domingo, 27 de setembro de 2026

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Alex Schomburg's cover art for Amazing Stories, August 1965: Lideranças computacionais. 

Pathogen induced colapse: Annie Jacobsen não é uma escritora leve. Os seus cenários são sempre aterradores, em especial por sabermos que são construídos a partir da análise dos sistemas militares reais. 

The Death of Reading Has Been Greatly Exaggerated: De volta e meia surgem artigos alarmistas a falar de uma sociedade pós-literacia, em que se lamenta a queda na leitura. E, no entanto, não só a leitura não está realmente em risco, como o passado de hiper-literacia, em que supostamente todos tinham livros nas mãos, não corresponde à visão idílica que estes artigos evocam. 

Promethean horrors: A premissa deste livro, uma espécie de zombie cyberpunk, parece-me uma pouco velada e nada subtil metáfora da forma canibalistíca como os tech overlords olham para a sociedade humana. 

The Robot That Led the Way for All Robots That Came After: Recordar um dos mais icónicos robots do cinema clássico de ficção científica. 

Exploration Log 16: Clifford D. Simak’s speech “The Face of Science Fiction” (1953): É interessante ver como esta análise está no limiar da FC enquanto mero entretenimento e o esforço de escritores e criadores em transformá-la num género mais complexo em termos de temáticas e abordagens. 

All Novels Are Boring Until They’re Not: Bem, há algumas que desafiam este ponto de vista. Mas tem lógica, muitas vezes já dei por mim a pensar porque raios não ponho de parte determinado livro, até que há algo na história que me altera a percepção e me obriga a ler até ao fim.


Roundup of artist depictions of Jupiter’s moon Europa: Visões de esperança. 

Homeschool Parents Are Planning Lessons With ChatGPT: Da idiotice a duplicar - por um lado, o universo muito redutor de aprendizagens e socialização trazido pelo ensino doméstico. Ir à escola não é só estar sentado na sala a ouvir professores debitar matéria, é todo o lado social e de contacto com outras pessoas e realidades. Por outro, misturar o slop e as alucinações da IA com algo que já é mau de raiz. 

It May Be Time to Panic About AI: Confesso ter alguma dificuldade em levar a sério estes medos. Soam demasiado a guião de marketing inspirado em ficção científica, a tocar nos temores da IA. E notem que isto acontece aos modelos de empresas que vivem exclusivamente do desenvolvimento da IA, que precisam de mostrar a potência da sua tecnologia, não há notícias similares com os modelos da google ou da meta. Por outro lado, dado o lado lógico da IA, é expectável que perante um problema, um algoritmo destes o resolva da forma que lhe parecer mais eficaz, mesmo que isso implique derrubar barreiras éticas e legais. 

AI Generated 3D Models Flood Market, But Almost No One Is Buying Them: Creio que aqui o surpreendente é alguém achar que é boa ideia meter modelos 3D gerados por IA à venda, esquecendo-se do óbvio: quem os usa, sabe perfeitamente usar geradores 3D para dar corpo às suas ideias, não precisa de ir comprar as dos outros. 

Cats and dogs are missing meals after a popular smart feeder went down: Não me vou pronunciar sobre a necessidade de ter dispensadores de comida automáticos para animais de estimação, podem fazer sentido no dia a dia dos seus donos. A pergunta que faço é, para quê liga-los à internet e a servidores de empresas? 

El mapa de los 24 fabricantes de móviles que sobreviven en Europa: Soa quase incrível, que uma indústria dominada por dois ou três gigantes, haja espaço para fabricantes independentes e ainda por cima na Europa. 

Mauchly and Eckert’s Other Computers: Os criadores do ENIAC também congeminaram outras engenhocas computacionais. 

En 1866, Napoleón III le dio a París su propio Internet: bajo tierra siguen enterrados 427 km de "cables" que nadie quiere retirar: Uma internet muito avant la letter, com esta recordação das redes de tubos pneumáticos que permitiam o envio físico de mensagens através de uma rede que ligava vários pontos nas cidades. 

