Mostrar mensagens com a etiqueta Clássicos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Clássicos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Odisseia


Ilustro com o canto das sereias, notável pela forma como o filme defrauda as expetativas dos espetadores, mostrando-nos como o vislumbrar é muito mais poderoso do que o revelar, e ainda nos lega uma música assombrosa.

É notório que Nolan tomou imensas liberdades para com a obra original. Para quem leu a Odisseia, a escolha das atrizes para dar corpo a Helena e Clitemenestra  nem sequer é a mais polémica, embora valha a pena pelo ouvir zurrar os trolls fachos e conservadores com o beliscar da sua visão alva da herança cultural de um passado cuja visão distorcida veneram.

No meu caso, desgostei do branquear da figura de Odisseus, um herói muito mais imperfeito do que o que o filme nos faz crer. Não significa que desgostei do filme, bem pelo contrário. É excelente, e traz estas histórias milenares para novas audiências. Adapta--se a elas, é revista com outras sensibilidades. As apropriações e interpretações fazem parte do cinema.

E sejamos honestos, acham mesmo que Homero não interpretou e adaptou quando transformou a longa tradição oral no poema escrito que hoje conhecemos? Isto, claro, caso optem por acreditar neste tão metaficcional poeta cego que passou as palavras faladas ao papiro. 

Houve momentos no filme que senti como demasiado condensados. A relação entre Odisseu e Calipso não foi, de todo, como o filme a retrata. Há um cruzamento com o episódios dos lotófagos, e a real relação entre o herói e a ninfa não foi baseada em esquecimentos.

Se o momento de Circe é dos mais incríveis pela forma como foi filmado, uma intrusão do mais puro body horror, tem mais uma vez pouco a ver com o original. Circe era uma bela feiticeira num palácio, não uma bruxa envelhecida num casebre, e Ulisses passa com ela bem mais do que umas horas.

Onde o filme descarrila mesmo em relação ao original é no seu final. Não que Ulisses destoe como herói de ação, mas o momento em que derrota os pretendentes é muito mais violento e macabro. Não o revelando, Nolan poupou-nos a questões incómodas sobre o poder e a submissão, que o replicar de cenas como o enforcamento das escravas tidas como infiéis ao herói suscitaria.

Que o final se desvia é acentuado pelo discurso sobre o fim da nobre era do bronze (um anacronismo, seria como ver um homem primitivo a discorrer sobre a diferença entre sapiens e neandertais) ou a constantes referências aos povos do mar que ameaçam o derrocar do mundo pré-helénico. São intrusões de história contemporânea, e uma óbvia mensagem do realizador sobre o momento contemporâneo em que vivemos, evocando a metáfora dos bárbaros que ameaçam os portões.

Para quem critica a intrusão de outras obras neste filme, na verdade faz sentido. Trazer a Ilíada (e laivos da Eneida com aquela queda de Tróia) ou a Oresteia mostra o contexto da Odisseia, uma epopeia que não é um texto isolado. Torna o filme mais rico para os espetadores. 

Talvez o maior sintoma da forma como Nolan adapta a história à nossas sensibilidades está na linha narrativa de Argos, essa metáfora da fidelidade perfeita. Se bem me recordo, não passa de algumas estrofes nos episódios finais do poema. No filme, é constantemente referenciado com destaque, até à emocional cena de amarga felicidade em que o cão, abandonando na esterqueira, geme e dá o último suspiro ao reconhecer o toque do seu dono.

Confesso, vieram-me lágrimas aos olhos nesse momento. É natural, como dog person que sou, a história de Argos é sempre comovente.

Por outro lado, um dos momentos mais pungentes da obra, onde Odisseus tenta abraçar o espectro da sua mãe na sua descida ao Hades, ficou esquecido.

Se há personagem que leva o filme é Penélope, magistralmente encarnada por uma Anne Hathaway que claramente fez o trabalho de casa e mergulhou a fundo no teatro clássico. É um portento em cena, traduz a profunda dimensão trágica das tragédias gregas.

Estranha-se, muito, a ausência de deuses numa história vinda dos mitos da antiguidade. Apenas Atena é discretamente visível, e no final do filme há uma ligação visual que nos leva a pensar que as manifestações da deusa, tão essenciais ao sucesso do regresso, não passam de um trauma de Ulisses, da manifestação psicológica de um profundo sentimento de culpa pelas consequências das suas ações como guerreiro em Tróia. 

É um sentimentalismo algo desfasado, em linha com um ideário pop típico de Hollywood. É por estas, e muitas outras, incoerências que o filme e o realizador têm sido tão atacados pela crítica.

E, no entanto, são três horas que não se sentem. São salas cheias, a descobrir uma interpretação profunda de uma das mais milenares histórias que contamos. Adapta, interpreta, revê o clássico com o nosso olhar. Traz a voz da antiguidade para os públicos modernos, recorda-nos o fio cultural que nos une. 

Um fio que não é estanque e imutável, cada era se revê à sua maneira na Odisseia. 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Deusa Síria


Luciano (1939). A Deusa Síria. Lisboa: Editorial Inquérito.

Como amante que sou de palavras milenares, não resisti a este achado de alfarrabista. Não será obra maior, mas isso não retira o fascínio de ler pensamentos preservados de um mundo que nos é longínquo. A descrição das prática religiosas greco-romanas foge à nossa visão estereotipada de elegância e hieratismo; as descrições dos praticantes de rituais míticos estão cheias de um certo espírito de confusão e desordem, complexos com só a vida consegue ser. É um excelente mergulho no passado, evocando uma imagética viva. Esta edição inclui um curioso ensaio sobre o luto, com  uma posição crítica e satírica (não surpreende, dado ao autor) sobre os rituais da morte.

terça-feira, 5 de maio de 2026

O Crime do Padre Amaro


Eça de Queirós (1935). O Crime do Padre Amaro. Porto: Livraria Lello.

Não esperava ficar avassalado por esta leitura. Respirei fundo, ao virar as últimas páginas, com o absoluto brilhantismo da prosa queirosiana. Fechei o livro com um sentimento de espanto. É um defeito, admito, só agora estar a ler com atenção os clássicos canónicos da literatura portuguesa. Tenho uma razão pessoal para isso, a imposição de leitura nos tempos de escola deixou-me com uma reação de rejeição, um sentimento injusto perante a qualidade da nossa literatura. 

