domingo, 28 de junho de 2026

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WEIRD SCIENCE-FANTASY No. 23, EC Comics (1954), cover art by Wally Wood: Clássicos.

Um sonho em tons de vermelho: Filme a marcar na lista daqueles que quero ver. Cinema abstrato com laivos de FC? Como resistir? 

Tolkien tenía muy claro quién hacía de verdadero héroe en 'El Señor de los Anillos', y no era ninguno de los protagonistas: Foi exatamente o que pensei quando li os livros. O verdadeiro herói é o fiel companheiro de Frodo, que literalmente carrega os maiores fardos, mas se esquiva dos louros e da busca pela vã glória. 

5233) Para que serve uma fórmula (6.5.2026): Apesar das eternas críticas, há vantagens no uso de fórmulas nos âmbitos da criação artística. 

The Trouble With Narrative History: A tentação, e o perigo, de dar sentido aos fluxos históricos. 

Lançamento: Rare flavours: Boa notícia para os leitores portugueses, a edição deste brilhante e muito negro livro de Ram V e Filipe Andrade. 

Rock and Roll Faces the Inevitable: O envelhecimento. E nisto, há os que não desistem. Mantém-se em palco, com o peso do seu legado. Também há os que não compreendem que envelheceram e se ficam pela nostalgia do passado, pese embora o ridículo que isso por vezes assuma. 

Leituras da Semana (#114 // Mai 11 2026): Vejo que não sou o único a rever-me no texto de João Zamith para o Sh/fter. E como o João Campos muito bem observa, "o objectivo disto tudo é promover escritores em particular ou a leitura em geral, entre os jovens?" O meu ponto de vista é mais traumático, sempre senti o forçar a leitura como um convite à sua rejeição. 


Hannes Bok: Futuros feéricos.

The Secret to Understanding AI: Longe do hype, do marketing e dos pronunciamentos exagerados dos que procuram lucrar o mais possível com a IA, há quem esteja a tirar partido das valências desta tecnologia para melhorar organizações, e com isso, as vidas do que estão envolvidos. 

Addictive design on online platforms: Um passo que tem de ser dado, regular e agir para cercear os abusos das redes sociais, concebidas intencionalmente para maximizar a adição dos seus utilizadores. 

Ordinary People Fear AI, While the Tech Leaders Working to Create a Permanent Underclass Say They’re Extremely Psyched About It: O título diz tudo sobre a forma tóxica como a IA nos está a ser impingida. 

AI On Every Machine: The LLM You Probably Didn’t Want: Ou, como não implementar o uso da IA. Pessoalmente, não me chateia descarregar gigabytes de modelos para o meu computador. Mas têm de ser os que eu quero usar, e a descarga é uma escolha minha, não uma imposição oculta. Como ex-utilizador do Chrome, é problema que já não me afeta, observe-se. Mas o problema é mesmo esse - a arrogante displicência com que a Google destrata os milhões de utilizadores do seu navegador. 

El 'vibe coding' prometía democratizar el software. Su primer regalo son 5.000 apps con datos sensibles en abierto: Sem grande surpresa. Confesso que sou enorme fã de vibe coding, embora prefire chamar-lhe "programar na descontra". Adoro o permitir-me criar coisas muito além das minhas capacidades técnicas, dando voz à minha criatividade, mas não tenho ilusões: sei que tenho capacidades técnicas limitadas, e que as soluções que consigo criar com ajuda dos chatbots não são aplicações fiáveis ou seguras para soltar por aí. No entanto, a quantidade de vibe coders sem esta noção é elevada. 

Software Ate My Homework: Saliento aqui duas vertentes. Primeiro, a extrema dependência em soluções externa que se faz sentir em todos os setores da educação (ó meus caros, se o Google Workspace vai abaixo, na minha escola não deixamos de dar aulas, mas vai complicar muito o nosso trabalho). Segundo, algo que não é estritamente tecnológico, mas onde a tecnologia é o elemento essencial para desvirtuar o mais fundamental na educação, que é o aprender, em favor de um modelo transacional onde a nota, e não o conhecimento, é o objetivo final: "Students have been encouraged to orient themselves toward performance; faculty have been advised to meet them where they are; college costs a lot of money and mainly serves to professionalize students (…)  the rubric, a name for the detailed liturgy of how a professor will assess an assignment. Rubrics are meant to avoid arbitrariness, but they also serve other instrumental goals: normalizing “learning objetives” so that universities can assess “learning outcomes” for accreditation and other bureaucratic purposes." Este clima não é exclusivo do ensino superior. Notem a forma como, por cá, o ensino secundário se tornou uma máquina de marrar para garantir elevado desempenho nas provas de acesso às universidades. 

 The Shady, Underpaid Gig Work That Makes Video Clips Go Viral: Um vislumbre das economias subterrâneas que sustentam o mundo do influencing. 

Un chaval de 15 años de Almería le ha declarado la guerra al oligopolio de las calculadoras gráficas: su arma es el código abierto: Boa sorte com isso. As probabilidades de acabar processado são elevadas. E se se perguntarem porque diabos os estudantes ainda precisam de comprar calculadoras cara num tempo em que qualquer computador ou telemóvel consegue fazer o mesmo, e até melhor, pensem no conceito de mercado cativo. Manipulando as regras educativas, os fabricantes destas calculadoras conseguiram o milagre de poderem lucrar cobrando altos preços por algo que lhes é barato de produzir, e tem zero de inovação. 

Meta Has Entered Its Death Spiral: Notem que plataforma digital morta, como o artigo bem denota, não significa desaparecida. Significa apenas que perdeu a sua relevância cultural, e nisto o Facebook está a mostrar todos os sintomas, como rede de cretinices e AI slop alastrante. É uma que me vejo obrigado a usar por causa do efeito de rede, mas já há muito percebi que se tornou desinteressante. Onde vejo interesse, dinamismo e um ritmo muito próprio é nas redes sociais independentes coletivamente denominadas Fediverso. As interações não têm o alcance das redes tradicionais, mas são muito mais ricas. 

