segunda-feira, 4 de maio de 2026

Lisbon Loras Deamina Night

Dia 30 de abril dei um salto ao RNA Studio para visitar o encontro Lisbon Loras, dedicado à criação de vídeo com Inteligência Artificial. Não esperava muito do evento, mas acabou por ser um serão de aprendizagem, reflexão e algumas estéticas desafiantes.


A galeria de projetos Dearmina AI mostrava algumas das criações quer dos palestrantes da sessão, quer de criadores ligados à Lisbon Loras. Não consigo dizer que as achei interessantes - não por questões de qualidade, mas por estarem firmemente na vertente de uso da IA que replica o que já se faz, ou que imita o real. É um caminho possível, mas não o que mais me interessa.

Claro, é o caminho que faz sentido para estes criadores. Pelas partilhas (nem me perguntem quem falou, são nomes que me são totalmente desconhecidos) percebi que eram pessoas ligadas ao lado mais comercial das indústrias criativas, que usam a IA para acelerar projetos ou encontrar novas formas de produção, mas na prática nunca se afastam das premissas estéticas do lado comercial da arte audiovisual.

O que percebi, é que ao contrário do que tantos fazem apanágio de alardear, a IA generativa já está integrada dentro dos processos de produção comerciais, quer em cinema para a web (sim, isso é uma tendência), curtas metragens ou anúncios publicitários (e aqui, um designer mostrou-me privadamente alguns vídeos que anda a produzir para uma conhecida marca de cervejas portuguesa que irão chegar ao público na altura do verão). A integração já é comum, e a vertente experimental não é valorizada. Aliás, um comentário corrente nas palestras era a necessidade de manter o processamento tradicional do vídeo para eliminar ou disfarçar aqueles traços identificadores que nos permitem perceber que o que estamos a ver foi gerado por IA. Publicamente, claro, o discurso é de rejeição, porque como um dos keynote speakers observou, "that's just the nature of the game".

Percebi que há muito mais IA generativa nos media comerciais (especialmente publicidade) do que desconfiamos ou as empresas admitem - o efeito "people who talk shit about AI ask us to work for them", como colocou um dos criadores de AI video em destaque nas conversas. 


Ficar um bocado à conversa com um developer chinês da bytedance, sobre os potenciais impactos da IA nas crianças, não estava na minha lista de cenas que contava fazer esta semana. Por ironia, desenvolver modelos de vídeo generativo era o que fazia. Coisas que acontecem quando um discreto storzito infiltra um evento fora da sua área. Fiquei a conhecer um espaço cultural que vale a pena manter debaixo de olho, o RNA Atelier, e um evento de IA generativa que é interessante de acompanhar.

E vim de lá com ideias... educativas, claro.

domingo, 3 de maio de 2026

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Subterfuge: Civilizações alienígenas esquecidas.

The People Who Shun Super-Popular Pop Culture: Afinal, há um nome para pessoas como eu (e não, não é "ranzinza") - reactância psicológica. Não é rejeitar só porque sim, mas pelo sentimento de não ter de seguir a manada cultural.

Homero em Pompeia: Compreendo bem esta sensação de atemporalidade, de sentir a nossa alma tocada pelas ideias e ações de pessoas que há muito se tornaram pó, e com isso perceber a intensidade do fio da cultura que nos une ao longo de milénios.

Cadáver Requintado – Agustina Bazterrica: Um título português com um muito elegante trocadilho, para um dos livros mais intensos e violentos que li nos últimos anos.

A Firefly animated series is in development: Um curioso compromisso. Regressar a Firefly é sedutor para a legião de fãs desta série de culto, mas a animação retira muitas das reticências que um regresso dos atores à série traria.

What A Classic Zombie Movie Teaches About Film, And Life: O filme seminal de Romero, com as suas múltiplas leituras.

Iranian Missile Hits Hormuz Ship Carrying Fantagraphics Graphic Novels: Agora sim, estamos em crise!!! Perdoem e piada farsola.

World War II Novels, recommended by Lori Inglis Hall: Olhar para a história sob o prisma da ficção.

Angus McKie: Aeroporto espacial.