Num recente artigo para o Shifter,  observa-se que a  nossa insistência na leitura obrigatória de alguns autores como parte do currículo da escolaridade obrigatória não se deve a uma genuína vontade de preservar a sua memória e dar a conhecer a sua obra às novas gerações, mas a uma mais serôdia vontade de marcar leituras. Não se incentiva a ler para cultivar o gosto, mas sim para se poder afirmar que se leu. E eu, confesso, não conheço melhor maneira de destruir o gosto pela leitura do que obrigar a ler livros específicos para em seguida testar conhecimentos em provas e testes. Já agora, confessem lá, leram mesmo os livros obrigatórios que tinham de ler no secundário, ou leram as versões resumidas para estudar, porque sabiam que o que importava era responder às perguntas dos professores? Na ânsia de preservar a memória da cultura, corremos o risco de destruir o gosto e o prazer de ler. 

Assumindo a minha ignorância, esperava deste livro um dramalhão romântico ao estilo típico do século XIX, uma história trágica de amores e paixões. Há estes elementos na narrativa, mas ao ler deparei-me com uma história de crítica social corrosiva e intensa, um retrato demolidor da sociedade portuguesa. Um retrato que, suspeito, com as devidas atualizações não seria muito diferente hoje, num certo provincianismo cultural e na forma como nos relacionamos com o poder, quer seja político quer religioso ou económico. O final, magistral, é ao mesmo tempo trágico e imoral. Eça mostra-nos, ao contrário de Dostoievsky, que o crime não implica castigo, até bem pelo contrário.

Perceber qual foi o real crime do padre Amaro é questão que me irá remoer durante bastante tempo. Não há respostas lineares a esta pergunta. Será, ostensivamente, a sua profunda paixão pela jovem Amélia, um crime social e religioso. Como padre, não poderia ter mulher, muito menos apaixonar-se tão profundamente. Mas o amor não é crime, pensa-se ao ler o livro. Há amores que perduram, contra tudo e todos, e um romance entre uma jovem e um padre poderia saldar-se num final amor vincit omnia. Se é um crime religioso, não o é  em termos humanistas.

Ao longo da leitura, vamos percebendo melhor o padre, e o seu amor. Percebemos que não se trata realmente de amor profundo, mas sim aquela paixão intensa (ou, em termos vernaculares, pura "tesão") por uma mulher atraente. As esperanças de que o romance seja uma feliz história de amor desvanecem-se ao perceber que apesar da intensidade da sua paixão, Amaro nunca equaciona dar o passo lógico de largar a sotaina e construir uma vida ao lado da sua amada. Bem pelo contrário, chega a procurar formas de casar a rapariga, mantendo-a sempre sob o seu jugo sexual. 

Depressa percebemos que para este padre, a religião é um elemento secundário. Não há dúvidas que a tem, que é crente e conhecedor dos preceitos. Mas a sua vocação como padre surgiu na adolescência, ao descobrir a dureza da vida de trabalho. Educado como menino-mascote de uma aristocrata religiosa, entre velas, rezas e santinhos, tem uma fugaz experiência como marçano onde aprende que o verdadeiro valor da religião é a pertença à organização. Ser padre livra-o do trabalho braçal, dá-lhe rendimentos, abre-lhe as portas da sociedade local da paróquia, torna-se uma figura influente e come bem e muito à borla, nos jantares sociais das devotas paroquianas. É um emprego confortável, com alguns sacrifícios e muitos pequenos luxos. Nem nos maiores assomos de paixão Amaro sequer coloca a hipótese de largar esse conforto para viver livremente o seu amor.

A ironia, corrosiva, do livro é perceber que a atitude deste padre é a norma. Que todos os que o rodeiam pregam o que não praticam, vivendo vidas tranquilas entre as casas das paroquianas que os alimentam de comida, e até mais do que isso. Que muitos são os padres que partilham a vida com mulheres que em público são devotas governantas mas à noite lhes aquecem a cama, ou que educam carinhosamente sobrinhos e sobrinhas que são na verdade seus filhos. É um daqueles segredos que todos conhecem, mantido por conveniências sociais. Todos fazem, todos sabem, ninguém diz, apesar de em segredo de mexerico todos comentarem. 

A sátira queirosiana vai mais a fundo e mostra-nos padres exímios da pregação do que não praticam, que engordam à custa das paroquianas enquanto criticam a preguiça dos pobres, venais que apontam o dedo em riste à impiedade das ideias liberais, homens mesquinhos que se afadigam mais nas suas vinganças pessoais do que nos sacramentos, ou homens de vida confortável que encetam todos os esforços para que nada lhes perturbe o remanso. Em todo o romance, só um personagem clerical se distingue como real crente, um humilde abade que não quer mais da vida do que ajudar os seus paroquianos numa aldeia leiriense e refletir sobre a filosofia cristã. Um personagem que faz uma entrada tardia, tentando afastar Amélia do destino de amante manipulada, mas as circunstâncias da natureza não lhe permitem a salvação.

Todo o romance se passa numa sociedade bafienta de valores de religiosidade bacoca. O livro liberta um nítido odor a sacristia, a velas que iluminam santinhos e gravuras. Eça explora muito bem a superstição religiosa enquistada como cultura, a religiosidade das rezas contínuas, da aparência santa, da sujeição a um clero venal e moralmente corrupto.

Não consigo deixar de pensar em Amélia como uma vitima. Jovem humilde, da pequena classe média que vive em redor da sociedade eclesiástica leiriense, que vê no jovem padre vindo da capital uma luz que a apaixona. Até à chegada de Amaro, resignava-se à vida pacata de acompanhar a mãe (ela própria uma amante oculta de outro padre da paróquia) na sociedade, entre os serões com as comadres devotas ou as temporadas estivais na Vieira, percebendo que pretendentes teria para o desejável casamento respeitável. A chegada do novo pároco abala-lhe o mundo, mas a forma como a paixão é cultivada faz-me pensar mais naquilo que hoje consideramos relacionamentos tóxicos (e que já eram assim vistos à altura, sem este nome) do que em amor. Torna-se claro que Amaro usa a sua posição de poder espiritual para seduzir a jovem. As consequências serão trágicas. Mesmo nos momentos da mais profunda paixão, a jovem condena-se por saber que está a ceder a um crime, sabe que se for descoberta se tornará uma proscrita. Quando a natureza faz o que faz e engravida, começa a viver o pesadelo de ser afastada, oculta, para que o segredo não macule a imagem de probidade do senhor padre.

