quinta-feira, 27 de julho de 2017

Man:Plus



André Lima Araújo (2016). Man:Plus Electric Memory. Londres: Titan Comics.

Man:Plus veste muito bem e sem medo as suas referências. É um trabalho assumidamente derivativo, feito como homenagem ao cyberpunk clássico, ao mangá de FC e às séries policiais procedimentais. Não copia à sorrelfa elementos destes géneros, tentando passar-se por obra nova e inédita. A cópia é visível, intencional e assumida. Se a história é original, não tem medo de citar estilistica, temática e visualmente as influências que claramente fascinam André Araújo. Consigo ler este livro quer como aventura cyberpunk, no que é igual a tantas outras, mas o seu lado de homenagem, quase fan fiction de um fã conhecedor e talentoso, é o que desperta o interesse. Isso, e o estilo gráfico do autor, que já ouvi descrito como uma espécie de Shirow português.

Estamos num futuro próximo, na mega-cidade de Olissipo, não uma Lisboa futurista mas uma cidade nova, construída por um conglomerado chinês que vê nos territórios abandonados portugueses uma porta de entrada barata para a europa. Nas ruas da cidade surge um andróide em fuga, perseguido por temíveis mercenários ciber-aumentados. Uma unidade de investigação especial da polícia envolve-se, com agentes que também têm próteses cibernéticas e que não desdenham o submundo dos hackers para decifrar os mais avançados algoritmos. No cerne da narrativa, um cientista que fez o upload da mente da sua falecida mulher para o corpo de um andróide. O conflito entre a mente humana e a inteligência artificial provoca comportamentos anómalos num mecanismo que ultrapassa a condição de máquina, e o maior gestor do conglomerado faz tudo para capturar a andróide, em busca de novos produtos a mercantilizar.

Se estas linhas narrativas vos soam demasiado a Ghost In The Shell ou a Neuromancer, é porque o são. Os ingredientes estão lá todos, sublinhando este Man:Plus não como mais uma banal história cyberpunk, mas como uma homenagem conhecedora do género. Ciber-tecnologias, andróides conscientes que transcendem a fronteira entre o mecânico e a vida, intrigas nos corredores de mega-corporações que não olham a meios para assegurar lucros, a mistura high tech com decadência e a dose exagerada de fascínio oriental, todos os elementos do cozinhado cyberpunk são manipulados com gosto por André Araújo, com alguns retoques especiais, como a referência às séries televisivas de policial procedimental futurista (uma das personagens é uma referência directa à atriz americana Linda Hunt) e, no título, uma ligação a Man Plus de Frederik Pohl. Também se detectam laivos de Blade Runner (andróides avançados a ser usados no espaço exterior), e a referência estética ao mangá Cyberpunk, especialmente ao trabalho de Masamune Shirow, é omnipresente. Na fronteira entre obra de mérito próprio e fan fiction erudita, Man:Plus é uma declaração de amor ao cyberpunk, fantasticamente ilustrada.

aCalopsia: Platinum End Vol. 1



Tsugumi Ohba, Takeshi Obata (2017). Platinum End Volume 1. Palmela: Devir.

Ser deus é um evento cíclico, até o cansaço pesar nos ombros e levar ao seu afastamento. Com o lugar vazio, treze anjos podem disputar entre si o acesso à divindade. Anjos nunca serão deuses, mas assegurarão poder absoluto se a pessoa que escolherem sobreviver ao processo e transcender a sua humanidade. Sob este cenário, uma anjo algo inexperiente intervém para salvar a vida de um adolescente deprimido. Ao fazê-lo, são ambos lançados neste jogo de poder de consequências fatais. Para se ser um deus, é preciso ter olhado o abismo da depressão, só aqueles que redescobrem a vida terão vontade de a proteger e fazer evoluir, o papel que terão desempenhar como deus. É esta a premissa de Platinum End, a nova série de mangá trazida para Portugal pela Devir, com argumento de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, já conhecidos do público português pela série Death Note. Recensão completa no aCalopsia: Platinum End.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Doctor Who: A Brief History of Time Lords



Steve Tribe (2017). Doctor Who: A Brief History of Time Lords. Londres: BBC Books.

Um mergulho na mitologia da deliciosa esquisitice que é Doctor Who. Neste Time Lords, somos levados à história dos senhores de Gallifrey, passando pelas personagens que marcaram a série, os dramas de uma civilização que viveu a mais dilacerante guerra de todos os tempos (literalmente, lutada em todas as continuidades do passado ao futuro). Essencialmente, um revisitar de antigos e recentes episódios da série, destacando as aventuras do Doctor que envolvem a sua origem.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Comics


Generation Gone #01: a mistura bizarra de filosofia com modernidade tecnológica que caracteriza  o trabalho do argumentista Ales Kot seduziu-me com Material. Kot está de volta, com uma nova série que mistura o cyberpunk com o género super-heróis. A premissa é um código desenvolvido por um cientista que despoleta transformações super-humanas em quem a ele é exposto. Promissor, e ajuda saber que a ilustração está a cargo de André Lima Araújo. Do desenhador português, autor de Man:Plus, já se sabe que a carga cyberpunk vai ser elevada.


The Wildstorm #06: Há que apreciar a frieza com que Warren Ellis executa este reboot para a DC Comics. São os seus temas habituais, forças ocultas institucionais que controlam os destinos planetários nas sombras, distorções induzidas por abordagens excêntricas à tecnologia. E, porque não, alienígenas que lutam contra os opressores da Terra.

sábado, 22 de julho de 2017

Science Fiction Double Feature









A citação é do filme The Rocky Horror Picture Show, mas a referência é ao g33king out no festival Sci-Fi Lx 2017. Dois dias awesome, dedicados ao melhor da cultura de género.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Astronauta: Assimetria



Danilo Beyruth, Cris Peter (2016). Astronauta: Assimetria. Barueri: Panini.

