segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Fórum Fantástico: Leituras do Ano

Cumpriu-se a tradição. O clássico painel das Leituras, partilhando o palco com o João Campos, Cristina Alves e Rogério Ribeiro, divulgou os livros mais apreciados ao longo do ano. O João costuma divulgar a sua lista no seu Sobreiro Mecânico, e a Cristina faz o apanhado de todas as sugestões no seu Rascunhos. Quando apanhar esses links, atualizo este post.


Edit 1 (12/10): O João Campos já divulgou as suas escolhas no Sobreiro Mecânico.

Ficção Científica e Fantástico: 

O Cidadão Sem Sombra, João Ventura

João Ventura é o nosso mais exímio praticante da arte do conto curto. Quem conhece a sua longa obra já o sabe bem, e basta ler Tudo Isto Existe, a primeira antologia da sua ficção fixa em livro pela Divergência, para o sentir. Este Cidadão Sem Sombra dá continuidade ao trabalho do primeiro livro, coligindo mais excelentes exemplos das pérolas linguísticas que são os seus contos. Para além da concisão, é também dono de um espírito crítico fortíssimo. A sua ficção tanto se faz de profunda ironia, como de genais desmontagens de lugares comuns ou ideias injustas, bem como um profundo faro para desmontar o tipo de ideias feitas que o constante ruído digital nos assola.


We Are Legion (We Are Bob), Dennis Taylor

Este Bobiverso é em simultâneo divertido e de leitura leve, mas atreve-se a tocar a fundo em tropes clássicas da Space Opera. A sua leveza disfarça a amargura dos nossos tempos contemporâneos, com a política a arrastar-nos para abismos que julgávamos terem sido ultrapassados, numa premissa ficcional que extrapola o nosso corrente momento histórico. O constante saltar entre pontos de vista de diferentes Bobs permite um emaranhado de linhas narrativas. Tanto acompanhamos o explorar de novos sistemas como os dilemas da sobrevivência, alternada com ação pura, e atrevendo-se a entrar nas narrativas de contacto com alienígenas, entre civilizações primitivas e artefactos inteligentes que apontam para formas de vida mais avançada. Leve e divertido, mas nem por isso pouco substancial.

I Am AI, Ai Jiang

Uma história de futuro próximo, onde a vida económica é dominada por uma megacorporação que descarta pessoas conforme as usa. Há a sociedade da distante e próspera cidade, e o enorme enxame dos bairros de lata, daqueles que caíram do sistema, embora a fuga total não seja possível, uma vez que todos estão carregados com dívidas hereditárias que têm de trabalhar para pagar. Acompanhamos uma cyborg, que vai substituindo partes do corpo por elementos cibernéticos. Sobrevive no limiar de ser mecanizada, e com isso ter uma capacidade produtiva superior à humana, mas ainda manter uma humanidade suficiente para que o seu output mantenha cunho individual e se afaste da mediania das produções das IAs que dominam os mercados. Uma história curta e tocante, sobre a essência da imaginação humana, o sonho das capacidades aumentadas, e a distopia de mundos subjugados aos interesses económicos.

Hot Moon, Allan Smale

O lado aventura pura cheia de adrenalina no espaço é temperado por uma excelente dose de ficção especulativa, muito bem informada. O livro é também uma história alternativa, que se pergunta o que teria acontecido se os soviéticos tivessem sido os primeiros a pousar na Lua, e os americanos não tivessem torrado dinheiro e vidas na guerra do Vietname, investindo esses recursos numa corrida espacial mantida ao rubro pela capacidades orbitais soviéticas. O autor fez muito bem o seu trabalho de casa, dando vida nesta sua ficção aos muitos projetos de veículos orbitais, estações especiais, módulos, habitats e veículos lunares que quer os engenheiros soviéticos quer os americanos propuseram, desenvolveram mas não saíram do papel.


Shroud, Adrian Tchaikovsky

Shroud representa uma pedra na engrenagem de expansão. Um ambiente incrivelmente inóspito, mas que alberga vida. Formas de vida que evoluíram em condições de pressão atmosférica tremendas e escuridão total, que se adaptaram à emissão de ondas eletromagnéticas como forma de sentir o mundo ao seu redor. Um ecossistema de criaturas cegas e surdas, que vivem no que para os humanos é uma cacofonia de radiação eletromagnética. Duas inteligências, a humana e a nativa do planeta, totalmente incompatíveis e sem forma de comunicar entre si. Num pormenor muito curioso, Tchaikovsky descreve como a vida alienígena consegue compreender as máquinas humanas, mas é incapaz de sequer reconhecer a vida humana que as tripula. Descobrir vida inteligente não representa um obstáculo para a estratégia organizacional. Pelo contrário, é até vista como mais um recurso para explorar. O problema, é que o contacto com os humanos abre novas perspetivas à inteligência alienígena, com resultados catastróficos, até que a coragem de uma das investigadoras sobreviventes permite encontrar uma forma de comunicação comum. Um livro intrigante, sombrio, aviso distópico sobre os excessos do capitalismo, e reflexão sobre a complexidade da intercompreensão.

Literatura:

Nó Cego, Carlos Vale Ferraz

Esta leitura não é confortável. Acompanhamos o dia a dia de uma companhia de comandos, homens que pelas mais diversas razões (na maior parte das vezes, por desespero numa vida agrilhoada na ditadura) se voluntariaram para um corpo especial preparado para as missões mais violentas. E violência não falta nas suas operações, entre as patrulhas, emboscadas e ataques a bases inimigas em que são envolvidos, como ponta de lança. O romance é brilhante e explosivo. Ao mesmo tempo um retrato da guerra colonial feito através das experiências dos soldados que nela combateram, suspeito que memória romanceada das experiências do seu autor, e uma reflexão sobre como a capa da civilização depressa desaparece na selva com uma arma na mão.