College Kids Are Using AI Agents to “Take” Entire Online Classes for Them by Logging Directly Into the Course Management Software: Para surpresa de ninguém. O real problema aqui não é a IA, mas sim a visão transacional da educação. Quem age desta forma não frequenta cursos para realmente aprender, mas sim para ter o canudo e a linha correspondente no currículo. Aqueles alunos que nos velhos tempos faziam o mínimo dos mínimos e andavam sempre a namorar os colegas que realmente trabalhavam para os "ajudar" (leia-se participar nos trabalhos de grupo sem realmente trabalhar ou copiar os apontamentos dos marrões), hoje automatizam a sua cabulice com IA. Esta crise educacional sempre existiu. Nos tempos pré-IA, era mais fácil fingir que não existia, e que todos os frequentadores de cursos superiores o faziam em nome do supremo idealismo da busca pelo conhecimento. 

Parecía la dirección de correo más inútil de Internet. Hasta que alguien compró "noreply.net" y empezó a recibir secretos: Esta, é inesperada. O desleixo ou erros nas configurações dos sistemas no reply permitem o acesso a mensagens confidenciais, e não estamos a falar de grandes proezas de hacking para o conseguir. 

Man Wearing Pervert Glasses Films Himself Harassing Famous Female Comedian in the Middle of TV Shoot: Para surpresa de ninguém, este tipo de óculos são um docinho para aqueles que se comprazem em humilhar publicamente os que os rodeiam. Este tipo de tecnologias tem um condão especial para potenciar o pior da natureza humana. 

You can turn an old Android into a Raspberry Pi alternative - but know this first: Não sei se substituir um raspi é o mais eficaz uso para um telemóvel antigo, mas a mensagem é correta - há imensa vida, e capacidade computacional, naquele telemóvel que está guardado na gaveta. 

What happens when a kid’s robot best friend dies?: Não é novidade que quando os robots inteligentes de companhia infantil se avariam, ou a empresa que os mantém vai à falência e desliga os servidores, há processos de trauma nas crianças que os usam. No caso de crianças neurodivergentes, o problema agudiza-se. Mas não leiam este texto como uma diatribe anti-robots nas mãos de crianças. Têm um reconhecido valor terapêutico, e a comunidade open source tem sido capaz de intervir para manter vivos alguns destes robots. Quanto à questão do trauma, é de notar que um crescimento e maturação saudável tem de incluir momentos negativos para um completo desenvolvimento pessoal. Rejeitar estes robots pela tristeza que provocam quando são desligados de vez seria similar a argumentar que as crianças não deveriam conviver com animais de estimação, para não serem expostas à dor de os perder quando falecem. Lidar com o luto faz parte de uma vida saudável.

Kentucky Middle School Sends Students Home on First Day of Class With AI-Generated Educational Materials Full of Inexcusable Hallucinations, Including a Map Labeled With “North Dahota” and “Olkchoma”: É por estas que, apesar de eu ser um professor que usa extensivamente IA com os seus alunos, tenho cada vez mais retiências a determinados tipos de uso de IA na educação. Em especial quando a preguiça dos que criam materiais para os alunos se cruza com a baixa qualidade de outputs.

Anthropic’s Text Watermarking Proves AI Companies Do Not Care at All About Writing: De facto, depois de perceber como é que a Anthropic concebeu o seu sistema de marca de água, percebe-se que mais valia não ter feito nada. Na verdade, não o é, é um sistema de introdução de estilos de escrita tipificados como IA (refira-se que qualquer sistema de metadados em textos seria derrotado por um muito elementar copiar e colar num editor txt básico, que remove toda a formatação e dados acessórios aos textos que copiamos). Ou seja, quem escrever num estilo parecido com o que se considera de IA, vai ser acusado de usar IA mesmo que não o tenha feito.

5 Predictions For Tech in The 2026-27 School Year: Diria que o retrocesso tecnológico é talvez a vertente mais forte que se sente nestes dias. Por um lado, porque estamos a ficar fartos da negatividade das redes sociais ou da intrusão de má IA em tudo o que é ferramenta digital. Por outro, porque a esmagadora maioria dos professores não convive bem com o digital, para lá do uso limitado como utensílio de escrita. Não conhecem e compreendem a tecnologia para lá do formatar documentos no word, usar padlets e delegar no canvas as estéticas de cartazes e apresentações, e é esse o espírito limitativo que transmitem aos seus alunos. Trabalhar com tecnologia na educação implica mudar posturas pedagógicas (uma quasi-impossibilidade num ambiente educativo conservador onde impera a ideia do exame como corolário das aprendizagens), e, também, não ter medo de meter os miúdos a mexer naquilo que mal conhecemos. E esse, é um dos passos difíceis.

UFO & Outer Space #23, October 1979: Medonhos visitantes. 