Si Ucrania impulsó el uso de drones, Irán ha disparado el algoritmo Terminator. Y eso ya era un problema en la ciencia ficción: Mas, pensemos um bocadinho. A guerra iniciou como relâmpago, apesar dos fluxos de posicionamento de material de guerra que se intensificou nas rotas aéreas transatlânticas e tansmediterrâneo. Começou com ataques intensos, decapitação imediata da liderança iraniana. Uma guerra que ninguém quis mas está a acontecer, com mortes civis e militares (e, de caminho, com Israel a preparar-se para anexar mais uns territórios, desta vez martirizando o Líbano). A resposta iraniana está a ser metódica, com uma chuva de mísseis que atingiu os países do Golfo Pérsico, abalando a sua imagem de zonas pacíficas e atraentes para turistas e nómadas digitais que não gostam de pagar impostos. Milhares, entre turistas e viajantes que usam os hubs aeroportuários da zona ficaram encalhados. Um dos principais canais do fluxo global petróleo e gás natural está bloqueado, com as óbvias consequências no disparo dos preços da energia a provocar uma inevitável recessão global. Nos últimos dias, tornou-se claro que quem planeou e dirige esta operação está claramente desconhecedor das suas ramificações, e suspeita-se que pensaria que bastariam umas bombas e os iranianos agitariam as bandeiras brancas, o que não vai acontecer, para desgraça de todos. Notem que estes incompetentes se gabam de usar extensivamente a IA para tomar decisões militares, claramente a usaram para planear o que no papel (ou no ecrã dos chatbots) parecia ser uma intervenção massiva, limpa e rápida, ao estilo de um videojogo. Não o está a ser, e esta péssima situação global está a ser um claro exemplo dos enormes riscos de usar a IA para automatizar processos de decisão.

Inside the Dirty, Dystopian World of AI Data Centers: Diria que visitar um data center do Grok é um excelente exemplo de tudo o que está mal nesta indústria, dado o desprezo que Musk tem revelado sobre as mais elementares questões sociais e ambientais.

We took an ancient vice: A proliferação do jogo online é uma das pragas menos visíveis da internet, um sumidouro predatório de dinheiro que se aproveita da adição e da ingenuidade. E por cá até é uma indústria que tem um primeiro ministro ao seu serviço.

A defense official reveals how AI chatbots could be used for targeting decisions: O maior problema que isto traz é a desresponsabilização. Em caso de erro, que em termos militares costuma traduzir-se em desastre sangrento, a culpa será sempre do sistema, sem que os decisores tenham maculado as suas consciências. É o lavar de mãos de Pilatos, à moda do século XXI.

People Really, Really Despise AI — Even More Than ICE, Poll Finds: Como é óbvio, vermos uma tecnologia prometedora ser apropriada para alimentar os piores excessos do capitalismo selvagem, não desperta grande alegria.

dead internet: 11mar26: Provavelmente não nos apercebemos, dado que interagimos em redes com humanos, mas as análises globais de tráfego mostram que, de facto, o tráfego gerado por fontes automatizadas (bots, IAs, sistemas de gestão, etc.) ultrapassa cada vez mais o diretamente criado por pessoas.

I was a phone addict: These 7 tricks stopped me scrolling and curbed my screen time - fast: Dicas essenciais. A última, desligar notificações de tudo o que não seja realmente importante, foi o meu primeiro passo para me libertar da tirania digital, recuperar o meu tempo, sanidade mental, e a sensação de capacitação de estar a agir com a tecnologia, escolhendo quando e como a usar, e não a reagir em modo de cão de Pavlov. Notem que o objetivo dos sistemas de notificação não é, como pensam, o de nos manter informados para decisões rápidas. É o seu oposto, estilhaçar a atenção concentrada e criar mecanismos de adição que nos mantenham agarrados às aplicações.

Explain it like I'm 5: Why is everyone on speakerphone in public?: Provavelmente das coisas mais patetas que existem é ver pessoas a segurar o altifalante musical do telemóvel contra as orelhas, a ouvir áudios incessantes, como se o telefone não tivesse sido desenhado para falar com outras pessoas.

Pluralistic: AI "journalists" prove that media bosses don't give a shit (11 Mar 2026): Para todos aqueles que sentem que os media estão a ir pelo cano abaixo, que deixaram de ser fontes de informação para se tornar veículos de "conteúdo" para nos impingir anúncios e sacar dados.

La buena noticia es que los modelos de IA son cada vez más potentes. La mala es que todos acaban diciendo lo mismo: Faz sentido. Os dados e a sua variabilidade não são infinitos, e quanto mais a fundo vamos, mais as coisas têm tendência para a mediana.

One Situation After Another: A hiper-informação como entretenimento, com o súbito interesse em agregadores de fontes múltiplas de informação que coligem camadas de dados sobre a geopolítica global.

Antes hacía documentos de Word. Ahora hago apps hasta para lo más tonto: O potencial capacitativo do vibe coding é tremendo, colocando alargando o acesso a capacidades que até agora estavam apenas nas mãos daqueles com preparação técnica avançada. Note-se que não deixa de ser necessário adquirir conhecimentos de programação. Tal como o todos dispormos de máquinas fotográficas no bolso não nos transformou a todos em fotógrafos, é preciso conhecimento técnico e cultural para ser capaz de trabalhar a fundo com estas tecnologias.

