segunda-feira, 18 de outubro de 2021

H-alt: A Viagem Mais Longa

 


Faz parte da natureza de um livro destes passar algo despercebido. É didático, produzido para bibliotecas e escolas, funciona não como veículo da criatividade dos autores mas como meio de comunicação estrito de ideias. Não é por isso que deva ser menor, e creio que o objetivo está cumprido: falar da história, de História, de forma acessível. E, recordando as palavras do Miguel, ou melhor, o seu sentido, de uma forma atual em termos estéticos e de ideário. Resenha completa em H-alt: A Viagem Mais Longa.

domingo, 17 de outubro de 2021

URL

Esta semana, destacamos as primeiras reações a Dune, lançamentos imperdíveis do Projeto Adamastor, ou os 100 anos de RUR. Olha-se para a ligação entre o olhar robótico e o nosso cérebro, para o que correu mal com a app Stayaway, o destaque português nas melhores Maker Schools, e a pegada energética da computação. Fala-se sobre a necessidade de combater pela democracia, e das duras realidades da guerra. Estas e outras leituras vos aguardam, nas Capturas da semana.

Ficção Científica e Cultura Pop


Vincent Di Fate, “The Alien Educator, a computerized library,”: Bibliotecas em órbita?

'Dune': Villeneuve salva una adaptación complicadísima y logra replicar parte de la épica y la complejidad de la novela original: Villeneuve é um esteta, e por isso não surpreende que a sua visão de Dune esteja a ser tão aclamada. Pessoalmente, vou esperar para ver. Sendo fã da visão de Lynch, evito entrar no jogo de considerar esta remake superior ou inferior.

Contos — Álvaro do Carvalhal: Um excelente lançamento do Projeto Adamastor, uma edição digital dos marcantes contos de Álvaro do Carvalhal. Ponto de cruzamento entre sensibilidades românticas e barrocas, têm entre o seu mais famoso o conto Os Canibais, deliciosamente decadente.

Comer / Beber de Melo e Cavia, com maiores dimensões: A dupla Filipe Melo e Juan Cavia tem sido consistente em dar-nos excelentes propostas de banda desenhada. Uma das mais recentes vai agora ser reeditada num novo formato.

The Unusual Prescience of Edgar Allen Poe: Nos seus poemas cósmicos, Poe imaginou um universo em expansão, uma ideia que só muito tempo depois foi postulada pela ciência. Apesar de ter ficado para a história como autor de contos de terror, Poe também se dedicou à ficção científica, como nos recorda este artigo.

Meet Guy N. Smith, the guy who gave the world 7 novels worth of crabs: Espera, terror pulp com sapateiras gigantes? Tenho de ir descobrir isto...

In Praise Of Movies That Just End (Because They Used To Know When To End): Como os meus gostos cinéfilos não andam muito pelo mainstream, não apanho muitos desdes no cinema. Mas se precisar de desligar o cérebro e ligar a televisão, vejo filmes conhecidos que, de facto, se arrastam para lá da lógica da sua história. Pelos vistos, é tendência, ditada pela lógica de mercado. Um filme hoje despacha o essencial até meio, para depois estabelecer as bases de uma possível sequela.

Rick and Morty: Christopher Lloyd's Rick Makes That 100 Years Promise: De facto, ao ator imortalizado pelo seu papel de cientista de sanidade duvidosa na trilogia Regresso ao Futuro, o papel de Rick Sanchez cai-lhe como uma luva. O que não é de todo inesperado, as premissas de Regresso ao Futuro são uma das óbvias influências que geraram essa maravilha que é Rick and Morty.

From the San Diego Air and Space Museum Archive: O velho sonho que agora pertence ao passado.

Lançamento: A Jornada de Kappa: Depois de nos trazer Hideshi Hino, num livro que estranhamente não consigo encontrar nas livrarias por onde vou passando, a editora Sendai propõe um novo título que me parece muito interessante. Nem que seja como alternativa ao shonen adolescente que a Devir publica, nada contra, bem pelo contrário, mas à medida que os leitores amadurecem podem descobrir outras vertentes e autores. 

Robot at 100: Cem anos da obra de Carel Čapek, que nos legou o termo robot, e é uma esplêndida obra de ficção científica por direito próprio. Confesso que quando a li, fiquei surpreendido, não  estava à  espera da visão de robots biológicos que o autor conjurou.

Dead Boy Detectives Series Pilot Reportedly Gets HBO Max Greenlight: São os danos colaterais da transformação do ato de ver televisão. Do ter acesso a poucos canais passámos aos múltiplos canais, e agora estamos nos primeiros tempos dos serviços fechados de streaming. Um mercado saturado e incomportável (já fizeram contas ao que custaria assinar todos os canais de streaming? Se sim, de certeza que o vosso passo seguinte foi procurar um bom serviço de torrentes), que requer conteúdos exclusivos para convencer os subscritores a aderirem aos seus serviços fechados. O resultado é que até as mais obscuras propriedades intelectuais se tornam apetecíveis para procurar a nova série de potencial sucesso.

Kaws Is Terrible, But Thankfully Forgettable: Do kitsch assumido, e das estéticas de rebeldia urbana como nicho comercial.

A Memory Called Empire – Arkady Martine: Um olhar para um livro de space opera algo bizantino, muito focado nas questões culturais, e com um worldbuilding interessante.

Bob Pepper, “A Scanner Darkly,” 1977: Quem leu o livro, sabe que se aplica.

Cronologia da Ficção Especulativa Portuguesa: Um trabalho extraordinário do Projeto Adamastor, que nos dá esta cronologia da ficção especulativa portuguesa, com referências e ligações para os textos que estão disponíveis em formato digital.

Tecnologia


Universal Seat Belt: O cinto de segurança que não entra à primeira, nem à segunda, e por vezes à terceira também não dá.

Don't look now: How a robot's gaze can affect the human brain: Mesmo sabendo que são mecanismos simulando movimentos naturais, o nosso cérebro deixa-se enganar e reage como se estivesse perante um ser vivo e consciente. Caveat lector: se lerem o artigo e contemplarem o verdadeiro rosto do robot, sem carenagem, aviso que é visão dantesca.

Informática para bebés, el libro: Uma forma táctil e sensorial de descobrir a informática. Para bebés, mas suspeito que poderia recomendar este livro a muita gente que, frente a um ecrã, evidencia manifestas dificuldades cognitivas.

How does Google Authenticator work?: Um mergulho profundo nas técnicas e algoritmos do sistema de autenticação 2FA da Google.

Websites From Hell: O melhor do pior design web, recolhido por este site. Aviso aos eventuais leitores: não me responsabilizo por prováveis suicídios de neurónios a quem decidir clicar naqueles links.

Relatório Público Stayaway: Um excelente trabalho da D3, que dissecou a fundo os problemas da app Stayaway Covid, em que tudo pareceu conspirar para que falhasse redondamente. Se a tentativa de forçar a obrigatoriedade da app foi um erro crasso, há muitos mais passos em falso no processo de uma aplicação de rastreamento de contactos que funcionava mal - a começar por depender do bluetooth, que é de notória baixa fiabilidade para ligações. Este relatório, completo e complexo, desmonta muito bem todos estes problemas.

9 apps to help kids sharpen their coding skills: Uma lista de serviços e aplicações para estimular a aprendizagem de programação nas crianças. Sendo Google, são apps acessíveis em Android. Surpreende-me o regresso da Tynker, um excelente clone do Scratch, que se tinha há alguns anos focado exclusivamente no ecossistema Apple.

