terça-feira, 21 de novembro de 2017

Man-Computer Symbiosis


"The political process was a favorite example of his. In a McLuhanesque view of the power of electronic media, Lick saw a future in which, thanks in large part to the reach of computers, most citizens would be “informed about, and interested in, and involved in, the process of government.” He imagined what he called “home computer consoles” and television sets linked together in a massive network. “The political process,” he wrote, “would essentially be a giant teleconference, and a campaign would be a months-long series of communications among candidates, propagandists, commentators, political action groups, and voters. The key is the self-motivating exhilaration that accompanies truly effective interaction with information through a good console and a good network to a good computer.”"

A ironia de ler esta visão do potencial libertador da tecnologia, enunciado por JCR Licklider, um dos grandes pioneiros da computação em rede, na era em que a promessa libertadora da rede se esfumou nas bolhas cognitivas, fake news, e enviesamento da opinião pública através dos algoritmos de redes sociais. Os peritos russos em desinformação, só para citar um dos grupos de experts em manipular consciências através do implante de falsas informações e opiniões bombásticas em redes, estão a fazer muito bom uso desta intuição de Licklider nos anos 50.


Lick’s thoughts about the role computers could play in people’s lives hit a crescendo in 1960 with the publication of his seminal paper “Man-Computer Symbiosis.” In it he distilled many of his ideas into a central thesis: A close coupling between humans and “the electronic members of the partnership” would eventually result in cooperative decision making. Moreover, decisions would be made by humans, using computers, without what Lick called “inflexible dependence on predetermined programs.” He held to the view that computers would naturally continue to be used for what they do best: all of the rote work. And this would free humans to devote energy to making better decisions and developing clearer insights than they would be capable of without computers. Together, Lick suggested, man and machine would perform far more competently than either could alone. Moreover, attacking problems in partnership with computers could save the most valuable of postmodern resources: time. “The hope,” Licklider wrote, “is that in not too many years, human brains and computing machines will be coupled . . . tightly, and that the resulting partnership will think as no human brain has ever thought and process data in a way not approached by the information-handling machines we know today.”

Mais à frente, um ideário sobre o impacto da automação e robótica, também da mesma altura e do mesmo pioneiro, uma visão positivista completamente inversa dos nossos correntes receios sobre o potencial de uma humanidade obsoleta, num mundo automatizado e algoritmizado.

in Hafner, K., Lyon, M. (1998). Where Wizards Stay Up Late (The Origins of the Internet). Nova Iorque: Touchstone

Dormir Com Lisboa

 

Fausta Pereira (2017).  Dormir Com Lisboa. Santiago de Compostela: Urco.

Este é um livro curioso. De autora portuguesa, publicado apenas na Galiza por ter sido vencedor de um concurso literário galaico, leva-nos a uma Lisboa de todos os dias que, repentinamente, parece revoltar-se com os seus habitantes e aqueles que por ela passeiam e passa-a a engoli-los, aleatoriamente. Buracos inesperados que se abrem nos pavimentos e devoram transeuntes insuspeitos.

Estará a cidade a revoltar-se contra os seus habitantes? Será um reflexo da descaracterização e transformação em parque temático provocado pelos excessos do aproveitamento turístico? Será o último grito da ideia que temos da cidade clássica face às transformações da modernidade? Políticos, militares e cientistas procuram explicações e soluções, mas não as encontram. A cidade fica em estado de sítio, só saem à rua os mais incautos ou corajosos, a qualquer momento, em qualquer rua ou beco, pode-se abrir um buraco devorador. Nada se sabe dos desaparecidos, que não deixam qualquer rasto. Enquanto se agudiza a confusão dos responsáveis políticos, a razão dos desaparecimentos vai-nos sendo revelada, envolvendo a encarnação de uma entidade que se assume como o grande arquitecto da cidade e que rapta temporariamente lisboetas para lhes ler os sonhos, interpretando-os em Lisboas que nunca existiram, ou que já existiram mas desapareceram. Encontrará aqui traços do que é a cidade, e para onde ela se poderá desenvolver.

É aqui que o livro falha um pouco. O foco centra-se muito nas discussões e decisões dos políticos que tutelam, os cientistas que investigam, e os militares que policiam. O retrato é bastante expectável, naquele registo de ironia fina que retrata a mesquinhez, pequenez e competência duvidosa que projetamos nestas personalidades. Muitas páginas com isso, e comparativamente poucas onde o livro consegue ser espantoso, nos retratos oníricos de uma Lisboa que poderia ter sido. É nesses momentos, retratados nos depoimentos dos desaparecidos que reapareceram tão misteriosamente como tinha desaparecido, que esta história ganha asas, força e envolve emocionalmente o leitor.

