domingo, 25 de julho de 2021

URL

Esta semana, destacamos a arte de Alexei Leonov, novas leituras em banda desenhada de Joana Mosi e Hideshi Hino, e os autores e obras nomeadas para os prémios Eisner. Fala-se da relação entre inteligência artificial e crianças, da educação Maker e e da visão crítica sobre aprendizagem de programação. Ainda olhamos para a estética dos anos 80, esquemas de financiamento e as cidades italianas, como nunca as veremos. Outras leituras vos aguardam, nas Capturas da semana.

Ficção Científica e Cultura Pop


Chris Foss, ‘The Great Gun of Lammos’: Futuros em ruínas.

Arte Cósmica de Alexei Leonov: O Sci-Fi tropical redescobre a criatividade de Alexei Leonov, o cosmonauta russo que também era pintor.

​HERÓIS INESQUECÍVEIS (75) - ​MAJOR ALVEGA: Por cá, o lado inesquecível tem mais a ver com a propaganda estado-novista, que transformou um personagem britânico num português, alterando-lhe o nome. Naquela altura, ninguém se importava muito com quem realmente escrevia e desenhava estas histórias, consideradas entretenimento infantil.

Raiders of the Lost Ark turns 40 and it’s still an unqualified masterpiece: É, de facto, um daqueles filmes marcantes, à altura um refrescante regresso nostálgico às aventuras pulp.

retroscifiart: The Three Island Space Colony: Pediram um O'Neill?

My Best Friend Lara, de Joana Mosi: Um novo trabalho desta sempre interessante ilustradora, disponível em edição de autor.

Panorama do Inferno, a primeira novidade da Sendai Editora: Duas excelentes notícias, haver mais uma editora a investir na edição de mangá (faz sentido, o fandom está a crescer e com isso gera-se mercado); e serem editados por cá autores mais fora do lado mais comercial do género. Agora, estarão os leitores portugueses preparados para as alucinações visuais de Hino?

Edgar Allan Poe’s Other Obsession: É reconhecido como mestre do terror e suspense, mas uma leitura da sua obra revela uma outra vertente, que fica esquecida ao pé do lado mais negro dos contos de Poe. O escritor era também um enorme promotor do conhecimento científico, lutador contra superstições e vendas de banha de cobra, muitas das suas histórias refletem isso.

Richard Bizley: Outros mundos.

Tibetan Demon Paintings, 19th Century: Demónios do topo do mundo.

Enchendo a Cara com Edgar Allan Poe...: De facto, Poe tem esse encanto, o de ser ter em si mesmo tornado um personagem de ficção fantástica.

And Your 2021 Eisner Nominations Are...: Já estão nomeados os candidatos ao Prémio Eisner de 2021, que distingue o melhor que se faz nos comics. Do que conheço, estou a torcer por The Department of Truth, by James Tynion IV and Martin Simmonds na categoria melhor série contínua (provavelmente irá ganhar Gideon Falls, que está na moda, começou por ser interessante mas já se arrastou para o tédio); Strange Adventures em série de duração limitada; e Department of Mind-Blowing Theories, by Tom Gauld, na categoria Humor.

Tecnologia


Writing the History of the Future: O centro de artes e media de Karlsruhe organizou uma exposição com o seu enorme acervo de peças de arte digital e media art. Daquelas que não me importava de ver aqui por Lisboa, talvez no MAAT... mas como dificilmente cá chegará, até porque é uma retrospetiva da coleção de um museu, fica-nos o catálogo e uma galeria virtual 360º que nos permite visitar virtualmente a exposição. Infelizmente, os conteúdos estão em alemão.

Roblox hit with $200 million lawsuit for alleged music copyright infringement: É de sublinhar que a Roblox é massivamente usada por crianças, que enquanto jogam vão ouvindo e partilhando a música que gostam. Ou seja, dificilmente será uma plataforma que esteja a incentivar ao streaming ilegal de forma intencional, isto decorre mais como consequência do comportamento dos seus utilizadores. Claro, a indústria musical é rápida a farejar novas fontes de lucro, daí esta medida. Diga-se que a própria Roblox (para quem não está dentro do mundo dos jogos de criação para crianças, é o novo Minecraft, os miúdos criam e partilham os seus próprios jogos e mundos virtuais) já deveria estar à espera que isto acontecesse.

Between Golem And God: The Future Of AI: Por entre todo o entusiasmo com esta tecnologia, poucas vozes publicamente referem o óbvio. A AGI é um sonho provavelmente inatingível, e as ferramentas de inteligência artificial de que dispomos, hoje, são poderosas em contextos muito específicos, mas não são verdadeiramente inteligentes, são é rápidas a processar vastas quantidades de dados, determinar padrões e gerar resultados específicos. Claro, esta curta definição é em si uma imensidão de aplicações, mas é importante desmontar a ilusão da inteligência em todo o hype que rodeia a inteligência artificial.

Markpainting: Adversarial Machine Learning meets Inpainting: Uma técnica de deteção de manipulação digital de imagens, usando inteligência artificial.

When AI becomes child’s play: É um tema complexo. Hoje, as crianças crescem a interagir com ferramentas de inteligência artificial, cada vez mais em idades muito precoces. Que efeitos terá esta interação a longo prazo? E que preocupações, nomeadamente em termos de recolha de dados, traz? É também curioso ver o emergir de uma nova forma de interação entre crianças e tecnologia, sem uso de ecrãs: aplicações de narrativa interativa, usando interfaces orais de inteligência artificial.

34 years of HyperCard, the missing link to the Web: O avô do multimédia digital, a primeira ferramenta qe deu aos utilizadores comuns a capacidade de criar em meios digitais, cruzando o tipo de tecnologia que se tornou comum em software de apresentação com programação interativa.

"Les habla el piloto automático": esta startup financiada por Google tiene una flota de 55 aviones autónomos y quiere que viajemos con ellos: Confesso que o que me surpreende na notícia é a dimensão da frota, 55 aeronaves transformadas para voo autónomo é talvez o projeto mais ambicioso que conheço neste campo.

These creepy fake humans herald a new age in AI: Bem, algoritmos a gerar imagens realistas de pessoas que não existem já é uma tecnologia bem explorada, comercialmente. Fiquei mais surpreendido com o conceito de dados sintéticos, dados falsos que simulam dados reais, usados para situações em que a privacidade de dados é essencial.

The Cost of Cloud, a Trillion Dollar Paradox: O armazenamento na nuvem é visto como uma vantagem, que permite poupança de custos. Para quê investir em servidores e infraestrutura, quando se pode passar essa chatice para um serviço remoto? O paradoxo tem a ver com escala: a partir de um determinado ponto no crescimento de uma empresa, torna-se mais barato regressar a um parque de dados tradicional do que usar servidores remotos.

What You Should Know About Voilá, the Latest Viral Selfie App: Comecemos por não ser nada de extraordinário, apenas mais uma app que aplica algoritmos de transferência de estilos. E, com isso, acede aos nossos dados (é aí que está o lucro) e ainda, para quem a quiser pagar, tem um estranho modelo de subscrição.

Hacking The Lidl Home Gateway: Duas notas: sim, o Lidl é um amigo dos makers, há por lá sempre algum material ferramental ou eletrónico low cost útil para projetos; e como é low cost, se o tentarmos hackear como mostra este artigo, tudo falhar e ficarmos com um pisa-papéis, bem, não ficamos com dor de carteira.

