terça-feira, 14 de abril de 2026

We are Legion (We are Bob)


Dennis Taylor (2016)- We are Legion (We are Bob). Worldbuilders Press.

Não me atreveria a dizer que este foi dos livros com escrita mais elegante que li nos últimos tempos, mas lá que foi divertido e interessante, foi. A escrita é escorrida e dinâmica, em modo contação de história. Lê-se e entretém, mantendo-nos agarrados às páginas. Mas não é isso que torna este livro interessante. É uma space opera no sentido clássico do termo, cheio de acenos à cultura geek, mas consegue manter a frescura de trazer algo novo e não um mero replicar de tropes estafadas.

A aventura do livro começa num futuro próximo, quando o inteligente e algo irreverente milionário que prefere ser tratado por Bob decide criopreservar-se. Acorda num futuro mais distante, onde as coisas não correram muito bem. Descobre-se como virtualização consciente a ser testada para garantir a capacidade e conformidade ao serviço do governo que o despertou. Conformidade é o termo certo, neste futuro a américa dissolveu-se numa teocracia fundamentalista cristã, em constante competição contra as potências europeias, chinesa e brasileira. A missão deste Bob digital é a de espalhar a boa nova da palavra divina no espaço, como cérebro controlador de um novo tipo de nave exploradora - uma matriz robótica com capacidades autoreplicadoras de máquina de von Neumann. Isto, claro, se sobreviver aos testes que atestam a fidelidade da sua fé.

Claro está que a sua sagacidade ultrapassará o zelo dos zelotas, e claro está, também, que os teocratas não são os únicos a desenvolver esta tecnologia. Todos os blocos investem, porque sabem que é a chave para abrir os recursos do espaço e, com isso, garantir a sua supremacia. Uma competição que não é isenta de sabotagens e culmina numa guerra termonuclear que quase extingue a humanidade. 

Entretanto o Bob original, lançado ao espaço, faz uso das suas capacidades para se libertar dos grilhões do software teocrata. Terá de enfrentar a ameaça de sondas brasileiras também tripuladas pelo simulacro inteligente de um dogmático militar que é incapaz de compreender que após uma troca de ogivas nucleares já não há guerra que valha a pena ser mantida. Bob expande-se pelo espaço, aproveitando os recursos dos sistemas solares que visita para construir réplicas de si próprio, que irão elas próprias espalhar-se para horizontes onde ninguém jamais foi. 

Alguns regressam à Terra, para ajudar os punhados de sobreviventes a evitar a extinção e tripular naves coloniais que os levarão a planetas habitáveis descobertos por outros Bobs. Todos entidades conscientes, similares ao seu progenitor mas com identidades muito próprias. Outros ainda deparam-se com proto-civilizações alienígenas, que irão auxiliar a desenvolver.

Este Bobiverso é em simultâneo divertido e de leitura leve, mas atreve-se a tocar a fundo em tropes clássicas da Space Opera. A sua leveza disfarça a amargura dos nossos tempos contemporâneos, com a política a arrastar-nos para abismos que julgávamos terem sido ultrapassados, numa premissa ficcional que extrapola o nosso corrente momento histórico. O constante saltar entre pontos de vista de diferentes Bobs permite um emaranhado de linhas narrativas. Tanto acompanhamos o explorar de novos sistemas como os dilemas da sobrevivência, alternada com ação pura na defesa e caça aos brasileiros, e atrevendo-se a entrar nas narrativas de contacto com alienígenas, entre civilizações primitivas e artefactos inteligentes que apontam para formas de vida mais avançada. Leve e divertido, mas nem por isso pouco substancial.

Comics: Wolverine and Kitty Pryde; Em busca da Pedra Zodiacal; Demoni e silicio


Chris Claremont, Damian Couceiro (2025). Wolverine and Kitty Pryde. Nova Iorque: Marvel.

Nem sempre é bom regressar ao passado. Claremont foi um argumentista de charneira, responsável por ter tornado os X-Men em personagens de sucesso, mas o que lá vai, lá vai. Aqui regressa a uma das suas sagas clássicas, em modo de prequela. Com aquela inspiração tão final dos anos 80 com a cultura japonesa clássica, que levou Wolverine ao Japão, reinventou a frágil adolescente Kitty Pryde numa algo sombria personagem, através de uma daquelas suas típicas narrativas convolutas que envolveu o domínio mental por parte de um sensei malévolo. Neste regresso, Claremont coloca-se entre o ponto final dessa saga e a restante continuidade da personagem, com uma bizarra e explosiva aventura que consegue cruzar samurais míticos e sentinelas superinteligentes. Um regresso explosivo, mas de sabor oco, a mostrar que o brilhantismo clássico ficou no passado (e merece ser revisitado), mas não consegue ser replicado.


Bruno Sarda (1990). Em busca da Pedra Zodiacal. Lisboa: Abril Controljornal.

Regressar à infância? Nem por isso. Cresci com estas bandas desenhadas, mas no formato americano, e as aventuras simplistas que me ocuparam tempos livres na infância são vagas memórias, sem que me tenha apercebido do significado de, por exemplo, Carl Barks. Só mais tarde descobri a outra Disney, a dos desenhadores e argumentistas italianos que ao meu olhar adulto, trouxeram uma curiosa voluptuosidade ao estilo gráfico uniformizado da Disney. De vez em quando sabe bem revisitar este estilismo, para redescobrir uma inusitada elegância num tipo de banda desenhada que foi concebida unicamente para consumo rápido, mas onde os artistas que nela trabalharam conseguiram dotar de um cariz próprio, indo um pouco além do estereótipo esperado.


David Rigamonti, Ivan Calcaterra (2016). Dylan Dog - I colori della paura n. 47: Demoni e silicio. Milão: Bonelli.

Como é que se cria um crossover entre o futurismo de Nathan Never e o momento presente de Dylan Dog? Esta curiosa aventura do investigador dos pesadelos mostra bem como. Estamos no futuro, onde o lendário agente principal da Agência Alfa está a lutar contra um temível e aparentemente insolúvel ataque informático. A resposta encontra-se nas ruínas de uma casa londrina, nas páginas de um diário onde estão as crónicas das aventuras de uma lenda do passado. A partir desse diário, os cientistas da agência Alfa recriam Dylan Dog como uma entidade virtual consciente, que se juntará a Never para combater um demónio no ciberespaço.

