quarta-feira, 16 de Abril de 2014

O Baile; Living Will #02.


Nuno Duarte, Joana Afonso (2012). O Baile. Lisboa: Kingpin Books.

Tem sido difícil apanhar um exemplar deste livro desde que o vi pela primeira vez, apresentado há dois anos atrás numa edição do Fórum Fantástico. Nesse intervalo a obra já teve espaço de reedição (coisa rara na BD portuguesa), ganho prémios e cativado leitores. E com muito mérito, diga-se, e digo depois de finalmente a ler. 

O Baile conjuga bem um excelente argumento com grafismo na fronteira entre a legibilidade gráfica e o registo artístico de cunho pessoal. É uma perfeita história de terror clássico, com inspirações lovecraftianas e em todos os filmes e contos onde uma aldeia à beira-mar é aterrorizada por misteriosas criaturas maléficas. O enredo do inspector da PIDE, com as suas dúvidas pessoais, que é enviado ao lugar pobre e esquecido para vigiar a pureza ideológica da nação faz a ponte entre a iconografia literária do horror clássico e a realidade histórica portuguesa. Não pude deixar de notar uma certa semelhança conceptual entre este livro e o filme A Promessa de António de Macedo, também este um reflexo da colisão de velhos mitos, condições de vida no Portugal do antigo regime e choques de modernidade. 

O traço de Joana Afonso dá ao livro o carácter fortemente cinematográfico que lhe vem do argumento. Para além do estilo pessoal da ilustradora, realista com um toque forte de expressionismo, há um trabalho muito cuidado de enquadramentos que contribuem para a leitura da história. Este é um livro marcante no panorama da BD e do fantástico em Portugal.


André Oliveira, Joana Afonso (2014). Living Will #02. Lisboa: Ave Rara.

A história de um homem que ao sentir a morte aproximar-se parte em busca de redenção pelo passado é desenvolvida de forma encantadora nesta série. Apanhei o segundo volume, e agora terei de ir, implacável, à caça do primeiro e manter sob vigilância apertada a edição das restantes. Muito boa escrita de banda desenhada ilustrada pelo traço expressivo de Joana Afonso. Se a obra em si e a ilustração já são cativantes o pormenor final do elemento redentor ter sido de natureza aleatória deixou-me rendido à série.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

BD: Les Damnés du Reich; La Main Gauche du Führer; Antinéa.


Richard Nolane, Milorad Vicanovic (2013). Wunderwaffen #03: Les  Damnés du Reich. Toulon: Soleil.

Suponho que deve haver piores desculpas para se ler livros sobre aeronaves de sonho. A história que vai tentando dar fio condutor a esta série envolve as desventuras de um ás dos ares alemão que odeia o regime nazi mas não pode ser eliminado como incómodo ao regime por ser um bom elemento de propaganda. Mas pronto. Não é uma má história mas serve para o que se pretende: ter um espaço narrativo para recriar os projectos de aeronaves futuristas da Luftwaffe em combate aéreo nos céus de uma história alternativa onde em 1946 a Alemanha nazi ainda resiste, graças à superioridade das suas armas avançadas. É nisto que reside o encanto deste livro, para os fãs de aeronáutica, o poder visualizar máquinas voadoras que não passaram de projectos recriadas pelo traço firme do ilustrador.


Richard Nolane, Maza (2013). Wunderwaffen #04: La Main Gauche du Führer. Toulon: Soleil.

A série Wunderwaffen lê-se para saber quais as aeronaves retro-futuristas e outras tecnologias secretas nazis que não saíram das pranchas dos engenheiros. Nos dois últimos volumes o destaque vai para os Focke-Wulfe Triebflügel (aeronaves bizarras com turbojactos nas pontas das asas e capazes de descolar verticalmente). A série redime-se do argumento elementar com algumas vinhetas brilhantes de aquecer o sangue destas aeronaves em combate contra B-29s e Lockheeds P-80 nos céus italianos. Quanto ao argumento em si, entramos finalmente no campo das bizarrias sobre a lendária Neue Schwabenland, a famosa (entre os círculos das teorias da conspiração) base antártica nazi que é o cerne de tantos mistérios da II guerra. Ou lendas. Pessoalmente vejo-as mais como lendas do que mistérios, mas anda por aí muito boa gente que jura a pés juntos sobre a veracidade dos haunebus, vrils, nazis sobreviventes na antártida e outras mitologias na fronteira da dúvidas sobre sanidade mental. São ideários bizarros mas divertidos, de espírito especulativo em estado puro e não contaminado por pormenores do real. Num sentido estrito são perfeitas aplicações do "e se" da ficção especulativa.


Jean-Pierre Pécau, Leo Pilipovic (2013). Le Grand Jeu #06: Antinéa. Paris: Delcourt.

Suponho que as aventuras de Nestor Serge devam agradar aos saudosistas francófonos, com esta visão alternativa de uma França ainda poderosa após o armistício que travou a II Guerra mundial na frente ocidental e que aliou o regime germânico ex-nazi às potências ocidentais contra a ameaça soviética. Algo que até foi um bem conhecido sonho do grande ditador.  Mas a série não fica nestes detalhes, que são encarados como bases de um mundo ficcional onde as bizarras teorias da terra oca são um perigoso segredo que ameaça a humanidade. As aventuras do jornalista, instigadas por uma eminence grise do Eliseu, levam-no aos recantos obscuros do planeta onde eventos misteriosos sinalizam a existência de entradas para o mundo subterrâneo. Desta vez vamos para uma Argélia ainda colónia mas com pulsões independentistas onde um massivo rochoso no deserto oculta uma civilização perdida dominada por uma milenar mulher fatal, uma de muitas variantes da Ayesha de Ridder Haggard. A série tem premissas interessantes mas o desenvolvimento narrativo arrasta-se. Edições anteriores tinham como bónus o trabalho do ilustrador a dar corpo às visões de tecnologia retro-futuristas. Nesta nem isso, embora as rainhas de reinos perdidos sejam uma boa desculpa para recuperar a iconografia do exótico selvagem das velhas histórias passadas nas profundezas das áfricas.

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Comics


Coffin Hill #07: Era o título que eu pensava ser menos prometedor neste insuflar de novo fôlego na DC-Vertigo. Se Trillium foi genial e Sandman Overture corresponde às expectativas, Hinterkind vai acumulando criaturas na esperança de captar a atenção dos fãs de comics estilo Fables e Federal Bureau of Physics, apesar de ter umas ideias interessantes e se basear na normalidade das realidades distorcidas, não consegue agarrar-me como leitor. Já Coffin Hill prometia não passar de uma história de terror em contornos clássicos, com famílias misteriosas, bosques assombrados e bruxas dilaceradas por dilemas existenciais. De facto não passa daí, mas vai-se adensando com uma notável solidez literária evocativa do espírito da literatura de horror. A série tem sabido manter o interesse e a consistência ao longo das suas edições.


East of West #11: Chineses na Califórnia. Confederados do Sul. Texanos republicanos. Norte federado. Reino dos escravos negros libertos que dominam o petróleo. O que é que faltava no weird wild west de Hickman? Os índios, já que variantes de cowboys há e de sobra. Ei-los chegados, com os seus toucados cibernéticos para um conclave decisivo desta realidade alternativa que procurar colapsar-se sobre si própria.


Flash Gordon #01: Adivinharam. Editado pela Dynamite, que se especializa em recuperar os personagens clássicos. Nada de novo por aqui, mas não consigo deixar passar despercebido o toque lovecraftiano destes krakens gigantes que ameaçam a nave de Flash na sua fuga aos soldados do impiedoso Ming.


Captain Marvel #02:  Space opera com... gatinhos? Esta nova iteração da Capitã Marvel não tem medo das aventuras no espaço à moda antiga. Mas isto de ser dona de um gato mal humorado é uma chatice. Ninguém na Terra quis enfrentar as unhas afiadas deste felino. Resta à capitã enfrentar os perigos do espaço profundo com o seu gatinho ao lado. E ter de aturar um membro dos Guardiães da Galáxia que tem uma alergia especial a gatos, mitigada por tiroteios na direcção geral dos bichos.

domingo, 13 de Abril de 2014

Anicomics 2014


Com pena minha tenho falhado consistentemente em visitar o Anicomics. As datas calham sempre em momentos de sobrecarga ou congressos, o que explica esta ter sido a minha primeira vez neste evento dedicado à cultura bedéfila de anime e comics.


Confesso que... esperava mais. O evento é interessante, mas o espaço da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro revelou-se exíguo para tantos participantes. O acesso ao auditório para visitar o concurso de cosplay era missão impossível, nos espaços de atelier e comerciais os visitantes acotovelavam-se. O conjunto de actividades oferecidas não é assim tão elevado que justifique um preço de entrada que está mais para cá do significativo do que do simbólico. É um evento independente e privado, eu sei, mas mesmo assim o preço de acesso é um pouquinho elevado para quem vem visitar. É que depois de dar uma volta pelos stands, aproveitar para comprar alguma BD ou manga e contemplar os cosplayers, não há assim muito mais que se possa lá fazer dentro de um espaço minúsculo. Para ser justo, é de sublinhar que foram organizados workshops e torneios de jogos digitais e de mesa.


Tive alguma dificuldade em descortinar os comics no meio de tanto anime, mas existiam e sempre deu para (finalmente) trazer uns livros ilustrados pela Joana Afonso que tinham lugar cativo nas minhas estantes. De resto, a oferta livreira estava direccionada aos fãs de manga, escolha comercial compreensível dado o público-alvo do evento.