2021/06/10 Developing Morphogenic Electrochemical Interfaces: Vale a pena prestar atenção aos projetos que a DARPA lança. Desta vez, uma call para desenvolvimento de materiais eletroquímicos que usem características morfogênicas para melhor o desempenho de camadas anti-corrosão ou componentes de baterias.

Let Me Try It!: O que é que é isto de educação maker, o que é que a cultura do DIY pode trazer como mais valia ao ensino e aprendizagem, quais as suas bases conceptuais? Este curto mas incisivo livro mostra-nos o porquê destas ideias, especialmente perceber que hoje, uma educação meramente baseada na memorização de factos com testagens não é o suficiente para o desenvolvimento do potencial das pessoas (nunca foi), precisamos de capacitação, processos e fluxos. E, para isso, as abordagens maker, com o seu foco no tentar, aprender fazendo, arriscar, descobrir e ser resiliente são um excelente recurso.

Las mejores aplicaciones y herramientas gratis para Windows 10 en 2021: De editores de vídeo a tradutores automáticos possibilitados por inteligência artificial, uma lista de dez excelente apps para windows.

You Can’t Escape the Attention Economy: Nos ecossistemas digitais, até os mais inócuos conteúdos são isso mesmo - conteúdos monetizáveis pelas plataformas. Muito longe vão os tempos da web aberta e DIY, onde partilhar ideias e não enriquecer era o lema.

‘Ghost Fleet’ of autonomous ships added to San Diego’s state-of-the-art Navy squadron: Embora ainda se esteja distante de um tempo em que navios autónomos de combate patrulhem os oceanos, é de sublinhar que os testes, protótipos e exercícios de integração destas tecnologias sucedem-se.

Vast Strands In the Cosmic Web That Connects the Universe Are Spinning, Scientists Find: Um universo em movimento perpétuo, dos seus elementos mais elementares às super-estruturas que aglomeram galáxias.

What Happens When You Open a Website in Your Browser?: É só um clique, mas a partir dele vemos a estrutura elementar da internet. E todo este complexo processo se processa milhares de vezes por segundo.

IRL is a new social network taking on Facebook groups: Mais uma rede social? Vamos ver no que dá. Geralmente, os candidatos a novo facebook dividem-se em duas categorias: nichos muito específicos, tipo os atrasados mentais no Parler ou os cyber anarquistas no Mastodon; ou os projetos que morrem por falta de utilizadores. Creio que esta se enquadrará mais na segunda.

Coding is not ‘fun’, it’s technically and ethically complex: Que atrevimento, ir contra aquilo que os gurus e apaixonados da programação na educação andam a dizer: "In an ever-more intricate and connected world, where software plays a larger and larger role in everyday life, it’s irresponsible to speak of coding as a lightweight activity. Software is not simply lines of code, nor is it blandly technical. In just a few years, understanding programming will be an indispensable part of active citizenship". Bem, nem por isso, o artigo levanta questões muito pertinentes sobre ética, disciplina e complexidade. É por estas ideias estarem arredadas dos discursos oficiais sobre a aprendizagem de programação e robótica desde cedo (por cá, até com direito a proclamações de secretários de estado no parlamento, o que me levou a dedicar uma liminar sessão de programação e robótica numa formação, só naquela), que visões como esta são necessárias. Contrariam o discurso superficial. Cá por mim, como alguém que não tem bases técnicas de origem, mas esforço-me por adquiri-las , o discurso "aprender a programar é divertido" faz tanto sentido como dizer que aprender a pintar com aguarela é divertido: é-o porque descobrimos novas possibilidades e capacidades, mas não é nem fácil nem imediato: "Insisting on the glamour and fun of coding is the wrong way to acquaint kids with computer science. It insults their intelligence and plants the pernicious notion in their heads that you don’t need discipline in order to progress. As anyone with even minimal exposure to making software knows, behind a minute of typing lies an hour of study".

Researchers Can Now Make Moving Videos From Just a Single Photo: Usando aprendizagem automática, este algoritmo consegue gerar animações a partir de uma única imagem.

Lethal Autonomous Weapons Exist; They Must Be Banned: O recente relatório que aponta para a probabilidade de uso de drones com autonomia para matar na Líbia é um sintoma de algo que está a ser ativamente desenvolvido (e, nalguns tipos de munição, antecede o corrente deslumbre por drones e algoritmos). Conseguir-se-á banir o desenvolvimento destas armas? Por um lado, parece duvidoso,mas repare-se que hoje, armas químicas ou minas anti-pessoal são proibidas (apesar de ainda usadas em contextos muito irregulares). 

Sir Tim Berners-Lee is selling the first web browser’s code as an NFT: Provavelmente das últimas pessoas que veria como cheia de vontade de entrar no hype dos NFTs.

Modernidade


The origin of the '80s aesthetic: Uma história do Memphis Group, os designers que estabeleceram as bases conceptuais do design de ruptura da estética dos anos 80.

The Truck Is One Of India’s Great Art Media: Uma forma artística muito ligada a uma tecnologia específica. A pintura sobre camiões é uma forma dos camionistas indianos personalizarem os seus veículos.

On putting sex work on the map: E, por mapa, falamos mesmo de mapas. O Going Medieval mostra-nos os vestígios da prática da mais velha profissão do mundo, na toponímia urbana. Recordar que os nomes de algumas ruelas são tudo menos inocentes.

European Space Agency Lays Out Plans for Next 30 Years of Space Exploration: Como todos os planos da ESA, muito ambiciosos em ciência e desenvolvimento de tecnologia, o que é admirável. Entre outros, a ESA planeia missões para conhecer melhor as características dos exoplanetas, ou estudar as luas do sistema solar. Mas... falta sempre aquele lado excitante, da aventura para lá da ciência.

WiZink, e o conceito de Dívida Eterna: Uma análise brilhante aos esquemas de crédito que, não sendo fraudulentos, se aproveitam da falta de literacia financeira para aprisionar clientes em espirais contínuas de dívida. Sendo rápido: quanto menor a prestação mensal de um crédito, maior a dificuldade em saldar a dívida, uma vez que o valor efetivamente pago cobre juros, e não o abatimento da dívida.

12 marcas de carros portugueses que provavelmente não conhecia: Chamar "marcas" é provavelmente um exagero, muitos destes veículos foram construídos com fins específicos e sem, tanto quanto sei, intenção industrial. É interessante perceber que tivemos capacidade para iniciar uma indústria automóvel, mas que nunca se desenvolveu. Talvez pela pequenez do mercado, e a pobreza endémica do país até ao final do terceiro quartel do século XX?

Las entregas ultrarrápidas innecesarias "en tu casa hasta en 10 minutos" son el último mal de la era del empacho online: Um bom ponto de vista. Necessitamos mesmo de satisfação imediata com os gadgets que compramos online? Especialmente sabendo a pressão que as redes logísticas colocam sobre funcionários precários e mal pagos para isso? O artigo ainda fala de um outro fator, a aleatoriedade da compra em loja, que não só apoia o comércio local como nos leva a descobrir novas coisas (é por isso que eu não sou de confiança em livrarias, sei que nas suas estantes encontrarei sempre algo de interessante, e essa experiência não é replicável online, não posso folhear para perceber se o conteúdo corresponde ao interesse desperto pelo tema).

Sunken cities: Discover real-life 'Atlantis' settlements hidden beneath the waves: Estes vestígios arqueológicos submersos são uma delícia para despertar o imaginário.