Remembering the BBC Computer Literacy Project: Destaco isto, que representa o que se tornou uma influência enormemente corrosiva no domínio da informática na educação: "it’s an encapsulation of the promise on offer in that era, an optimism that seems sad when you reflect that educational computing descended into learning Microsoft Word during the following decade. It would be another two decades before the Raspberry Pi and BBC micro:bit picked up that fallen torch." Por cá, as coisas eram tão alinhadas com a falácia da "informática na ótica do utilizador" que havia um currículo de TIC tão mau que era apelidado de "currículo Microsoft". 

The new Wild West of AI kids’ toys: A questão essencial aqui é regulação. Os brinquedos associados a chatbots podem ser interessantes, mas têm de ter salvaguardas para não prejudicar o desenvolvimento das crianças, nem introduzir dark patters, impedir socialização ou incentivar a adição digital. Mas, sinceramente? O melhor mesmo são os mais simples brinquedos, esses desempenham um papel essencial no desenvolvimento físico e cognitivo das crianças. 

Twin brothers wipe 96 gov't databases minutes after being fired: Coisas que acontecem quando não há cuidados de cibersegurança elementar.

The hottest anti-AI gadget is a Cyberdeck: Confirmo, vejo constantemente vídeos de jovens makers a mostrar as suas cyberdecks. Geralmente raspberry pi com ecrãs e teclados, e surpreende a inventividade dos seus invólucros. Outra coisa positiva - grande parte destes makers é mulher.


From a 1985 issue of Games magazine: Como leitor clássico da Asimov SF, recordo estes mostruários de títulos intrigantes. Alguns tornaram-se clássicos.

"No me da la vida": la frase que resume el estado vital de toda una generación de españoles en la treintena: O burnout e a desmoralização como condições de vida na modernidade. 

Trump Is ‘Bored’ With the War He Started: Não sei se há palavras que descrevam este abismal sarilho. Como professor, sou muito fã de uma técnica pedagógica que se chama deixar o miúdo bater na parede. Sabem como é, naqueles momentos em que vemos que a pessoa vai errar, está a errar e se vai espalhar, apesar dos nossos avisos, o melhor é deixar a coisa chegar à óbvia conclusão final e tirar daí as lições. Talvez seja a única coisa positiva nestes dias, ver que o absoluto desastre que está a ser a administração do boomer bilionário vai levar as pessoas que andam a deixar-se seduzir pela extrema direita perceber o quão mau pode ser a sua governação. Guerras estúpidas muito caras (os americanos, literalmente, desarmaram-se a bombardear o Irão com efeitos bem menores do que a sua estratégia shock and awe preconizava), regressão de índices económicos e sociais, perda de direitos civis, clima político da pior indigência, responsáveis políticos que lucram abertamente com as posições que ocupam, nepotismo, privilégios aos grandes grupos económicos (o bloqueio em Ormuz está a ser um docinho para os lucros das petrolíferas, que dispararam). E, cereja em cima do bolo, em poucos anos conseguir dissipar o prestígio e imagem de um país. 

Checkmate in Iran: É, de facto, difícil de pensar numa forma de como esta guerra estúpida poderia ter corrido pior ao atacante. Apesar da superioridade militar e tecnológica, não só não consegue vergar o inimigo, como vê um dos pontos estratégicos da economia global a passar a ser controlado pelo regime que queriam derrubar. Futuros historiadores irão escrever teses inteiras sobre este cúmulo de estupidez. 

China Believes America Will Flame Out: Da paciência com arma geopolítica. 

Putin’s War Comes Home to Moscow: Note-se que estes últimos tempos têm derrubado um mito herdado do século XX, o da invencibilidade das superpotências. A Rússia atolou-se na Ucrânia, mercê da combinação de esforço internacional e da coragem dos ucranianos. Agora é a poderosa América, com as suas forças armadas de poderio ímpar, a ser travadas pela inteligência iraniana (notem que não defendo nenhum do lados). O resultado destes aventureirismos é um mundo mais inseguro para todos. 

Freedom of Navigation: A guerra no Irão é uma das maiores burrices geoestratégicas de sempre. Espicaçados pelo estado genocida de Israel, os americanos gastaram grande parte das suas munições em ataques arrasadores e de precisão que tiveram um efeito nulo. A inteligente estratégia de retaliação iraniana atacou alvos econômicos regionais. Os ataques entrincheiraram mais o regime, os americanos não atingiram nem uma vitória rápida nem se vislumbra que alguma vez a venham a atingir, e os iranianos perceberam que a sua melhor arma é o controle do estreito de Ormuz. Uma blitzkrieg absurda que mostrou a incapacidade de uma superpotência. E o pior ainda está para vir. O braço de ferro no estreito já se está a traduzir em preços mais altos dos combustíveis, algo que, pese embora o foco obsessivo dos nossos media nas reportagens nas bombas de gasolina, nem será a consequência mais gravosa. A quebra no fluxo de petróleo tem implicações na energia e matéria primas derivadas, mas há mais produtos essenciais que o ponto de estrangulamento não está a deixar passar. Como o hélio, gás cuja falta se traduz não na dificuldade de encher balões, mas como material essencial para a fabricação de tecnologia ou manutenção de equipamentos médicos avançados, se vai repercutir em menos produtos, mais caros, e decisões de racionar uma matéria prima entre fábricas e saúde. Isto, note-se, num quadro em que o setor tecnológico já vive uma crise de preços inflacionados e escassez de materiais como consequência do frenesi de investimento em datacenters de IA. Haverá pior? Sim. Outras matérias primas que estão a ser barradas no estreito são fosfatos e nitrogénio, essenciais como fertilizantes para a agricultura. Que chatice, lá vão aumentar os preços nos supermercados, poderão pensar. Sim, provavelmente é o que vai acontecer nos nossos países do primeiro mundo. Noutros países, percebe-se que nem vai haver fertilizante para as culturas. Ou seja, regressa a fome, em força. Como cereja em cima do bolo, todos percebemos que basta um punhado de minas e determinação para meter fim à livre navegação em zonas como Ormuz. O aventureirismo militar da cambada de idiotas que se incrustou na presidência americana está a ter consequências para além das diretas, com este abalo na ordem global legalista, o regresso da política da canhoneira e do cacique armado, um tremendo choque negativo para a economia global, empobrecimento generalizado, e o regresso da fome. Fantástico, não é?

quinta-feira, 25 de junho de 2026

As Maravilhas do Ano 2000


Emilio Salgari (1949). As Maravilhas do Ano 2000. Lisboa: Romano Torres.

