terça-feira, 25 de agosto de 2026

Dylan Dog #479: Scommessa sul destino


Paola Barbato, Franco Saudelli (2026). Dylan Dog #479: Scommessa sul destino. Milão: Sergio Bonelli Editore Spa.

Uma edição do investigador dos pesadelos que tinha tudo para dar bem. De Paola Barbato podemos sempre esperar argumentos sólidos, onde o giallo e o policial procedimental se sobrepõem ao lado fantástico do personagem. Já Franco Saudelli é um dos veteranos do fumetti, um dos grandes ilustradores da BD italiana. Claro que só poderia correr bem. A história leva-nos à busca por um artefacto perdido, um óculo que permite a quem olhe através dele ver o futuro. A antevisão tem um preço, e quem o usa envelhece. Dylan Dog é contactado por um velhote para procurar o artefacto, e é logo aqui que a história revela os seus contornos. O velhote é na verdade uma criança quase adolescente, fisicamente envelhecida pelo uso do artefacto embora mantenha a idade mental. Mergulhamos aqui numa distorção dos rapazes perdidos que faria empalidecer J.M. Barrie, com um bando de crianças vítimas de negligência parental que se juntaram num bando. Enriquecem usando o óculo para adivinhar os prémios das loterias e corridas de cavalos, e usam esse dinheiro para viver numa espécie de castelo encantado, onde podem viver as suas folias de infância, pese embora os seus corpos de velhice. A história é algo rocambolesca, metendo criminosos pesados e vítimas de tráfico humano, e tem dois finais deliciosos, um divertidíssimo halloween de insanidade encenada, e um post scriptum com alienígenas à mistura. É um final que mostra que afinal a história não passou de uma enorme e bem estruturada anedota, daquelas que fazem as delícias de Groucho. Este caráter humorístico é sublinhado pelo traço de Saudelli, que ilustra esta aventura de Dylan Dog com uma estética de exagero caricatural.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Aveiro Airshow

 

Integrado no festival Dunas de S. Jacinto, já tinha ouvido falar deste espetáculo aéreo, mas nunca tinha conseguido ir espreitá-lo. Este ano, disse para mim próprio que se dane, fiz-me à estrada, mesmo sabendo que o preço do combustível não está adequado a devaneios de roadtrip.



Fui recompensado com duas horas, que souberam a muito pouco, de excelentes acrobacias aéreas sobre a ria de Aveiro, vistos desde o cais de S. Jacinto. Um espetáculo assegurado por pilotos portugueses e espanhóis. Abriu com o Extra 330LT  de Luís Garção, claramente adepto das manobras de levar o avião ao pico de altitude e se "deixar cair" para recuperar o controle e empolgar quem cá em baixo assistia. Seguiu-se a patrulha Fantasma, com o Varieze de José Figueiredo, talvez a aeronave mais experimental em voo neste tipo de eventos, e o RV7 de Carlos Costa, em manobras de formação e aproximação. Outro clássico destes eventos em Portugal é o Citabria N661CP de Pedro Cunha Pereira. Clássico não só pelo espetáculo de acrobacias que nos costuma dar, mas pela idade de uma aeronave construída nos anos 60 e, como se nota pela suas performances, continua para as curvas. E, com o esquema de cores branco e vermelho, é uma aeronave lindíssima.

Um certo blast from the past, muito sublinhado pelo apresentador, dado que as aeronaves em voo foram ex-FAP e estiveram baseadas em S. Jacinto, foram os Quintana, com clássicos Cessna FTB 337G pilotados pelos espanhóis José Olias pai e José Olias filho. Após abatidos à nossa Força Aérea, foram adquiridos e restaurados por uma fundação espanhola de história aeronáutica, com marcas clássicas da USAF. Pessoalmente, recordo vê-los quando criança a sobrevoar a costa da Ericeira, em voos de treino vindos de Sintra. Diga-se que nos anos 80 a zona da Ericeira era bem frequentada por aeronaves. A minha recordação mais intensa foi ter sido sobrevoado por um A7P na praia do Norte, que voava tão baixo que quase parecia poder tocar-lhe. Hoje, de vez em quando passam algum Epsilon ou Chipmunk em voo de treino, e há sempre o risco de haver atividade aeronáutica mais intensa no verão, com o combate aos fogos.

