sexta-feira, 29 de julho de 2016

Erotosofia



António de Macedo (1998). Erotosofia. Lisboa: Caminho.

O que teria feito António de Macedo se, ao filmar o incontornável Os Abismos da Meia Noite, tivesse tido acesso aos meios técnicos e digitais de efeitos especiais dos dias de hoje? Se no filme as paisagens fantásticas são mais sugeridas do que vista, essas visões são plenamente invocadas neste romance. Desconheço se se trata da base do filme, ou de adaptação posterior do argumento. A história é a do filme, a de um amor inaudito cuja consumação irá manter o equilíbrio cósmico entre as forças do bem e do mal.

Ler este livro é recordar as imagens fílmicas de tesouros encerrados em castelos, do lago interior das cavernas que espelha na sua negritude outras perfeições cósmicas. Para quem conhece o filme, torna-se difícil dissociar as suas imagens das invocadas pelo livro, dos cenários às personagens. As imagens literárias, no entanto, permitem ir mais longe do que os meios técnicos disponíveis à altura. Toda cena de imersão dos amantes dentro da negritude da caverna, com as criaturas féericas que os perseguem, que no livro é uma cena portentosa de criaturas de pesadelo, faz pensar o quanto Macedo exploraria o poder dos efeitos especiais se tivesse meios técnicos para isso.

Em evidência fica o peculiar imaginário de Macedo, entre o conhecimento gnóstico, saber científico, reconhecimento tecnológico, colisão entre o imaginário de raiz popular com os mitos da literatura fantástica temperado com muito bom humor, com particular homenagem a Lovecraft e aos seus Mythos. As iconografias invocadas por Macedo raramente se enquadram nos espertilhos estéticos do género fantástico. A sua FC segue os caminhos do surrealismo e o seu fantástico as visões do ocultismo, algo que não surpreende dado o seu interesse pelo tema, explorado em livros que são dos poucos dele que são fáceis de encontrar nas livrarias. Se tiverem, como eu, a sorte de se depararem com este livro num alfarrabista, não hesitem. Para além de uma boa história, ficam nas vossas estantes com um excelente elemento representativo do fantástico português.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A Vida Oculta de Fernando Pessoa

 

André Morgado, Alexandre Leoni (2016). A Vida Oculta de Fernando Pessoa. Bicho Carpinteiro.

Uma forma diferente de ler Fernando Pessoa através dos seus heterónimos. E se, pergunta-nos o argumentista André Morgado, os heterónimos não fossem personificações poéticas de múltiplas personalidades enquadradas no experimentalismo modernista, mas pessoas reais, que um Pessoa ao serviço de uma sociedade secreta elimina com extremo prejuízo? O poeta é aqui um torturado agente, que herdou do pai a dura tarefa de pertencer a um grupo de guardiões que defende a humanidade de todo o tipo de monstros. Face a uma epidemia de zombies, Pessoa despacha aqueles que lhe é ordenado eliminar com uma singular pistola antiquada. Dilacerado pela mortandade, Pessoa decide encarnar aqueles que teve de matar através da voz poética.

Se o argumento é divertido, colocando a bom uso trechos específicos da poesia pessoana (e heterónimos), a ilustração acompanha-o muito bem. A princípio, o traço simples, bem marcado e trabalho estilizado de cor do ilustrador Alexandre Leoni parece demasiado simples, mas, parafraseando o inspirador desta singular proposta de banda desenhada, primeiro estranha-se, depois entranha-se. O grafismo amadurece ao longo do livro.

Entre o fantástico e o erudito, esta obra atreve-se a misturar horror com um grande vulto da literatura portuguesa. Suspeito que irá provocar sobrancelhas levantadas por entre pessoanos ferrenhos, abismados pelo desplante para com o seu ídolo. Aguenta-se muito bem como conto de terror dentro do muito batido género zombie, e mostra um profundo conhecimento da obra literária de Pessoa na forma como utiliza os poemas dos diferentes heterónimos nos diálogos dos personagens. Sem querer revelar demasiado, mas tendo em conta a linha do livro, o spoiler é inevitável, digamos que nem a musa Ofélia escapa ao tenebroso destino.

terça-feira, 26 de julho de 2016

The Dramaturges Of Yan

 

John Brunner (1974). The Dramaturges Of Yan. Londres: New English Library.

É Brunner, mas ainda não o escritor experimentalista que corre riscos de Stand on Zanzibar. Neste livro segue uma estrutura mais clássica de ficção científica,  focado numa história de contacto entre a humanidade e uma inteligência alienígena.

A pequena colónia humana do planeta Yan convive amigavelmente com os curiosos costumes dos nativos do planeta, herdeiros estagnados de uma civilização avançada que legou misteriosas estruturas. Há um erro de identificação na natureza da civilização alienígena. O que parecem ser indivíduos são células de uma consciência planetária dormente, que desperta com o contacto com a humanidade. Ao despertar,  prossegue com o plano de viajar pelo espaço da única forma que concebe, usando o planeta como veículo.  Esta impossibilidade física aniquilará o planeta e exterminará a inteligência colectiva conhecida como Dramaturga de Yan.

Apesar de assente num intrigante e convincente mundo ficcional,  e numa narrativa bem estruturada que revela os mistérios ao ritmo certo,  é um livro demasiado normal, dentro dos parâmetros da FC.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Comics


The Hellblazer Rebirth #01: Ah, boa. Mais uma revisão a John Constantine. A última foi interessante, a primeira de mediocridade espantosa. Esta parece apostar no lado clássico do personagem, menos jovem, com a sexualidade esquecida (na revisão anterior era assumido como gay), com um regresso aos terrenos londrinos. Vejamos se se mantém interessante.


Batman #03: Ah, boa. Mais uma revisão a Batman. Desta vez a apostar num estilismo clássico, um regresso ao lado noir do personagem que é tanto do agrado dos fãs. Os dois sidekicks com poderes intrigam. Normalmente, os ajudantes do homem-morcego são, tal como ele, humanos altamente treinados e não seres com poderes. Vejamos se se mantém interessante.

domingo, 24 de julho de 2016

Gotta catch'em!


Reflexos nocturnos nas ruas à volta da Avenida dos Aliados.






Calor matinal no Cais de Gaia.


Renovar a escola. Com martelos pneumáticos e betão.





Bom dia, Lisboa.


Apanhar este pokémon seria batota.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A Burglar's Guide to the City



Geoff Manaugh (2016). A Burglar's Guide to the City. Nova Iorque: FSG Originals.

A cidade, vista por olhares inesperados. De uma forma divertida, Manaugh leva-nos a repensar os conceitos de arquitectura e espaço urbano explorando as façanhas e as metodologias dos assaltantes. Recorda-nos o quando a arquitectura que habitamos, os espaços em que nos movemos, condicionam a forma como pensamos e agimos. Os criminosos cujos crimes são relatados neste livro, os polícias especializados em precaver crimes desta índole, ou os especialistas em segurança que procuram constantemente reforçar as barreiras arquitectónicas para proteger pessoas e bens, são aqueles que vêm o espaço urbano de outras formas, como um sistema complexo não circunscrito a paredes, escadas e portas de acesso, que pode ser manipulado por aqueles que são capazes de perceber os ritmos da vida urbana.

Apesar do óbvio fascínio com as façanhas criminosas, Manaugh deixa claro que são criminosos, a maior parte deles comuns, alguns muito incomuns. Um bom livro para descobrir assaltos mirabolantes, a existência de casas que são armadilhas policiais para ladrões, a reorganização espacial do policiamento aéreo, assaltantes que constroem modelos elaborados dos seus alvos, a razão policial para Paris ter ficado conhecida como cidade da luz, entre muitos detalhes intrigantes que Manaugh tece numa reflexão coerente, levando o leitor a repensar as suas noções de espaço urbano.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Limit

 

 Frank Schätzing (2013). Limit: Londres: Jo Fletcher Books.

