (2015). Athena Voltaire Compendium. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Athena Voltaire pertence àquela rara categoria de comics que são aquilo que pretendem ser. Clara homenagem sem pretensões ao pulp de aventuras, mergulha-nos nuns míticos anos 30 cheios de aventuras em paragens distantes. Mistérios arqueológicos, segredos ocultos, sociedades secretas, nazis sedentos do poder conferido por artefactos míticos, civilizações subterrâneas e até sedutoras vampiras europeias transplantadas para o México são os desafios que a intrépida aviadora terá de enfrentar. Tem o seu quê de Indiana Jones ou Doc Savage de saias, percorrendo o planeta em aventuras. Estas homenagens são as mais obvias, apesar dos filmes de terror da Universal, as milhentas aventuras nas selvas e até os esqueletos espadachins de Ray Harryhausen encontrem um recanto neste comic delicioso. São histórias simples e nostálgicas, desenhadas com um grafismo que poderia ser mais elaborado. Athena Voltaire tem sido um webcomic por vezes editado em séries limitadas, e é esse o material coligido neste Compendium, estando prometida uma série inédita da personagem, editada pela Dark Horse.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Interzone #252



Se os dois contos que encerram esta Interzone são banais e recorrem ao fantástico como mero adereço, as restantes propostas literárias são fortíssimas. Nesta edição temos FC pós-apocalíptica, CliFi com contornos de terror, hard SF e até, coisa rara, experimentalismo literário. Os contos com que encerra é que são de todo dispensáveis.

The Posset Pot - Neil Williamson: Um apocalipse intimista, com dois sobreviventes a tentar manter um sentido de normalidade numa Glasgow deserta, esburacada, como o planeta, por esferas misteriosas que se materializam aleatoriamente. A física devora o planeta, talvez devido a singularidades descontroladas saídas de uma experiência do CERN. O que é certo é que as esferas materializam-se e desvanecem, levando consigo o que apanharem no seu interior. E, por vezes, deixam para trás objectos e indícios de outras eras, outros espaços e tempos.

The Mortuaries - Katharine Duckett: um muito bem escrito conto de climate fiction, com uma poderosa linguagem visual e uma inconsistência surreal que lhe dá o gosto. Num futuro já para lá do colapso, com a humanidade impotente perante um clima fora de controlo e a derrocada dos sistemas sociais, resta um estranho monumento à vontade de imortalidade: duas casas mortuárias, especializadas em plastinar cadáveres, uma preservando a utopia inatingível da felicidade material, a outra preservando o horror grand-guignol da morte real. Dois bastiões de anormalidade hierática no meio de um mundo que se desagrega, vistos pelo olhar de uma criança que sabe não ter futuro, e sente um estranho fascínio pelos silêncios dos espaços da morte, agudizado pela pressão de viver em espaços sobrecarregados. Conto fortíssimo, que usa elementos do horror - o fascínio pelas coisas fúnebres, para alinhar uma belíssima visão distópica de climate fiction e consegue tocar no desepero perante a desagregação que tudo o que se conhece, nas dores da morte, na vontade humana de lutar apesar da pouca esperança, e até do racismo.

Diving into the Wreck - Val Nolan: hard SF com um toque arqueológico. Num futuro próximo, com a humanidade a espalhar-se pelo sistema solar, a busca por artefactos dos primórdios da era espacial é objecto de estudo e obsessão por aqueles que querem manter viva a memória dos tempos em que não havia motores de fusão e elevadores espaciais. Equipes de arqueólogos vistoriam a órbita terrestre, recuperando satélites esquecidos e estágios de lançadores, ou perscrutam luas e planetas para trazer antigas sondas robóticas para uma segunda vida como objectos de museu. Um dos módulos abandonados da Apollo 11, perdido na superfície lunar, é o mistério mais apetecido pelos entusiastas e investigadores. Quando o amigo de um exo-arqueólogo é desafiado para partir numa expedição que o descobre perdido na superfície lunar, percebe que o verdadeiro sentido do artefacto reside no seu mistério. Desvendá-lo esvazia-lo-á de significado, e para isso tem de eliminar o arqueólogo.

Two Thruths and a Lie - Oliver Buckram: o experimentalismo literário mais radical anda muito arredado do panorama das revistas de FC, apesar do enorme peso histórico e conceptual da New Worlds. Este conto é uma raridade, estando mais no espírito experimental de J. G. Ballard do que do habitual no conto fantástico. A história constrói-se de fragmentos de texto e jogos intrigantes de palavras.

A Brief Light - Claire Humphrey: fiquei sem perceber se esta história tinha a ver com lesbianismo incerto, um casamento em crise ou infestações de fantasmas que ressurgem em todos os cantos. O que é certo é que esta é uma daquelas histórias em que o fantástico não passa de mero cenário para dramas românticos. A ideia de fantasmas que se vão multiplicando pelos espaços arquitectónicos tem a sua piada, mas tudo o resto lê-se como uma banal história melosa de revista femenina.

Sleepless - Bonnie Stufflebeam: neste conto o fantástico como elemento decorativo é levado tão longe que mal é aflorado. Estranha história para ser publicada na Interzone. Há umas criaturas que surgem durante a noite, mas a história é sobre uma mulher que está a aprender a lidar com a proximidade da morte do pai.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Greystorm: I Capitoli Dimenticati


Antonio Serra, et al (2010). Greystorm #12: I Capitoli Dimenticati. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Já me tinha perguntado porque é que esta série terminava no número onze. Terminava não por cancelamento ou perda de interesse, mas mesmo no seu ponto final. Ao longo de onze edições a história seguiu um percurso que terminou de forma decidida. Greystorm não se apresentava como uma série episódica a manter enquanto durasse o interesse dos leitores, estando perfeitamente balizada no seu início e conclusão. Mas onze é um número estranho. É mais habitual serem sete, dez, ou doze, números redondos e simbólicos. Agora onze... talvez por isso exista este décimo segundo número.

I Capitoli Dimenticati é aquilo que afirma ser. Não continua a história, nem lhe abre novas dimensões. É o que na música seria um álbum de out takes e b-sides. Colige momentos narrativos que poderiam ter feito parte do que veio a ser a série, mas por não lhe acrescentarem nada acabaram por ficar de fora. Temos a morte prematura do grande amor de Jason Howard, encarnação da voz de sanidade progressista que equilibra a espiral de queda nas trevas de Greystorm. Somos levados a uma exploração mais profunda do mundo selvagem primitivo, protegido do mundo sobre os gelos antárticos, que Greystorm destruirá para construir uma base para conquista do mundo. O que dá volume a este número é um indício dos caminhos por onde poderia ter ido esta série, felizmente não trilhados, com uma banal aventura detectivesca com ninjas sikh, jóias de marajás de fábula, e os filhos semi-sevlagens de Howard a depararem-se com uma conspiração onde as máquinas robóticas a vapor de Greystorm são manipuladas ao serviço de uma conspiração. Suspeito que se Greystorm tivesse seguido o caminho de fumetti episódico teria sido assim.

