domingo, 30 de agosto de 2026

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Noriyoshi Ohrai, 1980: Decadências. 

Legendary magazine Starlog is being resurrected: Soa estranho, na era da proliferação digital e das literacias pós-alfabetismo (o que quer que isso seja), investir na imprensa. Na verdade, faz sentido - o público para o tipo de leitura profunda que a palavra impressa permite continua a existir, e, como sempre foi, é um nicho. 

The Best Jack Kerouac Books, recommended by Howard Cunnell: Confesso que me fico pelo On The Road. 

Dylan Dog 478 - Harlech AsylumAnexo: Il Francobollo Maledetto: Confesso que, sabendo que irei a Firenze logo no princípio de agosto, espero encontrar esta edição ainda nas bancas. Vou a trabalho (bem, mais ou menos), mas para mim, mal surge uma oportunidade de ir a Itália penso logo "que bom, posso atualizar-me com fumetti e reler o meu querido Dylan". 

Lovecraft lo creó como una broma, pero el Necronomicon ha existido en muchas formas y, de hecho, ha vuelto a las librerías: Talvez o mais lido, com inúmeras variações, de todos os livros ficcionais que nunca foram reais, mas o amor dos leitores obrigou a tornarem-se reais. Não temam, se seguirem as invocações poderão sentir o arrepio do horror, mas dificilmente invocarão os seres de além-espaço ou arriscam acordar aquele que dorme sob os oceanos. 

Projecto Hail Mary – Andy Weir: Deste autor li o The Martian, e chegou-me. Weir é um bom contador de histórias, numa onda hard sf pop, e por isso garante de leitura divertida.

Is It Really Possible To Map The Odyssey?: Tendo em conta que é um poema épico que colige uma tradição oral de mitos dos tempos onde o conhecimento geográfico era muito reduzido, será sempre uma impossibilidade. Mas compreendo o gosto pelo tentar. 

E parece que isto aconteceu: E aconteceu muito bem, um muito merecido reconhecimento ao trabalho e persistência do Luís Filipe Silva. 

Could We Stop Demonizing BookTok Now?: Se eu admitir que tenho descoberto leituras, algumas excelentes, outras nem por isso, corro o risco de ser considerado um acéfalo do tiktok? Esta plataforma é uma rede curiosa, cheia de maus vícios, mas também consegue funcionar como uma inesperada ágora para se falar de livros. Com a curiosidade adicional de raramente os booktokers se incluírem no marketing editorial, a esmagadora maioria dos que falam de livros no tiktok fazem-no por gostar do que leram. 

Paul Alexander: Aventuras clássicas. 

Meta, Google y Microsoft podrán seguir rastreando tus mensajes hasta 2028. A pesar de que la mayoría del Parlamento Europeo votó en contra: Usando um truque legislativo, o ChatControl passou no parlamento europeu. Por detrás do agrumento "vamos proteger as crianças", que é legítimo, passamos a ter uma lei europeia que permite às plataformas rastrear o conteúdo de todas as mensagens dos seus utilizadores, em busca de evidências de predação sobre crianças. Soa muito bem? De certeza? Então vejamos, sob esta lei, tudo o que nós partilhamos nas redes de mensagens privadas é legalmente rastreável, sem presunção prévia de culpa ou suspeição. As nossas conversas pessoais e fotos. Todas. O assalto à privacidade e intimidade de todos nós é notório. Já os criminosos sabem muito bem como usar dark web e redes privadas para comunicar. Notem que a pornografia infantil, essa aberração, não está disponível com simples pesquisas nas redes abertas. Façamos uma analogia: imaginem que para combater a violência sexual, todas as casas de banho tinham de passar a ser videovigiadas ou ter paredes transparentes. Para se ver tudo, e com isso garantir que nada de mal se passe. Estão a ver o problema, agora? 

Why we're all posting less on social media these days: Porque não vale a pena. Longe vão os tempos em que as redes sociais eram, enfim, locais sociais onde se partilhava a vida pessoal e as nossas ideias. Agora são uma nova versão do broadcast media, onde o que nos é dado é algoritmicamente otimizado para favorecer a adição às redes, e as nossas mensagens pessoais raramente chegam aos nossos grupos de amigos virtuais. 

