quinta-feira, 5 de março de 2026

Construtores de Mundos


Bruno Maçães (2025). Construtores de Mundos - A Tecnologia e a Nova Geopolítica. Lisboa: Temas e Debates.

Se compreendi bem a premissa deste livro, estamos a viver num progressivo período de virtualização do real, num processo que se iniciou com regras e instituições e agora se afirma nos espaços digitais. O foco está na geopolítica, na forma como os países gerem os seus espaços de influência, e a progressiva virtualização é traçada sob o ponto de vista das instituições transnacionais, da pandemia que acabou por não paralisar o mundo, e o impacto progressivo das tecnologias digitais e IA nas redes de produção, comércio, diplomacia e decisão. Mais importante do que controlar territórios físicos, é dominar os espaços de ideias subjacentes às virtualizações em que assentamos a gestão do mundo.

Há uma certa ironia em ler este livro, claramente otimista, num tempo em que para além dos tremendos desafios das alterações climáticas e do crescente fosso de desigualdades, os velhos fantasmas imperialistas parecem estar de regresso, com a sangrenta aventura militar russa, a afirmação chinesa e o  estertor senil de uma velha ordem trazido pela administração trump. 

Apesar de refletir uma pesquisa profunda, apresentando ideias intrigantes com erudição, noto algumas falhas ao nível elementar da escrita. É por vezes difícil perceber o raciocínio, e o livro está repleto de expressões e formas de estruturar frases que vêm diretamente do inglês americanizado, o que torna pouco claros os seus argumentos. 

terça-feira, 3 de março de 2026

Hot Moon


Alan Smale (2022). Hot Moon. Rockville:  CAEZIK SF & Fantasy.

Ah, sabe tão bem ler ficção científica no seu mais essencial: aventura no espaço e especulação bem urdida. Não me interpretem mal, isto não é um comentário contra as vertentes mais complexas do género, até porque se a FC se tivesse mantido neste espírito clássico não teria evoluído em termos temáticos e estilísticos, e já teria desparecido enquanto género literário. Mas a aventura de deslumbre de premissa simples (mas com complexa construção de mundo ficcional), quando bem feita, recorda-nos a base da FC.

Este é um daqueles livros que não se consegue parar de ler. Não é particularmente complexo, segue as aventuras de uma astronauta cuja primeira missão lunar, no final dos anos 70, a mete no meio de uma disputa da guerra fria que se torna quente. O sonho da astronauta que só quer ser a primeira comandante de um módulo lunar a alunar acaba por se tornar numa sucessão de peripécias quando cosmonautas e o KGB fazem um ataque às estações espaciais e base lunar americanas. O ritmo é vertiginoso, e somos mergulhados numa visão da exploração espacial que coloca soviéticos e americanos em órbita e a construir bases lunares, numa ação de guerra espacial para que a Rússia neutralize uma ameaça militar secreta, com uma base lunar militar americana capaz de lançar projéteis sobre a Terra. 

A aventura segue em grande estilo, com  uma sucessão inaudita de peripécias em órbita ou na superfície lunar. A especulação é destravada e temos de tudo, entre batalhas campais por entre as crateras lunares, périplos desesperados, explosões atómicas e batalhas no espaço... entre módulos Apollo e LEM soviéticos. É, como é óbvio, uma leitura muito divertida, apesar de por vezes a sucessão imparável de sevícias aventureiras em que o autor coloca  a sua heroína se tornar cansativa. 

O lado aventura pura cheia de adrenalina no espaço é temperado por uma excelente dose de ficção especulativa, muito bem informada. O livro é também uma história alternativa, que se pergunta o que teria acontecido se os soviéticos tivessem sido os primeiros a pousar na Lua, e os americanos não tivessem torrado dinheiro e vidas na guerra do Vietname, investindo esses recursos numa corrida espacial mantida ao rubro pela capacidades orbitais soviéticas. O autor fez muito bem o seu trabalho de casa, dando vida nesta sua ficção aos muitos projetos de veículos orbitais, estações especiais, módulos, habitats e veículos lunares que quer os engenheiros soviéticos quer os americanos propuseram, desenvolveram mas não saíram do papel. 

domingo, 1 de março de 2026

URL


Alex Schomburg: Arqueologia do futuro.

The Vision of 2026 in ‘Metropolis’ Is Spot On: Ultimamente, parece que andamos especialistas em implementar as antigas distopias futuristas no nosso tempo presente.

Science Fiction And The Art Of Predicting The Future: Ah, a boa e velha ideia (simplista) que a FC é um oráculo preditivo.

NOSFERATU (1922) Nosferatu, eine Symphonie des Grauens dir. F. W. Murnau: Continua a ser das visões de terror mais arrepiantes. 

Cidadão sem sombra – João Ventura: Resenha ao livro mais recente de um dos mais excelsos contistas do panorama português da literatura fantástica. 


sciencefictiongallery: Moebius - Paris: Clássicos.

Inside ICE’s Tool to Monitor Phones in Entire Neighborhoods: Um olhar para o tipo de ferramentas que passa os limites da cibersegurança para os da vigilância repressiva.

AI Coding Assistants Are Getting Worse: Limitações da corrida de constante aceleração no desenvolvimento de modelos de IA. 

LLMs contain a LOT of parameters. But what’s a parameter?: Compreender um dos conceitos elementares da inteligência artificial generativa. 

“Microslop”: Infuriating Video Sums Up How Microsoft Is Ruining Windows With AI: Compreendo demasiado bem isto. Encontrar as mais essenciais opções nas definições do Windows (algo que bastaria o bom e funcional painel de controlo) tornou-se um pesadelo; a pesquisa de ficheiros simplesmente não funciona, e estão a enfiar-nos IA de qualidade duvidosa pela goela dentro. O sistema começa a tornar-se inutilizável para qualquer coisa que não seja navegar na internet e produzir documentos, e a msft safa-se com este tiro no pé porque sabe que a esmagadora maioria dos utilizadores nem sonha que poderiam usar sistemas alternativos. Um típico exemplo dos efeitos nefastos que o domínio de um mercado por um colosso tem. 