Confesso que este foi daqueles livros que me fez suspirar de alívio ao terminar a leitura. Não porque a história desiludisse, ou sofresse de fraca construção de mundo ficcional, mas pelo terrível hábito do escritor de enrodilhar a trama em sucessivos volte-face inesperados. O que em si não é mau, mas factorizado com uma prosa excessivamente descritiva, que arrasta cada pormenor narrativo ao longo de dezenas de páginas, torna esta leitura penosa.

É pena. O conceito é muito bom, num toque de Hard SF bem pesquisada que especula sobre as consequências de uma revolução energética trazida pela exploração de Hélio 3 lunar. A energia barata provocaria um rombo no modelo de negócio das petrolíferas, que no livro se unem numa conspiração bizantina para sabotar os primeiros campos de exploração mineira lunar chineses e americanos com bombas atómicas compradas no mercado negro, no rescaldo da queda do regime norte-coreano.

No centro da narrativa, está um homem e a sua ambição de colonizar o espaço. Um milionário excêntrico, que se atreveu a construir o primeiro elevador espacial, tornando económica a exploração do solo lunar, e construiu um hotel lunar. Edifício que, liberto dos constrangimentos da arquitectura sob efeito da gravidade terrestre, se assemelha a uma mulher sentada sobre uma cratera lunar (pois, é o famoso bom gosto germânico em acção, típico de um povo que conta com couve azeda entre as suas delícias culinárias). A inauguração deste hotel lunar conta com um grupo de convidados de luxo, entre actores famosos e investidores nos mercados da tecnologia ou da moda luxuosa. Num pormenor apreciado pelos conhecedores do género, o actor torna-se famoso após desempenhar o papel de Perry Rhodan num filme de sucesso. O grupo conta com um agente infiltrado, que não pára perante nada para levar a cabo a sua missão de despoletar as bombas atómicas que a conspiração deixou no espaço. O hotel será destruído, e os sobreviventes terão de percorrer a superfície lunar até às bases chinesa e americana, para escapar à morte certa.

Entretanto, na Terra, um detective inglês que sobrevive colaborando com a polícia chinesa em Xangai é contratado por um milionário para localizar a filha de um amigo, envolvida com um grupo de hackers revolucionários. Este trio inesperado ver-se-á envolvido no âmago da conspiração das petrolíferas, desvendando segredos que incluem um bizarro programa espacial da Guiné Equatorial, golpes de estado sangrentos levados a cabo por mercenários, e muitos becos sem saída destinados a lançar suspeitas e confusão sobre os serviços secretos tradicionais, explorando as dissensões entre os blocos de poder para esconder a verdadeira natureza da conspiração.

Diga-se que Limit é um livro e tanto, entre a especulação Hard SF, futurismo próximo e enredo de thriller complexo que troca sempre as voltas às expectativas geradas no leitor. O seu problema está na falta de síntese, com descrições de minúcia excessiva, que arrastam a leitura até ao limite da paciência do leitor. Digamos que quando cenas de acção pura se arrastam durante largas dezenas de páginas, sabemos que estamos perante um livro que necessitava de um editor de vontade férrea que ajudasse o escritor a concentrar-se no cerne narrativo.

Apesar desta tremenda falha (que, para quem gostar de matacões palavrosos, não o é), Limit é um interessante exemplo da Ficção Cientifica produzida num país que, apesar do desconhecimento generalizado, tem uma tradição literária centenária, prémios anuais com muitos títulos a concurso, e edita a mais longa série de FC pulp em revista literária da história. Não me importava nada de ler mais FC alemã traduzida, mas, por favor, com autores de capacidade narrativa mais sintética, que não deixam que a tentação do encher chouriços literários interfira com os conceitos interessantes em que se baseiam. Curiosamente, este matacão tem edição portuguesa.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Swamp Thing Vol. 3: Trial By Fire



Mark Millar, Phil Hester (2016). Swamp Thing Vol. 3: Trial By Fire. Nova Iorque: Vertigo

Neste arco narrativo, parte da época de Mark Millar como argumentista de Swamp Thing, os elementos metafísicos estabelecidos por Alan Moore na sua reinvenção da personagem são levados ao absoluto. Através de uma sucessão de ordálios, a criatura do pântano ganhou a confiança dos parlamentos de todos os elementos. O verde, a pedra, a água e os ares concedem-lhe todos os seus poderes, unificando-o no Monstro do Pântano. Resta o julgamento final, do parlamento do fogo que reside na fornalha nuclear do sol, para que a criatura transcenda e se torne a entidade elemental mais poderosa de sempre.

O arranque do arco coloca em causa a réstea de humanidade do Monstro, cada vez mais esmagada pela aquisição de poderes que rivalizam com divindades. Outras forças se juntam, como a velha aspiração dos elementos em eliminar uma humanidade que vêem como praga destrutiva sobre a Terra, ajudados por facções do oculto que também querem eliminar os humanos. Alec Holland/Monstro do Pântano, cada vez mais inebriado pelo poder que adquiriu, mergulha neste delírio e vai dando passos concretos para exterminar a vida humana. É, crê, a sua última tarefa, permitida pelo poder do fogo e que cumprirá a vontade dos elementos. Terá a oposição fútil dos elementos do bem, a ajuda da filha Tefé, treinada como arma letal pelo parlamento das árvores, e uma intervenção final de John Constantine, que depois de se esforçar por derrotar o invencível cede aos seus instintos e deixa os acontecimentos decorrerem como o Monstro do Pântano quer. Constantine suspeita que o extermínio da humanidade seja uma metáfora espiritual e arrisca, revelando que toda a viagem da criatura foi iniciática. A transcendência final não trará o extermínio da humanidade, mas o despertar de uma consciência planetária, com o Monstro do Pântano a assumir o lugar de representante da Terra sentiente no parlamento cósmico dos mundos. Um arco narrativo que, claramente, explora os limites da estrutura conceptual que Alan Moore traçou para o personagem, que ainda hoje norteia o trabalho dos argumentistas que pegam na série. Como, num exemplo recente, Charles Soule que introduziu um novo parlamento a representar a consciência digital na sua recente temporada em Monstro do Pântano.

O carácter épico deste arco é interrompido por um número em que Millar satiriza as pulsões do conservadorismo político, com o seu apelo aos velhos tempos, à xenofobia, anti-intelectualismo, anti-feminismo, discriminatório e a recusar a liberdade sexual. Uma história em que o hippie consumado Chester Williams abandona o seu caminho pecaminoso, tornando-se um exemplar agente da lei que chegará a presidente apelando aos valores mais baixos do conservadorismo. Sátira pura, que se mantém demasiado actual nos dias de hoje.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Doctor Strange: The Way of the Weird


Jason Aaron, Chris Bachalo (2016). Doctor Strange: The Way of the Weird: Nova Iorque: Marvel

O início de uma odisseia catastrófica que opõe o feiticeiro supremo a entidades transdimensionais de razão pura que aniquilam a magia por onde passam. Neste Way of the Weird Nova Iorque é assolada por criaturas mágicas em fuga de algo que as aterroriza. Leitura divertida, com um foco curioso nos hábitos alimentares causadores de revoluções nas entranhas de Doctor Strange, que se destaca pelas ilustrações elegantes de Chris Bachalo.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Visões



Captain America: Civil War (John Russo, Anthony Russo, 2016)

