terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Guerras do Alecrim e Manjerona


António José da Silva (1975). Guerras do Alecrim e Manjerona. Porto: Porto Editora.

Uma delícia picaresca, texto de 1737, comédia onde a sensibilidade barroca colide com a mais clássica das emoções humanas - não o amor, mas a tesão. É uma história tão velha quanto a humanidade, rapazes que se agradam pela belas raparigas, e as artimanhas de que se socorrem para as catrapiscar. Mas neste Portugal barroco, as normas sociais obrigam a profundos exercícios de estratégia amorosa. Quando dois rapazes de nobreza suspeitosamente pobretana se cruzam com duas amáveis donzelas, começa um jogo de seduções onde o terno conflito entre plantas simboliza as leis da atração. A complicar os amores há o tio das donzelas, homem rico e rico homem muito cioso das suas sobrinhas, e o primo da província que vem importado das berças para escolher uma das donzelas casadoiras, embora esteja mais interessado nos encantos da criadita da casa. 

Não há amores sem um cupido e uma alcoviteira. São as desventuras do desenrascado criado dos nobres rapazes, homem de estratagemas mil e vezeiro nas artes do engate, que fazem o fio condutor desta peça clássica. Peripécias mil, encontros e desencontros, enganos e artimanhas formam esta versão hilarante da mais antiga ária da humanidade, a boa e velha cantiga do bandido.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

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ジム・キャノン 1983年: Estilismo mecha.

No correio (77): Compreendo bem esta reticência. Apesar de ser adepto do separar a personalidade dos criadores da qualidade da sua obra, o caso de Gaiman é uma exceção. Por mal que isto soe, o que me afasta mais nem é o seu comportamento aberrante (notem que condenável e execrável). É a hipocrisia, que alguém que durante décadas construiu uma imagem pública de progressista, atencioso para com minorias, respeitoso dos direitos elementares e aliado de causas feministas, lgbt e similares, mas na verdade não só era um patife da pior espécie como usou a sua boa fama e graças para ser um predador eficaz. Um cretino assumido entende-se. A falsa bondade não se suporta. 

Building a Library of Science Fiction Film Criticism: Rever os clássicos com olhar crítico e memorialista. 

What Jeffrey Epstein Didn’t Understand About Lolita: Livros destes só são levados à letra pelos sociopatas. É um pouco como a admiração de Musk e Bezos pela série Culture de Banks, cujas premissas são o preciso oposto dos comportamentos dos bilionários. 

Brain Rot Without Borders: A cada vez mais profunda desconexão entre leitura e literacia, algo que é em parte estimulado pelo audiovisual aditivo das plataformas digitais. 

The Best Sci-Fi & Fantasy Novels, as Chosen by Fans: the 2025 Hugo Awards, recommended by Sylvia Bishop: O destaque para as obras vencedoras do Hugo em 2025. 

The Odyssey: The Epic Poem Comes To Life In The Newly Released Trailer: Estou super curioso. Li, recentemente (e finalmente!) o texto original na fantástica tradução de Frederico Lourenço, e é realmente magistral. Espero que a versão cinematográfica lhe faça justiça. 

A Bússola e o Labirinto – Sebastião Alves: Uma premissa intrigante, suspeito que este livro vai para o meu radar. 

The Year's Most Scathing Book Reviews: Críticas literárias tão ácidas, que suspeito que qualquer autor que as receba desiste das letras e passará a dedicar-se à plantação de batatas. 

Odyssey trailer brings the myth to vivid life: Confesso que a principal questão que me veio à mente neste trailer foi ora deixa-me cá ver, afinal o Batman da idade do bronze foi o Agamemnon? Toda aquela história de ser o rei de Micenas, matar a filha e invadir Tróia afinal era só a cobertura para manter a identidade secreta de combatente do crime? É  que aquela armadura não destoava em Gotham. Curiosamente, está ausente uma das personagens principais do poema, a deusa de olhos garços que tanto ajuda Odisseus. Mas mantenho a abertura: poderá ser uma versão cinematográfica interessante do fabuloso poema épico. Não será perfeita, e como o ser, dada a excelência e complexidade do texto original, que cristaliza uma tradição oral de outros milénios, tão diferente das estruturas de entretenimento de massas de hoje, embora esteja na sua origem? Encasinei na armadura, mas a cinematografia prometida é de cair o queixo, ou não fosse Nolan, e o vislumbre da descida ao Hades faz jus às imagens mentais invocadas pela leitura. A Odisseia é daquelas histórias que todos conhecem pela fama, por excertos, resumos ou simplificações, cujo real poder se sente quando mergulhamos no texto original (que não é muito acessível por cá, as melhores traduções recentes de Frederico Lourenço- excelentes, com um cuidado em manter a cadência poética que nos agarra à leitura, não tem exatamente edições com preço amigo para o povo). 


