segunda-feira, 1 de junho de 2026

Lisbon Loras Adobe

 


Em modo de reflexão. Aqui no nosso mundo da educação, debate-se imenso a IA, entre o deslumbre com ferramentas generativas, temores da alienação no conhecimento delegado ao chatbot, e a proliferação de imagens feias geradas para ilustração de conteúdos ou cartazes (não se se prestaram atenção às imagens da MoDA de inglês de hoje, vi algumas de relance e eram típico ai slop). Fala-se, discute-se, mas o pouco que se usa é de uma forma muito linear, o que é natural, andamos todos a perceber para que tipo de pregos o martelo da IA serve. 

Sair da educação e ver o que se passa noutros campos ajuda a perceber melhor os reais impactos desta tecnologia, olhando para criadores que acima de tudo, praticam e aplicam. Os encontros Lisbon Loras têm sido interessantes na forma como criadores mostram não como integraram a IA, mas sim como esta se tornou uma ferramenta elementar nos seus processos de trabalho. 

Não se trata, ao contrário do que tanto se fala por ai, de clicar no botão para a IA fazer todo o trabalho. Estes criadores olham para a automação inteligente de processos rotineiros, cruzam técnicas tradicionais com IA, e têm todos em comum um esforço consciente de ir além da geração, condicionando e trabalhando a imagem e o vídeo para ultrapassar as condicionantes da IA generativa. 

Não são criadores de topo, conhecidos fora dos seus nichos de mercado, culturalmente relevantes (no sentido clássico da ideia). São, de certa forma, os proletários das indústrias culturais, os que concebem campanhas e iconografiaa para o que se vende nas lojas, logótipos para os pequenos negócios, imagens de marca para aquelas marcas que não são de luxo. Em suma, são os trabalhadores que produzem aquelas imagens que nos enchem o dia a dia, desde as partilhas fugazes nas redes sociais aos cartazes publicitários nas ruas. 

Sim, perceberam. Enquanto na educação (e sociedade em geral) discutimos os temores éticos da IA, o ambiente ao nosso redor já é caracterizado por imagética generativa, bem trabalhada para não ser  mero AI slop.

Há também que referir que as pizzas encomendadas pelas Loras são deliciosas. Caem mesmo bem com uma cervejinha depois de ouvir as intrigantes partilhas dos criadoras. 

domingo, 31 de maio de 2026

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Jean Giraud - Mœbius illustrates Dante’s Paradiso (1999): Paraísos artificiais. 

«17776» es una encantadora novela interactiva para leer desde el navegador web: Novas formas de leitura na era digital. 

Fim de semana: Faço minhas as palavras do João (embora não nos tenhamos cruzado neste fim de semana específico, tive pena de não nos termos encontrado no sábado). Apesar dos programas, a principal razão para ir a eventos como o Festival Contacto é mesmo o cruzar-nos com aquela gente com quem nos sentimos bem a trocar ideias e conversas, e passamos mais tempo em conversas do que realmente a frequentar as atividades e painéis. Digo isto, apesar de ter estado a ver um painel interessantíssimo sobre literatura fantástica espanhola, que me deixou cheio de referências para assaltar livrarias da próxima vez que passar a fronteira. Foi antecedido de um banalíssimo painel sobre terror, com discussão de lugares comuns e sem grande interesse - sem grande surpresa, moderado e com forte presença de pessoal ligado ao projeto Fábrica do Terror, que se por um lado faz um trabalho interessante na promoção desta vertente da literatura fantástica, assume sempre posturas de uma tão elevada presunção que me fazem perder a paciência com os seus discursos. Especialmente se contrastar com o trabalho discreto mas eficaz de pessoal como o editor da Divergência, ou a organização Imaginauta, que se tem pautado pela insistência em trabalhar para a comunidade. É de notar que este painel onde se discutiu uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma teve casa cheia, e o seguinte, a mergulhar a fundo na literatura do lado de lá da fronteira, contou com umas sete pessoas, contando com a oradora e a moderadora, o que me deixa algo atemorizado sobre a vontade de um grande sector de fãs da cultura fantástica em ir mais a fundo do que as conversas superficiais. Irritações à parte, o Contacto tinha um programa interessante e muito recheado, entre painéis, atividades paralelas, feiras de arte e do livro (e aí, a minha carteira levou pancada). Saí de lá sem saber que diacho de coisa é essa que é o mundo cosmere. Deitei um olhar, percebi que era algo entre fantasia ou romantasy, dois géneros que não são apelativos ao meu coração de hard SF, apreciei os adereços e segui. Pode não ser a minha cena, mas nunca deixarei de admirar fãs que adoram celebrar o que os fascina. Dei por falta de um espaço dedicado a Harry Potter, talvez significando que o potterheadismo como fandom está a entrar em fase descendente. É normal, quem acompanha estes eventos ao longo de anos percebe que há gostos avassaladores que eventualmente se esfumam, faz parte da evolução das culturas de género. E, para enorme surpresa minha, estive numa sala dedicada ao cyberpunk, decorada a rigor, provavelmente foi o primeiro momento em que o pessoal ligado ao Contacto criou um espaço dedicado à FC pura. Só um esclarecimento, caso achem o meu tom agressivo - admiro e adoro o trabalho da Imaginauta e grupos similares, e tentarei sempre estar presente para os apoiar nestas iniciativas. Para o ano, conto voltar a visitar o Contacto, lutando contra o meu preconceito para com a zona pesada de Chelas, digo, bairro de Marvila em cuja biblioteca acontece. Para comprar livros, trocar dedos de conversa com a malta de sempre, revirar os olhos com a pomposidade da fábrica do terror, e sorrir ao ver que apesar da cultura do género fantástico ser uma minoria, é de facto uma imensa minoria, cheia de sangue novo, que se atreve a fazer coisas, a criar, a homenagear as suas vertentes favoritas, a escrever e a ilustrar, a falar das leituras e séries, a mostrar-se em elaborados cosplays. É uma ruidosa e abrangente casa intelectual e cultural. 

