segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Bookhaul

Já se sabe como é. Inevitável, diria. Parte-se de viagem a pensar que se será comedido nos livros, e ao regressar, a mala só fecha por milagres. Estive uns dias em Florença a participar no simpósio COSPAR, e, claro, entre Feltrinelli (gosto especialmente da que está na estação de Santa Maria Novella, se bem que as da via Cerretani e da praça da República também tenham um bom acervo) e Libraccio, houve aquisições impossíveis de resistir.

Sim, admito, em Florença oriento-me mais depressa pela localização das livrarias do que pelas schiachaterias onde os magotes de turistas devoram porchetta.


Um achado, discretamente escondido na Feltrinelli da estação - uma série de volume antológicos, dedicados ao melhor do fumetti trash-horror italiano dos anos 70 e 80. Sublinho que aqui, bom é um conceito muito relativo, isto é pura exploitation originalmente publicada em lendas do género, como as revistas Oltretombe ou Sukia. 
  

Como resistir a este ensaio, que cruza as minhas duas grandes paixões? 


Não sou particularmente fã deste personagem, mas tenho uma amiga que o é, por isso quando vou a Itália tenho de meter um na mala. Esta é a mais recente aventura do criminoso Diabolik, o clássico fumetti giallo de estética muito retro.
 

E não é que até a Disney consegue ser mais fiel ao espírito da Odisseia que Nolan? Comprado para um amigo, com ilustrações absolutamente deliciosas.


Outro tema que me interessa muito, a história da tecnologia, aqui com um olhar o pensamento técnico e mecânico da antiguidade clássica.


Há em Portugal um fã inesperado do personagem clássico de Castelli (não, não sou eu), um antigo aluno que descobriu o fumetti numa lendária viagem Erasmus, há alguns anos atrás. Agora que ele se prepara para ingressar no Técnico (vai abalar aquela universidade, claro, eles nem sabem o que os espera), trago-lhe uma pequena recordação.


Claro. O que é que achavam? É o meu ritual favorito. Aterrar em Itália, sair do aeroporto e ir logo ao primeiro quiosque que encontro para comprar a mais recente aventura do detetive dos pesadelos. Por judas dançarino! 

Se bem que fiquei com a impressão de uma certa decadência da presença da Bonelli nas bancas. Das vezes anteriores que estive por terras italianas, era fácil encontrar bancas recheadas de vários números anteriores. Por Florença, nem por isso. Apenas as novidades, e poucas. Talvez seja uma questão geográfica, como cidade turística que é, faz mais sentido para as bancas venderem tralha para turistas do que imprensa.


Confesso, esta foi daquelas compras de impulso no aeroporto, à espera do voo de regresso. Zagor nunca me disse nada, mas esta capa em modo de salganhada verniana intrigou-me.


Um achado deveras técnico, um livro sobre programação em Scratch. Preciso mesmo dele para ampliar os meus conhecimentos sobre este ambiente de programação? Bem, nem por isso, mas tem alguns projetos muito interessantes no domínio das artes que quero experimentar, e vai ficar muito bem na minha coleção de livros sobre programação para crianças.


Finalmente, uma curiosa descoberta. Já estão a ver porque é que a comprei, não estão? A La Fine Del Mondo é uma nova revista mensal de banda desenhada, trazendo aos leitores italianos uma mistura de fumetti com bd experimental. Se alguma vez pensaram em ler uma revista que tanto publica a ilustração de estilo clássico do fumetti (e as desta história de Dylan Dog são soberbas), ao lado de Zerocalcare ou Shintaro Kago, esta é a publicação certa. Infelizmente é episódica, o que significa que nunca saberei como termina esta história de Dylan Dog, a menos que arranje forma de ir a Itália no final de agosto.

domingo, 9 de agosto de 2026

URL

 



L: Attila Héjja, 1984. R: Tony Roberts, 1981: Opera espacial. 