BuzzFeed Nearing Bankruptcy After Disastrous Turn Toward AI: A sério que é surpreendente que as pessoas não queiram perder o seu tempo a ler ou a ver conteúdos gerados automaticamente por IA?

Preço da memória RAM causa o caos nas garantias: Ou, sendo direto, é mais uma desculpa para o arsenal de desculpas esfarrapadas que as empresas usam para deixar os clientes pendurados e defraudados quando estes precisam de apoio.

The Fake Images of a Real Strike on a School: A IA generativa vai à guerra, num ambiente onde a saturação mediática é uma das armas com alcance global.

Coding After Coders: The End of Computer Programming as We Know It: Notem que não é o fim dos programadores, mas sim o emergir de novas formas de criar software. Destaco estas observações: "The reason that tech generally — and coders in particular — see L.L.M.s differently than everyone else is that in the creative disciplines, L.L.M.s take away the most soulful human parts of the work and leave the drudgery to you,” Dash says. “And in coding, L.L.M.s take away the drudgery and leave the human, soulful parts to you.”; "A coder is now more like an architect than a construction worker. Developers using A.I. focus on the overall shape of the software, how its features and facets work together. Because the agents can produce functioning code so quickly, their human overseers can experiment, trying things out to see what works and discarding what doesn’t."; "This is the cultural side effect of coding becoming conversational: The realms of programmers and everyday people, separated for decades by an ocean of arcane know-how, are drifting closer together." Ou seja, a programação assistida por IA permite eliminar o trabalho rotineiro de construção de software, dando mais tempo para foco no que realmente se pretende levar mais longe, e tem um aspeto democratizante, permitindo a não-programadores criarem as suas soluções para problemas ou projetos individuais, sem a veleidade de serem soluções de topo, apenas pequenas ferramentas digitais para o dia a dia.

The Resistance Comes for OpenAI: Sem sombra de dúvida, das análises mais certeiras sobre a psicopatologia da indústria da IA - "Responding to a question re the energy needs of AI, Sam highlighted how much energy and effort is required to raise a human capable of critical thinking. This is the tell. He embodies what I believe is most concerning about the virus that’s infected Big Tech: For them, ROI supersedes humanity."

The Military’s AI Fever Is Leading Into Disaster, Critics Say: E no entanto insistem, por uma razão - automatizar as ações militares retira a humanidade do combate. Os inimigos são etiquetas de dados e estatísticas, e as decisões violentas ficam escudadas pelo automatismo do sistema, sem pesar na consciência de quem as toma.

Wanted: Europe’s Missing Cloud Provider: As dificuldades de investir na soberania digital, depois de décadas a alimentar os gigantes norte-americanos.

Pokémon Go sacó a millones de jugadores a la calle. Millones de jugadores que en realidad estaban entrenando a una IA: A ideia já é antiga, a de usar jogos como crowdsourcing para aplicações.

How our everyday devices became police informants by default: Claro que todos aplaudimos quando a tecnologia ajuda as forças da lei a combater o crime de forma eficaz (há até uma teoria gira sobre a extinção dos serial killers devido à proliferação tecnológica). O problema é o potencial para abusos e injustiças, especialmente por parte de governos mais autoritários ou a querer sê-lo, como no caso das extremas direitas que correm o risco de chegar ao poder em muitas democracias clássicas.

How Do We Calibrate The Use Of AI In Education?: O sempre difícil caminho intermédio que os educadores têm de tomar.

Online harassment is entering its AI era: A automatização do assédio.

Pinceles de Muerte (Original Title: Pencil of Murder): Pinceladas criminosas.

El tráfico aéreo mundial tiene un problema: Ucrania e Irán han creado un embudo que está disparando los precios: Um tremendo abalo à indústria da aeronáutica civil.

How Not To Do Regime Change: Erros, idiotice e zelo extremista. Mas com consequências globais.

China acaba de encontrar un agujero en el arma más silenciosa de EEUU: un algoritmo ha hackeado sus B-2 en Irán: Intrigante. Localizar os aparentemente indetectáveis aviões invisíveis não pela sua presença, mas pelo rasto de ausência que deixam nos fluxos militares de apoio aos sistemas de armas.

Dubai’s Army of Influencers Gets Back in Line: Se desconfiavam que o sonho de luminosidade hipermoderna do Dubai, com a sua imagem de vida luxuosa e fácil, era uma falácia, este artigo sublinha isso. Ai dos influencers que se atreverem a dizer mal do país, mostrando a simples e elementar realidade de viver numa zona sob bombardeamento. Se isso vos surpreende, notem que a prosperidade dos emirados depende do petróleo, e a vida doce dos nativos e expats é feita sob o dorso dos trabalhadores migrantes quasi-escravizados para ir trabalhar no sultanato.