Neste volume a vertente steampunk está ausente. O argumentista Antonio Serra afirma que procurou homenagear Júlio Verne e odeia quando ligam a série ao movimento estético, mas os elementos estão todos lá. Estes capítulos esquecidos estão, porém, verdeiramente dentro do espírito de aventura fantástica verniano. Este décimo segundo volume não encerra a série com chave de ouro. Mostra-nos caminhos que poderiam ter sido seguidos, que alterariam profundamente a excelência deste fumetti surpreendente.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Not Sci-Fi


Sabemos que neste momento os gostos do público estão mais com a fantasia do que com a ficção científica, mas também não é preciso cair nestes exageros. Abrir a mais recente Sci-Fi Now é um exercício de espanto em como uma publicação nominalmente dedicada à ficção científica tem jornalistas incapazes de distinguir naves espaciais de varinhas mágicas ou espadas. Primeiro temos um artigo dedicado aos messias da FC, aos personagens messiânicos do cinema e literatura. Entre os suspeitos do costume, como Paul Atreides (Dune) e Neo (The Matrix) encontramos... Harry Potter. Sim. Harry Potter como personagem messiânica de ficção científica. O problema óbvio para quem tenha dois palmos de testa e um mínimo de conhecimentos sobre as vertentes do fantástico é que magia e feitiçaria não são especulações tecno-científicas. Uma varinha mágica não é uma tecnologia. Encantamentos e criaturas do além não se enquadram no que se considera FC. Claro que as coisas não são estanques, e deve haver por aí algum romance de FC em que o sobrenatural justifica a tecnologia avançada para manter populaças ignorantes submissas. Não é o caso de Harry Potter, que claramente não é ficção científica.


Não contentes com a primeira calinada, ainda nos legam esta pérola de declaração proferida por um autor de fantasia. Daqueles que tornam difícil não desconsiderar os autores de fantasia como criaturas que sofrem de danos cerebrais. Não são, bem sei, há-os bons e inteligentes. Suspeito que não seja o caso deste que acha de Game of Thrones tem a ver com ficção científica. Como não descortino naves espaciais ou tecnologias pós-idade do ferro quer nos livros quer na sérite televisiva, a sapiência desta afirmação escapa-me. Por muito abrangente que seja a nossa definição de ficção especulativa, as convulutas conspirações em espaços medievalistas com dragões não cabem lá.

O que surpreende é haver toda uma equipe de jornalistas e colaboradores, alguns presumivelmente entendidos na matéria, a deixar escapar estas pérolas. A SciFi Now mistura FC com horror e fantasia, mas isto é levar o desvanecer de fronteiras um pouco longe demais. Estas pérolas são facepalm instantâneo.

Comics


The Autumnlands #03: Um comic genuinamente intrigante. Parte das premissas habituais da fantasia, com um grupo de feiticeiros animalescos antropomórficos a dar tudo por tudo para recuperar uma magia que se está a esgotar no seu mundo. Requer, claro, um violento ritual para invocar um campeão que lutará pelo restauro das forças mágicas, mas o que lhes sai é algo de estranho. Um humano, transplantado de ficção científica pulp militarista. Resta saber se este cerne tão curioso será bem explorado, ou se a série reverte para o mais tradicional caminho da aventura em terras estranhas.


Ivar, Timewalker #01: Uma investigadora de física avançada salva por um dos irmãos de Armstrong de Archer & Armstrong, à solta pelo espaço-tempo. Um forte causador de ansiedade para quem se preocupa com paradoxos temporais, coisa que não aquece nem arrefece o viajante no tempo protagonista desta nova série da Valiant. Tem Fred VanLente a escrever, o que só pode significar bom humor inteligente. A atitude desprendida no que toca a paradoxos começa logo no princípio. Se a investigadora é salva (ou raptada, depende do ponto de vista) antes de inventar as viagens no tempo, como é que há tantos viajantes do tempo atrás dela? Uma pista: ela própria dá caça a si mesma. Confusos? A lógica em  nós das viagens no tempo é divertida, não é?


Moon Knight #11: Esperem lá, a Marvel não é aquele negócio de filmes de acção cheios de efeitos especiais com comics à mistura? A Marvel não é o patriotismo propagandístico do Capitão América, o super-estrelado de Iron Man, ou o baby Groot a dançar? Este Moon Knight está cada vez mais difícil de enquadrar no mundo simplista dos comics de super-heróis. Afasta-se deliberadamente do lado ingénuo dos seres que voam por aí a salvar o universo e do moralismo binário. Detido pela polícia nova-iorquina, o Cavaleiro da Lua dá por si numa prisão remota, com os seus direitos negados e imposição de submissão total. Ao tentar escapar percebe que os mentores da prisão encontraram uma forma inovadora de fugir à necessidade de legalidade das fronteiras políticas. Nos ares, não há códigos civis que protejam os prisioneiros. Brian Wood aproveita para falar ao público dos comics de rendições extra-judiciais, tortura levada a cabo por instituições democráticas e prisões sem processos legais. Algo bem conhecido que afecta aqueles que se descobrem no lado errado da pax americana após o 11 de setembro, quer sejam culpados ou não de crimes de terrorismo. Algo que não se espera mesmo encontrar num comic da venerável Marvel.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Oh joy, oh rapture.


Ah, que alegria. É nestes momentos de avaliação que tenho algumas tentações em seguir o caminho da abordagem Word e PowerPoint às TIC. Teria uma vida mais facilitada. Pequenos momentos quando olho para oitenta ficheiros de 3D, Scratch e vídeo produzidos pelos alunos de três das cinco turmas, e resultados de testes online. Felizmente incentivo o trabalho de grupo e os projectos de aprendizagem já foram avaliados em dezembro, senão teria uns dias dolorosos, agora. E estou a tentar não pensar muito nas provas gerais de escola para corrigir. Em papel, coisa que deixou alunos e restantes professores algo surpreendidos. Ora bolas.

Por outro lado, se seguisse um caminho mais convencional, não teria a oportunidade de estimular a imaginação dos alunos e ser recompensado com projectos fabulosos. Neste semestre tive surpresas excepcionais, que irão ser divulgadas no espaço das TIC em 3D ao longo dos próximos dias. Estou, como sempre, orgulhoso do trabalho desenvolvido pelos alunos.

Entretanto, mergulhemos no avaliar da avalanche de trabalhos sistematizada na folha de cálculo. Folha essa que, note-se, é um meio e não um fim. Entretanto, a tarefa é meticulosa e se não são papeis aos montes são muitos bits aglomerados em megabytes. Por isso, traindo o meu gosto inconfesso por operetas dos Gilbert & Sullivan, especialmente da HMS Pinafore, vou mergulhar nos critérios de avaliação assobiando Oh joy, oh rapture unforeseen...

Insta



A olhar para baixo.

sábado, 24 de janeiro de 2015

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Analog Science Fiction and Fact, December 2014


The Anomaly, por C. W. Johnson - Hard SF com preocupações sociais é o que está subjacente a este belíssimo conto que abre a Analog. Seguimos a ascensão de um intocável, membro de uma estratificada sociedade de castas em que as classes inferiores habitam os túneis das cidades, sendo autorizadas a sair dos túneis apenas para servir de mão de obra descartável nas fábricas lunares de combustível para naves espaciais. O personagem principal é um jovem curioso, que escapa aos grilhões da tradição e superstição graças à sua enorme vontade de aprender, mas que descobre que numa sociedade inclemente, dominada por forças inflexíveis, não há escape possível às suas raízes. Mas não é por isso que deixa de tentar.

Dino Mate, por Rosemary Claire Smith - revisita as viagens no tempo numa perspectiva que deve muito a Ray Bradbury. A ida ao passado permite descobrir os hábitos de acasalamento de dinossauros. Um conto simples, optimista e luminoso. Coisa rara, nos tempos que correm.