Lisboa é aqui revista num toque de realismo mágico, próximo do fantástico. Uma forma diferente, inesperada porque vinda de fora, apesar da escritora ser lisboeta, de imaginar a cidade de que tanto gostamos.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Comics


Batman #35: Toda uma edição dedicada a uma luta entre Catwoman e Thalia al'Ghul? Estamos a perceber o que fizeste, Tom King. Subtil, mas está lá, o cheesecake de uma catfight. Disfarçado debaixo do desenrolar da história, temperado com frases icónicas, mas essencialmente vinte e tal páginas de duas mulheres atraentes à porrada uma com a outra. Com espadas aguçadas, para dar mais intensidade à coisa.


The Wildstorm #09: O irresistível momento Warren Ellis. Só ele é que se atreveria a colocar uma raygun clássica de Buck Rogers dentro de uma série sobre agências super-secretas, alienígenas benevolentes, tecnologias no limiar do racional e uma luta entre forças, uma que domina na Terra e outra na sua órbita, em essência uma variante do alquímico em cima, tal como em baixo.

domingo, 19 de novembro de 2017

aCalopsia: SINtra


Sob a cobertura da noite, seres amaldiçoados percorrem o arvoredo em busca de vítimas inocentes, procurando alimento para os seus demónios. Uma das mais recentes edições da Escorpião Azul, SINtra leva-nos a descobrir os mistérios tenebrosos que se ocultam sob a floresta de uma serra mais conhecida pelo seu lado bucólico. Dos lançamentos mais recentes da Escorpião Azul, este SINtra surpreende. Com uma história bem contada, que agarra o leitor, e um grafismo marcante, bem desenvolvido, é uma das mais interessantes propostas de uma editora que está a dar voz aos novos talentos da banda desenhada portuguesa. Crítica completa no aCalopsia: SINtra.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Deadpool: O Mercenário Desbocado


Gerry Duggan, et al (2017). Marvel Coleção Especial #01 - Deadpool: O Mercenário Desbocado. Lisboa: Goody.

Não tendo visto o filme nem seguido atentamente a continuidade do universo Marvel, ainda não percebi em que se baseia a enorme popularidade de Deadpool. A irreverência e o tremendo humor negro em ambiguidade moral destacam-no do geralmente mais simples universo de ideias da Marvel. Não que nesta editora não abundem personagens moralmente ambíguos, mas são geralmente representados em tom grave e trágico. É essa a diferença que marca Deadpool, cuja irreverência é irresistível.

No entanto, é preciso mais do que um conjunto de boas piadas e uma personagem irreverente para contar uma boa história. É o que se sente nesta edição da Goody, que colige um arco narrativo da série numa edição especial. Não é uma aventura especialmente interessante, apesar dos bons momentos de humor, mas também não vem mal ao mundo por isso. Os comics são eminentemente de entretenimento, e isso é conseguido. Nem todas as leituras têm de ser clássicos instantâneos.

Já a iniciativa da Goody é interessante, apesar de me parecer algo saturadora de mercado. Depois da aposta no regresso dos comics infantis da Disney, agora cativa novos públicos e agrada aos fãs clássicos com edições Marvel. Sem prometer continuidades editoriais, optando pelo formato séries para trazer estes comics ao público português. Parece que está a resultar. Os Vingadores e Homem Aranha irão para segunda série e foram reforçados com esta coleção especial.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

aCalopsia: O Rio Salgado

 
Uma das novidades editoriais da Polvo apresentadas no Amadora BD, O Rio Salgado de Jan Bauer surpreende pelo seu rigor estético e plasticidade do grafismo. Em O Rio Salgado, uma caminhada no remoto deserto australiano é o palco de um amor condenado, com a omnipresente paisagem a captar o olhar do leitor. “Outras histórias são verdadeiras, isso quer dizer que foi a vida a escrevê-las” é talvez a frase que melhor explica este livro. Junto com a assombrosa ilustração paisagística, forma uma muito interessante proposta de leitura. Crítica completa no aCalopsia: O Rio Salgado de Jan Bauer.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Cassini Huygens A Probe to Titan Eric Pailharey, Fred Vignaux


Eric Pailharey, Fred Vignaux (2004). Cassini Huygens A Probe to Titan. Noordwijk: ESA ESTEC.

