quinta-feira, 22 de abril de 2021

Fleet Elements

 

Walter Jon Williams (2020). Fleet Elements. Nova Iorque: Harper Voyager.

Este livro sofre com o clássico síndrome de meio de trilogia, agudizado por ser o sétimo de uma série que vai claramente para duas trilogias. Mas não deverá dar origem a uma terceira, este Fleet Elements mostra que o universo ficcional está a esgotar-se. Ou melhor, algumas das premissas invariáveis deste universo já deram o que tinham a dar, e as histórias tornam-se repetitivas. Há um caminho que Williams de vez em quando vislumbra, mas não segue.

Um dos pilares desta série é o imobilismo, um sentimento injustificado que cruza o conservadorismo com o atavismo. É o resultado de milénios de um império galáctico estável, regido com mão de ferro pelos seus fundadores, que era mais do que meros colonialistas. Eram  uma espécie convicta de ter encontrado a verdade absoluta e o sistema perfeito, e lançou-se numa jihad espacial não para conquistas, mas para reformular as diferentes espécies alienígenas que encontrou à sua imagem e semelhança moral (porque a física seria impossível). 

Agora que esses líderes se extinguiram, a sociedade que construíram - injusta, assente em clientelismos e elites, que pune desvios à norma moral com tortura pública e morte) mantém-se, apesar de mostrar rachaduras e conflitos internos que são o que Williams explora. Mas todos se passam dentro do seio do conservadorismo, e esse é o elemento que me está a irritar na série: sem a mão pesada dos líderes, a sociedade não colapsa, mantém-se numa instável estabilidade em que as instituições tremem, há guerras, mas a sociedade continua a acreditar piamente nos pressupostos que a oprimem. Talvez, seja uma metáfora da identificação do oprimido com os opressores, em que mesmo livres da opressão direta, os oprimidos perderam a noção da liberdade?

O livro em si vai avançando a história, desta vez com a reação dos humanos, uma das muitas espécies inteligentes do império, ao risco de quase extermínio e perda de poder no âmbito das intrigas palacianas de uma elite que vê o império apenas como meio de enriquecer. Os humanos conseguem recuperar forças e recursos, e numa batalha pírrica, derrotar as poderosas forças imperiais, num jogo mortífero onde o maior poder de fogo imperial é derrotado pela visão estratégica conservadora. A história também parece resolver a eterna tensão amorosa entre os seus dois principais personagens, embora no final reverta a situação de um modo particularmente rudimentar. Ainda nos introduz uma nova potencial linha narrativa, com vestígios de uma civilização exterminada nos primeiros séculos da expansão do poder imperial, o que faz notar que os ancestrais do império não eram infalíveis e nem todos se deixaram subjugar aos seus ideais. Este é o  elemento mais interessante do livro, e esperemos que seja desenvolvido no próximo volume da série.

Fleet Elements é um livro sem o fôlego dos anteriores, segue o seu caminho, previsível. Percebe-se que existe apenas para avançar a história, sem grandes rasgos de interesse. Pior, uma vez que a série vai longa, somos mimados com inúmeros infodumps sobre o historial dos personagens, destinados a situar eventuais novos leitores. 

terça-feira, 20 de abril de 2021

Pessoa, Profundo.

 Ceifeira

Mas não, é abstracta, é uma ave

De som volteando no ar do ar,

E a alma canta sem entrave

Pois que o canto é que faz cantar.

E se... pensei. Ultimamente, tenho andado fascinado com o potencial do Deep Daze, uma implementação que simplifica o acesso a um algoritmo que cruza as valências do CLIP e SIREN. Sem querer entrar em muitos detalhes, porque ainda não os compreendo o suficiente, podemos dar ao algoritmo texto, que irá interpretar como imagem. Parte do fascínio é descobrir como, ao fim de alguns ciclos de reforço, o algoritmo começa a gerar imagens apelativas e surreais (outras vezes, nem por isso), bem como o desafio de congeminar frases-chave intrigantes, não muito longas, há um limite de carateres. 

Daí o e se. Nada como mergulhar na poesia para encontrar frases intrigantes e desafiantes, que geram resultados surpreendentes. E porque não, dar ao algoritmo poemas para interpretar? E porque não, usar um poema de Fernando Pessoa? Veio daqui esta brincadeira. Escolhi um poema muito curto, para acelerar a experiência - este tipo de processamento com inteligência artificial pode demorar horas, um poema longo demoraria dias até finalizar a experiência. Talvez o faça, num destes dias. E já traduzido para inglês - estes algoritmos não foram treinados com dados linguísticos em português (mas, já que penso nisso, terei de experimentar). Depois, foi deixar correr e apreciar os resultados. Ao fim de cerca de 200 ciclos de reforço, parei e guardei a última imagem gerada para cada verso.

Que, confesso, me surpreenderam mais do que esperava, especialmente o do terceiro verso. A ironia é que não sendo particularmente fã de poesia, talvez o experimentá-la como faísca para inteligência artificial me leve a apreciar mais o género?

Tl;dr: só porque sim, usei versos de Pessoa como indicador para uma ferramenta de inteligência artificial gerar imagens. Podem experimentar aqui, na sua forma simplificada: Google Colab: Deep Daze.

(Implicações algo arrepiantes para o futuro do emprego na era da inteligência artificial - mesmo o emprego criativo, daquelas áreas que julgamos imunes aos algoritmos e robots: se um mero professorzito de meninos do ensino básico se apercebe que este tipo de ferramentas dá para gerar ilustrações interessantes, suspeito que alguém com mais faro para o dinheiro se aperceba que esta é uma excelente maneira de cortar custos. Imaginem um jornal ou revista, a perceber que já não precisa de contratar ilustradores, porque pode usar ferramentas deste género para automatizar a geração de ilustrações para os seus artigos.)


The Accidental War

 

Walter Jon Williams (2018). The Accidental War. Nova Iorque: HarperVoyager

Ler um livro sobre intrigas políticas, ruína económica e início de uma guerra civil não deveria ser tão interessante. Esta série é de pura space opera militarista, e esperamos as clássicas e entusiasmantes cenas de combate espacial que, nos livros anteriores da série, Williams já mostrou ser um mestre. Mas neste volume, não temos nada disso.

Temos o oposto, um meticuloso assentar de elementos no imenso jogo que continua a série Dread Empire's Fall. Após a vitória na guerra civil que ocupa os três primeiros volumes, tudo parece regressar à antiga ordem. As elites retomam o seu poder, e a economia imperial está ao rubro. Velhas fortunas aumenta, novas fortunas surgem de um dia para o outro. Entretanto, os personagens-pivot da série estão na obscuridade, por terem tido a audácia de inovar num império que valoriza a tradição ao extremo. Mesmo que tenha sido essa capacidade de inovar que salvou o império da derrota militar.

É a riqueza que irá ditar as causas da ruína que se aproxima. Apesar da aparência saudável, as finanças do império estão frágeis, com a economia assente em bolhas especulativas demasiado fortes. E quando uma destas rebenta, a economia começa a desmoronar-se.  Perante a ruína das velhas famílias, as forças mais conservadoras começam a movimentar-se para se proteger. E fazem-no virando o império contra uma das espécies que o compõem. 

Num resvalar cada vez mais vertiginoso, os humanos começam a ser apontados como a causa da ruína (apesar desta ser devida à cupidez e má gestão das elites). São colocados planos em marcha para desarmar todos os de origem terrestre, e confiscar as naves militares que estão sob seu comando na frota imperial. Estes planos são intuídos por humanos em altos cargos, que colocam em marcha uma fuga que poderá significar a diferença entre a quase-extinção dos humanos, e a sua sobrevivência. Uma nova guerra civil é inevitável. Mas isso, ficará para o próximo livro da série. 

