quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Comics: The World of Edena; From the Dead; 21 Giorni Alla Fine del Mondo

 


Moebius (2016). The World of Edena. Milwaukie; Dark Horse Comics.

Um clássico, que dispensa apresentações. Moebius marcou de forma indelével a ficção científica, com o seu estilo de realismo surreal e as suas histórias de uma FC mais cósmica e psicadélica. Edena é talvez um dos melhores exemplos disso. Uma quase-saga que evoluiu um pouco ao acaso, construindo-se ao sabor da inspiração do autor. Nota-se na forma como se desenrola, entre uma FC mais tradicional a experiências estéticas e ao culminar num episódio de puro surrealismo onírico. É também um perfeito ícone do estilo gráfico e temático da FC criada entre os anos 80 e 90 do século XX.

Quando Stel e o seu/sua (terão de ler a série para perceber) co-tripulante Atan se despenham num curioso planeta de superfície totalmente lisa, depressa se veem envolvidos numa tremenda aventura. O planeta alberga uma estranha força que, ao longo de séculos, capturou tripulantes de naves de todas as espécies da galáxia para os transportar ao lendário planeta Edena. Apenas precisa de Stel para fechar o ciclo, e levar para o planeta aqueles que, sem o saber, aguardavam à séculos pela viagem. Edena é de facto um novo éden, e os personagens caem nele como bebés no mundo. Vindos de uma civilização técnica, não estão verdadeiramente preparados para sobreviver num mundo natural, onde até o seu verdadeiro género se começa a revelar. Peças-chave do puzzle de Edena, Stel e Atan terão como destino a eterna busca um do outro, enquanto lutam contra as forças negativas de um mundo onde sonho e realidade têm fronteiras ténues.



Warren Ellis, Declan Shalvey (2014). Moon Knight Vol. 1: From the Dead. Nova Iorque: Marvel Comics.

Seis brilhantes números. Foi essa a encomenda que a Marvel fez a Warren Ellis, correntemente sob ataque da cancel culture, para refrescar Moon Knight. Um daqueles personagens de terceira linha da editora, uma espécie de clone inverso de Batman, útil para aparecer em rodapé nas aventuras das principais personagens, e que nunca teve séries memoráveis. Ellis mudou isso, e só precisou de seis números. É a capacidade narrativa de Ellis, sintética e cinematográfica, que marca a renovação. Declan Shalvey acompanha muito bem no grafismo. Ellis não perde tempo com complexas backstories, embora não deixe de fazer a sua construção do mito do personagem em detalhes narrativos. São seis aventuras fechadas, sem encadeamento, em pura ação explosiva. É difícil escolher qual a melhor, mas a mais surpreendente é aquela em que Ellis aplica o ritmo de gameplay de um jogo de luta/plataformas a uma história em que o Cavaleiro invade um prédio para resgatar uma adolescente raptada. Após Ellis, a série continuou com Brian Wood e Cullen Bunn, mas depressa perdeu o interesse.


Silvia Vecchinni, Sualzo (2019). 21 Giorni Alla Fine del Mondo. Il Castoro. 

Numa daquelas vilas que vive de ser estância turística mas não deixa de ter vida própria, uma jovem adolescente vai reencontrar um amigo de infância, que julgava perdido. Um reencontro feio de traumas do passado, uma vez que o desaparecimento do rapaz se deveu ao suicídio da sua mãe em circunstâncias misteriosas. Amizades, aquele primeiro amor adolescente, a vida tranquila do verão e as dores de crescimento estão em evidência nesta obra, que tem um grafismo muito interessante.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Comics: Perramus; The Seeds; Creature of the Night

 


Juan Sasturain, Alberto Breccia (2020). Perramus: The City and Oblivion. Los Angeles: Fantagraphics.

Perfeitamente surreal, a roçar o patético, originalmente publicado entre os anos 70 e 80 do século XX.  As aventuras de um homem sem memória, que acorda em Buenos Aires ao lado de uma bela mulher e de um casaco, cuja marca irá adoptar como nome. Um homem sem memória, que se vê envolvido em aventuras progressivamente rocambolescas, que cruzam os dois grandes mitos da américa latina: a violência das ditaduras que sustentam países que são de facto repúblicas das bananas, e Borges, essa voz maior da literatura. As aventuras bizarras são uma clara sátira de humor negro, aos tempos que os autores argentinos tiveram de suportar. Governos repressivos, desaparecimento de  opositores, ditaduras militares, subserviência a interesses económicos. Já Borges, o seu fantasismo de erudição e imaginação, surge como o sublimar, o surreal e imaginário como o único caminho para enfrentar uma realidade tenebrosa. O surrealismo da obra é sublinhado pelo traço de um Breccia a apostar mais no expressionismo do que no realismo.

Ann Nocenti, David Aja (2020). The Seeds. Milwaukie: Dark Horse.

Uma excelente surpresa, para iniciar 2021. The Seeds é uma história de sanidade duvidosa, entre o futurismo próximo decadente, a implosão dos media no clickbait e fake news, catástrofes ambientais e... alienígenas. Uma jornalista, sempre pressionada pela sua editora para lhe dar notícias sensacionalistas, decide ir investigar uma zona onde aqueles que rejeitam a tecnologia se refugiam, e com isso depara-se com a história da sua vida: um caso de amor entre uma mulher humana e um alienígena. As coisas complicam-se ao perceber que o alienígena faz parte de uma equipa que salta entre planetas em vias de extinção, recolhendo sementes de vida para fazer lucro. A Terra foi o único onde encontraram formas de vida mais evoluídas do que bactérias, mas nem por isso mudam o seu modus operandi. Entretanto, os desastres ambientais sucedem-se,  e um milionário procura criar abelhas robóticas para substiuir as reais, quase extintas, mas com resultados catastróficos. Entretanto, outro bilionário procura ir a outros locais do sistema solar, mas um erro de navegação leva-o a despenhar-se em Europa, onde graças a esse acidente se descobrem indícios de vida. Numa sociedade em desagregação, os media são o escapismo de entretenimento, e o jornalismo clickbait impera. Uma sátira negra ao nosso mundo contemporâneo, que extrapola tendências que nos assolam o dia a dia, para um futuro próximo catastrófico.

Kurt Busiek, John Leon (2020). Batman: Creature of the Night. Nova Iorque: DC Comics.

Uma curiosa variante do mito de Batman, num registo entre o realismo fantástico, o sobrenatural e o comic de super-heróis. Quando Bruce, o jovem herdeiro de uma fortuna de Boston perde os pais num crime violento, é o seu fascínio pelo personagem de Batman que o ajuda. Torna-se tão obcecado que, aparentemente, é capaz de manifestar um Batman na nossa realidade. Uma entidade talvez sobrenatural, que devasta o mundo do crime enquanto o jovem cresce e vai tomando conta dos destinos da sua empresa. Mas algo não está certo,  e Bruce acaba por perceber que tudo o que acreditou ser uma luta contra o mal, na verdade foi uma estranha manipulação. Uma aventura bizarra, focada no cerne do mito do personagem,

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

H-alt: Holy #02

 


O primeiro número desta série mostrou-se promissor, interessante e bem ilustrado. Os seus criadores deram continuidade ao seu trabalho, e acabaram de editar o segundo número. Holy #02 já está disponível no ComiXology em digital, ou editado em papel por encomenda aos autores. Na continuação, será que se mantém a criatividade dos criadores e a qualidade da história? O caminho está bem traçado, e resta esperar pelos desenvolvimentos das desventuras do anjo Cartwright. Resenha completa na H-alt: Holy #02.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

URL

Para estes dias forçosamente mais tranquilos, sugerimos leituras que nos falam da influência de Ray Bradbury, dos planos da editora FABD, ou de listas de boas leituras de BD portuguesa. Fala-se de arte criada em Amiga, coreografias com robots ou ataques cibernéticos incómodos. Ainda se reflete sobre a economia tecnológica de Lisboa, do autoritarismo discreto que mina a democracia, ou de ilustrações muito raras do Inferno de Dante. Mais artigos vos aguardam, nas Capturas desta semana.

