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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Exit Reality


Valentina Tanni (2025). Exit Reality. Roma: Nero.

Não é um tipo de conteúdo digital que chegue aos normies, aos grandes públicos. Também não é nenhum tipo de imaginário que se preza por ser oculto e pouco acessível, pelo contrário, mas sendo criador de estéticas fora do espaço visual comum, não chega às maiorias, cortesia do efeito amplificador de algoritmos que raramente nos dão coisas a ver que estejam fora do que os dados agregados indicam ser os nossos interesses. 

E, no entanto, se estivermos a fazer doomscroll, é provável que algum deste conteúdo nos chegue aos olhos. Vídeos estranhos, entre o surreal e o nostálgico, música levemente dissonante que se entranha no ouvido, estéticas que podem ir do hiperrealismo digital ao vídeo hipnótico cheio de glitching e potencialmente indutor de ataques epiléticos. Quando isso nos chega aos olhos, significa que os algoritmos nos fizeram chegar às zonas de vanguardismo estético de que este livro tenta fazer um catálolgo. Do vaporwave às backrooms, passandos pelos 'cores (do dreamcore ao weirdcore), até entrar no campo visualmente bizarro que são as tiktok farlands.

O curioso sucesso do filme Backrooms trouxe ao mainstream um pouco do dinamismo destas estéticas digitais de subculturas. As backrooms, essa metáfora moderna de um horror baseado na extrapoloção surreal da hipermodernidade, são uma das estéticas, ou movimentos culturais de nicho (a distinção é fluída) que este brilhante Exit Reality nos traz.

O livro constrói-se como catálogo de estéticas, mas também como trabalho de sociologia digital. Num meio criativo mutável, que vive dos fluxos dos sites, agregadores e redes sociais, a autoria e o comentário dissolvem-se, há que levar em conta os múltiplos clones que se agregam em tendências, e a voz dos comentadores torna-se geradora de perspetivas sobre os conteúdos. 

Exit Reality leva-nos num périplo pelas estéticas do vaporwave, backrooms e espaços liminais, 'cores que vão ao âmago de estéticas intrigantes, e finalmente, os espaços de magia, onde os criadores parecem dissolver as barreiras entre a vida real e o imaginário por intermédio dos espaços digitais. Se bem que, apesar do título, estas estéticas não representam fugas à realidade. Antes, são reações à normalidade, entre a nostalgia e a procura de visões tangenciais, e no fundo representam uma fascinante ebulição criativa que usa o digital para criar novas visões, iconografias e estéticas desafiantes.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A Vida no Século XXI


Arthur C. Clarke (1986). A Vida no Século XXI. Lisboa: Europa-América.

É sempre interessante revisitar estes textos futuristas, evitando sempre o tom condescendente na leitura. É claro que as predições não se concretizaram, este tipo de textos são extrapolativos e especulativos, não oráculos, e mostram-nos muito sobre as ânsias e esperanças do tempo passado. Apesar de não serem preditivos, são interessantes na forma como identificaram tendências de evolução tecnológica e social que, embora não se concretizando de forma linear, se fazem sentir no nosso mundo contemporâneo. Neste que é o real futuro, percebemos ao ler textos especulativos informados do passado que muito do que fazemos hoje já era preocupação nesses tempos. 

As especulações de Clarke são informadas, baseadas em análises e entrevistas com especialistas. Olha para a robótica, antevendo um futuro próximo em que os humanos poderão livrar-se do trabalho manual, entregue a robots. Imagina redes de transporte rápidas e eficazes, combinando aeronaves supersónicas, comboios de alta velocidade e hovercrafts para deslocação rápida e barata para qualquer parte do planeta. Na saúde, cruza o desenvolvimento tecnologico e da ciência médica com uma visão muito benévola da medicina privada (ah, a inocência), enquanto na educação extrapola, e muito bem, a necessidade de sistemas de formação ao longo da vida para cidadãos que terão de se atualizar, bem como a vontade de aprender mais. A sociedade informatizada em que vivemos é vislumbrada, por vezes em pormenores curiosamente certeiros - o uso de IA para advocacia ou sistemas automáticos para saúde mental são dois exemplos, mas Clarke não prestou atenção ao potencial da então nascente internet, e extrapolou futuros de telefones por vídeo e cassetes VHS. Não podia falta um capítulo sobre guerra, que me pareceu algo decalcado de The Third World War de John Hackett, e daí o conceito que retirei foi a visão da imutabilidade futura de um mundo dividido entre dois blocos, o ocidental e o soviético.

Nestes dias de um futuro distópico, em que sentimos as liberdades e garantias a resvalar sob pressão de conservadorismo radical, em que a promessa libertária da internet foi esmagada pelas grandes empresas para construir o que é pouco mais do que uma máquina global de extração de dados que vicia os utilzadores, perante o quadro grave dos efeitos das alterações climáticas e o resvalar do mundo geopolítico para um sistema de autocracias e novos totalitarismos, o mais refrescante destas leituras é o seu lado de inabalável otimismo. Qualquer que fosse a extrapolação, é patente a fé de Clarke num futuro melhor, numa ideia que o progresso era imparável e nos iria melhorar, enquanto sociedade e ao nível individual. Essa promesa, sente-se o quão longe está de ser cumprida.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Futuros

 























Retirado de um livro sobre futurismo, encontrado em alfarrabista. Adoro estas iconografias clássicas, que hoje nos parecem datadas mas mantém o lustre do otimismo nas suas visões de futuros prováveis.

quinta-feira, 27 de julho de 2023

O Terceiro Milénio


Eurico da Fonseca (1999). O Terceiro Milénio. Lisboa: Livros do Brasil.

Tenho um gosto peculiar por livros antigos de futurismo. Não olho para eles com aquele olhar condescente, de ah, o quanto eles se enganaram naqueles tempos do passado em que se atreviam a especular sobre o futuro. Prefiro lê-los de forma comparativa, percebendo o que ainda hoje nos preocupa, aquilo que ficou irremediavelmente datado, e, também, aquelas esperanças futuras que ainda hoje nos soam a sonho.

Eurico da Fonseca é bem conhecido dos leitores de FC portugueses por ser o prolífico tradutor de várias coleções clássicas (e, dizem os entendidos, não especialmente bom tradutor). Neste livro, segue por outros caminhos, puxando das suas especializações em astronáutica para procurar falar sobre o novo milénio que, no final dos anos 90, estava ao virar da esquina.