É impossível não ler este livro como uma reação às crises financeiras que colocaram o nosso mundo, bem real, de joelhos. É também, suspeito, a forma de Williams começar a explorar a ideia mais óbvia desta série: o como é que um organismo político multi-espécies, assente em tirania, elitismo e clientelismo, consegue sobreviver quando a mão pesada sobre a sociedade começa a afrouxar.

domingo, 18 de abril de 2021

URL

Esta semana, os destaques vão para os protótios de futuros, ou as histórias do romance mais conhecido de Nabokov, autor do qual foi recentemente publicado um poema inédito sobre... o Super-Homem. Fala-se de deep fakes e nostalgia, de algoritmos que aprendem a tocar piano visualizando pianistas, ou de experiências de serious gaming que cruzam realidade virtual e fotogrametria. Descobrimos a origem da influência da Pantone, o problema emergente da neuroprivacidade, ou histórias deprimentes da Rota da Seda. Outras leituras vos aguardam, nesta edição das Capturas.

Ficção Científica e Cultura Popular

NASA artist Attila Héjja, “Tomorrow’s Air Force: Bem, em sonhos...

https://70sscifiart.tumblr.com/post/645209831458963456/nasa-artist-attila-h%C3%A9jja-tomorrows-air-force

Não obstante a possível: Vejo aqui duas coisas. O sintoma apontado pelo Luís Filipe Silva, sobre o clássico desprezo da literatura fantástica, mas também causas da falta de apetência pela leitura. Se o foco no público infanto-juvenil é essencialmente didático, falta o lado de descoberta dos interesses que estão na génese da paixão pela leitura.

http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1615311026

Dylan Dog #2: O marca vermelha: Rever um Dylan Dog antigo, das suas primeiras aventuras, com Sclavi ainda a definir um personagem mas já a mostrar o seu intenso pendor para a referenciação da cultura de género.

https://outrasleiturasdopedro.blogspot.com/2021/03/dylan-dog-2-o-marca-vermelha.html

Tom King’s Vision comics are the perfect follow-up to WandaVision: Ainda me estou a rir com esta patacoada. É o que dá colocar um jornalista que, provavelmente, não lê comics a falar de uma série baseada em comics. Na verdade, é ao contrário. Foi a temporada de Tom King como argumentista de Vision que estabeleceu as ideias que a série de televisão explora. Tom King levou a extremos a dissonância de um andróide que só quer viver uma pacata vida suburbana... e para isso constrói uma mulher e filhos (leram bem). Mas não pode, porque é um Vingador e ainda há toda a história da sua relação com a Scarlet Witch.

https://www.theverge.com/22315580/tom-king-vision-comics-marvel-wandavision-suburbs

Véra Nabokov Was the First and Greatest Champion of “Lolita”: Se o romance de Nabokov era incómodo quando foi publicado, agora é ainda mais. Felizmente, as nossas sensibilidades estão mais apuradas, e todo o conceito do livro é-nos extremamente repelente. No entanto, isto não o torna um mau livro, ou digno de ser publicamente rejeitado (e quem o fizer, só prova que não o leu). Lolita está cheio de nuances complexas, entre o criminoso mas patético Humbert (sempre o vi como um personagem que na verdade nunca cresceu, até perceber a monstruosidade que está a cometer sente que está a reviver um amor de adolescência) à adolescente que é a vítima. É intrigante descobrir que a maior apoiante da obra foi a mulher do escritor, lutando contra as reticências de todos, inclusive do próprio autor. 

https://www.newyorker.com/books/page-turner/vera-nabokov-was-the-first-and-greatest-champion-of-lolita

Another cover to James P. Hogan’s ‘Inherit the: Da fronteira final.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/644938049269153792/another-cover-to-james-p-hogans-inherit-the

Snoopy #16: 1967: Pessoalmente, este tipo de coleções desagrada-me por ser, essencialmente, um desperdício de dinheiro. Acabam por sair muito mais caras do que ter alguns TPB ou obras coligidas. Cerca de 500 euros parece-me um preço elevado pelo privilégio de ter na biblioteca um alinhamento de lombadas que faz um desenho (outra estratégia de marketing que nunca percebi, mas normalmente compro livros para ler o seu conteúdo e não como objeto estético). Junte-se a isso as objeções levantadas pelo Pedro Cleto nesta análise. Mas talvez a grande questão seja, como leitor, é mesmo importante ter toda a obra completa de um autor? Excetuando no caso de estudiosos ou fãs ferrenhos. Confissão: tenho Pratt com Corto Malteses repetidos, Tintin completo, e se vivesse em Itália teria de certeza uma parede Dylan Dog, por isso percebo o impulso. Mas sempre achei que estas coleções exageravam na relação custo/qualidade.

https://outrasleiturasdopedro.blogspot.com/2021/03/snoopy-16-1967.html

Tony Roberts: Capa de uma space opera onde a tecnologia dominante é a linguagem.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/644847450481377280/tony-roberts

Five SFF Books About Division and Separation: Algumas distopias de sociedades balcanizadas, profundamente divididas, que também servem para reflectir naquilo que na realidade nos divide.

https://www.tor.com/2021/03/02/five-sff-books-about-division-and-separation/

Prototyping a Better Tomorrow: É uma eterna discussão, será a ficção científica uma forma de prever o futuro. E bastante estéril, apresenta uma faceta muito limitada do género, mas que acaba por ser aquela que o mainstream associa. No entanto, a FC, como género eminentemente especulativo, tem ferramentas que permitem pensar no futuro. Não antever ou prever, mas sim extrapolar tendências contemporâneas. 

https://slate.com/technology/2017/06/more-science-fiction-can-help-us-create-a-better-tomorrow.html

Read Nabokov’s Long-Lost Superman Poem, Now In Print At Last: Isto é um estranho achado - um poema rejeitado pela New Yorker, dos tempos em que o criador de Lolita e Pale Fire tinha acabado de chegar à América, e procurava encontrar uma voz literária adequada ao novo mundo. Uma ode sobre um super-herói parece-nos, hoje, algo de verdadeiramente geek.

https://www.the-tls.co.uk/articles/superman-returns-poem-vladimir-nabokov-andrei-babikov/

Touching the future: Um olhar para o equilíbrio dos futuros possíveis, entre as utopias da tecnologia e a sustentabilidade longeva das tradições. Uma visão que sublinha que a tecnologia por si só não é motor de progresso, necessita de ser integrada em sistemas.

https://www.griffithreview.com/articles/touching-the-future/

The Black Hole concept art, 1979, by Robert McCall: Um filme Disney algo esquecido.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/644677597770498048/the-black-hole-concept-art-1979-by-robert-mccall

Rever Paris: Com enorme pena minha, perdi esta edição da coleção Público/Levoir, mas ainda não perdi a esperança de a encontrar numa livraria.

https://outrasleiturasdopedro.blogspot.com/2021/03/rever-paris.html

Tecnologia



*That was then.  This is now: O Bruce Sterling, sempre uma fonte de inspiração, partilhou esta capa da TIME de 1964. Tive de ir descobrir o artigo: The Cybernated Generation.
http://content.time.com/time/subscriber/printout/0,8816,941042,00.html
https://brucesterling.tumblr.com/post/644761461362753536/that-was-then-this-is-now

Multimodal Neurons in Artificial Neural Networks: O intrigante neste desenvolvimento de redes neuronais é a forma como tenta mimetizar aspetos do funcionamento do cérebro.
https://openai.com/blog/multimodal-neurons/

The Intelligent Life of Droids - Issue 98: Mind: Deveremos tratar os robots com empatia? Claro que essa questão, hoje, coloca-se nos domínios da especulação, mas relaciona-se com a questão das emoções e sua simulação. Poderá o simulacro programado de emoções ser equivalente à emoção que sentimos? E... será que as emoções que sentimos não são mero resultado de estruturas de programação biológicas  e psicológicas?

http://nautil.us/issue/98/mind/the-intelligent-life-of-droids

Deep Nostalgia: entre o engraçado e o assustador, a importância da contextualização: O Shifter fez o trabalho de casa e analisou a fundo o Deep Nostalgia, a app deepfake que anda a encantar a internet. Especialmente, olha para as práticas de segurança e privacidade da empresa de genealogia que disponibilizou esta app. Olha também para a questão do desenvolvimento de tecnologias invasivas de reconhecimento facial. Fico com a suspeita que esta app faz mais do que cativar eventuais clientes para serviços de genealogia. Todas aquelas fotos antigas dão um excelente modelo de treino para algoritmos de reconhecimento facial capazes de identificar rostos a partir de fotos, com a vantagem de serem capazes de perceber as mudanças na topologia facial causadas pela idade.