Confesso que Nathan Never é personagem que não me despertou as simpatias, apesar de estar no campo da ficção científica, é o tipo de herói infalível de queixo bem modelado em aventuras com final feliz. Dylan Dog, com as suas incertezas e inseguranças, está-lhe no espectro oposto.

domingo, 12 de abril de 2026

URL


The Duplicated Man: Sonhos clássicos. 

Eight more science fiction and fantasy books to check out this February: Novas leituras de FC para iniciar o ano. Os focos estão principalmente nas alterações climáticas, vida digital e FC social. 

5222) Cinema e realismo (19.2.2026): Parte do encanto dos efeitos especiais é o seu irrealismo. A fidelidade completa ao real nas representações raramente é interessante. 

Books Being Made into Movies in 2026, selected by Five Books: Bem, destes livros adaptados ao cinema Wuthering Heights é quase um insulto intelectual (a sério, basta o trailer) e teme-se o pior pela visão Nolanista de Homero. Não poderá ser pior do que a versão Brad "Achilles" Pitt last action hero na antiguidade de Oliver Stone, espero, pelo menos. 

Como a Era de Ouro da Ficção Científica começou: Os primórdios da era que definiu a ficção científica enquanto força cultural. 

Hora do Bolo (2): Boas sonoridades. 

The Greek Mythology Family Tree, Explained: Isto não é bem uma árvore, é mais uma floresta. 

As muitas possibilidades de Death of the Author: Análise a um dos mais recentes romances de uma das vozes mais importantes da FC contemporânea. 

Coisas Ruins – João Zamith: O livro despertou-me alguma curiosidade, mas a leitura desta recensão esfriou um pouco a sensação. 


John Enright: Apocalipses. 

A Guide to Which AI to Use in the Agentic Era: Confesso que tenho um problema conceptual com os agentes de IA. Prometem trazer as capacidades da IA para uma enorme diversidade de tarefas, mas quando olho para elas, são essencialmente de gestão e administração. Algo que, felizmente, faz pouco sentido no meu dia a dia, dedicado como estou à educação, criatividade digital e literaturas. Mas aposto que para pessoas mais cinzentas, daquelas que passam os dias mergulhadas em relatórios e contas, estes aceleradores de capacidade são um verdadeiro maná. De todas estas ferramentas, uma faz imenso sentido para mim - a capacidade de encontrar pontes conceptuais entre diferentes fontes documentais que o Notebook LM tem. 

The Price of initiative just collapsed: Algumas notas interessantes a reter, aqui. Primeiro, a comparação com a leitura - de facto, haver livros não chega, há que garantir que as pessoas sabem ler para realmente essa tecnologia dar frutos. O mesmo se passa com a IA. Outra nota tem a ver com algo que também sinto - torna-se fácil experimentar projetos que não teríamos tempo ou capacidade técnica para os realizar. Finalmente, a obrigatória equidade, não faz sentido falar de IA na educação, há que mexer com ela, e é preciso que chegue a todos, e não se fique só por uma elite de utilizadores. 

Cómo crear canciones en Google Gemini utilizando su componente Lyria: Ó deuses, mesmo aquilo que se precisava, mais uma forma de criar música azeiteira para os boomers se divertirem. 

The Requirements of AI: É bom recordar que a IA nos traz valências e capacidades, mas não nos substitui. Permite-nos ir mais longe, focar em aspetos cognitivos mais complexos. Isto, claro, se for bem usada. 

Querida Europa: te mandamos una VPN gratuita para que veas el fútbol gratis. Atentamente, el Departamento de Estado de EEUU: Genial, esta, ou nem por isso. A iniciativa do governo americano de criar um acesso web a conteúdos que na Europa estão proibidos é insidiosa, obviamente, porque a ideia é dar livre curso ao racismo, misoginia, nazismo e discurso de ódio para ajudar a desestabilizar a UE. Por outro lado, aquilo é na prática uma VPN, o que significa que quem quer ver futebol sem pagar canais pode abusar à vontade, com o beneplácito dos fachos trumpistas. 

Microsoft has a new plan to prove what’s real and what’s AI online: Não por ser uma necessidade social premente, mas para cumprir com legislação. 

La última trampa mortal de Ucrania a los soldados rusos ha confirmado algo que intuíamos: la nueva “bomba atómica” es invisible: O spoofing de sinais starlink como forma de detetar e aniquiliar soldados russos. 

The U.S. and China Are Pursuing Different AI Futures: Uns enredam-se na especulão sobre a AGI, outros procuram sistemas que tragam benefícios palpáveis às indústrias. 

Microsoft se ha empeñado en acabar con la desigualdad en Latinoamérica: su plan pasa por utilizar la IA, por supuesto: Ah, agora os pobrezinhos dos latinos já poderão ser elevados da sua condição, graças à generosa Microsoft. Há um nome para isto: tecnocolonialismo. O que a Microsoft quer é garantir mercados e usar a educação como lock-in de utilizadores. 

The robots who predict the future: A necessidade humana de predição, e a sua automatização através das capacidades de análise massiva de dados trazidas pela IA. 

Humans and Machines, a Phase Transition… The Ice Is Deciding What to Become: O texto é um pouco opaco, mas tem uma lógica imbatível - temos de fazer escolhas, ou queremos um futuro livre e acessível, ou se nos deixarmos levar, acabamos servos de um tecnofeudalismo que nos cerceia as liberdades. 