Ratos Logitech com erros nos Mac devido a certificado expirado: Claro, a estupidez (lamento, não há forma simpática de descrever isto)  de adicionar funções e funcionalidades onde elas não são precisas dá nisto. Um rato serve para apontar e clicar, para quê complicar? Poderia ser pior. Poderia ser um rato com IA, e é melhor para por aqui antes que lhes dê ideias. 

LEGO era uno de los últimos refugios del juego analógico. Acaba de abrir la puerta a sensores, luces y sonido en sus ladrillos: Apesar da elegância tecnológica dos novos bricks inteligentes, confesso que fico a pensar no que é que para aquilo irá realmente servir. Os kits lego não são na sua maioria brinquedos, são maquetes complexas que soltaram o gosto pela construção em adultos (eu, confesso, também não sou imune), embora o mercado do brinquedos não tenha deixado de ter a sua importância. Mas não vou entrar em modo velho do restelo, recordando que the street finds a way, e suspeito que em breve vamos ver projetos maker a tirar partido deste intrigante bloco. Só uma nota, o artigo tem uma imprecisão - na verdade, desde o início do século que a Lego investe no brincar com o digital, através dos kits Mindstorm e agora Spike, para construções multimodais programáveis. 

The latest on Grok’s gross AI deepfakes problem: A questão do gerador de imagens do grok poderia piorar? Sim, quando a forma de resolução do problema foi criar uma subscrição que apenas dá acesso às melhores capacidades do gerador a utilizadores verificados. O problema de fundo, o óbvio abuso que é a geração de nus em modo quase deepfake, ainda por cima com a possibilidade de se usarem imagens de crianças, continua. Agora, a sublinhar isto há a aparente impunidade de Musk. Se outros - imaginem uma OpenAi ou uma Google, por exemplo, colocassem online uma ferramenta destas, imaginem o escândalo. 

I met a lot of weird robots at CES — here are the most memorable: Cá por mim, a robótica bizarra é sempre a mais interessante. 

Living without América: As realidades dos contextos geopolíticos obrigam-nos a repensar a origem das ferramentas digitais de que dependemos. A realidade crua é esta - estamos hiper dependentes dos americanos, reverter esta situação e procurar uma verdadeira soberania digital não vai ser nada fácil. 

'Shame Thrives in Seclusion:' How AI Porn Chatbots Isolate Us All: Não só isolamento, como alienação do outro. A sexualidade, por marota que seja, não é algo que deva ser vivido em modo solitário. 

“Los robots no sangran”: el dron ucraniano que frenó a Rusia seis semanas con una ametralladora y ni un solo soldado humano: No front ucraniano, testam-se as novas tecnologias e táticas de combate possibilitadas pela robótica.

Furious AI Users Say Their Prompts Are Being Plagiarized: Ou, em bom rigor, os entusiastas dos mecanismos de plágio irritam-se quando se veem plagiados. 

Una mesa de póker con GPT, Claude, DeepSeek, Gemini y Grok. ¿Quién ganará y será el mejor faroleando?: Não está mal pensado como teste às capacidades dos chatbots. 

Apple chooses Google’s Gemini over OpenAI’s ChatGPT to power next-gen Siri: Não sei o que pensam, mas quando li isto pensei, se a Siri usa o Gemini, como utilizador, para quê usar a Siri e não o Gemini diretamente? 

Splitting Machines: Uma história das tecnologias de virtualização. 

Mais um batráquio em vias de extinção: No fundo, é isto, quando se desliga um destes antigos serviços é todo o registo e memória de um tempo que se perde - "Receio que aos historiadores do futuro falte imensa informação destes tempos, e informação preciosa".

Consumidores sem interesse nos PC "AI" - diz a Dell: Corroboro. Investi num Copilot PC, mas não por estar interessado nas propaladas funções de IA que nem me dou ao trabalho de usar (e a famosa tecla copilot é basicamente um empecilho), apenas por ser na altura me ter permitido adquirir uma máquina ultraportátil potente e com preço convidativo. Uso IA extensivamente, mas tal como a esmagadora maioria das pessoas, nem me dou ao trabalho de configurar o slopware da Microsoft. Já agora, quão perto do inutilizável está a ficar o novo Windows inteligente? Há uns dias tive de ligar um pc de mesa a correr Windows 11 a uma rede de domínio. Algo muito simples de fazer nas versões não inteligentes do sistema operativo, basta aceder às propriedades do sistema no painel de controlo. Com o inteligente 11? As opções necessárias não estavam visíveis em nenhum ecrã das definições e precisei de várias pesquisas dentro das definições para conseguir chegar onde precisava. Uma tarefa de poucos minutos alongou-se para ká do razoável, graças à burrice do design de interfaces da versão "inteligente". Até parece que a microslop não quer que os utilizadores tenham o controlo total sobre os computadores que compram.

‘The Horror In The Museum’ by H.P. Lovecraft, 1971 (Victor Valla): Horrores surreais. 

El CEO de Ryanair tiene claro cómo gobernaría un país. Nosotros tenemos la suerte de que no lo haga: E, para surpresa de ninguém. Aprecio particularmente o desprezo pelos mais pobres de um tipo cujo modelo de negócio é oferecer aos mais pobres a promessa de viagens aéreas baratas, tratando os passageiros como gado. 

The Venezuela Polymarket Scandal Is Looking Really Bad: Qual é o nível ético de se usar estas plataformas para enriquecer, especialmente tendo acesso a informação privilegiada? Alguns degraus abaixo do nível ético intrínseco a estas plataformas. 

How Espresso Fueled The Rise Of Modernity: Como todos bem sabemos - sem cafeína, não há pensamento. 

Is the Iranian Regime About to Collapse?: Mesmo sabendo que o risco de instabilidade naquela zona do planeta é enorme, quanto mais depressa o obscurantismo dos mullahs derrocar, melhor. Entre o fanatismo religioso e o enriquecer à custa de um povo, sem esquecer o papel do regime como sustento de forças terroristas, só há ganhos com o fim deste estado das coisas. 

I Was Kidnapped by Idiots: Há momentos nesta leitura em que tudo parece uma comédia surreal, dada a ineptitude dos raptores. Mas não podemos esquecer o essencial, esta é uma história de violência e cativeiro. 

