quinta-feira, 19 de março de 2026

A Longa Tarde da Terra

 


Brian Aldiss (1986). A Longa Tarde da Terra. Lisboa: Gradiva.

Estou, provavelmente, a cometer um erro conceptual ao escrever isto, mas não consigo deixar de pensar neste livro com uma obra de cli-fi antes do movimento. É uma simplificação, claro, dado que o cli-fi se foca nas consequências das alterações climáticas induzidas pela atividade humana e este livro, além de anteceder em décadas a vertente da FC, tem uma premissa diferente. Mas no seu cerne, está a preocupação em especular sobre quais serão as consequências a muito longo prazo de alterações no clima planetário.

Neste futuro distante, a humanidade e as suas obras são uma memória perdida. Ainda há humanos, vivendo em grupos isolados e assumindo formas que por vezes são irreconhecíveis como tal. O mundo cobre-se de uma enorme floresta. Na visão de Aldiss, olhamos para um tempo em que o Sol se encontra a amadurecer e a chegar ao fim do seu ciclo de vida. A sua expansão trouxe radicais alterações climáticas, com a quasi-extinção da vida tal como a conhecemos. O mundo vegetal foi o que melhor se adaptou às novas condições, e evoluiu de uma forma verdadeiramente selvática, com as plantas a assumir muitos dos nichos anteriormente ocupados pelas formas de vida animal. As plantas tornam-se agressivas, móveis, carnívoras e reveladoras de comportamentos estigmérgicos para emergir no topo da cadeia, dominando o novo ecossistema planetário. Começam até a expandir-se, de forma natural, atingindo a órbita terrestre, colonizando a Lua, e tornando-se capazes de expelir vagens que poderão realizar viagens interestelares.

Bizarro, certo? Esta obra é mesmo uma leitura muito inesperada que não merece ficar esquecida.

É neste panorama de fundo que assistimos às aventuras de um jovem humano, que começa a vida a sobreviver com o seu grupo no meio das árvores. Quando o seu grupo maternal se desfaz - uma necessidade organizativa, quando os mais velhos sentem que já não são capazes de assegurar a segurança do grupo, o jovem inicia um périplo pelo estranho mundo. Curiosamente, em modo de encerramento de ciclo, no final do livro irá reencontrar o seu grupo maternal original, que passou pelo ritual da ascendência - abandonar os seus jovens, subir ao topo das árvores para se encerrar em vagens, pensando que chegou o final das suas vidas, mas acabar por se ser propulsionado para a Lua e, num novo ecossistema, sofrer alterações corporais que lhes dão uma nova vida, bem como a missão de regressar periodicamente à Terra para tentar trazer humanos para esta nova forma de ser.

O périplo do jovem é cheio de aventuras, atravessando um mundo hostil mas ao qual está habituado. Depara-se com outras tribos e outras humanidades, entra em simbiose com um fungo inteligente que o usa como instrumento para deixar o planeta, interage com térmites semi-inteligentes e depara-se com outras formas de vida animal inteligente e consciente. Chega até a encontrar vestígios de uma humanidade há muito esquecida. Em pano de fundo, o estranho mundo onde a natureza vegetal expansiva e agressiva evolui num tumulto, seguindo um imperativo biológico de sobrevivência, inconsciente e instintivo, que perante a proximidade da extinção do sistema solar com a explosão do Sol em nova (é um futuro muito distante, o deste livro) consegue criar condições para levar as sementes de vida para lá do sistema solar.

A prosa cerrada de Aldiss evita que este livro delirante se torne num delírio surreal, embora a imagem mental que as descrições da sua natureza me tenham evocado uma espécie de surrealismo ao estilo frottage de Max Ernst em tons verdejantes. O voo especulativo é sólido, imaginando um mundo onde os caminhos da natureza seguem percursos inesperados, com uma vida vegetal agressiva e nada vegetativa.

terça-feira, 17 de março de 2026

A Vénus de Kazabaïka


Leopold Sacher-Masoch (1966). A Vénus de Kazabaïka. Lisboa: Afrodite.

Um belíssimo achado de alfarrabista, pensei quando deparei com a edição da lendária Afrodite. Livro em bom estado, preço convidativo, e se se associa ao autor ao masoquismo, não fiquei à espera que este fosse o livro que lhe deu a fama e o nome à parafilia. Mas sim, quando cheguei a casa e o folheei mais atentamente percebi que tinha nas mãos a tradução portuguesa do clássico Venus in Furs. A tradução do título não foi direta, talvez para não despertar à partida a ira dos censores - a edição é de 1966, em pleno estado novo, e percebe-se logo no início da leitura que as peles com que a sedutora Wanda cobre o corpo, despertando frémitos de desejo no indefeso Severin, têm um nome tradicional que foi adaptado para título.

