domingo, 23 de fevereiro de 2014

Say we need a revolution


Bem vindos ao século XXI, pensei quando vi esta extraordinária foto de David Rose em Kiev. A imagem em si é fortíssima, mas para leitores aguerridos de comics que estimulam o intelecto é curiosamente reminiscente do trabalho de alguns dos seus mais viscerais argumentistas. Terei de invocar a santíssima trindade dos argumentistas que melhor sentem o pulso da modernidade acelerada pela tecnologia.

A pose desafiante do homem registado pelos pixeis do fotojornalista tem o seu quê de Warren Ellis, com um olhar de olhem para mim, seus cabrões, arraso-vos com a minha caçadeira de dois canos. Estou protegido pelo capacete enferrujado pelo sangue dos meus avós na II guerra, e estes óculos protectores anti-gás deixa-me invencível. Vou-me a todos com a força do meu smarphone hiperconectado.

Tambem recorda Grant Morrison a provocar a mente dos leitores com o seu say we want a revolution, citando a velha canção dos Grand Funk Railroad. Logo nas primeiras páginas do modificador de realidades The Invisibles. onde o psicadelismo e a fluidez das percepções de realidade tomam de assalto os neurónios de quem se atreve a prestar atenção às páginas coloridas.

Ou talvez seja mais perverso. Talvez isto seja o século XXI a nascer, em gritos de revolta e placenta de fogo na ruas, após as contracções transformativas saídas de think tanks rarefeitos e instituições respeitáveis que a partir dos anos 80 asseguraram hoje que o domínio dos oligarcas seja completo e o humanismo fique enterrado sob os escombros das ruínas do progresso clássico. Recorda-me as facas afiadas de um cirurgião e as entranhas as mulheres da noite postas a nu nos becos de um bairro londrino que Alan Moore postulou serem o parto do século XX em From Hell, parto iniciático que gerou o novo século numa placenta de sangue arterial e vísceras. Talvez estes anos de regressão violenta e os refluxos de revolta sejam o parto deste novo século. Note-se o acelerar da frequência de revoltas violentas, povo nas ruas e prelúdios de guerra civil.

Quem é que escreveu que os séculos não começam verdadeiramente nos anos 0, recordando que o que nos antecedeu abriu os olhos nas trincheiras da Flandres?

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