domingo, 12 de julho de 2026

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Syd Mead’s concept art for an Arctic Mobile Operation Base: Clássicos. 

This Literary AI Scandal Changes Everything: Se se vir a literatura como entretenimento, algo a que as massas têm sido condicionadas pelo marketing das indústrias criativas, isto é a consequência óbvia - a automatização generativa literária (e audiovisual). Diria que não vale a pena chatear-mo-nos muito com isto. Chico espertice sempre existiu (do plágio ao ghostwriting), e o real problema que vejo com estes maus exemplos é ajudar a polarizar a discussão sobre a tecnologia, tornando mais difícil o trabalho e aceitação dos que usam a IA para experimentar novas formas de olhar, onde é uma excecional ferramenta criativa. 

Before Pixar, There Was ‘The Works’: A Lost Chapter In The History Of Computer Animation: Não resisto a duas notas - a nostalgia com a estética do CGI incipiente, e o recordar que, à época, isto era tão mal visto e apontado com dedo acusador como "artificial" e "desumano" como hoje falamos de IA generativa. 

I Am Begging You to Read Terry Pratchett: Demorei a ler este autor, e quando o descobri, percebi o fascínio dos seus fãs. A combinação de humor mordaz, erudição, elegância literária e imaginário é, de facto, fabulosa. Apesar do brilhantismo, temo que se esteja a tornar num outro Ballard, também escritor elegante, influente e essencial do século XX que parece estar a ser esquecido. No caso de Pratchett, até se percebe. O simples facto de ter escrito essencialmente literatura fantástica é anátema para o establishment, e suspeito que há por aí muito prémio nobel (ou booker, ou gouncourt) que teria chiliques de inveja perante a elegância da prosa de Pratchett. 

Luminous: cyberpunk emocional: Suspeito que literatura em reação à distopia. 

The Slop Before The AI Slop: Toda a celeuma sobre o uso de IA generativa na literatura tem uma longa história, que antecede em muito as experiências de escrita computacional. 

AI-Writing Scandals Are Getting Very Confusing: Em parte, os escândalos são justificados. Pseudo-autores que geram os seus textos de forma automática é puro chico-espertismo, e na verdade, fraude. Por outro lado, ver autoras que até foram nobelizadas a levar nas orelhas por admitirem utilizar IA é apenas pateta. Porque se forem ler o que realmente foi dito, percebem que é o melhor uso possível da IA, como forma de explorar ideias e procurar vertentes, e não a automatização da escrita a metro que é apanágio dos vigaristas. Mas nem vale a pena falar disto, porque neste momento, a discussão sobre a IA está demasiado polarizada, oscila ente o deslumbramento imposto por evangelistas de qualidade duvidosa (e motivação para lucro a todo o custo), e a reação de rejeição visceral, em grande parte advinda da péssima forma como a IA está a ser implementada para favorecer todo o tipo de vigarices, das culturais às laborais. Já quem usa a IA com bom senso, percebe o seu potencial (e também percebe o que não faz). 

Inocência: Rever um clássico do anime. 

Service Model – Adrian Tchaikovsky: Este tem sido um dos mais interessantes e prolíficos praticantes da arte da boa Ficção Científica. Neste romance, tão certeiro na era das incertezas da IA, mostra-se também um mestre da fina e corrosiva ironia. 


Tadami Yamada “Illustrations for William Hope Hodgson’s short weired tales Carnacki The Ghost-Finder”: Temores. 

Los ejecutivos occidentales que triunfan en LinkedIn tienen un secreto: asistentes virtuales en Filipinas que escriben por ellos: A sério que se surpreendem quando descobrem que aqueles posts partilhados pelos sociopatas do workaholism que infestam o LinkedIn não são realmente escritos por eles, mas sim subcontratados a assistentes? Diria até que é a melhor metáfora do chico-espertismo do mundo empresarial. 

Anthropic’s Code with Claude showed off coding’s future—whether you like it or not: Isto é automatização de alto nível, mas não retira a necessidade de compreensão profunda da programação e suas lógicas. 

A CEO of a Bank Just Said Something So Ghoulish About Its Plans for AI That He’s Now in Full Damage Control Mode: É por estas que estamos tão reticentes e furiosos quanto ao uso da IA. Porque percebemos que quem mais a defende o faz não em prol da sociedade, mas do seu bolso. E, de vez em quando, há estes lapsus linguae tão reveladores sobre o real pensamento das elites governantes: "replacing in some cases lower-value human capital with the financial capital and the investment capital". Como estamos em modo de pleno late stage capitalism em cruise control, o Financial Times anda a vender canecas e t-shirts a gozar com esta frase. Leran bem, o Finantial Times, que não é exatamente um paladino da critica aos desmandos do capital. 

Open-Source Software Is Starting to Help Robots Think: As implicações do uso de modelos de IA abertos na robótica. 

AI video is moving beyond clip slop: A verdade é que as indústrias criativas já usam extensivamente IA, apenas não o admitem para não terem de aturar as repercussões num momento em que a IA é mal vista. Negam o seu uso, mas usam-na extensivamente, cruzando-a com técnicas clássicas para não se notar, usando editores profissionais, uso de filtros, correção de cores, e aplicação intencional de imperfeições. Já passa aí muita coisa nos media que é o resultado de algumas horas de geração no higgsfield, e mesmo quem tenha o olhar treinado para perceber sintomas de ai slop não nota. Quando é purê AI há sempre inconsistências (luminosidade, perspetiva, transições), por muito cuidadoso que tenha sido o videógrafo. 

Jeff Bezos Tells Workers to ‘Be So Happy’ They’re Being Given the Gift of AI: Isto é a verão século XXI do "que comam brioches". Ter bilionários que enriquecem a sugar o tutano a trabalhadores sobre-explorados e mal pagos a dizer, com ar condescendente, que ainda se devem sentir agradecidos pela dádiva da ameaça de despedimento para serem substituídos por IA é profundamente distópico. 

Lenovo’s Game Boy Is Real and Reportedly Stuffed With Ill-Gotten Games: Bem, esta é inesperada, ver a Lenovo associada com o mundo low end das consolas de baixo custo cheias de jogos clássicos pirateados. 

Will Robotics Have a ChatGPT Moment?: Como alguém que se dedica à robótica, francamente espero que sim, que se torna mais acessível e diversificada. 

If Google can’t  make AI agents useful, maybe no one can: Confesso que os agentes de IA são uma tecnologia cuja usabilidade me escapa. Mas, provavelmente, isso deve-se ao tipo de profissão que tenho, onde há imensa imprevisibilidade e agência no mundo real. 