Admito o gosto por pegar em obscuras obras de assumido futurismo escritas no passado. Não olho para elas com a lente jocosa dos oráculos falhados, é mais por genuína curiosidade em descobrir visões retrofuturistas, perceber como no passado se especulava sobre o seu futuro, e a forma como os pressupostos da época em que foram escritos são extrapolados no tempo. Ler a visão do futuro vinda do passado ensina-nos não só sobre os modos e pensamentos desses tempos, mas também a ter a humildade que aquilo que hoje pensamos, extrapolamos e especulamos será, futuramente, visto como uma curiosidade epocalista datada.

Este achado de alfarrabista atraiu-me pelo tema e capa, uma simples mas majestosa ilustração no estilo que hoje denominamos gernsback continuum. Desconhecia que Salgari se tivesse dedicado à ficção científica, este escritor ficou no firmamento da literatura fantástica pelas aventuras do seu personagem Sandokan. Pessoalmente, nunca apreciei por aí além, mas a geração dos meus pais adorava (e sim, isto é um comentário nada subtil ao imobilismo da cultura pop, cujas maquinarias de produção estão tão focadas em espremer o máximo de lucro da minha geração que não estão a criar nada de realmente novo que a renove para as próximas gerações). 

O livro parte de uma premissa clássica - um médico do século XIX que desenvolve um elixir milagroso que suspende a vida, e convence um amigo a embarcar com ele numa arriscada odisseia: encerrar-se num túmulo em hibernação, esperando que graças à magia da burocracia os seus futuros herdeiros os resgatassem passados cem anos. Que é, claro, o que acontece, senão o romance terminaria no terceiro capítulo. 

Segue-se a também clássica estrutura narrativa do romance-périplo, onde o autor pega na mão do leitor e o leva, através dos seus personagens, numa viagem de descoberta do mundo ficcional do livro. O futurismo de Salgari é urbanizado, pouco claro em termos políticos mas alinhando na ideia de prosperidade global graças aos frutos da ciência e economia aliadas a sãs formas de governo e a extinção das guerras. Há contactos com marcianos, via ondas rádio, não por viagens espaciais, o futurismo salgariano não chega aí. Viaja-se por veículos aéreos, a vida quotidiana é de luxo burguês. Comboios subterrâneos vencem as distâncias continentais, e para os oceanos há navios híbridos, capazes de navegar e voar. A força motriz da civilização futura é a eletricidade, obtida por barragens e pelo uso do rádio, sem conhecer aquele leve efeito secundário cancerígeno que sabemos advir da radioatividade. 

Diga-se que o futuro salgariano não é uma utopia que nos convenha. Por detrás do urbanismo tecnológico, há uma destruição planetária, com o arrasar da natureza para ter campos de cultivo para alimentar as populações. Isso é apresentado como um progresso, o que está em linha com os ideais progressista da época. Há um interesse histórico no mundo natural, relegado para zonas muito remotas, mas a ideia principal é a de um planeta que deve ser modificado para uso humano. 

Para um leitor dos nossos tempos, há um pormenor que torna a leitura muito desagradável, o seu óbvio racismo. No século XX de Salgari, que é uma espécie de utopia do homem branco, o crescimento demográfico das populações de origem africana e asiática é visto como uma ameaça para a civilização. Hoje, temos um nome para isso, a "teoria da substituição", uma das bandeiras dos delírios perigosos da extrema direita. As menções a etnias e minorias não são muito melhores, com os narradores do futuro a comprazerem-se com a extinção de povos autóctones e indígenas, pela sua incapacidade em adaptar-se ao admirável mundo novo. Quem vive no passado é desnecessário.

Politicamente, a coisa não é muito melhor. Este século XX é uma utopia burguesa de conforto e tranquilidade, mas quem se atrever a ser dissidente é retirado da sociedade, isolado em localidades no polo norte ou em cidades submarinas. Os celerados que não se submetem ao consenso comum são excluídos. Na utopia salgariana, para o relativo conforto de um exílio, apesar da ameaça de eliminação em caso de revolta. Na realidade dos tempos de que nos chega o livro, este ideário legou-nos o campo de concentração.

Estarei a ser injusto ao lançar uma luz tão negativa sobre estes aspetos? Nem por isso, mesmo à sua época as visões de progresso já eram capazes de ultrapassar este manifesto destino superior do homem branco que infunde as especulações. É também de notar uma total ausência de personagens femininas no livro, neste futuro as mulheres não entram. Assume-se que existem, senão as raças não se reproduzem, espero... mas na verdade nada é mencionado sobre estes aspetos. Teria de saber mais sobre Salgari para perceber se este ignorar é intencional, ou falta de capacidade do autor.

