domingo, 26 de julho de 2026

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Art by Philippe Caza for Simulacres: Clássicos francófilos.

The best books on Mythical Creatures, recommended by Katherine Arden: Para os amantes de dragões, lobisomens, unicórnios e outras criaturas de sonho. 

Lançamento: H-Alt 15: É bom ver que este projeto ainda mexe. Sempre destaquei a H-alt pelo espaço que dá aos novos criadores, e espero que este próximo número mantenha essa tendência. 

XXI Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja - Programa, Autógrafos & Feiras: Aquele festival onde adoraria ir, mas nunca consigo. 

What Our Youthful Book Typologies Say About Us: A importância das leituras formativas na forma como evolui a nossa mundivisão. E, confesso, como leitor que apesar de ter tentado, nunca conseguiu perceber a piada de Tolkien, bem como me ter bastado um leve sabor a Ayn Rand para perceber o quão odienta era, isto é falar-me ao coração: "I could not get into Tolkien or really any fantasy that involved orcs and swords and stuff. I was cool with magic and evil (see The Dark is Rising) but epic battles bored me. I didn’t meet any Randoids nor read any Ayn Rand until college, and thankfully I’d both developed a sufficient conscience and care towards my fellow human and taste in literature to be utterly immune to her charms by that time." 

World War 2 Nonfiction Books, recommended by Tim Bouverie: Recordar a II Guerra, pela voz daqueles que nela participaram. Não nos campos de batalha, mas nos gabinetes de decisão. 

Novidade: Ficção Científica Capitalista – Michel Nieva: Uma leitura provocadora, de um ensaísta argentino. 

How To Read A Novel: Confesso que não sou grande fã desta visão utilitarista da literatura, como se a sua mais alta função fosse o contribuir para a formação do espírito dos engenheiros e cientistas. Mas, de facto, a grande literatura ensina-nos a ver sob outras perspectivas.


*No less a man than Jack Kirby: Robots humanistas.

The AI Layoff Trap: Uma forma elegante de dizer que o capitalismo se devora a si próprio. Enquanto os CEOs se babam com a introdução de IA para se livrarem da fedorenta mão de obra humana, esquecem um pormenor basilar das sociedades: sem trabalhadores não há consumidores. 

No, Artificial Intelligence Is Not Conscious: Ted Chiang, numa desmontagem perfeita do mito da IA consciente: "Generative AI is harmful enough when we understand it as a conventional technology, but if we confuse fluency at generating text with consciousness or moral agency, we’re at risk of assigning responsibility to entirely the wrong parties whenever anyone uses a chatbot. To appreciate the titanic magnitude of this error, we need to begin by understanding how LLMs work." Quem é Chiang? Parte da minha rede conhece-o. É talvez um dos melhores escritores deste princípio de século XXI, notável pelos seus contos rigorosos e densos, que não se revelam em leituras superficiais, e muito focado nos entrechoques entre o humanismo e a tecnologia. Lendo esta reflexão, suspeito que terei de me atirar a um clássico duro do século XX para melhor entender,  explorar e explicar IA - Simulacros e Simulação de Baudrillard. Tal como Chiang, incomoda e preocupa-me este antropomorfismo simplista com que tão alegremente discutimos IA. Até porque, recordando a célebre lição little britain do sketch "computer says no", atribuir agência a algoritmos é a desculpa esfarrapada que permite a tantos safarem-se de assumir responsabilidade pelas consequências dos seus atos. 

Co-Existence and the End of Co-Intelligence: Ou, o paradigma de extração maximalista do capitalismo a estragar um dos desenvolvimentos tecnológicos com maior potencial capacitativo. 

La Unión Europea presenta su plan de soberanía digital para competir con EEUU tecnológicamente. Es una maravillosa utopia: Bem, espero que isto se traduza em mudança real. Não será fácil, não só porque nós europeus não temos serviços à altura e escala do que a google e microslop, mas também porque a inércia dos consumidores impede que as alternativas europeias adquiram a escala necessária. Quero ser otimista e pensar que ainda não vamos tarde, mas não vejo a tarefa como fácil, nem se resolve à maneira da UE, com belas declarações de intenções e legislação bonita no papel. 

Hollywood Is Using AI – Like It Or Not: Como não poderia deixar de ser. A IA são os novos efeitos especiais digitais, e recordo-me que quando surgiu o 3D, levou com o mesmo discurso de artificialidade e falta de humanismo que estamos agora a ouvir sobre a IA. E se acham que é o chico-espertismo dos proponentes da IA sem ética que faz coisas como criar versões sintéticas de atores, recordem o que é que a franchise Star Wars fez para poder mostrar Peter Cushing no ecrã, com  uma simulação 3D, muito antes da IA ter tornado isso fácil. 

Pluralistic: Criticizing the everything machine (06 Jun 2026): Ou, como encontrar argumentos de crítica válida à IA perante um oceano de generalizações vagas. 

El mayor culpable de la adicción infantil a las pantallas no es el algoritmo de TikTok: son los propios padres: Nem se trata aqui da muito óbvia falta de regulação parental sobre os seus filhos. Tem mais a ver com os hábitos dos adultos, que dão o exemplo para os mais novos. 