Why College Students Are Booing AI: Uma análise interessante, que se atreve a ir mais a fundo do que o habitual. Se bem que o argumento "hey, esperam mesmo que as pessoas sorriam e aplaudam quando os bilionários feudais lhes dizem, babando-se, que deveriam estar agradecidas pela sua dádiva da IA que as vai colocar no desemprego" é válido. Mas este artigo olha mais a fundo, para a questão do lado transacional do ensino, do jogo das notas e diplomas. 

Nintendo Is Completely Ignoring AI and Doing Fine: Provavelmente porque é uma empresa com objetivos claros que conhece bem o seu mercado, e por isso não cai no desnorte de meter IA com toda a força sem saber muito bem para que lhe serve. 

The EdTech Backlash Is Here, and It's Just Getting Started: Não sei se qualificaria isto como revolta- Parece-me mais um recentramento, e um apelo ao bom senso. Trabalho com tecnologia e educaçao há muitos anos e confesso que considero uma parvoíce ideias como "tudo tem de passar pelo digital" ou "a IA obriga a repensar tudo". Até porque a minha experiência com as dezenas (centenas?) de projetos que iam mudar a educação com as maravilhas da tecnologia é negativa - programas rídigos, softwares limitados, alunos e professores transformados em clicadores de opções, uma visão de aprendizagem e educação automatizada muito redutora. A corrente tendência dos chatbots educativos espelha em tudo os maus hábitos das anteriores. E, apesar disto, a tecnologia na educação faz imenso jeito. É incrivelmente capacitadora das capacidades das crianças - até mesmo a IA. O problema, está no uso. Se transformamos as aulas em sessões de powerpoint, a aprendizagem no clicar em busca de respostas nos softwares educativos, a criação de artefactos em produção de documentos, isso não traz nada de novo, não aprofuda aprendizagens (nem as técnicas). Por isso não surpreende este cansaço de pais, crianças e professores com tanto tempo de ecrã com valor diminuto. Como professor de informática, percebo bem isso, e vejo que no nosso lado tem sido trilhado um caminho diferente, de real capacitação, criatividade aplicada e cruzamento do ecrã com a manualidade da eletrónica. 

Police in China Sure Love Smart Glasses: Convém recordar que a China não é uma democracia, e tem sido exímia a mostrar como a tecnologia pode ser colocada ao serviço da repressão.

99 Percent of CEOs Are Preparing to Lay Off Workers and Replace Them With AI Within Two Years, Survey Finds: Expliquem-me lá outra vez como é que é incompreensível que uma tecnologia como a IA esteja a ser tão detestada? Porque sentimos que fugiu ao controlo da sociedade, e está a ser usada para dar corpo aos sonhos mais húmidos da ganância das elites.

Safeguarding the Human Person in the Time of Artificial Intelligence: Ainda não li a encíclica, mas pelos relatos, parece-me que a posição é mais de aviso perante os excessos de um capitalismo predatório potenciado pela IA do que sobre a tecnologia em si.

Choosing to Stay Human: Outra coisa que não ajuda à aceitação da IA é o chico-espertismo dos caça-níqueis, que estão a ajudar a níveis diluvianos de proliferação de AI slop.

AI warfare is already here: Há uma frase no artigo que resume bem o interesse destas armas - "They used to say guns don’t kill people, people do,” its CEO tells the audience. “But people don’t. They get emotional, disobey orders, aim high. Let’s watch the weapons make the decisions.”"


Gotta be for an article about computer bugs, right?: E não é dos pequenos. 

Beautifully Illuminated Cynical Affirmations: A beleza do humor negro. Pleonasmo, bem sei. 

Italia buscaba renovar sus aviones cisterna entre Boeing y Airbus. Su decisión dice mucho del momento que vive Europa: Porque soberania europeia significa… tecnologia europeia. E não resisto a imaginar a cara dos bilionários americanos que colocaram Trump no poder a ver estes negócios a fugir-lhes das mãos graças à declarações ofensivas do boomer pirralho sobre os europeus. Ou estavam à espera que fossemos insultados e logo a seguir ir comprar-lhes aviões caros? 

Ucrania ha resucitado una de las tácticas más antiguas de la guerra. Y está aislando ciudades rusas sin necesidad de soldados: A vanguarda tecnológica cruza-se com as mais antigas táticas. 

How to defeat Vladimir Putin: Constância e vontade é uma delas, e o confronto militar é evitável. Mas talvez a melhor forma de derrotar este ditador é manter a Europa como chama da liberdade, prosperidade e igualdade. É isso que incomoda Putin, e os restantes coronéis tapiocas que pululam da casa branca ao kremlin. 

Trump’s Endgame Is Surrender: Os historiadores do futuro vão coçar a cabeça com a incompetência deste aventureirismo, em que a grande potência global atacou de forma fulminante e apenas conseguiu fortalecer um regime enfraquecido, com o bónus adicional de o ter levado a tomar conta de um ponto geoestratégico fulcral para a economia global. 

NATO TIGER MEET 2026: Confesso que me surpreendeu a estética gelada destas fotos. 

‘Corpse Point’ In the Arctic Is Melting, Disturbing Centuries-Old Bodies: Não só é um indício dos males trazidos pelo aquecimento global, como uma boa metáfora para o futuro em que insistimos em dirigirmo-nos. 

Eyes Wide Shut: Handling Toxic Staff Who Use “Spying” To Disrupt School Culture: A minha tática passa por evitar ativamente a sala de professores, esse antro de normies/npcs onde se fala muito, nada se faz, e as vozes mais ativas são geralmente as das mãos mais passivas. 

Four Russian satellites are now within striking distance of an ICEYE radarsat: Alguém falou em guerra espacial? 

The Olympics These Were Not: Aparentemente, uma competição desportiva onde o doping é não só encorajado como essencial para competir é algo que existe.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Magnifica Humanitas


Leão XIV (2026). Magnifica Humanitas: Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Lisboa: Paulinas.

Das coisas que não estavam nas minhas cartas para este ano, e no entanto, aconteceram. Eu, empedernido ateu, a ler, meditar e apreciar uma encíclica doutrinária papal. Se isto vos surpreende, recordem-se: estamos a perder em guerra aberta pelo capitalismo predatório,  e precisamos nas trincheiras de união apesar das diferenças. Mais importante que a diferença entre não acreditar e acreditar em mitos como se fossem reais, é a igualdade do humanismo, a única arma que temos contra aqueles que se estão a apropriar de uma tecnologia fascinante para enriquecer ainda mais. Piorando as condições sociais, ambientais e laborais, extraindo riqueza que fica concentrada nos seus fundos offshore e outros malabarismos fiscais em vez de circular na sociedade. 

