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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Motelx 2026 (II)

Com jeitinho, fazendo o esforço legítimo de ignorar quaisquer pedidos laborais que implicassem com o tempo livre, lá consegui um segundo fim de semana de Motelx. Passar a ser vilão na narrativa pessoal de outras pessoas é um preço muito apropriado a pagar para desfrutar de um festival de filmes de terror. Tive o bónus de me cruzar com a gente boa que só consigo encontrar nestes eventos. É sempre bom rever o übergeek Paulo Morgado e a mestra (em bom rigor, doutora :) ) do cosplay e cultura japonesa que é a Leo Pinela.

The Fall of the House of Usher, Roger Corman.

Tenho de me explicar. Num festival recheado de novidades, ante-estreias, filmes inesperados e obras independentes, escolho ir ver um filme antigo? Claro, não por desdém ao restante cartaz, mas porque são raras as oportunidades de ver estes filmes em cinema. Sim, eu sei que existe uma invenção recente chamada "internet" que nos permite ver estes filmes online de formas mais ou menos legais, e provavelmente também estão disponíveis em serviços de streaming. Devo confessar que sou cada vez mais avesso ao conforto do cinema em casa, mal vejo televisão e o ecrã do portátil não me seduz. Filmes, os bons filmes, é no cinema.

A série de filmes vagamente inspirada nos contos macabros de Edgar Allan Poe realizados por Roger Corman é, com muita justiça, um dos grandes momentos do cinema de terror do século XX. Sabemos que eram filmes feitos um pouco a metro por um realizador especialista nos baixos orçamentos e artimanhas para esmifrar ao máximo os trocos aos espetadores, e, no entanto, são sublimes pela sua estética e ambiência. A estética tornou-se sinónimo do que hoje consideramos o gótico cinematográfico, com vénias barrocas ao século XIX (Masque of the Red Death é nisso um portento) e o overacting explosivo dos atores. O que segura estes filmes é a capacidade inimitável de Vincent Price para puxar o exagero ao máximo sem cair no absurdo. Em cena, obriga o olhar a convergir para ele, entre a sua altura e os tiques de atuação. A adaptação do conto clássico de Poe é algo livre, mas mantém a essência, e puxa ao lado mórbido e macabro de uma história sobre obsessões e manias mentais levadas ao extremo. 

The Glorious Dead, the Adams Family.

Saí deste filme sem saber muito bem o que pensar dele. Não me agarrou por aí além durante a visualização, mas tem um forte lado quirky que me seduziu. A história é simples - a xerife de uma cidadezinha do profundo hinterland norte-americano descobre-se num dia em que tudo funciona de forma inesperada. Não há eletricidade, pessoas desaparecem misteriosamente, os mortos regressam à vida (mas catatónicos, isto não é um banal filme de zombies), todos os animais desaparecem menos os corvos, há criaturas disformes vestidas de fatos de pele humana que devoram vivos que mesmo mortos continuam vivos, e volta e meia abrem-se buracos de carne no chão. Pior que tudo, sem eletricidade não há máquinas de café a funcionar. É ao mesmo tempo uma história simples e linear, mas surreal e bizarra, com um humor muito fino. Quase um cruzamento entre Night of the Living Dead com Left Behind (não sei se se recordam da série de maus romances e pior filme onde os evangélicos exploravam o seu mito do arrebatamento, com um mundo pós-apocalipse a funcionar depois das pessoas de alma pura terem sido salvas por deus?). Nunca percebemos muito bem o que realmente se passou, mas o filme inclina-se muito para os mitos do cristianismo radical, do fim dos tempos, em que as almas puras ascendem aos céus e todos os que deus não considera dignos de salvação (o que na mente daqueles retrógrados é praticamente toda a gente) fica presa numa Terra condenada ao inferno. O filme mantém isso em pano de fundo, embora sem perder tempo com aprofundamentos. A história real é a do desconcerto de uma mulher que tem de manter alguma ordem quando tudo se torna desordenado.


Masterclass Julie Corman

Terminei sábado com a ouvir a companheira de Roger Corman a partilhar as suas experiências. A conversa não andou à volta do realizador e produtor, mas sim da carreira dela, que apesar de interconectada com a do marido é de uma longa experiência como produtora, realizadora e professora universitária. Partilhou conosco as suas experiências, e saí da sessão a pensar como, por vezes, o cinema de série B, feito a metro e baixo custo, é uma das melhores escolas para talentos. Das produções de Corman saíram muitos dos grandes cineastas americanos do final do século XX, não só realizadores como actores, diretores de fotografia e técnicos. Dezenas de oscarizados têm como ponto comum no currículo o ter trabalhado em filmes de Corman. 



A Bucket of Blood, Roger Corman

Mantendo a tradição de ir a um festival e ver filmes antigos em vez de novidades, não podia perder este Bucket Of Blood. Sendo um filme Corman de série B, o título é sugestivo em enorme grau, mas não há jorros torrenciais de hemoglobina. Título schlock, para atrair espectadores para o que é essencialmente uma comédia muito, muito negra. 

O filme goza que se farta com os beatniks, antecessores dos hippies e, com o seu forte pretensiosismo, similares aos hipsters do princípio do século XXI (ou aos correntes homens e mulheres performativos). Acompanhamos um rapaz algo inocente e lento de ideias que gostaria de ser artista. Trabalha num café beat, e é desconsiderado pelos clientes e patrão. Irá conseguir entrar no mundo das artes, graças às suas esculturas hiperrealistas, que na verdade são uma evidência de uma progressão de serial killer. Delirante, negro e com uma banda sonora deliciosa. 



American Dollhouse, John Valley

Terminei a minha visita ao festival com este filme. A forma mais simpática de o qualificar é dizer que tem alguns momentos divertidos. É um slasher, que cruza uma jovem que enfrenta traumas de infância ao ir viver na casa que herdou da mãe falecida, e uma vizinha doida varrida, que apenas quer viver um natal em família. Mesmo que isso implique raptar pessoas para as vestir de fato de cão, ter alguns cadáveres em decomposição à volta da árvore de natal, e confundir a nova vizinha com a mãe, que se suicidou explodindo a casa, matando toda a família menos a na altura jovem criança, que passa o resto da vida com terríveis marcas no corpo e uma psicopatologia violenta de que ninguém desconfia.

Pois, acabei de fazer parecer o filme mais interessante do que é.

Sandy, a slasher, merece um lugar no panteão dos assassinos de facalhão. A atriz que lhe dá corpo claramente divertiu-se a evocar os clássicos, num overacting claramente intencional e eficaz. O problema é que todo o filme não nos mergulha nas personagens, tenta um crescendo de tensão que falha por completo. E o final, é apenas pateta. 

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Para o ano há mais, espero. Já fiquei contente por este ano ter conseguido frequentar mais assiduamente as sessões deste ano. Foi, também, uma boa surpresa ter-me encontrado com um colega da minha escola. Nos mais de vinte anos que levo dela, nunca jamais tive ou conheci alguém que frequentasse este tipo de eventos (não é que os professores seja na generalidade incultos, apenas, são consumidores inveterados do tedioso mainstream cultural).

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Motelx 2026 (I)

Uma breve fuga a Lisboa, em modo de picar o ponto no Motelx. Recordando os velhos tempos em que era frequentador mais assíduo do festival e fazia maratonas de cinema. Tempos em que o arranque de ano letivo se resumia a algumas reuniões e preparação, e não a sobrecarga de trabalho que já se iniciou antes do final das minhas férias (a sobrecarga de trabalho e responsabilidades que me tem sido despejada em cima são razões mais que suficientes para terminar a carreira na minha escola e transferir-me para outra, e já o devia ter feito nos concursos do final do ano passado, mas hesitei). Adiante, os horrores do real não têm de interferir com a fruição dos arrepios de terror. 

Consegui dar um salto ao festival, e dado que este ano se prolonga por dois fins de semana, vou tentar repetir a dose. 

A Virgem do Lago da Pedreira, Laura Casabé

Confesso, escolhi este filme por mero conforto de agenda. A sessão era às 14, perfeito para quem chega à cidade a meio da manha e almoça (num dos meus prazeres culposos de Lisboa, a Delphi e a suas lambuzantes sandes de Filadélfia). Achei que me ia entreter com um filme latino-americano de bruxarias, saiu-me uma obra inquietante que pode ser descrita como um cruzamento entre Carrie e Lolita. Lamento, cara realizadora, mas o olhar lânguido da câmara para o rosto de uma adolescente com os óculos escuros de aro oval grosso e branco denuncia logo as referências culturais. 