Scientists Identify Most Degenerate Known ChatGPT User: Sejamos honestos, esperavam o quê? Este gosto humano pela sexualidade acompanha-nos desde a noite dos tempos. Já o estudo em si mostra pontos muito mais interessantes, que passam pelo uso de chatbots como forma de criação de mundos literários pessoais, usando a interação com IA como forma de desenvolver leituras ficcionais intermináveis, ao gosto exato do leitor. Por discutível que este gosto seja, e sim, tenho a noção que isto abala e muito o conceito de literatura. 

We Are Living in a ‘ChatGPT Flyer Pandemic’: Uma epidemia de horrores visuais que alastra pelo mundo fora. Não é novidade. Pessoas de uma certa idade poderão rebuscar a memória, recordando os velhos tempos do WordArt e da proliferação de clipart na comunicação visual? Lembram-se desses tempos em que era fixe meter títulos com wordart, quatro ou cinco tipos de letra diferentes nos textos, e decorar aquilo tudo com formas de cores sólidas e meter para lá imensos desenhos clipart? Pois, depressa percebemos que não era fixe, era foleiro, e esta tendência de uso da IA segue pelo mesmo caminho. 

Japan Plans Sovereign AI Model, 10 Million AI Robots by 2040: Pergunto-me se por lá a versão japonesa do comentariado e vox pop das redes sociais também refila contra este desperdício de dinheiro, para quê investir em modelos soberanos quando lá fora já se fez. Duvido, porque ao contrário de cá, lá sempre se levou a sério o investimento em ciência e tecnologia. 

A farsa da aprovação parlamentar do Chat Control 1.0: Isto é mau a todos os níveis. 

Pluralistic: "Rights for robots" and the AI slavery fantasy (10 Jul 2026): Doctorow, como sempre certeiro, a explorar as dinâmicas negativas do trabalho na era em que os capitalistas mais energúmenos parecem apostados em substituir as pessoas por máquinas. 

Ground Robots Inherit the Kill Zone: Um olhar para a aplicação da robótica militar na linha da frente da guerra ucraniana. 

EU says Facebook and Instagram's 'addictive' design is ilegal: Já o sabíamos, agora temos uma confirmação legal. Vai ter aplicação prática nula, mas pelo menos é um princípio. 

Can the Classroom Ever Be Automated?: Não. E a entrevistada neste artigo sabe isso muito bem, estou profundamente o tema da mecanização do ensino. 

We Are Losing the Ability to Discover What We Didn’t Know to Ask: Confesso que nisto tenho uma perspectiva ainda mais negativa, embora ao mesmo tempo positiva. Não me parece que a IA traga uma epidemia de analfabetos funcionais que delegam o conhecimento e pensamento aos algoritmos. Essas pessoas sempre existiram, e sempre foram a imensa maioria. Noutros tempos, eram as que seguiam à letra os ensinamentos do padre ou a sabedoria do feiticeiro, seguiam os ditames do senhor feudal e do chefe, agitavam-se com o jornalismo amarelo, vibravam com o futebol e as telenovelas primeiro na rádio, e depois na tv. A internet, e agora a IA, são as últimas tecnologias ao serviço desta massa informe de ovelhas humanas. 

The Lab Mistake That Might Revolutionize Computing: É interessante ver que na busca por tecnologias capazes de diminuir as necessidades computacionais da IA, o humilde mosfet acaba por ser uma das promessas para processar IA com menores recursos computacionais.

Christopher Nolan Unloads on AI Slop: Vai uma apostinha que num próximo filme de Nolan vai haver uso de IA, mas não visível e admitido porque estará incorporado nos fluxos de trabalho dos efeitos especiais.

Amália: O futuro do país não se muda com um prompt: Talvez dos melhores artigos sobre o modelo português. Notem, não podemos esperar milagres de um investimento que é inferior ao que o Metro de Lisboa gasta na manutenção de escadas rolantes. No entanto, existe, e tem potencial de crescimento.