Atrevo-me a dizer que o melhor do filme é a a piada onde, em plena luta entre vingadores, o Homem Aranha vai enrodilhando as pernas de um gigantesco Hank Pym enquanto avisa os companheiros de luta que a sua estratégia se inspira in a really old movie. A long time ago, in a galaxy far, far away. O tipo de piada que agrada aos fãs e que os argumentistas já podem fazer, desde que a Marvel ficou com os direitos de publicação dos comics oficiais Star Wars. De resto, apesar do filme nos dar o que é expectável, fica algo aquém das expectativas. A fortíssima dicotomia da série original em banda desenhada, com a oposição entre um libertário Capitão América e o institucional Iron Man (que levará a que vilões assumam o papel de guardiões dos heróis) dilui-se num maior simplismo em que todos se respeitam uns aos outros mas mesmo assim, partem para a luta. As premissas do filme, com a conspiração de Zemo (e hey, como é que os argumentistas conseguiram esquecer toda a backstory de Zemo enquanto descendente de nazis ultrapassa-me) e o envolvimento de Winter Soldier (que transforma o filme numa espécie de buddy movie) são bastante fracas. Mas, ressalve-se que vemos estes filmes pelos efeitos especiais e coreografias de lutas entre super-heróis, e nisso Civil War não desilude. Até porque tem Iron Man no elenco, e com a excentricidade a que Robert Downey Jr. já nos habituou. A explosão cinematográfica deste personagem é, de facto, o elemento secreto do sucesso da Marvel no cinema.

Como leitor de longa data dos comics Marvel, tenho sentimentos mistos nesta muito bem sucedida aventura da editora no cinema. Por um lado, adoro ver os meus alunos mais geeks (malta, esta qualificação é um elogio!) entusiasmados com estes personagens clássicos. Por outro, as alterações impostas pela linguagem cinematográfica e o reinventar de histórias de origem esquecendo todo o longo historial de personagens icónicas deixam-me algo siderado. Sei que no mundo da cultura pop as coisas são assim, mas temo perante a reacção destes novos públicos conquistados quando, intrigados, se derem ao trabalho de ir descobrir o que está por detrás destes personagens. Vão começar a chover comentários de afinal, isto não era assim... 

terça-feira, 12 de julho de 2016

Kill Chain


 Andrew Cockburn (2015).  Kill Chain: The Rise of the High-Tech Assassins. Nova Iorque: Henry Holt & Co.

Pegar neste livro como uma reflexão sobre o potencial e estado da arte na tecnologia de drones é um erro. O seu objectivo é caracterizar, de forma muito crítica, a estratégia de ataque e execução extra-judicial subjacente ao uso de drones em combate. A visão é muito crítica, incidindo sobre a progressiva espiral de violência e falta de ética no uso destas armas.

Para tecnólogos, há uma interessante lição a retirar deste livro. São muitos os exemplos de erros, com consequências mortais que se repercutem ao nível político, causados pela confiança cega nos dados apresentados pelos sensores, apregoados como um nível superior de capacidade informativa apesar das limitações de índole tecnológica. As problemáticas da suspensão do sentido crítico em ambientes saturados de informação digital, glorificando o suporte tecnológico em detrimento da análise reflexiva, são o grande aviso a retirar deste livro para aqueles que não estão interessados nas consequências geo-políticas e morais da automatização do combate.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Comics


2000 AD #1988: A melhor coisa a ser publicada nos comics desta semana. O regresso de Scarlet Traces, a vénia de Ian Edginton e D'Israeli a War of the Worlds de H. G. Wells. Neste terceiro volume, estamos num novo século - o XX, e a marinha britânica protege a órbita terrestre. A avaliar pelos dois primeiros, será divertido, interessante, e muito bem ilustrado.


Strange Attractors #02: É intrigante e inesperado ler um comic sobre algo tão abstracto como teoria de sistemas complexos. Charles Soule anda a explorar o conceito de efeito borboleta da teoria do caos, ideia que reflecte sobre o poder que pequenas alterações têm em provocar grandes mudanças, em sistemas de teia interrelacionados. Faz pouco sentido, o que escrevi? Soule exprime estas ideias muito melhor do que eu. Um comic sobre arquitectura e teorias matemáticas. Quem diria.

domingo, 10 de julho de 2016

Too many clever opinions just make you confused


20 anos depois... isto parece tão actual. A meio de um dos trade paperbacks que reúne a temporada de Mark Millar como argumentista de Swamp Thing, deparo-me com esta bizarria. Escrito em reacção ao ressurgir do conservadorismo americano nos anos 90, com políticos a apelar a valores bafientos e a sublinhar o anti-progressismo, American Cop satiriza toda aquela ideologia de direita conservadora que rejeita a diversidade étnica, a multiculturalidade, o feminismo ou a liberdade sexual.

Millar solta todos os demónios neste estranho one shot, em que revê Chester Williams, o eterno hippie, companheiro do Monstro do Pântano criado por Alan Moore na sua temporada épica, que definiu o personagem. Millar faz Chester arrepender-se do liberalismo contra-cultural, e transforma-o num diligente agente da polícia, daqueles que não hesita em usar o casse-tête sobre qualquer um que não se enquadre no consenso conservador do homem branco tradicionalista e da mulher recatada, nem pestaneja ao eliminar a tiro emigrantes ilegais. A caricatura é grotesca e assustadora, porque retrata demasiado bem a misoginia, racismo, estreitamento mental, violência e anti-intelectualismo inerente a este tipo de ideologia. "I used to read books too, but now I see what they do to people, Liz. Too many clever opinions just make you confused (...)" diz, ao curar Liz, outra personagem clássica da série, do seu lesbianismo com um beijo másculo que logo a convence a casar-se, e aceitar os bofetões de um homem que não admite que os carinhos da mulher lhe impeçam as saídas à noite com os amigos. Saídas para beber umas cervejas e espancar negros bem vestidos que se atrevem a ser advogados.


A história termina com Chester a realizar o sonho americano, tornando-se presidente apelando aos piores valores do conservadorismo. Esta prancha, a penúltima do comic, arrepia porque... estamos em 2016, e vemos nos media a ascensão de Donald Trump como candidato à presidência americana, alicerçando o seu inesperado sucesso através do apelo escatológico aos mesmos valores de baixeza moral, conservadorismo bafiento e regresso ao tempo em que minorias étnicas, culturais ou sexuais se mantinham caladinhas, reduzidas à sua insignificância, sem se atrever a contraria os valores justos do homem (branco) de bem. Tudo o que Mark Millar satirizou neste comic, editado em 1996, chega-nos hoje pelo olhar dos media nas reportagens sobre as lutas políticas reais de Trump nos Estados Unidos, ou na ascensão dos partidos xenófobos de extrema-direita de inspiração fascista, um pouco por toda a Europa. Arrepiante, e a incentivar uma certa descrença na capacidade de evolução da consciência humana.

sábado, 9 de julho de 2016

Alive




Só deu para ir no primeiro dia. Saldo final da noite no palco principal: um concerto inesperadamente espantoso, outro surpreendentemente medíocre, e um final de mediocridade expectável. Fica-se com a sensação que se perdeu algo de interessante noutros palcos.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

The Authority: Relentless


Warren Ellis, et al (2000). The Authority: Relentless. La Jolla: Wildstorm.