What Do Sex and Gender Even Mean Now?: Por muito que irrite algumas pessoas mais inflexíveis e incapazes de aceitar as nuances do real, a sexualidade não é um mero binarismo biológico. 

Questions I Have After Learning That Trump Was Allegedly Smuggled Out of Air Force One in a Catering Box: Ok, parece uma ação muito bizarra, mas na verdade faz todo o sentido do ponto de vista de gestão de riscos de segurança. Claro, podemos sempre sonhar que um míssil iraniano bem lançado nos livre da praga do homem-laranja. 

The Flawed Logic of Trump’s Airplane Escape: Ok, esta é inesperada. Se a premissa de usar um subterfúgio em caso de ameaça muito credível é expetável, o que não é normal é a forma como foi implementada. A aeronave sob ameaça descolou com grande parte do governo norte-americano a bordo, mesmo sabendo que poderia ser atacada, e bastava algo simples, como atrasar a partida até ao verdadeiro voo de transporte presidencial chegasse publicamente a espaço aéreo seguro. Claro, estamos todos a pensar no mesmo, não estamos? Se aquela chusma toda se despenhasse abatida por mísseis iranianos, o mundo só teria a ganhar. 

Europa no quiere depender de empresas como Starlink. La llave para hacerlo acaba de caer en manos españolas: Um forte investimento espacial europeu, com forte participação espanhola. 

Inside the defense investing boom fueled by drones, AI and Ukraine: A guerra como investimento financeiro no desenvolvimento de novas tecnologias. 

La UE asume que nos dirigimos a los +3 ºC de calentamiento. Y acaba de pedir a España que prepare sus infraestructuras para lo peor: Já não estamos sequer nos tempos do otimismo em relação às alterações climáticas. A mensagem é clara, temos de nos preparar para os piores cenários. 

Terra Queimada: Da Era Digital ao Mundo Pós-Capitalista: Recordar que há uma incompatibilidade estrutural entre o capitalismo de consumo desenfreado que o mundo neoliberal adora, e a necessidade de adotar sustentabilidade perante o cenário de alterações climáticas irreversíveis em que já estamos a viver. 

El "reto marrón" empezó como una gamberrada. Ahora está obligando a cerrar cientos de piscinas en España: Deixo esta aqui como registo da enorme estupidez humana, e como o que parece ser uma piada pateta tem consequências sociais graves. E sim, o castanho no desafio é mesmo o que estão a pensar. 

Ukrainian drones wipe out entire US tank brigade in live war game: Os campos de batalha ucranianos estão a mostrar aquela velha lição - os mais argutos militares só estão preparados para as guerras do passado. As guerras do presente mostram que os pressupostos estratégicos não sobrevivem ao confronto com o engenho dos combatentes. O tanque, que foi uma das tecnologias diruptivas da I Guerra e decisivo na II, arma de eleição, está a ser exterminado pelos drones de baixo custo que enxameiam o front ucraniano. 

Ukraine’s Long Shot: A estratégia ucraniana de ataque tem sido brilhante, focada em impedir que os recursos russos alimentem a linha da frente e infligindo danos nas infraestruturas económicas russas. Mas só os comentadores mais distraídos vêem aqui a possibilidade do fim da guerra com a queda do regime de Putin às mãos de uma população a sentir o peso da guerra. Esquecem-se que estamos a falar dos russos, de um povo que nunca conheceu realmente democracia, liberdade ou prosperidade, que saltou da condição de servo do Czar para servo do líder soviético, e com o breve período democrático a descambar no autoritarismo putiniano, a manter-se sempre como povo oprimido pelos seus governos, habituado à escassez e a duras condições de vida. 

NATO’s Nightmare: É, de facto, um dos piores cenários possíveis, uma ação conjunta sino-russa que abra uma guerra em duas frentes, com os russos a atacar na Europa e os chineses a tentar anexar Taiwan. São cenários plausíveis, e talvez inevitáveis se a China estivesse na mesma posição geoestratégica que a Rússia, como país fechado que foi isolado do sistema global. O ponto que trava estes cenários, e que provavelmente nos lega uma vida em paz, é a economia. Ao agir desta forma, a China estaria, literalmente, a garantir a perda dos maiores e melhores clientes para as suas exportações. 