Leituras da Semana (#122 // 13 Jul 2026): Ui, uma bicada. Ai, que doeu. Nem por isso, a discórdia é salutar. Sobre esta questão, é discutível se partilho a realidade com o resto das pessoas que me rodeiam, mas na verdade a resposta é puro (e assumido) elitismo. Um elitismo que vem do cansaçao de demasiados anos a desmontar o deslumbre do marketing ou a lidar com situações "eu queria mesmo o office porque é o que é bom, mas não quero pagar, tu que sabes arranja-me aí uma versão sem pagar". Sei, porque o sinto na pele, que as esmagadora maioria das pessoas quer coisas que simplesmente funcionem (e agora com a IA, que façam todo o trabalho por elas) com um mínimo de investimento cognitivo, de preferência zero. Algo que as empresas e o seu marketing exploram muito bem, apesar de criarem produtos que necessitam de um investimento cognitivo que geralmente é delegado para o amigo que sabe, o familiar "expert" ou para o marido (se se perguntam se já tive de ameaçar colegas de trabalho com processos no âmbito da proteção de dados porque delegaram no cônjuge essa tarefa difícil que é redefinir palavras-passe, e no processo dando-lhes acesso aos dados internos confidenciais, a resposta é que esse número não é zero). A vontade de não fazer investimentos cognitivos é uma característica generalizada na maioria das pessoas, mesmo que muitas vezes até tenham certificações superiores. É o espaço do hoi polloi, dos normies que temos de suportar todos os dias. Por ironia, as pessoas gostam daquilo que faço e da forma como o faço (estamos a falar da tecnologia educativa), apesar de ser baseada em mergulhos no lado duro e recusa completa de uso daquelas plataformas bonitinhas, fáceis e básicas como o carvalho sem v. É muito habitual desencorajar potenciais formandos, dizendo-lhes que do que conheço deles, não têm capacidade para fazer o que lhes poderia ensinar, ou receber críticas a sublinhar que mostrei coisas a mais e fui demasiado a fundo, o que para mim é a ironia suprema: professores, cuja profissão é no seu âmago estimular a procura do conhecimento, a refilarem por terem sido expostos a conhecimento. Tenho a noção disto. Apesar de bem tentar, não sou alheado da realidade. Sei que as pessoas sempre vão preferir o carregar no botão e já está, admirar o conforto do redil dourado das redes detidas por empresas, adorar os serviços que ocultam a complexidade por detrás de dois botões, o promptar a IA em vez de pensar sobre o assunto. É por isto que o Open Source não cresce, que todos se estão nas tintas para os dados e privacidade, ou que a tão propalada soberania digital europeia jamais há de pegar. Perante isto, sigo o caminho contrário, de uma imensa minoria que age e pensa diferente. Deixei, há muito, de trabalhar em prol do hoi polloi e sigo o meu caminho. E digo-vos que tem sido um calcorrear bem interessante, recheado de aprendizagens e pessoas que me inspiram. Desculpa a resposta direta, João, mas hey, snobismo digital ftw. 

Once Unimaginable, Publishers Are Preparing to Opt Out of Google Search: Para quê manter-se no redil da google, se não atrai tráfego e o conteúdo é ruminado pelos cada vez mais omnipresentes resumos de IA? 

Google Search will let you instantly generate AI images for free - here's how: Não sei quanto a vós, mas pessoalmente, não consigo pensar em coisa mais útil e fiável do que pesquisar imagens e o motor de busca gerar imagens de acordo com a minha pesquisa. 

Generative AI Is an Engineering Disaster: Uma tecnologia que funciona nos exatos antípodas da eficiênca computacional, material e energética. 

Let’s build a children’s public internet: Não, a internet não se tornou um espaço seguro para crianças (e nunca o foi). Mas a internet que temos hoje, é um ambiente hostil a todos, crianças e adultos, mantida assim para garantir os lucros de um punhado de bilionários. No entanto, temo que contrariar esta tendência siga mais pelos caminhos do autoritarismo e vigilância, vide chat control, do que no regular as práticas comerciais daqueles que enriquecem com este estado de coisas. 

Nokia’s 14 Years of Mobile-Phone Supremacy Ended in an Afternoon: De gigante da tecnologia a memória, a história de uma empresa marcante. 

AI Made Cloning Games Easier Than Ever: Para surpresa de ninguém, o vibe coding é uma excelente ferramenta para os chicos-espertos criarem clones dos jogos de sucesso. E fazer disso um modelo de negócio. 


Sky-Guns For The Murder Master!: Palpitações passadas. 

El cambio climático tiene un efecto secundario letal que apenas estamos descubriendo: nos encierra en casa y nos impide movernos: Senti isso na vaga de calor de início de julho. Reduzi o dia a dia a ir trabalhar, numa escola sem climatização e a suar as estopinhas mesmo mantendo os espaços de trabalho o mais frescos possível, e voltar para casa. Passeios cortados, idas culturais à cidade idem, deslocações apenas para o mais essencial. 