CEO Says There Will Be No Raises Because He Spent All the Money on AI: E, quando se perguntam como é que uma tecnologia tão interessante como a IA se está a tornar tão odiada, têm aqui mais uma pista para perceber o porquê. 

Pluralistic: Delusion as a service (04 Jun 2026): O facto de sabermos que um dado produto ou serviço tem efeitos secundários nocivos não é razão para o fechar. Mas é razão para se adotarem as devidas medidas de segurança para mitigar os efeitos nocivos. Algo que a indústria da IA se anda a esquivar. 

Devices Down Is The Wrong Goal: Fico sempre pasmado com a baixa qualidade intelectual da discussão sobre a tecnologia na educação. O debate oscila entre o deslumbre completo, o meter computadores nas mãos dos miúdos para qualquer contexto, e a rejeição total dos ecrãs. Os argumentos, no fundo, são sempre os mesmos. De um lado uns que afirmam a pés juntos que a digitalização vai trazer um disparo nas aprendizagens; outros, que será um desastre neurocognitivo (o argumento é essencialmente o mesmo, visto com duas faces). O que a realidade mostra é que nem uma coisa, nem outra. Se introduzirmos o digital para fazer o mesmo tipo de práticas rotinadas, como o tédio das folhas de exercício a exposição contínua a apresentações, apenas introduzimos ruído eletrônico onde nem é necessário. Se não há um sistema de controlo claro, a facilidade de resvalar para o lado distrativo é muito elevada (e, o que esperavam de crianças e jovens, que ficassem de olhos arregalados a ver powerpoints em vez de dar um salto ao tiktok?). Por outro lado, se as atividades tirarem partido daquilo que o digital tem - plataformas de conhecimento e, acima de tudo, capacidade de criação, desde os humildes textos à programação e robótica, ou seja, a produção de artefactos digitais como forma de abrir caminhos de aprendizagem. Se fazem com o computador exatamente o mesmo que fariam com o manual ou o quadro, não faz qualquer sentido usá-lo. No entanto, isto é raramente discutido nestes debates (daí o meu resmungo sobre a incapacidade intelectual de quem os tem). É sempre o digital como panaceia, ou como maldição. 

China's all-round dominance, from batteries to medicine, from high-speed trains to AI: Enquanto os Estados Unidos se afundam no obscurantismo e ganância, e a Europa afirma uma relevância que não está a dar passos concretos para manter, a China tem dado passos concretos. E isso está à vista. De fábrica low cost do mundo, passou a pólo de desenvolvimento de tecnologias de ponta. Está a ter a capacidade que os europeus, demasiado ocupdados em comités, e os americanos, demasido cegos pela ganânca, não têm - o de transformar inovação tecnológica em produtos, bens e serviços avançados e de custos razoáveis. 

Ukraine crosses new line: drones kill Shaheds on autopilot: Uma evolução lógica dos drones em combate. 

The Voyager | David Em: É muito interessante ler o que um criador veterano dos primórdios da arte digital tem a dizer sobre a IA Generativa: "Anyone can take a photograph. That doesn’t make you [Henri] Cartier-Bresson. For me, AI is a partnership. I am directing it, but it suggests things. Together we evolve the work. The speed is unbelievable." 

What’s Gone Deeply Wrong With Social Media: Uma análise sobre o conceiro de merdificação proposto por Doctorow, que entre muita coisa certeira, nos mima com isto: "“The professions [that are the first to be] absorbed by AI are [the ones that are tied to] companies that aren’t concerned with doing a good job,” the essayist notes. “Poor quality content, poor quality advertising, poor quality music, poor quality emails… it’s like doing homework. We’ve standardized education so much that the goal isn’t learning, but rather the completion of formal requirements, meaning that it’s easy to grade using the same criteria. And the way to do that is to eliminate qualitative aspects… even though writing, without qualitative aspects, is garbage. If the analytical or creative component doesn’t matter, why not just ask AI to do it?”". É particularmente certeiro no campo da educação. A sanha avaliativa, o foco nos resultados, nas notas, levou-nos a um sistema desumano onde a verdadeira aprendizagem é secundarizada a favor de uma obsessão por resultados metrificados. Tornou-se um sistema transacional, uma realidade paralela auto-centrada socialmente importante mas pouco relevante. Ou seja, campo perfeito para quem percebe que se o objetivo é o número e não o conhecimento, a IA faz a coisa sem esforço. 

Five things you need to know about AI: entre o hype e os medos, a sensação de aceleração e os usos abusivos.

Apple’s best AI idea looks a lot like vibe coding: Vejo utilidade nisto. O vibe coding é um desenvolvimentos mais interessantes da IA, porque democratiza a capacidade de criar pequenas aplicações totalmente à medida e vontade dos utilizadores. 

Judge Learns Lawyers on Both Sides of Case Used AI, Cancels Trial, Kicks Everyone Off the Case: Quando as capacidades da IA chocam com a infinita capacidade para o chico-espertismo dos pouco (ou nada) escrupulosos, dá nestas.

The Computer Science Degree Isn’t Dead: Dizer que com a IA já não é necessário aprender engenharia informática é uma estupidez tremenda (e ouve-se por aí). Na verdade, é ainda mais necessário que existam pessoas capazes de conhecer a fundo as linguagens da tecnologia.

Starblazer: Clássicos.