Na estrada (2): De facto, João, afianço-te que as estradas galegas e leonesas são deveras divertidas de conduzir, embora de facto não possamos esperar que se concretize aquela mítica ideia que qualquer metro asfaltado espanhol é infinitamente superior ao melhor troço português. Tendo dito isto, a verdade é que sempre que faço a transição entre a AP-9/A55 e a A3 em Valença, sinto logo pelos sobressaltos no rodar dos pneus que já passei a fronteira. 

Los arqueólogos creían que era un templo a Mitra en Córdoba, pero no: es la biblioteca romana más antigua de la Península Ibérica: Infelizmente, os livros que abrigava estão para sempre perdidos. 

Temperature Zero for Culture: Why Everything Is Starting to Look the Same: Se estão com a sensação que o design comercial tende para uma monotonia mediana, que se vê nas modas, na ausência de cor nos utensílios do dia a dia, nas decorações cada vez mais genéricas dos espaços comerciais públicos e privados, é mais do que uma sensação. É uma consequência da algoritmização das decisões económicas, que privilegiam a segurança do mais do mesmo, diminuindo as margens de risco. E, como consequência, a perda da diversidade e os carácteres únicos e específicos das zonas em que vivemos. 

We live in a world of ordinary abundance & luxuries only dreamed of in centuries past: Sem julgamentos condescentes, apenas a observação que, de facto, no nosso dia a dia usamos quase sem pensar produtos e serviços que há não tanto tempo quanto isso só estariam ao alcance de uma elite, e que não existiram ao longo da maioria da história humana. Coisas simples, como ouvir música quando queremos, pegar num livro, ou comer fruta fresca. Recorda-nos que nestes tempos onde o neoliberalismo nos quer condenar à pobreza e precariedade, a importância de lutar por uma vida melhor para todos.

Una de las peores pesadillas de Francia empieza a hacerse realidad: se está convirtiendo en España y el proceso es un verdadero infierno: Podemos negar à vontade, mas o que sentimos na pele não é um "calorzito típico de verão". É mesmo o agudizar das condições climáticas, cada vez mais acelerado.

*Why not both at once: E, na sequência exata do anterior texto… o apocalipse global vem em dois modos, e não num só. Leitores de J.G. Ballard percebem a piada muito, muito negra.

En 1971, Francia escondió 18 pozos profundos de hormigón junto a dos hombres y dos llaves. Por suerte, ninguno liberó su contenido: Confesso que desconhecia este pormenor da guerra fria, que França dispôs de silos de mísseis prontos para retaliação nuclear.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A Voz dos Deuses


Rui Cunha, João Amaral (2019). A Voz dos Deuses: memórias de um companheiro de armas de Viriato. Lisboa: Arcádia.

Adaptando um romance de João Aguiar, esta banda desenhada transporta-nos aos tempos da romanização, do processo de ocupação da Ibéria pelos romanos. Um processo de conquista militar e campanhas de pacificação, bem como de absorção dos povos autóctones. No centro, a figura quasi-mítica de Viriato, o líder lusitano que conseguiu manter uma longa revolta e travar algumas vitórias contra as legiões. A sua sobrevivência era impossível, dado o poderio militar romano, mas lutou contra  o invasor, e ficou mitificado na história como ícone da liberdade face ao opressor, aproveitado como símbolo nacionalista português.

A história conta-se através das memórias de um guerreiro que o teria acompanhado, cruzando a sua história pessoal de homem irrequieto que não se consegue fixar numa terra e segue o caminho de guerreiro naqueles tempos conturbados. A história toca no misticismo pré-romano de Endovélico e Trebaruna, reconstitui as cidades das tribos e reinos do que se veio a tornar a Lusitânia, leva-nos a conhecer os seus povos e gentes, tendo a guerra contra Roma como pano de fundo. 

O estilo visual segue o caminho da ilustração, servindo mais como apoio ao texto. A reconstituição gráfica dos povos e iconografias é muito cuidada e assente em investigação. O livro é palavroso para BD, advindo do estilo narrativo e didático da obra, e é aqui que fica o seu ponto fraco: o trabalho de legendagem é horrendo, dificultando a leitura do que de resto é uma excelente abordagem ao nosso passado pré-romano.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

O Tempo dos Monstros


António Bizarro (2025). O Fim das Coisas Vol. 1: O Tempo dos Monstros. Chão de Couce: Divergência.

Foi uma excelente surpresa, este Tempo dos Monstros. Um romance em modo fix-up, que se constrói a partir contos individuais aparentemente sem relação, até percebermos pelos detalhes que partilham cenários, personagens e referências a acontecimentos. 