Ou não vos dá uma certa vontade de começar a afiar a lâmina da guilhotina sempre que um ceo ou bilionário proclama alegre e orgulhoso que os  benefícios da IA serão tantos que vai já despedir uns  milhares de trabalhadores, sorrindo ao falar-nos de futuros onde áreas laborais inteiras deixem de precisar de mão de obra hunana? E, talvez, com a água racionada, se se levar ä letra a ideia de um certo bilionário que começou por enriquecer a vender livros e agora é dono da infraestrutura que sustenta grande parte da internet, e passar a investir os recursos hídricos escassos no desenvolvimento da IA, que trará ainda mais prosperidade ao seu já gargantuesco bolso, em vez das necessidades básicas dos meros humanos.

Sim, eu sei. Estou a falar do dono do Goodreads. Percebo a ironia. Mas estou a divergir.

Parte desta encíclica lê-se na diagonal. É una encíclica doutrinária, e o seu texto reflete sobre os pressupostos do edifício intelectual da teologia católica. É, certamente, fascinante para crentes, fiéis e teólogos, mas não muito importante para o meu objetivo de leitura.

Apesar da sua origem e destino teológicos, tocou-me o fundo profundamente humanista desta encíclica. Após os necessários rodeios doutrinários, enfrenta o tema de frente: a forma como a IA, e a tecnologia em geral, está a ser apropriada pela elite financeira capitalista para fazer crescer ainda mais desmesuradamente os seus ganhos, em detrimento da sociedade humana, das pessoas, do próprio planeta. Vindas de onde veem, as palavras não têm o tom viva la revolución que lhes coloco, são mais os apelos de um sacerdote sábio ao amor e solidariedade. Mas é isto que se destila da leitura: uma revolta profunda contra a forma como a tecnologia está a ser usada para piorar o mundo em que vivemos.

O texto não é uma negação da tecnologia, ou um apelo à paragem do desenvolvimento da IA. Bem pelo contrário. A importância da ciência e tecnologia é sublinhada, e quanto à IA, é observado o seu potencial. O foco, e aqui o papado entra na trincheira partilhada por todos os críticos conscientes da IA, está na forma como esta tecnologia está a ser apropriada pelas piores forças do capitalismo - as que buscam a primazia do lucro acima de tudo, cilindrando os trabalhadores, as famílias, a sociedade, os recursos naturais, o ambiente, a nossa casa planetária comum. É uma revolta dupla, feita contra o asco perante este novo excesso de desumanidade, mas também pela frustração de ver o potencial libertador da tecnologia a ser cooptado para a opressão, quer a financeira, quer a politico-militar.

É uma encíclica de palavras sábias, que certamente tocarão no âmago dos crentes. Como ateu, não me deixam indiferente, bem pelo contrário. O humanismo do amor ao próximo, o reconhecer que podemos e devemos lutar por um mundo melhor, que a tecnologia deve ser ferramenta para que todos enriqueçamos, mostram que este papa está do lado certo da história. Que, infelizmente, dado o poder dos bilionários, talvez não seja o lado vencedor. Mas pelo menos, estamos do lado dos que procuram lutar pelo mais correto, pelo bem da humanidade. Valha-nos isso.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Lusitânia: A vida dos Cássios, uma família na Lisboa Romana


André Simões (2026).  Lusitânia: A vida dos Cássios, uma família na Lisboa Romana. Lisboa: Planeta.

Um mergulho didático e interessante no cruzamento da nossa história com a do império Romano. Através da ficcionalização da vida de uma família Olissiponense, André Simões leva-nos a conhecer a fundo os tempos áureos de Roma. Não com o foco na grande história dos imperadores e da cidade eterna, tentando sempre olhar para o nosso recanto romano à beira-tejo, com os seus modos de vida, economia e governo. 

Claro, dado que a quantidade de vestígios do império nos vem de fora e não do território português, pese embora a nossa riqueza arqueológica, boa parte da história da vida destes Cássios é extrapolada do que se sabe vindo de outras paragens. Faz sentido, dado o amplo espectro do império e a forma como a romanização enraizou os seus costumes nos povos e territórios conquistados. Tal como o prova a língua que hoje falamos, ou muitas das festas que celebramos, que nos chegam desses tempos.

O foco deste livro está na vida dos romanos, daí o uso de uma família meio imaginada (os nomes foram criados a partir dos vestígios das estelas funerárias que se encontraram em Lisboa). Este estratagema, mais pedagógico que literário, permite-nos acompanhar a vida quotidiana dos romanos, tal como se sabe hoje que eles viviam. E, no fundo, perceber que apesar das vastas diferenças entre os seus tempos e os nossos, não eram pessoas fundamentalmente diferentes do que nós somos. Através deste livro, vemos como os nossos antepassados comiam, se divertiam, socializavam, estudavam, geriam os seus negócios, quais os seus ritos religiosos e superstições.

Apesar do enorme gosto deste livro em falar-nos dos romanos, não há nele o deslumbramento cego que demasiadas vezes se vê ou lê por aí quando se fala da grandeza do império e da sabedoria dos cidadãos. Não há pejo em mostrar-nos que os modos de vida e atitudes dos romanos são radicalmente diferentes das nossas, e nalguns aspetos que hoje consideramos direitos humanos elementares, são-nos repelentes. As suas atitudes perante a mulher, vista como útero para procriar e sempre submissa aos homens da família, são um óbvio exemplo.  Ou, ainda mais gritante, a condição dos escravos, meros objetos sujeitos aos donos, em que só uma minoria poderia aspirar à condição de liberto (e mesmo assim não se livrava da tutelagem familiar dos seus antigos donos). Apesar disto, o livro tem uma perspetiva otimista, recordando que as pessoas comuns tentam vivera as suas vidas em equilíbrio.

Como nota final, registo o trabalho notável do seu autor. Não só neste livro, escrito como de divulgação histórica acessível, mas ao papel que assumiu como influenciador no TikTok. É quase um contrassenso que alguém que se dedica a falar da cultura romana, condição de neurodivergente e ativismo LGBT se tenha tornado uma figura influente graças às redes sociais, que costumam incentivar e recompensar os tipos de discurso que se encontram nos antípodas dos de André Simões. Num oceano de anti-intelecutalismo, conservadorismo extremista, proto-fascismo, masculinidade tóxica ou a promoção do mais elementar e pateta comportamento humano, é quase incrível que se tenha tornado uma voz influente e conhecida. Ainda bem que assim é, significa que apesar de toda a podridão algorítmica, as redes sociais ainda conseguem dar voz àqueles que vale mesmo a pena ouvir.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

ESFS Achievment Awards: Best Internet Publication


Confesso que estava a leste. Passei um domingo tranquilo a passear pela Lagoa de Óbidos, aproveitando a tarde de canícula para leituras e sestas. Só ao final do dia é que reparei que tinha mensagens muito, muito especiais. Ao abrir, deparei-me com esta foto do Rogério Ribeiro a aceitar um prémio... de Best Internet Publication, atribuído na Eurocon 2026 que decorreu no passado fim de semana em Berlim.