Um curiosamente interessante aproveitamento de personagens de banda desenhada infantil dos estúdios brasileiros Maurício de Sousa, que têm reinventado o clássico Turma da Mônica para públicos young adult, deixando para trás o estilo cartoon e investindo em argumentos complextos e estilo mais realista. Ou FC pura, como no caso dos livros da série Astronauta, onde Danilo Beyruth pega num personagem secundário da banda desenhada original e lhe dá traços de space opera.

Nesta aventura, o amargurado astronauta, que teve de deixar os seus amores para trás ao juntar-se ao programa espacial, investiga uma anomalia em Júpiter que se revela ser uma fenda no espaço-tempo, aberta por entidades cósmicas. Cruza-se com um seu outro eu de um universo paralelo, onde descobre o que poderia ser a sua vida de aventuras espaciais com o amor da sua vida vida, e nas peripécias do fechar da fenda temporal, acaba por ficar preso num terceiro universo, acompanhado pela filha do seu eu do outro mundo paralelo.

A narrativa é sólida e bem ilustrada, representativa do melhor que a banda desenhada brasileira oferece ao seu público.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

As Nuvens de Hamburgo



Pedro Cipriano (2017). As Nuvens de Hamburgo. Lisboa: Flybooks.

Uma belíssima surpresa, este romance de Pedro Cipriano. Marta, uma jovem estudante que luta pela sua independência face a pais excessivamente protetores, decide-se por Hamburgo para estudar a área científica que mais a apaixona. O chegar à cidade ao abrigo de um programa Erasmus, preparando-se para iniciar as aulas do curso de História, tentar vencer barreiras linguísticas e culturais enquanto faz novas amizades com os colegas participantes no programa, são já de si fortes desafios. Mas enquanto descobre a cidade, Marta vê-se transportada a um outro tempo, sentindo na pele a tragédia do passado histórico recente da Alemanha. O que são aparentemente pequenas alucinações, com Marta a vislumbrar a cidade não de hoje mas dos tempos da II guerra, depressa se transforma em algo mais perigoso, invocando uma estranha relação com um criminoso de guerra que escapou impune aos tribunais da história.

É impossível dissociar neste livro o peso da história europeia contemporânea, e é o elemento que dá força. Caminhar pelas ruas de uma cidade europeia não se limita ao percecionar dos espaços urbanos. Para os conhecedores, há também uma sobreposição com os registos e a memória histórica. O presente próspero coexiste, na nossa mente, com os traumas do passado. É esse sentimento que Pedro Cipriano tão bem explora no registo fantástico. A Alemanha é a escolha lógica para um enredo deste género, embora suspeite que a escolha de cenário tenha algo a ver com as experiências pessoais do autor, pelo tremendo trauma nacional do nazismo e suas consequências extremas. Um peso que passou a fazer parte do caráter germânico.

As Nuvens de Hamburgo oscilam entre a banal história de libertação de uma jovem adulta e as feridas traumáticas da II guerra. Lê-se ao ritmo de um thriller, com o aprofundar das relações humanas entre personagens a ser pontuado por uma progressiva espiral descendente de mistério em viagem não intencional no tempo.

Um pormenor curioso neste livro é a editora que o publica. Pedro Cipriano é uma voz activa no meio editorial do fantástico português, tendo fundado a Editorial Divergência para publicar os novos autores que vão surgindo neste panorama reduzido, mas cheio de gente com vontade de fazer coisas. Recordo-me de o ter encontrado num Fórum Fantástico, a vender a sua primeira antologia de contos fantásticos, de lhe ler o entusiasmo nos olhos enquanto me explicava o seu projeto editorial. Confesso que não acreditei nele. A experiência tem-me ensinado que a maior parte dos jovens autores e editores que encontro em eventos e convenções é eventualmente levado pelo factor "life happens", que são muito raros os projetos e vozes promissoras que passam do primeiro conto ou romance. Todos os anos vejo o lançamento de novos projetos, sempre com aquele brilho nos olhos dos autores, e raramente lhes vejo continuidade. É sintomático do caráter residual das culturas de género em Portugal, insustentáveis do ponto de vista comercial. No entanto, alguns anos depois, continuo a ver Cipriano a editar, entre antologias que dão voz aos que querem publicar os seus contos, romances dos novos autores, e até consagrados mas malditos pelo consenso cultural normativo. Adoro quando me mostram que estou errado nas minhas perceções, e neste caso específico tenho uma parte substancial de uma estante a ser ocupado pela Divergência. Sublinhando a sua ética e postura como editor, este livro não é publicado pela sua editora. Um pormenor interessante mas que diz muito sobre este jovem cientista que já passou pelo CERN, é agora empreendedor na área da educação e que, apesar da sua aparência calma e algo franzina, é mestre numa arte marcial. Em suma, quer neste livro quer como editor, Cipriano kicks ass!

terça-feira, 18 de julho de 2017

The Longest Night



Hubert Haensel (2016). Perry Rhodan Lemuria #6: The Longest Night. Rastatt: PMW.

A conclusão da saga Lemuria traz-nos um prenúncio de apocalipse, que será evitado por circunstâncias inesperadas. O poder adormecido das Bestas, antepassados dos Halutianos, manifesta-se no acordar de bases secretas onde, durante milénios, o armamento este pronto para construir naves de combate e tanques regeneraram continuamente corpos de soldados, prontos para o conflito final. Apesar de formidáveis, já não representam o perigo que quase exterminou Lemuria. Passaram-se milhares de anos, e a tecnologia das civilizações galácticas que se sucederam avançou e é capaz de derrotar as temíveis Bestas.