What if It’s Not the Phones?: Muito bem visto. Passamos a vida a culpar os telemóveis pela alienação adolescente, enquanto lhes construímos vidas altamente estruturadas, sem espaço ou tempo para o real desenvolvimento pessoal que emerge da autonomia. Hoje é impensável que um jovem tenha tempo realmente livre, ou está na escola (onde na maioria das vezes é transportado pelos pais) ou está em atividades, explicações, desportos. A ideia de tempo livre e autónomo está em vias de extinção, e resta-lhes os espaços virtuais como única zona livre da interferência e vigilância dos pais. 

The End of Reading Is Here: Será? De volta e meia leio estes artigos a lamentar o baixo nível generalizado de leitura, e a falar da pós-literacia trazida pelos ecrãs. Embora perceba os argumentos, tendendo a concordar, não consigo encarar esta visão como realmente representativa de uma catástrofe cultural. Porque não recordo um tempo passado idílico onde toda a gente andava pelas ruas de livros debaixo do braço, a discutir nos cafés Eça e Dostoievsky. Bem pelo contrário, recordo um percurso escolar onde o gosto pela leitura era mal visto pelos alunos (quem lia, era o "crânio", versão anos 80 depreciativa do nerd de hoje) e pelos professores ("ah, gostas de ler, mas não devias ler essas coisas, devias ler aquilo que os programas consideram importante). Nos cafés discutia-se a rádio e televisão, enquanto se passava os olhos pelos jornais. Ver alguém nos transportes públicos a ler era uma raridade. Recordo as inúmeras viagens de comboio interurbano que fazia na viragem do século, quando morava em Santarém e trabalhava na zona de Vila Franca. Comboios sempre cheios de passageiros que faziam vida de exúrbio. E recordo-lhes as expressões de vazio durante a viagem, ou o dormitar. Não, as viagens não era uma animação da conversa e socialização espontânea que tantos dizem que os telemóveis vieram matar. E não, tirando alguns que liam o jornal da manhã, este tempo morto do dia a dia raramente era preenchido pelas leituras profundas que, a acreditar neste tipo de artigos, eram a rotina de um passado que na verdade nunca existiu. A verdade incómoda é que a leitura, em especial a leitura profunda, sempre foi um hábito intelectual de nicho. 

"Lo he olido": los artistas están empezando a pedir a sus fans que no se hagan caca en los conciertos, aunque pierdan el sitio: Coisas que acontece quando o late stage capitalismo coloniza a cultura. Os festivais já foram divertidos, agora são eventos de marketing cheios de eventos, ativações de marca e promoções, com música pelo meio, na grande maioria da mais banal e comercial. Neste tipo de ambientes, de marketing performativo que reduz os fãs a elementos para encher o cenário de sucesso, não surpreende que o ambiente degenere desta forma. 

 Aliens, finalmente. Trump e as promessas de revelação: Estratégias de distração. 

"Es la esencia de Río de Janeiro": El turismo masivo ha encontrado un nuevo filón en el lugar más insospechado, las favelas: Não é uma tendência nova, mas é um certo gosto de capitalismo terminal o ir ver como vivem os pobrezinhos.

How the Elite See Rome: Visitar museus fora de horas e sem as chusmas de turistas, descobrir recantos que poucos conhecem, numa elitista intersecção entre alta cultura e capitalismo. 

En su asalto por conquistar las vías francesas de alta velocidad, Renfe ya conoce cuál es su verdadero futuro: Portugal: Bem, vou assumir que quem sonha com isto não conhece a desastrosa realidade da ferrovia portuguesa. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

lugar - depois


Finalmente, tempo para ir visitar o  Museu Zero, espaço dedicado à arte contemporânea digital, em Santa Catarina da Fonte do Bispo. O projecto é muito interessante, cruzando a cultura contemporânea com o vitalizar dos espaços locais. já o conhecia de apresentações no Goethe Institut e Festival Inércia, mas ainda não tinha tido oportunidade de o visitar. Diga-se que só mesmo um projecto destes para me fazer ir ao Algarve. 








Em exposição, encontramos Lugar Depois, com um conjunto de obras multimédia que reflectem sobre as geografias do Alentejo e Algarve. Obras provocadoras, apesar de algo académicas, que vale a pena ir visitar. 