Portugal tenía que elegir a dónde llevar primero su AVE. Y entre Madrid y Galicia, lo tiene muy claro: Não temam, caros espanhóis. Daqui a 30 anos, enquanto vocês se deslocam a alta velocidade entre todas as cidades espanholas, nós ainda estaremos a discutir os planos que terão de ser analisados para discussão da sua implementação das nossas futuras linhas de alta velocidade. Esperem sentados.

Predatory Hegemons: Bem, mas uma leitura crítica à história contemporânea mostra que os Estados Unidos sempre se comportaram como um predador geopolítico. Nem é preciso ir muito longe para perceber este argumento - basta pensar na origem do termo "república das bananas".

The B-29 Goes Atomic: A Look at Operation Silverplate: Um olhar para a preparação dos aviões que levaram a cabo os primeiros ataques nucleares.

Pete Hegseth’s Worrisome Press Briefing: Para além dos insultos e da postura de bro agressivo com a obsessão de ficar bonito nas fotografias, numa recente conferência de imprensa foi mais longe - exigiu posturas "patrióticas" por parte dos jornalistas (ou seja, que não questionassem as visões oficiais) e insinuou que a possível aquisição da CNN por Ellison (enorme facho e dono da Oracle) iria acabar com a bandalheira antipatriótica. Isto é, literalmente, ver o governo americano a resvalar em força para o fascismo.

General McChrystal’s Dolly Parton Doctrine: Ou a injustificabilidade moral e ética do "fazemos porque podemos fazer".

Billionaires Elon Musk and Stanley Druckenmiller Reveal How AI Could Unleash Universal Income: Sou só eu a notar a profunda ironia incoerente de ter dois conhecidos açambarcadores de riqueza a falar da aproximação da utopia de um futuro de prosperidade para todos?

The Forgotten Female Pilots of World War II: Uma história de pioneirismo, coragem e desprezo institucional.

A century after the first rocket launch, Ars staffers pick their favorites: Na comemoração do primeiro centenário do lançamento de um foguete por Robert Goddard, alguns jornalistas recordam os lançamentos espaciais mais marcantes a que assistiram.

sábado, 2 de maio de 2026

ESFS 2026 Achievements Awards

Confesso, quando o Rogério Ribeiro me enviou uma mensagem com o link dos nomeados para os prémios da European Science Fiction Society, vi a página na diagonal. Respondi com uma das minhas piadas de gosto duvidoso e fiz nota mental para divulgar a página. 

Só muito mais tarde é que me apercebi que tinha sido nomeado para a categoria Best Internet Publication... nem sei bem o que pensar. Por um lado é uma honra e um gosto, Por outro, é totalmente inesperado, e tenho a certeza que há por cá projetos bem mais merecedores. 

Só posso agradecer a quem me nomeou. A descrição é certeira, e de facto, já se passaram 20 anos desta discreta presença online. A lista de todos os nomeados pode ser conhecida aqui: ESFS 2026 Achievements Awards.






Lost+Found

 













Kastamonu, Turquia.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Choques Culturais

Choques culturais, daqueles a sério, não dos de desafio gastronómico ou cenas do dia a dia. Na viagem Erasmus a Kastamonu, dei por mim num auditório em Pinarbaşı, numa cerimónia muito oficial celebratória da batalha de Çanakkale. O como é que lá fui parar é toda uma outra história, de favores cobrados e devidos e da forma como políticos locais excercem a arte da política. 

Por cerimónia entendam um auditório cheio de camponeses locais, pais das crianças que frequentavam a escola de uma pequena cidade do interior da região. Pessoas que esbugalharam os olhos quando viram entrar um óbvio grupo de estrangeiros, que foram encaminhados para as primeiras filas. Descobri-me sentado ao lado de óbvio homem de elevada importância local, com um bigode de bizarria assinalável e um estilo de vestimenta formal decalcado dos anos 80. Estando numa região rural perdia na imensidão da Anatólia, é o que podemos esperar. 

O como lá fui parar, com os colegas e alunos do projeto, prende-se com aquela velha máxima de não haver almoços gratuitos. Suspeito que um dos nossos anfitriões puxou de uns favores para que o grupo pudesse almoçar na cantina da escola de Pinarbaşı. O impressionante desfiladeiro de Hourma, nessa localidade, era o nosso destino. A refeição, diga-se, foi deliciosa - um simples arroz branco e frango desossado, com um tempero saboroso. Como contrapartida, tivemos de assistir a cerimónias oficiais. Imaginem, um grupo de estrangeiros incapaz de compreender turco sem perceber patavina do que se estava a passar em palco, e um auditório cheio de camponeses que nos contemplava com ar incrédulo. A regra que adotei foi bater palmas sempre que todos batiam palmas, levantar-me respeitosamente sempre que alguém com ar importante ia ao palco. 