Nas suas doze edições à frente de The Authority, Warren Ellis soltou o espírito apocalíptico em larga escala em três histórias de progressiva alucinação. Em The Circle, esta intrigante super-equipe que vigia o mundo revela-se como defensora de uma humanidade atacada pelo exército de clones um vilão tão decalcado em Fu-Manchu e no Perigo Amarelo que Ellis replica na perfeição a iconografia xenófoba deste género. Ainda o mundo não está recuperado dos clones asiáticos e logo se perfila outro perigo. Desta vez, uma violenta invasão vinda de uma Terra paralela, colonizada por alienígenas que se mesclaram com os humanos na era renascentista. Com o planeta de origem à beira do colapso, com os continentes arrasados na busca por mulheres para assegurar sem sucesso a linha de híbridos alienígenas-humanos, estes viram-se para a Terra como novo espaço vital para conquista. Shiftships é uma boa desculpa para vinhetas de grandiosidade apocalíptica, com cidades cobertas de batalhas aéreas entre naves alienígenas, super-seres e caças de combate. Poder-se-á ir mais longe? Com Warren Ellis, claro que sim. Em Outer Dark, a terceira grande ameaça combatida pela equipe é uma espécie de quase-divindade alienígena, ser que vagueia pelas vastidões estelares e que regressa a um planeta que ajudou a formar, mas descobre ter sido infectado por uma praga imprevista - a vida, tal como a conhecemos. Resta à equipe invadir o corpo da criatura para a matar, penetrando-o dentro da sua vastidão, tão vasta que as bactérias que o habitam evoluíram para formas de vida sentientes e construíram civilizações. Ellis encerra a sua run com deicídio por electrocussão.

Tão interessantes como os divertidos arcos narrativos são as personagens, que exploram o conceito de super-herói em vertentes inesperadas. A equipe é liderada por Jenny Sparks, o espírito do eléctrico século XX, que morrerá no final da série. Finalizando o século, extinguir-se-á e será sucedida pelo espírito de um novo século, Jenny Quantum. É acompanhada por The Doctor, que canaliza o espírito imortal que se encarna em shamãs que protegem a Terra, Midnighter, especialista na luta corpo a corpo com extremo prejuízo, amante de Apollo, cujos poderes dependentes do sol parecem não ter limites, The Engineer, uma mulher que se transmuta em máquina após substituir o seu sangue por nano-máquinas, Swift, uma mulher alada, estratega e caçadora implacável, e aquele que para mim é o mais fascinante desta lista: Jack Hawksmoor, herói urbano, cujos poderes envolvem canalizar o espírito das cidades. Como se as visões mais arrojadas de arquitectura e urbanismo se encarnassem num ser de poderes místicos.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Batman: Outros Mundos

 

Mike Mignola, et al (2013). Batman: Outros Mundos. Oeiras: Levoir.

Mudar radicalmente os contextos expectáveis dos super-heróis mais icónicos sempre foi o estilo da série Elseworlds, cujas histórias levam os "e se" a níveis muito inesperados. Nesta edição, a Levoir edita em português três aventuras marcantes de um Batman alternativo. Histórias intrigantes pela visão de estranheza que trazem à iconografia do personagem, que se distinguem por um grafismo arrojado.

Gotham Sangue e Sombra: A clássica aventura de Batman Gotham By Gaslight, que imagina uma Gotham do final de século XIX assolada por Jack, o Estripador enquanto as aventuras nocturnas de um jovem Bruce Wayne, recém regressado da Europa, espalham o medo pelos becos da cidade. Se a história não é nada de especial, com a expectável reinvenção de Batman sob a luz do século XIX, a ilustração clássica de Mike Mignola é notável, no seu estilo pessoal.

Chuva Vermelha: Morcegos contra vampiros? Batman terá de defrontar o príncipe dos vampiros, e acabará ele próprio por se tornar uma criatura morta-viva da noite, nesta aventura ilustrada no estilo de barroquismo grotesco de Kelley Jones.

Sanctum: Um delírio gótico, com Batman a perseguir um assassino num cemitério e ao cair numa tumba, ter a sua força vital sugada por um espírito malévolo que o prende num palácio mental de memórias e saberes ocultos. Mike Mignola a dar cartas, num estilismo que viria a desenvolver e amadurecer no seu inimitável Hellboy.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Flip the switch


Uma passagem que espelha muito bem a minha própria aprendizagem nos últimos anos:
"For me personally, the real treasure was never gold, but something far more precious. This maiden voyage of our little robot was a tremendous experience, but my journey started long before that day in the cave. My challenges were more fundamental than any technical design. I had gone from non-existent engineering or design experience to making substantial contributions to underwater robotics. A project that had seemed intimidating and impossible to me only a year earlier shaped me into a completely new person. I had flipped the switch from being a passive consumer of life to an engaged, creative participant in it. I had gone from Zero to Maker."

É este o espírito que se sente quando mergulhamos no mundo da fabricação digital. Uma sensação exponencial, em que cada aprendizagem traz a vontade de ir descobrir coisas novas. E, de repente, damos por nós com projectos inesperados a decorrer.

David Lang (2016). From Zero To Maker. Sebastopol: Maker Media.

Visões



Cartas da Guerra (Ivo Ferreira, 2016)

No meio do horror sem sentido da guerra colonial vivida num quartel no interior angolano, as cartas de um jovem médico à sua mulher são, ao mesmo tempo, o retrato de uma realidade progressivamente dura e a linha de vida que lhe mantém acesa a humanidade. Filme de temática muito forte, baseado nas cartas que António Lobo Antunes escrevia à mulher, recorda-nos sem tabus um período da história portuguesa contemporânea que está muito presente nas memórias vivas. Entre o desespero, quase um mergulho no coração das trevas, e a ironia do retrato de uma situação política irreal. Para lá da temática, o que mais impressiona neste filme é o seu rigor estético, com um trabalho soberbo de enquadramentos em geometria apurada e um fortíssimo puxar do contraste na imagem a preto e branco. A estética é de tirar o fôlego.

Premiado no festival de cinema de Berlim, este filme estreará a um de setembro de 2016. A equipe do Plano Nacional de Cinema e a produtora O Som e a Fúria organizaram uma sessão para professores de escolas da zona de Lisboa que integram este projecto. Uma boa oportunidade para ficar a conhecer este filme, e também visitar os antigos estúdios da Tobis.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Comics


Black Panther #03:  A tentar perceber por onde vai esta revisão do personagem às mãos de Ta-Nehisi Coates. Suspeito que a reflexão sobre africanidade se está a sobrepor à lógica narrativa, numa história que se antevê como arco longo. O que surpreende é o profundo rigor de enquadramentos e construção visual que Coates está a impor aos ilustradores.

East of West #27: Este comic está a precisar de uma pausa. Ou de um ponto final. A hipérbole majestática deste weird Sci Fi western começa a tornar-se demasiado pesada e repetitiva. Vá lá, mr. Hickman, leve lá a coisa até à catástrofe apocalíptica final que anda a prometer desde a primeira vinheta, há vinte e sete edições atrás. Começa a estar na hora de deixar os cavaleiros do apocalipse ter o seu duelo final com a Morte. Já explorámos o mundo ficcional, já descobrimos as desconexões cognitivas desta weird america, já mergulhámos nas intrigas do poder, já percebemos a tortuosa história dos cavaleiros. Chegou a hora do duelo final, ao por do sol. Prolongar o comic é mergulhá-lo numa agonia de irrelevância.

sábado, 2 de julho de 2016

Singularidades




Gare do Oriente pouco antes da Maker Faire Lisbon, tertúlia literária dos Devoradores de Livros na Leituria, antigos estúdios da Tobis.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Homem de Ferro: Extremis


Warren Ellis, et al (2012). Homem de Ferro: Extremis. Oeiras: Levoir.

Dos heróis Marvel, Homem de Ferro sempre me pareceu aquele mais interessante pela sua iconografia, celebradora da luxúria do deslumbramento pela tecnologia, do que pelas suas aventuras. A curiosa mistura de cavaleiro medieval com tecnologia futurista deste personagem permite algumas aventuras divertidas. Esta edição da Levoir reúne uma renovação do personagem sob a égide da frieza de Warren Ellis, e algumas aventuras de puro divertimento, que se notabilizam por trazer aos leitores portugueses o trabalho dos ilustradores nacionais que trabalham para a Marvel.

