sábado, 10 de outubro de 2026
Lost+Found
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
Continentes Perdidos
L. Sprague de Camp (1989). Continentes Perdidos: A Atlântida na História, na Ciência e na Literatura. Lisboa: Livros do Brasil.
Não se preocupem, não estou a entrar nos campos lamacentos dos ocultismos e mundos perdidos. Mais do que o tema, despertou-me a atenção neste livro o nome do seu autor. Conheço mal a sua obra, apesar de ser um dos nomes clássicos da ficção científica. Vendo que era um ensaio essencialmente literário, e um tema que apesar de tudo, tem o seu apelo, arrisquei a leitura.
A impressão que fiquei durante a leitura é de uma intensa pena pelo autor. O trabalho que fez, analisando a ideia original da Atlântida e o contexto mais global da antiguidade clássica, passa também pelo mergulho nos oceanos de literatura sobre o tema. E aí dá pena. De Camp mergulha a fundo em todos aqueles livros que, felizmente, se quedam esquecidos nas bibliotecas, boa parte deles alucinações bem intencionadas, outros, óbvias fabricações por parte de escroques sem escrúpulos que queriam captar seguidores para as suas seitas. É quase inacreditável como uns parágrafos incompletos de Platão foram tão inspiradores de tanta bizarria, ideias disparatadas, mitos insanos e, também, justificações para ideários de superioridade racial. A imaginação humana não tem grandes limites, de facto.
A coisa não melhora quando de Camp chega à ficção. Conhecedor do pulp, da tradição dos romances fantásticos do século XIX e XX, mostra-nos como o fascínio da Atlântida não é garantia de qualidade literária, bem pelo contrário.
Um ordálio duro, mas feito com forte sentido crítico. O olhar é de escritor, atento à consistência histórica e científica, analisando o mito atlante sabendo que não é explicável, tentando traçar um detalhado mapa da forma como intrigou o imaginário de diferentes gerações.
terça-feira, 6 de outubro de 2026
I Grande Enigmi di Martin Mystère #39
Alfredo Castelli, Giovanni Freghieri, Alessandro Chiarolla (2026). I Grande Enigmi di Martin Mystère #39. Milão: Sergio Bonelli Editore.
Confesso, da panóplia de personagens Bonelli, é Dylan Dog quem me leva o coração de fã. O western clássico de Tex nunca me atraiu, o weird western de Zagor também não, e o policial procedimental de Julia toca num género que não faz as minhas preferências. A FC de Nathan Never tende a diluir-se em aventuras que têm mais de policial do que de FC. Infelizmente, Martin Mystère segue pelo mesmo caminho, apesar de ter à partida todos os ingredientes para agradar: um personagem principal erudito que se dedica a investigar estranhos mistérios, acompanhado pelo seu fiel neandertal (não é uma piada, quem conhece a série, percebe). Alfredo Castelli, o seu criador e principal argumentista, tem em comum com Tiziano Sclavi o ser um autor que sabe contar histórias intrigantes, e misturar nelas uma forte erudição da cultura do fantástico, polvilhando-as de referências mais ou menos subtis. No entanto, apesar de todos estes elementos, o personagem nunca me tocou.
Desconheço se o personagem teve continuidade após o falecimento de Castelli, dado que ao contrário dos restantes da Casa Bonelli, Martin Mistère estava claramente associado ao estilo do seu criador. Não sei se um Mystère sem Castelli funcionaria, tal como um Dylan Dog funciona bem sem Sclavi - claro que com Sclavi, funciona genialmente. Suspeito que neste personagem, a editora esteja a viver de reimpressões. O mais recente que encontrei aquando da minha curta estadia italiana em Agosto é claramente uma reimpressão, e feita de maneira algo desrespeitosa - colige três histórias, uma sendo a conclusão de histórias publicadas no número anterior, e as restantes um arco de aventuras que é... concluído no próximo número.
A primeira é deliciosamente surreal, misturando duendes, fadas, smurfs e outras criaturas minorcas com que Mystêre terá de se deparar. As restantes seguem o mistério de uma criança sobredotada, com uma espécie de cérebro computacional que lhe dá acesso a todo o conhecimento, resultado das experiências de um cientista louco claramente decalcado das personagens de Vincent Price (entre o nome "Phybes" a referenciar uma das personagens clássicas do ator americano e a caricatura das feições de Price aplicadas ao vilão, não é exatamente uma referência subtil).
