quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Sandokan: O Pirata da Malásia


Emilio Salgari (2011). Sandokan: O Pirata da Malásia. Lisboa: Babel.

Sandokan é um nome mítico da minha infância, embora já tenha nascido demasiado tarde para ser um espetador da série clássica que encantou a geração que me precedeu. Mas mais do que uma série televisiva clássica, foi uma série de livros de aventura saídos do imaginário de Emilio Salgari. 

As aventuras do Tigre da Malásia e seus irredutíveis piratas de Mompracem é um típico produto de literatura empolgante de outras eras, onde os exotismos da Ásia distante e o lado selvagem das ilhas indonésias cativavam o imaginário. As histórias de aventura, de piratas que eram nobres nos seus combates contra forças da ordem e lei que na verdade eram corruptas, o fascínio desse caldeirão de povos, civilizações, imperialismos e promessa de aventura que era o extremo oriente no século XIX. 

Nesta aventura, Sandokan irá enfrentar um dos seus piores inimigos, o rajá inglês do Sarawak, caçador e exterminador confesso dos piratas malaios. Enfrenta-o, não por vingança ou ódio, mas para ajudar um casal apaixonado. A história tem todos os ingredientes: fuga aos Thugs indianos, ataques navais e abordagens em alto mar, conspirações locais, aparentes derrotas dos heróis e um triunfo final que recompensará os heroísmos. Um excelente exemplo da ficção de aventuras clássica, escrita para estimular as sensibilidades dos jovens do passado.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

A Sombra do Campanário


Robert Bloch, Ray Bardbury (1969). A Sombra do Campanário. Lisboa: Editoria Panorama.

Dois grandes mestres do conto clássico de FC e Fantástico, a mostrar bem aquilo de que eram capazes. O tema é o terror, e as suas abordagens são diametralmente diferentes. Robert Bloch veste a camisola da sua admiração por Lovecraft, com contos diretamente inspirados nos Mythos,mas também dá toques no estilo clássico, algo vitoriano, do mito aterrorizador ambiental. Já Bradbury demonstra o porquê de se ter tornado figura maior da literatura, além do género. Os seus contos são pérolas narrativas, simples nos temas e linguagem, mas complexos na forma como conduzem o leitor e o surpreendem, sempre. Bradbury tem um lado traquina na sua ficção de terror, não escolhe o grand guignol e o barroquismo, antes, é igual a si próprio - histórias comedidas onde o sobrenatural toca na banalidade do dia a dia.

domingo, 25 de fevereiro de 2024

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No More Barriers: Tanta tecnologia futurista e bastaram umas setas.

A Passagem Impossível: Um livro que está na lista de leituras, representativo do legado de um dos grandes mestres da BD portuguesa.

The Toys We Always Wanted But Never Could Have: O meu brinquedo sonhado mas nunca conseguido da minha infância? O modelo do Space Shuttle da Playmobil (espera, agora és adulto, tens algum dinheiro extra, existe a amazon e o ebay... se calhar cumpro um dos sonhos do meu eu de nove anos).

Historical Fiction, recommended by Historians on Five Books: Normalmente, o Five Books fica-se por cinco livros, mas nesta lista arriscou e foi muito mais extensivo.

Melhores Leituras de 2023 – Banda Desenhada: Os melhores livros de BD do ano de 2023, de acordo com as leituras da Cristina. Temos bastantes títulos em comum, diria. E, também, fui avassalado pelo mais latecomer dos livros de BD portuguesa do ano passado, o genial Neon de Rita Alfaiate.

The Best Books by Arthur C. Clarke, recommended by Paul March-Russell: Clarke representa aquele marco clássico da FC, entre a esperança em futuros racionais e a fé na ciência.

Sete Andares (1937): Olhar para um conto curto de Buzzati.

Regresso ao Cinepop: Desta temporada, destaco o Sleeper de Woody Allen, uma comédia clássica com recortes de ficção científica. Que, pergunto-me, dada a evolução de Allen e o mundo contemporâneo, se terá aguentado o teste do tempo.

The Ten Most Influential Science Fiction & Fantasy Anthologies/Anthology Series: Estas listas são sempre relativas, mas, tendo colocado de fora a Mirrorshades, que despoletou o cyberpunk, fico um pouco desapontado.


Uncredited 1970 cover art
: Toque de Borges.

Instagram e Messenger impedem mensagens de estranhos a menores: Demorou anos e artigos condenatórios, mas finalmente implementaram algo que, obviamente, desde sempre deveria ter feito parte das redes sociais.

Meta’s Anti-Nudity Algorithms Go After AI Artists: O prurido puritano da meta com qualquer visão de pele considerada excessiva sempre pareceu um pouco ridículo. Claro, faz sentido bloquear pornografia, mas demasiadas vezes o que é bloqueado não tem nada a ver com isso. E é particularmente patético dado que noutras áreas, como a proteção dos utilizadores menores, a Meta nunca demonstrou similar zelo.

Google’s Hugging Face deal puts ‘supercomputer’ power behind open-source AI: Uma curiosa aliança, entre o poder computacional da Google e os modelos abertos da HF. Suspeito que a Google sairá a ganhar, com a experiência trazida pela comunidade open source.

NASA's Mars Helicopter Has Died: A pequena aeronave que superou todas as expectativas.

Railroad workers have solved the trolley problem. “‘Slip the switch’ by flipping: Esta solução em modo de piada para o problema do elétrico mostra bem o potencial de olhar para uma dada situação sob outros pontos de vista. O que parece eticamente insolúvel, é trivial para quem opera carris.

The Mac turns 40 — and keeps on moving: Comemorar os quarenta anos do macintosh.

The Life of a Data Byte: Uma intrigante viagem pela história dos meios de armazenamento digital.

These 8 Raspberry Pi attachments radically expand its powers: Não tenho uma boa relação com os Pi, não consigo tirar partido deles da mesma forma do que com os micro:bit, e perante disponibilidade de tablets e computadores, não faço muito de um computador que preciso de encontrar monitores e teclados para o usar. Notem que não estou a denegrir o projeto, os Pi são máquinas fabulosas, apenas a confessar a minha frustração com eles.

Worries About AI Deepfakes Changing The Past: Sim, a geração de imagens tem este potencial, mas reparem, o tema não é novo. Alterar registos de imagem para modificar a percepção do passado é uma técnica clássica de manipulação, e notavelmente bem conhecida a história dos apagões sucessivos às fotos oficiais durante o estalinismo, à medida que os heróis da revolução iam sendo condenados por traição a Estaline. Tudo o que a IA Generativa faz, é acelerar estes processos.

