Uma breve fuga a Lisboa, em modo de picar o ponto no Motelx. Recordando os velhos tempos em que era frequentador mais assíduo do festival e fazia maratonas de cinema. Tempos em que o arranque de ano letivo se resumia a algumas reuniões e preparação, e não a sobrecarga de trabalho que já se iniciou antes do final das minhas férias (a sobrecarga de trabalho e responsabilidades que me tem sido despejada em cima são razões mais que suficientes para terminar a carreira na minha escola e transferir-me para outra, e já o devia ter feito nos concursos do final do ano passado, mas hesitei). Adiante, os horrores do real não têm de interferir com a fruição dos arrepios de terror.
Consegui dar um salto ao festival, e dado que este ano se prolonga por dois fins de semana, vou tentar repetir a dose.
A Virgem do Lago da Pedreira, Laura Casabé
Confesso, escolhi este filme por mero conforto de agenda. A sessão era às 14, perfeito para quem chega à cidade a meio da manha e almoça (num dos meus prazeres culposos de Lisboa, a Delphi e a suas lambuzantes sandes de Filadélfia). Achei que me ia entreter com um filme latino-americano de bruxarias, saiu-me uma obra inquietante que pode ser descrita como um cruzamento entre Carrie e Lolita. Lamento, cara realizadora, mas o olhar lânguido da câmara para o rosto de uma adolescente com os óculos escuros de aro oval grosso e branco denuncia logo as referências culturais.
A história é de um coming of age com laivos de sobrenatural, passada numa Argentina falida dos anos 90. Três raparigas estão a passar o seu último Verão no final do liceu com o rapaz que é venerado por uma delas, e vão sofrer as tensões da entrada no grupo de uma mulher mais velha, madura e experiente, que as cativa pela sua rebeldia e estilo de vida alternativo mas acaba por seduzir o rapaz do grupo. O despertar da sexualidade, a transição para o início da idade adulta, o panorama de um país em crise profunda e a dificuldade em lidar com emoções colidem numa história inquietante e estupendamente filmada, com uma fotografia belíssima.
Nosferatu, Werner Herzog
Nunca tinha visto este filme em cinema, daí a escolha de um Herzog numa tarde de vaga de calor. Rever este filme no grande ecrã recordou-me o porquê de gostar dele. É uma homenagem ao clássico de Murnau, mas a homenagem não se faz pela repetição. Herzog filmou a história com a peculiar sensibilidade, tornando o filme mais desagradável ao palato do cinema de terror, mas na verdade a levar bem longe a lógica da história.
Não tinha percebido o quão queer é este filme, mas as cenas quase ternurentas em que Klaus Kinski, numa soberba caracterização que homenageia Max Schreck com um olhar de intensa solidão, suga os pescoços de Bruno Ganz e Isabelle Adjani vão muito além do horror vampirico (que em si já é uma metáfora sobre sexualidade reprimida). Sublinha isso a forma como Ganz rejeita a esposa, enquanto se vai tornando ele próprio um vampiro.
Prefiro estes Dráculas subtis e desconcertantes às versões Hollywood, sempre a puxar para o melodrama trágico. Renfield revisto por Herzog é divinal na sua patetice, e o normalmente implacável e infalível Van Helsing é aqui um incapaz de pouca ciência, que só tarde demais se apercebe da sua ignorância.
Ver este filme, finalmente, num ecrã de cinema mostrou-me o seu lado profundamente pictórico. As cenas estão compostas e estruturadas como pinturas românticas e pré-rafaelitas, com uma iluminação difusa. Herzog chega a incluir uma totentanz, com os pestiferos habitantes de Wismar a largar as inibições e algemas morais no meio da decadência.















