quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Breviário das Más Inclinações


José Riço Direitinho (2011). Breviário das Más Inclinações. Lisboa: Quetzal.

Acompanho há bastante tempo o panorama da literatura fantástica portuguesa, e apesar das muitas leituras que tenho feito, são raros os livros que realmente exploram estéticas de um fantástico verdadeiramente português. Não que desgoste do que se faz, mas vejo na nossa literatura fantástica uma preocupação em recriar padrões externos, ou explorar as estéticas comuns ao terror e fantasia globais. Fantasmagorias, assombrações, criaturas de pesadelo, ambientes góticos, body horror, que estão tão à vontade nos becos lisboetas como nas vielas londrinas. Advém das influências que moldam os nossos criadores, e de um espírito de cosmopolitismo urbano que o desenvolvimento do país fez alastrar das grandes cidades a todo o território. Alguns criadores olham para os mitos portugueses e tentam recriá-los nestes quadros conceptuais, trazendo as especificidades da nossa cultura para os domínios do fantástico.

Mas há um outro Portugal, cada vez mais desaparecido no emaranhado de vias rápidas e infraestruturas que aproximam os lugarejos mais perdidos da modernidade contemporânea. Um país de isolamento, de superstições arreigadas, de mitos locais, de gentes que vivem em territórios agrestes, num mundo onde a pobreza, o parco alfabetismo, a religiosidade cristã, mitos e superstições milenares e as paisagens agrestes convivem. Um país que hoje recordamos mais pelos registos etnográficos que podemos visitar nos museus municipais das zonas interiores urbanizadas, que recordam os tempos de um passado mais isolado. Passado, certo, mas não tão distante quanto isso. Certamente que muitos da minha geração ainda recordam o olhar centenário e as rugas dos nossos avós e bisavós, as suas histórias estranhas e visões de um mundo rural tão distante da nossa vida urbana e suburbana. Dessa memória do passado há tantos mitos e tradições que trazem um fantástico cru, por vezes violento, telúrico e milenar, mas a que poucos escritores têm tentado pegar, e, por ironia, os que melhor olham para estas estéticas e mitografias são autores que não estão associados ao género.

Recordo livros como O Meu Mundo Não É Deste Reino de João de Melo, Como Sobreviver Depois da Morte de André Costa, ou Andam Faunos Pelos Bosques de Aquilino Ribeiro (admito, aqui estou a esticar um pouco a corda...), que mergulham o leitor num fantástico do saber rural, dos seus ritos e mezinhas. Um, com a revisão da povoação dos Açores através da história de um homem duro, outro com o congelar das memórias num tempo em que a modernidade começa a alterar a tradição, e no brilhantismo de Aquilino a colisão entre o saber do povo, a condescendência do clero e as pulsões do corpo.

Adiciono este Breviário das Más Inclinações a esta restrita lista. É um livro que nos mergulha num isolamento raiano que se começa a esboroar, entre a guerra civil espanhola e a inevitável modernização, mas que ainda se mantém como mundo de mitos e mezinhas, de saberes populares com profunda ligação à natureza, de histórias e prodígios que se contam e recontam entre as vozes das comadres e das noites nas tabernas. Onde o mundo natural, de lobos e javalis, é mortífero, e o mundo humano, feito de jogos, invejas, enganos, também o pode ser.

Há uma certa base de romance de cordel no conto cruel de José do Risso, criança que nasceu com má sina e a herdar  a sabedoria da avó para mezinhas curandeiras. A vida será trágica e curta, entrecortada com episódios de honestidade duvidosa, momentos em que o homem faz aquilo que tem de fazer, quer seja em resposta às pulsões do corpo quer do sentido pessoal de justiça. 

O que distingue a narrativa é envolver-nos num véu de misticismo tradicional e sobrenatural discreto. Não há fantasmagorias ou criaturas do demo, mas há um constante sentimento de assombro, de um mundo natural compreendido através de superstições milenares. 

