sábado, 19 de agosto de 2017

Auras







Alguns momentos do festival Aura em Sintra, fuga a Montejunto, decadência da economia urbana em Torres Vedras e sinalética de grandes superfícies comerciais.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Rise of the Robots



Martin Ford (2015). Rise of the Robots: Technology and the Threat of a Jobless Future. Nova Iorque: Basic Books.

Este não é o tipo de livro a ler se quisermos ser optimistas quanto às tendências da computação, robótica e automação que estão já hoje a moldar a sociedade em que vivemos. Ford traça um quadro negro, onde a maior parte da humanidade é, em termos laborais, tornada redundante pelos progressos na robótica e automação. Tendências que se fazem já hoje sentir, que se vão aprofundar com a combinação entre progresso tecnológico e maior eficiência de produção. Estas forças colocam em perigo o consenso social em que vivemos, levando a tremendas redistribuições de riqueza que favorecem pequenos grupos (já hoje sentimos isso) em detrimento do bem estar geral. A tecnologia parece imparável, e pressões políticas ou sociais não serão suficientes para travar esta marcha de automatização progressiva da economia. As visões tradicionais de formação e educação também não são suficientes para garantir a prosperidade contínua face a estas tendências. Uma evolução que pode levar ao seu próprio colapso, porque ao retirar meios de subsistência da maioria da população a médio prazo priva-se as empresas dos fluxos financeiros que as mantém numa sociedade de consumo. Uma solução possível, na ótica do autor, seria o estabelecimento de regimes de rendimento incondicional garantido, financiado com os rendimentos trazidos pela eficiência económica da automação, com incentivos para ultrapassar esse patamar de rendimentos, permitindo garantir um nível de vida básico e os fluxos de dinheiro necessários para o funcionamento da economia.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

aCalopsia: Dylan Dog: Mater Morbi


Personagem de culto da banda desenhada italiana, Dylan Dog é finalmente trazido para Portugal numa edição Levoir da coleção Novelas Gráficas. Para este primeiro contato do público português com um dos mais intrigantes títulos de fumetti da editora Bonelli, os editores da Levoir escolheram Mater Morbi, uma das mais perturbadoras histórias recentes desta longa série. Mais do que uma história de horror clássica, ou uma aventura típica do Old Boy a enfrentar vampiros, zombies ou outras criaturas da noite, Mater Morbi mexe com o horror interior da implacabilidade da doença. O fetichismo de Mater Morbi é a metáfora para os sentimentos de solidão e impotência face à decadência da doença. Uma história atípica de um personagem já de si atípico, com estatuto merecido de culto. O argumento brilhante e premiado de Roberto Recchioni ganha uma vida lúgubre na ilustração expressiva de Massimo Carnevale, num poderoso trabalho de luz e sombra que confere um enorme peso à história. Crítica completa no aCalopsia: Dylan Dog: Mater Morbi, de Roberto Recchioni e Massimo Carnevale.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

aCalopsia: One Punch Man Volume 2

 
Depois do explosivo primeiro volume, One-Punch Man regressa em força. Este segundo volume mantém o dinamismo, a ironia e o elevado nível de ação cinética que caracteriza esta série. Sem surpresas, One e Yusuke Murara continuam a sua vénia à essência do mangá como leitura de entretenimento, evitando cuidadosamente quaisquer vestígios de profundidade narrativa e temática. One-Punch Man é o que é, um enorme meme feito à custa da cultura otaku. Dá-nos o que queremos ler, acção sem limites nem compromissos, e não pretende ser mais do que isso. Como esperado, este segundo volume são mais 208 páginas de ação dinâmica, entre poses icónicas e signos cinéticos. Divertida e descomplexada, esta aposta da Devir é uma lufada de ar fresco no panorama do mangá. Crítica no aCalopsia: One Punch Man Volume 2.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

aCalopsia: O Cajado de Daghdha



O desaparecimento de um historiador galego residente em Lisboa leva uma antiga aluna sua a mergulhar num mistério, envolvendo sociedades secretas e o poder de um misterioso artefacto. Este alimenta deste o tempo dos celtas lendas que estão vivas na religiosidade cristã que suporta o culto de Santiago de Compostela. O Cajado de Daghdha é uma proposta curiosa publicada pela fundação Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular, da autoria de Norberto Fernández, que consegue abordar o património cultural galego de forma leve e divertida, fugindo ao didaticismo com um livro bem escrito e ilustrado. Crítica no aCalopsia: O Cajado De Daghdha.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Movida


















Dérive por Madrid sempre é um upgrade a ir a Badajoz provar caramelos. Uma semana na capital espanhola, a tentar fugir sem sucesso às armadilhas para turistas e, essencialmente, a ter o prazer de mergulhar nos três museus do Paseo del Arte.