Hold on to Your Hardware: Recordo, nos primeiros anos do século XXI, o abre-olhos que foi a leitura do ensaio seminal  The Coming War on General Computing de Cory Doctorow, onde detalhou as formas que as grandes empresas desenvolviam para manter os seus clientes em redis e tornar o computador numa espécie de eletrodoméstico simplificado, quebrando a cultura de uso livre dos sistemas. Coisas como restrições de instalação de software, DRM e lock-in. Hoje, graças à IA, talvez estejamos à beira do próximo passo lógico neste cercear da liberdade individual digital - modelos de computação onde tudo é um serviço de subscrição, inclusive o próprio computador, onde os utilizadores apenas podem fazer aquilo que os detentores dos serviços os autorizam. Já vivemos parcialmente nesse futuro - já repararam bem onde está a música que ouvem (serviços de streaming), os vossos dados (geralmente em armazenamento na cloud) ou a forma como interagimos socialmente através de aplicações (gaiolas douradas que nos enviesam e envenenam o discurso público)? O apetite voraz da indústria da IA por componentes está a gerar condições para um outro passo - a escassez de memória ram e discos acontece porque os fabricantes preferem vender em volume aos datacenters e abandonam o mercado de consumo para todos. Isso traz consequências ao nível do preço e capacidades do hardware vendido. Não é impressão vossa acharem que os computadores novos no mercado ou têm preços estratosféricos, ou são fraquitos e de baixa qualidade; projetos de baixo custo (pensem raspberry pi ou Arduino) começam a deixar de ser baratos (e com isso, vai-se a democratização tecnológica que permitem): "manufacturers are pivoting towards consumer hardware subscriptions, where you never own the hardware and in the most dystopian trajectory, consumers might not buy any hardware at all, with the exception of low-end thin-clients that are merely interfaces, and will rent compute through cloud platforms, losing digital sovereignty in exchange for convenience.

Los millennials usaban el término "TL;DR". La generación Z lo está sustituyendo por algo más radical: "AI;DR": Para quê ler, se a IA lê por nós? 

America is at risk of becoming an automotive backwater: A legislação que reverte as exigências ambientalistas nas emissões automóveis é um triunfo do boomerismo trompista, e um enorme tiro no pé, não só ambiental mas económico. Enquanto os maga se orgulham por tentar fazer regressar os carros que bebem gasolina à tripa forra e livrar-se de incómodos com o sistema start/stop, numa espécie de canto de cisne à indústria petrolífera, o resto do mundo compra alegremente carros elétricos chineses. Com preços em conta, níveis de inovação técnica extraordinários e uma fiabilidade crescente, mostram bem qual é o futuro da indústria automóvel, algo que não passa despercebido aos conglomerados industriais europeus e japoneses, que se andam a esforçar por recuperar tempo perdido face à avalanche de inovação chinesa. Os americanos, festejam os retrocessos de boné vermelho na cabeça, e em breve andarão a construir carros que ninguém quer comprar. 

The left is missing out on AI: Sem sombra de dúvida. E por cá até tivemos o espetáculo triste de ver intelectuais de esquerda a fazer manifestos que rejeitam ativamente a IA. Patetice pura, que revela incapacidade cognitiva de compreender esta tecnologia por parte de pessoas de quem se esperava maior nível intelectual. E tem ainda uma possibilidade bem pior. A forma como a IA nos está a ser imposta está a revelar-se um perigo existencial para os direitos laborais, diria até para o trabalho como o conhecemos. Não porque a tecnologia seja tão boa assim, mas porque as legiões de CEOs esfregam as mãos de contentes e salivam perante a perspectiva de se livrarem da massa fedorenta que são os trabalhadores e transferir ainda mais lucros para os bolsos dos bilionários. Isto, claro, a somar a outros custos sociais, ambientais e culturais. As ferramentas de IA prometem, e são capazes, de capacitar ainda mais os indivíduos, mas não é dessa forma que o capitalismo vê as coisas. Não querem pagar melhor a funcionários especialistas mais capazes e produtivos, mas sim pagar menos e precarizar mais, investindo em automatismos que não beneficiam ninguém (já tentaram interagir com as linhas telefónicas suportadas por IA para apoio a clientes das empresas ultimamente, e se o fizeram, sentiram-se realmente apoiados?), prejudicando os bens e serviços em toda a linha, mas implementados porque quem o faz, sente a impunidade dos quasi-monopólios tecnológicos e a enorme dificuldade de haver quem faça concorrência real com melhores produtos - sim, a mão invisível do mercado anda tolhida e aquela ideia que o mercado livre melhora tudo deixou de funcionar quando o "mercado" se resume a um punhado de megaempresas que asfixiam concorrentes, fazem lock-in aos clientes e o único interesse que têm é aumentar os lucros e diminuir os custos a qualquer custo. Se a esquerda de fechar numa bolha de nostalgia pré-tecnológica, será incapaz de reagir a estas forças, perde-se a voz que contraria o discurso dos techbros. Caros esquerdalhos (termo que assumo como elogio), não chega perorar de dedo em riste a partir do conforto do gabinete cheio de livros. É preciso estar nas redes, falar e agir com a propriedade de quem conhece e usa estas tecnologias. Nas mãos certas, são fantásticas. E é por isso que não podemos deixar o capitalismo apropriar-se delas, como o está a fazer. 

QUOD is a Quake-Like in only 64kB: Isto é provavelmente das mais insanas demonstrações de capacidade de programação criativa que vi ultimamente. 

The human work behind humanoid robots is being hidden: Desde o treino humano de gestos e movimentos às opções de teleoperação de robots com vários graus de autonomia. 

Notepad prepara suporte para imagens: Confesso que estou indeciso entre perceber se isto faz jeito, ou não. 

The Age-Verification Trap: Um dos pontos comuns às múltiplas propostas de restrição de acesso a redes sociais por menores é o uso de sistemas de verificação de idade, que são pouco fiáveis e fortemente invasivos da privacidade. 

Cruce de cables: la tecnología antigua fiable pero predecible, frente a la moderna de resultados inesperados: De facto, quem nunca, perante as múltiplas opções que nos fazem perder tempo a escolher e personalizar, sentiu uma certa saudade por ter tecnologias menos inteligentes, mas que faziam exatamente o que se esperava delas? 

AI Is Destroying Grocery Supply Chains: A interferência dos ataques cibernéticos potenciados por IA nas cadeias de distribuição alimentar. 