The Goblin XF-85: the World's Tiniest Fighter Jet: Bizarrias da inventividade aeronáutica dos primórdios da era dos jatos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Umbra #05


Filipe Abrances (2025). Umbra #05. Edições Umbra.

Sou suspeito nesta recensão, dado que adoro esta revista desde o primeiro número e apoiei o kickstarter desta edição. O trabalho de edição de Filipe Abranches é, como sempre, impecável e consegue a rara proeza de nos trazer a colisão de dois mundos - o da BD mais erudita e experimental com a ficção científica em estado puro. O resultado são histórias muito bem conseguidas, ilustradas com estilos arrojados que fogem ao convencional. Temos um pouco de tudo - o tecno-otimismo pós-catastrofista de Assim Voam as Cegonhas de Pedro Moura e Marta Teives, a clássica distopia futurista anti-conhecimento e livros de Branco Neve por Vasco Colombo, as visões de um Marte quasi-surrealista de Kriz 3-IO de Fernando Relvas, uma obra esquecida que a Umbra promete recuperar, o cyberpunk mestizo de Trujillo por Gustaffo Vargas, e o surrealismo fantástico de A Fronteira Selvagem por Vasco Colombo e Pedro Morais. A capa, de Rita Alfaiate, é extraordinária no seu estilo cyber (e aqui ainda sou mais suspeito, sou hiper mega fã do trabalho desta ilustradora, ai de quem se atreva a dizer que Neon não é uma das melhores obras de BD portuguesa de sempre). 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Burroughs


João Pinheiro (2015). Burroughs. S. Paulo: Veneta.

Porque é que gosto de frequentar alfarrabistas, perguntam-se? Porque de vez em quanto deparamo-nos com estes grandes achados: um livro que nos surpreende, ou que julgávamos esquecido, ou algo tão fora da caixa que merece espaço na estante. Sim, sou desses bibliófilos, frequento espaços de livros em segunda mão não para me abastecer a preços mais baixos, mas em busca dos bons acasos, da pérola livresca no meio das estantes. 

Esta edição brasileira é uma enorme homenagem ao espírito e à estética de William S. Burroughs, um dos mais marcantes escritores malditos do século XX. Mergulhamos nas visões bizarras de Naked Lunch, mas não de forma linear. Esta não é uma banda desenhada adaptativa, antes, funciona por curtas histórias que nos levam ao universo delirante do escritor, ao mesmo tempo surreal, onírico, disforme e repulsivo. 

A estética visual assenta-lhe como uma luva. Não há linhas limpas, o estilo é áspero, rude mas elegante. O surrealismo literário fica bem ilustrado, com aquela visceralidade incómoda que é uma das marcas da obra do autor que inspirou este livro.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

URL

jamabushi: The Book of Atari Software (1983): Retrocomputação. 

HP Lovecraft writes his first letter to Clark Ashton Smith, 1922: Uma das ironias deste texto é perceber que nos dias de hoje, Lovecraft é celebrado e Ashton Smith praticamente esquecido. 

2025 em banda desenhada: Há aqui boas sugestões, a começar por aquele que é o meu manga de FC favorito. 

Nuremberga (2025): Apesar de contar com a história da II guerra no meu radar de interesses especiais, fiquei algo tentado a evitar este filme quando vi a sua duração. Estas observações ajudam-me a manter a decisão - não vale a pena ir ao cinema vê-lo, e talvez nem valha uma tarde perdida na televisão. 

O fim do Alvaláxia: Não partilho da nostalgia do João Campos face ao encerramento desta sala de espetáculos, embora o compreenda - fui frequentador do Quarteto e do King e sei o buraco que deixaram no panorama cultural lisboeta. Guardo também boas memórias do Monumental, não do velho cinema clássico mas do que mais tarde foi construído no edifício de escritórios que substituiu o cinema original.No que respeita ao King, o Nimas e o Ideal, bem como em certa medida o UCI El Corte Inglès, mantém-se como espaços dedicados ao cinema de culto e independente.  Para o Quarteto, nada substitui as suas lendárias maratonas cinematográficas pela noite dentro. Quanto ao Alvaláxia, não me surpreende o encerramento, das raras vezes que lá fui o que me surpreendeu é ainda estar aberto. Aquele centro comercial num estádio é um espaço muito deprimente, mesmo para os padrões dos centros comerciais. Por ironia, tenho um ponto em que lamento o desaparecimento destas salas - foram as únicas onde filmes de Edgar Pêra tiveram estreia comercial. Vi lá os brilhantes Não Sou Nada e Cartas Telepáticas. Bizarro, não é? Ter de ir enfrentar a decadência do centro comercial dentro de uma catedral do futebol para poder saborear o surrealismo cinematográfico de um dos mais arrojados cineastas portugueses. 

My favorite reads of 2025: Um apanhado de leituras que está repleto de boas sugestões.

Reading Is a Vice: Uma boa aposta - usar o anti-conformismo adolescente como forma de estimular a leitura: "It would be better to describe reading not as a public duty but as a private pleasure, sometimes even a vice. This would be a more effective way to attract young people, and it also happens to be true. When literature was considered transgressive, moralists couldn’t get people to stop buying and reading dangerous books. Now that books are considered virtuous and edifying, moralists can’t persuade anyone to pick one up". 

My 2025 in Review (Best Science Fiction Novels and Short Fiction, Reading Initiatives, and Bonus Categories): Uma visão de leitura que visita os clássicos, especialmente os menos recordados. 

A Educação Física, ou a vida pouco charmosa dos adultos: Joana Mosi tem de facto um corpus de trabalho extraordinário, e esta amargura pela desilusão da vida num país que nega condições aos seus cidadãos é generalizada. 

Sussurros (2007) de Orlando Figes: Sobre a opressão mental da vida nos totalitarismos.

What Dante Is Trying to Tell Us: Olhares sobre um dos grandes clássicos intemporais da literatura. 

The Future Leaks Out: William S. Burroughs’s Cut-Ups and Cucumbers: Difícil de ler e genial, é um autor que começa a ficar esquecido. 

Melhores Leituras de 2025: O balanço de leituras da Cristina no Rascunhos, a partir de um volume muito respeitável. 

