quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Solidificar o imaginário


No fablab Lisboa, a aproveitar o encontro 3D Hubs para aprofundar a investigação naquele que será o passo lógico para este projecto 3D Alpha: impressão 3D. Se os alunos já lidam com modelação, porque não avançar e mergulhar nesta tecnologia que está agora a implementar-se em força? Há factores financeiros a ter em conta mas suspeito que haja aqui muita mais valia pedagógica, em especial se integrada em projectos interdisciplinares. Não que eu seja de desdenhar a criatividade por si só, mas é quase magia quando ideias e conhecimentos de diferentes áreas se conjugam no acto criativo. O que nas vertentes de aprendizagem é algo de fundamental. As horas lectivas separam as áreas, e há que mostrar que os pontos comuns são mais que muitos. Isso, apostar na criatividade e na capacidade de resolução de problemas.


Ver a prusa pelas traseiras, controlada por um thinkpad a correr linux. Open source rulez!

O espaço do fablab, que desconhecia, é um mimo para quem gosta de criar. Nem só de impressoras 3D vive o espaço. Há por lá muita ferramenta e zonas de trabalho que vão da marcenaria tradicional às CNC que cortam materiais a partir de CAD. Tenho de arranjar forma de ir lá mais vezes.


Hello makerbot replicator!

O objectivo deste encontro 3D hubs era o de colocar pessoas em contacto com o 3D Printing e a conversa entre aqueles que estão mais avançados nas utilizações desta tecnologia foi uma experiência de aprendizagem fantástica. Ouvi-los permitiu-me perceber que certas escolhas que ando a fazer estão na direcção certa, despertou dúvidas, esclareceu outras, e aprofundou potencialidades desta tecnologia. Elas são bem conhecidas, e a ideia de que têm um impacto sobre o conceito de indústria tal como a conhecemos é repetido como um mantra. Pessoalmente creio que não será tanto assim. É verdade que quem tem acesso a esta tecnologia tanto pode imprimir um como mil objetos. Mas os custos e economias de escala não se aplicam. E ficam de fora as questões ligadas ao design, à criação enquanto acto mental. Por giro que seja descarregar um modelo em stl de um repositório e imprimir é muito mais interessante conceber, representar, criar e... materializar. Um processo que pouco tem de novo, é algo de elementar desde que há artistas e artesãos. O 3D printing apenas traz para os meios digitais esses processos tão normais em pintura, escultura, enfim, em qualquer expressão criativa que solidifique num material o imaginário do criador. O que intriga é esta nova forma de ser artesão com ferramentas digitais. Percebi que muitos dos presentes olham para a impressão 3D pelo desafio técnico de montar e refinar a impressora e só depois percebem que o processo criativo tem tudo a ver com o objectivo desta nova tecnologia.


As beethefirst como objectos de design.

Em exposição, ou melhor, a imprimir furiosamente, impregnando o ar com o aroma do plástico pla derretido, estavam vários modelos de impressoras trazidos pelos participantes. Interpretem o furiosamente da frase anterior muito ao ralenti. Imprimir objectos não é um processo rápido. O aspecto rude e diy da makerbot impressionava, e o cuidado estético no design das bee nunca cessa de me surpreender. Mas claramente aquela que melhor se adequa aos objectivos do que ando a preparar é a Prusa. A makerbot é bastante cara, algo que também se aplica à bee. Nestas, o conceito de 3D printing doméstico é uma excelente ideia que temo estar um pouco avançada no tempo. Talvez, e espero que assim seja, consigam fatia de mercado com designers e outros criativos que se querem concentrar no conceber e fazer e não nos aspectos técnicos de montar e calibrar equipamentos. As impressoras que vendem são um equipamento muito apetecível.

Mas para objectivos pedagógicos, que é por aí que estou a avançar, a ideia de ter um equipamento semi-fechado faz perder uma das vertentes de abordagem educativa possível com esta tecnologia: o mexer nela, abrir e perceber como funciona, conseguir resolver problemas advindos do seu uso. Em suma, conhecer o que está debaixo do capot, resistindo à tendência de obsolescência programada e restrição do uso do hardware que vamos adquirindo. O Cory Doctorow explica isto muito melhor do que eu, que estou cansado e ainda tenho um relatório de avaliação interna de cem páginas para rever.

Percebi que estou correcto na minha intuição informada sobre a Prusa em termos de equilíbrio entre preço, complexidade de montagem, e comunidade de apoio. Entretanto mostraram-me as OneUp, com preços mais convidativos, mas suspeito que para neófitos pouco à vontade com electrónica é melhor apostar num equipamento que tem uma fortíssima comunidade de utilizadores. Na inevitável hora do SOS é um factor que é capaz de fazer jeito.

Em suma, entrei nervoso sem saber o que esperava. Cheguei lá com muitas ideias. E saí de lá a planar, com muito mais ideias e vontade de levar para a frente esta minha ideia pedagógica de sanidade duvidosa para os mais conservadores. Saí direitinho para um jantar com pessoas ligadas à ficção científica portuguesa e brasileira, e cheguei lá a dizer meus caros, acabei de vir do futuro. Efeitos da exposição ao fablab.

Adrastée


Mathieu Bablet (2013). Adrastée T01. Roubaix: Ankama.


Mathieu Bablet (2014). Adrastée T02. Roubaix: Ankama.

Um rei amaldiçoado pela imortalidade parte em busca do porquê da sua incapacidade de morrer. Quando jovem sempre que comia vomitava uma pedra. Deixou de comer, e parou de envelhecer, acompanhando viçoso o declínio e extinção da sua Hiperbórea. O filho odeia-o, a mulher fenece, os seus súbditos tornam-se pó, só restam o seu palácio e a esfinge que lhe guarda as fronteiras. Mil anos depois, atravessa os portões do seu reino esquecido para atravessar a Grécia antiga, cruzando-se com reinos desavindos, rainhas amaldiçoadas, deuses impotentes, sátiros narradores com propensão para lhe dificultarem a vida com retoques narrativos, descendo aos infernos para questionar as três parcas do porquê da sua imortalidade. Pelo caminho sofrerá atribulações, desesperos, e lutará constantemente pela sua memória que também se desvanece.

Fábula em dois volumes que homenageia a mitologia grega, Adrastée vive do esplendoroso traço do seu criador. Bablet deixa em cada vinheta cenas arrebatadoras. O tratamento que dá à arquitectura é espantoso, com arquitecturas de fantasia a deixar sonhar a imaginação. O lado mais humano da história também não lhe fica atrás. Por mim, estou indeciso entre a espectacularidade das arquitecturas fantásticas deste autor ou a visão que deixou nas pranchas de Talos, o mítico homem mecânico da Grécia antiga. Aliás, não estou. Estes dois álbuns são uma profunda vénia à magia mítica de narrativas que o tempo e a memória humana não só não esqueceram como continuam a apaixonar e influenciar a ficção contemporânea. Há arquétipos poderosos nas velhas histórias vindas das noites profundas da ática e do peloponeso.

terça-feira, 22 de Julho de 2014

Trasgo #03


A terceira edição desta revista digital brasileira continua a manter um bom nível literário, trazendo ao mundo a voz de novos autores do lado de lá do Atlântico. O conteúdo intriga, com boas e divertidas histórias, algumas muito bem conseguidas ao nível literário. A capa deslumbra, algo a que esta publicação também já nos habituou. A Trasgo está disponível para leitura online e ebook.

