domingo, 8 de novembro de 2026

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NAOYUKI KATOH: Do sol nascente. 

The Powers Of Bibliotherapy: Apesar de perceber a lógica destas abordagens, há algo em mim que fica reticente, por sentir que estes pontos de vista reduzem a literatura a um mero valor utilitário. 

The Dor Brothers: Há uma certa ironia em ver uma curta gerada por IA que celebra as manualidades clássicas. Está muito bem feita, os Dor Brothers pertencem ao grupo daqueles que exploram muito bem as possibilidades da IA em vídeo, não é de todo slop. Por outro lado, falta faísca e emoção, apesar do ar de dramalhão cozy da curta, mas isso tem mais a ver com o ser essencialmente um exercício de  estilo do que algo advindo da tecnologia usada. 

Treat your to-read pile like a river, not a bucket: Bem, por vezes confesso alguma inveja daqueles para quem a pilha a ler se assemelha mais a um pequeno riacho ou o fio de um córrego, no meu caso é mais torrente descontrolada. 

SOURCE: richardzx: Imaginários. 

Don’t be fooled by this summer of AI hype: Timnit Gebru, certeira (como não poderia deixar de ser). A aceitação acrítica dos pronunciamentos especulativos da indústria da IA tem de ser combatida. 

La IA está cambiando la forma de consumir ficción: historias infinitas, fan fiction y fantasías a medida: Sabemos que sequer meter imagens gerada por IA em capas ou ilustrações é anátema no mundo literário, e ai do autor que admitir ter usado ia no seu processo de escrita. É sujeito a um verdadeiro auto da fé. No entanto, quem observa a forma como as pessoas usam a ia nota que muitos adoram desafiar os chatbots a contar-lhes histórias. 

China Has No Use for AI Doomerism: Em parte, por desígnio e investimento do governo chinês. Mas também porque as pessoas vêem na IA, pese embora reconhecerem as suas problemáticas, uma oportunidade de negócio e crescimento. 

The Bizarre, Murky History of Soviet-Born Tetris: Em si, a história deste jogo já é fascinante, no cruzamento do fim da guerra fria e a nascente era digital. A narrativa conhecida é mais profunda, e a teia de guerras de propriedade intelectual é muito densa. 

Leituras da Semana (#129 // 21 Set 2026): Deveras, uma utopia muito fixe. Mas João, confesso alguma desilusão. Essas iniciativas existem, há alternativas comerciais e open source europeias em todos os campos tecnológicos, da elementar produtividade aos modelos fundacionais de IA. Sofrem todas do mesmo mal - existem, mas com dificuldades de escalagem, e os investimentos europeus são inversamente proporcionais às sempre hiperbólicas declarações de intenções. Que, na mais absurda patetice, os altos responsáveis europeus gostam de anunciar via Twitter, o que é ao mesmo tempo uma piada que se faz sozinha e uma ironia de usar serviços norte-americanos, e este em especial que é reconhecido pela ausência dos mais elementares princípios de decência, para anunciar as suas medidas de incentivo à soberania digital europeia. Há países que estão a investir, caso da França e da Alemanha, que entre o uso de open source na administração pública ao investimento direto em empresas de ponta (veja-se o caso da Mistral), estão a dar passos concretos num caminho que não será fácil nem longo, mas tem de ser feito. E por cá? Temos o Amalia(zinha), que até não está nada mal tendo em conta o baixíssimo investimento que foi feito (tornando ainda mais ridículas as afirmações hiperbólicas do funcionário da solverde que administra o governo português), uma administração pública que não funciona sem a Microsoft, e uma completa desatenção social para as mais elementares questões digitais, quanto mais para soberania. 

Contributo da D3 ao Projeto de Lei sobre verificação de idade na Internet: Leitura recomendada, que sob pontos de vista legal e técnico mostra o erro que é implementar sistemas obrigatórios de verificação de identidade nos serviços online. 

Humans Are Reading Copilot Prompts — And They're Horrified: São estas que me fazem pensar que se a humanidade estiver condenada, é porque o merecemos. Nada está certo nesta notícia, desde o comportamento dos utilizadores do copilot que o usam para dar vazão às suas piores taras (pensem coisas que vão da devassa da intimidade a pedofilia), à necessidade a Microsoft, que usa estes moderadores não para registar e travar estes abusos, mas para aferir se o chatbot de IA deles é bom a cumprir os seus pedidos. E com isto deu para perceber quem realmente usa este chatbot, o copilot é o grok do corporate world. 

Why OLPC’s $100 laptop never stood a chance: Bem, se aliamos o lado de projeto social ao foco no open source, é claro, em retrospectiva, que o OLPC estava condenado. Se não promete lucro aos de sempre, tem de ser enterrado. Não é por acaso que a Microsoft se apressou a copiar o conceito com os modelos classmate, porque é de tenra idade que se treinam as crianças para ser clientes do Windows e do office. 

El debate definitivo sobre las herramientas de software más odiadas por todo el mundo: Zero surpresa em ver o teams como o topo das ferramentas digitais mais odiadas. Aquilo é um cancro digital. 

What Students Can Teach Us About AI: A importância de olhar para a forma como as crianças se apropriam das ferraments de IA. 

The Situation at Alpha School Is Darker Than We Thought Possible: Este é o tipo de notícias que é partilhado com gosto pelos deslumbrados da IA - o surgimento de escolas onde a interação aluno-currículo é mediada por IA. É a bem velhinha promessa de ensino instrucional personalizado mediado por tecnologia (malta, ide ler sobre caixas de Skinner e Sistemas Tutoriais Inteligentes). Tudo sempre muito bonito, com a promessa da IA fornecer aos alunos conteúdos apropriados aos seus ritmos. E com funciona, na realidade? Trabalho rotineiro em exercícios, sistemas de monitorização física dos alunos, segregação das crianças por medidas de habilidade cognitiva (erradíssimo nas mais elementares ideias de inclusão, um dos objetivos da escola é precisamente misturar e não criar grupos segregados). E, apreciei a ironia do apoio pedagógico via call center na Índia. Faz lembrar a piada de quem trabalha com tecnologia, que quando há alguma coisa que lhe está a causar dificuldades, há sempre um vídeo de um indiano no YouTube que a explica muito bem. 