Larry Ellison quiso alimentar al mundo cultivando lechugas en su isla privada: las regó con 500 millones de dólares: O problema do solucionismo dos bilionários, aqui bem mostrado através da alucinação de um que enterrou somas astronómicas em propostas milagrosas de agricultura futurista, sem que não tenha grande coisa para mostrar como resultados. 

Bitcoin Is Taking a Nasty Swim: Será uma flutuação, ou estaremos a assistir ao momento tulipa holandesa das criptomoedas. 

F-15E Pilot Downed Over Iran Had Also Survived Kuwaiti Friendly Fire Shootdown at Start of War: Há pessoas com uma sorte macaca. 

Cameron’s World: Recordar os velhos tempos da internet livre e criativa, antes dos redis das redes sociais e o predomínio das stacks. 

Are The Arts Simply Incompatible With Right Wing Government?: Sim. Direitolos e cultura são conceitos antagónicos. Não é que sejam incultos, o que causa este fosso é o seu gosto pela limitação da liberdade (apesar de apregoarem o oposto) e sedução por reprimir o que lhes desagrada. 

Brasil ha logrado algo más histórico que su sexto Mundial: ser el primero en Latinoamérica en tener su propio avión de combate supersónico: A Embraer é um caso de sucesso, na aviação civil e militar, e dá novos passos para manter e fazer evoluir as suas capacidades industriais. 

Artists Threaten Lawsuit as Venice Biennale Award Crisis Deepens: A geopolítica a tocar no mundo das artes. Quando a bienal de Veneza deste ano foi forçada, sob ordens de tribunal, a aceitar exposições vindas de países sancionados ou associados a genocídio, o júri do seu prémio demitiu-se todo, para não se ver associado a genocidas. A queixa veio, claro, desse ninho de fascistas assassinos que é Israel. A instituição instituiu um prémio alternativo, e agora são os artistas expostos que recusam abertamente a sua nomeação para esse prémio, precisamente pelas mesmas razões que levaram o júri do prémio oficial a demitir-se - não querem partilhar espaço com representantes de genocidas. A cereja em cima do bolo, é que a organização finge fazer orelhas moucas ao pedido dos artistas, alegando questões técnicas. Isto é um pouco como o festival da canção, boicotado por muitos países por causa da presença de Israel, mas em versão erudita. 

The Philosophy of the Out-of-Office Email: É um hábito pouco habitual na minha profissão, suspeito que por causa daquele mau hábito que vê a docência como vocação e não emprego, e parece que fica mal não estar sempre disponível para respostas. Prefiro não fazer isso, e sempre que estou fora, quer em trabalho quer de férias, coloco uma resposta automática a indicar que as mensagens que me enviarem não serão lidas até ao meu regresso, e contactos alternativos para questões que sejam mesmo necessárias. Não deixo mensagens filosóficas ou gabarolices de ócio, prefiro um estilo o mais impessoal possível. 

MrBeast, sobre su fortuna: "Tengo la cuenta en números rojos, pido prestado dinero, ese es el nivel de poco dinero que tengo": Não derramem lágrimas sobre a pobreza deste rico. Na verdade, é um bem conhecido esquema para se esquivar a pagar impostos. Em essência, o ter pouco dinheiro na conta e poucos bens em nome pessoal disfarça o terem a chamada riqueza de papel - o valor de capitais que por serem considerados investimento, lhes permite não pagar impostos sobre a maior parcela da sua real riqueza. É todo um sistema montado para beneficiar uma minoria, prejudicando toda a sociedade. 

El problema de los coches estadounidenses en Europa no son los aranceles: es que no nos interesan lo más mínimo: Não há birras trumpistas que ultrapassem o óbvio. Por cá, só os azeiteiros é que apreciam carros demasiado grandes e devoradores de combustível. 

Ukraine Is Not Losing. Russia Is Not Winning: As capacidades táticas trazidas pela forma inteligente como os ucranianos combinam sensores, sistemas tradicionais e drones, são um novo marco de desenvolvimento nas tecnologias de combate. 

The Absurd World Cup: Portanto, não ocorre a nenhum dos amantes do futebol que celebrar o Pride com um jogo entre o Egipto e o Irão é ridículo? Não são países conhecidos pela sua tolerância. Até vou mais longe. Já há muito que a FIFA, organismo notoriamente corrupto, transformou o desporto favorito das massas num sumidouro de dinheiro para os bolsos dos seus comparsas. E nós, nas democracias ocidentais, temos de viver com este paradoxo - defender a liberdade e transparência ética, enquanto as populações e os políticos adulam o frenesi futebolístico assente na mais pura e visível corrupção. 

How to Stop a Killer Asteroid: Missões de astronautas-perfuradores de petróleo não estão incluídas nesta lista. 

Leituras da Semana (#118 // 08 Jun 2026): Duas leituras muito pertinentes. Por um lado, o orgulho LGBT visto além do lado de show dos desfiles, recordando os dramas pessoais e sociais dos que não são heteronormativos (e não, não é uma "escolha", "lifestyle", ou "moda passageira", é algo íntimo e muito pessoal). Por outro, o óbvio racismo por detrás de algumas invocações da antiguidade clássica, centrando-se nalguns aspetos mais do agrado dos suprematistas brancos do que da realidade histórica. 

