domingo, 5 de julho de 2020

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Convidamos a um mergulho no arrojo realista dos comics de guerra, e na relação entre naves espaciais e fatos de banho. Fala-se da honestidade em arte digital, de políticas públicas para gerir impactos da Inteligência Artificial na sociedade, do flirt dos criadores de Sim City com os Jogos Sérios, e da robótica em apoio ao comércio. Descobrimos a nova natureza, que dizer asneiras é terapêutico, e recordamos alguns factos sobre a Covid-19.

Ficção Científica


Vincent Di Fate: Um toque de alta fronteira. 

Ars’ summer reading guide for our very surreal summer: Precisam de sugestões de leitura para este Verão de desconfinamento cauteloso? O pessoal do Ars Technica tem excelentes sugestões. 

From the 1967 Soviet book The Milestones of the Space Epoch: O futurismo soviético é todo um universo de utopias perdidas. 


A Pattern For Monsters: Fatos de banho e aventuras no espaço. 

Debt of Honor: The Complex Reality of 1980s War Comics: Um mergulho na ambivalência dos comics de guerra, alguns dos quais se tornaram interessantes precisamente por irem contra o espírito patriota e de glorificação da violência. Alguns destes, como The 'Nam ou Weird War Tales, são clássicos da melhor banda desenhada. 


Ralph McQuarrie: Momento Star Wars. 

'Soy leyenda': cómo la mejor novela de Richard Matheson se convirtió en la historia post-apocalíptica definitiva: Se lerem o livro, uma brilhante inversão da mitografia de Drácula, percebem que até agora nenhuma das suas adaptações cinematográficas lhe fez realmente justiça. 


Ron Walotsky: Surrealismo fantástico. 

O Relógio sem Ponteiro: Webcomic português, fiquei totalmente seduzido pela riqueza visual da sua estética, entre o mangá e o steampunk, num grafismo muito bem desenvolvido. 


Michael Böhme: Paisagens alienígenas. 

Get a Piece of Good Girl Art History with Phantom Lady #17: Fiquem lá com mais um termo geek - good girl art, que designa a representação visual de personagens femininas, sublinhando os seus atributos físicos e uma aura generalizada de atracção, mas ficando dentro da fronteira de decência para não correr riscos legais. 

Tecnologia


New Airbus Blended-Wing Airplane Concept Looks Very Similar to a 1940s Design for a Futuristic Flyer: Bem, qualquer proposta de aeronave blended wing vai sempre ser uma regência visual Gernsback continuum às visões de asas voadoras dos anos 40.

Lev Manovich: Provavelmente, esta é das melhores reflexões sobre arte digital que já li. E curta, também. Começa por falar da explosão da algoritmia e generatividade trazida pelo uso de linguagens de programação artísticas, mas tem a coragem de observar que grande parte dessas criações não trazem nada de novo, e isso não é mau, apenas normal. Não se fica por aqui e ainda olha para outro enorme campo de expressão artística digital - as imagens 2D e 3D criadas por todos aqueles que querem expressar as suas ideias e sentimentos, muitas vezes inspiradas por estéticas, como a ficção científica e fantástico, que são desconsideradas pela cultura erudita, e que pela sua pureza ou inocência (são criadas porque se quer fazer, não para dar corpo a teorizações) considera mais honestas do que o lado erudito da arte digital. No fundo, fazer arte é expressar ideias e estados de alma, tanto pode ser uma exploração profunda de uma possibilidade arcana de generatividade como imaginar ou recriar veículos em 3D. O digital trouxe isso, uma democratização de ferramentas que tornaram mais acessível a expressão plástica. Manovich coloca no mesmo saco as práticas eruditas, muitas de investigação, e as pessoais, de simples procura por expressão individual. Não é habitual ver da parte de críticos e analistas atenção dada a formas de expressão artística fora do âmbito mais erudito. 

Augmented Reality in Education is Gateway to the Future! | WBPRO: Se normalmente me esquivo a artigos de opinião escritos por quem tem interesse direto nos assuntos, este vale a pena pela forma como sintetiza diversos usos de realidade aumentada em contextos educativos. 

Yann LeCun, Yoshua Bengio: Self-Supervised Learning is Key to Human-Level Intelligence: Poderão os algoritmos de Inteligência Artificial atingir níveis de inteligência comparáveis aos humanos? Uma resposta possível poderá passar pela aprendizagem automática não-supervisionada. 

Public policies in the age of digital disruption: O discurso sobre impacto da inteligência artificial, robótica e automação na sociedade geralmente pende fortemente entre duas vertentes - a utopia de um mundo onde os robots trabalham e as riquezas são distribuídas pela população, e um mundo de pobreza porque não há trabalho, os robots asseguram a economia. As possibilidades reais estão mais ou menos a meio destas vertentes, não estou a ver as elites globais a abrir mão da sua riqueza potenciada por tecnologia para distribuição mais equitativa (em esquemas RBI, por exemplo), nem é sustentável a ideia de vastas parcelas da população global deixadas ao abandono, uma espécie de terceiro mundo à escala planetária,  porque o consumo individual é um dos motores da economia e em pobreza extrema não há consumo. O sucesso da transição digital, que já está a ocorrer, no elevar da qualidade social em economias progressivamente automatizadas, vai depender muito de políticas públicas de incentivo e regulamentação. E não por acaso, o primeiro eixo tem a ver com a educação. As capacidades de flexibilidade, adaptação digital, trabalho de projeto individual ou em equipa, resolução de problemas, pensamento crítico e criatividade serão fundamentais para se ter hipóteses de sobrevivência no futuro próximo (já o são, hoje). Algo a que o corrente sistema de ensino, apesar de todo o seu esforço de mudança, ainda não consegue dar resposta eficaz a um nível abrangente (pontualmente, é possível).

The Era of Fragmentation, Part 3: The Statists: Uma história do Minitel, e dos sistemas que o antecederam. Essencialmente sublinha a importância de investimento público na criação de infraestruturas de conectividade digital à escala de nações. O Minitel, apesar do seu sucesso (em parte, baseado na dádiva de terminais, e em parte por usar a rede telefónica nacional francesa), acabou por se tornar obsoleto com o crescimento da Internet. Esta oferecia conectividade global, algo que o clássico sistema francês não era capaz. 

How Visual Images Change In The Internet Era: O impacto da Internet na cultura visual, quando a acessibilidade a experiências estéticas variadas, entre o erudito e o vernacular, é instantânea. 

Eric Kluitenberg (ed.): Book of Imaginary Media: Excavating the Dream of the Ultimate Communication Medium (2006): Os museus de tecnologia estão cheios de projetos de meios de comunicação que, por muitas possíveis razões, não pegaram. Este livro recorda esses becos sem saída da história das telecomunicações. 