Citizen of the Galaxy, por Evan Dicken - talvez o mais fraco dos textos desta edição da Analog. O tema prende-se com ditaduras benevolentes e as mudanças culturais trazidas pelo contacto entre culturas, mas anda às voltas do problema das identidades impostas por forças externas para o resolver com uma suave cedência.

Mammals, por David D. Levine - um conto de forte ironia. As inteligências artificiais que conquistaram o planeta e provocaram a extinção do homem estão a ser extintas sem saber como. A resposta está nas forças evolucionárias, e nas formas de vida que evoluíram a partir das espécies sobreviventes da hecatombe provocada pelas IAs. Seres que roem as cablagens eléctricas de que as IAs dependem para sobreviver. Uma curiosa reflexão sobre pressupostos evolucionários e os erros de esquecermos a base do que somos. Note-se que os mais poderosos sistemas digitais não sobrevivem sem os humildes cabos eléctricos.

Probability Zero: All Too Human, por  Paul Carlson - a secção de especulação irónica da Analog propõe-nos este mês imaginar o que aconteceria se todas as teorias da conspiração com antigos alienígenas, homens-lagarto e tenebrosas sociedades secretas a puxar os cordelinhos do mundo fossem reais, e recaísse nos ombros de um dos poucos homo sapiens puros a responsabilidade de representar o planeta.

Saboteur, por Ken Liu - um bom conto, que se debruça sobre as problemáticas laborais trazidas pela automação. O toque moralista com que termina consegue estragar o ambiente de reflexão estabelecido ao longo das páginas.

Twist of Coil, por Miki Dare - este é o segundo conto da Analog deste mês que olha para os dilemas trazidos pela pobreza, sociedade de castas e superstição. Neste, uma jovem é obrigada a sacrificar tudo a deuses longínquos para que haja uma possibilidade de salvar o irmão de uma doença fatal. Quase diria que a Analog está timidamente a tomar uma posição sobre o impacto das desigualdades, mas não me atrevo a tanto.

Racing the Tide, por Craig DeLancey - toque de Climate Fiction, com os desafios trazidos pela subida do nível das águas do mar para as comunidades costeiras que, apesar do iminente alagar das suas casas, querem manter os antigos modos de vida. Esta linha narrativa cruza-se com os impactos negativos de método de alteração cerebral sobre o cérebro, que obrigará uma mãe a vender a alma para pagar tratamentos experimentais ao seu filho.

Humans First!, por  Kyle Kirkland - outro conto a olhar para impactos sociais das tecnologias de automação e inteligência artificial. Um técnico de manutenção de sensores dotados de inteligência artificial vê-se no meio de uma guerra entre defensores da humanidade e activistas ecológicos, ambos a usar meios violentos para atingir os seus objectivos. Isto numa sociedade dependente de decisões baseadas em algoritmos computacionais, baseada numa rede de sensores cujas inteligências artificiais locais não são muito inteligentes mas começam mostrar sintomas de interconexão e inteligência distribuída. Conceitos interessantes, mas a história oscila entre um whodoneit e infodumps que no final se tornam atabalhoados.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

When altruism wasn't silly.


"I was a child of the innocent '60s and '70s, we thought we'd abolished misery, when it seemed so little effort was needed to build utopia. When altruism wasn't silly. Or didn't cost you your life."

Palavras amargas mas certeiras, escritas por Michael Moorcock nos primeiros capítulos do seu mais recente romance, The Whispering Swarm. Capturam o sentimento de mal estar com a contemporaneidade neo-liberal. Capítulos curiosos. Em vez de nos mergulhar no mundo ficcional do livro, leva-nos a uma Londres de forte recorte auto-biográfico. Apetece cruzar a biografia ficcionada do Moorcock deste romance com a do autor e ver até que ponto somos desviados do real pela prosa treinada de um mestre do fantástico. Moorcock é um fabulista consumado, por isso há que desconfiar do que parece verosímil. Porque, camuflado em pequenos detalhes que se vão multiplicando, o mundo ficcional do romance está lá. Paralela à Londres animada dos anos 70 está uma Londres intemporal que só o olhar de alguns consegue vislumbrar.

Analog Science Fiction and Fact, November 2014


Persephone Descending, Derek Kunsken: um daqueles contos que não se percebe bem porque é que falha. Mas falha. Tem ingredientes interessantes. Num futuro onde até países do terceiro mundo estão a estabelecer lucrativas colónias no sistema solar a recém-independente nação do Quebec, num gesto grandiloquente, decide colonizar estabelecer colónias em Vénus. O conto tem um extraordinário sentido paisagístico, com descrições rigorosas e realistas mas de tirar o fôlego da paisagem venusiana. A aventura de uma personagem a tentar sobreviver a uma sabotagem na inclemente atmosfera ácida, é interessante. Há formas improváveis de vida alienígena. Um enredo com várias dimensões. E, no entanto, dei por mim a ler na diagonal, esperando que o conto chegasse ao fim.

Superior Sapience, Robert R. Chase: toca num tema interessante: autismo funcional. Imagina o cruzamento de químicos que focalizam as capacidades obsessivas do autismo ao serviço de análises de mercado. O problema é que o cokctail acaba por curar os autistas, tornando-os pessoas normais. Tem uma narrativa secundária sobre os impactos sociais do desenvolvimento de aceleradores de inteligência humana, com projectos governamentais chineses que têm como efeito secundário a queda do regime às mãos dos homens super-inteligentes que criaram.

An Exercise in Motivation, Ian Creasey: é, talvez, um longo gedankenexperiment sobre a motivação pura, abstraída de níveis espirituais e sociais. Uma terapeuta motivacional tem como tarefa motivar entidades digitais sentientes, mas apercebe-se que num mundo de pura racionalidade não há espaço para as emoções primárias de satisfação e procura de legitimidade das formas mais simples de motivação.

Habeas Corpus Callosum, Jay Werkheiser: reflecte sobre as possíveis consequências do prolongamento da vida. Num futuro onde os tratamentos de longevidade prometem a imortalidade, será ainda legitimável haver condenados a prisão perpétua? Um velho assassino, condenado a passar a vida na prisão, debate-se com a possibilidade de ser libertado mas acaba por perceber que a verdadeira prisão é o remorso pelo acto criminoso que cometeu, e não suporta enfrentar uma eternidade de remorsos.

Conquest, Bud Sparhawk: ironiza com muita graça os pressupostos da FC militarista. O aguerrido comandante da mais poderosa nave imperial terrestre faz-se ao espaço para esmagar uma revolta num planeta distante. Só que o sistema de propulsão super-lumínico da nave é experimental e sai do hiperespaço séculos depois da data prevista de chegada. Já a guerra acabou, o império se extinguiu, e o poderio da nave tornado obsoleto. O aguerrido capitão vê-se a braços com a inflexibilidade dos burocratas de um porto espacial, habituados a estes acidentes relativísticos.

Elysia Elysium, V. G. Campen: uma curiosa peça de CliFi. Estamos num futuro devastado por cataclismos ambientais. Do passado restam as pedras e conhecimento rigorosamente guardado por guildas ciosas de manter o seu poder. Perdido nas ruínas de uma antiga universidade persiste um projecto intrigante de pesquisa, que permitirá combinar células humanas com células vegetais para criar uma nova humanidade que viverá da fotossíntese. O final pode ser espúrio, mas é muito eficaz a caracterização de um futuro decaído, com um toque dickensiano entre as ruínas das metrópoles do sul dos estados unidos.