É interessante comparar este futuro provável visto do final do século XX com as preocupações que temos hoje. A questão ambiental, que para nós é emergência grave, é aqui ainda pouco aflorada. As preocupações futuristas focavam-se mais no crescimento populacional excessivo, pressão sobre recursos naturais e economia. 

O livro ganha vida ao falar de espaço, com detalhadas apresentações de propostas e projetos de exploração espacial, bem como de tecnologias em desenvolvimento. O deprimente, lendo este livro 24 anos depois da sua publicação, é que muitos dos projetos não passaram disso, e ainda continuamos longe de tecnologias que nos permitam ir aos planetas do sistema solar, bem como passar mais além. Esses sonhos, continuam a ser uma esperança longe de ser realizada.

Lendo uma curta biografia do autor na wikipedia, não posso deixar de registar a ironia de ter falecido precisamente na viragem do século que procurou antever neste livro.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

The Skeptics' Guide to the Future


Steven Novella (2022). The Skeptics' Guide to the Future. Nova Iorque: Hodder & Stoughton.

Antever os futuros possíveis passou do misticismo oracular do passado para, na era da ciência e tecnologia, ser um dos pilares da forma como encaramos a sociedade. Olhamos para o futuro, tentamos antever as tendências, imaginamos, quer através da ficção científica quer da análise especulativa, perceber como irão evoluir as tecnologias, as pessoas, e as sociedades. Ser futurista passou a ser uma profissáo de respeito, que implica análise, especulação informada, e também alguma capacidade de sonhar.

No entanto, há sonhos e sonhos. Alguns estão dentro dos limites do possível, quer os possíveis da tecnologia contemporânea, quer os limites terminais das leis fundamentais da física. Outros desafiam alguns limites, mas com o investimento certo, poderão levar a desenvolvimentos que os possibilitem. Ou não, e poderão ser becos sem saída. Outros ainda são fortemente improváveis, ou mesmo impossíveis, e aqui cabem muitos dos artifícios que a ficção científica popular se socorre para tornar as suas histórias mais empolgantes (é de notar que Novella não é anti-FC, nota-se no seu livro que é um apaixonado do género com uma enorme cultura literária).

São estes os prismas com que Novella aborda as tecnologias que poderão ditar os futuros possíveis, analisando-as numa lógica que cruza limites técnicos com impactos sociais. Recorda-nos que as reais possibilidades das tecnologias se realizam na sociedade, ou seja, é a forma como as pessoas lhes dão uso o que dita o sucesso de uma dada tecnologia (mesmo que este sucesso tenha consequências negativas). É o que pretende ser - um guia céptico, que equilibra realismo sem, no entanto, jamais recusar o sonho.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Dr Space Junk vs the Universe


Alice Gorman (2019). Dr Space Junk vs the Universe: Archaeology and the Future. Cambridge: MIT Press.

Arqueologia espacial parece um paradoxo. Não parece óbvia a ligação entre a busca e estudo de artefactos milenares e o estatuto eternamente futurista da exploração espacial. E, no entanto, a era espacial já tem uma história, que se constrói a partir da evolução científica e tecnológica, dos projetos concretizados e os que não saíram do papel, das iniciativas políticas, dos impactos sociais. Nisto, também se contam os artefactos - satélites, sondas, restos de lançadores, sistemas de rastreamento, bases de lançamento, infraestruturas de apoio. É aqui que entra o trabalho de arqueologia espacial, no recuperar e documentar espaços terrestres outrora dedicados ao espaço, ou recordar os artefactos que colocámos em órbita, na Lua, nos planetas ou que se deslocam para lá do sistema solar.

Este livro é um misto de análise histórica com a experiência pessoal da autora, uma arqueóloga que conseguiu transmutar o seu amor pela astronomia através da arqueologia espacial. Gorman recorda-nos alguns dos marcos da era espacial através da história dos seus artefactos. É também um livro muito sensível a questões sociais, sendo mulher e australiana, Gorman coloca fortes críticas ao masculinismo pervasivo na ciência e tecnologia (o porquê de se ter tornado arqueóloga e não astrofísica mostra bem isso), bem como recupera a herança aborígene dos povos autóctones da Austrália, e a sua relação com a exploração espacial. O que repassa no livro é um enorme fascínio pelo passado e futuro da exploração espacial, através do olhar de uma mulher que está tão à vontade com vestígios milenares como com restos recentes do futurismo em órbita.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Burn-In


P.W. Singer, August Cole (2020). Burn-In. Nova Iorque: Houghton Mifflin Harcourt.

Os livros de especulação futurista de curto prazo em que P.W. Singer se envolve são construídos com propósitos didáticos, uma forma de falar dos impactos das tecnologias de forma não académica, especulando e mostrando prováveis consequências futuras de tendências que hoje se começam a formar. Ghost Fleet centrava-se em cenários de guerra futura, especificamente nas capacidades trazidas pelo digital, que podem tornar possível a derrota de uma potência militar mais forte por inimigos mais fracos através da inutilização e comprometimento dos meios informáticos de que dependem os armamentos avançados. Nunca a derrota total, porque estes livros são escritos por americanos e, como bons patriotas que são, a américa ameaçada acaba sempre por dar a volta por cima nestas histórias. 

Burn In olha para as tendências em robótica, automação e inteligência artificial. Imagina um futuro próximo muito plausível (se se confirmarem as tendências dos analistas), onde robots e algoritmos fazem parte do dia a dia, são elementos nos diversos níveis da economia, tudo sustentado por uma interligação pervasiva em redes de alta capacidade. Um futuro que deixa muitos para trás, com a economia a automatizar-se, os empregos para humanos estão ameaçados. É aqui que reside o cerne o livro, a tensão entre automação e empregabilidade, entre a tecnologia e o social. 

O livro foca-se numa conspiração, levada a cabo aparentemente por ludditas e descontentes, que geram uma série de atentados terroristas não da maneira tradicional, fazendo-se explodir em locais públicos, mas comprometendo sistemas infraestruturais. Desligando sistemas de controlo de caudais em rios, ou intencionalente enganando sistemas de controle ferroviário para provocar acidentes com comboios automáticos que transportam químicos perigosos. Singer olha para a ciber-guerra, mas também para os nacionalismos de extrema direita, os instrumentos que nascidos do descontentamento social com uma modernidade que deixa muitos para trás, e cuja violência pode ser instrumentalizada por políticos com sede de poder (ou, no caso do livro, estes próprios instrumentalizados por bilionários tecnológicos que querem mudar o mundo para aceitar as mudanças trazidas pela tecnologia que desenvolvem, empurrando-o na direção oposta).