Esta publicação da ESA é um típico exemplo de banda desenhada pedagógica, essencialmente um longo infodump sobre ciência, exploração espacial e a missão Cassini/Huygens. Visualmente não se afasta do estilo de bd ilustrativa, com toques de cartoon. Está apropriada ao seu público-alvo, apesar de não ser especialmente cativante. Há outras formas de contar a história da exploração espacial em bd que funcionam melhor.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Comics


Injection #15: A piada whoviana é um aceno ao fim deste arco narrativo da série de Warren Ellis. Para lá do futurismo decadente do autor, Injection é também uma homenagem intertextual sua aos personagens icónicos da cultura pop britânica. Neste arco, claramente, o visado é Doctor Who.



Port of Earth #01: Histórias de FC com primeiro contacto com alienígenas seguem habitualmente dois caminhos, o da benevolência ou da tirania de civilizações superiores, com consequências para a nossa. Mas e se os alienígenas se estiverem nas tintas? Trees, de Warren Ellis, explora isso num campo abstrato. Este Port of Earth segue outro caminho. Os extra-terrestres estão apenas interessados na Terra como ponto de passagem, e o seu porto estelar é, essencialmente, uma estação de serviço num rochedo remoto povoado por indígenas sub-desenvolvidos.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

aCalopsia: Ermal


Um dos novos títulos do alinhamento editorial da Escorpião Azul, Ermal de Miguel Santos leva-nos a um retro-futurismo pós-apocalíptico. Partindo de um conceito interessante e bem desenvolvido, envolve-nos numa história cativante, que só teria a beneficiar com um aprimoramento do trabalho gráfico. Crítica no aCalopsia: Ermal, de Miguel Santos.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Valérian #12



Pierre Christin, Jean-Claude Mézières (2017). Recordações de Futuros. Lisboa: ASA.

Um saudável epílogo, essencialmente uma longa recordação, com Christin e Mézières a revisitar os momentos marcantes da sua série. Regressamos às origens, conhecendo Laureline antes de se cruzar com Valérian, recordamos momentos de aventuras como O Império dos Mil Planetas, Estação de Brooklyn-Terminal Cosmos, O Embaixador das Sombras, entre outros momentos da série. Com um toque de nostalgia, num forte tom de reminiscência, focando o aventureirismo de Valérian e a enorme presença e caráter de Laureline, que à época quebrou os estereótipos da representação feminina nos domínios da BD e Ficção Científica. Uma última vénia após o cair da cortina, onde Mézières nos deslumbra por uma última vez com o exotismo das suas visões de futuros imaginários.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Valérian #11

 

Pierre Christin, Jean-Claude Mézières (2017). A Ordem das Pedras/O AbreTempo. Lisboa: ASA.

A Ordem das Pedras: Valérian e Laureline juntaram-se a um grupo de aventureiros, liderados por uma capitã destemida, para explorar o grande nada, o espaço desconhecido nos limites do universo. Suspeitam que as pistas para o seu futuro desaparecido estejam lá. A visita à zona misteriosa revela uma estranha civilização, que se manifesta através de monólitos destrutivos, e uma conspiração por parte dos líderes do planeta mais próximo do grande nada para usar os exploradores como forma de encontrar riquezas no espaço protegido pelos misteriosos monólitos. Mas a resposta aos anseios de Valérian e Laureline encontra-se num artefacto guardado pelos nativos de uma tribo de indesejados que habita o último planeta antes do vazio, uma jóia capaz de modificar o espaço e o tempo. Originalmente publicado em 2007.

