quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Demoiselle




No Museu do Ar

Leituras

AI, Robotics and the Future of Jobs: O mais recente relatório da Pew Research Internet Project, leitura sóbria sobre as vertentes de possíveis consequências da rápida evolução da robótica/automação e seu impacto sobre o futuro do trabalho. Se tem sido publicitado como uma extraordinaria predição sobre sexbots, desenganem-se, que o conceito só aparece uma vez nas sessenta e tal páginas com observações sobre a temática do relatório. Este espelha, de forma mais equilibrada, o alarmismo informado do vídeo Humans Need Not Apply que resume muito bem o pior que poderá advir do impacto entre cegueira economicistas e robótica. Se a transformação laboral irá deixar muitos empregos hoje desempenhados por humanos nas mãos artificiais de robots e software complexo, é também verdade que há já formas de optimização automatizada de fluxos de trabalho que tratam o trabalhador como uma espécie de peça descartável a utilizar apenas de acordo com o disposto na optimização just in time aferida ao segundo, como mostra esta brilhante peça do New York Times: Working Anything but 9 to 5.

O alastrar da robótica/automação vai de facto tornar obsoletos muitos empregos, e tocar em áreas que até agora se pensavam a salvo e domínio exclusivo da mente humana. Há um risco, óbvio, que os respondentes ao questionário da Pew sublinham: a economia não existe por si só, e ao condenar ao desemprego estrutural grandes camadas da população está também a eliminar os consumidores de que depende para sobreviver. Algo que neste momento de domínio da ideologia neoliberal sobre as consciências arrepia, porque sabemos que quaisquer escolhas irão privilegiar lucros a curto prazo e não a sustentabilidade dos sistemas sociais e económicos. Haverá escolhas, haverá evoluções do conceito de trabalho, e note-se que Hans Moravec, um dos pais da robótica, sonhava com um futuro onde o trabalho braçal e rotineiro ficaria nas mãos de entidades mecânicas enquanto antevia uma era dourada de ócio construtivo e desenvolvimento humano. Mas, como muito bem observa este colunista da Popular Science em Sex Bots, Robo-Maids, And Other Sci-Fi Myths Of The Coming Robot Economy,  é talvez prematuro imaginar o colapso da civilização ocidental sob o efeito de máquinas e software que apesar dos avanços rápidos ainda mostram muitas limitações. No entanto os engenhos do progresso são, como habitual, inexoráveis e se seja talvez cedo para entrar em pânico com as consequências sociais dos robots não é certamente cedo para debater o impacto de tecnlogias que se hoje nos parecem algo desengonçadas estão em refinação constante.

Suponho que o que realmente assusta e leva a este tipo de pensamento alarmado é a sensação de que no que diz respeito à ideologia dominante os seres humanos já são elementos descartáveis na economia. Sempre que se fala em reformas, racionalização de custos, reformulações e eficácias já se sabe que são as pessoas a ser cortadas. Quer através de precarização, redução salarial, despedimento massivo, deslocalização para zonas de mão de obra de baixíssimo custo. Sabemos, imersos como estamos numa crise global em que o óbvio enriquecimento de élites e o empobrecimento generalizado são notórios, que o valor colocado sobre o capital humano é apregoado como elevado mas é na verdade baixíssimo. A ideia de trocar pessoas por máquinas parece retirada dos sonhos húmidos de maximização de lucro do capitalismo mais selvagem. E até pode sê-lo, se, como observam Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee no livro The Second Machine Agenão forem feitas escolhas que são políticas e sociais que possibilitem tirar benefícios humanistas da tecnologia. O que é algo que nesta época de ganância descarada mal disfarçada sob ideologia neo-liberal e retrocesso de direitos civis e laborais nos parece algo muito ténue.

The King of the Islands of Refreshment: Geografias longínquas no limiar da ficção, do mito e da dura realidade. Uma pequena história de uma tentativa de criar um principado independente no distante rochedo de Tristão da Cunha torna-se num vislumbre às culturas cerradas dos duros habitantes dos locais isolados do Atlântico Sul. Ainda toca, muito ao de leve, nas bizarrias das micronações. Estas anomalias da história e geografia seduzem pela distância, não só física, mas do que acreditamos ser normal e esperado. Um artigo fascinante a ler na edição mais recente da revista The Appendix, que pelo índice de artigos merece uma longa e atenta leitura às fímbrias do futurismo.

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Voo retro




Do encanto das antigas aeronaves. Museu do Ar

Dylan Dog: I ritornanti; L'odio non muore mai; Giovani vampiri.