5239) Nove fatos que ocorreram de verdade (17.6.2026): Quando a história é mais inesperada do que a ficção

En China, los 'bookfluencers' son el motor de ventas de la industria editorial. El problema es que nadie puede leer 700 libros: Seriam pelo menos dois livros por dia durante o ano, algo impossível para o mais voraz bibliófilo. Mas destaco este artigo por outro aspeto - na era da omnipresença do vídeo nas redes sociais, o livro não só não perde o seu lugar (que eu assumo ter sido sempre de nicho, porque aquela visão bucólica do passado onde toda a gente lia simplesmente nunca aconteceu, o prazer e esforço mental da leitura sempre foi de uma imensa minoria), como se aproveita destes novos mecanismos para promoção. 

The terrifying world of the 'TikTok Farlands’: Assustador? Muito pelo contrário. É talvez um dos poucos recantos digitais onde se consegue experienciar estéticas de vanguarda, desafiantes, arrojadas e experimentais. Ok, percebo, é exatamente isso que assusta os normies. Da minha parte, confesso que dos backrooms ao weird core, passando pela IA experimental, vejo as far lands como uma das mais arrojadas expressões contemporâneas de criatividade. 

The Golden Age Of Bond Villains: Apesar de nunca ter sido especialmente fã do senhor Bond, James Bond, rendi-me à forma como Charles Stross encara esta personagem e a sua evolução ao longo do tempo. 

Why All The Conspiracy Movies Right Now?: Talvez, de forma simplista, como reflexo aos tempos complexos em que estamos a viver, com tanta coisa a acontecer que nos parece ultrapassar. 

Chamem-me Cassandra: Uma premissa intrigante, que cruza a história do século XX com os milenares mitos gregos. 

Backrooms: Quem tem medo dos liminal spaces?: O pessoal do Sh/fter mergulhou a fundo nos mitos contemporâneos dos backrooms e espaços liminais. 

The Movie ‘Obsession’ Is Raking In The Money, But Who’s Seeing The Profits?: É uma conversa legítima, mas só a estamos a ter porque o filme ganhou a lotaria do sucesso, quer crítico quer comercial. 

Um quadrado de Céu – Joana Afonso e Susana Moreira Marques: Um olhar para a história portuguesa recente, com o traço excecional de Joana Afonso.


retroscifiart: Art by Jack Woolhiser for The Three: Grandes insectos. 

AI Is Taking Over Hospitals: Apesar dos riscos, e do cuidado dos médicos - "most people will ignore the warning. AI has already wormed its way into the U.S. health-care system, evidence and safeguards be damned." 

An interesting experiment with LLMs: Confesso que não sou imune a um text gerado por IA que critica a forma como a IA está a ser desenvolvida e implementada. 

Pluralistic: AI digital sovereignty risk doesn't exist (18 Jun 2026): Para não variar, Doctorow a ser certeiro. O problema não é a IA, é toda a soberania digital. Torrar dinheiro a desenvolver modelos nativos enquanto se mantém a infraestrutura digital nas mmãos externas não é conducente à soberania digital. Nota semântica: "ormuzar" tornou-se uma expressão, que significa travar fluxos em pontos de estrangulamento. 

Midjourney lança scanner corporal ultrassónico: Confesso que, dado o papel da Midjourney no desenvolvimento de algoritmos de IA generativa, não percebo a lógica deste passo, nem a relação entre geração de imagem e sistemas médicos. 

TikTok Has Been Completely Taken Over by AI Slop: Não digo totalmente, mas que tem crescido, tem. E nisto, a perfilagem dos utilizadores tem muita culpa. No meu caso, o conteúdo gerado por IA que me chega é precisamente o que mais me interessa - vídeo experimental e artístico. Tem a ver com o meu perfil de utilizador. Para outros, vai o slop generalizado, mas se me permitirem o reparo, o slop que entope as redes não é unicamente IA. Basta ver os vídeos da esmagadora maioria dos influencers para perceber isso. 