A história é de um coming of age com laivos de sobrenatural, passada numa Argentina falida dos anos 90. Três raparigas estão a passar o seu último Verão no final do liceu com o rapaz que é venerado por uma delas, e vão sofrer as tensões da entrada no grupo de uma mulher mais velha, madura e experiente, que as cativa pela sua rebeldia e estilo de vida alternativo mas acaba por seduzir o rapaz do grupo. O despertar da sexualidade, a transição para o início da idade adulta, o panorama de um país em crise profunda e a dificuldade em lidar com emoções colidem numa história inquietante e estupendamente filmada, com uma fotografia belíssima. 

Nosferatu, Werner Herzog

Nunca tinha visto este filme em cinema, daí  a escolha de um Herzog numa tarde de vaga de calor. Rever este filme no grande ecrã recordou-me o porquê de gostar dele. É uma homenagem ao clássico de Murnau, mas a homenagem não se faz pela repetição. Herzog filmou a história com a peculiar sensibilidade, tornando o filme mais desagradável ao palato do cinema de terror, mas na verdade a levar bem longe a lógica da história.

Não tinha percebido o quão queer é este filme, mas as cenas quase ternurentas em que Klaus Kinski, numa soberba caracterização que homenageia Max Schreck com um olhar de intensa solidão, suga os pescoços de Bruno Ganz e Isabelle Adjani vão muito além do horror vampirico (que em si já é uma metáfora sobre sexualidade reprimida). Sublinha isso a forma como Ganz rejeita a esposa, enquanto se vai tornando ele próprio um vampiro. 

Prefiro estes Dráculas subtis e desconcertantes às versões Hollywood, sempre a puxar para o melodrama trágico. Renfield revisto por Herzog é divinal na sua patetice, e o normalmente implacável e infalível Van Helsing é aqui um incapaz de pouca ciência, que só tarde demais se apercebe da sua ignorância. 

Ver este filme, finalmente, num ecrã de cinema mostrou-me o seu lado profundamente pictórico. As cenas estão compostas e estruturadas como pinturas românticas e pré-rafaelitas, com uma iluminação difusa. Herzog chega a incluir uma totentanz, com os pestiferos habitantes de Wismar a largar as inibições e algemas morais no meio da decadência. 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Odisseia


Ilustro com o canto das sereias, notável pela forma como o filme defrauda as expetativas dos espetadores, mostrando-nos como o vislumbrar é muito mais poderoso do que o revelar, e ainda nos lega uma música assombrosa.

É notório que Nolan tomou imensas liberdades para com a obra original. Para quem leu a Odisseia, a escolha das atrizes para dar corpo a Helena e Clitemenestra  nem sequer é a mais polémica, embora valha a pena pelo ouvir zurrar os trolls fachos e conservadores com o beliscar da sua visão alva da herança cultural de um passado cuja visão distorcida veneram.

No meu caso, desgostei do branquear da figura de Odisseus, um herói muito mais imperfeito do que o que o filme nos faz crer. Não significa que desgostei do filme, bem pelo contrário. É excelente, e traz estas histórias milenares para novas audiências. Adapta--se a elas, é revista com outras sensibilidades. As apropriações e interpretações fazem parte do cinema.

E sejamos honestos, acham mesmo que Homero não interpretou e adaptou quando transformou a longa tradição oral no poema escrito que hoje conhecemos? Isto, claro, caso optem por acreditar neste tão metaficcional poeta cego que passou as palavras faladas ao papiro. 

Houve momentos no filme que senti como demasiado condensados. A relação entre Odisseu e Calipso não foi, de todo, como o filme a retrata. Há um cruzamento com o episódios dos lotófagos, e a real relação entre o herói e a ninfa não foi baseada em esquecimentos.

Se o momento de Circe é dos mais incríveis pela forma como foi filmado, uma intrusão do mais puro body horror, tem mais uma vez pouco a ver com o original. Circe era uma bela feiticeira num palácio, não uma bruxa envelhecida num casebre, e Ulisses passa com ela bem mais do que umas horas.

Onde o filme descarrila mesmo em relação ao original é no seu final. Não que Ulisses destoe como herói de ação, mas o momento em que derrota os pretendentes é muito mais violento e macabro. Não o revelando, Nolan poupou-nos a questões incómodas sobre o poder e a submissão, que o replicar de cenas como o enforcamento das escravas tidas como infiéis ao herói suscitaria.

Que o final se desvia é acentuado pelo discurso sobre o fim da nobre era do bronze (um anacronismo, seria como ver um homem primitivo a discorrer sobre a diferença entre sapiens e neandertais) ou a constantes referências aos povos do mar que ameaçam o derrocar do mundo pré-helénico. São intrusões de história contemporânea, e uma óbvia mensagem do realizador sobre o momento contemporâneo em que vivemos, evocando a metáfora dos bárbaros que ameaçam os portões.

Para quem critica a intrusão de outras obras neste filme, na verdade faz sentido. Trazer a Ilíada (e laivos da Eneida com aquela queda de Tróia) ou a Oresteia mostra o contexto da Odisseia, uma epopeia que não é um texto isolado. Torna o filme mais rico para os espetadores. 

Talvez o maior sintoma da forma como Nolan adapta a história à nossas sensibilidades está na linha narrativa de Argos, essa metáfora da fidelidade perfeita. Se bem me recordo, não passa de algumas estrofes nos episódios finais do poema. No filme, é constantemente referenciado com destaque, até à emocional cena de amarga felicidade em que o cão, abandonando na esterqueira, geme e dá o último suspiro ao reconhecer o toque do seu dono.

Confesso, vieram-me lágrimas aos olhos nesse momento. É natural, como dog person que sou, a história de Argos é sempre comovente.

Por outro lado, um dos momentos mais pungentes da obra, onde Odisseus tenta abraçar o espectro da sua mãe na sua descida ao Hades, ficou esquecido.

Se há personagem que leva o filme é Penélope, magistralmente encarnada por uma Anne Hathaway que claramente fez o trabalho de casa e mergulhou a fundo no teatro clássico. É um portento em cena, traduz a profunda dimensão trágica das tragédias gregas.

Estranha-se, muito, a ausência de deuses numa história vinda dos mitos da antiguidade. Apenas Atena é discretamente visível, e no final do filme há uma ligação visual que nos leva a pensar que as manifestações da deusa, tão essenciais ao sucesso do regresso, não passam de um trauma de Ulisses, da manifestação psicológica de um profundo sentimento de culpa pelas consequências das suas ações como guerreiro em Tróia. 

É um sentimentalismo algo desfasado, em linha com um ideário pop típico de Hollywood. É por estas, e muitas outras, incoerências que o filme e o realizador têm sido tão atacados pela crítica.

E, no entanto, são três horas que não se sentem. São salas cheias, a descobrir uma interpretação profunda de uma das mais milenares histórias que contamos. Adapta, interpreta, revê o clássico com o nosso olhar. Traz a voz da antiguidade para os públicos modernos, recorda-nos o fio cultural que nos une. 

Um fio que não é estanque e imutável, cada era se revê à sua maneira na Odisseia. 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Obsession

Vim parar a este filme sob influência de Backrooms. Li, algures, que este teve um impacto diminuído por ter saído em simultâneo com Obsession para os cinemas, sendo ambos considerados como obras que quebram o padrão e trazem ao grande ecrã as estéticas digitais. Como Backrooms é um filme que não sai da cabeça, quanto mais se pensa nele mais fascina, fui espreitar o seu aparente concorrente.

Obsession não é tão radical na sua estética como Backrooms. Apropria-se de algumas estéticas nostálgicas e faz uso das sonoridades suaves levemente dissonantes que vêm do vaporwave ao horror core. Os carros e casas parecem ser dos anos 80, mas não como anacronismos, dado que a modernidade da internet, telemóveis e IA estão presentes no filme. É um dos indícios do uso de códigos visuais que os conhecedores do vídeo nas redes socias reconhecem muito bem. Como história, não é especialmente inovador, é uma variante do clássico enredo dos desejos concedidos que se revelam maldições. Vê-se como um cruzamento entre The Monkey's Paw, talvez a mais célebre história desta vertente do terror, e o meme da overly attached girlfriend levado a extremos gore (e diga-se que a atriz que desempenha o papel de monstro/vítima incorpora muito bem o ar de alegria inquietante deste meme). 