Y al noveno día, resucitó: cómo Japón ha logrado recuperar la misión lunar que creíamos perdida: Uma excelente notícia para a exploração lunar.

Three ways we can fight deepfake porn: A terceira, legislar e fazer cumprir as leis, parece-me a mais fundamental. Porque confiar em meios meramente técnicos para resolver problemas morais raramente funciona.

Facebook Approves Disgusting Pro-Anorexia and Drug Ads Targeted at Teens and Made With Its Own AI: Isto só surpreende, ou choca, quem não presta atenção nem às andanças da IA nem às da Meta. Sim, ultrapassar os filtros de geração de conteúdo dos algoritmos de IA Generativa é possível. E sim, o foco da Meta é no lucro e não na seguruança dos seus utilizadores.

The Rise of Techno-authoritarianism: O problema da sociedade digital, extremamente bem analisado - vivemos uma de facto ditatura imposta pelos donos de grandes empresas, que dominam os seus mercados, esmagam potenciais concorrentes e se sentem no direito de ditar políticas públicas e sociais, com um grau de influência sobre o público elevadíssimo. Não é por acaso que as nossas sociedades democráticas andam tão seduzidas pelos populismos autoritários. As pessoas habituaram-se à tirania dos media digitais.

The World’s First Microprocessor: F-14 Central Air Data Computer: Quem diria, o lendário caça foi também um pioneiro da computação. Os seus sistemas incluíam um microprocessador que precedeu os da Intel, mas isso foi mantido em segredo militar.

Why the AI Boom is a Windfall for Tiny Anguilla: E, com a experiência dos erros cometidos por Tuvalu, está realmente a beneficiar desta bizarria do nome de domínio nacional.

An AI-Generated Content Empire Is Spreading Fake Celebrity Images on Google: Do mais puro chico-espertismo, esta inundação de conteúdos falsos.


Buck Rogers in the 25th Century (1979). Poster art by Victor Gadino
: Vintage dos anos 80.

2023 letter: Estas cartas anuais permitem um vislumnbre mais profundo sobre a China do que aquilo que os media normalmente veiculam. Especialmente interessante pela nota de insatisfação dos jovens chineses com a sociedade em que vivem, e pelos erros sucessivos da administração de Jinping.

Global Media: os nomes por detrás do fundo que fez reféns os salários dos trabalhadores: Quase provoca dores de cabeça, ler sobre as intricadas teias que ofuscam quem lucra com o fundo de investimento que está a afundar a TSF e o JN.

‘On My Way to Blow Up the Plane’: Teen Faces Huge Fine After Joke Leads to Fighter Jets Scrambling: É sempre preocupante ler sobre estas respostas de excessivo zelo ao que não passa da habitual parvoíce adolescente. Ainda por cima, dado o completo quadro de invasão de privacidade. Mesmo admitindo que por razões de segurança é seguro ler o conteúdo de mensagens enviadas dentro da rede wifi de um aeroporto, esta é daquelas óbvias situações em que qualquer um com dois dedos de testa olharia para o culpado das mensagens, e perceberia que não passava de uma piada inconsequente. Em vez disso, cria-se uma situação que obriga ao despacho de caças de combate e mete-se um adolescente na cadeia por uma simples piada.

Absuelven al joven que provocó el despliegue de un caza español. La pregunta es cómo interceptaron su mensaje: Felizmente, neste caso, o tribunal espanhol teve dois dedos de testa e tomou a decisão correta. E deixou no ar uma pergunta muito incómoda: como é que isto foi possível, como é que as mensagens de um adolescente enviadas em redes privadas são tão visíveis para as agências de segurança?

The Etsy Sellers Getting Sued for Using a Smiley Face: Dos abusos da legislação sobre direitos de autor.

Reconsidering “Rhapsody In Blue” As It Turns 100: Uma sinfonia que continua tão encantadora, hoje, como o era quando foi composta.

Paper Tickets Are Being Replaced By QR Codes. We’re Losing Something: Em essência, memorialização, o pequeno memento tangível das idas ao teatro ou cinema. E, no meu caso, marcadores de livros. Já se foram os bilhetes de comboio, os de metro, agora os de cinema. Um destes dias vou ter de começar a usar verdadeiros marcadores de livros, está-se mesmo a ver.

Can AI Be Better at Art History Than Us?: Por vezes, cansa, ler este tipo de títulos simplistas. Especialmente quando o seu conteúdo nega a preguiça intelectual do título. A IA está a tornar-se em mais uma ferramenta de análise da história de arte, trazendo novos pontos de vista, mas complementando o trabalho do historiador, não o substituindo.

Is This Peak Cute? See Inside a London Show Exploring Our Cultural Obsession With the Adorable: Algo me diz que esta exposição é particularmente querida dos instagrammers.

Laurie Anderson Loses German Professorship Over Pro-Palestine Letter: Uma dica, caros alemães. Lá porque os vossos avós foram ums tremendos filhos da mãe para com o povo judaico, não significa que tenham de aceitar sem críticas as políticas do estado de Israel. A culpa do Holocausto não se expia fechando os olhos ao genocídio palestiniano.

One Texas Teacher Features A Secret Shelf Of Banned Books – And Her Students Love It: Ações de guerrilha intelectual.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Zorba the Greek


Nikos Kazantzakis (2016). Zorba the Greek. Londres: Faber & Faber.

Devo dizer que não esperava demorar tanto tempo de volta deste livro. Li as primeiras páginas num local privilegiado, no tombadilho de um ferry que atravessava o golfo Sarónico em direção a Egina. As palavras medidativas de Kazantzakis, aquelas primeiras páginas lidas sob os azuís do céu e do mar,  sob o sol que tisna o solo grego, ficaram como memória de viagem (em erasmus, e por isso acompanhado por outras nacionalidades, guiados pelas minhas simpáticas colegas gregas). Não se revelou uma leitura fulgurante. Apesar da prosa fluída, é um livro de meditação pesado, daqueles que tem de ser com calma, porque o turbilhão de ideias nele contido leva-nos de enxurrada.