O Empacotador de Memórias: um conceito intrigante funciona como base deste conto de contornos oníricos de Gael Rodrigues que inicia a terceira edição da Trasgo. Um homem tem a capacidade de materializar memórias daqueles com quem se cruza, tornando-se muito requisitado por aqueles que desejam reviver momentos fugazes, perdidos nas brumas mnémicas. Mas há um empecilho. O retirar a memória implica o seu esquecimento permanente. Tem conceitos interessantes, como o materializar de memórias em bolhas arrancadas que ao rebentarem levam consigo as recordações, ou a ideia de meter memórias numa caixinha para mais tarde redescobrir.

Rosas Brancas: o conto de Roberto Causo é claramente uma parte de algo mais ambicioso. O tema anda à volta de humanos artificiais com falsas memórias, quase super-humanos que não se apercebem do quanto são diferentes em relação à humanidade à qual se julgam pertencer. Esta é uma história de origem, com a filha bio-mecânica de uma andróide a ser raptada como parte de uma conspiração iniciada por um criador que decide optar pelo lucro fácil e vende os segredos da criação de seres artificiais a rivais. Pelo que ficou explícito no editorial esta é uma história que terá futuramente novos episódios. A vénia a P.K. Dick e a Mary Shelley é bem conseguida numa história cheia de acção.

Feita de um Sonho: muito próximo do realismo mágico, este conto de Carolina Veloso parte de uma ideia interessante. Uma rapariga sofre com sonhos muito reais após a morte da mãe, até que esta lhe confessa em sonho que o pai que nunca conheceu afinal a concebeu durante um sonho. A narrativa arrasta-se em lirismos desnecessários, mas surpreende especialmente depois de se perceber a jovem idade da autora.

Invasão: um conto delirante e hilariante de Claudio Parreira. Um jovem a tentar aproveitar um sábado pachorrento vê a casa invadida por uma avalanche de gente bizarra. O bom humor impera e o final é de ir às lágrimas. Aquele "só quero uma cerveja" é brilhante.

Viral: ao ler este conto de Tiago Cordeiro fiquei com aquela sensação de que já tinha lido algo muito parecido algures. E tinha. Num dos episódios de Global Frequency de Warren Ellis um bairro é infectado por uma mensagem viral que transforma os pacatos habitantes em agentes de uma inteligência alienígena. Este conto é muito similar, só que em vez de origem extra-terrestre o sinal nasce de uma experiência criptográfica, é transmitido por emissoras de rádio piratas e transforma os afectados em zombies capazes de articular discurso. Não parece tratar-se de plágio, antes do reconhecer de uma fortíssima influência de, como o autor refere nas entrevistas que encerram esta e-zine, um comic que já não se recorda o nome.

O Vento do Oeste: um conto de Liége Toledo que se aproxima de contornos épicos, cuja mais valia é a belíssima e convincente construção ficcional de inspiração da fantasia épica de sabor orientalista. Desprezado pelos habitantes de um país desértico, um filho de um demónio enfrenta o pai para salvar a vida a uma jovem rapariga, devolvendo-a à família e evitando que tenha o mesmo destino do da sua mãe.

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Black Swan



Bruce Sterling (2010). Black Swan. Milão: 40K.

Tem sido evidente que Sterling se apaixonou pela ideia de Europa de uma forma que só o turista prolongado consegue. Fascinado pela elegância italiana, celebridades francesas, capacidade alcoólatra ex-jugoslava, pelas complexidades rizomáticas da intricada cultura europeia que admira pelo optimismo progressista. Haja alguém que ainda acredite no sonho europeu. Ou isso ou sabe-lhe demasiado bem enrolar a língua com nomes estranhos ao inglês texano. Este antigo enfant terrible do cyberpunk metamorfoseou-se em guru da tecnologia e isso sente-se na sua ficção. Suspeito que os contos que vai publicando aqui e ali sejam escritos para se convencer de que ainda consegue escrever mais qualquer coisa que não sejam insights potentes sobre as armadilhas da era digital, algo em que é muito bom.

Este é um caso típico. Percebe-se o deslumbre pela forma como utiliza a iconografia pan-europeísta com toques de hipermodernidade tecnológica. As personagens são os prototípicos entes do novo mundo digital, desde o blogger que vive de scoops ao hacker sombrio, sem esquecer as personalidades vácuas dos media e a modernidade decorativa e arquitectónica que preserva o clássico pitoresco. Dá uns toques cyberpunk com uma história sobre realidades paralelas criadas colapsando probabilidades quânticas de acordo com a interferência do observador. Mas o que realmente o deslumbra é imagem soalheira do pan-europeísmo chic, mescla de elegância, fascínio tecnológico, arquitectura pitoresca das velhas cidades e traços de carácter nacionalistas, que acabam por levar a primazia nestas suas mais recentes histórias. Isto é o Bruce Sterling de Holy Fire, versão redux, longe do Sterling de Schismatrix. Mas sublinhe-se que um Sterling mediano é mais acutilante, interessante e observador da modernidade do que excelência de muitos, por isso vale sempre a pena ler. É como mergulhar no Beyond the Beyond ou no Tumblr, com ficção a substituir as realidades de ponta.

Comics


Judge Dredd Megazine #350: Confesso que apesar de ser fã do ol' stoney face e da 2000AD não tenho muita paciência para a Megazine. O universo ficcional de Dredd é divertido mas não há pachorra para as infindas variantes dos juízes justiceiros. Mas há excepções, e esta é uma delas. The Man from the Ministry é ficção científica de alto nível, misturando o secretismo institucional dos Men in Black com o retro-futurismo de Ministry of Space de Warren Ellis. Se bem que o tom é pós-austeritário, com um representante de um departamento governamental que já viu dias mais gloriosos como resquício de uma organização cuja tarefa é a defesa do reino contra ameaças alienígenas mas que ao longo dos anos não tem conseguido vencer a ameaça dos cortes financeiros burocráticos. O tom narrativo é excelente, com o argumento de Gordon Rennie a criar um mundo ficcional convincente e intrigante, enquanto o traço clássico a preto e branco de Kev Hopgood remete para o ambiente gráfico dos comics clássicos dos anos 50 e 60. Não sei porquê, isto faz-me pensar nos Quatermass Experiment.


Legenderry A Steampunk Adventure #05: Bill Willingham é exímio no trabalho derivativo, como se comprova pelo sucesso recorrente da série Fables. É isso que torna esta salganhada steampunk divertida. Deram a Willingham a tarefa de pegar nos personagens cujos direitos são agora detidos pela Dynamite e metê-los num universo ficcional coerente, e tem-se safado com isso. Não é tarefa fácil misturar Flash Gordon com The Shadow, ou colocar Red Sonja a partilhar espaços ficcionais com Vampirella. A suspensão de descrença na suspensão de descrença funciona ao criar um espaço alternativo, utilizando o alternativismo Steampunk como aglutinador. Parte do jogo está no identificar de quem é quem, e de que até que ponto o personagem continua reconhecível neste universo diferente. Para fãs do steam a ilustração é uma delícia, servindo-nos o que esperamos da iconografia do género.


Manifest Destiny #08: Esta série não parece estar a atrair muitas atenções, o que é pena. A mistura de weird western com história alternativa é muito inteligente neste recontar da viagem exploratória de Lewis e Clarke pelas vastidões americanas, aqui neste comic um espaço habitado por monstros e criaturas de fábula. Os ineptos exploradores cruzam-se constantemente com ameaças inesperadas e intrigantes habitantes habituados à sobrevivência numa terra inclemente onde os rios são habitados por batráquios carnívoros gigantes, as florestas por zombies verdejantes e as pradarias por centauros canibais.


