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terça-feira, 11 de agosto de 2026

A Pior Banda do Mundo Vol. 1


José Carlos Fenrnades (2014). A Pior Banda do Mundo Vol. 1. Lisboa: Devir.

Regressar a um dos mais discretos grandes clássicos da Banda Desenhada portuguesa. Aquando da sua publicação original, em seis excelentes volumes, esta obra surpreendeu pela sua tranquila mistura de surrealismo, erudição, qualidade literária e simplicidade gráfica. Sempre foi uma obra assumidamente derivativa, apesar do seu caráter próprio, um destilar bem apurado do mais elegante na cultura global. Sempre num registo rigoroso de duas pranchas, mergulha-se em percepções e ruminações, na normalidade da estranheza, no absurdo sublimado. As histórias curtas são em simultâneo tocantes, desafiadoras, cómicas, surreais e sonhadoras. 

Se me deslumbrei por esta obra aquando da sua publicação original nos princípios deste século, regressar, neste formato condensado, foi recuperar a memória do deleite. José Carlos Fernandes afastou-se das lides da banda desenhada, deixando-nos um conjunto de livros interessantes e experimentais. A Pior Banda do Mundo merece o destaque como uma das melhores obras da história da BD portuguesa.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Umbra #06


Filipe Abrabches, et al (2026). Umbra #6.

Estamos a ficar mal habituados. Este sexto número da revista Umbra mantém a elevada qualidade criativa e narrativa, trazendo-nos histórias desafiantes e bem tecidas. Uma delas recupera o trabalho de um que já não está entre nós, ficando a promessa de continuidade a estas pranchas intrigantes. 

Uma certa ironia negra é o grande tema deste número, com histórias que tocam no pós-apocalíptico, na ficção científica ou no cosy horror, sempre com finais de irónica dureza. A novidade desta edição é abrir-se ao mangá, mostrando o amadurecimento crítico da aceitação da BD japonesa, que nos está a permitir conhecer obras muito mais interessantes e bem conseguidas do que o lado pop e comercial.

Lida a sexta edição, resta esperar pela próxima. 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pedro e o Imperador


Batista, Joana Afonso (2022). Pedro e o Imperador. Lisboa: Polvo.

O ponto de quebra entre a história de Portugal e do Brasil, vista sob a perspetiva ternurenta de um filho assombrado pelo espectro do pai falecido. Pai esse que foi D. Pedro, o gritador do Ipiranga que declarou a independência do Brasil mas abdicou do trono para regressar a Portugal, abraçando a causa liberal nas guerras civis da primeira metade do século XIX, tornando-se rei constitucional. O seu filho herdou o império dos brasis, até abdicar a favor da instauração da república. 

A história e os seus factos são o pano de fundo, mas esta história conta-se num diálogo entre um filho a envelhecer, herdeiro de um trono e de um cargo que nunca quis, a viver o ocaso da sua vida entre viagens e o exílio. Sempre acompanhado pelo pai, espírito fantasma que após morrer em Portugal, passa a fazer na morte o que não conseguiu em vida, estar ao lado do seu filho. Note-se que esta não é uma história de terror, a ideia do espírito incorpora uma espécie de diálogo interior de D. Pedro filho, a examinar as suas ações à luz da herança do pai. 

Um livro tocante, e confesso, a razão que me levou a pegar nele é ser mais uma obra representativa do excelente traço de Joana Afonso, uma das nossas melhores artistas contemporâneas de BD. A produção deste tomo partiu de um programa de intercâmbio cultural editorial dos dois lados do Atlântico, unindo autores e editoras em livros luso-brasileiros.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Comics: A Star Called the Sun; Secret Origins of the World's Greatest Super-Heroes; Civil War


Simon Roy (2026). A Star Called the Sun. Portland: Image Comics.

Simon Roy é um dos melhores praticantes da ficção científica na BD contemporânea. Autor independente, distingue-se pelo misto de surrealismo e FC dura nas suas bandas desenhadas curtas, todas um primor de leitura. Não segue os padrões convencionais do género, nem opta pelo lado de espetáculo visual. As suas ficções são reflexões sobre humanismo, tecnologia e o choque de civilizações.