Breviário das Más Inclinações, José Riço Direitnho

Há uma certa base de romance de cordel no conto cruel de José do Risso, criança que nasceu com má sina e a herdar a sabedoria da avó para mezinhas curandeiras. A vida será trágica e curta, entrecortada com episódios de honestidade duvidosa, momentos em que o homem faz aquilo que tem de fazer, quer seja em resposta às pulsões do corpo quer do sentido pessoal de justiça. O que distingue a narrativa é envolver-nos num véu de misticismo tradicional e sobrenatural discreto. Não há fantasmagorias ou criaturas do demo, mas há um constante sentimento de assombro, de um mundo natural compreendido através de superstições milenares. A prosa é brilhante, daquelas que nos prendem às páginas, mas o que destaco da leitura é o não ter medo de tocar nas correntes subterrâneas por onde pulsa o lado mais remoto do caráter português.


Não Ficção:

Magnifica Humanitas, Leão XIV

Provavelmente o livro mais inesperado para aparecer nestas listagens, mas depois de tanta leitura de FC a imaginar o que seriam as consequências das consciências artificiais, agora é o momento de falar do que a IA nos está a provocar. O texto não é uma negação da tecnologia, ou um apelo à paragem do desenvolvimento da IA. Bem pelo contrário. A importância da ciência e tecnologia é sublinhada, e quanto à IA, é observado o seu potencial. O foco, e aqui o papado entra na trincheira partilhada por todos os críticos conscientes da IA, está na forma como esta tecnologia está a ser apropriada pelas piores forças do capitalismo - as que buscam a primazia do lucro acima de tudo, cilindrando os trabalhadores, as famílias, a sociedade, os recursos naturais, o ambiente, a nossa casa planetária comum. É uma revolta dupla, feita contra o asco perante este novo excesso de desumanidade, mas também pela frustração de ver o potencial libertador da tecnologia a ser cooptado para a opressão, quer a financeira, quer a politico-militar.


Lusitânia: A vida dos Cássios, uma família na Lisboa Romana, André Simões

Um mergulho didático e interessante no cruzamento da nossa história com a do império Romano. Através da ficcionalização da vida de uma família Olissiponense, somos levados a conhecer a fundo os tempos, tentando sempre olhar para o nosso recanto romano à beira-tejo, com os seus modos de vida, economia e governo. Apesar do enorme gosto deste livro em falar-nos dos romanos, não há nele o deslumbramento cego que demasiadas vezes se vê ou lê por aí quando se fala da grandeza do império e da sabedoria dos cidadãos. Não há pejo em mostrar-nos que os modos de vida e atitudes dos romanos são radicalmente diferentes das nossas, e nalguns aspetos que hoje consideramos direitos humanos elementares, são-nos repelentes. As suas atitudes perante a mulher, vista como útero para procriar e sempre submissa aos homens da família, são um óbvio exemplo. Ou, ainda mais gritante, a condição dos escravos, meros objetos sujeitos aos donos, em que só uma minoria poderia aspirar à condição de liberto (e mesmo assim não se livrava da tutelagem familiar dos seus antigos donos). Apesar disto, o livro tem uma perspetiva otimista, recordando que as pessoas comuns tentam vivera as suas vidas em equilíbrio.


Exit reality: Vaporwave, backrooms, weirdcore e altri paesaggi oltre la soglia, Valentina Tanni 

O livro constrói-se como catálogo de estéticas, mas também como trabalho de sociologia digital. Num meio criativo mutável, que vive dos fluxos dos sites, agregadores e redes sociais, a autoria e o comentário dissolvem-se, há que levar em conta os múltiplos clones que se agregam em tendências, e a voz dos comentadores torna-se geradora de perspetivas sobre os conteúdos. Exit Reality leva-nos num périplo pelas estéticas do vaporwave, backrooms e espaços liminais, 'cores que vão ao âmago de estéticas intrigantes, e finalmente, os espaços de magia, onde os criadores parecem dissolver as barreiras entre a vida real e o imaginário por intermédio dos espaços digitais. Se bem que, apesar do título, estas estéticas não representam fugas à realidade. Antes, são reações à normalidade, entre a nostalgia e a procura de visões tangenciais, e no fundo representam uma fascinante ebulição criativa que usa o digital para criar novas visões, iconografias e estéticas desafiantes.

README: A Bookish History of Computing from Electronic Brains to Everything Machines, W. Patrick McCray

Pode parecer contra-intuitivo, olhar para a história da computação sobre a perspetiva dos livros. Afinal, computação é tecnologia, intersectada com impactos sociais, e temos o hábito de pensar mais nos elementos tecnológicos do que na literatura. O que McCray demonstra é o oposto. O venerável livro, como objeto e como meio de arquivo e divulgação de informação, tem sido um companheiro fundamental da evolução da computação. A grande razão é a nossa sede de conhecimento, e mesmo nos dias em que o livro como objeto físico se dissolve no digital, continua a ser o meio primordial e privilegiado para concentrar e sintetizar informação, mesmo em campos tecnológicos onde sabemos que o tempo que medeia entre escrever, editar e publicar um livro pode significar que quando chega aos leitores, já está desatualizado sobre a vanguarda da tecnologia que aborda. Mas há algo mais profundo em jogo - primeiro, o livro enquanto analista de grandes tendências. Não consigo terminar esta leitura sem a perceber como um elogio ao papel do vetusto, mas sempre eficaz, livro. Quer como meio de transmissão de conhecimento, mantendo-se relevante e essencial mesmo na nossa contemporaneidade onde há tantas outras formas de o fazer. Quer, também, como elemento de prestígio, inscrevendo a computação na profunda tradição simbólica do livro.

Comics e Banda Desenhada:


Assorted Crisis Events, Deniz Camp, Eric Zawadzki, Jordie Bellaire, Hassan Otsmane-Elhaou

Dos comics que ainda vou lendo, este surpreendeu-me pela sua não linearidade. Passa-se num mundo onde colidem realidades alternativas, passados, presentes e futuros, mas o tom do comic não é de iminente apocalipse ou aventura surreal. Cada edição centra-se em histórias indivuais, personagens que se perdem no meio da multiplicidade, ou que saltitando entre múltiplas versões das suas vidas.