HarperCollins Will Use AI to Translate Harlequin Romance Novels: Confesso que a surpresa é não estarem já a usar IA para gerar estas literaturas de entretenimento a metro. 

Robotum Delenda Est!: Fui só eu que me surpreendi por o robot apreciar gasolina? 

Los bancos que prestaron 178.500 millones para centros de datos de IA han empezado a cubrirse: ya no se fían de su propia deuda: Leio isto e só consigo pensar: Uh oh. Epá... isto deixa-nos apreensivos. 2026 não traz bons augúrios económicos, com a suspeita crescente do rebentar da bolha financeira da IA. 

The Problem With Letting AI Do the Grunt Work: Muito bem visto. A IA promete libertar-nos do trabalho rotineiro e secante, mas muitas vezes, esse tipo de trabalho é essencial para desenvolvermos a nossas capacidades técnicas e intelectuais. 

Non-Humanoid AI Assistance Robots: Ideias para meter a IA a trabalhar realmente para nós - dispositivos controlados por algoritmos que estão pensados para estar presentes nos nossos ambientes, de forma não intrusiva. 

The Imperfect Homework Machine: De facto, resume muito bem o que os LLMs fazem. 

Yo también conectaba los cables HDMI en el primer puerto que pillaba: estaba desperdiciando la mitad de mi tele: Mas um só cabo não é suficiente? Não. As conexões são normas de comunicação, e à medida que evoluem, a capacidade física dos cabos tem de se alterar para acompanhar as normas.

European banks plan to cut 200,000 jobs as AI takes hold: Recordam-se daquela promessa que a IA nos iria tornar mais produtivos, alicerçando o trabalho individual para fazer mais, melhor e interessante? Esqueceram-se de contabilizar na equação o peso do capitalismo predatório, em que o interesse não é fazer mais ou melhor, mas sim fazer o mesmo, com menos recursos. E por recursos, entenda-se pessoas, que apesar de todas as tretas motivacionais que se partilham nos linkedins desta vida, são sempre considerados pelos gestores como peso, gordura e desperdício. 

Ancient Everyday Weirdness (2026): O ensaio é longo, mas leva-nos a refletir sobre o papel social e individual de tecnologias que damos por adquiridas. 

Qué fue de Technicolor: evolución y muerte de la empresa que cambió el cine y fue arrollada por su ambición: A empresa que definiu o conceito de cor no cinema.

Grok Is Being Used to Depict Horrific Violence Against Real Women: Pois claro que está. Em nome da "liberdade de expressão", os espaços digitais tutelados por Musk são esgotos a céu aberto, que encorajam os seus utilizadores a libertar as suas pulsões mais nojentas. 

People Spent the Holidays Asking Grok to Generate Sexual Images of Children: Não, a sério. Quando se pensa que o descontrolo abusivo de Musk e os seus sequazes não poderia bater mais fundo, eis que mergulha ainda mais no abismo. 

Pluralistic: The Post-American Internet (01 Jan 2026): Não é uma ideia nova, Doctorow já anda a falar disto desde que a administração Trump decidiu trocar as instituições globais pela política das tarifas. E a pergunta que ele faz tem muita lógica: se uma das partes de um acordo comercial decide renegar esse acordo, porque é que as outras partes o continuam a cumprir? Dentro da visão de Doctorow, deixa de haver razão para o respeito legal pelas formas abusivas de proteção de propriedade intelectual que, durante anos, os americanos impuseram aos seus parceiros como condição para acordos comerciais. E, no processo, no nosso caso europeu, avançar no domínio da soberania digital, algo impossível de fazer quando o uso de produtos Microsoft e google se tornou infraestrutural na economia e administração. 

What’s next for AI in 2026: As tendências de desenvolvimento da IA, que poderão ganhar peso neste ano. 

Tech Giants Pushing AI Into Schools Is a Huge, Ethically Bankrupt Experiment on Innocent Children That Will Likely End in Disaster: Confesso que, como professor que usa a IA e a usa com os seus alunos, partilho das preocupações expressas neste artigo. Tento que o meu caminho com eles seja de uso consciente, e evito a todo o custo programas enlatados e inicativas deslumbradas vindas da parte das empresas de IA (não preciso, e recuso, currículos made in Microsoft). Por outro lado, assusta-me a displicência com que demasiados dos meus colegas se renderam de forma acrítica à IA, achando que a prompt é o futuro da aprendizagem. 

Sorry Tamagotchi Fans, It’s AI Time: Sim, mas porquê? 

Los últimos del open source: los proyectos que aún mantienen viva la web libre y gratuita tal y como la soñamos: Internet Archive e Wikipedia, os dois grandes pilares da cultura livre, aberta e abrangente online. 

Sorry, But This Sounds Creepy: How AI Might Put You In The Movie You’re Watching: Dado que Charlie Booker é um enfant terrible da extrapolação de tendências, o verdadeiramente preocupante nisto é o pessoal do marketing o levar demasiado a sério. Tal como os techbros fizeram com o cyberpunk - era suposto evitarmos esse possível futuro, não construí-lo ativamente. 

LEGO’s smart brick is a tiny, self-aware computer – and it doesn’t need a phone: A última novidade da Lego é interessante, quer em termos de cultura quer em tecnologia. 

Europe’s drone-filled vision for the future of war: É a grande lição da guerra na Ucrânia - o que conta são os drones letais baratos e massivos, não os complexos sistemas de armas clássicos. 

UFOロボ グレンダイザ Grendizer: Estilo japonês.

Personal reflections on a Trumpian 2025: No final de um ano de impensáveis, isto - "We are in the horrible position of realising that our protector is actually running a protection racket and it will take years, if not decades, to build European independence and it cannot be done alone". 

Quem foi João do Rio, jornalista carioca apaixonado por Lisboa, que dá nome a uma praça no Areeiro?: Uma curiosa história da cidade, que mostra bem o nosso apreço pelos que olham de fora para nós, e nos admiram. Valorizar, por vezes em excesso, a opinião externa é um dos pormenores do caráter português. 

Is Reading an Analog Clock an Outdated Skill?: Em parte, nas não totalmente, dada a quantidade de indicadores de informação que utilizam a metáfora dos ponteiros. 

