domingo, 20 de setembro de 2026

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500 Years of Space Drawings #SpaceSaturday: Ciência e arte. 

Do Ringtone ao Viral: Quando a promoção se torna parte da obra: A progressiva influência das dinâmicas digitais na forma como tomamos contacto com a nova música. 

Egyptian Mythology Books, recommended by Garry J. Shaw: O fascínio do antigo Egipto. 

Treinar a IA para me recomendar leituras: É uma ideia gira, se bem que há sempre o risco de o algoritmo fazer tender para escolhas médias. 

Kafka’s Most Entertaining Stories: Não sei se qualificaria Kafka como entretenimento, mas hey, cada um sabe o que lhe dá mais gozo. 

An Odd New Literary Genre: Biographies Of Characters From Books: A indústria literária encontra sempre nichos muito inesperados. 

The Best Body Horror Books, recommended by Heather Parry: De Ballard a Faber, livros onde a visceralidade corporal é a base do horror. 

Leituras da Semana (#125 // 02 Ago 2026): Mais olhares sobre a Odisseia filmica, e a forma controversa como revê um dos mais clássicos textos da cultura ocidental. 

An Uncomplicated Man: E pronto, lá li a elegância profundamente corrosiva da demolidora crítica de Emily Wilson à versão Nolan da Odisseia. Revejo-me no texto, percebo as críticas, até porque espelham o confronto entre a minha admitidamente menos profunda leitura da obra. E, no entanto, como o professor André Simões tem discutido muito bem, há aqui uma premissa errada - assumir que a cultura de massas tem de replicar o rigor académico. Não tem, e não pode, porque se o fizer não chega aos grandes públicos. Apesar das trapalhadas que Nolan fez à Odisseia, trouxe ao grande público uma versão simplificada e atualizada. Longe de ser perfeita, é divertida. E leva multidões ao cinema, para vibrar com uma história milenar. 

"Jesús es mejor, más listo y más compasivo" que Ulises: 'La Odisea' de Nolan ha puesto de uñas a biblistas de medio mundo: A sanidade desta ideia é maior do que o que possam pensar. Sabemos que os criadores dos mitos cristãos foram buscar relatos de outras tradições e civilizações, e incorporar os dilemas heroicos da tradição grega faz todo o sentido. 

Dystopian Sci Fi Books recommended by Adrian Tchaikovsky: Digo-vos que vão ficar surpreendidos com estas recomendações, embora sejam de todo consentâneas com a voz de um escritor marcante da FC contemporânea. 

The Heated Debate In Europe Over Air Conditioning: Será que por cá também teremos de generalizar o ar condicionado, como uma das estratégias de mitigação das consequências do aquecimento global? Notem, nesta fase, já não podemos falar em travar ou reverter, apenas em mitigar. 

“Menos data centers, mais bibliotecas”. E mais leitores: Na distopia de capitalismo late-stage neoliberal em que somos forçados a viver, só interessa o que dá lucro. O livro tem um papel a desempenhar nesta visão de podre dourado - não como meio de transmissão e discussão de ideias e conhecimentos, mas como objeto decorativo e comportamento performativo para os participantes empenhados nas economias da distração.


Paul Alexander: FC clássica. 

AI Is Hyper-Scaling Digital Inequality: Eu sei que a malta adora dizer mal do amália, o LLM(zinho) português, mas a única forma de combater a cada vez mais profunda desigualdade no campo da IA é apostar no desenvolvimento de ferramentas locais e específicas, adaptadas às necessidades e contextos culturais específicos. 

Grandparents Are Giving Their Grandkids Personalized AI-Slop Children’s Books, Driving Parents Nuts: Confesso que esta apetência por livros infantis automáticos sempre me deixou siderado. É olhar para a literatura infantil não como literatura, mas como objeto de entretenimento e preenchimento de tempo. 

Un conductor chino se compró un espectacular SUV eléctrico para viajar a Europa. Todo era perfecto hasta que llegó a la frontera: Quando a geografia troca as voltas aos sistemas digitais que sustentam a infraestrutura dos veículos elétricos, acontecem bizarrias destas. 

Why Kids Can’t Quit Roblox: Não é novidade, mas é sempre bom repetir. Este tipo de plataformas socorre-se de mecanismos aditivos, indo buscar as mesmas técnicas que usam os casinos e jogos de azar para captar a atenção dos jogadores. Que, neste caso, são crianças e por isso especialmente vulneráveis a estas artimanhas. 

Google Earth’s AI deepfake tool only lasted one day: Esta é daquelas ideias que só nos podemos perguntar em que raio estavam a pensar. Meter IA generativa dentro de um serviço que precisa de ser rigoroso. O que é que poderia correr mal? 

