terça-feira, 29 de setembro de 2026

The Art of David Em: 100 Computer Paintings


David Em (1988). The Art of David Em: 100 Computer Paintings. Nova Iorque: Harry N. Abrams.

Um daqueles achados inesperados de alfarrabista, quando andava a esgravatar as estantes da Castro e Silva em busca de um livro para oferta. Nos dias em que discutimos a artificialidade das imagens geradas por IA, se são arte ou apenas slop, se os processos artísticos têm de ser exclusivamente manuais ou podemos usar a automatização do digital para criar arte, é intrigante ler este livro. A minha resposta a esta questão é sim, claro, mesmo sabendo todo o oportunismo e o dilúvio de má qualidade estética que as ferramentas de IA estão a trazer quando usadas por pessoas sem sentido estético, conceito de expressão,  vontade de martelar conteúdos para inundar redes e com isso ganhar uns trocos fáceis. 

Esta questão da tecnologia e arte não é nova. Embora sempre algo desdenhada pelo mainstream, a arte digital tem-se vindo a impor como meio de expressão com linguagens próprias, e já há muito que se percebeu que denunciar os meios digitais como a artificialidade de clicar num botão e gerar imagens é um falso mito. Como em toda a expressão artística que vale a pena ser analisada, conta a intencionalidade, a lógica da peça, os seus significados, a capacidade de exploração de novas estéticas. Algo que me parece ser tão verdade para o digital como para os meios ditos tradicionais. Se tal não fosse, nunca teríamos dado o passo do pináculo da arte realista no final do século XIX para as novas fronteiras estéticas, e a nossa vida artística seria uma infinda estética belle époque. Há quem admire isso, dado que estes realismos são mais confortáveis ao olhar e ao cérebro do que a evolução das vagas de vanguardas estéticas.

David Em foi um dos pioneiros do uso do computador enquanto pincel, tendo-se dedicado a explorar as possibilidades estéticas nos tempos onde só trabalhando em colaboração com laboratórios de investigação se poderia ter acesso a meios computacionais, quer de hardware quer de software, na então incipiente computação gráfica. O experimentalismo visual é enorme, longe do formalismo quase robótico e matemático que costumamos associar aos primórdios da arte digital. A paleta de cores é explosiva, imperam os plasmas e as texturas arrojadas, muito longe do figurativo. As obras são dos anos 70 e 80, refletindo as limitações técnicas do hardware da época, e sublinhando o lado de exploração de novas fronteiras. 

Um dos elementos que me atraiu o olhar para este livro foi ter lido, recentemente, um perfil de Em, detalhando o seu percurso artístico. Hoje, aderiu entusiástico à IA generativa, mantendo o mesmo espírito de experimentação livre e exploração do potencial dos pinceis digitais.

domingo, 27 de setembro de 2026

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Alex Schomburg's cover art for Amazing Stories, August 1965: Lideranças computacionais. 

Pathogen induced colapse: Annie Jacobsen não é uma escritora leve. Os seus cenários são sempre aterradores, em especial por sabermos que são construídos a partir da análise dos sistemas militares reais. 

The Death of Reading Has Been Greatly Exaggerated: De volta e meia surgem artigos alarmistas a falar de uma sociedade pós-literacia, em que se lamenta a queda na leitura. E, no entanto, não só a leitura não está realmente em risco, como o passado de hiper-literacia, em que supostamente todos tinham livros nas mãos, não corresponde à visão idílica que estes artigos evocam. 

Promethean horrors: A premissa deste livro, uma espécie de zombie cyberpunk, parece-me uma pouco velada e nada subtil metáfora da forma canibalistíca como os tech overlords olham para a sociedade humana. 

The Robot That Led the Way for All Robots That Came After: Recordar um dos mais icónicos robots do cinema clássico de ficção científica. 

Exploration Log 16: Clifford D. Simak’s speech “The Face of Science Fiction” (1953): É interessante ver como esta análise está no limiar da FC enquanto mero entretenimento e o esforço de escritores e criadores em transformá-la num género mais complexo em termos de temáticas e abordagens. 