O AbreTempo: Os monólitos vindos do grande nada invadem o espaço conhecido, atacando indiscriminadamente todas as civilizações que encontram pela frente. Nos escombros e na confusão, combinam-se as forças dos descontentes com a ordem tradicional do universo, que se aproveitam da invasão para conquistar o poder. Todo o universo está em perigo, e só uma coligação que reunirá personagens vindos de todas as aventuras dos agentes espácio-temporais poderá travar esta ameaça. Não através do confronto directo, mas ativando o artefacto AbreTempo para travar de vez os invasores. E, no processo, libertar a Terra futura do seu aprisionamento no grande nada. Terminada esta aventura, Christin e Mézières fecham o ciclo da série e suas personagens. Valérian e Laureline recuperam o seu futuro, a sua Galaxity, mas percebem que as suas aventuras os modificaram e já não se adaptam à vida estéril da sociedade futurista, tão ensimesmada que aparentemente nem deu conta de ter estado desaparecida do universo. Encontrarão um curioso aliado em Xombul, o renegado cujas manipulações dão origem a toda a série, o único que se apercebe do que realmente se passou. Este envia-os ao passado, nosso presente, era em que sempre se sentiram bem, mas o processo tem uma estranha consequência: Valérian e Laureline regressam à condição de crianças, sem quaisquer memórias do seu passado. É um novo futuro que se abre, sob tutela dos representantes de Galaxity no presente, cujo papel ao longo da série foi fundamental para as aventuras dos agentes espácio-temporais. Num curioso pormenor, no final do livro, um destes revela que as aventuras dos agentes inspiraram uma série de banda desenhada no mundo ficcional da série. Consequências da manipulação dos fluxos temporais. Originalmente publicado em 2010.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

aCalopsia: Junji Ito, a Voz do Terror.

 
Um dos grandes mestres do mangá de terror, Junji Ito parece ser completamente desconhecido por cá. A crescente edição de banda desenhada japonesa em português está muito focada para públicos juvenis, e as direcionadas para leitores mais conhecedores apostam de forma conservadora em autores clássicos, dentro de gostos mainstream, muito próximos dos europeus. O natural amadurecimento do mercado poderá ser uma oportunidade para trazer aos leitores portugueses autores de autores que trilham de forma brilhante caminhos menos convencionais. A explorar prateleiras em livrarias madrilenas especializadas em banda desenhada, descobri que a editora catalã ECC Ediciones está a editar a obra completa de Ito numa coleção específica. Crítica a Frankenstein, Relatos Terroríficos e Voces en Oscuridad no aCalopsia: Junji Ito, A Voz do Terror.

Comics


Batman #34: Batman vai casar-se, e precisa de ilibar a noiva de um crime que lhe valeu a pena capital. A única forma de o fazer é convencer uma ex-namorada a deixar que a verdade venha ao de cima. Algo complicado quando a ex em questão é Thalia al Ghul. Talvez com espadas a coisa se resolva. Mais uma edição de ação gráfica em ritmo imparável, concebida por Tom King.


The Jetsons #01: Quando a DC anunciou o reboot aos personagens clássicos da Hanna Barbera, deixou logo claro que não ia seguir o caminho de renovação nas continuidades. Wacky Races seguiu um caminho de clonagem de Mad Max versão grand guignol, Dastardly and Muttley foi entregue a Garth Ennis e ao seu humor bizarro sem limites. Jimmy Palmiotti pegou nos Jetsons, mostrando a distopia que reside sob o brilhantismo polido das utopias. Neste reboot, é-nos revelada a origem do futuro airoso da série: um mundo em colapso ambiental, que combinado com o impacto de um asteróide fez subir o nível das águas e afundou as cidades. Um punhado de sobreviventes que se refugia em órbita, deixando para trás milhões de infelizes condenados na superfície planetária. Uma catástrofe que acaba por ser uma boa forma de resolver o problema económico trazido pela automação e inteligência artificial, que tornaria redundante a existência daqueles milhões no futuro utópico. É o que está em evidência logo na primeira tira da segunda prancha, com o patrão de George Jetson a obrigá-lo a fazer horas extraordinárias, ameaçando despedi-lo e passar a usar um robot, enquanto mostra estar demasiado bem informado sobre os pormenores da vida pessoal do seu empregado. Uma vinheta que para mim, apresentou logo o tom da série.

sábado, 4 de novembro de 2017

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Karnak: The Flaw in All Things


Warren Ellis, Gerardo Zaffino (2017). Karnak: The Flaw in All Things. Nova Iorque: Marvel Comics.

Na sua newsletter semanal, Warren Ellis confessou várias vezes a dificuldade que sentiu ao escrever esta série. Não por ser especialmente complexa, mas porque Karnak, a sua personagem principal, era muito perturbadora. Um inumano poupado aos efeitos da névoa que lhes confere poderes, Karnak dedicou-se ao estudo e meditação, atingindo pela persistência aquilo que lhe foi negado. A sua capacidade analítica permite-lhe perceber as falhas em tudo, algo que não hesita em utilizar com extremo prejuízo. Contactado pela SHIELD para salvar um jovem aparentemente raptado por um culto, descobre que este, também inumano, tem a capacidade de conceder as aspirações mais profundas aos seus seguidores. Karnak trava-o com prejuízo tão extremo que até os mais duros dos agentes da SHIELD consideram as suas ações revoltantes. Ação de alto ritmo e filosofia implacável como só Warren Ellis consegue escrever.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Valérian #10


Pierre Christin, Jean-Claude Mézières (2017). Tempos Incertos/Nas Imediações do Grande Nada. Lisboa: ASA.