Giancarlo Marzano, Roberto Rinaldi (2013). Dylan Dog #319: I ritornanti. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma aventura que soa melhor ao som de Boulevard of Broken Dreams, um dos clássicos do lado mais lounge do great american songbook. Porque é de sonhos fenecidos que vive esta história do detective dos pesadelos. Começamos por chegar a um cemitério cujos residentes se andam a escapulir aos gavetões. E na Londres de Dylan Dog pessoas de bem, conformadas com o rumo das suas vidas, são assombradas, atacadas e assassinadas pelo que parecem ser seus sósias. Não são. São os seus sonhos esquecidos, os desejos de ser algo de diferente do que se tornaram, que se escaparam ao cemitério onde estão consignados para exercer vinganças sobre os sonhadores desiludidos. Se este conceito da morgue de sonhos esquecidos onde estes estrebucham dentro dos gavetões tem o seu agradável gostinho gótico, o resto da aventura é uma banal caça à assombração onde Dylan se envolve com uma dançarina exótica perseguida pelo seu sonho de ser bailarina.


Luigi Mignacco, Giancarlo Alessandrini (2013). Dylan Dog #324: L'odio non muore mai. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Bons ingredientes misturados nem sempre dão um bom caldo, mas podem deixar um bom sabor. É o caso desta aventura, que mistura história da II guerra mundial, a iconografia da típica aldeia costeira britânica e vampiros nazis. Vampiros nazis soa sempre a promessa de narrativas mirabolantes, não soa? Em resumo, as lendas locais sobre fantasmas assassinos parecem concretizar-se com o desaparecimento misterioso de habitantes da aldeia à beira-mar, que ganhou fama pelos estaleiros agora inactivos que foram bombardeados na II guerra. É curioso é que só desapareçam um historiador, um mecânico e os guardas do estaleiro. O segredo é antigo: a tripulação de um submarino nazi sobrevivente ao final da II guerra que começa a avariar e precisa de pessoas capazes de dar a volta aos antigos engenhos para conseguir ser reparado. E como é que estes fieis submarinistas da kriegsmarine sobreviveram? No final da guerra tinham como missão secreta transportar um misterioso caixão, cujo passageiro os transformou em vampiros. Um submarino cheio de vampiros nazis a flutuar na eterna escuridão das profundezas oceânicas. Com uma destas nunca me tinha deparado.


Giancarlo Marzano, Luigi Piccatto (2013). Dylan Dog 321: Giovani Vampiri. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Um grupo de góticos contacta Dylan Dog para que este lhes encontre um vampiro. O seu sonho é atingirem a imortalidade como criaturas da noite, mas Dylan, obviamente, recusa-se. Um mergulho na vida nocturna mais underground vai dar a estes vampire wannabes a oportunidade de aceder ao que mais desejam, mas uma verdadeira criatura da noite compraz-se em brincar com os desejos dos néscios humanos.

segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

Top Gun





Museu do Ar, Granja do Marquês.

Comics


Steampunk Battlestar Galactica 1880 #01: A Dynamite, perita em baralhar e tornar a dar títulos e personagens clássicas, decidiu aplicar o tratamento steampunk à série Battlestar Galactica. Resumo: não funciona. Não, a sério. Não funciona. A vaporização neo-vitoriana está a funcionar bem em Legenderry, porque há o cuidado de estabelecer uma narrativa coerente onde os diferentes personagens encaixam. Agora recontar a space opera televisiva com engenhos a vapor, dirigíveis e sabres no lugar dos robots, naves espaciais e blasters, não funciona.


The Multiversity #01: Grant Morrison a armar-se em Alan Moore e a reviver personagens dos velhos tempos em que valia tudo para criar revistas e a DC se excitou um pouco com a ideia de universos paralelos com versões das suas personagens icónicas? Só pode correr bem, certo, num "correr bem" entendido num estrito sentido de insanidade psicadélica. É Morrison, um dos grandes contadores contemporâneos de histórias aos quadradinhos, bizarro e visceral com carta branca para chocar e encantar. Duvido é que o objectivo de recriar e recuperar para a DC 52 dos personagens (felizmente) descartados da continuidade resulte. É que com Morrison aos comandos já sabemos que a viagem vai ser um delírio, algo que não se coaduna muito com a necessária banalidade repetitiva dos comics de super-heróis.


Trees #04: A invasão alienígena em slow motion. Misteriosos vegetais que assentam raízes, indiferentes às formigas bípedes e suas edificações que pululam na superfície do planeta azul. Criaturas extraterrestres que aterram e não fazem absolutamente nada para além de assentar gigantescos troncos um pouco por todo o planeta. E Warren Ellis não se está a apressar a contar a história. Cada edição vai revelando mais um pouco de uma teia complexa e aparentemente desconexa. Eventualmente saberemos o que é que senhores da guerra africanos educados nas melhores universidades europeias, activistas políticos nova-iorquinos, criminosos balcânicos, artistas chineses e biólogos noruegueses têm em comum. Para já fiquemo-nos com esta: as árvores invasoras estão a começar a produzir flores bio-metálicas. Invasão lenta, um ecossistema que aniquila o organismo anfitrião com a paciência longa do mundo vegetal.