Dennis O'Neill et al (1991). Secret Origins of the World's Greatest Super-Heroes. Nova Iorque: DC Comics.

Para um leitor veterano de comics, houve aqui um regresso ao passado, que trouxe memórias de histórias que já tinha lido. Isto é a DC do princípio dos anos 90, antes da moda dos crossovers infindos e do grimdark, e estas histórias de origem recontam os inícios das personagens clássicas, com o que à época eram novas roupagens. Em Batman não há muita volta a dar, aquele elemento gótico é inescapável, mas noutras personagens, vemos um Superman que só na idade adulta descobre ser o último kryptoniano, um Martian Manhunter em versão policial noir, e embora numa tenha sido dos personagens que me desperta interesse, a origem de Flash - Barry Allen intriga pela sua circularidade numa origem que funciona num laço infindo. Foi também divertido recuperar à tentativa de comics bem humorados escritos por Keith Giffen, que deu um ar de sitcom às aventuras da Liga da Justiça.


Mark Millar, Steve McNiven (2026). Civil War. Lisboa: Atlântico Press.

Aproveitar a recente coleção Must Have por cá editada para revisitar uma série que se tornou estrutural na mitografia Marvel, o conflito entre os maiores heróis que questionou as bases da lógica do género. Talvez das poucas séries que se tenha atrevido a olhar para o que acontece quando super-heróis e vilões chocam entre si, essencialmente destruição quase indiscriminada. A outra, diria, foi o mais leve e algo humorista Damage Control, sobre funcionários camarários que têm como trabalgho limpar os resquícios dos heróis, desde o entulho dos conflitos às teias do Homem-Aranha. Civil War segue o caminho da mediatização e responsabilização social, bem como da instrumentalização das boas intenções pelos governos. A abordagem é eficaz, o que não surpreende, dada a capacidade narrativa de Mark Miller. Confesso, este é um dos argumentistas dos comics que adoro detestar. Tem uma enorme capacidade de tecer narrativas dinâmicas e cinemáticas, com pontos interessantes, mas nunca sai de um registo comercial puro. Nada contra, é o que quer fazer, mas torna-se repetitivo e fica-se sempre a pensar que como criador, poderia ir mais longe.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Umbra #05


Filipe Abrances (2025). Umbra #05. Edições Umbra.

Sou suspeito nesta recensão, dado que adoro esta revista desde o primeiro número e apoiei o kickstarter desta edição. O trabalho de edição de Filipe Abranches é, como sempre, impecável e consegue a rara proeza de nos trazer a colisão de dois mundos - o da BD mais erudita e experimental com a ficção científica em estado puro. O resultado são histórias muito bem conseguidas, ilustradas com estilos arrojados que fogem ao convencional. Temos um pouco de tudo - o tecno-otimismo pós-catastrofista de Assim Voam as Cegonhas de Pedro Moura e Marta Teives, a clássica distopia futurista anti-conhecimento e livros de Branco Neve por Vasco Colombo, as visões de um Marte quasi-surrealista de Kriz 3-IO de Fernando Relvas, uma obra esquecida que a Umbra promete recuperar, o cyberpunk mestizo de Trujillo por Gustaffo Vargas, e o surrealismo fantástico de A Fronteira Selvagem por Vasco Colombo e Pedro Morais. A capa, de Rita Alfaiate, é extraordinária no seu estilo cyber (e aqui ainda sou mais suspeito, sou hiper mega fã do trabalho desta ilustradora, ai de quem se atreva a dizer que Neon não é uma das melhores obras de BD portuguesa de sempre). 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Burroughs


João Pinheiro (2015). Burroughs. S. Paulo: Veneta.

Porque é que gosto de frequentar alfarrabistas, perguntam-se? Porque de vez em quanto deparamo-nos com estes grandes achados: um livro que nos surpreende, ou que julgávamos esquecido, ou algo tão fora da caixa que merece espaço na estante. Sim, sou desses bibliófilos, frequento espaços de livros em segunda mão não para me abastecer a preços mais baixos, mas em busca dos bons acasos, da pérola livresca no meio das estantes. 