Mercy, Killer, Auston Habershaw: parte de uma premissa intrigante. E se uma inteligência artificial fosse condenada por assassinatos em série? A história não vai por onde normalmente iria com esta base. A IA em questão eliminou outras IAs, e os porquês são revelados ao seu advogado humano de defesa. No mundo desta história, as IAs evoluíram. Não deixam de cuidar dos humanos, mas começam a reproduzir-se, esgotando recursos de memória do sistema, e a adquirir o gosto pela morte violenta. A IA condenada apercebe-se que estão a apanhar os piores vícios humanos sem o correspondente humanismo, e a série de assassínio foi uma forma deliberada de se sacrificar e assim colocar a nu o mundo social secreto das IAs.

Flow, Arlan Andrews Sr.: encerra a Analog. Não encerra mal. O mundo ficcional do conto é muito interessante, levanta mais questões que responde e deixa o leitor a pensar que estamos perante uma civilização colonizada por humanos que se esqueceu das naves espaciais e atribui poderes divinos à magira. O carácter episódico do conto mostra que este faz parte de um típico romance-périplo onde um personagem curioso explora o mundo que o rodeia, levando-os consigo à descoberta dos constructos saídos do imaginário do autor.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Por Mundos Divergentes: Uma Antologia


(2014). Por Mundos Divergentes: Uma Antologia. Vagos: Editorial Divergência.

As distopias estão na moda, fruto do espírito de um tempo presente que nos parece opressivo e sem grandes perspectivas. Um tempo em que o progressismo se afundou na ganância neoliberal e as depressões financeiras esmagam as populações de um mundo ocidental. Um tempo em que o antigo obscurantismo religioso volta à tona, alimentado por políticas neo-coloniais desastrosas e por uma enorme desconfiança face à ciência e ao conhecimento, porque note-se, o fundamentalismo islâmico não é o único fundamentalismo em crescimento, apenas o mais visível. Um tempo em que os ideais humanistas e liberais da democracia, igualdade e liberdade estão sob ameaça intensa de novos fascismos ou deturpados por elites predadoras. Poderia continuar. Creio que nem sequer mencionei as  consequências alastrantes das alterações climatéricas e aquecimento global. Com isto tudo, como não olhar para este início do século XXI como um momento negro na história humana? Não surpreende, por isto, que a popularidade da distopia enquanto género esteja tão actual. Recorde-se que as ficções especulativas ajudam-nos, muitas vezes, a compreender melhor os desafios do mundo contemporâneo.

Depois do promissor Na Sombra das Palavras, a Editorial Divergência propõe-nos a antologia Por Mundos Divergentes, explorando distopias futuristas em diversas vertentes. Encontramos totalitarismos clássicos, mundos pós-apocalípticos, elitimos pós-escassez ou paraísos psicofarmacológicos. Sem ser uma excelente antologia, mantém um bom nível com contos interessantes que projectam em futuros anseios do presente, com a curiosa regra de se focarem no nosso país. Pode não ser excelente, mas note-se que é destas pedras que se vão construindo os caminhos de uma ficção especulativa portuguesa com cada vez mais qualidade e exigência com ela própria. Note-se que esta antologia, contrariando uma forte tendência entre os criadores portugueses de ficção fantástica, foge à fantasia e assume-se como de ficção científica.

Do livro ainda distinguiria o design de capa, a remeter para a iconografia propagandista dos totalitarismos do século XX. Infelizmente é um nível gráfico que não se mantém nas ilustrações do interior, excepção feita aos ilustradores dos contos Arrábida8, Dispensáveis e Em Asas Vermelhas. Neste, em particular, o toque de estética manga funcionou muito bem.

Patriarca, de Ricardo Dias, abre muito bem a antologia. O conto sublinha um totalitarismo opressivo baseado na hipervigilância automatizada por uma inteligência artificial consciente, num misto de opressão fabril dos primórdios da era industrial com o nosso corrente resvalar para uma sociedade panopticon. A história acompanha as desventuras de um inadaptado ao sistema, que apesar da sua rebeldia individual se descobre uma engrenganem de um diabólico sistema que reconhece a necessidade da dissidência para oprimir de forma mais eficaz. O patriarca do conto é uma entidade artificial, em constante evolução, com olhos em todas as câmaras e tentáculos globais em qualquer sensor. A prosa do autor é escorrida e a leitura rápida e agradável, apesar de se sentir o peso da omnipresença de Orwell, muito citado nestas curtas páginas.

Em Asas Vermelhas é outra boa surpresa. Neste conto de Nuno Almeida a distopia parece-nos pós-apocalíptica, com humanos empobrecidos a viver uma existência miserável na terra doentia à volta das muralhas polidas de uma cidade futurista. Ao longo do conto vai-nos sendo mostrado que houve uma guerra, e que cada povo tem o seu mito. Os citadinos pensam que lá fora se arrastam mutantes radioactivos, enquanto que fora da cidade se imagina que os que se ocultam atrás das muralhas estão irremediavelmente doentes. Mas a cidade, uma Lisboa de arranha-céus e alta tecnologia, está rodeada de zonas radioactivas cheias barracas cujos habitantes sobrevivem nas lixeiras. Só a meio percebemos que a segregação é racial, a guerra antiga uma forma de separar brancos de tudo o resto. A metáfora com as cidades contemporâneas de centros luminosos rodeados por subúrbios problemáticos de cintura torna-se óbvia, apesar da solidez do mundo ficcional. O conto em si é uma história de dissidências e encontros, sob o pano de fundo de revoltas e de uma cidade que quase tem de ser arrasada para perceber a insustentabilidade da sua situação. A história é longa, mas a prosa escorreita do autor, temperada por infodumps bem colocados e momentos empolgantes, mal nos deixa dar pelo passar das páginas.

Dispensáveis, por Ana Nunes é um daqueles contos que já se sabe que caminhos irá percorrer mal se lê os primeiros parágrafos. Um futuro de economias de escassez após o colapso financeiro da União Europeia, caciquismos fascistas, ruína e pobreza generalizada, e uma nova ordem social em que aqueles tidos como inúteis à sociedade são obrigados por lei a ser dispensados, largados para morrer na natureza inclemente. O conto ganha pontos pela coragem da autora em não mostrar a sociedade espontânea dos inúteis e ineptos como algum farol de esperança, seguindo o caminho do desespero completo. A sociedade do fundo é tão ou mais violenta e inclemente do que a do topo. Não há redenções, e os desprezados não hesitam em recorrer ao canibalismo para poder conseguir mais um dia. A reflexão político-social sobre os tempos que correm é bem visível.

Arrábida8 de Pedro Martins é um conto curioso. Arrepiante, a visão de um futuro euroasiático sujeito a ideais de conformidade perante o sistema, punível com um reiniciar de personalidades que elimina as memórias que fazem o ser. Intrigante, o conceito de uma espécie primitiva que sobreviveu nos fundos oceânicos e graças a um cataclismo vulcânico colonizou o estuário do Sado. E muito interessante o imaginar de uma Setúbal e Tróia futuras, mesclando as memórias visuais do presente com um futurismo de sabor asiático. No entanto o conto é pouco coerente. O mergulho no jargão futurista é prematuro, feito antes de termos uma indicação de como está estruturado o mundo ficcional, e o conto intui mais do que revela, ficando algo fragmentado.

