quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Valérian #09




Pierre Christin, Jean-Claude Mézières (2017). Coleção Valérian #09: Reféns do Ultralum/O Órfão dos Astros. Lisboa: ASA.

Reféns do Ultralum - com os problemas financeiros resolvidos na última aventura, Valérian e Laureline resignam-se a uma vida de luxo. Algo a que ela se adapta bem, mas o lendário agente de um futuro que já não existe precisa de desafios. Um cruzeiro luxuoso que frequentam é atacado por mercenários, que raptam o herdeiro de um nababo do espaço. Na confusão, Laureline é arrastada pelos raptores, acabado envolvida como vítima. Um desolado Valérian encontra uma relutante aliada na pessoa de uma alienígena magoada pelo outro agente sobrevivente de Galaxity, numa linha narrativa que acabará no perdão e reunião deste estranho casal na grande estação do Ponto Central. Entretanto, o nababo anuncia uma recompensa imensa para quem salvar o seu filho. Pode fazê-lo, pois é o dono e senhor da civilização que tem acesso aos depósitos de ultralum, a substância que alimenta os motores das naves que sulcam o espaço intergaláctico. É essa a razão do rapto, orquestrado por um grupo de operários de extração da substância, fartos das condições esclavagistas em que vivem.  A visão crítica sobre a indústria petrolífera e suas consequências sociais, geo-políticas e ambientais é óbvia. Originalmente publicado em 1996.

O Órfão dos Astros - No seguimento da aventura anterior, Valérian e Laureline estão a braços com o filho do nababo, já não raptado mas a querer acompanhá-los nas aventuras. O que causa alguns problemas. Primeiro, o pai quer o herdeiro de volta ao seu palácio, e contratou para isso os mercenários que originalmente o raptaram, que dão caça aos aventureiros pela galáxia. Depois, a criança é um bocadinho irritante, pouco educada, petulante e demasiado habituada aos mimos de ser herdeiro do líder supremo de uma civilização milionária. Vai ter de ir para a escola, apesar dos esforços dos seus captores para o recuperar a Valérian. A aventura leva-os a uma espécie de imenso subúrbio, composto por asteróides próximos entre si, cada um a vivenda dos mais exóticos novos-ricos da galáxia, e vai passar por uma experiência de Laureline como atriz de telenovelas. Originalmente publicado em 1998.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Normal


Warren Ellis (2017). Normal. Lisboa: TopSeller.

Como é que se penetra num local impenetrável? Normal é um porto de abrigo, asilo para futuristas profissionais mentalmente afetados pelos seus estudos sobre hipóteses de futuro. Olhar para o mundo, para os sistemas que o compõem, as colisões entre tecnologia de ponta e sociedade contemporânea, é olhar para o abismo. E quando olhamos para o abismo, o abismo pode olhar para dentro de nós e fulminar-nos. Normal é o local onde os futuristas demasiado danificados para funcionar em sociedade vão para recuperar, um hospício para loucura induzida por exposição às franjas radicais da especulação. Um local isolado, penetrado graças a um enxame de nano-drones que assume forma humana para vigiar as mentes especulatórias dos futuristas em recuperação. Um voo curto de Warren Ellis, talvez a exorcizar as suas experiências como conferencista em festivais de cultura radical contemporânea e futurista.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Comics


God Complex #01: uma intrigante revisão das plutocracias digitais de hoje, dos líderes das stacks da e-economia, revistos neste comic como semi-deuses cuja ligação com a tecnologia os tornou algo mais que humanos.


Time & Vine #03: E se para viajar no tempo não fossem necessárias maquinarias complicadas, apenas um bom vinho e o local certo? É essa a premissa deste simpático comic, onde uma jovem professora com uma mãe a decair com doença de Alzheimer se cruza com o proprietário de uma vinha, cuja produção tem uma propriedade especial: permite que, ao saborear um copo de vinho tinto, se dê um salto ao passado.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Valérian #08


Pierre Christin, Jean-Claude Mézières (2017). Valérian Volume 8. Lisboa: ASA.

As Armas Vivas: Com Galaxity desaparecida, Valérian e Laureline recorrem a todos os expedientes para sobreviver. É por isto que se encontram num planeta desolado, mergulhados no meio de uma espécie dedicada à brutalidade da guerra, com Valérian a traficar um espécime alienígena capaz de ser usado como arma. Pelo caminho, envolvem-se com uma trupe de actores com capacidades especiais. Todos serão usados como arma suprema pelo líder de uma das tribos indígenas do planeta, mas Valérian não está pelos ajustes e encontra forma de os transportar à terra, onde conhecem o sucesso como trupe de circo na Rússia. Um forte toque de humor histriónico neste episódio, originalmente publicado em 1990.