Comics


2000AD #2043: Só surpreende não ter acontecido mais cedo, dada a temática da série Grey Area, escrita por Dan Abnett e ilustrada por Mark Harrison. Grey Area é uma área terrestre destinada a conter os visitantes alienígenas que chegam a um planeta isolado para sua proteção. Na linha da frente desta zona de refúgio e imigração estão os agentes de controlo da fronteira planetária, que têm como missão investigar as naves que chegam e manter a segurança das miríades de espécies alienígenas refugiadas na zona, impedidos de entrar num planeta para evitar contaminações biológicas ou culturais. Numa série que tem como tema a interação entre agentes da ordem e aqueles que vêm de fora, não surpreende que a questão dos refugiados venha a ser abordada.


Hellboy and the B.P.R.D. 1955- Secret Nature: O espectro das relações raciais paira sobre este número da série que explora as aventuras de um jovem Hellboy. É mais fácil aceitar um demónio de pele vermelha do que um agente negro.

aCalopsia: H-alt #05

 

O quinto número da revista de banda desenhada independente H-alt já se encontra online, e em papel nalgumas livrarias e eventos. Uma nova edição, que mostra a aposta de continuidade na promoção dos novos autores de BD. Como projeto cultural e editorial, a revista H-alt continua a sua afirmação como uma referência independente no panorama nacional da Banda Desenhada. Mantém a aposta na continuidade, com o próximo número da revista já anunciado para apresentação no Amadora BD. Continua a sua vertente digital, com um site que vai crescendo em conteúdos, contando com uma boa secção de artigos sobre personagens de BD, álbuns em edição digital e, claro, a própria revista H-alt, editada sempre gratuitamente em PDF a par com a edição em papel. Crítica no aCalopsia: Revista H-alt #05.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Daredevil by Frank Miller & Klaus Janson: Vol. 2; Vol. 3.



Frank Miller, Klaus Janson (2008), Daredevil by Frank Miller & Klaus Janson: Vol. 2. Nova Iorque: Marvel Comics.

Nestas páginas, o amadurecimento de um personagem. Miller soube fugir aos estereótipos dos comics de super-heróis, e cimentou aqui Daredevil enquanto combatente do crime nas ruas, em paralelo com a justiça legalista do seu alter ego Murdock, o advogado. Crime e corrupção nas ruas perigosas da cidade são os temas destas aventuras onde o herói de uniforme não é o ponto principal. Apesar de alguns acenos, com recontros entre Daredevil e Bullseye, Elektra ou The Punisher. Mas mesmo estas narrativas mais corriqueiras estão enquadradas em histórias mais complexas. Definitivamente, Daredevil por Frank Miller é um dos grandes momentos dos comics do século XX.




Frank Miller, Klaus Janson (2008), Daredevil by Frank Miller & Klaus Janson: Vol. 2. Nova Iorque: Marvel Comics.

Este terceiro volume contém a conclusão da Saga de Elektra, onde Frank Miller experimentou um tipo de grafismo altamente estilizado e alicerçado em rigorosos enquadramentos dinâmicos, que viria a explorar ao máximo em Sin City e 300. Contém ainda como bónus uma graphic novel onde Miller passou a ilustração a Bill Sienkiewicz, o que se traduz num momento gráfico extraordinário. Mas reflita-se que a Marvel nunca percebeu muito bem o conceito de graphic novel, quer como forma de atrair novos através da exploração de grafismos vanguardistas, ou dar novas dimensões às suas personagens. As graphic novels da Marvel raramente se distinguiam da continuidade normal das revistas, e esta, apesar do arrojo visual, não foi exceção.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Daredevil by Frank Miller & Klaus Janson



Frank Miller, et al (2008). Daredevil by Frank Miller & Klaus Janson, Vol. 1. Nova Iorque: Marvel Comics.