Appears to Be Blasting Amazon Data Centers Off the Map: Se ormuzar o petróleo é à primeira vista uma arma geopolítica de alto impacto, atacar a infraestrutura de dados não fica atrás. 

La crisis de la memoria ha disparado el precio de la Raspberry Pi. El cacharreo casero está huyendo a un chip que cuesta diez dólares: O ramapocalypse está a ser terrível para a computação de baixo custo. É absurdo que um Raspi custe quase tanto quanto um pc barato. A vantagem, é que projeto acessíveis como a Esp32 ficam no radar dos criadores e makers. 

Most people prefer AI-written stories – and can’t tell when they are made by humans: Bem, leio isto mas não fico preocupado. É que usar o gosto popular como unidade de medida de importância cultural é pateta. Lembrem-se, é o mesmo gosto que sustenta a mediocridade da música pop e pimba, faz alastrar as telenovelas, devora reality shows, oscariza melodramas banais e acha que o hambúrguer especial do McDonalds é comida gourmet. Acham mesmo que qualidade é preocupação para este nivel de consumo cultural? 

4 Times Not To Use AI as a Teacher or Student: Gostei particularmente do não usar para gerar planos de aula e projetos. A essência de um professor é saber refletir e coligir os seus conhecimentos com os objetivos de aprendizagem para os transformar em projetos ou planos que consigam ir ao encontro dos alunos. Se delegamos, por conforto ou preguiça, isto na IA, não só estamos a ensinar a metro, como se coloca a questão do professor ser realmente necessário, quando a IA debita mais depressa. 

Now, Thanks to Sam Altman, You Never Have to Speak With Your Kids Again: O bizarro é que estes sociopatas nos apresentam estas visões profundamente desumanas como se fossem desejáveis. Depois, ficam admirados pela cada vez pior visão pública que temos sobre esta tecnologia. 

The Internet Is in Crisis: A fama é algo perigoso, especialmente se ancorada nas mais baixas pulsões humanas. Depois de se atingir píncaros há a inevitável queda, e há quem persiga todos os extremos para tentar voltar à ribalta. A internet apenas acelerou algo que acontece desde sempre, com o problema adicional de numa economia de atenção que privilegia escandaleira e acintosidade, ir aos extremos implica sempre aprofundar o conceito de bater no fundo. 

Revolut bloqueia uso do GrapheneOS: Por "questões técnicas", leia-se "este SO não tem a porta aberta para a economia de vigilância que o Android da Google tem", é um SO feito a pensar nos utilizadores e não nas empresas. 

Chernobyl’s Robots, or the Hackathon From Hell: A necessidade como motor de criação, aqui recordando um momento muito dramático da história do final do século XX.

Everyday Technology Is Becoming a Black Box. Is There a Cost?: Um custo que se mede em conhecimento. A impossibilidade de mexer nas tecnologias significa que a esmagadora maioria de quem as utiliza não tem a mínima noção de como funcionam, ou sequer quais os pressupostos por detrás dos algoritmos que lhes controlam a atenção. São meros utilizadores, fascinados pelo que as tecnologias que não compreendem lhes dão. Há formas de combater isso, especialmente na educação, graças ao software e hardware aberto, plataformas e projetos como o Arduino, ou a imensa oferta de eletrônica de baixo custo, que tanto serve para aprender (e no processo treinar os futuros engenheiros)  como dar asas à criatividade tecnológica. Mas sejamos honestos. Apesar do movimento maker, dos fablabs e da tecnologia educativa, é uma imensa minoria aqueles que mexem a fundo com estas tecnologias. Somos muitos, mas uma minoria no panorama geral. Quem, como eu, está metido nestas coisas por vezes esquece-se do efeito de bolha informacional (e cultural), pensando que a acessibilidade deste tipo de projetos chega mais longe do que realmente é.


The two scariest pages from The Scholastic FunFact: Terror biológico

China lleva años construyendo barcos, cazas y bases de EEUU en mitad del desierto. Los satélites han revelado para qué eran realmente: A capacidade de preparação. É de notar que se os chineses quisessem realmente que não se soubesse destas suas manobras, teriam sido mais discretos com estes campos de treino. Assim, enviam uma mensagem muito clara. 

Shell Is Profiting Massively Off the War in Iran: E não é só a Shell. Neste momento não deve haver nenhuma petrolífera que não esteja a festejar lucros recorde. E se se perguntam para que serve esta guerra, a resposta é óbvia: são os investidores em Trump a recolher os dividendos do seu investimento. 

Como coisas: Compreendo esta visão deprimente. Os espaços digitais revelam muito, demasiado, sobre o que realmente vai na alma de muitas das pessoas com que nos cruzamos no dia a dia. Aquilo que nos seus semblantes públicos simpáticos não revelam, jorra em torrentes de ódio online. 