Brexit May Cause A Royal Mess With Copyright, Authors Warn: LOL? Mas o que é que esperavam? Estou, no entanto, a achar intrigante a ideia do mercado britânico ser inundado por livros baratos de autores britânicos, mas editados na UE. É basicamente o modelo de negócio dos paperbacks, semi descartáveis, que nos dão acesso a baixo custo aos livros.

Strolling Cities: As cidades italianas, como nunca as viu... nem verá, por muitos passeios que se dê pelas ruas de Milão, Veneza ou Roma. Este projeto de psicogeografia possibilitada por inteligência artificial gerou imagens e vídeos de ruas que nunca existiram. O algoritmo teve como modelo de aprendizagem fotos das principais cidades italianas. O resultado é uma espécie de arquitetura idealizada, e talvez uma forma de sublinhar como realmente vemos as cidades, cada um de nós as interpreta de acordo com o seu ideário.

The Deep Sea Is Filled with Treasure, but It Comes at a Price: As profundezas abissais albergam uma incrível diversidade de vida, desafiante e quase impossível. Mas também uma enorme riqueza em minerais, para cuja exploração já começamos a dispor de tecnologias e esforços económicos.

Top Gun Is an Infomercial for America: Pois, óbvio desde o primeiro ao último fotograma. O que desconhecia é que o realizador do filme tinha feito, anteriormente, um curto anúncio para a SAAB cuja estética convenceu os produtores deste filme a contratá-lo. Apesar de todos os defeitos, banalizações, ideologias bacocas e cenas kitsch, confesso que este filme é um prazer culposo...

Manifesto do Domínio Público: É de enaltecer o papel isento da D3, associação de defesa dos direitos digitais, que por cá é a única a contrariar o discurso institucional de governantes e mundo empresarial.

Cristiano Ronaldo, Coke Stock, and the Increasingly Unmoored Nature of Reality: A rezinguice do jogador da seleção de futebol com a bebida açucarada mostra até que ponto os mercados bolsistas vivem numa realidade própria. E, também, as ironias (ou hipocrisias) de um sistema de marketing que usa a imagem de atletas saudáveis para promover comida e bebida pouco saudável.

Be amazed by these aqueduct/nymphaeum/church frescoes: Os locais mais discretos albergam as maiores surpresas. Adoraria visitar esta igreja que já foi um templo dedicado a ninfas e um aqueduto, com um conjunto notável de frescos proto-medievais.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Tetris


Box Brown (2016). Tetris: The Games People Play. Londres: SelfMadeHero

Uma história sobre o confuso processo de licenciamento do jogo Tetris, que na verdade é um elegante ensaio sobre o fascínio que o jogo exerce sobre nós. O foco do livro está na história da criação daquele que é talvez o jogo mais jogado de sempre, criado por Alexei Pajitnov na Moscovo dos últimos anos do império soviético. Um projeto de instinto, desenvolvido de forma informal para trazer para o digital o fascínio do seu criador pelo ato de jogar, e que se foi disseminando de uma forma que hoje diríamos viral, até chegar ao ocidente. Aí, o mundo dos negócios entrou em cena, e aqui o livro detalha o longo e complexo processo, desde negociatas entre empresas à inabilidade soviética em negociar contratos, algo que os burocratas depressa aprenderam. E, em tudo isto, o criador sem ser recompensado pela sua criação (tal só se tornou possível após a queda da URSS, quando os direitos de autor deixaram de ser pagos aos fundos estatais. 

Mas não é a história das desventuras e jogadas económicas (ou seja, na verdade outro tipo de jogos) à volta do Tetris que fascina neste livro. São as observações muito acutilantes de Brown sobre o impulso do jogar, entre o lúdico e a abstração, a longa história dos entreténs humanos que são de facto complexas simulações, ou desafios lógicos. Ou seja, que o ato de jogar é cognitivamente complexo. E, por isso, essencial para o nosso bem estar e capacitação pessoal.

Outros pormenores que admirei neste livro: o desvio feito à história da Nintendo, aos primeiros anos como empresa especializada em jogos de cartas que, graças à visão dos seus gestores, deu carta branca a um engenheiro para criar jogos eletrónicos. Não, não se trata de Shigeru Myamoto (o livro também falará dele), mas de Gunpei Yoko, que no Japão começou a desenvolver jogos mecânicos e eletrónicos. Particularmente interessante a intuição, hoje com visão retrospetiva fácil de entender, deste engenheiro que ao ver pessoas no comboio a distrair-se com calculadoras percebeu que no futuro, iríamos ter dispositivos eletrónicos de jogo nos nossos bolsos, e daí começar a desenvolver consolas portáteis. Diria que a intuição foi ainda mais longe, hoje não há ninguém que não saia de casa sem um dispositivo eletrónico que faz muito mais do que simples jogos.

Esta banda desenhada, ilustrada num estilo muito pessoal, olha para a história do Tetris, e com isso para a história dos videojogos. Mas o que a torna interessante é a sua visão sobre a psicologia do jogo, a sua importância histórica e cognitiva, bem como a sua relação com a arte. Em suma, aquelas coisas aparentemente fúteis que nos revelam a alma humana.

terça-feira, 20 de julho de 2021

The End of Loneliness

 

Benedict Wells (2018). The End of Loneliness. Spectre.

Da impossibilidade de escapar à solidão, mesmo quando acompanhado. Os personagens deste romance têm como elemento comum um paradoxo: necessidade de ligações humanas, mas uma incapacidade para as estabelecer. Seguem vidas que se intersectam, por vezes com momentos felizes, mas há sempre algo que falha, algo que os impede de viver vidas supostamente normais. 

Este seria um tipo de livro que nunca me passaria pelas mãos, senão como imposição (benigna) de um clube de leitura. De facto, livros sobre emoções humanas têm alguma falta de foguetões e rayguns, em minha opinião. Mas é essa a piada de pertencer a um clube de leitura fora da FC, fantástico e banda desenhada, o sair da bolha informacional e descobrir um pouco do mainstream literário. Lá por ser mainstream não significa que é mau, digo com um empinar geek de nariz.

Diga-se que esta obra de Wells me impressionou. Numa linguagem límpida e escorreita, mergulhamos na história de vida de um homem e sua família, condenados à nostalgia, solidão e dificuldade de formar laços após a sua infância ter sido abalada pela morte dos pais. No entanto, não é uma história triste, embora tocante. Nem feliz, é como a vida, cheia de bons e maus momentos, é o somatório disso que conta. É impossível não ganhar empatia pelos personagens, entristecer ou alegrar-se com as suas desventuras narrativas.

domingo, 18 de julho de 2021

URL

 Esta semana, destacamos lançamentos de Ballard, conversas com autores portugueses de ficção científica, e rever as conotações da obra de Heinlein. Fala-se de arte e inteligência artificial, do mapa 3D do córtex humano, e de impressão 3D subaquática. Ainda se olha para a ligação entre cães e humanos, a história do serial killer parisiense durante a II Guerra, e prazeres culposos em vídeo. Mais leituras vos aguardam, nas Capturas desta semana.

Ficção Científica e Cultura Pop


Orwell: As obras deste autor estão a cair em domínio público e é ver as editoras a desmultiplicar-se em novas edições e adaptações. Nem a biografia do autor escapa. Efeitos secundários da legislação sobre direitos de autor, sublinhando que para cada Orwell que chega ao domínio público, há uma legião de obras orfãs que ficam definitivamente esquecidas.