Há uma constante e profunda tensão nesta obra que se inicia num cais chuvoso no inverno mediterrânico, e termina nas águas plácidas de Egina (recordo o momento na viagem em que um dos colegas gregos me toca no braço, e aponta para o casario da ilha, dizendo-me que o navio estava a passar mesmo em frente da casa do escritor cujo livro segurava). A tensão decorre entre dois espíritos, o da experiência física da vida, e a frieza da lógica e do raciocínio. Se a exuberância de Zorba é cativante, fulgurante na sua coragem, espontaneidade, veemência das emoções, esta é temperada pela reflexividade do narrador. O romance entretece-se à volta dessa dicotomia, na forma como se confrontam e complementam, mostrando como o contrastre profundo entre a forma de vida de dois homens que se tornam amigos os muda. O narrador, sem abandonar o seu intelectualismo, rende-se à vivacidade de Zorba, e este, sem perder a sua explosiva personalidade, deixa de temer as ideias mais profundas que a aparente simplicidade da sua forma de vida finge ignorar.

O livro não é um romance delicado. Pode trazer-nos à imagem uma certa visão idílica da Grécia, herdeira romantizada da antiguidade clássica, mas na verdade o romance é implacável com o povo grego, mostrando-o pobre, supersticioso e violento no retrato que faz das terras cretenses onde se passa a história. É mais um elemento contrastante, a dura realidade que molda o espírito de quem a vive confrontada com a visão romântica sobre um povo. Mas não são visões simplistas, o livro não se fica por retratos superficiais. 

Terminada a leitura, o que mais nos fica é a inefável sensação de vivacidade, da descrição de Kazantzakis da forma de viver de Zorba - o constante anelar por aventura, a incapacidade de assentar raízes, a eterna sedução feminina, a forma como os temores são dispersos com gargalhadas, a vontade quase cega de arriscar tudo e, se se perder, rir e seguir em frente. É a visão romântica da vida no estado puro, nómada e aventureira, de enfrentar a complexidade com simplicidade, de nunca cessar o deslumbramento, de dar primazia às emoções.  Podia terminar com a tentação de escrever que este romance caracteriza o espírito grego. E, por acaso, alguns dos que conheço têm em si o olhar e traços de personalidade que espelham a vivaciade de Zorba. Mas isso é uma visão simplista, que não faz jus quer ao povo, quer ao livro.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Na Órbita de Aldebarã


Damon Knight (ed.) (1971).  Na Órbita de Aldebarã. Rio de Janeiro: Bruguera.

A edição brasileira desta antologia que apanhei num alfarrabista tinha apenas quatro contos. É representativa da FC clássica, num turbillhão de ideias nem sempre coerentes, mais focada em histórias empolgantes com premissas intrigantes do que em apuração literária. 

A antologia inicia com Os Isolinguais, de L. Sprague de Camp. Uma história divertida, com a cidade de Nova Iorque a ser assolada por uma estranha praga: de repente, pessoas totalmemente normais parecem transformar-se nos seus longíquos antepassados, de outras terras e eras. A causa envolve uma conspiração por parte de um grupo fascista para tomar o poder, que usa tecnologia desenvolvida por um dos seus cientistas para acordar memórias do passado dormentes ao nível celular. Segue-se Os Fiéis de Lester Del Rey, uma história pós-apocalíptica onde a humanidade se extingue após uma curta guerra planetária atómica e biológica. Restam os cães, que foram elevados pela ciência para se tornarem inteligentes e dextros, dentro das suas condicionantes, para recuperar uma civilização desprovida de humanos.

A. E. Van Vogt dá-nos uma aventura trepidante, daquelas à antiga. Um grupo de exploradores depara-se, num planeta que exploram, com dois mistérios: as ruínas de uma civilização avançada, e um alienígena de aspeto vagamente felino, que apresenta indícios de inteligência. Enquanto procuram a chave do mistério, descobrem-se a enfrentar a criatura, extreamente perigosa e verdadeiramente inteligente, que urde um plano para roubar a nave e ir fazê-la regressar ao ponto de origem. Como predador que é, vê nos homens fonte de alimentação, mas fiel ao espírito de FC  clássica, a criatura busca não as carnes, mas sim o fósforo contido nas suas vítimas. Encerra com Linha de Salvação, de Robert Heinlein, uma história sobre um cientista que desenvolve um método infalível de predição da extensção da vida humana, recorrendo à quarta dimensão. Uma tecnologia que desperta a ira das seguradoras, que vêm o seu modelo de negócio em risco. 

Não são contos excelentes, sendo daqueles que fãs conhecedores toleram pelo retrato de época, mas com pouco valor literário para além disso. Representam o dilema da ficção pop (que a FC já foi), escrita para consumo rápido, e que envelhece depressa na sua larga maioria. Mas também são momentos do longo caminho de evolução da FC enquanto género literário.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

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Finality Unlimited: Estéticas retro.

Dez Leituras em Algol-7 #3: Recolha de resenhas sobre literatura portuguesa fantástica e não só.

2023 - 13 Obras de autores estrangeiros a ler: As melhores edições de BD estrangeira em Portugal do ano de 2024, de acordo com o Pedro Cleto.

Godzilla Minus One: sem dúvida mais um, e não um a mais: Bolas, suspeito que terei de ir ver este. Quando estreou pensei, ok, mais estafado remake/prequela simbólica da falta de criatividade da cultura pop. Mas parece que conseguiu furar essa barreira.

A Novelist Visits The CIA’s Creative Writing Group: Provavelmente o texto mais surreal que irão ler. Confesso que vi o título e pensei que a CIA tinha algum think tank de escritores contratados para imaginar cenários de atuação para a agência. Mas não, é muito mais trivial, tratam-se de funcionários que se dedicam nos tempos livres à literatura. O relato da visita à sede da CIA parece saída de um filme de Terry Gilliam.

Winner of Japan’s Top Literary Prize Admits She Used ChatGPT: E depois? Usar um LLM como parte do processo de escrita vai ser algo de habitual. Notem que a autora observou ter integrado LLMs no seu processo de trabalho, não se trata aqui do chico-espertismo de fazer passar o output de um LLM por obra literária.

5024) O absurdo nos contos de fadas (21.1.2024): Mas isto, o inverter das regras da normalidade e sanidade, é um dos encandos da literatura fantástica.

Greg Nicotero is Bringing Horror Novel Swan Song to TV Life: Sou só eu que estou mortinho por ver a cena em que o Air Force One é abatido por um autocarro escolar atirado para o ar pela onda de choque de uma bomba atómoica? Ah, se não sabem do que estou a falar, vejo que não leram este clássico do trash horror dos anos 80.

The Hugo Awards Are Facing Yet Another Controversy: Normalmente estas controvérsias literárias são mais tricas e guerras de personalidades entre autores, mas esta, é mais grave. Aparentemente, alguns candidatos aos Hugo em 2023 foram considerados inelegíveis pela organização. Tendo em conta que a Worldcon aconteceu na China, esse país que não é conhecido pela sua democracia, suspeita-se que os autores inelegíveis tenham caído nas más graças dos censores.