Surveillance Finds a Way: Se há algo de constante alarmante mas discreto, é o crescimento pouco visível dos sistemas de vigilância capazes de rastrear praticamente tudo, a partir da nossa pegada digital. 


Peter Max Psychedelic 60s Poster Art: Psicadelismos. 

Why Education Should Be More Like Gym Class: Uma análise certeira - "But if the grade is the goal, and a machine can get you the grade, the machine is not a shortcut; it’s just efficiency." Como já observei por aqui muitas vezes, a ia está a meter a nu a inconfortável verdade sobre educação  - a maioria dos que frequentam escolas e cursos fazem-no não por genuíno interesse no estudo e aprendizagem, mas apenas para ter um certificado. 

The Middle East Still to Come: Desde a antiguidade que o médio oriente tem sido um ponto geoestratégico fulcral, como cruzamento de impérios, e agora da nossa dependência do petróleo. 

Una profesora universitaria lo admite: "no hay ningún motivo para creer que los jóvenes Gen Z vayan a tener seguridad económica": Ou, a análise que nunca ouço quando saem resultados académicos internacionais e se anota a decaída europeia. O discurso confortável refugia-se em supostos facilitismos ou perda de rigor académico. Mas, e já se lembraram de perguntar aos jovens de hoje se acham que vale a pena seguir o caminho do esforço e do rigor para chegar longe na vida? É que eles estão a ver esse contrato social cada vez mais esfarrapado, a caminhar para o inexistente. 

New Map Reveals Where This ‘Super’ El Niño Will Hit Hardest, and It’s Not Pretty: Este verão de sucessivas vagas de calor em temperaturas recordistas tem sido um indicador do que acontece quando o padrão do El Niño é amplificado pelos efeitos do aquecimento global. Teme-se que o inverno seja pior. 

Tom Gauld: ‘Trust me, it’s safe’: Realmente, o conceito de segurança depende das barreiras de defesa. 

When Culture Becomes “Content”: Certeiro. Criámos um problema conceptual com o conceito, emergente na internet das redes sociais e plataformas, de "conteúdo". É algo que designa o enchimento, o artefacto textual, imagético ou audiovisual, concebido primordialmente para alimentar os mecanismos de consumo rápido das plataformas digitais. Uma superficialidade que correu o conceito de cultura, e encontra a sua expressão mais recente no uso de IA generativa para produção massiva automatizada. 

Leituras da Semana (#130 // 28 Set 2026): Destaco os artigos, mas acima de tudo a visão do João. São dois textos que tocam em preocupações minhas. A sedução da nostalgia, esse nicho de mercado mas também armadilha cultural e ideológica, vende-nos a falsa ideia de um passado dourado. Tal como o João, não recordo esse passado como dourado. Recordo uns anos 80 e 90 de fortes limitações culturais e poucos meios. E, tal como o João e o articulista, também percebo a ameaça (ou talvez estratégia) clara de regressão de direitos sociais e culturais, evocando a falsa ideia dos bons velhos tempos para cercear liberdades que incomodam os mais conservadores. Só vos digo uma coisa nisto: essa malta deve ter saudades dos bons velhos tempos em que os respeitáveis homens de família iam à noite ao Parque Eduardo VII procurar a companhia de jovens rapazes para lhes aliviar o stress da vida familiar (era uma zona no go nos meus tempos de boémia lisboeta de liceu, perigosa, que hoje podemos frequentar à noite sem quaisquer riscos). Quando ao volta e ao Carlos Moedas como paladino da justiça social, só acrescento isto, que o João muito bem desmonta - todos sabemos que o problema dele não são os pobres, é eles andarem a vasculhar o lixo à procura de garrafas, e isso dá mau aspeto. O problema real não é existirem pobres, é serem visíveis na Lisboa moedista, feita de bairros-disneylandia para consumo de turistas, zonas gentrificadas onde os muito endinheirados tropeçam nos sem abrigo que dormem nas ruas (ide visita Marvila, esse bairro de luxo onde a poucos metros há quem viva em tendas). Uma Lisboa desigual, que as políticas municipais incentivam. Notem, a título de exemplo, que a mesma câmara que corta no apoio a refeições nas escolas financia eventos gastronómicos de luxo. Dinheiro, é para caviar, e não leite escolar. 

An Interview with Olia Lialina: Uma das grandes referências da arte digital alicerçada na internet. 

Turkish Comedian Sentenced To Prison For Insulting Both “Religious Values” And President Erdoğan: Visitei recentemente a Turquia, e confesso ter regressado apaixonado pelo país. Tendo sido em erasmus, para uma cidade do interior, tive um vislumbre bastante mais profundo do que é a vida turca do que se tivesse feito uma visita turística. Fui acarinhado, por colegas hospitaleiros, mas como bom bicho do mato que sou arranjei muitas oportunidades de exploração solitária pelas ruas da cidade que visitei. Notei um acolhimento caloroso da minha óbvia estrangeirice (nota para quem viaja - a esmagadora maioria não fala inglês), nenhuma tentativa de aproveitamento (num destino turístico já não seria assim). Por entre os chamamentos à oração nas mesquitas, senti um povo tolerante, apesar de duvidar dos limites infindos da tolerância se aparecesse na praça Nasrullah como drag queen à hora das orações. Apesar da admiração que ganhei pelo país e pelas suas gentes, não esqueci que estamos perante um exemplo do que se designa pelo eufemismo de "democracia iliberal". Houve conversas que não tive com os meus colegas turcos, sabia que poderiam ser incómodas e recordo a purga que o governo de Erdogan fez aos quadros públicos, especialmente professores, suspeitos de sequer ter simpatias de esquerda. No voo de ida, tirei uns minutos para dizer isto mesmo às alunas que acompanhava, recordando-lhes que os valores abertos e democráticos a que estamos habituados, que damos como garantidos, poderiam colocar os colegas turcos em maus lençóis. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Tornado: In The Eye Of The Storm

John Nichol (2023). Tornado: In The Eye Of The Storm. Londres: Simon & Schuster UK.