Pentagrama, de Rodolfo Mariano: Um projeto de BD independente, com uma vertente contracultural.

Starship bloopers: Desta não estava à espera, um desafio à ideia da obra de Heinlein como de raiz fascizante, sublinhando que a ironia do autor é mal interpretada e usada como base para os sonhos húmidos dos amantes de autoritarismos.

Uma das histórias: Da ficção científica que, lamentavelmente, nunca chegou a ser escrita.

Novidade: Olá América – J.G. Ballard: A edição portuguesa de um dos romances clássicos de Ballard, um hino decadente e surrealista à iconografia e significados da ideia de América.

Heroes Reborn #4 Review: The Worst Thus Far: De facto, este mega evento Marvel que recupera personagens que a editora não tem usado, para contar a história de um universo alternativo com personagens Marvel muito diferentes das mais icónicas da editora, não se tem pautado por ser especialmente interessante.

Strange Adventures #10 Review: Let's Make A Deal: Tom King é um dos melhores argumentistas do momento, com um trabalho excelente na DC. Mas as suas mais recentes séries parecem um pouco aquém do que é capaz. Rorschach desvia-se imenso do material base, sem se perceber ainda qual a lógica, e em Strange Adventures está a recriar o mais clássico dos science fiction heroes dos comics. De uma forma perturbadora, bastante morna até ao mais recente capítulo, onde King nos mostra que os heróis mais perfeitos são capazes de compromissos com os seus piores inimigos, para salvar aqueles que gostam. Com genocídios pelo meio, porque estamos a falar de Tom King, cujos argumentos nos falam também sobre as lógicas da geopolítica.

Celebrating Over Four Decades of Old-School Horror from Troma Entertainment!: Recordar a Troma, esse estúdio de produção famoso pela forma como gosta de se exceder no trahs cinema, daquele que é tão mau, tão mau que se torna bom. Hey, faço parte daqueles que consideram Toxic Avenger como uma obra prima do cinema, mais digna de ser vista do que muitos filmes oscarizados.

Rascunhos na Voz Online – Com António Ladeira: Uma conversa com António Ladeira, um discreto mas promissor nome da literatura de ficção científica portuguesa.

Mais infos sobre o filme de Demon Slayer: Uma estreia em cinema de animé, algo muito raro por cá. Se bem que suspeito que se torne cada vez mais disseminado. Os fãs mais novos de fantástico são apaixonados pela cultura pop japonesa, ou seja, há aqui mercado para explorar. Como fã omnívoro que sou, só digo, venham eles, que são excelentes desculpas para ir ao cinema.

Urbanista: os prós e os contras de uma cidade instagramável: Confesso que achei inadvertidamente divertido este artigo sobre a "instagramabilidade" da cidade de Lisboa. Bem, até parece que antes do aparecimento do Instagram, não existia tal coisa como fotografia, nem a cidade era adepta das lentes das reflex ou instantâneas...

A Caçada – Enki Bilal e Pierre Christin: Recordar um dos melhores álbuns de sempre da banda desenhada francesa, embora com uma temática que o devir da história se encarregou de desvanecer das memórias. Há uma certa dissonância cognitiva na recensão, pegando neste clássico face à estética posterior de Bilal. Na verdade, aqui temos de olhar para Bilal como ilustrador, e dar primazia ao trabalho de Christin e à sua leitura sobre os jogos políticos do Leste europeu dos anos 70.

Tecnologia


Re:Humanism. Using AI to question anthropocentrism: Refletir sobre inteligência artificial é especialmente enriquecedor se usarmos a arte como forma de questionar a tecnologia. Estes projetos cruzam os aparentemente diferentes domínios artísticos e tecnológicos, usando inteligência artificial como elemento estético.

Historical Hackers: Ctesibius Tells Time: Ver a invenção da clepsidra como forma de hackear parece algo bizarro, mas recordem-se, daqui a 100 anos, quantas das nossas deslumbrantes novas tecnologias de hoje vão estar tão banalizadas que já ninguém repara nelas?

Do You Want AI to Be Conscious? - Issue 102: Hidden Truths: E será que sabemos o que significa consciência? Qual sua lógica, que vantagem evolucionária nos deu? Haverá formas de simular, ou dotar algoritmos de tipos de introspecção?

Method lets AI create better original images: Há sempre algo de estranho nas imagens geradas por algoritmos de inteligência artificial, por muito realistas que sejam. Este método modifica a aprendizagem automática para garantir resultados ainda mais realistas.

Your next laptop may come with a cryptominer, courtesy of Norton: É talvez o truque de marketing mais inesperado. Instale um anti-vírus, e use o seu computador para minerar criptomoedas. Algo que tanto pode ser uma boa ideia, como um risco de segurança, porque a moda irá pegar, e nem todos os que irão oferecer este tipo de soluções estarão no lado mais legal do espectro das criptomoedas.

A Browsable Petascale Reconstruction of the Human Cortex: Este dataset permite visualizar e simular uma secção do córtex cerebral em 3D, a partir de amostras de tecido cerebral. Uma forma de conhecer melhor o nosso cérebro.

Kyriaki Goni. Speculating on climate crisis, interspecies relationships and AI: Reflectir, através da arte, sobre as transformações trazidas pelas tecnologias avançadas.

Have autonomous robots started killing in war? The reality is messier than it appears: De facto, o relatório onde os jornalistas estão a ir buscar a ideia que os drones já abatem humanos de forma autónoma, não é muito direto sobre o assunto. Ou seja, é um erro assumir isso como um facto incontestável, o que podemos assumir é a possibilidade de isto ter acontecido. Com elevada probabilidade de realmente ter acontecido, guerras civis raramente se regem por padrões éticos. Mas há um tipo de arma de ataque autónomo que já faz há muito parte dos arsenais: as chamadas loitering munitions (munições vadias é boa tradução?, armas que depois de disparadas se mantém no ar até detetarem um alvo. Não são exatamente drones totalmente autónomos, mas também atacam sem intervenção humana.

Microscopists Push Neural Networks to the Limit to Sharpen Fuzzy Images: Para que servem os algoritmos de inteligência artificial aplicada à imagem? Esta é uma excelente resposta, para melhorar a nitidez das imagens do infinitamente pequeno.

Toward Generalized Sim-to-Real Transfer for Robot Learning: Combinar simulações e aprendizagem automática para treino eficaz de robots para atuação em situações reais.

The clothing revolution: Uma visão inesperada sobre o que motivou o desenvolvimento humano. Terá sido o desenvolvimento do vestuário o que provocou o desenvolvimento da agricultura e sedentarização dos primeiros homens? De facto, desenvolver o vestuário como tecnologia para sobreviver em climas agrestes pode ter sido uma das faíscas que levou à sedentarização. Infelizmente, não sobram muitas roupas da pré-história em vestígios arqueológicos, o tempo não é clemente com estes objetos.

Electric Ink Analysis: Os ecrãs de tinta digital encontraram o seu nicho enquanto dispositivos de leitura, mas recentemente têm surgido ofertas no mercado que os posicionam enquanto dispositivos de produtividade. Estará esta tecnologia capaz de nos oferecer a experiência fluída de outras, já estabelecidas no mercado?

The history of space exploration in 15 images: Aquela sensação que, de facto, este lado entusiasta da exploração especial é história.