Se acharem que estou a cometer o erro de ler Eça com uma lente woke, só vos digo que nestes aspetos, este romance é uma lição de profundo humanismo moral. Amélia é uma vítima objetificada, Amaro a ponta de lança de uma cultura religiosa moralmente corrupta, e o retrato que faz da sociedade não lhe fica atrás. Todos pregam a virtude moral e social enquanto cobiçam a mulher do próximo (as cenas do secretário do reino em Leiria que passa os dias à janela do seu gabinete a galar a esposa de um comerciante da rua são um delírio de humor), ou vivem entre esquemas que visam manter as suas prebendas e confortos, em prejuízo de outros. Há até um laivo de cultura queer, na forma da personagem de Libaninho. Um verdadeiro rato de sacristia, pio devoto que não perde uma missa ou reza, que a páginas tantas é descoberto enrolado de forma imprópria com um camponês nos jardins da cidade. Acabará como sacristão, curiosamente.

Se o romance é um longo e tremendo retrato de hipocrisia social e moral, o final é magistral. No penúltimo capítulo, Amélia morre no parto, numa cena tremenda em que um abade religioso e um médico  ardente de ciência confrontam os limites das suas crenças. A rapariga que tinha entre os seus sonhos ascender na vida e passear de coche com criados de libré acaba por ir para o cemitério acompanhada por criados de um morgado local, graças à presença daquele que foi o único homem que a amou verdadeiramente, e pagou caro por se ter atravessado no caminho do padre. A ironia do cortejo fúnebre é pungente e corrosiva. Amaro tem um momento de lampejo humanista, tentando assumir o filho com o velho estratagema do sobrinho, mas a tecedeira de anjos a quem o entregou resolveu-lhe o problema de forma fatal. Note-se, sublinhando o caráter corrosivo da obra, que esta mulher do povo que fazia negócio de livrar o mundo das proles indesejadas foi recomendada por uma alcoviteira que estava perfeitamente integrada no santo mundo dos padres, que professava a religiosidade pura enquanto tratava dos segredos venais dos homens de sotaina. Desolado com o trágico desfecho da paixão, o padre Amaro abala para Lisboa em busca de outra colocação, fugindo do escândalo.

O livro termina em Lisboa. Ou melhor, no Chiado, centro da vida cultural da época, em cujos cafés muito se discutia e decidia. Reencontramos Amaro e um dos seus amigos padres leirienses. Pelas suas conversas, percebemos que nada mudou, que a morte infeliz da jovem não interferiu de todo com os modos de vida deste clero. Há lições aprendidas, claro, digamos que Amaro agora só se aproveita sexualmente de mulheres casadas, para não se voltar a ver embrulhado em complicações. Procura singrar na vida, com apoio de um aristocrata ligado ao governo que move influências para o nomear para lugares mais auspiciosos do que longevas paróquias de aldeia. Prosperar é o castigo para os seus crimes.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Guerras do Alecrim e Manjerona


António José da Silva (1975). Guerras do Alecrim e Manjerona. Porto: Porto Editora.

Uma delícia picaresca, texto de 1737, comédia onde a sensibilidade barroca colide com a mais clássica das emoções humanas - não o amor, mas a tesão. É uma história tão velha quanto a humanidade, rapazes que se agradam pela belas raparigas, e as artimanhas de que se socorrem para as catrapiscar. Mas neste Portugal barroco, as normas sociais obrigam a profundos exercícios de estratégia amorosa. Quando dois rapazes de nobreza suspeitosamente pobretana se cruzam com duas amáveis donzelas, começa um jogo de seduções onde o terno conflito entre plantas simboliza as leis da atração. A complicar os amores há o tio das donzelas, homem rico e rico homem muito cioso das suas sobrinhas, e o primo da província que vem importado das berças para escolher uma das donzelas casadoiras, embora esteja mais interessado nos encantos da criadita da casa. 

Não há amores sem um cupido e uma alcoviteira. São as desventuras do desenrascado criado dos nobres rapazes, homem de estratagemas mil e vezeiro nas artes do engate, que fazem o fio condutor desta peça clássica. Peripécias mil, encontros e desencontros, enganos e artimanhas formam esta versão hilarante da mais antiga ária da humanidade, a boa e velha cantiga do bandido.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Odisseia


Homero (2003). Odisseia. Lisboa: Livros Cotovia.

A eterna narrativa do péripo de Odysseus é uma daquelas histórias que quase todos conhecemos, nas suas linhas gerais, mas é provável que poucos a tenham lido integralmente. Alguns leram as versões simplificadas de que falamos na escola, e isso já lhes dá um vislumbre do poder deste texto milenar. Não escrevo isto como alguma forma de observar superioridade intelectual por me ter atirado a esta leitura, apenas reflito que é um texto cujas traduções originais são relativamente difíceis de encontrar, e caras. A tradução de Frederico Lourenço é excelente, erudita e cuidada, e feita de forma que contribui muito para a legibilidade, mantento o leitor envolto na poesia das palavras e nas desventuras do herói de mil ardis. Por cá, os clássicos não são muito acessíveis, penso enquanto recordo livrarias florentinas ou londrinas onde havia secções inteiras que lhes eram dedicadas, com uma profusão de obras e traduções para todos os bolsos.

Não me vou dedicar a dissecar ou analisar uma obra tão longeva e complexa, tantos outros mais habilitados já o fizeram. Apenas refiro que ao ler, finalmente, a versão integral deste texto senti na pele, nas entranhas, o poder desta história que já se conta há milénios. Uma história profundamente humana, onde o herói não é um ser perfeito (bem pelo contrário, é volúvel e violento, apesar de no seu cerne pemanecer fiel à ideia do lar e do regresso), deuses caprichosos e mesquinhos intervém, os homens se revelam em grande parte pela ganância e cobiça das riquezas dos outros ou pela fidelidade inabalável mesmo quando sentem o desprezo dos que os rodeiam - algo que também se aplica às mulheres, apesar da grande personagem feminina ser a encarnação da perfeição maternal do lar, na figura da eternamente fiel Penélope que não renega a memória do marido perante toda a pressão social para que escolha outro para casar, levando para outra casa as riquezas e o poder da ilha de Ítaca.