Os cosplayers, vestidos a rigor como os seus personagens favoritos, deram o maior gosto a este meu pulinho ao Anicomics. É de elogiar o cuidado e rigor que os fãs colocam na recriação dos seus personagens favoritos. Alguns estavam um verdadeiro deslumbre.


Para mim, o espaço mais interessante no Anicomics foi a zona de exposições de pranchas originais, com alguns trabalhos de excelente qualidade e outros muito prometedores. Eu sei. Com tantos fanboys e fangirls é um bocadinho difícil de o ver. Sublinho aqui que apesar de ser um belíssimo espaço a BMOR torna-se exígua nestes acontecimentos. Já se sentiu isso no Fórum Fantástico.

É bom haver um evento em Lisboa que vá além do classicismo do Festival de BD da Amadora, e isso nota-se na afluência dos jovens fãs de manga e fantástico. A pouca oferta livreira desiludiu-me (mas tranquilizou a minha conta bancária), o empenho e entusiasmo dos fãs encantou-me, o espaço atravancou-me e o preço do bilhete de entrada deixou-me a resmungar. Pese embora os lados menos positivos destaque-se o Anicomics pelo seu carácter independente e direccionado ao fandom.

A Promessa




No átrio superior da Cinemateca está uma pequena exposição sobre o Cinema Novo onde, para além de cartazes, fotos de produção e material cinematográfico utilizado nalguns dos filmes mais importantes do movimento, podemos deliciar-mo-nos com esboços e desenhos de produção de António Casimiro para o filme A Promessa de António de Macedo.

sábado, 12 de Abril de 2014

encerrar...



(mete em pausa, vá.)

Utopias 2014


Foi assim, neste sábado passado no Centro Cultural de Cascais, onde decorreu o workshop Visões de Utopia no âmbito do Utopias 2014. Seis participantes a descobrir um vislumbre da vasta história da FC, a folhear o que se fez e se faz por cá nos domínios da FC & F, e ideias arrojadas a serem reconstruídas e intepretadas em micro-ficções e vinhetas gráficas. Foi uma experiência muito recompensadora. Apesar de estar a falar sobre temas que me intrigam e um género literário que me apaixona estava muito longe da minha zona de conforto no que toca a dinamizar workshops. Das vezes que já o fiz teve mais a ver com colocar professores a descobrir que o 3D não é tão difícil quanto isso do que fazer algo no campo literário. Fui como leitor e fã, para partilhar ideias e desafiar os participantes a brincar com percepções sobre tecnologias de vanguarda que nos prometem futuros. Espero que tenham gostado. Fiquei com a sensação que sim.


Foram dois dias dedicados a respirar ideias. No meu caso dia e meio que tinha uma aula que queria mesmo dar e optei por faltar à primeira manhã do Utopias. Fui recompensado com um belíssimo wokshop de fotografia que me fez pensar no que significa o acto de fotografar e aprender elementos técnicos sobre máquinas com que até agora nunca me tinha preocupado. No dia seguinte, para além desta maravilhosa oportunidade ainda assisti a espectáculos que impressionavam pela qualidade - o grupo de teatro distinguiu-se pela sua fortíssima expressividade e uma conversa final onde Teresa Ricou nos recordou a importância de arregaçar as mangas e não desistir, Paulo Guinote traduziu o espírito de revolta de uma classe profissional e Valter Hugo Mãe nos recordou qual a real importância da escola pública: assegurar, ou pelo menos tentar, igualdade de oportunidades.

Dois dias de partilhas num modelo de formação de docentes diferente do usual, sem discursos impostos e a convidar a parar para reflectir. Também dois dias cinzentos de chuva que terminaram com o raiar do sol no final do Utopias. Será uma metáfora?


Parece, mas não, não passei o tempo a ler os livros e revistas de FC e fantástico portuguesas que ensaquei e acartei para o espaço que me foi destinado no Centro Cultural de Cascais. Os responsáveis do Centro, quando lá passei a fazer o reconhecimento prévio do espaço no dia anterior, disseram-me que aquele era o espaço possível porque era o único onde havia uma parede branca para projectar. Sem o saber fizeram-me um favor. Teve um gostinho especial conversar sobre estes temas no meio da obra pictórica do Pedro Zamith, tão próxima das estéticas da BD e dos comics.

A imagem foi do momento de trabalho, onde os participantes iam escrevendo micro-contos e íamos conversando sobre os livros que estavam disponíveis para pegar, folhear, ler e descobrir o nosso manancial do género. É interessante ver como o design do Almanaque Steampunk deslumbra quem nele pega, que a Bang! desperta a atenção pela sua existência, e que todos têm memórias da lendária colecção de capa azul da Caminho. Tinha planeado que o workshop terminasse com uma hora dedicada à leitura, mas acabou por se desenrolar em leituras e conversa sobre ideias de futuros.


Em breve ficarão online as notas e materiais que organizei para o workshop. Já o ebook vai demorar mais um pouquinho. Há que transcrever os textos. E também preciso de descansar um pouco. Mas não muito, que os meus relógios cerebrais já me recordaram que outros desafios estão a aproximar-se dos prazos de necessárias conclusões.

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

Leituras

Who Will Guard The Geeks?: John Naughton sobre o recente romance Flash Boys.  Provoca arrepios pensar em sistemas de inteligência artificial dedicados à especulação no mercado financeiro que operam em milisegundos. Sistemas intencionalmente desenvolvidos como predatórios sem supervisão por comités éticos, como observou David Brin há pouco tempo. Ficção Científica? Não, indústria rentável. Se há coisas chatas com este fluxo de inovação permanente é que mal imaginemos um futuro improvável há alguém que o já o esteja a desenvolver e implementar. E outros a lucrar.

The Long Journey: Arquivar na categoria "coisas fantásticas que se fazem". É uma história de banda desenhada, contada como um infindo scroller que nos mergulha sem parar em níveis cada vez mais profundos. Quer pelo conceito quer pela estética 8bit, este é um webcomic que surpreende.

If all stories were written like science fiction stories: Faz sorrir, até porque é certeiro. Estão cá expostos todos os vícios da FC, desde a narrativa-périplo ao foco nas tecnologias e os infodumps. Mas é mesmo isso o que a torna interessante e intrigante. Nem todas as ficções têm de ser entretenimento ou exposições de estados de alma. O grande valor da FC está neste carácter especulativo com vertentes didácticas e técnicas. Já agora, como seria uma história de ficção científica escrita como literatura mainstream? Mas eu nisto sou suspeito: adoro os momentos em que o autor, através do discurso das personagens, se dirige ao leitor para lhe demonstrar os voos conceptuais dos infodumps.

The Next Arab-Israeli War Will Be Fought with Drones: Bem vindos ao admirável mundo novo da jihad robótica. Não são só estados a investir em frotas de aeronaves semi-autónomas. Grupos terroristas e estados-pária já se aperceberam do potencial militar de uma tecnologia relativamente barata face aos desafios do armamento high tech convencional. E não se ficaram pelas teorizações.

quinta-feira, 10 de Abril de 2014

Dylan Dog, Trash Island; The Celestial Bibendum


Luigi Mignacco, Nicola Mari (2013). Dylan Dog #328: Trash Island. Milão: Sergio Bonelli Editore S.P.A..

Sendo personagem icónico Dylan Dog já cativa pela sua aura. Mesmo que as suas aventuras sejam mais fracas se comparadas com os pontos altos da série, o personagem já se solidificou na consciência cultural popular. É o caso deste Trash Island, que se resume a um périplo onde Dylan e outros investigadores do oculto atravessam uma ilha assombrada por zombies, máquinas assassinas e plantas vivas que serve de zona de treinos de artilharia da marinha britânica. Pensando que vão à ilha resgatar pessoas desaparecidas, foram na verdade cooptados por agentes secretos militares que sabem que não têm outra forma de convencer místicos e ocultistas a atar as pontas soltas de uma experiência de militarização do sobrenatural que correu mal. Se bem que esta é uma revelação que só nos é dada, de chapa, no final. É um bocadinho enervante ler algo que se vai arrastando ao longo de dezenas de páginas para acabar resolvido em três ou quatro pranchas. Mas é Dylan Dog, que é sempre um prazer ler, por isso até se desculpam os momentos mais banais.


Nicolas de Crécy (2012). The Celestial Bibendum. Paris: Humanoids.

A espectacularidade do traço de de Crécy dá o lustro a esta série de um profundo weird surreal. A história não é algo que se explique, vivendo de um absurdismo com vertente de crítica política e social em caricatura grotesca das normalidades instituídas, contada através das desventuras de uma foca deslumbrada que atraca nas glórias urbanas da majestosa Nova Iorque-no-Sena. São notórias influências do urbanismo decadente retro-futurista de fin de siècle, dos estilos gráficos de George Grosz e Mattotti e do surrealismo literário de Ligotti e Queneau. O livro é visualmente deslumbrante, estando ao nível do melhor do trabalho de Nicolas de Crécy, mas o carácter bizarro da narrativa é levado a extremos por vezes excessivos.

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

Red Sonja: Queen of Plagues


Gail Simone, Walter Geovani (2014). Red Sonja Volume 1: Queen of Plagues. Mt. Laurel: Dynamite Entertainment.