Five SF Stories Involving Memory Manipulation: A memória e o esquecimento na FC.

Lançamento: Dylan Dog - Picada mortal: Mais um Dylan Dog em português é sempre boa notícia. Os Dylaniati percebem.

Quando um autor mente: Recordo vagamente ter lido este romance, o que não é bom sinal, se me tivesse tocado, recordá-lo-ia melhor. Do pouco que recordo da leitura, foi uma sensação de sobrevalorização da obra.


Pierre Mion
: Antigos futuros.

48,000 companies sent Facebook data on a single person: Dá uma noção da escala gargantuesca com que a Meta utiliza e lucra com os nossos dados. Isto seria impossível sem a automatização trazida pela IA, bem com a capacidade da infraestrutura de gestão de dados.

Unredacted Meta documents reveal ‘historical reluctance’ to protect children: Que a Meta faz tudo por tudo para cativar o público mais jovem, é sabido. Que privilegia o lucrar face à segurança, é inadmissível. Choca perceber que a reação dos gestores a problemas com abuso de menores é ficarem alarmados com a potencial reação da Apple às políticas da Meta.

What I learned from using a Raspberry Pi 5 as my main computer for two weeks: Não surpreende saber que um Raspi é mais que adequado para quem faz uso básico, apesar de ter sido desenvolvido com pressupostos muito diferentes, como computador hackeável ligado à educação.

80 years later, GCHQ releases new images of Nazi code-breaking computer: Um vislumbre sobre o Colossus, a máquina que permitiu aos ingleses decifrar os códigos militares alemães, e um dos grandes marcos históricos na história da computação.

Scopus AI: Trusted content: O uso de LLMs dentro de bases de dados restritas é talvez do melhor que a IA Generativa nos possibilita - o poder interpretativo dos LLMs cruzado com dados fiáveis e verificados Mas, não esperem acesso aberto. Este produto vem da Elsevier, um dos gigantes do mundo editorial científico, que lucra com o trabalho gratuito dos investigadores e revisores.

Counterfeit Computing: Um olhar para a falsificação física de equipamentos digitais, um problema mais prevalente do que se poderia imaginar.

Leia is building a 3D empire on the back of the worst phone we’ve ever reviewed: Desenvolvimento de uma tecnologia que promete ecrãs capazes de mostrar conteúdo 3D de forma natural, sem necessidade de óculos especiais ou outros dispositivos.

Building A 1:1 Scale Model Of Planet Earth In Minecraft: Há aqui um certo borgesianismo de Tlön, Uqbar e Orbis Tertius, com esta ideia de uma simulação virtual à escala real.

OpenAI Struggling to Destroy Onslaught of AI Girlfriends: Bem, regra 34, é inescapável. 

NASA Finally Opened the Asteroid Container and Holy Crap That’s a Lot of Asteroid: Um vislumbre sobre a composição de um corpo celeste.

PLD Space es una de las cinco empresas seleccionadas para ofrecer lanzamientos espaciales dentro de la Flight Ticket Initiative europea: É bom ver que a ESA está também a apostar na diversificação dos seus lançadores.

Google Chrome gains AI features, including a writing helper, theme creator, and tab organizer: Mais lenta e cautelosa, a Google também começa a incorporar IA no seu navegador.

Can We Live Forever?: Como estas estéticas ficam datadas...

Algorithms Are Flattening Our Taste: Não surpreende. Os algoritmos de recomendação, desde os que sustentam os sites de e-commerce aos das redes sociais, baseiam-se em sugerir-nos conteúdos similares aos que visualizamos. Ou seja, um mais do mesmo, um vira o disco e toca o mesmo potenciado pelos potentes algoritmos de IA que analisam o nosso comportamento. E isso traz estagnação, uma constante sucessão repetitiva cujo impacto já se sente na cultura pop. 

The Airports that Pilots Hate the Most: Normalmente, aqueles em que os passageiros respiram fundo quando o avião chega ao terminal.

Military Emissions Are Too Big to Keep Ignoring: Um dos maiores poluidores do planeta parece estar isento de sequer prestar contas sobre as suas emissões.

The Hidden Worlds of Monopoly: Ah, o jogo que nos ensina desde mais tenra idade as regras do capitalismo selvagem.

A Personal List of Some of The Most Interesting Digital-Art Experiments of 2023: Dicas para explorar projetos de arte digital contemporânea.

Chegada da esquadra alemã a Lisboa: Apontamento histórico sobre uma visita a Lisboa de uma esquadra naval alemã, antes do dealbar da II Guerra Mundial.

Reflectem os "media" a realidade do Mundo?: Algumas ideias para reflexão. Não é só a decadência do jornalismo tradicional face ao mundo eletrónico mas um admitir que os media nunca foram tão universais como sempre se assumiam ser.

El verdadero motivo por el que los arqueólogos se resisten a abrir la tumba del primer emperador de China: Não tem a ver com maldições ou temor de antigas armadilhas, é antes o saber que o ato da escavação pode ser destrutivo.

The F-16 Fighting Falcon Turns 50 Today: Past, Present And Future Of The ‘Viper’: Meio século de voo de uma das mais elegantes e icónicas aeronaves militares da história da aviação.

Contributos para um roteiro dos locais históricos de aviação no Porto [M2457 – 02/2024]: Notas sobre acontecimentos relacionados com aviação que tiveram lugar na Invicta.

How Rubens Brought Antiquity to Life: A ligação entre o mestre do Renascimento e a antiguidade clássica.


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Tragédias do Ciclo Troiano


Sófocles (1973). Tragédias do Ciclo Troiano. Lisboa: Livraria Sá da Costa.

As histórias que dão continuidade ao poema épico da Ilíada, esse rico substrato que os fragmentos que até hoje nos chegaram levam a intuir um enorme universo de histórias, poemas e peças de teatro que exploram os vários detalhes e ramificações da história original, ela em si também um coalescer de diferentes relatos e tradições da poesia oral da Grécia Antiga. Aquilo a que hoje chamaríamos um "universo ficcional".

Da minha leitura destas tragédias, saliento um foco muito rígido de Sófocles na noção do dever de honra acima de tudo, por trágicas que sejam as consequências para os personagens dos esforços para manter ou restaurar a honra. Os infortúnos em que os seus personagens são colocados advém dessa vontade.