Silver Surfer #04: Duas boas razões para ler esta nova iteração do Surfista Prateado. O bom humor do argumentista Dan Slott. O encadeamento inteligente de frases espirituosas aniquila as tentativas de criar dramatismo, mas que se dane. Comics a usar e abusar do carácter dramático é coisa que por aí abunda. O trabalho gráfico de Michael e Laura Allred, naquele impecável registo pop/retro a fazer recordar as capas garridas da era dourada dos comics.


Witchfinder: The Mysteries of Unland #02: Hellboy é o que é, caso de sucesso deixado em banho-maria para não morrer por saturação. B.P.R.D. expande-se mas arrasta-se na repetitividade. Restam este Witchfinder e Baltimore para continuar o gostinho pelo horror gótico de Mike Mignola na Dark Horse. Este Witchfinder é eminentemente anglicista e remete-nos para os ambientes ocultos de W. H. Hogdson, Shiel ou Conan Doyle no seu lado mais obscuro. Mistérios arquetípicos, segredos ocultos em aldeias inglesas, stiff upper lip e monstros do além espaço. Divertido, creepy na maneira certa, e a homenagear o terror gótico.

domingo, 20 de Julho de 2014

Acasos


É bem conhecido o argumento da nostalgia como uma das explicações para o gosto pela ficção de género. Algo explorado pelos que coleccionam antigas edições e se apaixonam pelas iconografias do imaginário de outras épocas, que hoje nos parecem pueris mas pitorescas. Algo visível nas eternas discussões sobre o género e as épocas douradas que precederam a contemporaneidade. E algo que não surpreende. O chamado sense of wonder, esse carácter de surpresa e deslumbre absolutos tão valorizados por quem gosta das ficções fantásticas, está talvez intimamente ligado com as descobertas feitas na infância e adolescência, e uma incessante busca por replicar esse sentimento.

Há algo de indissociável de experiências precoces, quase iniciáticas, e a continuidade da busca da sensação do deslumbre. Não quero com isto dizer que essa seja a razão fundamental para os gostos das ficções de género. Para mim, são as elaborações de mundos ficcionais, os voos de imaginário e a especulação futurista informada que me atraem. Mas não deixa de haver um factor nostálgico. Não se esquece a sensação de deslumbre com o primeiro livro de ficção científica que realmente me tocou - as Crónicas Marcianas de Bradbury. A iconografia das velhas séries entrevistas na televisão a preto e branco persiste. A verosimilhança dos módulos Eagle, o alto modernismo arquitectónico de Buck Rogers, a excitação do combate espacial de Galactica são imagens mentais que persistem, mesmo sabendo que exceptuando nestes detalhes estes produtos mediáticos envelheceram mal, e o que parecia espantoso à época oscila hoje entre o ingénuo e o patético. Suspeito que até estou a ser simpático no qualificar das estruturas narrativas, efeitos especiais e estereotipagem dos personagens.

Mas confesso que tenho uma memória mais antiga, ou talvez contemporânea, os neurónios não são clementes com o tempo, de algo ligado ao horror. Recordo-me de ser muito jovem, ainda sem dez anos feitos, e passar as férias de verão na aldeia dos meus avós paternos. Recordo entrar na casa de um dos amiguitos da aldeia, na altura, o filho da gente rica da terra, ir à garagem para irmos buscar um qualquer brinquedo, e ter o olhar atraído pelas páginas lúridas de uma revista. Recordo vagamente de uma história com mulheres estonteantes semi-despidas, homens de armadura, e uma imagem que se fixou para sempre na minha mente: a de uma espada que corta um homem ao meio, com o pormenor da anatomia interna seccionada pelo gume. Não diria que fiquei traumatizado mas que a memória ficou impressa nos neurónios, lá isso ficou. Há medida que ia avançando pelas literaturas e bandas desenhadas de terror recordava essa sensação de curiosidade e fascínio. Mas nunca esperei reencontrar essa imagem específica. Até ontem à noite, quanto olhei com atenção para uma digitalização de uma antiga edição da Zakarella. Onde, para minha grande surpresa, reencontrei a vinheta que nunca esqueci. E ao fim de trinta anos, se não isso, lá perto anda, li finalmente a história que me despertou a curiosidade para os horrores clássicos. Trata-se de um trabalho de Sam Glanzmann, possivelmente para a Vampirella, Eerie ou Creepy, republicada em português na revista que incluía as bizarras ficções pulp de Roussado Pinto com Zakarella, uma bastardização muito surreal da vampira sensual do terror clássico na banda desenhada.

Azul




sábado, 19 de Julho de 2014

Dispatches from the Future


Pequenas, mas divertidas e intrigantes provocações de Ficção Científica na Popular Science de agosto. Imaginários de futuros possíveis numa revista dedicada a popularização científica numa vertente maker old style. Boa desculpa para escritores brincarem com conceitos tecno-futuristas sem se preocuparem com estruturas narrativas complexas. Vivendo neste presente algo deprimido não consigo de deixar de fazer uma vénia a The Power of Tomorrow, que reflecte as desilusões com o brilho desvanecido dos futuros prometidos que uma humanidade preguiçosa, ou simplesmente para aí não virada, não se deu ao trabalho de construir. Não temos colónias orbitais, mas bolas, temos televisão por cabo com quinhentos canais cheios de inanidades! E viva a utopia!

Bricabraque




Acumulações.

sexta-feira, 18 de Julho de 2014

Dylan Dog: La Cara Mamma; Sulla Pelle; Una Nuova Vita.


Giancarlo Marzano, Giovanni Freghieri (2013). Dylan Dog Almanacco Della Paura #23 - La Cara Mamma. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Esta aventura do detective dos pesadelos intriga pela forma como o argumentista nos conduz a um final previsível mas com um volteio final intrigante. Acompanhamos um filho da mamã, não um filho da mãe mas um homem de meia idade que nunca se libertou das saias da mamã ao mesmo tempo que a cidade é assolada por um serial killer com propensão para decapitar jovens vítimas. Ficamos desconfiados que este homem patético será o assassino, desconfiança reforçada por uma mamã que aparenta ser um monstro com um toque de zombie, presa à cama por correntes e uma certa propensão para levitação, que o filho gosta de acalmar com presentes bem escolhidos. Suspeito, não? Dylan mete-se nisto porque anda a namorar uma jovem bibliotecária, colega de trabalho do homem que não larga a sua mãe. Rapariga simpática, comete o erro de ser bem educada para o filhote eterno e vê-se obrigada a aturá-lo. Entretanto Dylan é assombrado por um espírito que o leva à casa onde se oculta a monstruosa mãe. Afinal, esta está possuída por um demónio que teve azar na escolha da vítima e aprendeu uma dura lição. Ao possuir humanos verificar antes se estes não têm filhos possessivos com acesso a tomos sobre ocultismo e magia por trabalharem na maior biblioteca de Londres. E onde é que o assassino em série entra nisto? Passamos a maior parte da aventura com a certeza que é este homem de meia idade de ar patético, com as suas prendas ao monstro que chama de mãe que tudo nos indica serem as cabeças decapitadas das vítimas incautas. Mas não, afinal o assassino é o seu vizinho da frente, identificado pela mãe da primeira das vítimas, mulher estrangeira que ao perder-se em Londres é ajudada por Dylan a contactar a policia. A história é linear e as surpresas inesperadas conferem-lhe algum sabor. Sem ser excepcional ou sequer excelente, é uma boa aventura regular do detective dos pesadelos. O mérito do argumentista está no ter ultrapassado um pouco o que é esperado da série.