Best Maker Schools 2021 From Make: And Newsweek: A Make divulgou a sua lista dos melhores fablabs em escolas (do ensino superior), e Portugal surge com o Instituto Politécnico de Lisboa, que alberga o fablab Benfica. Este projeto maker coordenado por André Rocha tem, para lá de fablab integrado em cursos de design e educação, apostado muito em intercâmbios, criação de redes entre fablabs mais comerciais, educativos, de escola e projectos de tecnologia criativa. Merece o reconhecimento. 

Making Web Pages with Word?: Usar o processador de texto para criar páginas web soa a heresia, mas há casos em que se torna necessário.Imaginem a documentação de algum projeto ou aplicação com dezenas ou centenas de páginas. Com este script, é possível obter código HTML limpo a partir da exportação de um processador de texto.

Troubleshooting: A Method For Solving Problems The Right Way: Resumindo, analisar e documentar, criando registos para perceber erros e como os resolver. Algo que, no afã urgente de resolução de um problema, demasiadas vezes fica de parte. 

A brief overview of IBM’s new 7 nm Telum mainframe CPU: Mainframes, para que servem? Aparentemente, para funcionar continuamente, quaisquer que sejam as condições. Este CPU está concebido para manter o funcionamento mesmo que a memória RAM seja trocada com o equipamento ligado (se tentarem fazer isto com um pc normal, muito provavelmente ficam com um pisa-papéis nas mãos).

Bosses turn to ‘tattleware’ to keep tabs on employees working from home: O trabalho remoto traz esta questão - como monitorizar o trabalho dos funcionários. Algumas soluções destacam-se pelo seu lado invasivo da privacidade individual.

Why Can't Computing at the Heart of Bitcoin Be More Useful?: O verdadeiro poder inovador da Bitcoin está no protocolo blockchain de validação que a sustenta. No entanto, é ineficaz em termos energéticos. Poderá ser melhorado, para diminuir o seu impacto ambiental, e permitir a adoção do blockchain noutras áreas, para lá das notoriamente voláteis criptomoedas.

This Quantum Computer Is Sized for Server Rooms: Bem, mas antes de começarem a pensar que vão poder ter um servidor quântico na vossa organização (onde os ficheiros poderão simultaneamente existir e não existir, desculpem, náo resisti à piada). Este é um protótipo, e com capacidades muito limitadas, que se destina a estudar a miniaturização da tecnologia dos computadores quânticos.

Cloud Computing’s Coming Energy Crisis: Ter os ficheiros na nuvem não é nada de etéreo. É ter bits espalhados e armazenados numa rede global de servidores, que ocupam locais físicos e têm impacto energético. É a infraestrutura pouco visível da era digital.

How to detect ancient buried cities without any digging: Um excelente exemplo do uso de tecnologias de geodeteção e mapeamento para estudar locais arqueológicos. É possível chegar ao ponto de os reconstituir em 3D sem ser necessária escavação.

When humans play in competition with a humanoid robot, they delay their decisions when the robot looks at them: O poder do olhar. É intrigante ver que o simulacro robótico de olhar desperta no nosso cérebro os mesmos mecanismos do que o olhar de algo vivo.

Inside Skunk Works, Lockheed’s super-secret weapons facility: Um muito raro vislumbre de uma pequena parte da lendária zona onde a Lockheed desenvolve os seus projetos de tecnologias de ponta aeronáutica. 

ProtonMail removed “we do not keep any IP logs” from its privacy policy: Das dificuldades de manter privacidade absoluta na vida online, algo que só parece afetar ativistas que desenvolvem ações de protesto ou denúncia.

A Telescope Chronology: Geralmente consideramos Galileu como um dos inventores do telescópio, mas na verdade, é uma invenção que teve bastantes criadores.

Democracy Is Losing Its Race With Disruption: As ferramentas tecnológicas, ou melhor, os novos usos e comportamentos que trazem, parecem andar muito à frente da resposta social que necessitam. Especialmente quando as instituições são tolhidas pelo espírito libertário e anti-regulatório, geralmente evangelizado por aqueles que têm muito a perder se as instituições olharem a pente fino para os seus modelos de negócio: "regulation is just a loaded word for an important thing: the actions taken by those we elect to transform our shared values into rules that serve the common interest. So when technologists and venture capitalists bemoan the very idea of regulation, they are rejecting the role of democratic institutions in minimizing the potential harms of new technologies and establishing rules of fair play that benefit everyone". Mas a verdade é que as novas economias digitais, assentes no potencial dos dados individuais agregados, trazem consigo questões sobre liberdades e privacidades individuais que não estão a ser respondidas.

Modernidade


Art History Memes For The Highly Cultured Among Us: Memes que deliciam aqueles de nós que são narizes empinados de cultura. Como eu.

Tanks, attack helicopters, drones: What U.S.-supplied arms mean for the Taliban: No que respeita ao material mais avançado, o problema não é tão preocupante quanto isso. Drones, helicópteros e outros veículos requerem manutenção e peças, algo a que os Taliban dificilmente irão conseguir ter acesso. Os jipes por onde passeiam estarão em breve avariados. Mais preocupante são as armas e balas, que irão reforçar o arsenal destes torcionários. 

How Social Media Has Ruined Art?: Os museus adaptaram-se aos públicos habituados às iconografias das redes sociais. Essa popularização em modo kitsch pode ser vista como negativa no seu simplismo, ou positiva por atrair novos públicos aos espaços museológicos. Claro que, digo eu snob, o brilho deste lado positivo desvanece-se quando se está a contemplar uma obra de arte ao som do visitante ruidoso que só quer tirar selfies ao lado dos quadros famosos. Bem, penso eu nesses momentos (nada raros,infelizmente), pelo menos com o impulso rede social sempre percebeu que podia visitar um museu.

What “All the Rapes in the Met Museum” Tell Us About Sexual Violence in Art History: Dos raptos a obras bem mais sugestivas, podemos encontrar nos museus um registo iconográfico desconfortável, que nos recorda a facilidade com que escorregamos para a violência.

El primer dibujo hecho en el espacio (y la odisea para ir ahí, hacerlo y sobrevivir de vuelta): A história da exploração espacial está cheia de novas surpresas, como esta. O cosmonauta Alexei Leonov era também artista, e levou consigo lápis de cor e um caderno de desenho para registar as suas impressões nos raros momentos livres em órbita.

Liberal Democracy Is Worth a Fight: Um dos paradoxos do Afeganistão era o parecer que um regime democrático e o potencial de progresso social só se conseguiam com forças de ocupação estrangeiras. E, de facto, mal estas saíram o regime desabou e o obscurantismo tomou o poder. Se nos parece hoje repelente construir democracia com a força das armas, claramente esquecemos a história, que nos mostra que a democracia foi construída em grande parte com a força das armas. Os monarcas não largaram os seus direitos absolutos por mero amor aos novos ideais. Hoje, a aparentemente consumada democracia liberal está sob ataque permamente de entidades interessadas noutros tipos de regime, que olham para a nossa tradição liberal como uma ideia perigosa, a ser erradicada: " while we and our European allies might be tired of “forever wars,” the Taliban are not tired of wars at all. The Pakistanis who helped them are not tired of wars, either. Nor are the Russian, Chinese, and Iranian regimes that hope to benefit from the change of power in Afghanistan; nor are al-Qaeda and the other groups who may make Afghanistan their home again in future. More to the point, even if we are not interested in any of these nations and their brutal politics, they are interested in us. They see the wealthy societies of America and Europe as obstacles to be cleared out of their way. To them, liberal democracy is not an abstraction; it is a potent, dangerous ideology that threatens their power and needs to be defeated wherever it exists, and they will deploy corruption, propaganda, and even violence to do so. "

The super-rich, ‘sissy boys’, celebs – all targets in Xi’s bid to end cultural difference: A China está a passar por um reforço do culto de personalidade e ideologia oficial, com iniciativas que limitam (ainda mais) a discussão pública, ou decretam a inaceitabilidade de algumas formas de estar. O objetivo é de uniformizar.