William Shatner Tackles Star Trek/Starfleet Academy Hate: "Get a Life": E isto, meus caros, resume bem aquelas disputas acaloradas, especialmente online, onde os trolls proliferam e a gritaria impera.

The Flying Tigers: Clássicos aéreos. 

Big Dreams and Other Challenges: The World Wide Web: A história da internet, revista através de instalações artísticas do Ars Eletronica. 

USE IT OR LOSE IT: Sim, tudo muito certo e lógico, mas o que a minha experiência de vida me ensinou é que a larga maioria das pessoas não está para se chatear e muito menos fazer esforços intelectuais, e fica muito feliz em delegar quaisquer cargas cognitivas em ferramentas externas. 

Why Microsoft’s war on Windows’ Control Panel is taking so long: Diga-se que é uma guerra que não faz nenhum sentido, a menos que o objetivo seja ofuscar ao máximo a gestão profunda do computador e manter tudo da forma que dá mais jeito à microslop para nos sacar os dados de uso. E sim, é esse o objetivo, fazer com que a esmagadora maioria dos utilizadores não perceba que pode gerir, monitorizar e controlar o cerne do seu sistema. 

El CEO de Mistral manda un mensaje a Europa: se acabó ser el vasallo tecnológico de Estados Unidos: Sim, concordo e subscrevo, mas o desafio é monumental. O desleixo da dependência de sistemas e soluções americanas, que sempre nos foi imposto em nome da liberdade dos mercados, implica que não tenhamos empresas e sistemas que consigam substituir, à escala europeia, serviços centrais como os prestados pela google ou Microsoft. Há alternativas, fragmentadas, e temos de desenvolver o trabalho de as escalar, fazer crescer. Não chega dizer que queremos apostar em soberania digital e depois apontar um conjunto de serviços que estão muito aquém do que as grandes empresas do digital nos habituaram. E isso é trabalho institucional, prestar o apoio necessário para que os prestadores europeus consigam ganhar escala e com isso tornarem-se alternativa credível à google e similares. A Mistral é um bom exemplo disso, não está ao nível de uma OpenAI, Google ou Anthropic, mas lá chegará, com o investimento certo. 

Is Schoolwork Optional Now?: Confesso que não vejo estas discussões sob o tom catastrofista de fim das aprendizagens e derrocada do sistema educativo. O haver ferramentas que permitam aos alunos entregar todos os trabalhos de uma disciplina de forma tão automática que nem sequer acederam diretamente aos seus conteúdos, bem como professores a automatizar um trabalho de avaliação que é já em grande medida mecânico, não significa uma catástrofe cultural. Mostra apenas a incoerência central dos nossos sistemas de ensino. São culturalmente apresentados como acesso ao saber e conhecimento que capacita e permite o desenvolvimento das pessoas (e, de facto, é-o). Mas socialmente, a mensagem que passa é que o sistema é uma obrigação certificadora, que não interessa tanto o que se aprende, como o resultado  - passar no exame (e logo a seguir esquecer o que se estudou), ter o canudo, obter o certificado. Sejamos honestos: o medo de ter alunos que obtenham certificações finais de cursos tendo adquirido zero conhecimentos porque a IA fez tudo por eles, esquece que isto sempre foi assim. Todos nós, que sobrevivemos aos vários graus de sistema de ensino tivemos colegas que desenvolveram o mínimo de esforço possível, porque o que realmente queriam era a certificação e não a sabedoria. Diria até que é uma larga maioria, e destes, alguns recorriam a fraude para se safar, desde as elementares cábulas aos trabalhos encomendados a terceiros. Não me perguntem como reverter isto, não creio sequer que haja solução, faz parte dos profundos defeitos da natureza humana. Mas sei como mitigar, em sala de aula. A aplicabilidade prática do que se está a aprender, ou, colocando em termos que qualquer educador percebe, o trabalho de projeto, quebra este padrão, pela simples razão que quem não sabe porque usou a IA para aceder aos conteúdos, não consegue, sequer, fazer. E refira-se, também, que se o aprender se limita a olhar para textos e vídeos nos ecrãs para depois se ter um certificadozito, não estamos realmente a aprender nada. 

France to Ditch Microsoft Windows as Europe’s War on American Tech Rages On: O interessante no plano francês é perceber que estas coisas não se fazem do dia para a noite, têm de ser graduais. Começam por serviços onde a segurança é essencial, e planeiam alastrar ao resto da administração pública. 

¿Quién puede más, Google o siete pequeñas empresas holandesas juntas? Europa está a las puertas de descubrirlo: Os desafio de apostar na soberania digital europeia são enormes, e algo que não se resolve com declarações de intenções ou marketing mal amanhado. 

Mutually Automated Destruction: The Escalating Global A.I. Arms Race: A escalada de letalidade dos drones e robots de combate, com um desenvolvimento acelerado e investimento em progressivos graus de autonomia letal. 

Afinal, o teu telemóvel ouve o que dizes? Especialistas revelam o segredo dos anúncios direcionados: Não, o telemóvel não anda a gravar o que dizemos. A verdade é mais complexa e elegante, a surpreendente capacidade de as aplicações nos mostrarem anúncios arrepiantemente próximos daquilo que andamos a discutir constrói-se com um minucioso trabalho de análise algorítmica dos padrões de uso feita através da nossa pegada digital - a miríade de pesquisas, conteúdos visualizados, tempo que passamos a ver determinados conteúdos, reações e localização geográfica. É complexo, discreto, e não muito fácil de compreender, o que ajuda a explicar a prevalência do mito de "o telemóvel anda a gravar o que ouve". 

The Strange Origin of AI’s ‘Reasoning’ Abilities: Esta é intrigante, não me atreveria a imaginar que algumas propriedades emergentes que vieram a determinar a IA contemporânea foram inicialmente descobertas por 4chaners a brincar com versões do antigo GPT3. Notem que malta do 4Chan a brincar não é coisa leve. 