https://shifter.sapo.pt/2021/03/deep-nostalgia-entre-o-engracado-e-o-assustador-a-importancia-da-contextualizacao/

Visible Touch: How Cameras Can Help Robots Feel: Intrigante. Este estudo aponta para o potencial das câmaras para complementar sensores hápticos com inteligência artificial, dando aos robots uma melhor percepção de toque.

https://spectrum.ieee.org/tech-talk/robotics/robotics-hardware/visible-touch-cameras-robots-feel

‘Audeo’ teaches artificial intelligence to play the piano: Mais um curioso desenvolvimento nos domínios da inteligência artificial. Este sistema de visão computacional é capaz de aprender música, analisando vídeos de um pianista a tocar.

https://www.washington.edu/news/2021/02/04/audeo-teaches-artificial-intelligence-play-piano/

Tim Wu, the ‘father of net neutrality,’ is joining the Biden administration: Não me cabe pronunciar sobre as politiquices americanas, nem é assunto que me interesse por aí além. Mas quando se intersecta com a tecnologia, já intriga. Nem que seja pelo sinal que estas coisas dão. A repelente administração anterior nomeou um ex-executivo de redes de tv cabo que tentou acabar com o princípio da neutralidade da internet, contra todos menos, claro, os interesses que realmente representava. Já esta administração segue um caminho oposto, ao trazer para papéis de aconselhamento decisório alguém cuja carreira tem sido de defesa da liberdade online e neutralidade da internet. Será um sinal de eventual tentativa de atacar os monopólios de facto, mas não de jure, que na prática governam a internet? Tentar cercear o poder que as GAFAM adquiriram?

https://www.theverge.com/2021/3/5/22315224/tim-wu-net-neutrality-antitrust-big-tech-biden-administration-national-economic-council

I asked an AI to tell me how beautiful I am: Portanto, isto é uma tendência. Usar algoritmos para avaliar a beleza individual e recomendar melhorias cosméticas ou de cirurgia plástica. O problema é que isto não é apenas uma variante moderna da vaidade. Sendo ferramentas de IA, não têm transparência e não sabemos precisamente que dados de aprendizagem foram usados para que o algoritmo conclua se somos estonteantes ou epítomes de fealdade. Um óbvio problema ético, especialmente num campo que mexe com a psicologia e o bem estar emocional de cada um. A coisa complica-se quando se percebe que esta tecnologia tem ramificações nos campos muito polémicos dos algoritmos de reconhecimento facial, extremamente invasivos da privacidade individual. 

https://www.technologyreview.com/2021/03/05/1020133/ai-algorithm-rate-beauty-score-attractive-face/

PICO CAD is a Low Poly 3D Modeling Software Concept: Quão low poly? Pensem pixel art em 3D. Isto é mera prova de conceito e não software de produção, mas admito que a ideia de criar modelos 3D desta maneira tem a sua sedução. Claro que há formas mais fáceis de criar objetos low poly do que desenvolver um micro cad a 8 bit.

https://www.solidsmack.com/cad/pico-cad-is-a-low-poly-3d-modeling-software-concept

Facebook’s new AI teaches itself to see with less human help: O título não está muito correto. Na verdade, houve imensa ajuda humana para desenvolver este algoritmo capaz de aprender sozinho a reconhecer elementos não etiquetados em imagens. Essencialmente, os investigadores recorreram ao imenso arquivo de imagens do Instagram para poderem treinar o algoritmo. Ou seja, sem todas aquelas selfies à influencer ou fotos dos petiscos que todos partilhamos naquela rede, não teria sido possível desenvolver esta ferramenta.

https://www.wired.com/story/facebook-new-ai-teaches-itself-see-less-human-help/

"Technological Threat" animation short 1988 Academy Award nominee: Uma curta de animação antiga, mas a falar de um tema atual. Tudo o que será automatizável, sê-lo-á, e estamos a viver o futuro desta curta. A ironia amarga deste filme de 1988? Aquela ideia de trabalhar mais e mais depressa por causa da máquina, mesmo. Nos dias de hoje, a Amazon faz exatamente isto - integra a mão de obra humana nos fluxos de produção automatizados, forçando os empregados a aguentar o ritmo imposto pelos algoritmos. 

https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=XiTgoRR3tbk

VR hospital training by 360Fabriek developed for Franciscus Gasthuis & Vlietland: Um projeto muito interessante, que desenvolveu um serious game (jogos usados para contexto de aprendizagem) em realidade virtual, para treino de enfermeiros de um hospital holandês. Combina scan 3D, fotogrametria e realidade virtual para recriar fielmente o ambiente do hospital.

https://fb.watch/475LoiYsJW/

This robot artist stops to consider its brushstrokes like a real person: Não sei o suficiente sobre este projeto para saber se é interessante, se representa um avanço no uso de robótica como forma de expressão artística, ou se é meramente fogo de vista.

https://www.engadget.com/ai-painting-project-sxsw-2021-225235320.html

Epic Games buys photogrammetry software maker Capturing Reality: Uma opção intrigante do criador de jogos, que claramente aposta na fotogrametria como forma de criar elementos 3D para jogos de computador.

https://techcrunch.com/2021/03/09/epic-games-buys-photogrammetry-software-maker-capturing-reality/

Modernidade



An Ice-Covered Russian Ghost Town: Não é de todo um sítio aprazível, mas coberta de gelo, a cidade remota de Vorkuta tem o seu encanto.
https://www.theatlantic.com/photo/2021/03/photos-ice-covered-russian-ghost-town/618188/

Into Titan’s Haze: Recordar as experiências de Miller e Urey, sobre a eventual geração dos elementos básicos de vida a partir de atmosferas primordiais, aplicado à análise da atmosfera de Titã.

https://www.centauri-dreams.org/2021/03/02/into-titans-haze/

So Who Made Pantone The Boss Of Colors Anyway?: Nos anos 60, a Pantone foi pioneira no estabelecimento de normas para a representação de cores e produção industrial de tintas, com um catálogo rigoroso que retirava ambiguidade às cores combinando tonalidades com métricas rigorosas de pigmento. Com isso, tornou-se uma inesperada força cultural.

https://www.artsjournal.com/2021/03/so-who-made-pantone-the-boss-of-colors-anyway.html

A Blight on Soviet Science: A história, fascinante e deprimente, de Nikolai Vavilov. Cientista russo dedicado ao estudo da genética nas culturas, correu meio mundo para criar um enorme banco de sementes, que sobreviveu até ao cerco de S. Petersburgo. Incrível imaginar cientistas a morrer de fome, mas determinados em proteger toneladas de sementes de cereais. Vavilov chocou contra a falsa ciência de Lisenko, que Estaline admirava, e pagou com a vida a sua dedicação à verdade científica.

https://www.damninteresting.com/a-blight-on-soviet-science/

NEUROPRIVACY AS A BASIC HUMAN RIGHT: Isto pertence à categoria de problemas éticos que ainda nem nos lembrámos que a tecnologia vai colocar. As correntes e futuras tecnologias de imagiologia cerebral, especialmente se a alimentar algoritmos de comportamento preditivo, podem fazer muito mais do que dar-nos conhecimento sobre o funcionamento do cérebro. Podem revelar padrões de comportamento que poderemos querer que permaneçam íntimos. Não é telepatia, mas não é preciso muito para se analisar, julgar e prever comportamentos individuais a partir dos dados recolhidos por estas tecnologias. Até agora, têm tido usos exclusivamente médicos e científicos, mas à medida que vão chegando a outros domínios, começam a colocar problemas éticos.