The Real War 1939-1945: A partir de uma leitura fugaz, cheguei a este artigo brilhante já com alguns anos. Que nos detalha, com pormenores que dão a volta ao estômago, que a guerra não é aquele espaço sanitizado dos filmes. Que as balas não são inócuas, que um morteiro pode reduzir um homem a uma névoa vermelha, que houve soldados feridos por impacto de partes do corpo dos seus camaradas de armas, entre outras histórias que nos mostram o quão duro é o campo de batalha.



quinta-feira, 14 de outubro de 2021

FM - Em Frequência Modulada


Jorge Zentner, Ruben Pellejero (1990). FM - Em Frequência Modulada. Lisboa: Meribérica/Liber

Histórias negras, que em comum têm a rádio. Um músico desaparecido reaparece a um amigo, contando-lhe que a sua morte foi um golpe publicitário; o rapto de um empresário catalão tem um fim violenta, quando o amante despeitado de uma mulher envolvida no crime a mata; um repórter vê-se envolvida numa trama para assassinar um líder árabe, usando sósias e bombistas suicidas; dois rapazes assaltam um carro, enquanto ouvem na rádio um debate sobre as causas da criminalidade juvenil; o argumentista de uma telenovela radiofónica, farto das histórias que conta, mete-se ele próprio numa história do arco da velha; enquanto  a rádio afirma que está um dia de sol,  a chuva cai sobre Barcelona, enquanto o radialista se prepara para assassinar a mulher e o amante. Histórias negras e irónicas, ilustradas num estilo apropriado, que espelha as iconografias do final dos anos 80.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Nadir Afonso: A Geometria como Universo


António Joel (2009). Nadir Afonso: A Geometria como Universo. Chaves: MACNA/CM Chaves.

Catálogo das obras de Nadir Afonso à guarda do museu de arte contemporânea de Chaves. É precedido de uma contextualização do artista e sua obra, que infelizmente se fica pelo name dropping de artistas internacionais, galerias e correntes artísticas,  e não aprofunda as escolhas estéticas e evolução do artista. O mesmo que passa com o catálogo de obras, cujos textos se ficam por sinalizar que foram reproduzidas no blog da viúva de Nadir Afonso. Está impresso num formato grande, pouco confortável, que não se justifica - não traz qualquer valorização às obras que reproduz (no caso da parte catálogo, é até ridículo, com uma miniatura, texto curto e um imenso espaço em branco) e dificulta o manuseio do livro. Vale pelo registo de algumas obras do pintor abstracionista português.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Viagem a Ver o Que Dá


Altino do Tojal (1993). Viagem a Ver o Que Dá. Lisboa: D. Quixote.

Mais uma etapa na minha viagem inesperada de descoberta de Altino do Tojal, e, novamente, um mergulho num mundo de inesperado onirismo. Mas, também, a descoberta de um lado mais ácido no autor, algo que se vislumbra noutras obras, mas aqui é um dos elementos estruturais. 

Apesar dos seus sucessos, comerciais  e amorosos, um escritor vive uma vida amarga num quarto alugado. Contempla o suicídio, dando uso ao revolver que herdou do avô. É aí que intervém um vizinho de casa, homem anónimo cuja vida de solidão nunca o levou a lado nenhum. O desafio é o de partir, ir estrada fora, sem rumo ou destino, a ver onde se chega. Apesar de todas as suas reticências, o amargo escritor faz-se à estrada com o inesperado companheiro. 

Não há destino, mas há uma paragem final. Há limites para o que um carro aguenta. É assim que os viajantes acordam numa serrania coberta de neve, acordados por um jovem com um burro que contrabandeiam bacalhau. É o ponto de partida para o mergulho numa aldeia bizarra, dominada por um monarca e sua corte, sempre em guerra contra a aldeia vizinha que é uma república. Estes são os mundos surreais onde há um rei agricultor, um presidente alfaiate, uma intratável professora primária que se suaviza ao apaixonar-se pelo companheiro de viagem do escritor. Ou uma velhota viúva depois de se casar já idosa com o homem que sempre amou, e um jovem contrabandista com o seu inteligente burro. Há até um amor interdito entre os filhos do rei e presidente desavindos, que se deslinda numa natalidade num casebre de montanha. 

A depressão da vida urbana é contrastada pela bizarria fantástica do ambiente da aldeia. Aqui o lado de fantasia é assumido, mais pelo lado surrealista do mundo inesperado que se encontra no fim da viagem. É também um livro ácido e algo cáustico, a personagem principal esforça-se em toda a linha por ser desagradável e execrável. Algo constante nalgumas personagens masculinas do escritor, que são mostradas como pessoas intratáveis, cujas ações são repugnantes. E, apesar do lado fantasista, Viagem a Ver o Que Dá é um livro profundamente amargo.

domingo, 10 de outubro de 2021

Fórum Fantástico 2021: As Escolhas do Ano


Regressa o Fórum, e com isso o tradicional painel das escolhas literárias do ano, as minhas, da Cristina Alves e, este ano, por impedimento do "Tio" João Barreiros (o nosso mestre e inspirador), do Rogério Ribeiro. Diria que este ano, as escolhas são injustas. Tanto que foi lido no hiato pandémico que poderia estar aqui em destaque, mas somos obrigados a condensar, senão seria um dia e não uma hora de painel. Deixo-vos aqui as minhas escolhas. Creio que o Rascunhos publicará uma nota sobre as da Cristina e do Rogério.

Ficção Científica

Carlos Sísi, Homine Ex Machina

Este é talvez dos livros de ficção científica mais cândidos na sua abordagem à inteligência artificial, num sentido voltairiano de profundo otimismo. Sisí imagina uma inteligência artificial generalista benévola, um algoritmo que se desenvolve sempre a pensar no bem estar da humanidade. É uma perspectiva diferente do habitual catastrofismo ao estilo exterminador implacável, muito inocente e que se sustenta no lado mais otimista das tendências de impacto destas tecnologias na sociedade.  Inocência não implica simplismo, e Sisí esforça-se imenso na construção do mundo ficcional para mostrar que analisou o tema, e é capaz de sustentar a história em premissas sólidas e linhas narrativas interessantes. Talvez se esforce demais, os infodumps abundam, bem como aqueles tiradas explicativas em que um personagem explica algo a outro, como forma do escritor falar ao leitor. Há capítulos, e linhas narrativas, que foram claramente criadas sem mais nenhum propósito do que enquadrar a história de fundo. 

Martha Wells, Network Effects

Nem sempre a FC tem de ser interventiva ou de especulação profunda, por vezes o que precisamos como leitores é de uma boa aventura. Este livro preenche estas condições, embora assente num excelente mundo ficcional que nos é revelado sem fricções ou infodumps, vamos reconstruindo-o na nossa mente de leitores seguindo as interações dos personagens. A narrativa é pura aventura, saltamos de peripécia em peripécia, acompanhando o robot (cyborg seria um termo mais apropriado) assassino que, de facto, é uma máquina otimizada para garantir a segurança dos seus clientes, com extremo prejuízo para os que considerar ameaça. A diferença face aos restantes robots do género é que este é um robot livre, não está sob controlo de uma empresa, e trabalha numa zona do espaço colonizado onde as formas de governo são mais humanistas. Deve a sua liberdade à inteligência artificial de uma nave.