Confesso que nesta viagem, senti uma certa perda de importância da BD Bonnelli. Não encontrei mais do que as edições do mês em banca, e nas livrarias, nas secções de BD reparei na quase ausência de reedições dos seus personagens, quer em paperback quer em capa dura e edições deluxe. Talvez o seu tempo esteja a passar? Talvez tenha a ver com a zona que visitei, dado que Florença é uma cidade turística e a oferta cultural reflete isso?
domingo, 4 de outubro de 2026
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Art by James Cameron: Space opera.
Rob Liefeld Says "Thank You": O estilo deste ilustrador, com a sua propensão para musculatura impossível e fetiche por bolsas ao cinto, sempre foi considerado ridículo. Mas, e se esta estética do exagero fosse na verdade uma crítica inconsciente às óbvias patetices de um dos mais intelectualmente indigentes géneros de BD, os comics de super-heróis?
5249) "Backrooms" e os espaços liminares (19.8.2026): Certeira, esta análise a Backrooms. Não é um filme perfeito, rende-se a alguns lugares-comum batidos, mas atreve-se a vir buscar uma nova estética para o cinema.
MATTE & EFFECTS FILMS CELEBRATED: Part Thirteen: Mais um mergulho profundo na arte dos efeitos especiais pré-digitais, como sempre com excelentes surpresas destas pinturas de cenário.
An Early History of Space Stations: The Brick Moon Made Real: Recordar a génese e evolução da ideia de estação espacial.
The Best Psychological Horror Books, recommended by Tabitha Potts: Porque os universos mais aterradores estão, por vezes, encerrados na nossa mente.
Did Smartphones Really Kill Reading?: Mais uma achega para o debate sobre o declínio nos hábitos de leitura. Com um dado interessante - se no passado se lia imenso, é porque não haviam outros meios de entretenimento. Sem rádio, televisão, e agora internet, ler era uma forma de distração de massas (e os fãs do jornalismo amarelo sabiam isso muito bem).
SOURCE: x-ray delta one: Visão interior de uma lenda da aviação.
Teachers Warn That Students Are Losing the Ability to Think as They Lean on AI for Everything: Pessoalmente, não partilho deste ponto de vista. Não é a IA que está a provocar declínios intelectuais. Estes sempre existiram, a maioria dos que estudam não o faz por vontade de conhecimento, mas sim por obrigação formal. A sua curiosidade intelectual esgota-se no marrar para passar no teste, e fazer a cadeira/disciplina com o menor esforço possível. Sempre foi assim. O que a IA está a fazer é a colocar isso a nu - se antes da IA tinha de desenvolver um esforço mínimo, agora têm a ilusão que nem isso é necessário. E isso não é uma história nova, nos primeiros tempos da internet surgiu a praga educativa dos trabalhos académicos que eram cópias diretas de páginas web; a IA veio até prejudicar um modelo de negócio, o dos chamados paper mills, serviços empreendedores que ofereciam, por um preço, todo o tipo de trabalhos académicos para os estudantes colocarem lá o nome e entregar como seu. Na educação, a IA incomoda porque está a mostrar uma das suas verdades ocultas - a desconexão entre a premissa educativa que todos querem aprender, dar o seu melhor e ampliar os seus conhecimentos e capacidades, e a realidade da falta de interesse da maioria, que faz a escolaridade porque é obrigatória, seguindo alguns para cursos superiores porque o canudo lhes dará acesso a empregos que irão exercer com a mesma displicência como a quando eram estudantes (ou acham que o corporate speak é uma marca de elevada intelectualidade?). Obviamente, não digo estas coisas na sala de professores, porque estou a desdizer um dos pilares sacrossantos da teoria educativa.
Are You Sure You Want a Car With a Giant Touch Screen?: Ainda mitificamos o carro como o apogeu da mecânica, mas na verdade hoje são essencialmente computadores sobre rodas, pejados de chips que controlam sistemas que vão da motorização ao apoio à condução.