Companies That Embraced AI Are Now Rotting Away in a Very Specific Way: O que acontece quando se mergulha a fundo sem saber o que se pretende? Esta adoção prematura da IA em força ilustra bem como a lei de Murphy não perde a validade. 

Havelar Prints a Public Building in Nine Days and Delivers It on Budget: É interessante ver empresas portuguesas nos campos da construção civil por impressão 3D a construir edifícios concretos. 

What Amazon’s Astro Taught Me About Giving Robots a Soul: Mesmo sabendo que são simuladas, a importância de dotar a interação robot-humano de emoções. 

Norway Says AI Ain’t for Education: Como educador com alguma experiência nisto, percebo a lógica. Também me parece que soltar as crianças na ferramenta de respostas fáceis que é a IA é uma excelente forma de garantir que não desenvolvem a capacidade de construir conhecimento. Por outro lado, o banimento completo não me parece ser a solução. 

Companies are profiling you from your smartphone use - how to stop them: Um guia de como minimizar a recolha excessiva de dados e a perfilagem algorítmica. E não resisto a um pequeno detalhe - numa oferta comercial, uma conhecida marca de telemóveis mostra como um trunfo o ter dotado os seus equipamentos de um ecrã privado - um tipo de ecrã que não é visível de muitos ângulos, protegendo o utilizador de olhares alheios. É muito giro e bonito, mas por definição, o telemóvel está aberto a todos os comportamentos digitais predatórios das operadoras, plataformas e ecossistemas. Todos os dados dos utilizadores são presa apetecível para as empresas, mas hey, pelo menos se se for no metro ninguém consegue ver o que estamos a ver no ecrã, certo? 

When Super-Chickens Started to Roost: Isto soa tão familiar, não soa? "“There is nothing wrong with healthcare that getting rid of doctors won’t fix. There is nothing wrong with education that getting rid of teachers won’t fix." são as litanias habituais dos tecnosolucionistas, que reduzem sistemas complexos à sua visão mercantilista, e que quando têm oportunidade de aplicar as suas brilhantes soluções tecnológicas, geralmente deixam os serviços com problemas ainda mais graves do que os que já existiam. 

Commemorating 70 Years of Artificial Intelligence: Não parece, pois não? Mas se o disparo no crescimento da IA é recente, a tecnologia em si já tem um longo historial. 

The Moonshot: Sabemos que precisamos de investir em modelos de IA soberanos europeus, senão ficaremos irremediavelmente a reboque/dependentes dos caprichos norte-americanos, ou da fria estratégia chinesa. É possível? Sim, mas requer um nível de comprometimento e investimento que está muito acima das habitais declarações bem intencionadas da comissão europeia. E a realidade é que as capacidades desenvolvidas pelas empresas americanas estão muito mais avançadas do que as europeias estão a conseguir (como qualquer pessoa que experimente usar o Mistral e o Claude para as mesmas tarefas de forma comparativa depressa percebe). 

Microsoft quiere llevar la presencia laboral un paso más allá: Teams podrá saber si estás en la oficina por el WiFi: Sou só eu a pensar que isto é assim um 'cadito creepy e invasivo? 

Frustrated Microsoft Researcher Uses Goats in ‘Age of Empires II’ to Demo the Absurdity of LLMs: Muito bem visto. Basta mudar a metáfora, e deixamos de ver a IA sob prismas antropomórficos.


thefugitivesaint:Alicia Austin, “Science Fiction Review”: Elegância clássica. 

What Did You Expect?: Não há volta a dar. A guerra no Irão teve um final desastroso para os Estados Unidos, com mais uma clara indicação da incapacidade dos seus líderes. 

Portugal buys two additional ICEYE spy satellites: A aposta portuguesa no espaço, que faz todo o sentido. Esperemos que haja aqui a possibilidade de desenvolvimento de conhecimento e transferência de tecnologias. 