Artist is Craig Nelson!: Os infernos são perenes.

OpenAI’s new ChatGPT image generator makes faking photos easy: Notem que estes alarmismos não se baseiam na tecnologia por si só. Sempre houve desinformação, imagens falsas, enviesamento. O que estes algoritmos trazem é a aceleração e automação destes processos.

The Miracle of Color TV: A elegância e criatividade das soluções técnicas que nos permitiram ver televisão a cores. 

The RAM shortage is here to stay, raising prices on PCs and phones: Com a IA como força dominante no consumo de recursos computacionais, tudo o resto fica pior. 

En 2025, el salario de 6.800 funcionarios de Valencia depende de un formulario de Access. Solo una persona sabe cómo funciona: Por cá, temos um caso muito similar. Toda a gestão de provas e exames do ensino básico é feita através de três "programas" - na verdade, bases de dados executáveis do access. Há décadas que temos de o usar para gerir inscrições, pautas, classificações e transferências de dados, num processo que nos dias de hoje é obsoleto. Temos de instalar localmente o "programa", instalar as "atualizações" que são lançadas para disponibilizar funções ou corrigir bugs. A transferência de dados é efetuada por descargas de bases de dados (encriptadas, pelo menos) que são enviadas por email para gestores regionais, que têm de importar esses dados, e efetuar exportações para a gestão central. Parte da inserção de dados é automatizável através de formatos comuns, usando csv exportável pelas plataformas de gestão de alunos (e ainda bem, não tenho saudades do tempo em que se tinha de inserir TODOS os dados dos alunos manualmente, e esses tempos não estão tão longínquos quanto imaginam). Este programa é gerido por uma pessoa (talvez com uma pequena equipa, espero), eminence grise do jne (essoutra organização de imutável anal retentividade). E sem ele não se consegue gerir todo o processo de avaliação externa dos alunos do ensino básico e secundário. A coisa funciona, mas já há muito que deveria ter sido atualizada. Recentemente, a arrumar a arrecadação de materiais da minha escola, deparei-me com um cd-rom de instalação do ENEB do início do século... 

OpenAI and Anthropic will start predicting when users are underage: Um daqueles clássicos casos onde o descuido da empresa é transformado em medida benevolente. É bom recordar que as detentoras de chatbots decidiram implementar este tipo de medidas após casos de jovens cujas interações os levaram ao suicídio (e isto também deveria ser um balde de água fria nos promotores do apoio psicológico via IA). 

The 8 worst technology flops of 2025: Celebrar os insucessos tecnológicos do ano, geralmente advindos do cruzamento de ambições desmedidas, ganância ou ignorância pura. 

The Year in Slop: Os grandes marcos da desinformação e lixo trazidos pela IA generativa. 

The Future Of Film Never Arrived, And Never Will: Apesar do investimento, a tendência do cinema em 3D estereoscópico foi um flop que nunca passou do deslumbre inicial. 

La IA ya se está generando el código de medio Internet. Y para los programadores es un quebradero de cabeza: Programar com IA generativa, por um lado, tem-se mostrado um recurso interessante. Por outro, mostra os riscos de automatizar processos de reflexão. 

How social media encourages the worst of AI boosterism: Já tínhamos notado. É recorrente os líderes da IA saírem-se com pronunciamentos de óbvio exagero, que ninguém se atreve a contrariar ou apontar o dedo pela óbvia estupidez.

En su primer uso real el Autoland de Garmin salva un piloto que resultó incapacitado al hacer aterrizar el avión de forma automática: A tecnologia já existe há uns tempos, mas felizmente nunca tinha sido necessária a sua ativação. Não deixa de ser incrível, a capacidade dos sistemas da aeronave em selecionar a rota e gerir todo o processo de aterragem.