https://neo.life/2021/02/neuroprivacy-as-a-basic-human-right/

About Last Night: Ancient Drunkard Apology Letters of the Silk Road: Pois, quem nunca acordou num dia seguinte a uma noite particularmente feliz com ressaca monumental e a sensação que o comportamento nocturno não tenha sido, digamos, o mais apropriado? É um problema transversal à história da humanidade, como o mostram estes textos chineses milenares, preservados numa cidade perdida da Rota da Seda.

https://www.messynessychic.com/2021/03/04/about-last-night-ancient-drunkard-apology-letters-of-the-silk-road/

The Secret Life of components: A apresentação desta série vale por este tremendo insight: "It's impossible to teach experience; I now have the experience to make complicated things, but I don't know exactly what it is that I know. So much of it is non-verbal, I work with my hands. And at times, they just seem to take over". Aposto que não há professor que trabalhe com o lado prático, que tente cruzar as fronteiras entre disciplinas, que não sinta isto, a dificuldade em ensinar aquilo que se aprende, fazendo, metendo as mãos na massa, falhando. Aprendizagens que revelam o nosso largo espectro cognitivo, que não se reduz ao pensamento consciente. É tão mais fácil resumir a receitas e procedimentos, ou ensinar apenas teoria...

https://www.youtube.com/watch?v=6JAgXz6xO0s

Guerra Colonial: o julgamento que não houve*: Mesmo no período pós-25 de abril, a memória da Guerra Colonial era controversa e abafada pelos militares, revolucionários em tudo menos na defesa acérrima da instituição castrense. Por incrível que nos pareça, a edição de um livro que relatava crimes de guerra cometidos por militares portugueses nos teatros de operação africanos foi considerada uma ofensa à instituição militar, e, no pós-25 de abril, alvo de um processo em tribunal. Sessenta anos passados, a Guerra Colonial continua a ser assunto algo tabu nas discussões públicas.

https://pedromarquesdg.wordpress.com/2021/03/07/guerra-colonial-o-julgamento-que-nao-houve/

sexta-feira, 16 de abril de 2021

O Livro Sagrado da Factologia

 

Rui Zink (2017). O Livro Sagrado da Factologia. Lisboa: Teodolito.

Um livro de ironias negras. Quando um escritor se vê raptado por um misterioso grupo, espera o pior. Degolado às mãos de terroristas, para gáudio de audiências online, talvez. Mas o ordálio é mitigado por uma misteriosa companhia feminina, não de infortúnio, mas de estímulo. Um incentivo dado pelo seus raptores, porque o espera um ordálio pior: ter de ouvir a filosofia do líder dos raptores, em entrevistas destinadas a que saia um livro sobre a ideologia do grupo. 

Um grupo heterogéneo, composto por personagens caricatas, unidas pelo carisma do seu líder e a crença na factologia, uma nova ideologia baseada nas verdades puras e alheamento individual, porque a verdade de um não é necessariamente a verdade de outros. Uma óbvia ironia com os zelotas dos fundamentalismos e extremismos, e os seus ideais enviesados. Mas também ao caráter porreirista português, com a sua capacidade de empatia. Vítima e crítico de uma ideologia indiferente, o escritor acaba por se ligar aos seus raptores, e num alucinante volte-face final, acabará por se tornar o líder e profeta desta nova ideologia global. Ironia num tom literário muito leve, é o que nos espera nesta sagrada escritura.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Four Lost Cities

Annalee Newitz (2021). Four Lost Cities: A Secret History. Nova Iorque: W.W. Norton.

O que é que dita o fim de uma cidade? Acontecimentos apocalípticos, decisões sociais, ou a combinação da erosão económica e ambiental? E o que é que o fim de grandes cidades do passado nos poderá ensinar sobre os desafios urbanos do futuro próximo, onde as alterações climáticas vão colocar sob pressão a nossa sociedade global fortemente urbanizada? 

Em busca de indícios sobre estas questões, somos levados a quatro cidades icónicas do passado. Çatal Huyuk, considerada a primeira cidade da humanidade, que floresceu no dealbar da humanidade. A sua antiguidade não nos permite saber muito sobre os que a construíram e habitaram, mas percebe-se que o seu abandono não foi um colapso, antes um espalhar e gerar de novas comunidades. Já Pompeia, sabemos que pereceu num cataclismo, e ainda bem para nós, que temos nas suas ruínas o mais completo vislumbre sobre a vida da sociedade romana, com constantes novas e fascinantes descobertas. O cataclismo preservou a cidade para o futuro, mas no seu presente, os seus sobreviventes espalharam-se por outras cidades romanas.

Angkor é-nos mostrada como a cidade do impossível, uma comunidade urbana complexa nascida no meio da selva, mantida num ambiente pouco hospitaleiro a cidades graças a engenharia complexa e força de trabalho. Mostra-nos que quando os elementos se conseguem sobrepor à capacidade humana, segue-se o desmoronar do espaço sob pressão ambiental. E, no entanto, a cidade nunca foi totalmente abandonada, quando foi "descoberta" por exploradores franceses era habitada por comunidades de monges budistas, que mantinham os seus grandiosos templos a salvo da selva, e bem conhecida pelos habitantes da região. 

O livro encerra com a enigmática Cahokia, uma cidade construída em moldes muito diferentes do que os que consideramos espaços urbanos. Ponto de fixação durante séculos das tribos índias da américa do norte, era uma comunidade fluída assente em pressupostos que hoje não são claros, talvez políticos, talvez religiosos, e foi eventualmente abandonada com a migração das tribos para outros territórios.

Newitz mergulha-nos a fundo na história destas quatro cidades, retratando-as com um olhar jornalístico assente em visitas, investigação e contributos dos arqueólogos que hoje estudam estes antigos centros urbanos. As ilações que tira são bastante óbvias - as cidades não são imutáveis nem eternas, dependem de complexos equilíbrios sociais, políticos e essencialmente ambientais. Quando o ambiente se torna demasiado inóspito, e quem vive e determina os espaços urbanos progressivamente incapaz de contrariar os seus efeitos, esse é o momento que marca a decadência de uma cidade. Algo que não é imediato, é um processo longo. Só Pompeia é uma excepção, graças ao raro cataclisma que a destruiu. Na verdade, as cidades desvanecem-se com suspiros, e raramente morrem com explosões. Uma conclusão clara para os dias de hoje, em que enfrentamos a curto prazo as questões ambientais advindas das alterações climatéricas. 

terça-feira, 13 de abril de 2021

Conventions of War

 

Walter Jon Williams (2005). Conventions of War. Nova Iorque: Harper Voyager.

O vibrante na space opera militarista é, como não poderia deixar de ser, a descrição das operações militares, as táticas, estratégias e momentos de combate férreo. Walter Jon Williams não desilude, e é brilhante na forma como explora as convenções do género. As batalhas espaciais deste livro (e somos mimados com três) mantém-nos agarrados páginas a fio, numa leitura imparável. Mas um livro não é feito apenas disto. Tem de haver um mundo ficcional coerente, e personagens com que o leitor se identifique.

Nisto, o autor também segue bem a cartilha, adensando cada vez mais este mundo ficcional fraturado. Boa parte do livro mergulha-nos nas tortuosas relações de poder de um império que se encontra numa curiosa guerra civil, entre conservadores e ultra-conservadores. Talvez aquilo que mais salta à minha leitura seja o estranhar de não ter sido seguido um outro caminho. Williams cria uma sociedade profundamente conservadora, clientelista, e corrupta nos seus escalões de topo. Uma corrupção que é tida como natural, como uma tradição. Seriam bons ingredientes de uma narrativa clássica em que uma sociedade corrupta se desmorona, mas não. O caminho seguido é o do reforçar do poder das elites clássicas, mesmo recorrendo a óbvios combatentes livres. 

Algures durante o livro, numa parte onde somos levados à organização e condução de uma guerra terrestre contra os ocupantes da capital imperial, uma das personagens principais mostra-nos essa óbvia conclusão, ao mobilizar civis e criminosos para lutar pela restauração de uma tirania que tinha apenas a vantagem de ser um pouco mais inepta do que a tirania dos invasores. Talvez esteja aqui a chave para a continuidade da série, a óbvia derrocada de um império cujos governantes de mão de ferro se extinguiram, e o deixaram nas mãos de tradicionalistas ligados a clientelas, cujos jogos de interesse vão inevitavelmente gerar conflitos. Especialmente se for levado em conta que o império reúne diferentes espécies alienígenas, normalizadas e integradas numa sociedade comum após a sua conquista pelos fundadores do império.