Why does everything feel so joyless?: Em grande parte, porque a abundância é feita do banal e do desinteressante, da repetição de receitas, e de conteúdos culturalmente irrelevantes. 

UEFA Has Message for FIFA President Gianni Infantino: You Gotta Go: Se estão surpreendidos por encontrar aqui um artigo sobre futebol, reparem que o nível de corrupção a que o jogo chegou é tão visível e óbvio, que até aqueles que dela beneficiam estão a abandonar o jogo. 

Putin’s Human Safari Is the Dystopian Future of War: Já estamos a normalizar a visualização dos momentos finais de seres humanos através das câmaras dos drones que os matam. Circulam imensos nas redes, mostrando o medo e a violência dos momentos finais das vidas dos soldados. Se já é agonizante a forma como estes vídeos circulam, é ainda mais desumano ver a falta da mais elementar empatia para com outros seres humanos. Ah, e antes que me esqueça, isto é um crime de guerra. Filmado e partilhado para a posteridade. 

 Senators demand crackdown on wildfire "prediction market" bets: Fica difícil manter a fé na humanidade, quando se percebe que não só a tragédia dos fogos florestais é tópico para apostas, como há quem faça disso um modelo de negócio. 

High Heat, High Drama: Há uma esperança com a vaga catastrófica de fogos que estamos a viver. Não só na Europa, também na América do Norte e Índia. É que as consequências do aquecimento global são demasiado evidentes, e os políticos terão mesmo de abandonar a sua sicofância perante os interesses económicos, perante uma crescente pressão pública. 

El fondo de inversiones estadounidense Apollo Global Management compra easyJet: Ou seja, adeus EasyJet? É que este tipo de fundos de investimento é conhecido pelo seu comportamento predatório. O seu modelo de negócio não é sustentar empresas e lucrar a longo prazo, mas sim comprar empresas lucrativas para as desmembrar e vender todos os seus ativos, para lucro rápido. 

Zuckerberg’s yacht was closer, but someone else saved a stranded boat: E isto, se estiverem atentos, é a melhor metáfora da bondade dos bilionários que se pode pensar. 

Uno de los exnarcos más famosos de Galicia quiere montar una ruta del narcotráfico para turistas. La Xunta le ha dicho 'no tan rápido': Fiquemos só pelo gosto duvidoso de querer privar de perto com um antigo narcotraficante. Bem, a minha vida já me ensinou que as pessoas tendencialmente surpreendem pela negativa, por isso, está tudo alinhado. 

The Color Recession May Be Permanent: De facto, estamos a perder a cor no dia a dia. Cada vez mais as escolhas se ficam em variantes do branco, cinzento ou preto. Uma uniformização em que o gosto capitalista por uma paleta comedida acaba por replicar aquela estética maoísta em que todos vestimos o mesmo tipo de roupa. 

India pursues FCAS fighter jet program collaboration with France following Germany's exit: A colaboração franco-indiana em termos de aeronáutica já tem várias décadas, mas no caso do FCAS, esperemos, para bem dos franceses, que a indústria indiana seja mais célere do que o que tem mostrado ser no desenvolvimento dos seus próprios programas. A HAL é notoriamente lenta a ir do protótipo ao produto final. 

The Human-Origin Story Is Being Radically Revised: O nosso passado mais profundo ainda se mostra cheio de mistérios. 

Zuckerberg’s Manifesto About the Glorious Freedoms AI Will Bring Was Completely Contradicted by His Own CTO During a Company Meeting: É cada vez mais discutível se os novos barões da tecnologia vivem na mesma realidade do que nós, dada a irrealidade e desumanismo das suas visões de utopia digital. Já os seus sequazes não hesitam em mostrar o real caminho - se a tecnologia e a IA nos libertam tempo, trabalhando por nós, o que há a fazer é... trabalhar mais. Afinal, os super-iates do patrão não se pagam sozinhos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Classical World: An Epic History of Greece and Rome


Robin Fox (2006). Classical World: An Epic History of Greece and Rome. Londres: Penguin.

Uma leitura longa, mas absolutamente brilhante. É um enorme arco de erudição histórica, que nos leva dos primeiros passos do que viria a ser a civilização grega ao reinado do imperador Adriano. O panorama é vasto. Acompanhamos a civilização Minóica e a história complexa das cidades-estado gregas. O vasto império de Alexandre e a sua posterior desagregação, e, claro, a jornada de uma aldeia do Lácio até se tornar a capital de um império que marcou a Europa de forma indelével. 