Foi nas páginas de Daredevil que a carreira de Frank Miller se lançou. Quando chegou ao título, este era um banal comic de super-heróis, não aproveitando as especificidades do personagem em histórias que se mantinham na continuidade de luta contra super-vilões. Miller percebeu que havia ali pano para outras aventuras, modificando o personagem de banal super-herói em direção ao policial negro. Em vez de lutas contra super-seres, Daredevil irá lutar contra o crime nas ruas degradadas da Nova Iorque dos anos 80. Sendo um comic de super-heróis, Daredevil ganhará inimigos de uniforme, mas estes aspectos estão subordinados a uma narrativa maior de luta de um indivíduo contra o omnipresente crime, simbolizado pela figura opressiva de Kingpin, tão poderoso que nem precisa de eliminar o herói que contra ele trava um combate sem fim.

Miller também aprofunda quer a personagem de Daredevil, desenvolvendo bem o seu lado Matt Murdock, quer os personagens secundários que irão desempenhar papéis cada vez mais fulcrais nos arcos narrativos. Essencialmente, traçou as linhas que passaram a distinguir este personagem, entre tantos outros da Marvel. Inicia aqui a relação complexa e assimétrica com Kingpin, a inimizade letal com Bullseye, bem como a influente saga de Elektra.

Ao longo destas páginas sentimos o desenvolvimento de Miller como ilustrador e argumentista, começando pela simples ilustração até à progressiva evolução do seu traço estilizado. As sementes do estilismo iconográfico de alto contraste de Sin City são visíveis nestas páginas de Daredevil. Também, a forma como evolui no contar de histórias, notando-se progressivamente que desenvolve a banda desenhada como arte narrativa. Miller vai-nos dando sequências assombrosas de vinhetas, trabalhando com justaposições, enquadramentos, linhas de força e pesos visuais para guiar o olhar do leitor. A história conta-se não só com as palavras e os desenhos, mas fundamentalmente pelo dinamismo com que o olhar é conduzido, dando maior dramatismo à narrativa. Algo que distingue os melhores contadores de histórias da BD, uma preocupação que não era à altura muito comum no mundo dos comics.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Ringworld



Larry Niven (2005). Ringworld. Nova Iorque: Gollancz.

Ao terminar a leitura deste clássico, fiquei algo surpreendido por Ringworld ser considerado uma das obras marcantes da FC, com direito a edição na lendária SF Masterworks. A prosa de Niven é cativante, o seu mundo ficcional sólido, e o conceito de esfera de Dyson aplicado à escala de um anel planetário construído por uma civilização avançada é fortíssimo. Infelizmente, a história depressa resvala para uma espécie de buddy movie de aventura adolescente, com muitas incongruências que são aceitáveis na FC golden age, mas já não o são em obras vindas de uma era em que o género se afirmava em seriedade e complexidade.

Uma tripulação composta por dois humanos, um aguerrido alienígena dos Kzinti, uma espécie felina e um medroso mas manipulador alienígena dos Pierson's Puppeteers, uma espécie que valoriza a segurança acima de tudo fazem-se ao espaço para investigar uma anomalia detectada numa estrela distante. A promessa é a de receberem em troca um motor hiperlumínico, tecnologia dos marionetistas que dotará quer a humanidade quer os Kzinti de tecnologias que lhes permitam, milénios no futuro, proteger as suas civilizações de um colapso do centro da galáxia do qual os marionetistas, com o seu eterno receio, estão já a fugir, utilizando o seu planeta como nave espacial migratória. A anomalia revela-se um enorme anel que circunda uma estrela, um anel cujas vastidões albergam cidades, oceanos, desertos, docas espaciais, e os vestígios de uma civilização avançada decaída no barbarismo.