O texto é poderoso, e como já observei, a tradução de Frederico Lourenço é magistral, tratando-o com uma elegância literária que contribui muito para que o leitor sinta a sua empolgância, desespero e apelo.

Não resisto a uma partilha muito pessoal, que senti ao chegar àquelas estrofes da Odisseia que deixam qualquer pessoa que, como eu, adora cães com uma lágrima no olho:

"E um cão, que ali jazia, arrebitou as orelhas.

Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio

criara, mas nunca dele tirou proveito, pois antes disso partiu

para a sagrada Ilion. Em dias passados, os mancebos tinham levado

o cão à caça, para perseguir cabras selvagens, veados e lebres.

Mas agora jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente:

jazia no esterco de mulas e bois, que se amontoava junto às portas,

até que os servos de Ulisses o levassem como estrume para o campo.

Aí jazia o cão Argos, coberto das carraças dos cães.

Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto,

começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas;

só que já não tinha força para se aproximar do dono.

Então Ulisses olhou para o lado e limpou uma lágrima.

(…)

Mas Argos foi tomado pelo negro destino da morte,

depois que viu Ulisses, ao fim de vinte anos."


Quem tem cães, compreende. Quem ama ler, sente o fascínio de palavras vindas de um tempo tão longevo nos tocarem tão profundamente - notem que se o texto escrito tem mais de dois mil anos, a tradição oral é ainda mais antiga.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Andanças com Heródoto


Ryszard Kapuściński (2020). Andanças com Heródoto. Lisboa: Livros do Brasil.

Terminada a leitura, fico com um sabor de profundo humanismo no meu espírito. O livro é um diálogo mental, entre dois viajantes. Temos Kapuściński e as suas experiências de viagem, em si um olhar para um outro mundo, para o nosso passado recente já desaparecido. Crescendo na Polónia devastada na II Guerra, tornando-se jornalista no ambiente opressivo da ditadura comunista, descobre em si uma inusitada vontade de ir conhecer outros países e vê-se, um pouco por acaso, enviado pelas revistas onde trabalha para ir cobrir acontecimentos noutros países. 

Dado o clima da Guerra Fria, a sua carreira de correspondente não o leva aos grandes centros globais, mas sim aos países amigos da cortina de ferro. Dá por si na Índia, no Egipto, em África, na China. Primeiro, como jornalista duplamente inexperiente. Viver num país onde a propaganda se sobrepõe á realidade e a informação é fortemente censurada, nada o prepara para o contacto com outras culturas, das quais tudo desconhece. Kapuściński é resiliente e curioso, dá sempre a volta às mais mirabolantes barreiras com que se depara. Essas histórias formam parte do livro, e acabam por funcionar como retrato da segunda metade do século XX. Visitou uma Índia e Egipto emergentes, nos países africanos recém-independentes, e sentiu na China a dissidência e o afastamento entre estados totalitários aparentemente aliados, mas rivais. São tempos e modos que hoje recordamos na história, característicos da época mais forte da Guerra Fria.

E, no meio destas andanças, um complexo diálogo com um homem que viveu há milénios. Heródoto, pai da História, viajante consumado, que nos deixou o primeiro texto conhecido que fala de povos, de usos e costumes, das façanhas dos reis e da história das nações do mundo que conhecia - o imenso centro do mediterrâneo, com ramificação até à longínqua Índia. As histórias de Heródoto cruzam-se com as experiências de Kapuściński, graças ao livro que o acompanhou desde a sua primeira viagem ao estrangeiro, e que nunca mais largou. O faro de jornalista depressa descobre no homem da antiguidade uma espécie de alma gémea, curioso com as geografias, as pessoas e os seus costumes, mas atento aos pormenores e capaz de distanciamento, de afirmar que o que conta e descreve é a sua percepção, mas também são as visões e percepções daqueles que lhe relataram histórias e acontecimentos. Uma visão relativista, que afirma há mais de dois mil anos que a verdade histórica é condicionada pela percepção daqueles que contam. 

O livro entretece dois tempos, o passado recente de Kapuściński e o distante de Heródoto. Tanto visitamos a China maoista no dealbar da revolução cultural como a Pérsia que se prepara para invadir a Europa. Saltitamos entre os novos estados africanos e a Atenas clássica. Sempre a refletir na humanidade essencial, no humanismo das gentes, quer as pessoas anónimas do dia a dia, quer aqueles que a história imortalizou. Um diálogo entre épocas, entre tempos, mas a mostrar um fio contínuo ao longo da história.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Ifigénia em Aulide


Eurípides (1974). Ifigénia em Aulide. Coimbra: Instituto de Alta Cultura.

Uma tragédia que se foca num dos episódios mais negros da Ilíada, o sacrifício da filha de Agamemnon para aplacar os deuses e garantir o triunfo grego na guerra troiana. Um episódio que costuma ser apresentado sob o prisma da ambição desmedida de um rei que não hesita em sacrificar a filha mais querida para conseguir o que quer, mas que nesta tragédia de Eurípides ganha outra dimensão. Aqui, Agamemnon é um pai atormentado, que tenta evitar o sacrifício da filha, e é Ifigénia, a vítima sacrificial, que se oferece à morte, assumindo que a guerra contra Tróia é muito mais do que o vingar do rapto de Helena, e sim uma afirmação da necessidade de independência grega face às ameaças vindas a oriente. E assim deixa-se sacrificar, para pesar do pai, despertando o ódio de Clitmenestra, sua mãe (que Ésquilo explorará de forma magistral na Oresteia), morrendo em nome da liberdade do povo grego.

terça-feira, 30 de julho de 2024

O Beijo; Julieta das Minhocas


José Vilhena (1966). O Beijo.

Mais um mergulho na mordacidade de Vilhena, infatigável cronista dos maus costumes e da hipocrisia dos que os praticam enquanto pregam a virtude. Desta vez o tema é o beijo, leve metáfora para atos mais profundos, analisado num tratado filosófico-humorístico no estilo clássico deste autor de culto.


José Vilhena (1970). Julieta das Minhocas.

