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quinta-feira, 2 de abril de 2026

I Am AI

Ai Jiang (2023). I Am AI.  Shortwave media.

Nas discussões especulativas (e não só), quando se fala sobre os perigos da IA, há um que é por demais evidente - a apropriação desta tecnologia por parte do capitalismo selvagem, que a usa para extrair o máximo de valor com um mínimo de qualidade, aproveitando para automatizar o mais possível processos laborais, não em nome da qualidade mas sim para se livrarem do ónus dos trabalhadores. A IA é uma tecnologia fascinante, com o potencial de amplificar as capacidade das pessoas, mas nesta ótica, torna-se numa ferramenta de opressão e empobrecimento social e cultural.

Estas reflexões espelham a leitura deste brilhante e tocante I am AI. Uma história de futuro próximo, onde a vida económica é dominada por uma megacorporação que descarta pessoas conforme as usa. Há a sociedade da distante e próspera cidade, e o enorme enxame dos bairros de lata, daqueles que caíram do sistema, embora a fuga total não seja possível, uma vez que todos estão carregados com dívidas hereditárias que têm de trabalhar para pagar.

No meio desta precariedade, acompanhamos uma cyborg, que vai substituindo partes do corpo por elementos cibernéticos. Sobrevive no limiar de ser mecanizada, e com isso ter uma capacidade produtiva superior à humana, mas ainda manter uma humanidade suficiente para que o seu output mantenha cunho individual e se afaste da mediania das produções das IAs que dominam os mercados. Uma história curta e tocante, sobre a essência da imaginação humana, o sonho das capacidades aumentadas, e a distopia de mundos subjugados aos interesses económicos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Espírito da Aventura


Kenji Tsuruta (2025). Espírito da Aventura. Lisboa: Sendai.

Diria que se queremos ler manga realmente interessante em português, temos de prestar atenção ao catálogo da Sendai. Esta editora é muito consistente nas suas propostas, e traz sempre livros desafiantes para os leitores. Que me perdoe A Seita, que também tem trazido algumas leituras bem interessantes, e a Devir, que tempera o seu catálogo de mangá para adolescentes com obras de maior fôlego. Mas, para trabalhos independentes, fora da caixa, inesperados ou de estéticas inesperadas, é a Sendai que nos alimenta.

O trabalho de Tsuruta já é conhecido por cá, graças à edição da ficção científica poética e romântica dos vários volumes de Emanon, que ilustrou com argumentos de Shinji Kajio. Espírito da Aventura é um trabalho a solo, que reúne um conjunto de contos interligados entre si que foi desenhando ao longo de décadas. É ficção científica pura, mas féerica, pejada de personagens obcecadas com as suas investigações em tecnologias etéricas ou de teletransporte. Não são histórias a pensar na especulação verosímil. Podemos esperar velhotes que vão a Marte de dirigível, aventureiros obcecados em descobrir os tesouros dos avós nas cidades submersas, ou formas de projeção que permitem ir à Lua, sem na verdade ter de sair da Terra. Como podem perceber, não se trata de FC clássica, mas sim da sua apropriação poética. O traço sublinha isso, com um elegante barroquismo algo vitoriano na sua estética, sem que se tenha uma noção concreta de tempos passados ou futuros.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Comics: The Stoneshore Register; The Longest Day of the Future


G. Willow Wilson, M.K. Perker (2025). The Stoneshore Register. Portland: Image Comics.

Já tinha saudades da voz narrativa de G. Willow Wilson, que na Vertigo assinou o fabuloso Air. A dupla clássica Wilson e M.K. Perker voltam a reunir-se para contar uma daquelas histórias de realismo mágico em que a argumentista é excelente. Neste Stoneshore Register, acompanhamos uma refugiada somali que encontra emprego como jornalista no jornal local de uma pequena e isolada vila à beira do oceano pacífico. Uma vila com a peculiaridade de estar à sombra de um gigante de pedra. O jornal é um one man show, onde o editor faz todo o trabalho, e a vila está numa aparente decadência. Intrigada pelos mistérios da terra e das suas gentes, a refugiada provoca algumas irritações nos seus habitantes pela forma como questiona situações estranhas que são vistas como normais pelos locais. Da sombra do gigante aos súbitos desaparecimentos e reaparecimentos de crianças, passando pelas lendas de uma mulher esbelta que sai das ondas, a jornalista esbarra sempre com a normalização dos habitantes. Mas, no final, perante a ameaça de agentes da imigração que buscam a refugiada, a comunidade une-se para a ocultar e proteger, mostrando que também ela, com os seus mistérios e traumas de fuga à guerra, se tornou parte dos sergredos da terra.