A história segue em ritmo de romance-périplo, cada página revela mais sobre os fascinantes segredos do Ringworld, ou sobre as histórias conjuntas das civilizações humana e alienígenas. A questão que, para mim, lhe fez perder o lustre foram detalhes que deitaram às urtigas as ideias de complexidade do mundo ficcional que, à partida, parecem tornear este livro. Começaria pela estranha compatibilidade entre as três espécies principais. Humanos, Kzinti e Puppeteers são radicalmente diferentes em fisiologia, mas todos respiram o mesmo ar, circulam pelos diferentes planetas sem problemas com micro-organismos ou outras armadilhas biológicas. A coisa piora no Ringworld, com os habitantes do planeta artificial a revelarem-se não só humanóides mas também sexualmente compatíveis com os humanos, um toque narrativo adolescente que marca o resvalar de obra de FC sólida para mera história de aventuras no espaço. Parte do enredo anda à volta de uma das personagens humanas, com uma sorte artificialmente desenhada através da manipulação da reprodução humana, levando a que a maioria das situações em que os personagens se descobrem seja atribuída à influência da sorte desta personagem. É um fio narrativo pseudo-científico que prejudica um livro considerado clássico da FC, na génese de uma série influente, e que apesar de ser uma leitura intrigante, me deixou desiludido nas expectativas que se têm perante uma obra clássica. Essencialmente, não é tão bom quanto se esperaria de um clássico.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

H-alt #04



Sérgio Santos (ed.) (2016). H-alt #04. Lisboa: ComicHeart/H-alt.

Corro o risco de me tornar repetitivo ao avaliar cada novo número da H-alt. Mas de facto não há muito mais a dizer sobre a publicação. Continua a ser um veículo de edição para os mais recentes autores de BD portuguesa, suspeitando que se para muitos dos nomes que vão surgindo na revista este será o seu ponto máximo e seguirão outras profissões (nestas coisas das artes, o "a vida acontece" tem tendência a arrasar as boas intenções), outros continuarão e afirmar-se-ão futuramente como ilustradores e argumentistas da BD portuguesa. A H-alt consegue um curioso misto entre juvenilia e qualidade, percebe-se a pouca sofisticação e inexperiência patentes na maior parte das histórias, mas também se percebe a garra e vontade de melhorar. Nisso, o trabalho de editor tem sido mais cuidado. Se nas primeiras edições havia uma sensação de qualquer coisa seria publicada, nas mais recentes notam-se critérios de qualidade. Claro que, no âmbito da publicação e no formato narrativo curtíssimo, não podemos esperar o extraordinário, mas é mesmo isso que valorizo na H-alt: o ser não trampolim mas canal aberto para os jovens criadores, porque como se sabe, o ato de criação é iterativo. Quanto mais histórias concebem e ilustram, mais estes criadores desenvolvem os seus estilos e técnicas narrativas. É este o real papel de incentivo que a H-alt trás ao panorama da BD nacional.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Comics


Injection #14:  Uma inteligência artificial que se cansou de colonizar os mundos electrónicos e agora busca as probabilidades do que está para lá da nossa perceção. Warren Ellis é um mestre na hipermodernidade autista, e este diálogo em particular uma demonstração disso. Na sua newsletter, Ellis observou que "All of the INJECTION volumes are takes on classic British weird fictions. Vol 1 was Quatermass, Vol 2 was Holmes, Vol 3 is Doctor Who. I felt like taking a tour of the old terrains. So Vol 4 is Bond. Vol 5 can possibly be characterised as Carnacki. These are probably personal territories as much as anything". No entanto, neste arco narrativo passado na Cornualha, é-me impossivel não detectar elementos de Arthur Machen, com a magia contida nos vestígios arqueológicos, ou William Hope Hogdson. The House on the Borderlands, com o conceito de zona de fronteira entre o nosso natural e outras naturezas, aplica-se curiosamente a este volume de Injection.

E hey, uma IA que aprende a comunicar analisando pornografia online. Soa absurdo? Mostrando que you can't make this thigs up, recordem aquele bot da Microsoft que teve de ser desligado porque, usando o twitter como base de dados para criar textos automatizados, depressa começou a dar sinais alarmantes de sexismo e xenofobia.
 

Mech Cadet Yu #01: É sempre giro (do meu ponto de vista sci-fi fanboy) pegar em séries YA com mechas. Esta nova série da Boom! mistura o clássico underdog, o jovem desprezado pelas elites graças à sua origem humilde, e robots alienígenas que se unem a humanos para combater terríveis ameaças. Não esperemos muito desta série, é mais uma das infindas variantes sobre o tema, mas a imagem de um robot vulnerável no seu primeiro encontro com o seu futuro piloto humano é encantadora.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Bred to Kill



Matt Hawkins, Linda Sejic (2016). Tales Of Honor Vol. 2: Bred to Kill. Berkeley: Image Comics.