Mientras Europa y EEUU se rascan la cabeza, China tiene muy claro que el futuro de su educación pasa por la IA: Habituar, usar e refletir desde tenra idade, com o risco de modelos de ensino baseados em treino via IA. 

Meta warned by dozens of organizations that facial recognition on its smart glasses would empower predators: E assim vemos uma tecnologia com imenso potencial benéfico a diluir-se, por estar a ser implementada sem as mais básicas salvaguardas contra comportamentos predatórios por parte de quem a utiliza, bem como das empresas que a comercializam. 

What can history tell us about AI?: Compreender o presente implica sempre olhar para o passado. 

 How our digital devices are putting our right to privacy at risk: De tantas maneiras que elencá-las seria um trabalho demasiado exaustivo. 

The Greatest Heist In The History Of Art: Apesar de não achar que a situação seja tão catastrófica quanto isso, que a arte humana continuará a ser valorizada e que a IA é apenas mais uma ferramenta ao serviço da imaginação humana, percebo o ponto de vista da Molly Crabapple. Porque nalguns setores das indústrias criativas, a geração a metro de lixo generativo é o concretizar dos sonhos húmidos de editores sem escrúpulos, que se estão nas tintas para a qualidade, e sempre estiveram, a diferença é que agora não precisam de pagar a ilustradores ou escritores para produzir enchimento de chouriços para empastelar e entupir a economia digital da atenção. Convém também observar o extremo desprezo que as grandes empresas da IA demonstram por quaisquer direitos de autor que não os seus, não hesitando em abusar do bem comum e usar imagens sem quaisquer retorno aos seus criadores para treino dos modelos. 

China’s Parallel Web Behind the Wall: Um vislumbre do ecossistema digital chinês, por um lado vibrante e avançado, por outro um espaço isolado do mundo onde impera a censura.

Rusia ya no se está rindiendo ante soldados de Ucrania, sino ante máquinas: las reglas de la guerra se están redefiniendo: Até muito recentemente, esta era uma daquelas ideias da mais pura ficção científica.


Michael Carroll, 1990: Felicidade computacional. 

TECNAM P-MENTOR: O Chipmunk já tem substituto: Parece incrível, mas a nossa força aérea mantém a voar um venerável avião com mais de setenta anos de serviço. Vai, finalmente, ser substituído. 

The Trump Regime Really Wants You to Know About Its Cool Secret Agent Gadgets: Sinceramente? Tresandam tanto a treta que só podem ser treta. A sério que esperam que se acredite em "tecnologia quântica capaz de detetar batimentos cardíacos específicos"? O que assusta é ver alguns comentadores que até costumam ser incisivos e bem informados a cair nestas balelas. 

Student Dies When Hospital Has No ICU Doctors, Calls One on Videochat Who Pronounces Him Dead Remotely, Lawsuit Claims: E isto, é o sonho molhado do governo do Luís "deixem-me trabalhar (para os casinos") e da sua ministra da saúde especializada em mortes evitáveis de utentes do SNS. Imaginem um hospital com urgências virtuais, com a telemedicina a substituir médicos para análise de casos críticos. Obviamente, correu mal e causou mortes, mas hey, que são as vidas de uns doentezitos perante a inovação (e o lucro) da medicina privada? 

America Looks Like a Paper Tiger: Bem, quando a máquina militar mais poderosa do planeta gasta milhões de dólares em ataques sem conseguir derrubar um inimigo mais fraco, mas também muito inteligente e determinado, isso mostra a real extensão das suas capacidades. 

The Iran War Showed a New Side of Pope Leo: Naturalmente. Porque é impossível ficar indiferente à estupidez, cupidez e violência pura em que Trump e os seus sequazes e apoiantes se rebolam. 

Adamastor Furia inicia testes em estrada: Confesso a minha curiosidade com este intrigante projeto industrial português, de nicho, é certo, mas que demonstra uma excelente capacidade nos domínios da engenharia automóvel. Recorda que as linhas de fabricação das marcas europeias que cá se instalaram permitiram um crescer de know-how e capacidade industrial ao nível de componentes. Nunca teremos a dimensão necessária para conceber e produzir veículos generalistas, mas faz sentido existirem estes fabricantes de nicho. 

Paranoia In Perspective: Welcome To The “Dark” Enlightenment: Se os nomes e a filosofia de luminárias obscuras como Nick Land ou Curtis Yarvin vos são desconhecidos, as consequências devastadoras das suas ideias é algo que já sentiram na pele. Bem vindos ao iluminismo negro, um movimento intelectual adorado pelos techbros, cryptobros, AIbros e CEObros, que advoga o iliberalismo, a tecnocracia extrema, e a reversão de direitos sociais e humanos. 

Pluralistic: Austerity creates fascism (13 Apr 2026): Como sempre, Doctorow imensamente certeiro. 

Why Japan replaces US-made Apache attack helicopters with drones for strike and surveillance?: Provavelmente porque estão a prestar atenção ao que se passa na frente ucraniana, também conhecida como cemitério de helicópteros. 

Amazon Accused of Hiding Worker’s Death for a Week, Making Employees Keep Working as Corpse Lay on Floor: Quão desumanizante pode ser uma cultura laboral? 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Linghun


Ai Jiang (2024). Linghun. Barca.

O meu primeiro encontro com a prosa de Ai Jiang foi através do inquietante e intrigante I am AI (não é autobiográfico, note-se), uma novela de puro cyberpunk contemporâneo que medita sobre a perda da humanidade, ostensivamente pela mecanização e digitalização, mas na verdade pelos mecanismos clássicos da ganância e opressão. Para lá da temática, a prosa de Jiang surpreendeu-me por ser intimista e emocional. Linghun segue outros caminhos, no campo do horror e do fantástico, e esse cerne emotivo da autora sustenta todo o romance.