A prosa é brilhante, daquelas que nos prendem às páginas, mas o que destaco da leitura é o não ter medo de tocar nas correntes subterrâneas por onde pulsa o lado mais remoto do caráter português.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Umbra #06


Filipe Abrabches, et al (2026). Umbra #6.

Estamos a ficar mal habituados. Este sexto número da revista Umbra mantém a elevada qualidade criativa e narrativa, trazendo-nos histórias desafiantes e bem tecidas. Uma delas recupera o trabalho de um que já não está entre nós, ficando a promessa de continuidade a estas pranchas intrigantes. 

Uma certa ironia negra é o grande tema deste número, com histórias que tocam no pós-apocalíptico, na ficção científica ou no cosy horror, sempre com finais de irónica dureza. A novidade desta edição é abrir-se ao mangá, mostrando o amadurecimento crítico da aceitação da BD japonesa, que nos está a permitir conhecer obras muito mais interessantes e bem conseguidas do que o lado pop e comercial.

Lida a sexta edição, resta esperar pela próxima. 

domingo, 2 de agosto de 2026

URL


Photo: Continuamos sem saber como. 

Sci-fi horror film Backrooms is a triumph for its 20-year-old diretor: Já vi, e embora não seja um filme perfeito, gostei. O mais interessante nem é a história em si, mas os ambientes arrepiantes de estranheza através de arquitetura banal quase normal que utiliza. Ou seja, a essência do conceito e estética dos backrooms, cuja sensação é a que perdura após a visualização. 

Devaneios com URL: Olhares urbanos, entre o fantástico literário e a realidade que parece fantástica. 

Six Books That Take You to Space: Sugestões de leitura na área da FC clássica. 

The Great Divide: Creativity Before And After AI: No fundo, é isto - "Perhaps you’ve started treating books, articles, essays, and emails written today differently from anything before, say, 2022. On hearing a polished sonnet in effortless iambic pentameter at a wedding toast, you may now smell a rat. If that reflex hasn’t set in yet, my bet is that it will soon.

The ‘Doctor Who’ Situation Is Even Worse Than We Thought: Não será o fim de série, mas diga-se que a partida do argumentista que tem sido um dos seus criadores mais influentes abala, quer o fandom, quer a série em si. 

Doctor When: Warren Ellis a colocar o dedo na ferida da cultura pop - tem sido um remastigar de velhos ícones, e estamos a chegar ao momento em que se sente o esgotamento total deste modelo: "One or two swallows don’t make a summer, but right now it looks like old science fiction inflected IP is reaching a hiatus point.

The Best Sci-Fi & Fantasy Novels, as Chosen by Fans: the 2026 Hugo Awards, recommended by Sylvia Bishop: Os destaques e vencedores dos Hugo deste ano. 

Final Cut: É uma excelente edição, que traz o traço e o imaginário de Charles Burns para os leitores portugueses.


Space Pirates Of Xarpot: Delícias pulp. 

Social Media Is Now Parasocial Media: Diria que danah boyd até foi simpática. O caminho correntemente trilhado pelas redes sociais é mais de redes anti-sociais. O dedo está na ferida - a promessa, cumprida nos seus tempos iniciais, de interligação e laços interpessoais diluiu-se com os incentivos à monetização das redes. Primeiro, a curadoria algorítmica que privilegiou discursos negativos para garantir a atenção dos utilizadores (trazendo com isso consequências de extremar da vida social que estamos hoje a sentir na pele). Agora, o abandono da ideia de rede social como local virtual onde partilhamos o que gostamos e queremos ver aquilo que os nossos amigos partilham, em direção a uma espécie de broadcast media onde o conteúdo banal de influencers e o conteúdo sintético gerado por IA são privilegiados em detrimento do que os utilizadores publicam. É um efeito real. Noto, nas redes meta, esta invasão em força. Recentemente fiz uma limpeza aos criadores que sigo no instagram e reparei que boa parte deles tem publicado regularmente, mas apesar de os seguir, o que fazem não me chega ao feed social. Há alternativas, redes descentralizadas (o fediverso, essencialmente, e o bluesky em menor medida - o ter sido fundado pelos criadores do twitter não me enche de confiança sobre a suposta abertura dessa rede) onde não há algoritmos que medeiam o que é publicado e o que nos é permitido visualizar. É a alternativa possível à destruição das ágoras digitais pelo capitalismo extrativista. 