Dylan Dog: Memórias do Invisível, Tiziano Sclavi. Giampiero Casertano 

Celebrando os 40 anos de uma das personagens mais fascinantes do fumetti (sou, claro, muito suspeito e nada isento nesta caracterização), a editora A Seita traz aos leitores portugueses uma das suas grandes histórias. É um mergulho no melhor do género, à descoberta do génio narrativo de Tiziano Sclavi e do traço clássico de Giampiero Casertano. Memórias do Invisível cimentou o meu profundo gosto por Dylan Dog. Poderia ser uma simples história slasher de caça ao assassino nas ruas de Londres, mas é muito, muito mais que isso.

Atrahasis, David Soares, Sónia Oliveira

Uma história críptica, com múltiplas camadas de sentido. Somos levados à antiga mesopotâmia (como o título indica, e uma história que recria em linhas gerais as raízes do mito sumério que nos legou o mito cristão de Noé) num mergulho negro em mitos que nos escapam, sensibilidades e modos de pensamento que não compreendemos, e uma visão do tempo que não corresponde à nossa linearidade. Entre os muitos elementos brilhantes deste livro, está a percepção que ao tentar entrar na mente dos nossos antepassados longínquos, somos confrontados com a natureza quase alienígena, para nós, dos seus modos de ver e entender o mundo. Um livro que desafia o simplismo conceptual, como é habitual na obra deste autor.

Tales from Nevermore Manuel Monteiro, Pedro Nascimento

Pedro Nascimento e Manuel Monteiro oferecem-nos uma vénia profunda e excelente ao conto curto de terror gótico, bem como à estética magistral da EC comics e Warren nos anos 60 e 70 que se tornou um dos marcos maiores da iconografia do género. As histórias são curtas, incisivas na sua ironia negra, e soberbamente ilustradas. Segue o formato da antologia de terror, com um narrador que nos apresenta os contos e termina tecendo considerações morais, ou amorais, sobre o que acabámos de ler. O tom de homenagem a todo um género é total, entre a estética visual, narrativa e linguística, formato, ou vénias óbvias como apelidar um corvo de Vincent. Há um toque de intrigante humor negro no livro, especialmente quando os autores brincam com a publicidade infantil que também fazia parte dos velhos comics de terror.


Espírito da Aventura, Kenji Tsuruta

Espírito da Aventura reúne contos interligados entre si. Ficção científica pura, mas féerica, pejada de personagens obcecadas com as suas investigações em tecnologias etéricas ou de teletransporte. Não são histórias a pensar na especulação verosímil. Podemos esperar velhotes que vão a Marte de dirigível, aventureiros obcecados em descobrir os tesouros dos avós nas cidades submersas, ou formas de projeção que permitem ir à Lua, sem na verdade ter de sair da Terra. Como podem perceber, não se trata de FC clássica, mas sim da sua apropriação poética. O traço sublinha isso, com um elegante barroquismo algo vitoriano na sua estética, sem que se tenha uma noção concreta de tempos passados ou futuros.

Umbra #6,  Filipe Abranches 

O sexto número da revista Umbra mantém a elevada qualidade criativa e narrativa, trazendo-nos histórias desafiantes e bem tecidas. Uma delas recupera o trabalho de um que já não está entre nós, ficando a promessa de continuidade a estas pranchas intrigantes.

domingo, 11 de outubro de 2026

URL


Believe it or not, this isn’t even all of the hospital space station art out there!: Saúde espacial. 

The Art and Beauty of Blade Runner: Recordar o impacto visual de um clássico do cinema de FC, através da wayback machine. 

The Man Who Saw Humanity From Two Billion Years Away: A próxima edição da coleção de ficção científica clássica da MIT Press é de peso, e este excerto da introdução é uma excelente análise à obra de Olaf Stapledon. 

New From Cyriak: Sea Life: Nos dias do AI vídeo slop, é refrescante rever o trabalho de um animador digital que sempre se distinguiu pelo profundo surrealismo das suas criações. 

LATE: 2000 AD And Judge Dredd Delayed After Printer Goes Bust: Não destaco a notícia por si, é por um detalhe: a lendária revista britânica vai em breve chegar ao seu número 2500. É obra! 

Why “Star Trek” Still Resonates 60 Years Later: Uma série de ficção científica popular que se atreveu a quebrar o modelo da aventura simplista, e se atreveu a abordar a complexidade moral e o progressismo. 

Hong Kong’s Independent Bookstores Face Severe Pressure From Chinese Authorities: É bom recordar que, pese embora o seu fulgor, a China é um estado totalitário. Onde algo que, para nós, é tão natural que nem pensamos nisso, como ler o que apetece pode ter sérias consequências.

On the calculation of Volume – Vol.1 – Balle: Um livro que está a deixar muitos leitores intrigados, dada a frequência com que o vejo sugerido.

There Is a Rodney Dangerfield Board Game: Não há respeito. É que não há respeito! (Se conhecem este comediante clássico algo obscuro, percebem a piada do não há respeito).

We Are Living in the Fantasy World of 13-Year-Old Boys: Não, o problema não é a Ficção Científica - e o artigo aborda bem isso. O problema está na sua apropriação no sentido literal por estes sociopatas, incapazes de compreender a lógica dos cenários da FC clássica. Pessoas que apenas se inspiram nos adereços, ou ignoram totalmente as reflexões sociais que a FC clássica fazia.

Here are the winners of the 2026 Hugo awards: Ultimamente consigo acertar sempre ao lado destes prémios. Eu apostaria em Adrian Tchaikovsky ou Annallee Newitz, mas enfim, se os meus dotes oraculares fossem de confiança, faria apostas em casinos.


Gondolas in retro sci-fi art: It’s a subgenre of 70s sci-fi art: Um pouco de venezianismo espacial. 