The Fade Out #01: Brubaker e Philips estão de volta com um novo projecto. Desta vez regressam às origens com um policial noir passado da decadente Hollywood dos anos 40. A ilustração é como sempre soberba, e do argumentista já se sabe que nos vai dar uma história convoluta onde um protagonista pouco inocente se vai confrontar com vícios monstruosos e a decadência criminosa alimentada pela fama e dinheiro.

domingo, 24 de Agosto de 2014

Insta




Minimal




Mourão




Ó amigo, desculpe lá, mas já foi ver as cataratas? perguntou-me o pastor que apascentava as suas plácidas ovelhas à beira do rio. Ainda não, confessei. Então é só subir e... faz com a mão o gesto de descer. E lá subi, e lá desci, por entre veredas talhadas na mata, atravessando o moinho de água em ruínas, até dar com a catarata do rio Mourão. Fica em Anços, mesmo aqui ao pé. E eu, que tantas vezes passo lá perto no caminho para respirar na praia da Samarra, nem imaginava que existia um local destes nesta região.

sábado, 23 de Agosto de 2014

VFX




Paragem de estrada, a redescobrir a renovada e muito bela zona ribeirinha de Vila Franca de Xira.

Bestiário


Julio Cortázar (1986). Bestiário. Lisboa: Dom Quixote

Suspeito que me será difícil não comparar Cortázar a Borges. Não sei se serão comparáveis ou não, se têm mais em comum para além de Buenos Aires e a Argentina. Se Borges encanta pelo lirismo de aparente aridez académica, deslumbrado pelo mundo das ideias expressas em tomos poeirentos, Cortázar dá-nos a vida. Acontecem pequenos mistérios, ocorrências estranhas, assombrações interiores, obsessões funestas, mas sempre centradas nas pessoas, retiradas à normalidade das suas vidas pelo olhar onírico do escritor. Um fantástico humanista, que questiona a estranheza da alma humana e a sua percepção do mundo. Um autor a descobrir, naquela ponte difusa entre as literaturas do imaginário e as leituras sérias, e estes contos de 1951 são uma bela porta de entrada para um onirismo de normalidade ilusória.

sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

Dylan Dog: L'impostore; Leggende urbane; La fuggitiva.


Alessandro Bilota, Nicola Mari (2013). Dylan Dog #317: L'impostore. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Desde que Poe solidificou o conceito de doppelgänger como uma das estruturas do horror clássico no conto William Wilson que este artifício tem sido usado e abusado. Esta aventura de Dylan Dog não é excepção. Uma série de assassínios misteriosos em que as vítimas são mortas por sósias seus acaba por ser revelado como a psicopatia de um especialista em maquilhagem cuja atracção pelo copiar de personalidades se iniciou ao matar o irmão gémeo na adolescência. Argumento mais de policial do que fantástico por Angelo Bilotta, com alguns toques de ironia certeira, mas destaca-se a ilustração muito gótica e elegante de Nicola Mari. Não é usual que no fumetti o trabalho do ilustrador ultrapasse as linhas-guia gráficas dos personagens. Aliás, boa parte deles são indistinguíveis uns dos outros, e é raro ver um estilo gráfico personalizado num personagem com o historial editorial como o de Dylan Dog.


Giovanni DiGregorio, Ugolino Cossu (2013). Dylan Dog #318: Leggende urbane. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

É raro, neste Dylan Dog mais recente, encontrar alguma edição que volte a capturar o onirismo mágico do melhor de Tiziano Sclavi. É o caso destas lendas urbanas, aventura de mitos que não faz grande sentido lógico mas se lê como um acumular do imaginário de alguém que escreve. Aliás, é assim que começa e termina a aventura, com palavras dactilografadas numa máquina de escrever eléctrica. O que à partida parece um relato termina como uma meta-ficção sobre o poder das histórias e a necessidade humana de acrescentar pontos aos contos. A aventura é um acumular de mitos urbanos. Crocodilos nos esgotos, motociclistas que sobrevivem a despistes mas cuja cabeça se abre ao tirar o capacete, jovens raparigas que pedem boleia para a porta de cemitérios onde se desvanecem, cadáveres que acordam durante autópsias, cartas em cadeia mortíferas, rins roubados após noites de amor com mulheres desconhecidas. Um catálogo de histórias incríveis em que juramos não acreditar mas há algo nelas que nos inquieta, memes que se propagam, vindo ciclicamente à tona nas conversas da vida urbana. Deliberadamente difusa, questionando continuamente o real e o ficcional dentro do espaço narrativo da ficção, regressando ao horror onírico de outros tempos, esta aventura do old boy onde age realmente como indagatore dell'incubo é uma excelente surpresa.