Racist comments targeting politicians tripled since Meta relaxed its rules: Mas isto, não é uma consequência. É intencional. Quem decide isto sabe muito bem que o discurso de ódio rende visualizações. 

We Are Crowd-Sourcing the Panopticon: O nosso afã em registar tudo, a omnipresença das câmaras entre a videovigilância e os telemóveis, é uma enorme benesse para as forças repressivas. Mesmo nos estados democráticos, a tentação para abusos de poder existe. 

Your Search Results Are Getting Sloptimized: SEO para a era dos chatbots, ou a inserção de textos pensados exclusivamente para convencer chatbots de IA a aconselhar bens e serviços aos seus utilizadores. 

Fully autonomous drones have killed human soldiers for the first time: A questão que se levanta, é porque demorou tanto tempo a acontecer isto, dada a intensidade do conflito na Ucrânia. 

What it feels like to work with Mythos: Se por um lado é fascinante ler sobre as capacidades deste novo modelo da Anthropic, a verdade é que sabemos que o deslumbre durará até ao próximo modelo incrível e fantástico que fará esquecer o brilhantismo dos anteriores. É o ciclo de hype da IA, em contínua aceleração. 

Meta reportedly moves to unwind $2B Manus deal after Beijing’s demand: Esta é inédita, e discreta. Notem que se fosse Bruxelas e não Beijing a obrigar à quebra deste negócio, teríamos o habitual coro de refilice contra o excesso de intervencionismo da comissão europeia. Com os diktats do camarada Xi, ninguém refila. Não surpreende, o mercado chinês é demasiado apetecível. 

Anthropic shuts down Fable, Mythos models following Trump admin directive: E se isto não funcionar como um toque de alarma (mais um…) sobre a excessiva dependência europeia de tecnologias desenvolvidas nos estados unidos, e, por isso, sujeitas às suas leis e caprichos dos seus líderes, estamos mesmo em maus lençóis. 

What Machines Dream Of: A história da robótica, vista sob a lente das artes digitais. 

These Logs of ChatGPT Allegedly Driving a Suicidal Woman to Her Death Are Deeply Disturbing: A primeira questão é porque diabos se acha que um chatbot pode ser um auxiliar de saúde mental (e isto é o clássico paradoxo perigoso que Weizenbaum identificou com o seu ELIZA, o nosso gosto em abrir a alma a interfaces digitais). A segunda questão, é porque diabos quem trabalha do desenvolvimento destes chatbots não assume responsabilidades pelo óbvio descuido na sua implementação. 

Grecia se las prometía muy felices cuando automatizó la vigilancia del tráfico a una IA. Hasta que se puso a multar: Os riscos de implementação de algoritmos, sem as devidas precauções. Note-se que os erros indicados passam-se em situações de baixa luminosidade, onde é mais difícil à visão computacional reconhecer com rigor aquilo para que foi treinada. 

Pluralistic: AI and amateurism (15 Jun 2026): Destaco um pormenor, que bate muito certinho com a minha própria perceção: "And while I am broadly very skeptical of AI, and deeply alarmed by the proliferation of "vibe coded" software in production environments, vibe coding for personal projects is a useful and exciting addition to the lineage of tools that let computer users decide how their computers will work."