Esta edição brasileira é uma enorme homenagem ao espírito e à estética de William S. Burroughs, um dos mais marcantes escritores malditos do século XX. Mergulhamos nas visões bizarras de Naked Lunch, mas não de forma linear. Esta não é uma banda desenhada adaptativa, antes, funciona por curtas histórias que nos levam ao universo delirante do escritor, ao mesmo tempo surreal, onírico, disforme e repulsivo. 

A estética visual assenta-lhe como uma luva. Não há linhas limpas, o estilo é áspero, rude mas elegante. O surrealismo literário fica bem ilustrado, com aquela visceralidade incómoda que é uma das marcas da obra do autor que inspirou este livro.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Ex.Mag 01

 

Já percebi que o bom gosto do editor da Sendai é elevadíssimo. Não só pelo que traduz e edita por cá, trazendo-nos manga fora dos estilos e temáticas habituais, muito ecléticos mas tendo em comum uma certa poesia surrealista, quer quando nos leva a ler mangá experimental, ficção científica cosy ou delírios do guro. Também vende diretamente outras propostas, e foi da banca dele no Fórum Fantástico que trouxe esta Ex.Mag 01. Os autores são desconhecidos, organizou-se via Kickstarter, e o tema desta primeira edição é o Cyberpunk.

Como é óbvio, não consegui resistir. Novas visões sobre a velha estética distópica dos anos 90 que entusiasma tanto os techbros que constroem o mundo digital? Vamos a isso.

A antologia é interessante, visualmente diversa, com alguns talentos muito bons em evidência. A temática é obviamente distópica e é curioso ver como os novos criadores extrapolam os maus impactos sociais e pessoais da tecnologia nas suas visões de futuro, tendo em conta que já pertencem a uma geração que desde que nasceu sente na pele o pior do mundo digital. Podem descobrir esta leitura interessante aqui: https://www.sendaibooks.eu/exmag1


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Histórias à Sombra do Montado

(2022). Histórias à Sombra do Montado. Odemira: Javali Mágico.

Confesso que quando o João Campos amavelmente me oferceu estes exemplares para a minha biblioteca, não esperei muito. Pensei ser um fanzine temático, patrocinado pelo município de Odemira, dando espaço de edição a jovens criadores locais. E nada de errado seria se fosse isso, mas ao abrir as páginas dei com histórias escritas e ilustradas por alguns dos autores mais conhecidos da BD portuguesa contemporânea. Mosi, Joana Afonso, Marta Teives, Nuno Saraiva,  Joana Bértholo, Bernardo Majer ou Afonso Cruz são alguns dos nomes que não esperava encontrar nestas páginas.


(2024). Histórias à Sombra do Montado nº 2. Odemira: Javali Mágico.

O tema das antologias prende-se com o território do concelho de Odemira, as suas raízes culturais, o ecossistema do montado de sobro, mas também as transformações que sofre trazidas quer pelos exilados afluentes das grandes cidades que buscam no campo um bucolismo idealizado, ou pelos imigrantes trazidos para trabalho nas explorações agrícolas.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Corpo de Cristo


Bea Lema (2025). Corpo de Cristo. Lisboa: Iguana.

Cruzei-me com este livro na exposição que lhe foi dedicada no festival Amadora BD e, confesso, fiquei com a impressão errada que todo o livro teria sido bordado e não desenhado. Foi esse o primeiro ponto de atração desta obra, a curiosidade de um inusitado tipo de ilustração. O outro ponto estava na forma como a iconografia naif da religiosidade espanhola surgia entre os bordados. Pensei que se tratasse de um livro sobre tradições e costumes, mas, novamente, estava engando. 

As tradições e os costumes fazem parte do substrato deste livro, mas o seu grande tema é a coexistência com doenças mentais. Numa história autobiográfica tocante, a autora conta o que foi crescer e viver com os transtornos e delíríos da sua mãe, cuja esquizofrenia foi despoletada por uma combinação de traumas do passado e inadaptação no regresso a Espanha após uma temporada como emigrada. Há uma sublimação da tradição, interpretada pelos bordados da ilustração, também uma referência a um dos talentos da sua mãe. O estilo gráfico é fortemente pessoal, a tocar no naif, embora com um rigor de composição e cor que se equilibra bem com a expressão do traço. As pranchas bordadas são a grande surpresa do livro, por vezes a recordar bordados infantis, outras complexos ex-votos cheios de referências tradicionais. 