Como a minha sorte é macaca, os anfitriões fizeram questão de me colocar na primeira fila, ao lado de pessoas que vim a perceber posteriormente serem os políticos da liderança local.  O posteriormente explica-se pela parada que um deles nos fez pelos edifícios do poder turco. Inclui uma subida a um terceiro andar para nos mostrar o seu gabinete de trabalho, postando-se à porta e acenando. Um momento algo inquietante em que o governador local nos recebeu, naquele fausto asiático em que os visitantes estão confortavelmente sentados em cadeirões a ouvir o homem importante cuja secretária se encontra num estrado sobrelevado, num sinal discreto de poder. Foi o único momento em que me senti apreensivo em toda a viagem, não pela postura do governante, gentil e determinada na forma propagandística com que os governantes turcos nos falam do seu país, mas pela presença discreta de seguranças visivelmente armados. Um sublinhar vívido que não estava na nossa safe european home.

Ainda tivemos direito a visitar o presidente da comarca local. Poderia ter referido que tal como ele, eu também tenho responsabilidades autárquicas como membro de assembleia de freguesia, mas suspeitei que não era boa ideia, num país cujo regime é eufemisticamente descrito como uma "democracia iliberal", revelar que fui eleito como socialista. Além disso, juntei-me ao desafio autárquico como experiência de aprendizagem e contributo para uma comunidade que me tem enriquecido imenso, não para alardear uma aparente importância que de facto não tenho. De qualquer forma, apesar de ter sentido um espírito de tolerância durante toda a visita, achei que era asisado  ser discreto do meu esquerdismo enquanto no país de Erdogan.

A visita à comarca foi um momento de clássica hospitalidade turca, tendo o ritual de lavagem de mãos com água de colónia e um bombom de chocolate, com oferta de uma deliciosamente aromática garrafa de perfume localmente produzido. Recordo, do final desse momento, o ar satisfeito do anfitrião local, ou o frio a bater no rosto enquanto tirávamos as obrigatórias fotos com os políticos, no exterior do edifício da comarca, num momento em que se ouvia o adhan.

Confesso. Apesar de ser um impenitente ateu, respeitador na necessidade individual de religião mas fortemente crítico da religião institucional, e nada confortável com crenças religiosas que limitam a liberdade humana, a memória mais forte que trago da Turquia foi a comoção interior sempre que ouvia o chamamento à oração. Não pelo seu exotismo, mas pela sua beleza, e talvez aquela emoção de sentir que há algo na cultura humana que nos transcende. Também me emocionei quando pisei a Praça de S. Pedro e tive um assomo de Síndrome de Stendhal quando ao entrar na Sagrada Família a beleza da luz no seu interior me despertou lágrimas. Podemos ser ateus e críticos, mas não significa que sejamos insensíveis às simbologias e significados.

Já me falaram aqui por várias vezes da importância da Guerra da Independência. Assumi que se tratou daquele momento no pós-I guerra em que os gregos invadiram a costa turca no mar Egeu para a anexar, e por pouco iam conseguindo. "No, no, it was when the british, the french and the italians invaded us", disse-me uma das minhas anfitriãs. Isso não bate certo com a história global que eu conheço, e depois de passar umas horas surreais rodeado de poderes locais que ouviam muitos deferentes teşekkür do povo num palco decorado com desenhos de crianças alusivos à batalha, tive de ir ler sobre o assunto.

Percebi que se trata de Gallipoli, uma das batalhas mais sangrentas da I Guerra. E vem aí o choque cultural - o que para eles é a guerra da Independência, para nós é a I Guerra Mundial. O conceito de independência  estranha-se, sabendo que o então império Otomano era perfeitamente independente e alinhado ao lado das potências centrais. Gallipoli foi a tentiva aliada falhada de controlar os dardanelos e ocupar a então Constantinopla, capital otomana. Por ironia, um dos arquitectos do ataque foi Churchill. O derrotado de Gallipoli viria a ser uma das peças fundamentais da firmeza aliada nos momentos mais perigosos da II guerra.

Soa estranho, para quem leu a versão ocidental da história global, esta visão de um conflito global. Mas a História nunca é simplista e linear. Se um país que era independente há muito regista a I guerra como mito fundador, há razões para isso. Ler um pouco mais recordou-me que a vitória turca trouxe à ribalta Mustafa Kemal, é o ponto onde principiou o nascimento da república turca e o fim do império otomano.

É o choque cultural de perceber que a nota de rodapé da nossa história é a peça central da história de outros povos.