Numa confissão que não advoga muito a favor da minha masculinidade, devo dizer que não sou particularmente fã de literatura marota. Obriguei-me a ler Sade, como parte da minha educação literária, e ao ler Henry Miller depressa percebi que me fascinavam mais os voos modernistas da sua narrativa do que as exaustivas descrições do que fazia com as suas conquistas. Quase pensei em não ler este livro, juntá-lo à minha coleção da Afrodite intocado, mas,  e porque não? Já agora, vamos descobrir porque é que o livro gerou masoquismo como adjetivo.

A surpresa foi monumental, e o livro não é de todo o que se poderia esperar. Mais do que literatura erótica, é literatura no seu melhor. A leitura é um deleite linguístico sensualista, naquela tradição de quasi-poesia e introspeção de sentimentos ao rubro em prosa das letras do século XIX. Ajuda aqui a tradução ter sido da poetisa Ana Hatherly, capaz de tratar o texto original com uma leveza linguística que torna a tradução poética. 

Quanto à história, bem, novamente, não é o que esperamos. Não é o elencar de sessões de chibatadas no lombo do sorridente Severin dadas pelo pulso firme de uma Wanda cujas vestes de pele mal cobrem as formas voluptuosas. O livro vai muito mais a fundo num retrato de um homem obcecado, que não hesita em degradar-se para manter os favores de uma mulher volúvel e implacável, que brinca com este, sujeitando-o a progressivas sevícias e destrates enquanto o atrai com fugazes demonstrações de carinho. A coisa termina mal, como não poderia deixar de ser, não há final feliz em que o casal amoroso se fustige num delírio de felicidade eterna. Bem pelo contrário.


História de obsessões com os nervos à flor da pele, decadente e de linguagem luxuriante, é de facto uma pérola literária. A edição da Afrodite que tive a sorte de desencantar vem acompanhada de um conjunto de fotos alusivas ao livro. Suspeito que escandalosas no pequenino e moralista Portugal dos anos 60, mas que hoje, francamente, já vi mais explícito em obras para públicos infanto-juvenis.

domingo, 15 de março de 2026

URL


Space-Age Frigidaire: Vá, até o frigorífico entra na space age. 

Here's the January 2026 book list!: Confesso, destas novidades todas a que me despertou a atenção foi o novo livro de Peter Hamilton. Que querem, sou fanático por space opera… mas suspeito que deveria deitar um olho aos livros de Allen Steele, recordo ter lido excertos na Asimov há muitos, muitos anos atrás, e a premissa de colonos que vão para o espaço para se escaparem a governos populistas totalitários na Terra parece ressoar nos dias que correm. 

Los mejores libros para leer en 2026: una selección de lecturas de todos los géneros para un año entre páginas: Há aqui muitas sugestões que me intrigaram, especialmente no campo das letras castelhanas. 

The Best Epic Fantasy Novels, recommended by Christopher Paolini: Confesso que nunca tinha pensado em Dune como integrável em fantasia épica, mas esta lista de cinco obras incontornáveis (e sim, são essas em que estão a pensar, os suspeitos do costume) atreve-se a ver o clássico de Frank Herbert sob outras perspectivas que não a da FC. 

Science fiction writers, Comic-Con say goodbye to AI: E, antes que comecem nos habituais coros de refilice contra estes criadores e organizações que rejeitam o glorioso futuro da IA, prestem bem atenção ao que se passa - apesar do seu pendor fortemente comercial, a Comic-Con e os criadores de cultura pop sabem bem o que estão a fazer. E quem os apoia, os fãs, os leitores, também. O que leva os fãs a querer ler, quer comics, quer romances, quer outros suportes transmedia, não é saciar sede de conteúdos. O que atrai são as visões dos autores, as suas ideias, as estéticas individuais dos artistas. Mesmo dentro do espaço comercial, o que alimenta os fãs não é produção a metro de conteúdos gráficos e textuais. A individualidade, o estilo próprio de cada criador é muito prezado pelas comunidades. A IA generativa não traz isso, bem pelo contrário, o que dá é a possibilidade de gerar conteúdo a metro, depressa consumido e esquecido. E isso não tem lugar neste tipo de ambientes, porque, repito, não é o mero consumo de conteúdos o que move o interesse dos fãs. 


