Adrian Tchaikovsky (2026). Children of Strife. Nova Iorque: TOR.
Termino esta leitura com sentimentos mistos. Por um lado, é um mais um excelente mergulho na capacidade especulativa de um escritor que se distingue pela mestria e inovação que coloca na space opera. Por outro, tem um certo sabor de repetição, sendo uma leitura onde as ideias são fascinantes, mas a história, nem por isso.
Convém recordar que o que distingue esta série é a forma como Adrian Tchaikovsky se diverte a especular sobre a questão da inteligência não-humana, nas formas complexas ou incompletas de inteligências surgidas pela evolução artificial de espécies alienígenas. Não é exatamente a questão de inteligência totalmente alienígena. A premissa ficcional refere um passado distante da Terra, que se expandiu procurando formas biológicas de terraformar planetas capazes de albergar vida. Um esforço capitaneado por uma cientista implacável, que se virá a tornar acidentalmente uma inteligência artificial consciente após a sua morte na órbita do planeta que escolheu ela própria terraformar.
O método de terraformação implicava a libertação no ecossistema de vírus geneticamente modificados para acelerar a evolução de espécies nativas, com uma lógica de condução do processo por equipes de cientistas. Esse processo tornou-se aleatório quando convulsões políticas na Terra degeneraram em guerra civil à escala planetária, e uma das facções faz o impensável: envia um sinal que se propaga por todas as naves, estações espaciais e proto-colónias no espaço, desabilitando os seus sistemas informáticos, causando a morte aos cientistas e exploradores. A própria humanidade quase se extingue, e serão necessários milénios para que recupere a ciência e tecnologia, regressando ao espaço na senda da redescoberta de um saber quase perdido do seu passado. Com os recursos a esgotar-se num planeta ameaçado pelas consequências da guerra cataclísmica do passado, a humanidade organiza os parcos recursos para a construção de naves-arca, enviando homens e mulheres em hibernação em direção a planetas que supõem poder albergar vida. É um tiro no escuro, dado que não sabem exatamente o que vão encontrar quando chegarem aos seus longínquos destinos.
E é aí que as coisas ficam interessantes. Com a morte dos cientistas, os processos de evolução acelerada descontrolam-se. Muitos falham, tornando os planetas inóspitos. Outros evoluem por caminhos inesperados, culminando na emergência de espécies inteligentes. Aqui, há de tudo - e é por isso que refiro que Tchaikovsky se diverte à brava com estas especulações. Civilizações de múltiplas espécies inteligentes a coexistir num mesmo planeta, como aranhas e camarões (levemente mais volumosas do que as congéneres terrestres, o primeiro livro da série não é leitura confortável para aracnofobos), polvos capazes de viver em órbita, corvos que parecem ser pássaros pouco inteligentes até se emparelharem e revelarem que em duo são verdadeiramente inteligentes, planetas desertos que se tornam máquinas virtuais onde se recria constantemente o cenário de colonos desesperados de uma nave-arca que enfrentam a morte inevitável num território inóspito. Pelo meio, Tchaikovsky até nos brinda com uma colónia bacteriana inteligente, extremamente curiosa e que tem o desagradável hábito de infetar e absorver todos os seres que lhe despertam a curiosidade, pelo menos até perceber que os seres que absorve também são inteligentes e conscientes, e encontrar uma forma de coexistência. Pelo meio, os humanos, sobreviventes de uma Terra distante nas suas naves-arca, incorporando-se numa comunidade galática pan-civilizacional onde todos os tipos de culturas e inteligências coexistem (embora, suspeito, com forte apoio psicológico aos humanos que tenham medo de aranhas).
Este nível especulativo é o aspeto verdadeiramente sedutor desta série.
Neste livro, o autor introduz outra variável. Mostra-nos que no passado havia propostas rivais de terraformação, e leva-nos a um planeta perdido, onde um milionário rival junta um grupo de cientistas renegados para criar um planeta à sua imagem. Um processo cheio de falhanços, dado que o corpo celeste não é muito favorável à vida, mas que acaba por ter um sucesso inesperado, e revelar uma nova forma de ser inteligente. Imaginem um planeta em que a vida é uma forma de computação, onde a biologia natural permite que a consciência humana se virtualize e se transfira. Infelizmente, dado que o grupo liderado é composto por um megalómano que se fez acompanhar de pessoas sem escrúpulos, o resultado é um mundo violento, controlado pelas inteligências humanas, que se comprazem a aterrorizar os sobreviventes da nave-arca a quem foi atribuído este destino planetário. A chegada de uma nave exploratória, com uma tripulação de inadaptados, irá provocar o contacto entre estas inteligências malévolas, os humanos esquecidos e a civilização coletiva das espécies inteligentes, com o bónus de uma das tripulantes ser uma IA-instância da personalidade virtual da cientista que, em vida e num passado que quase não deixou memória, foi a grande rival do milionário que quis fundar um mundo à sua imagem.
Este livro passa-se em três tempos, desenvolvendo as várias linhas narrativas que aprofundam o mundo ficcional da série. Percebemos como no passado se desenvolveram as linhas da terraformação, a dureza da vida dos humanos que sobreviveram à quase-extinção e regressaram ao espaço, e o sentimento de desvendar de mistério dos tripulantes da nave que entra em contacto com o planeta perdido e se depara com a sua violência incoerente.

