Meet the New Bosses, Worse Than the Old Bosses: Os comportamentos predatórios dos bilionários estão tão descarados que até os analistas mais circunspectos se sentem revoltados. Mas Krugman também assinala a apatia social que se instalou, aceitando cada vez mais o inaceitável, a predação dos recursos da civilização humana para alimentar a ganância de um punhado de sociopatas. 

U.S. Air Force just greenlit two robot fighter jets: Desenvolvimentos na área dos UCAVs autónomos. 

Iran Has Humiliated Trump: Aprofundar um pouco mais a absoluta estupidez da guerra contra o Irão, que termina com o regime ainda mais resistente, com a retirada de sanções e o pagamento de reparações de guerra. O pouco prestígio que os EUA ainda tinham sai mais abalado, e quanto ao argumento da sua força militar, é de notar que a força esmagadora americana não aniquilou um inimigo mais fraco, mas determinado, bem preparado, e que não hesitou em usar as estratégias mais eficazes. Contra o poderio militar americano os exércitos convencionais de pouco valem, mas paralisar um estreito com meios rudimentares funciona. Isto vai ser um case study de estupidez política e estratégica.

ANOS 80, GUERRA FRIA E UMA BASE AEREA PORTUGUESA - 2ª parte: A base continua sem ser denominada, mas por alguns pormenores divertidos do dia a dia, suspeito que seja a do Montijo. Vale a pena ler a memória histórica, e os registos fotográficos. 

Greece’s Parthenon Just Reclaimed a Missing Piece of Its Ancient Silhouette: E dá logo vontade de lá regressar, só para ter mais um vislumbre deste monumento ao nosso fascínio pela herança helénica antiga. 

 Now where?: Certeiro - "Those Asian leaders—who again represent most of the projected increase in demand for energy—would have slowly moved in the direction of cheap clean energy. But now they don’t have to go slowly, with one eye over the shoulder to make sure a wrathful America doesn’t punish them." O esforço trompista por reverter a transição energética, de tão desastroso que está a ser, acaba por ser mais um incentivo para acelerar a transição. Porque, se se pode ormuzar o petróleo, não se pode fazer o mesmo ao vento e ao sol. 

I am obsessed with these two ads: Hipermodernidades, ou a aplicação desnecessária de tecnologias de ponta. 

The Warrior-Witches of Ukraine’s Resistance: Um olhar para a corajosa e implacável resistência ucraniana, capaz de tudo para combater os invasores russos. 

Controversial MIT Study Investigates What’s Really Worse for the Environment: Gas or Electric Cars: Não é difícil perceber quais as conclusões, apontando para que os elétricos, quer os totalmente quer os de propulsão híbrida, têm um impacto ambiental menor que os veículos de combustão interna. 

Has Blogging Ceased To Matter?: Eu cá também acho que não (mas, claro, sou suspeito). O artigo mostra bem o problema - blogar continua a ser uma excelente forma de contribuir para a cultura digital, mas entre a pressão das redes sociais e a influência da monetização com o correspondente resvalo da escrita para a produção de conteúdos, perdeu-se a vertente de diálogo entre bloggers.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Breviário das Más Inclinações


José Riço Direitinho (2011). Breviário das Más Inclinações. Lisboa: Quetzal.

Acompanho há bastante tempo o panorama da literatura fantástica portuguesa, e apesar das muitas leituras que tenho feito, são raros os livros que realmente exploram estéticas de um fantástico verdadeiramente português. Não que desgoste do que se faz, mas vejo na nossa literatura fantástica uma preocupação em recriar padrões externos, ou explorar as estéticas comuns ao terror e fantasia globais. Fantasmagorias, assombrações, criaturas de pesadelo, ambientes góticos, body horror, que estão tão à vontade nos becos lisboetas como nas vielas londrinas. Advém das influências que moldam os nossos criadores, e de um espírito de cosmopolitismo urbano que o desenvolvimento do país fez alastrar das grandes cidades a todo o território. Alguns criadores olham para os mitos portugueses e tentam recriá-los nestes quadros conceptuais, trazendo as especificidades da nossa cultura para os domínios do fantástico.