Extremis: Warren Ellis a reinventar o Homem de Ferro, centrando-se na dualidade de Tony Stark enquanto herói e construtor de armas letais, a enfrentar uma arma deixada à solta no terreno para convencer as autoridades da necessidade de desenvolver defesas avançadas. Sendo um argumento de Ellis, esperem níveis emocionais a roçar o autismo e deslumbre tecno-fetichista à solta.

Aceleradores Magnéticos, Gravatas de Poder e Homens de Titânio: Aventura a misturar acção com humor, com o Homem de Ferro a envolver-se (de várias formas, algumas nada violentas) com uma brilhante cientista da organização criminosa IMA.

Comboio da Morte: A eficaz assistente de Tony Stark revela-se um osso duro de roer, sobrevivendo com extremo prejuízo a uma tentativa de rapto. História que conta com ilustração do desenhador português Nuno Plati.

Chuva Pesada: Aventura pura, com o Homem de Ferro a combater um andróide de origem alienígena.

Hack: A armadura do herói quase sucumbe perante um hacker que, aproveitando uma reunião de colegas da universidade, decide vingar-se por se sentir sempre eclipsado pelo génio de Tony Stark.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Color: A Natural History of the Palette


Victoria Finlay (2003). Color: A Natural History of the Palette. Nova Iorque: Random House.

Um dos aspectos mais interessantes da teoria da cor é a história dos pigmentos, como são obtidos os materiais que nos dão as cores que nos fascinam. Hoje, representados virtualmente em pixeis ou produtos da indústria química, mas ao longo da história um sinal de profunda sabedoria de técnicas e materiais inusitados, bem como de relações comerciais intercontinentais. Hoje, é fácil e acessível obter as cores mais esotéricas numa qualquer superfície comercial, mas houve tempos que os pigmentos obrigavam a esforços agora impensáveis. Este livro conta algumas dessas histórias, num misto de jornada pessoal de uma jornalista viajante que calcorreou o planeta em busca das fontes mais antigas dos pigmentos. Desde as minas de lápis-lazuli de um Afeganistão sob domínio talibã, aos museus italianos, mercados orientais, ruínas libanesas, campos indianos, até ao interior australiano, procurando na arte aborígene os indícios dos primeiros usos registados de pigmentos com intenção artística no neolítico.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Comics


The Autumnlands #11: O irritante nesta série é perceber que a resposta aos elementos que a tornam intrigante dificilmente será revelada. Percebeu-se que há uma subtil mas assumida meta-ficção nesta história onde magia e ciência colidem de formas inesperadas. Mas a narrativa segue outro caminho, o do clássico romance-périplo a explorar um mundo imaginário. O que prende o interesse do leitor é descortinar a peça que falta no puzzle e perceber o que é exactamente esta série. Meta ficção a ironizar os pressupostos do pulp, da fantasia épica e da FC de aventura? Ficamos à espera que nos seja mostrada a entidade por detrás dos mecanismos, aquele que manipula a percepção da narrativa. Fiel ao espírito da cultura popular contemporânea, que não admite que uma história chegue ao seu ponto final, teremos muito que aguardar por esta revelação. Depois de se alongar até à irrelevância, esgotando os seus pontos de interesse, talvez a peça final do puzzle nos seja revelada. Esta é uma das pragas da ficção de género, nos dias que correm. O arrastar para lá dos limites das séries que prometem ser interessantes, seguindo a lógica de esmifrar as ideias até ao último cêntimo possível, mesmo que com isso as esgotem e desacreditem.

James Bond #07: Ah, Warren Ellis. Mestre do facto ofensivo escrito com frieza de autista.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Juiz Dredd Mega Almanaque #02

 

John Wagne, et al (2015). Juiz Dredd Mega Almanaque #02. S. Paulo: Mythos.

Um pouco por acaso, encontra-se nalgumas bancas e livrarias este segundo almanaque da revista brasileira Juiz Dredd, reunindo uma segunda temporada de seis números de uma publicação que foi cancelada ao fim de vinte e quatro edições. Fica no ar a questão se a Mythos planeia continuar a tendência e lançar em almanaque as doze edições que restam.

Depois de uma leitura divertida, fica-se a perceber que esta revista brasileira era, de facto, muito interessante (e, cortesia das anomalias temporais no meio do atlântico que atrasam em mais de seis meses a edição do que lá se publica por cá, ainda a chegar aos poucos espaços que vendem comics em Portugal). Podiam ter optado pela simples tradução da continuidade actual da lendária revista britânica 2000AD, mas a escolha recaiu sobre uma curadoria cuidada. Para os leitores, ficou uma tradução para português caipira de algumas das melhores histórias do Old Stoney Face. Não os relativamente banais arcos épicos que se espraiam ao longo de semanas pela 2000AD ou pela Megazine britânica, cheios de intricacias e que diluem o carácter da personagem. O editor optou por trazer o lado ácido, fortemente corrosivo, de um personagem abusivo que funciona como caricatura do autoritarismo institucional, apreciado por fãs que em larga maioria lhe admiram o carácter neo-fascista sem se aperceberem da fortíssima estalada conceptual que estão a levar. A sobre-povoada Mega City One, os seus patéticos cidadãos e o exacerbar do espírito da lei na ponta do bastão ensanguentado (ou da bota suja de miolos, ou da lawgiver a dispensar justiça com balas hi-ex), são uma subtil caricatura às utopias autoritaristas com que muitos sonham. Os argumentos corrosivos de Jonh Wagner, a evoluir de uma rebeldia de contra-cultura dos anos 70 à nossa contemporaneidade de hipervigilância e perda de direitos civis em nome da segurança, sublinham bem essa ironia. É uma vertente que nas mãos de outros argumentistas costuma estar ausente, diluindo a personagem como mais um policial futurista.

A revista não se esgota em Dredd. Publica também os lendários Future Shocks da 2000AD, um verdadeiro recreio conceptual onde argumentistas e ilustradores dão corpo às histórias mais bizarras num estrito limite de duas a quatro pranchas. Os de Alan Moore são lendários, mas não são os únicos a surpreender os leitores.

Acenando ao alinhamento contemporâneo da 2000AD, também podemos encontrar a excelente Hard SF de Grey Area, escrita por Dan Abnett, e o divertido Nikolai Dante, outra série que atravessa limites com o seu anti-herói modelado nos personagens de capa e espada, de moralidade duvidosa e num futuro onde a casa imperial Romanov reina sobre todas as Rússias. Os fãs de sword and sorcery também não ficam desapontados com Sláine, esse outro personagem fortemente irónico de Pat Mills, que deturpa todos os pressupostos da fantasia épica.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Visões


Reazione a Catena/Bay of Blood/Twitch of the Death Nerve (Mario Bava, 1971)

Digamos que Twitch of the Death Nerve é uma daquelas geniais combinações de palavras que invoca mais do que o filme realmente dá, enquanto Bay of Blood é mais certeiro. O título italiano resume bem este clássico do giallo realizado por Mario Bava. Ninguém é verdadeiramente inocente neste filme que, em essência, é um encadeamento de mortes violentas, com o que para a altura seriam cenas de gore profundo.A história é uma sucessão de crimes, a iniciar-se com o assassínio por enforcamento de uma velha condessa pelo seu marido, embeiçado pela jovem secretária de um arquitecto que quer transformar o lago, propriedade idílica da condessa, num resort. Segue-se a vingança do filho ilegítimo da condessa, que vive numa cabana à beira do lago e dá caça aos culpados da morte da mãe, a começar pelo seu marido. Ainda temos de contar com a filha legítima da condessa, que vê no extermínio de todos os envolvidos e testemunhas uma boa forma de assegurar o caminho para a herança. Pelo meio, quatro jovens algo libertinos e os vizinhos do arquitecto também são eliminados com extremo, e criativo, prejuízo. A cena do assassínio inicial é magistral, incómoda, e marca o tom de um filme de exploitation pura, com muitas mortes sangrentas e algumas maminhas à mistura, ao som do europop dos anos 70.