Ficção Científica e Cultura Pop

Starblazer: Nostalgia retro.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/640159070769348608

Dylan Dog: Mater Morbi (Roberto Recchioni e Massimo Carnevale): Uma das mais poderosas obras recentes de Dylan Dog, numa leitura do Corvo. É, de facto, um daqueles livros marcantes.

http://asleiturasdocorvo.blogspot.com/2021/01/dylan-dog-mater-morbi-roberto-recchioni.html

2020: 10 Obras de autores portugueses a ler: Ainda estamos com sugestões de leitura do ano passado? Claro, nunca são demais, e estes autores portugueses merecem mesmo ser lidos.

https://outrasleiturasdopedro.blogspot.com/2021/01/2020-10-obras-de-autores-portugueses-ler.html

Max Bertolini: Space Opera.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/640000497023139840

Del Halcón Milenario a los Destructores Estelares: estas son las 11 naves y vehículos con mejores diseños de 'Star Wars': É daquelas discussões geek clássicas, quais as naves mais giras de uma série de FC. Pessoalmente, coloco as X-Wing clássicas no topo das preferências.

https://www.xataka.com/cine-y-tv/halcon-milenario-a-destructores-estelares-estas-11-naves-vehiculos-mejores-disenos-star-wars

A ficção especulativa em Portugal – 2020: Foi um ano de retração a todos os níveis, e a cultura fantástica não escapou. O pior de 2020, neste campo, foi a suspensão de eventos. São momentos essenciais para encontro de fãs e criadores, e determinantes para que os projetos de educação cheguem aos leitores. É aí que se adquirem as novas BDs e livros de criadores portugueses. Apesar das vicissitudes, o fandom de fantástico por cá não parou.

https://osrascunhos.com/2021/01/10/a-ficcao-especulativa-em-portugal-2020/

Ray Bradbury’s Outsized Influence On American Culture: Uma interessante análise ao papel deste escritor de FC na literatura global, que parte de um pressuposto ofensivo - a FC enquanto literatura infantilizante, mas acaba por ser uma excelente análise à obra de Ray Bradbury. E, de caminho, esta excelente observação sobre a importância do estímulo (e não a imposição) da leitura às crianças: "You can’t force young people into literature. They need to be led by pleasure and wonder. Creating a new generation of readers is important. When a society loses the capacity to read fiction, it loses one of the most powerful ways by which we grow and refine our inner lives, our understanding of ourselves, and our understanding of other people".

https://lareviewofbooks.org/article/ray-bradbury-at-100-a-conversation-between-sam-weller-and-dana-gioia/

Funko Announces A Board Game Version Of Groundhog Day: Um jogo que sabemos que começa, mas não sabemos se acaba.

https://bleedingcool.com/games/funko-announces-a-board-game-version-of-groundhog-day/

FABD Plano de Edições: Esta editora independente divulgou o seu plano de edições para 2021, e deixou-me curioso com algumas propostas. A FA aposta na edição de cultura livre, e para este ano propõe A Herança das Cores de David Revoy, Mimi e Eunice de Lina Paley, Ansorojimanga (fiquei muito curioso com este título, mas vou ter de esperar por agosto para o ler...), Wuffle, O Grande Amigo Lobo de Piti Yindee, e ainda comics de super heróis - Os Vigilantes de Flávio Almeida e Homem Grilo e Sideralmen de Cadí Simões. Se estes nomes não vos dizem nada, é essa a grande beleza das edições independentes, permitem-nos descobrir as vozes que poderão ser as do futuro. Pessoalmente prefiro comprar estes livros em eventos, assim fico a conhecer os editores e criadores, espero que 2021 já permita o regresso dos encontros geek.

https://www.fabd.pt/

Shigeru Komatsuzaki, Solar City, 1982: surrealismo pop futurista nipónico.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/639683450980483072

Just a Little Vampire Miscellanea: Os mitos vampíricos são, claramente, um sublimar de antigas tradições e histórias vindas de tempos onde o "ouvi dizer que" tinha mais força do que um "fui verificar e demonstrei". Hoje, é divertido ler estes relatos claramente impossíveis.

https://www.weirdhistorian.com/just-a-little-vampire-miscellanea/

Melhores Leituras de 2020 – Banda Desenhada: Continuando a falar de listas e sugestões de leituras, o Rascunhos fala-nos agora das melhores leituras de BD de 2020. Confesso que ando a fugir ao Balada para Sophie, tem demasiado hype associado. Li boa parte das recomendações da Cristina, e assino por baixo, mesmo sabendo que Gideon Falls se tornou um tédio por ter sido esticado muito para lá do que a história da série precisava.

https://osrascunhos.com/2021/01/07/melhores-leituras-de-2020-banda-desenhada/

Royal Mint launches illiterate HG Wells coin with four-legged Martian tripod: Desenhar um tripé com quatro pés. Quem nunca? A ironia dos erros de uma moeda comemorativa da obra de H.G. Wells.

https://www.sfcrowsnest.info/royal-mint-launches-illiterate-hg-wells-coin-with-four-legged-martian-tripod-news/

Tecnologia


Amiga Videogame Stills, art by Suzanne Treister: Confesso um enorme fascínio por estes artefactos artísticos dos tempos em que a computação gráfica estava a dar os primeiros passos. Ainda hoje se sentem como vanguardistas.
https://blog.adafruit.com/2021/01/12/amiga-videogame-stills-art-by-suzanne-treister-arttuesday-amiga-art-vintagecomputing/

How Boston Dynamics Taught Its Robots to Dance: A verdadeira proeza do recente vídeo dos robots dançantes da Boston Dynamics não são os robots em si, é a coreografia. Este artigo mostra-nos como foi desenvolvida, num trabalho de simbiose entre dançarinos, coreógrafos e engenheiros.

https://spectrum.ieee.org/automaton/robotics/humanoids/how-boston-dynamics-taught-its-robots-to-dance

Video Friday: These Robots Are Ready for 2021: Vá, não foi só a Boston Dynamics a acabar o ano com vídeos que surpreendem, e mostram os fantásticos avanços que se têm feito na robótica. Eu sei que o natal já passou, mas perscrutem este vídeos de natalícios com robots. Apreciei especialmente o vídeo da EATA (NATO). Nada diz melhor boas festas do que um robot de desminagem a explodir christmas crackers.
https://spectrum.ieee.org/automaton/robotics/robotics-hardware/video-friday-robots-new-year

South Korea Blankets Country with Free WiFi On All Public Transit: Daquelas iniciativas que, suspeito, por cá seria impossível. Imediatamente iria encontrar resistência legal das operadoras de telecomunicações, para quem a disponibilização de redes wifi gratuitas ataca diretamente o seu modelo de venda, cara, de internet móvel.
https://hackaday.com/2021/01/09/south-korea-blankets-country-with-free-wifi-on-all-public-transit/

Queres ler mais este ano? Estas ferramentas ajudam-te a organizar as leituras: No século XXI, ler não é só pegar no livro. Há que usar apps para registar leituras, fazer resenhas, partilhar e descobrir novas leituras.
https://shifter.sapo.pt/2021/01/ler-mais-ferramentas-organizacao/