Nunca imaginaria dar quatro estrelas (valha o que isso valer) a um comic de fantasia épica sexista, baseado num clone banal de Conan com formas voluptuosas para deixar adolescentes babados. Mas o humor seco de Gail Simone, a dar um toque extra a um argumento típico do género, convenceu-me. A argumentista até consegue quebrar o estereótipo da personagem e colocar Red Sonja vestida com roupas mais apropriadas às suas aventuras do que o bikini de cota de aço sobre a pele nua com que costuma ser representada.

Gail Simone atraiu a atenção ao ser despedida da DC por ter sido demasiado explícita na sua abordagem à homossexualidade de Batwoman. Explícita não em termos eróticos, note-se, que isso seria bem tolerado pelos leitores, mas na vertente emocional com uma forte dose de realismo a temperar a ilustração fluída de JH Williams. Os fãs de comics ficaram com um arranque memorável de uma série DC'52 e a Dynamite apressou-se a contratar a argumentista, dando-lhe para as mãos esse outro bastião de iconografia pensada para despertar a baba na boca dos adolescentes que é Red Sonja, clone feminino de Conan criado por Roy Thomas, tomando algumas liberdades com o universo ficcional de Robert E. Howard.

Simone consegue afastar-se da abordagem mais previsível à série. Temos aventuras passadas no ambiente de fantasia bárbara medievalista da série, mas a sublinhar um fortíssimo carácter feminista. A visão fascinante do corpo escultural coberto por um reduzido bikini de cota de malha fica-se mesmo pelas capas. Simone nota o absurdo da armadura e veste a personagem. Nem vale a pena descrever as roupas. Basta escrever que a veste para se perceber que estamos perante um desvio radical do esperado neste género de comics. E ainda a dota de características tipicamente masculinas, como um gosto desmesurado por tascas e oblívio viti-vinícula.

A história mete-se pelos caminhos ínvios das disputas entre reis benévolos e forças malévolas, entre os homens e as criaturas inferiores da era hiboriana. Destaca-se o humor seco com que Simone nos vai contando as aventuras. Basta um comentário espirituoso para nos levar a conhecer situações que outro argumentista espalharia por algumas dezenas de pranchas.

Os homens estão ausentes destas aventuras. Simone extermina-os convenientemente no início, restando a imagem de um rei bondoso e alguns personagens malévolos. É às mulheres que cabe o papel de heroínas, e se Sonja o é por inerência, Simone dá destaque ao crescimento em coragem e decisão de duas jovens desastradas mas bem intencionadas que, contra o que se esperaria, acabam por liderar o seu povo e libertar-se do jugo de forças invasoras.

Com toda esta carga de carácter e vertentes de interpretação, não deixa de ser uma boa história de aventuras de espada e feitiçaria. Uma boa surpresa, pedrada no charco das estereotipias do género.

Novo normal

Eugenia de mercado liberalizado, mudar o mundo real para ficar conforme a visão de  um robot, os financeiros fazem malabarismos com o dinheiro dos outros mas o que assusta são g33ks e os seus algoritmos. Bom dia. Este é o novo normal.

"Australian bioethicist with a cheeky look in his eye, who’s not ashamed to say that he is ‘genuinely confused’ by the implications of his own work. Rob’s worried that some thinkers in the transhumanist movement are ushering in a world of ‘free market eugenics.’ He is particularly vexed by the principle of ‘procreative beneficence,’"

Ou seja, o aperfeiçoamento genético (ou a mera resolução de problemas de saúde através destas terapias) requer dinheiro. Mais do que o acessível ao comum cidadão. A leitura é óbvia: o eterno risco do fosso de desigualdades ganha aqui uma vertente arrepiante. Combinando genética, tecnologia e afluência financeira, poder-se-á conceber uma futura humanidade dual, onde os ricos e poderosos são de factos humanos aperfeiçoados e o homo sapiens natural como espécie secundarizada numa distopia transhumanista? É que levando em conta o historial comportamental das elites, quer sejam aristocracias, oligarcas ou uns por cento, esta é uma ideia de mau augúrio para o resto. Particularmente para aqueles que sentem na pele o esmagamento em nome da ideologia austeritária de décadas de progresso social.

"... strong shadows had foxed Hans Moravec’s attempts to achieve autonomous motion in  an MIT robot called the Cart. ‘The Cart got very confused about its model of the world, and Hans had to run out and fix the world occasionally so that the internal model was a little more accurate – it was easier to change the real world than to change the Cart’s internal model of that world.’"

Mark Stevenson (2011). An Optimist's Tour of the Future. Londres: Profile Books.

Deliciosa esta visão de modificar o real para ficar em conformidade com as restrições da visão virtual. Não significa que seja um padrão a seguir, apenas sublinha as dificuldades enfrentadas pela robótica e inteligência artificial para replicar algo que nos é natural. Mas citado fora de contexto... uma delícia provocatória. Duas citações do divertido e provocatório An Optimist's Tour of the Future de Mark Stevenson.

"I’d thought it strange, after the financial crisis, in which Goldman had played such an important role, that the only Goldman Sachs employee who had been charged with any sort of crime was the employee who had taken something from Goldman Sachs. I’d thought it even stranger that government prosecutors had argued that the Russian shouldn’t be freed on bail because the Goldman Sachs computer code, in the wrong hands, could be used to “manipulate markets in unfair ways.”"

Michael Lewis (2014). Flash Boys. Nova Iorque: W. W. Norton.

O romance Flash Boys anda a circular na infoesfera, intrigando os digerati por abordar em ficção a complexidade e estranheza futurista do trading financeiro algorítmico. O John Naughton, não sendo o primeiro a olhar para o livro, é particularmente acutilante. Logo nos primeiros parágrafos da introdução damos com esta crítica profunda aos vícios sistémicos da lei e das finanças. Bom augúrio. Talvez Lewis seja daqueles romancistas populares que, como Daniel Suarez, conseguem abordar o futurismo alastrante embrulhado em thrillers para consumo literário de massas. Resta-me ler o resto para perceber se a intuição sobre os mercados financeiros entregues ao automatismo de algoritmos é profunda ou se fica pelo adereço ficcional.

terça-feira, 8 de Abril de 2014

Visões de Utopia: Percepções sobre Ficção Científica


Apontamentos para o Ateliê Utópico Visões de UtopiaUtopias 2014. Nota inicial: este texto reúne apontamentos sobre a evolução do género, reflexões sobre a vertente conceptual, listagem de sub-géneros e hiperligações para recursos web sobre ficção científica em Portugal. Foi criado no âmbito do Utopias 2014 para contextualizar o atelier Visões de Utopia. Não pretende ser um estudo aprofundado sobre o género. Funciona como introdução ao seu espaço de ideias numa perspectiva de reflexão sobre desafios contemporâneos extrapolandos para futuros imaginários. Agradeço ao João Campos pela revisão à última hora e preciosas sugestões. Não sendo eu académico desta área, nem este texto tem essas pretensões, sublinho que o que aqui é dito é passível de discussão.

1. Ficção Científica: breve apontamento histórico


A relação entre tecnologia e progresso humano (Brynjolfsson, McAffe, 2014)

Comecemos por um gráfico publicado nos primeiros capítulos do livro The Second Machine Age de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, que está longe da especulação ficcional. É uma análise que oscila entre o arrepiante e optimismo excessivo sobre o impacto da tecnologia de vanguarda na nossa sociedade. Imaginemos a automação algorítmica e robótica a destruir empregos, ou a hipervigilância de um mundo coberto por sensores baratos capazes de monitorizar e recolher quantidades gargantuescas de dados sobre tudo o que fazemos, e temos uma ideia sobre onde o livro toca.

O que torna o gráfico interessante do ponto de vista da FC é a forma como, de acordo com os autores, a partir da revolução industrial a curva do índice desenvolvimento humano dispara, demonstrando impacto da tecnologia no progresso humano (Brynjolfsson, McAffe, 2014). Nesta época começou a afirmar-se a ideia que progresso científico geraria progresso tecnológico e social, substrato do qual podem nascer visões que especulam sobre futuro possíveis.

É curioso observar que mais ou menos no momento em o gráfico dispara, nos primórdios da era industrial, foi publicado aquele que alguns consideram como o primeiro grande romance de ficção científica: Frankenstein, de Mary Shelley (Aldiss, 1988). Parece-nos uma ideia estranha, uma vez que estamos habituados a concebê-lo como uma obra de horror, mas o romance está na confluência do romance gótico com visões proto-científicas. A história não se explica através do ocultismo mágico e baseia-se em possibilidades científicas, na responsabilidade, arrogância e consequências imprevisíveis do progresso num romance-périplo que leva o leitor numa viagem dupla por entre cenários fantasistas e ideias progressistas.
Entre textos mais antigos que exploram diversas temáticas que irão coalescer na Ficção Científica podemos encontrar os périplos inter-planetários satíricos de Luciano de Samosata, Kepler e Voltaire, ou os proto-universos paralelos de Margaret Cavendish. A venerável tradição das utopias e distopias dispõe-se num arco literário que inclui Platão, More, Swift, Defoe, Butler e Zamiatin.

O percurso da ficção científica inicia-se a partir das raízes das narrativas utópicas e das viagens extraordinárias (Aldiss, 1988), tendo evoluído a partir de histórias com preocupações morais e sociais para se focalizar na importância da ciência enquanto elemento-chave em voos imaginários construídos a partir de especulações de bases científicas, ou visões de menor rigor mas inspiradas no progressismo positivista da tecnologia. Estas são os elementos ficcionais do romance de aventuras de Verne e nos romances científicos de H.G Wells. Estas obras ainda não são o que em definitivo se veio a considerar ficção científica, mas apontaram caminhos e traçaram linhas narrativas que actualmente ainda são exploradas.