No campo dos personagens, todo o livro é atravessado por uma história tortuosa de amor entre as duas principais personagens. Martinez pertence a um clã poderoso, mas de segunda linha, cujo líder se desdobra em esforços e jogadas para chegar às principais esferas de poder. Mas Martinez prefere a vida de oficial militar, e é excelente nisso, por ter a capacidade de pensar fora dos limites de um pensamento militar fossilizado nas tradições de uma frota estelar que, apesar de poderosa, foi durante séculos meramente cerimonial. 

Sula é a herdeira de um clã caído em desgraça, é implacável na forma como, a pulso, constrói o seu percurso. Tão implacável que, na verdade, não é quem diz ser. Na adolescência, assassinou e roubou a identidade da legítima herdeira do clã, que dissipava a sua vida em overdoses constantes de drogas. Com isso, fugiu ao destino de ser brinquedo sexual dos pequenos criminosos de vida curta que sobrevivem nas fímbrias da sociedade imperial (uma excelente forma do autor mostrar que o mundo perfeito das esferas sociais na verdade assenta sobre opressão e pobreza). Apesar deste passado secreto, revela-se uma estratega de primeira, tão capaz de vencer esquadrões de combate inimigos em batalhas no espaço como de organizar uma insurreição que, contra todas as expectativas, derrota os invasores antes do regresso das forças imperiais. 

Para além da tensão amorosa, complicada pela história de vida de Sula e os jogos políticos e económicos do clã de Martinez (sem querer muitos spoilers, digamos que pelo meio há abandonos, casamentos com outros clãs, e uma tensão amorosa que nem no final será resolvida), há outro tipo de tensões em jogo. Williams toca muito na tecla da tradição versus inovação. São os inovadores que conseguem salvar o império e derrotar os seus inimigos, e, no entanto, são sempre preteridos perante os tradicionalistas. Isto é particularmente óbvio no lado militar, onde as táticas clássicas apenas conseguem levar a pesadas derrotas e ao desperdício de homens e meios. Os que inovam salvam, literalmente, a pele aos tradicionalistas, mas são estes os que têm a primazia. 

Tensões sociais e excelentes descrições de combate militar, contra um pano de fundo vasto, tornam estes livros uma excelente série de space opera militarista. Com o toque discreto mas corrosivo de todo o drama se desenrolar para manter viva uma sociedade obviamente corrupta. Vamos ver o que os próximos livros nos trarão.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

H-alt: Espíritos dos Mortos



Suspeito que este livro não seja do agrado do público em geral. A sua carga referencial é enorme. Tem de se ser conhecedor do gótico fin de siècle que apaixonou os simbolistas franceses que, de facto, foram os que colocaram Poe no pedestal literário que nunca teve em vida. Tem de se apreciar o traço de Corben, ou pelo menos capacidade para reconhecer a sua qualidade estética mesmo que o traço não nos agrade. Faz ainda jeito conhecer o historial exploitation das estéticas do horror no cinema dos anos 50 e 60, e especialmente nas páginas das lendárias revistas da Warren Publishing, que fugiam aos espartilhos da Comics Code Authority e compraziam os seus leitores com histórias tenebrosas ilustradas por grandes desenhadores, capazes de invocar o horror e o exotismo nas suas pranchas. Um grupo restrito, do qual Corben fez parte. Esta edição de Espíritos dos Mortos funciona como uma excelente elegia ao seu criador, merecendo espaço nas bibliotecas. Resenha Completa em H-alt: Espíritos dos Mortos.

domingo, 11 de abril de 2021

URL

Para esta semana, fala-se do novo romance a roçar a FC de Ishiguro, de leituras duras de banda desenhada, ou do horror cósmico de Lovecraft. Na tecnologia, a robótica tem um enorme destaque, entre sentimentos de empatia, ética e drones. Ainda se fala de realidades fragmentadas, de restauros de arte romana em Pompeia, e das agruras da vida marciana. Mais letituras intrigantes vos aguardam, nas Capturas da semana.

Ficção Científica e Cultura Popular


Madagascar Incident: Àquela altitude, é tipo kamikaze.

https://pulpcovers.com/madagascar-incident/

Kazuo Ishiguro’s Radiant Robot: Fico com a sensação que Ishiguro é um camaleão literário, que a cada novo romance assume o aspeto de todo um género literário. Tem glosado o horror, a fantasia, e agora mergulha de chofre na ficção científica no seu novo livro, sobre inteligência artificial, vida artificial e emoções. Fiquei curioso, embora sem grandes esperanças. Como conheço o género, suspeito que será mais uma variação entre Der Sandmann e Pinochio.

https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2021/04/kazuo-ishiguro-klara-and-the-sun/618083/

Grass – Keum Suk Gendry-Kim: Esta leitura do Rascunhos parece-me deveras inquietante, um olhar sobre um dos episódios mais sórdidos e mal resolvidos da história do século XX - o das mulheres coreanas forçadas a prostituir-se nos bordéis do exército imperial japonês. Mulheres que foram vítimas de tudo, de infâncias na pobreza, de um império que as considerava menos que humanas, e posteriormente de um país independente que as via como maculadas. 

https://osrascunhos.com/2021/03/01/grass-keum-suk-gendry-kim/

The Lie at the Heart of the Western: A grande surpresa deste artigo é descobrir que o Western ainda é um género literário. Mas, em vez das histórias clássicas (e bastante xenófobas) do herói que triunfa no selvagem oeste, temos autores de etnia índia a revisitar o Velho Oeste com o seu olhar traumatizado pela história.

https://www.theatlantic.com/culture/archive/2021/02/new-literary-western-in-the-distance-how-much-these-hills-gold-inland/618093/

The Robot Terror: Não há fuga possível ao horror automático.

https://pulpcovers.com/the-robot-terror/

One Hundred Tales: Stories of Japan’s Cute and Creepy “Yōkai”: Do sempre fascinante mundo do sobrenatural japonês, repleto das mais bizarras tradições. Ainda não li estes relatos, parte da cultura clássica nipónica, mas posso recomendar vivamente o mangá Nonnonba, de Shigeru Mizuki, que cruza recordações de infância com este riquíssimo substrato de lendas tradicionais, bizarras, assustadora, surreais, tocantes e às vezes um pouco patetas. Resquícios de um mundo onde a escuridão despertava os medos.

https://www.nippon.com/en/japan-topics/g00929/one-hundred-tales-stories-of-japan%E2%80%99s-cute-and-creepy-yokai.html

De ‘Providence’ a ’30 Monedas’: analizamos las relecturas de H.P. Lovecraft junto a tres expertos en Horror Cósmico: A influência de Lovecraft é inseparável do terror contemporâneo, por vezes de formas pouco óbvias. Tudo o que tiver um toque cósmico, de estranheza quase surreal, de confronto entre conservadorismo e modernidade, nasce neste idiossincrático autor americano que, por pouco, não caiu na obscuridade.

https://www.xataka.com/otros/providence-a-30-monedas-analizamos-relecturas-h-p-lovecraft-a-tres-expertos-horror-cosmico

Revista Magazine de Ficção Científica nº 3: O SciFi Tropical está a fazer um trabalho excelente de arquivo digital e divulgação da FC clássica do Brasil. Desta vez, oferece-nos uma versão epub do terceiro número da edição brasileira da revista Magazine de Ficção Científica.

https://scifitropical.wordpress.com/2021/02/26/revista-magazine-de-ficcao-cientifica-no-3/


Chesley Bonestell: Se há grande mestre da arte em ficção científica, é Bonestell.

https://70sscifiart.tumblr.com/post/644258554619084800

Sci-fi authors love the word “tomorrow.”: Bem, a FC é essencialmente o imaginário do amanhã...