@archizer0 #museuzero ♬ som original - Artur Coelho 🇵🇹

Fica a  faltar um acervo permanente visitável de obras de arte digital, para além das exposições temporárias. Enriqueceria o espaço cultural (e, tanto quanto sei, por cá nem há coleções permanentes de arte digital, mas posso estar enganado), dando-nos razões para regressar a um espaço que fica muito fora de mão, mas vale bem fazer os quilómetros todos de ida e volta para o conhecer o museu. Resta ficar atento à programação, para ver quando regressar. 

Não posso deixar de referir a simpatia das pessoas do  museu. O silo onde se situa é, em si, um tesouro arquitetónico, e a ajuda das assistentes é excelente para navegar no seu espaço interior.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Zagor: Il regno sommerso


Giorgio Giusfredi, Marco Villa (2026). Zagor #733: Il regno sommerso. Milão: Sergio Bonelli Editore Spa.

Conheço muito mal este personagem, sei vagamente que foi um derivado das séries de western da Bonelli que ganhou espaço próprio, entrando no campo do weird wild west. Esta aventura mostra bem isso, uma salganhada temática que mistura guerrilheiros anti-esclavagistas, o inimitável e omnipresente nestes retro weird que olham para o século XIX Capitão Nemo, Poe como mais do escritor, cidades perdidas debaixo dos oceanos, homens-peixe lovecraftianos que seguem fielmente as ordens de um vilão humano. Tanta coisa que nem sei bem por onde começar. Os ingredientes estão lá, a confecção não me convenceu. Adiciono Zagor a Nathan Never para a categoria de personagens de fumetti que têm tudo para me agradar, mas não ne agarram.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Dylan Dog #479: Scommessa sul destino


Paola Barbato, Franco Saudelli (2026). Dylan Dog #479: Scommessa sul destino. Milão: Sergio Bonelli Editore Spa.

Uma edição do investigador dos pesadelos que tinha tudo para dar bem. De Paola Barbato podemos sempre esperar argumentos sólidos, onde o giallo e o policial procedimental se sobrepõem ao lado fantástico do personagem. Já Franco Saudelli é um dos veteranos do fumetti, um dos grandes ilustradores da BD italiana. Claro que só poderia correr bem. A história leva-nos à busca por um artefacto perdido, um óculo que permite a quem olhe através dele ver o futuro. A antevisão tem um preço, e quem o usa envelhece. Dylan Dog é contactado por um velhote para procurar o artefacto, e é logo aqui que a história revela os seus contornos. O velhote é na verdade uma criança quase adolescente, fisicamente envelhecida pelo uso do artefacto embora mantenha a idade mental. Mergulhamos aqui numa distorção dos rapazes perdidos que faria empalidecer J.M. Barrie, com um bando de crianças vítimas de negligência parental que se juntaram num bando. Enriquecem usando o óculo para adivinhar os prémios das loterias e corridas de cavalos, e usam esse dinheiro para viver numa espécie de castelo encantado, onde podem viver as suas folias de infância, pese embora os seus corpos de velhice. A história é algo rocambolesca, metendo criminosos pesados e vítimas de tráfico humano, e tem dois finais deliciosos, um divertidíssimo halloween de insanidade encenada, e um post scriptum com alienígenas à mistura. É um final que mostra que afinal a história não passou de uma enorme e bem estruturada anedota, daquelas que fazem as delícias de Groucho. Este caráter humorístico é sublinhado pelo traço de Saudelli, que ilustra esta aventura de Dylan Dog com uma estética de exagero caricatural.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Aveiro Airshow

 

Integrado no festival Dunas de S. Jacinto, já tinha ouvido falar deste espetáculo aéreo, mas nunca tinha conseguido ir espreitá-lo. Este ano, disse para mim próprio que se dane, fiz-me à estrada, mesmo sabendo que o preço do combustível não está adequado a devaneios de roadtrip.



Fui recompensado com duas horas, que souberam a muito pouco, de excelentes acrobacias aéreas sobre a ria de Aveiro, vistos desde o cais de S. Jacinto. Um espetáculo assegurado por pilotos portugueses e espanhóis. Abriu com o Extra 330LT  de Luís Garção, claramente adepto das manobras de levar o avião ao pico de altitude e se "deixar cair" para recuperar o controle e empolgar quem cá em baixo assistia. Seguiu-se a patrulha Fantasma, com o Varieze de José Figueiredo, talvez a aeronave mais experimental em voo neste tipo de eventos, e o RV7 de Carlos Costa, em manobras de formação e aproximação. Outro clássico destes eventos em Portugal é o Citabria N661CP de Pedro Cunha Pereira. Clássico não só pelo espetáculo de acrobacias que nos costuma dar, mas pela idade de uma aeronave construída nos anos 60 e, como se nota pela suas performances, continua para as curvas. E, com o esquema de cores branco e vermelho, é uma aeronave lindíssima.