Disney’s Robot Olaf Is a Straight Up Nightmare: A matéria tecnológica oculta sobre os robots que encantam os petizes.

70sscifiart: Bernie Wrightson: Clássicos.

US oil industry doesn’t see profit in Trump’s “pro-petroleum” moves: Mas antes que começem a sorrir a pensar que a razão para isto tem a ver com o avançar das energias verdes, desenganem-se. Apenas, o preço do petróleo está baixo e os potenciais lucros não justificam os investimentos.

17 de diciembre, una fecha de aniversarios aeronáuticos: Algumas efemérides ligadas à aviação, e é giro perceber que no dia em que se comemora o primeiro voo do Wright 1 também foi a data em que a nossa Força Aérea apresentou e introduziu ao serviço os novos Tucanos.

A Huge Number of People Starved to Death After Elon Musk Cut USAID’s Funding: Só para recordar que a irresponsabilidade e sanha ideológica de um dos homens mais ricos do mundo condenou pessoas à morte. Ainda planeiam comprar um Tesla? Mas reparem, a culpa aqui não vive sozinha, e há uma chusma de gente inenarrável no poder que apoia e agrava estes crimes contra a humanidade.

NOVA ERA NA FORÇA AÉREA PORTUGUESA - Do Espaço à 6ª Geração: É interessante notar a ambição do investimento neste domínio, a olhar para as infraestruturas, as oportunidades de desenvolvimento de tecnologia em parceria com empresas portuguesas, e a prestar atenção ao espaço como vertente de soberania. 

Bitcoin Crashing Is Actually Awesome News for Regular People, Economist Says: Aliás, diria mais - sempre que a especulação financeira está em baixo, é a sociedade em geral que beneficia. 

A-10s Spearhead U.S. Retaliation Strikes Against ISIS Targets in Syria: É uma aeronave obsoleta nos domínios modernos, mas nalguns contextos, ainda imbatível. 

Creíamos que todo pasaba por los nuevos cazas. El F-16 lleva 50 años en el aire y se sigue vendiendo como pan caliente: Uma perenidade que se explica de forma simples - apenas as grandes potências têm necessidade de máquinas super-avançadas, para se contrabalançarem nos jogos geoestratégicos. Os países que não almejam este tipo de estatuto apenas necessitam de equipamentos capazes para manter a soberania. 

A Higher Call, una increíble historia de aviación, aviadores, y humanidad: Um lampejo de humanismo no meio da negritude da guerra. 

Ukraine’s Defense Forces reveal Lyman covered in drone “web” amid ongoing Fighting: Cada guerra lega-nos novas estéticas e iconografias. A I Guerra Mundial legou-os a imagem da trincheira lamacenta e a terra de ninguém coberta de crateras, partes de corpos e arame farpado. A II as cidades em ruínas e o cogumelo nuclear. Agora, temos as imagens das teias de fibra óptica que cobrem os campos de batalha ucranianos. 

New York to London in a Flash: A Look at an SR-71 Record Flight: Os Blackbird eram aeronaves fenomenais, e um dos nossos picos tecnológicos irrepetíveis. Não resisto à piada foleira: se se tivesse passado no aeroporto de Lisboa, hoje, a rapidez da viagem apenas garantiria que se chegaria mais depressa às intermináveis horas de espera na fronteira.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

The Gas


Charles Platt (1980). The Gas. Londres: Savoy Books.

Tenho de culpar o Damien Walters, com as suas sugestões de leitura, por ter tropeçado nesta bizarria. Não a teria descoberto de outra forma. Walters partilhou-a como inesperada leitura fora da caixa, e, de facto, é-o. Não é um grande livro, apenas algo de inesperado. Nome menor da FC britânica, Platt esteve envolvido com a lendária New Worlds. Este The Gas... bem, como o qualificar? 