A história em si perde o rumo a meio, quando Salgari tenta transformar um interessante romance-périplo por espaços futuristas numa história de aventuras. Aí, o livro perde o interesse, e o final é verdadeiramente patético. Os dois homens do passado acabam declarados loucos, não por insistirem na sua história mirabolante, mas como efeito secundário da exposição contínua à eletricidade, algo corriqueiro para os homens do século XX  salgariano, mas a que os corpos dos nossos heróis do século XIX não se conseguem habituar. Termina assim esta utopia, com um aviso sobre se os eventuais perigos que a eletrificação da sociedade, a dar passos decisivos nos tempos de vida do autor, não seria um terrível malefício para o corpo e alma humanos.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

terça-feira, 23 de junho de 2026

Atlas de Lugares em Extinção


Travis Elborough (2026). Atlas de Lugares em Extinção. Lisboa: Quetzal.

Não há nada neste livro que não se encontre nas páginas da Wikipedia. Ou, temo e suspeito, num qualquer resumo de IA sobre o tema. Mas sou uma pessoa algo antiquada, e não me é desagradável passar uma tarde primaveril a aproveitar o sol, uma cerveja bem fresquinha e um livro pouco profundo sobre o tema sempre interessante de espaços que se desvanecem.

O livro recorda-nos as cidades perdidas do passado, que em muitos casos mal deixaram traços das civilizações que as construíram. Olha para desvanecimentos da história recente, e mostra-nos como os efeitos da ação humana, entre o aquecimento global e os projetos de engenharia, estão a gerar novas geografias de desaparecimento.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Obsession

Vim parar a este filme sob influência de Backrooms. Li, algures, que este teve um impacto diminuído por ter saído em simultâneo com Obsession para os cinemas, sendo ambos considerados como obras que quebram o padrão e trazem ao grande ecrã as estéticas digitais. Como Backrooms é um filme que não sai da cabeça, quanto mais se pensa nele mais fascina, fui espreitar o seu aparente concorrente.

Obsession não é tão radical na sua estética como Backrooms. Apropria-se de algumas estéticas nostálgicas e faz uso das sonoridades suaves levemente dissonantes que vêm do vaporwave ao horror core. Os carros e casas parecem ser dos anos 80, mas não como anacronismos, dado que a modernidade da internet, telemóveis e IA estão presentes no filme. É um dos indícios do uso de códigos visuais que os conhecedores do vídeo nas redes socias reconhecem muito bem. Como história, não é especialmente inovador, é uma variante do clássico enredo dos desejos concedidos que se revelam maldições. Vê-se como um cruzamento entre The Monkey's Paw, talvez a mais célebre história desta vertente do terror, e o meme da overly attached girlfriend levado a extremos gore (e diga-se que a atriz que desempenha o papel de monstro/vítima incorpora muito bem o ar de alegria inquietante deste meme). 

A história segue os desamores da pós-adolescência, com uma teia intricada que une quatro amigos que trabalham numa loja de música. Aqui, já toparam dois arcaísmos da estética das nostalgias, a história de crescimento dos jovens adultos e a loja de música como ícone atemporal que evoca um mundo onde o comércio era local e não dominado por multinacionais. Um dos jovens, Bear, está claramente apaixonado por Niki, uma rapariga muito independente. Esta está casualmente envolvida com Ian, o melhor amigo de Bear, sem que este desconfie. A compor o círculo está Sarah, filha do dono da loja, amiga de todos, e claramente apaixonada por Bear. Entre jovens tímidos e ainda a descobrir o mundo, há muitos sentimentos não ditos, e momentos de falta de coragem para dizer o que se sente. 

Parece uma típica comédia romântica, até à introdução do elemento sobrenatural, na forma de um produto colecionável que garante um desejo. É vendido em lojas esotéricas, e a maior parte dos que o compram nem sequer o usa, em mais um aceno às estéticas digitais do consumo de objetos icónicos que foram concebidos para ser mostrados mas não, realmente, usados (as Kodak Charmera são o exemplo mais recente dessa tendência). Amargurado  pela sua falta de coragem em assumir os sentimentos, Bear dá uso ao amuleto dos desejos, e fica logo surpreendido quando a reação da sempre distante Niki se transforma numa busca de proximidade imediata. A partir daí as coisas começam a correr de maneira estranha, até descambarem numa progressiva espiral de violência obsessiva. O desejo parecia inócuo, fazer a rapariga amar o rapaz, mas a personalidade da rapariga fica esmagada pelo efeito mágico, e o amor torna-se numa obsessão que ascende a extremos de violência, até um final quase irónico e muito infeliz. 

Para além das estéticas da nostalgia entrecruzadas com a modernidade tecnológica, o outro elemento que coloca este filme com um pé firme no terreno do momento contemporâneo é a sua temática. A história do desejo amaldiçoado é uma nada subtil metáfora para as relações tóxicas, amores obsessivos e desiquilibrados. É uma visão muito contemporânea que assenta no castigo que o rapaz sofre por estar a viver a sua fantasia de ser plenamente adorado por uma rapariga, embora com imensas nuances. Os rapazes não são machos tóxicos, há uma preocupação constante com o respeito mútuo, enquanto é muito sublinhada a perda de identidade das relações tóxicas de excessiva co-dependência. O horror não é a maldição dos desejos concedidos (algo que até é levado de forma muito leve por todos os que conhecem a história do objeto que os concede, chega a haver uma linha de apoio ao cliente que, como todas as linhas de apoio ao cliente, é disfuncional). Está, sim, na diluição da personalidade individual numa relação amorosa obsessiva.

Este filme é claro terror da geração millenial. Não é perfeito, tem momentos de tédio e outros de claro overacting, mas consegue um crescendo de tensão que explode num final portentoso, com gore q.b.. Uma nota especial para Inde Navarrette, que protagoniza a infeliz Niki. Começa de forma distante e discreta e acaba por levar todo o filme nos seus braços, com um desempenho alucinante que oscila entre o absurdo, o inquietante e o verdadeiramente arrepiante, num trabalho brilhante. 



domingo, 21 de junho de 2026

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Art by Ralph Reese for the cover of Metal Hurlant 79, Sept 1982.: Retrofuturos. 