Users, not tech executives, should decide what constitutes free speech online: Ou melhor, a decisão sobre o que constitui discurso aceitável deve estar legislada, e não depender das vontades e impulsos de gestores de plataformas, que só agem quando os estragos são por demais visíveis, com critérios de transparência duvidosa. 
https://www.technologyreview.com/2021/01/09/1015977/who-decides-free-speech-online/

Hacker Locks Internet-Connected Chastity Cage, Demands Ransom: Olá, século XXI. O tempo em que malta que gosta de enfiar as partes íntimas em objetos se trama porque estes são hackeados e trancam as partes. Na verdade, piada à parte, é uma história de cautela sobre os problemas da cibersegurança na Internet das Coisas.
https://www.vice.com/en/article/m7apnn/your-cock-is-mine-now-hacker-locks-internet-connected-chastity-cage-demands-ransom

Boom Supersonic provides further insight into XB-1 aircraft design, with 21 3D printed parts: Este protótipo de aeronave supersónica é mais um estudo de caso de aplicação de tecnologias de manufatura aditiva avançadas à aviação.
https://3dprintingindustry.com/news/boom-supersonic-provides-further-insight-into-xb-1-aircraft-design-with-21-3d-printed-parts-182125/

Modernidade

HOLOBIONT RHAPSODY — Stach Szumski Francesco Pacelli at eastcontemporary, Milan, Italy: Algo me intrigou nesta exposição de arte contemporânea. Talvez a forma como conjura visões biomórficas, inspiradas no rizomático e bacteriano. Será um foco no bio um caminho da arte pós-covid?

https://www.ofluxo.net/holobiont-rhapsody-stach-szumski-francesco-pacelli-at-eastcontemporary-milan-italy/

Lisbon’s startup scene rises as Portugal gears up to be a European tech tiger: Uma visão interessante sobre o ecossistema lisboeta de investimento em startups tecnológicas. Ambos - o dinamismo dos investidores e a capacidade das empresas, que já se têm traduzido em algumas unicórnio, estão a atrair o interesse internacional e a mostrar o crescimento de um sector da economia que depende de mão de obra muito qualificada, ideias e criatividade, e é mais sustentável a médio e longo prazo do que a euforia pela turistificação, essa galinha de ovos de ouro que a pandemia está a matar.

https://techcrunch.com/2021/01/07/lisbons-startup-scene-rises-as-portugal-gears-up-to-be-a-european-tech-tiger/

Who Exactly Invented The Alphabet, And When?: Das origens do alfabeto, que remontam ao antigo Egipto.

https://www.smithsonianmag.com/history/inventing-alphabet-180976520/

Definitions of Art: Será possível ter uma definição unificadora do que é a arte? Provavelmente, não, porque ser esquiva é uma das características da arte. Mas podemos divertir-nos a coligir diferentes definições.

https://boingboing.net/2021/01/08/definitions-of-art.html

Como Morrem as Democracias: Muito discretamente. O poder autocrático vai-se afirmando com pequenas modificações que estão perfeitamente dentro das leis. Mas que, acumuladas, criam novas formas de ditadura. Na Europa, a Hungria é o pior exemplo disso, e pelo mundo fora abundam exemplos de autocracias que conseguiram cooptar os regimes democráticos.

http://virtual-illusion.blogspot.com/2021/01/como-morrem-as-democracias.html

The Plague Year: Ao fim de um ano de pandemia, ainda há algo de novo a ler sobre este tema? Sim. Este brilhante artigo na New Yorker, que consegue tocar em imensos pontos. Começa pela negação criminosa do governo chinês, que com a pandemia já a alastrar, se recusou a partilhar dados com outros países. Estando focado nos EUA, o artigo é uma acusação da incompetência criminosa da administração Trump em gerir um problema, de forma caótica, irresponsável e indo contra os seus próprios especialistas. Está cheio de histórias tocantes, muito pessoais, daqueles que foram tocados pelo vírus. A maior parte não sobreviveu. E, logo no início, um dado interessante para se compreender a celeridade da vacina. Felizmente, o SARS-Cov-2 apresenta semelhanças com o MERS, que ia quase provocando uma pandemia. No auge do MERS, os cientistas estavam quase a criar uma vacina para este vírus, o que acabou por não ser necessário. Resumidamente, o trabalho foi aproveitado para atacar esta nova pandemia. E já havia testes a protótipos de vacinas ainda a Covid não tinha assumido as proporções dantescas que tomou. Um artigo longo, às vezes arrepiante, outras esperançoso, e que nos toca especialmente, agora que estamos à beira de um novo confinamento após o disparo das infeções que nos está a submergir.

https://www.newyorker.com/magazine/2021/01/04/the-plague-year

Mapas de las calles alineadas con los solsticios en ciudades de todo el mundo: Um recurso interessante. Querem ficar a saber quais são as ruas que se alinham com os solstícios, permitindo tirar aquelas fotos de pôr do sol alinhadas nesses dias? Este site mostra as ruas. Lisboa, por acaso, é deprimente nisso. Troços da 24 de julho e da ponte Vasco da Gama, e... do cemitério do Alto de S. João. Aposto que daí saíriam umas fotos intrigantes.
https://www.microsiervos.com/archivo/mundoreal/mapas-calles-alineadas-solsticios-ciudades.html

Rarely-seen Dante illustrations digitized: A Divina Comédia estará para sempre associada às imagens assombrosas de Doré. Mas outros artistas já tinham criado as suas ilustrações para o poema de Dante. Agora, os muito raros desenhos do pintor Federico Zuccari, tão frágeis que não podem ser vistas, foram digitalizadas e disponibilizadas online. Graças à tecnologia, podemos ver imagens que poucos podem ver nas folhas originais, devido à fragilidade.
http://www.thehistoryblog.com/archives/60441

sábado, 20 de fevereiro de 2021

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

The Library of Greek Mythology

 


Apollodorus (2008). The Library of Greek Mythology. Oxford: Oxford University Press.

Um enorme resumo, que nos introduz aos mitos gregos, às histórias que estão por detrás das tragédias, das comédias e dos poemas épicos que nos chegaram aos dias de hoje. Ler esta Biblioteca é ler um catálogo seco de personagens míticas e das suas principais histórias. Falta a poesia, o langor de contos milenares, mas permite mergulhar no longo historial destes antigos mitos. Cujo fascínio de terem sido tão duradouros, de um imaginário criado por homens que viveram há milénios e que ainda hoje nos intriga, é uma sensação extraordinária. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Ootheca

 Mário de Seabra Coelho (2021). Ootheca. Strange Horizons.

Uma leitura portuguesa, traduzida para inglês no eZine Strange Horizons. Ootheca é um conto de puro surrealismo fantástico, passado num mundo atemporal decaído e sujeito aos ditames aleatórios de um deus morto. Um homem que carrega a maldição de ter tido os dentes transformados em baratas cruza-se com uma antiga namorada, que após a morte do marido está obcecada com confrontar-se com as estranhas entidades que concedem as maldições aleatórias que, a qualquer momento e por transgressóes inesperadas, podem recair sobre os habitantes deste mundo que vive nos restos da nossa sociedade contemporânea.

O conto é uma delícia do fantástico, depressa nos agarra com os vislumbres que nos dá, de um certo futurismo decaído que na prática traduz a nossa corrente visão pessimista. O exotismo é profundo, sentem-se traços de Kafka (bem, quaisquer referências a baratas e humanos em literatura orbitam à volta deste autor) com um worldbuilding que faz recordar China Miéville. Náo que o conto seja derivativo, bem pelo contrário, é uma obra que revela a voz própria do autor. Um fantástico surreal e bem humorado. Mas não se fiem nas minhas palavras, podem descobrir o conto aqui: Strange Horizons - Ootheca.