La demoscene ya es patrimonio cultural inmaterial de la humanidad en siete países europeos: Uma excelente notícia, reconhecido a importância cultural desta forma vernacular de arte computacional. 

The Ephemeral Sculptures of Domenico Mastroianni: Isto é bizarro - um designer que construía as suas imagens em argila para as fotografar e destruir os modelos, e também com uma certa estética de foleirismo que só os geradores de imagem de hoje permitem replicar. 

Maybe Russia and China Should Sit This One Out: O ano de 2026 começou com mais um impensável executado em modo fait accompli - o rapto do presidente venezuelano através de uma operação militar tecnicamente brilhante, mas questionável em todos os níveis políticos e morais. Passou a tornar-se legítimo usar a força para raptar chefes de estado de quem alguns líderes mundiais não gostam. Não morro de amores por Maduro, um autocrata sob capa socialista, mas o que aconteceu tem um nome clássico: rapto. Ilegal em toda a linha, e mais um pontapé numa estabilidade mundial cuja ilusão de existência está praticamente desfeita (nota: linhas escritas no dia seguinte à operação militar criminosa). 

Leituras da Semana (#97 // 05 Jan 2026): Spot on: "É por isso que se considera que a imprensa livre é um dos pilares de uma democracia saudável; sem essa coragem e essa dedicação, então o Jornalismo pouco mais será do que entretenimento. E aí perdemos todos. Todos, excepto os bilionários". A cobertura dada à facilidade com que o Grok gera pornografia infantil é atroz, em modo de perfeito lambebotismo a musk. O que deveria ser escandaloso, é tratado como uma anomalia menor. 

Pluralistic: A world without people (05 Jan 2026): Doctorow anda em grande, ultimamente. Mais uma crónica imperdível, mostrando como a tecnologia é usada para disfarçar o desprezo que os gestores sentem pela mão de obra que lhes é imprescindível. 

The State of Anti-Surveillance Design: Num mundo de hipervigilância generalizada, onde câmaras em locais públicos são dadas como adquiridas e nunca sabemos a que sistemas estão ligadas, a humilde máscara respiratória e um par de óculos escuros são uma das defesas mais eficazes.  

Elevador de Santa Justa e a formidável audácia do seu construtor: Por cá, Eiffel tem costas largas, todos achamos que construções em ferro forjado vieram da sua lavra, mas nem a ponte D. Luís nem o elevador de Santa Justa são dele. No caso lisboeta, é interessante ver o arrojo que este projeto teve, com aquele incrível vão que liga o elevador ao Carmo. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A Ciência na Ficção Científica


Manuel Moreno, Jordi José (2016). A Ciência na Ficção Científica. Lisboa: Atlântico Press.

A ficção científica é um género com muitas vertentes. Tanto pode ser a algo pateta mas divertida história de aventuras no espaço/cobóiadas com monstros de olhos esbugalhados, extrapolação de tendências tecnológicas e sociais, experiência de imaginário tecnológico e futurista, ou puro experimentalismo especulativo. A sua ligação à ciência é conhecida (bem, começa logo no nome, mas a relação é profunda e bilateral), e uma das simplificações que os não iniciados no género costumam fazer é o de a considerar como preditiva em termos científicos e tecnológicos, o que é um erro. O género nunca foi oracular, exceto na imaginação popular, e alguns autores cultivaram deliberadamente essa visão como forma de ganhar dinheiro. Por isso, não surpreende que quando se analisa a FC à luz dos constragimentos científicos o género saia a perder.

Não ajuda o destratamento que lhe é dado no lado mais pop do género, no cinema e comics. Como fã da FC literária, já me habituei à necessidade de desligar o cérebro se for ao cinema ver um filme apontado como de FC. Não por acaso, a esmagadora maioria dos atropelos, inconsistências e impossiiblidades gritantes vem do cinema, onde a necessidade de espetáculo fácil para agradar às massas se sobrepõe à seriedade lógica e narrativa. Nos comics, particularmente os de super-heróis, a coisa é muito pior. Como seria de esperar, claro está.

Então, se a FC atropela tanto a ciência que lhe está no adn, para quê lê-la e respeitá-la como género? Bem, por um lado por ser divertida. A FC que é tão maltratada nestas coisas não deixa de proporcionar alguns momentos divertidos. Mas se queremos levar a coisa mais a sério, não é nas expressões de massa que se encontra a FC para que vale a pena olhar. Há autores que nos levam em brilhantes voos especulativos, fascinantes construções conceptuais, em obras onde a reflexão sobre impactos sociológicos da ciência e tecnologia são extrapoladas sob a lente do imaginário do género. 

Na verdade, não lemos ficção científica porque queremos prever o futuro ou aprender ciência. Para um, basta ir a Delfos perguntar à pitonisa, e para outro, bem, é para isso que servem os sistemas educativos. Mergulhamos na FC porque queremos sonhar com possibilidades e potenciais, extrapolando do nosso conhecimento sob a lente do imaginário.  

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Malhadinhas


Aquilino Ribeiro (1978). O Malhadinhas. Lisboa: Bertrand.

Este livro reúne duas novelas de Aquilino, a clássica O Malhadinhas e a picaresca Mina de Diamantes. É um emparelhamento adequado, dado que apesar das aparentes diferenças temáticas, tocam no mesmo cerne - a falsidade do caráter humano, impiedosamente dissecada pela pena aquilinista.

O Malhadinhas transporta-nos ao Portugal profundo e rural da viragem do século XX, embora não se sinta muito a localização temporal. É um retrato de um caráter atemporal, rural e empobrecido, de vistas limitadas às aldeias e regiões limítrofes. Seguimos as aventuras de um homem que não é todo um herói. Senhor do seu nariz, inquieto e por isso bom almocreve e negociante, incapaz de domar as suas paixões e àgil no uso da navalha e varapau, vive num constante confronto com o mundo que o rodeia. Um mundo que é em si impiedoso, cheio de violência latente e pobreza. Apesar dos acometimentos de violência que o levam a fugas e prisões, o Malhadinhas safa-se, constrói a sua vida e amanha a sua leira. Morrerá de idade profunda, em paz, terminando os dias na beatice de quem se quer reconciliar com deus após passar uma vida a fugir das leis da igreja.