Mas há um outro Portugal, cada vez mais desaparecido no emaranhado de vias rápidas e infraestruturas que aproximam os lugarejos mais perdidos da modernidade contemporânea. Um país de isolamento, de superstições arreigadas, de mitos locais, de gentes que vivem em territórios agrestes, num mundo onde a pobreza, o parco alfabetismo, a religiosidade cristã, mitos e superstições milenares e as paisagens agrestes convivem. Um país que hoje recordamos mais pelos registos etnográficos que podemos visitar nos museus municipais das zonas interiores urbanizadas, que recordam os tempos de um passado mais isolado. Passado, certo, mas não tão distante quanto isso. Certamente que muitos da minha geração ainda recordam o olhar centenário e as rugas dos nossos avós e bisavós, as suas histórias estranhas e visões de um mundo rural tão distante da nossa vida urbana e suburbana. Dessa memória do passado há tantos mitos e tradições que trazem um fantástico cru, por vezes violento, telúrico e milenar, mas a que poucos escritores têm tentado pegar, e, por ironia, os que melhor olham para estas estéticas e mitografias são autores que não estão associados ao género.

Recordo livros como O Meu Mundo Não É Deste Reino de João de Melo, Como Sobreviver Depois da Morte de André Costa, ou Andam Faunos Pelos Bosques de Aquilino Ribeiro (admito, aqui estou a esticar um pouco a corda...), que mergulham o leitor num fantástico do saber rural, dos seus ritos e mezinhas. Um, com a revisão da povoação dos Açores através da história de um homem duro, outro com o congelar das memórias num tempo em que a modernidade começa a alterar a tradição, e no brilhantismo de Aquilino a colisão entre o saber do povo, a condescendência do clero e as pulsões do corpo.

Adiciono este Breviário das Más Inclinações a esta restrita lista. É um livro que nos mergulha num isolamento raiano que se começa a esboroar, entre a guerra civil espanhola e a inevitável modernização, mas que ainda se mantém como mundo de mitos e mezinhas, de saberes populares com profunda ligação à natureza, de histórias e prodígios que se contam e recontam entre as vozes das comadres e das noites nas tabernas. Onde o mundo natural, de lobos e javalis, é mortífero, e o mundo humano, feito de jogos, invejas, enganos, também o pode ser.

Há uma certa base de romance de cordel no conto cruel de José do Risso, criança que nasceu com má sina e a herdar  a sabedoria da avó para mezinhas curandeiras. A vida será trágica e curta, entrecortada com episódios de honestidade duvidosa, momentos em que o homem faz aquilo que tem de fazer, quer seja em resposta às pulsões do corpo quer do sentido pessoal de justiça. 

O que distingue a narrativa é envolver-nos num véu de misticismo tradicional e sobrenatural discreto. Não há fantasmagorias ou criaturas do demo, mas há um constante sentimento de assombro, de um mundo natural compreendido através de superstições milenares. 

A prosa é brilhante, daquelas que nos prendem às páginas, mas o que destaco da leitura é o não ter medo de tocar nas correntes subterrâneas por onde pulsa o lado mais remoto do caráter português.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Umbra #06


Filipe Abrabches, et al (2026). Umbra #6.

Estamos a ficar mal habituados. Este sexto número da revista Umbra mantém a elevada qualidade criativa e narrativa, trazendo-nos histórias desafiantes e bem tecidas. Uma delas recupera o trabalho de um que já não está entre nós, ficando a promessa de continuidade a estas pranchas intrigantes. 