A trilogia de peças inicia-se com Ájax, o contar de uma história da guerra de Tróia. Preterido na posse da armadura de Aquiles pela argúcia de Ulisses, um enfurecido e fora de si Ájax chacina um rebanho de ovelhas. Na sua mente iludida, crê piamente que está a vingar-se do ultraje matando aqueus e torturando Ulisses, o seu líder e inimigo confesso, apesar de aliados na epopeia troiana. Confessa, inclusive, à deusa Atena, este seu sucesso. Mas o dealbar do dia mostra-lhe a verdade. Sentindo a sua honra perdida, entrega-se ao desespero, e decide redimir-se pelo suicídio, caindo sobre a sua própria espada apesar das súplicas e argumentos da sua escrava e mãe do seu filho, de companheiros e do próprio Ulisses, que apesar das disputas não deseja tal mal ao seu inimigo. Ájax prefere morrer a viver com o peso da vergonha da sua ilusão.

Electra leva-nos à Tebas pós-ilíada, com a vingança de Orestes sobre os assassinos do seu pai, Agamemnon. Electra é a grande mulher trágica, consumida pela ideia de vingança pela morte do pai às mãos da sua esposa, ultrajada pelo sacríficio da filha Ifigénia (não há bondade na maldição da casa dos Atreus, todos os personagens seguem a via do sangue). A oportunidade de vingança surge com o regresso do agora adulto irmão Orestes, que Electra tinha conseguido por a salvo da ira do amante da mãe, levando-o para um exílio. No regresso, Orestes socorre-se de um subterfúgio para não ser imediatamente reconhecido, que levará a irmã a um desespero  profundo que só se mitiga com a descoberta da verdade. O destino segue o seu caminho, e Orestes vingará a morte do pai assassinado a mãe, lavando com o sangue da mulher que o deu à luz a honra da família Átrida. Ao contrário de Ésquilo, que na sublime trilogia Oresteia nos mostra como a obrigação do lavar da honra conduz a mais tragédias e remorsos, em Sófocles este matricídio é mostrado como o necessário ponto final que libertará Electra do opróbrio. Não haverá aqui Erínias que atormentem o vingador.

Em Filoctetes, o jovem guerreiro Neoptélemo, filho de Aquiles, tem de cumprir uma missão espinhosa: cumprindo as ordens de Ulisses, montar um ardil que obrigue Filoctetes a regressar aos combates na Tróade. Este é um homem amaldiçoado, mordido por uma cobra como castigo divino, cuja ferida nunca sara, deitando um cheiro nauseabundo que ninguém suporta. Foi abandonado pela frota grega numa ilha deserta, onde sobrevive isolado numa caverna, o que não o torna nada predisposto a regressar à guerra. Tudo o que quer é uma oportunidade de regressar a casa, e parte daí o ardil de Ulisses. Este sabe, por via dos oráculos, que as flechas mágicas de Hécules que Filoctetes detém são uma das chaves para a vitória sobre os troianos, daí tornar-se necessário encontrar uma forma de o levar para o cerco de Tróia. Enganar Filoctetes com um suposto resgate para casa, que na verdade é um rapto para o obrigar a ir para a batalha, é o plano, mas Neoptélemo não se sente confortável com a mentira, acabando por desobedecer a Ulisses e a contar a verdade a um Filoctetes que, percebendo o ardil, mergulha no desespero. O compromisso de Neoptélemo com a honra acabará por ser recompensado, quando o próprio Hércules se manifesta, e o insta a acompanhar Ulisses ao campo dos gregos, mostrando-lhe que essa ação irá expiar a maldição divina que pesa sobre ele.

A humanidade dos heróis gregos é aqui mantida numa posição de absolutos, de compromisso com a honra que ultrapassa laços filias ou de obediência aos reis, mesmo que isso lhes custe o que têm de mais precioso.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Hogfather


Terry Pratchett (1996). Hogfather. Londres: Corgi.

É a noite mais longa do ano,  e aqueles que podem juntam-se para celebrações bem comidas e melhor regadas. As crianças estão ansiosas, esperando no dia seguinte encontrar o que mais desejam. Os muito ricos preparam lautos banquetes, os pobres, arremedeiam-se com o que lhes é dado. Os lojistas esfregam as mãos, antevendo os lucros da época. É a noite mais longa do ano, aquela em que o bonacheirão Hogfather percorre todo o Discworld no seu trenó puxado por uma vara de porcos, escorregando pelas chaminés para deixar a justa recompensa dos meninos bem e mal comportados, aproveitando a oferta de jerez e frutas para restaurar forças. 

Mas, este ano, forças obscuras conspiram para travar o significado da noite de Hogswatch. Forças que manipulam o universo Discworld, com uma estranha aversão a seres vivos, e que alistam um dos mais temerosos assassinos da Guilda de Assassinos num longo plano para capturar o Hogfather, e, com isso, impedir que o sol volte a nascer sobre o mundo. Sabendo dos perigos que a não excecução de um ritual tem num universo mágico, é a Morte que se chega à frente e decide substituir-se ao Hogfather, tornando-se, com ajuda de uma barba postiça e uma almofada para ficar com um ar barrigudo, o distribuidor de prendas para a humanidade de Discworld. É aí que as coisas começam mesmo a correr para o torto, dada a literalidade com que a Morte decide encarnar o seu papel de dádiva. 

Junte-se a isso a manifestação espontânea de espíritos que encarnam ideias menores, com um deus das ressacas ou gnomos de tudo e mais alguma coisa, um bando de facínoras que tem mais medo do assassino que os lidera do que quaisquer castigos, os sábios pouco sabedores da academia da magia, um cérebro artificial mecânico feito de formigueiros e favos de mel, e temos a receita para o caos. No meu disto, a infeliz neta da Morte (se lerem Mort, percebem esta), que só gostaria de viver uma vida de pacata normalidade, mas é nas suas mãos que ficará o destino do mundo.

Sátira divertida ao natal, Hogfather coloca todos os lugares comuns natalícios dentro do bizarro mundo de Discworld. É, como semrpe, Pratchett a deslizar sem derrapar pelo absurdismo - a Morte a tentar ser Pai Natal é a coisa mais delirante que poderão ler, num romance como só ele era capaz de fazer. Leitura perfeita para uma consoada, diria. 

domingo, 11 de fevereiro de 2024

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Thunder World: Toda a sofisticação, e fica-se por um pedregulho.

The Best Sci-Fi Mysteries, recommended by Mary Robinette Kowal: Quando uma boa aventura no espaço ou no futuro é também um potente whodoneit.