Meta acepta pagar 18.000 millones de dólares para evitar ser juzgada por el impacto de sus redes sociales en adolescentes: Parece algo positivo, mas todos sabemos como é que isto se vai processar. As indemnizações são uma gota de água no oceano de lucros, isto, caso as paguem, que aqui a estratégia é sempre protelar. Já as salvaguardas para melhor proteção das crianças e jovens, suspeito que não passarão de promessas. A Meta não estaria onde estaria se o seu modelo de negócio não se baseasse na estimulação do vício e uso intensivo de mecanismos de adição. 

Pluralistic: The age of disinvention (25 Aug 2026): Cory Doctorow, como sempre excelente, a explicar o que pode correr mal quando deixamos que empresas adquirem monopólios sobre tecnologias - essencialmente, um mundo sem inovação, uma economia de rentismo digital que reduz as opções dos utilizadores. 

Logging In Was Never Supposed to Be This Complicated: Ah, não sou só eu que fico com a suspeita que todos aqueles sistemas digitais e apps que supostamente nos iam simplificar a vida, na verdade complicam. A saga de palavras-passe passou de preocupação de segurança a empate profundo no dia a dia. E isto recorda-me um dos empates favoritos do dia a dia - ver, na fila do supermercado, pessoas a demorar eternidades a pagar as suas contas porque encostaram o telemóvel, a app não funcionou, tiveram de ligar, logar, voltar a encostar, mas deu erro, e ao fim de várias tentativas lá conseguem pagar com a solução supostamente rápida e conveniente dos pagamentos via telemóvel. Eu, mais tradicionalista, simplesmente encosto o cartão multibanco. 

Are we heading for an AI Hiroshima?: Se calhar, precisamos mesmo de uma catástrofe causada por má aplicação da IA, para perceber que temos mesmo de olhar atentamente para esta tecnologia, pelos seus impactos ambientais, sociais e culturais. 

EEUU está experimentando ya con el futuro que nos espera a todos: precios personalizados en los billetes de avión: E aqui está um belíssimo exemplo de como a IA nos pode ajudar a piorar a nossa vida - ser usada para acelerar a análise de perfis de utilizador, e com isso auxiliar as companhias a implementar preços dinâmicos, que nos garantem sempre ser do nosso interesse pelas condições vantajosas que prometem oferecer. Claro, a experiência com sistemas de preços dinâmicos mostra sempre o contrário - quando maior a necessidade do bem ou serviço, mais a empresa nos cobra, aqui com a agilização que a IA consegue. 

How to encourage smarter AI use in the classroom: Há aqui dicas interessantes. Proibir não resolve, soltar sem balizas, muito menos. Também não há receitas, a integração faz-se à medida de cada professor e dos projetos que implementa com os seus alunos. Pode nem sequer fazer sentido usar IA, e há que assumir isso. 

Kids outlearn AI—and we still don’t know why: É a questão da eficiência. Enquanto a IA requer um investimento enorme de dados e processamento para aprender qualquer coisa, o nosso cérebro faz isso com uma enorme eficácia de forma natural. Por muito que gostemos de especular o contrário, os nossos sistemas de predição probabilística não se aproximam do que é a verdadeira capacidade de aprender e raciocinar. 

Businesses Go Viral for Making Signs Without AI: Pessoalmente, duvido da honradez destas declarações. Se o mood global fosse pró-IA, estes mesmos anunciantes que afirmam que fazem publicidade 100% humana certamente fariam o oposto, capitalismo oblige. Mas não estou a menorizar esta reação. É legítima, e espelha o nosso desencanto com uma tecnologia fantástica, mas que nos está a ser imposta a torto e a direito por empresas cujos donos, para além de terem escrúpulos nulos, são famosos pelo seu desligamento da realidade. Ou acham mesmo que ejaculações públicas dos seus sonhos húmidos de desempregarem trabalhadores são a maneira mais eficaz de nos convencer dos benefícios da tecnologia que nos impingem? Já para nem falar da visão sociopata de uma economia que serve para aumentar as suas riquezas e deixa de lado cada vez maiores fatias da população. 

With the backlash to data centers, Flock and AI glasses, a mass opposition to big tech is underway. Silicon Valley is in denial: Recordam-se dos tempos em que Silicon Valley era visto como algo positivo, um ideário de progresso tecnológico que, embora capitalista, iria melhorar a vida das pessoas e a sociedade? Entretanto vieram as redes sociais com os seus algoritmos de otimização, a merdificação de serviços em que se paga mais por cada vez menos, a economia da vigilância digital, o abuso dos dados pessoais, e agora uma IA que suga os dados coletivos da história humana para nos dar em troca o abuso dos recursos naturais e promessas de arrasar com o nosso modo de vida. Qualquer visão otimista derroca face a esta barragem de malefícios. 

Raised on AI: Ou, perceber que os serviços que nos prometiam novas formas de expressão e conexão se tornaram cancros sociais. 

A Turning Point in AI Writing: Para não variar, os apologistas da IA em toda a linha partem de um erro conceptual básico - confundir criação com conteúdo. Nesta perspectiva, qualquer texto (ou imagem, ou vídeo) pode ser automatizável, porque o seu fim último não é o deixar uma marca cultural, ajudar a refletir ou explorar pontos de vista, mas sim encher espaço nos media digitais. No fundo, para esta gente, artigos, vídeos, são essencialmente lorem ipsum inteligível de enchimento e geração de cliques, uma mecânica automatizável. O que eles se esquecem é que talvez haja algo mais importante do que o enchimento de conteúdo - a lógica de um artigo, a contribuição que dá para o continuum cultural. Francamente, se leio um artigo é porque me interessa perceber um dado ponto de vista, e tenho zero interesse em ler a aproximação probabilística das visões do autor geradas por um llm, por bom e bem treinado que seja. Não é esse o objetivo final da imprensa, da comunicação social (bem, sou tão ingénuo, não sou?). 

Russia Now Using Fully AI-Controlled Drones to Kill Ukrainian Civilians, Powered by Nvidia Chips: Este não é o futuro que queríamos, mas é o que temos. Confesso que não esperava ver as placas Jetson (uma excelente plataforma de desenvolvimento para IA e não só) a ser usadas para isto. E, já agora, a Nvidia continua a valorizar-se em bolsa. 