Um livro que enche o olhar, e desafia a meditar no cruzamento entre a fragilidade da mente humana, as crenças arreigadas das tradições e os traumas de um passado de pobreza que, na Galiza tal como por cá, caracterizou o nosso passado recente.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O mistério dos templários

José Ruy (2023). O mistério dos templários. Lisboa: Polvo.

Um velho mestre, a fazer aquilo que sabe melhor, contar histórias em BD no seu estilo próprio. José Ruy foi um dos maiores e longevos criadores portugues de BD, com uma obra longa e um estilo visual de realismo clássico, onde a vinheta ilustra as palavras. Neste, que se tornou o seu último livro, cruza história com mitos para explorar mistérios ligados aos templários. A história desta ordem militar cruza-se com a portuguesa, e Ruy coloca Tomar como guardiã dos verdadeiros tesouros da ordem, que não são meras riquezas terrenas. Um mergulho num traço e estilo narrativo de outros tempos, pelas mãos de um mestre.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Tales From Nevermore


Pedro Nascimento, Manuel Monteiro (2025). Tales From Nevermore. Lisboa: Ala dos Livros.

Estou arrependido por só agora ter lido este tomo. Deparei com ele em Leiria, quando lá estava no clássico encontro do CCEMS, mas achei que esperaria até ao Fórum Fantástico (não estava por lá à venda) ou pelo Amadora BD. O meu compasso de espera deve-se a, em parte, preferir adquirir as minhas leituras do fantástico português diretamente às lojas e projetos que o mantém vivo, e não às cadeias tipo Bertrand. Fiquei logo rendido ao folhear o livro na Bertrand de Leiria, resisti ao impulso de compra, naquele jogo psicológico de adiamento de recompensa. E que recompensa, agora que o li.

Pedro Nascimento e Manuel Monteiro oferecem-nos uma vénia profunda e excelente ao conto curto de terror gótico, bem como à estética magistral da EC comics e Warren nos anos 60 e 70 que se tornou um dos marcos maiores da iconografia do género. As histórias são curtas, incisivas na sua ironia negra, e soberbamente ilustradas. Segue o formato da antologia de terror, com um narrador que nos apresenta os contos e termina tecendo considerações morais, ou amorais, sobre o que acabámos de ler.

O tom de homenagem a todo um género é total, entre a estética visual, narrativa e linguística, formato, ou vénias óbvias como apelidar um corvo de Vincent. Há um toque de intrigante humor negro no livro, especialmente quando os autores brincam com a publicidade infantil que também fazia parte dos velhos comics de terror. 

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Urlo


Luca Conca,  Gloria Ciapponi (2022). Urlo - Grito no escuro. Lourinhã: Escorpião Azul.

A Banda Desenhada é uma arte ingrata. Demora tempo a ser concebida, planeada, desenhada e editada. Já a ser lida, muitas vezes é num ápice. Foi o caso deste Urlo, livro que me seduziu pelo grafismo mas surpreendeu pelo ritmo acelerado da leitura. É uma história de terror e suspense, com um homem a tentar sobreviver na floresta enquanto uma criatura esfaimada, acicatada por campónios violentos, lhe dá caça. Uma história de fugas, lutas e momentos inesperados, mantida sempre num ritmo narrativo fortíssimo. Há uma certa circularidade no livro, que se inicia e termina num pântano verdejante, e diga-se que as primeias e últimas pranchas são os raros momentos bucólicos do livro. Isso é sublinhado por serem a cores, a contrastar com o expressivo traço riscado a preto e branco do desenrolar da narrativa.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

O Esqueleto


Roberta Cirne (2025). O Esqueleto. Lourinhã: Escorpião Azul.