The Film That Attacks You: É sempre bom redescobrir Un Chien Andalou, um filme que ao vê-lo pensamos que hoje seria demasiado provocador para ser feito. No entanto, na fímbria criativa com IA que se pode encontrar nalgumas redes sociais (pensem Instagram artístico e o espaço muito bizarro que se apelida de TikTok borderlands), vejo continuamente vídeos que mantém o espírito e estética de estranheza experimental do surrealismo. 

Leituras da Semana (#113 // Mai 04 2026): Ainda em rescaldo de ter tido o blog nomeado para os prémios da ESFS, um agradecimento ao João Campos pelo elogio, e uma pequena correção: aos vinte anos ainda não se tem juízo. Aliás, começo a pensar que nem aos cinquenta. Quanto à nomeação, sinceramente continuo sem lhe dar uma tremenda importância. Não por a achar pouco importante, bem pelo contrário (é uma honra, sei isso muito bem), mas, lá está: os neurodivergentes vêm o mundo de outras formas. Por isso, se acharem estranho não estar a celebrar alegria aos cinco ventos, não é por desvalorizar a nomeação, ou não me sentir feliz com ela. É mesmo porque a minha forma de reagir é vastamente diferente da dos neuronormativos. 

Um Olhar Sobre a Comic Con 2026: Confesso, bastou-me ir à Comic Con uma vez, na sua segunda edição, para perceber isto: "a Comic Con Portugal se apresenta como um grande espelho do nosso tempo: um tempo guiado pela superficialidade, pelo ruído constante e pela ilusão de que quantidade é sinónimo de qualidade. O evento vende‑se como celebração da cultura pop, sim, mas rapidamente se percebe que essa “cultura” é reduzida a um conjunto de estímulos rápidos, fotografáveis e esquecíveis. De facto, tudo é pensado para o impacto imediato, para a partilha nas redes sociais, para a validação instantânea e raramente para a reflexão, para o aprofundamento ou para o respeito pelas raízes do que ali deveria ser celebrado: a banda desenhada". Análise inesperadamente certeira e contundente do Vinhetas sobre o vazio conceptual de um evento que vê a cultura pop e os seus fãs como gado para ser ordenhado. 

Franco Storchi: Opera espacial. 

The era of AI malaise: Uma boa síntese para aquela falta de pachorra que já se começa a sentir quando se ouve falar de IA. Sabem do que falo, daqueles cansativos discursos de como a IA é a nova revolução industrial e de como vamos todos ficar desempregados, porque a IA é capaz de fazer tudo. E na realidade, vemos que as ferramentas de IA são de facto brilhantes nalgumas áreas específicas, mas a realidade anda muito longe do hype dos deslumbrados, com estes discursos reveladores de falta de cultura, e, enfim, falta de noção do que é a complexidade das relações humanas e do mundo em que vivemos

Introducing talkie: a 13B vintage language model from 1930: Ok, podemos dizer que retro-IA é uma cena

How are subsea cables repaired?: Um mergulho profundo (piada não intencional) na infraestrutura dos cabos submarinos, e nos métodos para a sua manutenção. 

A K-Pop Teaser Allegedly AI-Cloned Their Gobelins Student Film: ‘Niccolò’ Co-Director Speaks Out: Na era da IA, a linha que separa inspiração de imitação é cada vez mais ténue. Mas é este o caminho, usar os meios legais para punir o plágio. 

My AI Matchmaker Let Me Down: Quando queremos quantificar algo tão complexo e fluído como as relações humanas para serem geridas por algoritmos, os resultados são sempre deprimentes.

Meta Axes Contractors Who Had to Review Explicit Video From Smart Glasses: Para a Meta, o problema não é a óbvia invasão de privacidade que os seus produtos permitem. É haver quem se atreva a falar disso. 

Los viejos chips nunca mueren: las empresas que fabricaban chips "aburridos" están montándose en el dólar: Chips baratos, que se compram ao quilo (não é piada) e de usos muito restritos, mas omnipresentes e essenciais para a eletrônica do dia a dia

So, About That AI Bubble: Aqui, dou a mão à palmatória. O uso de llms para programação é de facto útil, e pode estar aqui o verdadeiro sentido para a adoção da IA. Mesmo no seu sentido mais generalista, como percebo quando em formação mostro a professores que nunca sonhariam em programar uma linha de código que conseguem, com ajuda da IA, criar recursos pedagógicos personalizados e adaptados às suas realidades, e os vejo entusiasmados com isso. 

New report tracks Russia’s growing combat ground robot fleet: A inovação na robótica militar não vem só do lado ucraniano. 

Las dos caras emocionales de la IA: en EEUU lanzan cócteles molotov a sus creadores, en China los niños bailan con robots: E porque é que isto acontece, perguntam-se? Simples. Por cá, no mundo ocidental, a IA está a ser vendida como uma máquina de plágio, um desenrascador académico, enfiado sem utilidade perceptível em muitos produtos, gerador de slop para as redes sociais. E ainda temos que levar com o brilhozinho nos olhos dos executivos e CEOs que se arrogam de declarar, com baba de apetites a escorrer do canto dos lábios, que a IA chegou para nos desempregar a todos e cumprir, finalmente, o seu sonho húmido de se livrarem dessa massa fedorenta que são os trabalhadores. Ainda se admiram de estarmos a rejeitar a IA e querermos guilhotinar os seus empresários? Por outro lado, o que vejo vindo da China é o oposto. Também há slop, claro, mas vejo novas ideias e uma vontade de experimentar e aplicar, de criar coisas novas. A visão é otimista e cheia de uma energia que nós por cá, enredados na teia tóxica das ideias neoliberais, já há muito perdemos, porque a noção de economia como motor social desfez-se em prol do sacrossanto valor acrescentado para o acionista. 