Os Círculos do Poder: De volta ao espaço, os intrépidos agentes vêem-se sem dinheiro para pagar as necessárias reparações na sua nave. Encalhados num planeta, são convencidos pelos eternos negociantes Shingouz a colocarem-se ao serviço das autoridades locais, em busca do verdadeiro poder no planeta. Depressa descobrem que as elites aristocráticas e religiosas que, ostensivamente, detém o poder planetário são de facto ocas e incapazes de pensar, dominadas pelo espectro induzido por uma manipulação eletrónica. Na confusão que se segue, o planeta mergulha numa guerra civil pelo controle do poder. Pelo menos, Valérian, Laureline e os Shingouz escapam com uma fortuna no bolso. Um álbum com um trabalho gráfico fabuloso de Mézières, à solta no desenho de cidades futuristas. Originalmente publicado em 1994.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Valérian #07



Pierre Christin, Jean-Claude Meziéres (2017). Valérian Volume 7. Lisboa: Asa.


A Ira de Hypsis: Continuando o enredo de Os Espectros de Inverloch, Valérian, Laureline e a curiosa aliança entre um alienígena capturado, o presidente de Galaxity, os shingouz, um agente francês da cidade do futuro e o diretor dos serviços secretos britânicos investiga a estranha conspiração dos agentes de Hypsis, que ameaça o futuro da Terra. Estes agentes estão apostados em disseminar ogivas nucleares no planeta, provocando uma catástrofe que aniquile a vida. Uma arriscada perseguição pelo espaço leva-os a Hypsis, onde encontram o inesperado. Se a sensação é que o planeta albergaria uma misteriosa e poderosa civilização que quer atingir a supremacia sobre Galaxity, na verdade o planeta é um entreposto comercial, e os comerciantes que cultivam a Terra querem destruí-la porque recebem queixas dos seus colegas mais prósperos. Estes comerciantes são uma óbvia caricatura da santíssima trindade da mitologia cristã. Um acordo é alcançado, em que os de Hypsis aceitam preservar a Terra, mas há um preço a pagar. Galaxity nasceu de um cataclisma nuclear que atingiu o planeta nos anos 80, e se esse evento não aconteceu, a cidade do futuro desvanece-se sem deixar memória. Um futuro que desaparece ao salvar o presente, deixando os agentes espácio-temporais encalhados no seu passado. Originalmente publicado em 1985.

A Grande Fronteira: Valérian e Laureline não são os únicos vestígios do futuro desaparecido de Galaxity. Há um outro agente, salvo por circunstâncias misteriosas, que regressa a Terra determinado a mudar o destino. Apropria-se dos poderes das criaturas mais poderosas do universo e, regressado, usa-os para tentar provocar um novo cataclisma nuclear que permita à história regressar ao seu curso normal. A intervenção dos agentes espácio-temporais, agora mercenários ao serviço de entidades terrestres, trava a conspiração. Com pena deste seu colega, também ele sobrevivente de um futuro desaparecido, levam-no ao futuro, à enorme estação espacial do ponto central, onde o deixam num vestígio arquitetónico do que foi a presença da Terra no espaço. Originalmente publicado em 1988.

Cold and grey.















Fugazes fugas para a cidade de Leiden, nos raros tempos livres do ESA Autumn Teachers Workshop.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Batman Unwrapped: RIP



Grant Morrison, Tony Daniel (2015). Batman Unwrapped: RIP. Nova Iorque: DC Comics.

Um psicólogo que sabe o segredo da sua identidade secreta e lidera um grupo oculto que entretém super-milionários em busca de prazeres proibidos, talvez seja o inimigo imbatível de Batman. Com Gotham sob assalto de super-criminosos vindos de todo o mundo, os Robins neutralizados, Alfred e a Mansão Wayne capturados, Batman perde-se dentro da sua mente, destroçado por ilusões paranóicas induzidas. Será o seu fim? Bruce Wayne sempre se tentou preparar para tudo, e uma ameaça destas não é exceção. Sabendo-se vulnerável a ameaçar psicológicas, preparou uma personalidade secundária capaz de tomar conta de Batman quando a sua personalidade se encontrar ameaçada. Um Batman insano, auxiliado pelos heróis internacionais que nele se inspiraram (vindos da série Batman Incorporated de Grant Morrison), irá inevitavelmente derrotar esta ameaça, com extremo prejuízo. Esta edição é especialmente despojada, focando apenas o trabalho narrativo de Grant Morrison e o lápis do ilustrador Tony Daniel, sem arte final ou cores.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Dylan Dog: ...e cenere tornerai; Gli abbandonati


Paola Barbato, Raul Cestaro, Gianluca Cestaro (2015). Dylan Dog #346: ...e cenere tornerai. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Ser investigador do oculto não é uma ocupação que traga prosperidade a Dylan Dog. Perante a iminente perda da sua casa, Dylan mergulha numa espiral depressiva, alienando todos os seus companheiros. Pior, começa a ter alucinações, caindo no mundo dos sem abrigo, espaço que vê de f0rma fluída com lentes de pesadelo. Transtornado, perde a perceção do mundo real e sente-se ameaçado por criaturas de mundos fantásticos e alternativos.