La IA prometía reducir la jornada laboral de los empleados. Por el momento ya ha conseguido tres horas libres a la semana: Dica de quem já observa (e lida com ele no contexto educativo) o mundo da tecnologia há uns anos - não acreditam na promessa de que uma dada tecnologia vai reduzir as nossas horas de trabalho. A história mostra o oposto, porque quando as ferramentas que usamos tornam a nossa produtividade mais eficiente, as organizações encontram sempre forma de sobrecarregar os trabalhadores com mais trabalho. 

Grok Not Only Generates Child Porn but Was Also Trained On It, New Lawsuit Claims: Há um pormenor importante nas ferramentas de IA - geram resultados a partir dos seus modelos de treino. Ou seja, se o grok é exímio a gerar imagens de pornografia infantil, as probabilidades de ter sido treinado com este tipo de imagens são elevadas. 

As redes são nossas: Há que admirar o espírito otimista. Também partilho dele, apesar da experiência de vida digital nos ter contrariado tantas vezes as esperanças. A verdade é que todas as tecnologias prometedoras são apropriadas pelos interesses financeiros, e a promessa de futuro melhor é constantemente subvertida por empresas que visam pouco mais do que extrair o máximo possível de lucros. 

Cambié mi móvil de 1.500 euros por uno de 40 euros que ni siquiera tiene WhatsApp. Mereció la pena: Por dentro de uma típica análise a um telemóvel básico, uma visão interessante - a necessidade de não se estar constantemente disponível, pronto a responder a mensagens e notificações. É algo que também sinto, o cansaço generalizado com a constante distração trazida pelas economias de atenção. Não faria algo tão radical como deixar de parte o meu smartphone, mas já há muito que implementei medidas como restringir notificações, e uma muito simples: quando estou na rua, em passeio, no trânsito, numa atividade, só ligar os dados móveis quando estritamente necessário. Não é desligar ou alienar, é controlar quando e como se gere as solicitações da nossa atenção. 

Doctors Just Used AI to Perform Brain Surgery: Uma experiência muito interessante, em que a IA auxiliou cirurgiões numa operação muito complicada. 

As That Whole ‘Tilly Norwood’ Thing Peters Out, AI Acting Achieves Unsettling Ubiquity on Chinese Phone Screens: A minha reação a isto é, habituem-se. Isto vai alastrar. Todos os produtores de conteúdo banal em modo caça-níqueis já perceberam que se safam a usar IA generativa. Sai-lhes mais barato, e os seus públicos-alvo são o nível mais baixo da cultura pop. E, no fundo, temos um precedente para isto. Recordam-se quando os canais de televisão diminuíram o investimento em ficção e informação para apostar nos reality shows? Seguiram exatamente o mesmo raciocínio - sai mais barato pegar num grupo de zés-ninguém com ilusões de celebridade, metê-los numa casa e filmar as suas interações, do que produzir séries, cinema, documentátios ou jornalismo de qualidade. Preocupamo-nos, legitimamente, com o AI slop, mas esquecemos que já há muito que os media e a cultura popular nos mergulharam em slop. 

A Society of Cheats: Sim, é mais um artigo catastrofista sobre IA e educação. O problema, é que esta tendência que o artigo identifica e muito bem, é que isto não é causado pela IA. Pelo contrário, a IA está a por a nu algo que sempre existiu: " once they receive their dubious diplomas, they will enter the “real world” with all the qualities of a criminal syndicate: a knack for cutting corners, a disdain for community rules, and an assumption that a spirit of integrity, and the sacrifices it assumes, is the reserve of suckers and wimps". 

Here’s how we’re all going to die: Vibe coding de vírus. Não digitais, mas biológicos. Este cenário é excelente para tirar o sono. 

Agency and Agents: Um olhar para as crescentes capacidades dos agentes, que levanta questões sobre a sua segurança e utilidade. 

AI Efficiency Could Cost Us the Next Generation of Experts: Duas notas importantes. Primeiro, recordar que um especialista é alguém que cometeu erros no passado e aprendeu com eles. Se a automação corta esse espaço de aprender no terreno, perde-se esse desenvolvimento. O artigo foca-se mais noutro aspeto, o da complacência induzida pelo monitorizar de sistemas automáticos, que quando falham, os humanos já perderam as competências que lhes permitiriam resolver os problemas e falhas. Ou seja, a introdução de ineficiência é uma forma de manter quer a segurança do sistema a longo prazo, quer as capacidades das pessoas que usam o sistema.

“Zlibrary my beloved”: Anthropic staff chats extolling piracy cited in Sony suit: É aquela ironia. Se for um de nós a sacar, é criminoso e danoso para a estrutura social. Como é uma empresa, é empreendedorismo e deve ser encorajado.

Morocco: Passados chocantes. 

Why Did John Ratcliffe Go to Moscow?: Não se sabe, e fico com a suspeita que caso se venha a saber o que é o diretor da CIA foi conversar com o seu homólogo russo, é porque tudo correu pelo pior. 

Fifty Years of the MB-339, the Iconic Italian Jet Trainer: E quem já viu atuações dos Frecce Tricolori, sempre extraordinárias, viu o que esta aeronave é capaz. 

¿Y si Nepal es solo el principio? 1.900 millones de personas viven bajo el permafrost del Himalaya derritiéndose: Quando vi as impressionantes imagens do deslize de terras que avassalou o vale nepalês, confesso que senti uma intuição - há uma relação entre esta catástrofe e o aquecimento global. Claro, ter intuições é uma coisa, dados que sustentem a ideia outra, e este artigo mostrou-me algo que não sabia. O problema não está nas terras e glaciares dos Himalaias, mas sim nas camadas de permafrost que os sustentam. Não se sabe qual o estado deste gelo subterrâneo na zona, mas há um indicador interessante. Os chineses construíram uma linha de alta velocidade até Lhasa, sustentada pelo permafrost do planalto tibetano. Aí, têm sensores que medem a temperatura, e os dados são apoquentadores, a sua temperatura está cada vez mais elevada. Vai haver mais catástrofes destas. 