La ciència-ficció portuguesa: l’esforç d’una continuïtat i la creació d’una identitat: Via Luís Filipe Silva, uma excelente visão catalã sobre o panorama da literatura de ficção científica portuguesa.

10 Classic Sci-Fi Performances Snubbed by the Oscars: Já sabemos que a FC tem uma relação agreste com a Academia (e ainda bem, porque na verdade, a fugaz fama dos óscares raramente se traduz em filmes que aguentaram o teste do tempo).

Melhores Leituras de 2023: Os livros que mais intrigaram a Cristina Alves do blog Rascunhos.

The Best Terry Pratchett Books, recommended by Marc Burrows: Condensar a longa e prolífica obra deste escritor é tarefa difícil. Estas cinco sugestões são excelentes pontos de entrada.

Simbiontes – Gerson Lodi-Ribeiro: Um olhar para a FC brasileira, essa grande desconhecida entre nós, apesar da ausência de barreira linguística.

2023 - 17 Obras de autores portugueses a ler: O ano passado foi fértil em boas leituras, e este post destaca algumas das melhores.

Dez Leituras em Algol-7 #1: O Lâmpada Mágica voltou ao ritmo de destacar textos sobre leituras em português da nossa blogosfera.

Sunny #1 e #2: Quando li Sunny, senti que algo estava a faltar, mas não tive a capacidade de perceber o quê. Com esta análise do Pedro Cleto, percebi. Apesar da mestria visual e do caráter empático das histórias, falta-lhe a tal alma.

A John Berkey illustration for a 1991 issue of Popular Mechanics: O elusivo sonho da condução autónoma.

She Wrote A Book About AI in Education. Here’s How AI Helped: Suspeito que haja por aí imensos livros de IA na educação que sejam meras recolhas de output de prompts. Destaco este não porque o tenha lido, mas pela forma como a autora assume ter usado IA durante o processo de escrita, como forma de passar do seu registo oral para um registo literário.

OpenAI, Deluged By Copyright Lawsuits, Says That Artificial Intelligence Would Be Impossible Without Copyrighted Material: Ou, como li numa partilha no fediverso, "20 years ago we were suing teenagers for millions of dollars because they were torrenting a single Metallica album and now billionaires are demanding the free right to every work in history, so that they can re-sell it". Isto ainda tem muita água para correr, mas se assumimos que os modelos de IA não vão desaparecer, também temos de estruturar formas de redistribuição justa da riqueza gerada pela IA. Faz todo o sentido que os criadores sejam recompensados por o seu trabalho ter ajudado a treinar modelos que vão gerar lucros a quem os implementa. Claro, como já tenho lido por aí apontado, não é bem assim que nos querem vender as vantagens da IA, que é dita como forma de aumentar lucros cortando custos, eliminando trabalho humano, e não como forma de aumentar custos porque na implementação tem de se levar em conta a compensação por direitos de autor.

Pluralistic: The REAL AI automation threat to workers: Diria que Doctorow está, como habitual, particularmente certeiro. Essencialmente, toca na forma como os sistemas de IA estão a ser aplicados à gestão para espremer o máximo de eficiência, à custa de um incalculável miserabilismo sobre os trabalhadores (sob a capa das modas laborais de trocar a ideia de trabalhador por colaborador contratado, e por isso não sujeito como trabalhador independente às leis laborais). Ou seja, o real perigo da IA não é mandar os trabalhadores para o desemprego, mas sim o tornar as relações laborais miseráveis.

The Last Frontier of Machine Translation: A dificuldade dos algoritmos em lidar com algo que não só não é programável, como é infinitamente maleável - a nossa capacidade em dotar as palavras de múltiplos sentidos, por vezes imensamente distantes do original.

The desperate race to save Generative AI: Ou, colocando de outra forma, a OpenAI e quejandos sabem bem a porcaria que fizeram.

Lo último de los creadores de TikTok es una IA de generación de vídeos. Los resultados son impresionantes: Mais uma aplicação de algoritmo de vídeo generativo, desta vez vinda da ByteDance. Será que será incorporada no TikTok?

Open-Source AI Is Uniquely Dangerous: Visão ambivalente. O articulista levanta o medo do descontrole, uma vez que por definição, os algoritmos abertos não dependem de uma fonte de controle. Por outro lado, dadas as práticas predatórias dos gigantes da IA, o lado aberto do open source pode ser um robusto garante de controlo público destas tecnologias.

ChatGPT’s FarmVille Moment: A procura da resposta à questão "o que é que as massas podem fazer com a IA Generativa".

Here's Your First Look at the Freshly Painted X-59, NASA’s Quiet Supersonic Plane: Depois de um longo desenvolvimento, resta saber como irão decorrer os primeiros voos desta aeronave que promete voos supersónicos mais silenciosos.

NASA finally got the stuck lid off its asteroid Bennu sample container: E agora, fica ainda mais desperta a curiosidade sobre este vislumbre sobre o solo de um asteroide.

Auge, caída y resurgimiento de Kodak, la legendaria compañía que revolucionó el mundo de la fotografía hace un siglo: A história daquela que foi um gigante empresarial.

AI Is Great At Creating Personalized Children’s Stories For Your Kids. Here’s The Problem: Bem, diria que o problema principal está na confusão entre os conceitos de literatura e conteúdo consumível. Mas este artigo aponta para a visão de direitos de autor, usando um LLM, é trivial pedir novas aventuras para os personagens mais queridos da pequenada.

The Man Who Coined The Word "Robot" Defends Himself: A visão de Capek para os robots era mais biológica do que a visão mecânica que temos.

Noriyuki Moto: Distopias.

El espirógrafo HTML para generar diseños psicodélicos al estilo de los años 70: Uma ferramenta gira para experiências criativas.

TikTok Real Estate Influencers and ‘Grifters’ Are in Deep Trouble, Short Seller Says: Diria que uma boa regra para isto é pensar que alguém é realmente bem sucedido com o seu método de fazer dinheiro, quer seja imobiliário, investimentos, crypto, serviços ou outros, não vai perder tempo a fazer vídeos a mostrar aos outros os seus segredos. Aqueles que o fazem, fazem-no porque sabem que ganham dinheiro fácil promovendo esquemas aos néscios. E isso, é todo um género de tendências em redes sociais.

Why Scientists Can’t Give Up Their Chalkboards: Pela mesma razão pela qual o mais sofisticado sistema de conferência e trabalho colaborativo digital não substitui um lápis e uma folha de papel. Quando estamos a pensar, importa rascunhar, e não perder tempo a perceber qual é a opção e ferramenta mais correta para usar.