https://70sscifiart.tumblr.com/post/644190630507118592

Why do most spaceships in sci-fi have their guns on backwards?: Bem visto, em termos de estratégia militar, as naves espaciais da FC popular seriam alvos demasiado fáceis.

https://boingboing.net/2021/02/26/why-do-most-spaceships-in-sci-fi-have-their-guns-on-backwards.html

Planeta Psicose – Ricardo Santo: Tenho andando um pouco distante de livrarias (pudera, estão fechadas!) e este lançamento da Escorpião Azul passou-me ao lado. Pela análise do Rascunhos, parece-me ser uma cena batshit crazy, ou seja, daquelas que é exatamente o que o médico receitou para suportar os tédios do confinamento e as agruras da escola online. Teorias insanas da conspiração levadas ao absurdo? 

https://osrascunhos.com/2021/02/26/planeta-psicose-ricardo-santo/

Tecnologia


Scientific Diagrams That Look Unintentionally Hilarious: Há aqui imagens de absurdismo inesperado geniais. Como não rir da imagem do homem que segura uma mola?
http://feedproxy.google.com/~r/failblog/~3/0jxyv3u6CAU/scientific-diagrams-that-look-unintentionally-hilarious

The Appearance of Robots Affects Our Perception of the Morality of Their Decisions: Ou seja, se um robot nos parecer simpático, aceitamos mais facilmente ações perigosas ou imorais. O que não é nada de novo, é esse o efeito psicológico que os vigaristas são exímios em explorar.

https://www.helsinki.fi/en/news/language-culture/the-appearance-of-robots-affects-our-perception-of-the-morality-of-their-decisions

When Robots Enter the World, Who Is Responsible for Them?: Ética e responsabilidade na robótica são questões cada vez mais prementes, à medida que estas tecnologias integram a economia e sociedade. Nestas entrevistas a investigadores e empresários, fica claro que assumem à partida um compromisso ético de controlar os usos a que os robots que vendem se destinam, e se o entenderem, negar o acesso à tecnologia. Claro que isto é daquelas coisas, sabemos que haverá sempre empresas com princípios éticos, e haverá aquelas que só querem lucrar a qualquer custo.

https://spectrum.ieee.org/automaton/robotics/industrial-robots/when-robots-enter-the-world-who-is-responsible-for-them

Will Robots Make Good Friends? Scientists Are Already Starting to Find Out: Os robots são máquinas, mas nós conseguimos formar elos emocionais mesmo sabendo que são objetos, e as suas ações mera programação. Com o evoluir da robótica, com o desenvolvimento de sistemas e algoritmos cada vez mais complexos, com um simular cada vez mais aperfeiçoado de ações e emoções, é previsível que este fator de proximidade emocional se aprofunde.

https://singularityhub.com/2021/02/25/will-robots-make-good-friends-scientists-are-already-starting-to-find-out/

Robotics roundup: Algumas notícias que mostram a forma como a robótica se está a integrar na economia. O uso de robots para policiamento é um desenvolvimento preocupante, se bem que não inesperado.

https://techcrunch.com/2021/02/25/robotics-roundup/

Lyra: A New Very Low Bitrate Codec for Speech Compression: Se nos dias de hoje a saturação das redes é notória, com o vídeo online (entre os serviços de streaming e as videoconferências que se tornaram fundamentais em muitos setores de atividade) a esgotar a capacidade da largura de banda, a Inteligência Artificial pode ajudar. No caso, com codecs (algoritmos de compressão) mais eficazes, que usam aprendizagem automática para elevadas taxas de compressão sem perder qualidade sonora.

http://ai.googleblog.com/2021/02/lyra-new-very-low-bitrate-codec-for.html

This AI-powered search engine returns movie screenshots based on keyword searches: Vá, quem diria que a inteligência artificial não serve para coisas verdadeiramente úteis? Como encontrar imagens de filmes com base em palavras-chave. Piada à parte, isto pode mesmo ser útil como ferramenta de auxílio à pesquisa e investigação.
https://boingboing.net/2021/02/26/this-ai-powered-search-engine-returns-movie-screenshots-based-on-keyword-searches.html

Por qué las rutas de archivo en MS-DOS y Windows usan el carácter "\" y no el "/" (como querían los desarrolladores de Microsoft): Um pouco de história da computação, a recordar que os pormenores em que mal reparamos foram alvo de discussão antes de se terem tornado normas. 
https://www.xataka.com/historia-tecnologica/que-rutas-archivo-ms-dos-windows-usan-caracter-no-como-querian-desarrolladores-microsoft

coding-horror/basic-computer-games: Um projeto intrigante, que portou um manual clássico de introdução à programação dos anos 80 para linguagens contemporâneas. Uma fonte de inspiração para os meus alunos de robótica.
https://github.com/coding-horror/basic-computer-games

What is an “algorithm”? It depends whom you ask: Se a definição de algoritmo é simples, as suas ramificações nem por isso.
https://www.technologyreview.com/2021/02/26/1020007/what-is-an-algorithm/

Alto - pequeno robot com AI da Google: Uma interessante adição aos robots DIY, desta vez com um toque de inteligência artificial.
https://abertoatedemadrugada.com/2021/02/alto-pequeno-robot-com-ai.html

Study: “Zoom Fatigue” Exists—and It Totally Sucks: Creio que já todos notámos, que uma simples sessão de videoconferência nos deixa estranhamente exaustos. Isso tem a ver com as cargas cognitivas adicionais que estão envolvidas neste tipo de comunicação, que vão deste o reconhecer-nos a nós próprios na janela do sistema, à contínua interpretação de pistas visuais que não são contextualizadas.
https://futurism.com/study-zoom-fatigue-exists-and-it-totally-sucks

This Wild Video Maps the Entire Internet and Its Evolution Since 1997: Poderemos alguma vez ter um mapa completo de uma rede em constante expansão e evolução? Talvez não, mas precisamos de mapear a sua evolução e perceber as suas capacidades rizomáticas.
https://singularityhub.com/2021/02/28/this-video-shows-the-entire-internet-and-its-evolution-since-1997/

Three Words: Supersonic. Combat. Drones: Desconfio sempre destes anúncios, poderão ser pouco mais do que hype. Mas os projetos de aeronaves autónomas de combate sucedem-se, e este junta-se aos muitos que já estão em estudo e desenvolvimento.
https://futurism.com/three-words-supersonic-combat-drones

Deep Nostalgia, la IA que da vida a fotografías antiguas convirtiéndolas en impresionantes vídeos: A internet está entusiasmadissima com esta app, que promete dar vida às fotos dos nossos entes queridos já desaparecidos. O entusiasmo pelo hype obscurece o facto de não passar de um truque de marketing, usando um simples transferência de estilo para simular a animação. É essencialmente um truque publicitário de uma empresa especializada em serviços de genealogia, que usou algoritmos de IA para promover os seus serviços. Mas vá-se lá explicar isso aos deslumbrados, que aceitam acriticamente todas as supostas novidades tecnológicas...
https://www.xataka.com/robotica-e-ia/deep-nostalgia-ia-que-da-vida-a-fotografias-antiguas-convirtiendolas-impresionantes-videos

Google is boosting AR performance on Android phones with dual cameras: De forma discreta, a Google tem reforçado o seu investimento em realidade aumentada. Entre a integração em apps e pesquisa e o desenvolvimento de software para lentes de telemóvel, parece claro que estão a apostar na realidade aumentada em dispositivos móveis.
https://www.theverge.com/2021/3/2/22308742/google-arcore-dual-camera-update-pixel-4-xl

Data Labeling: A Potential and Problematic Industry Behind AI: É o grande segredo dos algoritmos de inteligência artificial - o exército humano que se dedica a etiquetar a informação que será usada para treino de algoritmos.
https://becominghuman.ai/data-labeling-a-potential-and-problematic-industry-behind-ai-2495952dfcbd