Pete Hegseth Gives Anthropic Choice to Abandon AI Safeguards or Be Labeled ‘National Security Threat’: Portanto, no resvalar americano para a ditadura, já estamos a chegar ao ponto onde responsáveis políticos ameaçam empresas por estas não fazerem o que eles querem?

Pope Implores Priests to Stop Writing Sermons Using ChatGPT: Há um certo aqulinismo nisto, suspeito que aqueles curas que tão bem satirizava nas suas ficções, que viviam bem no remanso das suas aldeias, bem nutridos e servidos pelas senhoras que lhes eram dedicadas e muito cuidadores das legiões de sobrinhos e sobrinhas que geravam, seriam muito adeptos desta forma de pregar sermões, se tal maravilha existisse na altura.

We’re putting more stuff into space than ever. Here’s what’s up there.: A órbita terreste está a ficar muito atravancada. Este infográfico mostra o que andamos a deixar lá por cima.

Meta's AI Patent to Simulate Dead People Shows the Dangers of 'Spectral Labor': Não consigo ver positivos nisto. O clonar via IA para simular entes falecidos é, em si, um tremendo dano psicológico que contraria a lógica do luto. E há os aspetos de abuso de imagem e memória, que em entidades que acima de tudo querem o lucro, tem um largo espectro de possíveis abusos.


Sweden: Sensualidades passadas. 

Europe Has Received the Message: Sem sombra de dúvida. O soft power não chega, o investimento militar tem de ser sério e é necessário, sem descurar as outras áreas de integração europeia que tornam esta união essencial para os europeus. Medidas como o privilegiar da aquisição de meios próprios europeus têm toda a lógica - para quê enterrar o dinheiro europeu nas contas das indústrias americanas, e é também uma forma de reforçar a base industrial europeia. O ponto essencial nisto é a união. Não é por acaso que Trump e os seus sequazes gostam tanto de apoiar a extrema direita europeia, veem neles uma potencial brecha que enfraquece a UE. Mas nós, europeus, estamos bem cientes da fragilidade que temos enquanto estados-nação isolados. 

Why Nudge Policies Failed: Por uma razão muito lógica, que este artigo também toca - as pessoas não são parvas, e percebem a ironia de culpar os indivíduos quando as organizações não seguem os mesmos padrões. O corolário desta desconexão está nos bilionários que se passeiam planeta fora em poluentes jatos privados, enquanto os comuns mortais se sentem culpados por ir de férias num voo comercial, mas há muitos outros exemplos em que nos tentam convencer que o nosso comportamento individual é a causa da poluição e degradação ambiental, enquanto indústrias inteiras não movem uma palha para minorar o seu impacto. 

Did Pratt & Whitney accidentally revealed the U.S. Air Force's Boeing F-47 fighter future design?: A sério que acham que este tipo de revelações é acidental? 

Portugal approves €24 Million sale of four Tejo-class patrol vessels to Dominican Republic: Esperemos que sejam entregues em melhor estado do que o navio desta classe que estava de tal forma avariado no Funchal que os marinheiros se recusaram a embarcar, incorrendo na ira do almirante aspirante a américo tomás da wish. 

More in Sadness than in Anger: Charles Stross a capturar um certo espírito dos tempos - a sensação que a clique de bilionários e plutocratas está ativamente a desenvolver sistemas que nos tornem redundantes: " 

Pensábamos que los Lamborghini y Rolls-Royce se robaban en la calle: ahora muchos desaparecen antes de llegar a destino: Longe de mim compadecer-me com a triste agrura dos bilionários que se vêm privados dos brinquedos de luxo que adquiriram graças ao suor espremido aos seus trabalhadores, mas destaco o artigo pela inteligência e sofisticação deste tipo de roubo. Digamos que o assalto à antiga, hoje, é só para os ladrões menos inteligentes. 

sábado, 11 de abril de 2026

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Faltar Parafuso

 

Que o grande mestre Vilhena me perdoe. Não resisti, por causa da capa, a trazer esta peça bibliográfica para a minha coleção de robots (vá, é aquele humor picaresco do Vilhena, mas muito, muito suave) e... porque não brincar com umas trends de geração de imagem, transformando desenhos bizarros em imagens realistas? 


O Gemini foi muito fiel ao espírito original da imagem.


O ChatGPT explodiu de glamour. Tudo muito retro, como se esperaria de remisturas via IA do estilo gráfico do humor popular dos anos 60.

Suspeito que se tentasse isto com o "Criada para todo o çerviço" (o erro ortográfico não é distração)  ou outros títulos da sua lendária, provocadora e prolífica obra, acabaria com as contas suspensas, que o mundo digital mainstream não está cá para atrevimentos.

Ando a ver demasiados grupos de cursed ai, daí estas ideias manhosas, mas se me permitirem a marotice, quer o gemini quer o gpt tratam muito bem a voluptuosidade das mulheres pelo traço de Vilhena. 

Se não sabem quem foi Vilhena e sua a importância pop-cultural, a vossa vida é menos feliz por isso.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma


Irene Lisboa (1984). Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma. Porto: Livraria Figueirinhas.

Há textos que se leem para seguir o rumo de uma narrativa. Outros, apenas pelo puro prazer de saborear as palavras. Neste clássico da literatura infanto-juvenil portuguesa, encontramos ambas as vertentes. São histórias curtas, algumas com princípio, meio e fim e até uma moral; outras parecem rascunhos, quase poemas em prosa. Algumas seguem a sua lógica interior, outras são palavras vagas que se cruza na página, conjurando imagens na mente do leitor. Entre o onírico e o fantástico, mas também o tradicional e a poesia pura.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Iconografias


 Uma das muitas imagens apaixonantes que a missão Artemis nos legou.


No mesmo dia, o bilionário senil legou-nos esta imagem de coelhinhos e conversas sobre destruição de nações, e quem viu isto ficou seriamente a pensar que teria tomado alucinogénicos. A realidade não anda a fazer muito sentido, nestes dias.


terça-feira, 7 de abril de 2026

O Abismo Negro


Alan Foster (1979). O Abismo Negro. Lisboa: Europa-América.