Bruno Enna, Piero dall'Agnol (2013). Dylan Dog #326: Sulla Pelle. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Quando a coisa se arrasta, arrasta. Elementarmente linear, previsível em todas as vertentes. Esta eminentemente esquecível aventura do detective dos pesadelos coloca-o a investigar tatuagens que permitem a um shamã tomar conta dos corpos de quem tatua e lançar-se numa orgia assassina enquanto dá caça a um livro de tatuagens polinésias cujos padrões permitem acesso a poderes ocultos. Um ponto baixo na série, quer pelo argumento banal quer pelo traço. O fumetti não se distingue particularmente pela mestria dos seus ilustradores, que suponho sejam obrigados a seguir um estilo rígido definido pela editora. É muito difícil perceber os traços individuais dos desenhadores. Neste caso até o é, mas isso não é bom sinal.


Carlo Ambrosini (2013). Dylan Dog #325: Una Nuova Vita. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Carlo Ambrosini surpreende com esta bem lapidada gema literária do horror. Dylan Dog tropeça numa aventura onde frustrações do presente e do passado se cruzam. Na frente ocidental um soldado que combate para se vingar da morte da família às mãos da artilharia germânica é ferido de morte nas trincheiras. Incapaz de morrer, é recolhido ao hospital de campanha onde garante não ser um ex-pintor francês, poilu nas trincheiras mais a sul, mas sim um médico inglês cujo espírito foi transportado ao passado. Porque no presente uma simpática enfermeira envolve-se com Dylan ao tentar acompanhar um dos seus pacientes, um jovem com uma paralisia congénita que após o falecimento dos pais num acidente é acompanhado pelo irmão mais velho, que por isso se vê obrigado a abandonar uma carreira promissora e a namorada. Frustrado, sente-se tentado a assassinar o irmão paralítico, mas arrepende-se a tempo. Só a intervenção de uma misteriosa ama arménia irá despoletar os saltos temporais dos espíritos enquanto liberta um malévolo espírito vingativo. O segredo final revela-nos a ama enquanto assombração, morta longe do filho que adora e cujo espírito inquieto busca vinganças. A narrativa é suficientemente tortuosa para intrigar, enquanto o carácter tenebroso das descobertas progressivas de Dylan vão mantendo um ambiente convincente de conto de terror.

quinta-feira, 17 de Julho de 2014

Ficções

Cimmeria: From the Journal of Imaginary Anthropology: Que espantosa vénia esta de Theodora Goss a Jorge Luís Borges. Se no clássico Tlön, Uqbar e Orbis Tertius uma enciclopédia imaginária metamorfoseia a geografia real, Goss vai mais longe e imagina um grupo de antropólogos que investiga a possibilidade da meticulosa criação de um país imaginário se tornar realidade. Parece que funciona, com o grupo hospedado no país por eles criado, cujos habitantes são sensíveis à possibilidade de serem materializações de ficções académicas. We dream countries, and then those countries dream us, lê-se a meio do conto. E poderemos ser nós sonhos, ficções convencidas que são reais? Quando os mapas assumem a escala do real talvez o simulacro passe a ser o objecto. Mas a diluição do real não se fica por aqui. Parte do conto envolve as consequências de pormenores sociológicos inventados que acabam por transformar o real, como um conceito de unicidade do ser cuja implicação prática passa, em gémeos, pela invisibilidade completa de um deles. Essa sombra, progressivamente invisível na medida em que o mundo real se adapta à ficção, reserva a mais curiosa surpresa do conto. Vénia borgesiana, na Lightspeed Magazine.

The Hounds of Tindalos: Frank Belknap Long fez parte do círculo de escritores que aprofundou e manteve vivo o mythos de Cthulhu lovecraftiano. Este conto replica o estilismo de H.P. Lovecraft, embora sem o exagero barroco de recorte cósmico. Tenta andar lá perto, mas não chega lá. Long era admirador de Lovecraft mas não o consegue imitar. A história mergulha-nos num mundo de misticismos ocultos, com base naquela ideia clássica que a ciência contemporânea apenas consegue levantar o véu para antigos saberes esquecidos, a curiosa estratégia encontrada por estes autores para conjugar a atracção pelo oculto com a pujança da revolução científica que começava a modelar o século XX. Note-se que o mythos foi desenvolvido nos primeiros anos do século passado, quando as transformações trazidas pela conjugação de industrialização, tecnologia e progresso cientifico começaram a dar forma ao que se veio a tornar a sociedade contemporânea. Long mostra-nos um infatigável explorador dos espaços místicos que experimenta uma droga rara que lhe permite quebrar as barreiras do espaço-tempo. Abandona a linearidade e mergulha numa simultaneidade em que todos os tempos coexistem num mesmo momento. E ao chegar ao início do tempo depara-se com um segredo inexplicável e com os mastins de Tíndalos, implacáveis caçadores daqueles que se atrevem a ultrapassar as barreiras do tempo. Numa vénia a outra vertente da obra de Lovecraft, Long define estes seres monstruosos como capazes de se infiltrar na nossa realidade através de intersecções de geometrias angulares, o que recorda um conto de Lovecraft sobre um jovem estudante que descobre uma divisão inteira dentro de um ângulo recôndito da água furtada que aluga.

The Panda Coin: O percurso de uma humilde moeda pelas mãos de quem a usa a servir para fazer um retrato transversal de uma distopia futura. O percurso começa nas mãos de um humilde trabalhador humano, que projecta na filha os seus esforços e esperanças. A filha afinal tem os seus segredos e usa a moeda para pagar uma dívida a um elemento social menos saudável. Este, por seu lado, faz uma encomenda a um criminoso mais acima na cadeia alimentar, que tem como peculiaridade estar apaixonado por uma prostituta andróide. Ela é fiel à sua programação original mas busca a elevação das limitações da sua consciência artificial limitada comprando blocos de memória na esperança que isso lhe traga transcendência. Quem vende este hardware, andróide de nível superior, reporta directamente a uma das inteligências artificiais que controla a sociedade desta colónia orbital que, por bizarrias de programação, replica em cada sector o clima de cada mês do ano. Esta percebe logo a razão de ser do artefacto: fazer um reconhecimento profundo da colónia. Um conto intrigante. O artifício da moeda que muda de mãos permite ir levando o leitor à descoberta desta sociedade onde humanos estão no nível inferior, logo seguindo dos não menos infelizes andróides, num mundo dominado por inteligências artificiais que tudo vêem. É também curioso que cada personagem projecte no nível acima de si ideais de perfeição, enquanto despreza aqueles que lhe estão abaixo. Isso é particularmente visível na meretriz robótica, que desdenha os clientes humanos de que necessita para sobreviver mas é menorizada por quem lhe vende os adereços inúteis com que espera aumentar a sua inteligência. Uma visão brutal de Jo Walton.

quarta-feira, 16 de Julho de 2014

Geometria urbana




Luz, planos e linhas.

Terminal Tower


André Coelho, Manuel Neto (2014). Terminal Tower. Lisboa: Chili Com Carne.