El secreto de Brasil para convertirse en la primera nación de Latinoamérica con su propio caza supersónico es una cifra: 40: Como o artigo bem observa, a verdade é que não existe realmente um produtor único que integra todas as capacidades de desenvolvimento de aeronaves avançadas, antes, é uma complexa cadeia de fornecedores globais. A Embraer está a explorar muito bem estas oportunidades, e por cá também temos empresas inseridas na cadeia de desenvolvimento do Gripen.

domingo, 19 de julho de 2026

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Esteban Maroto: Marotices? 

Jorge R. Gutierrez Cutting Ties with Amazon/AI Animation Program: Isto foi rápido. Num dia um criador conceituado anuncia que está a trabalhar num projeto com IA, no outro demite-se, porque já se sabe, a gritaria foi elevada. Nisto, o problema foi ter anunciado demasiado cedo. Normalmente, a presença de IA passa nos media quando é discreta, contratada por muitas das vozes e empresas que publicamente se afirmam anti-IA.

Feira do Livro de 2026 (1): No meu caso, qualquer post que faça sobre este evento será (0). Não planeio ir este ano. Em parte, por nunca ter apreciado a feira do livro de Lisboa, entre as multidões e localização. A divergência com a Divergência (olha, uma piada nerd!) não ajuda, até porque esta seria das poucas editoras onde iria às compras. E, claro, olho para as pilhas do que tenho por ler e penso que será asisado não ir à caça de mais livros. 

SFF Satires of Modern Tech Culture: Uma lista a descobrir, onde a ficção especulativa e a ironia se cruzam para olhar para a tecnologia contemporânea. 

Seven Books You’ll Never Outgrow: Há, de facto, livros que ficam connosco para a vida. 

“There Ain’t Nothin’ Different”: When Dystopian Sci-Fi Ruled the Cola Wars: Isto é algo que hoje nos parece impensável, usar a estética da FC para promover produtos maintsream fora da área da tecnologia.

The Best Sci-Fi & Fantasy Novels: The 2026 Nebula Awards: Uma análise à lista de romances nomeados para este prémio.


danismm: “Buenos Aires in the year 2000″. 1974: Uma visão mais luminosa. 

Tech companies desperately want to film you doing chores: E para quê, perguntam-se? Se a resposta não for óbvia, explico - para treino de algoritmos de IA.

LLMs believe false statements even after explicit warnings that they're false: Para surpresa de ninguém. Note-se que ao nível mais elementar os llms são lógica e matemática, não conhecem verdadeiramente o sentido das palavras.

AI Firm Trots Out Digitally Resurrected Corpse of Stan Lee You Can Use to Create Mind-Numbing Slop: Para quem conhece a biografia de Stan Lee, há aqui uma ironia deliciosa. O editor que construiu a sua carreira a partir da obra de outros criadores (Jack Kirby é o caso mais conhecido) é agora digitalmente plagiado.

Desde que a Revolução Industrial: Não tenho resposta direta ao Luís Filipe Silva. Mas tenho direta - a forma como deixamos que as nossas ferramentas nos moldem, como diria McLuhan, é uma questão cultural. Requer luta, investimento e ativismo digital combater o mau uso da IA que nos querem impor.

Euro-Office, Europe's open-source alternative to Microsoft Office and Google Docs, launches June 9: Será que tem pernas para andar? Pelas imagens, aquilo parece-me um nextcloud com aspeto mais limpo do collabora office.

Ya no vale con contar dedos para saber si una imagen está hecha con IA. Ahora hay que aprender dibujo técnico: Deveras. Erros de perspectiva são neste momento a forma mais eficaz de perceber se uma imagem de aspeto realista foi gerada por IA. Mas isso irá mudar, certamente, com a evolução contínua destas ferramentas.

The Virtual OS Museum Lets You Emulate 1700+ Operating Systems From as Far Back as 1948: Retrocomputação na palma da mão.

Cruce de cables: El software abandonado que sostiene el mundo: Surpreende, mas acontece, perceber que há infraestruturas inteiras que dependem de software desenvolvido por programadores individuais ou pequenas equipas, que acaba por ser incorporado em sistemas mais complexos. Algo que geralmente só se dá conta quando os criadores originais desaparecem, deixando de manter esse código, o que leva a travagens em sistemas mais complexos.

AI Has Ruined the Job Market: Se lerem o artigo com atenção, vão perceber que o problema não é a IA, mas sim a chico-espertice, ou a tendência humana para encontrar atalhos displicentes com poucos escrúpulos. 

Google Is Quietly Buying Code From Play Store Developers to Train AI: Bem, pelo menos, está a pagar aos criadores.


M. C. Escher (1898-1972) Dream (1935): Clássicos. 

El AVE a Extremadura ha dado un pasito clave en su conexión con Madrid. Es un pasito que nos devuelve una década atrás: Acho catita esta esperança espanhola de se ligar a Lisboa por alta velocidade ferroviária. Faz sentido, claro, mas o nosso atraso nisto é notório.

Kids Are Flying Into Lunatic Rages When Their iPads Are Taken Away: Bem, mas antes que comecem a desesperar com os habituais gritos de adição a ecrãs e o vício do digital, notem que crianças a fazer birra quando lhes tiram das mãos os brinquedos favoritos não é nada de novo.

La gran desindustrialización de Europa, en un mapa que parte el continente en dos: Um mapa que mostra a industrialização europeia, e o caso de Portugal surpreende. 