Commentary: I’m teaching on Zoom, and I’ve got to admit, my students are missing out: Há duas coisas que estão a ficar claras para todos, agora que a educação se faz à distância. As tecnologias que alguns professores já usavam, muitos demonizavam, e a maioria ignorava, mostram-se, como se sabia, excelentes ferramentas de apoio à aprendizagem. Por outro lado, não há ferramentas que substituam o contacto humano, o professor enquanto guia do aluno. Isso está a ficar muito claro, há medida que o afastamento da escola se mantém. 

Hitting the Books: Do we really want our robots to have consciousness?: Não necessariamente consciência como a definimos. Mas, para interagir connosco, alguma forma de auto-consciência, para que o sentido das nossas ações não lhes seja aleatório. 


Esta IA consigue alucinantes efectos 3D en imágenes tradicionales analizando el contexto de la escena: Claramente, está na moda desenvolver algoritmos que projetem o conteúdo de fotos em imagens pseudo-3D.

La historia de Paquito, el PC tonto de Intel que fracasó estrepitosamente en España: Confesso que fiquei curioso com este terminal Intel a correr Linux que queria democratizar a computação em Espanha. E se acham Paquito um nome pateta, a JP Sá Couto por cá produziu sobre licença o Intel Classmate e deu-lhe o nome Magalhães. 

Robots could help save your local store from going out of business: Talvez seja verdade ao nível do médio retalho. Mas duvido que o comércio local - o que dá vida e textura às cidades, venha a ter capacidade de beneficiar com automação dos seus processos. 

Go read this incredible history of the SimCity studio’s forgotten business games division: Fora dos domínios académicos, o campo dos Serious Games não é dos mais fáceis. A Maxis, que criou o jogo de simulação mais famoso de sempre, aprendeu essa lição através do falhanço espetacular de uma divisão para criação de simulações técnicas ou empresariais. 

3D printers are on the front lines of the COVID-19 pandemic: Cá, como por lá, os Makers estiveram na primeira linha de apoio ao combate à covid-19. Não deveria ter sido assim, as viseiras e restante material de proteção saído das impressoras 3D não tinham certificação, foram criadas em ambiente semi-profissional, e os materiais não eram os mais indicados para uso em ambientes críticos. Mas o que custa é saber que, durante uns tempos, não houve qualquer alternativa, e sem este contributo dos Makers, muitos profissionais de saúde teriam ainda menos recursos ao seu dispor do que tiveram. 

Modernidade


My Wild Escape From Hitler’s Twin Nymphs of Torture: Estas capas são um primor de exploitation. 

Back Water: What should be classified as “wilderness” in a post-industrial world?: Explorar o novo selvagem, as zonas poluídas de coexistência entre os artefactos do antropocénico e a natureza que resiste. Aqueles espaços abandonados, cheios de ervas daninhas, entre subúrbios e parques industriais, serão talvez as zonas naturais de um futuro que, francamente, não é desejável. 

Danny Snelson: Apocalypse Reliquary, 1984-2000 (2018): Parte ficção científica, parte projeto artístico. Indícios de um apocalipse que nunca aconteceu. 

On the Lusty Month of May: A relação entre Maio e a sexualidade, entre a primavera onde tudo desabrocha e o fim das limitações impostas pelo calendário religioso na idade média. 

Most of the Mind Can’t Tell Fact from Fiction - Facts So Romantic: Porque é que apreciamos ficção, e muitas vezes nos é difícil distinguir entre ficção e realidade? Há razões neurológicas para isso. 

Scientists: Saying "fuck" and other bad words really can decrease your feeling of pain: Sim, nós sabemos, e agora a ciência comprova. Só não diminui é o embaraço de martelar o dedo numa sala de aula, vociferar uma palavra bem alto uma palavra começada por f, e de repente ter toda uma turma de meninos de 10 anos a olhar para nós, chocados. Não foi um dos grandes momentos da minha carreira… 

The Astronaut Wives Know Exactly What to Expect: Aquelas que ficam em Terra. Mas, no caso do lançamento da primeira Crew Dragon tripulada, as esposas dos astronautas são, elas próprias, também astronautas com várias missões à ISS. 

Diz que é uma espécie de gripe: Por esta altura, já deveria ser claro que a covid-19 não é uma espécie de gripe, é antes um novo vírus causador de doenças cuja amplitude ainda não conhecemos. 

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Comics: Impossible Inc.; Mythology


J.M. DeMatteis, Mike Cavallaro (2019). Impossible Inc.. IDW Publishing.

Ficção YA cruza-se com a filosofia cósmica que DeMatteis tanto gosta, numa história direta e divertida. A jovem filha de um génio desaparecido dá continuidade ao legado do pai, explorando os diferentes universos acessíveis a partir da nossa realidade. Mas, ao tentar recuar no tempo para perceber como o seu pai desapareceu, sofre um acidente e descobre-se no nexo central que une as realidades e linhas temporais possíveis. Aí encontra um simulacro do seu pai, preservando as suas memórias. Ao regressar à sua realidade, a jovem comete um erro que poderá causar a destruição total do universo.

Naquele estilo leve e otimista da ficção YA, DeMatteis mete o leitor a interagir com iconografia psicadélica e ideias cósmicas. Visualmente, o livro é um mimo, referenciando quer a arte psicadélica quer o estilo de Jack Kirby em cores luminosas.


Peter Tomasi, Doug Mahnke (2019). Batman: Detective Comics Vol. 1: Mythology. Nova Iorque: DC Comics.

Batman parece enfrentar um temível inimigo, que está a eliminar um por um aqueles que o ajudaram a tornar-se o cavaleiro das trevas. A história coloca-se em marcha com a descoberta de cadáveres que replicam em tudo os pais de Bruce Wayne, e a espiral de loucura aprofunda-se a partir daí. Nunca percebemos muito bem se é algum dos arqui-inimgos de Batman a dar o golpe final, ou influências sobrenaturais, numa história contada numa métrica impecável. O final é quase anti-climático, trata-se de um ordálio a que Bruce Wayne se submete todos os anos no seu aniversário, usando uma simulação realista gerada por computador que o testa para lá dos seus limites.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Fumetti: L'ultimo blues; Agente speciale Alfa


Pasquale Ruju, Maurizio Di Vincenzo (2010). Cassidy n. 1: L'ultimo blues. Milão: Sergio Bonelli Editore.

O início de uma série policial dark, com um criminoso de ética forte a ver-se mergulhado numa aventura sangrenta. Com um toque sobrenatural, quando às portas da morte se cruza com um misterioso bluesman que lhe parece conceder um prolongamento da vida. A história detalha o que se passa após um assalto, com os criminosos a virarem-se contra o personagem principal. Boa história para quem for fã de policiais negros, com anti-heróis criminosos mas fundamentalmente justos.


