Eça de Queirós (1935). O Crime do Padre Amaro. Porto: Livraria Lello.
Não esperava ficar avassalado por esta leitura. Respirei fundo, ao virar as últimas páginas, com o absoluto brilhantismo da prosa queirosiana. Fechei o livro com um sentimento de espanto. É um defeito, admito, só agora estar a ler com atenção os clássicos canónicos da literatura portuguesa. Tenho uma razão pessoal para isso, a imposição de leitura nos tempos de escola deixou-me com uma reação de rejeição, um sentimento injusto perante a qualidade da nossa literatura.
Num recente artigo para o Shifter, observa-se que a nossa insistência na leitura obrigatória de alguns autores como parte do currículo da escolaridade obrigatória não se deve a uma genuína vontade de preservar a sua memória e dar a conhecer a sua obra às novas gerações, mas a uma mais serôdia vontade de marcar leituras. Não se incentiva a ler para cultivar o gosto, mas sim para se poder afirmar que se leu. E eu, confesso, não conheço melhor maneira de destruir o gosto pela leitura do que obrigar a ler livros específicos para em seguida testar conhecimentos em provas e testes. Já agora, confessem lá, leram mesmo os livros obrigatórios que tinham de ler no secundário, ou leram as versões resumidas para estudar, porque sabiam que o que importava era responder às perguntas dos professores? Na ânsia de preservar a memória da cultura, corremos o risco de destruir o gosto e o prazer de ler.
Assumindo a minha ignorância, esperava deste livro um dramalhão romântico ao estilo típico do século XIX, uma história trágica de amores e paixões. Há estes elementos na narrativa, mas ao ler deparei-me com uma história de crítica social corrosiva e intensa, um retrato demolidor da sociedade portuguesa. Um retrato que, suspeito, com as devidas atualizações não seria muito diferente hoje, num certo provincianismo cultural e na forma como nos relacionamos com o poder, quer seja político quer religioso ou económico. O final, magistral, é ao mesmo tempo trágico e imoral. Eça mostra-nos, ao contrário de Dostoievsky, que o crime não implica castigo, até bem pelo contrário.
Perceber qual foi o real crime do padre Amaro é questão que me irá remoer durante bastante tempo. Não há respostas lineares a esta pergunta. Será, ostensivamente, a sua profunda paixão pela jovem Amélia, um crime social e religioso. Como padre, não poderia ter mulher, muito menos apaixonar-se tão profundamente. Mas o amor não é crime, pensa-se ao ler o livro. Há amores que perduram, contra tudo e todos, e um romance entre uma jovem e um padre poderia saldar-se num final amor vincit omnia. Se é um crime religioso, não o é em termos humanistas.
Ao longo da leitura, vamos percebendo melhor o padre, e o seu amor. Percebemos que não se trata realmente de amor profundo, mas sim aquela paixão intensa (ou, em termos vernaculares, pura "tesão") por uma mulher atraente. As esperanças de que o romance seja uma feliz história de amor desvanecem-se ao perceber que apesar da intensidade da sua paixão, Amaro nunca equaciona dar o passo lógico de largar a sotaina e construir uma vida ao lado da sua amada. Bem pelo contrário, chega a procurar formas de casar a rapariga, mantendo-a sempre sob o seu jugo sexual.
Depressa percebemos que para este padre, a religião é um elemento secundário. Não há dúvidas que a tem, que é crente e conhecedor dos preceitos. Mas a sua vocação como padre surgiu na adolescência, ao descobrir a dureza da vida de trabalho. Educado como menino-mascote de uma aristocrata religiosa, entre velas, rezas e santinhos, tem uma fugaz experiência como marçano onde aprende que o verdadeiro valor da religião é a pertença à organização. Ser padre livra-o do trabalho braçal, dá-lhe rendimentos, abre-lhe as portas da sociedade local da paróquia, torna-se uma figura influente e come bem e muito à borla, nos jantares sociais das devotas paroquianas. É um emprego confortável, com alguns sacrifícios e muitos pequenos luxos. Nem nos maiores assomos de paixão Amaro sequer coloca a hipótese de largar esse conforto para viver livremente o seu amor.
A ironia, corrosiva, do livro é perceber que a atitude deste padre é a norma. Que todos os que o rodeiam pregam o que não praticam, vivendo vidas tranquilas entre as casas das paroquianas que os alimentam de comida, e até mais do que isso. Que muitos são os padres que partilham a vida com mulheres que em público são devotas governantas mas à noite lhes aquecem a cama, ou que educam carinhosamente sobrinhos e sobrinhas que são na verdade seus filhos. É um daqueles segredos que todos conhecem, mantido por conveniências sociais. Todos fazem, todos sabem, ninguém diz, apesar de em segredo de mexerico todos comentarem.