Não se espere desta obra pouco clemente uma narrativa linear ilustrada. Neste livro experimental os códigos da BD são levados a um extremo próximo da abstracção. Não é simpático para o leitor, pois deixa quase tudo em aberto e descarrega nele imagens fortíssimas e acutilantes. Não tem de o ser. Um dos traços da maturidade do género é a amplitude de um campo de expressão que vai do pueril intencional ao questionar dos limites, zona de fronteira onde este Terminal Tower tão bem se insere, mais próximo de uma sequência pictórica do que da narrativa linear. Lendo-o, ou sendo mais preciso, construindo mentalmente uma possibilidade ficcional a partir da iconografia, ressoava-me na mente o ruído elegante do noise industrial (sim, essas coisas atraem-me). É uma interpretação discutível, bem sei, mas reagi a este livro mais como o faria numa exposição/happening do que como leitura. A narrativa dilui-se na imagem, ficando uma obra muito próxima da poesia visual.

O livro tem uma imagética de tirar o fôlego. O grafismo é uma colisão da bunker architecture de Paul Virilio com a desolação modernista de Ballard, o surrealismo difuso de Enki Bilal, a estética de collage de Dave McKean e alguns traços de mangá. Talvez esteja a ver demais, mas apostaria que há algo do desenho George Grosz nalguns momentos específico. Se as influências são evidentes esta não é uma obra derivativa. Muito pelo contrário. O ilustrador André Coelho consegue deixar nas pranchas momentos gráficos de uma negra e visceral beleza. Sente-se nalgumas a ferrugem decadente da desolação industrial, as trevas de um mundo corroído, o silêncio da natureza que devora ao seu passo tranquilo o que o homem construiu. Mais do que uma história, este livro é uma experiência do tipo mancha de Rorschach. Vê-se o que se espera, mas também se vê o que se sente no íntimo. E sublinho: contém ilustrações de tirar o fôlego, que se destacam no absoluto preto e branco mate do papel impressão mas se vistas no tamanho real e media original ainda são mais deslumbrantes. Na El Pep estão expostas algumas das pranchas do livro, uma visita que se recomenda.

terça-feira, 15 de Julho de 2014

Leituras

Fantastic Voyage: Podemos ser mais nariz empinado ao falar das ficções de género? Leiam: "Certain amusements appropriate to childhood or adolescence have established a beachhead in adulthood, or its 21st-century American simulacrum. Grown men and women indulge, with or without shame, in video games, fantasy football leagues, sitcoms, online porn, comic books, and movies based on comic books—or that involve Las Vegas, 33 shots of tequila, and waking up athwart two female Sumo wrestlers and a chimpanzee". Sim, podemos: "And of course, for those who still feel obliged to read something semi-respectable but prefer not to trouble themselves with heavy lifting, there is science fiction, as well as the fantastic adventure tales that don’t quite fit into that genre but are the next best thing". Ah, pois. Essa coisa da FC é para putos e adultos imaturos. Pessoas de bem, equilibradas e bem formadas dedicam o seu tempo a leituras mais elevadas. E ficam chocadas se se virem obrigadas a contemplar as pilhas de esterco imaturo das naves espaciais e tecnologias. Pessoalmente, apesar de reconhecer a importância de Verne na história literária da FC, também não o considero assim tão brilhante autor. O que irrita, já cansa e com os intercâmbios culturais que têm caracterizado o final do século XX e o início do XXI algo de muito demodè é esta história da ficção de género como algo menor, apenas apropriado para mentecaptos imaturos incapazes ou preguiçosos para se dedicarem às leituras verdadeiramente edificantes.

Yesterday's Tomorrows and Tomorrow's Yesterdays: Utopian Literary Visions of Antarctic Futures: Devo ter tido sorte, ou então ando preguiçoso para caçar o pdf, mas consegui ler este muito interessante artigo de Elizabeth Leane. A coisa agora está por detrás duma daquelas irritantes e inexplicavelmente caras paywalls académicas. O foco está nas utopias (e distopias) que tenham a Antártida como pano de fundo e traça um retrato intrigante de ficções de autores anglo-americanos que imaginam futuros diferentes no continente gelado. Se se estão a perguntar se vai até aos mitos urbanos sobre bases nazis, não, não vai, mas não se esquece de At The Mountains of Madness de Lovecraft, descrito como uma inversão da visão da Antártida como uma inversão da visão de um futuro antártico sob o brilho da indústria.

Flying Saucers Would Never Land in Lucca: The Fiction of Italian Science Fiction: Suponho que du fumetti a literatura o passo seja lógico para ficar a conhecer outras tradições literárias de FC na europa, onde as barreiras linguísticas impedem a disseminação das culturas de género, a menos que haja investimentos na tradução. Este artigo de Arielle Saiber detalha a história da FC italiana, centrada na literatura, fugindo ao cinema e banda desenhada (com grande pena minha, que adoraria saber se há mais FC no fumetti para além de Nathan Never/Agenzia Alfa). Descobre-se Urania, a mais antiga colecção literária de FC em publicação contínua, fica-se intrigado pelas análises liminares à obra dos escritores italianos do género, mas o tom generalizado é o da dificuldade de implementação do género em Itália, visto como uma conjugação de elitismo com fatalismo e a industrialização tardia de um país de raízes agrárias. Mas, essencialmente, elitismo literário.

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

half-described in a cheap science fiction paperback

"There will be one thing you do today that would have been difficult or impossible twenty years ago, impossible or unimaginable forty years ago, and unimaginable or half-described in a cheap science fiction paperback sixty years ago.  Look for it.  When you find it, think about it for a minute.  When did it arrive?  Did you notice when it first surfaced into the world?  In twenty years’ time, will it be present, broken, or such an irrelevance that you’ll think about it nostalgically?"

Warren Ellis, Morning Computer.

Imaterial exequível


Às voltas com a ideia de património imaterial, o que é, como o captar e arquivar para não se desvanecer. No meu caso com a variante como posso usar saberes de outras disciplinas com ferramentas digitais. Ou melhor, ando farto de naves espaciais, carros e casas e estou à procura de estratégias de abordagem de ferramentas TIC que incorporem desafios e saberes de outras áreas. Para isso nada melhor do que passar as fronteiras do digital e infiltrar-me em contextos muito diversos do que me é habitual. No caso, das preocupações e metodologias de trabalho do campo da História. Ser-me-ão úteis? Não directamente, mas ficar a saber como se trabalha permite afinar abordagens digitais. Dá para desafiar colegas de outras áreas com conhecimento de como fazem e aliviar-lhes a carga de trabalho, sempre um argumento positivo nas partilhas. Daí este vídeo, essencialmente uma prova de conceito a partir de registos de visita a um bairro lisboeta, recorrendo a fotos, recolha de sons, filmagem e indícios espaciais fundidos num pequeno filme que procurar recriar a sensação de deslumbre da descoberta com um toque de dérive (deixei os aspectos mais técnicos - em termos de história, para os restantes elementos do grupo de trabalho). É um tipo de projecto que me parece exequível com os meus alunos. Mas não se fiem muito em mim porque a minha definição de "exequível com alunos" mete coisas do tipo 3D e similares.

Tip of the hat para o Professor Imperfeito, que me vai deixando participar nos desafios que vai lançando por Lisboa e com isso me permite alargar horizontes conceptuais em áreas longe daquelas de que sou nativo. E oportunidade para tirar boas fotografias (ai a imodéstia, o convencimento, a hubris).