Tempos Incertos: Enquanto Valérian sente uma imensa nostalgia sobre a perda do seu futuro, que Laureline combate com o seu eterno optimismo, a Terra encontra-se sobre ameaça. Os seus donos, os capitalistas de Hypsis que assumem o papel de deuses das civilizações que exploram economicamente, sentem-se próximos da ruína por serem detentores de um sistema solar atrasado e inútil, se comparado com os dos seus vizinhos. Para evitar a falência, decidem ser mais interventivos e controlar diretamente os humanos através de uma multinacional terrestre. O plano complica-se pela intervenção de um outro habitante de Hypsis, um refugiado económico que depois de perder tudo é condenado ao submundo da civilização, uma espécie de inferno. O colapso entre estas duas forças é travado pelos antigos agentes espácio-temporais, que no processo ficam a saber que talvez o desaparecimento da sua Terra do futuro talvez não tenha sido absoluto. Um registo mais de humor de Christin, com Mézières a fazer algumas experiências gráficas com o que se nota serem imagens de síntese, obtidas no computador, embora seja o seu traço que nos dá o grosso da obra.  Originalmente publicado em 2001.


Nas Imediações do Grande Nada: Valérian e Laureline viajam até às fronteiras do universo. Com o subterfúgio de serem mercadores, frequentam as zonas quase sem lei dos planetas que estão próximos do vazio. Buscam informação, sobre o destino da sua Terra, que talvez não esteja desaparecida como pensam. A chave do mistério está no Grande Nada, e após algumas peripécias os heróis conseguem embarcar numa expedição a este território misterioso. Originalmente publicado em 2004.

aCalopsia: Apocryphus #02


Adotando o crime como tema estruturante, o segundo volume da Apocryphus mantém o nível de qualidade gráfica e técnica que mostrou desde o primeiro momento, assumindo-se como uma edição independente de banda desenhada portuguesa de excelência. Recensão completa no aCalopsia: Apocryphus Volume Dois.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Aztek: The Ultimate Man



Grant Morrison, Mark Millar (2008). Aztek: The Ultimate Man. Nova Iorque: DC Comics.

Grant Morrison encarrega-se do lado weird, Mark Millar da acção cinética. Mesmo com estes talentos, Aztek não passa da tentativa da DC de criar um novo personagem na sua continuidade. Algo que a editora vai fazendo, ainda hoje, testando as águas com novos heróis que após uma série de oito a dez edições regressam ao baú, com aparições fugazes posteriores.

Aztek é o agente de uma sociedade secreta andina, herdeiro do capacete de Quetazlcoatl, um artefacto que lhe concede poderes através de um fato nanotecnológico. No dia a dia assume o papel de um médico falecido. Apesar de bem treinado, Aztek é bastante inepto na forma como combate o crime. A sua inocência torna-o um alvo fácil para armadilhas. Talvez  a maior seja a montada por Lex Luthor: manipular os combates do herói, fazendo-o parecer válido e conseguir colocá-lo na Liga da Justiça. Apesar de todo o seu poder, Aztek não se apercebe da manipulação.

Apesar dos talentos por detrás da série, esta é deveras desinteressante, banal produto de linha da DC nos anos 90.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Comics


2000 AD Presents Scream and Misty: Nada como edições especiais para manter direitos de autor sobre propriedade intelectual esquecida nas prateleiras. Nesta edição, a 2000AD recupera brevemente personagens clássicos da BD britânica dos anos 70 e 80, deixando no ar a promessa de novas aventuras nas páginas da revista. Estas edições valem pelo revivalismo, trazendo brevemente para o público personagens que caracterizaram outras épocas dos comics.


Silver Surfer #14: O epílogo final ao longo arco narrativo de um personagem revisto fora dos moldes habituais dos comics. Simplicidade foi o grande lema desta história do Surfista, apaixonado pela terrestre Dawn, apesar de o ter levado em aventuras de space opera cósmica. Um herói humanizado, longe das tramas entretecidas da continuidade da Marvel com os seus dramas e grimdark, destilado na sua essência. O grafismo retro dos Allred sublinhou esta espécie de regresso à essência de Silver Surfer.

domingo, 29 de outubro de 2017

aCalopsia: Festival Bang!