Walter Jon Williams, The Praxis

Não resisto a uma boa space opera. Toda a ambiência operática, as grandes vistas e aventuras entre os despojos de vastos impérios galácticos, é algo que sempre me seduziu. É FC como vasto panorama, de ideias e conceitos levados aos limites, mas também FC de entretenimento, porque às vezes, o que precisamos mesmo é de uma boa história de aventura no espaço. The Praxis é a clássica história de um império que se desmorona, mas o autor demora, deliberadamente, a arrancar a ação. Uma parte substancial do livro é passada a construir, muito lentamente, as personagens, e a mergulhar-nos num mundo decadente de clientelismos e visões imutáveis da sociedade. Mas, quando o lado de ação arranca, é com estrondo e num ritmo imparável. Percebe-se o contraste, entre a lentidão da decadência, e a rapidez da derrocada.

Fantástico

Altino do Tojal, O Oráculo de Jamais

Sabemos que nos espera o inesperado quando lemos que o cão que acompanha um par de caçadores se chama Solipim, e gosta muito de tocar pandeireta quando sente que o dono está triste. Embora este delicioso romance de Altino do Tojal não se debruce muito sobre dotes musicais caninos. Segue por outros caminhos, sempre inesperados, num formato narrativo de tríade muito similar ao de Orvalho do Oriente, a outra obra de Altino que li. Não é muito correto tirar ilações sobre a obra de um escritor com dois meros livros lidos, mas o paralelo estrutural é visível, os dois romances seguem a mesma estrutura. Cruzam um número mínimo de personagens principais, o primeiro capítulo foca-se mais numa delas, o segundo noutra, e o terceiro é um devaneio de fantasia que termina naquele que é o pior dos artifícios literários - o "afinal, era tudo um sonho".


W.H. Pugmire, Bohemians of Sesqua Valley

 É provável que não conheçam o vale de Sesqua e os seus estranhos habitantes. Também não conhecia, até a minha curiosidade ter sido desperta por um texto sobre W.H. Pugmire, o excêntrico criador deste mundo ficcional. Personalidade queer e quirky, claramente um apaixonado pelo horror na veia mais clássica, amante e seguidor da prosa lovecraftiana. De certa forma, é um escritor de segunda linha, o seu trabalho é assumidamente derivado do de Lovecraft, mas consegue escrever sem imitar diretamente ou em pastiche. Até porque, lendo as aventuras dos boémios habitantes do vale, depressa percebemos que a estrutura lovecraftiana está lá, quer como pano de fundo quer com referências diretas aos mythos de Cthulhu, mas a voz de Pugmire segue outros caminhos, de um terror mais bucólico e poético do que a rendilhada grandiloquência cósmica de Lovecraft.

Manel Loureiro, La Puerta

Manel Loureiro mistura as tradições galegas com um belíssimo thriller onde o sobrenatural e o policial se cruzam. O ritmo é marcado, e o livro é daqueles que não se descansa até chegar ao fim. A trama é urdida sempre aguçando o interesse, e os caminhos narrativos levam a um final inesperado. Para além disso, sobressai a omnipresente paisagem invernosa do interior galego, onde nas aldeias isoladas subsistem crenças e tradições que datam de tempos longínquos. Lendas de que o escritor se apropria, com a devida vénia, para nos contar uma belíssima história de terror.

BD/Comics/Manga

Dylan Dog: O Imenso Adeus

by Mauro Marcheselli, Tiziano Sclavi, Carlo Ambrosini

Talvez o que mais seduz nesta história seja o seu profundo onirismo. Reduzida aos seus elementos essenciais, O Imenso Adeus é ao mesmo tempo uma história de fantasmagorias e de remorsos pela dificuldade em confessar o amor. Percebemos isso muito depressa, vemos logo qual é o caminho da narrativas. Mas nestas coisas da boa literatura, não é só o destino que interessa, mas sim o percurso. É aqui que esta longa despedida nos cativa

Junji Ito, No Longer Human

Em No Longer Human, Junji Ito está firmemente no campo do horror psicológico, do terror que vive no interior do ser humano. Esta adaptação, eficaz, de uma obra sobre a incapacidade de se adaptar à convivência com a humanidade é profundamente inquietante. Ito usa com mestria e equilíbrio a sua estética para nos provocar desconforto, sublinhando o caráter desta história sobre a desumanidade interior.

Paulo Mendes, O Penteador

O Penteador é um livro sobre tudo, e sobre nada. Sobre as coisas simples, a amizade, o convívio, os sorrisos, o lado báquico da vida. Uma excelente e discreta surpresa, um dos melhores livros que li este ano. Um livro que nos deixa a sorrir, com o seu humor destravado embora discreto. Algo que, nos tempos que correm, é especialmente tocante. 

Box Brown, Tetris: The Games People Play

Uma história sobre o confuso processo de licenciamento do jogo Tetris, que na verdade é um elegante ensaio sobre o fascínio que o jogo exerce sobre nós. O foco do livro está na história da criação daquele que é talvez o jogo mais jogado de sempre, criado por Alexei Pajitnov na Moscovo dos últimos anos do império soviético. Esta banda desenhada, ilustrada num estilo muito pessoal, olha para a história do Tetris, e com isso para a história dos videojogos. Mas o que a torna interessante é a sua visão sobre a psicologia do jogo, a sua importância histórica e cognitiva, bem como a sua relação com a arte. Em suma, aquelas coisas aparentemente fúteis que nos revelam a alma humana. 

Não Ficção

Irene Vallejo, El Infinito en un Junco

Um longo ensaio sobre a história do alfabeto, que é em si uma declaração de amor à literatura. Vallejo leva-nos às origens da leitura e escrita, focando-se em dois grandes polos - Grécia e Roma. Não que ignore as civilizações que as antecederam. O livro debruça-se também sobre o Egito, a Mesopotâmia e, inevitavelmente, a Fenícia. Mas se da Mesopotâmia herdámos os primeiros sistemas de escrita, do Egito o papiro, e da Fenícia a simplificação das linguagens ideogramáticas para a simbologia fonética, não herdámos deles muito que nos apaixone, em termos literários. Tabuinhas de barro com contabilidade e papiros administrativos dizem-nos algo sobre esses antigos povos, mas pouco sobre os homens e mulheres que eram. Restam poucos textos literários, a maioria eram utilitários, a escrita era uma ferramenta. Talvez as exceções sejam os mitos egípcios, o Épico de Gilgamesh ou as orações gravadas nas tumbas ou em tabuinhas de barro. Mas falta, nestes longos primórdios, duas das vertentes que sustentam o nosso uso das letras: a busca pelo conhecimento, e a transmissão do sentimento individual.

Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares - Fernão Mendes Pinto

Um livro monumental, pelo tamanho e ambição. Resume, romanceia e essencialmente aproxima-nos da Peregrinação de Fernão de Mendes Pinto, ao mesmo tempo um clássico histórico da literatura portuguesa e um relato das inúmeras aventuras vividas pelos portugueses que, no século XVI, iam para a Índia em busca de riquezas. Glória e expansão da fé, diz-se oficialmente, mas na verdade, era o lucro a qualquer custo que motivava à aventura. De certa forma, a autora traduz para os leitores uma obra cuja leitura original não nos é fácil, não só pelo estilo mas pelas mudanças linguísticas. As aventuras, ou melhor, desventuras de Mendes Pinto são contadas não como relato, mas como romance, dando à história um caráter de aventura pura. O romancear torna este pesado livro numa leitura leve, estruturada em pequenos capítulos que nos contam episódios da Peregrinação, e não só. A autora consultou uma enorme quantidade de fontes históricas que complementam, ou dão outras visões, sobre as histórias de Mendes Pinto.