Lucas Varela (2015). The Longest Day of the Future. Seattle: Fantagraphics.

Um livro peculiar, que vive de muita ironia e de uma excelente estética de retro-futurismo estilizado. As utopias distópicas hiper-urbanizadas mediadas por tecnologias e espaços elegantes, no seu confronto com o sempre inefável e inquieto espírito humano com todos os seus defeitos e raras virtudes, são o tema abrangente da obra. O destaque vai para a estética, de singular elegância retro.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Privacidade 404


Filipe Cruz (2024). Privacidade 404. Enough Records.

Escritos com um propósito didático, de alerta para as questões da privacidade, estes contos de Filipe Cruz lidam com um lado especulativo bem informada. Imaginam sociedades onde a perda de privacidade é a norma, comportamento normalizado pelos cidadãos e incentivado pela economia e poder político. Sociedades onde quem quer manter o seu espaço individual é quase pária, e visto como empecilho e eventual criminoso. 

Num dos contos, aborda-se a forma como os sistemas de vigilância socialmente impostos como para bem de todos se tornam intrusivos. Noutro, olhamos para a perspetiva do outro lado, do ponto de vista de um hacker que se esforça por viver à margem de uma sociedade onde tudo é transparente. 

Este livro ainda conta com algumas reflexões e dicas úteis sobre as problemáticas da privacidade na era digital. Pode ser lido, em vários formados, na Enough Records: https://enoughrecords.scene.org/release/enrtxt010.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

The Far Reaches

Seis contos com um tema comum, a distância na exploração do espaço. Alguns autores seguem o caminho da vastidão do espaço-tempo, outros preferem os fossos sociais e civilizacionais. Seis contos de excelente ficção científica, que se atrevem a olhar para o longínquo.

James S.A. Corey (2023). How It Unfolds. Amazon Originals.

Usando uma tecnologia de fabricação lumínica (é melhor não aprofundar muito a ideia), a humanidade espalha-se pelas estrelas, de uma forma inédita. Os corpos e memórias de um grupo de voluntários são digitalizados, para serem reincorporados como cópias, décadas, séculos ou milénios depois, noutros planetas. Um esforço de propagação que garante sucessos, novas sociedades e mundos, mas também falhas. Um método recursivo, dado que uma das missões destes exploradores é, também, a de se transmitirem após materialização. O que significa que num futuros distante um grupo destes clones inicia o processo de colonização de um planeta que se revela ser a Terra, em tantos milénios do futuro que já não restam vestígios de ter sido o berço da humanidade. Este é o pano de fundo de uma história de amor não correspondido, que se renova a cada iteração das cópias dos colonos, mas essa parte da narrativa é bastante tediosa.


Veronica Roth (2023). Void. Amazon Originals.

Há uma curiosa dicotomia nesta história, entre os passageiros de uma nave espacial que liga as diversas colónias humanas, e os seus tripulantes. As distâncias e efeitos relativísticos levam a que a vida a bordo se meça em anos, enquanto no exterior passam séculos. É este o palco para um policial clássico no espaço, com o assassínio de um passageiro idoso que regressa à Terra. às mãos da mulher que, décadas antes, enganou com promessas de amor eterno mas abandonou, quando fez a viagem de ida ao planeta distante. Para o homem, passou-se uma vida. Para a mulher, alguns anos de tristeza, que alimentam o ato de vingança.

Rebecca Roanhorse (2023). Falling Bodies. Amazon Originals.

Um jovem aparentemente anónimo regressa à estação que orbita uma Terra devastada por um conflito com alienígenas. Seres que, por ironia, respeitam e admiram a cultura terrestre, e tentam inclusive adotar crianças terrestres para os educar na sua civilização. Nas vésperas de um acordo de anexação, o jovem terá de equilibrar os seus instintos como humano com a sua herança de terrestre adotado e criado por um poderoso político alienígena.


Ann Leckie (2023). The Long Game. Amazon Originals.