O mês de outubro alonga-se, a chuva dá-se a mostrar, e as noites começam a pedir leituras de arrepiar. Nestes momentos, quem tem gostos clássicos sabe que o melhor é mesmo saborear as estéticas do horror gótico. Reminiscências oitocentistas, decadências, e almas penadas caem sempre bem, embora pro vezes fique de fora o casarão recortado contra a lua. É o caso deste O Esqueleto, adaptação de um conto de terror gótico de um autor brasileiro do final do século XIX. Com jeito, os trópicos tornam-se soturnos. Não temos as vielas escuras da Europa, mas sim o cruzamento entre a floresta e os traços coloniais portugueses na cidade de Olinda. Mas tudo o resto é puro gótico, entre emoções exacerbadas, dramalhão profundo, amores impossíveis e uma decadência moral que faria corar de vergonha o senhor Dorian Gray. Não pode faltar a lenda, a bela assombração feminina, e a queda na loucura de um homem perdido. O traço de Roberta Cirne evoca na perfeição o barroco negro do estilo gótico com um travo sul-americano, numa adaptação eficaz de um conto que adorei ficar a conhecer.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

O Homem Que Sonhou O Impossível


Mário Freitas, Lucas Pereira (2024). O Homem Que Sonhou O Impossível. Lisboa: Kingpin Books. 

Confesso a minha ignorância. Achei bizarro o formato desta edição, até descobrir nas suas notas que homenageia um formato gigante clássico dos comics. Um pormenor que mostra até que ponto vai a fundo esta homangem de Mário Freitas ao grande Jack Kirby. O editor, autor e lojista da mais bonita e  inteligentemente gerida loja de BD em Portugal é há muito um admirador confesso da obra de Jack Kirby, especialmente na sua vertente clássica. Este livro é uma ode à personalidade do criador, embora criada em tom metafórico. As referências não são diretas, mas óbvias para quem conhece a história dos comics. 

Estamos num lar de terceira idade, onde um antigo criador chamado Jack King (e Lirby sempre foi apelidado como um dos reis dos comics) partilha com um assistente as suas histórias e imaginário. O assistente é, também, uma homenagem ao colorista Mike Royer, recordando que no mundo dos comics o trabalho se faz em equipe, e o trabalho dos que aplicam a cor nos desenhos é demasiadas vezes esquecido. O lar é partilhado com outras personalidades que os conhecedores de comics depressa reconhecem como grandes nomes - pensem Steve Ditko ou Wally Wood, e há um confronto de ideias entre a pureza do criador e as pressões comerciais. Sente-se que talvez haja razões legais para tanto nome metafórico - não é boa ideia falar mal de Stan Lee, mesmo que seja para mostrar que sempre se apropriou indevidamente do trabalho de Kirby para proveito da Marvel, e também não é boa ideia falar da banalização extrema trazida pela Disney e a sua diluição dos comics em infindas e entediantes sagas cinematográficas. 

A história de Kirby e dos comics está neste livro, a homenagem quer ao criador quer à golden age é profunda, bem como as críticas diretas ao comercialismo excessivo de Lee e da Marvel. Registo também o enorme rigor de planificação da BD, nada nos painéis foi deixado ao acaso. Não surpreende, dado o profundo conhecimento que Freitas tem das técnicas de BD, e o ilustrador Lucas Pereira acompanha bem o ritmo. Não posso deixar de destacar o painel final, séria e sincera homagem que mostra a profunda influência cultural do imaginário e estética de Jack Kirby.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Sete Mulheres, Sete Musas


Pedro Moura (ed.) (2025). Sete Mulheres, Sete Musas - Lírica de Camões em BD. Lisboa: A Seita/Comic Heart.

Uma excelente surpresa da Seita, a pensar nas comemorações do quinto centenário de Camões. Cruzar a ilustração de BD com a lírica camoniana, tendo como tema os seus poemas de amor mais tocantes. A adaptação gráfica está a cargo dos talentos de autores como Susa Monteiro, Daniela Viçoso, Jorge Marinho, Miguel Rocha ou José Vargas, entre outros, com curadoria de Pedro Moura. Cada criador traz à lírica camoniana o seu cunho pessoal, resultando numa obra que não é só uma forte homenagem ao mais clássico dos nossos poetas, como também um deleite visual com trabalhos de forte, marcante e encantador grafismo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O Síndroma de Babel e Outras Estórias


Victor Mesquita, Nuno Saraiva, Luís Louro, Jorge Mateus, Diniz Conefrey (1996). O Síndroma de Babel e Outras Estórias. Amadora: Câmara Municipal da Amadora/Recreios Desportivos da Amadora.