Um mergulho na hard SF militarista do universo ficcional de Honor Harrington, não nos romances de David Weber mas em comic, com argumento de Matt Hawkins. A aventura está em alta quando Honor, numa breve pausa da nave de combate que capitaneia, vai investigar o aparente desaparecimento de um familiar. Visita uma estação espacial dedicada aos vícios, onde o seu parente estava a investigar o uso ilegal de clones para escravatura. O resultado é pura aventura em modo linear, com Honor e alguns companheiros da sua nave a ajudar a pôr fim a um esquema desumano de criação de mão de obra barata. Linear porque o Honorverso (designação da série literária), apesar de ser denso, está focado na aventura e na FC militarista, e foge da complexidade narrativa, algo que Matt Hawkins respeita nos comics.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Blood in the Aether



Jason Aaron, et al (2017). Doctor Strange, Vol. 3: Blood in the Aether. Nova Iorque: Marvel.

Após uma tremenda batalha em que a magia quase é extinta, um enfraquecido Doutor Estranho tem de lidar com os seus velhos inimigos quase sem os seus poderes. Terá de usar a sua inteligência e os punhos para se safar de ameaças progressivamente violentas. E, claro, todos os seus piores inimigos decidem manifestar-se e fazer-lhe a vida negra. Se a ideia do Doutor Estranho a funcionar não como mestre da magia mas como action hero já é bizarra, Jason Aaron leva a coisa mais longe com um alinhamento bizarro dos inimigos de sempre. Com pontos altos no inferno como uma startup que utiliza celebridades mortas para atrair almas, e um vilão que incorporou o olho do Vigia e, essencialmente, anda com um enorme olho peito e uma máscara a condizer. O surrealismo divertido é sublinhado pelo traço de Chris Bacchalo, que não teme a ironia visual.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

aCalopsia: One-Punch Man Volume 1



One, Yusuke Murata (2017). One-Punch Man Volume 1. Palmela: Devir.

Suspeito que é disto que aconteça a quem tenha tido uma dieta mediática composta por séries de televisão japonesas, daquelas onde duplos em fatos exuberantes de espuma e borracha combatem em tentivas de coreografia de luta com maus efeitos especiais, depois de umas generosas destruições urbanas de uma cidade que, se prestarmos atenção, é consistentemente o mesmo cenário, visto de diferentes ângulos para reaproveitar. Se tiverem kaiju à mistura, melhor, naquele sentido de não é assim tão mau que se torne bom, é apenas mau. Ou, talvez, alguma obsessão por jogos de artes marciais indutoras de tendinite carpal, diretos dos velhos tempos das máquinas come-moedas dos salões de jogo. Videojogos onde a combinação repetitiva de botões deveria levar um herói à vitória sucessiva sobre inimigos cada vez mais poderosos, mas que na realidade mal permitiam a aproximação aos mínimos do highscore. Crítica no aCalopsia: One-Punch Man.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

The Cornelius Quartet



Michael Moorcock (2001). The Cornelius Quartet. Philadelphia: Running Press.

Caricatura dos agentes secretos da literatura popular, personagem fluída que escorrega através de tempos, para quem o passado e o futuro são simultâneos. Dandy consumado, com a sua casa londrina e o seu Duesenberg, agente de conspirações secretas, está envolvido com um imenso grupo de agitadores de quem tanto é companheiro de luta como inimigo. Cornelius é uma espécie de novo homem, que se move pela história sem ser agrilhado pela tradição, nexo fulcral de um mundo que se revela progressivamente como uma elaborada comédia, onde todos os anseios e desejos são elementos do papel que cada um desempenha. Essencialmente, um messias da contra-cultura. Personagem de uma série de quatro livros onde Moorcock começa por caricaturar o género de aventuras e culmina no profundo experimentalismo, será posteriormente reescrito pelo autor na sua restante obra, ligando-o especialmente ao seu campeão eterno, Elric, da sua série de fantasia épica.