NFT WTF: Uma ideia nova, e interessante. como resolver o problema da facilidade de cópia de arte digital? Incluir um token em blockhain, que certique um ficheiro como único e original. Usando criptomoedas, gera-se um novo mercado artístico.
http://blog.seanbonner.com/2021/03/01/nft-wtf/

Microsoft Mesh, así es la plataforma que está creando Microsoft para una oficina virtual en realidad aumentada: Isto é muito prometedor, mesmo que integre o horrendo Teams, o clone do Slack pela Microsoft. E é este o caminho, usar a realidade aumentada como ambiente colaborativo. Mas notem, isto mal está em alpha, vai demorar a chegar ao público.
https://www.xataka.com/realidad-virtual-aumentada/microsoft-mesh-asi-plataforma-que-esta-creando-microsoft-para-oficina-virtual-realidad-aumentada

No-Contact Floating Holographic Keypads from Japan: Um conceito intrigante, que talvez não passe de vaporware - usar interface holográfico para evitar tocar em superfícies. O artigo fala de testes em hospitais japoneses, vamos ver se realmente será um produto comercial.
https://www.core77.com/posts/105899/No-Contact-Floating-Holographic-Keypads-from-Japan?utm_source=core77&utm_medium=from_title

Modernidade


A Natural History of Networks / SoftMachine – A speculation about a heterogeneous technological culture: Esta instalação artística leva-nos a refletir sobre potenciais formas diferentes de computação - no caso, computação eletroquímica com eletricidade e líquidos ferrosos em solução, programados para exibir comportamentos fractais.
https://www.creativeapplications.net/maxmsp/a-natural-history-of-networks-softmachine-a-speculation-about-a-heterogeneous-technological-culture/

If Aliens Exist, Here’s How We’ll Find Them - Issue 97: Wonder: Com muito esforço científico, e métodos tecnológicos para analisar os indícios que nos chegam dos astros.

http://nautil.us/issue/97/wonder/if-aliens-exist-heres-how-well-find-them

Shared (un)Realities: Uma das tendências mais preocupantes dos tempos recentes é o estilhaçar das realidades consensuais, talvez melhor exemplificados pelos consensos alucinatórios alimentados por fake news e teorias da conspiração que alimentam extremismos que se estão a tornar mainstream. Mas o próprio mainstream também se alimenta disso, com um lucrativo investimento em falsas realidades mediáticas, dos quais os inenarráveis reality shows, e a sua promoção de uma intensa banalidade, são a epítome. Sem querer parecer demasiado quarentão resmungão e elitista a ver o mundo a ir para o galheiro, a verdade é que por muito que mostremos a importância da elevação cultural, basta uma criança ligar um canal generalista ou dedicado para ser bombardeada por exemplos de magníficos zés-ninguéns a fazer aquilo que fazem melhor, ser zé-ninguém, por vezes com dificuldade em articular raciocínios que incluam mais do que três palavras. Tudo isso a ser promovido como desejável, como alcançável. Se, como observa Malik, " It is apparent that we no longer live in a what-you-see-is-what-you-get (WYSIWYG) kind of environment. Fact-based reality has become a figment of our imagination, or maybe we are beginning to realize that it was always so", fica ainda mais complicado quando tantas dessas falsas realidades apelam à mediocridade absoluta.

https://om.co/2021/02/24/shared-unrealities/

Mars Is a Hellhole: E, no entanto, não me importaria nada de colocar os meus pés no inóspito solo marciano. Devemos preservar a nossa casa. A Terra é o nosso berço e, provavelmente, o único local do universo que nos será plenamente habitável. Mas isso não significa que a humanidade não se atreva a ir às estrelas.
https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2021/02/mars-is-no-earth/618133/

NASA’s Perseverance rover carried a family portrait of its robotic siblings to Mars: Fantástico, este easter egg robótico. O Perserverance recorda as sondas e rovers antecessores.
https://www.engadget.com/perseverance-family-portrait-decal-013708361.html

Pompeii fresco restored to glory: É sempre fantástico quando a investigação arqueológica, e o restauro, nos revelam a glória cromática e o realismo da antiguidade clássica.
http://www.thehistoryblog.com/archives/60847

‘To Me, This Penis Is Out of Control’: Quando o mundo descobriu que a televisão dinamarquesa tinha um programa infantil sobre um homem e o seu incontrolável pénis gigante, caiu o queixo do mundo. Desde os comentários de "ao estado a que isto chegou" aos resmungos sobre promoção da pedofilia, o coro de vozes chocadas foi elevado. Mas, e porque é que os dinamarqueses aceitam estas coisas? Na verdade, é uma questão cultural, desde muito cedo que no país se desmistifica o corpo e a sexualidade como algo de perfeitamente normal. Um programa como este é-lhes perfeitamente apropriado, em termos culturais, e nem sequer levanta sobrancelhas. Tendo em conta as consequências a que assistimos por cá das nossas atitudes conservadoras face ao corpo e sexualidade (dolorosamente notório no recente inquérito em que cerca de 70% dos jovens considerava aceitável formas de violência no namoro), provavelmente falar do corpo, de tabus, consensualidade e sexualidade desde tenra idade não é tão má ideia quanto isso.
https://www.theatlantic.com/health/archive/2021/02/john-dillermand-danish-kids-show-giant-penis/618153/

Literature Is A Technology, And It Should Be Taught Like One: No fundo, é uma forma de inverter a tendência das CTEM, que se estão a tornar cada vez mais prevalentes face a um certo declínio das humanidades. A ideia de encarar a literatura como uma tecnologia de transmissão de sentimentos, emoções e conhecimento cola-se um pouco a este mecanicismo.
https://nautil.us/issue/97/wonder/literature-should-be-taught-like-science

Top 10 historical board games: Tão entediados aí por casa confinada que já nada desperta a atenção? As redes sociais já fartam, as séries perderam o interesse, os jogos de computador já foram explorados, e não há energia para um livro? Então, porque não ir recriar os jogos mais antigos da humanidade?
https://blog.britishmuseum.org/top-10-historical-board-games/

Toy Company Offers Home Office Play Set: Como é que se diz? É de pequenino que... se aprende o conformismo cinzentista. Vamos colocar as crianças a sonhar com serem astronautas ou cientistas? Não, escritório é que é.
https://www.neatorama.com/2021/03/02/Toy-Company-Offers-Home-Office-Play-Set/

sábado, 10 de abril de 2021

Deep Daze

  


Mulher olhando para maçã, numa floresta iluminada por raios solares.


Rua à beira rio, cão, em dia de céu azul.

Casa na colina, em manhã de nevoeiro.

Estou a divertir-me mais do que deveria com o Deep Daze. Esta ferramenta permite usar as capacidades dos algoritmos CLIP (geração automática de categorias e etiquetas a partir de reconhecimento de imagens) e SIREN. O resultado? Uma ferramenta que nos permite dar ao algoritmo uma frase de input, e ele, seguindo uma sequência de iterações, nos apresenta um resultado em imagem. Ou seja, geração de imagens a partir de texto.

O código para correr o Deep Daze está no Github, mas confesso que prefiro este bloco de notas Colab que simplifica o processo: basta importar as bibliotecas Python, alterar os parâmetros desejados (texto inicial, tamanho da imagem, número de iterações, razão de aprendizagem): Colab Deep Daze.

Para correr este algoritmo, é necessário um computador com placa gráfica dedicada, compatível com CUDA, e requer uma quantidade generosa de VRAM (4gb no mínimo). 

De resto, basta indicar um input - uma frase descritiva, em inglês, e pode ser muito surreal. O algoritmo começa com uma difusa imagem cinzento nublado e vai correndo iterações sucessivas até apresentar o que julga ser o indicado pelo utilizador. Os resultados, como podem ver neste post, são interessantes e surpreendentes. Os títulos das imagens são os inputs que dei ao algoritmo.

Céu azul tocando uma guitarra.

Memória de um cão a viajar no tempo.

Retrato de pessoa confusa, num céu de profundo vermelho.

