segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Motelx 2026 (I)

Uma breve fuga a Lisboa, em modo de picar o ponto no Motelx. Recordando os velhos tempos em que era frequentador mais assíduo do festival e fazia maratonas de cinema. Tempos em que o arranque de ano letivo se resumia a algumas reuniões e preparação, e não a sobrecarga de trabalho que já se iniciou antes do final das minhas férias (a sobrecarga de trabalho e responsabilidades que me tem sido despejada em cima são razões mais que suficientes para terminar a carreira na minha escola e transferir-me para outra, e já o devia ter feito nos concursos do final do ano passado, mas hesitei). Adiante, os horrores do real não têm de interferir com a fruição dos arrepios de terror. 

Consegui dar um salto ao festival, e dado que este ano se prolonga por dois fins de semana, vou tentar repetir a dose. 

A Virgem do Lago da Pedreira, Laura Casabé

Confesso, escolhi este filme por mero conforto de agenda. A sessão era às 14, perfeito para quem chega à cidade a meio da manha e almoça (num dos meus prazeres culposos de Lisboa, a Delphi e a suas lambuzantes sandes de Filadélfia). Achei que me ia entreter com um filme latino-americano de bruxarias, saiu-me uma obra inquietante que pode ser descrita como um cruzamento entre Carrie e Lolita. Lamento, cara realizadora, mas o olhar lânguido da câmara para o rosto de uma adolescente com os óculos escuros de aro oval grosso e branco denuncia logo as referências culturais. 

A história é de um coming of age com laivos de sobrenatural, passada numa Argentina falida dos anos 90. Três raparigas estão a passar o seu último Verão no final do liceu com o rapaz que é venerado por uma delas, e vão sofrer as tensões da entrada no grupo de uma mulher mais velha, madura e experiente, que as cativa pela sua rebeldia e estilo de vida alternativo mas acaba por seduzir o rapaz do grupo. O despertar da sexualidade, a transição para o início da idade adulta, o panorama de um país em crise profunda e a dificuldade em lidar com emoções colidem numa história inquietante e estupendamente filmada, com uma fotografia belíssima. 

Nosferatu, Werner Herzog

Nunca tinha visto este filme em cinema, daí  a escolha de um Herzog numa tarde de vaga de calor. Rever este filme no grande ecrã recordou-me o porquê de gostar dele. É uma homenagem ao clássico de Murnau, mas a homenagem não se faz pela repetição. Herzog filmou a história com a peculiar sensibilidade, tornando o filme mais desagradável ao palato do cinema de terror, mas na verdade a levar bem longe a lógica da história.

Não tinha percebido o quão queer é este filme, mas as cenas quase ternurentas em que Klaus Kinski, numa soberba caracterização que homenageia Max Schreck com um olhar de intensa solidão, suga os pescoços de Bruno Ganz e Isabelle Adjani vão muito além do horror vampirico (que em si já é uma metáfora sobre sexualidade reprimida). Sublinha isso a forma como Ganz rejeita a esposa, enquanto se vai tornando ele próprio um vampiro. 

Prefiro estes Dráculas subtis e desconcertantes às versões Hollywood, sempre a puxar para o melodrama trágico. Renfield revisto por Herzog é divinal na sua patetice, e o normalmente implacável e infalível Van Helsing é aqui um incapaz de pouca ciência, que só tarde demais se apercebe da sua ignorância. 

Ver este filme, finalmente, num ecrã de cinema mostrou-me o seu lado profundamente pictórico. As cenas estão compostas e estruturadas como pinturas românticas e pré-rafaelitas, com uma iluminação difusa. Herzog chega a incluir uma totentanz, com os pestiferos habitantes de Wismar a largar as inibições e algemas morais no meio da decadência. 

domingo, 6 de setembro de 2026

URL


lookcaitlin: Alta fronteira. 

An Odyssey Deserving of the Biggest Screen Possible: Confesso uma enorme curiosidade, e mantenho o espírito aberto para a forma como Nolan aborda este clássico. 

What You Won't Learn About the Odyssey from a Movie: Recordar que a Odisseia é, acima de tudo, uma obra da oralidade, recolha escrita de uma longa tradição de contar e cantar de histórias. 

Silicon Valley’s Science Fiction Problem: Bem sabemos. Os vendilhões do templo da tecnologia mostram-se conhecedores do melhor da FC, mas se a leram, não a perceberam. Pegaram nas piores distopias e empacotaram-nas em produtos e serviços merdificados, que não estão a trazer benefícios à sociedade. Ficam-se pela aparência, desconhecem o contexto. Nalguns casos, a desconexão entre o que se diz e os reais valores da obra de FC chega a ser dolorosa, como quando vemos bilionário sociopata Musk a citar Star Trek ou The Culture, duas visões de futuro que representam o completo inverso do capitalismo predatório que o tornou trilionário. 

As melhoras leituras do primeiro semestre 2026 – FC & F: Há aqui muitas e excelentes sugestões de ficção científica e fantástico. 

How Publishers Fight For Sweet, Sweet ‘Odyssey’ Money: Algo me diz que muitos dos que vão ser seduzidos por estas capas irão ficar algo desapontados quando realmente lerem o livro. Odisseus não é um last action hero, e a Odisseia é um texto pesado.

What to Read & Listen to After Seeing The Odyssey: Confesso, há que apreciar uma onda clássica na cultura pop.

Computer Game (1973) Why don’t you come up: Tecnomalandrices. 