A história segue os desamores da pós-adolescência, com uma teia intricada que une quatro amigos que trabalham numa loja de música. Aqui, já toparam dois arcaísmos da estética das nostalgias, a história de crescimento dos jovens adultos e a loja de música como ícone atemporal que evoca um mundo onde o comércio era local e não dominado por multinacionais. Um dos jovens, Bear, está claramente apaixonado por Niki, uma rapariga muito independente. Esta está casualmente envolvida com Ian, o melhor amigo de Bear, sem que este desconfie. A compor o círculo está Sarah, filha do dono da loja, amiga de todos, e claramente apaixonada por Bear. Entre jovens tímidos e ainda a descobrir o mundo, há muitos sentimentos não ditos, e momentos de falta de coragem para dizer o que se sente. 

Parece uma típica comédia romântica, até à introdução do elemento sobrenatural, na forma de um produto colecionável que garante um desejo. É vendido em lojas esotéricas, e a maior parte dos que o compram nem sequer o usa, em mais um aceno às estéticas digitais do consumo de objetos icónicos que foram concebidos para ser mostrados mas não, realmente, usados (as Kodak Charmera são o exemplo mais recente dessa tendência). Amargurado  pela sua falta de coragem em assumir os sentimentos, Bear dá uso ao amuleto dos desejos, e fica logo surpreendido quando a reação da sempre distante Niki se transforma numa busca de proximidade imediata. A partir daí as coisas começam a correr de maneira estranha, até descambarem numa progressiva espiral de violência obsessiva. O desejo parecia inócuo, fazer a rapariga amar o rapaz, mas a personalidade da rapariga fica esmagada pelo efeito mágico, e o amor torna-se numa obsessão que ascende a extremos de violência, até um final quase irónico e muito infeliz. 

Para além das estéticas da nostalgia entrecruzadas com a modernidade tecnológica, o outro elemento que coloca este filme com um pé firme no terreno do momento contemporâneo é a sua temática. A história do desejo amaldiçoado é uma nada subtil metáfora para as relações tóxicas, amores obsessivos e desiquilibrados. É uma visão muito contemporânea que assenta no castigo que o rapaz sofre por estar a viver a sua fantasia de ser plenamente adorado por uma rapariga, embora com imensas nuances. Os rapazes não são machos tóxicos, há uma preocupação constante com o respeito mútuo, enquanto é muito sublinhada a perda de identidade das relações tóxicas de excessiva co-dependência. O horror não é a maldição dos desejos concedidos (algo que até é levado de forma muito leve por todos os que conhecem a história do objeto que os concede, chega a haver uma linha de apoio ao cliente que, como todas as linhas de apoio ao cliente, é disfuncional). Está, sim, na diluição da personalidade individual numa relação amorosa obsessiva.

Este filme é claro terror da geração millenial. Não é perfeito, tem momentos de tédio e outros de claro overacting, mas consegue um crescendo de tensão que explode num final portentoso, com gore q.b.. Uma nota especial para Inde Navarrette, que protagoniza a infeliz Niki. Começa de forma distante e discreta e acaba por levar todo o filme nos seus braços, com um desempenho alucinante que oscila entre o absurdo, o inquietante e o verdadeiramente arrepiante, num trabalho brilhante. 



sexta-feira, 12 de junho de 2026

Backrooms

Provavelmente a sensação mais estranha deste filme foi chegar ao final e aperceber-me que o tinha visto numa sala anódina, vazia, só com um espetador. E sair do cinema para me deparar com a estética de centro comercial que inspira as backrooms. Se isto fosse em amarelo, sentir-me-ia como tendo caído por entre os interstícios da realidade:

O filme explora as estéticas que são bem conhecidas pelos frequentadores dos lados mais underground das redes sociais - backrooms, vaporwave, nostalgia dos anos 90, com alguns recortes de dreamcore e tiktok far lands. Se estes termos vos são desconhecidos, este filme vai-vos parecer uma monumental seca, um filme de terror muito simples que passa a maior parte do tempo a levar-nos para recantos estranhos e levemente surreais. Se estiverem dentro destes temas, a sessão é passada em busca do manancial de referências visuais a estas estéticas digitais, como um imenso e interminável meme. 

Backrooms traz a estética de arrepio luminoso e surreal destas vanguardas visuais das redes sociais para o grande ecrã, e desenrola-se tal como aqueles vídeos curtos que nos caem nos feeds quando a noite já vai profunda e o nosso doomscrolling para combater o tédio e o cansaço que não nos deixa dormir deixa o algoritmo sugerir-nos vídeos verdadeiramente estranhos. Visões inquietantes de bem iluminadas anónimas arquiteturas interiores intermináveis que, ao olhar mais atento, não fazem sentido, uma extrapolação de iluminação florescente do conceito de não-lugar. Imagética utópica em tons sépia intrigante pela sua frieza. Ou vídeos que são uma colisão expressiva de cores e efeitos estroboscópicos, um assalto aos sentidos sem qualquer lógica. E, nalguns, criaturas que oscilam entre o horror visceral e uma normalidade que depressa desaba perante o olhar mais atento. 

Não sendo as estéticas prevalentes entre os feeds que alimentam o doomscrolling dos normies, têm mostrado que o vídeo nas redes sociais pode também ser espaço de experimentação crua, intrigando precisamente pela forma como desconstroem o sentido. 

É algo que funciona muito bem nos limites temporais dos vídeos curtos das redes sociais. Tenho visto alguns mesmo muito bons. A questão que esta longa metragem coloca é se a estética tem a capacidade de ser ampliada para as necessidades narrativas do cinema. E aí, saí da sala com as minhas dúvidas.

Como sequência de cenas estranhas e inquietantes, Backrooms funciona tal e qual como a estética de onde parte. O problema está na necessidade de lógicas narrativas do cinema clássico, de motivação para as ações da história e dos personagens, que não se coaduna com a lógica memética da sua base. Aqui o filme acaba por se tornar mais uma espécie de misto de horror psicológico com filme de monstros, mas não muito convincente. A nova estética da internet colide com a tradição narrativa do grande ecrã, e apesar das intenções, este não é o filme que faz a ponte com sucesso entre estes dois mundos visuais.

Os momentos mais arrepiantes do filme são precisamente aqueles onde menos acontece, onde o olhar da câmara se perde na imensidão labiríntica dos espaços modernistas interiores de cores quentes e iluminadas com luzes fluorescentes que rebrilham. Quando há o diálogo entre personagens, ou os monstros se revelam, perde-se o brilho memético.

Se perceberem as referências da cultura visual digital que forma a base deste filme, vão apreciá-lo, apesar do sentimento de alongamento excessivo de algo que é na sua essência uma longa colagem de memes.  Se não as conhecem, poderão achar intrigante como variante do terror clássico, onde o sentimento de estranheza e os maiores arrepios de medo vêm não das criaturas, mas do vazio dos espaços banais.

Atualizando, alguns dias depois de ter escrito este texto:

O curioso é que não tendo sentido este filme como uma obra fenomenal, a verdade é que persiste na minha memória. A não linearidade da história mostra-se uma forma intrigante de transferir a lógica de narrativa curta, vinda da internet e das linguagens pensadas para responder aos fluxos de doomscrolling. É profundamente pós-modernista, quer o realizador tenha lido a fundo Baudrillard, quer não. 

Persiste especialmente a sensação residual de estranheza dos backrooms. Há aqui algo a observar. O espaço do medo deixou de ser a noite, tão milenar; para trás fica a escuridão gótica de decadência que nos foi legado pelo século XIX; o terror urbano de estéticas de colapso social com zombies ou outras criaturas deixa de ser o fator que assusta. O novo horror é o vazio da arquitetura interior, transmutado nestes espaços que só se percebe que desafiam a lógica ao segundo olhar, cheios de brilhante luz artificial e artefactos banais que ganham um contexto inquietante. O novo inferno é o centro comercial vazio, o prédio de escritórios anódino, as infindas salas de espera da medicina, a uniformidade da arquitetura suburbana. Ou seja, a modernidade global, advinda da uniformização da cultura corporate. Os backrooms são a versão moderna da burocracia kafkiana, vastos desertos de realidade paralela cuja banalidade sedutora é o seu elemento mais assustador.

Um último pormenor de nota. Tem-se discutido a surpresa que é o sucesso deste filme, contrastando com o insucesso de propriedades intelectuais já estabelecidas, cujas novas estreias cinematográficas não atingem o sucesso esperado. Do meu ponto de vista, isto é um excelente sinal. A aposta recursiva de repescagem de ideias, personagens e estéticas que já foram de vanguarda mas agora são constantes repetições está a mostrar os seus limites. A paciência dos públicos tem o seu limite, e o cansaço de ver, rever e rever novamente as mesmas personagens e histórias de sempre está a revelar-se. Isso permite que, finalmente, as novas ideias que estavam sufocadas por um olhar mediático seduzido pelo marketing corporate consigam conquistar o seu merecido espaço. 