Uma certa ironia negra é o grande tema deste número, com histórias que tocam no pós-apocalíptico, na ficção científica ou no cosy horror, sempre com finais de irónica dureza. A novidade desta edição é abrir-se ao mangá, mostrando o amadurecimento crítico da aceitação da BD japonesa, que nos está a permitir conhecer obras muito mais interessantes e bem conseguidas do que o lado pop e comercial.

Lida a sexta edição, resta esperar pela próxima. 

domingo, 2 de agosto de 2026

URL


Photo: Continuamos sem saber como. 

Sci-fi horror film Backrooms is a triumph for its 20-year-old diretor: Já vi, e embora não seja um filme perfeito, gostei. O mais interessante nem é a história em si, mas os ambientes arrepiantes de estranheza através de arquitetura banal quase normal que utiliza. Ou seja, a essência do conceito e estética dos backrooms, cuja sensação é a que perdura após a visualização. 

Devaneios com URL: Olhares urbanos, entre o fantástico literário e a realidade que parece fantástica. 

Six Books That Take You to Space: Sugestões de leitura na área da FC clássica. 

The Great Divide: Creativity Before And After AI: No fundo, é isto - "Perhaps you’ve started treating books, articles, essays, and emails written today differently from anything before, say, 2022. On hearing a polished sonnet in effortless iambic pentameter at a wedding toast, you may now smell a rat. If that reflex hasn’t set in yet, my bet is that it will soon.

The ‘Doctor Who’ Situation Is Even Worse Than We Thought: Não será o fim de série, mas diga-se que a partida do argumentista que tem sido um dos seus criadores mais influentes abala, quer o fandom, quer a série em si. 

Doctor When: Warren Ellis a colocar o dedo na ferida da cultura pop - tem sido um remastigar de velhos ícones, e estamos a chegar ao momento em que se sente o esgotamento total deste modelo: "One or two swallows don’t make a summer, but right now it looks like old science fiction inflected IP is reaching a hiatus point.

The Best Sci-Fi & Fantasy Novels, as Chosen by Fans: the 2026 Hugo Awards, recommended by Sylvia Bishop: Os destaques e vencedores dos Hugo deste ano. 

Final Cut: É uma excelente edição, que traz o traço e o imaginário de Charles Burns para os leitores portugueses.


Space Pirates Of Xarpot: Delícias pulp. 

Social Media Is Now Parasocial Media: Diria que danah boyd até foi simpática. O caminho correntemente trilhado pelas redes sociais é mais de redes anti-sociais. O dedo está na ferida - a promessa, cumprida nos seus tempos iniciais, de interligação e laços interpessoais diluiu-se com os incentivos à monetização das redes. Primeiro, a curadoria algorítmica que privilegiou discursos negativos para garantir a atenção dos utilizadores (trazendo com isso consequências de extremar da vida social que estamos hoje a sentir na pele). Agora, o abandono da ideia de rede social como local virtual onde partilhamos o que gostamos e queremos ver aquilo que os nossos amigos partilham, em direção a uma espécie de broadcast media onde o conteúdo banal de influencers e o conteúdo sintético gerado por IA são privilegiados em detrimento do que os utilizadores publicam. É um efeito real. Noto, nas redes meta, esta invasão em força. Recentemente fiz uma limpeza aos criadores que sigo no instagram e reparei que boa parte deles tem publicado regularmente, mas apesar de os seguir, o que fazem não me chega ao feed social. Há alternativas, redes descentralizadas (o fediverso, essencialmente, e o bluesky em menor medida - o ter sido fundado pelos criadores do twitter não me enche de confiança sobre a suposta abertura dessa rede) onde não há algoritmos que medeiam o que é publicado e o que nos é permitido visualizar. É a alternativa possível à destruição das ágoras digitais pelo capitalismo extrativista. 

Racist comments targeting politicians tripled since Meta relaxed its rules: Mas isto, não é uma consequência. É intencional. Quem decide isto sabe muito bem que o discurso de ódio rende visualizações. 