Imaginem uma cidade onde os espíritos dos mortos podem reaparecer. Parece um cenário de horror, mas é um destino muito desejável para os familiares dos falecidos, que sacrificam tudo para comprar casa nessa terra e com isso voltar a sentir a presença dos seus entes queridos como aparições que acarinham. Claro, ter acesso a uma dessas casas é um privilégio difícil de obter, e as ruas da cidade estão cheias de pessoas sem abrigo, que abandonaram as suas vidas e lutam, literalmente, entre si em leilões para tentar obter o privilégio de chegar a uma habitação (uma metáfora nada velada sobre o corrente estado do mercado habitacional nos dias que correm). 

É para uma destas casas que se muda uma jovem sino-canadiana, a contragosto, seguindo uns pais obcecados com o reencontrar do espírito do seu filho mais velho. Os sentimentos de abandono e secundarização face ao espírito de um irmão que foi sempre favorecido pela mãe mesclam-se com a vontade pós-adolescente de emancipação. A rapariga irá juntar-se a outro jovem inadaptado, inconformistas de viver uma vida que se resume a abandonar a vida para não libertar os espíritos dos entes queridos. Mas, num final surpreendente, irá ela própria regressar à cidade, atraída pelo fascínio de manter por perto aqueles que nos deixaram.

O romance é surpreendente, um terror nada assustador onde se sente mais o peso da obsessão ou o desespero pela perda do que a clássica fantasmagoria. A edição portuguesa reúne mais dois contos da autora, na mesma onda de um horror intranquilo mas suave, emocional e intimista.

terça-feira, 26 de maio de 2026

A Revolução dos Computadores

Nigel Hawkes (1973). A Revolução dos Computadores. Lisboa: Verbo. 

Podemos aprender alguma coisa lendo um livro, generalista, sobre computação escrito nos anos 70? Dada a rápida evolução da tecnologia, o que este livro contém ainda é válido? Claro que sim, a menos que sejam daqueles que só conseguem compreender o lado meramente técnico da tecnologia, e imunes às suas vertentes sociais e culturais.

Claro que, como livro que nos chega, literalmente, de uma outra era, nos fala de tecnologias de computação que estavam nos seus primórdios. Há campos onde o livro nem toca, como o da computação pessoal - naturalmente, nesses tempos creio que se estavam a começar a dar os primeiros passos no que se veio a mostrar a grande democratização da computação. Há uma outra falha que a história explica: o livro aponta o eniac americano como o primeiro computador, parecendo esquecer todo o trabalho de Alan Turing com o Colossus em Bletchley Park. Não é falha, parece-me, é bom recordar que no pós-guerra o desenvolvimento desta tecnologia pelos britânicos foi mantido num segredo que durou até ao final do século XX. Suspeito que no tempo em que o autor fez a investigação de base para este livro, todo o salto computacional dado no Reino Unido durante a II Guerra estivesse ainda sob classificação secreta.

É nas visões do que a computação poderia fazer que se encontra o melhor do livro. Aliás, nestes aspetos, bastaria trocar "computador" por "inteligência artificial" para fazer parecer que o livro foi escrito nos dias de hoje. Está lá o essencial das questões que hoje nos afligem - o potencial produtivo, os riscos de hipervigilância, o medo dos desempregos, os riscos do mau uso ou da apropriação destas tecnologias por elites. 

O livro ainda consegue fazer referência ao potencial criativo da computação, inspirado na lendária exposição Cybernetic Serendipity, falando do que à época eram experiências de vanguarda na música eletrónica, desenho e arte computacional.

domingo, 24 de maio de 2026

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Illustration by Robert Tinney, 1984: Braços robóticos. 

Crítica a «Os Vampiros», de Filipe Melo e Juan Cavia: Recordar uma das grandes obras da BD portuguesa contemporânea. 

A Short History Of Pedantry: Do gosto de empinar o nariz. 

Dan Dare Returning As "Absolute, Ultimate, James Gunn's Superman": De volta e meia as editoras tentam ressuscitar este personagem clássico da BD britânica. Geralmente sem sucesso, o que creio explicar-se pelo epocalismo da personagem e de uma visão subjacente do mundo, com aquele otimismo imperfeito dos anos 50, que revisitamos com nostalgia mas já não pega nos tempos de hoje. 

Why You Should Break Up With Your Kindle: Da vigilância minuciosa dos padrões de leitura à alteração remota de conteúdos de livros, bem como o ser uma plataforma fechada. 

Rosalía Berghain Live: O último disco de Rosalía é de facto extraordinário. Confesso que ela representa o tipo de artista que me recuso a ouvir - criadora da (má) pop latina feita a metro para entreter, mas em Lux conseguiu quebrar esse espartilho e propor-nos uma das audições mais surpreendentes, inquietantes e apaixonantes da pop contemporânea. Berghain, com a sua impressionante mistura de eletrônica com clássica, foi o single mais rodado, e sendo uma música que está sempre com os níveis no máximo, é também dos que mais depressa cansa a audição. Apesar disso, este vídeo mostra bem quer a potência da canção, quer até onde pode ser esticada. 

MATTE & EFFECTS FILMS CELEBRATED: Part Twelve: As publicações deste blog são pouco frequentes, mas sempre brilhantes no documentar da pintura matte de efeitos especiais no cinema clássico. É uma perdição, este mergulho na mestria técnica e perspética que cruza pintura e cinema. 

Alan Moore Reveals The Names Of All Of His Long London Novels: E eu ainda tenho a primeira por ler, na pilha de livros a aguardar leitura. 

Alan Moore, Asked About His Disowned Comics, Watchmen & V For Vendetta: São dos livros mais influentes da história dos comics, mas a cultura pop pegou neles como referência e não percebeu a sua profunda crítica social e política. Estes livros não são guias de um futuro a almejar, bem pelo contrário, e é por isso que Moore recusa associar-se às suas criações.


François Schuiten, “Le Retour du capitaine Nemo”: De um grande desenhador, no seu melhor. 