Perante as privações de uma fuga desesperada que termina no gelo da montanha, uma jovem rapariga descobre o gosto pela carne humana cozinhada à fogueira (e isso será um pormenor importante para uma outra história do livro). Um polícia cuja vida pessoal se desagrega descobre-se amnésico, incapaz de explicar o que lhe aconteceu durante algumas horas. Os esforços de um psicólogo pouco convencional para perceber o que se terá passado levarão, primeiro, ao acordar de um forte trauma de infância, e a outro mistério ainda mais profundo. Após uma violenta violação, uma jovem professora de esgrima passa a vestir um fato de dominatrix e dedica-se a decepar não só os seus violadores, como todos os que apanha a cometer crimes contra mulheres e crianças. No processo, cruzar-se-á com o inspetor que investigou casos de canibalismo que tiveram origem no passado violento de uma criança. Acordado de um longo coma, a vítima de um acidente apercebe-se que o tratamento experimental a que foi sujeito lhe conferiu uma estranha capacidade de saber o que desconhece, e com isso torna-se um precioso ajudante de uma inspetora que está a dar caça a um assassino em série. O tratamento experimental foi feito no mesmo instituto que tentou ajudar o polícia que perdeu a memória. Para terminar, uma criança em perigo de ser levada por um homem incapaz de controlar as suas pulsões é salva por uma mulher vestida de dominatrix com um sabre japonês nas mãos.

As histórias são de leitura leve, apesar da complexidade desta teia de ligações. A prosa tem um excelente ritmo narrativo e as narrativas agarram-nos, quer pelo suspense que criam, quer pela forma como aprofundam os seus personagens. Leitura intrigante, entre o policial noir e o terror, com toques de dark scifi e ambientes apocalípticos.

domingo, 20 de setembro de 2026

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500 Years of Space Drawings #SpaceSaturday: Ciência e arte. 

Do Ringtone ao Viral: Quando a promoção se torna parte da obra: A progressiva influência das dinâmicas digitais na forma como tomamos contacto com a nova música. 

Egyptian Mythology Books, recommended by Garry J. Shaw: O fascínio do antigo Egipto. 

Treinar a IA para me recomendar leituras: É uma ideia gira, se bem que há sempre o risco de o algoritmo fazer tender para escolhas médias. 

Kafka’s Most Entertaining Stories: Não sei se qualificaria Kafka como entretenimento, mas hey, cada um sabe o que lhe dá mais gozo. 

An Odd New Literary Genre: Biographies Of Characters From Books: A indústria literária encontra sempre nichos muito inesperados. 

The Best Body Horror Books, recommended by Heather Parry: De Ballard a Faber, livros onde a visceralidade corporal é a base do horror. 

Leituras da Semana (#125 // 02 Ago 2026): Mais olhares sobre a Odisseia filmica, e a forma controversa como revê um dos mais clássicos textos da cultura ocidental. 

An Uncomplicated Man: E pronto, lá li a elegância profundamente corrosiva da demolidora crítica de Emily Wilson à versão Nolan da Odisseia. Revejo-me no texto, percebo as críticas, até porque espelham o confronto entre a minha admitidamente menos profunda leitura da obra. E, no entanto, como o professor André Simões tem discutido muito bem, há aqui uma premissa errada - assumir que a cultura de massas tem de replicar o rigor académico. Não tem, e não pode, porque se o fizer não chega aos grandes públicos. Apesar das trapalhadas que Nolan fez à Odisseia, trouxe ao grande público uma versão simplificada e atualizada. Longe de ser perfeita, é divertida. E leva multidões ao cinema, para vibrar com uma história milenar. 

"Jesús es mejor, más listo y más compasivo" que Ulises: 'La Odisea' de Nolan ha puesto de uñas a biblistas de medio mundo: A sanidade desta ideia é maior do que o que possam pensar. Sabemos que os criadores dos mitos cristãos foram buscar relatos de outras tradições e civilizações, e incorporar os dilemas heroicos da tradição grega faz todo o sentido. 

Dystopian Sci Fi Books recommended by Adrian Tchaikovsky: Digo-vos que vão ficar surpreendidos com estas recomendações, embora sejam de todo consentâneas com a voz de um escritor marcante da FC contemporânea. 