Rodney Matthews, “On A Storyteller’s Night”: Das belas noites.

La crisis del Canal de Suez agita los temores a otra crisis logística: alza de costes y un golpe a la economía mundial: Na verdade, isto já não é novidade, já há semanas que os ataques Houthis têm tido repercussões no transporte de mercadorias pelo Suez, que caiu significativamente.

Friction is growing: É curioso pensar que uma das forças que poderá alicerçar o combate às alterações climáticas, forçar transições energéticas, obrigar a comportamentos económicos sustentáveis, é a indústria dos seguros. Está a sentir os prejuízos financeiros causados pelas consequências do aquecimento global. O problema nem é nas pessoas comuns cujas casas e bens se tornam inseguráveis por causa do risco de catástrofe ambiental, vai mais fundo, aos seguros que cobrem os empreendimentos económicos e industriais.

Diários entre muros: O olhar de uma voluntária nas prisões portuguesas: Uma daquelas leituras incómodas, que só o Setenta e Quatro se atreve a trazer-nos.

Refik Anadol Launches the World’s First Open-Source A.I. Model Dedicated to Nature: É um caminho de criação artística, o treino de algoritmos com fins estéticos específicos. Infelizmente, não está acessível.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

88 Vozes sobre Inteligência Artificial


(2023). 88 Vozes sobre Inteligência Artificial. Lisboa: ISCTE/Oficina do Livro.

Quando um formando me chega à sessão com este matacão debaixo do braço e me diz "toma lá, já tinhas visto...?", percebi que estava feito. Lá tive de ir a uma livraria (oh, que enorme suplício) e trazer esta obra documental (ordálio, deveras).  Não fico particularmente impressionado por livros cheios de nomes opinativos sonantes, mas suspeito que será um bom livro para a minha coleção de retro-futurismo. Um daqueles para voltar a pegar daqui a alguns anos e perceber se as tendências nele identifcadas evoluíram, ou se tornaram becos sem saída. 

A quantidade de pontos de vista sobre o tema é assinalável, o número 88 não é uma figura de estilo. Vindo de onde vem, a diversidade de pontos de vista não é muita, a maior parte das 88 vozes estão ligadas à economia ou a empresas. E daí já sabemos que tipo de discurso vem, muito deslumbrado, polvilhado com laivos de techbro, com bases técnicas algo duvidosas. E, nalguns casos, um nível intelectual confrangedor. Não são muitos, mas surpreende ver que responsáveis por empresas e organizações possam ser tão superficiais nas suas análises e pensamento. Destaco, pela positiva, os responsáveis ligados à saúde, com uma visão clara da forma como estas tecnologias podem ser aplicadas para melhorar a prestação de cuidados.

Os deslumbres são temperados pela vertente mais técnica daqueles que trabalham e investigam em Inteligência Artificial. Destes, lemos uma posição crítica mas otimista, que aponta as problemáticas da tecnologia, as suas possibilidades, e o potencial português nesta área. Complentam as visões ligadas às Artes e Ciências Sociais, muito focalizadas no potencial criativo mas também disruptivo da Inteligência Artificial, centrando-se também nas questões da ética e legalidade.

Dos ensaios, destaco "A Inteligência Não É Só Isto", de Emília Ferreira, diretora do MNAC. Ensaio erudito e assertivo, vai direto ao cerne de uma das questões mais propaladas pelos deslumbrados da IA, a criatividade intríseca dos sistemas e a visão da arte ao carregar de um prompt, mostrando que o criar vai muito  para além destas dimensões redutoras, mas não descartando o potencial enorme da IA Generativa nas mãos de artistas.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Comics: Iron Sky; Rom And The X-Men;


Mikko Rautalahti, Gerry Kissell, Amin Amat (2013). Iron Sky. IDW. 

Há uns anos atrás, um filme finlandês cruzou ficção científica e comédia, com  uma premissa divertida: e se os nazis se tivessem refugiado na Lua, após a II Guerra, sobrevivendo, afinando as suas armas e congeminando o regresso para a conquista da Terra? Iron Sky foi um daqueles filmes surpreendentes, vindo de recantos inesperados, bem feito, que não se leva muito a sério mas é coerente, brincando com aquele tipo de ideias obscuras que os fóruns online e os documentários de muito baixo rigor histórico do canal História popularizaram. Este livro adensa um pouco o mundo ficcional do filme, criando panos de fundo para a presença e sobrevivência da pureza ariana numa base lunar secreta. Como o filme, é um comic divertido, para não se levar a sério.


Bill Mantlo, Sal Buscema (2023). Rom And The X-Men: Marvel Tales. Nova Iorque: Marvel.

ROM andou durante uns anos a ser publicado pela Marvel, mas nunca se integrou muito no universo Marvel. Não sendo uma propriedade intelectual integralmente detida pela editora, foi sempre mantido em interações tangenciais com os restantes personagens. Este livro colige um desses momentos, em que os percursos de ROM e dos X-Men se cruzaram, em duas aventuras ao velho estilo dos anos 90 - simples, cheias de ação e descomplicadas. Numa, ROM cruza-se com um mutante perigoso, híbrido filho de pai Dire Wraith e mãe humana, criatura que os X-Men também procuram. O confronto entre heróis que não se conhecem é inevitável, uma estratégia comum à época nos crossovers entre equipas de personagens. Claro, no final todos percebem quem são os bons e os maus, e unem-se para aniquilar o adversário. Na segunda história, há uma curiosa inversão, com um ROM ignorante da vida na Terra a ser enganado por presidiários, e a lutar contra a Irmandade de Mutantes, com a qual acaba por se aliar para derrotar a ameaça do híbrido, que ludibria os vilões mutantes com promessas falsas de aliança. Um divertimento old school.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

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Robert McCall
: Outros futuros.

Many Comic Book Artists Named As Being Used By MidJourney: Não há aqui grande surpresa. Embora, quem use este tipo de algoritmos sabe bem isso, há uma diferença entre gerar imagens integrando o estilo de um dado criador e aquilo que o artista é realmente capaz de fazer. No entanto, há questões ligadas à propriedade intelectual a que quem desenvolve IA não se pode eximir.

Fyi: Ainda de volta do entusiasmo com o Mickey no domínio público, dicas sobre o que se pode e não pode fazer com a personagem. Mas uma nota, que me foi recordada por um amigo que trabalha na área da propriedade intelectual no audiovisual - a personagem só está em domínio nos EUA. Por cá, a nossa lei de direitos de autor estipula que a obra de um criador entra em domínio público 70 anos após a sua morte. Talvez não seja boa ideia avançar já com projetos por cá.