Não se pode acusar o humor de Vilhena de ser subtil. Bem pelo contrário, o seu ridículo escabroso permite-o safar-se com uma crítica social ácida. Mas podemos acusá-lo de fazer uma das mais inesperadas homenagens a Shakespeare. Imaginem o enredo de Romeu e Julieta, transposto para um bairro de lata dos arrabaldes da Lisboa dos anos 60. Onde as aristocracias desavindas são as famílias dos taberneiros (e merceeiros, e agiotas) do bairro, os indomitáveis e de hilária aliteração Monteiros e Carapetos. Onde o jovem Romeu, aqui Romão, é um seguidor das modas pop da época, mas também um bom rapaz, tão bom rapaz que não corresponde à ardência da sua Julieta, que como todas as mulheres de Vilhena, não oculta a sua sexualidade. E o resto, é um desmontar parolo-erudito (isto não é uma qualificação insultuosa) da tragédia clássica, cheio de rixas e bebedeiras, de pais que vêem as filhas como um bem para ascender socialmente, que irá acabar mal para os amantes (spoiler: ela sobrevive e emigra para França, onde os seus atributos físicos lhe garantem sustento, ele, morre por ingestão de lagosta estragada numa marisqueira de Benfica), mas até termina bem para o povo de baixa condição do bairro. Pelo menos, até este ser aterrado para se construir apartamentos, que se destinam a albergar todos menos os que habitavam a zona. Cáustico, divertido, erudito e popular, Vilhena faz aqui mais uma profunda crítica mordaz aos seus tempos.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Sandokan: O Pirata da Malásia


Emilio Salgari (2011). Sandokan: O Pirata da Malásia. Lisboa: Babel.

Sandokan é um nome mítico da minha infância, embora já tenha nascido demasiado tarde para ser um espetador da série clássica que encantou a geração que me precedeu. Mas mais do que uma série televisiva clássica, foi uma série de livros de aventura saídos do imaginário de Emilio Salgari. 

As aventuras do Tigre da Malásia e seus irredutíveis piratas de Mompracem é um típico produto de literatura empolgante de outras eras, onde os exotismos da Ásia distante e o lado selvagem das ilhas indonésias cativavam o imaginário. As histórias de aventura, de piratas que eram nobres nos seus combates contra forças da ordem e lei que na verdade eram corruptas, o fascínio desse caldeirão de povos, civilizações, imperialismos e promessa de aventura que era o extremo oriente no século XIX. 

Nesta aventura, Sandokan irá enfrentar um dos seus piores inimigos, o rajá inglês do Sarawak, caçador e exterminador confesso dos piratas malaios. Enfrenta-o, não por vingança ou ódio, mas para ajudar um casal apaixonado. A história tem todos os ingredientes: fuga aos Thugs indianos, ataques navais e abordagens em alto mar, conspirações locais, aparentes derrotas dos heróis e um triunfo final que recompensará os heroísmos. Um excelente exemplo da ficção de aventuras clássica, escrita para estimular as sensibilidades dos jovens do passado.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Tragédias do Ciclo Troiano


Sófocles (1973). Tragédias do Ciclo Troiano. Lisboa: Livraria Sá da Costa.

As histórias que dão continuidade ao poema épico da Ilíada, esse rico substrato que os fragmentos que até hoje nos chegaram levam a intuir um enorme universo de histórias, poemas e peças de teatro que exploram os vários detalhes e ramificações da história original, ela em si também um coalescer de diferentes relatos e tradições da poesia oral da Grécia Antiga. Aquilo a que hoje chamaríamos um "universo ficcional".

Da minha leitura destas tragédias, saliento um foco muito rígido de Sófocles na noção do dever de honra acima de tudo, por trágicas que sejam as consequências para os personagens dos esforços para manter ou restaurar a honra. Os infortúnos em que os seus personagens são colocados advém dessa vontade.

A trilogia de peças inicia-se com Ájax, o contar de uma história da guerra de Tróia. Preterido na posse da armadura de Aquiles pela argúcia de Ulisses, um enfurecido e fora de si Ájax chacina um rebanho de ovelhas. Na sua mente iludida, crê piamente que está a vingar-se do ultraje matando aqueus e torturando Ulisses, o seu líder e inimigo confesso, apesar de aliados na epopeia troiana. Confessa, inclusive, à deusa Atena, este seu sucesso. Mas o dealbar do dia mostra-lhe a verdade. Sentindo a sua honra perdida, entrega-se ao desespero, e decide redimir-se pelo suicídio, caindo sobre a sua própria espada apesar das súplicas e argumentos da sua escrava e mãe do seu filho, de companheiros e do próprio Ulisses, que apesar das disputas não deseja tal mal ao seu inimigo. Ájax prefere morrer a viver com o peso da vergonha da sua ilusão.

Electra leva-nos à Tebas pós-ilíada, com a vingança de Orestes sobre os assassinos do seu pai, Agamemnon. Electra é a grande mulher trágica, consumida pela ideia de vingança pela morte do pai às mãos da sua esposa, ultrajada pelo sacríficio da filha Ifigénia (não há bondade na maldição da casa dos Atreus, todos os personagens seguem a via do sangue). A oportunidade de vingança surge com o regresso do agora adulto irmão Orestes, que Electra tinha conseguido por a salvo da ira do amante da mãe, levando-o para um exílio. No regresso, Orestes socorre-se de um subterfúgio para não ser imediatamente reconhecido, que levará a irmã a um desespero  profundo que só se mitiga com a descoberta da verdade. O destino segue o seu caminho, e Orestes vingará a morte do pai assassinado a mãe, lavando com o sangue da mulher que o deu à luz a honra da família Átrida. Ao contrário de Ésquilo, que na sublime trilogia Oresteia nos mostra como a obrigação do lavar da honra conduz a mais tragédias e remorsos, em Sófocles este matricídio é mostrado como o necessário ponto final que libertará Electra do opróbrio. Não haverá aqui Erínias que atormentem o vingador.