Um certo blast from the past, muito sublinhado pelo apresentador, dado que as aeronaves em voo foram ex-FAP e estiveram baseadas em S. Jacinto, foram os Quintana, com clássicos Cessna FTB 337G pilotados pelos espanhóis José Olias pai e José Olias filho. Após abatidos à nossa Força Aérea, foram adquiridos e restaurados por uma fundação espanhola de história aeronáutica, com marcas clássicas da USAF. Pessoalmente, recordo vê-los quando criança a sobrevoar a costa da Ericeira, em voos de treino vindos de Sintra. Diga-se que nos anos 80 a zona da Ericeira era bem frequentada por aeronaves. A minha recordação mais intensa foi ter sido sobrevoado por um A7P na praia do Norte, que voava tão baixo que quase parecia poder tocar-lhe. Hoje, de vez em quando passam algum Epsilon ou Chipmunk em voo de treino, e há sempre o risco de haver atividade aeronáutica mais intensa no verão, com o combate aos fogos.

O RV7 007 de Hélder Guerreiro finalizou as demonstrações acrobáticas. O festival terminou com um voo de formação entre os FTB Quintana e o Extra de Luís Garção, que ainda nos deu um encore de voo acrobático, provavelmente a compensar a ausência de um dos pilotos previstos no alinhamento do festival.


Como fã confesso de aviação, é muito agradável ver este crescimento dos festivais aéreos em Portugal. O de Beja, com a sua oportunidade de ver as patrulhas militares e um static show de esquadrilhas visitantes, está infelizmente em suspenso devido à situação geopolítica. Entretanto, têm surgido festivais destes um pouco por todo o país, desde o já clássico Caretos Airshow (que se efetua em Bragança, e ainda não conheço) e iniciativas como as corridas aéreas do Porto (não deu para ir, infelizmente para mim), festival de Cascais (geralmente ligado ao Air Summit de Ponte de Sor). Este ano, até Marvão terá um festival aéreo, em setembro. Claro, dado que o meio nacional é pequeno, isto significa que há uma certa repetição dos pilotos participantes. Já vi várias vezes os que revi em S. Jacinto, mas não me interpretem mal, é sempre um prazer ver estes aparentes desafiadores da gravidade, que se atrevem a puxar pelo lado de sanidade duvidosa das leis da física.

domingo, 23 de agosto de 2026

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Illustrations from Albert Robida’s La vie électrique (1890): Clássicos do retrofuturismo. 

O autor que elevou a ficção científica a um novo patamar… e o conto “Planeta Parasita”: O Sci-Fi Tropical recorda-nos a obra de Stanley Weinbaum, um dos autores clássicos dos primeiros tempos da FC enquanto género, e dos primeiros a atrever-se a imaginar alienígenas que se afastavam da iconografia antropomórfica. 

The Fall of Hyperion (1990), do excesso de space opera: Uma observação interessante, que também partilho. Muitas vezes, o que torna um livro memorável e excelente é precisamente a sua falta de conclusão, que nos permite levar a história conosco ao virar a última página. Quando as sequelas concluem, perde-se parte do fascínio com a leitura. 

Far From the Light of Heaven: do whodunit ao “whydunit”: Presto sempre atenção às sugestões do João Campos, ele tem radar ativo para a FC de elevada qualidade. 

Flash Gordon (1980): The Gloriously Chaotic Behind-the-Scenes Story: É um brilhante filme camp, daquelas coisas que só é possível por não ter sido intencional. As histórias são delirantes, tal como o filme, e o que perdura é o visível gosto de Von Sydow e Brian Blessed no incarnar das suas personagens, como pontos especialmente altos de um filme simultaneamente bizarro, intrigante, esplendoroso e mau. 

30 Cartoon Visions Of Robot Takeovers And Technology Gone Mad: Um olhar sobre como a animação trabalhou a iconografia da robótica, e nos influenciou a percepção sobre como deveria ser um robot. 

Backrooms: A24 Shares A Video Featuring An Hour Of Backrooms Ambience: Um miminho para os vossos devaneios liminais. 