Comics


2000AD 1889: Das melhores coisas de Dredd é a ironia distópica. Nesta edição termina uma divertida história sobre um Klegg que, ao contrário do estipulado no universo da mega-cidade, é um afável e pacífico alienígena mutante apesar do aspecto, e da fama, de sanguinário crocodilo. Caçado por uma infindável panóplia de caçadores urbanos, tem um momento em que as suas raízes de violência começam a despertar, mas bolas! Correcção gramatical acima de tudo. Uma apóstrofe trava a explosão para saurópode sanguinário. Spoilers: a história acaba bem para esta culto e afável criatura. Que é tão horrenda que o próprio Dredd considera, por breves instantes, ajudar os criminosos que a perseguem.


Captain Marvel #05: Kelly Deconnick deu o salto completo para a space opera neste quinto número da série. Já se tinha percebido desde os primeiros números mas ainda não tinha havido um momento tão óbvio, tão dentro da iconografia do género. É raro este descaramento num comic de primeira linha, e sublinhe-se que a DC cancelou recentemente Stormwatch, o seu título mais space opera. Suspeito que esta abordagem tenha a ver com a estratégia cinematográfica da Marvel e o brevemente a estrear Guardiões da Galáxia, onde esta Capitã Marvel também está metida. Note-se que isto não é um resmungo. A amplitude de horizontes e o divertimento puro da space opera é sempre bem vindo.


Magnus Robot Fighter #00: É muito interessante a abordagem de Fred VanLente ao reboot de uma personagem clássica. São mantidos alguns dos elementos libertários originais mas o argumentista mete-se com conceitos contemporâneos como a convergência homem-máquina, a quase religiosidade da singularidade tecnológica, a ideia de pós-humanos a manter viva a cultura humana que os originou, e até a expansão da inteligência artificial pela galáxia através de máquinas de von neumann, a que VanLente dá um carácter particularmente mítico com a linha narrativa de IAs que se tornaram conscientes e abandonaram o planeta natal, abrindo espaço às suas versões mais simples para de desenvolverem e recriaram um mundo onde aguardam pelo regresso daqueles que são quase os seus deuses. Ao contrário do original, aqui os robots não são um mal absoluto e inimigos da humanidade. Isso é-nos sublinhado neste one shot, em que acompanhamos a vida de um dos robots que é alvo sucessivo das sevícias dos vários robot fighters. Máquinas inteligentes, cujas consciências migram automaticamente para um servidor central quando os corpos mecânicos são destruídos. Transmigração digital, o velho sonho mítico da alma humana atingido artificialmente por inteligências artificiais que ritualizam uma cultura humana que idolatram como percursora, replicando-se como quase-humanos e vivendo vidas propositadamente banais. É curioso que esta premissa anda muito perto da do comic independente D4VE da Monkeybrains, embora este seja mais cómico e histriónico na abordagem.


The Life After #01: Não se trata bem do inferno ser as outras pessoas. É o purgatório, aqui imaginado como um loop infinito onde suicidas são castigados com o reviver continuamente aquilo que os levou ao suicídio, num limbo espiritual completo com salas de controlo de alta tecnologia. Não há infernos perfeitos, e uma alma penada presa numa eterna rotina burocrática descobre sem querer os pontos fracos das barreiras erguidas à volta das punições pessoais de cada indivíduo. Uma intrigante surpresa na fornada de comics da semana da Oni Press.

domingo, 13 de Julho de 2014

Dissolution, chaos, dystopia

"While genre SF has often imagined the dark sides of the future (or alternate presents and pasts), the optimism of its earliest years (the 1920s-40s)—the excitement at the thought of discovering new worlds and new, galactic and extragalactic life, and science and technology’s promise for a better life—are less common (although certainly not absent) in current SF. Dissolution, chaos, dystopic and post-apocalyptic visions of the environment, economies, governments, societies and humanity are SF’s current subjects of choice."

Arielle Saiber, Flying Saucers Would Never Land in Lucca: The Fiction of Italian Science Fiction.

Pastilhas Gorila




Uma Lisboa que perdura.

sábado, 12 de Julho de 2014

Insta




A render-me ao facilitismo do Instagram. Não é nada que eu não saiba fazer com ferramentas de edição de imagem, mas dá trabalho, obriga a puxar do computador. Isto seduz pela instantaneidade do acto de fotografar, editar e partilhar online. E tem alguma piada estética, se bem que banalizada pela pervasividade das redes sociais.

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

Russian Hide and Seek


Kingsley Amis (1981). Russian Hide and Seek: A Melodrama. Nova Iorque: Penguin.

Kingsley Amis não ocultava o seu gosto especial pela ficção científica e teve a coragem de escrever romances dentro do género. Ao contrário do habitual nos esforços de género dos escritores mainstream, são livros bem concebidos que fazem uso brilhante das premissas da ficção científica. Um deles, The Alteration, é uma pérola esquecida da história alternativa. Este Russian Hide and Seek insere-se naquela vertente tão característica do século XX, a do futuro pós-apocalipse nuclear, com uma fortíssima ironia sobre o tão inglês sistema de castas aristocráticas.

Amis é deliberadamente difuso nos pormenores do futuro que imagina. Sabemos que estamos numa inglaterra futura, ocupada por forças soviéticas que se comportam de modo muito similar ao estereotipo do aristocrata britânico. Quem se recorda da história do século XX depressa criar uma imagem mental das possibilidades que levariam a este estado de coisas, que Amis reforça com momentos pontuais em que nos informa que houve uma guerra que teria durado três dias (e o leitor de boa memória imagina a troca de mísseis intercontinentais que reduziriam as cidades a cinzas), se bem que há indícios de que afinal a resistência teria sido mais prolongada. Os russos comportam-se como sahibs enquanto os nativos britânicos são vistos como coolies peculiares. A comparação entre uma inglaterra subjugada e o Raj indiano é uma das vertentes de ironia desta obra. Décadas após as guerras impera a memória oficial da propaganda, o declínio tecnológico é acentuado e a cultura local foi suprimida pelos ocupantes. Da velha inglaterra restam as ruínas e as memóras difusas dos poucos envelhecidos sobreviventes à guerra do passado.

O livro desenrola-se como um romance clássico russo. Centra-se em Alexander Petrovisky, personagem icónico, um jovem aristocrata militar mais adepto das conquistas amorosas do que das lides marciais. Acaba por se envolver numa bizarra conspiração onde ocupantes russos compadecidos do triste destino dos povos ocupados procuram activamente restaurar a cultura suprimida - com resultados desastrosos mas hilariantes e provocar uma revolta capaz de possibilitar a restauração da inglaterra aos ingleses. Traduzindo, colonos libertadores a engenhar a auto-determinação dos oprimidos. Só que essa conspiração é orquestrada por agentes dos serviços secretos soviéticos, entediados com a modorra de um mundo pacificado sob o jugo de Moscovo e que sentem que precisam de uma engenhosa operação para manter o treino de proficiência na caça aos possíveis dissidentes, algo difícil numa era onde as memórias oficiais são pervasivas. Daí o título do livro, que evoca uma variante do jogo da roleta russa onde quem não se souber esconder é alvejado pelos companheiros de jogo.