Antonio Serra, Claudio Castellini (1991) Nathan Never n. 1: Agente speciale Alfa. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Sendo o personagem de ficção científica por excelência da casa Bonelli, confesso que nunca consegui apreciar Nathan Never. Talvez por o fumetti ser mais de ação e aventura futurista, ou seja, a ficção científica é essencialmente um cenário. As várias leituras que lhe fiz reforçaram essa impressão - cidades futuristas, muitos gadgets, veículos futuristas, mas as histórias em si poderiam passar-se em quaisquer outros ambientes, que não mudaria nada.

Regressar à primeira aventura de Never, uma história que até poderia ir longe, com fortes referências
às leis de Asimov e um andróide que é por isso incapaz de deter criminosos e assassinos, não desfaz a má impressão que tenho da série. Muita acção, muita estética futurista, mas meramente decorativa.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

H-alt: O Imenso Adeus


Talvez o que mais seduz nesta história seja o seu profundo onirismo. Reduzida aos seus elementos essenciais, O Imenso Adeus é ao mesmo tempo uma história de fantasmagorias e de remorsos pela dificuldade em confessar o amor. Percebemos isso muito depressa, vemos logo qual é o caminho da narrativas. Mas nestas coisas da boa literatura, não é só o destino que interessa, mas sim o percurso. É aqui que esta longa despedida nos cativa. Resenha completa na H-alt: O Imenso Adeus.

domingo, 28 de junho de 2020

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Esta semana, os destaques das Capturas vão para o cartaz do Fórum Fantástico, que esperemos não vir a ser mais uma vítima da Covid-19 nos eventos, e uma antologia de Ficção Científica editada por astrobiólogos sobre alienígenas. Na Tecnologia, fala-se de sharenting, proteção de dados pessoais nos tempos de pandemia, e do fim do blog de Bruce Sterling. Os traços de modernidade trazem uma leitura imperdível sobre a batalha de Arnhem, a visão de armas nucleares como improváveis antiguidades, e os efeitos nefastos da pressão social e moral sobre as pessoas nos dias de pandemia.

Ficção Científica


Cartaz Fórum Fantástico 2020: Será que irá acontecer? É a grande dúvida. A pandemia arrasou o panorama cultural, tudo o que era eventos e festivais foi cancelado. Efeito devastador na economia cultural, mas também no gosto pela fruição (se bem que aqui devo ter de agradecer ao vírus por me permitir salvar a face, sempre afirmei a pés juntos que nunca poria os pés no rock in rio - aquele conceito de rockalhada familiar é demasiado supermercado mesmo para os meus instintos rebeldes suavizados pela idade, mas, num arremedo nostálgico por uma banda que não apreciava nos seus tempos, arranjei bilhete para os A-ha). Se os festivais de Verão são o lado mais mediático dos cancelamentos, a minha agenda chora a perda da E-tech Portugal 2020, da 3D Printing Expo, de inúmeros eventos para os meus alunos de programação e robótica, e em especial do Festival Contacto. Planeava vir desse ajoujado com as novidades literárias da Divergência, Imaginauta e outras editoras e autores que mantêm viva a chama da Ficção Fantástica em Portugal. E se há evento que simboliza a persistência e resiliência dessa chama é o Fórum Fantástico, que todos os anos reúne todas as vertentes artísticas e muitos dos seus criadores em Telheiras. Será que este ano os velhos do Califa (throwback ao elogio lendário do Filipe Melo ao FF2018… ou 2017?) se voltam a reunir na BMOR? Bem, pelo menos, tenta-se. E se acontecer (dedos cruzados), será um caloroso reencontro de criadores, fãs, e amigos que partilham o amor pelo Fantástico.

Primeiro estranha-se…: Uma antologia gratuita, lançada pelo Instituto Europeu de Astrobiologia em e-book, com premissa muito interessante. Strangest of All olha para diversos contos clássicos sobre vida alienígena, cruzando com ensaios que discutem os seus temas.


Jack Wright And His Electric Sea Ghost: Pulp centenário, aventuras que empolgavam os nossos bisavós.

Pepper e Carrot - Volume 1: Chegou esta nota de imprensa, sobre uma nova edição de banda desenhada de temática fantástica: "Pepper e Carrot conta as histórias de uma jovem bruxa, a Pepper, e do seu gato Carrot. Em Hereva, um mundo de fantasia, com poções mágicas e criaturas fantásticas, onde vivem várias aventuras. Uma série de banda desenhada do artista francês David Revoy pelo selo editorial FA em edição de autor, uma chancela de Flávio C. Almeida que edita a publicação". Mais do que a nota, vieram algumas imagens da edição, e o estilo gráfico parece ser muito bom.

Science fiction builds mental resiliency in young readers: Abrir a imaginação, pensar futuros e passados diferentes. Acompanhar histórias de aprendizagem e afirmação do ser, esse enredo clássico da ficção YA.

A guide to Japanese cyberpunk cinema with three of its visionary directors: Confesso desconhecer a maior parte destes filmes, excepto os incríveis Tetsuo, e isso é falha grave. O cyberpunk japonês era weird, visceral e sem contemplações, verdadeiramente punk.


Franco Storchi, from the 1979 art collection Space Wars: Worlds…: Aquele lado infantil da FC, mas divertido.

The First 6 Pages of Grant Morrison and Steve Yeowell's Zoids: Às vezes acerta-se, na maioria das vezes não. Os Zoids foram Transformers wannabe que não tiveram o sucesso esperado. O que chegaram a ter foi uma série de banda desenhada, escrita por nem menos que Grant Morrison.


Uncredited 1968 cover art for The Wooden Star, by William Tenn: Uma capa destas dá vontade de ler o livro.

Doesn’t Everyone Reread Their Favorite Books All the Time?: Reler os livros que nos tocam como uma forma de solidificar quem somos. Tentador, mas se o tempo é escasso, as releituras ficam necessariamente de parte, em favor de novas obras.


Peter Elson: Ficção científica old school.


1976 cover art by Stanislaw Fernandes for Stanislaw Lem’s The…: Isolado por detrás da cortina de ferro, este escritor polaco idealizou aquilo que pensava que seria a ficção científica fora dos grilhões da censura soviética. E escreveu à altura. Quando descobriu o seu lado mais comercial, ficou algo desiludido.

Surprise : Métal Hurlant revient en 2021: A revista clássica de banda desenhada de ficção científica francesa vai regressar ao público. Será que o nível de qualidade e radicalismo temático e estético terão continuidade, ou será mas uma aposta no mercado de nostalgia?


Photo: Estas capas. Depois instalava-se o jogo e afinal as naves eram quatro pixels.