Can We Ever Trust A Recorded Image Again?: Bem, será que alguma vez pudemos confiar em imagens? O problema da manipulação não é novo, antecede em muito as capacidades das modernas tecnologias de transformação de imagem. E nem sequer precisamos de ter tecnologias complexas - as manipulações mais eficazes fazem-se pelo enquadramento, pela perspetiva, pelo enviesamento através daquilo que se escolhe mostrar.

The best logistics games that make supply chains fun (no, really): Porque, de facto, o são. Todo o campo dos jogos de simulação e jogos sérios permite simplificar aprendizagens e perceber como funciona o complexo.

Underwater 3D printing to be rolled-out in 2022?: Já não há muito que surpreenda no mundo da manufatura aditiva, a tecnologia está a amadurecer e a normalizar-se nos seus contextos. Agora, técnicas de impressão em ambiente submarino são, tanto quanto sei, uma ideia completamente nova.

What about a national packet-switched drone delivery network: Intrigante, e uma verdadeira internet das coisas. Repensar fluxos de distribuição de forma similar ao roteamento digital, com drones e veículos autónomos.

Mastershot es un editor de vídeos online, que sólo hace una cosa y la hace bien: Simples, gratuito e sem marcas de água, este editor de vídeo promete ser uma excelente ferramenta.

Apple’s RealityKit 2 allows developers to create 3D models for AR using iPhone photos: Destaco isto porque, essencialmente, a Apple incorpora fotogrametria nas suas ferramentas de desenvolvimento para realidade aumentada. Já estou a ver os apple fanboys, a apontar que a empresa da maçã dentada desenvolveu uma enorme inovação que permite criar 3D a partir de fotografias; e o resto do mundo a encolher os ombros, apontar que é apenas mais uma implementação da fotogrametria, mas sem se chatear muito com isso que os apple fanboys não aceitam muito bem desafios à sua visão do mundo.

Everything Is Overcomplicated: Um pequeno erro de configuração mandou abaixo boa parte dos principais sites. Sublinha as infraestruturas invisíveis de que depende o nosso mundo digital, só reparamos nelas quando falham.

Jeff Bezos Says He’s Going to Space in About a Month: Um caso típico de "bolas, quem paga as contas sou eu, por isso tenho o direito a ser o primeiro a brincar".

DitherPaint: a 1-bit, browser-based drawing application: Para quem procura nostalgia, ou estéticas muito, muito retro.

Modernidade


Scientists know these things: Sim, voa, mas o voo é curto.

When ISIS Made Off With A Magritte Nude (Which Made It Back Intact!): Da ligação entre o crime artístico e o financiamento do terrorismo. O roubo de um quadro de Magritte revelou uma ligação ao financiamento de ataques terroristas na Bélgica.

Mary Beard: Ancient Rome Never Disappoints: Do nosso fascínio com a Roma antiga, das comparações que fazemos com o império, e da necessidade de uma visão crítica que não nos cegue para as realidades históricas.

Puppy Experiment Shows How Dogs Connect With Humans From Birth: Bem, como assumida dog person que sou, derreto-me com estes estudos. É curioso pensar que a capacidade empática dos cães com os humanos se possa ter tornado um traço genético hereditário.

How Memory Works: Falível, intrinsecamente biológica, e possivelmente manipulável.

The Traveler and His Baggage: Começa com o que parece ser uma história simpática sobre redes de ajuda à fuga de judeus e outros refugiados do nazismo na Paris ocupada, mas depressa nos leva a um dos casos policiais franceses mais célebres de sempre, com as façanhas do médico e assassino em série Petiot.

THE GREATEST ACHIEVEMENTS IN DUMB INTERNET VIDEO: Vá, confessem, é um prazer culposo, mas um prazer. Quem nunca perdeu uns minutos a gargalhar perante um vídeo daqueles mesmo idiotas? Tomem lá a fina flor destes hinos à estultícia. Não precisam de me agradecer.

Author Naomi Wolf Spreads So Many Anti-Vaccine Myths That She’s Banned From Twitter: Fiquei espantado com esta notícia, e desiludido com este resvalar de uma autora crítica, cujas visões sobre os excessos do capitalismo e consumismo são fundamentais para se perceber o mundo contemporâneo. Cair em teorias da conspiração e resmungos anti-ciência é algo inesperado, que ainda por cima tem o condão de servir de argumento para questionar a validade de outros trabalhos.

The “Lab Leak”: It’s Not Enough to Say Accidents Happen - Facts So Romantic: A teoria de que a origem da pandemia teria sido num acidente laboratorial parece estar a voltar à baila, promovida por critérios jornalísticos duvidosos. Mais interessante do que isso é o porquê de querermos tanto uma explicação destas. É confortável e simples. Perceber que esta pandemia está relacionada com a complexidade da relação entre a natureza e o antropocénico, numa consequência de problemas tão díspares como aquecimento global, sustentabilidade e pressão urbana, é bem mais difícil.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Manga: Misumisou; I Am a Cat; Hell Mother


Rensuke Oshikiri, Misumisou

Um conto muito cruel. Quando uma jovem adolescente se muda para uma vila do interior japonês, a sua chegada à nova escola não corre muito bem. O grupo de adolescentes é pequeno, e implacável. O bullying sucede-se, cada vez mais violento, levando até à morte de familiares da adolescente. Tudo tem os seus limites, e a rapariga começa a responder à letra e com extremo prejuízo. Para mais, a única pessoa em quem sente que pode confiar, é um rapaz obcecado pela ideia de proteger aqueles que ama, mesmo que isso signifique recorrer à violência. Não há inocências neste banho de sangue adolescente.

Natsume Sōseki, I Am a Cat

Um gato muito sagaz observa a vida do seu dono, um escritor da viragem do século XIX para o XX, e os seus peculiares amigos. Humor discreto, nestas histórias onde o olhar de um gato coloca a nu as bizarrias da alma humana. Adaptação de um romance japonês dos primórdios do século XX.

Kanako Inuki, Hell Mother

A história que dá o nome à coletânea é uma variante de terror da clássica narrativa onde uma madrasta faz a vida negra a inocentes crianças, neste caso com uma madrasta bruxa que mata o pai de duas meninas e as tenta usar num sacrifício ritual para assegurar a sua imortalidade. Outras histórias surreais e bizarras se seguem, com a de um adolescente desprezado pelos seus colegas que se entretém a construir réplicas perfeitas das suas casas na sua cave, uma variante muito escatológica da história de Cinderella, onde o espelho faz mais do que proclamar a beleza, retira-a com extremo prejuízo, ou a história de uma menina mimada que obtém prazer obrigando as pessoas a desfazerem-se de objetos queridos com a força do dinheiro, que será castigada de forma sobrenatural ao tentar adquirir uma mansão a uma família centenária. Relatos de horror que oscilam entre o suave e a violência visual profunda.

terça-feira, 13 de julho de 2021

Comics: O Desafio Final; The Apocalypse War; Dinastia X / Potências de X.

 


Donny Coates, et al (2020). Guardiões da Galáxia, Vol. 1: O Desafio Final. Panini.