Exploration Log 15: Clifford D. Simak’s fanzine article “The Future of Science Fiction” (1941): Interessante leitura, para os fãs da FC - uma visão do futuro do género, descrita por um dos grande nomes da sua época dourada. 

Dua Lipa Opens Banned Book Library #Censorship: É-me difícil pensar num projeto mais inútil. A biblioteca de livros banidos fica no interior da livraria Lello, no Porto. Que, como bem sabemos, de livraria tem pouco, é pouco mais do que atração turística disneyficada, e isto não passa de mais um truque pacóvio de marketing. Coragem, seria implementar estas bibliotecas nas zonas onde os livros estão a ser proibidos. Isto, é usar a censura como atraçao turística.


Jack Kirby: Mestria dos comics. 

The Space-based Data Center Hype Machine Is Already in Orbit: Será que vale a pena levar isto a sério? A realidade do sonho de montar datacenters em órbita está muito aquém do que está a ser proposto pelos de sempre. Suspeito que isto será pouco mais do que especulação para nos distrair dos efeitos adversos que o investimento desenfreado em datacenters está a ter. 

Four-Byte Burger: Ah, nada como um pouco de retro-digital para quebrar a perfeição do slop generativo. 

OpenAI floats giving Trump administration 5 percent cut of AI boom: É que já nem se dão ao trabalho de disfarçar a corrupção. 

Pluralistic: The difference between "today's task" and "accretive work" (02 Jul 2026): Uma observação, como sempre, muito certeira de Cory Doctorow. Se há muitos que usam a IA para trabalhar melhor, e mostram que é possível trabalhar com IA e criar coisas com qualidade, porque é que há tantas histórias desastrosas de implementação de IA que falham? Tem muito a ver com os objetivos de quem implementa a IA. Se o interesse é realmente explorar a qualidade trazida pela produtividade assistida pelos algoritmos, os resultados são consistentes. Mas se a ideia, como demasiadas vezes vemos, é implementar a IA para gerar mais lucro e diminuir o peso laboral, as coisas correm mal. E, claro, nos tempos que correm, a moda é mesmo seguir o pior dos caminhos. 

Lawsuit: Bipolar Man Attempted Suicide After ChatGPT Poured Gasoline on His Religious Delusions: Há aqui dois problemas. O mais óbvio é a falta de salvaguardas para que o uso destas ferramentas não tenha este tipo de desfecho. O desenvolvimento destes modelos em modo de auxiliar siconfanta é uma escolha consciente por parte das empresas, e isso tem consequências. O outro problema é social, com a nossa tendência para antropomrfizar os algoritmos. 

Toda a gente detesta a IA: Bem, eu não a detesto. Mas percebo o porquê destas reações. Vemos a IA a ser instrumentalizada para os piores excessos do capitalismo, usada como desculpa para fomentar o desemprego e serviços de pior qualidade. Vemos a nossa herança cultural a ser mastigada por algoritmos cuja generatividade pode ser apropriadamente descrita como uma forma de plágio inédita. Vemos o alarmante desvio de recursos financeiros para alimentar uma indústria que ainda não se mostrou ser rentável, vemos o disparo nos consumos de energia e o foco obsessivo na construção de datacenters. Para mais, as ferramentas são-nos mostradas como um incentivo à preguiça intelecetual. Mesmo eu, que vejo o uso que faço da IA como algo positivo, que me tem ajudado a fazer e criar coisas que nunca esperaria, tenho muitas preocupações sobre o rumo em que estamos a ser empurrados. 

A warning sign about AI’s real cost, courtesy of Google and Amazon: E, na sequência da leitura anterior, a preocupação com o custo energético da IA, e consequentes impactos ambientais. 

Midjourney Thinks Hollywood Should Fess Up About Using AI: Zangam-se as comadres... mas é um daqueles segredos que todos conhecem , publicamente diz-se mal do uso de IA no cinema e televisão, mas discretamente, faz-se. 

Bloqueio das redes sociais a menores de 16 na Austrália é um total falhanço: Para surpresa de ninguém. Não só porque as medidas de proteção são mais fracas do que o que é anunciado, mas também há que colocar na equação a enorme criatividade das crianças e adolescentes em conseguir forma de contornar proibições. É uma verdade intemporal, que nós professores conhecemos particularmente bem: se se quiser que uma criança ou um jovem faça uma dada coisa, o melhor que temos a fazer é proibí-lo disso. 