Brigands Of The Moon: Confesso que com estas poses, não estou a entender a imagem como briga (piada sem ignorância, dado o significado da palavra "brigand"). 

How to strip AI from Chrome, Edge, and Firefox with one simple script: Ou isto, ou usar outros navegadores. Larguei recentemente o Chrome para usar Vivaldi, e confesso um agrado por redsocobrir que afinal algo que parecia impossível é possível - que uma aplicação nos dê acesso a todas as suas definições de forma limpa e direta, visualmente legível, que nos permite explorar diferentes opções. Algo que anda ausente quer do chrome quer do firefox, onde não só as definições se encontram ocultas em submenu, com é preciso saber mesmo o que se quer alterar ou verificar, porque a única forma de navegar pelas opções é pesquisando. Um claro dark pattern, criado para que a maioria dos utilizadores nem se aperceba que pode ter um controle mais fino sobre a forma como o navegador gere, colige e trata a sua informação e dados pessoais. Sinceramente, não precisamos de scripts, mas sim de transparência nas aplicações. 

Everyone wants AI sovereignty. No one can truly have it.: De facto, não há país que consiga ter um sistema completo integrado totalmente local de IA. Do hardware aos dados, da ciência aos datacenters, tudo depende de interligações globais. 

Spotify won court order against Anna’s Archive, taking down .org domain: Por esta altura, o pessoal desta shadow library já deve ter percebido que deu um passo maior do que a perna com a sua aventura nos dados do Spotify. Estão a correr o risco de serem colocados offline, e isso seria uma enorme perda. As shadow libraries não são uma questão linear. Por um lado, permitem a pirataria de livros. Por outro, permitem o acesso à informação, sendo o único local onde podemos encontrar obras raras ou esquecidas. E é melhor nem falar do acesso a artigos científicos, esse modelo de negócio onde os dinheiros públicos financiam a investigação que é submetida a repositórios editorais que se fazem pagar regiamente pelo privilégio do acesso ao conhecimento. 

New Scientist’s guide to the 21 best ideas of the 21st century: Dos transformadores, sem as quais não teríamos IA generativa, à neurodiversidade, que nos mostra que as questões mentais não são absolutas, mas sim um espectro que abrange mais pessoas do que a clássica caracterização dos extremos psicológicos. 

The 5 worst ideas of the 21st century – and how they went wrong: Bitcoins e a volatilidade. Redes sociais e o empobrecimento do espaço público. Altruísmo efetivo, ou a ganância mal disfarçada. Algumas ideias que pioram o mundo em que vivemos. 

Una galería que explica decenas de formatos de archivo, para desentrañar cómo están codificados: Digam lá se isto não é útil? Ou são daqueles que nunca se depararam com um ficheiro num formato incomum que não sabem bem como lidar com ele? 

Microsoft Paint can now make AI coloring books: Sim, mas… para quê? Notem que isto faz parte das intenções das chefias da Microslop de levar as pessoas a encontrar formas de usar a IA no seu dia a dia. E, de facto, não consigo conceber algo que leve os utilizadores a usar IA do que gerar AI slop para as crianças colorirem. 

Workers Say AI Is Useless, While Oblivious Bosses Insist It’s a Productivity Miracle: Não é que seja inútil, mas muitas vezes o tempo que se passa a interagir e a limpar os resultados, a tarefa já estaria feita se tivesse sido à moda antiga. Notem que isto não é linear, e quem lida com programação ou dados, já percebeu que usar IA lhes traz vantagens. 

He decidido independizarme de toda la tecnología de EEUU y abrazar la europea. Así lo estoy consiguiendo: Não é um processo fácil, mas tem de ser feito. Não podemos ter a ingenuidade de achar que se vai conseguir eliminar a google da vida digital, mas podem dar-se passos para garantir que os nossos dados essenciais já não atravessem o atlântico: migrar documentos e arquivos para nextcloud e mudar o navegador são passos que tenho vindo a dar. Encontrar um novo provedor de email está a caminho, e também está nos planos próximos mudar os computadores para linux (ajuda perceber que o win11 anda cada vez menos utilizável, não é por acaso que o epíteto "microslop" assenta bem à empresa). 

The Best Use for Smart Glasses Might Have Nothing to Do With Entertainment: O potencial desta tecnologia como ferramenta assistiva para pessoas com necessidades especiais. 