XX

 


Rian Hughes (2020). XX, A Novel, Graphic. Londres: Picador.

Confesso que ainda não percebi se este é um excelente livro, ou apenas um livro com uma excelente premissa. A leitura tanto decorre com fluidez, como encalha em infodumps excessivos ou estilismos levados longe de mais. Poderia ser um excelente romance de ficção científica, que pega num conceito muito pouco explorado. Mas a atração pelos estilismos reduze-o a, essencialmente, um exercício de estilo.

É na premissa que este livro se revela muito interessante. Estamos a falar de um cenário de invasão alienígena (bocejos, certo?), mas o planeta não é fisicamente invadido. As entidades alienígenas que se instalam entre nós e nos tentam conquistar não são corpóreas, são ideias preservadas num sinal de rádio. Essencialmente, XX foca-se nos memes, e levanta o conceito de uma invasão alienígena memética - ideias virtuais que se alojam no cérebro e modificam comportamentos. Não é uma premissa nova, mas é raramente usada (que eu saiba, só o conto Blit de David Lanford e um dos episódios de Global Frequency de Warren Ellis pegaram neste tema de infecções meméticas como base para ficção científica). 

Quando um sinal de origem alienígena é captado por observatórios terrestres e lunares, a sua descodificação é um mistério desafiante. O passo decisivo é dado por um personagem idiossincrático, um  génio da computação com uma propensão para ver padrões em elementos aleatórios. Trabalhando numa diminuta startup de inteligência artificial, mas com contactos em observatórios de renome, apercebe-se da verdadeira natureza do sinal, e ao criar uma simulação contida do seu conteúdo descobre que o sinal é uma enorme mensagem virtual, que contém em si a representação detalhada de milhões de civilizações alienígenas - todos dormentes. O sinal em si tem o comportamento de uma entidade viva, existe para se reproduzir infetando as civilizações que o captam com uma vontade de se virtualizarem, juntarem-se ao sinal e continuarem a sua emissão. Na Terra, a invasão memética falha porque a fisiologia humana não contém forma de sentir emissões rádio, sendo uma das raras vezes em que o sinal é descodificado por meios mecânicos.

Ao investigar o sinal, o programador descobre ainda que os nossos memes parecem ter ganho forma visível no espaço computacional, numa espécie de semi-vida artificial. Esses memes humanos são uma ajuda para compreender a vastidão do espaço memético alienígena. Entretando, algo colide com a lua, e uma astronauta de serviço vê a sua vida ser literalmente virada ao contrário pelo contacto com uma mente alienígena, que se incorpora na sua mente e lhe mostra a enorme diversidade de vida na via láctea, e também a razão da existência de um sinal que tenta cooptar civilizações inteiras para se reproduzir. Tem tudo a ver com uma civilização há muito desaparecida, que detectou na imparável colisão entre as galáxias de Andrómeda e a nossa algo mais do que as leis da física - uma intencionalidade que visa aniquilar a vida orgânica. O sinal é a consequência disso - uma forma de preservar a vida e as civilizações, através da sua descrição pormenorizada, reproduzindo-se com dois objetivos - adicionar sempre mais alienígenas, e ser transmitido em direção ao centro da nossa galáxia, onde o último elemento de uma estratégia concebida há milhares de milhões de anos permitirá a fuga do sinal para o espaço intergaláctico, assegurando a preservação memética da diversidade da vida face à aniquilação do choque de galáxias.

E notem,  isto só resume parte do enredo e da premissa. No que toca ao jogo de ideias, XX é dos livros de FC mais interessantes que li nos últimos tempos. No entanto, precisamente por causa do seu apego às ideias, tem falhas. Uma delas é a propensão para infodumps repetitivos. Tudo nos é explicado inúmeras vezes, sempre que os personagens se deparam com alguma informação nova o autor sente uma estranha necessidade recapitulativa. Outra falha prende-se com algo que o autor claramente entende como inovador. XX é um daqueles livros que procura alterar a percepção sobre o que pode ser um livro físico. Recorre, e muito, a duas técnicas: colagem gráfica, e mescla de diferentes modalidades de texto. Experiências gráficas arrojadas integram-se como elemento narrativo - especialmente na forma como as entidades meméticas comunicam. A história não se conta apenas com narrativa, cruza diferentes tipos de texto - mensagens, notícias, artigos científicos, colunas de opinião, e num pormenor metaficcional, com uma história de ficção científica pulp dentro da história. O problema está, tal como nos infodumps, na forma excessiva com que o autor usa estes recursos. 

O resultado final é um livro com uma premissa brilhante, personagens bem construídas e cheio de ideias intrigantes, que se torna uma leitura pesada. O abuso de recursos estilísticos quase torna XX num mero exercício de estilo. Em suma, poderia ser um excelente livro se estivesse mais resumido, e se o editor tivesse cortado nos excessos estilísticos do autor.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

URL

Esta semana, destacamos as bandas sonoras dos filmes de Edgar Pêra, ucronias com aviação, e mais sugestões de leitura (nunca são demais). Na tecnologia, fala-se da relação entre jogos de computador e a mente das crianças, de tecnologias DIY de realidade aumentada, ou da incúria de especialistas em cibersegurança. Ainda recordamos o inqualificável momento da invasão do Capitólio.

Ficção Científica e Cultura Pop

Frenzy (Original Title: Goodbye Piccadilly, Farewell Leicester Square): Na verdade, creio que este soon to be an Hitchcock film nunca passou de um soon to be.

https://pulpcovers.com/frenzy-original-title-goodbye-piccadilly-farewell-leicester-square/

Kinorama: Uma boa notícia para começar o ano. O cineasta Edgar Pêra está a dinamizar um programa de rádio na Atena 2, dedicado à música dos seus filmes. Como não podia deixar de ser, ouvir este programa é uma experiência forte experimental, com sonoridades muito experimentais.

https://www.rtp.pt/play/p8295/e515811/kinorama

Dark Horse Announce New Dave McKean Graphic Novel: Raptor: Momento shut up and take my money. McKean é um dos mais geniais ilustradores britânicos, com um estilo gráfico que foi revelado ao mundo aquando da invasão inglesa da DC Comics nos anos 90, que meteu Brian Bolland, Alan Moore, Neil Gaiman e outros argumentistas e ilustradores a trabalhar em títulos da Vertigo que se tornaram icónicos. Saber que tem um novo livro na calha é uma excelente notícia de início de ano.

https://bleedingcool.com/comics/dark-horse-announce-new-dave-mckean-graphic-novel-raptor/

Alexey Leonov and Sokolov Andrei Konstantinovich: Futuros sovietes.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/639502216728854529

Wunderwaffen, una Segunda Guerra Mundial ucrónica llena de aviones que nunca existieron pero que hubieran molado: Este é um dos meus prazeres culposos, uma ucronia onde a II Guerra se arrasta graças às armas avançadas nazis, e também com ajuda de uma entidade alienígena. As histórias são um bocado patetas, mas o traço de Maza é genial a recriar aqueles projetos de aeronaves que estavam avançadas face ao seu tempo, como se estivessem realmente a voar.

https://www.microsiervos.com/archivo/comics/wunderwaffen-ucronia-aviones-nunca-existieron.html



Left: George Solonevich’s cover to Analog magazine: Cidades, perdidas no espaço.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/639308980888403968

Excalibur – John Boorman’s Creation of an Otherworldly Arthurian Dream: Wanderings 1/26: Recordar um dos mais estranhos filmes de fantasia épica, uma influente e poética visão sobre os mitos arturianos.