Esta viagem não se faz apenas através de factos históricos. Há uma imensa atenção dada à arte e à cultura, recordando o porquê das nossas raízes culturais partirem da antiguidade clássica. Da expansão pelo comércio dos antecessores da Grécia antiga, as ideias de liberdade, democracia e procura do conhecimento legadas pela época de ouro ateniense, a necessidade de ver mais além do horizonte da geografia alexandrina, os modos e costumes romanos, que se entranharam até aos dias de hoje. Note-se que a análise é crítica, é um olhar profundo sobre a vertente cultural da antiguidade, e não uma adulação cega dos seus aspetos mais superficiais como demasiadas vezes se vê por aí quando se evoca a nostalgias por estes tempos de alva brancura marmórea. Muitos dos comportamentos e modos culturais daquelas épocas são-nos hoje repelentes, desde a violência dos espetáculos dos circos à forma como a mulher era tratada em todas estas civilizações, sem esquecer o omnipresente esclavagismo ou a violência política.

A história também se faz de pessoas, e o livro fala-nos das personagens marcantes da antiguidade. Filósofos, políticos, reis e imperadores são retratados, mas o livro também tenta mostrar algo mais difícil, a vida das pessoas comuns. Se dos feitos dos grandes restam registos, mesmo que fragmentados, a percepção de como viviam os que não eram ricos e poderosos constrói-se através do imenso puzzle dos vestígios arqueológicos.

Livro profundo, mostra-nos a complexidade da antiguidade clássica, de forma crítica e abrangente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Em Mármore

 


















Registos da escultura renascentista (e romana) florentina, entre a Piazza della Signoria, Loggia dei Lanzi, Bargello, Uffizi, Accademia, Palazzo Medici, Santa Croce e Santa Maria del Fiore.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Castelos em África


Elaine Sanceau (1961). Castelos em África. Porto: Livraria Civilização.

Há um certo divertimento na leitura destes antigos livros de história popular. Em parte pelo simplismo da sua mundivisão. Não há nuances, análise cuidada das várias vertentes de uma questão, ou uma preocupação de cuidada análise social. É história como aventura, focada apenas nas façanhas dos protagonistas, tendo subjacente uma visão binária que nos coloca a nós, protagonistas, como homens superiores cuja missão é a de subjugar os povos inferiores e descrentes. Os valorosos cavaleiros da cristandade, que vinham ao norte de África tentar o impossível, vencer as hordes de pérfidos infiéis de viciosa cultura.

Felizmente, a nossa visão da história evoluiu.

O livro olha para a epopeia portuguesa em Marrocos, iniciada com a conquista de Ceuta em 1415 (o momento em que se pode começar a história do colonialismo moderno), e finalizada com o desastre de Alcácer Quibir. O tom do livro é aventureiro, salientando a visão de uma gesta cavalheiresca que se traduzia na conquista de praças costeiras onde os nobres das nações se vinham armar cavaleiros. Não só os portugueses, como o livro nos conta. Uma visão heroica de conquista,  embora com pouca utilidade real, já que era impossível a captura de terrenos interiores e se vivia numa situação de guerra permanente, sustentada a custo pela coroa e pela pilhagem dos recursos locais. 

Num aparte curioso, este livro não esquece o papel das mulheres, embora sempre subordinadas aos homens. Primeiro, como fieis esposas e muitas vezes combatentes nos acometimentos às fortalezas, mas também como moeda de troca sexual, com cativas de lado a lado a serem casadas com os cavaleiros e soldados  (após conversão, claro, que naqueles tempos era o que se fazia) ou internadas nos haréns dos senhores árabes. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Motelx 2026 (II)

Com jeitinho, fazendo o esforço legítimo de ignorar quaisquer pedidos laborais que implicassem com o tempo livre, lá consegui um segundo fim de semana de Motelx. Passar a ser vilão na narrativa pessoal de outras pessoas é um preço muito apropriado a pagar para desfrutar de um festival de filmes de terror. Tive o bónus de me cruzar com a gente boa que só consigo encontrar nestes eventos. É sempre bom rever o übergeek Paulo Morgado e a mestra (em bom rigor, doutora :) ) do cosplay e cultura japonesa que é a Leo Pinela.

The Fall of the House of Usher, Roger Corman.

Tenho de me explicar. Num festival recheado de novidades, ante-estreias, filmes inesperados e obras independentes, escolho ir ver um filme antigo? Claro, não por desdém ao restante cartaz, mas porque são raras as oportunidades de ver estes filmes em cinema. Sim, eu sei que existe uma invenção recente chamada "internet" que nos permite ver estes filmes online de formas mais ou menos legais, e provavelmente também estão disponíveis em serviços de streaming. Devo confessar que sou cada vez mais avesso ao conforto do cinema em casa, mal vejo televisão e o ecrã do portátil não me seduz. Filmes, os bons filmes, é no cinema.