Em Filoctetes, o jovem guerreiro Neoptélemo, filho de Aquiles, tem de cumprir uma missão espinhosa: cumprindo as ordens de Ulisses, montar um ardil que obrigue Filoctetes a regressar aos combates na Tróade. Este é um homem amaldiçoado, mordido por uma cobra como castigo divino, cuja ferida nunca sara, deitando um cheiro nauseabundo que ninguém suporta. Foi abandonado pela frota grega numa ilha deserta, onde sobrevive isolado numa caverna, o que não o torna nada predisposto a regressar à guerra. Tudo o que quer é uma oportunidade de regressar a casa, e parte daí o ardil de Ulisses. Este sabe, por via dos oráculos, que as flechas mágicas de Hécules que Filoctetes detém são uma das chaves para a vitória sobre os troianos, daí tornar-se necessário encontrar uma forma de o levar para o cerco de Tróia. Enganar Filoctetes com um suposto resgate para casa, que na verdade é um rapto para o obrigar a ir para a batalha, é o plano, mas Neoptélemo não se sente confortável com a mentira, acabando por desobedecer a Ulisses e a contar a verdade a um Filoctetes que, percebendo o ardil, mergulha no desespero. O compromisso de Neoptélemo com a honra acabará por ser recompensado, quando o próprio Hércules se manifesta, e o insta a acompanhar Ulisses ao campo dos gregos, mostrando-lhe que essa ação irá expiar a maldição divina que pesa sobre ele.

A humanidade dos heróis gregos é aqui mantida numa posição de absolutos, de compromisso com a honra que ultrapassa laços filias ou de obediência aos reis, mesmo que isso lhes custe o que têm de mais precioso.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Oresteia - Agamémnon, Coéforas, Euménides


Ésquilo (2008). Oresteia - Agamémnon, Coéforas, Euménides. Lisboa: Edições 70.

Estes textos milenares continuam a tocar-nos, tantos séculos passados após terem sido escritos e representados nos anfiteatros gregos. Por um lado, o confronto de absolutos, que nesta trilogia dita o destino funesto da casa de Atreu. Agamemnon, vencedor das guerras e algoz dos troianos, regressa a casa para ser assassinado pela esposa. Mostrando o quão profunda pode ser a dor que leva à vingança, Clitmenestra disfarça até ao momento fatal o ódio que vota ao marido, por este não ter hesitado em sacrificar a sua filha mais nova para garantir a vitória na guerra. E, no meio de tudo, a infeliz Cassandra, profetisa amaldiçoada com o dom das previsões em que ninguém acredita, e que se deixa levar pelo destino. Mas a mulher também acabará morta, desta vez com um destino ainda mais impensável. É Orestes, o seu filho, que seguindo o imperativo moral de vingar a morte do pai, espeta a sua espada no seio que lhe deu o leite. Um imperativo sublinhado pelo oráculo de Delfos, manifestando a vontade do deus Apolo. A trilogia trágica termina com um julgamento. Apesar de cometido a seguir a vontade de um deus, o crime de Orestes é hediondo, e desperta a ira das Euménides, antigas divindades que atormentam os criminosos até ao inferno. Mas, se o crime de sangue de Orestes é hediondo e digno de perseguição, a culpa não será atenuável por ser um homem que segue os desígnios de um deus? E assim termina a tragia, com um julgamento onde a sábia Atena ouve os argumentos de Apolo, Orestes e das Euménides, e dá o seu veredicto de acordo com a vontade expressa pelo júri no Aerópago. Uma decisão algo salomónica, em que Orestes não sendo perdoado, é liberto da maldição porque a intervenção divina foi o elemento decisivo para o seu crime, e as vingativas divindades são concencidas a tornarem-se, também, protetoras da cidade e de quem faz o bem, embora não percam o seu papel de implacáveis perseguidoras dos piores crimes. 

As consequências das decisões violentas, o papel dos deuses questionado, a ideia que a vontade um júri humano deve prevalecer sobre a vontade de potestades. Questionar, assumir, vincar o humanismo, seguir o destino mas questionando os poderes das divindades. Era assim há 2000 anos, e talvez apenas naquele local do mundo. Ainda hoje, em muitas partidas da Terra, questionar a vontade expressa de seres míticos é algo punível entre censura e morte.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Da fabrica que falece a cidade de Lisboa


Francisco de Holanda  (2021). Da fabrica que falece a cidade de Lisboa. Lisboa: Público.

Um mergulho nas visões de um dos nossos grandes homens renascentistas, originalmente editado em 1571. Neste livro, lido em versão fac-similada disponível numa coleção do jornal Público, mergulhamos numa visão de uma Lisboa quinhentista utópica. Com o olhar treinado pelas suas viagens a Itália, Francisco de Holanda propõe uma série de edificações, entre fortificações, fontanários, palácios e igrejas, que a seu ver tornariam a cidade de Lisboa merecidamente grandiosa. Pelo caminho, conta-nos a história, algo lendária, da cidade, e documenta alguns vestígios romanos. O livro é recheado dos seus maravilhosos esboços, que concretizam a sua visão para uma cidade que nunca aconteceu. O volume também colige um dos seus textos sobre a importância técnica, social, política e artística do desenho, procurando consciencializar os leitores.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Antígona


Sófocles (2012). Antígona. Lisboa: Fundação Gulbenkian.

Estes textos são realmente intemporais. Milénios passados sobre a sua escrita e representação, com os tempos e as sociedades a mudar e a modificar-se, as emoções originais continuam vivas. Podemos não adorar os deuses ou respeitar os normativos sociais da época, mas como não nos comovermos com o destino trágico de Antígona, uma mulher que se atreve a desafiar os poderosos, ao colocar o sentimento de dever e amor familiar acima da obediência? E, no fundo, de profundo humanismo, quaisquer que tenham sido os crimes de uma pessoa em vida, não merece que o seu cadáver seja abandonado aos cães. Antígona pagará com a vida o querer respeitar o corpo do seu irmão caído em desgraça, e sua morte coloca um fim na enorme maldição edipiana, esse exemplo de como infelizes acasos conduzem à tragédia e opróbio. 

Também lamentamos a personagem de Creonte. Numa leitura superficial, é o vilão da história, o regente inflexível que procura a justiça exercendo injustiças. Mas talvez não seja isto, talvez seja o exemplo de um líder cheio de incertezas, que coloca no dogmatismo das posições absolutas a forma de ser respeitado, mas também de garantir que todos serão tratados com justiça. E compreenderá que a sua inflexibilidade, o colocar a norma acima dos pedidos e necessidades daqueles que rege, tem consequências fatais, e irá também destruir a sua própria família. 