Perry Rhodan e os seus companheiros, presos no planeta onde foi descoberta a primeira base oculta, exploram os seus vastos antros até à inevitável captura. Levados para outra base oculta, sobrevivem às torturas e interrogatórios, sendo salvos por soldados Bestas que se começam a questionar sobre se a razão inquestionável dos seus líderes é absoluta. O exemplo do halutiano Tolot mostra-lhes que a fúria cega da missão para a qual foram criados não é correta, e que as próprias premissas da sua formação poderão estar erradas.

Levian Paronn oscila entre o papel de vilão, pela sua vontade de utilizar paradoxos temporais para restaurar a antiga Lemuria, e o de herói melancólico, amargurado pela perda do seu passado, incapaz de compreender a evolução trazida pelo futuro onde vive. Com naves geracionais lemurianas ainda a sulcar os golfos espaciais, poderá ter ainda um papel no renascer da civilização que o formou, já sem ser capaz de anular milénios de história, mas a guiar os descendentes das naves.

O final da saga traz-nos momentos de grande acção, de nível épico, com as batalhas pela destruição das bases secretas das Bestas a unir as diferentes civilizações humanas. E, também, algumas revelações. O início da saga, com Rhodan como passageiro de uma nave de prospeção mineira (cuja tripulação terá um papel heróico em toda a saga), não foi um acaso. Rhodan escolheu esse subterfúgio para poder entrar nas zonas espaciais controladas pelos Akonianos, civilização isolacionista, e investigar rumores que circulavam entre agências secretas sobre vestígios encontrados por Arkónidas num sítio arqueológico num planeta deserto, uma base secreta dos Bestas que avariou. Ir a Akon na sua qualidade de representante da liga terrestre traria dificuldades que uma aproximação discreta evitaria. No entanto, no Perryverso, aventuras calmas é coisa que Rhodan não tem.

Esta divertida saga é uma rara amostra, traduzida para inglês pela editora alemã, da vastidão deste universo ficcional. Um historial incrível de edição, contínua desde os anos 60 do século XX, com mais de quatro mil livros. Um manancial acessível apenas aos conhecedores da língua alemã, salvo algumas excepções em traduções francesas, americanas ou brasileiras. O fã de FC que há em mim, por um lado, lamenta este desconhecimento de um universo ficcional de FC tão rico como o Perryverso. Por outro, trata-se de uma série comercial, impossível por isso de levar muito a sério. Leituras fragmentadas encontradas aqui e ali podem criar a expectativa de uma ficção de qualidade homogénea, mas sabemos bem que o caráter episódico deste género de literatura se traduz numa continuidade mecanizada de episódios, a maior parte dos quais facilmente esquecidos, em escritas mecânicas que vão avançando histórias intermináveis e fundamentalmente repetitivas. Algo que qualquer leitor de comics percebe bem. Numa FC que cada vez mais se assume como um género literário reflexivo, atento à qualidade narrativa e sólido nas suas especulações, é fácil desconsiderar este género de publicações. No entanto, o Perryverso não deixa de ter os seus pontos de interesse, nem que seja por ser, talvez, um dos últimos exemplos da clássica FC pulp ainda hoje em edição e desenvolvimento contínuo.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Comics


The Divided States of Hysteria #02: Howard Chaykin em modo de frenesi total, mais frenético do que o seu habitual, nesta história chocante sobre terrorismo e inépcia política. É um exorcismo à colisão entre paranóias da guerra ao terror com o iliberalismo alastrante na política global.


War Stories #24: Porque o classicismo também sabe bem, e Garth Ennis nesta série opta pelo registo discreto, contando histórias que, no fundo, dão vida a toda uma época histórica.

sábado, 15 de julho de 2017

The Teaches of Peaches






Um PDP-15 esquecido nos corredores labirínticos da Faculdade de Ciências, uma luva perdida numa manhã enevoada em Torres Vedras, um concerto memorável no NOS Alive.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Todos os Dias São Meus



Ana Saragoça (2012). Todos os dias são meus. Lisboa: Editorial Estampa.

Este é um livro exímio em defraudar expectativas. Começa logo pelo título, uma citação de Alberto Caeiro a remeter para o cor de rosa da chick-lit. Viramos a página e o potencial cor-de-rosa desvanece-se logo com um cadáver descoberto no elevador de um prédio lisboeta. Estaremos perante um policial clássico, onde até ao virar da última página ficamos em suspenso para descobrir a identidade do assassino? De certa forma, porque parte do livro estrutura-se à volta de uma morte anunciada, levando-nos a conhecer a vítima, uma mulher que sempre sentiu não fazer parte do mundo que a rodeia, encontra uma voz inesperadamente poderosa no mundo digital, e manipula um homem para a assassinar.

A busca das razões para a morte funciona como fio condutor para o lado mais divertido e acutilante deste livro: a forma como Ana Saragoça caricatura tipos especiais da fauna humana lisboeta. Mordaz e corrosiva, mostra-nos o absurdo dos tipos sociais com que nos cruzamos todos os dias no devir urbano. Não falha uma, desde a porteira metediça e cheia de opiniões ao divorciado com filhos complicados e namorada que é artista boémia graças ao dinheiro da família, sem esquecer o idoso solitário que passou a vida a lutar para que os filhos fossem longe ou os emigrantes de leste que se acumulam num apartamento arrendado. É, talvez, o verdadeiro espírito deste livro, onde a história de uma morte se torna uma desculpa para uma crónica mordaz de costumes.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Constante estado de inestabilidad


"Las tecnologias no se pueden reducir a la tecnica, y el discurso de la tecnica no sirve para las tecnologias, pero todavia no tenemos otro, y probablemente no lo volveremos a tener. Para algunos, nos encontramos en una epoca de transicion, pero la idea de pasar de un periodo de "inestabilidad" a un periodo de estabilidad se muestra, en si misma, heredera de un pensamiento clasico. La "estabilidad", hoy en dia, se desarrolla en un constante estado de inestabilidad. El pensamiento utópico del regreso a un estado ideal permanente, invariable e inalterable ya no se puede defender."