A série de filmes vagamente inspirada nos contos macabros de Edgar Allan Poe realizados por Roger Corman é, com muita justiça, um dos grandes momentos do cinema de terror do século XX. Sabemos que eram filmes feitos um pouco a metro por um realizador especialista nos baixos orçamentos e artimanhas para esmifrar ao máximo os trocos aos espetadores, e, no entanto, são sublimes pela sua estética e ambiência. A estética tornou-se sinónimo do que hoje consideramos o gótico cinematográfico, com vénias barrocas ao século XIX (Masque of the Red Death é nisso um portento) e o overacting explosivo dos atores. O que segura estes filmes é a capacidade inimitável de Vincent Price para puxar o exagero ao máximo sem cair no absurdo. Em cena, obriga o olhar a convergir para ele, entre a sua altura e os tiques de atuação. A adaptação do conto clássico de Poe é algo livre, mas mantém a essência, e puxa ao lado mórbido e macabro de uma história sobre obsessões e manias mentais levadas ao extremo. 

The Glorious Dead, the Adams Family.

Saí deste filme sem saber muito bem o que pensar dele. Não me agarrou por aí além durante a visualização, mas tem um forte lado quirky que me seduziu. A história é simples - a xerife de uma cidadezinha do profundo hinterland norte-americano descobre-se num dia em que tudo funciona de forma inesperada. Não há eletricidade, pessoas desaparecem misteriosamente, os mortos regressam à vida (mas catatónicos, isto não é um banal filme de zombies), todos os animais desaparecem menos os corvos, há criaturas disformes vestidas de fatos de pele humana que devoram vivos que mesmo mortos continuam vivos, e volta e meia abrem-se buracos de carne no chão. Pior que tudo, sem eletricidade não há máquinas de café a funcionar. É ao mesmo tempo uma história simples e linear, mas surreal e bizarra, com um humor muito fino. Quase um cruzamento entre Night of the Living Dead com Left Behind (não sei se se recordam da série de maus romances e pior filme onde os evangélicos exploravam o seu mito do arrebatamento, com um mundo pós-apocalipse a funcionar depois das pessoas de alma pura terem sido salvas por deus?). Nunca percebemos muito bem o que realmente se passou, mas o filme inclina-se muito para os mitos do cristianismo radical, do fim dos tempos, em que as almas puras ascendem aos céus e todos os que deus não considera dignos de salvação (o que na mente daqueles retrógrados é praticamente toda a gente) fica presa numa Terra condenada ao inferno. O filme mantém isso em pano de fundo, embora sem perder tempo com aprofundamentos. A história real é a do desconcerto de uma mulher que tem de manter alguma ordem quando tudo se torna desordenado.


Masterclass Julie Corman

Terminei sábado com a ouvir a companheira de Roger Corman a partilhar as suas experiências. A conversa não andou à volta do realizador e produtor, mas sim da carreira dela, que apesar de interconectada com a do marido é de uma longa experiência como produtora, realizadora e professora universitária. Partilhou conosco as suas experiências, e saí da sessão a pensar como, por vezes, o cinema de série B, feito a metro e baixo custo, é uma das melhores escolas para talentos. Das produções de Corman saíram muitos dos grandes cineastas americanos do final do século XX, não só realizadores como actores, diretores de fotografia e técnicos. Dezenas de oscarizados têm como ponto comum no currículo o ter trabalhado em filmes de Corman. 



A Bucket of Blood, Roger Corman

Mantendo a tradição de ir a um festival e ver filmes antigos em vez de novidades, não podia perder este Bucket Of Blood. Sendo um filme Corman de série B, o título é sugestivo em enorme grau, mas não há jorros torrenciais de hemoglobina. Título schlock, para atrair espectadores para o que é essencialmente uma comédia muito, muito negra. 

O filme goza que se farta com os beatniks, antecessores dos hippies e, com o seu forte pretensiosismo, similares aos hipsters do princípio do século XXI (ou aos correntes homens e mulheres performativos). Acompanhamos um rapaz algo inocente e lento de ideias que gostaria de ser artista. Trabalha num café beat, e é desconsiderado pelos clientes e patrão. Irá conseguir entrar no mundo das artes, graças às suas esculturas hiperrealistas, que na verdade são uma evidência de uma progressão de serial killer. Delirante, negro e com uma banda sonora deliciosa. 