No es país para niños: en Barcelona, los chavales que juegan al fútbol en calles peatonalizadas están causando polémica: Fecham-se as ruas ao transito de veículos para tornar as localidades mais humanizadas, e o que acontece é... as pessoas queixam-se que os miúdos vêm para a rua brincar. É óbvio que sei até que ponto brincadeiras de miúdos podem correr mal (ser professor é o meu trabalho, recordem-se), mas este tipo de atitude é sintomático de algo mais complexo, de ideias de habitabilidade de espaços urbanos que só pensam nas visões bucólicas das classes média-alta, com os seus jardins, esplanadas e lojinhas onde se deslocam a pé, e se esquecem da real diversidade das populações. 

This El Niño Will Be Unlike Any in the Past Eight Decades: Se o El Niño já é um ciclo natural com consequências complicadas, os efeitos das alterações climáticas estão a torna-lo mais intenso. 

Cerca de Ceuta hay un islote de 660 metros habitado por 11 militares y un inusual molusco. Y casi nos lleva a una guerra con Marruecos: Um olhar para algo que poderia ser uma curiosidade, resquício dos tempos coloniais, mas que apesar do seu diminuto tamanho é um ponto essencial para controle do estreito de Gibraltar. 

How Our Gamification Culture Kills The Spirit Of Play: Certeiro, e a obrigar a pensar para todos os professores que adoram este tipo de estratégias. Acima de tudo, o jogo é lúdico, é aí que está o seu poder. Espartilhá-lo como forma de atingir objetivos é mais um reflexo de como o utilitarismo nos desumaniza, onde ações que não tenham valor económico não valem a pena.

Ceuta era de Portugal. El problema es que nadie la reclamó y Felipe II se la metió en el bolsillo: Recordo, naqueles dias em que o enclave parecia estar a ser avassalado por uma óbvia manobra de desestabilização marroquina, a profunda ironia que como um momento chave da história portuguesa ainda hoje dá problemas. A ironia era especialmente sublinhada por estar em Itália nesses dias, cujo governo - e imprensa, de extrema direita empolaram o acontecimento como se fosse uma avalanche que ia arrasar a UE. Não estou a exagerar, era esse o tom da cobertura televisiva e em jornais, quase sem vozes que se atrevessem a contrariar. E quando se atreviam, eram logo silenciadas por imenso ruído (a sério, o nível de civilidade de um debate televisivo italiano faz aqueles em que por cá participam os broncos cheganos parecer momentos de razoável conversa civilizada, é assim tão mau).

sábado, 10 de outubro de 2026

Lost+Found

 

















75 anos a manter estas aeronaves no ar, é obra. Não resisti a dar um pulo a Sintra, para ir ver os aviões.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Continentes Perdidos


L. Sprague de Camp (1989). Continentes Perdidos: A Atlântida na História, na Ciência e na Literatura. Lisboa: Livros do Brasil.

Não se preocupem, não estou a entrar nos campos lamacentos dos ocultismos e mundos perdidos. Mais do que o tema, despertou-me a atenção neste livro o nome do seu autor. Conheço mal a sua obra, apesar de ser um dos nomes clássicos da ficção científica. Vendo que era um ensaio essencialmente literário, e um tema que apesar de tudo, tem o seu apelo, arrisquei a leitura.

A impressão que fiquei durante a leitura é de uma intensa pena pelo autor. O trabalho que fez, analisando a ideia original da Atlântida e o contexto mais global da antiguidade clássica, passa também pelo mergulho nos oceanos de literatura sobre o tema. E aí dá pena. De Camp mergulha a fundo em todos aqueles livros que, felizmente, se quedam esquecidos nas bibliotecas, boa parte deles alucinações bem intencionadas, outros, óbvias fabricações por parte de escroques sem escrúpulos que queriam captar seguidores para as suas seitas. É quase inacreditável como uns parágrafos incompletos de Platão foram tão inspiradores de tanta bizarria, ideias disparatadas, mitos insanos e, também, justificações para ideários de superioridade racial. A imaginação humana não tem grandes limites, de facto.

A coisa não melhora quando de Camp chega à ficção. Conhecedor do pulp, da tradição dos romances fantásticos do século XIX e XX, mostra-nos como o fascínio da Atlântida não é garantia de qualidade literária, bem pelo contrário. 

Um ordálio duro, mas feito com forte sentido crítico. O olhar é de escritor, atento à consistência histórica e científica, analisando o mito atlante sabendo que não é explicável, tentando traçar um detalhado mapa da forma como intrigou o imaginário de diferentes gerações.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

I Grande Enigmi di Martin Mystère #39


Alfredo Castelli, Giovanni Freghieri, Alessandro Chiarolla (2026). I Grande Enigmi di Martin Mystère #39. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Confesso, da panóplia de personagens Bonelli, é Dylan Dog quem me leva o coração de fã. O western clássico de Tex nunca me atraiu, o weird western de Zagor também não, e o policial procedimental de Julia toca num género que não faz as minhas preferências. A FC de Nathan Never tende a diluir-se em aventuras que têm mais de policial do que de FC. Infelizmente, Martin Mystère segue pelo mesmo caminho, apesar de ter à partida todos os ingredientes para agradar: um personagem principal erudito que se dedica a investigar estranhos mistérios, acompanhado pelo seu fiel neandertal (não é uma piada, quem conhece a série, percebe). Alfredo Castelli, o seu criador e principal argumentista, tem em comum com Tiziano Sclavi o ser um autor que sabe contar histórias intrigantes, e misturar nelas uma forte erudição da cultura do fantástico, polvilhando-as de referências mais ou menos subtis. No entanto, apesar de todos estes elementos, o personagem nunca me tocou. 