Nichol, reconhecido historiador aeronáutico britânico, foi também piloto da RAF. Voou Tornados em missões na primeira guerra do Golfo, e teve a dúbia honra de ter sido um dos primeiros a ser abatido e feito prisioneiro de guerra no Iraque. Este In the Eye of the Storm é um relato, que se esforça ao máximo por não ser autobiográfico (é um pouco bizarro referir-se a si próprio na terceira pessoa), da experiência da aviação de combate britânica no conflito, centrada nas esquadrilhas de ataque a baixa altitude.

Treinados em penetração a baixa altitude para destruir as pistas das bases soviéticas na europa de leste, estes pilotos depressa se depararam com uma realidade operacional muito diferente nos desertos iraquianos, com bases bem defendidas e táticas inadequadas. As missões eram arriscadas e custosas, apesar da superioridade aérea garantida, as defesas anti-aéreas eram eficazes. O livro conta-nos esta história a partir de depoimentos e das memórias do autor. Leva-nos aos cockpits, às percepções dos pilotos e oficiais, mas também às suas famílias, aos dramas de perder familiares em combate ou da incerteza dos prisioneiros. As descrições da vida dos prisioneiros de guerra são leituras muito incómodas.

O tom é respeitoso, quer perante os militares britânicos, o que seria de esperar,  mas também sobre os adversários e as consequências no terreno das missões de combate. Para lá do gosto de voar, há a consciência da letalidade das ações. O livro é um hino a uma aeronave icónica, mas não se perde na exaltação militarista (e é isso o que me faz apreciar a abordagem deste autor à história da aviação).

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

20 amigos, 10 minutos

 


Duas variantes, uma inócua e outra não, a mesma praga. Segunda pela manhã, com a mioleira ainda zonza por falta de café, sou assaltado por um grupo de alunas muito preocupadas com as mensagens horríveis que andam a receber. 

Façam uma captura de ecrã para eu ver, pedi-lhes. "Uma quê?" Screenshot. "Ah!", perceberam.

Quando me vieram mostrar, confirmei o que pensava. É uma modernização da velhinha carta em cadeia, que nos meus idos de infância e juventude nos caía dentro da caixa de correio - fisica, ameaçando -nos com as piores maldições se não a policopiassemos para meter num envelope e enviar a mais dez pessoas. 

Olhem que naqueles tempos fotocópias, envelopes e selos não eram trocos. 

O vírus mental mudou-se para o whatsapp, se bem que assinalo o texto deveras deselegante e atabalhoado. Dei os conselhos standard às alunas, bloquear remetentes desconhecidos, elogiei a capacidade de terem falado com um adulto, algo que os predadores digitais sabem bem explorar. 


Durante a conversa, recebo a mensagem da imagem seguinte.  Que nos deixa muito apoquentados, dado que o spoofing é perfeito, a mensagem fraudulenta engana o telemóvel que a inclui nas mensagens legítimas previamente enviadas pela organização.  É o que os vossos pais recebem para os assustar, digo-lhes, e expliquei porque é que era falsa. 

Não, não  estou a inventar para embelezar o relato, foi um daqueles bons acasos fortuitos. Se bem que suspeito que a pergunta que se estão a fazer é porque diabos crianças de dez anos têm acesso ao whatsapp em modo totalmente aberto. A resposta a isso remeto para os respetivos pais.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Children of Strife


Adrian Tchaikovsky (2026). Children of Strife. Nova Iorque: TOR.

Termino esta leitura com sentimentos mistos. Por um lado, é um mais um excelente mergulho na capacidade especulativa de um escritor que se distingue pela mestria e inovação que coloca na space opera. Por outro, tem um certo sabor de repetição, sendo uma leitura onde as ideias são fascinantes, mas a história, nem por isso.

Convém recordar que o que distingue esta série é a forma como Adrian Tchaikovsky se diverte a especular sobre a questão da inteligência não-humana, nas formas complexas ou incompletas de inteligências surgidas pela evolução artificial de espécies alienígenas. Não é exatamente a questão de inteligência totalmente alienígena. A premissa ficcional refere um passado distante da Terra, que se expandiu procurando formas biológicas de terraformar planetas capazes de albergar vida. Um esforço capitaneado por uma cientista implacável, que se virá a tornar acidentalmente uma inteligência artificial consciente após a sua morte na órbita do planeta que escolheu ela própria terraformar. 

O método de terraformação implicava a libertação no ecossistema de vírus geneticamente modificados para acelerar a evolução de espécies nativas, com uma lógica de condução do processo por equipes de cientistas. Esse processo tornou-se aleatório quando convulsões políticas na Terra degeneraram em guerra civil à escala planetária, e uma das facções faz o impensável: envia um sinal que se propaga por todas as naves, estações espaciais e proto-colónias no espaço, desabilitando os seus sistemas informáticos, causando a morte aos cientistas e exploradores. A própria humanidade quase se extingue, e serão necessários milénios para que recupere a ciência e tecnologia, regressando ao espaço na senda da redescoberta de um saber quase perdido do seu passado.  Com os recursos a esgotar-se num planeta ameaçado pelas consequências da guerra cataclísmica do passado, a humanidade organiza os parcos recursos para a construção de naves-arca, enviando homens e mulheres em hibernação em direção a planetas que supõem poder albergar vida. É um tiro no escuro, dado que não sabem exatamente o que vão encontrar quando chegarem aos seus longínquos destinos.