Do cerne da obra destes autores evoluíram histórias de guerra futura, narrativas apocalípticas de uma humanidade extinta ou em vias de extinção, Edisonades, histórias sobre as aventuras de engenhosos inventores, histórias de aventura em terras exóticas. No processo de desenvolvimento da Ficção Científica enquanto forma de literatura popular ciência e tecnologia são os elementos que as distinguem de outras formas, atraindo os leitores e seduzindo-os com sonhos tecno-utópicos. Este progressivo incorporar de elementos científicos culmina nas narrativas pulp ao estilo de Hugo Gernsback, editor da Amazing Stories, talvez o primeiro a definir o conceito de ficção científica, e firme defensor de histórias onde o imaginário do artefacto tecnológico é o cerne da narrativa (Stableford, 2003).


Sonhos de aventuras nos territórios exóticos do imaginário: Flash Gordon por Al Williamson

Podemos encontrar o berço do que hoje consideramos FC na tradição das revistas pulp dos anos 20 e 30 do século XX. As obras seminais dos grandes autores da era clássica do género tiveram a sua génese como contos nestas publicações, algumas das quais ambicionavam abertamente sair do recanto de publicações de qualidade baixa que viviam da reimpressão de contos clássicos e obras simplistas de autores hoje esquecidos. Começam nesta época a traçar-se algumas das clivagens profundas ainda hoje observáveis no género: a concepção de uma Ficção Científica didáctica e centrada na tecnologia do editor Hugo Gernsback, o foco nas preocupações literárias expressas pelo trabalho de edição de John W. Campbell, e a clivagem entre visões críticas da FC como literatura de entretenimento e como forma de expressão literária por direito próprio, centrada na interpretação da influência da ciência e tecnologia sobre a humanidade nas suas diferentes dimensões.

Associamos ao pulp histórias formulaicas de aventuras futuristas, onde a plausibilidade não é importante e a prosa é muitas vezes sofrível. Mas formou mentalidades, criou públicos, e permitiu aos escritores mais ambicioso desenvolver FC com um misto de preocupação literária, pensada a partir de ideias e ambientes que não são necessariamente dependentes de um artifício tecnológico, e uma visão de análise especulativa dos impactos científicos e técnicos no ser humano.

No ponto mais alto desta tradição de publicação em revistas observamos a fortíssima influência da revista inglesa New Worlds dirigida por Michael Moorcock, que fez a ponte entre uma FC clássica, centrada num optimismo tecnológico e em visões de aventura para uma FC mais madura, de crescentes ambições literárias e que se inspira e busca influências no surrealismo, dadaísmo, modernismo e realismo mágico. Se hoje as fronteiras narrativas do que é FC são difusas e abrangem muitas formas que estão próximas da literatura convencional, tal deve-se ao trabalho de Moorcock a estimular a publicação das obras fortemente experimentalistas de J. G. Ballard e outros escritores da New Wave que redefiniu o género (Aldiss, 1988).

Esta revista marca o ocaso da FC pulp e a génese da FC enquanto género literário ambicioso, capaz de ao mesmo tempo se dedicar à exploração dos seus temas próprios e apostar na complexidade narrativa e estilística. O livro-romance torna-se a forma preponderante no género, embora a tradição do conto persiste na publicação de antologias, que mantém viva a memória do género enquanto dão voz a escritores novos e consagrados.

A afirmação da FC publicada em livro inicia-se nos anos 50. O advento do formato paperback permitiu aos editores lançar no mercado livros a baixo custo em competição directa com as revistas coligindo contos previamente publicados em pulps agora empacotados como romances, caso de livros como The Martian Chronicles de Bradbury, I Robot ou Foundation de Asimov, que se tornaram referências do género.

Os caminhos temáticos do género começam a caracterizar-se pela complexidade com que abordam realismo científico, especulação informada, visões utópicas, distópicas ou transformativas. Com temas e vozes literárias definidas o género atinge a maturidade nesta época (Aldiss, 1988) em que o optimismo começa a esfumar-se perante o rescaldo da II guerra e das novas super-armas capazes de destruir a humanidade. Perdeu-se a fé cega no progresso e na perfeição tecnológica, sucedem-se visões de mundos pós-apocalipse nuclear de franco negativismo e paranóia. Esta perda de inocência abre caminho para tendências como a relativização do real, space operas que recuperam o exotismo da aventura em largos panoramas, a exploração profunda de questões sociais e sexuais utilizando o outro ficcional como metáfora para reflectir sobre problemas reais, experimentalismo literário de base modernista do new wave, ou revisões históricas à luz de hipóteses remotas que alterariam a estrutura do real percuro da história.

Esta evolução conceptual é mais visível no tratamento das questões de género, que evolui da misoginia e infantilidade pubescente na FC clássica para visões fluídas e arrojadas. Esta erosão do tradicional foi trazida por autoras que desafiaram a prevalência masculina na FC e nos têm vindo a legar visões que vão do feminismo assumido à fluidez relacional.

A Ficção Científica evolui nos mercados, com alguns dos seus autores a atingir o estatuto de super-estrela literária com sucessos garantidos de venda. Nos anos 80 emergir do movimento cyberpunk redefine o género, com uma forte componente intelectual virada para uma visão de futurismo hipermoderno digital experimentalista e fragmentário próximo da visão pós-modernista, trazendo o reflexo do modernismo de Ballard para o então novíssimo mundo digital.

Hoje, o género é ao mesmo tempo uma ficção popular de mercado alargado e um palco de experimentação. As fronteiras literárias estão difusas e o intercâmbio entre FC, fantasia, horror e o realismo mágico é tema comum nas obras mais ambiciosas. Persistem as divisões vindas da era pulp entre uma FC mais virada para o entretenimento, um aprofundar da sensibilidade literária e o focalizar na especulação informada reflectindo as problemáticas contemporâneas, em especial no que toca aos impactos da modernidade tecnológica nos sistemas sociais.

É importante sublinhar que se o grosso da FC tem uma fortíssima influência anglo-americana, por questões de afinidade cultural, mercados editoriais, sensibilidade científica e da própria história da evolução do género, este não se resume aos autores ingleses e norte-americanos. A tradição francesa de edição espelha em grande parte a mais conhecida vertente americana, com o género a florescer pós-Verne e Robida em revistas especializadas e colecções editoriais, caso da Fleuve Noir Anticipation, que publicou ao longo de quarenta anos autores como P. J. Hérault ou Serge Brussolo, entre outros criadores de séries marcantes. Omale, de Laurent Genefort, Aurorarama de Jean-CristopheValtat ou La Mécanique du Coeur de Mathias Malzieu são algumas das obras de autores contemporâneos a extravasar o espaço da francofonia com edições internacionais. Também na Alemanha, onde a tradição do fantástico ficcional conta com Kurt Lasswitz como contemporâneo de Wells e Verne, podemos encontrar vozes como a hard SF cosmopolita de Frank Schätzing e a série episódica Perry Rhodan, editada continuamente desde os anos 60 do século XX e que conta agora com sensivelmente quatro mil números, sendo a mais longa série de ficção científica literária em todo o mundo.

Nos dias de hoje assinala-se o surgir de uma ficção científica de voz global, com autores vindos dos quatro cantos do mundo a conquistar espaço e leitores, enriquecendo o género com sensibilidades estéticas e conceptuais que se afastam da visão anglo-americana que historicamente caracteriza o género. Escritores como Lavie Tidhar (israelita), Ken Liu (japonês), Aliette de Bodard (francesa) e Lauren Beukes (sul-africana) recebem prémios de referência, bom acolhimento pela crítica especializada e afirmam-se num mercado global que utiliza o inglês como lingua franca. Autores de países com fortes tradições de edição de ficção científica são traduzidos para um mercado crescente de leitores que procuram sensibilidades literárias culturalmente diferentes da tradição clássica. A esta tendência não são alheias as colectâneas temáticas de contos que misturam autores novos e consagrados, e as sucessoras das revistas pulp como espaço de primeira publicação quer em edição tradicional quer em formato digital.

Para o grande público a face mais visível do género está no cinema, onde a sua presença se assinala logo nos primeiros tempos do cinema. Esta épica legou-nos clássicos do grande ecrã, desde a sátira inocente de Voyage dans la Lune de Meliès, à precisão de Frau im Monde ou à absoluta distopia industrial de Metropolis, ambos de Fritz Lang, à utopia científica de raiz iluminista de H.G. Wells em Things to Come de Alexander Korda.

Até aos anos 50 o cinema de ficção científica dependia dos argumentos e de efeitos especiais que transmitiam a sensação de estranheza dos mundos ficcionais através de cenarismo e dos processos mecânicos de filmagem. A partir dos anos 50 aprofundam-se os temas dos argumentos, com o surgir das visões radicais e do cinema de série B, bem como a complexidade técnica dos efeitos especiais. O cinema espectáculo de FC firmou-se no imaginário popular com obras como 2001 de Kubrick, Alien de Ridley Scott e Matrix dos irmãos Wachowsky. Críticos do género apontam o desequilíbrio entre a raiz literária, pujante mas restrita às comunidades de fãs, e a popularidade do género no cinema de massas, que aproveita a iconografia da ficção científica como elemento decorativo de aventuras de acção ou policial. A FC como adereço possibilitada pela extraordinária evolução da indústria de efeitos especiais caracteriza a larga maioria dos filmes contemporâneos, apesar de excepções como o recente Gravity de Alfonso Cuáron, que ressuscita o puro sense of wonder da exploração espacial, ou The Congress, que nos obriga a reflectir sobre problemáticas contemporâneas de substituição da força laboral humana por meios de automação algorítmica e o espaço abstracto das redes digitais.