Este texto milenar não se esgota em simples interpretações de blog, mantém-se no pensamento. E recorda-se sempre do coro em fundo, uma voz de consciência que guia, questiona e atormenta aqueles cujas vidas formam o enredo e a lógica destas tragédias.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Starting from Scratch


Andrea Marcolongo (2022).  Starting from Scratch: The Life-Changing Lessons of Aeneas. Nova Iorque: Europa Compass.

O que me fascina nos clássicos, para além da sua influência basilar na nossa matriz cultural, é a forma como nunca se esgotam. Novas gerações trazem diferentes olhares sobre palavras escritas há milénios, redescobrindo-as, reforçando com os conhecimentos da investigação histórica, ou enriquecendo com novas visões (por vezes, empobrecendo, quando as interpretações seguem matrizes ideológicas).

Neste longo ensaio, visitamos um poema que se tornou um dos grandes épicos da antiguidade clássica. Partindo do substrato grego de Homero, o poeta romano Vergílio liga a história mitificada da Roma imperal com as epopeias da Ilíada, reclamando para os romanos a continuidade da mítica era de ouro grega. Fá-lo através do périplo de Eneias, um troiano sobrevivente à hecatombe da destruição da sua cidade, que, com um grupo de sobreviventes, segue num périplo mediterrânico até arribar às costas itálicas e tornar-se o fundador dos reinos que, seguindo o mito de Rómulo e Remo, deram origem a Roma. 

Eneias é um heói relutante, que segue a missão de fundar as bases de um novo império, mas que no seu íntimo, o que mais deseja é um regresso ao passado, aos tempos em que vivia com a mulher e filhos na Tróia de funesto destino. Tendo perdido o que mais almeja, segue um destino de refugiado, de missão quase divina de plantar a semente da civilização grega na raiz dos bárbaros latinos. De tal forma este destino é inescapável, que quando confrontado com a oferta de amor e poder em Cartago, sob a forma da paixão de Dido, não cede e segue o seu destino, tornando esta rainha apaixonada numa das grandes figuras femininas trágicas da antiguidade. 

O ensaio de Marcolongo não se fica pela análise à narrativa. Enquadra o texto no contexto histórico romano, como poema épico com objetivos políticos, embora seja redutor considerar a Eneida como panfleto político para apoio do imperador Augusto. Fala-nos das geografias do poema (e é aqui que percebemos a profunda ironia vergiliana de através da Eneida, considerar que a luz grega iluminou os selvagens latinos e permitiu-lhes o grandioso império), das suas técnicas de escrita. Fala também das visões sobre o poema, e o autor, ao longo da história. Aqui as coisas tornam-se ainda mais interessantes. 

Cada leitor acrescenta a sua interpretação, e algumas são muito curiosas. Nos tempos do fascismo, o regime de Mussolini apropriou-se da Eneida como grande mito fundador e legitimador do fascismo italiano. Um aproveitamento errado, que teve como óbvia reação uma certa relutância com o poema, e o poeta. Diria que por cá, a promoção nacionalista do Estado Novo que, entre outros, apropriou os Lusíadas, teve efeitos similares. Mas entre os vai-véns do gosto, das marés de admiração e rejeição, nada bate os tempos da idade média. Algumas interpretações liberais de alguns versos viram na obra uma antecipação da vinda de Cristo, e a admiração cristã pelo poeta levou-o a ser considerado um santo, embora nunca tenha chegado a ser canonizado. Confesso, altares às relíquias de Vergílio foi algo que me surpreendeu nesta leitura, que nos mostra a importância da literatura clássica, e como esta nos influencia de formas que nem sempre são as mais esperadas.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Lendas Japonesas


José Ruy (2023). Lendas Japonesas. Lisboa: Polvo.

As vicissitudes do ciclo natural da vida ditam que este é o último livro que o mestre José Ruy nos deixou. É apropriado que seja o seu último livro, porque muitos dos trabalhos que integram nasceram no início da sua carreira, ou foram criados em fases mais maduras. Como decano da BD portuguesa, Ruy teve um longo percurso por revistas e editoras, marcando com o seu traço clássico gerações de leitores. Tinha uma predileção especial pela história, ficanco conotado com adaptações para BD de episódios da história de Portugal. Estas Lendas Japonesas permitem ver um outro lado do autor, fascinado por exotismo e capaz de introduzir na sua estética pessoal elementos gráficos de outras iconografias.

Neste livro, Ruy presta uma profunda homenagem a Venceslau de Morais, escritor que se perdeu, e muito bem perdido, pelas terras orientais do sol nascente. Transmutou o seu fascínio pela cultura japonesa em livros clássicos, indo além do mero deslumbre orientalista para nos trazer olhares de profundo respeito pelo modo de vida nipónico. As lendas que fascinaram um ainda jovem José Ruy partem desse acervo literário.

Este é um livro que demorou décadas a ver a luz. No prefácio, descobrimos como há mais de meio século que o autor trabalhou nas suas histórias, numa saga de peripécias editoriais que por várias vezes quase levou este projeto a ser impresso, mas sempre sendo mal sucedido. Resta uma intervenção fortuita do editor da Polvo, numa conversa online, para nos trazer esta preciosidade. Dada a estabilidade e maturidade do traço de José Ruy, não vemos aqui uma evolução do seu estilo. Até porque as histórias mais antigas foram reformuladas. Nota-se, no entanto, um enorme esforço do autor para cruzar duas tradições estéticas, o realismo europeu e o estilismo japonês. Isso nota-se muito nos enquadramentos, onde Ruy transumta para o seu traço a estética das ilustrações japonesas.  

Tudo passa nesta vida, e podemos alegrar-nos que no final da sua vida, José Ruy tenha ainda deixado este último legado, que de certa forma é uma súmula da sua carreira, mas também de épocas, um posfácio aos tempos antigos da BD  portuguesa, e um curioso casamento de clássicos portugueses: vindo das palavras de um escritor clássico do século XIX para um autor clássico da BD do século XX. Ficamos nós, leitores, a ganhar, pelo deleite que é mergulhar nestas encantadoras adaptações de lendas japonesas. O livro tem o seu quê de arcaísmo, uma aragem de outros tempos, e isso torna-o ainda mais delicioso.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Epic Poems


Hesíodo (2022). Epic Poems. Atenas: Kaktos.