https://ayearinthecountry.co.uk/excalibur-john-boormans-creation-of-an-otherworldly-arthurian-dream-wanderings-1-26/

As melhores Leituras de 2020: No Rascunhos, a Cristina Alves seleciona as suas melhores leituras do ano que findou. Com piada, publicou-as no último dia do ano... bem tinha avisado que ainda tinha leituras até ao final do ano, quando publiquei as minhas do início de dezembro.

https://osrascunhos.com/2021/01/01/as-melhores-leituras-de-2020/


Jack Kirby, 1978: O mestre dos comics.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/639071883662327808


Tecnologia


Our best illustrations of 2020: As melhores imagens que acompanharam artigos da Technology Review.

https://www.technologyreview.com/2020/12/31/1013869/our-best-illustrations-of-2020/

A man 80 years ahead of his time: The strange Soviet aeroplanes of Mr. Moskalev: O trabalho, algo bizarro, de um engenheiro aeronáutico soviético. Os seus designs são aeronaves que não seriam descabidas nos nossos modernos conceitos do futuro da aviação.

https://hushkit.net/2020/12/31/a-man-80-years-ahead-of-his-time-the-strange-soviet-aeroplanes-of-mr-moskalev/

Geomedia, or What Lies Below: O fascínio pelo mapeamento do subsolo, usando a tecnologia de visualização para desvendar o oculto pela geografia.

https://www.bldgblog.com/2020/12/geomedia-or-what-lies-below/

Petoi Bittle é a versão brinquedo do cão robô da Boston Dynamics e custa apenas €205!: Para quem quiser experimentar programar cães robots, não tem dinheiro para o original nem tempo/paciência/capacidade técnica para os vários projetos de cães robots DIY no Instructables, este projeto no Indiegogo parece ser uma excelente alternativa.

https://4gnews.pt/petoi-bittle-e-a-versao-brinquedo-do-cao-robo-da-boston-dynamics-custa-apenas-205/?

Archaeology is going digital to harness the power of Big Data: De dados brutos obtidos por técnicas de imagiologia avançada, à análise de meta conteúdos possibilitada pela inteligência artificial, as humanidades estão cada vez mais adeptas do uso de tecnologias digitais como ferramenta de investigação.
https://arstechnica.com/science/2021/01/archaeology-is-going-digital-to-harness-the-power-of-big-data/

Use How Bad is Your Spotify to Have AI Judge Your Musical Taste: Estão com vontade de levar tareia de um algoritmos? Deixem este programa analisar as vossas audições no Spotify, e garanto que a destruição é garantida. Se bem que isto parece mais spoof inteligente do que algoritmo real.
https://blog.adafruit.com/2021/01/03/use-how-bad-is-your-spotify-to-have-ai-judge-your-musical-taste/


Videojogos não tornam crianças mais violentas - conclui estudo de 10 anos: Na verdade, a ideia de que os videojogos são perniciosos para a mente das crianças é apenas uma variante dos inúmeros pânicos morais induzidos por novos media. Sempre que um meio de comunicação se começou a afirmar, houve sempre quem apontasse os males que faria à mente das criancinhas. Podem achar estranho, mas houve uma altura em que se considerava que a leitura de romances seria perniciosa para a mente das jovens adolescentes, porque lhes encheria a cabeça de ideias. 
https://abertoatedemadrugada.com/2021/01/videojogos-nao-tornam-criancas-mais.html

How electric lighting changed our sleep, and other stories in materials science: É o truísmo mcluhanista. Os meios que criamos modificam-nos. Neste caso, a forma como manipulamos os materiais resulta em tecnologias que alteram a nossa forma de viver.
https://arstechnica.com/science/2021/01/how-electric-lighting-changed-our-sleep-and-other-stories-in-materials-science/

Así funcionan las cámaras y lentes: una explicación interactiva para entender su ciencia y funcionamiento: Uma app interativa que nos permite compreender melhor como funcionam as lentes. E, com isso, perceber como fazer melhor fotografia.
https://www.microsiervos.com/archivo/fotografia/asi-funcionan-camaras-y-lentes-explicacion-interactiva.html

Augmented Reality On The Cheap With ESP32: Os equipamentos de Realidade Aumentada são, por enquanto, caros e pouco acessíveis. Mas se se for Maker, o desafio é construir o seu, e usando impressão 3D, LCDs baratos e placas ESP32, este projeto mostra como construir um dispositivo pessoal de AR.
https://hackaday.com/2020/12/31/augmented-reality-on-the-cheap-with-esp32/

How to Get Rich Sabotaging Nuclear Weapons Facilities: Há uma frase que descreve muito bem o real problema da cibersegurança: "cybersecurity risk is akin to pollution, a cost that the business itself doesn’t fully bear, but that the rest of society does". Como está demonstrado nos recentes problemas com o hackear do software da SolarWinds, uma empresa que na prática domina um nicho de mercado no controle de redes. Um feito nada extraordinário, quando se descobre que os experts em cibersegurança tinham uma password básica para controlar o acesso de administração. O porquê deste laxismo é explorado neste artigo, que analisa o papel do capitalismo predatório. Quando se reduz custos a todo custo para maximizar lucros, mesmo que isso coloque em risco a segurança dos clientes, abre-se a porta à exploração de vulnerabilidades na infraestrutura tecnlógica crítica.
https://mattstoller.substack.com/p/how-to-get-rich-sabotaging-nuclear

This avocado armchair could be the future of AI: Uma análise aos novos algoritmos da OpenAI, que aplicam o tipo de processamento neuronal dos algoritmos de produção de texto GPT-3 à classificação e geração de imagens.
https://www.technologyreview.com/2021/01/05/1015754/avocado-armchair-future-ai-openai-deep-learning-nlp-gpt3-computer-vision-common-sense/

Construction Technology 2021: 5 Trends to Watch This Year: Do LIDAR em telemóveis à colaboração remota, tecnologias que estão a fazer evoluir a arquitetura e construção civil.
https://redshift.autodesk.com/construction-technology-2021/

All The Good VR Ideas Were Dreamt Up In The 60s: De facto. As bases da RV de hoje nasceram com o trabalho de Ivan Sutherland nos anos 60, e na verdade não se modificaram muito, apenas o hardware se tornou mais potente (e portável), bem como o software é capaz de maiores níveis de realismo.
https://hackaday.com/2021/01/04/all-the-good-vr-ideas-were-dreamt-up-in-the-60s/

81.000 dominios .eu han sido suspendidos de golpe este 1 de enero: el efecto colateral del Brexit: Confesso que fico surpreendido com quem se surpreende com estas notícias. O Reino Unido deixou de fazer parte da União Europeia, e com isso tornou-se um país terceiro nas relações com a UE. Perdeu o direito ao acesso às iniciativas pan-europeias, como o poder usar domínios .eu. Nos grupos de professores, tenho assistido a colegas escandalizados porque os professores britânicos perderam o acesso (e a capacidade de participar), nas plataformas eTwinning e Erasmus. Mas, francamente, esperavam o quê? Brexit mas tudo a correr como sempre corria?
https://www.xataka.com/otros/81-000-dominios-eu-han-sido-suspendidos-golpe-este-1-enero-efecto-colateral-brexit

Modernidade


The Most Surreal Photographs of the Invasion of the Capitol: Do inqualificável. Não há palavras para isto, é o pior dos idiotas das teorias da conspiração a vir à tona.

https://www.vice.com/en_us/article/7k9emz/the-most-surreal-photographs-of-the-invasion-of-the-capitol

Covid-19 immunity likely lasts for years: Numa semana em que parecemos a caminho de um descalabro (dez mil casos num só dia, por cá), um sinal de esperança. Se as infeções por covid conferem uma imunidade duradoura, talvez se possa esperar o mesmo das vacinas.

https://www.technologyreview.com/2021/01/06/1015822/covid-19-immunity-likely-lasts-for-years/

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Comics: I, Robot; Alone;

 

Raúl Cuadrado (2020). I, Robot. Europe Comics.