Foi uma curiosa surpresa, deparar com este livro numa feirinha de rua na Ericeira, talvez o local mais inesperado para bibliofilias. A edição é do município da Amadora, no âmbito do Amadora BD, e o desafiou passou pelo criar histórias de BD com a Amadora como tema, com um autor veterano e outros que, à altura, eram novatos. Quão novos? Ao ponto de quase não os reconhecer, de tão novos que estavam nas fotos biográficas.

Vítor Mesquita, esse mestre tão esquecido da BD portuguesa, assina o episódio mais bem conseguido, a todos os níveis. Nuno Saraiva, Luís Louro e Diniz Conefrey mostram também uma capacidade gráfica que viria a evoluir para os seus distintos, e marcantes, estilos gráficos e narrativos contemporâneos. Fica para Jorge Mateus o tipo de BD desconexa que toca no experimental, mas não se consegue tornar inteligível. 

Notem, esta obra vale o que vale, não é de todo um clássico da BD portuguesa. Feita a pedido de uma organização, mostra um momento interessante na evolução do estilo gráfico de autores portugueses de BD que com o tempo se vieram a mostrar criadores persistentes, e de grande qualidade. 

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Flash Point


Imai Arata (2025). Flash Point. Lisboa: Sendai.

Quando uma jovem adolescente decide passar o verão a baldar-se às aulas e passar os dias em casa do marido da irmã, que está desempregado, mal esperariam mergulhar num universo de conspirações. Diga-se que esta não é uma história de amores proibidos, a jovem e o homem passam os dias a jogar videojogos e a gravar vídeos patetas para as redes sociais. Chegam a ter sorte, com uma coreografia da rapariga que viraliza. Sem fins comerciais, vão recriando a coreografia em vários locais, até mesmo próximo de um comício onde está o ex-primeiro ministro japonês Shinzo Abe. Nesse momento, tornam-se em testemunhas do assassinato deste político. 

É aqui que a história se torna bizarra, e interessante. Começam a surgir publicações em redes sociais que apontam para uma relação entre os gestos da coreografia da jovem e o assassinato, que depressa explodem nas mais bizarras teorias da conspiração. Os utilizadores de redes sociais vêem de tudo nos vídeos da jovem, começam a persegui-la, chegam a raptá-la para fazer uma grande manifestação no dia do funeral do político, congregando os mais estranhos grupos e canalizando através da jovem todos os temas de protesto da sociedade japonesa, com teorias bizarras à mistura. Tudo termina de forma rocambolesca e surreal, com um marcante grande balão que representa o rosto do político a salvar a jovem do topo da Dieta japonesa (é spoiler, eu sei, mas tão surreal que merece referência).

Sabemos que da Sendai só nos chegam propostas de mangá interessantes, fora da caixa, incomuns e inesperados. Este mantém a regra. O que parece ser uma pequena história de dramas familiares e adolescência depressa se transforma numa parábola sarcástica sobre redes sociais, paranóia, neuroses sociais e o alastrar de posições extremadas a partir de conteúdos descontextualizados. Ou seja, uma metáfora dura que se aplica bem ao momento cultural e social em que vivemos.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Vinil Rubro


Mário Freitas, Alice Prestes (2023). Vinil Rubro (Mário Breathes Comics #3). Lisboa: Kingpin Books.

Fiquei imediatamente seduzido pela elegância desta capa, e ao folhear este pequeno livro a paixão cresceu. A estética é vibrante, apesar de comedida nas cores, revelando um enorme cuidado no pormenor. O rigor quasi-geométrico das primeiras pranchas vai dando lugar a um fluir orgânico, num complemento perfeito entre estéticas  e narrativas. A história leva-nos para as paixões perdidas e os amores tóxicos, com uma ambivalência tocante.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

BD Portuguesa: 39; Nightmare Tales; Aspirina.

Vítor Rocha (2024). 39 Salvador Pedreiro - O Rial do Pazo. CLPC/Associação José Afonso/Bedeteca de Beja.