Não pareceu bom augúrio chegar a uma entrada do Pavilhão Carlos Lopes e vê-la quase vazia. Estaria a primeira edição do Festival Bang! condenada ao fracasso? Ou teria chegado demasiado cedo e o grosso dos visitantes ainda estaria para vir? Entrar dentro do espaço do festival dissipou as dúvidas. Não havia multidões, mas sentiu-se que os fãs do fantástico aderiram bem a esta nova iniciativa no panorama das culturas de género em Portugal. Registo deste primeiro Festival Bang! no aCalopsia.

Algumas notas, que não faziam sentido no âmbito do aCalopsia:
- Muito bizarro ver a organização da Associação de Cosplay sublinhar tanto o aspeto pedagógico e intergeracional do cosplay. Todo aquele discurso sobre aquisição de competências e integração da juventude pareceu-me um pouco pateta e muito redutor do potencial cultural do cosplay. Se calhar reajo assim por ser professor, e estar demasiado calejado por discursos similares que tentam convencer o público generalista da importância das artes não pelas suas qualidades intrínsecas mas por serem pedagógicas ou educacionais. Um argumento que é incrivelmente redutor. É trauma, eu sei, desde que sou adolescente que ouço falar da extrema importância de Astérix porque ensina os meninos sobre os romanos, enquanto tudo o resto da BD é desconsiderado. Trinta anos depois, tenho a mesmíssima discussão com os meus colegas de trabalho. A velha conversa do ah, sim, banda desenhada, o Astérix sim por causa dos romanos, já o resto... (troquem BD por Ficção Científica, Fantasia, transreal, gaming, artes em geral, que o argumento é o mesmo). O que me intriga no cosplay é o seu potencial expressivo e cultural, uma celebração de fãs que encarnam as suas personagens favoritas. Felizmente, as cosplayers presentes sublinharam pela sua atitude essa dimensão de paixão pela cultura.
- Hey, ter os brains picked pelo André Silva sobre The Orville e Star Trek Discovery made my day. Ambas são séries controversas, Discovery pelo sentido negro que dá ao universo Star Trek (fico com a sensação que a mensagem que transmitem é que se queremos ter um paraíso utópico no futuro, temos de ter uns cabrões sem escrúpulos que derrubem tudo à frente para o construir), The Orville pela forma como nos faz redescobrir quer Star Trek quer o lado optimista da Ficção Científica clássica. The Orville interessa especialmente pela forma como amadurece de episódio em episódio, sem perder a vertente comédia e mantendo-se como vénia honrosa a Star Trek.
- Não é boa notícia saber que a tertúlia Sustos às Sextas entrou em hiato, por sobrecarga dos organizadores. Felizmente, o António Monteiro decidiu manter viva a chama com uma newsletter regular, também chamada Sustos às Sextas, cujo primeiro número está para breve. Funciona através do email, e enviará regularmente à lista de assinantes uma publicação com notas de lançamentos, críticas e artigos sobre terror. Infelizmente, ficam de fora os deliciosos morcegos de gengibre.

sábado, 28 de outubro de 2017

Mecanismos





  

Exposição Nós e os Robots, Os Robots e Nós no Pavilhão do Conhecimento, salto ferroviário a Torres Vedras e um crepúsculo na auto-estrada.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Comics: Wolverine: Old Man Logan; Vision: Director's Cut #03

 


Mark Millar, Steve McNiven (2009). Wolverine: Old Man Logan. Nova Iorque: Marvel Comics.

Num mundo sem heróis, exterminados pela união de todos os seus inimigos, Wolverine tenta sobreviver, quebrado e sem qualquer desejo de violência, mesmo perante as piores injustiças. Algo que não falta num mundo dividido em feudos dominados pelos piores vilões. A necessidade de ganhar dinheiro extra para garantir a sobrevivência da sua família leva-o a juntar-se a Hawkeye, convertido em traficante do submundo. Atravessa uma América distópica, numa progressiva espiral de violência sem redenção possível.
 


Tom King, Gabriel Walta (2017). Vision: Director's Cut #03. Nova Iorque: Marvel Comics.
 