All Novels Are Boring Until They’re Not: Bem, há algumas que desafiam este ponto de vista. Mas tem lógica, muitas vezes já dei por mim a pensar porque raios não ponho de parte determinado livro, até que há algo na história que me altera a percepção e me obriga a ler até ao fim.


Roundup of artist depictions of Jupiter’s moon Europa: Visões de esperança. 

Homeschool Parents Are Planning Lessons With ChatGPT: Da idiotice a duplicar - por um lado, o universo muito redutor de aprendizagens e socialização trazido pelo ensino doméstico. Ir à escola não é só estar sentado na sala a ouvir professores debitar matéria, é todo o lado social e de contacto com outras pessoas e realidades. Por outro, misturar o slop e as alucinações da IA com algo que já é mau de raiz. 

It May Be Time to Panic About AI: Confesso ter alguma dificuldade em levar a sério estes medos. Soam demasiado a guião de marketing inspirado em ficção científica, a tocar nos temores da IA. E notem que isto acontece aos modelos de empresas que vivem exclusivamente do desenvolvimento da IA, que precisam de mostrar a potência da sua tecnologia, não há notícias similares com os modelos da google ou da meta. Por outro lado, dado o lado lógico da IA, é expectável que perante um problema, um algoritmo destes o resolva da forma que lhe parecer mais eficaz, mesmo que isso implique derrubar barreiras éticas e legais. 

AI Generated 3D Models Flood Market, But Almost No One Is Buying Them: Creio que aqui o surpreendente é alguém achar que é boa ideia meter modelos 3D gerados por IA à venda, esquecendo-se do óbvio: quem os usa, sabe perfeitamente usar geradores 3D para dar corpo às suas ideias, não precisa de ir comprar as dos outros. 

Cats and dogs are missing meals after a popular smart feeder went down: Não me vou pronunciar sobre a necessidade de ter dispensadores de comida automáticos para animais de estimação, podem fazer sentido no dia a dia dos seus donos. A pergunta que faço é, para quê liga-los à internet e a servidores de empresas? 

El mapa de los 24 fabricantes de móviles que sobreviven en Europa: Soa quase incrível, que uma indústria dominada por dois ou três gigantes, haja espaço para fabricantes independentes e ainda por cima na Europa. 

Mauchly and Eckert’s Other Computers: Os criadores do ENIAC também congeminaram outras engenhocas computacionais. 

En 1866, Napoleón III le dio a París su propio Internet: bajo tierra siguen enterrados 427 km de "cables" que nadie quiere retirar: Uma internet muito avant la letter, com esta recordação das redes de tubos pneumáticos que permitiam o envio físico de mensagens através de uma rede que ligava vários pontos nas cidades. 

College Kids Are Using AI Agents to “Take” Entire Online Classes for Them by Logging Directly Into the Course Management Software: Para surpresa de ninguém. O real problema aqui não é a IA, mas sim a visão transacional da educação. Quem age desta forma não frequenta cursos para realmente aprender, mas sim para ter o canudo e a linha correspondente no currículo. Aqueles alunos que nos velhos tempos faziam o mínimo dos mínimos e andavam sempre a namorar os colegas que realmente trabalhavam para os "ajudar" (leia-se participar nos trabalhos de grupo sem realmente trabalhar ou copiar os apontamentos dos marrões), hoje automatizam a sua cabulice com IA. Esta crise educacional sempre existiu. Nos tempos pré-IA, era mais fácil fingir que não existia, e que todos os frequentadores de cursos superiores o faziam em nome do supremo idealismo da busca pelo conhecimento. 

Parecía la dirección de correo más inútil de Internet. Hasta que alguien compró "noreply.net" y empezó a recibir secretos: Esta, é inesperada. O desleixo ou erros nas configurações dos sistemas no reply permitem o acesso a mensagens confidenciais, e não estamos a falar de grandes proezas de hacking para o conseguir. 