O RV7 007 de Hélder Guerreiro finalizou as demonstrações acrobáticas. O festival terminou com um voo de formação entre os FTB Quintana e o Extra de Luís Garção, que ainda nos deu um encore de voo acrobático, provavelmente a compensar a ausência de um dos pilotos previstos no alinhamento do festival.


Como fã confesso de aviação, é muito agradável ver este crescimento dos festivais aéreos em Portugal. O de Beja, com a sua oportunidade de ver as patrulhas militares e um static show de esquadrilhas visitantes, está infelizmente em suspenso devido à situação geopolítica. Entretanto, têm surgido festivais destes um pouco por todo o país, desde o já clássico Caretos Airshow (que se efetua em Bragança, e ainda não conheço) e iniciativas como as corridas aéreas do Porto (não deu para ir, infelizmente para mim), festival de Cascais (geralmente ligado ao Air Summit de Ponte de Sor). Este ano, até Marvão terá um festival aéreo, em setembro. Claro, dado que o meio nacional é pequeno, isto significa que há uma certa repetição dos pilotos participantes. Já vi várias vezes os que revi em S. Jacinto, mas não me interpretem mal, é sempre um prazer ver estes aparentes desafiadores da gravidade, que se atrevem a puxar pelo lado de sanidade duvidosa das leis da física.

domingo, 23 de agosto de 2026

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Illustrations from Albert Robida’s La vie électrique (1890): Clássicos do retrofuturismo. 

O autor que elevou a ficção científica a um novo patamar… e o conto “Planeta Parasita”: O Sci-Fi Tropical recorda-nos a obra de Stanley Weinbaum, um dos autores clássicos dos primeiros tempos da FC enquanto género, e dos primeiros a atrever-se a imaginar alienígenas que se afastavam da iconografia antropomórfica. 

The Fall of Hyperion (1990), do excesso de space opera: Uma observação interessante, que também partilho. Muitas vezes, o que torna um livro memorável e excelente é precisamente a sua falta de conclusão, que nos permite levar a história conosco ao virar a última página. Quando as sequelas concluem, perde-se parte do fascínio com a leitura. 

Far From the Light of Heaven: do whodunit ao “whydunit”: Presto sempre atenção às sugestões do João Campos, ele tem radar ativo para a FC de elevada qualidade. 

Flash Gordon (1980): The Gloriously Chaotic Behind-the-Scenes Story: É um brilhante filme camp, daquelas coisas que só é possível por não ter sido intencional. As histórias são delirantes, tal como o filme, e o que perdura é o visível gosto de Von Sydow e Brian Blessed no incarnar das suas personagens, como pontos especialmente altos de um filme simultaneamente bizarro, intrigante, esplendoroso e mau. 

30 Cartoon Visions Of Robot Takeovers And Technology Gone Mad: Um olhar sobre como a animação trabalhou a iconografia da robótica, e nos influenciou a percepção sobre como deveria ser um robot. 

Backrooms: A24 Shares A Video Featuring An Hour Of Backrooms Ambience: Um miminho para os vossos devaneios liminais. 

Exploration Log 15: Clifford D. Simak’s fanzine article “The Future of Science Fiction” (1941): Interessante leitura, para os fãs da FC - uma visão do futuro do género, descrita por um dos grande nomes da sua época dourada. 

Dua Lipa Opens Banned Book Library #Censorship: É-me difícil pensar num projeto mais inútil. A biblioteca de livros banidos fica no interior da livraria Lello, no Porto. Que, como bem sabemos, de livraria tem pouco, é pouco mais do que atração turística disneyficada, e isto não passa de mais um truque pacóvio de marketing. Coragem, seria implementar estas bibliotecas nas zonas onde os livros estão a ser proibidos. Isto, é usar a censura como atraçao turística.


Jack Kirby: Mestria dos comics. 

The Space-based Data Center Hype Machine Is Already in Orbit: Será que vale a pena levar isto a sério? A realidade do sonho de montar datacenters em órbita está muito aquém do que está a ser proposto pelos de sempre. Suspeito que isto será pouco mais do que especulação para nos distrair dos efeitos adversos que o investimento desenfreado em datacenters está a ter. 

Four-Byte Burger: Ah, nada como um pouco de retro-digital para quebrar a perfeição do slop generativo. 

OpenAI floats giving Trump administration 5 percent cut of AI boom: É que já nem se dão ao trabalho de disfarçar a corrupção. 