URL

Esta semana, fala-se das tendências de book tok, do pintor dos quadros nos filmes de Roger Corman, e das comédias clássicas portuguesas. Olha-se para os robots agrícolas russos, algoritmos que se inspiram nos cartoons da New Yorker e do formato 3MF. Ainda há espaço para reflexões sobre o Afeganistão, projetos de arte e a destruição do mural lisboeta de Nuno Saraiva. Outras leituras vos aguardam, nas Capturas desta semana.

Ficção Científica e Cultura Pop


Fred Gambino: Ficção científica old school.

Star Wars’ Hyperspace Explained: Bem, explicar o imaginário é sempre arriscado, mas devo dizer que é divertido olhar para as explicações sobre como funciona o artifício que possibilita todo o universo Star Wars.

BookTok's novel approach to books is helping Canadian authors, retailers attract new audiences: À medida que vou mergulhando no TikTok e o algoritmo deixa de me tentar alimentar com uma dieta de contas femininas de valor duvidoso, começo a perceber alguns dos pontos de interesse da plataforma. Este, é um deles, o ser um ponto de encontro para se falar de livros. E, sendo o TikTok uma rede de vídeos curtos, sem precisar da enorme pachorra que é precisa para ouvir os Booktubers no YouTube. A desvantagem? É imediatista.


"Beyond the Pleasuredome: The Lost Occult World of Burt Shonberg": Aposto que, tal como eu, nunca tinham pensado em quem é que faria as espantosas ilustrações e quadros que estavam em pano de fundo de alguns dos mais marcantes filmes de Roger Corman. Os quadros não estavam lá por acaso, eram o trabalho de Burt Schonberg, artista especializado em horror que não era suficientemente comercial para a ilustração, demasiado focado no terror para agradar à contracultura psicadélica, bem como a arte mais dedicada ao sci-fi da época. Esta nota de exposição, com o enquadramento, e as imagens, é uma excelente forma de descobrir o seu trabalho. Nalguns casos, rever, porque se tratam de imagens que quem viu os filmes da série Poe vai logo reconhecê-las.

A Canção de Lisboa: As comédias clássicas portuguesas vistas como um registo de um tempo e espaço específico, o Portugal dos anos 30, entre o provincianismo e a urbanidade, e as tensões advindas dos primeiros anos da ditadura do estado novo.

Classic SF Featuring Planets With Very Long or Very Short Days: E como fazer, quando os dias planetários não têm as nossas 24 horas? Esta lista traz-nos alguns clássicos da Ficção Científica cuja premissa passa pela vida em planetas cujos dias são mais longos que os nossos.

ENTREVISTAS (34) - JOSÉ PROJECTO (1.ª parte): Descobrir um dos ilustradores clássicos da Banda Desenhada portuguesa, hoje algo esquecido.

Video da lua suspenso por copyright da Universal Music: Tropelias dos sistemas de detecção de direitos de autor automatizados, e deliberadamente programados para detecção abrangente. A trollagem de direitos de autor, em que detentores de copyright tentam tudo para espremer rendimentos de todas as fontes possíveis, é toda uma lucrativa indústria. 


[no title]: Exploitation retro.

Os Olhos do Gato: O grande mérito deste lançamento é trazer para a língua portuguesa uma obra clássica da BD, colaboração entre aqueles que talvez sejam os nomes maiores da BD francófona. 

José de Freitas: “Acho que Eça de Queirós não aprovaria a ideia de converter grandes romances em banda desenhada”: Como foi adaptar Eça à banda desenhada, por parte do editor envolvido no projecto. Uma edição que, diga-se, se destina a um público que só entende banda desenhada nos estreitos limites do didáctico. 

Gene Szafran, 1973: Psicadelismos.

All hail King Pokémon!: A história improvável de um colecionador que cruza o fascínio pelos objetos raros, fandom geek, e talento para negócios.

William Gibson’ s rejected Alien 3 Script Novelized by Pat Cadigan: Aposto que será uma leitura divertida, Pat Cadigan é uma das criadores do Cyberpunk.

Viagem, de Yuichi Yokoyama: Três homens num comboio, olhando para os detalhes da máquina. Uma proposta intrigante da Chili com Carne.

Tecnologia


da New Yorker dá nisto, cartoons ao estilo da venerável revista, deliciosamente bizarros.

Yara Birkeland, el primer buque de carga totalmente eléctrico y autónomo está listo para surcar los mares: O protótipo de um navio de carga autónomo já está em testes. O objetivo é o de ter um navio elétrico e autónomo capaz de se deslocar nas zonas costeiras da Europa.

Are You Ready for Sentient Disney Robots?: Não surpreende que os especialistas em animatrónica da Disney estejam a pensar em ir mais longe, desenvolvendo mecanismos cada vez mais realistas e capazes de reagir aos visitantes.

Astrobee Will Find Astronauts’ Lost Socks: Junto com os projetos de desenvolvimento de estações espaciais pós-ISS, temos robots desenvolvidos como assistentes dos astronautas.

AI Generating Paintings Off To A Flying Art: Arte ao toque de um botão. Este projeto DIY foi pensado como uma forma de tirar partido visual dos algoritmos geradores de imagem, mas na prática, representa aquele que é o maior medo, ou mito, das atitudes perante arte digital - a ideia de que usando meios digitais, a criação artística se torna totalmente artificial e simplificada, basta tocar num botão para se ter arte automaticamente. Algo que quem trabalha com meios digitais sabe que não é de todo verdade, há um enorme trabalho de mão humana num design 3D, pintura digital, algoritmo generativo ou treino de GAN.

'Carbon Neutral' Container Ships Are Greenwashing, Experts Say: Uma triste observação, a reconversão energética para biocombustíveis não é tão redutora das emissões de carbono quanto necessitamos na transição para uma economia mais verde. 

Boox tablets are welcome options in the growing oversize e-reader niche: Quem lê muito em formato electrónico sabe que computadores, tablets ou telemóveis não são bons suportes de leitura. Nada como um ereader dedicado, com o seu ecrã de tinta digital, com a sua legibilidade excepcional em luz natural, sem o cansaço ocular dos ecrãs tradicionais. 

An Army of Grain-harvesting Robots Marches Across Russia: Avante, legiões robóticas da agricultura russa! Lamento, não resisti à piada soviética, ao ler este artigo sobre a robotização de tratores agrícolas, algo que faz todo o sentido em latifúndios. Pormenor interessante, o criador deste sistema assume que a presença humana é essencial para colmatar as falhas de pormenor das máquinas, não chega programar percursos e dotar de visão computacional, o humano é necessário para reagir face aos imponderáveis. 

Who Owns the Machine Anyway?: Uma questão que se coloca à medida que a robotização da economia avança. De quem é a propriedade das máquinas que compramos, muitas vezes com restrições ao direito de reparação e uso? A tendência parece ser a a restrição, com o utilizador a pagar pelo uso da ferramenta ou equipamento, mas sem deter efetivamente a sua propriedade.

How Data Science Pinpointed the Creepiest Word in “Macbeth”: Uma palavra prosaica, muito repetida, mas usada de tal forma que se torna o elemento mais arrepiante deste texto clássico.

How do the latest 3D-printed, mostly-plastic ghost guns fare on the shooting range?: Se há poucos anos me perguntassem sobre os perigos das armas impressas em 3D, diria que isso era uma não-questão, a tecnologia de impressão 3D caseira não garantia a fiabilidade e resistência de materiais necessária para que o disparo de uma arma impressa não fosse uma candidatura ao prémio darwin por parte do atirador. Subestimei a teimosia e persistência dos gun nuts, que desenvolveram modelos, processos e combinação de peças impressas com peças em metal para criarem armas capazes. Com isso, ressurgem as preocupações de descontrole e proliferação, bem como a impossibilidade de rastreamento deste tipo de armas. Sendo claro, continua a ser impossível tocar num botão e sair uma arma da impressora 3D, na verdade estas armas conjugam múltiplas peças, algumas em metal, e dão imenso trabalho a imprimir e montar. Mas há quem se queira dar ao trabalho de o fazer, e isso sim, é preocupante. 