É o que faz sentido, cada época ter os seus ícones culturais.  Não faz sentido cultural este constante remisturar de personagens e narrativas nascidas nos anos 80, nem o argumento de nostalgia é suficiente para defender isto. Para perceberem o ridículo que é ainda estarmos a celebrar Star Wars ou outras propriedades intelectuais como novidade de vanguarda, imaginem que estaríamos a fazer o mesmo com personagens como Zorro, RinTinTin ou o Mascarilha. Até foi tentado, as maquinarias das indústrias culturais tentaram estes relançamentos, mas sem sucesso. 

Backrooms, e outras obras similares, mostram que a renovação de ideias na cultura pop está, finalmente, a tornar-se visível para o grande público. 


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Megalopolis

Saí da sala de cinema com a sensação que vi um filme daqueles que fica para a história. É tudo aquilo que dizem dele. Brilhante, pedante, literário, escandaloso, decandente, gritante, sedutor, caótico, desconexo, vulgar, elegante. Oscila entre exercício de estilo e crítica mordaz à contemporaneidade. É visualmente luxuriante. 

Não é um filme para todos. Não é acessível, simplista ou facilitista. Faz lembrar os momentos mais delirantes de Fellini (não me surpreenderia se Satyricon fosse uma das inspirações), e cruza um certo mito americano, de se imaginar como uma segunda Roma, com a decadência neoliberal contemporânea, onde conta o jugo nepotista dos bilionários. Atreve-se a sonhar utopias, enquanto desmonta a crise dos dias de hoje. É (e isso está explícito logo nos primeiros segundos), uma fábula. Mas não uma fábula discreta, o filme berra o seu ideário aos espetadores.

Este filme anda com  uma carreira maldita. Está a ser vendido como uma incursão de Coppola na FC (e, na verdade, é um maravilhoso filme de fantástico, mas não nos moldes tradicionais), o que tem o condão de desagradar a todos. À crítica porque, enfim, FC, essa mácula. Aos fãs de ficção científica, porque depressa são defraudados da expetativa de ver aventuras no espaço com tiroteios e explosões (hey, adoro FC... literária, no cinema a maior parte dos filmes do género são chiclete que nem vale a pena mastigar). Aos fãs de cinema de autor, porque não é a habitual história confortável ou o drama interior do personagem. Aos estúdios, porque não é mais uma variante de IP que requenta o mesmo conteúdo estafado de sempre. 

Eu, adorei. Saí da sala com a cabeça a zunir de ideias.

(Aplausos para a tradução do filme, que conseguiu apanhar subtilezas dos jogos de palavras, como, se não me falha a memória, traduzir "don't be so Emerson" como "não sejas tão transcendentalista").

terça-feira, 18 de outubro de 2022

O Quarto Perdido do MOTELX


João Monteiro, Filipa Rosário (org.) (2022). O Quarto Perdido do MOTELX. Lisboa: CTLX.

Tendo em conta o já de si exíguo espectro do cinema português, que embora rico, espelha um país periférico onde a expressão cultural tradicionalmente se centra nas elites, únicas capazes de ter o tempo e os recursos para se dedicarem às artes, falar de um cinema fantástico nacional é algo que se resume em poucas linhas. Alie-se a isso a visão que temos do cinema como algo de entretenimento de massas, ou seja de filmes feitos para agradar à maioria da população, mas também do cinema como eminentemente intelectual, espelho estético das grandes preocupações artísticas. Na vertente cinema popular, por cá sempre se preferiu o gosto popularucho (exemplo disso são as comédias clássicas dos anos 40, que agora estão a ser alvo de remakes visando precisamente o mesmo tipo de públicos), que garantia retornos. Na variante intelectual, com todo o seu peso cultural, temos de contar com uma atitude clássica das nossas elites culturais, sempre desdenhosa com géneros ligados ao fantástico. É um traço cultural que hoje se começa a esbater, os novos criadores já cresceram como consumidores de cultura fantástica americana, europeia, e japonesa, e isso tem-se traduzido numa maior abertura cultural, apesar do mau olhar persistente quando se tenta falar de fantástico em certos meios (na melhor das hipóteses, isso é assumido como um mero prazer culposo por parte de algumas figuras intelectuais da nossa praça).

E, no entanto, houve cinema português dedicado aos temas do fantástico e outros géneros. Ao longo da já longa história do cinema português, houve filmes que se atreveram a falar de fantasmagorias, ficções futuristas, assombrações, e até entraram nos campos mais exploitation. Portugal também foi palco de várias coproduções europeias de filmes de série B, daqueles maus mas deliciosos filmes de horror com zombies medievais, freiras marotas ou outras explorações.

Apesar do progressivo peso do lado comercial do cinema fantástico e de terror que se tem viso assumir no MOTELX, quer do comercial mainstream quer do comercial de nichos, este festival sempre fez questão de olhar para o potencial terror no cinema português. Sem dúvida, graças ao trabalho dedicado de João Monteiro, um dos seus organizadores, e talvez a única pessoa a desenvolver trabalho académico focado nas cinematografias de terror, fantástico e exploitation no cinema português (se não for o único, é o mais visível). O seu trabalho de recuperação da memória fílmica de António de Macedo é notável. Inesquecível, a sessão com a presença do realizador que lhe foi dedicada na edição de 2016, com aquela ovação em pé dos espetados na sala principal do S. Jorge apinhada. Se bem me recordo, infelizmente, foi das últimas aparições públicas de Macedo, falecido meses depois.

Como espetador deste festival, confesso que a seção Quarto Perdido é das que mais aprecio. Sei que oferece sempre filmes obscuros da história do cinema português, tornados raros pelo clássico desprezo do cinema de género pelas elites intelectuais que são, simultaneamente, aqueles que gerem os sistemas de financiamento público do qual depende o cinema português.

A recuperação desta memória é importante, não só pelo redescobrir das obras. Hoje, os espectros culturais são mais alargados, e isto mostra a novas gerações que por cá, houve precursores, cineastas que experimentaram com estes temas, de forma isolada por todas as razões já elencadas, ou, quando de forma sistemática, a custar-lhes a carreira como realizadores. 

A lista de filmes portugueses ligados ao fantástico não é muito grande. Este livro recupera a sua memória, com ensaios dedicados aos principais filmes. Recupera a memória de filmes, dos seus realizadores, temáticas e inspirações. Podemos não ter por cá um longo historial de cinema fantástico, mas o que temos merece ser descoberto. E nisso até incluo estopadas como O Cerro dos Enforcados, belíssimo apesar do ritmo teatral lírico que era marca de época. 

domingo, 20 de outubro de 2019

URL

Ficção Científica


Big orange planets: Apenas isso, como tema para mais uma recolha de ilustração clássica de FC pelo 70s SciFi Art.

"Mar de Aral" totalista dos Galardões BD Comic Con: Na semana passada apostei nos possíveis vencedores dos Galardões BD da Comic Con (uma das raras contribuições deste evento tipo plantio de eucalipto para o panorama cultural nacional). Só me enganei numa, o de melhor desenho também foi para Mar de Aral. O livro que limpou os prémios, algo que não é tão positivo quanto parece. Sem querer desmerecer o sempre excelente trabalho de José Carlos Fernandes e a surpresa que foi o trabalho de ilustração Roberto Gomes, esta falta de diversidade apoquenta um pouco. Por outro lado, é a Comic Con, que cada vez mais me parece ser um fenómeno financeiro a explorar o nicho de mercado geek, do que um evento com vontade de ganhar peso cultural.

This Video Primer Is a Perfect Introduction to Stephen King's Horror Fantasy Multiverse: Não tão complexo quando os Cthulhu Mythos desse outro escritor da Nova Inglaterra, mas a obra de Stephen King também contém locais, personagens e objetos que aparecem em histórias diferentes, criando uma ligação metaficcional.


Science Fiction Inspires the Future of Science | National Geographic: As ligações de inspiração entre Ficção Científica e a inovação em ciência e tecnologia, exploradas neste vídeo da National Geographic que olha para Inteligência Artificial, automóveis autónomos ou robótica, entre outros pontos onde as ideias da ficção alimentaram a inspiração dos cientistas.