Olhei para a foto, e confesso que ainda não acredito. Fiquei, e ainda continuo, sem palavras, a minha personalidade neurodivergente fica meio sem jeito nestes momentos. Estou contente, claro, mas acima de tudo agradecido! Muito agradecido ao incansável trabalho do Rogério Ribeiro. Ao longo de anos, tem sido  uma força motriz do fandom português, organizando o Fórum Fantástico e outras iniciativas, e fazendo um esforço de representação do que cá fazemos nos eventos internacionais europeus. 

Um dos corolários disso acontecerá para o ano, quando o Fórum Fantástico for, também, a Eurocon 2027. 


Diga-se que este ano a Eurocon foi muito favorável para nós, que no nosso cantinho à beira-atlântico geralmente não sentimos grande projeção do que cá fazemos. O Luís Filipe Silva foi distinguido como best author (e é tão merecido, tão merecido!).


O excelente Tales from Nevermore foi distinguido como Best Graphic Novel. É excelente ver estes criadores marcantes a ver a sua qualidade reconhecida pelo júri europeu.


O ator Afonso Molinar foi distinguido com o prémio Chrysalis.

E prontos, este vetusto recanto. Obrigado a todos!

Tem sido um gosto manter esta página, e é um orgulho vê-la distinguida com este galardão. Sem vaidades, apenas com o compromisso de por cá se ir continuando.



domingo, 5 de julho de 2026

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The Air Death Cloud: Nuvens fatais. 

Quando as Cidades se tornam Memoráveis: As cidades estimulam o imaginário literário, tornando-se muitas vez mais do que cenários das histórias, e sim elementos essenciais da narrativa. 

Sobre a lista dos 100 melhores livros do Guardian: Nunca haverá uma lista perfeita. Cruzam-se gostos e pressupostos estéticos e culturais. O real problema levantado nesta análise é o não assumir disso, o mostrar que a origem e contexto cultural de quem organiza estas listagens literárias as influencia profundamente. 

25 Sensational Books to Read This Summer: Sugestões de leitura estival, a desafiar o preconceito de livro leve de praia. 


Pornography for Fun and Profit: Hoje, sabemos que ambas são falsas. 

Asimov is an Open Source Humanoid Robot For the Rest of Us: E chegámos ao ponto em que se pode construir um androide na garagem (bem, o inMoov já fazia isso, mas não de forma tão completa). É a beleza do conhecimento - as empresas podem tentar fazer gatekeeping, mas há sempre a comunidade open source para abrir as coisas ao mundo. 

Southwest Airlines bans humanoid, animal-like robots from flights: Como pessoa que já meteu robots na mala, isto é um pouco preocupante. Mas creio que o problema aqui tem mais a ver com as regras relativas a baterias, do que aos robots em si. 

Las gafas con IA han encontrado un público inesperado: los "manfluencers" que graban mujeres sin su consentimento: Ok, desculpem lá, mas em que universo é que vocês vivem em que achariam que os pervertidos, rebarbados e restante fauna de ética duvidosa não iriam achar que estes smart glasses era perfeitos para concretizar os seus sonhos húmidos? 

Devious Prankster Posts Real Monet Painting, Tells People It’s AI-Generated, and Watches the Chaos Unfold: Esta experiência revela imenso, não sobre as atitudes face à IA, mas da profunda ignorância da generalidade dos comentadores de redes sociais e guerreiros do teclado. 

The shock of seeing your body used in deepfake porn: Um crime com várias nuances, desde as atrizes de pornografia (que, em si mesmo, é já um meio violento que explora a mulher) a pessoas comuns. E uma violência múltipla, não só o do uso de imagem não autorizada, como da degradação da imagem pública destas vítimas, que são vistas com desconfiança. 

Your doctor’s AI notetaker may be making things up, Ontario audit finds: Não há grande novidade nisto. Sabemos que o melhor da IA é com supervisão humana. E vem daqui um dos grandes riscos da sua implementação - nós, humanos, quando um sistema responde razoavelmente bem habituamo-nos e desleixamos a sua vistoria constante. 

Too Much Is Happening Too Fast: Sente-se, de facto, uma certa ideia de se estar prestes a atingir massa crítica na forma como a IA nos está a mudar formas de trabalhar. 

The AI Backlash Could Get Very Ugly: O quê, a sério que se surpreendem se as pessoas se revoltam por estarem constantemente a ser ameaçadas por gestores gananciosos que vão perder os seus empregos por causa da IA? Ou acham que é suposto sorrir e adular, quando vemos os bilionários a enriquecer cada vez mais à costa de toda a sociedade, empobrecimento generalizado e esmagamento do bem público? 

A Deranged New Wikipedia Clone Is Made Entirely of Surreal AI Hallucinations: Vá, ao contrário da Grokipedia, que foi precisamente criada para desinformar, esta experiência serve para nos fazer refletir sobre os riscos da desinformação via IA. 

Microsoft ditches Teams feature that put attendees into the same virtual room: Esta patetice foi divertida para aí durante zero minutos nos tempos da pandemia e das conferências virtuais. E quem vos diz isto já foi sujeito à absurda experiência de estar a participar em conferências online onde os organizadores nos pediam a cãmara ligada para a foto final... neste ecrã. E, por foto, entendam um dos conferencistas a pegar no telemóvel e a fotografar o ecrã. A tecla print screen é um saber digital muito acima das capacidades de muitos evangelistas da transiçao digital. 

Tras más de 20 años usando Microsoft Office, me he pasado a LibreOffice. Ahora me doy cuenta de todo lo que me he perdido: Ficamos só pela experiência de instalar e começar a usar, sem necessidade do malabarismo de códigos de ativação e obrigatoriedade de criação de contas para usar o software. Eu, fiz o mesmo e não me arrependo. 

Portugal sem rádio digital DAB+: Pergunto-me algumas vezes se o tipo de decisões que por cá implementa este tipo de infraestruturas está pensado para os utilizadores, ou para favorecer as empresas ligadas aos media. Com a TDT foi o que se viu, um sistema que pareceu pensando para obrigar as pessoas a migrar para a oferta, paga, de tv das operadoras de telemomunicações. 

China lleva años usando tranvías sin raíles ni catenaria. El problema es que tampoco son tan revolucionarios como parecen: Sistemas de condução aparentemente autónoma. 

The History of ThinkPad: From IBM’s Bento Box to Lenovo’s AI Workstations: Uma história detalhada, muito detalhada, de um dos computadores portáteis mais icónicos. 