Ricardo Iglesias García (2016). Arte y Robótica: La Tecnología como Experimentacíon Estética. Madrid: Casimiro Libros

Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D.

 

Stan Lee, Jack Kirby, Jim Steranko (2012). Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D.. Oeiras: Levoir.

É sempre divertido reler as aventuras clássicas de Nick Fury dos anos 60. Não pela sua qualidade narrativa intrínseca, são um produto típico da Marvel para um público alvo jovem. As eternas intrigas sobre a origem da Hydra, da época em que Fury dividia as páginas da Strange Tales com Doctor Strange, são pretextos para episódios de ação inverosímil, temperadas com boas doses de tecnologias fantásticas. Já nas páginas dos primeiros números com título próprio, os argumentos tornam-se mais complexos, mas sem deixarem de ser explosivos. Divertido, mas datado. O que faz valer a pena o revisitar deste comic clássico é o seu estilo visual, inicialmente definido pelo estilo robusto de Jack Kirby, mas que depressa deu lugar ao surrealismo pop de Jim Steranko, que progressivamente se atreveu a ser cada vez mais visualmente experimentalista no rumo visual que deu à personagem. Legou-nos grandes capas e grandes vinhetas, com as melhores das suas histórias reproduzidas neste volume, como o fantástico início da saga de Scorpio (finalizada anos mais tarde por Howard Chaikyn numa graphic novel) ou Dark Moon Rise, Hell Hound Kill, onde Steranko se atreve a dissolver os limites das vinhetas, num grafismo mais próximo da BD europeia do que do limitativo estilo comercial do comic americano.

terça-feira, 11 de julho de 2017

A Arte Suprema


Rui Zink, António Jorge Gonçalves (2007). A Arte Suprema. Lisboa: Asa.

A pobre Dona Idalina, prototípica mulher do povo, que ganha a vida como mulher a dias em várias casas de pessoas importantes mas gosta mesmo é de varrer o chão da escola de dança, porque a encantam os movimentos dos bailarinos, é envolvida nas intrigas de um político sem escrúpulos que se serve de pressões militares sobre Macau para garantir a sua eleição. Uma história com o habitual humor amargo de Zink, onde o traço de António Gonçalves segue o mesmo caminho, entre o expressionismo grotesco e a caricatura, com alguns desvios para experimentalismos gráficos de mixed media, visualmente os momentos mais interessantes deste romance gráfico.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Comics


Lady Mechanika - The Clockwork Assassin #01:  O Steampunk está bem vivo no traço de Joe Benitez na sua personagem Lady Mechanika. As histórias não costumam ser prodígios da narrativa, mas o que nos leva a lê-las é o traço assumidamente steampunk/clockpunk de Benitez.

Unholy Grail #01: Cullen Bunn a explorar o Horror num registo decididamente diferente do que o southern gothic de Harrow County. Os mitos arturianos revistos como história de terror, é o que nos oferece neste Unholy Grail.

sábado, 8 de julho de 2017

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Ronin



Frank Miller (2017). Ronin. Lisboa: Levoir.

Esta edição portuguesa do clássico de Frank Miller ficará marcada pelo divertido erro tipográfico que trocou o título na lombada do livro. De Ronin passámos a Ronnie. É um erro, coisas que acontecem. Alguns fãs ficaram revoltados com o facto, já este fã sorri, divertido, com esta marca que torna a edição muito distinta. A editora envia auto-colantes e distribui capas externas para quem for mais perfecionista e se importar muito com o erro.

Ronin, originalmente publicada em 1983, foi a afirmação de Miller como autor no mundo dos comics. Já o estava a fazer quer como argumentista quer desenhador em Daredevil, mas é nesta obra que desenvolve o seu estilo gráfico e narrativo. A influência dos mangá é patente, quer na temática quer, de forma espantosa, no traço e na gramática visual. Miller colide ficção científica e tradição nipónica numa Nova Iorque decadente, onde a inteligência artificial que controla um mega-conglomerado invoca o imaginário dos samurai para se autonomizar e gerar vida artificial. O que começa como um romance de samurai vindo do passado acaba por se revelar uma ilusão potenciada por tecnologia, com um final devidamente catastrófico.

Ronin marca pela forma como levou, à época, mais longe os limites dos comics, abrindo-os a influências estéticas vindas de outras vertentes da banda desenhada. A carreira de Frank Miller ficou pontuada por momentos similares, com a inovação gráfica e narrativa de The Dark Knight Returns, ou o choque visual de Sin City. Apesar do resvalo do autor para um tipo de histórias fortemente xenófobas e carregadas de conservadorismo violento, algo que já se sentia em Dark Knight e Sin City, mas diluía-se na narrativa, enquanto Holy Terror, de 2011, é incrivelmente panfletário e racista, Miller continua um nome de referência no mundo dos comics, ilustrador de traço provocador e mestre na narrativa gráfica. Uma grande edição da Levoir, no âmbito daquela que é já uma coleção de referência, a Novelas Gráficas, que traduz para português este clássico dos comics.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

The Last Days of Lemuria


Thomas Ziegler (2016). Perry Rhodan Lemuria #05: The Last Days of Lemuria. Rastatt: PMW.

Este mostrou-se ser o episódio mais interessante da saga Lemuria, até agora. Ata as pontas de uma história de saltos temporais que se tornou óbvia ao longo dos episódios anteriores, mas que é agora contada ao pormenor. O quarto episódio da saga termina com Icho Tolot, halutiano e velho companheiro de Rhodan, a saltar para a máquina do tempo ativada por Levian Paronn para cumprir aquele que sabe ser o seu destino: ir ao passado, para se tornar parte ativa no lançamento das naves geracionais que levarão a memória da antiga Lemuria ao futuro distante. Essa acção transportá-lo-á aos últimos dias de uma civilização sob ataque inexorável dos antepassados dos Halutianos, conhecidos como as bestas pela sua ferocidade imparável.