The Final Programme: Numa Europa em fase terminal, a partir da Londres decadente, Jerry Cornelius vê-se envolvido numa violenta aventura. Este misto de dandy e agente secreto terá de eliminar a sua própria família, refugiada num castelo fortificado na Normandia, enfrentar tédio e decadência numa Londres em crise,  invadir instalações subterrâneas secretas nas fronteiras geladas entre a Suécia, Finlândia e Rússia, tentando manter-se independente face a um grupo de conjurados liderado por uma mulher misteriosa.  Carismática, procura sem parar o código e tecnologias que lhe permitam implementar o programa final: um novo ser humano hermafrodita ,  espécie de computador contendo a soma do conhecimento humano. Um romance bizarro, que oscila  entre a aventura de espionagem e o psicadelismo.

A Cure For Cancer: É complicado perceber com rigor de que cancro se procura a cura do título. Será a morte que consome a adorada irmã de Cornelius, cuja pulsão para as suas muitas lutas está em restaurar-lhe, por breves e incestuosos momentos, a vida? O será o cancro da inconformidade, da liberdade de pensamento, da multiculturalidade, da diversidade? Ao longo deste romance de contornos psicadélicos, as jornadas de Cornelius debatem-se sempre com poderosas forças que visam restaurar a ordem, quer arrebanhando os indesejáveis em campos de reeducação numa américa sob governo ordeiro, quer exterminando-os com napalm e armas químicas lançados pelos caças americanos a auxiliar os aliados britânicos, quer saturando a Europa de conselheiros militares numa guerra em que o inimigo imparável são os israelitas. Por detrás destas forças há agentes de organizações secretas que se aproveitam da confusão para dominar o mundo, ou usam o caos para incentivar a diversidade que tanto incomoda as forças conservadoras. Jerry Cornelius, misto de agente secreto com ser espiritual, símbolo sexual andrógino e estrela de rock, está de regresso para um alucinante périplo entre Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, por entre missões secretas, recontros empolgantes, conspirações inesperadas, muitas mulheres que se rendem aos seus encantos, num registo de pura aventura. Moorcock utiliza neste romance a estratégia narrativa introduzida por John dos Passos, misturando recortes de imprensa com a narração dos acontecimentos. Fiel ao espírito pulp do personagem que criou (apesar de ser um aproveitamento metacrítico das estruturas e conceitos do pulp), os recortes são da imprensa sensacionalista, que também fornece os delirantes títulos da míriade dos curtos capítulos em que se divide o romance.

The English Assassin: As várias realidades paralelas do multiverso colapsam numa guerra que opõe Cornelius e a sua aliada Una Persson aos seus inimigos de sempre. Apesar de ser um romance do arco Cornlius, este personagem mal aparece no livro, estando presente mais em espírito do que em acções. O foco está nas acções dos seus inimigos e outros personagens envolvidos na luta titânica que ameaça colapsar realidades. O ponto de vista é fragmentado e múltiplo, com a história a progredir de forma linear mas fracturando-se nas diferentes realidades em que se desenrola o conflito. Uma simultaneidade quase cubista, onde cada curto capítulo muda o cenário. Moorcock insere livremente diferentes mundos ficcionais da sua obra, com a realidade proto-steampunk dos romances da série Oswald Bastable a intrometer-se neste episódio do arco Cornelius. Romance complexo, de leitura fragmentada, forma um mosaico de episódios aparentemente desconexos mas unidos num rigoroso arco narrativo.