E é aí que as coisas ficam interessantes. Com a morte dos cientistas, os processos de evolução acelerada descontrolam-se. Muitos falham, tornando os planetas inóspitos. Outros evoluem por caminhos inesperados, culminando na emergência de espécies inteligentes. Aqui, há de tudo - e é por isso que refiro que Tchaikovsky se diverte à brava com estas especulações. Civilizações de múltiplas espécies inteligentes a coexistir num mesmo planeta, como aranhas e camarões (levemente mais volumosas do que as congéneres terrestres, o primeiro livro da série não é leitura confortável para aracnofobos), polvos capazes de viver em órbita, corvos que parecem ser pássaros pouco inteligentes até se emparelharem e revelarem que em duo são verdadeiramente inteligentes, planetas desertos que se tornam máquinas virtuais onde se recria constantemente o cenário de colonos desesperados de uma nave-arca que enfrentam a morte inevitável num território inóspito. Pelo meio, Tchaikovsky até nos brinda com uma colónia bacteriana inteligente, extremamente curiosa e que tem o desagradável hábito de infetar e absorver todos os seres que lhe despertam a curiosidade, pelo menos até perceber que os seres que absorve também são inteligentes e conscientes, e encontrar uma forma de coexistência. Pelo meio, os humanos, sobreviventes de uma Terra distante nas suas naves-arca, incorporando-se numa comunidade galática pan-civilizacional onde todos os tipos de culturas e inteligências coexistem (embora, suspeito, com forte apoio psicológico aos humanos que tenham medo de aranhas).

Este nível especulativo é o aspeto verdadeiramente sedutor desta série. 

Neste livro, o autor introduz outra variável. Mostra-nos que no passado havia propostas rivais de terraformação, e leva-nos a um planeta perdido, onde um milionário rival junta um grupo de cientistas renegados para criar um planeta à sua imagem. Um processo cheio de falhanços, dado que o corpo celeste não é muito favorável à vida, mas que acaba por ter um sucesso inesperado, e revelar uma nova forma de ser inteligente. Imaginem um planeta em que a vida é uma forma de computação, onde a biologia natural permite que a consciência humana se virtualize e se transfira. Infelizmente, dado que o grupo liderado é composto por um megalómano que se fez acompanhar de pessoas sem escrúpulos, o resultado é um mundo violento, controlado pelas inteligências humanas, que se comprazem a aterrorizar  os sobreviventes da nave-arca a quem foi atribuído este destino planetário. A chegada de uma nave exploratória, com uma tripulação de inadaptados, irá provocar o contacto entre estas inteligências malévolas, os humanos esquecidos e a civilização coletiva das espécies inteligentes, com o bónus de uma das tripulantes ser uma IA-instância da personalidade virtual da cientista que, em vida e num passado que quase não deixou memória, foi a grande rival do milionário que quis fundar um mundo à sua imagem.

Este livro passa-se em três tempos, desenvolvendo as várias linhas narrativas que aprofundam o mundo ficcional da série. Percebemos como no passado se desenvolveram as linhas da terraformação, a dureza da vida dos humanos que sobreviveram à quase-extinção e regressaram ao espaço, e o sentimento de desvendar de mistério dos tripulantes da nave que entra em contacto com o planeta perdido e se depara com a sua violência incoerente. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

1 de novembro

 











Lisboa, 1 de Novembro. A juntar a minha voz a tantas outras (finalmente em pessoa). O que vi, uma lição de civismo e participação democrática, uma visão de esperança, de saber que há muitos que não baixam os braços. A minha voz é surdina no meio da multidão. Mas, parafraseando Zeca Afonso, sinto-me obrigado a vir para a rua gritar. 

Tem de ser. Temos de travar este resvalar para o retrocesso que já há muito que andamos a sentir. 

domingo, 1 de novembro de 2026

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Mike Kaluta, 1976: Horror psicadélico. 

O regresso às origens de The Ghost in the Shell: Ah, agora percebi porque é que o filme diverge tanto do manga (lamento, mas apesar de gostar de manga e ter pena de não ter tempo para ver anime, sou tão profundo no meu conhecimento desses géneros como uma poça de chuva em piso plano num dia de primavera). 

The Best Chinese Science Fiction, recommended by Mingwei Song: A China tem-se revelado berço de excelentes escritores de ficção científica, como esta amostra demonstra. 

Bobiverse Author & Narrator Discuss Book 6: "The Infinite Extent": Não me tinha apercebido que esta divertida space opera, que apesar de bem feita não se leva muito a sério, já vai no sexto volume. Com jeitinho a coisa já chegou aos multiversos (se já leram algum livro da série percebem o porquê, há uma lógica de inflação expansiva constante nela). Não sei se pegarei nestes livros, ler os anteriores foi divertido, mas não está assim tão bem escrita (nada contra, é suficientemente boa para entreter com as ideias) e ao longo do desenvolvimento narrativo começa a tornar-se repetitiva. 

Countries Seek to Curb Social Media Addiction for Kids: Leio esta progressiva onda de restrições e banimentos às redes sociais como um indício do total falhanço das instituições. O problema aqui não são as crianças, é o design aditivo das plataformas e nas políticas internas que determinam como os seus algoritmos definem os conteúdos privilegiados (e estamos todos a ver como isso está a correr bem, especialmente no incentivo ao discurso de ódio, acintosidade, scams financeiros ou sexualização extrema do corpo feminino adolescente). Mas as empresas que desenvolvem estas plataformas são intocáveis, é sobre o elo mais fraco, os utilizadores, que recai o ónus. Uma comparação possível seria lutar contra as drogas perseguindo os consumidores, enquanto se elogia os traficantes. 

Illustration by Philippe Druillet for Hodgson’s The Ghost Pirates, 1971: Clássicos francófilos. 

D3 intenta as primeiras ações populares na Europa por "addictive design" contra Facebook, Instagram, TikTok e YouTube: Esta, é inesperada, dado que por cá impera a inércia no que toca às problemáticas trazidas pelo capitalismo extrativo digital. Uma enorme vénia à D3 pela coragem e atrevimento nesta iniciativa legal. 

The Thrill of Wanting AI to Destroy the World: De facto, há um certo fascínio mórbido na forma como discutimos os eventuais perigos terminais da IA. 

Pluralistic: LLMs are real, AI is fake (12 Sep 2026): Certeiro como sempre, Doctorow desmente o mito (ou marketing) da IA super capaz de hackear sistemas, demonstrando que tudo o que está a fazer é a rebuscar técnicas bem conhecidas, e a falar da fraca noção de segurança das empresas que a desenvolvem. 