Ukraine to acquire 20 Saab Gripen E/F fighter jets from Sweden via €2.5 billion EU loan: Isto é uma decisão muito inteligente por parte da Suécia. No corrente (e justificado) clima antiamericano, a Saab, junto com a Dassault, constitui um dos poucos construtores aeronáuticos europeus com tecnologia avançada, quase ao nível da quinta geração americana. Se os Gripen forem bem sucedidos nos céus ucranianos, isso é uma excelente recomendação de aquisição para países que estejam relutantes em investir em aviões de combate americanos.

La NASA ha puesto en marcha su base lunar: seis empresas, cientos de millones de dólares y 25 misiones para conquistar el Polo Sur: Será que é para levar a sério? A verdade é que quem acompanha os passos da exploração espacial já se cansou de anúncios destes, que depois não dão em nada.

Chilling Effects: É o momento em que se sabe que uma sociedade está a resvalar para o autoritarismo, quando a maioria das pessoas sente vontade de se manifestar contra o estado das coisas, mas não o faz por medo. Não o medo das grandes represálias, mas das pequenas vinganças sistémicas do dia a dia.

Quizá envejecer mejor no dependa solo del cuerpo: la ciencia empieza a estudiar también el efecto del arte y la cultura: Porque, já dizia a velha máxima, não é só corpore sano, também é mens sana. Se bem que no meu caso, suspeito que haja contraindicações. Comtemplar a pilha de livros por ler que cresce em proporção inversa ao tempo para leitura provoca-me chiliques e outros solipampos cardíacos.

Leituras da Semana (#117 // 01 Jun 2026): Vivemos de facto num ambiente de retrocessos. Não porque o queiramos, mas porque um grupo restrito de pessoas usa o seu dinheiro para comprar influência e com isso impôr culturas de regressão. As duas leituras que o João Campos destaca mostram bem isso - por um lado, as minorias como alvo inicial das estratégias de regressão; por outro, a conivência dos  media, presos aos ciclos do choque e novidade, que amplificam os ruídos regressivos bem além do que seria expectável, para manter leitores ou atrair espetadores. 

The Spanish Exception: Governo e políticas de esquerda a dar excelentes resultados, mas falta resolver o problema da habitação. Por cá, andamos a sorrir atrás do luís dos casinos enquanto ele nos conduz ao desastre das políticas públicas. 

Where Dogs Go On With Their Doggy Life: A profunda empatia sentida entre cães e humanos.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

O Homem da Nave


Aquilino Ribeiro (1968). O Homem da Nave. Lisboa: Livraria Bertrand.

Ler estas obras de Aquilino, entre a ficção, o retrato e o ensaio, é regressar a um Portugal que, apesar de relativamente recente, hoje já não existe. As descrições aquilinianas, feitas num dealbar da modernidade, falam-nos de terras e povos de carácteres, hábitos e costumes centenários, talvez milenares, apesar da intrusão progressiva de modernismos como estradas, automóveis, luz elétrica e a velada opressão política do estado novo. As paisagens ainda existem, embora irremediavalmente transformadas pela evolução que fizemos nas últimas décadas do século XX. Tempos que pese embora a sua imperfeição, alfabetizaram as populações, modernizaram a saúde e habitação, transformaram as economias de subsistência rural.

Num pormenor curioso, Aquilino ergue o dedo acusador contra a desflorestação trazida pelas monoculturas, que relata ter efeito nefasto sobre a vegetação e animais da serra. O que hoje chamamos de biodiversidade, e que o mestre Aquilino era tão genial a invocar na sua prosa complexa e sabida.

O livro leva-nos aos povoados, pessoas e paisagens serranas da Serra da Nave, um altiplano no nosso interior profundo. Todo o livro é um elogio ao homem e à natureza, feito de relatos entrecortados. Cada capítulo reserva-nos uma surpresa - pode ser um retrato, ficcional ou real, das gentes e dos seus modos. Ou pode ser uma divagação bucólica pelas invocações da natureza, das cores do outono, a vivacidade da primavera, o peso do estio. Por vezes é ensaio étnico e social, outras, apontamento sobre a intrusão da modernidade ou os choques entre as novas sensibilidades culturais urbanas e as tradições centenares dos serranos.

As geografias lá continuam, como sempre estiveram, os povos e a paisagem humanizada alteraram-se. As memórias de Aquilino tornam-se um memorial a um passado recente que muitos, hoje, não guardam memória.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Artes Urbanas

 












Apontamentos de arte urbana, entre a oficializada e a vernacular, em Caldas da Rainha, Leiria e Alcobaça.


domingo, 12 de julho de 2026

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Syd Mead’s concept art for an Arctic Mobile Operation Base: Clássicos. 

This Literary AI Scandal Changes Everything: Se se vir a literatura como entretenimento, algo a que as massas têm sido condicionadas pelo marketing das indústrias criativas, isto é a consequência óbvia - a automatização generativa literária (e audiovisual). Diria que não vale a pena chatear-mo-nos muito com isto. Chico espertice sempre existiu (do plágio ao ghostwriting), e o real problema que vejo com estes maus exemplos é ajudar a polarizar a discussão sobre a tecnologia, tornando mais difícil o trabalho e aceitação dos que usam a IA para experimentar novas formas de olhar, onde é uma excecional ferramenta criativa. 