We Are Crowd-Sourcing the Panopticon: O nosso afã em registar tudo, a omnipresença das câmaras entre a videovigilância e os telemóveis, é uma enorme benesse para as forças repressivas. Mesmo nos estados democráticos, a tentação para abusos de poder existe. 

Your Search Results Are Getting Sloptimized: SEO para a era dos chatbots, ou a inserção de textos pensados exclusivamente para convencer chatbots de IA a aconselhar bens e serviços aos seus utilizadores. 

Fully autonomous drones have killed human soldiers for the first time: A questão que se levanta, é porque demorou tanto tempo a acontecer isto, dada a intensidade do conflito na Ucrânia. 

What it feels like to work with Mythos: Se por um lado é fascinante ler sobre as capacidades deste novo modelo da Anthropic, a verdade é que sabemos que o deslumbre durará até ao próximo modelo incrível e fantástico que fará esquecer o brilhantismo dos anteriores. É o ciclo de hype da IA, em contínua aceleração. 

Meta reportedly moves to unwind $2B Manus deal after Beijing’s demand: Esta é inédita, e discreta. Notem que se fosse Bruxelas e não Beijing a obrigar à quebra deste negócio, teríamos o habitual coro de refilice contra o excesso de intervencionismo da comissão europeia. Com os diktats do camarada Xi, ninguém refila. Não surpreende, o mercado chinês é demasiado apetecível. 

Anthropic shuts down Fable, Mythos models following Trump admin directive: E se isto não funcionar como um toque de alarma (mais um…) sobre a excessiva dependência europeia de tecnologias desenvolvidas nos estados unidos, e, por isso, sujeitas às suas leis e caprichos dos seus líderes, estamos mesmo em maus lençóis. 

What Machines Dream Of: A história da robótica, vista sob a lente das artes digitais. 

These Logs of ChatGPT Allegedly Driving a Suicidal Woman to Her Death Are Deeply Disturbing: A primeira questão é porque diabos se acha que um chatbot pode ser um auxiliar de saúde mental (e isto é o clássico paradoxo perigoso que Weizenbaum identificou com o seu ELIZA, o nosso gosto em abrir a alma a interfaces digitais). A segunda questão, é porque diabos quem trabalha do desenvolvimento destes chatbots não assume responsabilidades pelo óbvio descuido na sua implementação. 

Grecia se las prometía muy felices cuando automatizó la vigilancia del tráfico a una IA. Hasta que se puso a multar: Os riscos de implementação de algoritmos, sem as devidas precauções. Note-se que os erros indicados passam-se em situações de baixa luminosidade, onde é mais difícil à visão computacional reconhecer com rigor aquilo para que foi treinada. 

Pluralistic: AI and amateurism (15 Jun 2026): Destaco um pormenor, que bate muito certinho com a minha própria perceção: "And while I am broadly very skeptical of AI, and deeply alarmed by the proliferation of "vibe coded" software in production environments, vibe coding for personal projects is a useful and exciting addition to the lineage of tools that let computer users decide how their computers will work."

Leituras da Semana (#119 // 15 Jun 2026): O destaque que fiz ao texto de Doctorow segue outros caminhos (parece sincronismo, não parece?). Já o João destaca, e muito bem, as relações de interesses e poder que estão a direcionar a introdução forçada da IA no mundo laboral. Quanto à observação sobre os iPads, João, só te posso dizer que há muito que sinto isso. Houve uma altura em que olhei com imensa atenção para os dispositivos móveis, pensando que a mobilidade e portabilidade iriam ser excelentes ferramentas criativas. O uso depressa me fez perceber que não seria assim. Não por questões inerentes à tecnologia em si, ou à capacidade dos criadores de aplicações, mas sim por ter compreendido que os pilares de desenvolvimento para dispositivos móveis estão direcionados para consumo e entretenimento. Isto, foi uma óbvia opção de quem desenvolve os dois principais sistemas operativos móveis. Repito: não é uma questão técnica ou de interfaces, é uma escolha de gestão. A IA está a seguir o mesmo caminho, com a agravente dos muito previsíveis impactos negativos que já estamos a ver.