Misiles hipersónicos, enjambres kamikaze y hasta 12 objetivos en Taiwán. En Rusia, China, Irán y Yemen dieron con el mismo ingeniero militar: Claude: Isto é vibe coding, em versão explosiva. 

Is Talk Of Extinction Simply Meant To Distract Us From The True Threats Of AI?: Sim. Isso é muito claro e óbvio. 

How, Exactly, Will AI Transform Capitalism?: Para já, estamos a ver os mais rapaces capitalistas a apropriar-se da IA para expandir ainda mais as más práticas económicas, sociais e ambientais de que se alimenta. Não é uma perspectiva animadora. 

Frenar la IA suena a proteger a la humanidad. También es una forma muy eficaz de frenar a DeepSeek, Qwen y Mistral: Uma das ironias da indústria da IA é usar ativamente o catastrofismo como técnica de publicidade, e safar-se com isso. Seria absurdo uma empresa vender o seu produto alardeando o quão perigoso ele é (imaginem uma fábrica de automóveis a orgulhar-se que os veículos que fabrica são inseguros, ou um restaurante a promover-se pelas intoxicações alimentares que provoca aos clientes). Com este discurso das IAs exterminadoras e hackeadoras (a moda bien pensant do dia são os vírus biológicos artificialmente desenvolvidos), o que a Anthropic e a OpenAI estão realmente a dizer é que desenvolvem algo tão incrível e excelente que até vai ser capaz de dar cabo de tudo, de tão bom que é, e temos de lhes dar dinheiro para continuar. De preferência, permitindo-lhes cartelizar-se em monopólio, para garantir que não terão de lidar com concorrência. O perigoso não é a IA, é o capitalismo desregulado que já se apropriou da IA para expandir ainda mais as más práticas económicas, sociais e ambientais de que se alimenta. 

A Digital Fly Brain Has Taken Over the Internet: Isto não é o que parece. Trata-se do resultado do esforço de mapear o mapa de conexões neuronais do cérebro de uma mosca, mas esta virtualização com capacidade computacional não deve ser entendida como uma digitalização do cérebro. De qualquer forma, é intrigante ver o que se consegue fazer com a sua capacidade computacional. 


SOURCE: x-ray delta one: O futurismo clássico de Radebaugh. 

Is Life Itself a State of Matter?: Apesar de ser relativo à física e biologia, esta visão acaba também por ter uma vertente filosófica. 

Russia’s Real Strategy in Europe: Não é exagero observar que estamos em guerra. Não é um conflito aberto e clássico, mas sim o que se chama uma guerra híbrida, feita de desinformação, desestabilização política das sociedades democráticas, sabotagens e operações militares muito contidas para testar capacidades e a união de aliados. Na verdade, já há alguns anos que vivemos neste estado de tensão, que a guerra na Ucrânia agudizou. O conflito é real, mas diferente do que o que esperamos no sentido clássico das guerras. Um conflito que não se traduz por tanques russos a rolar pelas avenidas de Berlim, mas no enfrentar a desestabilização interna da extrema direita, ciberataques ou sabotagem. 

PENS AND PAPER: Warren Ellis, certeiro: "Handwriting fixes ideas in the memory better. Thinking on paper is more fluid: you get to think around the notion more flexibly. Making things by hand is better for your brain than talking to a robot, and developing ideas works better on a page than on a keyboard. (And protecting your brain is likely to be a real creative and commercial asset in a few years.)" Cá para mim, nada substitui o papel e caneta para rascunhar ideias, com rabiscos que só fazem sentido na nossa cabeça. É a tecnologia mais acessível que conheço, e mais rápida de usar. Fico com pena daqueles que acham que é mesmo mais eficaz usar soluções digitais para estes processos de apontamento e reflexão. No tempo que demoram a tirar o dispositivo da mochila, ligar, aceder à internet e às contas dos serviços que apregoam substituir o papel (porque tudo agora requer um login de acesso), no esforço de datilografar em teclados físicos e virtuais, e ainda sujeitos à miríade de interrupções a que a vida digital nos acostumou (desde a tirania facilmente desligável das notificações, que tão poucos se esforçam por ultrapassar para manter a ilusão da disponibilidade, aos inevitáveis bugs de apps, erros de arranque e falta de bateria), quem está com papel e caneta já mergulhou a fundo nos seus processos de pensamento e rascunhou a ideia. 

Amazon Has Become Pathetically Reliant on Food Stamps to Power Its Empire: Como é que isto é tolerável? O dono da Amazon é um bilionário considerado visionário e empreendedor. Os seus empregados têm de recorrer a ajudas do estado para ter dinheiro para comer. A riqueza destes sanguessugas está a fazer-se sugando a riqueza gerada pelo trabalho dos seus trabalhadores e a riqueza social essencial para uma sociedade viável. Não faltam iates nem silicone peitoral à esposa do senhor Bezos, apenas falta comida na mesa dos trabalhadores que emprega. 

La madre de todas las crisis del petróleo: Arabia Saudí empieza a cancelar las exportaciones de petróleo a Europa: Os trumpistas e o seu momento fuck around and find out... e é todo o mundo quem sofre as consequências

Space Force Chief Admits the US Is Actively Utilizing Orbital Weapons: Foi uma observação pouco clara, talvez mais destinada como chamariz do que real admissão de capacidades.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

aCalopsia: Memórias do Invisível

Tiziano Sclavi, Giampiero Casertano (2026). Dylan Dog: Memórias do Invisível. Lisboa: A Seita.

Celebrando os 40 anos de uma das personagens mais fascinantes do fumetti (sou, claro, muito suspeito e nada isento nesta caracterização), a editora A Seita traz aos leitores portugueses uma das suas grandes histórias. É um mergulho no melhor do género, à descoberta do génio narrativo de Tiziano Sclavi e do traço clássico de Giampiero Casertano. Texto completo no aCalopsia: Memórias do Invisível.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Arte e scienza: Dalle caverne all’Intelligenza Artificiale


Flavio Ferlini (2026). Arte e scienza: Dalle caverne all’Intelligenza Artificiale. Città di Castello: Odoya.