Mamdani Lifts NYC TikTok Ban for City Employees, but with Some Unusual Restrictions: Como é que se equilibra a necessidade de garantir privacidade das organizações e as exigências das presenças em redes sociais? Esta é uma forma inteligente de o fazer, usando dispositivos específicos apenas para marketing em redes sociais. E notem, uma vez que o TikTok americano já não depende de uma empresa chinesa, nota-se aqui que um governante americano tem reticências perante o potencial de ação do seu próprio governo, o que dado os tempos que correm, se justifica, infelizmente. 

Hong Kong criminaliza recusa de desbloquear smartphone: Convém recordar que a China, apesar de todo o ar simpático que projeta, é um país totalitário, onde os direitos, liberdades e garantias são reduzidos. 

What Happens When Your Robotaxi Glitches? These Passengers Found Out: Avarias nos carros robots que empatam passageiros, ou traços de modernidade que até muito recentemente pareciam especulações da Ficção Científica mais fora da caixa. 

THE FIRST CREWED LUNAR FLIGHT SINCE 1972 HAS BEGUN!: Olhamos para os céus, na esperança que, finalmente, a humanidade esteja num regresso decisivo ao solo lunar. Que esta missão seja um novo primeiro passo! 

As bodas da IA e do Estado: A IA como elemento no jogo geoestratégico global. 

30 Years Ago, Robots Learned to Walk Without Falling: Antes dos incríveis robots bípedes da Boston Dynamics ou da Unitree, havia o Honda P2, o primeiro robot bípede a ser capaz de dar titubeantes passos. 

Soberania digital, o dia seguinte: O que é que aconteceria se num braço de ferro diplomático entre a UE e os Estados Unidos, o governo americano instrumentalizasse a big tech para que os clientes europeus ficassem sem os serviços suspensos? Seria a quasi-paralisação digital do continente - imaginem que as contas google, apple e microslop pessoais e institucionais ficariam inacessíveis, que os sistemas operativos Windows, mac e android se recusassem a arrancar os telemóveis e computadores, que os sistemas de pagamemto digital ficassem inoperacionais. E é melhor nem falar dos sistemas IoT, infraestruturas ou domótica inteligente. O pior deste cenário, é que, dada a bizarra mistura de senilidade boomer com zelotismo bíblico da corrente administração norte-americana, não é assim tão improvável ou especulativo como poderiam pensar. Aliás, há até indícios de já terem acontecido acções deste género tendo com alvo altos responsáveis europeus que incorreram na ira trompista (o caso do TPI é especialmente bem conhecido). O que nos tranquiliza neste cenário extremo é saber que acima das administrações políticas, as bigtech idolatram o capitalismo, e uma ação extrema deste tipo iria custar-lhes milhões com a perda de clientes europeus. As discussões sobre soberania digital deveriam ser mesmo levadas a sério - a minha experiência diz-me que o estado português sem microsoft não funcionaria, simplesmente; mas preferimos especular e discutir, enquanto, como observa muito certeiro este texto, "a estratégia americana em matéria de tecnologia digital está a ser implementada há cinquenta anos, enquanto a nossa consiste em não fazer nada". 

NASA astronauts prove that sending an email really is rocket Science: Ok, NASA, confesso o desapontamento - a usar software microslop em missões espaciais? 

AI Is Killing Microsoft: Bem, se a empresa não tivesse decidido enfiar-nos má IA pela goela abaixo, de tal forma que ganhou o epíteto "Microslop", não estaríamos neste nível de descrédito. 

Sweden goes back to basics, swapping screens for books in the classroom: Convém ler estas notícias com sentido crítico (ou melhor, ler todo o artigo e não só a parangona). O exemplo sueco, de aparente passo atrás na inclusão do digital na educação, é por cá imensamente partilhado, em particular por aqueles professores que temem as tecnologias digitais (geralmente em longos resmungos em redes sociais). A minha experiência como formador diz-me que esses temores advém de ignorância, e que se nos dermos ao trabalho de partilhar de forma descontraída, tendem a diminuir, enquanto a formação imposta é contraproducente. Para lá da falta de paciência que todos temos para o discurso da educação obsoleta que tem de se renovar com o digital (um discurso que me recuso a adotar no meu lado de formador), geralmente a coisa fica pelos níveis mais elementares, reforçando o viés da suposta ignorância e incapacidade dos professores face ao digital. Mas estou a divergir. Esta medida sueca é apresentada como uma reação aos maus resultados em métricas educativas internacionais e um combate ao tempo excessivo nos ecrãs, mas convém olhar para alguns dados. Primeiro, a medida não retira o digital das escolas, apenas repensa. Em vez de ser uma digitalização entusiasmada de tudo, procura estabelecer equilíbrios. E isso, como professor que há várias décadas (yes, I'm that old) chateia, digo, desafia os seus alunos a programar, mexer com robots e IA, é algo que me é perfeitamente óbvio. Há tempo para tudo, e não faz nenhum sentido meter ecrãs e plataformas digitais em todos os contextos. Isto não é um "back to basics", é um regresso ao bom senso. A outra observação prende-se com o sistema educativo sueco, que é um exemplo de como as políticas neoliberais destroem serviços públicos. As escolas suecas são em larga maioria privadas, sustentadas por vouchers que o estado entrega para pagar as despesas de cada aluno (e sim, é um sistema que os nossos liberais adoram invocar em nome da liberdade de escolha educativa). Mas quando as escolas são geridas com o fim primordial de dar lucro aos acionistas dos grupos empresariais que as detém, algo se perde, e esta privatização excessiva do sistema educativo sueco tem sido apontada como a principal causa do declínio abrupto do país nas métricas académicas internacionais. 

France Buys Supercomputer Maker Bull in Tech Sovereignty Push: Por cá, o governo português convida executivos da Microslop a gerir agências de modernização digital. Por lá, nacionaliza-se uma empresa de infraestrutura digital essencial. 

We Can’t Even Imagine the Eating Disorders This New Meta Smart Glasses Feature Will Cause: Ou, não é o acesso à informação que conta, é a qualidade do mesmo. 