Before Pixar, There Was ‘The Works’: A Lost Chapter In The History Of Computer Animation: Não resisto a duas notas - a nostalgia com a estética do CGI incipiente, e o recordar que, à época, isto era tão mal visto e apontado com dedo acusador como "artificial" e "desumano" como hoje falamos de IA generativa. 

I Am Begging You to Read Terry Pratchett: Demorei a ler este autor, e quando o descobri, percebi o fascínio dos seus fãs. A combinação de humor mordaz, erudição, elegância literária e imaginário é, de facto, fabulosa. Apesar do brilhantismo, temo que se esteja a tornar num outro Ballard, também escritor elegante, influente e essencial do século XX que parece estar a ser esquecido. No caso de Pratchett, até se percebe. O simples facto de ter escrito essencialmente literatura fantástica é anátema para o establishment, e suspeito que há por aí muito prémio nobel (ou booker, ou gouncourt) que teria chiliques de inveja perante a elegância da prosa de Pratchett. 

Luminous: cyberpunk emocional: Suspeito que literatura em reação à distopia. 

The Slop Before The AI Slop: Toda a celeuma sobre o uso de IA generativa na literatura tem uma longa história, que antecede em muito as experiências de escrita computacional. 

AI-Writing Scandals Are Getting Very Confusing: Em parte, os escândalos são justificados. Pseudo-autores que geram os seus textos de forma automática é puro chico-espertismo, e na verdade, fraude. Por outro lado, ver autoras que até foram nobelizadas a levar nas orelhas por admitirem utilizar IA é apenas pateta. Porque se forem ler o que realmente foi dito, percebem que é o melhor uso possível da IA, como forma de explorar ideias e procurar vertentes, e não a automatização da escrita a metro que é apanágio dos vigaristas. Mas nem vale a pena falar disto, porque neste momento, a discussão sobre a IA está demasiado polarizada, oscila ente o deslumbramento imposto por evangelistas de qualidade duvidosa (e motivação para lucro a todo o custo), e a reação de rejeição visceral, em grande parte advinda da péssima forma como a IA está a ser implementada para favorecer todo o tipo de vigarices, das culturais às laborais. Já quem usa a IA com bom senso, percebe o seu potencial (e também percebe o que não faz). 

Inocência: Rever um clássico do anime. 

Service Model – Adrian Tchaikovsky: Este tem sido um dos mais interessantes e prolíficos praticantes da arte da boa Ficção Científica. Neste romance, tão certeiro na era das incertezas da IA, mostra-se também um mestre da fina e corrosiva ironia. 


Tadami Yamada “Illustrations for William Hope Hodgson’s short weired tales Carnacki The Ghost-Finder”: Temores. 

Los ejecutivos occidentales que triunfan en LinkedIn tienen un secreto: asistentes virtuales en Filipinas que escriben por ellos: A sério que se surpreendem quando descobrem que aqueles posts partilhados pelos sociopatas do workaholism que infestam o LinkedIn não são realmente escritos por eles, mas sim subcontratados a assistentes? Diria até que é a melhor metáfora do chico-espertismo do mundo empresarial. 

Anthropic’s Code with Claude showed off coding’s future—whether you like it or not: Isto é automatização de alto nível, mas não retira a necessidade de compreensão profunda da programação e suas lógicas. 

A CEO of a Bank Just Said Something So Ghoulish About Its Plans for AI That He’s Now in Full Damage Control Mode: É por estas que estamos tão reticentes e furiosos quanto ao uso da IA. Porque percebemos que quem mais a defende o faz não em prol da sociedade, mas do seu bolso. E, de vez em quando, há estes lapsus linguae tão reveladores sobre o real pensamento das elites governantes: "replacing in some cases lower-value human capital with the financial capital and the investment capital". Como estamos em modo de pleno late stage capitalism em cruise control, o Financial Times anda a vender canecas e t-shirts a gozar com esta frase. Leran bem, o Finantial Times, que não é exatamente um paladino da critica aos desmandos do capital. 

Open-Source Software Is Starting to Help Robots Think: As implicações do uso de modelos de IA abertos na robótica. 

AI video is moving beyond clip slop: A verdade é que as indústrias criativas já usam extensivamente IA, apenas não o admitem para não terem de aturar as repercussões num momento em que a IA é mal vista. Negam o seu uso, mas usam-na extensivamente, cruzando-a com técnicas clássicas para não se notar, usando editores profissionais, uso de filtros, correção de cores, e aplicação intencional de imperfeições. Já passa aí muita coisa nos media que é o resultado de algumas horas de geração no higgsfield, e mesmo quem tenha o olhar treinado para perceber sintomas de ai slop não nota. Quando é purê AI há sempre inconsistências (luminosidade, perspetiva, transições), por muito cuidadoso que tenha sido o videógrafo. 

Jeff Bezos Tells Workers to ‘Be So Happy’ They’re Being Given the Gift of AI: Isto é a verão século XXI do "que comam brioches". Ter bilionários que enriquecem a sugar o tutano a trabalhadores sobre-explorados e mal pagos a dizer, com ar condescendente, que ainda se devem sentir agradecidos pela dádiva da ameaça de despedimento para serem substituídos por IA é profundamente distópico. 