STL Format Is Obsolete: Here’s Why You Should Be Using 3MF: As virtudes do 3MF como formato para impressão 3D, face ao clássico STL. O formato tem vantagens, ao nível de metadados ou informação de cores, mas ainda não é muito suportado pelos slicers mais comuns. Talvez porque claramente de destina a usos industriais? 

The Best Apps for Scanning 3D Objects with Your Phone: Espero, pacientemente, que os sensores Lidar cheguem aos Android. Nos iPhone, estão a revelar-se uma importante ferramenta de criatividade digital, permitindo aos criadores digitalizar o real usando o telemóvel. 

Confessions of a Sid Meier’s Civilization Addict: Um divertido ensaio sobre a paixão por um jogo, e como para muitos de nós, o que realmente desperta o interesse num jogo são as suas possibilidades abertas, de construção, criação e evolução.

Belarusian hackers are trying to overthrow the Lukashenko regime: Do ativismo digital, e também sobre coragem, o regime bielorusso é conhecido pela forma como não hesita em desvirtuar as leis para levar as suas intenções avante.

We’re Getting Closer to Flying Humanoid Robots: Leram bem, e se pensaram logo em robots voadores ao estilo Iron Man, bem, pensaram no mesmo que eu. Na verdade, está-se muito longe disso, e este desenvolvimento é apenas uma consequência divertida de projetos de investigação que olham para diferentes formas de locomoção.

Introducing Omnimattes: A New Approach to Matte Generation using Layered Neural Rendering: Mais um campo onde os algoritmos de inteligência artificial se irão tornar ferramentas. Esta técnica mostra os primeiros passos de geração automática de fundos matte para audiovisual.

Modernidade


The Origins of Indigo, That Bluest Blue: Parte projeto artístico, parte documento historiográfico, esta exposição olha para o índigo como cor, refletindo nos seus usos artísticos mas também na sua longa história como pigmento comercial.

Build competence, not literacy: Um ponto de vista interessante, especialmente se formos professores. Literacia implica conhecer sistemas, perceber regras, mas é em última análise passiva. Competência tem inerente a ideia de construir algo, de criar a partir do conhecimento que se adquire.

Our brains exist in a state of “controlled hallucination”: A nossa visão do mundo é uma constante construção cerebral, a partir dos dados sensoriais dos sentidos. Ou seja, a realidade que percebemos é construída pelo nosso cérebro. 

The Kingpin of Shanghai: A intrigante história de um verdadeiro rei do submundo chinês, aliado de Chian Kai-Shek, que terminou os seus dias num obscuro exílio em Taipé.

Zapatistas “invadem” Madrid para comemorar “500 anos de resistência”: Uma invasão invertida, que nos recorda a montanha de cadáveres com que se construiu a história da colonização europeia. 

Os 13 quadros de Nuno Saraiva que foram “irremediavelmente destruídos” no mural de Alfama: Com a pandemia tenho passado poucas vezes por Lisboa, e muito menos pela zona de Alfama, apesar de estar muito aprazível com a abrupta diminuição do turismo. Curiosamente, da última vez que por lá passei, deparei com o próprio Nuno Saraiva a finalizar o recente restauro do seu mural no arco de Alfama. Poucos dias depois foi vandalizado, de uma forma que torna difícil o restauro. Um tag idiota a cobrir o mural que recorda ao mundo a história de Lisboa, e mostra o talento artístico contemporâneo. 

Os talibã podem parar o relógio mas não conseguem parar o tempo: O que se seguirá no território? Um regresso ao obscurantismo islâmico retrógrado, ou uma tensão permanente e violenta entre os zelotas, e uma população que já sentiu a modernidade? Como este texto demonstra muito bem, não há resposta fácil para estas questões. 

How Afghanistan Changed a Superpower: Recordar o passado, e o impacto que a guerra do Afeganistão teve no regime soviético. Não foi o que provocou a sua derrocada, mas a impossibilidade de vitória, a incapacidade governamental e os soldados estropiados numa guerra sem sentido contribuiram para a queda de um regime já descredibilizado. Agora que o Estados Unidos (e Nato) se retiram da zona após algo que nem foi vitória, nem foi derrota (o objetivo era cercear o terrorismo e atacar a Al Qaeda, e nisso funcionou, não o de conquistar e civilizar um território à maneira ocidental), que mudanças as percepções sobre o nosso papel no Afeganistão nos trarão?

Singapore Gives Up Goal of Covid-Zero Despite High Vaccination Rate: Se são daqueles que se pergunta "quando é que isto acaba", desenganem-se, não acaba. A pandemia está cada vez mais sob controle, mas a covid será uma doença endémica global. 

The planes that conquered Antarctica: Não é um terreno para todas as aeronaves, nem para todos os pilotos. A antártida representa um enorme desafio de voo, e requer aeronaves robustas. Como, por exemplo, os vetustos DC-3, avião clássico da II Guerra ainda hoje ao serviço nos locais mais remotos.


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Dylan Dog: Giochi innocenti; Vendetta in maschera; Il detenuto; L'ora del giudizio


Paola Barbato, Paolo Martinello, Gigi Cavenago (2021). Dylan Dog n. 414: Giochi innocenti. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Dylan 414 : As histórias de Paola Barbato são sempre muito bem montadas,  e esta não é exceção. Dylan recebe uma estranha mensagem da ex-mulher, a agente Rania, onde uma criança lhe pede ajuda por causa dos monstros no seu quarto. À partida, tudo parece bem, uma brincadeira de criança feita pela filha de uma amiga da agente, mas algo faz despertar os instintos desta, e de Dylan. Afinal, a criança está desaparecida, e o rapto parece estar relacionado com uma série de desaparecimentos de crianças. Investigando em paralelo (parte da renovação de Dylan Dog inclui uma relação complexa com Rania), acabam por se deparar com uma estranha casa abandonada, que para Rania é uma casa em ruínas, mas para o mais sensível ao sobrenatural Dylan, se percebe ser um portal para o inferno. E fica aí resolvido o mistério: as crianças foram raptadas por demónios, que as raptam para as treinar como sucessoras. Sempre crianças felizes e inocentes, que brincam muito, e são ensinadas a brincar aplicando torturas às almas condenadas. E, com o tempo, tornar-se-ão elas próprias em demónios. Dylan encontrará um estratagema para as salvar, mas na verdade, estes inocentes que brincam aos torcionários não queriam, realmente, ser salvos. 


Gabriella Contu, Andrea Chella, Gigi Cavenago (2021). Dylan Dog n. 415: Vendetta in maschera. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Dylan Dog 415: Uma história linear de vingança. Num parque frequentado por um bando de jovens que sobrevive com pequenos assaltos que executam mascarados, começam a aparecer vítimas de assassinato, também levadas a cabo por mascarados. Dylan envolve-se a pedido dos jovens delinquentes, e acaba por perceber que as mortes são provocadas pela irmã de uma rapariga levada ao suicídio por um acto de cyberbullying, e que agora procura vingar-se.


Mauro Uzzeo, Arturo Lauria, Gigi Cavenago (2021). Dylan Dog n. 416: Il detenuto. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Dylan Dog 416: Uma estranha história, não finalizada e soberbamente ilustrada. No que parecia ser uma noite tranquila de namoro, Dylan intervém junto de alguns polícias, e acaba preso. Acorda numa estranha e opressiva prisão, povoada de prisioneiros inocentes, deformados, com a pele escarificada. Uma prisão sem saída, onde só se pode almejar visões de martírio, dominada por uma entidade feminina que aprisiona almas sem tempo. Dylan acorda deste pesadelo para descobrir que é acusado da morte de um polícia. 