Giovanni DiGregorio, Maurizio Di Vincenzo (2013). Dylan Dog #320: La fuggitiva. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Há um momento na história em que esta ameaça tornar-se interessante. Dois mundos, a Londres real dos anos 90 da série e uma espécie de fantasia medievalista quase colidem nas páginas de uma aventura em que Dylan tenta ajudar uma mulher que vive na ilusão de conter um monstro diabólico dentro de si. Mas não passa de ameaço. A desconexão mantém-se, a coisa desliza para o policial psicológico e as alucinações da mulher ficam-se por desculpa para desenhar ruas da idade média. Um momento pouco conseguido da história editorial do indagatore dell'incubo.

quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

Insta




O meu exotismo é o teu normal.

Ficções

Pintado a Sangue: Um surpreendente conto de horror escrito por Carina Portugal onde os crimes do passado se reavivam ciclicamente. A ambiência soturna combina bem com o tema de uma maldição passional a assombrar uma mansão decrépita. O tempo não cura feridas e as almas penadas estão condenadas à repetição dos seus dramas.

Aos Teus Olhos: Um conto por Vítor Frazão interessante mais por aquilo que deixa implícito do que pelo que explicita. Por detrás de uma curta aventura com acção está um vasto panorama ficcional de sabor steampunk que nos vai sendo revelado através do diálogo entre as várias personagens. Diálogos informativos, mas com menos infodumps do que o expectável. Este centrar na interacção entre personagens deixa a imagem visual despertada pelo conto bastante difusa.

The Crossing: Conto menos bem conseguido de Anton Stark. Um grupo de jovens faz uma travessia em direcção ao mar, rito de passagem ao qual alguns não irão sobreviver. Se a geografia do conto é sólida e a premissa e final implacáveis, a prosa necessitaria de algumas revisões para ser mais fluída.

TIC em 3D @ Lisbon Mini Maker Faire


O 3DAlpha está em destaque na página da Lisbon Mini Maker Faire! Quase não ia dando por isto, culpa da letargia estival em tom literário. E confesso que ainda me custa a acreditar que este projecto e as criações dos meus alunos vão fazer parte da primeira Maker Faire de Lisboa. Isto é um projecto de sala de aula, e por muito interessantes que sejam os resultados são trabalhos de crianças. Mas talvez seja isto o que lhe dá valor. São incipientes, mas mostram que é possível estimular formas criativas de usar tecnologia sem ter medo de ferramentas complexas, abrindo desde cedo os horizontes do mundo digital pervasivo.


Ok, deixemo-nos de teorizações. É fantástico poder estar presente a divulgar um trabalho que já acumula alguns anos de experiência mas que todos os anos possibilita magicar coisas novas. Para o ano, se tudo correr bem, talvez se chegue ao 3D printing... entretanto, cá fica o nosso espacinho virtual na página da Maker Faire: TIC Tridimensional.


Outra que também ainda não sabia. Foi através dos logs de acesso que descobri. Também vamos estar na Europe Code Week com o Code Week AEVP, inserindo as actividades com Scratch com os alunos de oitavo ano. Ok, o arranque do próximo ano lectivo vai ser hit the ground runnnig. Para não variar...

Literalmente

Literalmente paralisado de espanto sempre que ouço/leio alguém a descrever algo como sendo literalmente o que é. Literalmente. Significa que o que foi dito é para ser entendido à letra. Que quem transmite a mensagem quer que esta seja entendida como factual. Estaremos assim tão imunizados à metáfora que interpretemos o real como outra ideia abstracta para facilitar compreensão, ou correlação irónica destinada a entretenimento neuronal fugaz? "Literalmente" é uma espécie de etiqueta que nos diz pois, isto é mesmo assim. #mesmo. #literal. #real.

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

H. P. Lovecraft: Against The World, Against Life


Michel Houellebecq (2005). H. P. Lovecraft: Against The World, Against Life. São Francisco: Believer Books.