Apesar de ter sido escrito por um autor de FC e ter elementos do género, The Gas é um romance pornográfico, típico material masturbatório escrito a metro para excitação dos leitures num tempo antes da internet, onde era mesmo preciso ler segurando o livro com uma das mãos e imaginar para, enfim, creio que percebem. Hoje, com a proliferação banalizada da pornografia online, cada vez mais a extremar-se para despertar interesses adormecidos pela generalização, este tipo de livros parece-nos algo inocente e peculiar. 

Como descrever este livro? Imaginem a premissa do clássico The Purple Cloud, mas em vez de um gás mortal que se espalha pelo mundo temos um acidente num laboratório que liberta uma nuvem que se espalha por toda a Inglaterra, cheia de uma substância que exacerba o desejo sexual. O resultado é um colapso social, com toda a gente a sucumbir ao desejo desenfreado e meter-se em orgias cada vez mais violentas. Talvez a melhor forma de descrever isto seja imaginar o típico cenário de histórias de zombies, mas com hordes de pessoas esfaimadas por sexo em vez de mortos-vivos. Aliás, há muitas cenas no livro que poderiam ser transportadas para filmes de zombies.

Claro que tudo isto é uma desculpa para se sucederem descrições explícitas de atos amorosos, com uma decadência progressiva nos mais proibidos tabus. Apesar disto, há um romance, uma lógica no livro, uma linha narrativa de merguho na insanidade. Algo que o livro tem aos rodos - à medida que se aproxima do final, as tropelias tornam-se cada vez mais bizarras e as descrições mais insanas. Platt certamente que se divertiu a imaginar o que aconteceria se estudantes de ciência perdessem todas as inibições e usassem as experiências em modo secxual, numa sequência que termina com uma das cenas mais insanas que já li - o colapso de uma catedral usada por bandos de lésbicas enraivecidas de desejo, que se dedicam a torturar homens até à morte. 

É ainda pior do que imaginam, naquele surrealismo da má literatura em que é tão mau que se torna interessante. Não é que o livro seja um mau livro. É algo que ultrapassa a mera qualificação de material masturbatório escrito a metro, com um aceno à ficção científica numa história de apocalipses em versão deboche.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Echi dall'Incubo


Tiziano Sclavi, et al (2025). Dylan Dog: Echi dall'Incubo. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Porque é que Dylan Dog se tornou uma das minhas paixões culturais? Não preciso de ir mais longe do que esta pequena pérola literária que é  La Piccola Biblioteca di Babele para demonstrar o porquê. Começa como uma subtil vénia borgesiana, que ganha outros contornos numa fantasia onde as bibliotecas infinitas contêm as minúcias das vidas de todos. Avança para o surreal graças a um musaranho de dentes adiados e apetite pelos pergaminhos, e um monge copista que elimina todo um livro para ocultar os danos provocados pelo roedor. 

Resulta um conto belíssimo sobre memória  e esquecimento, com momentos de pura irrealidade. As pessoas que se desfazem enquanto o rato rói os pergaminhos do incunábulo são um pormenor genial. Termina com um dos mais brutais pontos finais. Numa vinheta Dylan e o seu amor do momento escapam-se de uma terra que se apaga, na outra está a conduzir sozinho, a achar que está a bater mal por filosofar em voz alta sobre amores. Desaparecidas ficam as memórias das vidas, graças ao estratagema do monge.

Dylan e os amores é uma constante, o ser um eterno pinga-amor é uma das tropes da série, tal como o carocha branco, o assistente exímio em piadas secas, o tocar  mal clarinete, o nunca terminar o modelo de veleiro, e a campaínha avariada no número 7 de Craven Road, que soa a gritos e não ao toque habitual. O seu quinto sentido e meio é exímio em levá-lo a aventuras onde se cruza com o sobrenatural, embora, num dos toques de profunda ironia do personagem, não acredite por aí além em assombrações e monstros, embora lide regularmente com eles.

Devemos ao génio de Tiziano Sclavi esta personagem peripatética e as suas aventuras, bizarras, surreais, oníricas e tocantes. Sclavi deu corpo ao personagem, e revelou-se sempre o seu melhor argumentista (que me perdoem os fãs de Roberto Recchioni e Paola Barbato, que também se safam muito bem com o personagem). Algo que sempre me surpreende nas histórias por ele assinadas é a mestria como consegue gerir o ritmo das vinhetas, concluindo pequenas narrativas dentro da narrativa maior, ou tocando a tecla certa do suspense, no ponto exato onde se vira a página e se pode mudar de fio narrativo ou querer continuar a história. 