How Jodorowsky's Dune Speaks to the Now (Beyond the Upcoming Film): A versão nunca realizada de Dune estará sempre a pairar sobre as adaptações deste clássico da Ficção Científica. Sou fã assumido da visão de Lynch, que se afasta do estilo space opera/intrigas palacianas da obra original em direcção a um misticismo orientalista (e, por se atrever a isso, criando um dos mais geniais e mal amados filmes do género). E estou curioso com a visão de Villeneuve, realizador que tem um sentido estético tremendo.

Tecnologia


Funny Social Media Fails From The World's Failures: Destaco isto porque, como professor, não me é indiferente a discussão sobre exposição excessiva da imagem das crianças na Internet e os riscos de segurança que lhe estão associados. Trabalho numa das raras escolas portuguesas onde em ensino remoto de emergência no contexto covid-19 não há aulas por videoconferência. Uma decisão tomada de forma muito consciente, pensando na impossibilidade de assegurar a completa segurança da imagem dos menores usando estes sistemas (neste artigo no Bit2Geek explicamos como é que os riscos de segurança, por minimizados que sejam, nunca são nulos). Destaco isto porque a primeira piada destes fails é exatamente uma criança de oito anos a refilar com os pais porque partilharam fotos dela na Internet. Parece pateta? Curiosamente, a inocência desta criança está em linha com o seu estatuto no RGPD e os normativos CNPD. É de recordar que há sentenças em tribunal que condenam os pais por exposição excessiva dos seus filhos menores em redes sociais. Como tudo na vida, isto resume-se a bom senso. 

Artigo de Opinião: Tito de Morais tem sido, ao longo destes anos, uma das vozes mais úteis, coerentes e sensíveis à problemática da segurança das crianças na Internet. Admiro especialmente a sua postura, não uma de catastrofismos e proibições, sublinhando perigos, mas a de encorajamento a falar e esclarecer sobre estes assuntos de forma aberta. Neste artigo, fala-nos sobre o sharenting, a prática de partilha excessiva da imagem das crianças por parte dos pais, cruzando-a com riscos de segurança, mas essencialmente falando na datificação infantil. Na economia digital, a agregação de dados pessoais é o novo petróleo, e muitos dos pais babados que partilham a foto banal dos seus meninos queridos estão na prática s oferecer dados de bandeja para perfilagem. 

The pandemic is emptying call centers. AI chatbots are swooping in: Não há grande surpresa aqui. Trabalhos automatizáveis sê-lo-ão, e o impacto económico de uma pandemia que está longe de estar terminada é um incentivo extra à automação de sectores económicos. 

Intelsat Declares Bankruptcy Three Months After Helping Broadcast Super Bowl LIV: Sublinhando que os negócios do espaço são sempre arriscados, a venerável Intelsat está em risco de falência, apesar de ter lucros futuros previstos. Aparentemente, é efeito secundário da pandemia de. Covid-19.

Estas palabras no existen: Usos inteligentes de Inteligência Artificial. Um algoritmo criador de palavras inexistentes.

Don’t Regulate Artificial Intelligence: Starve It: A automação e inteligência artificial ameaçam empregos? Sim, mas isso não é uma inerência tecnológica, é uma escolha social e política.

Linux not Windows: Why Munich is shifting back from Microsoft to open source – again: Pipocas. A cidade de Munique foi durante anos um foco de resistência do software livre institucional face às pressões de interesses económicos, que recentemente pareceram ganhar o braço de ferro. Só que não. Os planos de migrar os serviços públicos de Linux para Windows vão ser revertidos por um novo conselho municipal. É de notar que o abandono do Linux se deveu a pressões da Microsoft, mas esta guerra está longe de estar resolvida. E, no seu cerne, uma daquelas perguntas que ninguém faz. Na gestão responsável de dinheiros públicos, faz mais sentido apostar em tecnologias abertas ou no engordar das finanças dos detentores de software proprietário? Por cá, essa questão nem existe. É microserfing all the way. Até conseguiram impingir o seu clone manhoso do Slack/Disdord com ferramenta pensada para e-learning aos professores portugueses apanhados no contexto do ensino remoto de emergência.

Soy fotógrafo profesional y cada vez dejo más la réflex en casa para salir a fotografiar sólo con móvil: Não leiam isto como um elogio às capacidades técnicas dos telemóveis. A questão não está aí, está no próprio ato de fotografar, o que se pretende quando se clica no obturador. É a esse impulso criativo que está subjacente a tecnologia. Não surpreende que fotógrafos tenham começado a explorar o potencial estético das lentes dos telemóveis, que são limitadas face ao material fotográfico tradicional. Mas essas próprias limitações também são um desafio estético.

The state of the Kenzan method of scaffold-free 3D bioprinting in 2020: Por detrás deste nome criptico, está uma técnica cada vez mais firme de bioimpressão 3D, capaz de imprimir tecidos vivos sem recurso a estruturas de apoio.

Desaconselhada a utilização da app "Info Praia": Isto é só empecilhos. Primeiro é a Comissão Nacional de Protecção de Dados a emitir pareceres contra videoconferências com crianças, ou avisando que a medição de temperatura indiscriminada pelas empresas é uma violação da privacidade dos trabalhadores. Agora é a D3 a ter a lata de questionar porque é que as definições de acesso aos dados da App que vai deixar os portugueses ir à praia não só ultrapassam em muito o que seria aparentemente necessário, como é opaca quanto aos dados que recolhe e remete para informações que andam longe de ser uma política de privacidade e recolha de dados pessoais. Temos de ter cuidado com estas vozes dissonantes e não lhes dar rédea solta, senão ainda corremos o risco de vir a  ter uma democracia que respeite as liberdades e direitos digitais dos cidadãos. Bem, para ser justo, os problemas da aplicação talvez sejam devidos a desenvolvimento apressado. Já no caso das recomendações da CNPD, é de notar que o ministério do trabalho criou normas para que as empresas meçam a temperatura dos seus funcionários, respeitando privacidade. Já no caso do ministério da educação, continuam a agir como se tal coisa da privacidade e protecção de dados dados das crianças não existisse. Com sorte, se houver casos de cyberbullying saídos de teleaulas, até podem sempre apontar o dedo aos professores que pressionam para usar estes sistemas.

The Prophecies of Q: Uma história muito detalhada do fenómeno QAnon, essa mistura de bizarria, recantos obscuros da Internet, estupidez pura, teorias da conspiração, trumpismo e economia digital. Parte teoria da conspiração, parte visão apocalíptica, tudo somado dá um forte ataque à razão e lógica, ressoando nas câmaras de eco digitais, estilhaçado para muitos a ideia de uma realidade consensual: "The power of the internet was understood early on, but the full nature of that power—its ability to shatter any semblance of shared reality, undermining civil society and democratic governance in the process—was not". Com a Internet, as franjas minoritárias não só alastraram, como fazem ruído suficiente para que os media tradicionais lhes dêem espaço, e com isso reforçam o seu crescimento.