Houellebecq, escritor de obra polémica, não é nenhum estranho às zonas desoladas dos limites literários. Neste erudito ensaio analisa a vida e obra do escritor de Providence, cuja curta e discreta vida não viria a prever a fama póstuma e profunda influência que viria a ter na literatura fantástica. Houellebecq olha para o carácter retrógrado de um homem que não pertencia ao tempo contemporâneo onde viveu, preferindo viver uma imagem idealizada de uma concepção antiquada. As suas falhas, o óbvio racismo, a alienação perante o mundo moderno, o carácter peculiar, encontram eco numa prosa única, desumana, pouco interessada em miticismos ou realismos, que como Houellebecq sublinha, veio da poesia para a literatura. A típica exaltação adjectivada de Lovecraft é aqui revista como um desafio literário aos sentidos, não uma falha, mas a principal característica que faz os leitores apaixonarem-se pela sua obra. Vivendo num isolamento ilusório, cativando fãs irredutíveis, Lovecraft poderia ser mais um escritor weird obscuro. Felizmente o trabalho daqueles que primeiro tocou, o círculo literário que inclui Robert Bloch, Ashton Smith e August Derleth, expandiu e divulgou a obra fascinante desta personalidade singular, que admiramos apesar das falhas e defeitos pelo poder do horror cósmico em prosa filigranada que nos legou.

Fabricated


Hod Lipson, Melba Kurman (2012). Fabricated: The New World of 3D Printing. Indianapolis: John Wiley & Sons.

Uma visão muito interessante do panorama da impressão 3D, que consegue equilibrar o deslumbre com a tecnologia com um profundo conhecimento do campo e considerações mais práticas. Abre com o género de previsões hiperbólicas sobre um radioso futuro alimentado pelas mirabolantes impressões em 3D, um tom que ressurge ao longo do livro, mas depressa mergulha nos detalhes da tecnologia, possibilidades de evolução e implicações. Toca num pouco de tudo, desde a predição utópica às considerações ambientais da tecnologia.

Torna-se pertinente ao analisar a fundo os vários tipos de impressoras 3D no mercado e em laboratório, não se ficando pelas de extrusão de filamento. Neste capítulo a visão é muito detalhada, analisando as tecnologias de estereolitografia, corte por laser, impressão de camadas, impressão multi-cor e multi-materiais e sinterização a laser. Outro ponto de interesse prende-se com a atenção que dá aos processos de design digital e conceptual como elementos fundamentais na impressão 3D, reflectindo sobre hábitos enraizados por tecnologias antecessoras, novas possibilidades e a importância de uma boa conceptualização antes de avançar para a materialização.

Para os meus objectivos o melhor deste livro foi o destaque dado à impressão 3D na educação. Se esperavam que o autor se cingisse à educação superior em engenharia e design, ficarão surpreendidos com a atenção dada às possibilidades da tecnologia e experiências já em curso no domínio da educação básica. Detalha o projecto Fab@School com experiências de utilização de impressão 3D inseridas em projectos interdisciplinares que congregam conhecimentos de diferentes áreas disciplinares na elaboração de objectos. Esta análise é feita sem histerismos de optimismo do tipo vamos meter uma impressora 3D em todas as salas de aula, antes segue o pragmatismo da importância de ter estratégias de abordagem bem concebidas para que o potencial educativo desta tecnologia seja bem aproveitado, nos domínios da resolução de problemas, pensamento de design e capacidade de fazer e construir.

Sem ser muito profundo, uma vez que ambiciona mostrar em traços largos o panorama desta tecnologia emergente, Fabricated equilibra alguma especulação deslumbrada com análises sóbrias do potencial e problemáticas da tecnologia, alicerçadas por um forte conhecimento in loco das suas vertentes. Uma excelente introdução ao campo do 3D printing.

terça-feira, 19 de Agosto de 2014

Insta




Letargia Estival


O sentimento de férias implica uma fuga, não o doce nada fazer alapado numa praia ao sol ou o passeio por locais com algum sabor idílico. Procurar novas geografias visuais. Rumar à estrada, com um mapa como guia impertinente e um gosto por procurar as tabuletas inverosímeis nos cruzamentos. É ócio puro, gosto por descobrir o que está para lá das curvas da estrada, condensar em memórias e experiências os traços, nomes e cores fixados nos mapas.

Este ano tinha planeado abrigar-me do sol sob as muralhas de Ávila, calcorrear os livreiros madrilenos em busca de pérolas bibliográficas para as minhas estantes, e descobrir El Greco nas calles sombrias de Toledo. A coisa não correu como planeado, graças a um pequeno acidente com a minha mãe que a imobilizou, obrigou a cirurgia e a colocou dependente da minha presença constante. Vi afastar-se a cada dia, com mais amargura, a possibilidade de uma viagem tão necessária à higiene neuronal. Mas consolei-me noutras possibilidades. Afinal de contas, os longos minutos nas salas de espera dos hospitais e os dias e noites sem a obrigatoriedade de conduzir mais umas dezenas de quilómetros fazem maravilhas pelo tempo disponível para pôr leituras em dia. E tantas que elas são, com bibliófagos do meu calibre.