Este é um episódio cheio de acção. Levian, eixo de toda a saga, entra na acção após o quase falhanço de uma missão desesperada para recuperar as investigações temporais. Percebe as implicações da possibilidade de ir ao passado, e sonha com o envio de planos militares que fortaleçam os lemurianos a tempo de derrotar os primeiros ataques das bestas. Percebe, até porque no seu próprio passado, teve um encontro com o misterioso ser que confere tecnologia ativadora da imortalidade no Perryverso, que lhe dá a imortalidade e lhe faz intuir que o seu destino será fundamental para o futuro da sua civilização. Essa imortalidade é algo que partilha com Rhodan e o próprio Tolot.

Este episódio está escrito a metro, como se esperaria de uma série comercial, mas muito bem escrito. Somos conduzidos pela narração ao longo de aventuras sufocantes, com os heróis a escapar sempre no último momento possível. Sabemos como toda história acaba (afinal, estamos num ponto no passado de um laço temporal) mas a sensação que tudo pode mudar é constante. Sentimos as derrotas progressivas e desesperantes dos lemurianos, a quase impossibilidade de Tolot, com o seu aspecto de Besta, de convencer os lemurianos que está do seu lado, o cerco que cada vez mais se aperta. Tudo é decidido no último momento possível.

O final é intrigante, e ata as pontas da saga até ao momento. Levian é transportado para o passado, sabendo que o seu sonho de salvar Lemuria não poderá ser cumprido da forma como quer. Levian terá de lançar as naves geracionais, viajar nelas, ocultar-se como cidadão da futura civilização akoniana para no longínquo futuro voltar a tentar regressar ao passado para eliminar quer os futuros Halutianos quer a civilização extra-galáctica que os usa como armas para esmagar a ameaça colocada por viagens no tempo. É um plano que sabemos que falhará, mas estas ações são as necessárias para levar Icho Tolot ao passado, e desempenhar o seu papel de auxiliar em toda esta saga. O próprio Tolot, conhecedor do passado futuro de Levian mas desconhecedor do seu, terá imensos problemas em sobreviver às diversas peripécias que ameaçam o desenrolar da sua história. Chega ao ponto de ter de convencer os seus antepassados que foi enviado do futuro para os auxiliar a travar a ameaça de Levian. Eventualmente, irá cumprir aquela que será a sua história. E, no meio, assistimos à amargura da destruição de uma civilização, mesmo sabendo que essa aniquilação é essencial para que o Perryverso se desenvolva como o conhecemos.

Pouco resta perceber desta saga, excepto o destino final de Levian. Teria a sua ironia se, após a sua derrota do presente do Perryverso, se viesse a descobrir que estes ínvios caminhos de viagem no tempo teriam, no futuro, como consequência uma fuga ao passado e para outra galáxia, dando origem à civilização avançada que emprega os devastadores Bestas, futuros halutianos, para esmagar a civilização lemuriana, que vêem como perigosa devido às suas experiências com tecnologia temporal. Seria um belíssimo laço temporal a encerrar a saga Lemuria.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Flash Gordon



Alex Raymond (2004). Os clássicos da banda desenhada #20: Flash Gordon. Lisboa: Correio da Manhã/Panini.

Flash Gordon é indissociável de Alex Raymond. Outros pegaram no personagem, dando-lhe uma continuidade que ainda hoje evolui. Correntemente a série pertence à Dynamite, que vai lançado séries de qualidade intermédia, e a interessante Flash Gordon Zeitgeist. Personagem clássica da banda desenhada, Flash Gordon marcou gerações de leitores. Apesar de ter tido ilustradores excelentes, como o lendário Al Williamson, que também deixou uma marca influente na série, é o seu criador que estabeleceu a iconografia mais marcante. O estilo futurista de Raymond era temperado por um forte sentido de exotismo e um traço profundamente neoclássico.

Aos nossos olhos contemporâneos de leitores sofisticados, as histórias lêem-se como simplistas, cheias de peripécias linearmente encadeadas. É o habitual nos comics da altura, e apesar da simplicidade, são leituras interessantes. Raymond era um excelso praticante da vinheta em banda desenhada como ilustração do texto. Não há ainda o uso de uma gramática narrativa de enquadramentos, pontos de vista e sequencialidade visual como ferramentas para contar a história (algo que Will Eisner seria pioneiro). Ficamos pelas palavras que vão contando a história, enquanto o olhar se detém e delícia no traço elegante, evocativo de fantasia, de Raymond.

As aventuras dos inseparáveis Gordon, Dale Arden e Professor Zarkov no exótico mundo alienígena de Mongo, nas lutas eternas contra o malévolo imperador Ming, marcaram gerações de leitores e são hoje uma referência histórica incontornável na banda desenhada. A iconografia estabelecida pelo estilo visual de Alex Raymond é o elemento que conferiu imortalidade a este clássico dos comics.

terça-feira, 4 de julho de 2017

The Sword in the Soul


Mike Carey, et al (2008). Crossing Midnight, Vol. 3: The Sword in the Soul. Nova Iorque: DC/Vertigo.