Chromebooks train schoolkids to be loyal customers, internal Google document suggests: Não é por acaso que quer a Google quer a Microsoft são generosas na oferta dos seus serviços essenciais às escolas, é mesmo por isto. Na minha sala de aula, tenho assistido a um fenómeno preocupante: alunos que me dizem que não conseguem trabalhar, porque "o computador não tem google" (sic). Fico espantado, e recordo-lhes que o Chrome é apenas um dos muitos navegadores, e que o computador que lhes coloquei à disposição tem instalado Edge ou Firefox. Faço um mea culpa mental, porque há anos que tenho instalado o Chrome nos portáteis escola digital (isso este ano termina: vai-se passar a instalar alternativa europeia). Esta pequena anedota mostra bem que, de facto, este tipo de marketing encapotado funciona muito bem. 

10 things I learned from burning myself out with AI coding agents: Converti-me recentemente ao vibe coding (ah, seria giro que "programar na descontra" se tornasse a tradução portuguesa deste conceito), mas mantendo em mente que promptar a IA e ficar com programas funcionais não me torna programador, embora amplie a quantidade de coisas que consigo fazer para expressar as minhas ideias ou levar aos meus alunos (os meus programas andam mais no lado brinquedo estético do que utilitário). A programação assistida por IA tem sido das áreas mais interessantes, porque permite aos que já conhecem a fundo a sua área acelerar grande parte do seu trabalho. Mostra que não substitui o conhecimento de base, mas acelera e amplia o que o programador consegue fazer. E, para quem acha que com agentes de IA a desenvolver código já não é preciso aprender a programar, só vos deixo duas perguntas: como é que conseguem dar a volta aos inevitáveis bugs, e como é que se safam quando as respostas dos chatbots não vos resolvem o problema? Dito isto, esta observação é pertinente: "And yet these tools have opened a world of creative potential in software that was previously closed to me, and they feel personally empowering. Even with that impression, though, I know these are hobby projects, and the limitations of coding agents lead me to believe that veteran software developers probably shouldn’t fear losing their jobs to these tools any time soon. In fact, they may become busier than ever.

ayment processors were against CSAM until Grok started making it: Quando pensávamos que este escândalo do grok não poderia descer mais fundo, eis a conivência das empresas que processam pagamentos, a manterem os pagamentos ao X apesar destas atividades problemáticas.  

Two Heads, Three Boobs: The AI Babe Meta Is Getting Surreal: A regra 34 é impiedosa, e francamente, não há limites para as fantasias sexuais. Com ajuda da IA, a coisa chega ao mais profundo surrealismo. 

LLM Brainrot Is Here: Grokipedia Is Starting to Show Up in ChatGPT Citations: Dado o absoluto lixo e desinformação que vem da base de desconhecimento anti-woke (mo fundo, anti qualquer bom senso e inteligência) de musk, isto é muito preocupante. Já não bastavam as alucinações, agora temos a preocupação da desinformação embutida nos modelos. 

Zombie Netscape Won’t Die: Nem imaginava que a marca Netscape tinha sobrevivido e chegou a dar nome a um browser fajuto baseado em cromium. Como caem os poderosos, ou o triste destino de uma lenda da internet.

Home Comes The Heart: Paixões inesperadas.

The Sciencewashing of Everyday Life: Banha da cobra para o século XXI, ou como o marketing adota linguagem pseudocientífica para fazer parecer que o que vende faz bem à saúde. 

Your Phone Is a Slot Machine: Não conheço modelo de negócio legal mais obviamente predatório e nefasto que o dos casinos online, sistemas que existem apenas para separar os néscios do seu dinheiro e apostam muito nos influencers das redes sociais para atrair os mais jovens. Por cá, a coisa é piorada pelas óbvias ligações dos casinos ao poder político (não é exagero dizer que temos um avençado dos casinos com um part-time como primeiro ministro). Já repararam na ubiquidade dos anúncios aos jogos online? Inundam televisão, internet e espaços públicos com uma promessa de divertimento desprendido e sem consequências.

Oldest known rock art is a 68,000-year-old hand stencil with claws: Confesso o meu fascínio com estas expressivas afirmações de individualidade por parte dos nossos longínquos antecessores. A arte paleolítica é das que mais me emociona, por sentir este fio condutor que vem da noite dos tempos. 