Estas últimas frases quase parecem uma descrição da política atual, não parecem? Notem que o livro é de especulação de curto prazo. Cai dentro da ficção científica como categorização, mas o seu propósito é diferente, a narrativa serve pressupostos meramente didáticos. P.W. Singer é o analista que constrói a sequência de ideias, August Cole o escritor encarregue de, digamos, encher o chouriço literário. 

Acompanhamos uma agente do FBI a quem é distribuída uma tarefa pouco invejável: testar no terreno um protótipo de robot autónomo avançado, bípede e capaz de se movimentar com fluidez nos espaços reais. A sua tarefa é a de analisar as capacidades dos robots, bem como de treinar o seu algoritmo nas interações com humanos. Isto, enquanto gere a sua vida pessoal cada vez mais tensa  na relação com o marido que, apesar de doutorado, se encontra desempregado por ter sido substituído por inteligências artificiais e ganha a vida imerso em realidade virtual. Mas o que parece uma história de polícia relutante a treinar o seu futuro substituto robótico depressa evolui para uma aventura conspirativa, onde a parceria humano-robot se vai revelar decisiva para travar as ameaças. 

Como história, Burn-In é pouco mais do que policial procedimental, cheio dos seus estereótipos, cruzando com ficção especulativa sobre robótica. Onde é interessante, e rico, é na especulação informada sobre futuras capacidades e impactos sociais das tecnologias que hoje estamos a começar a ver sair dos centros de investigação e a chegar à economia e sociedade.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Four Lost Cities

Annalee Newitz (2021). Four Lost Cities: A Secret History. Nova Iorque: W.W. Norton.

O que é que dita o fim de uma cidade? Acontecimentos apocalípticos, decisões sociais, ou a combinação da erosão económica e ambiental? E o que é que o fim de grandes cidades do passado nos poderá ensinar sobre os desafios urbanos do futuro próximo, onde as alterações climáticas vão colocar sob pressão a nossa sociedade global fortemente urbanizada? 

Em busca de indícios sobre estas questões, somos levados a quatro cidades icónicas do passado. Çatal Huyuk, considerada a primeira cidade da humanidade, que floresceu no dealbar da humanidade. A sua antiguidade não nos permite saber muito sobre os que a construíram e habitaram, mas percebe-se que o seu abandono não foi um colapso, antes um espalhar e gerar de novas comunidades. Já Pompeia, sabemos que pereceu num cataclismo, e ainda bem para nós, que temos nas suas ruínas o mais completo vislumbre sobre a vida da sociedade romana, com constantes novas e fascinantes descobertas. O cataclismo preservou a cidade para o futuro, mas no seu presente, os seus sobreviventes espalharam-se por outras cidades romanas.

Angkor é-nos mostrada como a cidade do impossível, uma comunidade urbana complexa nascida no meio da selva, mantida num ambiente pouco hospitaleiro a cidades graças a engenharia complexa e força de trabalho. Mostra-nos que quando os elementos se conseguem sobrepor à capacidade humana, segue-se o desmoronar do espaço sob pressão ambiental. E, no entanto, a cidade nunca foi totalmente abandonada, quando foi "descoberta" por exploradores franceses era habitada por comunidades de monges budistas, que mantinham os seus grandiosos templos a salvo da selva, e bem conhecida pelos habitantes da região. 

O livro encerra com a enigmática Cahokia, uma cidade construída em moldes muito diferentes do que os que consideramos espaços urbanos. Ponto de fixação durante séculos das tribos índias da américa do norte, era uma comunidade fluída assente em pressupostos que hoje não são claros, talvez políticos, talvez religiosos, e foi eventualmente abandonada com a migração das tribos para outros territórios.

Newitz mergulha-nos a fundo na história destas quatro cidades, retratando-as com um olhar jornalístico assente em visitas, investigação e contributos dos arqueólogos que hoje estudam estes antigos centros urbanos. As ilações que tira são bastante óbvias - as cidades não são imutáveis nem eternas, dependem de complexos equilíbrios sociais, políticos e essencialmente ambientais. Quando o ambiente se torna demasiado inóspito, e quem vive e determina os espaços urbanos progressivamente incapaz de contrariar os seus efeitos, esse é o momento que marca a decadência de uma cidade. Algo que não é imediato, é um processo longo. Só Pompeia é uma excepção, graças ao raro cataclisma que a destruiu. Na verdade, as cidades desvanecem-se com suspiros, e raramente morrem com explosões. Uma conclusão clara para os dias de hoje, em que enfrentamos a curto prazo as questões ambientais advindas das alterações climatéricas. 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Passaporte para o Futuro

 

Luis Miravitlles (1969). Passaporte para o Futuro. Lisboa: Editorial Verbo.

É sempre intrigante ler antigos livros de futurismo para perceber até que ponto as nossas visões do futuro estarão datadas, daqui a uns tempos. Este foi editado no final dos anos 60, e foca-se nas capacidades humanas (chegando a prever sistemas de comunicação futura via telepatia), nos avanços da biologia, na preocupação com o crescimento da população. Dedica todo um capítulo às máquinas, que é notável, por falar abertamente de inteligência artificial (refere o perceptron, um dos primeiros projetos do género), e de automação com base em informática e mecanismos. Fá-lo sobre uma perspetiva aumentativa, de expandir capacidades humanas com o homem no controlo, embora não descarte a ideia de cérebros artificiais.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Reportagem no Século XXI

M. Vassiliev, S. Guschtchóv (1973). Reportagem no Século XXI. Lisboa: Editorial Futura.

Não resisto a fazer a piada óbvia: a grande falha deste livro de futurismo soviético foi no prever a queda do regime. Mera piada, até porque este mergulho na especulação de antevisão de futuros vinda dos tempos soviéticos prima pela sua dureza. Nada de visões cardboard futures de utopias urbanas, o livro é construído a partir de entrevistas a cientistas que tentam olhar para o futuro das suas áreas. Com um foco na indústria pesada, ciência pura, materiais e agricultura. O futuro soviético não era muito fofo. De fora, tudo o que se veio a revelar a revolução digital, apesar de algumas linhas dedicadas a máquinas eletrónicas capazes de auxiliar o cálculo humano, ou de reconhecimento da automatização da força de trabalho. Talvez sintoma do desfasamento das tecnologias de computação nos tempos da União Soviética face ao ocidente. Nem tudo no livro é indústria pesada, finaliza com conceções sobre veículos autónomos, cidades ambientalmente sustentáveis e o sonho da exploração do espaço. É sempre interessante ler especulações sobre o futuro vindas do passado, na forma como apontam possíveis desenvolvimento que nós, com a visão que temos, sabemos que não se passaram tal como o especulado, mostra-nos que não devemos confiar na linearidade das nossas próprias projeções de futuros. A capa deste livro é um portento de ilustração entre o surreal e o horrendo.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Et si... un virus mortel s'échappait d'un laboratoire?