Um sempre divertido mergulho nos mais notórios anti-heróis do universo Marvel, a excelente desculpa da editora para nos brindar com space opera disfarçada como comic de super-heróis. Thanos está morto, mas um vilão da sua titânica (piada óbvia) capacidade não deixaria de estar preparado para tal eventualidade... e no seu testamento, deixa claro que em caso de derrota terminal, encontrou uma forma de transferir a sua consciência para outro corpo. Algo que deixa os principais heróis cósmicos aterrorizados, que partem à caça para abater aquele que lhes parece o melhor candidato para albergar a consciência de Thanos, a sua filha, e ex-membro dos Guardiões. Entretanto, os fiéis seguidores de Thanos conseguem recuperar o seu corpo, e cabeça. No meio disto, o que resta dos guardões originais vê-se metido na confusão, unindo esforços com alguns dos que conhecem o legado de Thanos para salvar a ex-colega e perceber o que realmente se passa. Diversão cheia de humor, ação e vastidões cósmicas, é o que este comic nos dá.

John Wagner, Carlos Ezquerra, Alan Grant, Brian Bolland, Mick McMahon /2021). Essential Judge Dredd: The Apocalypse War. Londres: 2000AD.

A guerra fria tornada quente, de forma ficcional no futurismo distópico de Judge Dredd.  Com a cidade a ser tomada por uma febre de guerra entre quarteirões, Dredd depressa se apercebe que algo de sinistro está por detrás do rebentar de loucura violenta. Mas não espera a escala da conspiração: uma forma dos arqui-inimigos de East Meg One enfraquecerem a mega cidade, e, num ataque fulminante, conquistarem Mega City One. Quase são bem sucedidos, com as defesas e forças ofensivas dos Juízes aniquiladas. Mas Dredd e um punhado de resistentes não desiste, combatem os juízes soviéticos em modo de guerrilha, e conseguirão o impensável: infiltrar-se em East Meg One, causando uma detonação que transformará a cidade em crateras radioativas. Uma aventura de Dredd vinda dos anos 80, que sublima muito bem os à época aterrorizantes medos de confronto nuclear entre superpotências, transpondo esse medo para o futuro moldado pela radiação nuclear do mundo das megacidades.

Rober Hickman, Pepe Larraz (2020). X-Men: Dinastia X / Potências de X, Vol. 1. Panini Comics.

Tenho uma relação complicada com as histórias de Hickman. Por um lado, estão cheias de conceitos interessantes, são expansivas e com um certo toque épico. Por outro, o argumentista favorece o hieratismo, grandes pronunciamentos, enormes panoramas, o que os torna algo pesados. House of X/Powers of X foi uma profunda revolução nos clássicos mas nem sempre bem abordados X-Men, em que Hickman pega naquele que foi um dos primeiros inimigos do grupo, a ilha viva de Krakoa, e o transforma num ser sentiente, uma geografia viva que será um porto de abrigo para os mutantes. A natureza única da ilha permite-lhe abrir portais biológicos para qualquer local do planeta, e não só, portais de livre acesso para mutantes mas impeditivos para os humanos. A nova nação mutante impõe-se não pela força, mas pelo isolamento e dádivas para negociação com a humanidade. É o velho sonho de Charles Xavier, de um mundo melhor para todos, conseguido com a união de poderes. Mas será um sonho que perdurará? No futuro, uma união entre humanos e máquinas inteligentes mostra que os sonhos nunca perduram para a eternidade.

domingo, 11 de julho de 2021

URL

Esta semana, destacamos o balanço do trabalho de Nehisi-Coates em Black Panther, curtas de BD portuguesa, e a presciência quase preditiva de J.G. Ballard. Fala-se de usar o GPT-3 para programar em linguagem natural, dos níveis de autonomia automóvel, e de prováveis ataques de drones autónomos a humanos. Ainda se reflete sobre a eterna promessa falhada do equilíbrio entre trabalho e vida, das bactérias que limpam obras de arte, e das histórias dos amantes da história de Lisboa. Outras leituras vos aguardam, nas Capturas desta semana. 

Ficção Científica e Cultura Pop

On The Stroke Of The Hour: Pulp clássico.

X-Men's Brood Are What Brood X Nightmares Are Made Of: The Brood, uma espécie alienígena de insetos agressivos que se expande pelas galáxias num frenesi de consumo. Uma das ameaças recorrentes de X-Men, que copia a estética e lógica dos monstros de Alien, até mesmo na parte de serem instrumentalizados como arma por terceiros. Muito similares, mas com diferenças suficientes para evitar problemas de direitos de autor. É típico, na cultura pop.


1979 concepts for the never-built Rockwell Star-Raker: Há que adorar os conceitos de aeronave espacial.

O que É Natural: Adorei a ilustração desta curta BD de duas pranchas, originalmente publicada na Cais. De facto, o que é natural é ultrapassar preconceitos.

What Ta-Nehisi Coates Did For Black Panther: Foi de facto uma excelente temporada como argumentista. O Washington Post mergulha a fundo, analisa a primeira metade em que Coates revê o mito da nação negra progressista, avançada e nunca colonizada como tendo pés de barro, e a segunda metade, em que pega na ideia e a leva, literalmente, às estrelas.

Gene Szafran, “All the Gods of Eisernon,” 1973: Há que admirar o foguetão pronto a descolar, sem infraestrutura de suporte.

Hitting the Books: Sci-fi strategies may be needed to stave off climate change: Como responder aos problemas trazidos pelo aquecimento global? Algumas estratégias requerem o tipo de pensamento antecipatório divergente que é especialidade da Ficção Científica.

The Sandman: Neil Gaiman Has Zero F*cks to Give Death, Desire Pushback: Confesso que fui daqueles que ficou boquiaberto quando vi a escolha de casting para a personagem Death. Que, quem conhecer os comics sabe bem isto, tem como iconografia o ser visualizada como uma goth girl. De rapariga gótica a afro vão universos de distância, mas Gaiman justifica a escolha com a capacidade de encarnar a personalidade do personagem. O que até faz sentido, na fantástica e clássica série da DC Vertigo, estes Endless (Morte, Desejo, Destino, Sonho, Guerra, Desespero, e, claro, o Sonho que dá mote a toda a série) são encarnações de conceitos abstratos - ou seja, a forma como nós os vemos, e não como realmente seriam. Pessoalmente, vou sentir saudades da Morte como rapariga gótica. Quanto a ver a série, nem por isso, não por desgostos ou desagrados, mas porque retirei a televisão da minha dieta mediática, o meu foco é mesmo literário. Quando ao choque por a personagem Desire ser não binária, bem, caros, ide ler o comic, ide... que é um dos portentos da banda desenhada dos anos 90.

Black Panther Writer Ta-Nehisi Coates Wants Better for Creators Bringing These Stories to Life: Nehisi Coates é um anacronismo no mundo dos comics. Escritor, jornalista e ensaísta, escreveu muito sobre política e herança afro-americana. No entanto, tinha como um dos seus sonhos escrever argumentos de comics para a Marvel. Encerrou neste momento uma temporada muito interessante de Black Panther, que começou com um olhar para a noção de estado e acaba com space opera, e continua a fazer um trabalho interessante em Captain America, indo ao cerne do personagem. Aqui, infelizmente, muito mal acompanhado em termos gráficos, a série merecia um melhor ilustrador.

Why on Earth did Amazon spend $8 billion on a zombie studio?: Não me interessam particularmente os movimentos de negócios da indústria dos media, agora com o streaming a ditar a direção. O intrigante é perceber que estes investimentos não são feitos para aproveitar know how, mas sim propriedade intelectual prévia, que será posteriormente espremida ao máximo.

75 Nonfiction Books You Should Read This Summer: Ui, nem a ler dois ou três livros por dia se esgotava esta lista...  mas há ali propostas interessantes, nos campos da tecnologia. E uma nova biografia de Pessoa e seus heterónimos.