Pluralistic: Switzerland's Goldilocks fiber (07 Apr 2026): O sempre prolífico e interessante Cory Doctorow mostra-nos uma forma diferente de conceber as infraestruturas digitais. Em vez de deixar à vontade do mercado livre (que, como as empresas só pensam em otimizar lucros, não se importa em vender serviços de baixa qualidade aos clientes) ou a complexas redes burocráticas de incentivo à competitivade, que na prática duplicam os mesmos sistemas, o governo suíço teve um raro lampejo de bom senso e incentivou a construção de uma rede de fibra óptica única, que pode ser usada por todos os fornecedores de serviços de internet - um pouco como as estradas, uma infraestrutura comum a todos os veículos, independente das marcas. 

It’s Our Phones That Have Caused Our Brains To Rot. Not AI: De qualquer forma, não é de descartar a influência que a IA terá no brainrot, exatamente pelas mesmas razões que transformaram os telemóveis no fosso de lixo digital - a possibilidade de geração de conteúdo a muito baixo custo, sem qualidade e em elevadas quantidades, para entupir redes e plataformas. 

Chat Control 1.0 morreu mas Chat Control 2.0 é pior e continua em aberto: Este assunto tem sido destratado nos media com a habitual falta de sabedoria sobre as intricacias do mundo digital, o que tem levado a imensos comentários e partilhas com observações sobre a inacreditabilidade dos eurodeputados terem chumbado legislação que protege as crianças. Na verdade, isso aconteceu por duas razões - a má, politiquices a nível dos grupos parlamentes do PE; e a boa o reconhecer que era uma lei mal feita. Apelidada de Chat Control pelos ativistas dos direitos digitais, o que a lei previa era que em nome da proteção de menores, TODAS as comunicações digitais dos europeus fossem por defeito analisadas automaticamente pelas plataformas. Ostensivamente para prevenir abusos e pedofilia, mas na verdade a fazer imenso jeito às empresas detentoras de plataformas como forma de recolha e agregação de dados. Ou seja, esqueçam lá ideias como privacidade ou presunção de inocência, as comunicações seriam monitorizadas de uma forma que melhor pode ser descrita como estar constantemente a demonstrar inocência da prática de crimes. Como sempre, a D3 explica isto bem melhor do que eu consigo. 

Meta Hopes a Hide-and-Seek App Will Convince You to Buy Its Smart Glasses: Possíveis respostas ao problema "para que é que isto serve, mesmo?". 

‘Cognitive Surrender’ Is a New and Useful Term for How AI Melts Brains: Mais uma variante de um dos efeitos secundários do uso da IA que é mais pernicioso - aquele atrofio cerebral do delegar de competências cognitivas. 

College Students Losing Ability to Participate in Class Discussions Because They Offloaded Their Thinking to AI: Mas sejamos honestos. Os alunos que hoje recorrem aos chatbots para se desenrascarem nas aulas e trabalhos seriam aqueles que, antes da IA, iriam copiar e colar trechos inteiros retirados de sites ou livros nos trabalhos, ou pedir aos colegas mais estudiosos que fizessem o trabalho por eles. Não creio que a IA nos mergulhe numa catástrofe intelectual, o que esta a fazer é a por a nu os que sempre basearem o seu trabalho intelectual no menor esforço possível.

Anthropic’s New Model Is So Scarily Powerful It Won’t Be Released, Anthropic Says: Já vimos este filme antes, com a OpenAI. Não passa de manobra de marketing, dado que a indústria da IA vive de hype.

AI got the blame for the Iran school bombing. The truth is far more worrying: O artigo olha para o papel dos sistemas automatizados de decisão de alvos, mas na verdade sublinha um dos problemas mais agudos, e menos discutidos, do uso de sistemas automáticos - a desresponsabilização institucional que permitem. Com eles, a culpa morre sozinha. O problema passa a ser do algoritmo, do sistema. Mas na verdade não o é, nunca foi. Os problemas residem sempre nas cadeias de decisão humana. Se as redes sociais se tornaram um charco infecto, isso não é culpa dos "algoritmos", mas sim das decisões dos responsáveis que orientaram o seu desenvolvimento. Se o sistema de atendimento automatizado em caso de emergência funciona mal, isso não é culpa do algoritmo, mas sim de quem decide, deliberadamente, implementar sistemas desenhados para acima de tudo, afastar utentes. Dizer "a culpa é do computador", como naquele sketch clássico do Little Britain, o "computer says no", é a maior das desculpas esfarrapadas. O sistema é um reflexo das decisões tomadas, e dá imenso jeito a muitos decisores usarem esta desculpa para saírem impunes.

Virgil Finlay (1914-1971), ‘You Can See..’: Um enorme clássico. 

Europa anticipa una escasez de petróleo. Su receta: que dejemos el coche en casa: Já sentimos o aperto, e vai piorar. Diminuir a dependência do automóvel (muito difícil num país como Portugal onde o urbanismo sempre desprezou os transportes públicos e a acessibilidade pedonal), ou ser mais sensato na gestão de percursos e velocidades são opções para minorar. Dada a diversificação de fontes de energia, duvido que na Europa venhamos a sentir escassez generalizada, mas o aumento de preços será fortemente penalizador. 

Smirking Past the Gallows: Já podemos dizer que os netos dos sobreviventes do Holocausto se tornaram nazis racistas, ou isso é ofensivo, apesar das ocupações ilegais de território nos países vizinhos, do genocídio de Gaza, da guerra de agressão contra o Irão (que tem ainda o condão de prejudicar fortemente a economia global e a vida de todos nós), e deste retrocesso que é restaurar a pena de morte, mas só para pessoas de um grupo étnico específico? 

O (des)controlo privado das infraestruturas críticas: A sanha neoliberal por extrair o máximo de lucros dos serviços dos quais dependem as sociedades levam-nos a isto, sistemas críticos sem apoio ou manutenção, que quando falham cabe ao estado o ónus de resgates, reconstruções e reposições. É sempre interessante ver como o neoliberalismo, tão apregoador dos mercados livres e dos estados mínimos, medra com mais viço alimentando-se de dinheiros públicos para prestar serviços degradados. 