Redescobrir as histórias clássicas onde Asimov explorou (o mais correto seria dizer espremeu ao máximo) as consequências da aplicação das suas três leis na interação entre robots e humanos. O ilustrador espanhol Raúl Cuadrado pega em três destas histórias, que desenha numa estética deliciosamente retro. Visualmente, é uma vénia ao gernsback continuum, à estética industrial dos anos 50.

Christophe Chabouté (2017). Alone. Nova Iorque: Gallery 13.

Num farol automatizado, vive um homem que nunca viveu no mundo exterior. O seu mundo sempre foi o farol num rochedo, rodeado de mar. Recebe regularmente provisões da parte de um pescador, mas nunca é visto. Vive no farol, apenas com um peixe e um dicionário por companhia. Dicionário esse que é o seu grande jogo mental: costuma abri-lo ao acaso, sonhando com os possíveis significados das palavras que encontra. A partir de uma ideia que explora a intensidade da solidão, Chabouté dá-nos um verdadeiro tour de force de narrativa visual, com um traço expressivo que conduz o olhar do leitor com um ritmo marcante.

Mark Schultz (2016). Carbon 2. Flesk Publications.

Descobri este desenhador com o fantástico Xenozoic Tales, uma curiosa mistura de futurismo retro com dinossauros. Imaginem heróis de tipo clássico, carros dos anos 50, tecnologia futurista, Terra em ruínas e dinossauros. Aventura pura, sempre bem desenhada. Este Carbon 2 reúne esboços e páginas de alguns dos trabalhos de Schults. Nos temas, e estilo gráfico, remete sempre para as estéticas dos anos 50, num grafismo que deve muito a Wally Wood e Al Williamson, cujas estéticas de aventura clássica Schultz dá continuidade.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Comics: Los Cuentos de la Niebla; The Lighthouse; En El Nombre Del Diablo

 


Laura Suárez (2019). Los Cuentos de la Niebla. Madrid: Dibbuks.

Cinco histórias, soberbamente ilustradas, que redescobrem as tradições galegas sobre o sobrenatural. Traços de espíritos, rapazes que veem os mortos, mulheres tomadas pelos ares das almas penadas, possessões por demónios combatidas por santos remotos, e não podia faltar um fatalista encontro com a santa companha. O registo é muito pessoal, baseado nas histórias que a avó da autora lhe contava. O estilo gráfico é elegante e expressivo, embora contido, numa paleta de cinzentos que sublinha os efeitos do clima e geografia nos mitos galegos.

Paco Roca (2017). The Lighthouse. Nova Iorque: NBM Publishing.

Um belíssimo e poético livro, que cruza as memórias da guerra civil espanhola com o amor pela literatura e pelo mar. Um jovem soldado republicano é resgatado pelo excêntrico faroleiro de um farol abandonado. Enquanto passam os dias a construir um barco com os despojos dos naufrágios na zona, exorciza-se o espectro da derrota republicana e a violência fascista com sonhos das terras distantes que estão para lá do horizonte, numa mistificação que cruza influências literárias de Moby Dick a Gulliver. 


Esteban Maroto (2003). En El Nombre Del Diablo. Barcelona: Norma Editorial.

Se este estilo vos faz lembrar algo... é porque o grafismo de Esteban Maroto correu o mundo nas páginas das clássicas revistas de terror da Warren. Nestas  histórias, está a solo, mas o mergulho numa estética de esoterismo barroco, de horror entre o elegante e o grotesco sempre um forte exagero estilístico mantém-se. A arte de Maroto sempre encheu o olho, e se hoje nos parece algo datada, não o é no sentido de ter perdido o interesse, mas por marcar toda uma época nos comics de terror. As histórias não se desviam dos temas - pactos com o demónio, assombrações, descidas aos infernos, e valem essencialmente pelo seu espantoso e deslumbrante visual.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

URL

Para esta semana, destacamos listas de leituras, o novo uniforme do Homem-Aranha e a descoberta de Dylan Dog pelos ingleses do Guardian. Fala-se da indústria espacial espanhola, de ética na inteligência artificial e da criação estética em espaços virtuais. Ainda se discute os Simpsons como utopia socio-económica, e a recente descoberta dos vestígios da street food romana. Outras leituras vos esperam nas Capturas na rede. 

Ficção Científica e Cultura Pop


Philippe Druillet’s cover art: É Druillet, 'nuff said.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/638822767204171776

11 great sci-fi books from 2020 to check out on your new Kindle: Sugestões de leitura, com alguma da melhor ficção científica editada em 2020.

https://www.theverge.com/22187387/best-sci-fi-books-new-kindle-e-reader-top-2020

Spider-Man's New Costume Is Here, and It Sure Is New, a Costume: O novo uniforme do Homem-Aranha é uma tremenda quebra com a tradição. Tem muito pouco a ver com a iconografia clássica. Esperem os habituais resmungos dos fãs mais raivosos.

https://io9.gizmodo.com/spider-mans-new-costume-is-here-and-it-sure-is-new-a-1845967287

Dylan Dog: the hit London-set Italian horror comic unknown in the UK: O Guardian descobre a mais britânica personagem de fumetti. A criação de génio de Tiziano Sclavi, um detetive do sobrenatural cujas aventuras são uma constante homenagem à literatura e cinematografia do horror. Livros cuja leitura tem um sabor especial acompanhadas por um chá, na cafeteria que se situa no verdadeiro número 7 de Craven Road.

https://www.theguardian.com/books/2020/dec/28/dylan-dog-the-hit-london-set-italian-horror-comic-unknown-in-the-uk


They Die On Mars: Há capas fantásticas das revistas pulp, que se tornaram ícones do género. Esta não é uma delas. Já as ilustrações interiores são um mimo.

https://pulpcovers.com/they-die-on-mars/

De Persepolis à Peau d'homme, les meilleures BD des 20 dernières années: Quais os melhores álbuns de banda desenhada editados em França nas primeiras duas décadas do século XX? Estas são as propostas do jornal Figaro... ou seja, uma excelente lista para se descobrir o que de melhor se faz na bande dessinée.

https://www.lefigaro.fr/bd/de-persepolis-a-peau-d-homme-les-meilleures-bd-des-20-dernieres-annees-20201226

The Books Briefing: The Best Books of 2020: Mais uma lista de excelentes leituras editadas em 2020. O livro de Mieko Kawakami está a ser citado em muitas destas listas.

http://feedproxy.google.com/~r/TheAtlantic/~3/Qcm4z2aS8ec/

Virgil Finlay: Winter wonderland.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/638426380613386241

Leer cómics online: 22 páginas y aplicaciones para descargar y leer cómics digitales: Sites e apps para ler banda desenhada em formato digital.

https://www.xataka.com/basics/leer-comics-online-22-paginas-aplicaciones-para-descargar-leer-comics-digitales?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+xataka2+%28Xataka%29

Comunidade (1964) Luiz Pacheco: Confesso ser uma das minhas grandes lacunas em literatura portuguesa, não conhecer a obra de Pacheco. Em parte, por ser autor maldito, não é habitual ser constantemente reeditado, ao contrário dos nomes mais a gosto do paladar conservador português.