Somos Felizes, por Sara Farinha, tem o seu quê de dualismo adolescente em extremos. Num futuro demasiado próximo do presente a obrigatoriedade da felicidade é absoluta. Emoções negativas são consideradas doenças, e aqueles que persistem em sentir tristezas acabam como cobaias de neurocirurgiões que querem perceber o porquê das resistências à felicidade induzida por terapias e químicos. É refrescante ler algo cujo ideário é tão a preto e branco, cheio de absolutas certezas que se esquivam às necessárias gradações conceptuais. Um conto simples e eficaz, que vai sempre muito direito ao assunto e não se desvia um milímetro do seu fio condutor.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

aCalopsia: Armadinho Um


Armandinho é o tipo de cartoon simpático e inofensivo que não levanta ondas nem incomoda, que só se mete com temas inócuos e toca nos mais elementares dos lugares comuns na tentativa de provocar fugazes sorrisos ao leitor. Mas tem mais êxito a provocar bocejos. Crítica completa no aCalopsia: Armandinho Um de Alexandre Beck.

A filha morta


De manhã, o café ainda a teimar em não fazer efeito sobre os neurónios enregelados. Tinha acabado de ensinar às alunas como criar um avatar no Avatar Studio, configurando-o proporções, roupas e pose, para posteriormente converterem de VRML para 3DS e importarem para aplicar numa loja que estão a modelar em Sketchup. O toque final seria fazer uma pesquisa visual sobre manequins, para as alunas saberem em que posições colocar os membros do corpo do avatar, mas as sugestões de pesquisa do Google tinham outros planos. Bolas. Nove horas de uma manhã gelada é demasiado cedo para aventuras tétricas, por muito que estas bizarrias macabras nos façam rir...

The Three-Body Problem


Cixin Liu (2014). The Three-Body Problem. Nova Iorque: TOR.

Isto para nós é novidade, mas para o público chinês Cixin Liu é um dos seus mais consagrados autores de ficção científica. A FC chinesa tem vindo a ganhar públicos no ocidente graças ao esforço de um punhado de tradutores e este livro, primeiro romance de FC chinesa publicado no mercado global, espanta pela sua qualidade. É uma daquelas raras obras que obriga leitores veteranos e endurecidos a não parar de virar a página.

No seu cerne Three-Body Problem é um romance de FC hard, na clássica e por cá já ultrapassada tradição campbelliana de conceito científico à volta do qual todo o enredo se desenrola. Esse é um dos aspectos que nos cativa. Na FC contemporânea esse espírito campelliano é quase anátema, lido como um recuo nostálgico ao passado. O ser assumido, neste livro, e sublinhado no posfácio do autor, torna-o intrigante e percebe-se que há uma dimensão interventiva na FC chinesa que nos meios ocidentais se perdeu.

No livro, a ideia-base é a do contacto entre civilizações extra-terrestres. Terreno muito batido na FC, mas Liu consegue dar-lhe um novo interesse. A descoberta da existência de civilizações extraterrestres ficará intimamente ligada a traumas decorrentes da violência da revolução cultural chinesa. Os alienígenas não têm as melhores intenções. Habitantes de um planeta cujo sistema solar alberga três sóis, estão sujeitos a ciclos aleatórios de destruição planetária. Os organismos evoluíram para ser capazes de sobreviver nos períodos de gelo profundo ou cataclismos solares, mas com o progresso civilizacional percebem que a solução para a sua sobrevivência se encontra no espaço. Quando encontram a Terra graças a uma experiência de radioastronomia chinesa, depressa traçam um plano inteligente de invasão. Sabendo que as distâncias relativísticas são implacáveis, temem que quando finalmente as suas naves chegarem à órbita os terrestres, de sobreaviso, tenham feito evoluir a sua tecnologia a níveis comparáveis ou superiores aos seus. Para evitar isto, atacam em duas frentes. Numa, socorrem-se de humanos sugestionáveis cujos traumas os levam a querer aniquilar a civilização humana. Entre ambientalistas desgostosos com a destruição de ecossistemas e cientistas amargurados pelo destino dos pais e os seus próprios problemas políticos às mãos dos guardas vermelhos nos tempos da revolução cultural o terreno é fértil.

A outra frente é um voo especulativo particularmente brilhante. A ciência extra-terrestre não é muito mais avançada do que a nossa, mas são já capazes de manipular as partículas elementares. Com isso, desdobram neutrões em n-dimensões, criando inteligências artificiais quase singularitárias com emparelhamento quântico. Enviadas à Terra, estas distorcem os resultados da pesquisa física fundamental, desconcertando e levando à loucura os físicos que, de repente, descobrem uma aleatoridade inesperada nas mais elementares leis da natureza.

Nenhuma conspiração fica por muito tempo oculta, e uma coligação internacional já está em campo para combater os alienígenas. O desespero é grande quando se apercebem que a ameaça vai de encontro ao cerne do desenvolvimento científico, mas quando se tem séculos para preparar a defesa muito ainda pode acontecer. E irá, certamente. Este é o primeiro volume de uma trilogia que termina com a curiosidade no máximo.

O toque old school do estilo de ficção científica de Cixin Liu dentro da hard SF dá a esta obra inesperada um gosto especial. Sabemos da vitalidade da FC numa China cujas instituições apoiam abertamente o género precisamente sob o ponto de vista de concepções de futuro. No gigante asiático, saído de um conturbado século XX a afirmar-se como potência global também na ciência e tecnologia, parecem sentir aquela necessidade de interpretar o presente à luz de futuros prováveis que caracterizou a FC euro-americana no seu passado recente. Ajuda o ser um texto magnífico, cheio de ideias, infodumps que fazem voar o imaginário e peripécias suficientes para manter o interesse na leitura. Este livro não passará despercebido, quer pela significância da afirmação da FC não anglo-americana no espaço de ideias global, quer, simplesmente, por ser uma leitura fantástica. Recupera aquele espírito optimista da Astounding na era de ouro da FC.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Comics


Deep State #03: Este título da Boom! Studios pega muito bem na premissa X-Files. Temos o agente veterano e endurecido a servir de mentor à jovem e promissora recruta a enfrentar ameaças tão ultra-secretas que são desconhecidas das mais obscuras agências. Estes são os primeiros na linha de defesa contra ameaças extra-normais. Como primeira aventura, nada como começar por enfrentar um alienígena que se manifestou aquando das viagens do homem à lua. Os agentes secretos julgavam-no dormente na superfície lunar, mas a entidade montou um veículo a partir do corpo de um cosmonauta abandonado e dos destroços de um módulo lunar russo. E agora chegou à terra, procurando compreender com extremo prejuízo o que move as estranhas máquinas de carne falante.

O quê, não houve russos na lua? Isso é que o que eles querem que vocês pensem...


Supreme Blue Rose #06: Devo dizer que me é difícil compreender este comic assinado por Warren Ellis. Não é a sua habitual prosa seca e hipermoderna, o seu rigoroso catastrofismo, ou o futurismo especulativo bem informado. Aqui está mais esotérico, se é que podemos chamar de esoterismo a algo fluído e tecnicista. Não ajuda desconhecer o mundo ficcional desta personagem, mais vasto que esta mini-série. O ilustrador Tula Lotay distingue-se mais pelo trabalho atmosférico e etérico do que o habitual registo dos comics de super-heróis. Na newsletter Orbital Operations Ellis já deixou transparecer que finda esta série irá trabalhar em algo de atmosférico com o ilustrador. Até lá, ficamos com este estranho futurismo de múltiplas realidades convergentes. E esta máscara, que recupera o WebCamMesh, um intrigante webtoy em WebGL que simula captura 3D em tempo real. É daqueles pormenores que só Ellis se lembraria.