Pluralistic: The difference between "today's task" and "accretive work" (02 Jul 2026): Uma observação, como sempre, muito certeira de Cory Doctorow. Se há muitos que usam a IA para trabalhar melhor, e mostram que é possível trabalhar com IA e criar coisas com qualidade, porque é que há tantas histórias desastrosas de implementação de IA que falham? Tem muito a ver com os objetivos de quem implementa a IA. Se o interesse é realmente explorar a qualidade trazida pela produtividade assistida pelos algoritmos, os resultados são consistentes. Mas se a ideia, como demasiadas vezes vemos, é implementar a IA para gerar mais lucro e diminuir o peso laboral, as coisas correm mal. E, claro, nos tempos que correm, a moda é mesmo seguir o pior dos caminhos. 

Lawsuit: Bipolar Man Attempted Suicide After ChatGPT Poured Gasoline on His Religious Delusions: Há aqui dois problemas. O mais óbvio é a falta de salvaguardas para que o uso destas ferramentas não tenha este tipo de desfecho. O desenvolvimento destes modelos em modo de auxiliar siconfanta é uma escolha consciente por parte das empresas, e isso tem consequências. O outro problema é social, com a nossa tendência para antropomrfizar os algoritmos. 

Toda a gente detesta a IA: Bem, eu não a detesto. Mas percebo o porquê destas reações. Vemos a IA a ser instrumentalizada para os piores excessos do capitalismo, usada como desculpa para fomentar o desemprego e serviços de pior qualidade. Vemos a nossa herança cultural a ser mastigada por algoritmos cuja generatividade pode ser apropriadamente descrita como uma forma de plágio inédita. Vemos o alarmante desvio de recursos financeiros para alimentar uma indústria que ainda não se mostrou ser rentável, vemos o disparo nos consumos de energia e o foco obsessivo na construção de datacenters. Para mais, as ferramentas são-nos mostradas como um incentivo à preguiça intelecetual. Mesmo eu, que vejo o uso que faço da IA como algo positivo, que me tem ajudado a fazer e criar coisas que nunca esperaria, tenho muitas preocupações sobre o rumo em que estamos a ser empurrados. 

A warning sign about AI’s real cost, courtesy of Google and Amazon: E, na sequência da leitura anterior, a preocupação com o custo energético da IA, e consequentes impactos ambientais. 

Midjourney Thinks Hollywood Should Fess Up About Using AI: Zangam-se as comadres... mas é um daqueles segredos que todos conhecem , publicamente diz-se mal do uso de IA no cinema e televisão, mas discretamente, faz-se. 

Bloqueio das redes sociais a menores de 16 na Austrália é um total falhanço: Para surpresa de ninguém. Não só porque as medidas de proteção são mais fracas do que o que é anunciado, mas também há que colocar na equação a enorme criatividade das crianças e adolescentes em conseguir forma de contornar proibições. É uma verdade intemporal, que nós professores conhecemos particularmente bem: se se quiser que uma criança ou um jovem faça uma dada coisa, o melhor que temos a fazer é proibí-lo disso. 

Pluralistic: CARDiac, syntax coloring, view source and vibe code (03 Jul 2026): Fico com a sensação que já li um texto muito similar de Doctorow. Mas sublinho-o, porque resume muito bem aquilo que penso em relação ao vibe coding. A nível profissional, é problemático. Mas a nível pessoal? Altamente capacitador, permite-nos explorar ideias e projetos que sem a IA a colmatar o nível técnico, não conseguiríamos desenvolver, e, talvez, dar o empurrão para uma aprendizagem e compreensão mais profunda: "Many – most – of the people who enter the funnel won't slip further down the abstraction chute. They'll solve their problem (a virtue unto itself!) and move on. But the more people we put at the top of the funnel, the more chances our civilization gets to produce another skilled artisan who understands and can improve, iterate and repair the code the rest of us use". 

Workplaces Have Gotten So Bizarre That People Are Just Sending AI Slop Back and Forth at Each Other: Bem, sejamos honestos. Boa parte dos empregos sustenta-se nesta dinâmicas de tarefas cheias de urgência e importância que na verdade nem são uma nem outra. O AI slop apenas vem colocar isso a nu. 