With democracy in free fall, the media must (finally) wake up: Um padrão de covardia e deslumbre que por cá também tem paralelo, é bem conhecido o papel que os media portugueses têm dado à extrema direita com tanta cobertura, quase sempre sem contraditório, que têm dado às suas repelentes figuras de charneira. Estes perceberam bem as regras do jogo. Os media precisam de captar atenção, e para isso nada melhor que a escandaleira. 

Elon Musk Is So Unlikable That His Feud With Random Airline Is Doing Wonders for Sales, Says CEO: Entre estes dois, venha o diabo e escolha. São ambos sociopatas sem escrúpulos que fazem de tudo para enriquecer, deixando os custos sociais e ambientais das suas iniciativas para outros resolverem. 

España espera frente a Rusia una alarma que sonó 500 veces en 2025. Sus pilotos tienen 15 minutos para lanzar sus cazas: Um pequeno vislumbre das operações de defesa combinada europeia no policiamento aéreo em Siauliai, onde a nossa força aérea também efetua destacamentos regulares. 

Welcome to the American Winter: Documentando o impensável, trazido por uma administração Trump que claramente está a tentar criar um clima de guerra civil exercendo violência sobre os cidadãos, para poder invocar estados de emergência e se metastizar como governo fascista a derrubar a democracia americana. 

Tech Execs Weirdly Silent After Private Screening of “Melania” Documentary: Não é bem a óbvia mediocridade desde ato fílmico bajulatório que me interessa, é mais este pormenor: "for CEOs who paid for front-row seats to this administration, speaking out against the Trump administration now would mean putting ethics ahead of earnings — a calculation nobody in their position would ever make".

sexta-feira, 13 de março de 2026

Parallel Society

 














O festival que prometia ser sobre contracultura digital livre, comunidades e criatividade, mas na realidade se mostrou ser um ponto de encontro de cryptobros, ultra-libertários e nómadas digitais. Pelo menos, os projetos artísticos era interessantes.

quinta-feira, 12 de março de 2026

A Semente da Terra


Robert Silverberg (1962). A Semente da Terra. Expressão e Cultura.

Um curioso, algo esquecido e um pouco desajeitado livro dos tempos clássicos da Ficção Científica. A humanidade está a espalhar-se pelas estrelas num esforço de colonização. Todas as semanas, foguetões descolam da Terra para sulcar o espaço interestelar e depositar cinquenta casais de colonos em planetas habitáveis, numa viagem sem regresso. O problema, é que praticamente ninguém quer abandonar a sua confortável vida terrestre e construir um novo destino nas estrelas. A solução para isso é um sistema de lotaria, em que os felizes contemplados (bem, na verdade infelizes) tem de abandonar a sua vida, carreira e família para embarcar nas naves colonizadoras. Alguns, raros, têm a oportunidade de serem acompanhados pelos seus conjugues, mas para todos a receção da lotaria equivale a uma sentença de morte em vida. Não que a morte os espere nos planetas que irão colonizar, estamos nos tempos clássicos da FC onde era dado como adquirido que praticamente todos os planetas são habitáveis.

O livro é algo desconexo, divide-se em duas grandes secções. Numa, acompanhamos a resignação de alguns vencedores da lotaria, que irão embarcar numa nave com partida marcada, bem como o drama interior daqueles que têm como função administrar o sistema, e que não são imunes à frieza do mesmo. Na segunda metade os colonos são enviados a outro planeta, e abandonados à sua sorte (embora com as condições técnicas e materiais para sobreviver. O que poderia ser uma história de organização de sistema sociais em condições adversas torna-se uma bizarra aventura, quando dois casais de colonizadores são raptados pelos nativos do planeta e levados para uma caverna, onde irão ceder a todas as tensões até encontrarem forma de cooperar e regressar à incipiente colónia.

terça-feira, 10 de março de 2026

Astrofuturism


De Witt Kilgore (2003). Astrofuturism: Science, Race, and Visions of Utopia in Space. Filadélfia: University of Pennsylvania Press.

Uma viagem pelas ideias que definem as clássicas utopias dos futuros no espaço. Este longo ensaio olha para as influências seminais de autores de ficção científica e cientistas na definição da ideia de exploração espacial como misto de destino último da humanidade, zona de aventura e espaço dedicado ao máximo potencial da ciência. É um cruzamento de fé científica, esperança na tecnologia e utopia que nasceu no dealbar do século XX e ainda hoje continua presente, embora atenuado.

Este ensaio olha para as visões que evoluíram ao longo de um contínuo que começa nos pulps e no trabalho de Von Braun (que não se limitou à engenharia), ao otimismo tecnológico de Clarke e ao destino manifesto de Heinlein, às visões de colónias orbitais suburbanas de Gerard K. O'Neill e termina na visão com nuances sociais e étnicas de Ben Bova.