Echi dall'Incubo foi a minha prenda de natal para mim próprio. Colige vinte e quatro histórias curtas, escritas por Sclavi e ilustradas pelos suspeitos do costume - Bruno Brindisi, Corrado Roi, Angelo Stano ou Franco Saudelli, entre outros ilustradores da Casa Bonelli. É um mergulho no Dylan Dog clássico, revisitando pérolas da sua história editorial.

Contos Gregos


António Sérgio, Luís Abreu (1978). Contos Gregos. Lisboa: Sá da Costa. 

Confesso, não comprei este livro pelos seus textos. Por muito que goste de mitologia grega, não estou particularmente interessado em mais um recontar simplificado destas histórias que compõem o cerne da nossa cultura. Apesar de ter terminado a leitura com um sorriso, com o recontar do episódio do reencontro de Ulisses e Argos na Odisseia (amantes de cães compreendem). Por outro lado, após resumir muito bem a Argonautica, termina com um final feliz à conto de fadas para os amores de Jasão e Medeia, algo que as lendas contrariam, entre os frenesis assassinos dela e s proficiência em aproveitar-se das mulheres para alcançar o poder dele. 

O que despertou o meu interesse foi o ser uma edição, profusamente ilustrada, naquele estilo entre o expressivo e o realista que é marca estética do modernismo português. As ilustrações são assinadas por Luís Filipe de Abreu e cruzam elegãncia gráfica, remetem para os mitos e ainda têm um forte caráter expressivo. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Simbolismos via IA

Confesso, tenho um fraquinho por estas trends da cultura digital de perguntar algo diferente aos chatbots de IA. Desta vez, o prompt foi "based on all our previous interactions, create an image of how you see me. Everything should have a symbolic significance". O resultado mostra sublinha as duas grandes vertentes da geração de imagem generalista em llms.


O ChatGPT é mais "artístico" (em bom rigor, uma visão reduzida e estereotipada do que são estilos artísticos), e na explicação subsequente deu-me boas razões para eu estar a ser tão agarrado por mãos desincorporadas, labirintos, livros (bem, mas essa é óbvia) e cenas cósmicas.

Já o Gemini é  mais profissional, embora na mediania confortável da estética stock photo (diz imenso sobre o tipo de dados usado para alimentar o treino dos modelos do nano banana), até me faz parecer uma pessoa respeitável e cenas. O café é um bom pormenor. Tendes razão, IA, tenho mesmo de ir buscar mais um.


Podia ter parado por aqui, mas atirei a questão ao Gemini com outra conta que uso. Qual é a diferença de resultados? A segunda conta é a de escola, que uso massivamente para explorar vibe coding com os alunos, bem como demonstrar-lhes técnicas de interação com temas da disciplina de TIC. Obviamente, o resultado espelha a natureza destas interações.

Isto vale o que vale, não vejo aqui nenhum carácter de pitonisa nestes chatbots, mas não deixam de ser um intrigante espelho das nossas personalidades.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

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Robot Dreams and Terrors, Amazing Mystery Funnies V2 #11: Um soco que é capaz de ter doído mais ao herói do que ao robot. 

Las alucinaciones de la IA están afectando a un sector muy concreto: el de los bibliotecários: Sintomas da preguicite mental induzida pela falsa sapiência da IA. 

The Funniest Books of the 21st Century: Literaturas que nos fazem rir.

A magia, o mundano e o fantástico em The Incandescent: O mundo da educação como palco para uma obra de fantasia? Intrigante, depois de perceber que não é a idílica sala de aula do colégio interno, mas o lamaçal do dia a dia docente e organizacional, que está em retrato. 

E mais um continho em ingl... não, espera... em espanhol, agora é em espanhol: A FC portuguesa acessível a outros leitores.

BruceS / Dec 11, 2025: Uma antevisão dos personagens cujos direitos de autor vão expirar em breve, passando a pertencer ao domínio público. 

20 Sci-Fi, Fantasy, and Horror Authors Pick Their Favorite Sci-Fi, Fantasy, and Horror Books of 2025: Leituras do ano, escolhidas por autores que estão agora a dar cartas no género. 