Agruras de se ser professor em tempos de isolamento social, teletrabalho e escola à distância. O tempo para leitura caiu drasticamente, e só muito recentemente finalizei a Science et Vie Hors Serie de setembro de 2019. E confesso, só o consegui por fiz uma mini-greve por saturação extrema com ecrãs.

A premissa desta edição especial da venerável revista francesa de divulgação científica era o explorar cenários especulativos. E, curiosamente, encerra com este: Et si... un virus mortel s'échappait d'un laboratoire? A pergunta era especulativa em setembro, mero exercício de pensamento, colocar um cenário altamente improvável. E, em dezembro, apercebemo-nos que na distante Wuhan grassava desde novembro uma nova doença, a assumir proporções epidémicas. Mas era na China. tão longe de nós, é uma mera gripe, pensámos, desvalorizando. Meses depois, temos o mundo paralisado, as sociedades em lockdown, vivemos o cenário impensável de uma pandemia grave à escala global, de enfrentar uma nova doença para a qual ainda não temos defesas.

O cenário especulativo apresentado na Science et Vie é exatamente o que vivemos, hoje: "Pour endiguer la propagation de l'épidémie, beaucoup d'États ferment les frontières, réduisent, voire interrompent le trafic aérien et naval, notamment vers et depuis les zones les plus touchées. Des consignes sont données pour éviter les grands rassemblements sportifs et culturels, certains pays ferment les écoles, par où la maladie circule, et cherchent à restreindre les déplacements de leurs citoyens -qui eux-mêmes limitent au maximum leurs sorties. Le secteur du tourisme sombre rapidement. Il enregistre la disparition de centaines, de milliers, puis de millions d'emplois, dans les compagnies de transport, les hôtels et les restaurants qui restent désespérément vides". Soa familiar? A realidade já está a ultrapassar a especulação. A única diferença entre o cenário traçado na Science et Vie e a realidade está na origem do vírus, que não se escapou de um laboratório, mas evoluiu nas condições de um wet market especializado em animais selvagens para consumo gastronómico.

quinta-feira, 19 de março de 2020

As Fronteiras do Possível


Jacques Bergier (1971). As Fronteiras do Possível. Lisboa: Editorial Verbo.

Ler um livro futurista escrito há cinquenta anos é uma experiência deprimente. Não pela ideia de o mundo não ter evoluído no sentido esperado. Antes, é sentir que a nossa visão do mundo, da evolução social e tecnológica que espelhamos nas nossas concepções de futuro, parecerá tão datada, algo absurda e levemente ridícula aos que daqui a cinquenta anos nos sucederem, como estas de há cinquenta anos atrás nos parecem a nós.

Não sei se Bergier é dos melhores nomes para ler visões sólidas sobre os futuros prováveis da sua época. É um nome ligado ao ocultismo pop, aos mistérios com toque sobrenatural. Parece que não foi só isso, tendo estado ligado à ficção científica e divulgação científica. Este livro espelha isso. Se a ciência que cita parece datada (quão datada? Cita abundantemente sábios soviéticos) , é ciência, e não especulação sobre o eventual sobrenatural.

Apesar das tendências do presente serem o alicerce o futuro, este tem uma certa tendência a evoluir de formas inesperadas. Para Bergier, de acordo com este livro, talvez a mais inesperada das evoluções seria a forma como a computação e a tecnologia digital se tornaram essenciais para a humanidade. São tecnologias que só aflora levemente, com algum desdém sobre as suas capacidades.

Começa com predições sobre a criação de vida artificial. Não em modo frankenstein, ou de extensão de capacidades humanas, mas numa extrapolação das capacidades da bioquímica, afirmando que em breve, seria possível criar vírus e outros microorganismos. A escrever nos anos 70 do século XX, Bergier não podia antecipar o que hoje se faz com biocomputação, possibilitada pela sequenciação genética. Tanto quanto sei, continuamos sem criar vida artificial, e não parece haver grande interesse nisso. O pormenor curioso é a forma como Bergier descarta de todo a possibilidade de inteligência artificial. Toca no assunto, mas considera o mecanicismo dos “ordenadores” (esta tradução revela o quanto a edição está datada) como artificial e impossível de se tornar vivo. Isto, apesar de citar um então jovem Marvin Minsky. Segue-se um tortuoso argumento, tentando misturar física que claramente não compreende com ficção científica elementar, a defender a possibilidade de viajar no tempo, embora não se atreva a imaginar como.

E comunicar com extraterrestres? Bergier aborda o assunto, citando abundantemente o trabalho de sábios soviéticos (isto mostra o quanto o livro está datado, o que é natural), especulando sobre formas de captar sinais de vida inteligente via rádio ou laser. De raspão, cita Fred Hoyle, observado que as hipotéticas civilizações alienígenas cujas comunicações detetássemos poderiam ser máquinas inteligentes. Seguindo a onda alienígena, Bergier pergunta-se se poderemos construir naves que nos levem às estrelas, apontando algumas soluções hoje quase esquecidas, entre reatores Broussard e propulsão nuclear. Termina as suas visões futuristas, ou melhor, de potenciais tendências, com a ideia de transmissão de energia por vias sem fios, algo cujo impacto ambiental teme. As redes de electricidade sem fios poderiam aquecer o ambiente, observa. Bem, diria que não precisamos dessa tecnologia para aquecer o clima, e é curioso que das tendências apontadas por este autor, a transmissão de energia sem fios parece ter sido a única que realmente se tornou realidade. Não em grande escala, mas para aumentar a conveniência de eletrodomésticos e telemóveis, graças aos carregadores por indução.