Três poemas clássicos. Teogonia é uma genealogia do enorme panteão grego. Os Trabalhos e os Dias é um texto misto, cruza saber popular, crença religiosa e a experiência do poeta. Escudo de Hércules é uma pequena ode épica ao herói dos mitos gregos. Entre os mitos e a tradição dos povos, estes poemas oscilam entre o épico e o humano. O tom conselheiro de Trabalhos e Dias é particularmente tocante, sentimos uma sabedoria milenar que mesmo hoje, soa sensata.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

O Burro de Ouro


Apuleio (1978). O Burro de Ouro. Lisboa: Editorial Estampa.

É preciso ter cuidado com as jovens bruxas da Tessália. Podem ser fogosas debaixo dos lençóis, mas se quisermos experimentar os seus encantamentos, rendidos como estamos aos seus encantos, algo pode correr mal. Como se comprova pela história deste Lúcio, viajante grego que se vai metendo nalguns sarilhos libinosos nas suas viagens, e no seu desejo de novas experiências, pede a uma aprendiz de feiticeira que o transforme num pássaro, tal com a sua ama consegue fazer. A jovem feiticeira não é tão destra nas artes mágicas quanto a sua ama, e o pobre Lúcio descobre-se feito num burro. 

Não é o pior dos destinos, basta que o homem transformado em animal coma uma rosa para regressar à condição humana. O problema, é que tudo lhe corre mal. É roubado por ladrões, usado como jumento de carga, trocado entre amos, alguns brutamontes, outros mais agradáveis. Acaba, até, no leito de uma matrona especialmente lúbrica (esta parte do romance seria impublicável, hoje...). Depois de muitas desventuras, será graças à intervenção da deusa Ísis que regressará à condição humana. A partir daí, as suas viagens de descoberta irão assumir um caráter mais espiritual, com a sua iniciação nos mistérios da deusa, e, posteriormente, nos de Osíris. 

Romance de impenitente impertinência, entre o obsceno e o libertino, é também uma história que contém histórias. Quer como Lúcio, quer como burro, o personagem cujas desventuras seguimos cruza-se com outros viandantes, que contam histórias. Há pequenos romances e tragédias dentro deste grande romance clássico, que estão entre o moralista e o humorista, lidando quase sempre com traições conjugais, e inclui ainda um detalhado contar do mito de Cupido e Psiché. Apesar de o ter lido numa tradução algo maçuda do século XIX, é fácil de perceber a sedução irreverente desta história sobre a busca constante de novos conhecimentos, experiências e limites, de ir mais longe mesmo que se vivam consequências funestas dessa vontade. E, confesso, não me é difícil imaginar um antigo romano a rir-se às gargalhadas de algumas das passagens mais escabrosas deste romance.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

O Mundo de Ulisses


Moses Finley (1988). O Mundo de Ulisses. Lisboa: Presença.

Descobrir o mundo dos antigos gregos, comparando as histórias das obras de Homero com o que se sabe da realidade histórica. Esta é uma viagem à antiguidade clássica, à sua sociedade, costumes e modos de viver, onde  os feitos míticos dos heróis homéricos são o ponto de partida para se conhecer como, de facto, viviam os antigos gregos. O livro funciona por comparação, mostrando aquilo que os poemas épicos mitificaram, e o que com isso podemos aprender sobre as realidades da política e sociedade da civilização grega. Sabemos que nem as guerras duravam décadas, a maioria eram escaramuças entre rivais em busca de recursos; que os heróis dificilmente mobilizavam as multidões das epopeias, dado que as populações eram reduzidas; que os reis era mais comparáveis a chefes de clã do realmente reis na acepção que hoje lhe damos. Estes, e outros pormenores, são analisados com elegância num livro que nos recorda o valor da literatura para analisar a história.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Obras Portuguesas


André de Resende (2009). Obras Portuguesas. Lisboa: Sá da Costa.

Três escritos do humanista português, que são um espelho da sua época. A História da Antiguidade da Cidade de Évora é notavel pelo olhar metódico para os traços do passado, coligindo leituras, registos históricos e indícios arquitetónicos para abordar o passado da cidade de Évora. Do meu ponto de vista, lendo-o praticamente meio milénio depois de ter sido escrito, fiquei fascinado com o sentido narrativo e histórico do texto. Já os restantes textos coligidos neste livro, li-os com o interesse da descoberta, mas não me deixaram impressionado (e observar isto, não é de todo uma diminuição do seu valor). Quer a história da vida do infante D. Duarte, quer a do santo frei Pedro, pareceram-me ao mesmo tempo relatos factuais e elegias elogiosas ao poder, quer real quer religioso. São um interessante vislumbre do trabalho deste humanista português, bem como das mentalidades e modos de viver da sua época.

terça-feira, 28 de março de 2023

A Germânia


Tácito (1941). A Germânia. Porto: Livraria Educação Nacional

A visão do mais clássico dos historiadores romanos sobre os povos que habitavam para lá das fronteiras romanas, nas florestas e rios dos territórios que hoje são a Alemanha, Polónia, países bálticos e escandinávia. Povos esses que, séculos mais tarde, viriam a desmembrar e ocupar o outrora poderoso império romano. Para Tácito, estas tribos que não viviam em cidades e não procuravam o dinheiro eram, claramente, bárbaras, longe da mais refinada cultura romana. No entanto, ao longo do texto é perceptível uma admiração pela moral e carácter destes povos bárbaros, quer pela sua coragem militar, quer pelos seus valores morais, que Tácito entende como não corrompidos pelos luxos e vícios da civilização. 

A acreditar em Tácito, a palavra germânico não indetifica um povo, que era composto por múltiplos povos e tribos, mas vinha da palavra vitória, designando-os como vitoriosos e ocupantes das florestas germânicas. Uma referência clássica que ressoa um pouco na história alemã do século XX. As suas descrições são liminares, e vão-se tornando mais difusas à medida que penetra nos espaços mais distantes das fronteiras do império. Até chegar ao ponto onde termina, concluindo que chegou a povos e terras dos quais o que se sabe é lendário. Mas de histórias e lendas não trata este antecessor dos historiadores, foca-se no que sabe e é registado. Do texto, também se retira a ideia de um vasto e desconhecido mundo que ficava para além das fronteiras do império, um mundo mais selvagem e obscuro.

Esta edição do texto clássico foi publicada em 1941.