Não cobrindo todo o espectro da ficção científica, centra-se nalgumas figuras de charneira, olhando para a forma com o espaço de ideias evolui a partir de princípios ligados a uma certa visão de superioridade inata do homem ocidental, euro-americano, mas que se vão adaptando à evolução dos tempos, abrindo-se às questões sociais para contrabalançar o simplismo das fantasias meramente técnicas.

domingo, 8 de março de 2026

URL

Uncredited 1970 cover art for Daughters of Earth: A clássica visão sci-fi de mulheres semidesnudas encerradas em cápsulas de vidro. 

Resenha: Fluam minhas lágrimas, disse o policial, Philip K. Dick: Recordo bem esta leitura, um dos voos imaginátios de Dick que mais nos leva a questionar a percepção da realidade. 

Musk and Hegseth vow to “make Star Trek real” but miss the show’s lessons: Leiam novamente - dois fascistas apaixonados por uma série que pode ser melhor descrita como "socialismo no espaço". 

Disney deleted a Thread because people kept putting anti-fascist quotes from its movies in the replies: Ah, esta mania que o hoi polloi tem de estragar as belíssimas ideias corporativas do pessoal do departamento de marketing com doses de realidade. 

The Writers Who Saw All Of This Coming: As distopias clássicas, ou, como o artigo bem observa, os livros que foram escritos como avisos mas se tornaram a inspiração dos plutocratas. 

You need to listen to the cosmic horror-comedy podcast Welcome to Night Vale: Isto vai soar mal, mas não me tinha apercebido que esta brilhante série ainda durava. Tenho de regressar a Night Vale. 

How Often Is Too Often for New ‘Star Wars’ Movies?: E que tal... já chega de Guerra nas Estrelas? É uma história batida, um mito da cultura pop que já conta com cinquenta anos e sobrevive da eterna repetição de uma premissa que de tão batida, já se tornou estafada.

Kingdom come: Um olhar profundo para o trabalho de George R.R. Martin na saga que o definiu como autor.

David Darrow, 1985: Puro synthwave.

Microsoft Shuts Down Library, Replaces It With AI: Ou seja, se percebi bem, a empresa prefere que os seus investigadores e engenheiros leiam resumos a tender para o AI slop do que ter acesso a fontes bibliográficas e académicas. Claramente, o epíteto "microslop" assenta-lhe mesmo bem. 

Anthropic (an AI Company) Warns That AI Will Worsen Inequality: Chama-se a isto ter lágrimas de crocodilo. 

Oh No, Meta Just Killed Off Working in VR: Não sei quanto a vós, mas a ideia de ter de enfiar um HMD para trabalhar sempre me pareceu idiotice distópica. Quando ao aparente passo atrás da realidade virtual como tecnologia de massas, não me surpreende. É uma tendência cíclica de uma tecnologia cujos proponentes não conseguem lidar bem com a ideia de ser uma excelente tecnologia de nicho, mas nada apropriada para massificação. 

China ha dado un paso más en la guerra del futuro: ya tiene armas cuánticas que está probando en misiones reales: Antes que a vossa imaginação infestada de Sci-Fi pense em armas de raios da morte (hey, o que é que acham que foi a primeira ideia que me veio à cabeça com este artigo), desmistifiquem. Trata-se da aplicação da computação quântica nos domínios da ciberguerra. 

A Tipping Point in Online Child Abuse: Recordar que o abuso de IA generativa para criar conteúdos de abuso sexual não é um crime sem vítimas; primeiro, implica o uso de imagens abusivas pelos modelos de treino, ou seja, houve vítimas reais no processo; segundo, diminui a percepção de risco, não sendo um escape seguro para quem tem tendências pedófilas, mas sim um incentivo que facilita a passagem da fantasia ao abuso efetivo. 

Gemini Personal Intelligence ganha acesso à informação pessoal: Sou só eu que me arrepio com este nível de acesso aos meus dados pessoais por parte da Google? E, também, aquela sensação que a grande utilidade desta ferramenta não é para os utilizadores, mas para a Google, que consegue assim aceder a mais dados para treinar os seus modelos?

Visualizations of the growing undersea network of submarine cables, 2013-2025: Um cruzamento entre o fascínio da cartografia e a tecnoluxúria, com estas visualizações das redes submersas que sustentam a internet. 