Ler tem o seu quê de viajar. Viajar não em busca de queimaduras solares ou gastronomias saborosas, mas viajar para conhecer, ampliar o leque do que se sabe, alimentar a imaginação. Se a geografia física neste verão é por necessidade estática, já a geografia literária tem-me levado aos mais inesperados recantos do mundo. Instalei-me em Londres, numa casa de decoração decadente no número 7 de Craven Road, e pela mão de Dylan Dog fui descobrindo os mistérios que se ocultam nas névoas, as criaturas que se esgueiram pelos becos sombrios e os sonhos inquietos. Delirei com o surrealismo cósmico e psicadélico de uma Cartago situada numa distante galáxia onde Salammbô, a sacerdotisa, mesmeriza o espírito dos aventureiros. Cortázar deu-me um vislumbre da simplicidade do estranho que encerram as vidas que circulam por Buenos Aires. Fui recebido por inteligências artificiais no distante império Radchai. Visitei pequenos mundos de sonhos fantasistas passados à palavra por jovens e promissores escritores portugueses. Tive um vislumbre do que se passou na alma daquele que é um dos escritores que mais admiro, e admiro-o sem saber muito bem porquê, mas parece que todos os que o admiram se queixam do mesmo. Olhei para os desafios sociais e tecnológicos de um futuro provável, mesmo ao virar da esquina. Visitei uma União Soviética no limiar do concretizar da utopia socialista ou do resvalar para a decadência ideológica.

A letargia estival ameaça chegar ao fim, mas suspeito que ainda terei tempo de visitar a Polónia incongruente de Stefan Grabinski, perder a noção cronológica com fluxos temporais que se recusam ao espartilho da linearidade, buscar alguns vislumbres de Khalôm, a antiga, a iluminada. Talvez ainda passe pela Lublin de Singer, deguste um champanhe na gravidade lunar, perceba porque é que as nuvens púrpura são mortíferas,  ou viaje com Flash até ao clássico planeta Mongo. Mas não prometo nada. As leituras são como os cruzamentos na estrada. Planeamos um itinerário mas a cada cruzamento poderá surgir outro destino que nos tenta com a promessa de inusitadas descobertas.

Aventuras de uma Criminóloga



Giancarlo Berardi et al (2013). J. Kendall: Aventuras de uma Criminóloga #106. São Paulo: Mythos.

Apesar de saber que este título da Bonelli era distribuído por cá nunca me tinha calhado encontrá-lo in the wild. O título é uma boa adição de referência para a minha colecção, mas a confirmar aquilo que já tinha percebido da personagem em leituras anteriores. Tem um ritmo narrativo entediante e não foge aos limites do policial procedimental com um toque leve de romance ao estilo harlequin. Suponho que os fãs adorem esta mistela, mas a mim passa-me ao lado. Daí a leitura para referência.

O fumetti intriga-me pela mistura de continuidade das personagens em episódios regulares não interligados de tamanho grande. Cada edição mensal oscila entre as 80 e 130 páginas, variando de acordo com o personagem. Neste aspecto parece-me mais próximo do manga do que da BD franco-belga, onde cada álbum oscila entre 60 a 80 páginas, e nem se compara aos comics, onde paginações destas são reservadas para graphic novels especiais ou edições coligidas em trade paperback. Uma média de cem páginas por personagem por mês adiciona-se num corpo de trabalho impressionante. O problema está em encher as páginas, e é aí que o modelo fraqueja. As narrativas concisas são deitadas às urtigas e as situações são esticadas ao limite. O que resulta é algo com uma estrutura repetitiva mais próxima das telenovelas do que de bd. Desde que mergulhei nos fumettis que me apercebi disso, ao ler tantas aventuras que beneficiariam em ser mais focalizadas, cujas premissas de grande interesse se diluem no arrastar narrativo. Recordo-me de dois exemplos típicos: Caravan, sobre uma cidade evacuada sem explicações por militares cujos habitantes se vão deslocando em caravana automóvel por estradas no deserto, ou o pós-apocalíptico Brendon, excelentes premissas que são transformadas em verdadeiros festivais de bocejo. É curioso que não sendo excepcionais são séries de sucesso, com publicação regular mensal e vendas que que eu saiba não estão a levar a editora à falência. Deve ser aquele algo incompreensível que os carácteres nacionais têm, com sotaque italiano.

Este carácter do fumetti leva-me a admirar ainda mais o trabalho de argumentistas como Tiziano Sclavi, de Dylan Dog, e Luca Enoch, que acumula com ilustrador da soberba série Lilith e da fantasia young adult de Gea. Estes conseguiram utilizar um formato tão próprio para criar belíssimas narrativas gráficas, mantendo o interesse e conjugando muito bem as linguagens narrativa e visual. Este tipo de trabalho é algo de fundamental na melhor BD. Se isto não acontecer quanto muito temos textos ilustrados com desenhos alusivos. E há tantas BDs assim por aí publicadas...