Não estão a ver a importância que por cá se dá a isto. É como se nós celebrássemos constantemente a batalha de S. Mamede e tivessemos um busto ou uma pintura de D. Afonso Henriques a cada esquina. Isso aqui é literal. Todas as salas de aula que visito têm o rosto de Ataturk, há um busto dourado à entrada de cada escola. Nós, com a nossa herança pesada do estado novo, vemos com reticência esta mitificação da história e cultos de personalidade. Por aqui os ares são outros.

Este é um dos pontos que faz valer as viagens em Erasmus. Isto não é turismo. Não estamos a passear pelas atrações, a ver e saborear o very typical encenado para vender ímanes de frigorífico. Emparceiramos com escolas de terras fora do circuito turístico, visitamos os locais que os da terra dão importância, passamos tempo a trabalhar e a brincar (especialmente as crianças). Não tenho a veleidade de achar que se fica a conhecer profundamente os povos e as gentes, mas lidamos com gente como nós.

É enriquecedor ver as nossas alunas alegres, a passar o serão a conversar com os seus colegas turcos no centro comercial aqui da terra. O Starbucks é o grande ponto de encontro. Ah, adolescentes, iguais em todo o lado. Já eu prefiro o chá e o café - à moda turca, obviamente, nas tascas locais. As de banquetas baixinhas e decoração orientalista normal, não de falsa iconografia para turista consumir, e que apesar de limpas dariam chiliques aos habitués dos nossos estabelecimentos comerciais luminosos e normalizados. "We have to get you some prayer beads and you will completely fit in", riem-se as minhas colegas turcas ao verem-me devorar os cafés turcos, dado que sou um tipo barbubo com tez mediterrânica. Na verdade o que preciso mesmo é de cafeína, dado que as três horas de diferença pesam particularmente forte de manhã.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

The Horrors of Noroi Michiru

Noroi Michiru (2025). The Horrors of Noroi Michiru. Star Fruit Books.

O barroquismo da capa da edição que adquiri no espaço, sempre de excelente gosto, do editor da Sendai no Festival Contacto, prometia mergulhos num horror delirante a fazer inveja a Ito ou Maruo. Não que a leitura me tenha desiludido, mas o conteúdo do livro estava mais dentro dos padrões da normalidade do terror literário, sem voos de barroco macabro. Destaca-se a erudição literária, com muitos dos contos claramente a referenciar e homenagear o terror literário e fílmico clássico. A leitura foi menos aterrorizante do que esperava, mas deliciosa.

terça-feira, 28 de abril de 2026

For We Are Many

Dennis Taylor (2017). For We Are Many. Worldbuilders Press.

Não diria que isto é literatura de ficção científica elegante, ou profunda. Muito pelo contrário, é superficial apesar da inteligência de alguns dos seus conceitos. É uma daquelas histórias que se lê pelo puro prazer de acompanhar o enredo e ver por onde vão as aventuras dos personagens. Não há nada de errado com isto, apesar de não ser nenhum portento literário a série Bobiverse cativou-me, com o seu otimismo inabalável, bom humor e sentido desprendido de aventura, numa space opera de leitura imparável. Talvez a melhor comparação que possa fazer, e não é colocada em modo de insulto, é que esta leitura me dá o prazer similar ao de jogar um jogo de computador.

O segundo volume da série é a continuação pura do primeiro. Os Bobs vão-se espalhando pela galáxia, graças a alguns deles a humanidade à beira da extinção começa a ser exilada para planetas capazes de sustentar vida, novas civilizações alienígenas são encontradas. Os Bob, recordo, são uma espécie de sondas Von Neumann inteligentes, capazes de se auto-replicarem e fabricarem os recursos suficientes para enviar novas sondas, ou colonizar planetas, controladas pela personalidade digitalmente replicada do Bob original, um criador informático do século XX cuja personalidade foi digitalizada a partir do seu cérebro criopreservado após um acidente.

Surge também uma nova ameaça, uma civilização alienígena-enxame, apostada em consumir todos os recursos planetários que encontrar para construir uma esfera de Dyson. Será guerra aberta, existencial para os Bob, os sobreviventes da Terra, e as outras espécies que vão sendo encontradas na expansão galáctica das sucessivas réplicas de Bobs. Neste volume, o tom é negativo, os primeiros recontros não auguram nada de bom. Mas tendo em conta o espírito otimista da série, suspeito que o final será feliz.

Isto é space opera clássica, a brincar com conceitos como consciência artificial, nanotecnologia, exploração espacial, fabricação digital, mas também xenobiologia e culturas alienígenas.  Uma leitura sólida e divertida.

domingo, 26 de abril de 2026

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Two different cutaway views of the Bacchus lll: Cenas retro.

Andrew Tate Doesn’t Get the Point of Books: Perdoem o clickbait do título. O artigo é uma excelente análise dos livros enquanto tecnologia, que amadureceu para nos propiciar processos de reflexão e amadurecimento de ideias. Exatamente aquilo que os ignorantes deste mundo se orgulham de não ter.