Não há inocentes neste filme, a começar nos espectadores, sublinhando o aspecto de voyeur interente à exploitation violenta. Bava sublinha muito bem essa perversidade, quer pelos ângulos de câmara que escolhe, muitas vezes em ponto de vista, quer pela tendência que tem em focar olhos através de planos de pormenor. É o olhar que está em evidência neste filme, com a câmara como dedo que acusa enquanto mostra ao espectador, com detalhes sórdidos e sangrentos, aquilo que deseja ver mas cujo fascínio não quer confessar.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Antigas e Novas Andanças do Demónio


Jorge de Sena (2007). Antigas e Novas Andanças do Demónio. Lisboa: Edições 70.

Na busca dessa coisa elusiva que é a ficção fantástica portuguesa, vim parar à obra de Jorge de Sena. Que, bem sei, não é escritor de fantasias, mas tem em alguns elementos da sua vasta obra traços entre o onirismo, o sobrenatural e as tradições do fantástico, quer históricas quer populares. Surpreendeu esta descoberta, um livro que não se lia mas se saboreava, pela força das palavras do autor. E mais não digo, que para me atrever a pegar neste escritor precisava de um arcaboiço literário e académico que não tenho. Só me pergunto como diabos andei tanto tempo sem me aperceber destas andanças.

Razão do Pai Natal ter as Barbas Brancas: Diz-se que as tentações do demo assolaram Jesus no deserto, mas a verdade é que este já conhecia as desandanças do grande carapelho. Conheceu-o quando era menino, quando o natal lhe prometia uma carroça feita com muito amor pelo seu pai carpinteiro. Perdeu para o demo, mas ganhou uma dada pelo pai natal, que a partir desse momento passou a usar uma barba branca para se distinguir desse outro cavalheiro de língua afiada. Mas, esperem um pouco. O menino Jesus também tinha prendas de natal? Isso, talvez seja outra história...

História do Peixe-Pato: Era um homem que vivia só, à beira mar numa restinga de uma ilha deserta. Comia o que pescava, abrigava-se das raras tempestades num rochedo alto. Até se cruzar com um peixe diferente dos outros, um peixe-pato, que lhe fazia companhia e pedia mimos. A história irá acabar nos bicos das gaivotas impiedosas que sobrevoam constantemente a restinga.

Mar de Pedras: Jorge de Sena ficciona uma lenda atribuída ao santo inglês Venerável de Beda, monge escolástico que teria, um dia, pregado às pedras. Na ficção o santo dirige-se à aldeia limítrofe ao mosteiro para o serviço religioso. Perdido nos seus devaneios, não dá pela passagem do tempo, e ao cair da noite é assaltado por dois jovens camponeses, revoltados com o seu destino. Cativa-os com a sua bondade, e abrigam-se do frio da noite num templo arruinado, sobre cujas pedras as mulheres da zona gostam de se deitar para assegurar a fertilidade. Sob as pedras megalíticas, desfiado pelos camponeses a convencer as pedras sobre a verdade das suas crenças, faz um discurso tão apaixonado que estas lhe respondem. A partir de uma lenda piedosa, Jorge de Sena constrói um elogio à sabedoria, à bondade, ao gosto pelo conhecimento, apropriando-se de uma figura histórica, responsável pela escrita de uma das mais antigas histórias dos povos ingleses.

O Comboio das Onze: Vinheta surreal, onde a carruagem de um comboio serve de palco a estranhos desejos lúbricos. Conto curioso, onde o ponto de vista vai saltitando de personagem em personagem.

A Janela da Esquina: Era uma velhinha, mesmo muito velhinha, que terminava os seus dias de exígua e solitária existência esquecida por um mundo que já ela tinha esquecido. À janela de uma casa lisboeta, cujos aposentos se cobrem de pó e sujidade entranhada. Até ao dia em que espreita pelos vidros um casal enamorado, cujos encontros amorosos se passam entre a esquina e a mercearia da rua. Algo daquele amor lhe entra no sangue, e por breves momentos irá renascer, até a morte a levar. Um conto sobre solidão e vidas apagadas, que aqueles que recordam uma Lisboa antiga, dos bairros tradicionais com os seus envelhecidos habitantes, compreendem com um especial gostinho.

A Comemoração: A ideia surgiu no café, entre dois copos e muita bazófia, e o senhor que era escriturário na repartição tomou muito naturalmente o pulso à coisa. Afinal, homenagear um herói das colónias de África, que chegou lá marçano e veio de lá governador, não é tarefa para qualquer um. Depois de muito cuidado na preparação, com a divulgação nos jornais e até naquele posto da rádio onde as meninas do bairro cantavam para o éter, lá vai o senhor chefe de repartição ao cemitério para aquela que espera ser uma enchente de homenagem. Mas ninguém aparece para o render das honras. Em evidência no conto está a memória incómoda das colónias, as eternar boas vontades das conversas de café que raramente se concretizam, bem como a pequenez das regras de primazia nos ambientes laborais empoeirados.

Duas Medalhas Imperiais Com Atlântico: Mais vinhetas do que contos, relatos de impressões de viagem marítima, entre as conversas dos marinheiros e a realidade das colónias de Cabo Verde e S. Tomé, com o esplendor das paisagens a servir de palco aos dramas humanos da pobreza e solidão. Não são observações fáceis, ou cómodas para o regime ditatorial. Nelas, Sena fala da sexualidade dos marinheiros em longas viagens, da fome desesperada das crianças na aridez cabo-verdiana, ou o hábito dos donos das roças são-tomenses de ir caçar pretos na mata, para aliviar o tédio.

A Campanha da Rússia: Rumores que a casa onde o escritor se hospedou, então estudante pelintra, na rua da Cedofeita, servia de palco a invocações espíritas são a faísca para alguém que tem temores do além passar as noites à deriva pelas ruelas do Porto. Enquanto lá fora, no mundo, a campanha da Rússia ruge na II Guerra, o jovem estudante mergulha como num sonho surreal nas ruelas e becos de uma cidade cuja vida parece desabrochar ao cair da noite.

Kama e o Génio: Era um génio, não muito poderoso mas tido por isso pelos habitantes da aldeia indiana pela qual velava, ao longo de séculos. Detestava as oferendas de papa e leite ázimo, preferindo as raras asinhas de frango, mas acarinhava os aldeões e seguia-lhes as vidas, transmigradas, após a morte. Até um dia, em que os aldeões em fúria lhe cortam parte da árvore que o alberga para empalar um criminoso apanhado pela turba. O génio não suporta ver o sofrimento ladrão, solta-o, e é prontamente espancado pelos demónios que assombram o cemitério, normalmente amigáveis mas irritados pela óbvia perda de muito entretenimento. Felizmente para o génio, o ladrão em risco de execução era uma encarnação do deus Kama, que o recompensa com uma nova vida numa árvore do seu palácio, com dríades para o aconchegar e as suas tão queridas asinhas de frango para o alimentar. Conto onde Jorge de Sena olha com humor para a mitologia hindu, inspirado nas ideias de transmigração das almas.