The Epstein Spectrum: Nalguns aspetos, o caso Epstein faz-me recordar o de John Brockman, o lendário agente literário que se tornou uma figura cultural influente pela forma como organizou uma rede intelectual. Claro que Epstein foi muito mais longe, a sua rede mostra o elevado nível de corrupção que há nas elites políticas e económicas (o próprio Brockman sustentou as suas iniciativas graças ao financiamento do milionário pedófilo e suspendeu as suas influentes ações intelectuais na sequência do escândalo). E fica ainda a ideia que historiadores futuros irão investigar - até que ponto a guerra no Irão serviu para que os nomes de topo da administração Trump - a começar no próprio tipo odioso, se esquivem às provas de que foram participantes ativos nos crimes de Epstein. 

U.S. Rescues Downed F-15E WSO Deep Inside Iran: Algumas notas intrigantes nesta notícia - pistas de aterragem improvisadas dentro do território iraniano, e a destruição de dois C-130 por terem sofrido danos durante a operação. 

Why Doesn’t Anybody Realize We’re Going Back to the Moon?: Digamos que olhar para as estrelas não é prioridade para a maioria das pessoas. E, ainda por cima, vivemos num mundo de crises geopolítica graves. 

A Crisis In Writing? Let’s Consider It Historically: Um ponto de vista intrigante, que nos recorda que a literacia como a entedemos hoje, é quase um momento minúsculo na longa história do uso de sistemas de escrita como forma de registar e transmitir informação. No entanto, convém observar a importância basilar que a literacia tem como pilar estruturante de uma sociedade livre e democrática - ler tem de ser mais do que registar informação, sem reflexão não desenvolvemos o sentido crítico que alimenta as nossas capacidades humanas. Não é por acaso que este tipo de literacia é tão do desagarado das forças obscurantistas que visam o retrocesso civilizacional, desde os zelotas religiosos com a vontade de esmagar pontos de vista factuais que colocam em causa os seus dogmas aos políticos extremistas que sabem o quão a real literacia ameaça o entranhar dos seus discursos de vitupério e ódio na sociedade. 

Lady of Larissa Flies Again: Incredible New Footage Emerges of the Secretive RQ-180 Spy Drone: É tipo um B-2 em miniatura, e é uma das aeronaves menos conhecidas. 

Auge y caída de los imperios europeos: un viaje de 550 años de colonialismo a través de un esclarecedor gráfico: O colonialismo europeu, num gráfico revelador. É curioso ver que fomos o primeiro país a iniciar estes processos, com os descobrimentos, e também dos últimos a descolonizar, com a entrega de Macau à China em 1999. Se bem que o Reino Unido, França e Holanda ainda mantém antigas colónias como territórios exteriores. 

Re-Learning How to Run: A missão Artemis reabre as esperanças no futuro da exploração espacial, mas há ainda muito caminho a percorrer. 

Crossing the ‘Line of Death’ at 2,125 MPH: SR-71 Battle Damage Assessment after ‘El Dorado Canyon’: Recordar uma aeronave única. 

The Hormuz War Will End: As ondas de choque geopolíticas, e o contínuo peso dos combustíveis fósseis mesmo num contexto global onde as energias renováveis ganham importância. 

30 previously unknown verses by Empedocles found on papyrus: Palavras que quase se perderam para sempre. 

LIFE IMITATES ART: As apaixonantes imagens da missão Artemis.

An Incredibly Weird Time to Be Alive: Enquanto um senil bilionário presidente ameaça exterminar um país, a humanidade parece estar a regressar à exploração espacial. Não sou o único a sentir uma certa desconexão cognitiva com os tempos modernos.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Deusa Síria


Luciano (1939). A Deusa Síria. Lisboa: Editorial Inquérito.

Como amante que sou de palavras milenares, não resisti a este achado de alfarrabista. Não será obra maior, mas isso não retira o fascínio de ler pensamentos preservados de um mundo que nos é longínquo. A descrição das prática religiosas greco-romanas foge à nossa visão estereotipada de elegância e hieratismo; as descrições dos praticantes de rituais míticos estão cheias de um certo espírito de confusão e desordem, complexos com só a vida consegue ser. É um excelente mergulho no passado, evocando uma imagética viva. Esta edição inclui um curioso ensaio sobre o luto, com  uma posição crítica e satírica (não surpreende, dado ao autor) sobre os rituais da morte.

terça-feira, 19 de maio de 2026

A Guerra Civil em Portugal


Rui Vieira (2025). A Guerra Civil em Portugal - A Luta Sangrenta entre Liberais e Absolutistas (1817-1834). Lisboa: Colibri.

Talvez um pouco esquecido das memórias institucionais, está o facto do início do século XIX ter sido por cá uma época de violência extrema. Primeiro, com os tempos duros das invasões francesas, em que todo o país se tornou um campo de batalha e guerrilha. Finda a ameaça napoleónica, veio o período de instabilidade política de uma monarquia constitucional que resvalou para o absolutismo miguelista. O resultado, uma violenta guerra civil, cheia de atrocidades, fuzilamentos, bandoleiros assassinos ao serviço dos realistas, a par dos combates mais convencionais entre os exércitos liberal e absolutista. Um tempo onde o país esteve a ferro e fogo, mergulhado no fundo do ódio e violência sem quartel.