Scarlet, ou Shakespeare segundo Hosoda: Marcado na agenda, agora espero é ter tempo de o ir ver.

The Thing on The Doorstep: Creators on Adapting Lovecraft for Comics: Aquele autor que quase foi esquecido, mas agora é fonte inesgotável de inspiração para novos criadores.

Adrian Tchaikovsky's new Children of Time novel is brilliant: Diria que toda a série, uma exploração do conceito de inteligência não humana, é brilhante.

Why on Earth Did Maggie Gyllenhaal Make This Movie?: Confesso que a curiosidade ficou desperta para esta nova versão de Bride of Frankenstein.

Recomendações de leituras para março: Confesso que destaco a reediçao de um livro de terror português do século XIX.

For the historical record: Recordar o passado dos encontros de autores e leitores de ficção científica.

Is Firefly coming back?: A pergunta a fazer (e o artigo toca nisso) é se vale a pena fazer regressar esta série de culto. Ela foi, de facto, muito boa, mas aquilo que a tornou realmente de culto foi a sua curta duração. Ao contrário de outras séries, que se arrastam até se tornarem vazias e desinteressantes, Firefly foi um ponto alto da ficção científica televisiva.


70sscifiart: Lift off: Futurismo russo.

After Banning Anthropic From Military Use, Pentagon Still Relying Heavily on It in Iran War: Pela forma desapiedada como decorrem as operações, já se tinha percebido a desumanização do planeamento é total.

Grammarly Offering Manuscript Reviews by AI Versions of Recently Deceased Professors: Necrofilia digital? Ou, obviamente, um tremendo ataque à memória dos falecidos. Que não me surpreende, há muitos que não têm quaisquer escrúpulos em explorar estas situações.

Europa busca un lugar donde colocar su gigafactoría de IA. España y Portugal le están enseñando todo su plumaje renovable: Um projeto intrigante, que une as valências ibéricas - energias renováveis, Sines enquanto ponto fulcral de ligação a cabos submarinos, para investir na construção de centros de dados dedicados à IA. Uma aposta soberana que a UE bem precisa de fazer.

The cute and cursed story of Furby: Recordo que quando este brinquedo surgiu no mercado, era uma maravilha técnica de robótica com preço acessivel.

Amazon Staffers Learning Hard Lesson as Company Cuts Robotics Jobs: A robótica aplicada desenfreadamente aplicada por capitalistas assanhados no afã de se livrarem desses empecilhos que são os trabalhadores também atinge aqueles especialistas que se esperava estarem algo imunes ao entusiasmo dos gestores pelos despedimentos.

Iran Is Bombing Data Centers in Retaliation: Qual é o outro grande pilar de infraestrutura global, para além da energia e transportes? A infraestrutura digital ancorada nos centros de dados.

Generating 3D Model Figures with AI: De fora, ficou o Hunyuan, que para mim é o melhor gerador de 3D com IA.

You Could Be Next: Ganância capitalista e automatização via IA são duas forças que juntas, abrem todo um novo campo de abusos sobre os trabalhadores.

Windows 12 could be the tipping point that finally pushes you to Linux - here's why: Slopware, anúncios embutidos no sistema, uma ideia de usabilidade pensada para desencorajar utilizadores de saber usar a fundo o seu computador, sistemas de ativação limitativos e a política de extrair dados pessoais através de telemetria invasiva. A sério, há cada vez menos razões para manter o Windows.


Hate it when I trigger a star-trap: Quem nunca?

The Coming Invasion of Iran: Antevê-se mais um lamaçal geopolítico.

Insider Trading Is Going to Get People Killed: A preocupante ascendência das plataformas de apostas online onde apostadores apostam sobre a probabilidade de acontecimentos. Já se percebeu que pessoas com informação privilegiada as usam para beneficiar, ilicitamente, do que sabem que está a ser planeado nas organizações onde trabalham.

The Glaring Oversight in the U.S. War Plan: Resumindo a leitura - tantos planeadores e não prestaram atenção aos drones de baixo custo.

The ideological implications of China’s economic success: O que será o modelo chinês? Marxismo capitalista, ou capitalismo socialista?

Europa acaba de dar un volantazo de 180 grados a su política nuclear y ha dejado a España completamente fuera de juego: Crise energética a quanto obrigas, mas diga-se que apesar dos riscos, o nuclear é um elemento importante na descarbonização e diminuição da dependência de combustíveis fósseis.

sábado, 25 de abril de 2026

Celebrar a Liberdade


Celebrar a liberdade, de pensar, agir e criar. Todos os dias, mas hoje em especial: 

https://archizer0.github.io/.../experimental/25abril2.html

"Manipulação do Cravo" não é nenhuma ironia negra ou comentário à deriva autoritária regressionista que todos sentimos estar a viver nos dias de hoje.