American Dollhouse, John Valley

Terminei a minha visita ao festival com este filme. A forma mais simpática de o qualificar é dizer que tem alguns momentos divertidos. É um slasher, que cruza uma jovem que enfrenta traumas de infância ao ir viver na casa que herdou da mãe falecida, e uma vizinha doida varrida, que apenas quer viver um natal em família. Mesmo que isso implique raptar pessoas para as vestir de fato de cão, ter alguns cadáveres em decomposição à volta da árvore de natal, e confundir a nova vizinha com a mãe, que se suicidou explodindo a casa, matando toda a família menos a na altura jovem criança, que passa o resto da vida com terríveis marcas no corpo e uma psicopatologia violenta de que ninguém desconfia.

Pois, acabei de fazer parecer o filme mais interessante do que é.

Sandy, a slasher, merece um lugar no panteão dos assassinos de facalhão. A atriz que lhe dá corpo claramente divertiu-se a evocar os clássicos, num overacting claramente intencional e eficaz. O problema é que todo o filme não nos mergulha nas personagens, tenta um crescendo de tensão que falha por completo. E o final, é apenas pateta. 

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Para o ano há mais, espero. Já fiquei contente por este ano ter conseguido frequentar mais assiduamente as sessões deste ano. Foi, também, uma boa surpresa ter-me encontrado com um colega da minha escola. Nos mais de vinte anos que levo dela, nunca jamais tive ou conheci alguém que frequentasse este tipo de eventos (não é que os professores seja na generalidade incultos, apenas, são consumidores inveterados do tedioso mainstream cultural).

domingo, 13 de setembro de 2026

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This is originally from the February 1985 cover of Byte magazine: Informação é informação, quer seja em bits quer em adn. 

The Fear of Missing The Odyssey: É um truque comercial óbvio, o criar uma aura de exclusividade no produto. No caso do mais recente filme de Nolan, isso é conseguido através do formato de imagem - quem visionar o filme num ecrã normal não irá conseguir ver toda a cena.

The Fear of Black Greeks: Começo a pensar que a escolha de uma atriz negra para encarnar a lendária Helena foi uma jogada magistral de marketing. Deixou os trolls e patetas facho-conservadores a zurrar, e conhecem aquele velho adágio, não importa que falem bem ou mal de nós, importa é que falem. Do que conheço sobre a antiguidade clássica, discutir cor de pele e pureza étnica é ridículo, o mundo do passado era mais melting pot do que a visão conservadora de hoje imagina. Em parte, a brancura do passado greco-romano é obra da erosão, quando no renascimento a estatuária clássica foi redescoberta nas ruínas de Roma, desprovida dos pigmentos multicolores que a cobriam originalmente. Vem daí (grosso modo, claro) a ideia de alva brancura na perfeição das representações do corpo inspiradas pela visão classicista. Para lá desta questão de interpretação que hoje se ramificou em vertentes de puro racismo, há outra nota - reparem que os gregos antigos foram povos mediterrânicos, entrecruzando-se com fenícios, assírios, egípcios. Estão a perceber o quão absurda é a visão das deusas gregas louraças de alva pele que tem sido tão inspiradora para muitos que, com total ignorância, reclamam ser portadores do estandarte da perfeição das ideias clássicas? 

‘Everything I know about evil I learned in that small town’: John Carpenter on terrifying the world with Halloween, The Thing and The Fog: É curioso ver como este realizador parece tão alheado da influência profunda com que marcou a cultura pop, com o seu legado de filmes incómodos e perturbadores, disfarçados de terror elementar mas a obrigar a pensar nos males sociais que nos atormentam. 

O caminho mais longo: Vou lendo, e a curiosidade aguça-se (à data em que escrevo ainda não vi este filme). E acima de tudo, recordar que esta obra é uma interpretação de um poema épico milenar, ele próprio um condensar de uma longa tradição. 

Clara’s Private Corpse: Múmias, criaturas de Frankenstein e belas vítimas? 

Man Sues OpenAI, Saying ChatGPT Almost Killed Him With Horrendously Dangerous Medical Advice: Não há lado certo nestas notícias. Por um lado, sabemos que os criadores de chatbots de IA não colocam salvaguardas a produtos que funcionam a dar razão aos seus utilizadores. Por outro, há a ingenuidade excessiva (ou talvez estupidez, sendo menos simpático), dos utilizadores que acreditam cegamente naquilo que um sistema digital lhes diz. E esse problema, já Weinzenbau o tinha detetado com o ELIZA, o avô de todos os chatbots.

The Computer That Helped Win World War II: É um mito pensar que Turing fez tudo sozinho em Bletchley Park (se virem o filme biopic, é a sensação com que ficam). Este artigo mostra como o Colossus foi um trabalho de equipa, entre os criptógrafos e os engenheiros elétricos.

What made me finally switch to Vivaldi as my default Linux web browser: Larguei o chrome no meu PC, e tenho andado a usar este navegador. Apesar de não ser perfeito, corre muito bem e tem benesses como menor rastreamento de dados, ou bloqueio automático de publicidade. 