Grok Is Getting Access to Classified Military Networks: Um modelo de IA cujos detentores se gabam da inexistência de incorporação dos padrões éticos mais elementares, à solta nas redes militares. O que é que poderá correr mal? Não pensem em skynet, é mais o uso para validar más decisões ou abusos de violência militar. 

Fotos de crianças no OneDrive podem bloquear conta Microsoft: Há aqui dois problemas. O mais óbvio é que a fiabilidade de 99.9% das ferramentas de detecção automática têm espaço para erros com consequências graves. Mas o pior problema é a total ausência de apoio por parte destas empresas, que transferiram o apoio a clientes para sistemas automatizados incapazes de resolver os casos mais delicados. 

Move Over, ChatGPT: Confesso, também me ando a render ao potencial do vibe coding; sem a ilusão de me ter tornado um programador, mas a conseguir (finalmente!) fazer coisas com programação que me seria muito difícil (leia-se, impossível) de fazer com os meus conhecimentos de base. 

Running Doom on a Cooking Pot: Adicionar acessórios de cozinha à lista de equipamentos onde se pode jogar Doom. 

Pluralistic: It's not normal (14 Jan 2026): Os modelos de subscrição são uma das epítomes do capitalismo predatório - compramos os bens e serviços, mas para os usarmos temos de pagar taxas extra e estamos sujeitos à vontade dos detentores destes sistemas. Ou seja, pagamos, mas não somos donos do que compramos. 

Gemini is winning: Sempre foi óbvio. A google demorou a acordar para o campo dos LLMs, mas esse sono já terminou. E tem um conjunto de vantagens estratégicas que a concorrência, da OpenAI aos restantes, não tem: fontes de financiamento que lhe permitem investir à vontade em IA, e acesso a uma enorme quantidade de dados graças à sua posição dominante em muitos mercados da economia digital. 

Las IA abiertas de China no están "ganando" a ChatGPT, están haciendo algo más importante: catapultar a su indústria: O modelo chinês de IA - não são as melhores ferramentas, mas são as mais acessíveis e isso conquista mercados. 

Demos match! O meu namorado é uma IA: Uma excelente análise aos impactos sociais e emocionais da automatização das relações amorosas, mas à qual falta um pormenor, que já tinha sido intuído por Sherry Turkle em Alone Together - o fascínio por robots sexuais ou namoros com chatbots tem por detrás uma fuga à complexidade das relações humanas, e isso é tremendamente empobrecedor. 

Llevamos décadas contándonos que tenemos Internet gracias a la investigación militar. El problema es que es falso: A explicação militar para os primórdios da internet é simplista, e por isso agrada. A realidade é mais complexa. 

The Bots That Women Use in a World of Unsatisfying Men: Há aqui vários subtextos. Um, é o uso de bots para substituir aspetos que faltam nas relações físicas, que esfriam e se tornam indiferentes e rotineiras. Outro, é a sedução do bot responder aos anseios, sem as complicações de ser uma pessoa com personalidade e necessidades próprias. 

The AI Abundance Problem: Sendo direto - o problema da abundância prometida pela IA é que todos vemos que está a ser canalizada num único sentido, o de aumentar ainda mais o lucro dos muito ricos, enquanto empobrece o mundo do trabalho. 

El Cardputer es un curioso ordenador en miniatura que se programa en Lisp: De facto, é um dispositivo interessante. Um M5Stack com teclado, uma placa programável que cabe no bolso.

Pluralistic: AI is how bosses wage war on "professions": Doctorow, como sempre certeiro, a mostrar como as gestões intermédias se aproveitam da IA generativa para se livrarem da chatice de ter de lidar com especialistas que os contrariam.

The Corianis Disaster: Homens lúbricos à caça nos seus óvnis? 

China domina el mundo de la energía renovable, pero tiene un talón de Aquiles: depende de Occidente más de lo que admite: Num mundo globalizado, as interrelações entre países são mais profundas do que imaginamos, e os produtos que parecem ser tecnologicamente dominantes são na verdade o resultado de uma rede complexa de cadeias de produção. Esta é mais uma das razões pelas quais o boomerismo trompista é idiota. 

The Sacrifice of the Danes: O país que agora se está a ver na mira dos senis trumpistas com a sua inexplicável vontade de anexar a Gronelândia (e se o fizer, dá um tiro no pé enorme, desfazendo a NATO e perdendo o mercado europeu) vive um segundo paradoxo: o honrar as mortes de soldados dinamarqueses ao serviço das guerras americanas, onde se empenharam nas linhas da frente iraquianas e afegãs como aliados. 