Na sua busca pela criação de um simulacro de humanidade, o andróide dá sinais de profunda desumanidade. Construiu, literalmente, uma família para si, dotando-os de vontade própria, e equilibra a sua vida de super-herói com a existência banal de homem suburbano. A coisa não funciona, e a intensidade da busca pela tranquilidade pequeno-burguesa ameaça uma normalidade que se sustenta cada vez mais em pequenas atrocidades.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Planetary



Warren Ellis, John Cassaday (2017). Planetary Book One. Nova Iorque: DC Comics.

Os comics enquanto género de banda desenhada têm uma forte vertente de auto-referênciação, com citações constantes das suas personagens icónicas e acenos aos fãs com pormenores das linhas narrativas que remetem para outras histórias. No seu mais banal, isso nota-se nos obrigatórios crossovers de verão, os mega-eventos com que as editoras major de comics tentam convencer os fãs a comprar o máximo número de títulos para saber todos os pormenores de uma história que se espraia entre revistas e personagens. No seu melhor, temos livros ou arcos narrativos de séries que contando a sua história, entretecem uma teia sólida que vai buscar elementos e iconografia da continuidade histórica do género.

Algo que Alan Moore tornou visível com The League of Extraordinary Gentleman, pilhando de forma enciclopédia a literatura fantástica dos séculos XIX e XX, entre o policial, romance de aventuras, terror e ficção científica. Vertente que Jeff Lemire explora contemporaneamente em Black Hammer, de forma mais limitativa porque constrangido ao género super-heróis. É, também, um filão muito explorado hoje no cinema e séries televisivas, capitalizando nos mercados de nostalgia para nos oferecer histórias que fundamentalmente não trazem nada de novo, mas encantam audiências pelas constantes referências narrativas e iconográficas a outros filmes, séries televisivas, livros, jogos de computador e outros detritos da cultura popular passada dourados pela memória.

Em Planetary, Warren Ellis segue as passadas de Moore com a sua League, embora invertendo as premissas. Não seguimos heróis do passado nas suas aventuras, acompanhamos agentes-sombra de uma organização secreta e de recursos ilimitados que investiga acontecimentos estranhos. O mandato da organização é investigar a história secreta do mundo, funcionando como auto-proclamados arqueólogos do impossível. Essencialmente, uma boa desculpa para Ellis fazer divertidos pastiches, indo buscar personagens e elementos narrativos a boa parte da cultura popular. Leva-nos a uma ilha japonesa cheia dos cadáveres gargantuescos de kaijus, distorce as histórias de origem de super-heróis icónicos transformando-os ou em vilões com vontade de dominar o mundo, ou em vítimas capturadas e aniquiladas para vivissecação, recupera os antigos heróis pulp para um passado em que computadores analógicos mostraram a estrutura do multiverso, brinca com teorias da conspiração, exploração espacial secreta ou jogos de espionagem.

Ellis não é especialmente discreto com os seus personagens, embora não os referencie diretamente. Temos um homem de bronze que não se chama Doc Savage, ou um milionário justiceiro que se oculta por detrás de um chapéu, capa e máscara que não é The Shadow. Os quatro astronautas secretos que ganham poderes e se tornam mais do que humanos numa missão translunar não são denominados Quarteto Fantástico, a criança enviada num foguetão vindo de um planeta que explode, o polícia galáctico com a sua lanterna e a guerreira vinda de uma ilha grega que se manteve secreta não são chamados de Super-Homem, Green Lantern e Wonder Woman. O super-espião que está envolvido nos segredos conspiratórios globais tem traços de Nick Fury e James Bond. Na ilha isolada onde apodrecem carcaças de monstros gigantes não há godzillas e mohtras, apesar dos vestígios putrefactos de lagartos radioactivos gigantes. Até John Constantine faz uma aparição, no seu próprio funeral com a cerimónia cheia de caricaturas dos heróis do comic de terror Swamp Thing dos anos 80. Mas estas não são referências directas, Ellis distorce estes elementos iconográficos para tecer a sua história, onde uma tríade de operacionais especiais se esforça por revelar, camada a camada, as histórias secretas do mundo.