Desconheço se o personagem teve continuidade após o falecimento de Castelli, dado que ao contrário dos restantes da Casa Bonelli, Martin Mistère estava claramente associado ao estilo do seu criador. Não sei se um Mystère sem Castelli funcionaria, tal como um Dylan Dog funciona bem sem Sclavi - claro que com Sclavi, funciona genialmente. Suspeito que neste personagem, a editora esteja a viver de reimpressões. O mais recente que encontrei aquando da minha curta estadia italiana em Agosto é claramente uma reimpressão, e feita de maneira algo desrespeitosa - colige três histórias, uma sendo a conclusão de histórias publicadas no número anterior, e as restantes um arco de aventuras que é... concluído no próximo número. 

A primeira é deliciosamente surreal, misturando duendes, fadas, smurfs e outras criaturas minorcas com que Mystêre terá de se deparar. As restantes seguem o mistério de uma criança sobredotada, com uma espécie de cérebro computacional que lhe dá acesso a todo o conhecimento, resultado das experiências de um cientista louco claramente decalcado das personagens de Vincent Price (entre o nome "Phybes" a referenciar uma das personagens clássicas do ator americano e a caricatura das feições de Price aplicadas ao vilão, não é exatamente uma referência subtil).

Confesso que nesta viagem, senti uma certa perda de importância da BD Bonnelli. Não encontrei mais do que as edições do mês em banca, e nas livrarias, nas secções de BD reparei na quase ausência de reedições dos seus personagens, quer em paperback quer em capa dura e edições deluxe. Talvez o seu tempo esteja a passar? Talvez tenha a ver com a zona que visitei, dado que Florença é uma cidade turística e a oferta cultural reflete isso?

domingo, 4 de outubro de 2026

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Art by James Cameron: Space opera. 

Rob Liefeld Says "Thank You": O estilo deste ilustrador, com a sua propensão para musculatura impossível e fetiche por bolsas ao cinto, sempre foi considerado ridículo. Mas, e se esta estética do exagero fosse na verdade uma crítica inconsciente às óbvias patetices de um dos mais intelectualmente indigentes géneros de BD, os comics de super-heróis? 

5249) "Backrooms" e os espaços liminares (19.8.2026): Certeira, esta análise a Backrooms. Não é um filme perfeito, rende-se a alguns lugares-comum batidos, mas atreve-se a vir buscar uma nova estética para o cinema. 

MATTE & EFFECTS FILMS CELEBRATED: Part Thirteen: Mais um mergulho profundo na arte dos efeitos especiais pré-digitais, como sempre com excelentes surpresas destas pinturas de cenário. 

An Early History of Space Stations: The Brick Moon Made Real: Recordar a génese e evolução da ideia de estação espacial. 

The Best Psychological Horror Books, recommended by Tabitha Potts: Porque os universos mais aterradores estão, por vezes, encerrados na nossa mente. 

Did Smartphones Really Kill Reading?: Mais uma achega para o debate sobre o declínio nos hábitos de leitura. Com um dado interessante - se no passado se lia imenso, é porque não haviam outros meios de entretenimento. Sem rádio, televisão, e agora internet, ler era uma forma de distração de massas (e os fãs do jornalismo amarelo sabiam isso muito bem).

SOURCE: x-ray delta one: Visão interior de uma lenda da aviação. 

Teachers Warn That Students Are Losing the Ability to Think as They Lean on AI for Everything: Pessoalmente, não partilho deste ponto de vista. Não é a IA que está a provocar declínios intelectuais. Estes sempre existiram, a maioria dos que estudam não o faz por vontade de conhecimento, mas sim por obrigação formal. A sua curiosidade intelectual esgota-se no marrar para passar no teste, e fazer a cadeira/disciplina com o menor esforço possível. Sempre foi assim. O que a IA está a fazer é a colocar isso a nu - se antes da IA tinha de desenvolver um esforço mínimo, agora têm a ilusão que nem isso é necessário. E isso não é uma história nova, nos primeiros tempos da internet surgiu a praga educativa dos trabalhos académicos que eram cópias diretas de páginas web; a IA veio até prejudicar um modelo de negócio, o dos chamados paper mills, serviços empreendedores que ofereciam, por um preço, todo o tipo de trabalhos académicos para os estudantes colocarem lá o nome e entregar como seu. Na educação, a IA incomoda porque está a mostrar uma das suas verdades ocultas - a desconexão entre a premissa educativa que todos querem aprender, dar o seu melhor e ampliar os seus conhecimentos e capacidades, e a realidade da falta de interesse da maioria, que faz a escolaridade porque é obrigatória, seguindo alguns para cursos superiores porque o canudo lhes dará acesso a empregos que irão exercer com a mesma displicência como a quando eram estudantes (ou acham que o corporate speak é uma marca de elevada intelectualidade?). Obviamente, não digo estas coisas na sala de professores, porque estou a desdizer um dos pilares sacrossantos da teoria educativa. 

Are You Sure You Want a Car With a Giant Touch Screen?: Ainda mitificamos o carro como o apogeu da mecânica, mas na verdade hoje são essencialmente computadores sobre rodas, pejados de chips que controlam sistemas que vão da motorização ao apoio à condução. 

Teen Boys Are Using Meta Glasses to Harass and Bully Girls at High Schools and Middle Schools: Para surpresa de ninguém, esta tecnologia está a revelar-se perfeita para os palhaços da turma, os gozões e os invasores de privacidade. 

GIMP 3.3.2 estreia novo formato de ficheiro: Confesso alguma curiosidade, com esta renovação do clássico GIMP. 

Another Pot of Paint Thrown in the Public’s Face: Este artigo ilustra muito bem a ambiguidade que se sente ao falar de arte e IA. A proliferação de slop, os maus usos, as questões de apropriação do trabalho de criadores, os abusos das empresas de IA, e o franco mau gosto do dilúvio de conteúdos gerados por IA que entopem as redes causa uma óbvia reação negativa, que é muito compreensível. O problema é que inquina a discussão, e quando a IA é usada com seriedade, aplicando as suas valências a reconstruções academicamente válidas, ou a explorar novas vertentes visuais, não nos conseguimos abstrair de toda a carga negativa. 