Pluralistic: There's no such thing as "age verification": O problema das boa intenções, do pensamento solucioniata de curto prazo, bem explicado - "Technopolitics are defined by Bruce Schneier's "security syllogism," which goes, "Something must be done! There, I've done something." "Something" doesn't have to fix the problem, and "something" doesn't have to anticipate what will happen next. So long as "something" is done, the issue is resolved and the politician can chalk up a win."

Homer Simpson may be the best AI commentator we have right now: O cada vez mais violento ennui e rejeição perante o dilúvio das tecnologias de IA explica-se bem por isto - "I think it reflects something deeper: a growing suspicion that the gains from this next technological wave will once again flow disproportionately to a relatively small number of people, firms and places."


The corner boxes of the Magik mini-series (1983): Comics clássicos. 

Xi Jinping Was Only Humoring Trump: Essencialmente, isto: "Like many of his counterparts around the world, Xi has begun to assume that it’s not just Trump who is term-limited; it’s also his nation". 

DOGE Cuts Unleashed a Deadly Wave of Violence Across Africa, Study Finds: Mais uma excelente herança do sonho húmido neoliberal - morte, fome e violência. 

Striking New Views of the First Atomic Bomb Test: Recordar o momento do nascimento da era atómica. 

The Night Witches: The Female Nazi Hunters of WWII: Recordar a coragem extrema das mulheres-piloto que combateram na frente leste contra os invasores nazis, e, também, contra o próprio país (no sentido de serem mulheres na linha da frente, desafiando os estereótipos que existiam mesmo num país supostamente progressista). É de notar que conduziam as suas arriscadas missões à noite, geralmente com aeronaves mais antiquadas do que as dos pilotos de combate soviéticos. A história destas mulheres é uma combinação de coragem, patriotismo e valor. 

Someone Asked Physicists What They Really Believe About the Universe and… Yikes: Se achavam que a pergunta tinha respostas confortáveis, é porque nunca leram sobre a forma como a física elementar tenta explicar o nosso universo. Yikes, deveras. 

Photos: The Global Cost of the Iran War: Uma guerra estúpida, inútil e falhada, cujas consequências são sentidas por todos nós, em particular pelos mais frágeis. 

Leituras da Semana (#115 // Mai 18 2026): Só um pequeno reparo - a "velha" internet está viva, e mexe-se. Há muito para lá do boomer slop do facebook, dos idiofluencers do tiktok ou da mediania estétca do instagram. No fediverso encontramos o espírito clássico, de partilha e discussão onde trolls são depressa extirpados, o discurso de ódio é isolado e não há algoritmos mediadores a influenciar o que vemos. E a piada de redes como o mastodon ou pixelfed é que estão concebidas de raiz para não serem permeáveis pela algoritmia inerente às redes sociais. Já sobre o bluesky, não arrisco a mesma opinião, dado que há interesses comerciais que o sustentam. 

Being a Crappy Boss to AI Chatbots Pushes Them Toward Spouting Marxist Rhetoric and Organizing With Their Compatriots, Researchers Find: Até as IAs, apregoadas como a epítome do sonho capitalista de espremer o máximo de valor do trabalho enquanto se livram da massa fedorenta que são os trabalhadores, percebem que à esquerda é que é o caminho. 

Painter of Machines | Miltos Manetas: A aparente banalidade dos cabos, equipamentos e gadgets, trnasformada pela visão da pintura clássica. 

The Enshittification of History: Stross, acutilante e certeiro a retratar os tempos desesperantes em que vivemos. 

En 2008 China instalaba estaciones de metro en medio de la nada. En 2026 hemos descubierto lo ingenuos que fuimos: É por estas que a China se está a tornar o novo líder global. Não pensam a médio prazo, mas sim a longo prazo nos seus investimentos.

Iran demands Big Tech pay fees for undersea Internet cables in Strait of Hormuz: Bem, a patética guerra iraniana poderia mostrar ainda mais a fraqueza americana, não podia? Os iranianos aprenderam depressa que num mundo sem regras, quem controla pontos estratégicos faz o que quer.

A 4.000 metros en los Alpes, de noche, a -28º y sujeta con cuerdas: cómo se tomó la "foto imposible" que ha cautivado a la NASA: É apenas uma imagem, podem pensar. Neste tempo de proliferação extrema, entre a legião de fotos e a explosão das imagens geradas por IA, é tocante ver como alguns arriscam extremos de esforço físico para procurar legar imagens extraordinárias. Que, no turbilhão dos fluxos digitais, mal damos por elas.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Exit Reality


Valentina Tanni (2025). Exit Reality. Roma: Nero.

Não é um tipo de conteúdo digital que chegue aos normies, aos grandes públicos. Também não é nenhum tipo de imaginário que se preza por ser oculto e pouco acessível, pelo contrário, mas sendo criador de estéticas fora do espaço visual comum, não chega às maiorias, cortesia do efeito amplificador de algoritmos que raramente nos dão coisas a ver que estejam fora do que os dados agregados indicam ser os nossos interesses. 

E, no entanto, se estivermos a fazer doomscroll, é provável que algum deste conteúdo nos chegue aos olhos. Vídeos estranhos, entre o surreal e o nostálgico, música levemente dissonante que se entranha no ouvido, estéticas que podem ir do hiperrealismo digital ao vídeo hipnótico cheio de glitching e potencialmente indutor de ataques epiléticos. Quando isso nos chega aos olhos, significa que os algoritmos nos fizeram chegar às zonas de vanguardismo estético de que este livro tenta fazer um catálolgo. Do vaporwave às backrooms, passandos pelos 'cores (do dreamcore ao weirdcore), até entrar no campo visualmente bizarro que são as tiktok farlands.

O curioso sucesso do filme Backrooms trouxe ao mainstream um pouco do dinamismo destas estéticas digitais de subculturas. As backrooms, essa metáfora moderna de um horror baseado na extrapoloção surreal da hipermodernidade, são uma das estéticas, ou movimentos culturais de nicho (a distinção é fluída) que este brilhante Exit Reality nos traz.

O livro constrói-se como catálogo de estéticas, mas também como trabalho de sociologia digital. Num meio criativo mutável, que vive dos fluxos dos sites, agregadores e redes sociais, a autoria e o comentário dissolvem-se, há que levar em conta os múltiplos clones que se agregam em tendências, e a voz dos comentadores torna-se geradora de perspetivas sobre os conteúdos. 