WHO IS THE MASTER WHO MAKES THE GRASS GREEN? (ROBERT ANTON WILSON): No que toca ao cinema português, dificilmente haverá cineasta mais futurista e experimental do que Edgar Pêra. Vai colocando no YouTube alguns dos seus trabalhos clássicos, pérolas de uma cinematografia sem compromissos, que se atreve a ver o mundo de formas realmente diferentes. Nesta curta, as palavras do guru da contra-cultura Robert Anton Wilson ganham vida de formas inquietas.

Comics


The Lost Issue of Grant Morrison and Chas Truog’s Animal Man From 1988 – “Dominion”: Vestígios de uma história da temporada de Grant Morrison à frente de Animal Man, nunca publicada por confusões relativas à finalização de Invasion, um dos primeiros mega-eventos da DC, em que a Terra é cilindrada por uma força combinada de alienígenas. Pelos vestígios partilhados pelo então ilustrador de Animal Man, a história deveria valer a pena.

Brazilian Court Backs Rio Mayor’s Ban on LGBTQ Comics; YouTuber Felipe Neto Buys Them All, Gives Them Away: O nível de absurdismo desta história de um presidente de câmara ligado à IURD e da edição brasileira de uma aventura dos Vingadores editada originalmente em 2010 mostra bem o absurdo quando os extremismos ideológicos chegam ao poder. A ordem presidencial é um excelente exemplo de homofobia pura, e analfabetismo funcional na escrita de textos.


BD portuguesa na Fête de la BD: É sempre uma boa notícia saber que os artistas portugueses de banda desenhada são destacados no exterior. Desta vez, na festa da BD em Bruxelas.

Biomechanical Landscape II, by H.R. Giger: As visões proto-dark cyberpunk de um estranho artista suíço, que se tornou global graças à iconografia que criou para o clássico filme Alien.

Lost in the Time Vortex: The American Cult of ‘Doctor Who’: Uma série atípica e esquisita, mesmo nos domínios da ficção científica. Doctor Who é daqueles universos que, citando a frase batida, primeiro estranha-se e depois entranha-se.


James R Bingham - The Beast From 20,000 Fathoms, by Ray Bradbury, illustration for Saturday Evening Post, June 1951: Uma das histórias mais arrepiantes de Bradbury, ilustrada com um major spoiler.

It Chapter Two's Queer Subplot Is Too Subtextual to Be Scary Good: Eu iria mais longe. Toda a vertente narrativa queer de It parece-me uma atabalhoada tentativa de captar espetadores nesse segmento de mercado. O arranque do filme é fortíssimo nesse aspeto, com o (spoiler alert) ataque violento a um casal gay que motiva o reaparecimento de Pennywise. E ao longo do filme apercebem-nos de uma tensão não resolvida entre dois personagens masculinos, mas que se resolve de forma sacarina com a morte de um. Os elementos estão lá, mas parecem mais decorativos do que nucleares no filme. Que, diga-se, é bastante medíocre na generalidade.

Star Wars Wings, Ranked: Não me considero exatamente ignorante no universo Star Wars, mas não imaginava que existiam tantas alphabet wings. Mas, no fundo, não há wing como o mítico X-Wing.

[OP-ED] “It Chapter Two” and the Rise of the Money Driven Sequels: Já tive a oportunidade de ver este filme, e o melhor dele é o cameo de Stephen King. Se o primeiro capítulo foi interessante, este só tem alguns momentos de verdadeiro suspense, e usa demasiado a estratégia in your face com monstros de CGI questionável para arrancar reações à audiência. Pennywise, o monstro, tem tanto screen time que se torna mais fácil empatizar com ele do que com os heróis do filme. É, de facto, um daqueles filmes em que passamos o tempo a olhar para o relógio a ver quando é que aquilo acaba. Dividir It em dois filmes até faz sentido, afinal são dois livros, mas este é mais um sintoma do mal clássico de Hollywood, as vistas curtas do lucro a curto prazo.


Some Bunnies To Love: The 2019 Dragon Con Bunny Hutch!: A culpa do fetiche das meninas vestidas como coelhinhas em trajes menores vem dos tempos em que o sexismo era cool, da Playboy de Hugh Heffner. Felizmente, a sociedade evoluiu. De tal forma que esta iconografia foi apropriada por cosplayers, de formas… inesperadas, e divertidas.

Dédalo – A Short Film Tribute to Space Horror: Um tributo muito bem feito a Alien, e à cinematografia de terror, criado por portugueses. Os modelos usados são fabulosos, estiveram em exposição num dos SciFi Lx.

Tecnologia



Leonardoesque Robot Brains, the Harvard Mark I, and a Peek into the Future of Computing (1944): Num artigo de 1944 sobre o potencial de cálculo dos computadores, surge esta ilustração decididamente cyberpunk.

AI Is Coming for Your Favorite Menial Tasks: Uma análise do impacto, que já está a acontecer, dos sistemas de Inteligência Artificial no apoio a tarefas cognitivas avançadas. Intrigante, este insight: "What’s less understood is that artificial intelligence will transform higher-skill positions, too—in ways that demand more human judgment rather than less. And that could be a problem. As AI gets better at performing the routine tasks traditionally done by humans, only the hardest ones will be left for us to do. But wrestling with only difficult decisions all day long is stressful and unpleasant". Um dos grandes argumentos a favor da automação é precisamente o libertar o humano das tarefas repetitivas, permitindo foco no complexo. Mas nós não somos máquinas, e não estamos constantemente em alta rotação. Ao contrário das IAs e robots, precisamos de downtime.

7 documentales sobre inteligencia artificial y robótica que puedes ver en Internet: Excelentes sugestões para compreender melhor quer a inteligência artificial, quer a evolução da tecnologia.

STEM Is Overrated: Confesso que nunca tinha visto as STEM sobre este ponto de vista. Até porque, nos núcleos de professores inovadores em que participo, as STEM (e o ensino prático), são vistas como um dos muitos elementos integradores de uma educação para a vida, não como um espartilhar de aprendizagens limitativas. Não agimos assim, e falamos abertamente de STEAM, a integração das artes com ciências, tecnologia e matemática (é o significado do acrónimo STEM, para os eventuais não-professores entre quem estiver a ler isto). Mas, de facto, há o risco do foco nas STEM ser limitativo, e tornar-se um meio de incentivar treinos vocacionais a largos espectros da população, enquanto as dimensões de aprendizagem mais profundas ficam reservadas a elites.

Things get weird when a neural net is trained on text adventure games: Tenho de inventar tempo para experimentar isto. Algoritmos de IA que geram jogos de texto a puxar para o surreal é uma ideia irresistível.

Will Artificial Intelligence Change Our Relationship With Religion?: Soa a cenário de ficção científica, e inquieta o nosso substrato cultural vindo da mitologia judaico-cristã. Mas para culturas mais animistas, mecanizar a devoção é algo natural. No entanto, até um ateu percebe o carácter profundamente humano da religião, e artificializar com tecnologia sente-se como o ultrapassar de uma barreira milenar. Isto sem entrar em eventuais cultos à máquina inteligente. Isso será todo um outro nível.

Uber argues its drivers aren’t core to its business, won’t reclassify them as employees: Se perguntarem qual é o grande problema trazido pelas plataformas da sharing economy (uma designação enganadora, porque quem participa nela tem nesta atividade o seu trabalho principal), é este. A forma como assumem a hiper precarização laboral, é recusam o óbvio. Não é uma questão de semântica para a Uber dizer que os seus motoristas trabalham com ela e não para ela. Na prática, é a segunda hipótese. Mas insistir na primeira retira-lhes as responsabilidades sociais.

Modernidade



Masataka Nakano Has Been Photographing a Deserted Tokyo for Almost 30 Years: Não é só um trabalho de olhar fotográfico, é um de enorme paciência, de esperar pelo momento certo - e mágico, em que a cidade se parece esvaziar de pessoas.

Joi Ito resigns as MIT Media Lab head in wake of Jeffrey Epstein reporting: O que me está a deixar estarrecido nos escândalos relacionados com o caso Epstein é a extensão das pessoas deduzidas pelos lustres do um percentismo, mesmo sabendo dos crimes de pedofilia de quem os introduzia nesta espécie de Jet set intelectual. Como alguém que sempre admirou o trabalho de Jonh Brockman, Nick Negroponte ou Joi Ito, é uma desilusão vê-los associados a isto.

Someone made a version of ‘Civilization’ that runs in Microsoft Excel: Hey, finalmente um uso útil para o Excel! Devo dizer que conseguir programar um clone de um jogo clássico de estratégia para correr no Excel é um toque de génio. E, também, a desculpa perfeita para combater o tédio no escritório.