Paola Barbato, Giampiero Casertano (2015). Dylan Dog #347: Gli abbandonati. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma vila, engolida pelo crescimento desmesurado de um aeroporto, guarda um tenebroso segredo. Quem passa perto das casas abandonadas, corre o risco de desaparecer sem deixar rasto. Dylan, sem dinheiro e com o carro avariado, aceita investigar o desaparecimento de uma mulher e junto com o seu amigo e ex-inspector Bloch dirigem-se à vila perdida. O que os espera é um cenário de pesadelo: uma vila viva, que se alimenta daqueles que a habitam, que por estar abandonada rapta e aprisiona os incautos que dela se aproximam. Só o ritmo ensurdecedor dos aviões que aterram no aeroporto é capaz de travar os grilhões desta criatura  que tomou a forma de uma cidadezinha inglesa.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Dylan Dog: Il cuore degli uomini; Nel fumo della battaglia; Gli spiriti custodi.



Roberto Recchioni, Piero Dall'Agnol (2015).  Dylan Dog #342: Il cuore degli uomini. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma das características de Dylan é o seu constante envolvimento com diferentes mulheres, boa parte das quais perde de forma trágica. Apesar desta propensão para os amores, Dylan não é um D. Juan, sempre em busca de conquistas. As mulheres caem-lhe nos braços como as suas aventuras sobrenaturais, ou melhor, com. E Dylan apaixona-se facilmente. Mas desta vez as coisas correm mal. O final banal de uma paixão não corre como o esperado quando a jovem que Dylan deixou de amar tem um pai que foi agente secreto e decide raptar o investigador para o torturar e confessar que nunca amou a sua filha. As coisas pioram quando a rapariga se revela obcecada por Dylan, matando o pai e indo numa acção full misery (se leram o romance de Stephen King percebem) sobre ele. Dylan será salvo por Groucho, que não descansou enquanto não encontrou o patrão. Pormenor arrepiante: Groucho não diz uma única piada enquanto não reencontra Dylan. É a única história do Old Boy que li em que este personagem é tratado como algo mais do que comic relief. A ilustração é interessante, em traço de expressividade plástico, ao invés do habitual realismo dos ilustradores que trabalham para a Bonelli.


Gigi Simeoni, Angelo Stano (2015).  Dylan Dog #343: Nel fumo della battaglia. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

A morte misteriosa de uma criança que sofre de síndrome de asperger desperta uma sequência de eventos misteriosos. A sua mãe recebe inúmeras mensagens via redes sociais que se apercebe serem do filho morto. Dylan é contactado para investigar, e ao mergulhar na instituição de psicoterapia, apercebe-se que os seus pacientes, todos crianças com patologias psicológicas, estão a ser instrumentalizados por um demónio para mais uma batalha na eterna luta do bem contra o mal.  


Luigi Mignacco, Sergio Gerasi (2015). Dylan Dog #345: Gli spiriti custodi. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma aristocrata em processo de divórcio. Um futuro ex-marido coberto de dívidas de jogo que cometeu o erro de dormir com a namorada de um mafioso russo e tem por isso a vida contada em horas. A casa ancestral de uma família da alta aristocracia, habitada pelos fantasmas de múltiplas gerações, pouco interessados em ver o espírito do futuro ex-marido a juntar-se-lhes por morrer antes do divórcio ser consumado. Um mafioso russo, apostado em limpar a honra com o máximo derramamento de sangue possível. E, no meio disto, um Dylan Dog ainda mais fora do seu elemento do que o habitual, numa aventura que quase lhe é fatal. Uma história sólida do personagem, que entretém sem ir mais longe do que o esperado.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Fórum Fantástico 2017: Escolhas Literárias


Mais um ano, mais uma edição do Fórum Fantástico. Se de si já é algo a celebrar, este ano a equipa do Rogério Ribeiro e João Morales surpreendeu todos com um evento renovado, mais dinâmico e diversificado. Uma aposta arriscada mas ganha, como se sentiu nestes três dias na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro. O meu registo e reflexão sobre o saldo final da décima primeira edição para o aCalopsia ainda vai aguardar, mas deixo já o registo da seleção para o painel Escolhas Literárias do Ano, o já tradicional ponto de encontro do "tio" João Barreiros e seus admiradores sobrinhos. A Cristina Alves publicará em breve no seu Rascunhos a lista completa de escolhas, com as listas do Barreiros, dela e minha. Como habitual, partilho aqui a minha lista, com as curtas reflexões sobre as obras escolhidas.