Leituras da Semana (#119 // 15 Jun 2026): O destaque que fiz ao texto de Doctorow segue outros caminhos (parece sincronismo, não parece?). Já o João destaca, e muito bem, as relações de interesses e poder que estão a direcionar a introdução forçada da IA no mundo laboral. Quanto à observação sobre os iPads, João, só te posso dizer que há muito que sinto isso. Houve uma altura em que olhei com imensa atenção para os dispositivos móveis, pensando que a mobilidade e portabilidade iriam ser excelentes ferramentas criativas. O uso depressa me fez perceber que não seria assim. Não por questões inerentes à tecnologia em si, ou à capacidade dos criadores de aplicações, mas sim por ter compreendido que os pilares de desenvolvimento para dispositivos móveis estão direcionados para consumo e entretenimento. Isto, foi uma óbvia opção de quem desenvolve os dois principais sistemas operativos móveis. Repito: não é uma questão técnica ou de interfaces, é uma escolha de gestão. A IA está a seguir o mesmo caminho, com a agravente dos muito previsíveis impactos negativos que já estamos a ver.

A Day In The Life Of A Principal Using AI: Uma partilha interessante, que mostra como a IA faz imenso jeito para o tédio das tarefas administrativas.

The EU won't pursue a mandatory game preservation law: Ou, sendo mais direto, desconsiderando o gaming como cultura.


sharkchunks: H.R. Giger’s early works: Clássicos. 

Rheinmetall signs deal to build heavy-lift military drone: Entre as lições da guerra ucraniana e uma possível resposta às recentes capacidades chinesas neste domínio. 

Did a Chatbot Write a Prize-Winning Story? Does It Matter?: Os riscos dos juízos estéticos baseados na suposta sabedoria das massas. 

Villa Baviera y Colonia Dignidad: la sórdida historia del retiro dorado de los nazis en el interior de Chile: Do legado nazi ao dark tourism, uma localidade bucólica que deu abrigo a torcionários e criminosos de guerra. 

A vida de um desempregado à espera do apocalipse laboral: O artigo captura muito bem o zeitgeist das novas gerações, entre a espada do desemprego e a parede dos delírios da extinção laboral via IA. Se bem que, pelo apelido do autor, suspeito que o seu drama de jovem desempregado é bem mais leve do que os de recém-licenciados da classe média suburbana, que não têm a vantagem de ter um apelido sonante e os contactos familiares que o acompanham. 

De dónde viene la electricidad en cada país del mundo, contado en un mapa imprescindible: Ainda longe do que desejaríamos ser o melhor para o planeta, mas a transição para energias limpas é hoje uma tendência imparável. 

ANOS 80, GUERRA FRIA E UMA BASE AEREA PORTUGUESA - 1ª parte: O artigo é interessante, especialmente pelas fotos antigas de aeronaves, mas fica por dizer qual a base aérea de que fala. Assume-se que Beja, talvez, pelo seu caráter como zona de treino internacional? 

Billionaires’ Billions Are Increasing Faster Than Ever: Não, por muito equilibrado e moderado que se seja, não é possível ver este disparo de riqueza acumulada nas mãos de um punhado de pessoas como algo positivo para a humanidade. 

The world’s first trillionaire is a killer: Claro, esperavam que alguém quisesse acumular tanta riqueza sem ser um completo sociopata? O artigo olha para a forma como a gestão muskiana do departamento de eficiência, que cortou a torto e a torto em todos os programas sociais do governo norte americano, teve consequências letais. Desde o regresso da fome a zonas carenciadas do planeta, à incontrolabilidade de surtos epidémicos graves. Mas hey, haver trilionários é algo aspiracional, certo? O resto da humanidade que se lixe. 

Has The 21st Century Been A Creative Blank Space?: Sim. Mas, também, não. Sente-se a cultura, especialmente a pop, fossilizada no facilitismo da nostalgia, no lucro fácil da propriedade intelectual repetida e explorada à exaustão. Mas, nas fímbrias, há quem desenvolva novas estéticas e obras desafiantes. 