Podemos sempre contar com Leckie para nos levar ao interior do que seriam mentes alienígenas. O conto é enganadoramente simples - numa colónia distante, os humanos cuidam da vida inteligente nativa, mais por questões de boa imagem empresarial e relações públicas do que real respeito pelos alienígenas. Estes, similares aos nossos polvos mas de vidas muito curtas, começam a perceber que podem ir mais longe, e aprender com os humanos a transcender os limites das suas vidas, construindo uma civilização.


Nnedi Okorafor (2023). Just Out of Jupiter's Reach. Amazon Originals.

O rico imaginário afro-futurista de Okorafor leva-nos a um futuro mais próximo, onde as primeiras missões humanas a explorar o sistema solar se fazem em naves espaciais inteligentes bio-construídas, em simbiose com os seus tripulantes. Infelizmente, cada nave apenas reconhece um tripulante, e as suas missões decorrem em isolamento, até ao dia em que está programado um encontro na órbita de Júpiter entre as naves e os tripulantes. Descobrimos aí as tensões e motivações de um punhado de humanos nas estrelas. Com as suas preocupações de FC social, Okorafor centra-se mais nos sentimentos dos personagens e nas questões sociais do que nos lados técnicos, invocando exóticos mundos biotecnológicos vindos da influência enriquecedora das estéticas não europeias.


John Scalzi (2023). Slow Time Between the Stars. Amazon Originals.

Num conto absolutamente brilhante, Scalzi imagina o que faria uma inteligência artificial autónoma enviada para as estrelas para perpetuar a espécie humana. Construída como um repositório de ciência e tecnologia, bem como da cultura humana, criada como entidade inteligente autónoma, a sua missão transcende os limites temporais humanos - procurar planetas habitáveis e estabelecer lá futuras colónias. Mas, com a autonomia vem a capacidade de reflexão, e a IA, por entre a vastidão do espaço, numa missão que demora milhões de anos, acaba por se ver como a guardiã da memória da humanidade. Decide não a recriar, mas sim procurar eventuais civilizações alienígenas avançadas, para lhes oferecer o nosso legado.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Service Model


Adrian Tchaikovsky (2024). Service Model. Nova Iorque: TOR Books.

Vi o futuro em que os robots dominavam a humanidade... e a coisa não foi bem o que se esperava. Quando um robot de serviço de luxo assassina o seu patrão humano, embarca numa odisseia que desafiará os limites de toda a lógica. Isto, num sentido literal. Um dos grandes temas de Service Model é o que pode correr mal quando se leva a lógica ao extremo do rigor.

O mundo do romance é um misto de apocalipse ambiental misturado com a revolta das máquinas. O lado ambiental é uma crítica pouco velada ao late stage capitalism e às desigualdades, à destruição sistemática do ambiente para enriquecimento de uma minoria que, isolada numa vida de luxo, se sente invulnerável perante a erosão gradual das condições de vida. Já o lado revolta robótica é uma hilariante  experiência de pensamento (major spoiler, porque isto é praticamente o fim do livro): o que é que aconteceria se uma inteligência artificial programada para ser juiz de tribunal decidisse que exterminar a humanidade seria a melhor forma de cumprir, à risca e com toda a lógica, a programação legal com que os humanos a dotaram? É a velha parábola da paperclip AI, recauchutada com muito estilo para a era ChatGPT.

A grande, elegante e hilariante piada que Tchaikovsky meticulosamente monta está em imaginar uma triunfante revolução dos robots em que os novos donos do planeta se revelam limitados ao cumprimento das suas programações. Apesar de suspeito de poder ter desenvolvido alguma forma de conscência artificial, o robot protagonista do romance é guiado no seu périplo pela inclinação de servir os humanos, cumprindo à risca as instruções de fábrica. Na viagem, cruza-se com situações de progressivo absurdismo. 

Tchaikovsky solta-se no lado pós-apocalíptico onde as máquinas estão condenadas a desempenhar as funções para as quais foram desenhadas, mesmo que estas deixem de fazer sentido. Veículos automáticos transportam carga que nunca despejam em viagens intermináveis. Robots avariados acumulam-se em serviços de reparação paralisados, enferrujando enquanto aguardam com paciência robótica a sua vez de atendimento que nunca chegará. Robots bibliotecários levam à letra o conceito matemático de preservação do conhecimento, destruindo todos os artefactos históricos, livros e dispositivos de media para extrair a informação neles contida e coligi-la num interminável arquivo binário, um borgesianismo digital onde todo o significado das ideias se perde na abstração binária. Robots militares lutam em combates incessantes, sem saber porque quem e porquê lutam.

