sábado, 5 de setembro de 2026
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
36
Nieves Delgado (2017). 36. Cádiz: Editorial Cerbero.
Uma intrigante visão sobre o que significa a inteligência artificial, sob a lente da ficção científica espanhola. Em 36, a IA torna-se consciente um pouco por acidente. Num toque de humor surreal, a manifestação de sentiência dá-se num sistema de controle de produtos de uma cadeia de supermercados, que começa a fazer sugestões em tempo real aos clientes. Parte daqui um projeto social de criação de IAs conscientes, que não corre como o esperado.
Apesar deste toque de humor inicial, a história segue caminhos mais profundos, de meditação sobre o significado de consciência, especulando se uma consciência não-humana teria reais razões para respeitar os modos de pensamento da humanidade que a criou. É aqui que surge 36, na verdade a trigésima sexta IA a ser criada e incorporada, e que logo se distingue das anteriores por demonstrar algum interesse em falar com os humanos. No mundo do livro, é um projeto de investigação que gera as IAs conscientes e as decanta em corpos-simulacro de humanos, em fases de aculturação. As IAs incorporadas começam por ter corpos de criança e adolescente, até serem consideradas aptas para ter uma forma adulta. Os corpos simulam com eficácia as sensações humanas, mas depressa se percebe que as IAs não estão muito interessadas nisso. São, até, muito apáticas, contentes em assumir papéis sociais menores, afastando-se progressivamente da humanidade que as criou até, num ato de aparente suicídio, se desligarem. Aqui, o romance dá-nos um vislumbre de fascinantes possibilidades ao mostrar-nos que estas IAs não se desligam realmente, apenas abandonam os corpos humanóides, mas não explora mais essa vertente.
Ficam no ar muitas questões. O porquê da apatia das super-inteligências face aos seus criadores, a legitimidade de investir recursos na criação de instrumentos que não se mostram interessados em ser utilitários (note-se que este livro foi escrito antes da explosão da IA generativa, uma tecnologia que quanto mais se desenvolve mais se percebe que serve para muito pouco, mal grado os oceanos de dinheiro que estão a ser despejados no seu desenvolvimento), se uma entidade artificial pode ou deve ter os mesmos direitos que um humano biológico. A leitura é interessante, intrigante, e reflexiva, com um ponto de vista algo fatalista que nos recorda que não há qualquer razão para que uma entidade consciente artificial se reveja nos nossos pressupostos sociais e culturais.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Oltretomba - In scienza e incoscienza
Vários Autores (2026). Oltretomba - In scienza e incoscienza. Milão: If Edizioni.
Este foi o mais curioso achado na minha recente viagem a Itália. Algo discreta nas estantes de uma Feltrinelli, estava uma série de livros que fazem regressar à edição um tipo de banda desenhada bastante retro. A série recupera o melhor da revista Oltretomba, um clássico do fumetti de horror. Convém sublinhar, "melhor" aqui é um conceito esquivo, dado que a revista era puro trash horror em modo de exploitation. Trouxe comigo um volume que colige histórias sobre cientistas loucos que se comprazem em fazer experiências tétricas em humanos (em bom rigor, humanas). As histórias são, de facto, um tremendo delírio que mistura de tudo - morbidez, ambientes góticos, cientistas loucos, ciência insana, pobres vítimas à mercê dos seus torturadores, generosas doses de seios voluptuosos, violência sexual e algumas pitadas de erotismo. Não são histórias subtis, e foram claramente concebidas para titilar os seus leitores, com promessas de tabus quebrados e sexualização do horror e violência. Ou seja, puro exploitation.
Revistas que no passado faziam parte da oferta editorial de massas, que suspeito que hoje seria impublicáveis, dada a violência e malevolência dos seus conteúdos. Talvez a marca de qualidade aqui esteja na ilustração, que é muito melhor do que o que se esperaria em banda desenhada feita a metro. Uma leitura muito politicamente incorreta, que nos recorda os anos de ouro do fumetti de exploitation, e nos faz pensar que na era pré-internet os leitores se excitavam com leituras bastante doentias.