Malhadinhas não é nehum herói, mas também não é vilão. É apenas um sobrevivente, produto do substrato de pobreza, ignorância e violência de um país de paisagens bucólicas e miséria aldeã. De certa forma, este retraro impiedoso de Aquilino lê-se como o reverso de Os Meus Amores de Trindade Coelho, esse elogio de uma singeleza e humildade rurais que oculta o desaire da pobreza.

Mina de Diamantes é uma novela deveras picaresca. Seguimos aqui o regresso triunfal de um emigrante à terra natal. Mas desenganem-se se esperam uma história de benevolências e bondades. Estamos longe disso, e não há na novela nenhum personagem que não seja corrupto - aquela corrupção que é amoral, porque sistémica e condição essencial de sobrevivência social. 

O regresso não se dá por saudades da terra, mas por necessidade. O emigrante singrou na vida num Brasil graças a ser bem apessoado, bem falante e cair nos regaços das esposas entediadas de banqueiros. Tornou-se funcionário municipal, o que lhe permite meter a mão em inúmeras negociatas na cidade. Concupiscente, cede aos enquantos da jovem esposa de um rival, e percebe que um regresso temporário a Portugal é a melhor forma de escapar aos riscos de uma bala vingativa, enquando o ultrajado não se acalma. Claro que sendo uma figura que tem de dar nas vistas, a viagem transforma-se em périplo de notoriedade, com reportagens nos jornais a detalhar a partida e chegada de tão importante personalidade.

Por cá, é recebido como um grande senhor, sendo-lhe rendidas as mais profundas homenagens e condecorações. Transformado em comendador, regressa à terra natal, uma típica aldeia empobrecida das beiras profundas. Claro está que vai atrair a cobiça de todos. Não há quem se safe, não há quem não arranje esquemas ou pedidos para sacar dinheiro ao supostamente rico comendador, que na verdade é pouco mais do que um mero e mediano funcionário corrupto. Toda a região se desdobra em salamaleques e homenagens, em pedidos para que o benemérito beneficie as terras. Para piorar, o retornado não mete travão à sua alma lúbrica, e depressa seduz sobrinhas e afilhadas, o que o coloca em novas complicações morais que se resolvem com a dose certa de notas de conto.

Se em O Malhadinhas há um moralismo na violência, em que apesar de todos os sarilhos em que se mete e provoca o homem tem um fundo de bem, Mina de Diamantes não há quaisquer modos de moral. Todos são corruptos, o emigrante comendador revela a corrupção trazida pela urbanidade, mas a sociedade rural a que regressa revela-se igualmente corrupta, disfarçando a amoralidade com que espolias os outros, vende as filhas e procura amealhar trocos fáceis com a capa da religião e probidade social. A pobreza do subdesenvolvimento luso em 1922, ano de publicação de O Malhadinhas, mantém-se no país supostamente mais desenvolvido sob o jugo estadonovista de 1958, ano de publicação de Mina de Diamantes.

Está aqui o ponto que torna as duas novelas iguais. Aquilino não disfarçava a desumanidade de uma ruralidade de pobreza, ignorância e violência debaixo de romantismos de piedosa honestidade. Nas duas novelas, a sociedade é impiedosa como condição de sobrevivência, safa-se quem mais porfia, quer seja no enganar, no pedinchar ou sarrafar. No fundo, é um retrato que não sendo bonito, representa a realidade crua de um Portugal passado. Mas, quando leio esta crueza aquiliniana na forma como desmonta as falsidades do caráter humano, não deixo de olhar para a sociedade contemporânea que nos rodeia e pensar que talvez estes traços se tenham mantido, apesar da nossa modernização.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

URL


“Futura”, #7, February 10, 1973: Futurismo em mente. 

How not to misread science fiction: Os fãs, conhecedores, críticos e autores bem sublinham - a Ficção Científica não é um oráculo, não serve para prever o futuro ou para postular tecnologias. Nos últimos tempos, assistimos ainda a outra tendência preocupante - a dos que desenvolvem tecnologias e aplicações com impactos sociais devastadores, afirmando-se inspirados por obras de FC e fantasia cujas lógicas e princípios são o exato oposto do que estes fãs praticam. 

Five Lesser-Known Novels by Fantasy Greats, recommended by Sylvia Bishop: Os livros considerados secundários, mas nem por isso menos interessantes, de alguns dos autores mais marcantes da literatura fantástica. 

Mythological contacts: Com uma premissa destas, suspeito que vou colocar este livro no meu radar. 

Aphoristic Intelligence Beats Artificial Intelligence: De facto, nada como a elegância intelectual de um bom aforismo, que ao mesmo tempo nos faz sorrir e coloca a pensar. 

2025 em leituras: As sempre interessantes sugestões do João Campos, que é um leitor muito focado nas vozes mais recentes e diversas da Ficção Científica. 

Solaris – Stanislaw Lem: Recordar Lem, e o porquê de ser um dos escritores fundamentais do género. 

Los mejores libros de novela histórica para viajar al pasado sin moverte del sofá: Caveat lector: nem todos estes livros sugeridos são leitura fácil, estão alguns pesos pesados da literatura mundial na lista.

Mass Market Paperback Books Are Disappearing: O primeiro alerta para isto veio do Luís Filipe Silva, e embora se possa usar o argumento da leitura digital e dos ebooks como forma de mitigar este desaparecimento, a verdade é que o progressivo desinvestimento em paperbacks (o equivalente por cá são os livros de bolso) piora o acesso à leitura. Baratos e descomprometidos, ajudavam à compra quase de impulso, e perdi a conta aos paperbacks que me introduziram à obra de autores que se vieram a tornar os meus favoritos. A capa dura, os formatos mais tradicionais, são mais caros e já se destinam a leitores formados. Perde-se, também, uma das delícias dos leitores - o gosto pelo acaso e surpresa, os achados que nos surpreendem nos escaparates.


Haunted Centennial: Exemplos da lendária resistência do corpo feminino ao vácuo do espaço. 

Mesh “Lens” Lets Your Camera Make Weird Pixel Art: Há que admirar estas formas inventivas de modificar a realidade vista através de lentes, com meios puramente mecânicos. 