De fora, ficaram algumas escolhas, porque o painel ia longo e o importante é dar espaço às leituras do João Barreiros. Retirei Pirate Utopia de Bruce Sterling, Cidades: TLS Series 1, e O Físico Prodigioso de Jorge de Sena. E, inexplicavelmente, deixei de fora uma das melhores coisas que vi nos últimos tempos, o perturbador spot do MOTELx deste ano, com argumento de Carlos Silva. Foi daquelas obras que desde o primeiro minuto pensei que teria de destacar, pela forma como foge ao consenso do terror como espectáculo de mestria de efeitos visuais numa direção profundamente inquietante, mas que acabou por se perder nas correrias do dia a dia.


Este ano, outra novidade: ao ver o gosto que o João Morales teve com o impacto da transmissão em streaming  da apresentação do programa do Fórum na FNAC Chiado, acabou-se por fazer o mesmo a praticamente todas as sessões que decorreram no auditório. A das Metamorfoses Musicais do Morales, ironicamente, foi uma das poucas que escapou, por um misto de atraso meu e ter achado que transmitir ao vivo um painel onde o João partilhava vídeos musicais poderia ser terreno minado. O que significa que podem ver, ou rever, o tradicional painel. Como a transmissão foi dois em um, fiquem para o seguinte, um momento muito awesome de discussão sobre inteligência artificial com a participação de Leonel Moura.

Ok, estou a divergir. Onwards para as escolhas.

Escolhas Literárias do Ano: Fórum Fantástico 2017

Livros: Não Ficção

Homo Deus - Yuval Harari: O transhumanismo é revisto num livro que foge quer ao optimismo inocente ou ao pessimismo apocalíptico das reflexões futuristas. Sublinha que se damos por garantido que a rápida evolução tecnológica irá transformar modos de viver e economias, também afectará as normas sociais e éticas que consideramos imutáveis.

Livros: Ficção Científica e Fantástico em Português

Anjos - Carlos Silva: Com este romance, Carlos Silva cimenta o seu estatuto como uma das mais dinâmicas e interessantes novas vozes do panorama literário nacional dedicado à FC.  Esforço concertado e bem sucedido de criar um mundo ficcional sólido que sustenta uma história que, se remete diretamente para o cyberpunk clássico, acabar por tocar no âmago de questões estruturantes da nossa sociedade digital contemporânea.  Surpreende pela sua ambição e seduz pela forma como conduz a ação pelos seus pressupostos. Fundamentalmente uma história de ação, não se nega a reflexões com impacto direto na nossa perceção do mundo contemporâneo.

As Nuvens de Hamburgo - Pedro Cipriano: Uma belíssima surpresa. Oscila entre a banal história de libertação de uma jovem adulta e as feridas traumáticas da II guerra. Lê-se ao ritmo de um thriller, com o aprofundar das relações humanas entre personagens a ser pontuado por uma progressiva espiral descendente de mistério em viagem não intencional no tempo.

Lovesenda - António de Macedo: O fantástico em Macedo sempre foi peculiar, misto de história com esoterismo, longe da iconografia expectável do género. Não que não abundem fantasmagorias ou monstros nesta obra (aliás, um dos grandes protagonistas é um fantasma de um homem monstruoso, castigado com o vaguear num limbo, e que irá despertar o verdadeiro amor no coração de Lovesenda, sua viúva num casamento estranhamente consumado), mas o ideário deste autor leva-nos mais para os campos da gnose, dos mitos ocultistas e alquímicos. É esse o cerne da história, com os seus rituais, damas encantadas, saberes tenebrosos, mistérios das brumas e saberes milenares contidos em códices proibidos. 