A Noite Que Fora De Natal: Contos de natal de Jorge de Sena são, nota-se, algo avessos ao espírito natalício. Este começa na ressaca de uma noite de deboche, onde o imperador Tibério sacrificou um jovem escravo para saciar os seus desejos, contando a um dos seus fiéis servidores que ouviu relatos acerca da morte do deus Pã, perguntando-se se será ele, o imperador, deus nascido com a morte desse outro. Regressa quarenta anos depois, com o antigo servidor de Tibério a ser visitado por um velho amigo dos tempos dos seus serviços na Judeia, agora o líder de uma religião emergente que o imperador Nero quer pôr cobro. É uma visita amarga, pois o apóstolo sabe que em Roma lhe espera o martírio, mas com tempo para especular. Se o deus que o cristão segue teve o seu messias na terra há quarenta anos, terá sido ele o que nasceu com a morte de Pã?

O Grande Segredo: Pequeno conto inspirado nos relatos de êxtases místicos de santas, com uma curiosa inversão. A monja santificada que acolhe este sublimar das paixões religiosas abomina os momentos extáticos. No seu íntimo, o ser tocada pela mão de deus é bem pior do que as sevícias que sofreu ao longo de uma vida de sofrimento e escravidão, na qual a clausura é o alívio para uma alma torturada.

Super Flumina Babylonis: Uma ode a Camões, olhando para a amargura do final da sua vida, ficcionando de forma apaixonante elementos da biografia do poeta. Conto denso, algo tenebroso, analisa a pulsão da poesia face à pobreza e esquecimento a que foi votado.

Conto Brevíssimo: O contar de um curto encontro com uma velhota na rua da estação dos correios é a faísca para uma reflexão, curta, sobre o carácter sintético do conto enquanto forma narrativa.

Defesa e Justificação de um Ex-Criminoso de Guerra: Conto cruel, que procura o impensável, colocando-nos da mente de um oficial nazi que, encarregue de controlar um território eslavo, o transforma num recreio para as piores pulsões humanas. O tom mantém a superioridade daqueles que se crêem superiores aos seus semelhantes, justificando a violência extrema com uma objectificação desumana. Narrativa incómoda, que nos leva a ver o mundo pelos olhos de um monstro que se acredita inocente.

O Urso, a Pantufa, o Quadro e o Coronel: Outro conto de Natal onde Sena cruza o espírito da época com contornos de sobrenatural. Durante uma noite de tempestade, numa pousada serrana, um militar em viagem cruza-se com uma bela viúva, dona da pousada, revê-se num quadro antigo, tem sonhos marcantes e, ao acordar no dia seguinte, ninguém o consegue convencer que o dono da pousada está vivo e de boa saúde. Terá sido sonho ou assombração? Esta dualidade nunca explicitada torna delicioso este conto.

Os Amantes: conto que dificilmente seria publicado por cá nos tempos do regime do estado novo. O apelo à sensualidade e sexualidade é directo e explícito nesta história que explora muito bem os sentimentos carnais do amor.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Comics

 Clean Room #09: O que parecia ser uma série linear sobre uma jornalista que procura vingança pelo suicídio do namorado, envolvido com um culto quase religioso, está a evoluir em direcções muito inesperadas. De forma algo paranóica, os membros do culto têm razão no que professam, e lutam para exterminar seres malévolos que talvez sejam demónios, talvez alienígenas. Criaturas que vivem no limiar da nossa percepção, e parecem ter como único propósito o aniquilar da humanidade. Escrita pela veterana Gail Simone, esta série está a revelar-se cada vez mais interessante.
 
Lazarus #22: A distopia neo-liberal está de regresso, e Greg Rucka está claramente a olhar para uma fase divertida, pegando na tecno-luxúria especulativa do tipo guerra futura.

sábado, 18 de junho de 2016

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Lembranças da Terra



Ângelo Brea (2014). Lembranças da Terra. Santiago de Compostela: Através Editora.

A culpa disto é da Cristina Alves, do Rascunhos, que deu com este livro numa livraria e partilhou a página da editora, escrita num português estranho. Sabendo o quão raro é FC em língua portuguesa, muito mais se não vier dos sítios do costume, o assunto merecia alguma investigação. O mistério do estranho português resolveu-se ao perceber que a editora, bem como autor, são galegos. A curiosidade aguçou-se, mas o livro revelou-se esquivo. Até ao dia em que, por puro acaso, o encontrei numa das minhas peregrinações às livrarias de Óbidos.

Peregrinações é o termo certo. Notem que a principal livraria fica na antiga igreja ao lado do castelo, que obriga a atravessar toda a vila e subir uma rampa inclinada para se lá chegar.

Lembranças da Terra é um livro muito curioso. Pelo que é, obra de FC de um autor galego, escrita num galego internacional que é quase indistinguível do português. Notam-se as diferenças em algumas expressões e construções frásicas, que dão um gosto especial de exotismo à leitura. Mas, essencialmente, pela sua banalidade interessante. Estranha combinação de ideias, bem sei, mas este livro de Brea não traz nada de novo ao campo da FC. Bem pelo contrário, é uma mistura de temas e estruturas narrativas clássicas do género. Um carácter que assume, e que trabalha de formas curiosas. É interessante notar que se cada conto apresenta sólidas construções de mundos ficcionais, na maior parte deles nada de concreto se passa.

Lembranças da Terra: Num planeta Marte cujos colonos se sentem cada vez mais afastado da Terra, berço natal, um jovem marciano pergunta ao pai do que é que este se recorda da sua viagem ao planeta. As recordações do pai são muito marotas, tendo lá ido em viagem de núpcias, e revela ao jovem que foi concebido na Terra, o que abala um aspirante à independência marciana. Conto bem humorado, mas que falha porque a sua premissa central, a do jovem lutador pela independência das colónias de Marte, só é revelada no final e não tem qualquer impacto na narrativa.

A Máquina da Entropia Inversa: Um físico consegue realizar o seu sonho de descobrir o antigo Egipto ao tornar-se voluntário de testes de uma máquina de viagens no tempo. Os viajantes não se deslocam fisicamente, antes incorporam-se como habitantes do passado, e os paradoxos temporais são evitados pelo sistema computacional que controla a viagem. O sistema é um misto de realidade virtual com máquina do tempo e depende de um anel, que o viajante retira quando quer regressar ao seu tempo. Mas este físico apaixona-se por uma bela egípcia, e pela ideia de viver no passado, usando a sua sabedoria do presente para aliviar os males medicinais dos antigos egípcios. Enquanto o seu corpo fica numa espécie de coma induzido no presente, vive no passado uma vida que lhe agrada mais do que a que deixou. As consequências deste acto são imprevisíveis.

As Exploradoras: Uma missão de exploração chega a um planeta cheio de vida, com alguns vestígios de ter sido no passado habitado por formas de vida inteligente. Na lua que orbita o planeta, encontram alguns espécimes crio-preservados dos antigos seres, numa base abandonada. As exploradoras revivem-nos e devolvem-nos ao planeta, esperando que assim a espécie tenha uma segunda hipótese de sobrevivência. Conto que inverte de forma muito simpática uma premissa clássica da FC, a história de exploração planetária. Aqui, os exploradores são alienígenas e a Terra o planeta selvagem com vestígios de uma antiga civilização.

As Grandes Vantagens da Neolíngua: Num futuro próximo, um professor de japonês reflecte sobre a beleza que se perde com a extinção iminente das línguas globais face à prevalência de uma língua franca. Ganha a facilidade de comunicação, perde a diversidade cultural. Conto que aborda uma questão querida à editora deste livro, a preservação do galego, sob uma perspectiva de FC.