Lenovo’s Game Boy Is Real and Reportedly Stuffed With Ill-Gotten Games: Bem, esta é inesperada, ver a Lenovo associada com o mundo low end das consolas de baixo custo cheias de jogos clássicos pirateados. 

Will Robotics Have a ChatGPT Moment?: Como alguém que se dedica à robótica, francamente espero que sim, que se torna mais acessível e diversificada. 

If Google can’t  make AI agents useful, maybe no one can: Confesso que os agentes de IA são uma tecnologia cuja usabilidade me escapa. Mas, provavelmente, isso deve-se ao tipo de profissão que tenho, onde há imensa imprevisibilidade e agência no mundo real. 

Why College Students Are Booing AI: Uma análise interessante, que se atreve a ir mais a fundo do que o habitual. Se bem que o argumento "hey, esperam mesmo que as pessoas sorriam e aplaudam quando os bilionários feudais lhes dizem, babando-se, que deveriam estar agradecidas pela sua dádiva da IA que as vai colocar no desemprego" é válido. Mas este artigo olha mais a fundo, para a questão do lado transacional do ensino, do jogo das notas e diplomas. 

Nintendo Is Completely Ignoring AI and Doing Fine: Provavelmente porque é uma empresa com objetivos claros que conhece bem o seu mercado, e por isso não cai no desnorte de meter IA com toda a força sem saber muito bem para que lhe serve. 

The EdTech Backlash Is Here, and It's Just Getting Started: Não sei se qualificaria isto como revolta- Parece-me mais um recentramento, e um apelo ao bom senso. Trabalho com tecnologia e educaçao há muitos anos e confesso que considero uma parvoíce ideias como "tudo tem de passar pelo digital" ou "a IA obriga a repensar tudo". Até porque a minha experiência com as dezenas (centenas?) de projetos que iam mudar a educação com as maravilhas da tecnologia é negativa - programas rídigos, softwares limitados, alunos e professores transformados em clicadores de opções, uma visão de aprendizagem e educação automatizada muito redutora. A corrente tendência dos chatbots educativos espelha em tudo os maus hábitos das anteriores. E, apesar disto, a tecnologia na educação faz imenso jeito. É incrivelmente capacitadora das capacidades das crianças - até mesmo a IA. O problema, está no uso. Se transformamos as aulas em sessões de powerpoint, a aprendizagem no clicar em busca de respostas nos softwares educativos, a criação de artefactos em produção de documentos, isso não traz nada de novo, não aprofuda aprendizagens (nem as técnicas). Por isso não surpreende este cansaço de pais, crianças e professores com tanto tempo de ecrã com valor diminuto. Como professor de informática, percebo bem isso, e vejo que no nosso lado tem sido trilhado um caminho diferente, de real capacitação, criatividade aplicada e cruzamento do ecrã com a manualidade da eletrónica. 

Police in China Sure Love Smart Glasses: Convém recordar que a China não é uma democracia, e tem sido exímia a mostrar como a tecnologia pode ser colocada ao serviço da repressão.

99 Percent of CEOs Are Preparing to Lay Off Workers and Replace Them With AI Within Two Years, Survey Finds: Expliquem-me lá outra vez como é que é incompreensível que uma tecnologia como a IA esteja a ser tão detestada? Porque sentimos que fugiu ao controlo da sociedade, e está a ser usada para dar corpo aos sonhos mais húmidos da ganância das elites.

Safeguarding the Human Person in the Time of Artificial Intelligence: Ainda não li a encíclica, mas pelos relatos, parece-me que a posição é mais de aviso perante os excessos de um capitalismo predatório potenciado pela IA do que sobre a tecnologia em si.

Choosing to Stay Human: Outra coisa que não ajuda à aceitação da IA é o chico-espertismo dos caça-níqueis, que estão a ajudar a níveis diluvianos de proliferação de AI slop.

AI warfare is already here: Há uma frase no artigo que resume bem o interesse destas armas - "They used to say guns don’t kill people, people do,” its CEO tells the audience. “But people don’t. They get emotional, disobey orders, aim high. Let’s watch the weapons make the decisions.”"


Gotta be for an article about computer bugs, right?: E não é dos pequenos. 

Beautifully Illuminated Cynical Affirmations: A beleza do humor negro. Pleonasmo, bem sei. 

Italia buscaba renovar sus aviones cisterna entre Boeing y Airbus. Su decisión dice mucho del momento que vive Europa: Porque soberania europeia significa… tecnologia europeia. E não resisto a imaginar a cara dos bilionários americanos que colocaram Trump no poder a ver estes negócios a fugir-lhes das mãos graças à declarações ofensivas do boomer pirralho sobre os europeus. Ou estavam à espera que fossemos insultados e logo a seguir ir comprar-lhes aviões caros? 

Ucrania ha resucitado una de las tácticas más antiguas de la guerra. Y está aislando ciudades rusas sin necesidad de soldados: A vanguarda tecnológica cruza-se com as mais antigas táticas. 

How to defeat Vladimir Putin: Constância e vontade é uma delas, e o confronto militar é evitável. Mas talvez a melhor forma de derrotar este ditador é manter a Europa como chama da liberdade, prosperidade e igualdade. É isso que incomoda Putin, e os restantes coronéis tapiocas que pululam da casa branca ao kremlin. 