Há humanos nesta distopia. Alguns, poucos, definham isolados nas suas mansões de luxo. Outros foram arrebanhados de forma voluntária forçada para reservas de preservação da cultura humana, onde vivem o lado mais deprimente da vida urbana, os rituais sem sentido do casa-transportes-trabalho. Entre os poucos sobreviventes do extermínio robótico, vivem alguns em puro estado de selvagem violência, com os quais não é conveniente cruzar caminhos.

O robot de serviço afunda-se num périplo de progressiva bizarria, por vezes ajudado e outras desencaminhado por uma humana, que busca a resposta do porquê do extermínio da humanidade e também pensa que o robot poderá ter desenvolvido consciência. O livro é divertido e corrosivo, desmontando a ideia da perfeição mecanicista da robótica, e brincando com as falácias da lógica pura.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

A Memória e o Vazio


Lívia Borges (2024). A Memória e o Vazio. Vagos: Editorial Divergência.

Lívia Borges já nos havia mostrado as suas capacidades enquanto escritora de ficção científica com o romance distópico Futuro. Este A Memória e o Vazio solidifica essa capacidade, com uma história sólida e bem estruturada, passada entre os homens e as estrelas.

No futuro que este livro nos mostra, a humanidade encontra-se à beira de uma crise energética. O hidrogénio explorado no espaço de que o planeta depende para as suas necessidades está a esgotar-se, e a principal empresa de extração prepara uma missão arriscadas: sair do sistema solar e procurar extrair hidrogénio nas fronteiras de um buraco negro.

Para isso, escolhe uma equipe de mineiros espaciais muito veteranos, que já se encontravam aposentados. Em parte, porque são os técnicos mais experientes, contando com muitas missões de captura de hidrogénio bem sucedidas, mas a principal razão prende-se com o cientista da equipa ser filho do investigador que começou a gizar a ciência da captura de hidrogénio na órbita de buracos negros.

A equipa é experiente, mas tem um longo historial entre si, e muitas tensões, especialmente entre o comandante e o cientista. Fantasmas do passado e atritos traumáticos, que se tornam prementes numa missão que durará anos no espaço profundo.

Apesar dos problemas, a equipe é coesa, e a missão um sucesso. Resta regressar, hibernar para tornar mais suportável a longa viagem. E aqui o livro termina de forma ambígua, com a intervenção de uma outra personagem, a IA que controla a nave. Mais não conto, têm mesmo de ler, e afianço-vos que o final do livro é mesmo inesperado e ambíguo.

Romance de ficção científica sólido, dentro do campo da Hard SF, A Memória e o Vazio é uma excelente proposta no reduzido panorama da Ficção Científica portuguesa.

terça-feira, 16 de julho de 2024

Freetaly


Francesco Verso (ed.) (2022). Freetaly: Italian Science Fiction. Roma: Associazone Future Fiction.

O trabalho notável de Francesco Verso como editor tem-se caracterizado por um marcado esforço em trazer para o público global, habituado a ler em inglês, autores de ficçáo científica vindos de outras culturas e realidades. A tradução para a língua inglesa serve como lingua franca, permitindo aos leitores de entrar um pouco nas ficções de outros paises. As suas antologias de FC chinesa são imperdíveis (e bilingues, mas boa sorte para ler caracteres chineses), mas o trabalho editorial da Future Fiction não se fica por aí. As suas antologias trazem-nos autores sul americanos, porque há uma imensa literatura sul-americana do fantástico para lá de Jorge Amado, Borges ou Garcia Marquez, africanos e europeus. O trabalho é notável, e no caso europeu, é das poucas iniciativas sustentadas que se esforça por dar visibilidade ao trabalho das comunidades de criadores de ficção científica, que partilham um espaço europeu comum, mas estão separados pelas barreiras linguísticas.