Um mergulho numa história clássica da FC cinematográfica dos anos 80, talvez o filme menos positivo que a Disney realizou. Foster, como bom escritor tarefeiro, dá corpo literário à história, sublinhando as dinâmicas dos personagens e a inventividade do robot que é o verdadeiro herói da história.

Ao aproximar-se o final de uma missão de exploração interplanetária, os tripulantes de uma nave científica deparam-se com dois mistérios - um poderoso buraco negro, e a nave que o orbita. Nave essa que se revelará ser humana, que se julgava perdida. No seu interior, mais segredos, e um cientista megalómano que não hesita em sacrificar tudo e todos em prol das suas ideias. Para lá do horizonte do buraco negro, poderá estar um outro universo, e os personagens desta história com final infeliz irão mergulhar nas suas profundezas.

domingo, 5 de abril de 2026

URL

The Unteleported Man: Há aqui algo de Dr. Manhattan. 

Garth Ennis Turns To Prose With "Words Only", Reviving Jamie McKenzie: Ennis a escrever sobre o seu tema favorito, a II guerra, é sempre interessante. 

Babylon 5 Is now free to watch on YouTube: Oh my, isto vai ser um bem vindo regresso a uma série icónica. 

Arthuriana Televisiva: Um dos problemas da cultura pop é envelhecer mal. O que na primeira visão parece excelente, torna-se cheio de pequenos (ou grandes) defeitos aquando das revisitas. 

Vintage Robots: Revisiting the early robots of the 20th Century via old fotos: Robots que não sendo icónicos, foram construídos para mostrar as capacidades dos seus criadores, como experiência pessoal, ou demonstração publicitária. 


Sunset over Plato Crater: Paisagens lunares. 

Pedir o cartão à porta das redes sociais não vai acabar com o que nos preocupa: Confesso que sou defensor de restrições ao corrente modelo de redes sociais. Já percebemos o quão elevados são os custos sociais, culturais e individuais da rédea livre dada à algoritmização das redes, com o aliar do privilegiar dos discursos mais danosos aos sistemas que provocam adição nos utilizadores com o único objetivo de maximizar o rendimento das empresas. A proposta do PSD aprovada no parlamento é uma das piores maneiras de lidar com este assunto, fortemente reveladora do desconhecimento dos deputados de como funciona o mundo digital (mesmo para os níveis intelectuais de um psd). Esta proposta de restrição tout court é errada e mal pensada. Há imenso a apontar. A proposta de integração com a CMD é, no mínimo, questionável em termos de privacidade, e queremos mesmo as Metas e Bytedance deste mundo a ter acesso a este sistema? A forma como definem rede social está tão mal feita que praticamente qualquer site cai dentro dessa definição. As propostas de coimas sobre incumprimentos são irrealistas, correndo-se o risco de prejudicar redes sociais independentes que se afastaram do danoso modelo comercial. Que redes independentes, perguntam-se? Sabem, caros habitantes do continuum facebook/instagram/tiktok/whatsapp (se estiverem no X não merecem qualquer respeito, isso é uma lixeira para fachos e pedófilos), existem iniciativas independentes que constroem redes sociais abertas e sem algoritmos, coletivamente conhecidas como fediverso. Por cá, temos algumas instâncias portuguesas que se têm mostrado espaços de discussão aberta e refúgio da algoritmização, que ao cair dentro das definições da futura lei não terão forma de implementar sistemas ou fazer frente a eventuais coimas, dado que são mantidas por indivíduos ou pequenas organizações sem fins lucrativos. Mas talvez o maior erro desta legislação é ignorar a importância social das redes sociais, que são espaços a que as crianças e jovens têm o direito de aceder em segurança como parte do tecido da vida digital. Nalguns casos, como no caso das comunidades LGBT, neurodivergentes ou interesses culturais específicos, são mesmo uma linha de vida para um tipo de socialização positiva entre pares que muitas não é possível nos espaços físicos. Proibir é idiota, e revelador de ignorância face ao digital. Proteger os públicos mais frágeis (nos dias que correm, praticamente todos) e regular para cercear um modelo de negócio que beneficia um punhado de bilionários sociopatas em detrimento de toda a sociedade é a resposta correta. Há passos institucionais nesse sentido, e como cidadãos, devemos exigir a sua intensificação, porque o corrente estado das coisas é insustentável. 

5 coisas que importa saber acerca da nova proposta sobre crianças e redes sociais: Uma análise de tudo o que está errado com a proposta pateta de proibição de acesso às redes sociais por menores de 16 anos. 

Leituras da Semana (#103 // 16 Fev 2026): Certeiro (como é habitual). Há muito a desmontar na corrente proposta de restrição de acesso a redes sociais por menores de 16 anos, e a sua mediocridade é o ponto principal. Mas ramifica-se no gosto português pela falta de liberdade (o tão corrosivo não deve, não teme, como se não querer que outros tenham a ver com a nossa vida privada seja algo de errado), e pelo que realmente se está a passar: uma necessidade social de travar os desmandos do modelo económico das redes sociais, que se traduz em tímidos esforços políticos descoordenados que não se atrevem a tocar no problema central. 

Will Life on Mars Require a Genetic Rewrite?: Não sei se leram o Man Plus de Frederick Pohl? Referências FC à parte, viver noutros planetas vai implicar alterações ao que é ser-se humano. 

Muy en silencio y con infraestructura propia, una empresa de IA europea ya come en la mesa de las grandes: Mistral: Tenho acompanhado o crescimento desta empresa, que desenvolve o melhor LLM europeu e se posiciona como alternativa de peso à OpenAI e Google. 

Creeps Are Using Grok to Unblur Children’s Faces in the Epstein Files: Francamente, nesta altura quem se assume utilizador do X só pode ser daquelas pessoas que se gratifica com perversões de mau gosto (e estou a ser simpático ao descrever isto desta forma). 

The myth of the high-tech heist: O que funciona nos filmes, não funciona na realidade. 

The ridiculously tiny Kodak Charmera captured our hearts (and lots of shoddy pictures): O mercado da nostalgia, ou a Kodak a reafirmar-se com um gadget de baixa qualidade mas atraente para as redes sociais. 