Computer Science Enrollment Now Declining Under Dark Cloud of AI: Não é que a IA implique que vai deixar de ser necessário saber programar, bem pelo contrário. É que qualquer pessoa com dois dedos de testa já percebeu que o patronato quer usar a IA para se livrar a todo o custo dos custos com essa coisa fedorenta que é a força laboral, mesmo que isso implique vender piores produtos e serviços. Já todos percebemos isso. O que significa que a ideia transacional de adquirir uma certificação ou tirar um curso com vista a acesso rápido a empregos específicos se esfumou. Notem, não é a tecnologia. É a ganância dos que a usam para enriquecer à custa de todos nós. 

Why Would Meta Download So Much Porn?: Só há uma explicação lógica, obviamente, a gratificação dos incels que lá trabalham. A empresa quer ver felizes os seus funcionários. Não terá sido, certamente, para treinar modelos de IA, eles jamais fariam isso. 

España quiere tener su propia IA "soberana". El primer paso se llama Sherpa.ai, y el Estado ya es acionista: Aqui ao lado, não há lançamentos pomposos de ferramentas promissoras mas criadas com investimentos muito baixos. Há uma estratégia de apoio à IA soberana, que passa pelo estímulo ao seu desenvolvimento. 

Siempre hemos temido al robot autoconsciente: hay argumentos técnicos y filosóficos para dotarles de "razón": A importância de simular consciência na interação com robots. 

Sketching the new dysto-utopian world with massive presence of artificial intelligence: Há menos tempo do que nos é confortável admitir, este tipo de cenários seria recebido como uma visão especulativa distópica impossível. Nos dias que correm, sente-se que já é a realidade em que estamos a viver, com uma plutocracia restrita a sugar a riqueza produzida, enquanto uma crescente multidão se vê cada vez mais empobrecida. As classes médias, que sustentaram as democracias liberais do século XX, estão em clara regressão. Podemos mudar este resvalar, mas as classes políticas das sociedades democráticas estão claramente rendidas e vendidas aos bilionários. 

This AI Browser Is Building the Front End for the Dead Internet: Sim, mas para IAs, será que vale a pena falar de informação em rede? 

"Temperatura" y "longitud de respuesta": dos parámetros muy poco conocidos que lo cambian todo con la IA: Uma forma rápida de esclarecer dois conceitos essenciais para interagir com IA - temperaura, o maior ou menor afastamento das probabilidades de base da resposta; e o âmbito, que limita a resposta dada ao contexto que queremos. 

The AI Industry Has Acted So Badly That It’s Now Dealing With a Huge Wave of Hatred: O quê, a sério que achavam que bombardear-nos com pronunciamentos sobre a obsolescência dos trabalhadores ia causar boa impressão? 

 Automation Led to Economic Misery. AI Doesn’t Have To: Mas vai seguir esse caminho. Os que tutelam as instituições democráticas estão rendidos aos bilionários e ao neoliberalismo canibal. Podemos travar o caminho perigoso que a IA é uma excelente desculpa para trilhar, mas não o faremos, apesar de todos os avisos e da cada vez mais óbvia revolta de quem já percebeu que as enormes promessas trazidas por esta tecnologia foram corrompidas pela ganância de uns poucos.

machetelanding: Utopia ou distopia. 

Tonga and the Business of Real Estate in Outer Space: Quando a ciência se cruza com a economia, a geografia ganha novos espaços. 

Llevamos décadas deseando extraer la energía infinita del océano sin mucho éxito. Una empresa sueca está cerca de cambiarlo: Daquelas notícias que não se lêem nos media nacionais, mas é interessante saber que Portugal é um dos pólos de desenvolvimento deste projeto de energias renováveis. 

The Horrible Rise of the Makeout Police: Antigamente, chamávamos a isto o meter o bedelho onde não se é chamado. Hoje, é uma prática normalizada, transformando os locais públicos em arenas onde comportamentos perfeitamente normais são registados para partilha e dissecação online, para gáudio da legião de frustrados que não tendo melhor na vida, se delicia a apontar dedos acusadores às vidas alheias. Pior, isto traz um silenciamento dos espaços públicos: "Even if the chances are slim that you’d show up in a viral video, the possibility can be chilling".

Beyond Greece and Rome: Sempre focámos o olhar numa antiguidade clássica centrada no mediterrâneo - Egipto, Grécia e Roma, mas o mundo antigo era bem mais vasto e, hoje sabemo-lo, interconectado.

Es uno de los libros más enigmáticos del mundo y lo hizo un esquizofrénico que nunca salió del manicômio: O poder estético da arte bruta. 