A elegância literária de Amis dilui a ironia hilariante do livro, cheio de duplos sentidos e frases complexas que se relidas provocam ataques de riso, naquela melhor tradição do humor literário britânico de Fielding. De facto, há muito das desventuras de Tom Jones nas atribulações de Petrovsky. As explicações difusas do futuro projectado intrigam, obrigando o leitor a preencher as lacunas com o seu conhecimento pessoal da história contemporânea. As visões irónicas do classicismo social inglês e da bonomia pós-colonialista são tiros certeiros. Também em evidência está o realismo geo-estratégico do autor. Em caso de guerra entre o bloco de leste e o ocidente, o peso da massa humana soviética seria decisiva.

quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Dylan Dog


"Nevrotico, ex-alcolista, vegetariano, Dylan Dog è senz’altro il detective privato più in controtendenza del panorama fumettistico e letterario tout court. L’Old Boy2 deve però il suo grandissimo successo e la sua fama imperitura a ben più che all’intreccio delle sue storie, ai variegati mostri che affronta o alle battute di Groucho. Il geniale e vulcanico padre di Dylan Dog, Tiziano Sclavi, è riuscito infatti a infondere al suo personaggio un ingrediente segreto, ossia una sensibilità poetica e filosofica di tipo esistenzialista, che gli ha permesso di parlare della condizione umana attraverso i mostri che l’Indagatore dell’Incubo affronta per sbarcare il lunario."

"Dylan Dog non è un semplice fumetto horror, sempre che lo sia mai stato; è piuttosto un ritrovo per anime affini, desiderose di interrogarsi sulle questioni fondamentali del vivere. Attraverso gli incubi che dissolve ogni mese, Dylan ci consente di gettare uno sguardo sui lati oscuri della condizione umana, e in special modo su quelli del tempo presente, un’epoca cinica, vacua e afflitta da quella assoluta mancanza di senso e di direzione"

"Sclavi è riuscito infatti a inserire nel suo fumetto una quantità enorme di punti fissi ricombinabili a volontà: abbiamo per esempio l’abbigliamento ripetitivo di Dylan Dog – giacca nera, camicia rossa portata fuori dai pantaloni, jeans blu e Clarks chiare. Oppure le sue abitudini: Dylan è astemio (con riserve), vegetariano, odia i cellulari e i computer, ama gli animali, guida un maggiolone targato DYD 666, come pistola usa una vecchia Bodeo che deve farsi lanciare ogni volta da Groucho, ripete di continuo l’espressione «Giuda ballerino!» e così via. E poi ci sono le sue numerose fobie e problemi psicologici – è un ex-alcolista, soffre di claustrofobia e di vertigini, ha paura dell’aereo e della folla, il terrore delle iniezioni e dei pipistrelli. La lista dei suoi disturbi mentali non finisce di certo qui –e su tutto regna sovrana la “bestia nera” di Dylan, ossia la depressione, da lui definita «un abisso buio e freddo, da cui sembra impossibile risalire [...] la depressione è forse il più orrendo di tutti i mostri». 

E poi ci sono gli hobbies e i passatempi dell’Indagatore dell’Incubo: il modellino di galeone che Dylan non riesce mai a terminare; il clarinetto con cui, per rilassarsi e concentrarsi, cerca di suonare Il Trillo del Diavolo di Tartini; il diario, su cui scrive con la classica penna d’oca; l’abitudine di portare ogni nuova conquista in pizzeria e a vedere un film dell’orrore. Citiamo inoltre la tariffa di cinquanta sterline al giorno più le spese – poi raddoppiata, con il crescere del costo della vita –; la sua casa, un vero e proprio museo di libri, dischi e cimeli presi dai set di classici dell’horror; il campanello urlante installato da Groucho e proveniente, come il modellino di galeone, dal misterioso negozio interdimensionale Safarà; l’uso disinvolto che Dylan fa del suo tesserino scaduto di Scotland Yard; i secchi rifiuti con cui l’ispettore Bloch liquida le sue richieste d’aiuto, che poi però vengono sempre accolte con rassegnazione; la posizione che assume quando ascolta i casi dei oi clienti, con una gamba sul bracciolo della sedia e le punte delle dita riunite quasi in preghiera di fronte al volto.

E poi le donne, numerosissime, che attraversano mese dopo mese la sua vita, e di cui Dylan è quasi sempre profondamente innamorato – un po’ come in Beautiful, dove Ridge Forrester, Brooke Logan e gli altri personaggi si innamorano profondamente per brevi periodi e non concepiscono mai il sesso come semplice attività ricreativa."

Manzocco, R. (2011). Dylan Dog. Esistenza, orrore, filosofia. Milão: Mimesis.

Dylan Dog #186: L'Uomo Nero


Luigi Mignacco, Pietro Dall'Agnol (2002). Dylan Dog #186: L'Uomo Nero. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Apesar de me ter tornado fã incondicional deste personagem é-me difícil chegar aos seus livros. Por cá encontram-se, raramente, algumas traduções espanholas. O grosso das leituras tem sido feita graças às travessas obscuras do mundo digital, na fronteira entre a propriedade intelectual e a necessidade de conhecimento cultural. Quando se chega a alguns níveis no gosto e aprofundamento por leituras de género é difícil e incomportável não ceder ao digital. Sempre que posso redimo-me, porque é sempre bom ver estes livros nas estantes da minha biblioteca. E este em especial, pelo saboroso acaso com que me chegou às mãos. Quando dei um passeio pela Feira da Ladra estava muito longe de suspeitar que iria descortinar um Dylan Dog por entre o festim de bricabraque espalhado pelo Campo de Santa Clara. Foi sorte, foi muita sorte, e melhor que isto seria encontrar um escrito por Tiziano Sclavi.

Porque, já o disse e repito-me, há dois Dylan Dogs: o sublime onírico de Sclavi, e o mais corrente personagem de histórias de arrepiar criadas por outros argumentistas, com qualidade variável. Este pertence ao segundo campo, com uma história sobre os sonhos de uma criança solitária que é raptada pelo tio, playboy em busca de dinheiro para pagar dívidas. Dylan intervém graças a uma simpática conquista, psicóloga que é a melhor amiga de uma criança cujos pais a tratam com indiferença. Lê-se. mas não deixa grande memória, sendo uma história policial com contornos de terror igual a tantas outras. Insere-se bem no trabalho de Mignacco, argumentista competente mas de pouco brilhantismo da casa Bonelli.

Semplice acchiappafantasmi

Não sou o único a pensar que há dois Dylan Dog, o de Sclavi e a personagem-propriedade intelectual da Bonelli, entrege às capacidades de diferentes argumentistas. No fundo, é algo de normal num género de publicação regular em série. Mesmo que se tenha um controle férreo sobre as características da personagem - caso, por exemplo, da série alemã Perry Rhodan, irão haver diferenças de estilo e de abordagem.

Só que Sclavi é sublime, e por comparação até o melhor trabalho de outros nos parece obra menor: "Gli anni sono poi passati anche per l’Indagatore dell’Incubo, e in redazione sono entrati nuovi autori. Alcuni di essi hanno contribuito con storie ben costruite e godibili, ma prive di particolari qualità artistiche –in pratica hanno fatto di Dylan Dog un semplice acchiappafantasmi. Altri invece hanno conferito a questo fumetto il proprio tocco personale, il quale è ovviamente diverso da quello sclaviano."

Curiosa, esta concepção de "simples caça-fantasmas". Descreve bem o diferencial que temos da visão do personagem, que pelo seu carácter icónico consegue escapar a esta caracterização. É intrigante que seja sugerido que se desafie autores consagrados a criar ciclos narrativos para a personagem, à semelhança da estratégia editorial da Marvel ou DC: "A difesa degli autori di Dylan Dog dobbiamo però dire che il fumetto d’autore non può coniugarsi completamente con la serialità – la creatività artistica non si adatta di certo alla produzione in serie.  È inevitabile che la qualità oscilli, e che le nuove leve non possano né vogliano riprodurre lo stile sclaviano. In altre parole, Sclavi è Sclavi, e, come tutti gli artisti, ha la propria prospettiva personale e inimitabile;"

Manzocco, R. (2011). Dylan Dog. Esistenza, orrore, filosofia. Milão: Mimesis.

quarta-feira, 9 de Julho de 2014

Receita comprovada

"Tutto ciò può sembrare limitativo, ma in realtà è proprio grazie a questa relativa stabilità che il pubblico si affeziona a un certo personaggio e continua ad acquistarne gli albi, anche per interi decenni. In sostanza, al lettore si offre la sicurezza di ritrovare ogni mese in edicola un piatto cucinato sulla base di una ricetta collaudata."