Termina o livro com uma exploração do que considera impossível, essencialmente o que está restringido por limites físicos, mas também culturais. Nestas, há um impossível que se está a mostrar ser possível: a tradução automatizada, que para Bergier nunca iria ser possível, mas que hoje é uma das aplicações corriqueiras da Inteligência Artificial.

domingo, 19 de janeiro de 2020

URL

Ficção Científica


Davis Meltzer: Confesso que não consigo perceber o que se passa aqui.

Review: Junji Ito Adapts “No Longer Human” into a Masterpiece of Existential Horror: Perdoem-me, mas sou fanboy, e tudo o que Ito toca é sinónimo de horror absoluto. Mais um livro que precisa de um lugar na minha biblioteca.

How William Gibson Keeps His Science Fiction Real: Um perfil impressionante de um autor de ficção científica cujo futurismo impressiona por ser uma lente distorcida sobre a bizarria do nosso mundo contemporâneo, de futuros que já existem mas não estão uniformemente distribuídos.


Hiroshi Manabe, early 70s: robots psicadélicos.

Dylan Dog/Batman #0 Gets a Wide Release With Added Stories Ahead Of 2020 Series: Bem, preciso de ir a Itália… mas como a Maker Faire é só em Outubro, se calhar é melhor ver se a loja online da Bonelli envia para Portugal. Porque um crossover entre dois dos meus personagens favoritos é imperdível. E nestas coisas, o pessoal do fumetti costuma ser mais cuidadoso com qualidade do que o dos comics.

Grant Morrison Roasts the Current State Of DC Comics – as Well as Bendis, King, Snyder, Azzarello and Himself in Green Lantern: Blackstars: É sempre interessante quando os criadores de comics olham para os estereótipos do género com bom humor.


Chesley Bonestell: Porque é um dos grandes mestres da ilustração de Ficção Científica.

Now That’s What I Call a  Bedtime Story: F*cked Up Fairytales of Yore: As histórias fofas de contos de fada e fábulas clássicas que contamos às crianças (e que são uma das principais fontes de receita dos estúdios Disney), são, na verdade, versões muito diluídas de narrativas pensadas para educar crianças aterrorizando-as. As versões originais dos tranquilos contos de fadas surpreendem pela sua violência, por vezes extrema. Havia uma razão para isso: proteger as crianças num mundo visto como inclemente.

List of popular books people started reading and then abandoned: Quem nunca? Recordo há uns anos ter atentado nas sábias palavras de um escritor mexicano que observou que se as primeiras cinquenta páginas de um livro não o captam, então não vale a pena ler mais. Porque há muitos livros e pouco tempo. Se bem que, por vezes, para ficar a conhecer melhor um campo ou para perceber porque é que um autor é mau, temos mesmo de levar o martírio até ao fim.

Tecnologia


Great Images Found in "Popular Mechanics", 1942: Podemos sempre contar com o blog deste livreiro especializado em livros raros para encontrar pérolas gráficas.

Robôs Inteligentes e Inteligência Artificial: a propósito de algumas reflexões éticas: Dos melhores artigos publicados no Bit2Geek recentemente. O primeiro de um conjunto de reflexões sobre inteligencia artificial.

3D Printing Can Keep Aging Air Force Aircraft Flying: Já se falou nisto no Bit2Geek, unidades de manutenção militar que usam impressão 3D para resolver problemas com falta de peças sobresselentes. Imprimir permite obter peças para as quais já não há linha de produção, ou preço excessivo devido à sua escassez. Os desafios estão nos materiais, que têm de ser capazes de aguentar os rigores do voo militar.

The Drums of Cyberwar: O combate invisível. Com as infraestruturas conectadas à internet e o alastrar da Internet das Coisas, aumentam os pontos de vulnerabilidade para hackers militares (ou paramilitares) atacarem alvos que, até há pouco tempo, necessitavam de ação militar direta, como bombardeamento ou sabotagem, para serem colocados fora de ação. Alvos como hospitais, centros de comunicação, centrais elétricas, enfim, todas as infraestruturas essenciais para a socieade contemporânea.

Best Screenplay Goes to the Algorithms: Não há aqui grandes surpresas. Os algoritmos de geração de texto também podem ser uma ferramenta de criação artística, nas mãos de escritores que não têm medo da computação e gostam de experimentar novas formas literárias.

Loes Bogers, Letizia Chiappini (eds.): The Critical Makers Reader: (Un)learning Technology (2019): Já está no eReader para leitura urgente. Desde que se iniciaram as Maker Faire em Portugal que me apercebi do potencial educacional da cultura maker para transformar a educação. Não como o caminho a seguir, a educação completa é feita de muitas vertentes de atuação, mas como mais uma enorme mais valia para as crianças e jovens. Aprender profundamente fazendo, mexendo diretamente com tecnologias complexas, não apenas o modelo instrucionista de ouvir o professor, estudar, fazer exercícios teóricos e despejar conhecimento de curto prazo.

Facebook sells off Oculus Medium to Adobe: O interesse na realidade virtual funciona em ondas, e claramente após um pico recente, está a decair. O que me interessou foi a aplicação de criação em si, que vai passar a fazer parte da Adobe.

Behind the One-Way Mirror: A Deep Dive Into the Technology of Corporate Surveillance: É uma leitura longa. Mas essencial para se conhecer os meios tecnológicos que estão por detrás do rastreamento automatizado de dados pessoais, que ultrapassa em muito o seu lado visível nas redes sociais. Sem lamentos, porque não é enfiando a cabeça na areia que se combatem estes desafios, mas a apontar estratégias de defesa contra estas imensas redes invisíveis que nos rastreiam das formas mais inusitadas. A EFF aborda com profundidade as diferentes técnicas que nos rastreiam os dados, permitindo às entidades envolvidas traçar perfis e localizar pessoas, quer no online quer no offline.