A Day In The Life Of A Principal Using AI: Uma partilha interessante, que mostra como a IA faz imenso jeito para o tédio das tarefas administrativas.

The EU won't pursue a mandatory game preservation law: Ou, sendo mais direto, desconsiderando o gaming como cultura.


sharkchunks: H.R. Giger’s early works: Clássicos. 

Rheinmetall signs deal to build heavy-lift military drone: Entre as lições da guerra ucraniana e uma possível resposta às recentes capacidades chinesas neste domínio. 

Did a Chatbot Write a Prize-Winning Story? Does It Matter?: Os riscos dos juízos estéticos baseados na suposta sabedoria das massas. 

Villa Baviera y Colonia Dignidad: la sórdida historia del retiro dorado de los nazis en el interior de Chile: Do legado nazi ao dark tourism, uma localidade bucólica que deu abrigo a torcionários e criminosos de guerra. 

A vida de um desempregado à espera do apocalipse laboral: O artigo captura muito bem o zeitgeist das novas gerações, entre a espada do desemprego e a parede dos delírios da extinção laboral via IA. Se bem que, pelo apelido do autor, suspeito que o seu drama de jovem desempregado é bem mais leve do que os de recém-licenciados da classe média suburbana, que não têm a vantagem de ter um apelido sonante e os contactos familiares que o acompanham. 

De dónde viene la electricidad en cada país del mundo, contado en un mapa imprescindible: Ainda longe do que desejaríamos ser o melhor para o planeta, mas a transição para energias limpas é hoje uma tendência imparável. 

ANOS 80, GUERRA FRIA E UMA BASE AEREA PORTUGUESA - 1ª parte: O artigo é interessante, especialmente pelas fotos antigas de aeronaves, mas fica por dizer qual a base aérea de que fala. Assume-se que Beja, talvez, pelo seu caráter como zona de treino internacional? 

Billionaires’ Billions Are Increasing Faster Than Ever: Não, por muito equilibrado e moderado que se seja, não é possível ver este disparo de riqueza acumulada nas mãos de um punhado de pessoas como algo positivo para a humanidade. 

The world’s first trillionaire is a killer: Claro, esperavam que alguém quisesse acumular tanta riqueza sem ser um completo sociopata? O artigo olha para a forma como a gestão muskiana do departamento de eficiência, que cortou a torto e a torto em todos os programas sociais do governo norte americano, teve consequências letais. Desde o regresso da fome a zonas carenciadas do planeta, à incontrolabilidade de surtos epidémicos graves. Mas hey, haver trilionários é algo aspiracional, certo? O resto da humanidade que se lixe. 

Has The 21st Century Been A Creative Blank Space?: Sim. Mas, também, não. Sente-se a cultura, especialmente a pop, fossilizada no facilitismo da nostalgia, no lucro fácil da propriedade intelectual repetida e explorada à exaustão. Mas, nas fímbrias, há quem desenvolva novas estéticas e obras desafiantes. 

Software Update Automatically Turns off Amazon Delivery Drivers’ AC During Dangerous Summer Heat: Algo me diz que esta atualização de software, tão poupadinha de energia e ambiente, não se aplica aos veículos, aviões ou iates do dono da Amazon. 

No pueden pagar el delivery, así que la Gen Z coreana ha encontrado su chute de dopamina en apps que no venden nada: Vá, não é uma epítome máxima do capitalismo um comportamento cultural em que por falta de dinheiro, se ande a navegar por apps de compras falsas só para ter o gostinho de uma pseudo-participação no frenesi do consumo. 

Como o Norte transformou o kitsch numa “cena estética”: Um cruzamento inesperado entre estéticas pimba, nostalgia e o momento contemporâneo.