Software Update Automatically Turns off Amazon Delivery Drivers’ AC During Dangerous Summer Heat: Algo me diz que esta atualização de software, tão poupadinha de energia e ambiente, não se aplica aos veículos, aviões ou iates do dono da Amazon. 

No pueden pagar el delivery, así que la Gen Z coreana ha encontrado su chute de dopamina en apps que no venden nada: Vá, não é uma epítome máxima do capitalismo um comportamento cultural em que por falta de dinheiro, se ande a navegar por apps de compras falsas só para ter o gostinho de uma pseudo-participação no frenesi do consumo. 

Como o Norte transformou o kitsch numa “cena estética”: Um cruzamento inesperado entre estéticas pimba, nostalgia e o momento contemporâneo.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Odisseia


Ilustro com o canto das sereias, notável pela forma como o filme defrauda as expetativas dos espetadores, mostrando-nos como o vislumbrar é muito mais poderoso do que o revelar, e ainda nos lega uma música assombrosa.

É notório que Nolan tomou imensas liberdades para com a obra original. Para quem leu a Odisseia, a escolha das atrizes para dar corpo a Helena e Clitemenestra  nem sequer é a mais polémica, embora valha a pena pelo ouvir zurrar os trolls fachos e conservadores com o beliscar da sua visão alva da herança cultural de um passado cuja visão distorcida veneram.

No meu caso, desgostei do branquear da figura de Odisseus, um herói muito mais imperfeito do que o que o filme nos faz crer. Não significa que desgostei do filme, bem pelo contrário. É excelente, e traz estas histórias milenares para novas audiências. Adapta--se a elas, é revista com outras sensibilidades. As apropriações e interpretações fazem parte do cinema.

E sejamos honestos, acham mesmo que Homero não interpretou e adaptou quando transformou a longa tradição oral no poema escrito que hoje conhecemos? Isto, claro, caso optem por acreditar neste tão metaficcional poeta cego que passou as palavras faladas ao papiro. 

Houve momentos no filme que senti como demasiado condensados. A relação entre Odisseu e Calipso não foi, de todo, como o filme a retrata. Há um cruzamento com o episódios dos lotófagos, e a real relação entre o herói e a ninfa não foi baseada em esquecimentos.

Se o momento de Circe é dos mais incríveis pela forma como foi filmado, uma intrusão do mais puro body horror, tem mais uma vez pouco a ver com o original. Circe era uma bela feiticeira num palácio, não uma bruxa envelhecida num casebre, e Ulisses passa com ela bem mais do que umas horas.

Onde o filme descarrila mesmo em relação ao original é no seu final. Não que Ulisses destoe como herói de ação, mas o momento em que derrota os pretendentes é muito mais violento e macabro. Não o revelando, Nolan poupou-nos a questões incómodas sobre o poder e a submissão, que o replicar de cenas como o enforcamento das escravas tidas como infiéis ao herói suscitaria.

Que o final se desvia é acentuado pelo discurso sobre o fim da nobre era do bronze (um anacronismo, seria como ver um homem primitivo a discorrer sobre a diferença entre sapiens e neandertais) ou a constantes referências aos povos do mar que ameaçam o derrocar do mundo pré-helénico. São intrusões de história contemporânea, e uma óbvia mensagem do realizador sobre o momento contemporâneo em que vivemos, evocando a metáfora dos bárbaros que ameaçam os portões.

Para quem critica a intrusão de outras obras neste filme, na verdade faz sentido. Trazer a Ilíada (e laivos da Eneida com aquela queda de Tróia) ou a Oresteia mostra o contexto da Odisseia, uma epopeia que não é um texto isolado. Torna o filme mais rico para os espetadores. 