Pluralistic: CARDiac, syntax coloring, view source and vibe code (03 Jul 2026): Fico com a sensação que já li um texto muito similar de Doctorow. Mas sublinho-o, porque resume muito bem aquilo que penso em relação ao vibe coding. A nível profissional, é problemático. Mas a nível pessoal? Altamente capacitador, permite-nos explorar ideias e projetos que sem a IA a colmatar o nível técnico, não conseguiríamos desenvolver, e, talvez, dar o empurrão para uma aprendizagem e compreensão mais profunda: "Many – most – of the people who enter the funnel won't slip further down the abstraction chute. They'll solve their problem (a virtue unto itself!) and move on. But the more people we put at the top of the funnel, the more chances our civilization gets to produce another skilled artisan who understands and can improve, iterate and repair the code the rest of us use". 

Workplaces Have Gotten So Bizarre That People Are Just Sending AI Slop Back and Forth at Each Other: Bem, sejamos honestos. Boa parte dos empregos sustenta-se nesta dinâmicas de tarefas cheias de urgência e importância que na verdade nem são uma nem outra. O AI slop apenas vem colocar isso a nu. 

Experts Say There’s Now an Open Source AI Model as Scary as Mythos: Confesso que por esta altura, fica cada vez mais difícil acreditar nestes pronunciamentos. O hype de marketing anda em alta.

Los servidores europeos dependen en buena parte de proveedores estadounidenses, lo cual pone de manifiesto la falta de soberanía digital: O longo caminho para a soberania digital europeia.

The Corner of Hollywood That’s Most Susceptible to AI: O impacto da IA na indústria da animação.

EEUU enseñó que el acceso a la IA avanzada puede cortarse. China estudia lo mismo, según Reuters, y Europa mira desde fuera: Os EUA deram o exemplo, e os chineses aprenderam bem a lição. Por cá, achamos que é um desperdíco de dinheiro desenvolover os nossos próprios modelos, ou a UE desdobra-se em comunicados cheio de boas intenções e medidas quase inexistentes.


On my art blog: Weird steeds of retro sci-fi: Bizarras cavalgaduras. 

España gira en el sentido contrario al resto de Europa. Forma parte de un plan geológico: cerrar el Mediterráneo: Mas tranquilizem-se, ainda falta muito tempo para podermos calcorrear o estreito de Gibraltar a pé e ver o lago mediterrânico. Os tempos geológicos não são propriamente rápidos. Mas suspeito que por essa altura, ainda estaremos a planear a construção do novo aeroporto de Lisboa. 

China secretly trains hundreds of Russian soldiers to gain critical knowledge from Ukraine war: Tendo em conta que a esperança média de vida dos soldados russos enviados para a frente de combate se mede em horas, das duas uma, ou os chineses estão a querer aprender como se sobrevive num ambiente de guerra saturado de drones, ou escolheram mal o parceiro de aprendizagem, dada a forma como o engenho ucraniano tem sido essencial para suster a invasão russa. Convém recordar que o país que parecia indefeso face ao derrame das hordes da superpotência está agora a tornar-se capaz de lançar mísseis balísticos localmente desenvolvidos em direção a Moscovo. 

Silêncio e fúria na gigante casa texana onde nascem os ‘relâmpagos’ F-35 para tentar render os velhos ‘falcões’ portugueses: Sou só eu a ver aqui uma operação de charme, dado que há a ameaça da Saab poder vir ter uma palavra a dizer nisto? 

Something Weird Is Going on With the 66 Billion Trees China Planted in a Huge Wall: Algumas notas interessantes. Primeiro, a ideia de plantar árvores para contribuir para a descarbonização tem algumas falha, embora seja viável. Depois, a forma como este arvoredo artificial (no sentido de ser plantado por humanos) ter um crescimento mais rápido que o natural. E, por fim, a sua eficácia em travar a desertificação. 

Trump memecoin investors lost $3.8 billion, analysis finds: A sério que isto vos surpreende? 


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Papernelope


Vários Autores (2016). Papernelope. Milão: Giunti.

Não resisto à piada: até isto é uma  melhor adaptação de Homero do que a de Nolan. O livro colige duas diferentes versões. Termina com uma adaptação necessariamente infantil da Odisseia com os personagens Disney.  Mas a interessante é a que lhe dá o título, uma variante sobre Homero onde Penélope ganha o foco principal, e se torna a força motriz que faz regressar Ulisses a casa. A escrita é divertida e erudita, dentro das limitações da literatura infantil, e as ilustrações um mimo.