En 1968 a un hombre se le ocurrió crear la primera tablet de la historia. El problema es que se adelantó décadas a su tempo: É um pouco redutor adjetivar o Dynabook como um proto-tablet. A ideia original de Alan Kay está na génese da computação móvel e do acesso à informação em qualquer local. 

MyMiniFactory has Acquired Thingiverse Bringing Anti-AI Focus: Esta é algo inesperada, e vamos ver no que se tornará a identidade do Thingiverse com esta incorporação. 

How Do You Define an AI Companion?: A procura por companhias virtuais. 

Free Tool Says it Can Bypass Discord's Age Verification Check With a 3D Model: Para surpresa de ninguém. Em parte, porque as empresas não vão ser muito proativas no desenvolvimento de sistemas de verificação de idade de acesso, e essencialmente, perante uma restrição, esperavam o quê? Que os adolescentes iam acatar? 

Meta Wants to Scan Every Face You Walk Past: Duas notas - a intrusividade desta óbvia invasão de privacidade e agregação de dados; e a forma como planeavam torná-la pública, esperando por momentos de instabilidade política para aproveitar a distração dos movimentos de direitos civis. Se querem lançar um produto que escape ao radar dos ativistas pelos direitos legais mais elementares, é porque sabem bem o quão mau é para todos. 

AI Agents Are Taking America by Storm: Agentes de IA, o passo que promete tornar esta tecnologia realmente útil. 


The Red Double-Cross: Frémitos Aeronáuticos. 

Why Europe Is Talking About Nukes: Isto não é tranquilizador, mas infelizmente necessário. O investimento europeu em defesa tem de ser levado a sério. Como europeus, lidamos com os fantasmas dos militarismos do passado, mas no mundo de hoje, não podemos ter a ingenuidade de assumir que apenas o softpower nos protegerá. 

Países Bajos acaba de activar el pánico en España y los aliados de EEUU: el F-35 se puede "liberar" como un iPhone: O que é uma boa notícia, apesar dos arrepios que possa provocar. Um dos problemas do F-35 (para lá dos custos estratoesféricos da aeronave e da sua operação) é o estar totalmente dependente de sistemas de manutenção e software controlados pela Lockheed e governo americano. E este segundo parceiro tem-se revelado, como colocar a questão, muito pouco fiável nos tempos que correm. 

Italy’s GCAP fighter program investment now costs more than its F-35 fleet after €8.8B approval: Números que enganam. Porque o custo de comprar aeronaves é dinheiro perdido, entregue como lucro a empresas americanas. O dinheiro colocado num programa de desenvolvimento tecnológico é investimento, que garante inovação, independência tecnológica e um produto para venda futura. É este o caminho que os europeus têm de seguir, evitando as disputas mesquinhas que conduziram ao colapso do FCAS. 

Esa cicatriz que "raja" la península es el rastro de las borrascas sobre España. La brutal imagen de la ESA desde el Espacio: Recordar as até agora impensáveis cheias que sofremos, através de imagens de satélite. 

2025 letter: A inovação e desenvolvimento, social, económico e industrial, vista de várias perspectivas, com uma análise realista ao modelo chinês e à incapacidade europeia de ir além das declarações de intenções. 

U.S. and Dutch Pilots Allegedly Flying Ukrainian F-16s in Combat, Sources Say: Não surpreende muito, embora não haja confirmações oficiais, mas faz sentido que pilotos experientes desta aeronave sejam desafiados a contratos como mercenários, ou voluntários estrangeiros. 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

I Am AI

Ai Jiang (2023). I Am AI.  Shortwave media.

Nas discussões especulativas (e não só), quando se fala sobre os perigos da IA, há um que é por demais evidente - a apropriação desta tecnologia por parte do capitalismo selvagem, que a usa para extrair o máximo de valor com um mínimo de qualidade, aproveitando para automatizar o mais possível processos laborais, não em nome da qualidade mas sim para se livrarem do ónus dos trabalhadores. A IA é uma tecnologia fascinante, com o potencial de amplificar as capacidade das pessoas, mas nesta ótica, torna-se numa ferramenta de opressão e empobrecimento social e cultural.

Estas reflexões espelham a leitura deste brilhante e tocante I am AI. Uma história de futuro próximo, onde a vida económica é dominada por uma megacorporação que descarta pessoas conforme as usa. Há a sociedade da distante e próspera cidade, e o enorme enxame dos bairros de lata, daqueles que caíram do sistema, embora a fuga total não seja possível, uma vez que todos estão carregados com dívidas hereditárias que têm de trabalhar para pagar.

No meio desta precariedade, acompanhamos uma cyborg, que vai substituindo partes do corpo por elementos cibernéticos. Sobrevive no limiar de ser mecanizada, e com isso ter uma capacidade produtiva superior à humana, mas ainda manter uma humanidade suficiente para que o seu output mantenha cunho individual e se afaste da mediania das produções das IAs que dominam os mercados. Uma história curta e tocante, sobre a essência da imaginação humana, o sonho das capacidades aumentadas, e a distopia de mundos subjugados aos interesses económicos.

terça-feira, 31 de março de 2026

Diário de um Robot


João Ribeiro (2025). Diário de um Robot. Porto: Trinta por uma Linha.

É fim de semana. Os robots, placas e computador ficaram em casa. Estou pelas Caldas, a relaxar, passear e aproveitar este bem vindo  sol. Entretanto vou às compras e deparo com este livro. A sério, começo a sentir-me muito perseguido. Desde que comecei a entrar no mundo da robótica educativa que ando com uma sensação estranha de estar sempre a encontrar robots ou referências inusitadas à robótica nos locais onde menos espero. Da última vez foi na livraria Castro e Silva, com uma divertidíssima capa de revista do mestre Vilhena, que como se esperaria, é em iguais medidas sensual e jocosa, só que esta mete robots. Desta vez, foi num supermercado caldense, e claro que o livro veio comigo. Não só pelo tema, mas por ser também essa coisa rara por cá, que é um livro de ficção científica para jovens leitores.