Talvez o maior sintoma da forma como Nolan adapta a história à nossas sensibilidades está na linha narrativa de Argos, essa metáfora da fidelidade perfeita. Se bem me recordo, não passa de algumas estrofes nos episódios finais do poema. No filme, é constantemente referenciado com destaque, até à emocional cena de amarga felicidade em que o cão, abandonando na esterqueira, geme e dá o último suspiro ao reconhecer o toque do seu dono.

Confesso, vieram-me lágrimas aos olhos nesse momento. É natural, como dog person que sou, a história de Argos é sempre comovente.

Por outro lado, um dos momentos mais pungentes da obra, onde Odisseus tenta abraçar o espectro da sua mãe na sua descida ao Hades, ficou esquecido.

Se há personagem que leva o filme é Penélope, magistralmente encarnada por uma Anne Hathaway que claramente fez o trabalho de casa e mergulhou a fundo no teatro clássico. É um portento em cena, traduz a profunda dimensão trágica das tragédias gregas.

Estranha-se, muito, a ausência de deuses numa história vinda dos mitos da antiguidade. Apenas Atena é discretamente visível, e no final do filme há uma ligação visual que nos leva a pensar que as manifestações da deusa, tão essenciais ao sucesso do regresso, não passam de um trauma de Ulisses, da manifestação psicológica de um profundo sentimento de culpa pelas consequências das suas ações como guerreiro em Tróia. 

É um sentimentalismo algo desfasado, em linha com um ideário pop típico de Hollywood. É por estas, e muitas outras, incoerências que o filme e o realizador têm sido tão atacados pela crítica.

E, no entanto, são três horas que não se sentem. São salas cheias, a descobrir uma interpretação profunda de uma das mais milenares histórias que contamos. Adapta, interpreta, revê o clássico com o nosso olhar. Traz a voz da antiguidade para os públicos modernos, recorda-nos o fio cultural que nos une. 

Um fio que não é estanque e imutável, cada era se revê à sua maneira na Odisseia. 

terça-feira, 28 de julho de 2026

Branca de Neve e os 700 Anões


José Vilhena (2014). Branca de Neve e os 700 Anões.

Vilhena está a ficar injustamente esquecido, relegado para a memória dos alfarrabistas. Não surpreende. Nunca foi um membro do nosso establishment cultural. O ser criador de ilustrações, revistas e livros humoristas não lhe granjeará jamais um lugar no panteão das nossas elites culturais, onde o sisudo e portentoso imperam e o terra a terra é desprezado. Vilhena cometeu vários pecados aos olhos da nossa alta cultura: escrevia humor, para o povo, em modo pop, auto-editado ou como colaborador na imprensa popular. Pior, era um claro sensualista, anátema para os nossos meios de alta cultura, revolucionários nos discursos mas conservadores nos costumes. 

Apesar disso, ler Vilhena é mergulhar numa das mais ácidas vozes críticas da sua sociedade contemporânea, eternamente visado pelo lápis azul de censores que se escandalizavam entre as suas palavras certeiras e os seus sensuais mas decadentes desenhos. A crítica social a todos os estratos de uma sociedade portuguesa que vivia na placidez da aparência, dos conservadores bafientos que ocultavam os seus vícios sobre a capa da piedade respeitosas, os gananciosos que viviam de estratagemas, quer os das classes populares quer os da alta sociedade, os políticos, industriais, grandes senhores e clero que mantinham este pais no lamaçal da pobreza. Aqui, o crime de Vilhena foi ter sido popular e sexualista, e não um artista erudito como João Abel Manta ou poetisa rebelde como Natália Correia. Não sendo das elites, tinha de fazer pela vida, e foi num humor barato que explorou com um génio impressionante que fez uma das críticas mais duras ao Portugal do seu tempo (e que suspeito ainda estar muito atual no nosso país de hoje).