Não por acaso, Planetary é um dos melhores trabalhos de Ellis. Os seus temas habituais de futurismo descarrilado e personalidades psicóticas que modelam o mundo à sua imagem são aqui complementados pela enorme vénia à literatura pulp, filmes de série B e comics. Também não por acaso esta série surgiu no final do século XX, uma forma de digerir o vasto legado ficcional do velho século em preparação para as possibilidades do novo século.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Comics


2000AD #2053: Esta edição traz o regresso do horror sarcástico de Absalom, o inspector da Scotland Yard encarregue de investigar crimes ligados ao oculto. Gordon Rennie tem conseguido equilibrar muito bem terror e policial nesta série, com linhas narrativas de combate aberto entre sociedades secretas e o estranho mistério de um detetive canceroso mas aparentemente imortal.

Kid Lobotomy #01: Definitivamente o comic mais weird da semana. Pete Milligan anda à solta na IDW com esta história sobre curas pouco convencionais para doenças psiquiátricas extremas. O nível de bizarria no arranque, com um jovem lobotomizador a padecer de estranhas paranóias e uma fixação incestuosa pela irmã a tomar conta de um hotel muito especial onde a empregada de quartos é capaz de mudar a forma do seu corpo, um velho hoteleiro a querer deixar o seu legado aos jovens, uma filha que quer ver o irmão falhar, e os pacientes sofredores de maleitas psíquicas bizarras que o hotel acolhe. Esta promete ser uma daquelas séries que ultrapassa os limites dos comics à força de bisturi mal afiado.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Valérian #09




Pierre Christin, Jean-Claude Mézières (2017). Coleção Valérian #09: Reféns do Ultralum/O Órfão dos Astros. Lisboa: ASA.

Reféns do Ultralum - com os problemas financeiros resolvidos na última aventura, Valérian e Laureline resignam-se a uma vida de luxo. Algo a que ela se adapta bem, mas o lendário agente de um futuro que já não existe precisa de desafios. Um cruzeiro luxuoso que frequentam é atacado por mercenários, que raptam o herdeiro de um nababo do espaço. Na confusão, Laureline é arrastada pelos raptores, acabado envolvida como vítima. Um desolado Valérian encontra uma relutante aliada na pessoa de uma alienígena magoada pelo outro agente sobrevivente de Galaxity, numa linha narrativa que acabará no perdão e reunião deste estranho casal na grande estação do Ponto Central. Entretanto, o nababo anuncia uma recompensa imensa para quem salvar o seu filho. Pode fazê-lo, pois é o dono e senhor da civilização que tem acesso aos depósitos de ultralum, a substância que alimenta os motores das naves que sulcam o espaço intergaláctico. É essa a razão do rapto, orquestrado por um grupo de operários de extração da substância, fartos das condições esclavagistas em que vivem.  A visão crítica sobre a indústria petrolífera e suas consequências sociais, geo-políticas e ambientais é óbvia. Originalmente publicado em 1996.

O Órfão dos Astros - No seguimento da aventura anterior, Valérian e Laureline estão a braços com o filho do nababo, já não raptado mas a querer acompanhá-los nas aventuras. O que causa alguns problemas. Primeiro, o pai quer o herdeiro de volta ao seu palácio, e contratou para isso os mercenários que originalmente o raptaram, que dão caça aos aventureiros pela galáxia. Depois, a criança é um bocadinho irritante, pouco educada, petulante e demasiado habituada aos mimos de ser herdeiro do líder supremo de uma civilização milionária. Vai ter de ir para a escola, apesar dos esforços dos seus captores para o recuperar a Valérian. A aventura leva-os a uma espécie de imenso subúrbio, composto por asteróides próximos entre si, cada um a vivenda dos mais exóticos novos-ricos da galáxia, e vai passar por uma experiência de Laureline como atriz de telenovelas. Originalmente publicado em 1998.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Normal


Warren Ellis (2017). Normal. Lisboa: TopSeller.

Como é que se penetra num local impenetrável? Normal é um porto de abrigo, asilo para futuristas profissionais mentalmente afetados pelos seus estudos sobre hipóteses de futuro. Olhar para o mundo, para os sistemas que o compõem, as colisões entre tecnologia de ponta e sociedade contemporânea, é olhar para o abismo. E quando olhamos para o abismo, o abismo pode olhar para dentro de nós e fulminar-nos. Normal é o local onde os futuristas demasiado danificados para funcionar em sociedade vão para recuperar, um hospício para loucura induzida por exposição às franjas radicais da especulação. Um local isolado, penetrado graças a um enxame de nano-drones que assume forma humana para vigiar as mentes especulatórias dos futuristas em recuperação. Um voo curto de Warren Ellis, talvez a exorcizar as suas experiências como conferencista em festivais de cultura radical contemporânea e futurista.