Five of the best science fiction books of 2025: É curioso ver que o There is no Anti Memetics Division está a ser constantemente incluído nas listas de melhores leituras do ano, e, francamente, é merecido. 


Exotic locales in the Solar System: Paisagens alienígenas. 

Disney invests $1 billion in OpenAI, licenses 200 characters for AI video app Sora: Que bom, a Disney agora vai meter-se no mercado do AI Slop. Tudo o que lhes permitir não pagar a criadores, animadores e artistas é justificável. Diga-se que a Disney se tornou a personificação da estagnação cultural, vive essencialmente de reempacotar o conteúdo que já tem, remastigando em versões, variantes, sequelas e prequelas, e não inova ou cria algo de novo. Para esta empresa, a cultura pop é um negócio de mero entretenimento (bem, isto é verdade para todos os envolvidos no mundo pop) e o que interessa é dominar a atenção com o menor esforço possível. 

Disney says Google AI infringes copyright “on a massive scale”: O timing disto é interessante. Na mesma altura que anuncia o seu investimento na OpenAI é que a Disney se torna paladina da defesa da propriedade intelectual no mundo do treino dos algoritmos. O facto de estar a acusar a concorrente direta da OpenAI é, certamente, mera coincidência. 

Z-Image chega ao iPhone via Draw Things: Gerar imagens offline, sem limitações, em iOS. 

China Launches 34,175-Mile AI Network That Acts Like One Massive Supercomputer: Uma rede de computação interconectada a uma escala que aqui na Europa até seria possível, mas há que ter vontade e não apenas declaração de intenções. 

How Governments Turn the Internet Into a Weapon: A forma mais elegante é a sua instrumentalização através da desinformação, mas a variante bruta, o simples desligar dos acessos, é também muito eficaz. 

Literal Teens Are Losing It All at Crypto Casinos: A linha entre vigaristas e influencers é muito ténue, como qualquer um que utilize redes sociais já o sabe, e ainda mais na chusma de predadores que se dedicam a explorar os mais jovens. Nota para qualquer um - nos casinos, quem ganha sempre é banca, por muitos vídeos que por aí vejam de influenciadores de sucesso a ganhar milhões. Eles ganham, mas não é no jogo - são pagos para passar a imagem falsa do sucesso no casino. 

Nervous System: Where Nature Meets Code: A sempre interessante interseção de programação, arte generativa e objetos físicos. 

Nano Banana Sketch to Image: Algo que experimentei com os meus alunos no início do ano, ainda na versão anterior do nano, e que me permitiu pegar em desenhos deles para posteriormente lhes entregar como objeto 3D. 

*Of course I’ve used every single one of these dead media: Bem, pessoalmente nunca tive enderelo aol (mas tive acesso Telepac, conta?), e nunca atirei com os ossos para cima de um colchão de água.

You’ll Never Guess What Volkswagen Is Pivoting Its Newly Closed German Plant to (Yes You Will): E faz sentido, os conglomerados industriais tradicionais têm de investir em desenvolvimento tecnológico para manter a sua competitividade.

La soberanía tecnológica en la era de las dependencias invisibles: Diria que hoje em dia, dada a complexidade das teias das cadeias industriais de materiais e tecnologia, é impossível haver uma total independência tecnológica. Depende-se sempre de alguma tecnologia ou matéria prima que vem de outros países.

AI Industry Insiders Living in Fear of What They’re Creating: Na verdade não estão, o que fazem é usar a especulação apocalíptica para não terem de enfrentar e discutir as problemáticas que a IA traz nos dias de hoje. É mais confortável imaginas AI overlords futuros do que enfrentar o problema da desinformação gerada por IA.

The great AI hype correction of 2025: Terá sido este o ano em que começamos a largar os deslumbres com a IA e experimentar com os caminhos que nos são mais úteis e criativos.

Ian Miller: Falecidos aguerridos. 

Aging Out of Fucks: The Neuroscience of Why You Suddenly Can’t Pretend Anymore: Bem, o artigo é sobre neurofisiologia feminina, mas confesso que me identifico cada vez mais com isto. No meu dia a dia, a minha paciência para lidar com mentiras óbvias, patetices e idiotices anda a tender para o nulo. 