A estética da FC ultrapassou os limites literários e afirmou-se no cinema, banda desenhada e em particular no novo media dos jogos de computador. O seu espírito de extrapolação e reflexão  também se encontra para lá das fronteiras dos livros, fazendo-se sentir na exploração do futurismo, nas antevisões especulativas da design fiction, e nas fronteiras do experimentalismo digital de vanguarda. Olhando com nostalgia para a inocência os tempos dos monstros de olhos esbugalhados combatidos por heróis de queixo quadrado empunhando armas de raios e voando com jetpacks, a FC soube continuar a questionar os progressivos desafios que a evolução social e tecnológica veio trazer à humanidade, levando-nos a compreender os dilemas do tempo presente através do imaginar de futuros plausíveis.

2. FC e contemporaneidade


Megatendências vistas como elementos de tabela periódica (Watson, 2012)

Porquê ler Ficção Científica? A primeira resposta é visceral. É divertida. Como resistir à sedução de histórias empolgantes que nos levam ao espaço profundo, ao passado distante, usar tecnologias inauditas, ou conceber o inconcebível?

O mundo contemporâneo em que vivemos é constantemente desafiado pelo novo. Todos os dias nos somos bombardeados com relatos de novas tecnologias, transformações sociais radicais, inauditas maravilhas da ciência que alteram as nossas percepções do real e do possível. Emergem novas profissões, impensáveis há poucas décadas ou anos. As tradições esvaem-se numa modernidade unificada por meios de comunicação à escala global. Ferramentas tecnológicas pervadem o nosso dia a dia, desde os objectos de uso pessoal às infra-estruturas massivas do mundo globalizado. Dependemos de satélites para nos orientarmos nos labirínticos espaços urbanos, a maioria das doenças é controlável por uma vasta gama de medicamentos inimaginável durante milénios. Apesar dos constantes desafios da pobreza e exploração, é inegável que boa parte da humanidade considera normal uma qualidade de vida que, há poucos séculos, nem os mais privilegiados poderiam alcançar.

Vivemos rodeados de tantas maravilhas que nos parecem banais. As ideias técnicas e científicas revolucionárias tornaram-se nota de rodapé nos telejornais. No nosso dia a dia atarefado talvez paremos, por um pouco, para nos maravilharmos com uma nova ideia ou sonhar com o impacto de uma nova tecnologia anunciada. Estamos tão habituados a estas rotinas que depressa as esquecemos. A hipérbole do lançamento de um novo produto de consumo tecnológico depressa é substituída pela hipérbole do lançamento de mais um novo produto de consumo tecnológico, numa lógica cíclica que banaliza a enorme complexidade e conhecimento científico dos objectos tecnológicos.

Tememos o futuro. É-nos difícil conceber o impacto das novas ideias, novas tecnologias, novos modos de viver, novos conhecimentos, do eterno e imenso novo. Sabemos que nos esperam desafios civilizacionais talvez inultrapassáveis, sabemos que nos espera o desconhecido. Cada nova ideia, cada nova tecnologia, cada tendência traz consigo promessas de transformação que mal conseguimos descortinar. Marshall McLuhan, influente teórico dos media que intuiu o que o poder transformativo dos meios de comunicação alterava profundamente formas de conceber o mundo, afirmou que as nossas tecnologias nos modelam de maneiras inesperadas.

A Ficção Científica é um recreio de ideias que nos permite brincar de forma segura com o que nos atemoriza ou intriga. Possibilita-mos um espaço de experiências de pensamento, onde podemos levar ao extremo as ideias que nos atravessam o radar da curiosidade, extrapolar os dilemas contemporâneos e simular as suas consequências num espaço virtual delimitado pela nossa imaginação. É vista na cultura popular como preditora de tecnologias e futuros, mas funciona como uma estrutura que nos permite questionar os desafios contemporâneos. Raramente a FC consegue predizer avanços tecnológicos, embora seja habitual que cientistas e engenheiros se inspirem no género para desenvolver novas tecnologias.

As suas obras reflectem as preocupações das épocas em que foram escritas. Os autores atrevem-se, nos seus e ses, a interrogar os limites teóricos das ciências, da história, da tecnologia, tudo o que constitui a maravilhosa procissão da humanidade. Baseando-se em extrapolações de base científica que tanto reflectem um optimismo ingénuo como um cinismo desencantado com potencialidades e consequências dos desenvolvimentos tecnológicos, ajudam-nos a compreender melhor o mundo contemporâneo fazendo-nos imaginar futuros. Tudo isto empacotado em histórias divertidas e empolgantes que mantém vivo um pouco de inocência e espirito juvenil de aventura e exploração à descoberta do mundo.

O género vai muito para além da ficção especulativa de base científica, indo beber a variadas fontes que por sua vez o modelam e transformam. Associamos a FC a iconografias específicas Foguetões, naves espaciais e habitats no espaço são algumas das mais clássicas imagens associadas ao género. Cientistas loucos e donzelas em busca de salvação são talvez dos mais banalizados ícones do género. Visualizamos robots mecanismos complexos conscientes de si próprios, sexualizados como objecto de desejo ou mesclando o homem com a máquina. Reflectimos a diversidade de culturas humanas recriando-as como aspectos de vastas civilizações extraterrestres. Projectamos os devaneios arquitectónicos em urbanismos futuros, utopias bucólicas de arquitecturas arrojadas, colisões multiplanares de portentosas edificações ou vida a formigar na decadência catastrófica do betão. Recriamos e antevemos dispositivos técnicos que nos fascinam pelas novas possibilidades que fazem intuir. Tememos a possível subserviência a tecnologias que se tornam mais avançadas do que os seus criadores. Revemos fascínios, xenofobias e medos da relação com o outro através do simbolismo dos alienígenas ficcionais e das suas exóticas culturas. Deleitamo-nos com a construção de mundos ficcionais num sólido imaginário verosimilhança aos mundos de fantasia dos livros.


 Collage de Max Ernst, a recordar que as visões especulativas sobre tecnologia não são recentes.

Numa recente entrevista o escritor e cientista Gregory Benford referiu que "technology is the quiet driver of most modern history", algo que é recordado no ar frenético da discussão mais mainstream sobre as transformações sociais trazidas pela tecnologia, em discursos que oscilam entre surpresa com a rapidez transformativa,  deslumbre com as delícias dos gadgets ou temores catastrofistas sobre o colapso iminente da humanidade perante a ameaça dos teares mecânicos/fábricas tayloristas/máquinas inteligentes/inteligências artificiais/redes sociais/isolamento na internet. Há mais de um século que o imaginário da Ficção Científica nos leva a olhar em frente, preparando-nos para o futuro real em que não imaginamos futuros plausíveis ou impossíveis, em essência reflectindo no impacto que a ciência e tecnologia têm sobre a humanidade.

3. Vertentes/Géneros
Listar as diversas variantes deste género literário é um trabalho exaustivo e quase impossível. As abordagens temáticas que permitem agrupar obras num determinado sub-género têm na FC uma enorme variância. Deixamos aqui algumas das principais vertentes, sem esgotar as possibilidades.

Ficção Científica: conceito abrangente, que define ficções onde o tema central envolve a exploração de conceitos científicos e tecnológicos.
Hard SF: A ciência e tecnologia são os seus temas principais. Fortemente baseada em detalhar de conceitos cientíticos e realismo cientítico. Conhecida pelo uso de infodumps, técnica narrativa em que um personagem explica em grande detalhe ao narrador, e por extensão ao leitor, os fundamentos sociais, científicos ou técnicos do mundo ficcional imaginado pelo autor.
FC Militarista: tem uma tonalidade distintamente militar. Extrapolação de guerras futuras, com personagens inseridas em meios militaristas. A tecnologia é um adereço em ficções centradas em ideais de honra, heroísmo e exploração de futuros campos de batalha.
Robótica: tem os robots como tema central, explorando conceitos de inteligência, sexualização e emoções, ou domínio das máquinas sobre a humanidade.
FC Social: imaginar sociedades futuras como forma de extrapolar e reflectir sobre aspectos das sociedades contemporâneas, podendo ser satírica mas dando destaque à tecnologia.
Space Opera: com carácter épico, caracteriza-se pela sua visão abrangente, habitualmente situada em vastas paisagens ficcionais e universos alargados.
Steampunk: mescla de FC com história alternativa e estética vitoriana, com particular prevalência na tecnologia a vapor dos primórdios da era industrial. Expressa-se por via literária, artística, gráfica, cinematografia e moda.
Cyberpunk: lida com as visões sobre cibernética, tecnologia digital, virtualidade e relação entre o homem e computador, prostética digital e declínio social.
Biopunk: foca-se na reflexão sobre engenharia genética, manipulação genética, modificações corporais, eugenia.
Nanopunk: foca-se na nanotecnologia.
Viagens Extraordinárias: género que antecede o conceito de FC. Envolve o périplo de um grupo de personagens por mundos fantásticos, utilizando ou não elementos tecnológicos. O foco é na aventura e exploração.
Romance Científico: termo usado para designar a proto-FC, caracteriza o trabalho dos primeiros escritores a explorar o género.
FC Gótica: mescla de elementos da ficção gótica (magia, criaturas míticas) reinterpretados à luz da ciência.
FC Mundana: concentra-se no realismo das possibilidades tecnológicas realizáveis com a tecnologia dos nossos dias.
Horror/FC: cruzamento entre terror e FC.
FC/Fantasia: cruzamento entre fantasia e FC.
FC Apocalíptica: exploração de acontecimentos passíveis de provocar a extinção da humanidade.
FC pós-apocalíptica: lida com alterações radicais à sociedade humana após acontecimentos cataclísmicos.
Invasões Alienígenas: invasões extraterrestres da terra.
Viagens no tempo: viagens ao passado ou futuro.
História Alternativa: explora a possibilidade de divergências ao percurso da história
Realidades paralelas: lida com conceitos de universos paralelos e outras dimensões.
Distopias: visões de futuros social e politicamente reprimidos, com perversão de valores sociais e morais.
Western no Espaço: replica a iconografia do velho oeste em ambientes espaciais.