Teen Boys Are Using Meta Glasses to Harass and Bully Girls at High Schools and Middle Schools: Para surpresa de ninguém, esta tecnologia está a revelar-se perfeita para os palhaços da turma, os gozões e os invasores de privacidade.
GIMP 3.3.2 estreia novo formato de ficheiro: Confesso alguma curiosidade, com esta renovação do clássico GIMP.
Another Pot of Paint Thrown in the Public’s Face: Este artigo ilustra muito bem a ambiguidade que se sente ao falar de arte e IA. A proliferação de slop, os maus usos, as questões de apropriação do trabalho de criadores, os abusos das empresas de IA, e o franco mau gosto do dilúvio de conteúdos gerados por IA que entopem as redes causa uma óbvia reação negativa, que é muito compreensível. O problema é que inquina a discussão, e quando a IA é usada com seriedade, aplicando as suas valências a reconstruções academicamente válidas, ou a explorar novas vertentes visuais, não nos conseguimos abstrair de toda a carga negativa.
All our neighbors worked for those firms: Eles sabem bem o que fazem. Por eles, entendam-se os executivos e trabalhadores das empresas das redes sociais, que conhecem muito bem as ferramentas que desenvolvem e os mecanismos aditivos de viciação que implementam e afinam para garantir o crescimento das plataformas.
The Results of Middle and High School Students Using AI Are Extremely Ominous: Sem grande surpresa. Se os estudantes desenrascam os trabalhos de casa com IA, claro que não vão adquirir a prática e a aprendizagem que lhes permitem safarem-se em exames. Se bem que, claro, o problema central que a IA está a revelar é que as premissas românticas dos sistemas de ensino não se refletem na realidade que motiva aqueles que os frequentam.
You Gotta Want It: No fundo, é isto, o motor da verdadeira aprendizagem - "Digital or analog, the common ground here is that we all thought that some project was cool enough to warrant the sweat of learning enough to do it. Good instructions are helpful of course, and having the parts on hand never hurts. But it’s the promise of making something that you really want that I think underlies all good first projects."
AI-Generated Children’s Stories Contain Bizarre Patterns: Novamente, algo que não surpreende. Recordem-se que a IA generativa dá-nos o mediano estatístico da informação que contém. Claro que irá sublinhar e exacerbar estereótipos, lugares comuns, padrões banais e vieses.
Dr. Dre Says He Uses AI to Produce Songs: Não se surpreendam com isto. Diria até que há mais gente a usar ferramentas de IA generativa, mas não o admitem publicamente, por saberem que serão crucificados por isso.
Debates over AI consciousness are a trap: Ora nem mais. Para além de ser um tipo de especulação que nos distrai dos outros problemas que a IA traz, tem ainda o condão adicional de desresponsabilizar quem cria os algoritmos pelas consequências dos erros e problemáticas.
AIRPORT (1970): Um pouco mais acima e fica-se em LEO.
Están llegando soldados rusos en muletas al lugar más siniestro de Ucrania. Y el problema no son los drones, es la misión que tienen: Sempre foi uma velha tática russa, tratar os seus soldados como carne para canhão. Colocar soldados feridos e incapacitados na linha da frente, em óbvias missões suicidas, está em linha com essa prática.
European Central Bank Warns That AI Crash Is Looming: Até o sisudo BCE observa que algo não está bem com a excitação excessiva com o investimento em IA.
"Me apunto al torneo de farmear aura": miles de chavales están poniendo a prueba su carisma con una tradición milenária: Vá, não façam essa cara. Cada geração tem os seus momentos de absurdismo, em que se embrenham em comportamentos competitivos bizarros. Terão de me perdoar o falar à idoso, mas no meu tempo de criança, recordo o valor que de dava às proezas de malabarismo com iô-iôs (aposto que nem lembram do objeto), com direito a transmissões televisivas, campeonatos e vedetas exímias em desafiar a gravidade. Mais tarde, quando me tornei professor, assisti ao regresso do diavolo, um brinquedo medieval que os meus alunos adoravam usar para arrojados malabarismos. Farmar aura é apenas a versão mais recente deste tipo de tendências.