Olhando para este período do passado recente, sempre suspeitei que deixou sequelas na mentalidade lusa que se repercutiram ao longo do século XX. A implantação da República em 1910 não foi particularmente violenta, e apesar de algumas intentonas, não resvalou para guerra civil. Sem querer branquear o legado do Estado Novo, é de notar que apesar da repressão violenta, a ditadura salazarista não mergulhou no tipo de violência assassina que caracterizou o nazismo ou o franquismo. Os nossos presos políticos eram encarcerados e torturados, não abatidos a tiro. Claro, as guerras coloniais/de independência foram violentas, com atrocidades cometidas, não podemos esquecer isso. Já o 25 de abril, apesar dos períodos conturbados, notabilizou-se pelo parco derramamento de sangue, e, tal como em momentos anteriores, as forças não se mobilizaram para guerras civis. É como se a nossa memória colectiva mantivesse arreigada o instinto de saber o pior que pode acontecer quando um povo se torna inimigo de si próprio. 

Claro, a esclerosidade e anacronismos quer da monarquia quer do estado novo nos momentos da queda também contribuíram para esta relativa paz nas nossas revoluções. No fim da coisa, quando os regimes desabavam, não havia muitos com real disposição para mexer uma palha para os manter.

Reflexões despertadas pela leitura deste estudo histórico que detalha a violência da guerra civil entre liberais e absolutistas, um período que durou entre 1817 e 1834. Nem todos esses anos foram de guerra aberta, mas os desmandos, ajustes de contas, revoltas e repressões violentas caracterizam esses tempos. O livro detalha os principais acontecimentos, com um olhar crítico sobre a forma como o poder, especialmente o absolutista, desprezava a vida humana e usava o terror sobre as populações como arma política, espalhando o medo. A leitura é factual e detalhada, com muitas citações da época, mas mais do que um estudo académico, consegue transmitir a amargura de um momento muito negro da nossa história recente.

domingo, 17 de maio de 2026

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Illustrations by Dean Ellis (1920-2009): Futuro marciano.

Estrada perdida: Bolas, pá, então e o resto? Revi recentemente este filme (não no cinema, infelizmente) e continua tão inquietante e surreal como quando o vi pela primeira vez, na sala do mítico cinema King. 

Why Is Everyone Still In Love With Sherlock Holmes?: O incessante fascínio com uma personagem centenária.

As sete balas de António de Macedo: Bolas, pá, como é que perdi esta sessão?


1-moebius-1-universe-1: A mais icónica vinheta.

The Worst-Case Scenario for AI and the News Is Already Here: Num mundo informacional onde gerar conteúdo falso plausível é trivial, a confiança nas imagens esboroa-se, e os factos são infetados pela informação falsa. 

AI Just One-Shotted Another CEO: Confesso, esta é inesperada. Geralmente estas notícias são sobre CEOs gananciosos a babar-se de felicidade por usarem a IA como desculpa para se livrar dessa massa infecta que são os trabalhadores, não sobre CEOs que se despedem a si próprios. Se bem que aqui há um certo cheiro a abandonar o barco antes que se note que se está a afundar. 

Why can’t TikTok identify AI generated ads when I can?: A verdadeira questão é porque é que as plataformas não querem que se perceba facilmente que estamos a consumir conteúdo gerado por IA. 

Iran Is Winning the AI Slop Propaganda War: As guerras de propaganda travam-se hoje com IA generativa, mas também requerem que se conheça bem a cultura pop dos adversários. 

Wikipedia Editors Tried and Tried to Work With AI Content, Eventually Realized It Was Total Trash and Banned It Entirely: Medidas para travar o AI slop.

What AI Hypists Miss: A IA como panaceia universal é ao mesmo tempo discurso vácuo de marketing e uma crença perigosa, que ignora a complexidade das relações humanas e os seus sistemas.

My Prodigal Brainchild: Neal Stephenson, criador do termo "metaverso" - não para a meta, esta apropriou-se do conceito, carregado de razão sobre esta derrocada dos mundos virtuais 3D. Que não é tão derrocada quanto isso, há imensos espaços 3D que atraem utilizadores. O que ele observa, com toda a razão para quem compreende esta tecnologia, é que ninguém quer passar o tempo com óculos isoladores na cara; e também observa, com muita razão, que as questões de privacidade vão impedir a adoção dos óculos inteligentes.

Apple at 50: a visual history: A preocupação com o design e o aspeto visual sedutor são elementos que caracterizaram a Apple desde os seus primeiros tempos. 

Facial Recognition Is Spreading Everywhere: O alastrar do uso de algoritmos de reconhecimento facial, e o crescendo de problemas que os falsos positivos na identificação trazem. 

What Happens If AI Makes Things Too Easy for Us?: A importância cognitiva da fricção, ou como não podemos depender de ter tudo facilitado. 

If You Need a Laptop, Buy It Now: Não está fácil, as exigências dos datacenters de IA estão a consumir, literalmente, toda a ram disponível, e vai demorar até que novas fábricas preencham as lacunas na informática de consumo.


Peter Lloyd: Explicação precisa-se.

El absurdo precio de la vivienda ha convertido en rutina lo que antes era una rareza: vivir en una provincia y trabajar en outra: Traços de modernidade - a combinação de redes de alta velocidade acessíveis com o disparo nos preços das habitações expandem o conceito de subúrbio em modo inter-regional. 

A Turning Point in the Iran War: Do aventureirismo militar a uma crise energética global. 

Netizens Terrified of What NASA Grew on the Space Station: A Potato: De facto, o aspeto não é convidativo, embora pessoalmente já tenha visto rebentos mais assustadores em batatas esquecidas na despensa. 

Scientists Cloned a Mouse, Then Cloned the Clone, Et Cetera. The Results Were Horrific: Os limites da biologia manipulada. 

Humans Were Already Dog People 16,000 Years Ago, DNA Suggests: Os mais fiéis e milenares companheiros do homem. 

H-Bomb: A Frank Lloyd Wright Typographic Mystery: A minha primeira pergunta é - um H ao contrário é coisa que existe? Aparentemente sim, e todo este artigo é um hino à atenção desmesurada aos detalhes mais ínfimos. 

Why Are the Wealthy Pouring So Much of Their Wealth into Politics?: Versão resumida? Porque se está revelar um excelente investimento, como se pode comprovar pelas estatísticas que mostram o disparo no engordar do enriquecimento dos bilionários.