An Epidemic of AI Misinformation: Um problema que não é específico à inteligência artificial, mas à tecnologia em geral. Os anúncios de novas descobertas são geralmente demasiado otimistas, prometem mais do que as tecnologias realmente são capazes de fazer. 

nefertiti bust joins digital age after secret 3D scans are finally revealed: Na verdade, digitalizações do busto de Nefertiti são fáceis de encontrar online (tenho uma no escritório, que não resisti a imprimir depois de ajudar o Lab Aberto a contribuir para o busto gigante de Nefertiti, criado a partir de uma rede de impressores 3D que contribuíram com peças para um puzzle gigante no Fab15). Traçam a sua origem a este ato de hactivismo nunca bem explicado (lamento, mas kinects e scanners 3D não são equipamentos discretos). Independentemente da origem do scan (provavelmente hackeado ao museu), a batalha foi real, entre um museu que se recusava a libertar os ficheiros para não perder potenciais vendas de reproduções na loja, e ativistas que apontavam para a necessidade de libertar um património cultural global. Agora, os ficheiros de alta qualidade estão legalmente disponíveis. Sabem o que isso quer dizer, não sabem? Hora de carregar filamento na impressora…

British Airways posts top ten predictions for the use of 3D printing in planes: mas não fiquem à espera de predições game changer tipo "aviões totalmente impressos em 3D", antes é o uso de tecnologias de manufatura aditiva em áreas que vão de peças específicas a acessórios de cabina.

Instagram influencer sentenced to 14 years for violent plot to steal domain name: Isto parece completamente bizarro, até nos lembrarmos que ter o URL certo pode ser uma mina de ouro.

Model stealing, rewarding hacking and poisoning attacks: a taxonomy of machine learning's failure modes: Depois de nos rirmos com a forma com a inteligência artificial falha no processamento de informação (varia entre o acidental e a batota intencional), o lado que nos obriga a pensar. Notem o efeito catastrófico se estes modelos com problemas são aplicados a decisões no mundo real. Se calhar, muitos dos algoritmos de IA que andam por aí têm este tipo de problemáticas.

Twitter is funding research into a decentralized version of its platform: Tipo, o mastodon? Face aos problemas que o discurso radical tem levantado nesta rede social, a resposta do Twitter é inventar a roda e começar a investigar aquilo que em essência é o fediverso?

Modernidade


World’s oldest hunting scene shows half-human, half-animal figures—and a sophisticated imagination: Absolutamente fascinante. Estes traços nas cavernas esquecidas são os únicos vestígios de um riquíssimo imaginário humano, para sempre perdido na noite dos tempos. 

On His Holiness’s Service: Como arquiteto. Um perfil de Miguel  ngelo, o grande mestre do renascimento que nos legou a cúpula do Vaticano e a capela sistina. 

Umberto Eco on the Elusive Concept of Ugliness: Se a beleza está no olhar de quem contempla, o feio puxa pelo visceral. Um ensaio estonteante de Eco, parte de um livro póstumo de ensaios a ser em breve publicado.

Why nation-states are good: Alvo contínuo do otimismo destrambelhado silicon valley ou de forças mais obscuras, o estado-nação e os seus serviços sociais são na verdade a garantia de infraestrutura que permite a globalização. O que deveria ser óbvio. Tentem lá globalizar e atingir os níveis de prosperidade estratoesféricos sem: vias de comunicação para mover bens e produtos, sistemas de saúde para manter a população viva e produtiva, meios de segurança para garantir que os fluxos de comércio não são assaltados pelo crime, ou educação para formar técnicos, investigadores, criadores e profissionais de todas as áreas.

CAFÉ NICOLA «A fachada de Norte Júnior (1929) e os interiores de Raul Tojal (1935) : E, no entanto, quantos lisboetas hoje visitam este espaço? O paradoxo do turismo garante que, se calhar, preferimos evitar estes marcos devido à sobrelotação com turistas.

Greed is dead: Greed is good, dizia Gordon Gecko nessa condenação do capitalismo selvagem que é o filme Wall Street. Na verdade, sociedades construídas nas premissas do homem económico colapsariam facilmente. Cooperação, não competição desenfreada, é o que garante sociedades e lhes dá prosperidade. A teoria económica está finalmente a perceber esse dado óbvio. O mundo financeiro não.

JOSÉ CORREIA GUEDES: "HÁ PESSOAS QUE, DEPOIS DE VENCEREM O MEDO DE ANDAR DE AVIÃO, PASSAM PARA O EXTREMO OPOSTO E TORNAM-SE VIAJANTES COMPULSIVOS": Uma entrevista fascinante a um antigo piloto da TAP, que vale pelas histórias mirabolantes que conta. Como ser sequestrado por um adolescente em pleno ar, mas acabar por defendê-lo em tribunal.

Why the Laws of Physics Are Inevitable: Ou como, na natureza, tudo parece encaixar.


domingo, 5 de janeiro de 2020

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Ficção Científica


Jack Kirby: Do cósmico nos comics.

Montblanc Making Of “The Magic of Craft” 2016: O trabalho fantástico de animação de Bruno Caetano, que estreou recentemente "O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto", uma curta metragem muito ambiciosa, aqui visto no processo de concepção de um anúncio para a Montblanc.
https://vimeo.com/190707674


The 13 GREATEST Mixed Media Comic Book Covers: Sem grande surpresa, Dave McKean domina esta lista, que também inclui Bill Sienkiewicz, ou ilustradores mais insuspeitos como David Aja ou Jim Steranko. Algumas destas capas exploram dimensões estéticas que vão muito para além dos comics. E nisto, a poesia negra do trabalho gráfico de McKean é, sem dúvida, o grande ponto alto dos comics dos anos 90.

Fórum Fantástico – What Ian Watson & Cristina Macía Saw: Consegui evitar estar presente em praticamente todos os momentos em que o convidado principal do Fórum Fantástico deste ano esteve em painéis. Não foi intencional, simplesmente apareceu algo para a eu fazer. Tenho pena, porque percebi que Watson trouxe um certo surrealismo ao Fórum 2019.

Lançamento: A Assembleia das Mulheres: Aristófanes recriado em banda desenhada portuguesa, com um estilo visual muito interessante.


Chris Foss cover art for 'Perry Rhodan 2: The Radiant…: O cruzamento de um dos melhores ilustradores clássicos de FC e uma das séries mais longevas de Space Opera europeia.

Marvel Comics Very First Superhero, Revealed (Avengers Spoilers): Ou seja, o universo Marvel vai passar a contar com um super dinossauro. Oops. Grande spoiler, desculpem.


Robert McCall: Nunca há más razões para recordar o trabalho de McCall.