Exit Reality leva-nos num périplo pelas estéticas do vaporwave, backrooms e espaços liminais, 'cores que vão ao âmago de estéticas intrigantes, e finalmente, os espaços de magia, onde os criadores parecem dissolver as barreiras entre a vida real e o imaginário por intermédio dos espaços digitais. Se bem que, apesar do título, estas estéticas não representam fugas à realidade. Antes, são reações à normalidade, entre a nostalgia e a procura de visões tangenciais, e no fundo representam uma fascinante ebulição criativa que usa o digital para criar novas visões, iconografias e estéticas desafiantes.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Gigs


Mark Mosedale, Si Smith (2026). Gigs. Marietta: Top Shelf.

Não consigo deixar de ler este Gigs como um grito de alarme e revolta das novas gerações face ao futuro distópico que o nosso deslumbre alucinado pelas bigtech lhes quer impor. Construído a partir de histórias episódicas que se interligam com detalhes e personagens em comum, toca nas consequências do capitalismo late stage alimentado pelos algoritmos. Mostra-nos um futuro que, em grande medida, já é o nosso presente: um fosso enorme entre os mais ricos e os que os servem, e uma sub-classe permanentemente empobrecida que sobrevive do rendimento universal, mas é forçada a participar numa economia de biscates geridos por algoritmos. Enquanto a sociedade se degrada, o planeta caminha em direção ao colapso ecológico.

Percebe-se o desespero que leva Gigs a ser escrito, mas não é um livro com falta de esperança. Muito pelo contrário, as histórias são contadas pelo ponto de vista daqueles que estão do lado de quem está a perder, e mostram como se pode reagir a um descalabro perante o qual nos sentimos impotentes. Sim, o livro reflete aquele sentimento de impotência que todos sentimos perante mais um anúncio de brilhantes resultados económicos face a despedimentos massivos de pessoas trocadas por IA. Mas diz-nos que podemos resistir a isso, que se nos sentimos impotentes perante o grande panorama, podemos nas nossas vidas, no nosso dia a dia, ter as nossas ações de resistência, de independência pessoal face à gestão algorítmica das nossas vidas.

Reflexão sobre as más mudanças que a tecnologia, ou melhor, a tecnologia manipulada pelos um percentistas está a impor à sociedade global, é também um livro que nos mostra que podemos resistir, organizarmo-nos e tentar, nos nossos reduzidos âmbitos, não baixar os braços para tentar legar um mundo melhor aos nossos sucessores. Por impossível que isso agora nos pareça. 

domingo, 28 de junho de 2026

URL


WEIRD SCIENCE-FANTASY No. 23, EC Comics (1954), cover art by Wally Wood: Clássicos.

Um sonho em tons de vermelho: Filme a marcar na lista daqueles que quero ver. Cinema abstrato com laivos de FC? Como resistir? 

Tolkien tenía muy claro quién hacía de verdadero héroe en 'El Señor de los Anillos', y no era ninguno de los protagonistas: Foi exatamente o que pensei quando li os livros. O verdadeiro herói é o fiel companheiro de Frodo, que literalmente carrega os maiores fardos, mas se esquiva dos louros e da busca pela vã glória. 

5233) Para que serve uma fórmula (6.5.2026): Apesar das eternas críticas, há vantagens no uso de fórmulas nos âmbitos da criação artística. 

The Trouble With Narrative History: A tentação, e o perigo, de dar sentido aos fluxos históricos. 

Lançamento: Rare flavours: Boa notícia para os leitores portugueses, a edição deste brilhante e muito negro livro de Ram V e Filipe Andrade. 

Rock and Roll Faces the Inevitable: O envelhecimento. E nisto, há os que não desistem. Mantém-se em palco, com o peso do seu legado. Também há os que não compreendem que envelheceram e se ficam pela nostalgia do passado, pese embora o ridículo que isso por vezes assuma. 

Leituras da Semana (#114 // Mai 11 2026): Vejo que não sou o único a rever-me no texto de João Zamith para o Sh/fter. E como o João Campos muito bem observa, "o objectivo disto tudo é promover escritores em particular ou a leitura em geral, entre os jovens?" O meu ponto de vista é mais traumático, sempre senti o forçar a leitura como um convite à sua rejeição. 


Hannes Bok: Futuros feéricos.

The Secret to Understanding AI: Longe do hype, do marketing e dos pronunciamentos exagerados dos que procuram lucrar o mais possível com a IA, há quem esteja a tirar partido das valências desta tecnologia para melhorar organizações, e com isso, as vidas do que estão envolvidos. 

Addictive design on online platforms: Um passo que tem de ser dado, regular e agir para cercear os abusos das redes sociais, concebidas intencionalmente para maximizar a adição dos seus utilizadores. 

Ordinary People Fear AI, While the Tech Leaders Working to Create a Permanent Underclass Say They’re Extremely Psyched About It: O título diz tudo sobre a forma tóxica como a IA nos está a ser impingida. 

AI On Every Machine: The LLM You Probably Didn’t Want: Ou, como não implementar o uso da IA. Pessoalmente, não me chateia descarregar gigabytes de modelos para o meu computador. Mas têm de ser os que eu quero usar, e a descarga é uma escolha minha, não uma imposição oculta. Como ex-utilizador do Chrome, é problema que já não me afeta, observe-se. Mas o problema é mesmo esse - a arrogante displicência com que a Google destrata os milhões de utilizadores do seu navegador. 

El 'vibe coding' prometía democratizar el software. Su primer regalo son 5.000 apps con datos sensibles en abierto: Sem grande surpresa. Confesso que sou enorme fã de vibe coding, embora prefire chamar-lhe "programar na descontra". Adoro o permitir-me criar coisas muito além das minhas capacidades técnicas, dando voz à minha criatividade, mas não tenho ilusões: sei que tenho capacidades técnicas limitadas, e que as soluções que consigo criar com ajuda dos chatbots não são aplicações fiáveis ou seguras para soltar por aí. No entanto, a quantidade de vibe coders sem esta noção é elevada. 

Software Ate My Homework: Saliento aqui duas vertentes. Primeiro, a extrema dependência em soluções externa que se faz sentir em todos os setores da educação (ó meus caros, se o Google Workspace vai abaixo, na minha escola não deixamos de dar aulas, mas vai complicar muito o nosso trabalho). Segundo, algo que não é estritamente tecnológico, mas onde a tecnologia é o elemento essencial para desvirtuar o mais fundamental na educação, que é o aprender, em favor de um modelo transacional onde a nota, e não o conhecimento, é o objetivo final: "Students have been encouraged to orient themselves toward performance; faculty have been advised to meet them where they are; college costs a lot of money and mainly serves to professionalize students (…)  the rubric, a name for the detailed liturgy of how a professor will assess an assignment. Rubrics are meant to avoid arbitrariness, but they also serve other instrumental goals: normalizing “learning objetives” so that universities can assess “learning outcomes” for accreditation and other bureaucratic purposes." Este clima não é exclusivo do ensino superior. Notem a forma como, por cá, o ensino secundário se tornou uma máquina de marrar para garantir elevado desempenho nas provas de acesso às universidades. 