Europe cancels planned upgrades for Ariane 6 rocket: O Ariane tem sido um sucesso, mas a tecnologia de foguetões não reutilizáveis é economicamente insustentável.
En 2012, Nueva York levantó un parking para descubrir un río enterrado durante décadas. En seis meses, creó un inmenso hábitat acuático: A importância do rewilding urbano, que para além dos benefícios ambientais, humaniza e dá vitalidade aos espaços das cidades.
Iran Unleashed: A aventura militar americana revelou-se tão desastrosa, que conseguiu dar novo fôlego a um estado pária cujo governo é odiado pela sua população, reforçando o seu poder regional.
El mapa que refleja en cuántos países es legal el matrimonio infantil. Respuesta: tres veces más que los países que permiten el matrimonio gay: Quando se perguntarem para quê isso do orgulho Gay ou de celebrar a diferença, atentem nisto. Há mais países onde é legal casar com meninas, que é como sabemos comportamento masculino irrepreensível, do que poços de decadência que dão aos invertidos o direito de viver como pessoas normais (caso não tenham percebido, esta frase está escrita em tom de ironia). Simplificando: pilinhas com pilinhas nem pensar que é contranatura, mas pilinhas e meninas adolescentes, é na boa e santificável pelo matrimónio.
This page from one of my history books looks like a lesbian utopia: Prometi a mim próprio que não iria falar do fait divers de silly season que foi o movimento das influencers conservadoras. Claramente um bem medido golpe de publicidade, aproveitando a acalmia estival para nos meter, outra vez, a falar da extrema direita e dos seus perigos. Não consigo deixar de ver estas iniciativas como mais do que golpes de publicidade, pensadas para atrair engajamento através da cultura do escândalo, apesar de saber que o perigo de retrocesso é bem real. E daí este destaque. Se clicarem, vão dar com ilustrações da Life Magazine, que em 1914 satirizava essa bizarra pretensão que era conceder direito de voto às mulheres. Façam as contas, e pensem. Estes direitos que hoje damos por adquiridos, e que até aceitamos que fiquem sob ataque dos oportunistas da extrema direita conjugados com os obscurantistas das religiões, são recentes. Muito recentes, e nem há um século considerados ofensivos, perigosos e denigradores.
Entre 1974 y 1991, un asesino en serie mató a diez personas. Le pillaron en 2004 por un .doc borrado en un disquete: Policiais procedimentais e true crime não são de todo a minha onda, mas não resisto a partilhar esta história, onde um misterioso serial killer foi apanhado graças a um detalhe do licenciamento do word. Moral da história: usar sempre Open Source!
Saab reveals concept of future unmanned fighter jet: A empresa sueca não está adormecida com o sucesso do Gripen, e, num mundo ocidental que procura alternativas à tecnologia militar americana, aposta no avanço dos seus projetos.
sábado, 3 de outubro de 2026
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
O Cidadão Sem Sombra
João Ventura (2025). O Cidadão Sem Sombra. Chão de Couce: Editorial Divergência.
Temo que me vá repetir. João Ventura é o nosso mais exímio praticante da arte do conto curto. Quem conhece a sua longa obra já o sabe bem, e basta ler Tudo Isto Existe, a primeira antologia da sua ficção fixa em livro pela Divergência, para o sentir. Este Cidadão Sem Sombra dá continuidade ao trabalho do primeiro livro, coligindo mais excelentes exemplos das pérolas linguísticas que são os seus contos.
Para além da concisão, por vezes levada a um nível extremo - alguns dos seus contos não passam de curtas frases, João Ventura é também dono de um espírito crítico fortíssimo. A sua ficção tanto se faz de profunda ironia, como de genais desmontagens de lugares comuns ou ideias injustas, bem como um profundo faro para revelar a estupidez. Não quero com isto dizer que seja panfletário, mas uma das características mais perenes dos seus contos é a forma como desmonta o tipo de ideias feitas que o constante ruído digital nos assola.
Junte-se a isto uma vertente de realismo mágico e fantástico, com um profundo olhar para o mítico e surreal. O resultado pode ser lido online, nas várias curtas e microficções que espalha por aí, ou nas duas fortemente recomendáveis edições dos seus contos.