It’s Illegal in China to Lay Someone Off to Replace Them with AI, Court Finds: Digam-me lá outra vez, que é incompreensível que os chineses olham para a IA como algo positivo, enquanto nós a estamos a rejeitar? E, também, que é incompreensível a nossa rejeição da IA? 

Impactos da IA no trabalho intelectual e nos serviços públicos: Sim, já sabemos. A adoção de IA está a servir aquele velho sonho do capitalismo mais ganancioso, que é o de se livrar de trabalhadores. E como é que está a correr? Vejamos o exemplo do ministério da educação: "o ministro da Educação Fernando Alexandre anunciou uma redução de 50% nos quadros de pessoal do Ministério, graças à introdução de sistemas de IA para realizar várias tarefas". Como é que isto está a funcionar na realidade? Simplesmente grande parte dos serviços com que lido deixaram de dar resposta atempada às questões. 

Beyond Lovable and Mistral: 21 European startups to watch: Indicadores da soberania digital europeia. 

Steinar Lund: Mais opera espacial. 

A Year of Magical Thinking: A acintosidade social que sentimos no dia a dia, discursos de ódio que proliferam, e agora o regresso da violência política, com tentativas (infelizmente!) malfadadas de atentado ao presidente americano, talvez sejam um indicador que, como sociedade, estamos a ficar fartos do alardear ostentativo de impunidade dos plutocratas, bilionários desavergonhados e políticos que fomentam o ódio. Agem e comportam-se como se estivesse acima de todas as leis, e têm o dinheiro para se safar com isso. Como é possível não nos cansarmos destes destratamentos? 

Your Next Dog May Live Longer: É o drama de quem vive com cães. Sabemos que as suas carinhosas vidas são fugazes, e diga-se eu sou daqueles que seria tentado a experimentar este tipo de terapias, se garantisse um prolongamento saudáve vida das minhas companheiras caninas. 

Pay-To-Play: Rich People Are Hiring Themselves Orchestras To Conduct: Caros amantes da música clássica, estão a ver aquilo que todos fazemos quando nos entusiasmamos a ouvir uma das nossas sinfonias favoritas? Aquele gesticular sem sentido com se estivéssemos no papel de maestros? Pois, se forem muito ricos, podem fazer o mesmo, mas com uma orquestra a sério e não com o gira discos/leitor de cds/leitor de mp3/stream de música. 

Am…am I “alternatively influential” ?...: Confesso que… isto faz-me sentido. Ando há anos nas redes e blogs a mostrar o que faço. Não posso dizer que tenha tido um estrondoso sucesso, mas tenho tido boas surpresas, convites para dar formação, falar em eventos, e até o desafio de criar pequenos livros sobre robótica. É curioso, porque o que vou publicando não se enche de likes e partilhas. Mas de volta e meia, especialmente em contextos informais, há pessoas que me dizem, "sabes, o que tu publicas inspira-me, e vou experimentar com os meus alunos". Ou em eventos de mostra de projetos ser abordado por pessoas que nem conheço, que me querem cumprimentar e falar do que se faz porque viram nas redes alguma coisa minha. A melhor história que tenho destas é, em plena Maker Faire Lisbon, ter um colega de informática a falar comigo, a partilhar o gosto pelo 3D, e a dizer-me "olhe, sabe, já conhece o blog do Artur Coelho, está cheio de ideias e tutoriais para estas coisas". E eu, olho para ele e aponto para o badge que tinha ao pescoço. Imaginem a barrigada de riso. Não sou de todo influencer, nem o pretendo ser, mas é caloroso saber que deixamos uma pequena marca positiva no mundo, especialmente num tempo em que a internet se tornou um espaço tão tóxico. 

El caballo de Troya del catolicismo en España no es el islam: son 35.000 personas en una misa evangélica en el Metropolitano: E por cá, tal como lá. Refilamos contra a ameaça islâmica, quando na verdade a pior ameaça que temos ao nosso sistema democrático é o alastrar dos evangélicos - ultra-conservadores, anti-ciência, e em grande parte liderados por padres vigaristas que vivem vidas de luxo à custa dos dízimos dos fieis. Apesar deste tipo de iniciativa, são discretos mas vão erodindo o tecido social, e são notórios no apoio que dão à extrema direita. E note-se que já estão a chegar às escolas, exigindo que os alunos tenham EMR evangélica. O cancro do retrocesso já está instalado entre nós, e ao contrário do que os direitolos neo-fachos gostam de berrar, este cancro não usa burka. 

A espera e as leituras: Temos ainda muito que evoluir na forma como encaramos a dignidade no inevitável final da vida.

Germany as Europe's leading military power: Não nos é confortável, dada a memória histórica do século XX, mas é inevitável e essencial à estabilidade europeia.

King Charles Takedown Of Trump Was A MASTERCLASS: How Charles III Quietly Filleted Donald Trump in His Own House: Não é muito difícil criticar o boomer bilionário que nos está a infestar a vida. Fazê-lo com esta elegância, não é para todos.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Comics: Deep Cut

Chris Claremont, Edgar Salazar (2015). Wolverine: Deep Cut. Nova Iorque: Marvel.

Sempre vi Chris Claremont como um dos grandes argumentistas de comics do final do século XX, mas essa opinião tem vindo a mudar recentemente. Cresci a ler os seus argumentos para os X-Men clássicos, que revitalizaram os personagens com uma mistura de aventura de super-herói com dramas pessoais quasi-telenovelísticos, tornando-os uma das mais influentes séries da Marvel. Tão influente, que o argumentista foi pago para não trabalhar para outra editora, ao chegar ao fim da sua seminal temporada. 

Entretanto, li os romances da série O'Shea, que me recordo de ver anunciados nas Asimovs que lia religiosamente nos anos 90. Percebi que como romancista era medíocre e estereotipado, que o estilo que lhe tinha servido bem como argumentista não servia para a literatura de FC, mesmo em modo de aventura pulp. Recentemente, Claremont regressou aos seus antigos personagens, com a benção da Marvel, para contar novas histórias ou atar algumas pontas soltas das histórias que criou. Francamente, está a ser uma lição de como no que diz respeito às glórias do passado, o melhor mesmo é deixá-las no passado.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Histórias da Terra e do Mar


Sophia Andresen (2002). Histórias da Terra e do Mar. Lisboa: Texto Editora.

