quinta-feira, 30 de julho de 2026

Odisseia


Ilustro com o canto das sereias, notável pela forma como o filme defrauda as expetativas dos espetadores, mostrando-nos como o vislumbrar é muito mais poderoso do que o revelar, e ainda nos lega uma música assombrosa.

É notório que Nolan tomou imensas liberdades para com a obra original. Para quem leu a Odisseia, a escolha das atrizes para dar corpo a Helena e Clitemenestra  nem sequer é a mais polémica, embora valha a pena pelo ouvir zurrar os trolls fachos e conservadores com o beliscar da sua visão alva da herança cultural de um passado cuja visão distorcida veneram.

No meu caso, desgostei do branquear da figura de Odisseus, um herói muito mais imperfeito do que o que o filme nos faz crer. Não significa que desgostei do filme, bem pelo contrário. É excelente, e traz estas histórias milenares para novas audiências. Adapta--se a elas, é revista com outras sensibilidades. As apropriações e interpretações fazem parte do cinema.

E sejamos honestos, acham mesmo que Homero não interpretou e adaptou quando transformou a longa tradição oral no poema escrito que hoje conhecemos? Isto, claro, caso optem por acreditar neste tão metaficcional poeta cego que passou as palavras faladas ao papiro. 

Houve momentos no filme que senti como demasiado condensados. A relação entre Odisseu e Calipso não foi, de todo, como o filme a retrata. Há um cruzamento com o episódios dos lotófagos, e a real relação entre o herói e a ninfa não foi baseada em esquecimentos.

Se o momento de Circe é dos mais incríveis pela forma como foi filmado, uma intrusão do mais puro body horror, tem mais uma vez pouco a ver com o original. Circe era uma bela feiticeira num palácio, não uma bruxa envelhecida num casebre, e Ulisses passa com ela bem mais do que umas horas.

Onde o filme descarrila mesmo em relação ao original é no seu final. Não que Ulisses destoe como herói de ação, mas o momento em que derrota os pretendentes é muito mais violento e macabro. Não o revelando, Nolan poupou-nos a questões incómodas sobre o poder e a submissão, que o replicar de cenas como o enforcamento das escravas tidas como infiéis ao herói suscitaria.

Que o final se desvia é acentuado pelo discurso sobre o fim da nobre era do bronze (um anacronismo, seria como ver um homem primitivo a discorrer sobre a diferença entre sapiens e neandertais) ou a constantes referências aos povos do mar que ameaçam o derrocar do mundo pré-helénico. São intrusões de história contemporânea, e uma óbvia mensagem do realizador sobre o momento contemporâneo em que vivemos, evocando a metáfora dos bárbaros que ameaçam os portões.

Para quem critica a intrusão de outras obras neste filme, na verdade faz sentido. Trazer a Ilíada (e laivos da Eneida com aquela queda de Tróia) ou a Oresteia mostra o contexto da Odisseia, uma epopeia que não é um texto isolado. Torna o filme mais rico para os espetadores. 

Talvez o maior sintoma da forma como Nolan adapta a história à nossas sensibilidades está na linha narrativa de Argos, essa metáfora da fidelidade perfeita. Se bem me recordo, não passa de algumas estrofes nos episódios finais do poema. No filme, é constantemente referenciado com destaque, até à emocional cena de amarga felicidade em que o cão, abandonando na esterqueira, geme e dá o último suspiro ao reconhecer o toque do seu dono.

Confesso, vieram-me lágrimas aos olhos nesse momento. É natural, como dog person que sou, a história de Argos é sempre comovente.

Por outro lado, um dos momentos mais pungentes da obra, onde Odisseus tenta abraçar o espectro da sua mãe na sua descida ao Hades, ficou esquecido.

Se há personagem que leva o filme é Penélope, magistralmente encarnada por uma Anne Hathaway que claramente fez o trabalho de casa e mergulhou a fundo no teatro clássico. É um portento em cena, traduz a profunda dimensão trágica das tragédias gregas.

Estranha-se, muito, a ausência de deuses numa história vinda dos mitos da antiguidade. Apenas Atena é discretamente visível, e no final do filme há uma ligação visual que nos leva a pensar que as manifestações da deusa, tão essenciais ao sucesso do regresso, não passam de um trauma de Ulisses, da manifestação psicológica de um profundo sentimento de culpa pelas consequências das suas ações como guerreiro em Tróia. 

É um sentimentalismo algo desfasado, em linha com um ideário pop típico de Hollywood. É por estas, e muitas outras, incoerências que o filme e o realizador têm sido tão atacados pela crítica.

E, no entanto, são três horas que não se sentem. São salas cheias, a descobrir uma interpretação profunda de uma das mais milenares histórias que contamos. Adapta, interpreta, revê o clássico com o nosso olhar. Traz a voz da antiguidade para os públicos modernos, recorda-nos o fio cultural que nos une. 

Um fio que não é estanque e imutável, cada era se revê à sua maneira na Odisseia.