Silver Surfer #08: O melhor deste reboot do personagem é, claramente, o estilo retro de Mike Allred, que assenta como uma luva nos argumentos. O outro ponto de interesse é a forma com o argumentista Dan Slott usa a oralidade e o diálogo num registo de bom humor inteligente. O constante vai-vem de diálogo a tocar no absurdismo faz recordar Doctor Who, que também vive muito desse registo. Silver Surfer é habitualmente uma personage trágica, solitária, hierática. Pomposa, nos piores momentos narrativos. Mas esta abordagem traz-lhe frescura, torna-o leve e humaniza-o, Continuamos com as intrigas galácticas, e esta edição termina com um vislumbre do portentoso Galactus. Mas de fora fica o pretensiosismo moral que caracterizou o historial do personagem desde que Stan Lee e Jack Kirby soltaram o torturado surfista das ondas cósmicas no meio da humanidade.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Sustos às Sextas


Uma tertúlia old school, que consegiu ser o que se esperava mas também surpreender. Começaria pelo espaço, Palácio dos Aciprestes, um palacete reconstruído com um interior neo-medievalista muito em voga nos anos 40 0u 50 do século XX por cá. Espaço inesperado, perdido no meio do deprimente sprawl suburbano. António Monteiro, cuja erudição sobre o horror clássico é espantosa, acolheu uma sala cheia. Houve um visitar de The Phantom of the Opera de Lloyd Weber, Ana Guimarães recordou-nos um pouco do riquíssimo substracto popular do fantástico nas lendas e tradições. Inclui, para grande surpresa minha, um documentário sobre tradições portuguesas que entre outras recordou o crime da aldeia velha, momento marcante do cruzamento entre superstição e modernidade que deu origem a um livro de Bernardo Santareno e ao surpreendente filme de Manuel de Guimarães, recuperado, se não estou em erro, há dois anos atrás no Motelx. Terminou com a sempre interessante estética fotográfica de Gisela Monteiro na exposição Da Pedra aos Ossos: observações no limiar da infinitude, que recolhe representações escultóricas de caveiras e registos de algumas capelas de ossos do sul do país. Uma apropriada reflexão estética sobre as ars moriendi (e hey, adorei a referência ao Philippe Ariès na apresentação da fotógrafa), a abrir muito bem este ciclo de tertúlias organizado pela Thinkers com apoio da Fundação Marquês de Pombal. Casa cheia, com poucas caras conhecidas, o que é bom, para que não seja este mais um tipo de evento onde os mesmos de sempre vão fazer as mesmas coisas. Apesar de ser bom rever os mesmos de sempre. E suspeito que parte da audiência veio pelo lado da fundação e talvez não repita a experiência. Como observou o João Barreiros, não fazem parte da alcateia. O que não retira mérito à iniciativa. Para o mês que vem há mais. Lá estarei.

(Texto desconexo porque longa semana, sexta-feira a dar aulas de sol a sol a turmas de trinta alunos e alguma excitação pré-impressão 3D. Entretanto, fico com isto para analisar durante os próximos tempos: Memoriamedia - Acervo Viagem ao Maravilhoso.

Ar serrano




Ares das serras de Aire e Candeeiros. Salinas de Rio Maior e Grutas de Mira de Aire, neste luminoso inverno gelado.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Scale-Bright


Benjanun Sriduangkaew (2014). Scale-Bright. Immersion Press.

Numa Hong Kong fluída os antigos mitos coexistem com a modernidade atrás de um fino véu de percepção. As gestas míticas, milenares, reflectem-se e continuam nos dias de hoje. Velhos deuses, antigos demónios, todas as criaturas de fábula cruzam-se e sobrevivem por entre os humanos. Basta um pequeno passo para se ver a cidade de fábula sobreposta ao real, onde as arquitecturas de betão se transformam em palácios feeéricos e nas ruas zigezagueiam coches e palanquins por entre o trânsito cerrado de automóveis. Mas esse passo só pode ser dado a convite de alguma das criaturas míticas, e há preços a ser pagos. É o que acontece a Julienne, jovem heroína deste livro. Orfã, é apadrinhada por duas tias que são muito mais do que aparentam ser. São a forma humana de dois mitos chineses, unidas num casamento de amor imortal, e a jovem tem no seu sangue ascendência destas ancestrais imortais. Esse toque do divino abre-lhe as portas do mundo que está para lá do olhar, aos demónios benévolos, monges caçadores e uma serpente que se tornará a sua grande paixão.

Fantasia urbana decididamente orientalista, Scale Bright pega de forma delicada nas criaturas míticas chinesas. Colide o real com o mítico, na estrutura clássica do périplo de uma personagem que através das suas aventuras nos mostra um mundo de fantástico. Delicado e orientalista, este livro é uma verdadeira chinoiserie em prosa bem medida, com uma forte vertente sexualizante expressa no assumido e militante lesbianismo das personagens principais.

O problema está em dissociar a obra da autora. Benjanun Sriduangkaew, escritora tailandesa, foi recentemente desmascarada como a mais vitrióloca troll das comunidades online de FC e fantástico. Não troll daquelas chatas e incómodas, mas das violentas, ameaçadoras e perseguidoras. Ao que consta, até autores portugueses se viram na mira das suas acérbicas palavras. Péssima ideia, que certamente colocará um ponto final na carreira literária. Suspeito que as portas da crítica lhe estejam irremediavelmente vedadas, que publicar novamente em nome próprio não dê origem a vendas, e não é difícil imaginar o que seria a sua presença em painéis de festivais literários. É pena. A FC e o fantástico precisam de vozes globais capazes de trazer outras sensibilidades e tradições culturais que contrariem o monolitismo anglo-americano. Esta voz, aparentemente calma e delicada a ocultar uma inquietante virulência online, calar-se-á, ou será silenciada com coros de protestos num futuro próximo.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Cecília Paz 15.º Dia em Marte


Daniel Ferreira (2007). Cecília Paz 15.º Dia em Marte. Vila Nova de Gaia: Gailivro.

Gostaria muito de não desancar este livro. Foi uma descoberta nas prateleiras de FC em português numa livraria de Óbidos. Nunca tinha ouvido falar deste livro, e se me dissessem que havia romances de FC para público jovem escritos em português eu não acreditaria. Mas existem, e este é um desses casos. Num panorama tão restrito como o nosso só este carácter já é merecedor de destaque.

Junte-se a isto uma história bem ritmada, com uma jovem heroína à caça do assassino do seu pai, morto às mãos de um terrorista que aparentemente se esconde na colónia marciana. Uma boa desculpa para uma viagem da Terra a Marte, com encontros com os benévolos marcianos e piratas espaciais alienígenas. A colónia marciana tem o seu quê de subúrbio, e a acção depressa regressa à Terra, com a caçada final ao terrorista nas montanhas da floresta negra alemã auxiliada por um eficaz guia de montanha e um hacker russo refugiado em Lisboa. Nada mau como enredo para um público infanto-juvenil, com uma estrutura simples, momentos empolgantes e jovens heróis em aventuras contínuas.