Alguns destes contos são alegorias moralistas, inspiradas em fábulas clássicas. Outros, vinhetas de forte impressão visual e emocional. O lado de conto moral deixa-me em busca de significados, mas a sedução com a prosa é imensa. Mais do que simbolismos e parábolas, da procura de sentido lógico, o que fica desta leitura é o prazer das palavras. A escrita é poderosa e fluída, enleva-nos com o seu ritmo e a imagética que desperta na mente durante a leitura.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Emaranhados

Graças à programação descontraída (vibe coding), tenho conseguido explorar com ajuda da IA ideias e projetos muito acima das minhas capacidades técnicas.





Vale o que vale, não estou a querer fingir que sou artista digital e mestre da programação. Apenas, estou fascinando pela capacidade que a IA generativa tem, nos domínios da programação, de nos permitir desenvolver projetos acima dos nossos níveis técnicos. Faço sempre a ressalva que não deixa de ser necessário aprender a programar, se se quer ir mais longe. Tal como há diferenças assinaláveis entre este tipo de soluções, pensadas unicamente como projetos pessoais, e soluções profissionais, que levam em contra questões de escala e segurança.

Agora, que é divertido experimentar e fazer isto, é. Esse lado é incrível.

domingo, 14 de junho de 2026

URL


Derelict Of Space: Opera clássica. 

5231) Os 100 anos da Ficção Científica: Celebrar o manifesto de Campbell. Não é o único ponto de origem do género literário, mas é um dos mais significativos. E quanto à relevância do género, diria que nada mais certeiro do que isto: "Cientistas podem prever esses usos, mas foi preciso a imaginação (e a pindaíba permanente) de Philip K. Dick para imaginar a história do cara desempregado que quer sair para arrumar emprego e a porta do apartamento está trancada porque ele não pagou o condomínio, e ele a certa altura diz: “Ora que diabo, aqui estou eu discutindo com a maçaneta da porta.” " 

«The Hellbound Heart» chega finalmente a Portugal!: Leio isto, e não sei se é boa ou má notícia. Claro, haver uma tradução de Barker para português, finalmente, é bom. Por outro lado, chega com trinta anos de atraso. A relevância cultural é mínima, e os conhecedores do género já leram a sua obra nas edições em inglês. 

What Is Authorship When Machines Can Write?: Pessoalmente, sou imensamente céptico sobre este futuro anunciado de máquinas criativas. Suspeito sempre que os seus proponentes mais entusiastas têm uma compreensão nula do que é a criatividade e expressão, pregando para aqueles que estão habituados à mediania das culturas comerciais. 

It’s Been A Century Since The Term ‘Scientifiction’ Was Coined: Cem anos do termo, mas muito mais do género. 

The Books That Take Revenge, Centuries Later: Há vinganças que se servem frias. Outras, geladas. 


VAMPIRELLA #29 (Warren, 1973): Terror expressivo. 

Weaponized deepfakes: Uma das mais insidiosas formas de abuso criminal via Inteligência Artificial, pela violência que excerce sobre as pessoas. 

US Air Force tests Anduril semiautonomous combat jet drone without direct pilot control: Avanços na robotização da aviação de combate. 

Pluralistic: It's not a crime if we do it (to nurses) with an app: Começa assim: "If I could abolish one piece of received wisdom about tech policy, it would be this: "Tech moves at the speed of innovation and regulation moves at the speed of government, so regulation will always lag behind tech." (If I could abolish two pieces of received wisdom about tech policy, the other one would be "If you're not paying for the product, you're the product." Decent treatment is not a customer reward program, and "voting with your wallet" only works if you're a billionaire whose wallet is thicker than all the other wallets put together.)" E acaba assim: "The reorganization of the economy around parasitic middlemen and financial gamblers (but I repeat myself) is the real reason that we can't regulate tech."  É por estas que Cory Doctorow é o analista que mais vale a pena ler e acompanhar para perceber o turbilhão social e cultural da inovação tecnológica. É sempre brilhante e acutilante. Essencial para pensar na tecnologia com sentido crítico. Claro, se se for um daqueles vendedores de banha da cobra que nos quer convencer que é fantástico despedir pessoas para as substituir por IA mal amanhada, que essas coisas da responsabilidade financeira são um desnecessário atropelo à prosperidade para todos (mas na prática só para os que não sofrem do mal dos escrúpulos) da crypto-defi, ou como se mete um telemóvel entre o serviço e o cliente a empresa já não tem de se sujeitar à legislação económica e social, Doctorow é um perigo. Para a esmagadora maioria, ou seja, nós, que por um lado nos deslumbramos com as potencialidades das tecnologias, mas nos recusamos a aceitar que sejam usadas como instrumento para reverter o progresso social  e económico, que consideram imorali os níveis estratosfericos de concentração de riqueza nas mãos de um punhado de sociopatas enquanto toda a sociedade piora, é leitura essencial. 

Pluralistic: The (other) problem with automatic conversion of free software to proprietary software: Mais uma para a categoria de manhas inesperadas - analisar software para recriar os seus requisitos técnicos, e em seguida criar software para preencher esses mesmos requisitos. Não é cópia ou pirataria, dizem. 

Meta will show parents the topics of their teens' AI conversations: Se por um lado se compreende o cuidado dos pais, por outro há aqui uma enorme invasão de privacidade. E notem, os adolescentes não são passivos. Quando sabem que estão a ser vigiados, o que fazem é mudar para outras redes e serviços mais privados, ou adorar múltiplas contas para escapar à vigilância dos pais. 