Trump’s Endgame Is Surrender: Os historiadores do futuro vão coçar a cabeça com a incompetência deste aventureirismo, em que a grande potência global atacou de forma fulminante e apenas conseguiu fortalecer um regime enfraquecido, com o bónus adicional de o ter levado a tomar conta de um ponto geoestratégico fulcral para a economia global. 

NATO TIGER MEET 2026: Confesso que me surpreendeu a estética gelada destas fotos. 

‘Corpse Point’ In the Arctic Is Melting, Disturbing Centuries-Old Bodies: Não só é um indício dos males trazidos pelo aquecimento global, como uma boa metáfora para o futuro em que insistimos em dirigirmo-nos. 

Eyes Wide Shut: Handling Toxic Staff Who Use “Spying” To Disrupt School Culture: A minha tática passa por evitar ativamente a sala de professores, esse antro de normies/npcs onde se fala muito, nada se faz, e as vozes mais ativas são geralmente as das mãos mais passivas. 

Four Russian satellites are now within striking distance of an ICEYE radarsat: Alguém falou em guerra espacial? 

The Olympics These Were Not: Aparentemente, uma competição desportiva onde o doping é não só encorajado como essencial para competir é algo que existe.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Magnifica Humanitas


Leão XIV (2026). Magnifica Humanitas: Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Lisboa: Paulinas.

Das coisas que não estavam nas minhas cartas para este ano, e no entanto, aconteceram. Eu, empedernido ateu, a ler, meditar e apreciar uma encíclica doutrinária papal. Se isto vos surpreende, recordem-se: estamos a perder em guerra aberta pelo capitalismo predatório,  e precisamos nas trincheiras de união apesar das diferenças. Mais importante que a diferença entre não acreditar e acreditar em mitos como se fossem reais, é a igualdade do humanismo, a única arma que temos contra aqueles que se estão a apropriar de uma tecnologia fascinante para enriquecer ainda mais. Piorando as condições sociais, ambientais e laborais, extraindo riqueza que fica concentrada nos seus fundos offshore e outros malabarismos fiscais em vez de circular na sociedade. 

Ou não vos dá uma certa vontade de começar a afiar a lâmina da guilhotina sempre que um ceo ou bilionário proclama alegre e orgulhoso que os  benefícios da IA serão tantos que vai já despedir uns  milhares de trabalhadores, sorrindo ao falar-nos de futuros onde áreas laborais inteiras deixem de precisar de mão de obra hunana? E, talvez, com a água racionada, se se levar ä letra a ideia de um certo bilionário que começou por enriquecer a vender livros e agora é dono da infraestrutura que sustenta grande parte da internet, e passar a investir os recursos hídricos escassos no desenvolvimento da IA, que trará ainda mais prosperidade ao seu já gargantuesco bolso, em vez das necessidades básicas dos meros humanos.

Sim, eu sei. Estou a falar do dono do Goodreads. Percebo a ironia. Mas estou a divergir.

Parte desta encíclica lê-se na diagonal. É una encíclica doutrinária, e o seu texto reflete sobre os pressupostos do edifício intelectual da teologia católica. É, certamente, fascinante para crentes, fiéis e teólogos, mas não muito importante para o meu objetivo de leitura.

Apesar da sua origem e destino teológicos, tocou-me o fundo profundamente humanista desta encíclica. Após os necessários rodeios doutrinários, enfrenta o tema de frente: a forma como a IA, e a tecnologia em geral, está a ser apropriada pela elite financeira capitalista para fazer crescer ainda mais desmesuradamente os seus ganhos, em detrimento da sociedade humana, das pessoas, do próprio planeta. Vindas de onde veem, as palavras não têm o tom viva la revolución que lhes coloco, são mais os apelos de um sacerdote sábio ao amor e solidariedade. Mas é isto que se destila da leitura: uma revolta profunda contra a forma como a tecnologia está a ser usada para piorar o mundo em que vivemos.

O texto não é uma negação da tecnologia, ou um apelo à paragem do desenvolvimento da IA. Bem pelo contrário. A importância da ciência e tecnologia é sublinhada, e quanto à IA, é observado o seu potencial. O foco, e aqui o papado entra na trincheira partilhada por todos os críticos conscientes da IA, está na forma como esta tecnologia está a ser apropriada pelas piores forças do capitalismo - as que buscam a primazia do lucro acima de tudo, cilindrando os trabalhadores, as famílias, a sociedade, os recursos naturais, o ambiente, a nossa casa planetária comum. É uma revolta dupla, feita contra o asco perante este novo excesso de desumanidade, mas também pela frustração de ver o potencial libertador da tecnologia a ser cooptado para a opressão, quer a financeira, quer a politico-militar.

É uma encíclica de palavras sábias, que certamente tocarão no âmago dos crentes. Como ateu, não me deixam indiferente, bem pelo contrário. O humanismo do amor ao próximo, o reconhecer que podemos e devemos lutar por um mundo melhor, que a tecnologia deve ser ferramenta para que todos enriqueçamos, mostram que este papa está do lado certo da história. Que, infelizmente, dado o poder dos bilionários, talvez não seja o lado vencedor. Mas pelo menos, estamos do lado dos que procuram lutar pelo mais correto, pelo bem da humanidade. Valha-nos isso.