Dois irmãos, gémeos, a partilhar uma herança sobrenatural mas com uma diferença fundamental. Ela é totalmente espírito, capaz de se mover entre os dois mundos, o nosso e o dos mitos, e cai sob a alçada de um semi-deus usurpador que a utiliza, dotando-a de poderes com lâminas, para eliminar os seus inimigos. Ele tem o poder de anular toda a magia, e tudo o que procura é o reencontro com uma irmã que nunca o reconhece, pois as suas memórias foram-lhe retiradas pelo senhor que serve. Pelo meio temos conflitos épicos no submundo sobrenatural. Mike Carey, neste título, sublima o fascínio pela mitologia japonesa, com a sua míriade de deuses, espíritos e demónios.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Comics


2000AD #2037:  Adoro a forma como os melhores argumentistas de Judge Dredd conseguem ser subversivos num media de entretenimento. Na história que começa nesta edição, um personagem procura forma de se libertar dos filtros cognitivos que lhe foram implantados por pais cuidadosos, que o levam a ver o mundo sob um olhar cor-de-rosa. Sorrimos, mas depois recordamos as tentativas de censura ativa aos meios digitais, precisamente sob a desculpa de "temos de erradicar discursos/imagens para não intimidar/assustar os inocentes"... claro, estas discussões não são assim tão simplistas, mas disfarçar os males do mundo sob uma camada dulcificante, à la potemkin village ou erradicação mussuliniana da pobreza por decreto e prisão, ou o nosso corrente e delirante consenso mediático que faria os teóricos da sociedade do espetáculo empalidecer, são geralmente ineficazes e contra-producentes.


The Hellblazer #11: Se o corrente arco narrativo já começa a tornar-se demasiado alongado (ou melhor, não épico o suficiente para tantas páginas), há que admirar o sentido crítico do argumentista. Estamos no século XXI, já não são precisas invocações arcanas para atrair os alvos. Basta usar memes virais.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Killing Gravity


Corey White (2017). Killing Gravity. Nova Iorque: TOR.

Experimentei este livro depois de o ver recomendado por Warren Ellis na sua newsletter semanal, Orbital Operations, onde teceu elogios à narrativa, especialmente rendido à descrição da personagem principal como voidwitch. Apesar dos indícios de bruxaria, esta é uma clássica aventura no espaço, daquelas passadas em futuros distantes, cheias de adrenalina e aventura. Mariam Xi, a voidwitch, é uma aventureira interestelar, sobrevivente de uma organização científica militar secreta que com condicionamento e tecnologia desenvolve capacidades super-humanas nas suas cobaias, condicionado-as a serem soldados perfeitos. Como resultado, tem poderes telequinéticos, extremamente destrutivos quando utilizados em combate.

Perseguida pela organização, viaja pelos planetas mais distantes do império estelar em busca de pistas do paradeiro da sua salvadora, que descobre não ter morrido na fuga e destruição do centro de experiências onde estavam cativas. Cruza-se com a tripulação de uma nave de carga, caindo nas boas graças do seu capitão, visita um planeta distante onde se liberta de condicionamentos graças a potentes cogumelos alucinogénicos, e enfrenta, com extremo prejuízo, o seu antigo torcionário no centro de investigação e toda uma frota de naves e soldados imperiais para salvar os seus novos amigos.

Uma leitura divertida, bem escrita e rápida, com um ritmo alucinante. Sofre por ser muito rápida. Se não perde tempo a enrolar o leitor, enchendo páginas com desvios à narrativa, também não aprofunda muito as personagens. O mundo ficcional vai-se revelando à medida que a narrativa evolui, com infodumps mínimos, e o final inconclusivo aponta para algo mais. Mas leitores mais conhecedores da ficção científica não deixarão de sentir algo familiar neste livro, cuja história soa um pouco a Firefly, se o centro da série fosse uma mais coloquial River Tam, e o capitão Reynolds um alienígena.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

The First Immortal



Leo Lukas (2016). Perry Rhodan Lemuria #04: The First Immortal. Rastatt: PMW.

A saga lemuriana adensa-se, com a descoberta de mais naves geracionais a sulcar o espaço. Infelizmente, estão a ser capturadas pelos Akonianos, rivais dos terrestres, o que obriga Perry Rhodan a algumas manobras obscuras para contactar os habitantes das naves e procurar Levian Parron, aquele que já sabe ser imortal, e o arquitecto do êxodo lemuriano. Um personagem que conhecemos bem, e que se revela estar escondido da forma mais visível possível, como um tranquilo académico akoniano que está envolvido no estudo das naves descobertas.

Há mais, claro. Neste volume a questão do paradoxo temporal que tinha sido levantada nos anteriores é completamente clarificada, mostrando que as acções de Levian, a começar pelo êxodo lemuriano, são peças de um intricado puzzle cujo final decorre neste episódio. Num relativamente complexo enredo, percebemos que não há acasos, nem na descoberta aparentemente aleatória das naves geracionais. Tudo culmina numa antiga base onde as Bestas, a ameaça que extinguiu os lemurianos, e contra a qual o êxodo organizado por Levian foi um prevenir desta extinção que os seus contemporâneos não conceberiam existir, por estar ainda no futuro, voltam a manifestar-se depois de milénios de dormência. Há aí uma oportunidade de activar uma arma temporal, capaz de exterminar os inimigos dos lemurianos antes destes sequer existirem, assegurando que a antiga Lemúria nunca se extinguirá... mas também que todo o Perryverso deixe de existir. Afinal, foi a extinção do império espacial lemuriano que, nas suas colónias isoladas, deu origem às civilizações humanóides que constituem o universo de Perry Rhodan. E não só. A temível espécie das Bestas, criaturas criadas artificialmente por cientistas de uma outra galáxia que queriam conter a expansão humana, transmutou-se nos pacíficos mas poderosos Halutianos, um dos quais, velho companheiro de Rhodan, terá um papel fundamental em toda esta história.