“Doctor Who”: A Celebration of All The Doctor’s Regenerations [VIDEO]: Daquelas séries que os fãs amam. Doctor Who é quirky british Sci-Fi no seu melhor, entre a bizarria dos personagens, o surrealismo das linhas narrativas e os brilhantes jogos linguísticos. A próxima temporada está próxima, e este fanboy está mortinho por rever a Doctor. Esperem, a doctor? Não era um doctor? Esse foi um dos momentos mais corajosos da série, quando regeneraram o excêntrico alienígena como mulher.

Love Baby Yoda, you must: O franchise Star Wars não poupa nada na sua eterna busca de novos brinquedos para vender, digo, de personagens para o seu universo. Baby Yoda (tecnicamente não é o Yoda, porque cronologia, mas a Internet está-se a borrifar para isso), Hello World (e olá memes). Será que poderemos aspirar a um bebé Jar Jar Binks, esse ponto mesmo baixo de Star Wars?

21 cómics de fantasía y ciencia ficción de autores españoles ideales para meterse de lleno en el género: Confesso que tenho alguma vontade de aproveitar a próxima oportunidade de ida a Espanha para vasculhar livrarias especializadas em BD (por lá, algo fácil de encontrar) para descobrir algumas destas obras.

Tecnologia


15 Futuristic Technologies That Were Supposed to Forever Change The Way Kids Learn: Como professor, e fã de futurismo, tenho um gosto especial por visões sobre o futuro da educação. A imagem dos alunos a ouvir livros é satírica, mas o mesmo não se pode dizer das restantes. É curioso descobrir que preocupações com robots a substituir professores vêm dos anos 50 (e hey, em muitos casos, os alunos não notoriam a diferença - costumo dizer aos meus colegas que se tudo o que fazem é debitar matéria e exercícios para preparar alunos para exames, então um robot ou um algoritmo faz o trabalho deles de forma mais eficaz). Também interessante ver especulações sobre sistemas de apoio à aprendizagem - que, nos anos 80, tiveram algum desenvolvimento com os sistemas de tutoria inteligente, essencialmente algoritmos de apoio estruturado à aprendizagem. Outro pormenor é a crença nos novos media para, por si só, potenciarem aprendizagens, como se observa pelo que se dizia do potencial pedagógico da rádio, cinema ou televisão. Não é nada diferente do que dizemos hoje do computador na educação. A grande falha destes futurismo? Nenhum consegue realmente imaginar uma educação futura que consiga ir além do clássico modelo instrucionista, em que a criança absorve informação comunicada por um professor humano ou sistema tecnológico. No fundo, fazer evoluir o modelo de aprendizagem é o verdadeiro desafio à imaginação futurista. 


Tesla wants to reinvent the pickup with the $39,900 Cybertruck: Bem, a tecnologia por detrás deste Tesla deve ser groundbreaking, mas em termos de design, é puro "olá, os anos 80 telefonaram a dizer que querem o carro de volta". Visualmente, parece um modelo low poly saído de jogos de computador cyberpunk.


Lego trolls Tesla with its own 'shatterproof' truck: LOL! A melhor reação bem humorada ao design radical da pickup da Tesla (quase tão boa como a piada de "é o que acontece quando estás a aprender Autocad nas vésperas da data de entrega do projeto", mas está só a malta do 3D é que percebe). Assume-se que este hipotético automóvel da Lego (é spoof, ironia, vá lá, nem tudo o que aparece online é verdade) seja suficientemente grande para não haver risco de magoar os pés se for pisado.

How to recognize AI snake oil: Assim rapidamente - se se trata de a análise, sim, a tecnologia de facto está avançada. Mas no resto, as afirmações do avanço de tecnologias de Inteligência Artificial são na sua maioria não fundamentadas e, nalguns casos, perigosas.

Ghost ships, crop circles, and soft gold: A GPS mystery in Shanghai: Pirataria no século XXI. Spoofing de sinais GPS para ocultar navios que extraem ilegalmente areia do rio Yangtze.

Hitting the Books: Humans are responsible for the antics of our AIs: Um recordar que a computação é algo fundamentalmente humano, apesar das visões de artificialismo e desumanidade. Que são perigos reais, se não nos apropriarmos do potencial da tecnologia digital. O livro de Maeda está nas minhas leituras e tem um otimismo interessante, saído de alguém que equilibra tecnologia e artes.

Once again, a Chinese rocket has doused a village with toxic fuel: Hey, com tantos chineses na China, se alguns morrerem ninguém nota. Da prática chinesa de não se preocupar com a segurança dos lançamentos de foguetões, mesmo que isso implique poluição com o notoriamente tóxico combustível, ou queda de componentes em zonas habitadas.


Mona Lisa como há 500 anos: Quando se fala em Humanidades Digitais (usar ciências da computação como ferramenta em ciências sociais), é isto. Neste extraordinário exemplo, a tecnologia dos materiais é usada para perceber as alterações dos pigmentos aos longo dos séculos. Com computação gráfica, as alterações de cor trazidas pelo decair dos pigmentos são virtualmente revertidas, e conseguimos ver a Mona Lisa tal como Leonardo, e os seus contemporâneos, a viam. Num esplendoroso azul, no rosado do rosto enigmático. A chave da técnica foi uma digitalização em muito alta resolução da superfície do quadro.

Oil is the New Data: Se a indústria da tecnologia promete tornar-se cada vez mais verde, apostando na sustentabilidade e energia renovável, na verdade procura ativamente trabalhar com a indústria do petróleo. A razão? O riquíssimo filão de dados recolhidos e trabalhados por estas indústrias. Há muito dinheiro a fazer em armazenamento de dados, infraestrutura de cloud computing, e algoritmos que processem as vastas quantidades de dados geológicos petrolíferos.

Tim Berners-Lee unveils global plan to save the web: Er… pois… Desejo a melhor das sortes, porque há tendências que caracterizam a Internet hoje que estão a tornar-se perigos reais para a sociedade global. Mas a verdade é que por muito que a sociedade civil se organize, a Internet está de facto refém das estratégias comerciais das grandes empresas de tecnologia. Que, nestas coisas, afirmam sempre a necessidade de mudar práticas, mas nunca implementam realmente mais do que pálidas medidas. E por uma boa razão. Não foi pela moderação e refrear do explorar de situações limite que se tornaram tão lucrativas.

Inside the Instagram AI that fills Explore with fresh, juicy content: Um olhar, mais superficial do que gostaríamos de ler, sobre os algoritmos de seleção de conteúdos do Instagram.

