Homero (2003). Odisseia. Lisboa: Livros Cotovia.
A eterna narrativa do péripo de Odysseus é uma daquelas histórias que quase todos conhecemos, nas suas linhas gerais, mas é provável que poucos a tenham lido integralmente. Alguns leram as versões simplificadas de que falamos na escola, e isso já lhes dá um vislumbre do poder deste texto milenar. Não escrevo isto como alguma forma de observar superioridade intelectual por me ter atirado a esta leitura, apenas reflito que é um texto cujas traduções originais são relativamente difíceis de encontrar, e caras. A tradução de Frederico Lourenço é excelente, erudita e cuidada, e feita de forma que contribui muito para a legibilidade, mantento o leitor envolto na poesia das palavras e nas desventuras do herói de mil ardis. Por cá, os clássicos não são muito acessíveis, penso enquanto recordo livrarias florentinas ou londrinas onde havia secções inteiras que lhes eram dedicadas, com uma profusão de obras e traduções para todos os bolsos.
Não me vou dedicar a dissecar ou analisar uma obra tão longeva e complexa, tantos outros mais habilitados já o fizeram. Apenas refiro que ao ler, finalmente, a versão integral deste texto senti na pele, nas entranhas, o poder desta história que já se conta há milénios. Uma história profundamente humana, onde o herói não é um ser perfeito (bem pelo contrário, é volúvel e violento, apesar de no seu cerne pemanecer fiel à ideia do lar e do regresso), deuses caprichosos e mesquinhos intervém, os homens se revelam em grande parte pela ganância e cobiça das riquezas dos outros ou pela fidelidade inabalável mesmo quando sentem o desprezo dos que os rodeiam - algo que também se aplica às mulheres, apesar da grande personagem feminina ser a encarnação da perfeição maternal do lar, na figura da eternamente fiel Penélope que não renega a memória do marido perante toda a pressão social para que escolha outro para casar, levando para outra casa as riquezas e o poder da ilha de Ítaca.
O texto é poderoso, e como já observei, a tradução de Frederico Lourenço é magistral, tratando-o com uma elegância literária que contribui muito para que o leitor sinta a sua empolgância, desespero e apelo.
Não resisto a uma partilha muito pessoal, que senti ao chegar àquelas estrofes da Odisseia que deixam qualquer pessoa que, como eu, adora cães com uma lágrima no olho:
"E um cão, que ali jazia, arrebitou as orelhas.
Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio
criara, mas nunca dele tirou proveito, pois antes disso partiu
para a sagrada Ilion. Em dias passados, os mancebos tinham levado
o cão à caça, para perseguir cabras selvagens, veados e lebres.
Mas agora jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente:
jazia no esterco de mulas e bois, que se amontoava junto às portas,
até que os servos de Ulisses o levassem como estrume para o campo.
Aí jazia o cão Argos, coberto das carraças dos cães.
Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto,
começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas;
só que já não tinha força para se aproximar do dono.
Então Ulisses olhou para o lado e limpou uma lágrima.
(…)
Mas Argos foi tomado pelo negro destino da morte,
depois que viu Ulisses, ao fim de vinte anos."
Quem tem cães, compreende. Quem ama ler, sente o fascínio de palavras vindas de um tempo tão longevo nos tocarem tão profundamente - notem que se o texto escrito tem mais de dois mil anos, a tradição oral é ainda mais antiga.