FC e Fantasia Internacional


Normal - Warren Ellis: Como é que se penetra num local impenetrável? Normal é um porto de abrigo, asilo para futuristas profissionais mentalmente afetados pelos seus estudos sobre hipóteses de futuro. Olhar para o mundo, para os sistemas que o compõem, as colisões entre tecnologia de ponta e sociedade contemporânea, é olhar para o abismo. E quando olhamos para o abismo, o abismo pode olhar para dentro de nós e fulminar-nos. Normal é o local onde os futuristas demasiado danificados para funcionar em sociedade vão para recuperar, um hospício para loucura induzida por exposição às franjas radicais da especulação. Um local isolado, penetrado graças a um enxame de nano-drones que assume forma humana para vigiar as mentes especulatórias dos futuristas em recuperação. Um voo curto de Warren Ellis, talvez a exorcizar as suas experiências como conferencista em festivais de cultura radical contemporânea e futurista.

O Grande Baro e outras histórias - Virgilio Piñera: Estes contos caracterizam-se por um delicioso surrealismo macabro, com fortes doses de humor muito negro e uma iconografia que por vezes roça o diabólico. Histórias curtas, absurdistas, que exploram as pequenas estranhezas da vida levando-as por caminhos inesperados. O absurdo surreal é complementado por um forte sentido de carnalidade, nestes contos de crueldade subtil.

The Stars are Legion - Kameron Hurley: A clássica space opera é revista neste livro onde a biotecnologia assume o papel normalmente pertencente às ciências Hard. Os planetas são de facto estações espaciais, mas são tecnologias vivas, tudo no universo deste livro são biotecnologias. Naves, armas, utensílios são formas de vida ou excreções de formas de vida, parte integrante do ecossistema das naves-planeta. Como iremos descobrir ao longo da leitura, os próprios humanos são elementos do ecossistema, essencialmente utensílios ao serviço da nave, embora se julguem controladores dos ambientes em que habitam. É por isso que não há homens nesta história. As mulheres, os seus úteros, são utensílios ao serviço das naves, produzindo os bens, materiais ou elementos de que a nave necessita. Que podem ser outros humanos, ou peças de equipamento. A simbiose é tão completa que a morte implica a reciclagem dos elementos corporais pela nave, tornando-se nutrientes que irão alimentar os seres vivos no seu interior.

Banda Desenhada/Comics

Dylan Dog: Mater Morbi -  Roberto Recchioni, Massimo Carnevale: Personagem de culto da banda desenhada italiana, Dylan Dog é finalmente trazido para Portugal numa edição Levoir da coleção Novelas Gráficas. Para este primeiro contato do público português com um dos mais intrigantes títulos de fumetti da editora Bonelli, os editores da Levoir escolheram Mater Morbi, uma das mais perturbadoras histórias recentes desta longa série. Mais do que uma história de horror clássica, ou uma aventura típica do Old Boy a enfrentar vampiros, zombies ou outras criaturas da noite, Mater Morbi mexe com o horror interior da implacabilidade da doença. O fetichismo de Mater Morbi é a metáfora para os sentimentos de solidão e impotência face à decadência da doença. Uma história atípica de um personagem já de si atípico, com estatuto merecido de culto. O argumento brilhante e premiado de Roberto Recchioni ganha uma vida lúgubre na ilustração expressiva de Massimo Carnevale, num poderoso trabalho de luz e sombra que confere um enorme peso à história.

Apocryphus Volume Um: Uma nova publicação independente dedicada à banda desenhada portuguesa é sempre de saudar, e pelo que revela nesta primeira edição, a revista Apocryphus promete trazer banda desenhada de qualidade ao seu público alvo. As histórias da antologia estão bem conseguidas e os estilos visuais refletem a maturidade dos seus autores.

Man:Plus - André Lima Araújo: Man:Plus veste muito bem e sem medo as suas referências. É um trabalho assumidamente derivativo, feito como homenagem ao cyberpunk clássico, ao mangá de FC e às séries policiais procedimentais. Não copia à sorrelfa elementos destes géneros, tentando passar-se por obra nova e inédita. A cópia é visível, intencional e assumida. Se a história é original, não tem medo de citar estilistica, temática e visualmente as influências que claramente fascinam André Araújo. Na fronteira entre obra de mérito próprio e fan fiction erudita, Man:Plus é uma declaração de amor ao cyberpunk, fantasticamente ilustrada.

Revista H-alt: Continua a ser um veículo de edição para os mais recentes autores de BD portuguesa. A H-alt consegue um curioso misto entre juvenilia e qualidade, percebe-se a pouca sofisticação e inexperiência patentes na maior parte das histórias, mas também se percebe a garra e vontade de melhorar. Nisso, o trabalho de editor tem sido mais cuidado. Se nas primeiras edições havia uma sensação de qualquer coisa seria publicada, nas mais recentes notam-se critérios de qualidade. Claro que, no âmbito da publicação e no formato narrativo curtíssimo, não podemos esperar É este o real papel de incentivo que a H-alt trás ao panorama da BD nacional.