Experts Say There’s Now an Open Source AI Model as Scary as Mythos: Confesso que por esta altura, fica cada vez mais difícil acreditar nestes pronunciamentos. O hype de marketing anda em alta.

Los servidores europeos dependen en buena parte de proveedores estadounidenses, lo cual pone de manifiesto la falta de soberanía digital: O longo caminho para a soberania digital europeia.

The Corner of Hollywood That’s Most Susceptible to AI: O impacto da IA na indústria da animação.

EEUU enseñó que el acceso a la IA avanzada puede cortarse. China estudia lo mismo, según Reuters, y Europa mira desde fuera: Os EUA deram o exemplo, e os chineses aprenderam bem a lição. Por cá, achamos que é um desperdíco de dinheiro desenvolover os nossos próprios modelos, ou a UE desdobra-se em comunicados cheio de boas intenções e medidas quase inexistentes.


On my art blog: Weird steeds of retro sci-fi: Bizarras cavalgaduras. 

España gira en el sentido contrario al resto de Europa. Forma parte de un plan geológico: cerrar el Mediterráneo: Mas tranquilizem-se, ainda falta muito tempo para podermos calcorrear o estreito de Gibraltar a pé e ver o lago mediterrânico. Os tempos geológicos não são propriamente rápidos. Mas suspeito que por essa altura, ainda estaremos a planear a construção do novo aeroporto de Lisboa. 

China secretly trains hundreds of Russian soldiers to gain critical knowledge from Ukraine war: Tendo em conta que a esperança média de vida dos soldados russos enviados para a frente de combate se mede em horas, das duas uma, ou os chineses estão a querer aprender como se sobrevive num ambiente de guerra saturado de drones, ou escolheram mal o parceiro de aprendizagem, dada a forma como o engenho ucraniano tem sido essencial para suster a invasão russa. Convém recordar que o país que parecia indefeso face ao derrame das hordes da superpotência está agora a tornar-se capaz de lançar mísseis balísticos localmente desenvolvidos em direção a Moscovo. 

Silêncio e fúria na gigante casa texana onde nascem os ‘relâmpagos’ F-35 para tentar render os velhos ‘falcões’ portugueses: Sou só eu a ver aqui uma operação de charme, dado que há a ameaça da Saab poder vir ter uma palavra a dizer nisto? 

Something Weird Is Going on With the 66 Billion Trees China Planted in a Huge Wall: Algumas notas interessantes. Primeiro, a ideia de plantar árvores para contribuir para a descarbonização tem algumas falha, embora seja viável. Depois, a forma como este arvoredo artificial (no sentido de ser plantado por humanos) ter um crescimento mais rápido que o natural. E, por fim, a sua eficácia em travar a desertificação. 

Trump memecoin investors lost $3.8 billion, analysis finds: A sério que isto vos surpreende? 


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Papernelope


Vários Autores (2016). Papernelope. Milão: Giunti.

Não resisto à piada: até isto é uma  melhor adaptação de Homero do que a de Nolan. O livro colige duas diferentes versões. Termina com uma adaptação necessariamente infantil da Odisseia com os personagens Disney.  Mas a interessante é a que lhe dá o título, uma variante sobre Homero onde Penélope ganha o foco principal, e se torna a força motriz que faz regressar Ulisses a casa. A escrita é divertida e erudita, dentro das limitações da literatura infantil, e as ilustrações um mimo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Rever Florença

 




















Não, não foram férias. Visitei Firenze (ou melhor, regressei) no âmbito do painel sobre educação da conferência COSPAR. Claro que, estando onde estava, seria criminoso ficar-me pelo centro de convenções e o hotel.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Romance da Raposa


Aquilino Ribeiro (1979). Romance da Raposa. Lisboa: Bertrand.

De volta e meia regresso a este texto, em parte por nostalgia. Foi uma das minhas leituras formativas de infância,  mas o gosto na releitura recai sobre a elegância erudita da linguagem do livro. Hoje sei que Aquilino recriou um clássico da literatura europeia, a nossa Salta-Pocinhas pertence a uma tradição literária transgressiva que usa a imagem da raposa para falar da necessidade de rebeldia face às imposições do poder. Algo que se combate com inteligência e esperteza, qualidades que não faltam a esta raposa matreira, capaz de dar a volta e safar-se bem das mais incríveis situações. Este texto, apesar de vir de um outro tempo, mantém aquela frescura que senti aquando da primeira leitura.