THE PEOPLE DO NOT YEARN FOR AUTOMATION: Certeiro. O sonho húmido dos proponentes da IA em tudo esbarra com uma realidade muito óbvia - nem tudo é automatizável numa sociedade, nem é desejável que tudo seja automatizável: "Anyone who’s actually ever run a database knows this. At some point, the database stops matching reality. At that point, we usually end up tweaking the database, not the world. But the AI industry has fully lost sight of this, because AI thrives on data. It’s just software, after all. And so the ask is for more and more of us to conform our lives to the database, not the other way around.". 

El auge de los "maximalistas del silencio": apagar las notificaciones 24/7 ya no es de maleducados, es el nuevo autocuidado tecnológico: Lamento, mas recusar estar sempre disponível e atento a qualquer pedido e notificação não é má educação. Precisamente o oposto, cada vez mais sinto como de extrema rudeza a interrupção imediatista trazida pela constante barragem de pedidos e notificações. Desligá-las não significa recusar interagir com o mundo, ou preguiça, é um modo de controle da nossa sanidade mental num mundo de constantes solicitações. Reservemos as interrupções para quando é realmente importante. 

How Project Maven taught the military to love AI: Um mergulho a fundo na forma como a IA ajuda a despersonalizar o combate, com as óbvias consequências de perda de sensibilidade e responsabilidade. 

Canonical lays out a plan for AI in Ubuntu Linux: Esta é inesperada, dado que a comunidade que sustenta o Linux tem uma certa aversão à IA generativa, pelo menos na forma como as grandes empresas a estão a querer impor. Vamos ver como é que isto se irá desenrolar. 

The Art of Computers | Apple at 50: Foi uma aposta ganha, diria. Grande parte da relevância cultural e, atrevo-me a dizer, mística da Apple é o ter apostado nos artistas e criadores. Não só pelo cuidado na estética e design, mas também como ferramenta.

It runs Doom: AI chatbot edition: Vá, sejamos honestos. O que é que ainda não corre Doom?

Hacer scroll, no comentar y cerrar la app: por qué el usuario silencioso es el gran ganador de las redes sociales: Certíssimo. Porque não vale a pena interagir em redes sociais, sendo como são um palco privilegiado para trolls, descontentes, idiotas chapados, vigaristas e pessoas que estão de mal com a vida. A internet como ágora, espaço de discussão, morreu com o disparo nas redes sociais.


DC Comics House ad for Amethyst: Princess of Gemworld (1982): A personagem é menos interessante do que a promessa. 

Worried About Teens Today? So Were Adults in the 1920s: Apreciei particularmente os perigos de ter jovens desocupados a fazer não se sabe bem o quê, como efeitos perniciosos da introdução da jornada de trabalho de oito horas e o combate ao trabalho infantil. 

Saramago ou o Cânone como Currículo: Certeira, esta crónica. A nossa insistência na leitura obrigatória de alguns autores como parte do currículo da escolaridade obrigatória não se deve a uma genuína vontade de preservar a sua memória e dar a conhecer a sua obra às novas gerações, mas a uma mais serôdia vontade de marcar leituras. Não se incentiva a ler para cultivar o gosto, mas sim para se poder afirmar que se leu. E eu, confesso, não conheço melhor maneira de destruir o gosto pela leitura do que obrigar a ler livros específicos para em seguida testar conhecimentos em provas e testes. Já agora, confessem lá, leram mesmo os livros obrigatórios que tinham de ler no secundário, ou leram as versões resumidas para estudar, porque sabiam que o que importava era responder às perguntas dos professores? A crónica vai mais longe, e mostra como é que noutros países se lida com isto. Sim, há leitura obrigatória (o que faz sentido). Não, não tem de ser obrigatoriamente o autor X ou Y, lê-se de uma lista de clássicos essenciais. 

Instead of Losing Democratic Elections, What If We Just Stopped Having Them Altogether?: O texto  é absurdamente irónico. O problema, é que há por aí muito boa gente a querer mesmo propor isto, a afirmar que a democracia representativa clássica é ineficiente e que precisa de ser "modernizada" para o século XXI. 

Millionaire Big Game Hunter Trampled to Death by Elephants: Menos um milionário, menos uma ameaça para a natureza. Não vejo aqui grande perda para a humanidade. 

Ukrainian instructors now teaching Germany’s army how to fight: Como não poderia deixar de ser, é o que faz sentido. Os militares ucranianos distinguem-se pela sua argúcia e capacidade para enfrentar com sucesso um inimigo mais poderoso. O front ucraniano é um viveiro mortífero de novas estratégias e armas, com especial destaque para drones e soluções robotizadas. Faz todo o sentido que a defesa europeia aprenda e incorpore as lições sangrentas que esta guerra está a ensinar. 

El café no solo te despierta: la ciencia apunta ahora que también mejora el ánimo (incluso descafeinado): Adoro quando a ciência confirma o que o meu corpo já sabe. 

‘The damage is done’: global oil crisis has changed fossil fuel industry for ever, IEA chief says: Escrever direito por linhas tortas, será? A corrente (e estúpida) aventura trumpista no Irão, com a disrupção tremenda nos fluxos comerciais de petróleo com tremendos impactos na ecnomomia global (e lucros astronómicos para as petrolíferas, que isto das guerras é sempre uma oportunidade de megócio), poderá ser o que irá, finalmente, despertar para a necessidade de acelerar a transição energética? 

Abril: Passei este 25 de abril fechado em casa, ou engripado ou com covid (nos dias de hoje, vale tudo). Mas partilho desta sensação. Os media descartaram estas manifestações públicas como rodapé, as redes sociais tradicionais idem. Onde reparei que a Avenida da Liberdade se tinha enchido, e bem cheia, foi no fediverso, através das partilhas de muitos que foram para lá, e mostraram que nos dias do resvalar do extremismo de direita e nocivos pacotes laborais, as pessoas não estão desatentas.