 The Shady, Underpaid Gig Work That Makes Video Clips Go Viral: Um vislumbre das economias subterrâneas que sustentam o mundo do influencing. 

Un chaval de 15 años de Almería le ha declarado la guerra al oligopolio de las calculadoras gráficas: su arma es el código abierto: Boa sorte com isso. As probabilidades de acabar processado são elevadas. E se se perguntarem porque diabos os estudantes ainda precisam de comprar calculadoras cara num tempo em que qualquer computador ou telemóvel consegue fazer o mesmo, e até melhor, pensem no conceito de mercado cativo. Manipulando as regras educativas, os fabricantes destas calculadoras conseguiram o milagre de poderem lucrar cobrando altos preços por algo que lhes é barato de produzir, e tem zero de inovação. 

Meta Has Entered Its Death Spiral: Notem que plataforma digital morta, como o artigo bem denota, não significa desaparecida. Significa apenas que perdeu a sua relevância cultural, e nisto o Facebook está a mostrar todos os sintomas, como rede de cretinices e AI slop alastrante. É uma que me vejo obrigado a usar por causa do efeito de rede, mas já há muito percebi que se tornou desinteressante. Onde vejo interesse, dinamismo e um ritmo muito próprio é nas redes sociais independentes coletivamente denominadas Fediverso. As interações não têm o alcance das redes tradicionais, mas são muito mais ricas. 

Remembering the BBC Computer Literacy Project: Destaco isto, que representa o que se tornou uma influência enormemente corrosiva no domínio da informática na educação: "it’s an encapsulation of the promise on offer in that era, an optimism that seems sad when you reflect that educational computing descended into learning Microsoft Word during the following decade. It would be another two decades before the Raspberry Pi and BBC micro:bit picked up that fallen torch." Por cá, as coisas eram tão alinhadas com a falácia da "informática na ótica do utilizador" que havia um currículo de TIC tão mau que era apelidado de "currículo Microsoft". 

The new Wild West of AI kids’ toys: A questão essencial aqui é regulação. Os brinquedos associados a chatbots podem ser interessantes, mas têm de ter salvaguardas para não prejudicar o desenvolvimento das crianças, nem introduzir dark patters, impedir socialização ou incentivar a adição digital. Mas, sinceramente? O melhor mesmo são os mais simples brinquedos, esses desempenham um papel essencial no desenvolvimento físico e cognitivo das crianças. 

Twin brothers wipe 96 gov't databases minutes after being fired: Coisas que acontecem quando não há cuidados de cibersegurança elementar.

The hottest anti-AI gadget is a Cyberdeck: Confirmo, vejo constantemente vídeos de jovens makers a mostrar as suas cyberdecks. Geralmente raspberry pi com ecrãs e teclados, e surpreende a inventividade dos seus invólucros. Outra coisa positiva - grande parte destes makers é mulher.


From a 1985 issue of Games magazine: Como leitor clássico da Asimov SF, recordo estes mostruários de títulos intrigantes. Alguns tornaram-se clássicos.

"No me da la vida": la frase que resume el estado vital de toda una generación de españoles en la treintena: O burnout e a desmoralização como condições de vida na modernidade. 

Trump Is ‘Bored’ With the War He Started: Não sei se há palavras que descrevam este abismal sarilho. Como professor, sou muito fã de uma técnica pedagógica que se chama deixar o miúdo bater na parede. Sabem como é, naqueles momentos em que vemos que a pessoa vai errar, está a errar e se vai espalhar, apesar dos nossos avisos, o melhor é deixar a coisa chegar à óbvia conclusão final e tirar daí as lições. Talvez seja a única coisa positiva nestes dias, ver que o absoluto desastre que está a ser a administração do boomer bilionário vai levar as pessoas que andam a deixar-se seduzir pela extrema direita perceber o quão mau pode ser a sua governação. Guerras estúpidas muito caras (os americanos, literalmente, desarmaram-se a bombardear o Irão com efeitos bem menores do que a sua estratégia shock and awe preconizava), regressão de índices económicos e sociais, perda de direitos civis, clima político da pior indigência, responsáveis políticos que lucram abertamente com as posições que ocupam, nepotismo, privilégios aos grandes grupos económicos (o bloqueio em Ormuz está a ser um docinho para os lucros das petrolíferas, que dispararam). E, cereja em cima do bolo, em poucos anos conseguir dissipar o prestígio e imagem de um país. 

Checkmate in Iran: É, de facto, difícil de pensar numa forma de como esta guerra estúpida poderia ter corrido pior ao atacante. Apesar da superioridade militar e tecnológica, não só não consegue vergar o inimigo, como vê um dos pontos estratégicos da economia global a passar a ser controlado pelo regime que queriam derrubar. Futuros historiadores irão escrever teses inteiras sobre este cúmulo de estupidez. 

China Believes America Will Flame Out: Da paciência com arma geopolítica. 

Putin’s War Comes Home to Moscow: Note-se que estes últimos tempos têm derrubado um mito herdado do século XX, o da invencibilidade das superpotências. A Rússia atolou-se na Ucrânia, mercê da combinação de esforço internacional e da coragem dos ucranianos. Agora é a poderosa América, com as suas forças armadas de poderio ímpar, a ser travadas pela inteligência iraniana (notem que não defendo nenhum do lados). O resultado destes aventureirismos é um mundo mais inseguro para todos. 

Freedom of Navigation: A guerra no Irão é uma das maiores burrices geoestratégicas de sempre. Espicaçados pelo estado genocida de Israel, os americanos gastaram grande parte das suas munições em ataques arrasadores e de precisão que tiveram um efeito nulo. A inteligente estratégia de retaliação iraniana atacou alvos econômicos regionais. Os ataques entrincheiraram mais o regime, os americanos não atingiram nem uma vitória rápida nem se vislumbra que alguma vez a venham a atingir, e os iranianos perceberam que a sua melhor arma é o controle do estreito de Ormuz. Uma blitzkrieg absurda que mostrou a incapacidade de uma superpotência. E o pior ainda está para vir. O braço de ferro no estreito já se está a traduzir em preços mais altos dos combustíveis, algo que, pese embora o foco obsessivo dos nossos media nas reportagens nas bombas de gasolina, nem será a consequência mais gravosa. A quebra no fluxo de petróleo tem implicações na energia e matéria primas derivadas, mas há mais produtos essenciais que o ponto de estrangulamento não está a deixar passar. Como o hélio, gás cuja falta se traduz não na dificuldade de encher balões, mas como material essencial para a fabricação de tecnologia ou manutenção de equipamentos médicos avançados, se vai repercutir em menos produtos, mais caros, e decisões de racionar uma matéria prima entre fábricas e saúde. Isto, note-se, num quadro em que o setor tecnológico já vive uma crise de preços inflacionados e escassez de materiais como consequência do frenesi de investimento em datacenters de IA. Haverá pior? Sim. Outras matérias primas que estão a ser barradas no estreito são fosfatos e nitrogénio, essenciais como fertilizantes para a agricultura. Que chatice, lá vão aumentar os preços nos supermercados, poderão pensar. Sim, provavelmente é o que vai acontecer nos nossos países do primeiro mundo. Noutros países, percebe-se que nem vai haver fertilizante para as culturas. Ou seja, regressa a fome, em força. Como cereja em cima do bolo, todos percebemos que basta um punhado de minas e determinação para meter fim à livre navegação em zonas como Ormuz. O aventureirismo militar da cambada de idiotas que se incrustou na presidência americana está a ter consequências para além das diretas, com este abalo na ordem global legalista, o regresso da política da canhoneira e do cacique armado, um tremendo choque negativo para a economia global, empobrecimento generalizado, e o regresso da fome. Fantástico, não é?