The Heated Debate In Europe Over Air Conditioning: Será que por cá também teremos de generalizar o ar condicionado, como uma das estratégias de mitigação das consequências do aquecimento global? Notem, nesta fase, já não podemos falar em travar ou reverter, apenas em mitigar. 

“Menos data centers, mais bibliotecas”. E mais leitores: Na distopia de capitalismo late-stage neoliberal em que somos forçados a viver, só interessa o que dá lucro. O livro tem um papel a desempenhar nesta visão de podre dourado - não como meio de transmissão e discussão de ideias e conhecimentos, mas como objeto decorativo e comportamento performativo para os participantes empenhados nas economias da distração.


Paul Alexander: FC clássica. 

AI Is Hyper-Scaling Digital Inequality: Eu sei que a malta adora dizer mal do amália, o LLM(zinho) português, mas a única forma de combater a cada vez mais profunda desigualdade no campo da IA é apostar no desenvolvimento de ferramentas locais e específicas, adaptadas às necessidades e contextos culturais específicos. 

Grandparents Are Giving Their Grandkids Personalized AI-Slop Children’s Books, Driving Parents Nuts: Confesso que esta apetência por livros infantis automáticos sempre me deixou siderado. É olhar para a literatura infantil não como literatura, mas como objeto de entretenimento e preenchimento de tempo. 

Un conductor chino se compró un espectacular SUV eléctrico para viajar a Europa. Todo era perfecto hasta que llegó a la frontera: Quando a geografia troca as voltas aos sistemas digitais que sustentam a infraestrutura dos veículos elétricos, acontecem bizarrias destas. 

Why Kids Can’t Quit Roblox: Não é novidade, mas é sempre bom repetir. Este tipo de plataformas socorre-se de mecanismos aditivos, indo buscar as mesmas técnicas que usam os casinos e jogos de azar para captar a atenção dos jogadores. Que, neste caso, são crianças e por isso especialmente vulneráveis a estas artimanhas. 

Google Earth’s AI deepfake tool only lasted one day: Esta é daquelas ideias que só nos podemos perguntar em que raio estavam a pensar. Meter IA generativa dentro de um serviço que precisa de ser rigoroso. O que é que poderia correr mal? 

Appears to Be Blasting Amazon Data Centers Off the Map: Se ormuzar o petróleo é à primeira vista uma arma geopolítica de alto impacto, atacar a infraestrutura de dados não fica atrás. 

La crisis de la memoria ha disparado el precio de la Raspberry Pi. El cacharreo casero está huyendo a un chip que cuesta diez dólares: O ramapocalypse está a ser terrível para a computação de baixo custo. É absurdo que um Raspi custe quase tanto quanto um pc barato. A vantagem, é que projeto acessíveis como a Esp32 ficam no radar dos criadores e makers. 

Most people prefer AI-written stories – and can’t tell when they are made by humans: Bem, leio isto mas não fico preocupado. É que usar o gosto popular como unidade de medida de importância cultural é pateta. Lembrem-se, é o mesmo gosto que sustenta a mediocridade da música pop e pimba, faz alastrar as telenovelas, devora reality shows, oscariza melodramas banais e acha que o hambúrguer especial do McDonalds é comida gourmet. Acham mesmo que qualidade é preocupação para este nivel de consumo cultural? 

4 Times Not To Use AI as a Teacher or Student: Gostei particularmente do não usar para gerar planos de aula e projetos. A essência de um professor é saber refletir e coligir os seus conhecimentos com os objetivos de aprendizagem para os transformar em projetos ou planos que consigam ir ao encontro dos alunos. Se delegamos, por conforto ou preguiça, isto na IA, não só estamos a ensinar a metro, como se coloca a questão do professor ser realmente necessário, quando a IA debita mais depressa. 

Now, Thanks to Sam Altman, You Never Have to Speak With Your Kids Again: O bizarro é que estes sociopatas nos apresentam estas visões profundamente desumanas como se fossem desejáveis. Depois, ficam admirados pela cada vez pior visão pública que temos sobre esta tecnologia. 

The Internet Is in Crisis: A fama é algo perigoso, especialmente se ancorada nas mais baixas pulsões humanas. Depois de se atingir píncaros há a inevitável queda, e há quem persiga todos os extremos para tentar voltar à ribalta. A internet apenas acelerou algo que acontece desde sempre, com o problema adicional de numa economia de atenção que privilegia escandaleira e acintosidade, ir aos extremos implica sempre aprofundar o conceito de bater no fundo. 