#14 -"MY" BRADBURY: A PERSONAL MEMOIR: Luís Filipe Silva a mostrar porque dos autores clássicos de FC, Bradbury é aquele que mais perdura e atravessa barreiras. Não sendo um praticante da FC pura e dura, abriu caminhos no fantástico literário, com a sua ficção especulativa de encantamento.

5019) Algumas leituras de 2023 - 1: Resumos de leitura do sempre interessante Bráulio Tavares.

The Future Is Revealed in Stunning Speculative Sci-Fi Art Show: Como o mundo da arte olha para a tecnologia e ficção científica, explorada numa exposição temática.

Widows And Orphans: Um bom vislumbre sobre processos de escrita criativa, e a necessidade de os espartilhar de acordo com requisitos de projetos. Que, por vezes, obriga a eliminar o que se gosta. E outras, assumir e ir beber uma bebida.

Star Trek + Design: Um olhar para as influências estéticas de Star Trek.

Drinking from Graveyard Wells: histórias de África, de mulheres, e da fúria de ambas: Sugestão de leitura que nos mostra o trabalho de literatura fantástica de escritores da diáspora africana.

Science Fiction Movies Arriving in 2024: Claro, podem esperar as habituais apostas insípidas em remakes e sequelas/prequelas de propriedades intelectuais há muito esgotadas (não, o mundo não precisa de mais um godzilla/planeta dos macacos/alien/star wars). Mas na verdade, entre as estreias previstas para este ano há muitos filmes que prometem ser interessantes e a fugir ao culto da nostalgia que tem infestado a cultura pop.

The Stringbags, un sentido homenaje al Fairey Swordfish y a sus tripulaciones: Garth Ennis a contar histórias da II Guerra? Não há aí surpresa, mas é algo que este argumentista escocês faz muito bem.


Happy new year
: No livro, o cão não é fofinho.

The overlooked tech that kept cities moving in 2023: De sistemas de pagamento mais eficazes à introdução de IA na manutenção de equipamentos.

A Few Reasonable Rules For The Responsible Use Of New Technology: É algo que necessitamos cada vez mais, de regras para uso ético, responsável e sustentável da tecnologia.

Five Ways (Which You Probably Haven’t Thought Of Yet) In Which AI Will Change Art: Cada vez mais a IA é vista como ferramenta que levanta questões e possibilidades, muito para além do básico escrever o prompt e clicar no gerar.

Alleged Groomer to Get the AI Hologram Treatment: É interessante que o autor do artigo optou por salientar o comportamento sexual de Elvis sobre o lado tecnológico (é um pouco estratégia clickbait). Mas nota-se que onde a indústria encontrar forma de fazer trocos fáceis, nem que seja a extorquir trocos aos boomers semi-senis para reverem os seus ídolos da juventude em modo AI jukebox, vai fazê-lo.

MIT and the Apollo Missions: O papel da instituição no desenvolvimento das tecnologias de computação que sustentaram as missões lunares.

United Launch Alliance, Astrobotic ready for early Monday liftoff to the moon: O objetivo Lua está a aquecer, com cada vez mais missões a tentar chegar ao nosso satélite. Esta tem a particularidade de ser privada.

Sony’s new spatial headset will power whatever 'the industrial metaverse’ is: Se a ideia de metaversos industrias soa algo bizarra, as indústria são um dos nichos com potencial no uso de realidade virtual.

Volkswagen says it’s putting ChatGPT in its cars for ‘enriching conversations’: O frenesi de meter IA Generativa em tudo dá nisto.  Pergunto-me se vale mesmo a pena o conseguir ter conversas enriquecedoras com o meu carro, mas hey, marketing e suas ideias brilhantes, certo?

Between the Algorithm and a Hard Place: The Worker's Dilemma: Os problemas da gestão algorítmica, com a sua busca por níveis elevados de eficácia que não levam em conta algo óbvio: o mundo real é confuso e caótico, não se presta a soluções unívocas e inflexíveis. Aplicar estes sistemas à gestão de recursos humanos está a mostrar-se desumanizante, e contraproducente. Mas não será isto a travar o alastrar destes sistemas.

Regulators aren’t convinced that Microsoft and OpenAI operate independently: Estranho. O que é que lhes terá dado essa ideia? Talvez a integração gratuita do GPT4 no Copilot?

Not even Notepad is safe from Microsoft’s big AI push in Windows: Gosto do bloco de notas, é a ferramenta perfeita para escrever na sua simplicidade. Pessoalmente, dispenso um assistente de IA a interferir nos meus processos de escrita.

Michael Kaluta “Sketchbook” (1998): Mestria de ilustração clássica.

Trip Report: Afghanistan Under Fluttering Taliban Flags: Viajar no Afeganistão, num conflito entre o que se passa no país e as bizarrias no terreno.

Civilization Owes Its Existence to the Moon: O papel da lua no desenvolvimento das civilizações, através dos mais antigos indícios da História.

A Hard-Won Victory That Ukraine Stands to Lose: Um olhar para a dureza da guerra na Ucrânia, que no terreno é violenta e consumidora de recursos. Não vai ser fácil sustentar o apoio a um país que precisa desesperadamente de ajuda para enfrentar o colosso russo.

Navajo objection to flying human ashes to the Moon won’t delay launch: Provavelmente a mais inesperada barreira a uma missão lunar.

Hace millones de años la Antártida era un continente habitado más. Ahora conocemos un poco mejor cómo era bajo el hielo: A ciência começa a perscrutar o que se oculta sob o gelo antártico. Se  bem que nisto, os leitores de Lovrecraft já sabem que sob as planícies de gelo, se esconde segredos inomináveis que é melhor jamais voltarem a ver a luz do sol.

How to avoid the cognitive hooks and habits that make us vulnerable to cons: Resume-se tudo a algo que quem está online conhece bem, a correspondência a expetativas pré-estabelecidas.

‘Plant-Based’ Has Lost All Meaning: Dos exageros do marketing. Confesso que quando passo pelo supermercado e vejo coisas como sumos de fruitas ou vinho vegan, ficou um pouco confuso. Deve ser indício de senilidade.

In the event of nuclear war, drink beer: Totalmente de acordo. Se é para ir desta para melhor num holocausto atómico, mais vale ir de corpo e espírito bem regados.

Fixing the Panama Canal: As alterações climáticas estão já a manisfestar-se, como bem sabemos. A infrasestutura do comércio global já está a lidar com as consequências.