UK Army selects battle-tested Tekever drone to replace Watchkeeper: Uma notícia interessante, que dá destaque a uma das mais dinâmicas empresas portuguesas na área da defesa. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Atrahasis


David Soares, Sónia Oliveira (2025). Atrahasis. Lisboa: Kingpin Books.

Nem me atrevo a procurar uma análise desta mais recente proposta de David Soares, excelentemente ilustrada por Sónia Oliveira. Como é habitual nos seus livros, a história é críptica, com múltiplas camadas de sentido. Somos levados à antiga mesopotâmia (como o título indica, e uma história que recria em linhas gerais as raízes do mito sumério que nos legou o mito cristão de Noé), mas não esperem um périplo histórico limpo. Antes, é um mergulho negro em mitos que nos escapam, sensibilidades e modos de pensamento que não compreendemos, e uma visão do tempo que não corresponde à nossa linearidade. Entre os muitos elementos brilhantes deste livro, está a percepção que ao tentar entrar na mente dos nossos antepassados longínquos, somos confrontados com a natureza quase alienígena, para nós, dos seus modos de ver e entender o mundo. Um livro que desafia o simplismo conceptual, como é habitual na obra deste autor.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Nó Cego


Carlos Vale Ferraz (2008). Nó Cego. Lisboa: Casa das Letras.

A Guerra Colonial não é um tema que a sociedade portuguesa consiga discutir. Há demasiadas memórias vivas, demasiados ânimos que se exaltam quando sequer se levanta a palavra sobre esses tempos. Ainda há quem se arreigue ao mito do ultramar, do país do minho a timor. Outros focam-se no lado de guerras de libertação. O próprio termo usado para designar esta guerra é contencioso e abre espaço a discussões acintosas. Pessoalmente, prefiro o termo colonial, porque de facto o foi - um último estertor de um regime que não foi capaz de ler o espírito dos tempos, arreigado a mitos e mantendo uma guerra insustentável, com enormes custos humanos e materiais, deixando feridas que ainda hoje não sanaram. Uma guerra que, como todos os conflitos, não foi preto no branco, teve matizes muito incómodos, e foi no fundo um enorme desperdício de vidas, de recursos de um país pobre, e de tempo. 

Talvez uma das razões que leve ao afastamento da discussão sobre estes tempos da esfera pública seja mesmo uma sensação de incomodidade. Num país que projeta a imagem de moderno e acolhedor, plenamente integrado na Europa, paraíso para turistas e fazedor de unicórnios financeiros (e a pagar o preço dos baixos salários, rendas elevadas, custo de vida incomportável e uma legislatura corrente que está apostada em destruir os parcos serviços sociais que nos restam), é incómodo recordar que há não tanto tempo como isso estávamos a meter a ferro e fogo territórios africanos, combatendo uma guerra suja, contando como aliados os racistas sul-africanos e rodesianos. É uma mancha que fica mal na foto do Portugal do século XXI.

Ideias em que se fica a pensar, ao terminar a leitura deste espantoso livro. O autor, pseudónimo literário de um militar que tendo servido nos Comandos em África e participado nalgumas operações violentas, sabe o que está a romancear. A história é ficcional, mas anda desconfortavelmente próxima de algumas aventuras militares dos teatros de guerra colonial. E não é preciso ter um conhecimento muito profundo para perceber quem é caricaturado pela figura do general K, amante de grandes operações militares em modo custe o que custar.

Esta leitura não é confortável. Acompanhamos o dia a dia de uma companhia de comandos, homens que pelas mais diversas razões (na maior parte das vezes, por desespero numa vida agrilhoada na ditadura) se voluntariaram para um corpo especial preparado para as missões mais violentas. E violência não falta nas suas operações, entre as patrulhas, emboscadas e ataques a bases inimigas em que são envolvidos, como ponta de lança.

Não esperem um livro de aventura empolgante. As histórias que o compõem não são elogios ao espirito de aventura militar, heroísmos icónicos e combates valorosos. Pelo contrário. Mergulham-nos numa violência desconfortável, retratando a queda no abismo daqueles soldados. Nenhum sairá inocente da guerra, nem incólume. Os que não morrem na mata ou são feridos nas operações, levam consigo o peso da violência em que se viram envolvidos. Quer a que sofreram, quer a que infligiram nos guerrilheiros e populações civis. Por detrás de tudo, a sensação de fatalidade de viver uma guerra inútil, de arriscar a vida e matar para cumprir as vontades de oficiais e governo cuja visão da realidade não corresponde ao espírito do tempo.

O romance é brilhante e explosivo. Ao mesmo tempo um retrato da guerra colonial feito através das experiências dos soldados que nela combateram, suspeito que memória romanceada das experiências do seu autor, e uma reflexão sobre como a capa da civilização depressa desaparece na selva com uma arma na mão.