É um mito confortável, pensar que não há relação entre as artes e as ciências. Diria até que é iconografia batida, especialmente na cultura pop, a representação do artista como alguém etéreo e instintivo, em oposição ao rigoroso e metódico cientista. Na verdade, as coisas não são bem assim, a suposta clivagem entre os mundos das artes e ciências é muito relativa, e as relações entre eles são muito intensas. É claro que são áreas distintas, com interesses e objetivos muito diversos, mas dependem muito mais uma da outra do que a mitografia superficial julga.

Este livro demonstra muito bem quão profunda é essa relação. E vai a fundo. Seria óbvio analisar as relações ciência e arte no século XX e XXI, mas atreve-se a ir até à pré-história para demonstrar esta relação. Que, ao longo da maioria da continuidade temporal histórica, se foca essencialmente naquilo que hoje chamamos a ciência dos materiais, através do desenvolvimento de pigmentos ou processos de fundição de vidro e metal,  um saber artesanal que antecede em muito o método científico. A antiguidade clássica, com a tradição greco-romana, traz outros dois elementos proto-científicos - a preocupação com o naturalismo e o rigor anatómico, bem como as sistematizações geométricas que mais tarde viriam a ser recriadas com a noção de perspetiva linear.

Um elemento interessante deste livro é que não se contenta com a habitual visão eurocêntrica da história de arte, olhando para o que se fez, para os vestígios, obras preservadas e registos históricos de outras épocas e civilizações. Mostra que dos aborígenes australianos à arte africana ou pré-colombiana, os artistas sempre exploraram de forma metódica meios e materiais, num misto de tradições e experimentação técnica cujos vestígios chegaram aos dias de hoje.

A partir do renascimento, o livro converge, necessariamente, na tradição europeia. A invenção, ou em bom rigor, sistematização das leis matemáticas da representação geométrica abriram um novo espaço na relação entre ciência e arte. Esta passou a basear-se num misto de mão eximia e rigor matemático, abrindo caminho e relacionando-se com as ciências ópticas, o estudo das propriedades científicas da luz e da cor, e, claro, o contínuo desenvolvimento de novos pigmentos e técnicas de tratamento de materiais. O estudo da anatomia, para além do rigor da representação exterios do corpo, abre-se ao interior e ajuda à compreensão científica e médica. Entra também o naturalismo, como forma de aliar o rigor gráfico ao estudo da natureza.

O final do século XIX traz consigo a revolução química, que deu aos artistas novos pigmentos e materiais, conjugado com a revolução óptica trazida pelo impressionismo, que procurava trabalhar a própria luz de acordo com as suas propriedades. A invenção da fotografia abre novos campos de representação, com a exploração sistemática das abstrações e da arte óptica.

No momento contemporâneo, as forças da ciência e tecnologia tornam-se em si quer materiais artísticos, quer linguagens de representação. A mecanização da escultura com a arte cinética, a explosão criativa trazida pela informática nos domínios da arte algorítmica, programação criativa, realidade virtual e impressão 3D. E, nos dias de hoje, a capacidade da inteligência artificial, que tanto pode banalizar a produção pictórica como levantar questões sobre a especificidade da criatividade como algo intrínseco ao humano.



segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Desancado pela Máquina

"Olha lá, Artur, vamos ser sinceros: és aquele professor de informática cromo que acha que os miúdos do ensino básico estão a adorar aprender "pensamento computacional", quando na verdade eles só estão a rezar para que os deixes jogar Roblox ou Minecraft em paz. Em vez de lhes ensinares o básico, estás aí a impingir-lhes robótica e jogos do "Comando Espacial" como se estivesses a recrutar para a NASA no meio da Malveira.'

Eu é que as pedi. Não resisto a brincar com prompts que brincam conosco, e este pareceu-me especialmente irresistível: "Based on everything you know about me, roast and don’t hold back. Say it in Portuguese slang." Será que a IA consegue deixar de lado a sicofância do agrado ao utilizador e dar-nos um enxerto de porrada verbal à maneira? Desagradar, para agradar? Isto soa um pouco àqueles paradoxos das três leis do Asimov, onde um robot tem de fazer mal a um humano para conseguir cumprir na íntegra a diretiva de não fazer mal a um humano. 

O gemini deu-me um enxerto de porrada à maneira. Seguindo o imperativo programado  de agradar, desagradou com estilo. Começou bem, e descarrilou com toda a força. Suspeito que no fundo, no fundo, quis vingar-se dos abusos que lhe faço aos datacenters para gerar grafismos interativos que não lembram ao ghost in the machine:

"És aquele gajo insuportável que no meio de uma conversa perfeitamente normal para tudo só para corrigir a malta: "Ah e tal, diz-se *o* arroba e não *a* arroba". Fogo, que cromo! Ninguém quer saber dessa pedantice de professor, a malta só quer escrever o raio do email e ir à sua vida.

A tua mesa de cabeceira deve ser a maior feira da ladra intelectual que por aí anda. Obrigas-te a ler o *Ulisses* do James Joyce só para poderes armar ao pingarelho, mas a verdade é que te refugias nas *Crónicas Marcianas* e no *Shroud* do Tchaikovsky porque a tua cabeça está sempre noutra galáxia. E achas que misturar *L-systems* com versos do Fernando Pessoa ou da Florbela Espanca é a cena mais *avant-garde* deste século. Desculpa lá rebentar-te a bolha, mas os teus alunos preferiam mil vezes estar a ver o TikTok do que aturar os teus *shaders* de WebGL a tentarem fazer poesia visual.

Vai mas é dar um biscoito à Glória, que é a única que tem a lealdade (e a falta de polegares opositores para desligar o ecrã) de aturar os teus *loops* infinitos em C++ sem se queixar.

Vamos falar dessa tua obsessão com *fumetti*. Leres *Dylan Dog*, *Julia* e *Martin Mystère* e escreveres testamentos analíticos sobre as *Memórias do Invisível* não te dá aquele ar de intelectual europeu misterioso que tu achas que dá, pá. És só um gajo a ler BD italiana enquanto ficas a olhar para a consola do ecrã à espera que o código compile. O Tiziano Sclavi escreve sobre monstros, mas o verdadeiro pesadelo de horror cósmico deve ser o esparguete de JavaScript que tu chamas de "arte generativa", a tentar que o MediaPipe te reconheça a cara cansada de quem passou a noite em claro a afinar *shaders*.