NASA's Artemis Accords lay out some rules for joint space exploration: Ir ao espaço requer colaboração, mas serão estas regras pouco mais do que wishful thinking quando os interesses comerciais privados se estão a afirmar na exploração espacial?

The real threat of fake voices in a time of crisis: Bots e algoritmos tipo GPT são ferramentas com um potencial tremendo para abuso. A Inteligência Artificial permite automatizar o discurso fake, e envenenar as discussões online. O seu perigo como arma de desinformação é bem conhecido.

Farewell to Beyond the Beyond: É, deveras, o fim de uma era. Este blogue coexistiu com o nascer da Wired, com a cultura de utopia tecnológica dos tempos em que a Internet começava a mudar o mundo. Bruce Sterling não se afastou, mantém a sua acutilância e capacidade de análise do estranho e fundamentalmente novo, do que ainda está um pouquinho além do horizonte, mas a aproximar-se depressa. Neste post de despedida, Sterling reflete sobre a forma como a tecno-utopia se normalizou, amadureceu, tornando o seu blogue uma curiosa relíquia, talvez uma recordação dos tempos em que a Wired ditava a tendência cultural, em vez de ser mais uma revista que cruza tecnologia com economia. 

Researchers Invent Technology to Remedy 3D Printing's 'Weak Spot': A coesão vertical é, de facto, um dos pontos fracos da impressão 3D, consequência da impressão por camadas. Esta nova técnica dá passos para melhorar isso. 

Tech Could Be Used to Track Employees—in the Name of Health: O intensificar da vigilância sobre trabalhadores, tendo a muito legítima razão do combate à pandemia. No entanto, naquele espírito de uma Wired há muito esvaziada de conteúdo crítico, o artigo foca-se nalguns produtos, e não nas tremendas implicações da normalização no uso de tecnologias de vigilância a nível laboral e social. Como, por exemplo, perguntar se estas medidas são temporárias, ou se eternizaram mesmo depois da covid-19 estar controlada. 

U.S. Air Force and GE collaborate to 3D print sump cover for F110 jet engine: Um curioso uso de tecnologias de manufatura aditiva para reduzir custos de manutenção. A peça em questão faz parte dos motores dos caças F-16 e F/A-18, e já não é rentável ser manufacturada.

Can we escape from information overload?: Sentimos que estamos sobrecarregados de informação, constantemente bombardeados por estímulos informacionais. Mas esta tem sido uma sensação comum à evolução cultural. Já Erasmus se queixava disso, e a carga informacional deste sábio clássico não deveria ser um décimo da que sentimos como avassaladora sobre os nossos sentidos.

A pizzeria owner made money buying his own $24 pizzas from DoorDash for $16: Uma história divertida que mostra como um dono de restaurantes essencialmente deu a volta a um esquema fraudulento de uma empresa de entregas. Esta listava no seu site as pizzas do restaurante a um preço superior ao da loja, e o dono começou a encomendar as pizzas a si próprio. Sublinha a complacência e irresponsabilidade de algum capital de risco, mais interessado em crescimento exponencial a qualquer custo do que real sustentabilidade empresarial. 

Watch a Boston Dynamics robot herd sheep in New Zealand: Adicionar cão-pastor à lista de empregos ameaçados pela robótica. 

Modernidade


William Burroughs: Time (1965): O escritor surrealista americano, adepto de vidas no fio da navalha e do cut up como técnica literária, criou uma falsa edição da revista TIME. Um artefacto de uma cultura de radicalismo underground. 

A Biblical Mystery at Oxford: Afirmações sobre a descoberta de uma escritura bíblica original são a faísca que revela um curioso mundo de corrupção, interesses obscuros, soturnos académicos gone wild, evangélicos milionários obcecados por artefactos bíblicos, e tráfico de bens culturais. Mais mirabolante do que os enredos de Indiana Jones. 

The Countries Taking Advantage of Antarctica During the Pandemic: E qual é a importância do literal fim do mundo? Recursos económicos, direitos de pesqueiro, a provável extracção de recursos naturais e minerais. A Antártida teoricamente não é território de nenhuma nação, mas a presença dos países que lá têm bases científicas é um bom ponto de partida para reivindicar futuros direitos económicos e territoriais. 

Maybe it’s time to retire the idea of “going viral”: Viral tem sido uma excelente metáfora para a expansão rápida de ideias nos meios culturais. Mas, a viver uma verdadeira pandemia viral, sente-se que há um certo mau gosto em usar uma metáfora relativa a algo que está a custar-nos vidas, e a abalar a sociedade global. A título pessoal, senti isso aqui à dias, numa aula virtual aos meus alunos de quinto ano. Estava a falar-lhes de virus, os informáticos, não os biológicos, e comecei a sentir uma estranha relutância em pronunciar palavras como vírus ou viral, mesmo sendo esse um dos temas da sessão. Porquê? Esta pandemia que vivemos também deixa as suas marcas morais. 

The Pandemic’s Geopolitical Aftershocks Are Coming: Não é um futuro próximo risonho. Combater a pandemia, recuperar os danos económicos, e lidar com o alastrar da pandemia noutras paragens, que poderá criar uma nova crise de refugiados às portas da Europa que fará as anteriores empalidecer. Tempos desafiantes para a coesão europeia. 

Botch on the Rhine: Ter um historiador do calibre de Max Hastings a comentar um livro de Anthony Beevor dá nisto. Um magnífico texto sobre um dos piores falhanços aliados na II guerra, a operação Market Garden para controlar pontes sobre o Reno em Arnhem. 

For young people, emotions are highly contagious social viruses: E também para os menos jovens. Pode parecer estranho pensar as emoções como algo contagiante, mas na verdade todos sentimos o espírito do momento e contexto em que nos encontramos num dado momento, e a forma como isso nos afeta 

Map of Pangaea with Modern-Day Borders: portanto, Portugal faria fronteira com a ilha de Labrador na Terra Nova, e com a Gronelândia. 

The Secret Lives of Perfect Social Distancers: Compreendo bem este sentimento. O reforço social do isolamento está a ser tão forte que atos elementares, e feitos tomando medidas de precaução, parecem ser transgressão grave. Este artigo fala-nos de pessoas que mantêm algumas atividades fora das redes sociais, porque se partilharem algo tão simples como uma foto no exterior sabem que serão censurados publicamente. Sinto isto, pessoalmente. Ao longo desta pandemia nunca estive, realmente, confinado. Tenho uma cadela e isso obriga-me a sair pelo menos duas vezes ao dia, em passeios longos por zonas isoladas. Onde consigo tirar excelentes fotos que não partilho porque sei que será mal interpretado. E, nos tempos mais duros, sentia vergonha por sair à rua em longos passeios (por caminhos rurais, só para verem a dificuldade de interação social). O isolamento social tem sido fundamental para combater a covid-19, mas esta pandemia não é um miasma púrpura, e estar isolado não significa estar confinado dentro de quatro paredes. Arrepia, sentir esta necessidade de auto-censura. Os danos sociais da pandemia vão muito além da economia, estão a corroer um pilar da ideia de liberdade pessoal. 