How AI coding agents work—and what to remember if you use them: Os cuidados a ter com os agentes de IA. 

EEUU creía haber dado un golpe mortal a China cuando le privó de NVIDIA. Tan solo aceleró un plan: 'Delete America': "delete américa", ou dar passos decisivos em direção a uma verdadeira soberania digital. Um exemplo que na Europa temos mesmo de seguir. 

Stop Thinking: Perceber onde é que os llms nos auxiliam, e onde não o fazem, é uma competência cognitiva crítica. 

The paints, coatings, and chemicals making the world a cooler place: Usar a ciência dos materiais para ajudar a mitigar e combater os efeitos das alterações climáticas. 

Children Falling Apart as They Become Addicted to AI: Os riscos tremendos de juntar mentes em formação a chatbots sem regras. 

55 Facts That Blew Our Minds in 2025: Apesar dos movimentos anti-ciência (e anti-qualquer normalidade, inteligência ou mera capacidade de raciocínio) que tanto se manifestaram por aqui, a análise científica continua surpreendente. 

AI Slop Is Spurring Record Requests for Imaginary Journals: Para surpresa de ninguém, o desleixo dos que confiam excessivamente nas capacidades dos chatbots começa a fazer mossa. 

La NASA ha tenido sus naves expuestas a hackers durante tres años. Lo ha descubierto una IA en solo cuatro días: Se lerem para lá do título, vão perceber que a verdadeira história não é a falha da NASA, mas a forma como foi detetada e corrigida com recurso a IA. 

Police charge driver who allegedly killed a pedestrian while livestreaming on TikTok: Este é daqueles momentos em que me pergunto quão idiota é esta pessoa, para estar a conduzir e a fazer lives ao mesmo tempo. Claro que as consequências foram mortais. 

A Positive Sign for Flying in the Future: Uma excelente análise do que se passou quando o sistema Autoland da Garmin se ativou numa pequena aeronave e controlou todo o processo de aterragem em segurança de forma automática. Não é o fim dos pilotos humanos, mas o revelar da importância de sistemas de segurança pensados para os piores cenários. 

Leituras da Semana (#96 // 29 Dez 2025): O João termina o ano em nota triste, e eu assino por baixo (estou a escrever estas linhas no final de 2025). As tendências não são animadoras, e a IA está a mostrar-se ser um instrumento de apropriação de riqueza que só favorece bilionários, com a conivência do poder político: "isto é só o início de uma vasta transferência de riqueza de quem trabalha para quem detém as empresas, e sobretudo para quem controla estas ferramentas".

What an unprocessed photo looks like: Uma brilhante desmontagem do processo técnico da fotografia digital, mostrando que a imagem que vemos é o resultado do processamento dos algoritmos da câmara, que na verdade não vê o mundo a cores, mas sim através da medição da quantidade de luz que cada pixel do sensor capta.

Study: How AI Spurs Creativity In Humans: Intrigante, e corrobora o que muitos que usam IA sentem (eu incluído) - não estamos a delegar, mas sim a expandir o que podemos fazer. No entanto, ressalvo que o problema central, da displicência do uso de ferramentas de IA para desenrascar trabalhos e tarefas, delegando competências cognitivas por pura preguiça mental, não deixa de se colocar. Há quem compreenda que pode fazer mais e diferente com a IA, mas a maioria quer é despachar sem dispender esforço.

The Enshittifinancial Crisis: "No, the money does not exist for you or me or a person. Money is for entities that could potentially funnel more money into the economy, even if the ways that these entities use the money are reckless and foolhardy, because the system’s intent on keeping entities alive incentivizes it. We are in an era where the average person is told to pull up their bootstraps, to work harder, to struggle more, because, as Martin Luther King Jr. once said, it’s socialism for the rich and rugged free market capitalism for the poor." Uma leitura essencial. Zittron é um dos raros analistas que se atreve a apontar que, no que toca ao aspeto financeiro da indústria da IA, o rei não só vai nu como abana alegremente as partes pudicas sem que os que se deveriam preocupar com isso o façam, num ambiente financeiro altamente especulativo que faz parecer a roleta um investimento asisado. O que é natural, visto que o sistema financeiro aprendeu bem as lições da crise de 2008 - quando se dá o inevitável rebentar da bolha e do frenesi só resta o descalabro, os estados chegam-se à frente e usam os dinheiros públicos para tapar os buracos do festim privado. Asseguram o lucro e sobrevivência, substituindo nas narrativas públicas o discurso dos génios financeiros geradores de riqueza pelo das massas populacionais que tiveram a veleidade de viver acima das suas possibilidades. O sistema não se reforma e, quando muito, atira-se à fogueira um punhado de bodes expiatórios cujas más práticas são demasiado óbvias para serem disfarçadas. Por cá temos dois exemplos, o génio da alta finança e benemérito de Serralves que acabou dependurado numa cela sul-africana, e o sensato aristocrata da banca que invoca Santo Alzheimer para não responder pelos descalabros que a sua gestão provocou. No meio disto tudo, fica convenientemente esquecido que uma pessoa não faz uma organização, que a massa de coniventes neste sistema é enorme. Algo que Zittron desmonta brilhantemente neste texto, analisado os pés de barro da sacrossanta economia da IA, repleta de números inflacionados, expetativas irrealistas, movimentos negociais estranhos (uma empresa investe dinheiro noutra para que esta segunda lhe compre os produtos que manufatura, e ambas declaram isso como provento).

What will your life look like in 2035?: Um intrigante e positivo infográfico do Guardian, que extrapola tendências e nos leva a pensar como será a nossa vida daqui a dez anos, com impactos positivos da IA. Faz sorrir, pela inocência (este candidismo nem parece do Guardian), esquecendo que a tremenda confluência entre capitalismo predatório e IA não promete um futuro radioso para todos, até bem pelo contrário.


If Enemies Ambushed The P-38: Contra biplanos não é uma luta justa. 

La muerte de un imperio es el nacimiento de otro: el gráfico que repasa la historia de las civilizaciones desde hace 4.000 años: Mapear a ascensão e queda dos impérios. 