Man Wearing Pervert Glasses Films Himself Harassing Famous Female Comedian in the Middle of TV Shoot: Para surpresa de ninguém, este tipo de óculos são um docinho para aqueles que se comprazem em humilhar publicamente os que os rodeiam. Este tipo de tecnologias tem um condão especial para potenciar o pior da natureza humana. 

You can turn an old Android into a Raspberry Pi alternative - but know this first: Não sei se substituir um raspi é o mais eficaz uso para um telemóvel antigo, mas a mensagem é correta - há imensa vida, e capacidade computacional, naquele telemóvel que está guardado na gaveta. 

What happens when a kid’s robot best friend dies?: Não é novidade que quando os robots inteligentes de companhia infantil se avariam, ou a empresa que os mantém vai à falência e desliga os servidores, há processos de trauma nas crianças que os usam. No caso de crianças neurodivergentes, o problema agudiza-se. Mas não leiam este texto como uma diatribe anti-robots nas mãos de crianças. Têm um reconhecido valor terapêutico, e a comunidade open source tem sido capaz de intervir para manter vivos alguns destes robots. Quanto à questão do trauma, é de notar que um crescimento e maturação saudável tem de incluir momentos negativos para um completo desenvolvimento pessoal. Rejeitar estes robots pela tristeza que provocam quando são desligados de vez seria similar a argumentar que as crianças não deveriam conviver com animais de estimação, para não serem expostas à dor de os perder quando falecem. Lidar com o luto faz parte de uma vida saudável.

Kentucky Middle School Sends Students Home on First Day of Class With AI-Generated Educational Materials Full of Inexcusable Hallucinations, Including a Map Labeled With “North Dahota” and “Olkchoma”: É por estas que, apesar de eu ser um professor que usa extensivamente IA com os seus alunos, tenho cada vez mais retiências a determinados tipos de uso de IA na educação. Em especial quando a preguiça dos que criam materiais para os alunos se cruza com a baixa qualidade de outputs.

Anthropic’s Text Watermarking Proves AI Companies Do Not Care at All About Writing: De facto, depois de perceber como é que a Anthropic concebeu o seu sistema de marca de água, percebe-se que mais valia não ter feito nada. Na verdade, não o é, é um sistema de introdução de estilos de escrita tipificados como IA (refira-se que qualquer sistema de metadados em textos seria derrotado por um muito elementar copiar e colar num editor txt básico, que remove toda a formatação e dados acessórios aos textos que copiamos). Ou seja, quem escrever num estilo parecido com o que se considera de IA, vai ser acusado de usar IA mesmo que não o tenha feito.

5 Predictions For Tech in The 2026-27 School Year: Diria que o retrocesso tecnológico é talvez a vertente mais forte que se sente nestes dias. Por um lado, porque estamos a ficar fartos da negatividade das redes sociais ou da intrusão de má IA em tudo o que é ferramenta digital. Por outro, porque a esmagadora maioria dos professores não convive bem com o digital, para lá do uso limitado como utensílio de escrita. Não conhecem e compreendem a tecnologia para lá do formatar documentos no word, usar padlets e delegar no canvas as estéticas de cartazes e apresentações, e é esse o espírito limitativo que transmitem aos seus alunos. Trabalhar com tecnologia na educação implica mudar posturas pedagógicas (uma quasi-impossibilidade num ambiente educativo conservador onde impera a ideia do exame como corolário das aprendizagens), e, também, não ter medo de meter os miúdos a mexer naquilo que mal conhecemos. E esse, é um dos passos difíceis.

UFO & Outer Space #23, October 1979: Medonhos visitantes. 

What Do Sex and Gender Even Mean Now?: Por muito que irrite algumas pessoas mais inflexíveis e incapazes de aceitar as nuances do real, a sexualidade não é um mero binarismo biológico. 

Questions I Have After Learning That Trump Was Allegedly Smuggled Out of Air Force One in a Catering Box: Ok, parece uma ação muito bizarra, mas na verdade faz todo o sentido do ponto de vista de gestão de riscos de segurança. Claro, podemos sempre sonhar que um míssil iraniano bem lançado nos livre da praga do homem-laranja. 