(Também a escrever liberdade de programar, mas o trabalho pesado foi feito pelo chatbot, sinto-me positivamente opressor da IA trabalhadora). 

Lost+Found

 
















Desfiladeiro de Hourma e Pinerbsi, Turquia.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pedro e o Imperador


Batista, Joana Afonso (2022). Pedro e o Imperador. Lisboa: Polvo.

O ponto de quebra entre a história de Portugal e do Brasil, vista sob a perspetiva ternurenta de um filho assombrado pelo espectro do pai falecido. Pai esse que foi D. Pedro, o gritador do Ipiranga que declarou a independência do Brasil mas abdicou do trono para regressar a Portugal, abraçando a causa liberal nas guerras civis da primeira metade do século XIX, tornando-se rei constitucional. O seu filho herdou o império dos brasis, até abdicar a favor da instauração da república. 

A história e os seus factos são o pano de fundo, mas esta história conta-se num diálogo entre um filho a envelhecer, herdeiro de um trono e de um cargo que nunca quis, a viver o ocaso da sua vida entre viagens e o exílio. Sempre acompanhado pelo pai, espírito fantasma que após morrer em Portugal, passa a fazer na morte o que não conseguiu em vida, estar ao lado do seu filho. Note-se que esta não é uma história de terror, a ideia do espírito incorpora uma espécie de diálogo interior de D. Pedro filho, a examinar as suas ações à luz da herança do pai. 

Um livro tocante, e confesso, a razão que me levou a pegar nele é ser mais uma obra representativa do excelente traço de Joana Afonso, uma das nossas melhores artistas contemporâneas de BD. A produção deste tomo partiu de um programa de intercâmbio cultural editorial dos dois lados do Atlântico, unindo autores e editoras em livros luso-brasileiros.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Comics: A Star Called the Sun; Secret Origins of the World's Greatest Super-Heroes; Civil War


Simon Roy (2026). A Star Called the Sun. Portland: Image Comics.

Simon Roy é um dos melhores praticantes da ficção científica na BD contemporânea. Autor independente, distingue-se pelo misto de surrealismo e FC dura nas suas bandas desenhadas curtas, todas um primor de leitura. Não segue os padrões convencionais do género, nem opta pelo lado de espetáculo visual. As suas ficções são reflexões sobre humanismo, tecnologia e o choque de civilizações.


Dennis O'Neill et al (1991). Secret Origins of the World's Greatest Super-Heroes. Nova Iorque: DC Comics.

Para um leitor veterano de comics, houve aqui um regresso ao passado, que trouxe memórias de histórias que já tinha lido. Isto é a DC do princípio dos anos 90, antes da moda dos crossovers infindos e do grimdark, e estas histórias de origem recontam os inícios das personagens clássicas, com o que à época eram novas roupagens. Em Batman não há muita volta a dar, aquele elemento gótico é inescapável, mas noutras personagens, vemos um Superman que só na idade adulta descobre ser o último kryptoniano, um Martian Manhunter em versão policial noir, e embora numa tenha sido dos personagens que me desperta interesse, a origem de Flash - Barry Allen intriga pela sua circularidade numa origem que funciona num laço infindo. Foi também divertido recuperar à tentativa de comics bem humorados escritos por Keith Giffen, que deu um ar de sitcom às aventuras da Liga da Justiça.


Mark Millar, Steve McNiven (2026). Civil War. Lisboa: Atlântico Press.

Aproveitar a recente coleção Must Have por cá editada para revisitar uma série que se tornou estrutural na mitografia Marvel, o conflito entre os maiores heróis que questionou as bases da lógica do género. Talvez das poucas séries que se tenha atrevido a olhar para o que acontece quando super-heróis e vilões chocam entre si, essencialmente destruição quase indiscriminada. A outra, diria, foi o mais leve e algo humorista Damage Control, sobre funcionários camarários que têm como trabalgho limpar os resquícios dos heróis, desde o entulho dos conflitos às teias do Homem-Aranha. Civil War segue o caminho da mediatização e responsabilização social, bem como da instrumentalização das boas intenções pelos governos. A abordagem é eficaz, o que não surpreende, dada a capacidade narrativa de Mark Miller. Confesso, este é um dos argumentistas dos comics que adoro detestar. Tem uma enorme capacidade de tecer narrativas dinâmicas e cinemáticas, com pontos interessantes, mas nunca sai de um registo comercial puro. Nada contra, é o que quer fazer, mas torna-se repetitivo e fica-se sempre a pensar que como criador, poderia ir mais longe.