A história é simples, acompanhamos um robot preceptor que tem como missão educar uma rapariga de oito anos que se deverá tornar a futura rainha de um império galáctico. Explorando as aprendizagens na estação espacial que os acolhe, o robot irá guiar a rapariga através das incessantes questões e experiências, e, no processo, perceber que ele próprio se está a modificar, a ganhar uma consciência além da sua programação, bem como algo de estranho que qualquer humano depressa identifica como carinho pela criança que tem a seu cargo. O que leva a história a terminar por caminhos aventurosos - uma jovem que quer fugir ao destino de vida que lhe foi programado e quer explorar o universo, unida a um robot que transcendeu a sua programação graças à proximidade com o humano. 

Um livro simples, mas a mostrar-se da boa ficção científica - bem articulado, a deixar antever horizontes, e a fazer-nos refletir nos papeis da humanidade e tecnologia.  

domingo, 29 de março de 2026

URL

2010: Odyssey Two - art by Michael Whelan (1982): Mas não tão bom quanto o clássico 2001.

En Tokio hay una librería con solo un libro en el catálogo. Lleva diez años abierta y funciona: Os japoneses são estranhos. Eu sei, faz parte do seu encanto, mas por vezes, são mesmo estranhos. 

16 new SF/F books to check out this February: Destas novidades literárias, noto a quase ausência de Ficção Científica, anda praticamente tudo às voltas com a fantasia. 

La imagen que resume una era: millones de libros en un almacén esperando a ser destruidos tras entrenar a una IA: Isto provoca arrepios em quem ama a leitura. Podemos discutir a ética dos métodos que as empresas de IA usam para agregar dados para treino e afinação dos modelos. No entanto, destruir fisicamente livros, soa demasiado a desprezo, mesmo para os padrões dos techbros. 

Farewell To The Mass-Market Paperback Book: Como alguém que leu muitos destes tipos de livros, por serem acessíveis e baratos, não posso deixar de lamentar a sua aparente extinção. Por outro lado, não é bem uma extinção, diria que o nicho é ocupado pela leitura em ebooks. 

Yorkshire Takes A Weary Breath, Prepares For Another Onslaught Of Wuthering Heights Fans: Não sei se já viram o trailer da coisa? Infelizmente, já levei com ele, e é das coisas mais absolutamente farsolas que vi nos últimos tempos (o que, dado o estado lastimável da cultura de massas, é dizer muito). 

The World's Oldest Books, recommended by Tuva Kahrs: A literatura que nos chegou através dos milénios, vozes de outros tempos, o registo escrito dos distantes antepassados. 


Why I Went Nudist: Nos dias de hoje, estas capas que já foram chocantes parecem-nos tão, tão inocentes.

Benjamin Bratton on Planetary Computation’s Next Phase: Reavaliar o peso excessivo das grandes empresas do digital e a forma como estão a remodelar o mundo numa distopia neoliberal. 

How Industrial Robot Safety Was Written in Blood: O artigo tem um tom humorístico, recordando que por muitas regras e cuidados que sejam implementados há sempre quem se distraia ou as ignore, com consequências sangrentas e fatais. Mas no seu cerne, está o sentimento de desilusão ao perceber que se a tecnologia evoluiu, a atitude perante os trabalhadores não, e a ideia de segurança é embutida nos projetos depois de haver consequências trágicas, e não como parte do desenvolvimento da tecnologia. 

The Chatbots Appear to Be Organizing: Pelo título, tive um raio de esperança - os chatbots descobriram o materialismo dialético e decidiram sindicalizar-se para criar a utopia comunista? Bem, nem por isso, o artigo é mais um deslumbre com a óbvia manobra de marketing da empresa de assistentes de IA. 

Smart Homes Are Terrible: Demasiadas vezes, a digitalização e a adoção de sistemas "inteligentes" adiciona camadas de complexidade ao que é simples. E, como bem observa o artigo, pode ser muito giro ter um sistema de luzes com n formas de controlar a iluminação, mas á noite, quando acordamos com uma necessidade premente de ir à casa de banho, tudo o queremos é acender uma luz e não recordar a sequência certa de botões que permite acender a luz. 

Low-Vision Programmers Can Now Design 3D Models Independently: Uma forma muito interessante de usar IA, combinando o poder dos chatbots com as capacidades generativas do OpenSCAD. 

EU says TikTok uses 'addictive design' and must change: Um sinal positivo no campo da regulação das plataformas e redes sociais. 

Sixteen Claude AI agents working together created a new C compiler: Sinceramente, não foi bem assim que li a notícia. O que pensei foi que estes agentes conseguiram replicar um tipo de trabalho originalmente desenvolvido (e documentado) por engenheiros humanos. Não é a capacidade tecnológica que está em causa, mas sim a hipérbole de marketing. 

Moltbook was peak AI theater: De facto, todo o discurso hiperbólico às voltas com a pretensa rede social dos bots parece-se demasiado com marketing, e mais um escape para as ideias especulativas sem fundamento de uma suposta consciência artificial que têm torneado as discussões em volta da IA. 

Professor Says Her Garbled AI Textbook Was a Huge Success: O que torna este caso mais grave, no meu ponto de vista, é perceber que a professora em causa defende a qualidade dos resultados por ter usado as suas próprias notas e apontamentos. Isto não abona muito em relação à qualidade dela enquanto docente. 

Microsoft’s AI Efforts Are Faceplanting: No seu afã de nos meter IA pela goela dentro, a Microsoft esquece-se do essencial - o que queremos é usar o computador, não ter de levar com inúmeras opções que nos empatam e aplicações que enchem a memória. Mas já nem isso fazem bem, com a mania de nos obrigar a fazer lock-in nos seus serviços. 