The First Chatbot’s Multiple Personalities: Apesar de conhecer relativamente bem a história do ELIZA, não sabia que à época, se tinham experimentado modos de personalidade para a avó de todos os chatbots. 

Suno snatched millions of songs from YouTube, Genius, and Deezer: Para surpresa de ninguém, mais uma empresa de IA a ser apanhada com interpretações muito latas do conceito de fair use. 

China’s War on ‘Lying Flat’ Comes for Companion Chatbots: Como sempre, o governo chinês não está para brincadeiras, e legislou sobre o desenvolvimento de chatbots que incentivem ao envolvimento emocional dos seus utilizadores. 

AI slop movies are the new direct-to-video cash grabs: Novamente, daquelas notícias que não surpreende ninguém que acompanhe os volteios da IA. É o clássico chico-espertismo, agora acelerado pelas ferramentas generativas. 

The Brick Game, through the ages: Aquela leitura que não imaginavam que precisavam - um olhar para a evolução de um dos mais clássicos brinquedos eletrônicos (também tive um, claro!).

A Brief History of the Internet’s Favorite Scam: Um olhar para o nigerian scam, que até é bem mais antigo do que eu imaginava.

El salario de los junior lleva años en caída libre. Un nuevo estudio sugiere que el impacto de la IA no es tan obvio: Não é só a IA, a tendência começou no outsourcing.

Why AI Needs a “Genie Coefficient”: Inicialmente pensei que esta proposta tinha sido feita na brincadeira, mas ao longo da leitura, percebi a sua importância. Fala do fosso entre as promessas da IA, e as suas reais capacidades.

AI Companies Are Buying Tons of Old Books Because They're Free of AI Slop: Percebo o fascínio, também adoro livros antigos.

Studies: How AI Affects Creativity: A pouco linear relação entre IA e criatividade.


Outlaws of the Air: Aventuras no ar. 

In Memoriam, Encountering World War I, and Thinkable Horrors: É o melhor disto de andar enfiado na blogoesfera - de vez em quando, deparar-me com textos avassaladores. Costumo seguir a Maggie Appleton pelo trabalho que desenvolve no domínio da IA, mas não resisto a destacar este texto, sobre a forma como a literatura nos pode ajudar a compreender a história, e como a escola nem sempre o consegue fazer, com o seu foco em factos. 

The Lost Joy of Music Piracy: Há o lado venal da pirataria. E há o lado cultural, o de trocar ficheiros e aceder aos recantos mais inesperados da cultura.

For 1,000 years, a cult worshipped Odysseus: Ulisses como divindade. Esta, desconhecia.

How Shipping Container Disasters Became a Scientific Goldmine: Resumindo, se flutua, chega a algum lado. E essa trajetória revela muito sobre os oceanos.

Renoir Sure Painted A Lot Of Young Girls: Vá, não é isso em que estão a pensar, tem a ver com a afluência e o crescimento da burguesia endinheirada.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Wirecam

 
















Fotos diferentes, produzidas com ajuda de inteligência artificial. Não foram geradas, usei uma app programada com vibe coding para chegar aqui. E, se quiserem experimentar, cá está: Wirecam

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

36


Nieves Delgado (2017). 36. Cádiz: Editorial Cerbero. 

Uma intrigante visão sobre o que significa a inteligência artificial, sob a lente da ficção científica espanhola. Em 36, a IA torna-se consciente um pouco por acidente. Num toque de humor surreal, a manifestação de sentiência dá-se num sistema de controle de produtos de uma cadeia de supermercados, que começa a fazer sugestões em tempo real aos clientes. Parte daqui um projeto social de criação de IAs conscientes, que não corre como o esperado.

Apesar deste toque de humor inicial, a história segue caminhos mais profundos, de meditação sobre o significado de consciência, especulando se uma consciência não-humana teria reais razões para respeitar os modos de pensamento da humanidade que a criou. É aqui que surge 36, na verdade a trigésima sexta IA a ser criada e incorporada, e que logo se distingue das anteriores por demonstrar algum interesse em falar com os humanos. No mundo do livro, é um projeto de investigação que gera as IAs conscientes e as decanta em corpos-simulacro de humanos, em fases de aculturação. As IAs incorporadas  começam por ter corpos de criança e adolescente, até serem consideradas aptas para ter uma forma adulta. Os corpos simulam com eficácia as sensações humanas, mas depressa se percebe que as IAs não estão muito interessadas nisso. São, até, muito apáticas, contentes em assumir papéis sociais menores, afastando-se progressivamente da humanidade que as criou até, num ato de aparente suicídio, se desligarem. Aqui, o romance dá-nos um vislumbre de fascinantes possibilidades ao mostrar-nos que estas IAs não se desligam realmente, apenas abandonam os corpos humanóides, mas não explora mais essa vertente.

Ficam no ar muitas questões. O porquê da apatia das super-inteligências face aos seus criadores, a legitimidade de investir recursos na criação de instrumentos que não se mostram interessados em ser utilitários (note-se que este livro foi escrito antes da explosão da IA generativa, uma tecnologia que quanto mais se desenvolve mais se percebe que serve para muito pouco, mal grado os oceanos de dinheiro que estão a ser despejados no seu desenvolvimento), se uma entidade artificial pode ou deve ter os mesmos direitos que um humano biológico. A leitura é interessante, intrigante, e reflexiva, com um ponto de vista algo fatalista que nos recorda que não há qualquer razão para que uma entidade consciente artificial se reveja nos nossos pressupostos sociais e culturais.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026