http://virtual-illusion.blogspot.com/2020/12/comunidade-1964-luiz-pacheco.html

Spirit of the Age: The Science Fiction Aesthetic of Hawkwind: A ligação ao fantástico e à ficção científica é um dos elementos que torna o som desta clássica banda de rock progrssivo e psicadélico interessante.

https://wearethemutants.com/2020/12/23/spirit-of-the-age-the-science-fiction-aesthetic-of-hawkwind/

Tecnologia

weirdlandtv: Por vezes, por vezes...

https://weirdlandtv.tumblr.com/post/636330534490062848

Forbes Technology Awards 2020: Geeks Step Up When Governments Fail: Ao destacar os melhores projetos de tecnologia deste ano, a Forbes salienta o trabalho da comunidade Maker. No início da pandemia, quando faltavam equipamentos de proteção individual para os profissionais na linha da frente, foi o esforço conjunto de milhares de makers e fablabs que produziu e doou materiais essenciais, entre viseiras a válvulas para equipamentos médicos. Antes da indústria e instituições se adaptarem e reconverterem, foi o dinamismo improvisado dos Makers que deu a primeira resposta. 

https://www.forbes.com/sites/helenpopkin/2020/12/26/forbes-technology-awards-2020-geeks-step-up-when-governments-fail/?sh=2eb5617f7088

La industria aeroespacial española existe y quiere un papel en la explosión de la nueva conquista espacial: Um pequeno panorama da vibrante capacidade espacial espanhola, que se está a afirmar como das mais importantes ao nível europeu.

https://www.xataka.com/espacio/industria-aeroespacial-espanola-existe-quiere-papel-explosion-nueva-conquista-espacial

What Happens When Independent Machines Make Mistakes (And They Will)?: Reflexões sobre ética, automação e inteligência artificial, entre as noções de responsabilidade moral e legal sobre as consequências de erros e ações imprevistas.

https://hbr.org/2021/01/when-machine-learning-goes-off-the-rails

Leonardo: Deep Dive Into The Main Programs Of One Of The Largest Defense Contractors In The World: Um panorama dos programas da Leonardo, o conglomerado aeroespacial italiano.

https://theaviationist.com/2020/12/30/leonardo-deep-dive-into-the-main-programs-of-one-of-the-largest-defense-contractors-in-the-world/

Current spacesuits won’t cut it on the moon. So NASA made new ones: Os futuros passos da exploração espacial requerem novos fatos de astronauta, na prática mini-naves individuais que protegem o frágil corpo humano do ambiente inóspito do espaço.

https://www.technologyreview.com/2020/12/29/1015573/future-spacesuits-moon-mars-nasa-xemu/

Face recognition is creeping Chinese netizens out: Conhecemos a extensão do investimento do governo chinês em tecnologias de reconhecimento facial para vigiar os seus cidadãos, mas esse investimento transvasou para a sociedade civil. Que, apesar dos constrangimentos de uma sociedade totalitária, está a reagir a este movimento.

https://technode.com/2020/12/22/china-voices-face-recognition-is-creeping-chinese-netizens-out/

How to Use a Tablet as a Portable Raspberry Pi Screen: Um projeto útil.  Quem usa Raspberry Pi sabe que a ligação a um monitor pode ser um problema.  Usar um tablet pode ser uma boa solução. 
https://www.tomshardware.com/how-to/use-android-tablet-raspberry-pi-screen

Leonardo Hack Allegedly Targeted Details Of nEUROn UCAV Program: Intrigante. O conglomerado aeronáutico italiano foi hackeado, com propósitos muito específicos. Bem me parecia ter visto algo muito Shanzai nEUROn nuns conceitos de ucav russos vindos da Sukhoi.
https://theaviationist.com/2020/12/24/leonardo-hack-allegedly-targeted-details-of-neuron-ucav-program/

A jolly holly horror to you!: Um toque creepy, nesta redescoberta sonora de antigos brinquedos. Bonecas falantes do século XIX,  com fonógrafos em miniatura no seu interior, e cilindros com histórias gravadas. 
http://www.thehistoryblog.com/archives/60325

The year deepfakes went mainstream: Alguns exemplos do uso de tecnologias deepfake aplicada aos media, especialmente na publicidade. Mostra que se está a tornar outra ferramenta para os criativos dos media.
https://www.technologyreview.com/2020/12/24/1015380/best-ai-deepfakes-of-2020/

Npc Djs + Co-Creating Virtual Worlds: Se o lado mais visível da realidade virtual está,  novamente,  a sair de moda (é uma tecnologia que regularmente ganha interesse que, depois de um período de entusiasmo, esmorece), no domínio artístico há um movimento forte e dinâmico que integra a virtualidade com meio de criação estética. 
https://www.thejaymo.net/2020/12/24/npc-djs-co-creating-virtual-worlds/

Ten Robot Mechanisms For Your Design Toolbox: Inspirem-se, imprimam, desenvolvam e construam os vossos próprios robots.
https://hackaday.com/2020/12/25/ten-robot-mechanisms-for-your-design-toolbox/

Create AR Using These 5 Apps: A realidade aumentada está cada vez mais acessível. Podemos experimentar experiências de RA, mas está a tornar-se fácil ir mais longe, com aplicações que simplificam a forma de criar conteúdo em realidade aumentada.
https://www.iste.org/explore/tools-devices-and-apps/create-ar-using-these-5-apps?utm_campaign=ISTESproutSocial&utm_medium=social&utm_source=facebook.com

Stock Picks From Space: Na eterna luta por se conseguir uma vantagem no jogo financeiro, as imagens de satélite são mais uma arma para conseguir informações de apoio à decisão de compra ou venda de ações.
https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2019/05/stock-value-satellite-images-investing/586009/

A New Google: Os utilizadores, fartos do excesso de publicidade e links pagos nas pesquisas Google, começam a criar estratégias de refinamento de pesquisas. Algo que terá implicações na evolução dos modelos de negócio da pesquisa na internet.
https://dcgross.com/a-new-google

A Mechanical Edge-Avoiding Robot: Um robot que nunca cai de um rebordo, totalmente mecânico e sem programação. Belíssimo projeto maker.
https://hackaday.com/2020/12/27/mechanical-edge-avoiding-robot/

My True Love Gave to Me…: Artefactos de combate a guerrilha urbana como desenhos para prenda no sapatinho. 
https://www.bldgblog.com/2020/12/my-true-love-gave-to-me/

Think Your Laptop is Anemic? Try an MSDOS One: Provavelmente, recuperar um antigo portátil Amstrad é mais produtivo do que do que ter de lidar com uma máquina de escrever glorificada com ecrã e 2 gb de RAM. Pelo menos, mergulha-se em cheio na história da computação.
https://hackaday.com/2020/12/28/think-your-laptop-is-anemic-try-an-msdos-one/