Barbara Baraldi, Angelo Stano, Gigi Cavenago (2021). Dylan Dog n. 417: L'ora del giudizio. Milão: Sergio Bonelli Editore.

Dylan Dog 417: A continuação do número anterior continua por caminhos do bizarro, mas de forma diferente. Dylan está em tribunal, a ser julgado pela morte da mulher que era o interesse amoroso do episódio anterior. Um julgamento estranho, às voltas com experiências levadas a cabo por um psiquiatra que tenta curar os distúrbios de personalidade da mulher, e com isso acaba por provocar a sua morte. Ou não, na verdade Dylan foi transportado para a mente da jovem, e vive os seus delírios. A cura é bem sucedida, mas fica para Dylan o encargo de tomar conta de uma boneca arrepiante, que recolhe o lado angustiante da jovem.


terça-feira, 5 de outubro de 2021

Um Médico para as Estrelas


Murray Leinster (1974). Um Médico para as Estrelas. Lisboa: Edições DH.

Série de histórias sobre Calhoun, um decidido e imperturbável médico que viaja pelas estrelas, ao serviço de uma entidade que vigia a saúde dos planetas colonizados. É acompanhado por Murgatroyd, um animal alienígena cuja fisiologia facilita a detecção de substâncias e até permite sintetizar medicamentos. Esta metáfora do homem e seu fiel companheiro é completada pela ironia das situações,  em que o real problema não é a questão médica, mas as ações dos pacientes. Contos Med-Service de Leinster.

A Guerra dos Avós: Quando a estrela de um sistema planetário dá sinais de instabilidade, os seus habitantes decidem colonizar outro planeta. Fazem-no de forma metódica, enviando primeiro jovens para construir as infreastruturas necessárias, depois as crianças, e finalmente os mais idosos. Mas os jovens habitantes da nova colónia, imaturos e sobrecarregados pelo trabalho de construção, recusam-se a receber os mais velhos. E assim despoleta uma guerra entre pais e filhos. No meio disto, um médico do serviço espacial é chamado a intervir, e depressa percebe que para melhor salvar vidas, terá de curar as maleitas desta civilização dividida. 

O Planeta Deserto: Em missão de saúde, o representante do serviço médico estelar depara-se com um mistério. O planeta parece abandonado, sem sinais de catástrofe, mas com a população desaparecida. E ainda terá que lidar com um viajante que, apesar da situação do planeta, insiste em descer para fazer negócio. Vem daí a causa do mistério: os negociantes queriam adquirir terras ao mais baixo preço possível, e, para isso, usaram uma tecnologia de indução para causar desconforto aos habitantes do planeta, levando-os a refugiar-se longe das cidades, e com isso fazendo baixar o preço das terras.

A Epidemia do Ódio: ao chegar a um planeta em missão sanitária de rotina, o médico depara-se com algo que parece ser uma guerra civil. No entanto, a guerra é entre pessoas aparentemente normais e outras, contaminadas com uma misteriosa epidemia indutora de loucura. Para piorar a situação, os líderes do planeta são controlados por um médico local, que está ele próprio louco,  e prepara uma suposta vacina que irá escravizar a população. A solução passa por sintetizar um antídoto, tarefa que parece impossível até o médico espacial se aperceber que os compostos do antídoto são exatamente os mesmos libertados por madeira a arder. Provocar incêndios é a cura para este mal.

domingo, 3 de outubro de 2021

URL

Esta semana, destacamos o futuro comic de André Araújo, o lançamento televisivo da Fundação de Asimov, e o regresso de Octobriana. Fala-se do robot de Musk, inteligência robótica emergente e do papel da inteligência artificial na arte. Reflete-se sobre censura algorítmica, realidades opcionais ou o castanho enquanto sinal de ecologia. Outras leituras vos aguardam, nas Capturas da semana. 

Ficção Científica e Cultura Pop


The Tall Man rules…: Um olhar para Phantasm, de Don Coscarelli.

Bem Bom: Uma análise ao filme português do Verão, o biopic das Doce. Nostalgia dos anos 80 a cruzar-se com a história da pop portuguesa. 

Stunning official trailer for Foundation whets the appetite for more: Finalmente, o momento pelo qual gerações boomer de fãs de ficção científica tanto esperaram. A série Fundação de Asimov chega aos ecrãs, e cheia de barroquismo visual, daquele que consegue disfarçar as dificuldades de adaptar um texto que é  essencialmente conceptual ao espetáculo audiovisual, mas também muito limitado no seu âmbito. Esta série literária explora a ideia de que é possível antever a forma como as sociedades evoluem ao longo de milénios, cruzando história, sociologia e matemática. Foi um tremendo sucesso, e o típico lamaçal literário asimoviano, com uma premissa que nos parece brilhante apenas porque não conseguimos ver a estreiteza dos seus pontos de vista por entre a vastidão cósmica das histórias. Asimov era especialista nisto, construía conceitos interessantes, mas simples, como as três leis da robótica, que depois explorava até ao tutano em infindas variações. Fundação é isso, mas no registo de romance  e não  de conto. Não deixa de ser uma das obras essenciais para se conhecer a ficção científica, no seu melhor e pior. É também das obras mais influentes no espaço de ideias e iconografia da Ficção Científica. Sublinho só uma: as visões de uma luxuosa cidade-planeta, centro de um governo galáctico primeiro republicano e depois imperial de Star Wars, são uma referência direta de Lucas a Asimov. A base visual e conceptual de Coruscant é  Trantor, o mundo cidade central da civilização galáctica de Fundação. 

At the Earth’s Core: Pulp clássico.

5 Tense Books That Blend Sci-Fi and Horror: Livros que arrepiam,  e ainda tocam na ficção científica. Novos autores a descobrir. 

Brian Bendis Auctioned André Lima Araújo Comic, Not Going To Marvel: Espera, o desenhador português André Lima Araújo a trabalhar com Bendis, e numa série de graphic novels? É uma excelente notícia, e bem merecida, reconhecendo a capacidade do autor de Man:Plus. Resta saber que livros, títulos, temas, isso fica para a Comic Con de Nova Iorque. 


Uncredited cover art to Mysterious Visitors: Pediram um disco voador? 

Octobriana All-Star 50th Anniversary From Dead Good Comics in November: Por Outubro! A heroína soviética de comics underground vai ter uma segunda vida, chegando ao hipercapitalismo que é a edição de comics. 

On the Illusion of Change and Jonathan Hickman Leaving the X-Men: Duas notas. A corrente revisão dos X-Men era parte de algo maior; e graças ao seu sucesso, vai ser explorada até ao tutano como base para os personagens (o que até é expectável, no que toca à indústria).

Tecnologia

Vermeer’s Cupid returns: Do extraordinário. Investigadores e peritos em restauro descobriram que um dos quadros de Vermeer não era tal e qual como sempre o conhecemos. Originalmente, a pintura incluía um cupido, que foi posteriormente tapado com tintas e verniz. O processo de restauro foi longo, e meticuloso.

Can Robots Evolve Into Machines of Loving Grace?: Apesar do passo rápido de investigação e desenvolvimento, ainda estamos muito longe das nossas visões de robots autónomos. E quanto ao desenvolvimento de inteligência, provavelmente consciência, será que à medida que a tecnologia se desenvolve, a inteligência surgirá como capacidade emergente?