4. Ligações
Algumas hiperligações para páginas web sobre FC e F em português. Não sendo uma lista exaustiva, é um ponto de partida para descobrir a pequena mas dinâmica comunidade de leitores e escritores do fantástico português. Inclui páginas de crítica literária, webzines que publicam autores lusófonos, agregadores de notícias e arquivos temáticos.
Bibliowiki: Repositório de informação bibliográfica sobre edição de livros de género fantástico em português. Organizado por Jorge Candeias.
Fórum Fantástico: Encontro anual dedicado à FC e F nos domínos da literatura, cinema e outras artes.
Trema : Oficina de escrita e revista literária, destaca diariamente na sua página notícias e crítica literária sobre FC e fantástico de Portugal, Brasil e do mundo. Dinamizado por Luis Filipe Silva e Rogério Ribeiro.
ScoopIt Ficção Científica e Literária: Organizado por Jorge Candeias, agrega artigos sobre FC em português, com grande destaque para a lusofonia.
ScoopIt Gothic Literature: Agregador especializado no gótico literário.
ScoopIt F-C: Agregador de ligações sobre ficção científica na literatura, cinema, jogos e cultura popular.
Revista Bang!: Única revista de publicação regular portuguesa, gratuita, editada pela Saída de Emergência. Mantém um site com conteúdos actualizados, com destaque para a ficção portuguesa e brasileira.
Projecto Adamastor: Sem ser direcionado a géneros literários específicos, o projecto disponibiliza textos literários portugueses de domínio público em suporte digital com formatação cuidada.
Colecção Argonauta: Página dedicada à mais longa colecção de literatura de FC em Portugal. Se as traduções são consideradas na generalidade bastante más, a colecção distingue-se pelo design arrojado das capas e por ter, durante décadas, publicado FC com periodicidade mensal.
Ficção Científica em Portugal: Página dedicada à recolha bibliográfica da edição de FC em Portugal
Breve História da FC Portuguesa: Curta história do género, traçada por Álvaro Holstein.
FC Portuguesa: apresentação de Luís Filipe Silva sobre os primórdios da ficção científica portuguesa.
Os Mundos Imaginários do Fantástico Português: Artigo do cineasta e escritor António de Macedo sobre a génese do fantástico da literatura renascentista ao século XX.
Clockwork Portugal: Associação dedicada a divulgar o estilo steampunk nas vertentes literária, de moda e cinematográfica. Organizadores da EuroSteamCon portuguesa.
International Speculative Fiction: Editada por Roberto Mendes, esta revista digital focaliza-se na edição traduzida para inglês de autores não-anglófonos.

Bibliografia
Aldiss, B., Wingrove, D. (1988). Trillion year spree: the history of science fiction. Londres: Grafton Paladin.

Brynjolfsson, E., McAfee, A. (2014). The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies. Nova Iorque: Norton.

James, E., Mendlesohn, F. (2003). The Cambridge Companion to Science Fiction. Cambridge: Cambridge University Press.

Rothstein, E., Marty, M., Muschamp, H. (2003). Visions of Utopia. Nova Iorque: Oxford University Press.

Slusser, G. (2014). A scientist-author at the heart of Hard Science-Fiction. Institute for Ethics and Emerging Technologies, 20 de Fevereiro de 2014. Obtido a 20 de Março de 2014 no url http://ieet.org/index.php/IEET/more/benford20140220

Watson, R. (2013). Trends and Technologies for the World in 2020. 14 de fevereiro de 2013. Obtido a 21 de Março de 2014 no url http://toptrends.nowandnext.com/2013/02/14/trends-technologies-for-the-world-in-2020-2/

(Nota 1: O Roberto Mendes observou que o ISF se dedica a autores não anglófonos. É a palavra certa para o que eu queria dizer. O texto foi devidamente corrigido onde estava "esta revista digital especializa-se na edição traduzida para inglês de autores europeus". Adicionei o agregador Gothic Literature, também focalizado no fantástico literário.)

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

Comics


Judge Dredd Mega City 2 #02: Da IDW a publicar Dredd com sabor americano para o mercado americano não se espera muito. Talvez por isto a série me tenha apanhado de surpresa. No mundo pós-apocalipse nuclear de Dredd Mega City 2 é a mega-cidade que se estende no que resta da Califórnia após as bombas e os tsunamis. O argumentista projecta a visão contemporânea da califórnia como um estranho lugar libertário tisnado pelo sol no futuro distópico de Dredd e o ilustrador Ulisses Farinas... bem, um deslumbre! Linha clara com um estilo gráfico espantoso, fazendo lembrar Geoff Darrow, a dar vida a crustáceos mutantes e a uma cidade futurista que se parece com uma Disneyland desenhada por arquitectos pedrados em lsd.


Moon Knight #02: Sendo fã incondicional de Warren Ellis, a minha opinião é suspeita. Mas a sua revisão a Moon Knight está excepcional. Esta segunda edição lê-se como um filme curto de ritmo implacável, tão certo que nem se dá pelo virar das páginas. Ellis apostou num tipo cinematográfico de narrativa em banda desenhada (a minha comparação com o cinema não vem por acaso) com judiciosos cortes ritmados de planos e uso de tiras panorâmicas em plano de pormenor. É interessante ver a abordagem ao personagem como uma versão de Batman (que o é), deixando em segundo plano os toques místicos para se concentrar em histórias que se desenrolam no implacável espaço da modernidade urbana. Só Ellis terminaria uma edição com um dos vilões a triunfar e a reflectir que the bank always wins.


Starlight #02: É adorável esta visão de Millar e Parlov que recupera o classicismo ingénuo do Flash Gordon original. Tornou-se claro que este é um hino narrativo e iconográfico à golden age da ficção científica. Um mimo para quem tem um fraquinho por aventuras no espaço, foguetões, rayguns e alienígenas de olhos esbugalhados. A história segue um percurso clássico de herói envelhecido, incompreendido e amargurado com a vida trazido de volta às aventuras por um jovem que ainda acredita nele como a esperança de uma distante civilização alienígena. No processo, a vénia ao lado nostálgico de uma FC mais ingénua é profunda. Este Starlight devolve-nos o sense of wonder de Buck Rogers, Adam Strange ou Falsh Gordon.


Trillium #08: Jeff Lemire termina a sua série de FC para a Vertigo com uma nota triste e sem nos desvendar o mistério dos seus alienígenas azuis e as pirâmides que atravessam as barreiras do espaço e do tempo. Resta aos dois heróis, unidos após um périplo de volteios labirínticos pelos tempos e universos paralelos, sacrificar-se para salvar uma nave-arca com os últimos humanos na galáxia. Só lhes resta deixar-se ir até ao horizonte de acontecimentos de um buraco negro e... e. Ficamos por aqui, e não ficamos nada mal. Lemire conjurou o melhor da FC com toques de space opera e viagens no tempo com um fortíssimo experimentalismo gráfico pouco habitual nos comics. A série ficará como uma das melhores que a DC/Vertigo nos legou em ficção científica.


Caliban #01: No hiperespaço ninguém ouve os nossos gritos. Esta nova série de terror/FC escrita por Garth Ennis começa muito bem. Estamos num futuro industrializado onde no espaço se encontram as matérias primas para os fogos da indústria terrestre, mas os sonhos de colonizar planetas extraterrestres colidem com a realidade das rochas nuas desprovidas de atmosfera respirável. Os longos trajectos intergalácticos são assegurados por naves cujos tripulantes enlouquecem de tédio ou sob o efeito psicadélico da negação das leis da física no hiperespaço. Sendo Ennis a escrever, o mundo ficcional tinha de ser decadente. Nesta primeira explosiva edição, os tripulantes da nave Caliban descobrem o impossível quando colidem no hiperespaço com uma gigantesca nave alienígena... só que uma colisão destas leva a uma fusão no espaço real. A serie tem muito do ambiente de indústria pesada de Aliens, com os astronautas como operários das linhas de trânsito de minério do futuro. Quanto aos alienígenas, nada nos é revelado nesta primeira edição, apenas que existem... e as vias do hiperespaço são afinal mais congestionadas do que a física exótica previa.

sábado, 5 de Abril de 2014

Playtime


A afinar técnicas de modelação com as ferramentas do Vivaty. Partiu de uma vinheta de um álbum de BD do Lucky Luke.