Jack Gaughan: Clássico e retro.

How Did a Censored Writer from the 1970s Predict the Future with Such Uncanny Accuracy? Bem, uma imprecisão. Ballard dificilmente pode ser considerado um escritor censurado, pese embora as reações a Atrocity Exhibition. Quanto à sua capacidade preditiva, Ballard sempre foi um observador do confronto entre as pulsões da psique e a tecnologia. É, praticamente, o grande tema da sua obra. Por isso, ler que nos anos 70 antecipou o nosso gosto contemporâneo por procurar fama nas redes sociais, a rapidez com que as ideias viralizam, ou a informação em rede, não correspondem a predições oraculares sobre o nosso presente. As tendências que Ballard identifica sempre existiram. Se as consideramos predições, estamos a confundir o que são ferramentas e adereços, com os impulsos humanos que nos levam a desenvolver e usar estas tecnologias e comportamentos. O digital apenas amplifica o que sempre existiu na alma humana.

Tecnologia


Man creates stop-motion animation with dot matrix printer art he created in 1982: 3D, feito com... fotogramas impressos em impressoras de agulhas, filmados em stop motion. Uma intrigante experiência visual.

Microsoft uses GPT-3 to let you code in natural language: Em direção a um futuro em que se possa programar sem ter de aprender a sintaxes de linguagens de programação, embora tenha de se conhecer a lógica de programação. Usando implementações do GPT-3, a Microsoft está a desenvolver produtos que permite criar programas descrevendo a sua função em linguagem natural. O algoritmo interpreta, e converte para código.

Fragility Of The Web: When All Those Hyperlinks Expire: A internet é ao mesmo tempo um vasto arquivo, e um eterno agora, um fluxo de momentos fugazes. Mas quando se quer memorializar, catalogar, manter registos históricos, depressa se percebe a facilidade com que muito do conhecimento disponível na internet se perde. Servidores avariam, serviços fecham, recursos são apagados. E com isso perdem-se textos, imagens, enfim, conhecimento. O linkrot é a praga da sociedade da informação.

Amazon: Overworked Warehouse Employees Can Go Reflect in the Despair Closet: Como melhorar o bem estar dos funcionários? Com condições de trabalho mais humanizadas? Não. Cabines de meditação. É o que dá quando o pior do capitalismo predatório automatizado por algoritmos se cruza com a tretologia do mindfulness.

AI is learning how to create itself: Algoritmos que se treinam e programam a si próprios? Bem, não é ainda a AGI, mas é sem dúvida mais um passo nessa direção.

The Many Levels Of Autonomous Motoring: Do que é que falamos quando falamos sobre veículos autónomos? É um pouco mais do que carros que andam sozinhos. A autonomia é definida por cinco diferentes níveis, e só no último é que de facto a condução é totalmente autónoma, em todas as condições. Por enquanto, mesmo os mais avançados projetos estão à volta do nível 2.

Mass Media Shapes Our Values & Innovations like Artificial Intelligence: Não é grande novidade. Sempre que discuto sobre IA nas minhas formações para professores, inevitavelmente alguém puxa do exemplo do robot Sophia, e lá tenho eu que desmontar a ideia de que um boneco animatrónico seja uma forma de vida artificial. Mas essa ideia é a que os media veiculam.

Data isn't oil, so what is it?: A metáfora dos dados enquanto petróleo talvez não seja a mais adequada, observa este ensaio. Tendo em conta que os dados que alimentam a economia digital são fundamentalmente baseados no comportamento individual, talvez a questão seja que os dados, são as nossas vidas.

Israel's operation against Hamas was the world's first AI war: Intrigante. Na mais recente iteração do interminável (e irresolvível) conflito israelo-palestiniano, a escolha dos alvos por parte das forças israelitas usou ativamente algoritmos de inteligência artificial.

Google reportedly made it difficult for smartphone users to find privacy settings: Não há aqui grande novidade. É a isto que se chama dark patterns - a ofuscação intencional do que deveria ser simples e direto, para manipular o comportamento do utilizador.

Relógio Tetris com ESP32: Construir um relógio que dá as horas com números que formam a partir das peças do clássico Tetris? E porque não? Alguma montagem, soldadura e programação necessárias.

Think Big At Virtual Maker Faire Galicia 2021: O destaque dado pela Make: à Maker Faire Galicia, que irá decorrer de 2 a 6 de junho em Santiago de Compostela, mas em modo virtual e acessível a todo o mundo. Um extenso programa de demonstrações, apresentações de projetos, conferências e workshops, com um foco especial na educação. Pessoalmente estou muito contente por ter lá os meus alunos com os seus projetos, e poder dinamizar um workshop sobre telemóveis, 3D e pensamento computacional. Vai ser interessante... o meu castelhano falado é inexiste.

The age of killer robots may have already begun: Preocupante, mas não inesperado. Análises ainda não confirmadas a ações militares na guerra civil líbia apontam para que um drone tenha agido de forma autónoma contra combatentes, tendo sido programado para voar sobre zonas de combate e atacar eventuais alvos sem ligação a supervisores humanos. Na verdade, isto é um parágrafo de um extenso relatório sobre a situação caótica no território, e os indícios do envolvimento de países terceiros no fornecimento de sistemas de armas em contravenção às leis internacionais: https://undocs.org/S/2021/229.

Europe’s cookie consent reckoning is coming: Uma nota importante. Achar que o RGPD se tornou uma irritação, com a chatice que é ter de dar consentimento sempre que se entra numa página, muitos dos quais em linguagem velada ou intencionalmente enganosa, é não perceber para que serve o RGPD, concebido precisamente para cercear as práticas predatórias online. Diga-se que as entidades reguladoras têm feito um certo desvio de olhar perante os abusos e desvirtuamentos da legislação, mas isso parece estar a mudar.

Cuando la "adicción a los crucigramas" era un problema social: la historia de uno de los casos más divertidos de pânico moral: Ah, palavras cruzadas, esse horror que irá danificar de forma irremediável toda uma geração... ou melhor, pânicos morais, que na sua altura pareciam hiperpertinentes, mas hoje rimo-nos deles... enquanto alinhamos no pânico da moda. Hoje, talvez sejam os perigos da inteligência artificial?

Curiosity rover offers a rare glimpse of cloudy days on Mars: Mas não de chuva, são nuvens de gelo na alta atmosfera marciana.

El juego que me he descargado ni se parece al del anuncio que vi en Instagram: no eres tú, es una práctica habitual (y lucrativa): Se eu tivesse tempo para jogar, provavelmente cairia nesta esparrela. Ficar deslumbrado pelo aspeto gráfico de um anúncio a um jogo, para o instalar e descobrir que afinal os grafismos reais não eram exatamente o anunciado. Claro que isto é um clássico na computação, o prometer mais que o real, lembram-se da game art exuberante que adornava as cassetes para Spectrum ou as caixas de disquetes? No entanto, hoje, essa prática é quase publicidade enganosa. Quase, porque uma vez que este tipo de jogos é freemium - gratuitos para jogar, paga-se para acelerar o progresso ou obter items, não cai dentro da legislação sobre publicidade. Mas não deixa de ser uma prática de ética dúbia.

Behind the painstaking process of creating Chinese computer fonts: Como foram criados os primeiros carateres digitais chineses? Com muita paciência e meticulosidade, como podemos ler neste artigo.