Musk: The Tesla Bot is coming: Valerá a pena levar isto a sério? Será vaporware como o Cybertruck, ou trabalho metódico de desenvolvimento tecnológico ao estilo SpaceX? Musk gosta de fazer grandes pronunciamentos sobre tecnologias, faz parte da sua estratégia de marketing. Nesta, talvez o interessante seja o factor motivação, incrementando o desenvolvimento de androides (no fundo, mobilizando os extraordinários desenvolvimentos recentes na robótica), com um toque de futurismo clássico, revendo a ideia clássica do robot servente que liberta o humano das tarefas chatas. 

O potencial da energia nuclear na descarbonização da sociedade: A energia nuclear desperta medos, mas tem-se mostrado essencial como parte do mix que inclui energias renováveis e permite reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Uma análise sóbria  e bem informada ao potencial do nuclear.

A dog’s inner life: what a robot pet taught me about consciousness : Um texto poderoso, que nos recorda a facilidade com que atribuímos ideias de vida a objetos, especialmente quando estes são programados para reagir às nossas ações. A questão de fundo é perceber que perante simulações de vida, reagiremos tal como perante um ser vivo, com envolvimento cognitivo e emocional. 

How future historians will study us: Um estilhaçado caleidoscópio de tweets, comentários em redes sociais e imagens no instagram, serão as bases com que futuros arqueológos nos tentarão conhecer. 

El conjunto de Mandelbrot en ASCII art en 15 líneas en C++: Da arte da programação, em vários níveis. Com poucas linhas de código se fez este fractal de mandelbrot em ASCII.

What if data had funerals too?: Memento mori para o digital, recordando que os nossos dados dependem de suportes físicos, e estes podem ficar sem funcionar. Perda de dados como ritual de luto.

This AI Can Spot an Art Forgery: Sendo a inteligência artificial uma ferramenta excecional para detetar padrões, pode também ser usada para analisar obras de arte e determinar se são autênticas, ou cópias. Note-se que a análise do algoritmo, por si só, nunca seria o suficiente para validar ou invalidar a autoria de uma obra (há outras formas, entre peritagem por especialistas em arte até ao rastreio do percurso da obra), é apenas mais uma ferramenta.

The Taliban, not the West, won Afghanistan’s technological war: A vitória talibã no Afeganistão vista pelo lado da tecnologia, onde quem ganha guerras não é o lado que dispõe das tecnologias mais avançadas, mas sim aquele que consegue tirar partido mais eficaz das tecnologias de que dispõe.

The Joy of Disobeying Your Phone: Habituados a conexões constantes a sistemas de mapeamento complexos, a sensação de nos perdermos nas ruas ou estradas parece arcaica, e apoquentadora.

Philip Glass on Artificial Intelligence and Art: O compositor escuta música produzida por algoritmos, e é rápido a apontar as suas falhas. Mas também as suas virtudes, o interessante é notar que o veterano autor de música erudita contemporânea não sente a inteligência artificial como uma ameaça desumanizadora, antes, como uma ferramenta cheia de potencial para expandir o que os artistas conseguem fazer: "I think this is not a disaster. It’s the beginning of something. It’s the beginning of something. And you give this to someone who has that training or can hear it that way–they can make a good piece out of this".

Modernidade


Rymdreglage’s 8-bit trip: Isto é de um espantoso brilhantismo no uso de Lego para fazer animação stop-motion.

The Middle East is running out of water, and parts of it are becoming uninhabitable: O aquecimento global combinado com a má gestão de recursos aquíferos. Impressionante, ler sobre ex-cidades portuárias iranianas, situadas em lagos cujas margens recuaram de forma dramática.

Paula Rego’s Raging Women: Um olhar sobre a pintura de Paula Rego, com uma observação interessante - a forma rude, suja como a artista tira partido do pastel para se exprimir, ou seja, o pastel enquanto arma.

All These Artworks Have Been Censored By Instagram: Para algoritmos, a diferença entre vulgar e artístico não existe, como mostram estas histórias de imagens de obras de arte bloqueadas nas redes sociais. Estes automatismos, por serem de largo espectro, parecem ter a capacidade de indignação de ratas de sacristia, mas o que é realmente alarmante é a forma como as redes sociais não facilitam a contestação a estas decisões algorítmicas. E, nalguns casos, com suspensão de contas, o que para um artista, pode-se traduzir numa séria perda. Isto não é censura nos moldes tradicionais, até porque a gestão de conteúdos online é necessária, mas depender só dos processos automáticos pode trazer danos culturais. 

When reality suddenly becomes non-optional: Do choque entre realidades culturais e políticas, com o zeitgeist de monoculturas moralistas potenciadas pelo digital. Sobre bolhas de informação, enviesamentos cognitivos, e o choque de ver uma seita retrógrada, assente no moralismo bafiento  e assassino, conquistar o poder num país onde a falta de vontade de impor e defender uma ordem democrática levou à derrocada. 

At MoMA, Love of Cars Can Be Exhausting: Há que admirar a visão de carros pendurados em helicópteros nos céus de Nova Iorque. Mas a exposição fala do automóvel como objeto de design, objeto de desejo,  e objeto problemático. 

Seeing Red: A nova guerra fria, notória, entre dois sistemas de governo  e economia. O liberalismo americano, demasiado centrado no curto prazo e a abandonar as questões sociais, e o centralismo chinês, onde o estado intervém diretamente na economia quando os seus actores não agem de acordo com os interesses nacionais. Um parece em declínio, outro em crescimento rápido. Uma guerra feita de confrontos diretos complexos (flexionar músculos económicos para obter objectivos politicos, o eterno jogo gato e rato da ciberguerra), mas também de uma profunda interdependência económica. 

Thanks to sanctions against Russia, the US ammo crisis is about to get worse: Provavelmente o texto mais 'murica (e aleatoriamente divertido) que vão ler. Sanções americanas à Rússia estão a provoar uma escassez de munições baratas. Pobres rednecks, a ficarem sem balas russas para disparar enquanto proclamam o seu orgulho americano...

Dying in the Name of Vaccine Freedom: Há um ano atrás, quando a pandemia parecia ainda um poço profundo, nunca esperaríamos que a saída fosse complicada por aquilo que melhor pode ser descrito como uma epidemia de cretinice. Ver pessoas à beira da morte, infetadas por Covid, e mesmo assim a acharem que a vacinação é um risco, bem, como comentar? Óbvio prémio darwin, mas piadas à parte, é uma vida em risco por acreditar em desinformação e conspirações. 

China: a real face do Comunismo: Economia capitalista, regime totalitário. Com uma espécie de consenso social dado às pessoas: abandonem a ideia de liberdade, em troca asseguramos estabilidade e prosperidade.

Lisboa não está assim tão verde – e isso pode ser bom: Porque ser "verde" não implica ser verdejante, mas sim conhecer os territórios e perceber qual a vegetação que lhes é mais apropriada. Um relato interessante, onde os jardins de Lisboa se tornam acastanhados para serem mais sustentáveis, com a substituição da relva que requer rega intensiva por prado autóctone.

FOTOGALERIA: JÁ NÃO VOAM PAPAGAIOS NO AFEGANISTÃO: O olhar, e as palavras, de um fotógrafo português que trabalhou no Afeganistão.

The Coronavirus Could Get Worse: Entre as assimetrias na vacinação e os mecanismos naturais de evolução, um sinal que apesar de todos os esforços, esta doença veio para ficar.

Why Early Modern European Artists Were Obsessed With Shells: Do exotismo ao invocar de distantes paragens.

The Banality of Apocalypse: Talvez a melhor frase que resume a sensação de lagosta no tacho trazida pelo aquecimento global: observamos as consequências das alterações climáticas através de pequenos vídeos apocalípticos partilhados pelos media e redes sociais, até que chegará a vez do nosso telemóvel os gravar.