Cuadrados verdes en mitad del desierto: el "milagro" de Namibia para llenar de uvas los supermercados de Europa: Enverdecer o deserto, ou melhor, usar os escassos recursos hídricos da Namíbia para se poder comer uvas mais baratas na Europa. Os custos ambientais que se danem. A sério, por vezes penso que merecíamos ser extintos enquanto espécie. 

How Russia’s Children Got So Violent: A dessenbilização de toda uma geração, entre a propaganda e desinformação oficial e os rigores de uma vida em estado de guerra. 

A City Cast in Concrete, Trapped Under Unbearable Heat: Se nos climas temperados o urbanismo do cimento armado e asfalto se traduz em desconforto térmico, imaginem nos climas húmidos e quentes dos trópicos. 

He Was Homeschooled for Years, and Fell So Far Behind: Por cá, o ensino doméstico é mais regulado, mas as lacunas são reais. A escola não é apenas um local de transmissão de conhecimentos académicos, e regra geral os pais que se encarregam da tarefa são insuflados pelo dunning-krugerismo de achar que sabem mais do que realmente sabem. As crianças sujeitas a esta parvoíce não só aprendem menos do que os colegas, como aprendem conhecimentos errados (se os pais forem daqueles maluquinhos da religião que têm um chilique por se falar de "corpo humano" ou "teoria da evolução" na escola, e meus caros, já tive de lidar com essa gentalha) e não aprendem a outra grande lição da escola, que é o socializar com crianças num largo espectro social. Quanto aos saberes, chega a ser dramático o nível de ignorância. Recordo o momento em que me pediram para validar os trabalhos da minha disciplina, TIC, de um aluno em ensino doméstico para verificar se estava de acordo com o programa. Perante uma sucessão de exercícios de digitação em Word, indiquei que o programa da disciplina para aquele ano de escolaridade  já há muito que não se baseava naquilo, e estava em falta o mais essencial, a algoritmia e pensamento computacional com aplicação em ambientes de programação visual. Sem grande surpresa, nunca mais me pediram para validar nada, num daqueles típicos casos em que a realidade colide com a fantasia de pais a quem legisladores demasiado ingénuos abriram a porta a patetices. 

My Third Winter of War: As reportagens diárias da Ucrânia não fazem justiça ao sofrimento de um povo debaixo de uma guerra assassina, e que contra todas as expetativas se estão a mostrar capazes de suster a invasão russa. Este muito amargo artigo dá-nos um vislumbre do que é viver neste país assolado por bombas e drones. 

Greenland & the need for a new internationalism: Qualquer que seja o futuro, mesmo que os Estados Unidos recuperem deste período de loucura institucional, está claro que nós, europeus, necessitamos de mais união e de afirmar a soberania. Vivemos demasiado tempo à sombra militar americana, tornando as instituições ativas, mas lentas. Se queremos sobreviver a estes novos imperialismos, temos de nos saber afirmar: "the general thrust is clear: a Europe (and Canada, and other liberal democracies) projecting quiet strength, power and resolve". 

O melhor caça da Luftwaffe em 1944?: Recordar uma aeronave histórica.

Iranians Are Rejecting Theocracy: The Islamic Republic’s Unintended Legacy: Uma das ironias da teocracia - conseguiu fazer decrescer a religião nos seus cidadãos, o que não surpreende, dado o caráter repressivo de um regime que já há muito deveria ter caído. 

Hay una Europa que se asfixia para pagar la vivienda y otra que vive tranquila. Y este mapa muestra las diferencias: Aquele momento em que vês Setúbal equiparada a Paris. O que se passa no mercado habitacional português é inqualificável. 

O macho impenetrável: Giga Chad como armadura digital: Se quiserem ficar a saber mais do que alguma vez imaginariam sobre um dos memes do machismo tóxico de extrema direita, este artigo é para vós. 

Mysterious ‘Dorito-Shaped’ Aircraft Spotted at Night Near Area 51: Mais um x-plane em testes, claramente. 

Denmark Retires its F-16 Fleet After 46 Years of Service: A ironia de todo este processo é que num ambiente internacional surpreendentemente hostil e onde os Estados Unidos se estão a afirmar como adversários da europa, com a Dinamarca a ser alvo de um inédito ataque, as aeronaves que asseguram o futuro da defesa dinamarquesa são F-35 de fabricação americana.