Aparece un teclado para Game Boy que nunca llegó a venderse: convertía la consola en toda una suite de productividad para la época: I can relate. Sempre fui fã da computação móvel. Porque é que temos de estar presos a uma secretária para aceder a recursos e produzir? A antiga visão do Dynabook começa a ser possível hoje, entre portáteis, telemóveis e tablets, e começou a desenhar-se nos anos 90, na época dos PDA - dispositivos de baixa capacidade mas muito polivalentes. O que não imaginava é que alguém tinha pensado em utilizar um Gameboy como plataforma de produtividade.
https://www.xataka.com/historia-tecnologica/aparece-teclado-para-game-boy-que-nunca-llego-a-venderse-convertia-consola-toda-suite-productividad-para-epoca

iPhone 12 Pro Enables 100X Faster Scanning Than Photogrammetry, Thanks To Lidar: Quase, quase comprava um iPhone por causa disto. Mas por muito que goste de 3D scanning (e o Alan Denoyal do Sketchfab frisa bem o que verdadeiramente atrai nesta tecnologia, é a captura volumétrica de memórias e momentos), recuso-me a vender a alma à apple. Vou-me  mantendo na combinação de vídeo e meshroom para registar a volumetria dos detalhes dos dias. Até porque educação é o meu nicho,  e não faz qualquer sentido mostrar que se é capaz de algo usado hardware que não está ao alcance dos alunos. As tecnologias tof e lidar hão de chegar ao Android. Basta ser paciente, e aproveitar para ir afinando técnicas de captura.
https://www.forbes.com/sites/johnkoetsier/2021/12/28/iphone-12-pro-enables-100x-faster-scanning-than-photogrammetry-thanks-to-lidar/

Modernidade

Using an excavator to play with a Learjet like a toy plane: Vá, quem nunca? Se há oportunidade para brincar com um Learjet, porque não? 
https://boingboing.net/2020/12/25/using-an-excavator-to-play-with-a-learjet-like-a-toy-plane.html

Pompei, ritrovato un Termopolio intatto: il progenitore del banco da «street food»: Vai um franguinho à romana? Este achado arqueológico é deveras notável, pela elevada preservação dos vestígios deste restaurante de rua. Os frescos que anunciam a comida que era vendida são uma delícia. E agora,  passem lá o vinho e o pão com garum para aperitivo. 

https://www.corriere.it/cultura/20_dicembre_26/pompei-ritrovato-termopolio-intatto-era-nostro-banco-street-food-026c2e92-4760-11eb-be4b-d2afc176960b.shtml

Why 18th-century lovers exchanged portraits of their eyes: Uma memória deliciosa, entre o dead media e o romantismo - o costume de amantes vitorianos trocarem miniaturas com os seus olhos pintados. 
https://daily.jstor.org/18th-century-lovers-exchanged-portraits-of-their-eyes/

O Mito de uma Revolução sem Sangue: A história recorda os mortos do 25 de abril, mas as histórias vernaculares que preservam a memória da revolução dos cravos está a assentar na crença que foi uma revolução sem sangue. Mas não o foi, e os nomes e histórias de alguns daqueles que não viveram para ver Portugal liberto do fascismo são recordados neste livro.
http://virtual-illusion.blogspot.com/2020/12/o-mito-de-uma-revolucao-sem-sangue.html

The Life in The Simpsons Is No Longer Attainable: A ironia de ver os Simpsons como utopia económica. Ou a involução económica e social. A ideia de um homem com pouco mais do que estudos secundários, num emprego não especializado, a ganhar o suficiente para sustentar casa, família e esposa doméstica, passou de expectável nos anos 60 e 70 para inalcançável em 2020.
https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2020/12/life-simpsons-no-longer-attainable/617499/

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Lost+Found

 





Desta vez, só à volta do quarteirão. Em parte devido ao confinamento. Mas essencialmente porque, num cenário de pandemia global, com o SNS a ser puxado para lá dos seus limites, houve algo que me levou às emergências do centro de saúde daqui: um terrível ataque sobre a minha pessoa - a queda do carregador do meu computador sobre um dedo do pé. Pelo menos, coloquei os médicos e enfermeiros que me trataram, de uma forma exemplar e que é normal das poucas vezes que recorro ao SNS, a sorrir com a ironia do professor de informática posto a coxear por um acessório de computador.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Comics: The Eltingville Club; Delacroix; Alvar Mayor


 Evan Dorkin (2016). The Eltingville Club. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Evan Dorkin é mais conhecido pela interessante série Beasts of Burden, onde um simpático bando de animais guarda a humanidade de ameaças ocultas. Como fã e criador, criou este Eltingville Club como uma sátira amarga ao pior do fandom das culturas de género. Uma crítica corrosiva, que se foca no nível pessoal, mas por detrás critica também toda a estrutura comercial que possibilita e incentiva estes comportamentos. 

Quem pertence a algum fandom já se deparou com isto. A maior parte dos fãs entende o seu gosto como algo que os define, mas não tudo o que os define. Apreciam a estética, os enredos, as iconografias, e as infindas discussões à volta destes temas. Mas há alguns que levam estas questões de forma obsessiva. Que se assanham sempre que algum criador se desvia daquilo que entendem ser o sacrossanto cânone de um personagem, que se comprazem em crítica agressiva e no ácido afastamento daqueles que veem como fãs menores.  Os que se babam perante as cosplayers (ou mais que isso, de tal forma que as convenções começam a sancionar aqueles que não respeitam limites), enquanto vituperam contra algum argumentista ou desenhador, e apontam a ignorância dos outros face ao profundo conhecimento de trivialidades  de que só eles partilham. Fãs extremos, que caem no trollismo, insultam aqueles que não lhes agradam, e colecionam agressivamente tudo o que lhes desperta a atenção. São geralmente demasiado ativos nas comunidades online e são responsáveis por criar ambientes tóxicos no fandom (o português também tem as suas "personalidades", embora felizmente me tenha cruzado com muito poucas).

The Eltingville Club critica essa atitude destrutiva, através de quatro personagens amorais, unidos por uma suposta amizade forjada no gosto pela FC e outros géneros, mas que na verdade nem entre eles se dão bem. São o pior do fandom, narcisistas, violentos nas palavras e atitudes. Essencialmente, idiotas chapados. E o pior é que ao ler este óbvio exagero, não é difícil reparar que já todos lemos (ou pior, nos cruzámos) com pessoas destas online. Recordo a vez no Fórum Fantástico em que assinalei um livro de uma autora que foi leitura interessante, e me foi apontado que sob pseudónimo, essa escritora tinha sido recentemente desmascarada como uma das piores trolls do campo da FC, conhecida por perseguir outros escritores (até um dos nossos teve de a aturar). Há algo de profundamente errando numa personalidade quando aquilo que nos empolga e aquece o sangue numa discussão, em  vez de nos fazer sorrir nos leva a fazer ameaças de morte. É esta atitude que Dorkin caricatura, porque a encontrou. E, por detrás, há toda a indústria que lucra a vender tralha, que se aproveita e espreme ao máximo os gostos do fandom, e que francamente precisa de fãs agressivos para manter oleada a máquina de vendas.

Catherine Meurisse (2019). Delacroix. Paris: Dargaud.

O texto é de Dumas, clássico, uma revisão da obra de Delacroix por um seu contemporâneo. O interessante está o trabalho da ilustradora, que recria as obras do artista francês para ilustrar esta homenagem clássica. Fá-lo com interessantes apontamentos de aguarela, uma vénia ao espírito da cor.

Carlos Trillo, Enrique Breccia (2020). Alvar Mayor: Les Cités Légendaires. Editions ilatina.

Um mergulho num clássico hispânico. Originalmente publicado em 1977, Alvar Mayor leva-nos aos primeiros anos da colonização espanhola das américas, em histórias de aventura pura. Alvar é um típico herói torturado, um espanhol nascido nas américas que viaja numa constante busca por algo que só ele sabe. Ocupa-se como guia nos territórios sul americanos, empregado por bandos de espanhóis ávidos de ouro, que mergulham nas selvas para saciar a ganância, mas acabam sempre engolidos pela sua cupidez. Há também histórias de luta contra injustiças, numa sociedade onde os poderosos raramente são justos, e o ouro está acima de tudo. Em ritmo de aventura clássica, com um belíssimo estilo gráfico a condizer, Alvar Mayor é uma visão crítica sobre a colonização das américas.