All our neighbors worked for those firms: Eles sabem bem o que fazem. Por eles, entendam-se os executivos e trabalhadores das empresas das redes sociais, que conhecem muito bem as ferramentas que desenvolvem e os mecanismos aditivos de viciação que implementam e afinam para garantir o crescimento das plataformas. 

The Results of Middle and High School Students Using AI Are Extremely Ominous: Sem grande surpresa. Se os estudantes desenrascam os trabalhos de casa com IA, claro que não vão adquirir a prática e a aprendizagem que lhes permitem safarem-se em exames. Se bem que, claro, o problema central que a IA está a revelar é que as premissas românticas dos sistemas de ensino não se refletem na realidade que motiva aqueles que os frequentam. 

You Gotta Want It: No fundo, é isto, o motor da verdadeira aprendizagem - "Digital or analog, the common ground here is that we all thought that some project was cool enough to warrant the sweat of learning enough to do it. Good instructions are helpful of course, and having the parts on hand never hurts. But it’s the promise of making something that you really want that I think underlies all good first projects." 

AI-Generated Children’s Stories Contain Bizarre Patterns: Novamente, algo que não surpreende. Recordem-se que a IA generativa dá-nos o mediano estatístico da informação que contém. Claro que irá sublinhar e exacerbar estereótipos, lugares comuns, padrões banais e vieses. 

Dr. Dre Says He Uses AI to Produce Songs: Não se surpreendam com isto. Diria até que há mais gente a usar ferramentas de IA generativa, mas não o admitem publicamente, por saberem que serão crucificados por isso.

Debates over AI consciousness are a trap: Ora nem mais. Para além de ser um tipo de especulação que nos distrai dos outros problemas que a IA traz, tem ainda o condão adicional de desresponsabilizar quem cria os algoritmos pelas consequências dos erros e problemáticas.


AIRPORT (1970): Um pouco mais acima e fica-se em LEO.

Están llegando soldados rusos en muletas al lugar más siniestro de Ucrania. Y el problema no son los drones, es la misión que tienen: Sempre foi uma velha tática russa, tratar os seus soldados como carne para canhão. Colocar soldados feridos e incapacitados na linha da frente, em óbvias missões suicidas, está em linha com essa prática. 

European Central Bank Warns That AI Crash Is Looming: Até o sisudo BCE observa que algo não está bem com a excitação excessiva com o investimento em IA. 

"Me apunto al torneo de farmear aura": miles de chavales están poniendo a prueba su carisma con una tradición milenária: Vá, não façam essa cara. Cada geração tem os seus momentos de absurdismo, em que se embrenham em comportamentos competitivos bizarros. Terão de me perdoar o falar à idoso, mas no meu tempo de criança, recordo o valor que de dava às proezas de malabarismo com iô-iôs (aposto que nem lembram do objeto), com direito a transmissões televisivas, campeonatos e vedetas exímias em desafiar a gravidade. Mais tarde, quando me tornei professor, assisti ao regresso do diavolo, um brinquedo medieval que os meus alunos adoravam usar para arrojados malabarismos. Farmar aura é apenas a versão mais recente deste tipo de tendências. 

Europe cancels planned upgrades for Ariane 6 rocket: O Ariane tem sido um sucesso, mas a tecnologia de foguetões não reutilizáveis é economicamente insustentável. 

En 2012, Nueva York levantó un parking para descubrir un río enterrado durante décadas. En seis meses, creó un inmenso hábitat acuático: A importância do rewilding urbano, que para além dos benefícios ambientais, humaniza e dá vitalidade aos espaços das cidades. 

Iran Unleashed: A aventura militar americana revelou-se tão desastrosa, que conseguiu dar novo fôlego a um estado pária cujo governo é odiado pela sua população, reforçando o seu poder regional. 

El mapa que refleja en cuántos países es legal el matrimonio infantil. Respuesta: tres veces más que los países que permiten el matrimonio gay: Quando se perguntarem para quê isso do orgulho Gay ou de celebrar a diferença, atentem nisto. Há mais países onde é legal casar com meninas, que é como sabemos comportamento masculino irrepreensível, do que poços de decadência que dão aos invertidos o direito de viver como pessoas normais (caso não tenham percebido, esta frase está escrita em tom de ironia). Simplificando: pilinhas com pilinhas nem pensar que é contranatura, mas pilinhas e meninas adolescentes, é na boa e santificável pelo matrimónio. 

This page from one of my history books looks like a lesbian utopia: Prometi a mim próprio que não iria falar do fait divers de silly season que foi o movimento das influencers conservadoras. Claramente um bem medido golpe de publicidade, aproveitando a acalmia estival para nos meter, outra vez, a falar da extrema direita e dos seus perigos. Não consigo deixar de ver estas iniciativas como mais do que golpes de publicidade, pensadas para atrair engajamento através da cultura do escândalo, apesar de saber que o perigo de retrocesso é bem real. E daí este destaque. Se clicarem, vão dar com ilustrações da Life Magazine, que em 1914 satirizava essa bizarra pretensão que era conceder direito de voto às mulheres. Façam as contas, e pensem. Estes direitos que hoje damos por adquiridos, e que até aceitamos que fiquem sob ataque dos oportunistas da extrema direita conjugados com os obscurantistas das religiões, são recentes. Muito recentes, e nem há um século considerados ofensivos, perigosos e denigradores. 

Entre 1974 y 1991, un asesino en serie mató a diez personas. Le pillaron en 2004 por un .doc borrado en un disquete: Policiais procedimentais e true crime não são de todo a minha onda, mas não resisto a partilhar esta história, onde um misterioso serial killer foi apanhado graças a um detalhe do licenciamento do word. Moral da história: usar sempre Open Source! 

Saab reveals concept of future unmanned fighter jet: A empresa sueca não está adormecida com o sucesso do Gripen, e, num mundo ocidental que procura alternativas à tecnologia militar americana, aposta no avanço dos seus projetos.