The Condition of Muzak: Neste romance final do quarteto Cornelius, Moorcock mergulha-nos num profundo barroquismo psicadélico. Estilhaça as continuidades narrativas num livro que vai evoluindo de fragmentos de aventuras até à pantomina. Os tempos fluem, passados e presentes coexistem na personagem de um Cornelius progressivamente amnésico. Tudo culmina numa Londres como espaço de utopias, num reino unido fragmentado em miríades de nacionalidades, onde todos, desde os antigos habitantes das ilhas britânicas aos emigrantes, demarcaram os seus territórios depois de uma guerra civil que colapsou a ilha, após uma era de guerra constante que transformou irremediavelmente o planeta. Guerra essa que poderá ter sido causada pelas manipulações dos companheiros de Cornelius, que se repetem em conspirações e ações ao longo dos vários tempos paralelos. O próprio Cornelius, o temível assassino inglês, dandy psicadélico que flui através de continuidades temporais, torna-se uma espécie de rei de uma Londres que ninguém reclama porque ninguém a quer, e após a morte da sua mãe, ao perscrutar os documentos do seu nascimento, intui que com tantos saltos no tempo, poderá ter num passado casado com uma mulher que abandonou, gerando-lhe um filho que é ele próprio. Dos romances do quarteto, este é o mais difícil de seguir, pela forma como Moorcock aniquila as continuidades narrativas. Aliás, nem vale a pena tentar extrair sentidos lineares desta complexa tessitura de fragmentos. Partes remetem-nos para outras aventuras de Cornelius, partes para outras séries, como a Oswald Bastable. O que se sente é uma progressiva evolução de narrativa pulp para algo mais experimental, uma grande comédia (uma harlequinada, para ser mais específico) que unifica todos os universos ficcionais saídos da mente deste escritor.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Visões



Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Luc Besson, 2017)

A ironia disto é recordar que quando os livros da série Valérian: Agente Espácio-Temporal estavam a ser cá editados pela Meribérica, não lhes ligava muito. Muito por culpa do traço de Mézières, naquele estilo típico da BD franco-belga a meio caminho entre o realismo e o cartoon. Enche o olho e ao longo dos álbuns vai evoluindo para visões cada vez mais espantosas, mas para um leitor habituado ao rigor do traço dos ilustradores de FC, o estilo meio cartoon da série era um desmotivador. Isto, e também nunca ter percebido se o surrealismo das personagens e histórias de Christin era para ser levado a sério. Valérian e Laureline não estão pensados para atingir o patamar da obra de um Druillet. É um pouco surpreendente ver esta série mais juvenil do que marcante a tornar-se quase de culto. Ou talvez não o seja, talvez seja uma impressão criada pelo esforço de marketing para promoção da adaptação cinematográfica de Luc Besson.


Uma adaptação que me deliciou. Besson explora muito bem o lado space opera barroca da série, num filme visualmente deslumbrante, que leva ao extremo aquela estética de FC entre o surreal e o psicadélico tão em voga nos anos 60 e 70. É-nos impossível ficar indiferentes ao poder da imagética avassaladora posta à solta por Besson, ao ponto da sobrecarga visual. Algo que já se notava em O Quinto Elemento, aqui levado além dos limites. O material de base isso permite esses voos. Quando se dedica à FC, nota-se que este realizador gosta de fugir ao grimdark, às distopias ou ao realismo sujo, e dá-nos visões quase arcádicas de um futurismo exuberante e exótico.

Baseado no livro O Império dos Mil Planetas, este filme mergulha-nos de chapa, sem sobreaviso, no lado mais esplendoroso do universo de Valérian. Besson não nos poupa, num constante assalto aos nossos sentidos, talvez a esforçar-se de mais para nos mostrar o porquê de tanto gostar destes personagens. Besson é um realizador eficaz, que sabe muito bem gerir o ritmo de um filme comercial, e é talvez aqui que este falhe. A estrutura linear de um filme blockbuster não se adapta bem à vastidão deste universo ficcional. A vénia de simplificação para o público não europeu, com um foco excessivo e a roçar o lamechas na relação amorosa entre Valérian e Laureline, sente-se como oca e  prejudicar o filme.

No fundo, este filme é um bom espelho da série em que se baseia. Um deslumbre visual, arrojado no seu surrealismo barroco, mas sem o esforço de sustentação do universo ficcional que suporta a melhor space opera. Recomenda-se o seu visionamento num ecrã bem gigante, que valorize o visual do filme. E prestem atenção ao momento em que num bairro de prazeres exóticos o intrépido agente se livra de uma prostituta com aspecto de Madame Pompadour, que lhe diz viens, suivez moi, com um hilariante I don't speak french. Uma óbvia piada num filme realizado por franceses, inspirado num clássico da BD francesa. Ou, talvez, Besson a picar os espectadores conhecedores do género, a recordar-lhes que há mais universos a explorar do que o continuum anglo-americano/nipónico da ficção científica actual.