The Flawed Logic of Trump’s Airplane Escape: Ok, esta é inesperada. Se a premissa de usar um subterfúgio em caso de ameaça muito credível é expetável, o que não é normal é a forma como foi implementada. A aeronave sob ameaça descolou com grande parte do governo norte-americano a bordo, mesmo sabendo que poderia ser atacada, e bastava algo simples, como atrasar a partida até ao verdadeiro voo de transporte presidencial chegasse publicamente a espaço aéreo seguro. Claro, estamos todos a pensar no mesmo, não estamos? Se aquela chusma toda se despenhasse abatida por mísseis iranianos, o mundo só teria a ganhar. 

Europa no quiere depender de empresas como Starlink. La llave para hacerlo acaba de caer en manos españolas: Um forte investimento espacial europeu, com forte participação espanhola. 

Inside the defense investing boom fueled by drones, AI and Ukraine: A guerra como investimento financeiro no desenvolvimento de novas tecnologias. 

La UE asume que nos dirigimos a los +3 ºC de calentamiento. Y acaba de pedir a España que prepare sus infraestructuras para lo peor: Já não estamos sequer nos tempos do otimismo em relação às alterações climáticas. A mensagem é clara, temos de nos preparar para os piores cenários. 

Terra Queimada: Da Era Digital ao Mundo Pós-Capitalista: Recordar que há uma incompatibilidade estrutural entre o capitalismo de consumo desenfreado que o mundo neoliberal adora, e a necessidade de adotar sustentabilidade perante o cenário de alterações climáticas irreversíveis em que já estamos a viver. 

El "reto marrón" empezó como una gamberrada. Ahora está obligando a cerrar cientos de piscinas en España: Deixo esta aqui como registo da enorme estupidez humana, e como o que parece ser uma piada pateta tem consequências sociais graves. E sim, o castanho no desafio é mesmo o que estão a pensar. 

Ukrainian drones wipe out entire US tank brigade in live war game: Os campos de batalha ucranianos estão a mostrar aquela velha lição - os mais argutos militares só estão preparados para as guerras do passado. As guerras do presente mostram que os pressupostos estratégicos não sobrevivem ao confronto com o engenho dos combatentes. O tanque, que foi uma das tecnologias diruptivas da I Guerra e decisivo na II, arma de eleição, está a ser exterminado pelos drones de baixo custo que enxameiam o front ucraniano. 

Ukraine’s Long Shot: A estratégia ucraniana de ataque tem sido brilhante, focada em impedir que os recursos russos alimentem a linha da frente e infligindo danos nas infraestruturas económicas russas. Mas só os comentadores mais distraídos vêem aqui a possibilidade do fim da guerra com a queda do regime de Putin às mãos de uma população a sentir o peso da guerra. Esquecem-se que estamos a falar dos russos, de um povo que nunca conheceu realmente democracia, liberdade ou prosperidade, que saltou da condição de servo do Czar para servo do líder soviético, e com o breve período democrático a descambar no autoritarismo putiniano, a manter-se sempre como povo oprimido pelos seus governos, habituado à escassez e a duras condições de vida. 

NATO’s Nightmare: É, de facto, um dos piores cenários possíveis, uma ação conjunta sino-russa que abra uma guerra em duas frentes, com os russos a atacar na Europa e os chineses a tentar anexar Taiwan. São cenários plausíveis, e talvez inevitáveis se a China estivesse na mesma posição geoestratégica que a Rússia, como país fechado que foi isolado do sistema global. O ponto que trava estes cenários, e que provavelmente nos lega uma vida em paz, é a economia. Ao agir desta forma, a China estaria, literalmente, a garantir a perda dos maiores e melhores clientes para as suas exportações. 