A sátira queirosiana vai mais a fundo e mostra-nos padres exímios da pregação do que não praticam, que engordam à custa das paroquianas enquanto criticam a preguiça dos pobres, venais que apontam o dedo em riste à impiedade das ideias liberais, homens mesquinhos que se afadigam mais nas suas vinganças pessoais do que nos sacramentos, ou homens de vida confortável que encetam todos os esforços para que nada lhes perturbe o remanso. Em todo o romance, só um personagem clerical se distingue como real crente, um humilde abade que não quer mais da vida do que ajudar os seus paroquianos numa aldeia leiriense e refletir sobre a filosofia cristã. Um personagem que faz uma entrada tardia, tentando afastar Amélia do destino de amante manipulada, mas as circunstâncias da natureza não lhe permitem a salvação.
Todo o romance se passa numa sociedade bafienta de valores de religiosidade bacoca. O livro liberta um nítido odor a sacristia, a velas que iluminam santinhos e gravuras. Eça explora muito bem a superstição religiosa enquistada como cultura, a religiosidade das rezas contínuas, da aparência santa, da sujeição a um clero venal e moralmente corrupto.
Não consigo deixar de pensar em Amélia como uma vitima. Jovem humilde, da pequena classe média que vive em redor da sociedade eclesiástica leiriense, que vê no jovem padre vindo da capital uma luz que a apaixona. Até à chegada de Amaro, resignava-se à vida pacata de acompanhar a mãe (ela própria uma amante oculta de outro padre da paróquia) na sociedade, entre os serões com as comadres devotas ou as temporadas estivais na Vieira, percebendo que pretendentes teria para o desejável casamento respeitável. A chegada do novo pároco abala-lhe o mundo, mas a forma como a paixão é cultivada faz-me pensar mais naquilo que hoje consideramos relacionamentos tóxicos (e que já eram assim vistos à altura, sem este nome) do que em amor. Torna-se claro que Amaro usa a sua posição de poder espiritual para seduzir a jovem. As consequências serão trágicas. Mesmo nos momentos da mais profunda paixão, a jovem condena-se por saber que está a ceder a um crime, sabe que se for descoberta se tornará uma proscrita. Quando a natureza faz o que faz e engravida, começa a viver o pesadelo de ser afastada, oculta, para que o segredo não macule a imagem de probidade do senhor padre.
Se acharem que estou a cometer o erro de ler Eça com uma lente woke, só vos digo que nestes aspetos, este romance é uma lição de profundo humanismo moral. Amélia é uma vítima objetificada, Amaro a ponta de lança de uma cultura religiosa moralmente corrupta, e o retrato que faz da sociedade não lhe fica atrás. Todos pregam a virtude moral e social enquanto cobiçam a mulher do próximo (as cenas do secretário do reino em Leiria que passa os dias à janela do seu gabinete a galar a esposa de um comerciante da rua são um delírio de humor), ou vivem entre esquemas que visam manter as suas prebendas e confortos, em prejuízo de outros. Há até um laivo de cultura queer, na forma da personagem de Libaninho. Um verdadeiro rato de sacristia, pio devoto que não perde uma missa ou reza, que a páginas tantas é descoberto enrolado de forma imprópria com um camponês nos jardins da cidade. Acabará como sacristão, curiosamente.
Se o romance é um longo e tremendo retrato de hipocrisia social e moral, o final é magistral. No penúltimo capítulo, Amélia morre no parto, numa cena tremenda em que um abade religioso e um médico ardente de ciência confrontam os limites das suas crenças. A rapariga que tinha entre os seus sonhos ascender na vida e passear de coche com criados de libré acaba por ir para o cemitério acompanhada por criados de um morgado local, graças à presença daquele que foi o único homem que a amou verdadeiramente, e pagou caro por se ter atravessado no caminho do padre. A ironia do cortejo fúnebre é pungente e corrosiva. Amaro tem um momento de lampejo humanista, tentando assumir o filho com o velho estratagema do sobrinho, mas a tecedeira de anjos a quem o entregou resolveu-lhe o problema de forma fatal. Note-se, sublinhando o caráter corrosivo da obra, que esta mulher do povo que fazia negócio de livrar o mundo das proles indesejadas foi recomendada por uma alcoviteira que estava perfeitamente integrada no santo mundo dos padres, que professava a religiosidade pura enquanto tratava dos segredos venais dos homens de sotaina. Desolado com o trágico desfecho da paixão, o padre Amaro abala para Lisboa em busca de outra colocação, fugindo do escândalo.
O livro termina em Lisboa. Ou melhor, no Chiado, centro da vida cultural da época, em cujos cafés muito se discutia e decidia. Reencontramos Amaro e um dos seus amigos padres leirienses. Pelas suas conversas, percebemos que nada mudou, que a morte infeliz da jovem não interferiu de todo com os modos de vida deste clero. Há lições aprendidas, claro, digamos que Amaro agora só se aproveita sexualmente de mulheres casadas, para não se voltar a ver embrulhado em complicações. Procura singrar na vida, com apoio de um aristocrata ligado ao governo que move influências para o nomear para lugares mais auspiciosos do que longevas paróquias de aldeia. Prosperar é o castigo para os seus crimes.