Revolut bloqueia uso do GrapheneOS: Por "questões técnicas", leia-se "este SO não tem a porta aberta para a economia de vigilância que o Android da Google tem", é um SO feito a pensar nos utilizadores e não nas empresas. 

Chernobyl’s Robots, or the Hackathon From Hell: A necessidade como motor de criação, aqui recordando um momento muito dramático da história do final do século XX.

Everyday Technology Is Becoming a Black Box. Is There a Cost?: Um custo que se mede em conhecimento. A impossibilidade de mexer nas tecnologias significa que a esmagadora maioria de quem as utiliza não tem a mínima noção de como funcionam, ou sequer quais os pressupostos por detrás dos algoritmos que lhes controlam a atenção. São meros utilizadores, fascinados pelo que as tecnologias que não compreendem lhes dão. Há formas de combater isso, especialmente na educação, graças ao software e hardware aberto, plataformas e projetos como o Arduino, ou a imensa oferta de eletrônica de baixo custo, que tanto serve para aprender (e no processo treinar os futuros engenheiros)  como dar asas à criatividade tecnológica. Mas sejamos honestos. Apesar do movimento maker, dos fablabs e da tecnologia educativa, é uma imensa minoria aqueles que mexem a fundo com estas tecnologias. Somos muitos, mas uma minoria no panorama geral. Quem, como eu, está metido nestas coisas por vezes esquece-se do efeito de bolha informacional (e cultural), pensando que a acessibilidade deste tipo de projetos chega mais longe do que realmente é.


The two scariest pages from The Scholastic FunFact: Terror biológico

China lleva años construyendo barcos, cazas y bases de EEUU en mitad del desierto. Los satélites han revelado para qué eran realmente: A capacidade de preparação. É de notar que se os chineses quisessem realmente que não se soubesse destas suas manobras, teriam sido mais discretos com estes campos de treino. Assim, enviam uma mensagem muito clara. 

Shell Is Profiting Massively Off the War in Iran: E não é só a Shell. Neste momento não deve haver nenhuma petrolífera que não esteja a festejar lucros recorde. E se se perguntam para que serve esta guerra, a resposta é óbvia: são os investidores em Trump a recolher os dividendos do seu investimento. 

Como coisas: Compreendo esta visão deprimente. Os espaços digitais revelam muito, demasiado, sobre o que realmente vai na alma de muitas das pessoas com que nos cruzamos no dia a dia. Aquilo que nos seus semblantes públicos simpáticos não revelam, jorra em torrentes de ódio online. 

Why does everything feel so joyless?: Em grande parte, porque a abundância é feita do banal e do desinteressante, da repetição de receitas, e de conteúdos culturalmente irrelevantes. 

UEFA Has Message for FIFA President Gianni Infantino: You Gotta Go: Se estão surpreendidos por encontrar aqui um artigo sobre futebol, reparem que o nível de corrupção a que o jogo chegou é tão visível e óbvio, que até aqueles que dela beneficiam estão a abandonar o jogo. 

Putin’s Human Safari Is the Dystopian Future of War: Já estamos a normalizar a visualização dos momentos finais de seres humanos através das câmaras dos drones que os matam. Circulam imensos nas redes, mostrando o medo e a violência dos momentos finais das vidas dos soldados. Se já é agonizante a forma como estes vídeos circulam, é ainda mais desumano ver a falta da mais elementar empatia para com outros seres humanos. Ah, e antes que me esqueça, isto é um crime de guerra. Filmado e partilhado para a posteridade. 

 Senators demand crackdown on wildfire "prediction market" bets: Fica difícil manter a fé na humanidade, quando se percebe que não só a tragédia dos fogos florestais é tópico para apostas, como há quem faça disso um modelo de negócio. 

High Heat, High Drama: Há uma esperança com a vaga catastrófica de fogos que estamos a viver. Não só na Europa, também na América do Norte e Índia. É que as consequências do aquecimento global são demasiado evidentes, e os políticos terão mesmo de abandonar a sua sicofância perante os interesses económicos, perante uma crescente pressão pública. 

El fondo de inversiones estadounidense Apollo Global Management compra easyJet: Ou seja, adeus EasyJet? É que este tipo de fundos de investimento é conhecido pelo seu comportamento predatório. O seu modelo de negócio não é sustentar empresas e lucrar a longo prazo, mas sim comprar empresas lucrativas para as desmembrar e vender todos os seus ativos, para lucro rápido. 