A importância dos arquivos digitais na preservação da memória do mundo de hoje e de outros tempos: A memória na internet é fugaz, e o conteúdo de hoje amanhã depressa desaparece. Se não pelos projetos de arquivo e memorialização, o conhecimento que se gera na rede é facilmente perdido.

Inside The ‘World’s Largest’ Video Game Cheating Empire: Dos vários modelos de negócio que andam à volta da indústria dos videojogos.

Screenshots Are the Gremlins of the Internet: Um dos princípios elementares da vida digital - nada é realmente privado, basta uma simples captura de ecrã para registar a mais inesperada conversação.

Modernidade


This TV commercial for Cherry Coke is peak 1980s: Camp? Kitsch? Foleiro? Nostalgia? 

Porto de Lisboa retoma visitas gratuitas aos painéis de Almada Negreiros: São um dos grandes tesouros da arte modernista portuguesa, estes painéis da Gare Marítima de Alcântara. Que estão, finalmente, abertos ao público. Uma das melhores obras de Almada Negreiros não deveria estar trancada numa zona inacessível.

How the Covid pandemic ends: Scientists look to the past to see the future: Da pandemia à endemia, entre o historial de pandemias passadas, o papel da vacinação, e a forma como a fisiologia humana acaba por acomodar alguns tipos de vírus.

U.S. Soldiers Accidentally Leaked Nuclear Weapons Secrets Online: Report: Escrever apontamentos daquilo que se quer memorizar e depois esquecer-mo-nos deles  algures, quem nunca? Se bem que neste caso, os apontamentos eram sobre códigos e procedimentos de uso de armas nucleares. De facto, um grande oops.

The Future Of Work Will Be Five-Hour Days, A Four-Day Workweek And Flexible Staggered Schedules.: Lol. Deixem-me repetir, lol. Estas ideias são giras, mas estamos em 2021 e cada vez mais longe da sociedade de equilíbrio entre tempo livre e trabalho prometido que os teóricos da economia tanto prometem desde os anos 70. Trabalha-se mais horas, e com mais precariedade. É doce, pensar que o futuro do trabalho é laborar 5 horas por dia, mas na verdade o que estamos a ver é que o futuro do trabalho é andar entre o limiar da pobreza a prestar serviços para plataformas.

Olissipógrafos, os que amam Lisboa… e a estudam – a BD: Um artigo duplamente interessante, pela curta BD que nos fala daqueles que estudam a história de Lisboa (e escrevo isto mesmo que, pessoalmente, não aprecie o traço de Nuno Saraiva), mas essencialmente pelo projeto de coligir e reeditar em livro eletrónico obras que olharam para a cidade que Lisboa foi.

The Specialized Bacteria Cleaning Michelangelo’s Masterpieces: Esta é inesperada, usar bactérias para limpar os mármores das esculturas clássicas.


sábado, 10 de julho de 2021

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Manga: Kyoufu Kansen; Wet Moon; BLAME! Gakuen

 


Ochazukenori, Kyoufu Kansen

Um conjunto de histórias de terror, curtas, estruturadas sempre da mesma forma: uma situação de suspense que depressa se transforma em assustadora, e se resolve em terror, sem finais felizes. A primeira história é a mais interessante, sobre uma frágil menina do ensino básico que, numa redação sobre as férias de verão entregue à sua professora, descreve os requintes com que assassinou toda a sua família. Deliciosamente tenebrosa, no contraste entre inocência e malvadez. O resto resume-se a um terror de liceu japonês, exceto noutro dos pontos altos, uma história em que os passageiros de um avião são acometidos por uma súbita epidemia, transmitida por um fragmento de meteorito, que lhes faz explodir a cabeça. Gore a 10000 pés é sempre interessante.


Atsushi Kaneko. Wet Moon

Uma história entre o policial e o surreal. Quando um jovem detetive com problemas de memória chega a uma cidadezinha costeira japonesa, está longe de suspeitar que o seu primeiro caso se tornará uma obsessão: encontrar a mulher suspeita da morte violenta de um homem. Uma investigação que o levará a mergulhar a fundo nos mistérios da cidade, desde uma força policial profundamente corrupta a uma fábrica que manufatura componentes de precisão para um projeto muito secreto de conquista lunar, que se oculta no subsolo urbano. Pelo meio, há a intervenção de um informante com a capacidade de ver o futuro, e o aparecimento de uma versão futura da suspeita. Tudo isto gerido por um investigador inexperiente, sem ter muita certeza do que é real e do que é alucinação, mal amado e constantemente enganado pelo seus colegas que o tentam corromper, e que é instrumentalizado pelo seu falecido superior para limpar a corrupção policial. Em pano de fundo, a iminência da primeira aterragem na Lua, considerada uma impossibilidade. Soa a policial, aliás começa por aí, mas Wet Moon depressa se torna numa daquelas histórias surreais, não lineares, que quando termina deixa mais coisas em aberto do que conclusões. A ilustração é memorável.



Tsutomu Nihei. BLAME! Gakuen

Histórias curtas, passadas no universo Blame!, que mergulham os personagens no estranho e caótico mundo da série. Que sempre achei algo incompreensível, mas sedutora, com a sua omnipresença de opressivas arquiteturas infindas, o visual mega urbano sempre foi algo que desperta o olhar em Blame!. As histórias divergem deste sentido, algumas são profundamente surreais, outras, variantes do género de mangá liceal. 

terça-feira, 6 de julho de 2021

Red Baron: The Machine Gunners' Ball; Rain of Blood; Donjons et dragons

 

Pierre Veys, Carlos Puerta (2014). The Machine Gunners' Ball. Cinebook.

Um recontar da história de Von Richtoffen, com um toque sobrenatural. Neste livro, enquanto jovem, o futuro ás dos ares, máquina assassina aos comandos de um aeroplano, descobre que tem a capacidade de sentir o medo e agressividade de oponentes em situações limite, quase como se fosse capaz de ler as suas mentes. Com a agressividade desperta, decide-se pela carreira militar, onde poderá dar vazão a esta nova capacidade. No entanto, destacado para cavalaria na era das trincheiras, percebe que não poderá combater como quer, e requer transferência para o corpo de observadores aéreos. Uma história que se arrasta, mas brilhantemente ilustrada.

Pierre Veys, Carlos Puerta (2014). Rain of Blood. Cinebook.

Agora já no ar, Richtoffen está no limiar de se tornar a máquina assassina dos céus... mas não o consegue fazer, por ser apenas observador e não piloto. No primeiro confronto aéreo em que participa, a sua aeronave mal se safa, só por pouco não são abatidos. O caminho está traçado: Richtoffen terá de aprender a voar, para poder colocar os seus instintos assassinos em prática.

Pierre Veys, Carlos Puerta (2014). Donjons et dragons. Cinebook.

Agora, no ar, Richtoffen começa a tornar-se lenda. A sua capacidade assassina revela-se, aos comandos de sucessivos aviões. O seu segredo mantém-se, a sua capacidade de sentir a agressividade dos inimigos e com isso antecipar as suas ações. Para tornar mais eficaz essa sua capacidade, decide pintar os seus aviões de vermelho, para despertar reações nos inimigos. No entanto, tem uma relaçáo complicada com alguns dos seus camaradas de armas. Neste terceiro livro da série, exploram-se algumas façanhas de combate aéreo, magnificamente ilustradas. É o lado visual que torna a série interessante, num estilo realista com um tratamento impressionista da cor.