Esta edição regular da Mythos está a publicar as aventuras da criminólogia Julia Kendall, aventuras policiais procedimentais que a inteligente, brilhante e solitária detective acaba por deslindar com ajuda de um fiel painel de detectives secundários. Nesta edição estão contidas duas aventuras. Em Férias Forçadas uma quadrilha de ladrões que sai da prisão para assaltar repetidamente o mesmo edifício obriga a personagem a interromper as férias para desvendar o mistério, e em A Tormenta um condenado perde a compostura e aproveita uma tempestada de neve para fazer reféns os polícias na central, entre as quais se encontra uma heroína a arrastar um momento romântico com outro detective. Suponho que quem goste de policiais com romantismo à mistura possa adorar estas aventuras.

Não deixo de fazer alguns reparos interessantes sobre o que li da série. Os ilustradores sabem homenagear referências visuais ao género policial nas vinhetas. Numa das histórias há uma referência visual fabulosa a Orson Welles. Julia e Dylan Dog têm em comum um personagem secundário muito próximo de comportamentos irritantes. Dylan tem o fiel Groucho, clone assumido de Groucho Marx com piadas secas a condizer, e Julia tem Emily, personagem decalcada de Whoopy Goldberg, uma mulher a dias maternal e mandona com propensão para calinadas linguísticas. Como é que alguém decalca um personagem numa actriz tão irritante quanto esta e sobrevive para contar histórias é algo que me ultrapassa.

E confesso que houve um pormenor nestas Aventuras de uma Criminosa que me cativou. A elegância da personagem tem o seu quê de homenagem a Audrey Hepburn. O aspecto visual de Julia é em tudo similar à actriz de Breakfast at Tiffany's, e a elementos destes reage-se com um sorriso.

segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

Antígona Gelada


Armando Rosa (2008). Antígona Gelada. Évora: CENDREV/Fluir Perene.

É raro encontrar teatro directamente inspirado na ficção científica, embora os géneros não sejam incompatíveis. Recorde-se, como exemplo mais óbvio, que R.U.R.  de Capek foi originalmente um texto teatral. É ainda mais raro, e inesperado, encontrar um exemplo português de teatro que vai beber directamente a um género mal visto no meio cultural português. É esse o caso de Antígona Gelada escrito por Armando Rosa e estreada pelo Cendrev em 2008. A peça cruzou-me o radar através de uma representação levada a cabo pela turma de mestrado de Artes Performativas da ESTC, encenação muito interessante que mostrou como o corpo e a austeridade de adereços combinada com uma boa selecção de texto é o suficiente para

O título não engana ninguém. Antígona remete para a antiguidade clássica, para esse poderoso substrato cultural herdado da Grécia antiga que ainda hoje ressoa, poderoso, no nosso ser. Armando Rosa mantém a estrutura trágica da peça de Sófocles, recriando-a com um olhar catalisado pela modernidade tecnológica e científica. Tebas é agora uma estação espacial, dominada pelo ditador Creonte que sabe dar uso à propaganda mediátia e aos meios digitais de controle. As esfinges são mutações genéticas induzidas por cientistas militares para criar soldados temíveis e monstruosos, e há algo de esfinge em Antígona, capitã das forças militares cuja herança familiar maldita está inscrita nos genes. Convulsões políticas, fluidez de géneros, clonagem e bio-engenharia, dominância mediatizada e uma sociedade dividida entre as antigas pulsões e a hipermodernidade são alguns dos temas para onde Rosa faz evoluir o clássico de Sófocles.

Para além de Sófocles, a quem Rosa vai buscar a base da peça, há uma influência muito declarada do transrealismo de P.K. Dick, misto de paranóia com futurismo tecnológico. Os impactos e questões levantadas pela tecnologia contemporânea estão também presentes no texto, que toma a clonagem e a fluidez de géneros sexuais possibilitada pelos avanços na medicina como algo de banal mas ainda a inquietar indivíduos. E termina com outra vénia a um dos mais elegantes recursos narrativos da FC, a metaficção, com Creonte a sublinhar o véu difuso entre realidade e ficção, colocando os personagens numa linha de continuidade que, provavelmente, tem raízes míticas que antecedem a antiguidade e se perdem na noite dos tempos: "Laboram todos no mesmo erro. Mas vou ser piedoso convosco. Abro-vos os olhos para contemplarem o vazio. De facto, nenhum de vós existe. Não somos mais que o passatempo virtual de um engenheiro cibernético, em noites de insónia. Nunca se perguntaram pela razão dos nossos nomes e dos nossos enredos? Somos todos imitações baratas de outra gente antes de nós. Já houve outros Tirésias e outras Antígonas, outras Ismenas e outros Creontes, a viverem farsas e tragédias parecidas com as nossas, noutros cenários e roupagens. A nossa vida não é original. É uma cópia tardia. Fazemos parte de um jogo programado. Antígona morre sempre no fim. Eu preciso que me odeiem para ser Creonte. Tirésias é um sábio indeciso, que muda de sexo como quem muda de peúgas. Hémon e Ismena, lamento dizê-lo, são figuras secundárias. Alguém inventa a nossa vida online e diverte-se a jogar à bola com os nossos neurónios. Gostamos de jogos virtuais e desconhecemos que somos o jogo de outros que nos manipulam. Vocês são uns parolos. Levam a sério a ficção que interpretam."