Doze Anos em Titã: Conto com um sólido mundo ficcional onde nada de especial acontece. Toda a narrativa é a construção de um ambiente de FC Hard clássica, centrada num posto avançado de colonização em Titã para extracção de recursos naturais, que está no limiar de se tornar uma pequena cidade. O foco está nas agruras do administrador, que tendo a infelicidade de ser competente, não se consegue livrar dos contratos sucessivos na lua de Saturno. Homem que embora se sinta a a envelhecer, com a vida a passar-lhe ao lado, não deixa de se focar no que considera ser o seu dever.

Estação Lunar Alfa: Não confundir com essa outra base lunar Alfa (embora tenha talvez tido o seu quê de inspiração). A FC aqui serve de cenário a um conto policial, típico whodoneit com um inspector destacado em comissão de serviço na base lunar a investigar a morte violenta de dois cientistas e um condutor de rovers lunares. O motivo tem o seu quê de western, com a descoberta de uma jazida de ouro sob a superfície marciana e um par de geólogos que decidem aproveitar-se, em segredo, da sua descoberta.

Nas Montanhas de Magadar: Um conto longo, onde nada parece passar-se. Narra o mergulho na clandestinidade de um grupo de fugitivos a uma revolução que transforma numa sanguinária ditadura. As descrições da convulsão política num sistema solar colonizado por descendentes de russos são interessantes, mas toda a história se limita ao iniciar de um processo de sobrevivência nas montanhas. É um conto curioso. Geralmente conta-se o que acontece antes, ou depois, destes momentos morosos de adaptação...

O Bonsai: variação sobre as histórias de autómatos inteligentes que adquirem algo de humano. Aqui, um autómato criado por um cientista isolado da família vai tornar-se um quase filho. Construído para seguir a tradição familiar de criar bonsais, irá dar mostras de humanidade e tornar-se ele mesmo um legado para passar às próximas gerações. Junto com a homenagem à história clássica de robótica, há um forte fascínio com a cultura japonesa tradicional.

O Efeito Smith: Visão curiosa. A derrota e exterminação da Terra às mãos de um império estelar, contada num discurso de vitória que mostra o pormenor cultural que deu aos alienígenas a vantagem sobre a tecnologia terrestre: o individualismo democrático, entendido como fraqueza estrutural por estes alienígenas vitoriosos que se prepararam para esmagar a galáxia sob as suas pesadas botas. Daqueles contos que não se percebe serem um hino ao ideário fascista, ou uma ironia.

O Sol no Horizonte: A dicotomia entre os habitantes de uma colónia remota, que devido à forte radiação no sistema solar duplo onde se encontra o planeta colonizado não têm qualquer contacto com o resto da humanidade. Da terra restam os produtos culturais mediáticos, agora artefactos milenares, que satisfazem o saudosismo dos colonos. Mas as novas gerações começam a inquietar-se e a querer construir a sua cultura.

O Varredor: a história de um astronauta especial, malvisto pela família e sociedade, que ganha protagonismo e merecido reconhecimento quando a sua nave de recolha de lixo espacial é a única capaz de salvar a tripulação de uma importante missão espacial.

Perdidos na Lua: História de FC Hard sobre dois astronautas que, encarregues de reparar um espelho no observatório no lado escuro da lua, se vêem obrigados a abrigar-se nas crateras para sobreviver ao dia lunar após um micro-meteorito lhes dar cabo do veículo de transporte.

Por Causas Naturais: na incipiente colonização marciana, impõe-se a pergunta: quem será o primeiro explorador a morrer em Marte? A combinação de uma astronauta grávida e uma tempestade de pó que isola as secções da colónia vai dar a resposta, com o parto do primeiro bebé marciano a causar a morte da mãe.

Rosas de Admete: Um conto sobre plantas alienígenas que fascinam a humanidade já se sabe onde vai parar. Este segue um esquema similar ao Day of the Tryffids de John Wyndham, com variantes. As flores são belas, produzem energia eléctrica, convivem bem em todos os ecossistemas, e... quando florescem, simultaneamente em todos os planetas colonizados de 31 e 31 anos, libertam esporos adaptados ao ecossistema agreste original, que para sobreviver nos primeiros minutos libertam uma toxina mortal que depressa se desvanece. O extermínio da humanidade é quase total. Só sobrevivem aqueles que por estarem em locais isolados em terra ou no espaço, não estão em contacto com estas rosas fatais.

Um Planeta Remoto: Sob o panorama de uma civilização galáctica a colapsar, os colonos de um asteróide mineiro procuram um refúgio seguro, longe do caos violento em que mergulharam os planetas da diáspora humana.

Um Pôr do Sol Vermelho: Daquelas histórias neste livro onde nada de especial parece acontecer, funcionando com especulação sobre o processo de terraformação de Marte, seguindo os pensamentos de um astronauta que tem um acidente na superfície marciana.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Intervalo às Onze da Tarde

 
Nuno Coelho (2014). Intervalo às Onze da Tarde. Lisboa: Edições Vieira da Silva.

Convidou-me o simpático autor deste pequeno livro a dizer-lhe algo sobre a leitura. Em plena feira do livro, local que confesso detestar por razões que me escapam, temi a ideia. Mas não, nada complicado, qualquer coisa, disse. Se achares que foi a pior coisa que leste desde sempre, não hesites em dizer-me. Despedi-me com um so long and thanks for all the fish e fui para casa ler e matutar.

E, lamento. Lamento imenso. Pese à parte a capa, que precisaria de um design mais cuidado (e aquele horrendo tipo de letra do título), este livro não é o pior monte de bosta a desperdiçar tinta e polpa de papel que apanhei nos últimos tempos. Note-se que não escrevo isto porque poderia ser mau, mas nunca tão mau com o último que li, talvez um ponto muito baixo literário agora arquivado nas minhas estantes. É que o livro é bom. Bom não no tedioso sentido prémio Nobel da literatura, mas no sentido cuidado que se podem engasgar a rir durante a leitura.

O que me atraiu ao livro de Nuno Coelho foi uma frase espirituosa partilhada nas redes sociais. Se há algo a que não resisto é a uma boa frase espirituosa, daquelas que brinca intensamente com a língua e os significados das palavras. É irresistível, e os meus alunos sofrem bastante durante as aulas por isso. Toda esta obra vive disso, de um non-sense em aceleração contínua, em sentido de surrealismo clássico bem humorado. A associação livre de ideias está bem viva, e recomenda-se nesta viagem alucinante a uma casa na Transilvânia, Trafaria, com a sua criada lúbrica, estorninhos indigestos, senhoria de fugir, vampiros anti-efeminados e escadas com propensão para ressacas depois de noites de festa rija. A tradição do surrealismo clássico convive com o bom humor absurdista e a linguística à rédea solta nesta belíssima surpresa literária.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Comics

Constatine The Hellblazer #13: Um final excelente para uma série que soube revitalizar este icónico personagem da DC.  Percebe-se que termina aqui a temporada de Ming Doyle e James Tynion IV, com um regresso possível da personagem sob outras roupagens. Depois da era épica de Pete Milligan e o desastre que foi a tentativa de inserção de John Constantine na continuidade da linha de super-heróis da DC (apesar de Justice League Dark ter sido divertida), estes argumentistas souberam revitalizar um personagem que requer tratamento cuidado.



Injection #10: Um final de temporada em tom de apocalipse suave sob pressão memética. Se formos mergulhados em água morna que vai aquecendo progressivamente, quando é que nos apercebemos que estamos a ferver? Tem sido esse o tom desta série onde uma inteligência artificial criada para tornar o futuro interessante anda à solta pelas redes digitais. 

The Sheriff of Babylon #07: Nesta série que se está a tornar na mais interessante do corrente alinhamento da Vertigo, a violência institucionalizada e sectária dos anos da ocupação americana do Iraque dão o mote a uma história que a cada nova edição mergulha cada vez mais fundo no caos.