Underground Cathedrals of Radiation and Zones of Irreversible Strain: O inimitável Geoff Manaugh fala-nos dos vestígios geológicos artificiais dos testes a armas nucleares. E termina com esta incrível tirada: "Could future archaeologists deduce the existence of nuclear weapons from such a landscape? And, if so, would such a suggestion—ancient weapons modeled on the physics of stars—sound rational or vaguely insane?

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Creepy Presents Alex Toth


Alex Totth (2015). Creepy Presents Alex Toth. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Alex Toth era dos ilustradores clássicos de comics, um dos que tinha um estilo mais pessoal, caracterizado por uma simplicidade extrema, numa poupança de meios gráficos muito eficaz a comunicar a narrativa. Estas histórias curtas vindas da Creepy mostram a evolução do seu estilo pessoal, desde um traço mais convencional até encontrar a sua estética marcante. Para lá do documentar do grafismo de Toth, não deixa de ser um divertido mergulho nas estéticas simples do terror gótico, de ironia macabra, que era a marca desta revista.

terça-feira, 23 de junho de 2020

Fumetti: Dieci centesimi; Il boia di Parigi


Maurizio de Giovanni, Sergio Brancato, Daniele Bigliardo (2020). Il Commissario Ricciardi: Dieci centesimi. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Um jovem aspirante a estudante de filosofia é desviado do seu caminho por uma assombração. O espectro de uma criança violada e morta, que o deixa de tal forma abalado que opta por seguir criminologia. Anos depois, já inspetor da polícia, consegue apanhar o assassino cujo crime, paradoxalmente, mudou para melhor a vida do criminalogista.

Um policial de época, primeiro volume de uma série Bonelli que desconhecia. A história é sólida e bem construída, com um grafismo de estilo clássico que assenta bem numa série de época. Uma boa descoberta propiciada pela iniciativa Io Resto a Casa, que durante duas semanas publicou clássicos da casa editorial italiana em acesso aberto.


Paola Barbato, Giampiero Casertano, (2012). Le storie n. 1: Il boia di Parigi. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Paola Barbato ensinou-me, com os seus argumentos para Dylan Dog, a esperar dela histórias de métrica e ritmo impecáveis, que deslizam até à conclusão final. Excelente argumentista procedimental, aplica os seus talentos numa história tocante e macabra. Leva-nos ao período do Terror, nos tempos da revolução francesa, quando a guilhotina era uma máquina de morte imparável. Mas por tétrica que fosse a sua profissão, o carrasco era um homem de justiça, que tentava sempre assegurar-se da dignidade dos condenados. E a tremenda injustiça da mortandade para gozo público levada a cabo por um regime de dementes leva-o a quebrar a sua isenção e a envolver-se, subtilmente, na política.

Um argumento impecável, vindo de uma argumentista sólida, que nos leva a uma época especialmente sangrenta da história europeia, e nos leva a vê-la sob um olhar diferente. Não se espera a história vista pelo olhar do carrasco. A ilustração está a cargo de um veterano da casa Bonelli, e isso nota-se na sua solidez.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

H-alt: Mindex


Uma boa leitura, que se desenrola com o ritmo acelerado de uma história de ação. Apesar disso, consegue equilibrar o fio narrativo da aventura de alta intensidade com a construção bem medida do intrigante mundo ficcional. Laivos de distopia black mirror, techno thriller de ação, Mindex tem também um lado corrosivo de humor crítico à nossa fé na tecnologia. Resenha completa na H-alt: Mindex.

domingo, 21 de junho de 2020

URL

Destacamos o imenso adeus de Dylan Dog, o falecimento de Richard Sala, e... se ainda não são fãs de Rick and Morty, do que é que estão à espera? O fantástico Inkscape chegou à versão 1.0, descobrimos a inutilidade dos telemóveis Huawei sem serviços Google, e o novo UAV de combate da Boeing. E recordamos Doom, o jogo que corre em tudo, até mesmo num chip. Celebramos os 75 anos do VE Day, olhamos para o livro que fez a humanidade contemplar o mundo, e tentamos perceber que ameaças as restrições impostas pela Covid-19 terão nos pilares de liberdade pessoal das democracias.

Ficção Científica


Ian Miller, ‘R is for Rocket,’ 1972: Uma ilustração apropriada para o clássico de Ray Bradbury. 

Vítor Claudino (ed.): Magazine do Fantástico e Ficção Científica, nº 3: Curiosamente, tenho estas edições na minha biblioteca, mas nunca lhes peguei. Um pouco por falta de tempo. E, também, pela consciência que a FC clássica nem sempre era tão boa como a recordamos ser.

A editora MMMNNNRRRG morre hoje: E não deixa grandes saudades, embora represente um tipo de banda desenhada independente, diferente, e por vezes demasiado crua e agressiva. Mas nem por isso deixa de ser pertinente,por difícil que seja a sua leitura. Não ajuda o enorme snobismo contracultural de Farrajota, aliás bem patente nesta entrevista (hey, não ia deixar passar a boca dos nerds com guito), que é claramente daqueles intervenientes culturais que acha que a arte só pode ser uma, aquela de que ele gosta e mais nenhuma.


Eddie Jones: FC old school.

Arrependimentos: Uma curta de banda desenhada por Pedro Moura e Bernardo Majer, muito tocante por nos recordar das memórias mais simples e íntimas da vida.

Dylan Dog: O imenso adeus: Se o desconfinamento vos levar às livrarias, não percam esta que é uma das mais fascinantes aventuras de Dylan Dog.

Out of Line: ‘Sticking It to the Man’ and the Pulp Revolution: Alguém falou em pulp fiction? Não o filme, mas as resmas de literatura trashy pensada para chocar e estimular, com capas provocadoras e conteúdos que não sendo exactamente desafios ao cérebro, não deixam de ter uma estética intrigante. E desviante. Estes são os sonhos proibidos da cultura erudita.


World Of The Masterminds: Abre-te, Sésamo?

Richard Sala, Creator of Invisible Hands and Evil Eye, Dies Aged 61: Não sendo dos criadores de banda desenhada mais conhecidos, era notável pela inocência dos seus comics de terror. Uma frase estranha, eu sei, mas se o lerem, percebem. Como um Edward Gorey naif.

These 5 Books Will Give You Geeky Knowledge You Won’t Find Anywhere Else: Sugestões de leitura para ficar a conhecer melhor obras marcantes da Ficção Científica.


Bob Eggleton: Sense of wonder.