Fotutopias




Quem diria que tomar conta do equiíbrio de brancos da máquina do smartphone dá para captar imagens intrigantes. Belíssimo workshop de Susana Paiva. Aprendi imenso. Ajudou a repensar o acto de fotografar e ainda me deu a experiência creepy de atravessar um jardim vendado.

sexta-feira, 4 de Abril de 2014

Ficções



Alfa 33 e o Enigma das Caldas: A história do Estado Novo é terreno fértil para aproveitamentos ficcionais, e é de surpreender que para além dos registos clássicos da luta anti-fascista ou de alguma nostalgia pelo antigo regime este filão de ideias não seja mais aproveitado. Particularmente pela ficção de género, que teria aqui espaço para narrativas de história alternativa ou pulp fictions de 007 à portuguesa. A eterna proposta de série televisiva Capitão Falcão aproxima-se disto, mas os modelos que realmente a inspiram estão na televisão clássica de Batman e Green Hornet com paródia à iconografia do Estado Novo.

Já Renato Carreira, com as suas aventuras de Alfa 33, o mais luso e másculo dos agentes da moderna PIDE, segue um caminho diferente e muito interessante. O tom é de pura história alternativa, num futuro distópico onde um Estado Novo triunfante domina a metrópole e as colónias, após subjugar os turras revoltosos à força de bombas atómicas e esmagar a revolta dos capitães. O mundo admira a força lusitana, e a sabedoria do regime que tudo faz para manter na paz beatífica da portugalidade tradicionalista. E quem se atrever a contestar o regime, quem insistir em ser comuna, invertido, ateu, ou ter qualquer comportamento desviante tem de se haver com a alta tecnologia da PIDE e os intrépidos agentes, dos quais Alfa 33 é de todos o maior. Nesta aventura terá de investigar o mistério dos materiais que transformam estátuas da virgem Maria piedosamente manufacturadas por uma ordem conventual nas Caldas da Rainha em portentosos falos. O tom de sátira é perfeito, assente numa bem humorada mas congruente visão de história alternativa que vai buscar especulação historiográfica e ficção pulp de espionagem ao estilo dos filmes de James Bond para nos levar a sorrir com um carácter português que foi... e talvez hoje esteja a regressar. E sublinhe-se que é sátira muito inteligente, mesmo com certos momentos histriónicos.

O Reflexo da Morte (ou da Vida) nas Janelas do Rio: Conto de Olinda Gil que é um pequeno hino à Lisboa ribeirinha, num registo poético intimista. Deixa-nos na mente as imagens do Tejo a brilhar sob o azul que é tão especial do céu de Lisboa, enquanto o casario se espraia em telhas vermelhas e paredes de cal colorido das colinas à beira rio.

Fim da Era da Razão: Vou arriscar e dizer que a autora deste conto ou mantém o espírito de adolescente, ou quando o escreveu estava embrenhada nesse sempre interessante momento da vida, onde aprendemos a definir-nos perante o mundo. Escrevo isto com seriedade. É refrescante ler algo tão hiperbólico onde transparecem fortes pulsões de revolta, que se sente neste trabalho de Liliana Novais. A história em si é simples, os primórdios de um futuro distópico onde os governos mundiais se conluiam para eliminar os livros, e por acréscimo os intelectuais e todos os que pensam por si. Pois, já perceberam o que é que eu quis dizer com o que escrevi mais acima. O conto mistura 1984 com Farenheit 451 e história do nazismo. O que falha é a linguagem narrativa, muito fragmentada e com algumas incoerências. Os elementos estão cá, mas precisam de mais trabalho. Mas não deixa de ter duas das mais acutilantes observações sobre o estado contemporâneo das coisas, no fundo algo de óbvio mas que deveríamos afirmar mais vezes: "Todos os dias o governo inventava uma desculpa nova para as suas acções, fugiam das perguntas dos jornalistas como o diabo foge da cruz.". E mais à frente encontramos "A população, já sem forças para lutar, deixou as coisas avançar, baixaram os braços e desistiu. “Que seja como eles querem.” Ouvia-se pelas ruas. “Nós nada podemos contra eles. São mais poderosos e mais fortes.” Soa familiar, nestes tempos de austeridade ideológica imposta em nome da salvação das maiorias que não sabem o que é melhor para elas?

quinta-feira, 3 de Abril de 2014

Peculia and the Groon Grove Vampires


Richard Sala (2005). Peculia and the Groon Grove Vampires. Seattle: Fantagraphics.

Richard Sala tem um estilo gráfico muito próprio, que mistura a expressividade do traço com um forte carácter ingénuo e admiração pela iconografia do horror clássico. Esse gosto por monstros do cinema a preto e branco e elementos assombrados das casas que rangem na noite também é explícito nas histórias que congemina para os seus livros. Neste, é o mito do Vampiro que é colocado em destaque. Sala pega na clássica visão pop da cidadezinha burguesa americana que é assolada por uma família de vampiros especializada em sugar o sangue virginal de babysitters. O estilo gráfico está mais na linha do traço gótico de Edward Gorey do que no pop colorido de Buffy The Vampire Slayer, onde claramente Sala vai buscar a base para este livro. Sublinhado o seu gosto pelo lado tenebroso da cultura pop o ilustrador ainda vai buscar elementos decalcados dos clássicos filmes de terror da Universal, particularmente no toque dos ciganos conhecedores dos mistérios das trevas, que parecem saídos do clássico The Wolfman. E, claro, como falamos de vampiros, quando estes realmente atacam a iconografia vem do Nosferatu de Murnau. Como um bom cineasta, Sala conta a história fazendo a câmara seguir um personagem, um miúdo intrigado com vampiros que se vê arrastado para uma orgia vampírica do qual se safa graças a uma baby-sitter desenrascada e à intervenção atempada de uma velha cigana certeira com o arcabuz. É curioso que este personagem se destaca pro ser desenhado num estilo de cartoon, muito diferente do registo do autor, e por não dizer uma palavra. Será que representa o espectador, curioso voyeur levado a mergulhar nos horrores pelo braço do autor, ou será referência aos Peanuts?

quarta-feira, 2 de Abril de 2014

The Cambridge Companion to Science Fiction


Edward James, Farah Mendlesohn (2003). The Cambridge Companion to Science Fiction. Cambridge: Cambridge University Press.

Colecção intrigante de ensaios através dos quais se traça um retrato detalhado do que é a FC. Mostra a sua evolução histórica e analisa-a conceptualmente através de múltiplas perspectivas que incluem a sua iconografia intríseca e visões politico-sociológicas.

No seu ensaio Brian Stableford traça o percurso da ficção científica a partir das raízes das narrativas utópicas e das viagens extraordinárias, mostrando como o género evoluiu a partir de histórias com preocupações morais e sociais para um sentimento da importância da ciência e voos imaginários construídos a partir de hipóteses científicas. No processo fala-nos do emergir da ciência como elemento ficcional do romance aventuras em Verne e nos autores que antecederam a explosão dos pulps, essencialmente histórias de aventura que se socorrem de elementos científicos como ponto de partida narrativo. Olha também para Wells e mostra como a partir dele evoluíram as histórias de guerra futura, género muito em voga até à I guerra, onde a realidade sangrenta fez perder o apetite por titânicos combates imaginários. Esta vertente encontrou grande expressão nos escritores ingleses e foi satirizada por Robida em la guerre future. De Wells parte outra vertente de FC, a narrativa apocalíptica que mostra a humanidade extinta ou em vias de extinção, que encontra em MR James e William Hope Hogdson interessantes expressões. Stableford cobre uma enorme variedade de escritores, boa parte dos quais hoje esquecidos, mas incluindo nomes como Abraham Merritt (aventura e guerra futura), Conan Doyle (as aventuras do Professor Challenger nos mundos perdidos), Poe, Hawthorne, entre outros. Para Stableford a FC evolui das utopias e aventuras incorporando progressivamente elementos científicos, culminando nas narrativas pulp ao estilo de Hugo Gernsback onde o imaginário do artefacto tecnológico é o cerne da narrativa.

Em seguida analisa-se a tradição dos pulps como berço do que hoje consideramos FC. As obras seminais dos grandes autores da era clássica do género tiveram a sua génese nestas publicações, algumas das quais ambicionavam abertamente sair do recanto de publicações de qualidade baixa que viviam da reimpressão de contos clássicos e obras repetitivas de autores hoje felizmente esquecidos. Desenham-se aqui algumas clivagens profundas no género; a visão da FC didáctica e centrada na tecnologia de Gernsback, as preocupações literárias expressas pelo trabalho de edição de Jack Williamson, e a clivagem entre FC como literatura de entretenimento e FC como forma de expressão literária por direito próprio, centrada na interpretação da influência da ciência e tecnologia sobre a humanidade nas suas diferentes dimensões.

A fortíssima influência da New Worlds dirigida por Moorcock faz a ponte entre uma FC clássica, centrada num optimismo tecnológico e em visões de aventura para uma FC mais madura, de crescentes ambições literárias. Esta revista marca ao mesmo tempo o ocaso da FC pulp e das suas publicações, das quais hoje poucas restam, e a génese da FC enquanto género literário ambicioso, capaz de ao mesmo tempo se dedicar à exploração dos seus temas próprios e apostar na complexidade narrativa e estilística.

John Clute analisa a FC contemporânea enquanto fenómeno editorial, longe das raízes pulp, dividida entre repetitividade banal na exploração de mercados estabelecidos, autores mais experimentais que se atrevem a desafiar expectativas, o movimento cíclico de cisão e fusão em correntes literárias, e o despertar de sub-géneros que abrem novos caminhos à FC clássica.