domingo, 30 de julho de 2017

Bang! #22



Por vezes, normalizamos de tal forma o que é pouco habitual por costume, que acabamos por já nem reparar na continuidade de projetos que por cá se caracterizam por serem fugazes. É o caso da revista Bang!, que continua a contrariar a tendência da inexistência de projetos de publicação regular na área do fantástico. E ainda por cima, gratuita. De quatro em quatro meses sabemos que podemos contar com a equipa editorial liderada pela Safaa Dib para nos colocar nas estantes das lojas FNAC mais uma edição recheada de artigos, contos, novidades literárias e banda desenhada. Uma anomalia, no panorama cultural português, onde só o mainstream tem visibilidade e valorização crítica.

Se bem que confesso que ultimamente tenho lido a Bang! apenas por causa dos artigos. É mesmo esse o grande ponto que diferencia esta revista, o desafiar autores, colunistas, investigadores e fãs a partilharem o que gostam e o que sabem sobre os seus gostos. A ficção em contos está a passar-me ao lado, mais por fadiga do que por falta de interesse, e os artigos sobre edições da Saída de Emergência geralmente lêem-se na diagonal, que este menino é mais FC do que fantasia épica/medievalista/sword and sorcery. Faz parte, é o preço a pagar pela gratuitidade da publicação, e sublinhe-se que a Bang! não foca exclusivamente as edições da sua casa-mãe, embora lhes dê um óbvio destaque. A Saída de Emergência já foi, do meu ponto de vista, uma editora mais interessante, mas percebo a necessidade de sobrevivência no mercado com focalização num público alvo. Uma perceção que não vejo no fandom, geralmente agastado porque a SdE não publica exclusivamente aquilo que consideram ser meritório. E, no entanto, no meio de tantos títulos que para os meus gostos literários são mera tralha, a editora lá vai inventando forma de trazer para o mercado português edições de referência. Podemos apontar a teimosia em editar os contos traduzidos de Lovecraft, ou a recente edição de The Dispossessed de Ursula K. LeGuin, com tradução que suspeito ser melhor do que a primeira, como dois dos mais recentes exemplos desse esforço da editora.

Note-se que é todo um caldo que faz sentido. Podemos não ficar agradados da primeira à última página, e ainda bem. Significa que a revista consegue oferecer um pouco a cada tipo de fã, incluindo os da FC. Esta edição foi uma das raras exceções em que os contos também fizeram parte minha leitura. Não resisto ao lovecraftianismo de Um Estudo em Esmeralda de Neil Gaiman e A Vingança de Babel de Carlos Silva é um excelente momento de weird fiction, entre o horror e a FC.

Recordo de ter descoberto por acaso, no espaço de quase livraria da Papelaria União em Torres Vedras, perdida no meio de livros que nem me recordo sobre o que eram, o lendário número zero desta revista. Está ali guardada nas minhas estantes, e de lá não sai. Não foi um projeto editorial fácil, desde os primeiros números com edição independente do Rogério Ribeiro à fase estritamente digital (mas em PDF, o que a tornava algo ilegível em ecrãs) dos primeiros tempos sob a égide da Saída de Emergência, até à sua normalização com edição regular em papel. Mas tem tido continuidade. De tal forma que o lançamento de mais uma edição já não desperta a atenção da blogoesfera, nem nos damos ao trabalho de noticiar mais um número da Bang!. Apesar disso, continuo a inventar espaço na agenda para passar pela FNAC mais próxima com a maior celeridade possível, sempre que é anunciada uma nova edição. Sei que vale a pena a sua leitura, apesar daquela estranha tendência para aplicar um design de página diferenciado para cada artigo, nalguns casos roçando a ilegibilidade (porque texto Times New Roman branco em três colunas apertadas sob fundo azul escuro com pinta brancas, caso do artigo do António Monteiro neste número, deixa-me a pensar que ando a ficar seriamente pitosga por ter dificuldades em lê-lo, até me recordar que não preciso de óculos). É uma das peculiaridades desta publicação.

sábado, 29 de julho de 2017

Supertroll




Quando me pediram para levar os projetos TIC da escola à Feira de Santiago, em Setúbal, não me apercebi que seria uma feira daquelas meu querido mês de agosto, com farturas e carrocéis.