Paper Girls - Brian K. Vaughn, Cliff Chiang: Tocando em múltiplas vertentes, esta série escrita por Brian K. Vaughan diverte pela forma como aborda uma temática de ficção científica. A ilustração sólida de Cliff Chiang e o irrealismo do trabalho de cor de Matt Wilson dão a Paper Girls uma vertente fortemente surreal, ultrapassando o seu caráter de aventura juvenil. Uma boa surpresa para os leitores portugueses, quer sejam mais fãs de banda desenhada, quer de ficção científica.

Cinema


Valerian: Besson explora muito bem o lado space opera barroca da série, num filme visualmente deslumbrante, que leva ao extremo aquela estética de FC entre o surreal e o psicadélico tão em voga nos anos 60 e 70. É-nos impossível ficar indiferentes ao poder da imagética avassaladora posta à solta por Besson, ao ponto da sobrecarga visual.  A estrutura linear de um filme blockbuster não se adapta bem à vastidão deste universo ficcional. A vénia de simplificação para o público não europeu, com um foco excessivo e a roçar o lamechas na relação amorosa entre Valérian e Laureline, sente-se como oca e  prejudicar o filme. Essencialmente, Besson esforça – se demasiado para nos convencer que este clássico da BD francesa é fixe.

Ghost in the Shell: Tinha tudo para se tornar um excelente filme, fazendo o cyberpunk old school regressar à memória visual colectiva contemporânea. Mas falha, vítima de um trabalho de realização desconexo, que opta por um misto de técnica de telenovela com mau filme de acção. Infelizmente, na arte do cinema, a realização é o fio que une todos os elementos. Por excelentes que sejam, e este filme tem elementos assombrosos, se a união é desconexa o filme falha. Cenas de acção cansativas, momentos dramáticos que não conseguem transmitir os dramas dos personagens, diálogos filmados a estragar a continuidade, as mesmas cenas filmadas de três ou quatro ângulos diferentes mostrados em justaposição.








Séries



Rick and Morty: Dinâmica ao ponto de hiper-cinética, esta é talvez a melhor série de FC com comédia dos últimos tempos. Cada episódio de Rick and Morty é um mergulho delirante num cocktail destravado de conceitos FC. Esperem tecnologias bizarras, alienígenas exóticos, mundos paralelos, civilizações extraterrestres e piadas de ir às lágrimas. Cada episódio é uma montanha russa implacável, sobrecarregando os sentidos do espectador.

Expanse: Adaptando fielmente a série literária, traz de regresso ao pequeno ecrã a estrutura da space opera clássica. A transição de livro para ecrã foi feita com tanto cuidado que o mundo ficcional não perdeu qualquer elemento. Os valores de produção são elevados, acima do habitual, especialmente para o Sci-Fi Channel, que nos habituou ao mau GCI de tempestades de tubarões. A equipe de actores transfere muito bem a dinâmica dos personagens.

The Orville: isto é ou não é Star Trek? Seth McFarlane decidiu, e fez-se. Uma série de ficção científica cómica, centrada nas aventuras da nave exploratória Orville, que tem como mandato explorar as fronteiras da federação galáctica. Como comédia falha redondamente, é uma sitcom melodramática muito desinteressante. Com FC... digamos que é tão, tão similar a Star Trek que se sente que se está a ver episódios da lendária série.

Comics


2000AD #1950: Dan Abnett escreve o argumento daquela que é uma das melhores séries de BD de ficção científica actuais. Grey Area segue as aventuras de uma unidade de agentes de imigração alienígena, encarregues de vigiar a única área do planeta onde extraterrestres estão autorizados a permanecer. Essencialmente, um campo de refugiados para visitantes do espaço exterior, montado por um planeta que teme as contaminações tecnológicas, biológicas e culturais trazidas pelo contacto com outras civilizações.


Marvel Legacy #01: Ainda nem tivemos tempo de curtir a ressaca do último mega-evento Marvel e já estamos a partir para outro? A sério, o ritmo destes eventos que clamam transformar profundamente o universo Marvel começa a tornar-se ridículo. Desta vez, a coisa promete ser grandiosa, com um início nos tempos pré-proto-históricos, com aquela que aparenta ser a primeira encarnação dos Vingadores. Enfim, mas ser grandiosos não é o que estes eventos prometem sempre?

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Hybrid Reality



Parag Khanna, Ayesha Khanna (2012). Hybrid Reality: Thriving in the Emerging Human-Technology Civilization. TED Conferences.