Man shocks doctors with extreme blood pressure, stroke from energy drinks: Chama-se a isto ganhar asas, certo? 

A Brief History of the Spreadsheet: A história da ferramenta digital que se tornou essencial para organizar e gerir a vida moderna. 

AI image generators are getting better by getting worse: Um elogio às impefeições algorítmicas, o principal indício que nos ajuda a distinguir o falso do real na era digital. 

Embrulho sem surpresa: O fugir aos algoritmos de sugestão como forma de descobrir novas sonoridades, e uma das melhores observações sobre IA que já li - "nestes tempos de “inteligência artificial generativa”, que na maioria dos casos não é tanto generativa como derivativa". Assenta como uma luva, não assenta? 

Why You Should Remember the Roomba, Even After iRobot Is Kaput: De criadores de uma nova tecnologia e mercado a marca comprada por aqueles que lhes clonaram a invenção e invadiram o mercado com cópias cada vez melhores. Isto não é uma história sobre tecnologia, mas sim sobre as agruras do capitalismo. 

The Longest Suicide Note in American History: Coisas que acontecem quando se deixa os mais idiotas fanáticos ideológicos à rédea solta: "the authors do focus on one enemy ideology. It is not Chinese communism, Russian autocracy, or Islamic extremism but rather European liberal democracy. This is what this radical faction really fears: people who talk about transparency, accountability, civil rights, and the rule of law".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A Vida no Século XXI


Arthur C. Clarke (1986). A Vida no Século XXI. Lisboa: Europa-América.

É sempre interessante revisitar estes textos futuristas, evitando sempre o tom condescendente na leitura. É claro que as predições não se concretizaram, este tipo de textos são extrapolativos e especulativos, não oráculos, e mostram-nos muito sobre as ânsias e esperanças do tempo passado. Apesar de não serem preditivos, são interessantes na forma como identificaram tendências de evolução tecnológica e social que, embora não se concretizando de forma linear, se fazem sentir no nosso mundo contemporâneo. Neste que é o real futuro, percebemos ao ler textos especulativos informados do passado que muito do que fazemos hoje já era preocupação nesses tempos. 

As especulações de Clarke são informadas, baseadas em análises e entrevistas com especialistas. Olha para a robótica, antevendo um futuro próximo em que os humanos poderão livrar-se do trabalho manual, entregue a robots. Imagina redes de transporte rápidas e eficazes, combinando aeronaves supersónicas, comboios de alta velocidade e hovercrafts para deslocação rápida e barata para qualquer parte do planeta. Na saúde, cruza o desenvolvimento tecnologico e da ciência médica com uma visão muito benévola da medicina privada (ah, a inocência), enquanto na educação extrapola, e muito bem, a necessidade de sistemas de formação ao longo da vida para cidadãos que terão de se atualizar, bem como a vontade de aprender mais. A sociedade informatizada em que vivemos é vislumbrada, por vezes em pormenores curiosamente certeiros - o uso de IA para advocacia ou sistemas automáticos para saúde mental são dois exemplos, mas Clarke não prestou atenção ao potencial da então nascente internet, e extrapolou futuros de telefones por vídeo e cassetes VHS. Não podia falta um capítulo sobre guerra, que me pareceu algo decalcado de The Third World War de John Hackett, e daí o conceito que retirei foi a visão da imutabilidade futura de um mundo dividido entre dois blocos, o ocidental e o soviético.

Nestes dias de um futuro distópico, em que sentimos as liberdades e garantias a resvalar sob pressão de conservadorismo radical, em que a promessa libertária da internet foi esmagada pelas grandes empresas para construir o que é pouco mais do que uma máquina global de extração de dados que vicia os utilzadores, perante o quadro grave dos efeitos das alterações climáticas e o resvalar do mundo geopolítico para um sistema de autocracias e novos totalitarismos, o mais refrescante destas leituras é o seu lado de inabalável otimismo. Qualquer que fosse a extrapolação, é patente a fé de Clarke num futuro melhor, numa ideia que o progresso era imparável e nos iria melhorar, enquanto sociedade e ao nível individual. Essa promesa, sente-se o quão longe está de ser cumprida.