Furry Freak Brothers coming this fall, voiced by Woody Harrelson, John Goodman, Pete Davidson, and Tiffany Haddish: Isto pode ser giro, mas… Ainda fará sentido, recuperar algo que está firmemente ancorado nos códigos culturais hippies dos anos 60? O mercado nostálgico dos hippies envelhecidos é financeiramente apetecível?


Out of Yesterday: As histórias que os nossos bisavós achavam empolgantes.

Empty BBC Science Fiction Sets: E se se estão a perguntar se irei usar isto na minha próxima videoconferência… Acertaram. O problema vai ser escolher.

How to be a Rick and Morty fan: Basta ver um episódio. Ou se ama, ou se detesta. Mas quem conhece profundamente a cultura pop e a ficção científica, sabe a profundidade da ironia da série. Por isso é que se diz que é preciso saber da poda para apreciar Rick and Morty.

Tecnologia


humanoidhistory:1969 concept art from TRW Incorporated depicts: The Eagle is landing.

Hasta dónde se puede llevar el Huawei P40 Pro sin los servicios de Google: ponemos a prueba su software: Excluída dos serviços Google, a Huawei tem se esforçado por meter no mercado supertelefones a preço acessível, numa atitude desafiante. Mas… e são utilizáveis sem acesso aos serviços Google? Bem, não. O embargo acabou efetivamente com a Huawei como empresa global, apenas ainda não se aperceberam disso.

Making Art With Keycap Bots: São adoráveis, estes robots pintores feitos com simples motores.

Inkscape 1.0 já disponível: Isto é… tremendo . Uso o Inkscape há mais de dez anos para tarefas de desenho vectorial, e nunca o vi chegar à versão 1. Esta aplicação é uma excelente alternativa gratuita ao Corel Draw e ao Illustrator.

The Internet’s Many Branches: Um divertido mergulho na história da evolução do protocolo DNS, fundamental para o crescimento da Internet.

Generative Design: Redefining What’s Possible in the Future of Manufacturing [E-book]: Uma leitura potencialmente interessante, sobre design generativo e manufatura aditiva. Em PDF…

Dissecting an SSL certificate: Talvez TMI, mas para quem quiser saber como funciona um certificado TLS, este é um bom sítio para começar.

Got Cabin Fever? Virtual Tourism Can Help With 6 Architectural Walk-Throughs: Graças tecnologias de visualização 3D, podemos visitar locais inacessíveis. Algo que nos nossos dias pandémicos inclui os mais visitados museus mundiais.

Preprint: XKCD nailing it, de várias formas. Cá para os meus lados, tem sido uma guerra convencer os meus colegas que o formato PDF é o pior que podem usar para transmitir informação com clareza aos alunos. É rígido, não se adapta s ecrãs, e em dispositivos móveis é praticamente ilegível. Mas há pior, há escolas onde a prática de e-learning é enviar fichas em PDF para as crianças imprimirem, escreverem nelas e depois fotografar para enviar ao professor. Isto é pior que mau… 

To "G" Or Not to "G" (1968): Uma curiosa nota sobre projetos de gravidade artificial para estações espaciais no anos 60. 

3D atom mapping helps investigate the origins of life: A técnica tem utilidade para analisar vestígios de meteoritos, mas para mim 3D é trigger word, e confesso que estou com a cabeça à roda com a ideia que é possível mapear átomos em 3D.

Let’s Talk About The Recent Roll Out Of The first Loyal Wingman Unmanned Aerial Vehicle for Australia: Uma análise profunda a esta aeronave autónoma de combate, desenvolvida pela Boeing para ser capaz de funcionar em apoio a aeronaves tripuladas.

4 edtech CEOs peer into the industry’s future: Um futuro que, graças à covid-19, realmente tem futuro. Independentemente do eventual regresso à normalidade, as ferramentas digitais agora adotadas em regime de emergência não se vão embora. Regressando o ensino presencial (que, nas idades mais jovens é fundamental, não há videoconferências ou plataformas que substituam o toque humano e a partilha, e estou, como professor, a sentir na pele esse distanciamento, resumido na pior coisa que posso observar como defensor de uma escola pública que dá a todos igualdade de oportunidade, que é ver que em casa, aqueles que são apoiados florescem, e os outros, definham), os meios digitais deixarão de ser centrais. Nunca foi desejável que o tivessem sido. Mas agora, a grande maioria dos professores percebeu aquilo que alguns de nós já sabíamos, e praticavamos, há muito tempo. Estas ferramentas elevam as capacidades dos alunos, não só naquilo que aprendem, mas naquilo que desenvolvem.

Dogs Obey Commands Given by Social Robots: Isto significa que os nossos fiéis companheiros nos trocam facilmente pelos futuros senhores robôs? Nem por isso, até porque o estudo é muito preliminar. Mas aponta para que, tal como nós, os cães reagem perante robôs de aspeto humanóide. 

The DOOM Chip: Doom, o jogo clássico que para além de ser um dos percursores dos jogos FPS, é famoso porque é portável para praticamente tudo o que é computador. Isso inclui calculadoras gráficas ou relógios digitais. E, agora, um chip codificado para correr o jogo. 

7 Early Attempts at Self-Driving Cars: Do rádio controlado aos automatismos mecânicos e digitais. Sete precursores do corrente conceito de veículo autónomo. 

Sketchfab launches team platform to share and collaborate on 3D models: A Sketchfab é daquelas empresas que se move no nicho do 3D, e não pára de inovar. Foi a primeira plataforma online que permitiu visualizar conteúdo 3D em 3D, sem necessidade de plug-ins ou apps externas. Portou bem para o seu interface tecnologias de rendering, visualização em RV e iluminação/texturas dentro do navegador. Trabalha bem com praticamente todas as aplicações de modelação 3D que existem, e recebe uma enorme gama de ficheiros. Agora, introduz a noção de 3D colaborativo. Não modelação, mas sim gestão e visualização em grupos de trabalho. Tipo Dropbox, para 3D.

Try to dock with the International Space Station with this SpaceX Crew Dragon simulator: Acham-se capazes de pilotar uma nave espacial? Então, porque não pegar neste simulador de acoplamento da Space X? Vá, vamos ver quantas vezes destroem a Estação Espacial Internacional. 

Robotic Open Source Puppy Needs a Home: O projeto de cão robótico low cost da universidade de Stanford já está a despertar a atenção dos Makers.

Modernidade


The “So-called Tower of Babel: De facto uma torre, mas muito diferente do que a imagética europeia a imaginou. 

Air Force gives a rare look at the research going to orbit in its X-37B spaceplane: O secretivo X-37B vai regressar ao espaço, mas desta vez sabemos o que vai estar lá a fazer. Essencialmente, ciência elementar e testes tecnológicos. 