O mundo ficcional do livro também se adequa muito a este género. Vive-se num futuro de distopia disfarçada, com os governos terrestres centralizados a restringir cultura e comportamentos em nome da segurança e bem-estar e uma sociedade panopticon de redes digitais e videovigilância. A colónia marciana é o único local onde os terrestres podem ser verdadeiramente livres, e existe num equilíbrio precário entre a vontade terrestres e a benevolência da mais avançada civilização marciana. Pelo meio temos estações espaciais, bases lunares e viagens pelo sistema solar a velocidades realistas. Não é um enorme voo de especulação, antes, extrapola o mundo contemporâneo com toques de cyber-distopia. O que me leva a uma das questões mal respondidas do livro: se os governos são opressivos, porque é que aquele que os combate é o vilão?

Estes elementos são interessantes, e bem montados dentro de uma narrativa young adult, mas não chegam para nos legar um excelente livro. A história tem curiosas inconsistências - invasores alienígenas que aparecem a meio do livro depois dos infodumps em que o autor nos explica que o sistema solar é habitado por terrestres e marcianos, ou guias de montanha cheios de gadgets muito úteis para invadir as fortalezas secretas de perigosos vilões que se fazem acompanhar de dilectos mordomos são talvez as mais óbvias.

Até aqui menos mal. Os problemas começam quando olhamos para o carácter literário do livro. Ou, talvez, a sua ausência. O uso da linguagem tem aqui momentos atrozes. Imaginem parágrafos inteiros ou discursos entrecortados por vírgulas ou exclamações, sem ritmo, nem sequer de fluxo mental. Boa parte do livro é assim, apesar de ressalvar que sensivelmente a partir do meio a prosa melhora e focaliza-se muito bem. Suspeito que isto é sintoma da velha questão da edição e do papel do editor na melhoria dos textos, que vejo muitas vezes debatida nos fóruns dedicados à ficção de género.

Também não resisto a assinalar a propensão do autor para nomes ridículos. O apelidar a sua personagem principal de "cecília" e o título tão mal sonante do livro são pistas para o que nos espera no interior. Temos expressões e apelidos tão irritantes como "ford spid fire" (spid, leram bem, e não é gralha de speed ou spider porque se repete várias vezes), o uerer ser futurista á força e chamar jactódromos a aeroportos (esta expressão ejaculatória provoca volteios ao estômago). A melhor preciosidade é o nome dado ao grupo terrorista "força terrorista mundial", que o autor se apressa a dar-nos o seu acrónimo em inglês: wtf. WTF pensei eu quando li esta pérola.

São falhas, graves do ponto de vista da ficção científica mais cuidada e pensada. Mas como livro de FC para um público infanto-juvenil esta é uma boa leitura, apesar das muitas falhas. Terminada a leitura, confesso que tenho imensa pena em desancar os aspectos formais e os pormenores da construção ficcional deste livro.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

The company defines the rules


"So, goodbye to the old morality. What then?

Freedom. A giant multinational like Fuji or General Motors sets its own morality. The company defines the rules that govern how you treat your spouse, where you educate your children, the sensible limits to stock-market nvestment. The bank decides how big ortgage you can handle, the right amount of health insurance to buy. There are no more immoral decisions than there are on a new superhighway. Unless you own a Ferrari, pressing the accelerator is not a moral decision. Ford and Fiat and Toyota have engineered in a sensible response curve. We can rely on their judgement, and that leaves us free to get on with the rest of our lives. We've achieved real freedom, the freedom from morality."

J.G. Ballard, Super-Cannes.

Estranhamente presciente, esta tirada de Ballard no ano 2000. Parece intuir uma ideia que hoje está a ganhar tracção: o conceito de moralismo assistido por tecnologia, ou como sensores e dispositivos portáteis de rastreio nos ajudam a escolher comportamentos saudáveis ou moralmente correctos. É algo muito presente nas especulações sobre as potencialidades dos sensores Internet of Things, especialmente nos sensores dedicados á saúde e bem estar. Há algo de arrepiante nesta ideia de moralização extrínseca através da hipervigilância benévola. Algo de especulativo em 2000, mas hoje a ser implementado através das redes móveis e dispositivos digitais.

Malign Velocities: Accelerationism and Capitalism


Benjamin Noys (2014). Malign Velocities: Accelerationism and Capitalism. Londres: Zero Books.

Uma ideia intrigante: e se em vez de combater os excessos do capitalismo a estratégia fosse de aprofundamento e estímulo aos excessos, provocando a sua derrocada através da aceleração a extremos? Curiosa teoria. Pessoalmente tenho alguma dificuldade em imaginar células de bilionários revolucionários, nadando em riquezas incomensuráveis, empenhados em deixar exsangues os sistemas económicos, sonhando com o dia em que as turbas ululantes se revoltarão e espetem as suas cabeças em paus como vingança pela desigualdade devastadora, sociedade esquizofrénica e catástrofes ambientais legadas pelo capitalismo terminal.

Desta premissa Noys parte para uma análise de movimentos artísticos e teorias filosóficas influentes ao longo do século XX e princípios do XXI. Começa com o sempre interessante futurismo, com a sua estética deslumbrada pela então novidade da massificação mecânica, da velocidade e da guerra. Recorda-nos como os entusiastas da velocidade mecanicista e do belicismo desenfreado se estamparam sob as balas na frente da I Guerra, fim apropriadamente catastrófico para os entusiasmos mais destravados. Daí mergulha nos campos mais rarefeitos das teorias do real da escola francesa, terreno pantanoso mais intrigante. Toca, como não poderia deixar de ser, no cyberpunk como tomada de pulso da colisão entre utopias e distopias tecnicistas propiciadas pelo mundo digital. Termina com um toque escatológico, afirmando a merdice do capitalismo desenfreado quer como característica que lhe é inerente quer como o estado em que deixa aqueles que são descartados pelo sistema.

Com uma boa análise sobre ideias da contemporaneidade sobre velocidade, não perde de vista um catastrofismo deslumbrado, entusiasta da derrocada total sem olhar às consequências. Mas não deixa de tocar num ponto óbvio e doloroso para aqueles com incapacidades bilionárias: o capitalismo desregulado de índole neo-liberal está a ter consequências devastadoras no tecido social. Este conceito de aceleração em direcção ao colapso é uma perspectiva algo absurdista que nos ajuda a sentir a extensão dos problemas causados por ganância sistematizada em estado puro.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Les Secrets des Chefs-d'oeuvre de la BD


Thierry Taittinger (ed.) (2014). Beaux-Arts Hors-Série: Les Secrets des Chefs-d'oeuvre de la BD. Paris: TTMéditions.

Uma boa leitura nesta transição de 2014 para 2015. A BD vista pelos ensaístas da revista francesa Beax Arts, analisando autores e obras importantes. Dá-nos como bónus algumas pranchas esquecidas ou inéditas. E.P. Jacobs retrata a descoberta do túmulo de Tutankhamon. Há uma história inédita de Corto Maltese, com Hugo Pratt a rascunhar um regresso do veterano viajante aos lugares da Balada do Mar Salgado. O trauma da desagregação da Jugoslávia e a guerra bósnia são revisitados num grafismo estonteante por Enki Bilal. Art Spiegelman revisita a faísca criativa de Maus, e as primeiras pranchas por Chris Ware de Jimmy Corrigan na ACME Novelty Library são aqui traduzidas para francês.