Boa parte dos futuristas são cópias pálidas dos Toffler. Khanna não escapa a este espartilho, proclamando logo a sua admiração pelo casal nas primeiras páginas deste curto livro. A partir daí, é o habitual tecno-optimismo de sillicon valley, propalando a crença na visão estrita de inovação sem limites favorita dos oligarcas digitais. É uma visão possível, que capacita elites, daí a visão de realidades híbridas, de tecnologia libertadora do potencial humano. Questões como o aquecimento global ou o impacto da robótica e automação na empregabilidade a curto e médio prazo só muito de passagem são aflorados neste livro, apologista de uma mescla entre homem e tecnologia. A sua verdadeira obsessão não é a capacitação do humano, mas o encontrar o próximo negócio de um bilião de dólares (acreditam piamente na impressão 3D como o próximo desses negócios, revelando um desconhecimento doloroso sobre esta tecnologia). O grande problema destas visões é a forma como conseguem ignorar o panorama global. A libertação via iPhone e redes digitais, com robots serventis e inteligências artificiais capacitadoras, tem beneficiado enormemente, de uma forma até agora nunca vista na história humana, uma pequena elite tecnológica, que operou mudanças inigualáveis e irreversíveis num espaço de tempo muito curto para a habitual escala histórica. Aos restantes, resta ser utilizadores, elementos de base nas minas de dados das stacks da economia digital.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Dylan Dog: Vietato ai minori; La Calligrafia del Dolore; L'uomo dei tuoi sogni.


Pasquale Ruju, Davide Furnò, Paolo Armitano (2016). Dylan Dog #357: Vietato ai minori. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma antiga paixão de Dylan, atriz de cinema B a sentir que os anos lhe pesam nos ossos, reaparece fugazmente nos dias do investigador dos pesadelos. Desaparece como apareceu, sem deixar rasto, exceto um bilhete de avião para Los Angeles e um convite para uma sessão de cinema. A contragosto, pois tem terror a voar, Dylan vai à cidade americana em busca desta diva desvanecida. Onde não a encontra, mas enquanto indaga sobre ela, descobre o cinema esquecido para onde foi convidado. Um edifício decrépito, que alberga um segredo degradante: é o palco anual de um prémio de cinema conhecido apenas por um grupo muito restrito de cinéfilos, filmes que exploram o horror infligido sobre pessoas até às últimas consequências. Liderado pelo mais acutilante crítico de cinema de Hollywood, este festival dedica-se a premiar filmes snuff. A actriz que fascinou Dylan parece ter um papel final num filme que resultará na sua morte, mas acaba por ser uma elaborada vingança que culminará na aniquilação dos cinéfilos depravados que já só se conseguem sentir tocados pela violência extrema. Uma história linear, que se compraz nos pormenores violentos, que se destaca pelo expressionismo da ilustração.

 
 Andrea Cavaletto, Luigi Piccatto (2015). Dylan Dog #352: La Calligrafia del Dolore. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Basta uma assinatura para mudar vidas. Nesta aventura, uma série de mortes violentas coloca Dylan na peugada de um notário que utiliza o estranho poder de uma caneta para fazer justiça pelas suas mãos. Infelizmente, terceiros também morrem, entre os quais uma mulher muito querida do passado do investigador. Aventura linear, que se percebe logo nas primeiras pranchas. Só a motivação das mortes é deixada para o fim. Toque de sobrenatural com as ações despoletadas pelas assinaturas. Ilustração interessante.



Paola Barbato, Paolo Martinello (2016). Dylan Dog #355: L'uomo dei tuoi sogni. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Quando o argumento é de Paola Barbato, já sabemos o que esperar. Histórias que de desenvolvem a um ritmo implacável, mais na vertente mistério do que sobrenatural, com um fio condutor coerente enquanto guia o leitor em episódios a princípio aparentemente díspares, cuja relacionamento se torna progressivamente mais perceptível quando se aproxima o final da história. Sendo uma série de 90 páginas mensais, as aventuras do investigador dos pesadelos estão estruturadas de forma episódica dentro de cada aventura, em crescendos e diminuendos, fazendo render a história. Nesta, a mais recente namorada de Dylan, uma investigadora forense da Scotland Yard, é incapaz de dormir, com um pesadelo recorrente sobre um homem ameaçador. Um pesadelo que se repete em muitos outros, que enlouquecem, se suicidam, ou embarcam em campanhas assassinas. Este personagem dos sonhos, com que Dylan também se cruzará, guarda os segredos mais íntimos das suas vítimas, permitindo-lhes que se esqueçam de actos questionáveis que fizeram, cobrando-lhes com as suas emoções. No caso da namorada de Dylan, esta reprimiu o segredo traumático de ter atropelado fatalmente um homem que a tentou violar. As restantes vítimas também guardam segredos similares

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Homo Deus



Yuval Harari (2017). Homo Deus: A Brief History of Tomorrow. Nova Iorque: Harper.