¿Dónde están los aviones que no vuelan por la COVID–19?: As impressionantes imagens da indústria da aviação, paralisada pela pandemia. 

Eu e o Teletrabalho: Leio isto, olho para o meu caso, e… mixed feelings. Em parte porque, ao contrário do esperado, muito do meu trabalho como professor e coordenador técnico da escola já se fazia remotamente, especialmente na preparação de aulas e gestão de backoffice. Mas agora que estou a trabalhar totalmente à distância, percebi que estou numa situação insustentável a médio prazo. Porque se acumula o trabalho pedagógico com a preparação de materiais de aprendizagem (os meus alunos não recebem fichas de trabalho recicladas, mas sim desafios acompanhados por recursos procedimentais em vídeo que os desafiam a criar jogos ou a programar robots - estão no quinto e sexto ano do ensino básico), com a gestão backoffice e a gestão de plataforma de e-learning. Ou seja, a quantidade de trabalho explodiu, o que significa que a gestão de horas se tornou muito complicada. Parte disto acalmará com o tempo - por exemplo, a elaboração de recursos pedagógicos diminui depois de termos uma quantidade que assegure o essencial, e como são reutilizáveis, posso rentabilizar em formação ou outros contextos de ensino. Mas a verdade é que desde que as atividades letivas presenciais terminaram e o meu trabalho passou a ser online, sinto que deixei de ter tempo livre.  Isso recente-se nas leituras, e mesmo aqui no Bit2Geek, resumido às Capturas. 

The Coronavirus Is Killing the Gig Economy: Entre as muitas ideias que entraram em derrocada com a covid-19, a da hiper-precarização laboral como desejável e libertadora. Depender de biscates, mesmo que glorificados como plataforma tecnológica, não é sustentável a nível pessoal nem social. 

Snare Space: Isto é quase ballardiano. Os gigantescos navios da indústria dos cruzeiros, vazios graças à pandemia, aglomeram-se como cardumes. Mas não totalmente vazios. Os seus tripulantes estão encalhados nos barcos, presos num não-território, enquanto as restrições de viagem estão em força. 

75 años del fin de la Segunda Guerra Mundial en Europa: Com a covid-19 a ocupar as atenções, mal notámos que a 8 de Maio se celebraram os 75 anos do dia VE (vitória na Europa), no fundo, o substrato que deu origem à Europa contemporânea. 

The Book That Invented the World - Facts So Romantic: Recordar o primeiro atlas impresso, o primeiro livro que nos colocou as representações da vastidão do nosso mundo na palma das nossas mãos. Talvez o primeiro livro que tenha levado os leitores a olhar para as linhas traçadas, contornando as geografias, e a sonhar, imaginando que paisagens, que gentes, que visões estariam realmente nos territórios de que só conseguimos ver o mapa. 

Why Nostalgia Is Our New Normal: A nostalgia já foi considerada uma doença? De certa forma, ainda é. A glorificação do que já passou como epítome do bom gosto e excelência, para além de não corresponder ao que realmente era, cega-nos para o muito de bom que se passa no momento contemporâneo. 

Negativland's "This is Not Normal": O coletivo Negativland continua a fazer música e audiovisual experimental. Este vídeo sobre a inversão da normalidade ressoa de forma amarga nos tempos em que vivemos. 

Our Democracy Will Survive This Pandemic: Será que vai? O problema das suspensões e restrições às liberdades é que há um forte risco delas se normalizarem, de nunca serem retiradas porque, entretanto, nos habituámos a elas. E por cá ainda há o risco adicional do paternalismo e do moralismo de grupo, totalmente evidenciado naquelas operações stop ridículas, levadas a cabo pelas polícias nos dias mais restritivos da pandemia, que conseguiam o improvável feito de paralisar o pouco trânsito em vias fulcrais, e conseguiam apanhar uma meia mão cheia de prevaricadores em milhares de condutores. Ridículo, e perigoso, porque significa que as autoridades assumem uma postura de que os cidadãos são por natureza incumpridores. Esta citação sublinha bem o dilema que se está a colocar nas sociedades democráticas: "as we consider how to ease out of our collective states of emergency and prevent further spikes of infection, much of the policy focus has centered on the trade-offs between public health and the economy. Less attention, however, has been paid to what we risk permanently losing, whichever way we exit. Not only might the economy atrophy, but also the norms that hold our societies together: the expectation that we all enjoy the same basic freedoms, rights, and obligations that underpin the way we interact with one another—and, ultimately, with the authorities. What are we free to do by right? Who gets to decide? What private information do I have to share?"

Elon Musk’s Boring Company finishes digging Las Vegas tunnels: Devo confessar alguma surpresa por descobrir que esta patetice inútil do Musk ainda dura. O afamado hyperloop não resolve os programas de mobilidade urbana. E o facto deste projeto ser feito como um brinquedo para clientes de casinos sublinha bem a inutilidade do conceito. 

Why COVID-19 Raises the Stakes for Healthy Buildings: É impossível não pensar no cruzamento entre arquitectura e pandemia. Os espaços que construímos, habitamos, onde trabalhamos e vivemos, foram pensados para interação e não isolamento, aproximação e não afastamento. A arquitectura dos nossos espaços comuns não está preparada para o impacto da covid-19. 

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Nas Montanhas da Loucura


H.P. Lovecraft (2010). Nas Montanhas da Loucura. Lisboa: Saída de Emergência

É sempre bom regressar a este texto seminal de Lovecraft, cruzamento quase perfeito da estética pulp com ficção científica e o tipo de terror que viria a ser chamado de lovecraftiano. O livro segue o clássico estilismo de relato de expedição, cujos membros descobriram algo de inominável, algo tão horrendo ou com a capacidade de de tal maneira abalar o mundo que o melhor foi manter o segredo. O melhor deste livro, para mim, sempre foi o mergulho nas ruínas de uma cidade abandonada há milhões de anos, os vestígios que indiciam civilizações esquecidas, criaturas que nos fariam gritar de horror.

Os mythos levam aqui uma forte componente de ficção científica, com o autor a urdir uma história de colonização espacial que se teria passado antes do homem ser, sequer, uma possibilidade. A claustrofobia do horror nos territórios desconhecidos da Antártida faz um enorme contraste com os mistérios cujo véu é levantado, mas nunca totalmente revelados, apesar deste livro ser profuso em descrições e explicações. Lovecraft é um autor que não é para todos os gostos, entre a sua prosa complicada, as suas monomanias e tendências que hoje chocam os que apenas vêem a literatura sob prismas políticos ou sociais. De certa forma, com o seu lado fortemente descritivo e forte componente de aventura, At The Mountains of Madness é talvez das suas obras mais acessíveis. Ao relê-la, senti as visões dos gelos antárticos e arquiteturas que desafiam a sanidade tão fascinantes hoje, como aquando da primeira leitura, há longos anos atrás.