A representatividade do género no cinema é analisada ao longo da história deste. Os filmes de FC surgiram nos primeiros tempos do cinema, e legaram-nos alguns dos maiores clássicos do grande ecrã. Mark Bould define três grandes momentos. Até aos anos 50 a FC vivia do poder dos argumentos e de efeitos especiais que transmitiam a sensação de estranheza dos mundos ficcionais através de cenarismo e dos processos mecânicos de filmagem. A partir dos anos 50 aprofundam-se os temas dos argumentos, com o surgir das visões radicais e do cinema de série B, bem como a complexidade técnica do efeitos especiais. Nos anos 90 assinala-se a transferência da FC do cinema para a televisão e jogos digitais, embora no cinema se distinga pela sua prevalência nos filmes blockbuster. No que toca a temas, Bould nota que replica os da FC literária, apesar de um ênfase na espectacularidade visual típica dos meios audiovisuais.

Gary Wolfe analisa o papel preponderante que os editores desempenham no género. Aponta a influência da visão editorial de Gernsback e Williamson para a definição da era clássica da FC, e sublinha o papel de Moorcock na redefinição do género. A tradição do conto de FC publicado em revistas especializadas é hoje mantido vivo por publicações como a Asimov e a Interzone. Para lá das revistas ainda é apontada a influência dos editores nos livros, com um fortíssimo diálogo entre o escritor e o seu editor. Outro pormenor a assinalar é a prevalência no género de antologias, cuidadosamente editadas, que permitem dar voz a novos autores e manter viva uma espécie de memória colectiva da evolução histórica e literária da ficção científica.

São abordadas algumas das perspectivas críticas sobre o género: a visão utópica, distópica ou transformativa da perspectiva marxista; a evolução da misoginia da golden age às visões contemporâneas mais complexas sobre o espírito feminino na perspectiva feminista; o futurismo hipermoderno, o lado experimentalista e o carácter fragmentário das obras mais arrojadas encaixam-se na visão pós-modernista; as questões de género, evoluindo da misoginia da FC clássica para visões fluídas e arrojadas são vistas pela perspectiva queer.

Gwyneth Jones analisa a iconografia da FC. Mostra-nos o classicismo dos foguetões, naves espaciais e habitats no espaço. A robótica, aqui subdividida em mecanismos, robots sentientes, robots sexualizados e mesclas homens-máquina funciona como simbolismo da relação física com outros, bem como medos de possível subserviência a tecnologias que se tornam mais avançadas do que os seus criadores. A ensaísta inclui aqui a vastidão de conceitos sobre espécies alienígenas. A construção de mundos ficcionais socorre-se em muitos romances de um sólido imaginário de reconstituição de espécies animais e vegetais que dá verosimilhança aos mundos de fantasia dos livros. Cientistas loucos e donzelas em busca de salvação são talvez dos mais banalizados ícones do género.

A relação entre FC e as ciências é analisada em diversos ensaios. Observa-se que conceitos de biologia e ciências da vida são rotineiramente explorados pelos autores do género, com ênfase nas visões de inteligência, teoria da evolução e o conceito de mutação, engenharia genética, reprodução sexual, bioesfera e ambiente. Os autores atrevem-se, nos seus e ses, a interrogar os limites teóricos destas ciências. Daqui parte-se para esse conceito aparentemente sólido mas de facto elusivo que é o de Hard SF, baseado em extrapolações de base científica (ou que o aparentam ser) e que tanto reflectem um optimismo ingénuo como um cinismo desencantado com potencialidades e consequências dos desenvolvimentos tecnológicos.

Analisar os sub-géneros leva-nos à space opera, que entre as suas virtudes e banalizações mantém vivo o espírito de aventura pura e exótica que tanto atrai na FC. A história alternativa merece igualmente destaque, pela visão especulativa com que se questionam as encruzilhadas da história, embora seja criticada por se manter nos limites restritos de algumas eras históricas, como o império romano, guerra da secessão ou II guerra, que por serem bem conhecidos do público se tornam o principal foco destas visões especulativas, embora não se reduzam apenas a estes momentos. As utopias e distopias não poderiam faltar nestas análises, sendo a FC o veículo contemporâneo para dissecar e levar ao extremo através de experiências de pensamento aplicadas à literatura ideias sobre as possibilidades de sociedades perfeitas, ou o seu inverso.

Política é um campo que é esquivo à FC, preocupada com outras questões de fundo, mas não deixa de ser abordado. Heinlein e a sua visão hiperliberal quase fascizante é aqui a referência explorada, embora também se note que imaginar sociedades implica exprimir visões de organização política. Já o campo da sexualidade e questões de género tem sido melhor explorado. A misoginia e infantilidade pubescente das abordagens a estas questões pela FC clássica foi erodida pelas vertentes trazidas por autoras que desafiaram a prevalência masculina na FC e nos têm vindo a legar visões que vão equilibrando os géneros. O espectro aqui é largo e vai do feminismo assumido à fluidez relacional.

A FC talvez seja um dos últimos redutos do homem branco europeu, onde questões de etnicidade não são comummente abordadas por autores mais interessados na extrapolação científica ou visões arrojadas de um futuro com raízes no iluminismo. Alguns trabalhos despertam consciências e alertam para questões de raça e xenofobia.

O livro termina com uma visita à religião e espiritualidade na FC. Apesar do carácter eminentemente pró-ciência e tecnologia do género, há várias formas de perceber o lado espiritual da FC. O espírito que anima a FC, com visões abrangentes de transcendentalismo humano através da ciência ou exploração espacial, pode ser apontado como uma visão eminentemente espiritual. A religião em si também encontra expressão no género, quer através de uma visão negativa que anima a FC clássica de base céptica que vê a religião como um bastião de obscurantismo, ou um reconhecimento da importância da espiritualidade transmitida através da caracterização de culturas alienígenas onde a religiosidade é preponderante.

terça-feira, 1 de Abril de 2014

The Futurological Congress: From the Memoirs of Ijon Tichy


Stanislaw Lem (1985). The Futurological Congress: From the Memoirs of Ijon Tichy. San Diego: Harcourt Brace Jovanovich.

O futuro é um lugar surreal neste livro que, apesar de escrito há algumas décadas atrás, consegue ser incisivo de forma arrepiante na premonição da ilusão de um real desmaterializado para o qual hoje alegremente caminhamos. No mundo deste Congresso a virtualidade é trazida por químicos que distorcem a percepção e ocultam do cérebro ocupado a imaginar realidades sumptuosas a suja decadência do real tangível. Já nós preferimos sonhos binários dos algoritmos de simulação. Em 1974, data da publicação original deste romance, a incipiente tecnologia digital andava muito longe dos nossos paraísos artificiais contemporâneos e faria mais sentido a escolha do olvido químico como motor das visões de utopia.

Devo ter lido este livro de Lem há longos anos atrás. Ao ver o filme O Congresso, baseado nesta obra, tive de o reler para perceber onde é que o filme e o livro se tocam. Apesar da temática do filme ser fundamentalmente actual, intersectam-se mais do que se imaginaria. Se o trabalho de Folman toca na desmaterialização digital, impulsos económicos que a estimulam, e especulação sobre as consequências da progressiva automação e transferência do que é humano para algoritmos computacionais, o lado profundamente alucinatório do livro de Lem transparece na estética e na evolução narrativa do filme. Adaptado, é certo, mas algumas das mais intrigantes cenas são decalcadas com alterações ditadas pelas escolhas estéticas de um realizador erudito que está tão à vontade a citar o grotesco dos cartoons de Max Fleischman como o psicadelismo de Yellow Submarine, ou a desvirtuar a inocência comercial do estilo Disney. É um filme que se recomenda vivamente.

Lem consegue ser ao mesmo tempo surreal e especulativo nesta visão alucinatória onde uma futura sociedade utópica é conseguida graças à magia dos químicos. No futuro vivido pelo eterno cândido de Lem, o peripatético Ijon Tichy, as substâncias químicas vieram substituir as tecnologias tangíveis. Numa sociedade sob efeito de psicotrópicos, todos habitam os seus mundos perfeitos e estão cegos para a dura realidade primitiva de um mundo à beira do colapso ambiental e populacional. Convencidos que a ilusão é a realidade, os habitantes desta utopia vivem uma vida irreal feérica enquanto os seus corpos decaem nas ruas arruinadas das cidades atafulhadas de pessoas. Mas, felizmente, o sonho das ilusões é em si uma ilusão provocada por um excesso de psicotrópicos calmantes de multidões durante uma revolta que arruína o Congresso Futurológico onde Tichy participa.

É desapontador que o livro termine com uma variante do artifício narrativo "e afinal era um sonho". Depois de levar esta surreal experiência de pensamento aos seus limites Lem não parece ter querido terminar com uma visão de completo desalento para com os possíveis futuros da humanidade. Esta variação altera o carácter da obra. De especulação catastrófica termina como romance de utopia satírica, categoria onde não fica nada mal a acompanhar Voltaire ou Luciano de Samosata. Recordo-me de ter lido algures que Lem, amante de ficção científica mas impossibilitado pelas limitações culturais impostas pelo partido comunista polaco de ler os influentes autores anglo-americanos, escreveu FC tal como imaginava que estes as escreveriam. Parece que ficou desiludido quando finalmente tomou conhecimento da FC de toque Gernsback e Campbelliano. A sua visão está mais próxima de um Borges ou de um Ballard do que de um Asimov ou Clarke. A sensibilidade da cultura da antiga europa de Leste, a crítica à retórica de um ocidente visto com olhar crítico e especulação pura mistram-se neste livro intrigante.