Na estrada (2): De facto, João, afianço-te que as estradas galegas e leonesas são deveras divertidas de conduzir, embora de facto não possamos esperar que se concretize aquela mítica ideia que qualquer metro asfaltado espanhol é infinitamente superior ao melhor troço português. Tendo dito isto, a verdade é que sempre que faço a transição entre a AP-9/A55 e a A3 em Valença, sinto logo pelos sobressaltos no rodar dos pneus que já passei a fronteira. 

Los arqueólogos creían que era un templo a Mitra en Córdoba, pero no: es la biblioteca romana más antigua de la Península Ibérica: Infelizmente, os livros que abrigava estão para sempre perdidos. 

Temperature Zero for Culture: Why Everything Is Starting to Look the Same: Se estão com a sensação que o design comercial tende para uma monotonia mediana, que se vê nas modas, na ausência de cor nos utensílios do dia a dia, nas decorações cada vez mais genéricas dos espaços comerciais públicos e privados, é mais do que uma sensação. É uma consequência da algoritmização das decisões económicas, que privilegiam a segurança do mais do mesmo, diminuindo as margens de risco. E, como consequência, a perda da diversidade e os carácteres únicos e específicos das zonas em que vivemos. 

We live in a world of ordinary abundance & luxuries only dreamed of in centuries past: Sem julgamentos condescentes, apenas a observação que, de facto, no nosso dia a dia usamos quase sem pensar produtos e serviços que há não tanto tempo quanto isso só estariam ao alcance de uma elite, e que não existiram ao longo da maioria da história humana. Coisas simples, como ouvir música quando queremos, pegar num livro, ou comer fruta fresca. Recorda-nos que nestes tempos onde o neoliberalismo nos quer condenar à pobreza e precariedade, a importância de lutar por uma vida melhor para todos.

Una de las peores pesadillas de Francia empieza a hacerse realidad: se está convirtiendo en España y el proceso es un verdadero infierno: Podemos negar à vontade, mas o que sentimos na pele não é um "calorzito típico de verão". É mesmo o agudizar das condições climáticas, cada vez mais acelerado.

*Why not both at once: E, na sequência exata do anterior texto… o apocalipse global vem em dois modos, e não num só. Leitores de J.G. Ballard percebem a piada muito, muito negra.

En 1971, Francia escondió 18 pozos profundos de hormigón junto a dos hombres y dos llaves. Por suerte, ninguno liberó su contenido: Confesso que desconhecia este pormenor da guerra fria, que França dispôs de silos de mísseis prontos para retaliação nuclear.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A Voz dos Deuses


Rui Cunha, João Amaral (2019). A Voz dos Deuses: memórias de um companheiro de armas de Viriato. Lisboa: Arcádia.

Adaptando um romance de João Aguiar, esta banda desenhada transporta-nos aos tempos da romanização, do processo de ocupação da Ibéria pelos romanos. Um processo de conquista militar e campanhas de pacificação, bem como de absorção dos povos autóctones. No centro, a figura quasi-mítica de Viriato, o líder lusitano que conseguiu manter uma longa revolta e travar algumas vitórias contra as legiões. A sua sobrevivência era impossível, dado o poderio militar romano, mas lutou contra  o invasor, e ficou mitificado na história como ícone da liberdade face ao opressor, aproveitado como símbolo nacionalista português.

A história conta-se através das memórias de um guerreiro que o teria acompanhado, cruzando a sua história pessoal de homem irrequieto que não se consegue fixar numa terra e segue o caminho de guerreiro naqueles tempos conturbados. A história toca no misticismo pré-romano de Endovélico e Trebaruna, reconstitui as cidades das tribos e reinos do que se veio a tornar a Lusitânia, leva-nos a conhecer os seus povos e gentes, tendo a guerra contra Roma como pano de fundo. 

O estilo visual segue o caminho da ilustração, servindo mais como apoio ao texto. A reconstituição gráfica dos povos e iconografias é muito cuidada e assente em investigação. O livro é palavroso para BD, advindo do estilo narrativo e didático da obra, e é aqui que fica o seu ponto fraco: o trabalho de legendagem é horrendo, dificultando a leitura do que de resto é uma excelente abordagem ao nosso passado pré-romano.