Modernidade


A Peep into the Future, Technology, and Socialism (1901): Ah, o fascínio dos futuristas do passado com veículos voadores sobre as cidades.

Thousand-yard think: Ou a necessidade de parar para pensar. O que, no nosso mundo contemporâneo de aparente imediatismo, parece sintoma de arcaismo. Mas reparem, como é que se pode criar algo, sem pensar sobre isso? Muitas vezes em sentidos que se mostram becos sem saída.


Iridescence: As ilustrações deste autor são pura poesia visual.

The collapse of the information ecosystem poses profound risks for humanity: Seria fácil desconsiderar este artigo como "jornalista lamenta que esta coisa da Internet permita a qualquer um publicar o que pensa", mas não é por aí. O problema não está na democratização da publicação, mas no foco que as plataformas digitais colocam em conteúdos polémicos. E nisto, nada mais eficaz que a propaganda. A sua capacidade para gelar o sangue das pessoas e despertar sentimentos fortes assenta como uma luva nos algoritmos de maximização de atenção das redes sociais. Não é um problema de liberdade excessiva de publicação, mas sim de enviesamento algorítmico da percepção. 

'They Can't Stop Us:' People Are Having Sex With 3D Avatars of Their Exes and Celebrities: Ainda estou para descobrir a tecnologia que tenha escapado à regra 34 (se não sabem… a vossa inocência é tocante). Desta vez, os recursos 3D ao serviço dos fetiches e desejos inconfessáveis. 


In the Company of Ghosts – The Poetics of the Motorway Part 2: Houve uma altura em que o betão cinzento do alto modernismo não era sinónimo de arquitectura depressiva, e o asfalto em vias largas da auto-estrada simbolizava um futuro mais positivo do que iminente apocalipse ambiental e múltiplos engarrafamentos.

Adiós al primer Airbus A380 entregado a una aerolínea: Não é o fim do A380, mas é o princípio do fim. O maior triunfo da engenharia aeronáutica europeia não teve o sucesso comercial previsto, e está para breve o encerramento da sua linha de montagem.

Chinese magazine ‘accidentally’ reveals new top secret weapon: É sem dúvida um grande míssil, e pobre do porta-aviões que estiver na sua mira. Mas duvido que esta revelação tenha sido acidental. Nestas coisas, não há acasos, apenas estratégias bem estudadas.

How China’s Rise Has Forced Hong Kong’s Decline: Um panorama mais alargado da crise em Hong Kong, relacionando-a não só com o estreitar do jugo chinês, mas também com a decadência daquela que foi uma das cidades globais mais influentes, mas que perdeu importância para a megalopole de Shenzen.


A Massive Triple Tandem Triplane (1921): Não sei porquê, não fiquei surpreendido ao ler que as tentativas de meter esta bisarma com asas a voar terminaram em acidente.

Archive of blood: how photographer Letizia Battaglia shot the mafia and lived: A história extraordinária de uma fotógrafa que registou a Mafia italiana nos piores tempos dos anos 80, onde travaram uma guerra contra as autoridades italianas. Fotos de violência e sentimento, que ajudaram a desmistificar a imagem dos criminosos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Talking to Robots


David Duncan (2019). Talking to Robots: Tales from Our Human-Robot Futures. Nova Iorque: Dutton.

Especular cenários de antecipação é uma técnica clássica para perceber como as forças do momento presente poderão moldar o nosso futuro. Este livro é uma aplicação direta disso. Parte de entrevistas a experts em robótica, inteligência artificial e transhumanismo para traçar cenários hipotéticos. A base de investigação é sólida. O problema está nos cenários em si. Duncan decide seguir um caminho algo histriónico, mais baseado em jargão pseudo-futurista do que transposição sólida do que aprendeu para cenários especulativos. Tentando trazer algo de novo à discussão sobre robótica, falha, porque está mais interessado em deslumbrar o leitor com frases de futurismo simplista do que, realmente, traçar cenários.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Un Mundo Robot


Javier Serrano (2018). Un Mundo Robot. Córdova: Guadalmazán.

Este é talvez um dos livros mais exaustivos sobre os potenciais impactos da robótica, automação e inteligência artificial que li. Adota o ponto de vista de que esta transformação tecnológica que se está hoje a começar a fazer sentir vai ter um impacto tremendo na sociedade e mundo do trabalho, seguindo a cartilha de que a automação avançada vai custar empregos irrecuperáveis. E preocupa-se com o mundo que se poderá construir, num futuro próximo em que a economia estará em grande parte automatizada e, para milhões de pessoas, ter um emprego poderá ser uma impossibilidade.

O autor cobre as bases para sustentar os seus argumentos, com uma visão das tecnologias e tendências de IA e robótica, olhando também para a história da mecanização e seu impacto laboral. Torna-se mais interessante quando olha para as consequências sociais disto. Não assume a perspetiva de travar esta nova revolução industrial, até porque a pressente imparável. Traça futuros possíveis, que vão do sonho neoliberal de pobreza generalizada e concentração de riqueza nas mãos de uma elite, àquela visão clássica de utopia pós-escassez, com a humanidade liberta do rigor do trabalho mecanizado, sustentada por mecanismos de rendimento básico assegurado, dedicando-se ao ócio, à arte, às ciências. E, pelo meio, algumas variantes possíveis.

Do livro, retiramos uma visão da necessidade de humanizar a revolução tecnológica. Afirma claramente o óbvio: os impactos sociais da automação, IA e robótica na economia serão sempre uma escolha social e política. As sociedades não podem olhar com nostalgia para os passados e recusar esta revolução. Mas também não podem deslumbrar-se com as maravilhas tecnológicas e deixar de tomar medidas para que a distribuição de riqueza se torne mais equalitária. A preocupação de ter IAs superinteligentes que nos extingam ou domestiquem poderá ser uma eventual probabilidade a longo prazo, mas a curto prazo teremos algo mais arrepiante: o empobrecimento generalizado, a retirada de perspetivas de vida a milhões de pessoas, tornadas descartáveis por um sistema económico que substitui a força laboral humana por algoritmos e robots. Provavelmente, já estaremos a sentir esse impacto. Resta-nos decidir, como sociedade, o que fazer. Seguir a cartilha da maximização do lucro e enriquecimento de uns poucos, que parece ser a narrativa dominante na sociedade contemporânea, ou usar a tecnologia para evoluir enquanto humanidade.