Este é, provavelmente,  o  mais provocador livro deste ano. Ao fugir das premissas habituais que sustentam a discussão quando falamos do impacto da aceleração da evolução tecnológica, leva-nos a perceber, recorrendo ao passado, que o nosso futuro será radicalmente diferente do que o que acreditamos que será. Discussões sobre tecnologias NBIC (nano-bio-info-cogno) dividem-se geralmente em dois espectros, o do optimismo ilimitado, vendo-as como uma panaceia para todos os males do mundo, ou o alarmismo extremo, postulando futuros desolados onde o potencial libertador destas tecnologias beneficia enormemente uma elite rarefeita e passe ao lado de uma vasta humanidade empobrecida, num planeta em degradação ambiental.

O que Harari nos leva a reflectir, baseando-se numa análise erudita da evolução do nosso próprio sistema de ideias, aquele que sustenta o mundo contemporâneo, é que talvez estas duas vertentes não sejam significativas. Que o mundo que por aí virá poderá assentar em premissas radicalmente diferentes das que agora nos norteiam. Numa sociedade onde desde as doenças às emoções a biotecnologia pode intervir, onde a informação não é limitada, onde os meios de produção são automatizados, onde poderosos algoritmos guiam os comportamentos dos indivíduos, os conceitos que admiramos como base da nossa sociedade poderão ser irrelevantes.

É chocante perceber que ideias tão basilares como o humanismo individual, ética contemporânea ou a própria democracia poderão estar tão condenados como a sujeição dos indivíduos aos diktats da fé religiosa, sistemas políticos não representativos ou os próprios direitos humanos. Convencidos como estamos de que atingimos um ponto máximo de desenvolvimento social, comparativamente às eras que nos precederam, é temível pensar que as sociedades futuras poderão não considerar nucleares os nossos valores humanistas, de igualdade e democracia. Harari não nos dá respostas, não especula sobre que valores irão substituir os nossos, apenas demonstra o quanto os nossos valores evoluíram, enquanto questiona o futuro impacto direto das tecnologias NBIC que já permeiam o nosso dia a dia. Citando uma questão cujo impacto já sentimos, como é que conciliamos o conceito de democracia num mundo onde as perceções individuais são subtilmente condicionadas por algoritmos avançados? Ou, num sentido mais pessoal, o que acontecerá à ideia de liberdade individual numa sociedade onde algoritmos nos levam gentilmente a adoptar comportamentos considerados mais saudáveis? Ou o que determinará o verdadeiro valor da vida humana num futuro onde os mais afluentes terão acesso a bio-tecnologias de melhoramento de capacidades e longevidade? A esta luz, conceitos que nos são queridos como o mérito individual ou a igualdade perdem a sua importância basilar.

Neste livro, quer o transhumanismo optimista quer o pessimismo alérgico à tecnologia levam uma forte tareia. Harari mostra-nos que nas discussões sobre o futuro, enquanto assumimos que a médio e curto prazo as evolução das tecnologias vai mudar radicalmente o mundo como o conhecemos, assentamos na crença que os nossos valores basilares não irão sofrer transformações. Cremos que nesse aspeto atingimos uma espécie de topo absoluto de qualidade, que não haverá melhor, e por isso não há razões para se modificarem ou sequer se degradarem. Uma visão epocalista, que partilhamos com todos aqueles que, no passado, acreditaram piamente que os seus valores constituíam o tecto máximo do valor social, e acabaram consignados à poeira da história.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Comics


 Batman #31: Kite Man! Impressionante como ao longo do arco War of Jokes and Riddles Tom King arranjou sempre umas vinhetas para manter a piada da série, e ainda acaba por lhe dar um papel fundamental para a obrigatória vitória do bem sobre o mal.



Black Hammer #13: A auto-referenciação é um dos mais curiosos vícios dos comics. Se é interessante, para os fãs mais conhecedores, ler histórias  cheias de referências, em que um dos gozos é detectar a origem das referências visuais e gráficas, pergunto-me se a criatividade neste meio comercial já está tão esgotada que só sobreviva com inside jokes e vénias contínuas ao passado. Esta série numa escondeu o seu caráter pastiche, e Lemire leva-a bem, mas fica no ar a questão sobre a direção que segue o lado mais erudito dos comics. Somos um público assim tão previsível, que só se sente com as expectativas cumpridas quando relê as mesmas histórias com os mesmos personagens em infindas variações? Claro, o que acabei de escrever é a definição mais pura dos comics enquanto género.