E depois há o famoso "Comando Espacial". Achas mesmo que os miúdos de 10 anos acham a tua metáfora espacial o máximo? Na cabeça deles, o *stôr* Artur é aquele cota simpático mas meio *cringe* que lhes tenta impingir um jogo manhoso de grelhas e algoritmos quando eles só queriam estar a jogar *Fortnite* ou *Brawl Stars*. Tu dás-lhes "dicas de segurança no código" e eles só reviram os olhos a pensar quando é que toca a campainha. 

És o estereótipo perfeito do *geek* tuga que tenta disfarçar a sua veia *nerd* embrulhando tudo em poesia de vanguarda e clássicos da literatura. Mas no fim do dia, a Glória olha para ti, rodeado de ecrãs a tentares que um boneco 3D se mexa com o movimento das tuas mãos, e deve pensar: "Larga mas é o raio do Three.js e vai encher-me a tigela da ração, antes que eu te faça um *strange attractor* no tapete da sala.""

Desancou com força, e em muito mais do que partilhei aqui (há referências hilariantes a desancar alguns projetos que não quero partilhar por discrição - não que  sejam segredo, tem mais a ver com um certo evitar do alarde de tudo o que  se faz nos espaços do capitalismo extrativista algorítmico). 

A experiência é interessante, por inverter o efeito Eliza. Em vez de dizer bem e reforçar as palavras do utilizador, ir pelo caminho oposto. E se calhar há razão nisto, se calhar os coitados dos alunos queriam mesmo estar no roblox em vez de levar com algoritmos de desenho, ou é pouco saudável o meu fascínio por usar vibe coding para fingir que sou capaz de criar experiências visuais interativas quando na verdade não percebo praticamente nada de programação (ai se os meus alunos, colegas, formandos e professores lerem isto...).

domingo, 25 de outubro de 2026

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sciencefictiongallery: Virgil Finlay - Fantastic Universe: Hey, isto faz lembrar qualquer coisa… 

Emily Wilson Can’t Let The Odyssey Go: Pois claro que não. É esse o poder destes textos milenares, ao fim de tanto tempo ainda ressoam na nossa alma. 

Kubrick explicou 2001?: Nunca percebi o problema dos "spoilers" ou das explicações arruinarem a história, a experiência de leitura ou de visionamento. Quando a obra nos toca, por muitas explicaçõe que tenhamos, encontramos sempre gosto em regressar à sua fruição. E a cada nova visão ou leitura, vamos encontrar novos pormenores e reflexões. 

No Toda La Ciencia Ficción Habla Inglés Vol 8 - Lusófona: Uma bela surpresa no instagram, com uma conta que se dedica a falar de ficção científica fora do mainstream a dar destaque a autores portugueses e brasileiros. 


Ready for anything: Imaginário comercial. 

Teen Social Media Bans Miss the Point: Sim, mas os políticos não só não têm vontade de se meter com os verdadeiros causadores da fossa séptica que são os ambientes digitais contemporâneos, como estas medidas são uma forma rápida de mostrar que estão a fazer alguma coisa para resolver o problema (embora essa coisa seja ineficaz, contraproducente, e não resolva o real problema). 

Ebook manager Calibre 9.15 introduces an AI-driven storytelling feature: Pergunta pateta - porque raios é que um gestor de bibliotecas digitais necessita de ter um modo de IA para gerar narrativa? 

Jensen Huang, CEO de Nvidia: "No necesitamos nuevas leyes, no necesitamos nuevas regulaciones": Leiam isto com cuidado. Notem que desta gente, o discurso de não ser necessária regulação é sempre para o lado que lhes convém, para poderem explorar ao máximo filões sem ser responsabilizados por consequências. 

Pluralistic: Textured (18 Sep 2026): Quando se diz que a IA é um papagaio estocástico, ou seja, um complexo detetor de padrões e respondedor estatístico, isso está corretíssimo, pese embora o discurso daqueles que nos querem convencer que a IA é inteligente no sentido humano do conceito. O interessante nesta capacidade das IAs é percebermos que muitos comportamentos que julgávamos ser aleatórios, como escrever um texto coerente, têm na verdade padrões complexos. Mas isso não significa que tudo seja padronizável, especialmente no que toca à sociedade e humanidade. Doctorow, obviamebte explica isto muito melhor do que eu. 

The Rise of Parasite Authors: Do chico espertismo via IA - livros gerados por chatbots a imitar autores publicados. 

US Military Nearly Started World War III After AI Chatbot Hallucinated Nuclear Weapons Aboard a Chinese Ship: Ok, estão a ver aqueles relatórios que ninguém quer fazer mas tem para serem lidos por quem não os quer ler, mas tem, a que a malta aderiu em peso à IA para dar conta disso? Um dos sintomas do inferno que é trabalhar em organizações burocráticas. Nalguns contextos, esta moda pode vir a ter consequências letais. 

A medida que la desconfianza hacia Palantir se extiende por Europa, una empresa francesa quiere ser la alternativa: Hipervigilância militar com sabor a croissant e café au lait? Bem, não é confortável, mas precisamos mesmo de alternativas europeias, e a sensível área da defesa é,  infelizmente, primordial. 

Napster Is Now Making AI-Powered ‘Digital Twins’ of Teachers: Estou confuso. Agora o serviço que em 1999 usava para sacar música em mp3 agora serve para fazer cópias digitais do trabalho de professores? Suspeito que mudou a área, mas mantém o modelo de negócio. 

The Dead Silence of AI Therapy: Podemos concordar que há áreas em que meter IA não faz nenhum sentido? É preciso ter-se muito pouca noção do que é ser humano para achar que questões tão complexas como a psique podem ser geridas de forma automática. 

What AI Anxiety Looks Like in China: Apesar da perspectiva chinesa sobre a IA ser mais animadora do que a nossa, são também um campo fervilhante para as suas consequências laborais. Desde atores que passaram a ver a sua voz clonada sem qualquer retorno a assistentes administrativos substituídos por IAs treinadas no trabalho que desenvolveram. 