The Problem(s) with Goodreads: Sou um utilizador compulsivo do Goodreads, uso-o como forma de listar as minhas leituras. Mas tenho de concordar, quer o site quer a app parecem estar presas ao tipo de usabilidade que era de ponta no ano 2000.


B-2 Spirit Stealth Bomber Performs Hot-Pit Refueling At Lajes Field, Azores: Aposto que neste momento, todos os sofredores do mal de ser fanático de aviação estão a pensar no mesmo: bolas, adoraria ver isto ao vivo!


How “Ulysses” Became A Scandal And Changed The Definition Of Obscenity In America: Se nunca leram este romance fundamental do modernismo literário, é de facto algo maroto nalguns momentos (indeciso entre os devaneios húmidos do Senhor Bloom na praia ou o fantástico monólogo interior de Molly). Mas, na primeira metade do século XX, foi uma obra escândalo que motivou longas batalhas legais entre editores contra leis anti-obscenidade.


*Is Barbie dead enough?: Coisas not sure if… Um bom exemplo de interculturalidade, ou apropriação capitalista descarada de iconografias culturais?

The Shocking Costs Of Doing Art History Research: De facto, ser investigador não é barato. Se não se tiver acesso via instituição, ler artigos de investigação fica bem caro. E de acordo com este relato, a coisa é pior para quem investiga história de arte. Porque museus, arquivos e instituições gostam de cobrar pelo acesso e registo fotográfico que os investigadores têm de fazer para melhor estudar o seu acervo. Pior, e esta surpreendeu-me. Editoras universitárias que cobram pela edição (um modelo curiosamente similar ao das vanity press).

Hidden London: New Book Explores the City’s Forgotten Underground: Há pessoas que têm empregos de meter inveja aos restantes míseros humanos. Como, por exemplo, ser responsável pelos mundos subterrâneos que sustentam os nossos espaços urbanos. Infraestruturas fascinantes, de que não nos apercebemos quando passamos por elas nos metros, e das quais só temos alguns vislumbres graças às aventuras dos fotógrafos exploradores urbanos.

A Vision of the Future: 1911 Takes a Look at 1950: É sempre interessante olhar para o retrofuturismo. Percebemos muito sobre a forma como evoluímos a partir das visões sobre o futuro vindas do passado. Nestas, há uma que me surpreende, a visão daquilo a que hoje chamamos tecnologias verdes. Infelizmente para o ambiente, ainda hoje não são o nosso principal meio de produção energética, e muito menos em 1950, como pensado em 1911.

domingo, 22 de setembro de 2019

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The Generative Portraiture of Espen Kluge: Uma intrigante utilização de algoritmos generativos nas artes visuais, que escapa ao típico abstracionismo das obras criadas com programação.

A French Chateau Hoarding the World’s Largest Private Collection of Fighter Jets: Se eu tivesse um castelo, e finanças a condizer, diria que se calhar também seria assim. A coleção é grande, e parece bem preservada.

24 of 'Internet of Sh*t's' Technological Fails That Make Reality Seem Like a Crappy Dystopia: A IoT tem a sua utilidade, especialmente em processos industriais e de gestão. Menos úteis (oscilam entre o completamente inútil, o estúpido e a vigarice pura) são os equipamentos de consumo que se ligam à rede. Chamem-me velho do Restelo, mas tenho alguma dificuldade em perceber a lógica de cafeteiras dependentes de software ou escovas ligadas à Internet. Ainda por cima, os riscos de segurança digital associados a estes dispositivos são enormes.


Animated Rendering of Space Battles With Nuclear Orion Spaceships: O conceito de propulsão do projeto Orion é daqueles que nem no papel soa bem. Este projeto clássico de desenvolvimento de naves espaciais propunha um sistema de propulsão em que as naves seriam propulsionadas por sucessivas explosões de bombas atómicas na sua traseira. É daquelas coisas que se pensa logo ah, o que é que poderia correr mal. Mas não deixa de ser parte da história da exploração espacial, e esta animação 3D mostra como é que poderiam funcionar.


Wedged Wonders: pointy concept cars of the seventies: Quando o design automóvel futurista envolvia muitos ângulos e arestas vivas.

The Pint-Size Nation off the English Coast: O mundo das micronações oscila entre a brincadeira e o bizarro. A maior parte destes territórios que se proclamam independentes são devaneios dos seus criadores. Sealand é a exceção. Uma plataforma de artilharia dos tempos da II guerra ao largo do reino unido, foi ocupada por uma figura muito colorida, que declarou o território como soberano. Sealand e as suas histórias são bizarras, e parte delas envolve ética, no mínimo, questionável.


Check Out This Sort-Of Parody “Top Gun: Maverick” Trailer Featuring Japanese F-4 Phantoms: Uma prenda para os amantes de aviação. Usando a banda sonora de Top Gun, os pilotos do esquadrão de reconhecimento da JASDF baseados em Hyakuri filmaram os seus clássicos RF-4J. E diga-se que está muito bem feito.

Morals ex Machina: Should we listen to machines for moral guidance?: O que é que poderia correr mal se se externalizar decisões éticas em algoritmos de IA? Começaria pelo problema do garbage in, garbage out, o dos enviesamentos no treino de algoritmos. Ou o carácter black box, em que poderemos não saber exactamente que pressupostos estão por detrás das decisões. O que mais arrepia é o abandono da capacidade de escolha e decisão moral, delegando essa responsabilidade numa entidade externa. Algo que até tem sido comum na história humana, os que seguem religiões e ideologias estão, essencialmente, a delegar as suas escolhas e decisões em entidades externas. Mas se há algo que herdámos do iluminismo, é a ideia que para sermos realmente livres, temos de ser capazes, e corajosos, de pensar pela nossa própria cabeça, seguindo os princípios éticos humanistas. Claro que é sempre mais confortável delegar em terceiros, é simples e alivia a responsabilidade.

Botticelli’s Venus Was Real, and the Original Blonde Bombshell: Chamava-se Simonetta Vespucci, e era a mulher mais bela da corte dos Medici. A sua beleza inspirou Botticelli, mas não só. Ficou imortalizada no nascimento de Vénus, um daqueles quadros seminais da história e da arte.

Training bias in AI "hate speech detector" means that tweets by Black people are far more likely to be censored: É mais um exemplo de garbage in, garbage out em Inteligência Artificial. Um algoritmo criado para detetar discurso de ódio nas redes sociais mostrou tendência a identificar este tipo de discurso, prevalentemente, em utilizadores não brancos. Não por o discurso ser realmente de ódio. O problema está na forma como a IA foi treinada.

Paperbacks from Hell' Go To The Movies!: Fico na dúvida. Isto é uma lista de filmes de terror trashy para ver, ou de livros de horror over the top para descobrir?

This Ain’t Walden Pond, Mate: Os detox digitais tornaram-se moda, mas na verdade quem alinha nestas coisas apenas está a sublinhar a sua incapacidade de gerir a imersão nos fluxos constantes de informação. A solução não está no corte, no encerrar contas em apps e redes sociais, mas sim encontrar estratégias de gestão, que serão sempre, necessariamente, pessoais (a minha? Por paradoxal que pareça, é não estar constantemente ligado, excepto quando estou a trabalhar na minha profissão principal. Não é detox, é inverter a necessidade de constante conexão). Algo que passa muito pelo foco nos fluxos e aplicações que realmente nos interessam.

Reddit, with wigs and ink: Estamos habituados a pensar no jornalismo como um bastião de fiabilidade e objetividade, mas na verdade só em meados do século XX é que os critérios de rigor e isenção se estabeleceram. Até lá, os jornais eram panfletários e polémicos, mais interessados em arranjar notícias sensacionais para vender (até mesmo criar acontecimentos para gerar notícias) do que em transmitir com isenção. Não sei se se recordam de Hearst, magnata dos media no princípio do século, a afirmar que a opinião pública era ele que a fazia? O artigo vale bem a leitura, nem que seja por isto: "the new medium would spread half-truths, propaganda and lies. It would encourage self-absorption and solipsism, thereby fragmenting communities. It would allow any amateur to become an author and degrade public discourse". Parece que estamos a falar da Internet, blogosfera ou redes sociais, não parece? Na verdade, era assim que se qualificavam os jornais nos séculos passados.

Human dressed as TV trolls town by leaving TVs on people’s porches: Claramente, é um fã da série de comics Saga, que levou o cosplay muito a sério.