A citação vem do livro sobre Dylan Dog e filosofia de Roberto Manzocco, mas espelha muito bem aquele sentimento que nos liga aos nossos personagens favoritos. Se excessivamente previsíveis depressa nos cansam, mas se a mutabilidade for muita também deles nos desligamos. Esta constância de que fala o autor, com esta metáfora de um prato sempre diferente mas cozinhado a partir de uma receita conhecida, é o elo que nos mantém presos às personagens ficcionais e séries favoritas.

Manzocco, R. (2011). Dylan Dog. Esistenza, orrore, filosofia. Milão: Mimesis.

The Case of Charles Dexter Ward


I. N. J. Culbard (2012). The Case of Charles Dexter Ward. Londres: SelfMade Hero.

O traço de Culbard é quase o preciso oposto do barroquismo literário de Lovecraft. Onde a prosa é uma tessitura densa de adjectivos que qualificam o horror a linha de Culbard é de uma elegante simplicidade. O que não diminui o impacto desta história clássica do autor de horror de Providence. É até um curioso contraste, a ilustração simples e a negritude desta história de hediondas heranças e antepassados com insaciável curiosidade pelo sobrenatural.

Estimação




Mas a cadela impera.

terça-feira, 8 de Julho de 2014

e-Zine Ficção Científica


Uma belíssima surpresa, solta ontem nas wildlands da internet. Um e-zine de ilustração dedicado à ficção científica, com mais de cem páginas de banda desenhada  e ilustração. A qualidade vai do razoável ao excelente, com algumas obras muito promissoras e outras de cair o queixo. Luís Belerique, cujo workshop de sculpting em Blender que deu na conferência Blender.pt foi das experiências de introdução ao 3D com atenção às técnicas tradicionais mais interessantes em que já participei, tem um perfil de autor e vislumbres do seu processo de trabalho. Organizada por João Raz, mostra um pouco do que melhor se faz na ilustração portuguesa de FC e parte do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido no fórum Desenhos, Inks e Rabiscos, outro interessante sítio a descobrir.

(tip of the hat para o Rogério Ribeiro, pela dica.)

Kill City Blues


Richard Kadrey (2013). Kill City Blues. Nova Iorque: Harper Voyager.

A série Sandman Slim é uma leitura divertida para quem quiser, num momento em que não apeteça leituras mais profundas, mergulhar num grimdark cheio de ironia. Nesta série Kadrey dedica-se à fantasia urbana sob influência de drogas psicadélicas. Pega na banal premissa das guerras entre céus e infernos para mergulhar o seu estereotipo de anti-herói amoral que acaba sempre por fazer o correcto numa panóplia delirante de sub-mundos de magia e ocultismo com um forte toque visceral.

Nesta aventura Slim mete-se em apuros sérios. Para não variar. Deus fartou-se de ser deus e dividiu-se em cinco pedaços que não se dão bem entre si. Um deles já foi assassinado por uma super-anjo às ordens de outro. O inferno é regido por outro pedaço de deus, já que Lúcifer se fartou dos abismos infernais. Mas há mais. Parece que este universo não foi uma criação divina, foi um acto de divino roubo. Nos tempos primordiais a divindade roubou o universo a criaturas poderosas que, se puderem abrir uma porta para o nosso mundo, depressa o reduzirão a cinzas num acto de justa vingança. Há niilistas que os tentam invocar, e uma única arma capaz de os travar, que Sandman Slim é encarregue de encontrar. O que se segue é uma sucessão de peripécias em ritmo alucinante, que testa os limites do pouco saudável e muito bizarro imaginário de Kadrey.

segunda-feira, 7 de Julho de 2014

Comics


2000AD #1888: Só me apetece gritar OMG! OMG! OMG! com a minha melhor voz de fanboy histérico. Edginton e Culbard estão de volta com o belíssimo steampunk de Brass Sun, desta vez com dirigíveis... é o que chega para deixar um fã de steam com uma certa queda para aeronaves mais leves do que o ar a babar-se. Como sempre, o traço de Culbard está espantoso. É fascinante como consegue comunicar tanto com um design tão simples. A revista ainda nos dá Dredd no seu melhor, com aquela ironia a roçar o ridículo onde o personagem mais se sobrevaloriza numa história onde um Klegg sensível e culto sofre com a discriminação. Um Klegg, perguntam? Passo a explicar. No universo de Dredd os Kleggs são crocodilos humanóides mutantes que devoram tudo o que tenha duas ou quatro pernas e respire. Um pouco como o Mr. Croc do Batman, mas mais sanguinários. E este é pacífico e sensível. Percebem agora a ironia? Para terminar Dan Abnett encerra mais um ciclo de Grey Area, uma das melhores séries de FC em comics deste ano. De forma épica: a Terra está ameaçada por uma divindade alienígena que vai devorar o planeta e resta aos agentes do serviço de imigração exo-planetário assassinarem um deus.


Lazarus #09: O comentário às agruras da contemporânea sociedade neoliberal, onde as pessoas são recursos descartáveis ou optimizáveis, está em destaque nesta edição de Lazarus. Com o mundo dividido em famílias de oligarcas financeiros, aqueles que não pertencem à aristocracia dominante ou são recursos ou desperdício. Magnânimos, mas essencialmente interesseiros, os oligarcas promovem concursos regulares de elevação de desperdício humano à condição de recursos. O que arrepia nesta distopia futurista de Greg Rucka é que suspeitamos que não andamos muito longe deste novo feudalismo, assente na finança e tecnologia. É, talvez, uma consequência do capitalismo selvagem alastrante.


Moon Knight #05: Suponho que só Warren Ellis para se safar com uma destas. Nas mãos de outro argumentista certamente que esta premissa seria desastrosa. Um comic estruturado como um jogo de acção multi-plataformas, com um personagem que progride eliminando adversários, sobrevivendo a boss fights até chegar ao confronto final e atingir o objectivo de jogo. Ellis escreve muito bem a acção pura e conjugado com o trabalho de ilustração consegue fazer funcionar a estética e dinâmica do gaming em banda desenhada. A capa, desenhada como um jogo de plataformas, dá-nos logo um indício daquilo que nos espera.


Wildfire #01: Matt Hawkins, autor de Think Tank, um dos mais inteligentes comics contemporâneos sobre a confluência da tecnologia de vanguarda e os interesses da política global de defesa, volta à carga com outro título provocador. Desta vez o tema são os organismos geneticamente modificados e Hawkins começa com um ponto bastante óbvio: uma praga bio-modificada que se espalha após um acidente biológico. É um começo possível, mas a avaliar pelo trabalho do argumentista certamente que evoluirá para uma narrativa complexa capaz de tocar nas várias vertentes e pontos de vista deste tema fracturante. Continua com o hábito de terminar o comic discutindo pontos de vista e deixando referências para que os leitores fiquem a saber mais sobre os pressupostos reais por detrás da ficção.