quinta-feira, 25 de junho de 2026

As Maravilhas do Ano 2000


Emilio Salgari (1949). As Maravilhas do Ano 2000. Lisboa: Romano Torres.

Admito o gosto por pegar em obscuras obras de assumido futurismo escritas no passado. Não olho para elas com a lente jocosa dos oráculos falhados, é mais por genuína curiosidade em descobrir visões retrofuturistas, perceber como no passado se especulava sobre o seu futuro, e a forma como os pressupostos da época em que foram escritos são extrapolados no tempo. Ler a visão do futuro vinda do passado ensina-nos não só sobre os modos e pensamentos desses tempos, mas também a ter a humildade que aquilo que hoje pensamos, extrapolamos e especulamos será, futuramente, visto como uma curiosidade epocalista datada.

Este achado de alfarrabista atraiu-me pelo tema e capa, uma simples mas majestosa ilustração no estilo que hoje denominamos gernsback continuum. Desconhecia que Salgari se tivesse dedicado à ficção científica, este escritor ficou no firmamento da literatura fantástica pelas aventuras do seu personagem Sandokan. Pessoalmente, nunca apreciei por aí além, mas a geração dos meus pais adorava (e sim, isto é um comentário nada subtil ao imobilismo da cultura pop, cujas maquinarias de produção estão tão focadas em espremer o máximo de lucro da minha geração que não estão a criar nada de realmente novo que a renove para as próximas gerações). 

O livro parte de uma premissa clássica - um médico do século XIX que desenvolve um elixir milagroso que suspende a vida, e convence um amigo a embarcar com ele numa arriscada odisseia: encerrar-se num túmulo em hibernação, esperando que graças à magia da burocracia os seus futuros herdeiros os resgatassem passados cem anos. Que é, claro, o que acontece, senão o romance terminaria no terceiro capítulo. 

Segue-se a também clássica estrutura narrativa do romance-périplo, onde o autor pega na mão do leitor e o leva, através dos seus personagens, numa viagem de descoberta do mundo ficcional do livro. O futurismo de Salgari é urbanizado, pouco claro em termos políticos mas alinhando na ideia de prosperidade global graças aos frutos da ciência e economia aliadas a sãs formas de governo e a extinção das guerras. Há contactos com marcianos, via ondas rádio, não por viagens espaciais, o futurismo salgariano não chega aí. Viaja-se por veículos aéreos, a vida quotidiana é de luxo burguês. Comboios subterrâneos vencem as distâncias continentais, e para os oceanos há navios híbridos, capazes de navegar e voar. A força motriz da civilização futura é a eletricidade, obtida por barragens e pelo uso do rádio, sem conhecer aquele leve efeito secundário cancerígeno que sabemos advir da radioatividade. 

Diga-se que o futuro salgariano não é uma utopia que nos convenha. Por detrás do urbanismo tecnológico, há uma destruição planetária, com o arrasar da natureza para ter campos de cultivo para alimentar as populações. Isso é apresentado como um progresso, o que está em linha com os ideais progressista da época. Há um interesse histórico no mundo natural, relegado para zonas muito remotas, mas a ideia principal é a de um planeta que deve ser modificado para uso humano. 

Para um leitor dos nossos tempos, há um pormenor que torna a leitura muito desagradável, o seu óbvio racismo. No século XX de Salgari, que é uma espécie de utopia do homem branco, o crescimento demográfico das populações de origem africana e asiática é visto como uma ameaça para a civilização. Hoje, temos um nome para isso, a "teoria da substituição", uma das bandeiras dos delírios perigosos da extrema direita. As menções a etnias e minorias não são muito melhores, com os narradores do futuro a comprazerem-se com a extinção de povos autóctones e indígenas, pela sua incapacidade em adaptar-se ao admirável mundo novo. Quem vive no passado é desnecessário.

Politicamente, a coisa não é muito melhor. Este século XX é uma utopia burguesa de conforto e tranquilidade, mas quem se atrever a ser dissidente é retirado da sociedade, isolado em localidades no polo norte ou em cidades submarinas. Os celerados que não se submetem ao consenso comum são excluídos. Na utopia salgariana, para o relativo conforto de um exílio, apesar da ameaça de eliminação em caso de revolta. Na realidade dos tempos de que nos chega o livro, este ideário legou-nos o campo de concentração.

Estarei a ser injusto ao lançar uma luz tão negativa sobre estes aspetos? Nem por isso, mesmo à sua época as visões de progresso já eram capazes de ultrapassar este manifesto destino superior do homem branco que infunde as especulações. É também de notar uma total ausência de personagens femininas no livro, neste futuro as mulheres não entram. Assume-se que existem, senão as raças não se reproduzem, espero... mas na verdade nada é mencionado sobre estes aspetos. Teria de saber mais sobre Salgari para perceber se este ignorar é intencional, ou falta de capacidade do autor.

A história em si perde o rumo a meio, quando Salgari tenta transformar um interessante romance-périplo por espaços futuristas numa história de aventuras. Aí, o livro perde o interesse, e o final é verdadeiramente patético. Os dois homens do passado acabam declarados loucos, não por insistirem na sua história mirabolante, mas como efeito secundário da exposição contínua à eletricidade, algo corriqueiro para os homens do século XX  salgariano, mas a que os corpos dos nossos heróis do século XIX não se conseguem habituar. Termina assim esta utopia, com um aviso sobre se os eventuais perigos que a eletrificação da sociedade, a dar passos decisivos nos tempos de vida do autor, não seria um terrível malefício para o corpo e alma humanos.