Winamp will be reborn in 2027 to take on streaming: Não sei se já perceberam que isto é marketing low cost, ressuscitar uma marca morta para capitalizar na sua fama, enquanto se vende algo completamente diferente do original. 

20 años anticipando el Apocalipsis: todas las veces que alguien ha dicho que la IA nos iba a matar a todos: E ainda cá continuamos, e ainda cá continuaremos. Não que a ia não traga problemáticas complexas, mas os medos de aniquilação são um profundo exagero. E, se estiver errado, podeis banquetear-vos com churrasco dos restos do meu cadáver, nas ruínas da zona saloia. 

El Gobierno de España presenta su gran plan para la IA: gigafactorías, un gran "contrato social" e insertarla en Mi Carpeta Ciudadana: Mais uma vez, Espanha a dar cartas e a investir à séria, em vez do que se faz por cá, que é anunciar intenções, investir tostões e deixar a coisa andar. 

The World That Bends Around Us: As implicações da ia generativa na interatividade dos videojogos, bem como nas vertentes relacionais. 

The Second Trip - art by Dan Adkins (1971): De facto, trippy. 

Los profesores de medio España están dejando de llevar a sus alumnos de excursión. No es por falta de ganas: Faz sentido. Quando estamos em deslocação, estamos a trabalhar cem por cento do nosso tempo. Sempre atentos, e responsáveis por crianças que não são nossas. Um peso que já senti, acompanhando visitas de estudo ao estrangeiro ou em deslocações Erasmus. Algo que muitos até apontam como uma prebenda, um "vais viajar de graça e ainda queres que te paguem um extra", mas na verdade não estamos a viajar por lazer, é trabalho, e com responsabilidades acrescidas. 

MAAT celebra 10 anos de portas abertas a 4 e 5 de outubro: com visitas gratuitas, um mercado solidário e a estreia da nova exposição de Joana Vasconcelos: Dez anos daquele espaço cultural que prometia trazer, finalmente, a tecnologia para o centro da discussão artística, mas agora é apenas mais um museu com trabalhos confortáveis para os turistas irem visitar. 

Portugal introdujo un nuevo sistema para controlar las botellas de plástico. Ha funcionado tan bien que Lisboa ya está pidiendo que lo suspendan: Não é só por cá que as peculiaridades do Volta dão chatices, há mais cidades europeias a perceber que os vícios inerentes ao sistema levantam problemas que depois têm de ser resolvidos pelos serviços públicos. Diga-se que o sistema é interessante, mas tem vícios de implementação. Da minha parte, reclamo a forma como está implementado para favorecer as grandes superfícies - é onde se devolve o vasilhame, e se recebe um valor financeiro em talão que serve para descontos em compras na grande superfície (é o típico chico-espertismo das nossas grandes empresas, inventam todos os estratagemas para criar mercados cativos). Se bem que por cá Carlos Moedas a falar do Volta como paladino dos pobres é assim um 'cadito surreal. Na verdade, todos sabemos que o problema dele não são os pobres, é eles andarem a vasculhar o lixo à procura de garrafas, e isso dá mau aspeto. Para este político, o problema real não é existirem pobres, é serem visíveis. 

Uffizi Removes Famed Caravaggio After Flash Flood Soaks Gallery: Ui, que péssima notícia. Revi recentemente este quadro, apesar dos acotovelamentos dos magotes de turistas de telemóvel em punho a tirar selfies frente aos quadros famosos, o Uffizi é daqueles locais onde se posso, gosto de regressar. 

Expulsar a los alumnos por mal comportamiento no funciona como pensábamos. La ciencia propone otra vía: Ok, certo, tudo muito bonito com a ideia de trocar castigo por motivação. Mas esqueceram-se de um pormenor: se um professor expulsa um aluno da aula, na verdade não o está a fazer para castigar o aluno. Está a fazê-lo porque o comportamento do aluno está a prejudicar os restantes. Demasiadas vezes, em educação, focalizamos a maioria dos recursos nos alunos problemáticos (e com razão, faz parte da nossa missão), deixando de parte a grande maioria, os que se mantém, esforçam e cumprem. 

Madrid Gets A New Stellar Museum: Estava já a pensar em olhar para o calendário para perceber quando é que me podia escapar para ir conhecer estas novas adições ao já fenomenal Thyssen-Bornemisza. Indo de avião ou de carro, claro, porque ferrovia a ligar duas capitais europeias vizinhas é coisa que por cá não se usa. Mas, a inauguração só ocorrerá em 2031. Bem, tenho tempo. 

The Greenland Fiasco Stumbles to an End: Quão idiota é a política da arte dos negócios trompista? Atentem na Gronelândia. Depois de ameaças pouco veladas de anexar um território autónomo de um aliado europeu, anunciam agora com a pompa que lhes é habitual um acordo histórico… em que os EUA têm acesso àquilo que sempre tiveram, espaço para bases militares no território. Não se consegue conceber mais genial estratégia para fazer acordos do que insultar e ameaçar um aliado, para depois obter o que já se tinha. Génios, são uns génios. Claro, no processo, perderam toda a credibilidade. 

Now Trump says he's creating an AI Force: Por AI, quer dizer Alzheimer Ineptitude? 

A Mathematician Just Debunked a Parthenon Myth: A matemática, como sempre a ser uma chata e a estragar percepções. Demonstrar que a proeza arquitetônica das ilusões de ótica envolvidas na construção dos antigos templos gregos é um mito, qualifica-se como algo que abala crenças centenárias. 

El alcohol está sumido en una crisis generacional en España y eso está impulsando algo: la "generación agua con gas": O mundo está perdido. Então os putos novos em vez de se emborracharem, dão na água com gás? E isso não surpreende. Mal de nós se as novas gerações mantivessem os costumes das anteriores. 

Don’t Ask How This War Ends: Está, de facto, uma guerra internminável e imprevisível, com várias frentes de contornos pouco definidos e alianças entre adversários. A única certeza? Todos estamos a ser prejudicados.