Passenger name records (PNR) for the prevention of terrorist offences and serious crime [European Parliament impact 2014-2019]: A União Europeia é exímia em ter leis discretas que nos afetam a todos, sem nos apercebermos disso. Este é um exemplo, o registo dos passageiros de linhas aéreas, que regista não só a informação de base, como preferências manifestadas durante os voos. Percebe-se a lógica, mas o potencial para abuso de informação está lá. Se vivemos num país onde não esperamos que este tipo de informação seja abusada por sistema, recordem-se que há estados da UE perigosamente próximos do fascismo (sendo a Hungria o caso mais óbvio).

Smartphones, Except Landlocked: Uma  história dos telefones fixos com capacidades digitais de acesso a informação e aplicações. Equipamentos que permitiam fazer aquilo que os smartphones de hoje tornaram normativo.


Robert McCall: É preciso explicar? Ainda por cima 2001, essa obra magistral.

Exploiting GDPR to Get Private Information: Não demorou muito. Os mecanismos de solicitação de informação pessoal detida por entidades sobre indivíduos podem ser explorados para roubar dados. O como até é trivial, sabendo que as entidades têm de enviar a quem faça estes pedidos uma versão machine readable dos dados de que dispuser sobre o inquirente. O ponto fraco está mesmo aqui: se os mecanismos de validação da identidade de quem pede os dados forem fracos, torna-se possível um terceiro assumir a identidade de alguém, e ficar a conhecer os seus dados.

Review: The Mild Horror of “Scary Stories to Tell in the Dark”: Li os livros, vi o filme, e de facto o horror neste filme de terror acaba por ser muito leve. Mas o substrato histórico e social que carrega em cima das histórias originais é muito potente. Mas creio que o crítico da New Yorker esqueceu-se de um ponto importante: o público-alvo deste filme não são adultos, conhecedores profundos do género, mas sim jovens adolescentes. Fala-lhes diretamente à alma, entre os personagens outsiders que vivem as desventuras, quer a consciência woke de todo o filme. Suspeito que tenho alguns alunos que me vão falar, entusiasmados, de como acharam este filme fantástico. Nós, fãs conhecedores, sofremos muito deste viés. Queremos que tudo o que apareça nos seja relevante ou surpreendente, mas esquecemos que os novos públicos têm de se formar, de ser conquistados. Algo que não se faz com obras direcionadas para os fãs profundos.

Sorcerer’s toolbox found in Pompeii: Um achado arqueológico com toques de fantástico. No imenso tesouro que são as ruínas de Pompeia, foi recentemente descoberta uma caixa de amuletos, artefactos de feitiçaria e superstição dos tempos romanos.

The 100 Best Anime Movies of All Time: Mergulhem no Netflix, metam-se à caça nos torrents, peticionem a Cinemateca para prestar atenção a este género cinematográfico. 100 sugestões, a apontar a excelência, diversidade temática e estilística, do anime.

Supercomputer creates millions of virtual universes: Daquelas coisas que se lê e nos deixam com a arrepiante sensação que talvez sejamos meras variáveis num algoritmo de simulação complexo.

‘So Huge a Phallic Triumph’: Why Apollo Had Little Appeal for Auden: Há sempre quem não se deixe impressionar, ou levar por histerias coletivas. Note-se a resposta brilhante à questão sobre o que é que Armstrong poderia dizer como primeiras palavras na Lua.

A New Clue to How Life Originated: Um vislumbre revelador sobre os primórdios da vida.

The Storytelling Computer - Issue 75: Story: intrigante. Qual será a característica que realmente define o pensamento? A lógica, ou a capacidade narrativa? Privilegiamos a primeira, no entanto, é a segunda que nos tem servido como estrutura para memorizar e transmitir conhecimento, e fazer sentido do mundo. Os mesmos princípios estão a ser aplicados à inteligência artificial. E se esta for treinada na narrativa, e não na lógica (assente na análise de quantidades massivas de dados, que é a IA que temos agora?

Behold Ponyhenge, a mysterious herd of rocking horses that inexplicably multiplies and rearranges: Entre o surreal feérico e o creepy. Onde é que os cavalinhos de pau e dos carrosseis vão parar depois de abandonados? Imaginem a visão de um prado verde no nevoeiro, cheio de cavalos com tinta a descascar-se… Uma iniciativa de folk art, mas também uma bela premissa para filme de terror.

Judging Dredd: A Brit and a Yank Discuss the Legendary ‘2000 AD’ Strip: Se não conhecem Judge Dredd, estão a perder o melhor da banda desenhada pop britânica. É, talvez, dos mais subversivos personagens dos Comics. Vive num futuro distópico, onde o planeta foi destruído por uma guerra nuclear (uma preocupação vinda dos anos 70 e 80). Os sobreviventes congregam-se em gigantescas megalópoles, que não são abrigos infectos, mas sim cidades futuristas compostas por gigantescos edifícios que funcionam como quarteirões. Grande parte da população não trabalha, o que não implica pobreza, todos têm direito a um mínimo de sobrevivência. O maior problema é encher o vazio das vidas num mundo em que o trabalho é automatizado (o que tem dado o mote a belíssimas histórias que analisam com enorme ironia as nossas modas e tendências de entretenimento, dos desportos aos Reality-shows). As cidades estão rodeadas de desertos radioativos e oceano negros, povoados por mutantes. Mas não está aqui o seu lado subversivo. Está na figura dos juízes, upgrade high tech à imagem do xerife do velho oeste. A força policial que se substituiu aos políticos e governa as cidades com punho de ferro (em bom rigor, com a pistola lawgiver no punho, capaz de disparar desde balas a munições explosivas) . E não há juiz mais duro e rigoroso na aplicação da lei do que Dredd. A ironia crítica aos autoritarismos passa muitas vezes despercebida aos leitores, mas é o que dá energia ao personagem. Dredd é uma colisão entre os futurismos de Huxley e Orwell: não falta soma numa sociedade anestesiada pela tecnologia de consumo, e também há botas cardadas a esmagar os rostos.

Why China’s Army Still Rides Yaks: É sempre intrigante o cruzamento entre high e low tech. Nas remotas zonas montanhosas de Xinjiang, o melhor meio de transporte ao dispor dos soldados chineses é o venerável iaque. Cavalaria de Iaque soa tão, mas tão bizarro.


Man as Industrial Palace now in motion: devo dizer que adoro esta ilustração clássica de Fritz Kahn. Não só pela sua qualidade estética, e herança direta do modernismo, mas por mostrar a importância que colocamos nas metáforas para compreender o mundo. Tempos houve em que o corpo era visto como um mecanismo de relojoaria, insuflado por espírito ou energia. Hoje, recorremos aos algoritmos e à computação como forma de compreender quer como pensamos, quer os sistemas complexos em que estamos inseridos. No auge industrial da era moderna, a metáfora era a máquina, a linha de montagem.

It's All Greek to You and Me, So What Is It to the Greeks? : Ok, indo direto ao assunto, chinês. A expressão grega equivalente ao nosso "ver-se grego" é ver-se chinês. É curioso que esta é uma expressão transversal a todas as línguas europeias. Pessoalmente, percebo. Grécia faz-me sentir analfabeto, não só por não conhecer a língua, mas porque qualquer sinalética, texto, tudo o que envolva letras no alfabeto grego é incompreensível para quem não o conheça. É assim que se sentem os analfabetos no dia a dia, incapazes de decifrar os códigos visuais que são a base da literacia.

You Probably Haven’t Heard *Of* This Tune, But You’ve Almost Certainly Heard It. Is It History’s Most Enduring Melody?: vinda de um cancioneiro português do século XV, esta melodia manteve-se viva ao longo dos séculos, quer na música erudita quer na popular. É ao ouvir as versões quinhentistas dela, surpreende o quanto soam à música pop de hoje. Daquelas músicas que todos conhecem, mas ninguém se lembra exatamente de onde a ouviu. O perfeito, e erudito, exemplo de vírus aural.

One Family’s Story of Survival Under the Khmer Rouge, No Longer Buried: Fotografia e memória, na história de uma família que sobreviveu a um dos mais violentos e sangrentos regimes ditatoriais do século XX.

2001: A Space Odyssey pushed blockbuster cinema to a new plane of star-child brilliance: Nunca me canso de ler sobre este, que é o mais sublime dos filmes de ficção científica, talvez aquele que capte melhor a essência do género.

Swipe right for revolution: Why Hong Kong protesters are using Tinder and Pokémon Go: O que é que se faz quando se luta contra um adversário que controla todos os meios de comunicação? Improvisa-se, cooptando aplicações para usos inesperados de guerrilha urbana.