Infelizmente, estão em resolução de 512x512. A minha placa gráfica não tem capacidade suficiente para ir a 1024x1024. 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Androïdes: Les larmes de Kielko; Synn; Les Déserteurs; La Dernière Ange

 

Jean Gaudin (2017). Androïdes T04: Les larmes de Kielko. Toulon: Soleil.

Até que ponto poderá ir um robot para proteger os seus amos? Neste caso, muito longe. A história mostra-nos um robot cuja programação, influenciada por cultura cinematográfica, parece estar a permitir-lhe adquirir sentimentos. Somos parcialmente levados a pensar que são de luxúria perante a esposa do seu dono, mas na verdade, são de extrema proteção ao dono. Ao ponto de levar o robot a assassinar para proteger os segredos de um homem que gosta demasiado de trair a esposa.

Stéphane Louis (2017). Androïdes T05: Synn. Toulon: Soleil.

Num futuro pós-humano, com a humanidade extinta após ter sido acometida pelo atavismo da imortalidade, resta aos robots espalhar-se pelo universo. Dotados de tecnologias que lhe permitem constante auto-reparação, são também imortais, e o tempo para atravessar os vastos golfos galácticos não tem significado. A androide que dá o título ao livro despenha-se num planeta, durante a sua missão de busca de locais para colonizar. Junto com a IA da nave que recupera dos destroços, irá adquirir um conhecimento sobre as formas de vida nativas, e com isso, começar a sentir o apelo da mortalidade. Acabará por desenvolver a tecnologia inversa à que dotou os seus criadores humanos de imortalidade, desenvolvendo corpos biológicos para albergar a sua mente digital.

Christophe Bec, Erion Campanella Ardisha (2019). Androïdes T06: Les Déserteurs. Toulon: Soleil.

Há uma forte vibração de homenagem a Starship Troopers e ao anime, essencialmente a toda a FC militarista que se meta com robots de combate. A humanidade está em guerra contra alienígenas, e para os combater desenvolveu robots de combate com diferentes níveis de autonomia. A guerra está a ser bem sucedida, e os robots terrestres lançam os primeiros ataques sobre o planeta natal da espécie alienígena. É aí que algo estranho acontece. Após receberem uma atualização de software para os tornar mais autónomos, dois robots parecem desenvolver consciência e tornam-se desertores. Serão, obviamente, aniquilados como ameaça, mas o seu criador compreende que as suas criações puderam, por um momento fugaz no campo de batalha, evoluir para mais do que máquinas com simulacro de vida.

Jean-David Morvan, Elia Bonetti (2020). Androïdes T07: La Dernière Ange. Toulon: Soleil.

Espalhados pelo universo, os planetas colonizados pela Terra parecem estar a sofrer uma inexorável invasão alienígena, que os arrasa por completo. Por entre as ruínas, chegam androides com a missão especial de recuperar a memória dos mortos, preservada em dispositivos digitais acoplados ao cérebro. Alguns desses androides desenvolvem um erro, que lhes dá consciência. E, com isso, irão descobrir a verdade sobre os massacres, que não são uma invasão alienígena, mas sim uma forma do governo terrestre aniquilar as vontades independentistas das suas colónias. Apesar da luta pela verdade, nada irá mudar.

Termina aqui o périplo por uma série que, sendo de entretenimento, se mostrou muito interessante. A ilustração foi sempre, consistentemente, boa, como seria de esperar de edições francesas. Já os argumentos, apesar de muitos seguirem caminhos previsíveis e não darem em histórias memoráveis, atreveram-se a mexer a fundo com temas e estruturas narrativas da FC. Robótica e inteligência artificial conscientes são os leitmotivs óbvios, mas os argumentistas meteram-se com um pouco de tudo, entre space opera militarista, mechas, pós-apocalipses, futuros pós-humanos e até um cruzamento entre a estética dos super-heróis e the Matrix. Uma série que não nos deixa a pensar, e nos dá essencialmente variações sobre temas clássicos da FC, mas como entretenimento que é, vale a pena descobrir.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Androïdes: Ressurrection; Heureux Qui Comme Ulysse; Invasion

 

Jean-Luc Istin, Jesus Hervas (2016). Androïdes T01: Ressurrection. Toulon: Soleil.

No futuro, a humanidade parece ter conquistado a imortalidade, graças a uma pílula azul distribuída gratuitamente a todos. Mas um acidente em órbita, e uma série de mortes violentas, levará à descoberta da mentira em que se baseia este futuro radioso. Na verdade, a humanidade extinguiu-se há séculos, vítima de um vírus que resistiu a todas as vacinas (não é coisa agradável de ler em 2021, em pleno confinamento pandémico provocado pelo SARS-COV2). Os andróides conscientes substituíram os humanos, e apagaram as suas memórias para criar a ilusão que são, realmente, humanos. Muitos poucos conhecem este segredo, mas os que o conhecem, estão a trabalhar para ressuscitar a humanidade, implantando fetos preservados em andróides, para que façam gestações. No fundo, perante a extinção dos seus criadores, os andróides viram-se no papel de cuidadores, preservando o legado humano e tentando fazer renascer a humanidade, recorrendo a uma elaborada ilusão para o conseguirem.

Uma aventura de FC que não tem nada de novo, apesar do conceito interessante. O que não significa que seja má leitura, bem pelo contrário, a história está bem construída e é uma leitura bem divertida. Visualmente, a ilustração está excelente, trazendo à vida este futuro hiperurbano habitado por robots inconscientes daquilo que realmente são.

Olivier Peru, Geyser (2016). Androïdes T02: Heureux Qui Comme Ulysse. Toulon: Soleil.

Estamos no futuro profundo. Uma nave geracional que deixou a Terra, fazendo os seus tripulantes passar por ciclos de hibernação numa longa viagem em direção a outro sistema solar, sofre um acidente ao atravessar um campo de asteroides. A maioria dos tripulantes não sobrevive, e os que restam tentam manter a nave funcional para regressar à Terra. Séculos depois, apenas resta um único tripulante, o primeiro bebé a nascer em plena viagem, e que está em hibernação, agora envelhecido num corpo idoso, uma vez que a tecnologia atrasa mas não pára o envelhecimento. A nave, cuidada por uma androide especializada em educar crianças, e pela sua IA residente, aproxima-se agora do planeta de onde partiu, há quase um milénio atrás. O regresso mostra uma humanidade semi-extinta por ação de uma pandemia (ah, ler isto em 2021...), com punhados de descendentes de sobreviventes a viver em tribos regredidas. Curiosamente, veneram robots, por os seus antepassados serem as poucas crianças cujo sistema imunitário resistiu ao vírus, e terem sido protegidos por androides. O homem que não nasceu na Terra virá a falecer no planeta dos seus pais, e a androide que sempre o protegeu, junto com a IA da nave, descobre um novo papel como guia das comunidades humanas, iniciando um processo de recivilização. 

Esta série está a mostrar ter argumentos sólidos, trabalhando muito bem com elementos narrativos da ficção científica, com boas histórias e conceitos. Sempre com ilustração de bom nível a acompanhar. Apesar de ser série, não segue a estrutura de episódios com uma linha narrativa contínua.


Sylvain Cordurié, Emmanuel Nhieu (2016). Androïdes T03: Invasion. Toulon: Soleil.

Neste episódio da série, humanos dotados de estranhos poderes combatem uma invasão alienigena, A ativação de um humano hibernante, com poderes telepáticos, permitirá entrar na mente dos alienígenas invasores. E descobrir a verdade. Os alienígenas combatem não os humanos, mas uma espécie de vírus inteligente que quase destruiu o seu planeta natal. Agora dão caça ao vírus, que se espalhou  pelo espaço, destruindo os planetas onde este se abriga. Na Terra, o vírus teve sorte, e encontrou nos humanos os anfitriões certos. Para os proteger, e garantir a sua sobrevivência, guiou-os no desenvolvimento de tecnologias que conservam os humanos em casulos sob a terra, com as suas mentes portadas para corpos de robots que, à superfície, combatem os alienígenas. Pontos pela bizarria do conceito, que cruza uma miríade de influências, dos comics à FC, embora a história seja bem menos interessante do que o seu conceito de base.