No final impossível, o plano de Levian colapsará graças à sagacidade de Rhodan e aos poderes mentais de um mutante lemuriano, escapado de uma das naves geracionais e que se quer redimir pelas acções não intencionais que cometeu em vários planetas akonianos. Mas, por breves parágrafos, todo o Perryverso fica em risco de desaparecer. Sendo uma história de paradoxos temporais, e sabendo que não termina neste episódio, fica no ar a suspeita que o Levian Parron que, no passado, iniciou o êxodo lemuriano terá vindo do futuro para iniciar o ciclo. A ver vamos, nos próximos episódios da saga lemuriana.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Hellblazer: The Laughing Magician



Andy Diggle, Leonardo Manco, Danjel Zezelj (2008).  Hellblazer: The Laughing Magician. Nova Iorque: DC Comics/Vertigo

Duas aventuras perturbantes, num tom profundamente negro. Na primeira, Constantine mergulha na Londres das sombras, uma cidade paralela acessível através de resquícios de um urbanismo esquecido, onde as lendas mais obscuras ganham vida. Na segunda, defronta um temível mago vindo dos campos sangrentos do Sudão, no meio do submundo londrino do tráfico humano. O tom negro das histórias é sublinhado pelo traço expressivo e escuro da dupla Leonardo Manco e Danjel Zezelj.

terça-feira, 27 de junho de 2017

The Programme vol. 2



Pete Milligan, C.P. Smith (2008). The Programme Vol. 2. Wildstorm.

A mitografia dos super-heróis cruza-se com a paranóia da guerra fria nesta série escrita por Pete Milligan. Super-seres soviéticos, criados por um programa militar de pesquisa no desenvolvimento de poderes, semeiam a destruição ao longo de uma américa dividida, que se preocupa mais com tensões raciais do que com a imparável ameaça dos operacionais soviéticos. Os americanos também dispõe dos seus próprios super-seres, criados num programa de pesquisa secreto do pentágono, mas para os dotar da capacidade de derrotar os invasores é necessário levá-los a perder todos os escrúpulos e moralidade. A vitória é amarga, e utilizada pelo presidente americano para suspender a democracia sem fim à vista. Uma desconstrução violenta e cínica do heroísmo simplista dos comics.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Comics


Batman #25: O Joker, de regresso às páginas da revista, após a sua eliminação com extremo prejuízo por Scott Snyder. Mas o Joker de Tom King não sorri, e está no passado. The War of Jokes and Riddles, que irá opor violentamente estes dois vilões, promete. Resta saber se, e quando, este personagem será ressuscitado para a continuidade de Batman. No mundo dos comics, as mortes das personagens icónias são sempre relativas.


Letter 44 #034: É com alívio que esta série chega ao fim. Letter 44 tinha uma excelente premissa, a descoberta de uma nave alienígena nos limites do sistema solar, e todas as conspirações governamentais que ocultavam o facto de todos. Enquanto na Terra um novo presidente americano herdava um legado de aparente violência, criado pelo seu predecessor como forma de desenvolver tecnologias e endurecer os militares para enfrentar o que imagina ser uma invasão alienígena, uma missão espacial aproxima-se da nave extraterrestre. O primeiro contacto é violento, mas não da forma que se espera no contexto tradicional de invasão. Estavam montados os ingredientes para uma boa história, o que a série conseguiu durante uma boa temporada. Entretanto a história tornou-se convoluta, arrastou-se, percebeu-se que estava a ser vítima do sucesso. Finalmente desenlaçou-se, com um final apropriadamente catastrófico. Afinal, toda a aparente invasão era apenas uma arma de defesa extraterrestre contra uma ameaça milenar, despoletada por uma experiência com uma esfera de dyson que correm muito mal, e soltou pela galáxia um mortífero asteróide que aniquila civilizações por onde passa. Tudo o que os extraterrestres querem é corrigir o erro que cometeram, mas não será ainda a Terra a ser o ponto final da trajetória do asteróide. Devo dizer que achei delicioso Charles Soule, o argumentista, atrever-se a encerrar a história com o desespero da extinção completa da humanidade.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Recordar os Esquecidos


Não estive presente em tantos quanto gostaria, mas a este recuso faltar. O imparável João Morales termina aqui o seu ciclo de tertúlias Recordar os Esquecidos, onde mensalmente convidava escritores para recordarem autores injustamente esquecidos, ou a cair no esquecimento. Do press release da Livraria Almedina:
Recordar os Esquecidos na Livraria Almedina Atrium Saldanha

(Última sessão)

A sessão deste mês do Recordar os Esquecidos reveste-se de um carácter especial. Calha no dia 24, como habitualmente, um Sábado, às 18h, e

encerra dois anos e meio de actividade ininterrupta desta iniciativa mensal. Para a conversa deste mês, trazemos quatro convidados muito especiais: os editores Guilhermina Gomes (Temas & Debates; Círculo de Leitores), João Rodrigues (Sextante), Maria Afonso (Antígona) e Hugo Xavier (E-Primatur), que vão partilhar connosco as suas sugestões de livros.

Numa época em que tantos milhares de livros são publicados a cada ano, a memória pode ser curta e traiçoeira. Recordar os Esquecidos foi um encontro mensal na Livraria Almedina Atrium Saldanha, em Lisboa, para falar sobre livros e autores que caíram no esquecimento ou até mesmo passaram (injustamente) despercebidos.

O nosso mais sincero agradecimento a todos os convidados, ao público, à equipa da Livraria Almedina Atrium Saldanha e, naturalmente, ao
jornalista João Morales, que conduziu as 29 sessões. Todos foram fundamentais para a concretização desta iniciativa.

Recordar os Esquecidos decorreu na tarde do último Sábado de cada mês, e começou em Janeiro de 2015, ano em que a Almedina celebrou 60 anos de existência.

E agora é esperar pela próxima iniciativa do Morales, uma daquelas pessoas que tem, felizmente para todos nós, uma tremenda incapacidade de estar quieto.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Dylan Dog: Destinato alla terra; Brucia, strega... Brucia!; Anarchia nel Regno Unito.


Giuseppe De Nardo, Luca Dell Uomo (2014). Dylan Dog #339: Destinato alla terra. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

 Dylan vive um amor inquieto com uma inspectora da Scotland Yard em processo de divórcio, enquanto se descobre envolvido na trama de um milionário que utiliza uma forma sangrenta de magia para adivinhar os movimentos do mercado. Julgando que Dylan nasceu no mesmo dia do seu, o milionário aprisiona-o para o eviscerar e adivinhar o futuro nas suas entranhas. História com alguns momentos interessantes, mas claramente de segundo nível.