What Is the Greatest Movie Quote of All Time?: Que desilusão de escolhas. Ninguém se lembrou de Schwarzenegger no filme Erasure, a mandar crocodilos desta para melhor dizendo you're luggage.

“We are not publishing such fiction” – Sleep with Lisbon by Fausta Cardoso Pereira: Uma excelente análise das problemáticas da edição de ficção científica e fantástico por cá. Há o desinteresse, ou melhor, o desdém das editoras e ambiente cultural por este tipo de ficções. Há as comunidades de leitores, que se alimentam de ebooks ou encomendas da Amazon ou Bookdepository, porque sabem que dificilmente conseguirão ler o que gostam traduzido para português. Algo que não passa despercebido aos potenciais editores, que sabem que o seu mercado potencial já leu em inglês os livros que lhes poderiam vender. E o terrível paradoxo de um excelente romance de fantástico português, premiado e editado na Galiza, mas impossível de encontrar nas livrarias portuguesas, e rejeitado pelos nossos editores (true story: é um livro fácil de encontrar nas livrarias de Santiago de Compostela).

Concept art for the Lancia Stratos Zero, by G. Betti, 1971: Um sopro de futurismo do passado.

Navy ditches touchscreens for knobs and dials after fatal crash: A primeira reação a isto é pensar que, afinal, os interfaces analógicos são mais eficazes que os digitais. No entanto, a leitura revela que a falha aqui foi de treino de tripulações, e de design de interface mal concebido.

domingo, 18 de agosto de 2019

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MAAN/MOON: The only exhibition that sparked my enthusiasm about space exploration: Um curador a sofrer de ennui artístico vai a uma exposição que cruza arte com ciência, na celebração da exploração espacial, e sai de lá fascinado. Pela descrição, espero que seja daquelas exposições que chegue ao MAAT.

What if your boss knew how much you slept last night?: Com toda a seriedade, investigadores desenvolvem uma aplicação que permite a empregadores monitorizar o tempo de descanso dos seus funcionários, mesmo fora do local de trabalho. Os objetivos até são bons, perceber se as pessoas não estão a ter trabalho excessivo é um deles. Mas... algo me diz que dificilmente este tipo de aplicações seria usada de forma tão benéfica. Já para não falar da enorme invasão da privacidade que isto representa.

Make-Believe in Macau: Um vislumbre da vida de luxo dos jogadores dos casinos mais exclusivos de Macau, vista pelo olhar de uma consultora que é paga para fingir que pertence ao mundo exclusivo dos luxos, por uma empresa que avalia a qualidade dos hotéis e serviços topo de gama. Há empregos piores...

Complete run of MAKE magazine on archive.org: Isto soa mal, mas há vantagens na Make: Media se ter afundado na falência. Agora, todo o arquivo da fantástica Make: Magazine está disponível online.

Your Smart Toaster Can’t Hold a Candle to the Apollo Computer: É um cliché, dizer que um telemóvel atual tem muito mais potência computacional do que a NASA dispunha quando levou o homem à Lua. Mas nestas coisas da computação, potência não é tudo. Na verdade, é uma questão de capacidades. O final do artigo diz tudo, quando o autor observa que de facto, os nossos smartphones são dispositivos computacionais poderosos, mas só os usamos para consultar apps de redes sociais.


Ray Harryhausen’s Restored Models Revealed on 99th Birthday: Conhecedores do cinema fantástico sabem o quão incontornável é o trabalho de Harryhausen do domínio dos efeitos especiais. Para celebrar o seu nonagésimo aniversário, algumas das suas mais icónicas armaturas estão a ser restauradas. E continuam espantosas.

Singapore Says It’s Fighting ‘Fake News.’ Journalists See a Ruse.: Quando o combate à propaganda e fake news é, em si mesmo, um meio de reforço dos autoritarismos. O caso de Singapura é flagrante: as leis de combate às notícias falsas podem tornar-se uma forma de silenciar o pouco jornalismo independente que sobrevive na cidade-estado. A ironia? As fake news são uma arma propagandista de eleição dos regimes autoritários, quando querem desestabilizar as democracias ocidentais.


The First Pictures From Rick and Morty Season 4 Are Uncharacteristically Blissful : E o que é Rick and Morty, perguntam-se? Talvez o best. Scif-fi. TV show. Ever (digam isto na voz do comic book guy dos Simpsons). Depois de três temporadas insanas daquela que é a série mais descarrilada, e culta, cheia de referências a toda a cultura geek, tem um regresso marcado para breve. Só digo uma coisa: wubbalubbadubdub! Quem conhece, percebe.

“Rick and Morty” Season 4: I’m Mr. Meeseeks! Here’s Your SDCC Preview!: Mais alguns detalhes sobre a nova temporada de Rick and Morty. Poicos, muitos poucos para satisfazer a curiosidade.

Here Are All the Screw Ups in the Top Gun: Maverick Trailer Already: O que é que acontece quando conhecedores da aviação militar naval norte-americana vêem o trailer do novo Top Gun? Uma lista de tudo o que está errado.

Here Are Your 2019 Eisner Awards Winners: A lista dos nomeados, e vencedores, dos prémios Eisner. Uma excelente lista do melhor que se faz atualmente nos comics.

QR is King: Um relato incrível da experiência chinesa com dinheiro digital, que se tornou tão ubíquo nas cidades que substituiu totalmente os pagamentos em dinheiro ou cartão. O telemóvel tornou-se o meio essencial de pagamentos. No entanto, não há qualquer interesse chinês em fazer alastrar estes sistemas à escala global, exceto para chineses em viajem pelo estrangeiro. Os motivos não são económicos, mas políticos. Na sociedade de hipervigilância em que a China se tornou, sistemas de transação digitais são mais uma forma do governo manter debaixo de olho o que os cidadãos estão a fazer.

Monkeywrenching the Machine: Perante uma tecnologia pervasiva, haverá sempre quem a queira - ou precise, subverter. Com inteligência artificial, é relativamente simples subverter os algoritmos. A regra é clássica: garbage in, garrbage out. As técnicas baseiam-se em subverter os parâmetros de análise dos algoritmos, distorcendo intencionalmente os seus inputs. Pode ser uma opção de revolta, tática de cibercrime, ou estratégia de defesa contra a hipervigilância em regimes autoritários.

Las 14 novelas de ciencia ficción y fantasía que han ganado el Premio Minotauro hasta el momento: Não há por cá um prémio que distinga a literatura de ficção científica e fantástico tal como do lado de lá da fronteira. Desculpem, minto. Por cá temos o Adamastor, organizado pelo Fórum Fantástico, mas que vai na sua terceira edição. Temos ainda algum caminho a percorrer, mas estamos a fazê-lo, finalmente. Em Espanha, há catorze anos que há prémios para o melhor da ficção fantástica, e os seus vencedores parecem ser uma excelente introdução ao melhor da FC em castelhano.


25 Essential Artworks of the Past 50 Years: Escolher as melhores obras de arte contemporâneas é uma daquelas discussões infindáveis. O New York Times atreveu-se a desafiar um grupo de curadores a definir quais as obras mais influentes.

Steve Bannon used location targeting to reach voters who had been in Catholic churches: Poderia comentar o crescimento dos extremismos e dos discursos polarizantes e violentos, mas creio que a verdadeira história aqui é outra. Está na forma em que mostra como os nossos dados digitais são agregados e utilizados, aqui num exemplo extremo, mas que é prática corrente na economia digital. Quando se diz que os dados são o novo petróleo, é a isto que se referem.

HOW U.S. TECH GIANTS ARE HELPING TO BUILD CHINA’S SURVEILLANCE STATE: Podia olhar para esta notícia sob a perspetiva da distorção financeira dos valores de liberdades e garantias. Mas, tal como na leitura anterior, a minha intuição diz-me que o mais importante ponto de reflexão desta notícia não é o mais óbvio. O que me deixa realmente surpreendido é a escala gargantuesca e profundo nível de intrusividade dos sistemas de hipervigilância chineses. Graças à tecnologia digital, não há recantos mais recônditos da vida privada dos cidadãos que escape à vigilância estatal.

This AI turns your headshot into a portrait painted by a master: Nada de novo aqui, mas é sempre divertido experimentar. Este algoritmo de transferência de estilos foi treinado com imagens de pintura renascentista, e transforma fotos com base nesse estilo.

ZMORPH PUBLISHES MATERIALS LIBRARY FOR ADDITIVE AND SUBTRACTIVE MANUFACTURING: Um guia útil para ficar a conhecer melhor os materiais mais comuns para impressoras 3D e CNCs,