A edição centra-se em livros-chave e nos seus autores: O Lótus Azul de Hergé, O Mistério da Grande Pirâmide de E.P. Jacobs, Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt, O Espectro das Balas de Ouro de Charlier e Jean Giraud, Os Passageiros do Vento de Bourgeon, A Caçada de Christin e Bilal, Maus de Art Spiegelman, 120, Rue de la Gare de Tardi, From Hell de Alan Moore e Eddie Campbell, Jimmy Corrigan de Chris Ware. Analisa um pouco dos autores e sua obra, reflectindo na construção das narrativas, registos gráficos documentais e estrutura de leitura das vinhetas. Vistos como um todo, traçam a evolução da BD de leitura informal juvenil até à corrente visão de arte que se socorre da narrativa literária, enquadramento visual e mestria gráfica, afirmada como de direito próprio.

O foco em Hergé mostra a evolução de um autor de bd simplista e panfletária para a construção de narrativas bem estruturadas, que se socorrem de fortes pesquisas cenográficas e não fogem aos dilemas da realidade contemporânea. E.P. Jacobs centra-se na mestria do traço e no rigor da representação. Pratt simboliza a mescla entre o viajar e o contar de histórias, bem como do afastamento do realismo meticuloso com grafismo mais livre, mas essencialmente por simbolizar a génese do romance gráfico, degrau de amadurecimento da BD que se afasta da aventura episódica. Para Giraud o foco está no fascínio pelo velho oeste, expresso em pranchas que capturam as paisagens desérticas de tirar o fôlego. Bourgeon é destacado pelo seu rigor gráfico, foco em personagens femininas e cuidado no retratar de épocas históricas. Bilal é outro incontornável, aqui registado pelo seu grafismo à época inovador nas colaborações com Pierre Christin, que mostram a capacidade da BD de interpretar os dilemas do mundo contemporâneo. A história revista de modo fortísimo em toque auto-biográfico é reflectida na abordagem de Art Spiegelman às memórias individuais e colectivas do holocausto. Jacques Tardi é analisado através do cruzamento entre literatura e banda desenhada, e como este cruzamento dá um novo poder a histórias que se afirmam em diferentes media. A maturidade da bd enquanto romance gráfico é analisada pelo lado do argumento com a minúcia e sentido de estranheza de Alan Moore, enquanto o experimentalismo gráfico é visto a partir do grafismo de Chris Ware.

Podemos discordar da escolha das obras ou apontar outros autores, mas trata-se da Beaux Arts, revista mais formal e algo longínqua das vanguardas gráficas. As análises são interessantes, com atenção dada aos pormenores estruturais da gramática visual da banda desenhada e um sublinhar da importância do referencial. Só uma coisa me irritou, como fã de Ficção Científica. Ao falar de Giraud, era ao articulista impossível de fugir ao espectro Moebius, e afirma-o como contaminado pela FC por via de Druillet. Contaminado. Fiquei a ruminar neste óbvio desconsiderar do lado mais belo e espantoso do trabalho de Giraud/Moebius por causa das contaminações. No parágrafo seguinte o mesmo articulista saúda a série Tenente Blueberry por provar à opinião pública, à época, que a BD se afirmava de direito próprio, não se limitando à historieta infantil ou aventura para divertimento massificado. Que bom, pensei. BD é erudita, mas essas coisas da ficção científica contaminam e são de evitar. Uma pequena incoerência, a juntar-se à inexplicável escolha da adaptação de um policial para falar de Tardi, ao invés de Adéle Blanc-Sec ou dos sublimes livros do autor sobre a guerra nas trincheiras. Mas aqui falamos de escolhas, sempre polémicas se vistas pelos prismas dos amantes do género. No global esta edição especial deu que pensar. Mostrou a rápida evolução conceptual da BD através de autores e livros marcantes.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Comics


Lady Killer #01: Um comic sobre uma dedicada dona de casa que também é uma altamente treinada e eficaz assassina profissional? Onde é que já li isto? É demasiado similar a Jennifer Blood de Garth Ennis para não ser coincidência. O que este título da Dark Horse traz é um toque retro e uma qualidade gráfica deslumbrante na ilustração, coisa que não se pode dizer que o comic de Ennis na Avatar Press sofria. De resto é o esperado, com a dissonância entre a violência e a banalidade doméstica, num registo mais aceitável do que da obra que o inspirou.


ODY-C #02: Um espanto visual, este comic. A mestria gráfica e o arrojo da cor ao serviço de space opera psicadélica. É pena que o argumento de Matt Fraction não acompanhe a mestria e se aproxime da ilegibilidade. Ressalve-se que adaptar a Odisseia mantendo um respeito pela tradição oral da poesia da antiguidade clássica dentro de um cenário futurista não é tarefa fácil, mas o argumentista normalmente prima por uma certa ilegibilidade que privilegia a vinheta de encher o olho. Um carácter que já se notava em Casanova.


Trees #08: Chega o momento em que Warren Ellis tira o tapete aos leitores e elimina personagens cuja empatia cultivou ao longo da série. Fantástica, e típica do catastrofismo hipermoderno de Ellis, esta imagem de drones a higienizar uma cidade chinesa onde o governo permitiu de forma experimental alguma liberdade para modos de vida alternativos. A experiência termina e o laboratório será limpo, palavras que Ellis coloca na boca de um anónimo oficial do exército popular. E, finalmente, ao fim de oito edições, as árvores alienígenas dão sinal de fazer qualquer coisa. Digamos que este oitavo número da série termina a deixar uma vontade que o próximo seja editado muito depressa.


War Stories #04: Mostrando que o seu fascínio pelas artes bélicas não se limita à II Guerra, Garth Ennis leva-nos a Israel nos dias da guerra do Yom Kippur. A estrutura é clássica. Acompanhamos um sargento veterano, comandante de uma unidade de tanques nos montes Golan, prestes a enfrentar uma das maiores batalhas de blindados do passado recente frente ao exército sírio.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Insta





aCalopsia: Batman Digital Justice


No aCalopsia, um regresso a um clássico esquecido dos comics. Inaugura uma série de crónicas/ensaios, em estilo de retro-crítica, que recupera algumas bandas desenhadas algo esquecidas. Quando se está mergulhado na intensa blogoesfera (pronto, intensa para os nossos padrões) e a olhar para as constantes novidades, mergulhado no fluxo do novo, há sempre momentos em que olhamos para a estante e e recordamos livros que nos marcaram, que achámos curiosos, cuja leitura nos deleitou ou que merecem ser redescobertos. A inspiração veio da clássica Fantasy & Science Fiction, que terminava sempre com uma secção de curiosidades onde escritores contemporâneos recordavam livros e autores esquecidos. Quando ao Digital Justice, foi uma banda desenhada precursora que merece releituras. Visualmente datada, marca um grafismo característico de época e tecnologia, que hoje se mantém como artefacto histórico. Aponta, com a exuberância típica do cyberpunk, para um futuro nas técnicas de ilustração que hoje é normal e invisível para o leitor. O visual colorido berrante, a pose Max Headroom, recordam a nostalgia de um futuro que prometia maravilhas e distopias, futuro esse que talvez seja o nosso cinzento presente. Também recorda os primórdios de um grafismo digital que se veio a tornar pervasivo e hiperreal. Artigo completo no aCalopsia: Batman Justiça Digital.