Zuckerberg’s yacht was closer, but someone else saved a stranded boat: E isto, se estiverem atentos, é a melhor metáfora da bondade dos bilionários que se pode pensar. 

Uno de los exnarcos más famosos de Galicia quiere montar una ruta del narcotráfico para turistas. La Xunta le ha dicho 'no tan rápido': Fiquemos só pelo gosto duvidoso de querer privar de perto com um antigo narcotraficante. Bem, a minha vida já me ensinou que as pessoas tendencialmente surpreendem pela negativa, por isso, está tudo alinhado. 

The Color Recession May Be Permanent: De facto, estamos a perder a cor no dia a dia. Cada vez mais as escolhas se ficam em variantes do branco, cinzento ou preto. Uma uniformização em que o gosto capitalista por uma paleta comedida acaba por replicar aquela estética maoísta em que todos vestimos o mesmo tipo de roupa. 

India pursues FCAS fighter jet program collaboration with France following Germany's exit: A colaboração franco-indiana em termos de aeronáutica já tem várias décadas, mas no caso do FCAS, esperemos, para bem dos franceses, que a indústria indiana seja mais célere do que o que tem mostrado ser no desenvolvimento dos seus próprios programas. A HAL é notoriamente lenta a ir do protótipo ao produto final. 

The Human-Origin Story Is Being Radically Revised: O nosso passado mais profundo ainda se mostra cheio de mistérios. 

Zuckerberg’s Manifesto About the Glorious Freedoms AI Will Bring Was Completely Contradicted by His Own CTO During a Company Meeting: É cada vez mais discutível se os novos barões da tecnologia vivem na mesma realidade do que nós, dada a irrealidade e desumanismo das suas visões de utopia digital. Já os seus sequazes não hesitam em mostrar o real caminho - se a tecnologia e a IA nos libertam tempo, trabalhando por nós, o que há a fazer é... trabalhar mais. Afinal, os super-iates do patrão não se pagam sozinhos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Classical World: An Epic History of Greece and Rome


Robin Fox (2006). Classical World: An Epic History of Greece and Rome. Londres: Penguin.

Uma leitura longa, mas absolutamente brilhante. É um enorme arco de erudição histórica, que nos leva dos primeiros passos do que viria a ser a civilização grega ao reinado do imperador Adriano. O panorama é vasto. Acompanhamos a civilização Minóica e a história complexa das cidades-estado gregas. O vasto império de Alexandre e a sua posterior desagregação, e, claro, a jornada de uma aldeia do Lácio até se tornar a capital de um império que marcou a Europa de forma indelével. 

Esta viagem não se faz apenas através de factos históricos. Há uma imensa atenção dada à arte e à cultura, recordando o porquê das nossas raízes culturais partirem da antiguidade clássica. Da expansão pelo comércio dos antecessores da Grécia antiga, as ideias de liberdade, democracia e procura do conhecimento legadas pela época de ouro ateniense, a necessidade de ver mais além do horizonte da geografia alexandrina, os modos e costumes romanos, que se entranharam até aos dias de hoje. Note-se que a análise é crítica, é um olhar profundo sobre a vertente cultural da antiguidade, e não uma adulação cega dos seus aspetos mais superficiais como demasiadas vezes se vê por aí quando se evoca a nostalgias por estes tempos de alva brancura marmórea. Muitos dos comportamentos e modos culturais daquelas épocas são-nos hoje repelentes, desde a violência dos espetáculos dos circos à forma como a mulher era tratada em todas estas civilizações, sem esquecer o omnipresente esclavagismo ou a violência política.

A história também se faz de pessoas, e o livro fala-nos das personagens marcantes da antiguidade. Filósofos, políticos, reis e imperadores são retratados, mas o livro também tenta mostrar algo mais difícil, a vida das pessoas comuns. Se dos feitos dos grandes restam registos, mesmo que fragmentados, a percepção de como viviam os que não eram ricos e poderosos constrói-se através do imenso puzzle dos vestígios arqueológicos.

Livro profundo, mostra-nos a complexidade da antiguidade clássica, de forma crítica e abrangente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Em Mármore

 


















Registos da escultura renascentista (e romana) florentina, entre a Piazza della Signoria, Loggia dei Lanzi, Bargello, Uffizi, Accademia, Palazzo Medici, Santa Croce e Santa Maria del Fiore.