Azares, pensaria a minha conta bancária caso tivesse sentiência. Numa recente viagem ao Porto descobri que tinha tido a pontaria de acertar num dia em que a Mundo Fantasma organizou uma feira de BD  independente. Não resisti, claro. Encontrei por lá alguns trabalhos notáveis, que não resisti a trazer comigo. Este 39 foi um deles. Esta narrativa gráfica ficciona algo muito real, a história daqueles que no Portugal pobre e amordaçado do estado novo, tiveram de emigrar para tentar ter uma vida melhor - emigrando a salto, passando a fronteira em locais ermos passados por passadores, arriscando a vida perante os esforços da GNR e Guardia Civil. A história traça-se sobre depoimentos e memórias, funcionando como forma de documentar elementos históricos que hoje não podem ou devem ser esquecidos.

Miguel Gonçalves, Damian Connelly (2025). Nightmare Tales. Nightmare Ink. 

Uma excelente surpresa, esta edição recentíssima (saiu em maio deste ano). Colige histórias curtas de terror muito puro e duro, com uma assombrosa ilustração a preto e branco. Miguel Gonçalves assina as histórias tenebrosas, cada qual um curto conto bem desenvolvido e eficaz. O trabalho gráfico de Damien Connelly complementa de forma excelente as histórias. O estilo é fortemente expressionista e implacável com o leitor, num efeito final muito belo sobre o leitor.


Filipe Duarte (2023). Aspirina. Associação Tentáculo/H-alt.

Já sigo o trabalho do Filipe Duarte há alguns anos, tendo acompanhado a sua evolução estilística, quer em capacidade gráfica quer narrativa. Este Aspirina colige vários trabalhos publicados na revista H-Alt, e funciona bem como uma amostra da sua evolução. As histórias vão da FC pura ao terror, escritas por autores como Carlos Silva e André Mateus, que tem sido o argumentista das aventuras editoriais mais longas. Uma boa leitura, a recordar o também notável trabalho da H-alt como criadora de espaço para novas vozes.

terça-feira, 10 de junho de 2025

BD Portuguesa: Ubirajara; Nos Mares da China; A Conquista de Lisboa

José Ruy (1982). Antologia da BD Portuguesa #1 - Ubirajara. Editorial Futura.

Vindas das páginas da clássica publicação infanto-juvenil Cavaleiro Andante, as histórias contidas neste Ubirajara mostram a evolução da capacidade narrativa e gráfica de José Ruy, um dos nossos maiores nomes da história da BD portuguesa. Tendo sido originalmente publicadas nos anos 50, são aparentes as convenções da época. A banda desenhada funciona como forma de narrativa ilustrada, onde o texto tem a primazia e as vinhetas são meramente ilustrativas. Não há diálogos, apenas uma narração na terceira pessoa em legendas, e o desenho não se assume como elemento narrativo. As ilustrações mostram a capacidade gráfica e o excelente traço de Ruy. Este volume colige a história que lhe dá título, a partir de uma lenda dos nativos brasileiros, e inclui também A Mensagem, passada nas lutas entre romanos e cartagineses, com uma aventura sobre um soldado celtibero que reúne tribos autóctones na luta contra o invasor romano; Na Pista dos Elefantes, uma aventura passada na mítica África colonial das caçadas; e Vida Romanceada de Guttenberg. Em termos gráficos, as primeiras histórias estão mais bem conseguidas, dada a preferência de José Ruy por motivos históricos. 


Vitor Péon (1985). Antologia da BD Portuguesa #13 - Nos Mares da China. Editorial Futura.

Confesso, conheço mal o trabalho de Vitor Péon, outro dos decanos da BD portuguesa. Descobrir a espetacularidade do seu traço foi uma das virtudes desta leitura. A capacidade gráfica é impressionante, e as vinhetas explodem de ação visual, ricas, elegantes, um deleite de ler. O estilo narrativo é clássico, ou seja, a imagem serve de mera ilustração ao texto. As histórias situam-se no espectro da visão histórica sobre o passado apresentada às crianças nos anos 50 e 60, mas não deixam de ser divertidas, a nossa história é uma mina mal explorada de ideias para ficções de aventura. O destaque maior vai para o traço, soberbo, do autor.


Pedro Massano (1997). A Conquista de Lisboa I. Lisboa: Montepio Geral.

Um livro clássico, que visa contar a história da conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques. Este volume não chega lá, ficando só pelo detalhar da conquista de Santarém, bem como da contextualização do apoio dos cruzados. A reconstituição histórica é cuidada, quer ao nível narrativo quer visual.