Giuseppe De Nardo, Gabriele Ornigotti (2014). Dylan Dog #336: Brucia, strega... Brucia!. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Dylan é convocado à pequena cidade de Greenhaven, que parece estar suspensa no tempo e onde a modernidade tarda em chegar, para auxiliar o padre local na investigação de algumas mortes misteriosas. Suspeita-se de bruxaria, algo que na cidade tem tradição. Na sua praça principal há uma estátua dedicada a uma bruxa local que foi queimada viva nos tempos das caças às bruxas. De facto, paira uma maldição sobre a cidade, e o espírito da velha bruxa vai influenciado algumas mulheres que buscam os poderes do oculto.


Gigi Simeone, Roberto Rechionni, Giampiero Casertano (2014). Dylan Dog #339: Anarchia nel Regno Unito. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

A vida para Dylan Dog não ficou facilitada com a reforma do velho inspector Bloch. Os seus sucessores na Scotland Yard são-lhe abertamente hostis, e decidem fazer as suas apresentações a Dylan com um mandado de prisão, acusando-o de charlatanice. No entanto, enquanto Dylan é algemado, Londres irrompe em tumultos, com o espírito de um antigo combatente pelos direitos laborais, injustamente assassinado pela justiça, a possuir centenas de pessoas que, pegando em armas, sitiam e atacam os agentes na Scotland Yard.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

TLS Series Cidades



Joana Afonso, et al (2017). TLS Series Cidades. Lisboa: ComicHeart/G. Floy Studio/The Lisbon Studio.

Esta edição do The Lisbon Studio reúne alguns dos melhores artistas de banda desenhada portuguesa contemporânea. Não é por acaso. Funcionam como um coletivo de estúdio, num grupo fluído que se varia nos nomes que o compõem, mas que ao longo dos anos tem estabelecido uma continuidade e aposta de qualidade que tem levado à internacionalização dos artistas de banda desenhada portugueses. Não à da BD em si, isso seria outra luta difícil de travar, mas à da capacidade criativa dos nossos ilustradores. Se o tema da antologia é a cidade como fonte de inspiração, com a sua iconografia própria e palco único para desenrolar histórias, fica também a sensação que este livro é um mostruário das capacidades dos artistas do Lisbon Studio. Consignam em livro uma experiência que já tinham iniciado com os TSL Webmag. Bem, técnicas de maketing que engrossam a BD de qualidade disponível aos leitores... não vejo problemas nisso.

O destaque nas histórias vai para nomes esperados. Joana Afonso dá-nos a mestria gráfica e narrativa a que já nos habituou em Quiosque, Filipe Andrade transmite a opressão dos espaços urbanos exíguos de Hong Kong com um grafismo de cortar a respiração em Muralha, e Ricardo Cabral corta com o realismo implícito na antologia com um voo fantástico que faz recordar Druillet (embora sem o seu estilismo) em Os Muros de Terrea. É também interessante o sincretismo arquitectónico, iniciando com realismo e finalizando num misto onírico de perspetivas que representa a visão que temos da cidade de Lisboa, em O Rasto do Fantasma, com desenhos de Marta Teives e argumento de Pedro Moura. Cid Hades de Gonçalo Duarte e Oumun The Revenge de João Tércio representam o lado mais experimental da BD portuguesa, fugindo aos estilos mais realistas dos restantes autores. Já 24 Horas de Dileydi Florez encanta, pelo seu traço e pela simplicidade de uma história sobre o amor à cultura, sentimentos certamente comuns a boa parte dos leitores desta antologia.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Quest for Tula



Patrik Caetano (2016). Quest for Tula e outras histórias de Fantasia. Lisboa: Escorpião Azul.

Patrik Caetano tem sido um dos desenhadores mais consistentes e interessantes a ser publicado nas páginas da H-alt, revista de banda desenhada e história alternativa que dá espaço de publicação às vozes mais novas da BD em portugal. Caetano tem um traço muito distinto, expressivo e alicerçado na iconografia clássica da fantasia épica pós-tolkieniana, e um uso esplendoroso da cor, com paletas cuidadas em tons dominantes. São características plenamente evidentes neste Quest for Tula, livro que colige as suas histórias curtas para a H-alt e outras experiências, editado pela Escorpião Azul.

Pergunto-me que ordem define a escolha das histórias. Como qualquer jovem desenhador, Caetano tem um estilo gráfico em desenvolvimento. Apesar de já ter um traço seu, olha-se para os seus desenhos e percebe-se que só poderiam ser seus, percebe-se que ainda falta muito caminho a percorrer. Isso nota-se na heterogeneidade gráfica das histórias, algumas com traço mais incipiente, outros claramente apurado. A nível narrativo há também ainda muito que desenvolver. As histórias também escritas pelo autor são simples, nalguns casos quase pueris na forma como a narrativa se desenvolve. Sendo histórias curtas, percebe-se a dificuldade, mas na aventura mais longa e que dá o título ao livro continuam a notar-se as inconsistências narrativas, saltos temporais, personagens pouco estruturadas que agem de forma pouco clara.

Não é por acaso que a melhor história deste livro, O Bom Filho, conte com argumento de Vítor Frazão. Aí, a parceria brilha numa história bem medida e esplendorosamente ilustrada. Destacaria também Eyaer pela qualidade gráfica, só com manchas de cor a definir as imagens, e L. Gaiteiro quer pelo grafismo quer pela divertida ironia da história. As restantes parecem mais incipientes, passos de aprendizagem em que o autor vai afinando o seu estilo e técnica narrativa. Os estudos e concept art que encerram o livro mostram que Patrik Caetano pode e vai mais longe no seu grafismo. Suspeito que seja um nome a ter em conta quando se falar no futuro da BD portuguesa.