Acima de tudo, Vilhena desmontava com implacável dureza o homem - o machismo, a ganância, a lubricidade, o vício, e acima de tudo o encapotamento de todo este fervilhar de pulsões debaixo de mantos de alta respeitabilidade. Não é por acaso que nos seus desenhos encontramos sempre belas e voluptuosas mulheres às contas com homens deformados, caricaturas toscas do poder, dinheiro, religião e machismo. Talvez seja um dos pontos mais incómodos de Vilhena, a forma como desmonta o carácter masculino e demonstra que por mais que o disfarcemos, somos todos uns porcos que se perdem por um bom pedaço de mulher (não sou exceção). 

Tudo isto dentro de um humor delirante, sensualista e sexualizado, onde as mulheres são representadas como brinquedos sexuais nas mãos dos homens mas acabando sempre por se revelar mais inteligentes do que eles, capazes de perceber que estão num jogo sujo e jogá-lo a seu favor. Sem falsos moralismos.

Este Branca de Neve e os 700 Anões, originalmente editada nos anos 60, é uma dessas histórias, com um final feliz que o próprio Vilhena nos avisa, no prefácio, ser improvável. Na realidade, as histórias como esta acabam sempre em miséria. Todos os sabemos, e a ficção não o contraria. Jovem rapariga do povo, semi-letrada (porque no Portugal do passado saber ler, contar e pouco mais era o essencial) e dotada de estonteantes curvas no seu corpo demasiado juvenil para o apetite de muitos dos homens que irá saciar, cai nas más graças de uma madrasta invejosa, cujos elevados atributos corporais começam a decair.

Afastada da família por tropelias, Branca acaba nos bares onde homens endinheirados se entretém com mulheres da noite, e depressa singra nessa carreira. Inteligente e dotada, vai subindo no elevador social da vida do vício, frequentando cabarets cada vez mais luxuosos e atendendo homens progressivamente mais ricos. Vilhena dá um final feliz à história, com o casamento com um médico inocente que a conhece nas lajes frias da morgue (não é tão mau como estão a pensar, mas poderia ser). Felicidade para os noivos, infelicidade para tantos homens que se regalaram com os dotes da Branca.

O tom é jocoso, mas a desmontagem das hipocrisias sociais é profunda. Vilhena não se coíbe de ilustrar a história com fotos sugestivas e os seus desenhos, a representar o corpo da mulher de formas voluptuosas. A sensualidade é a porta de entrada para a mais ácida sátira de costumes.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Jeffthielmusk®

Recordam-se dos tempos em que o futuro era visto como positivo? Em que a possibilidade de viver em O'Neills orbitais era excitante, e dar os primeiros passos na superfície marciana a aspiração de esperança numa humanidade que se espalha pelo espaço, construíndo novas utopias tecnológicas e científicas?

Pois, entretanto apareceram os bilionários, os tech bros e os lordes de sillicon valley. E os sonhos foram corrompidos, como fantasias escapistas de bilionários que querem isolamento luxuoso da destruição que provocam, ou utopias de capitalismo terminal onde tudo se compra  e vende, e quem não tem meios não merece existir. As consequências humanas e ecológicas, que se danem.


Como é habitual nas performances dos Zabra, há imenso para reflectir num espectáculo de estética apurada, que cruza o olhar crítico para a tecnologia e aqueles que a dominam. Se a tecnologia nos aliena e nos transforma em matéria a ser explorada, fruto do seu desvirtuar, projetos como este mostram o poder de nos apropriarmos dela. 

Eu, que devorei Asimov, Clarke, Dick, Bradbury  e companhia, ainda não deixei de acreditar num futuro melhor. Mas está cada vez mais difícil, e compreendo que novas gerações que só tenham conhecido crises económicas sucessivas e estão a levar com as alterações climáticas, não se sintam tão otimistas. O mundo em que cresci tinha esperança no futuro. Hoje, o futurismo foi detur 

A performance Jeffthielmusk® este na galeria ZABRA - Posthuman Art Research Center, entre 24 a 26 de julho, e é de não perder. Originalmente estreada no GNRation, esperemos que regresse ao espaço deste projeto artístico.