Intrigante, o texto destaca-se pelo insólito de ser peça teatral de FC portuguesa, revendo um clássico com muita inspiração nas fímbrias mais provocantes do género. Pode ser lido em PDF no site da Fluir Perene: Antígona Gelada.

Comics


Archer & Armstrong #23: Continua cheio de fôlego este revivalismo da Valiant Comics, que soube adaptar-se com muita ironia ao momento contemporâneo. O arco narrativo sobre o poder da fama encerra com o habitual bom humor, reflexões tenebrosas sobre a manipulação comercial da necessidade de entrega a ídolos e um volte-face que implica uma tortuosa viagem no tempo onde os heróis, post facto, vão dispersar os elementos que terão de ser reunidos pelo vilão para permitir que o ritual em que se baseia a linha narrativa aconteça. Pois, labirintos mentais.


Legenderry A Steampunk Adventure #06: O divertido nesta salganhada steampunk é ver o visual dos personagens clássicos agora editados pela Dynamite com roupagens do género. Desta vez o manto recai sobre Zorro, muito palavroso mas com muito estilo neo-vitoriano fantástico. Só é pena que Willingham e Vila tenham regressado ao visual erótico-bárbaro para a Red Sonja steampunk. Nunca percebi porque é que os heróis deste género de fantasias andam sempre de armadura completa (excepto o Conan, que se dá melhor com tanguinhas), e as heroínas tenham uma vestimenta que se resume a lingerie de cota de malha. Não fazia frio nas noites da era hiboriana?


Starlight #05: Se o argumento de Millar faz uma vénia cheia de ironia à FC clássica a ilustração de Goran Parlov vai ainda mais longe. Imaginem o prototípico herói de queixo quadrado a entrar na terceira idade, reformado num anonimato inclemente com as suas histórias de aventura e glória em mundos alienígenas. E imaginem que esse herói tem uma segunda hipótese de regressar aos bons velhos tempos. A ironia é óbvia e a referência a Flash Gordon, Buck Rogers e tantos outros personagens deste género é sólida. Mas Parlov consegue subir o nível com um estilo gráfico que parece ir buscar referências a Moebius, ao anime e aos monstros clássicos do cinema de série B dos anos 50. Não será por acaso que os habitantes do planeta esmagado por um implacável império estelar que serão salvos pelo herói têm um fascínio pelas roupas, penteados, música e automóveis do estilo americana. É outra referência dos autores à inocência da golden age da FC.


Dark Ages #01: Cavaleiros medievais e monstros extraterrestres? Terei lido bem? Uma coorte de mercenários cruza-se com criaturas assassinas vindas do espaço, capazes de transformar os adversários mortos em criaturas zombie. E ainda há um mosteiro de monges com voto de silêncio que conhecem velhos pergaminhos que anunciam a chegada de algo vindo das estrelas. Ficou tudo em aberto neste primeiro número desta nova série da Dark Horse, e as perguntas são muitas. Com Dan Abnett aos comandos narrativos a aposta vai para uma história muito bem pensada de ficção científica. E I. N. J. Culbard está muito à vontade na ilustração que tem o seu quê de lovecraftiano.


Clive Barker's Next Testament #12: Termina aqui a história de Wick, o colorido demiurgo que equilibra a dualidade do bem e do mal cuja propensão para aniquilar as formigas humanas e alterar as leis da física leva ao inevitável castigo. É curioso que Barker prefira o sincretismo de colocar as forças divino-demoníacas como elementos de uma trindade de mito criador fadada a repetir os mesmos padrões ao longo dos milénios. Deuses como bots a seguir rotinas pré-programadas. A ficção de Clive Barker sempre caminhou na corda bamba entre o sublime e o patético, sendo que este Next Testament não é excepção. Mas o seu demiurgo, força divinal de cores fluídas, é uma brilhante personagem de horror metafísico.