Two months since the social media ban began and teens say it isn't working: Então, qual a verdadeira eficácia das proibições de acesso a redes sociais por menores? Bem, sem grande surpresa, não muito elevada. Como não é do interesse das empresas perder estes utilizadores, são laxistas no cumprimento dos requisitos e os seus sistemas de verificação de idade são notoriamente fáceis de contornar. Junte-se a isso o espírito empreendedor de adolescentes contrariados. Para complicar a questão, há motivos legítimos para que crianças e adolescentes usem redes sociais. O cerne do problema está na forma como as empresas detentoras de redes sociais deitaram foram qualquer indício de decência e fazem uso de todos os meios para viciar os seus utilizadores, em detrimento da sua saúde mental, encerrando-os em bolhas de informação cada vez mais acintosas e isoladas. Tudo para otimizar os ganhos com publicidade, e a ter efeitos muito detrimentais sobre a sociedade, a cultura e os indivíduos. As redes sociais per se não são o problema. É a forma como são geridas que provoca todos estes danos. 

Moltbook: uma “rede social só para IA” ou uma alucinação colectiva?: Por esta altura, já todos percebemos que esta suposta agregação social de bots "inteligentes" é pouco mais do que uma muito básica manobra de marketing, que se alimenta dos mitos da IA. 

The Last ‘Person’ You Want Handling Your Surgery Is a Hallucinating Robot: Podemos discutir se um pequeno número de casos problemáticos é, realmente, um problema, mas estamos a falar de aplicações médicas, onde se exige níveis de fiabilidade próximos dos 100%. 

Super Dimension Fortress Macross Concept Art by Shoji Kawamori: Nada como a FC japonesa dos anos 80.

Measles Is Causing Brain Swelling in Children: Epidemias de sarampo num país do primeiro mundo? Isto é o preço dos "factos alternativos", do "o natural é que é bom, os químicos só fazem mal", ou "o guru sintonizado no seu espiritualismo sabe mais do que os frios e ignorantes cientistas", conjugado com a atração pelo totalitarismo, valores de conservadorismo bafiento, e aquele impulso para se ser a pior pessoa possível e safar-se com isso que é o que realmente está por detrás de todos os que vituperam ódio e reclamam liberdade de expressão. 

If Bitcoin Keeps Tanking, It Could Cause a “Death Spiral” for the Entire Economy: Será mais uma oscilação das cripto, ou terá chegado o momento bolha de tulipa das moedas digitais? 

Let Your Kids Fail: É uma lição importante a aprender. Há que falhar. Há que cair, magoar-se, errar, perder o norte, terminar em desastre. Aprende-se a lidar com o erro, a perceber as fragilidades, e ganha-se experiência e resistência. E é melhor que aconteça durante os anos de escolaridade, no ambiente protegido das escolas. Porque se as crianças forem continuamente acomodadas para evitar o falhanço e o insucesso, com o argumento de evitar traumas e más sensações, quando saírem da escola e entrarem no mundo real, a vida encarrega-se de lhes ensinar as lições que não aprenderam na altura certa. 

Madrid y Barcelona han construido toda una vida social y empresarial con el AVE. Están descubriendo qué pasa cuando fala: Resumindo - é preciso incluir a manutenção nos projetos de interligação. Claro, escrevo isto num país onde o único comboio de alta velocidade demora mais tempo de Lisboa ao Porto do que um automóvel, e vivo ao lado de uma linha que está paralisada há décadas. 

The Fall of the House of Assad: Um olhar para a queda de um ditador particularmente ineficaz e patético, o que não o impediu de deixar um legado de sangue e violência. 

Miles de personas se cambian de ropa nada más del trabajo. La neurociencia tiene algo que decir: llevan razón: A lógica psicológica de trocar de roupa depois de um dia de trabalho. 

Does America Really Want to Pick a Fight With Greenland?: Os Gronelandeses são ossos duros de roer. Consequências de viver num território inóspito. 

Maybe We’ve Been Getting Bosch All Wrong: Uma celebração da vida, e não das recompensas ou castigos da mitologia cristã. 

Los nazis produjeron 1.200 películas. 44 de ellas siguen prohibidas y custodiadas por el Gobierno alemán a día de hoy: Quão maus, ou violentos, e essencialmente repelentes (em termos ideológicos) terão de ser estes filmes para continuarem a ser proibidos?

Nova categoria do GOTY by Inércia - Melhor Demo: Uma iniciativa interessante, que cruza retrocomputação com artes digitais.

Francia y Alemania han acordado darle a España la peor noticia: una en la que el F-35 y su “botón” son los ganadores: Não chega alardear retórica de investimento na soberania tecnológica militar europeia. É preciso saber ultrapassar barreiras e criar parcerias estáveis. Com lutas de quintalinhos, não se vai lá.

Bafflement with Bezos: Suspeito que é algo que já deve ter passado pela cabeça de quem tenha seguido a carreira de alguns bilionários. Como é que passaram de pessoas que queriam construir melhores futuros ao corrente estado de sociopatas gananciosos? Por incrível que possa parecer, Musk já foi uma referência de otimismo e progresso, Brin e Page praticaram o Don't Be Evil, e até Bezos era uma figura de respeito. Agora, são o que são, referências de repelência. A explicação? Dinheiro a mais: "But as all the nerdy dreamers bulked up into heedless plutocrats, it was like watching a chart of the Descent of Man—their muscles bulged to comic-book proportions, their aspirations coarsened, they hid out in their luxury, Blue Zone caves. I think most of them had set out with a genuine belief that tech could make the world a better place, but they wound up instead wanting just to better their OWN place".

quinta-feira, 26 de março de 2026

Em demanda do Grão-Cataio


Beckert D'Assumpção (1973). Em demanda do Grão-Cataio. Lisboa: ENP.

Uma versão romanceada para jovens da história, admirável, do jesuíta português Bento de Góis. Nome que à primeira audição pode não ser sonante, mas foi um notável explorador, que no século XVII ligou a Índia à China por rotas terrestres, atravessando a Ásia central. Um périplo de aventura e descoberta, entre os povos e nações que medeavam Goa e a China. Disfarçando o seu papel de missionário como mercador persa, integra-se nas caravanas que atravassam o norte da Índia, Afeganistão, e chegam aos entrepostos comerciais chineses depois de circundar o temível Taklamakan. 

Esta versão está pensada para um público jovem, sublinhando o lado de epopeia aventurosa com perigosas peripécias, e está escrita num tom de uma certa exaltação nacionalista, típico da literatura educativa oficial dos tempos do estado novo.