O caso do livreiro da Rua do Ouro: um livro medieval recuperado no Liberalismo: Uma história sobre aventuras bibliográficas nos anos pós-guerra civil entre liberais e absolutistas. 

Ni "apego ansioso" ni "trauma infantil": la psicología sabe que estamos convirtiendo la mala educación en diagnóstico: E, como professor, corroboro. Tem sido crescente (embora não avassalador, tranquilizem-se) o número de crianças que me chega às mãos com óbvios problemas de falta de educação elementar, já devidamente rotuladas como "problemas psicológicos". Diria até que é um modelo de negócio para psicólogos que querem fazer uns trocos fáceis (geralmente os relatórios são sempre iguais). Quando uma criança bate o pé porque não lhe apetece, refila por pura birra, recusa-se a fazer o trabalho de aula porque não quer, trata mal os colegas e os adultos porque acha piada, na esmagadora maioria das vezes o real problema não é um eventual trauma do passado, mas sim o não reforço dos mecanismos e balizas sociais que necessitamos de aprender para coexistir em sociedade. O problema aqui é duplo. Por um lado, ter crianças que crescem sem regras e por isso incapazes de compreender como viver em sociedade; por outro, a memorização dos reais problemas psicológicos, que existem, são graves e precisam de toda a ajuda. 

España tiene un gran problema con su mercado laboral: tiene graduados que no necesita y busca a titulados que no existen: Há sempre um certo reducionismo neste tipo de artigos, como se o fim último da educação fosse preparar mão de obra para as empresas. 

Tiros ao Lado

 Confesso que sou defensor de restrições ao corrente modelo de redes sociais. Já percebemos o quão elevados são os custos sociais, culturais e individuais da rédea livre dada à algoritmização das redes, com o aliar do privilegiar dos discursos mais danosos aos sistemas que provocam adição nos utilizadores com o único objetivo de maximizar o rendimento das empresas. A proposta do PSD recentemente aprovada no parlamento é uma das piores maneiras de lidar com este assunto, fortemente reveladora do desconhecimento dos deputados de como funciona o mundo digital (mesmo para os níveis intelectuais de um psd, ou, como bem diz um bom amigo, somos governados por infonabos). 

Esta proposta de restrição tout court é errada e mal pensada. Há imenso a apontar. A proposta de integração com a CMD é, no mínimo, questionável em termos de privacidade, e queremos mesmo as Metas e Bytedance deste mundo a ter acesso a este sistema? A forma como definem rede social está tão mal feita que praticamente qualquer site cai dentro dessa definição. As propostas de coimas sobre incumprimentos são irrealistas, correndo-se o risco de prejudicar redes sociais independentes que se afastaram do danoso modelo comercial. 

Que redes independentes, perguntam-se? Sabem, caros habitantes do continuum facebook/instagram/tiktok/whatsapp (se estiverem no X não merecem qualquer respeito, isso é uma lixeira para fachos e pedófilos), existem iniciativas independentes que constroem redes sociais abertas e sem algoritmos, coletivamente conhecidas como fediverso. Por cá, temos algumas instâncias portuguesas que se têm mostrado espaços de discussão aberta e refúgio da algoritmização, que ao cair dentro das definições da futura lei não terão forma de implementar sistemas ou fazer frente a eventuais coimas, dado que são mantidas por indivíduos ou pequenas organizações sem fins lucrativos. 

Talvez o maior erro desta legislação é ignorar a importância social das redes sociais, que são espaços a que as crianças e jovens têm o direito de aceder em segurança como parte do tecido da vida digital. Nalguns casos, como no caso das comunidades LGBT, neurodivergentes ou interesses culturais específicos, são mesmo uma linha de vida para um tipo de socialização positiva entre pares que muitas não é possível nos espaços físicos. Proibir é idiota, e revelador de ignorância face ao digital. Proteger os públicos mais frágeis (nos dias que correm, praticamente todos) e regular para cercear um modelo de negócio que beneficia um punhado de bilionários sociopatas em detrimento de toda a sociedade é a resposta correta. Há passos institucionais nesse sentido, e como cidadãos, devemos exigir a sua intensificação, porque o corrente estado das coisas é insustentável.

Andamos a discutir proibições de uso, para evitar falar do real problema por detrás da adição aos telemóveis: são os mecanismos viciantes implementados por praticamente todos os produtores de sistemas e aplicações, desde os algoritmos tendenciosos e manipulativos das redes sociais aos mecanismos de notificação e recompensa dos jogos e aplicações. Mas discutir isso implica ir contra o consenso da grandeza dos bilionários que financiam e enriquecem com esta pandemia de adição.

Nisto, um dos argumentos falaciosos que impede uma eficaz regulação das redes sociais é a ideia que as regular é uma forma de censura. Note-se que se formos para a rua berrar impropérios, obscenidades e insultar as pessoas que nos rodeiam, a coisa acaba mal e ninguém diz que isso é censura. Idem, se andarmos por aí a querer vigarizar o próximo. Mas logo se levantam os gritos de "censura" se se sequer se observa que as redes sociais, que não só permitem como estimulam discursos de ódio, insultuosos, vigarices puras (aka modelo de negócio dos influencers), incitam a visões distorcidas do corpo feminino ou da masculinidade (e qualquer um que contacte com crianças e jovens no seu dia a dia vê o efeito arrasador que essas influências estão a ter nas atitudes e autoimagem dos rapazes e raparigas). Regular não é censurar, é enquadrar e responsabilizar. 

Queremos mesmo ter este estado de coisas em que um punhado de sites estimula a pior verborreia, amplifica o ódio, racismo e misoginia, distorcendo a sociedade, tudo para que um punhado de bilionários sociopatas fique ainda mais bilionário sociopata? Não, isso está a tornar-se óbvio, e as repostas legislativas de restrições de acesso são uma manifestação dessa sensação generalizada. Infelizmente, a atirar muito ao lado, deixando o cerne do problema intocado.

O Sh/fter e a D3 demonstram a patetice do que foi aprovado em parlamento, analisando tudo o que está errado com a proposta pateta de proibição de acesso às redes sociais por menores de 16 anos., em muito melhor forma do que isto que acabaram de ler: 

ShifterPedir o cartão à porta das redes sociais não vai acabar com o que nos preocupa.