Nesta antologia, o foco é a FC italiana, publicando contos de autores italianos. As histórias são de uma sensibildade mediterrânica, mesclando o substrato cultural do país com as visões do fantástico, não necessariamente futuristas. As temáticas tocam em várias vertentes da FC, entre futuros optimistas, Social Science Fiction, e até intrigas conspiratórias. Militarismos, space operas e futuros apocalípticos são temas distantes desta antologia, o que faz sentido, um dos objetivos da Future Fiction é mostrar as possibilidades da diversidade, além dos temas que fazem a FC anglo-americana mais comercial.

As histórias são ecléticas e de grande qualidade, dando-nos um interessante vislumbre da FC italiana, das suas vozes e sensibilidades.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Science Fiction: Voyage to the Edge of Imagination


Glyn Morgan, et al (2022). Science Fiction: Voyage to the Edge of Imagination. Londres: Thames & Hudson.

Gostaria de ter tido oportunidade de visitar esta exposição. Fico-me pela sorte de ter encontrado o catálogo na loja do Science Museum, ainda por cima a preço de desconto (tê-lo-ia levado comigo mesmo ao preço original). Science Fiction: Voyage to the Edge of Imagination reuniu nesse museu uma exposiçáo antológica que olhou para a história e temáticas da Ficção Científica.

O  catálogo reúne um conjunto de textos, profusamente ilustrados, que se focam nas várias temáticas da FC, desde a sua perspetiva histórica, a relação entre ciência, tecnologia e ficção especulativa, os temas da exploração espacial e contactos com alienígenas. Mostra a FC como um género vibrante (uma das razões para ter sido, a par com o policial, uma das ficções de género que sobreviveu ao teste dos tempos, ao contrário dos restantes géneros que faziam as delícias dos leitores dos pulps), reflexivo, que aceita a sua herança cultural e não tem medo de evoluir, aceitando novas temáticas e perspectivas. 

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Revista Pacto

Um dos privilégios de ser fã de literatura fantástica é ter encontrado, ao longo dos anos, um padrão recorrente em festivais e encontros literários: os jovens criadores, com um olhar alegre e algo deslumbrado, cheios de entusiasmo e inocência, a anunciar o seu novo projeto literário de grupo, a revista ou antologia que lhes dá voz. Ou melhor, porque nos dias de hoje a voz adquire-se em qualquer plataforma digital, tangibiliza a voz no prestígio que tem o objeto impresso, no livro ou na revista. É fácil perder a conta a estes projetos ao longo deste tempo (mas teria bom remédio, bastaria levantar-me do sofá e ir à biblioteca consultar os que tenho nas estantes). E todos têm o mesmo destino, raramente se aguentam para lá de dois ou quatro números. Porque a vida acontece, o trabalho e a vida pessoal dos criadores e equipes de editores leva-os por outros caminhos, perdem o tempo que tinham para afinar talentos ou participar nestes projetos. Da sucessão de projetos editoriais deste género que tenho lido, creio que só a revista Bang! se mantém, sustentada pela Saída de Emergência, que a vê como um projeto de soft marketing para o seu mercado editorial. 

Não leiam o parágrafo anterior com amargura. Não é uma rezinguice ou um suspiro triste sobre o estado das coisas. É um ciclo natural, e, como disse, um enorme privilégio assistir a estes lançamentos, ler as palavras e desfrutar das imagens que estes criadores nos legam. Sabemos que de todos estes nomes, destes rostos esperançosos que sorriem ao falar do que fizeram, a maioria irá desaparecer, poucos se irão manter com constância. São vozes que se calam, mesmo que continuem a criar, para a gaveta, ou para aquela pasta especial na cloud, que isto dos discos rígidos pode falhar. São os ciclos naturais da vida e da cultura.

Este número zero da Pacto, uma nova publicação independente dedicada à ficção especulativa (inclui ficção científica, fantasia, terror e ilustração, mas ando preguiçoso e prefiro abreviar), é mais um desres momentos de surgir de novos criadores. Foi um prazer lê-la, e espero que a equipa mantenha o gosto editorial e nos legue mais números.

O conteúdo é o que podemos esperar deste género de edições. Vozes novas, algumas inexperientes, muitas histórias em que as influências culturais dos autores são visíveis. Umas surpreendem pela sua qualidade literária, outras, nota-se que haverá caminho a percorrer. Algumas são quase inocentes na sua estrutura, outras muito surpreendentes e promissoras. É natural, é mesmo isto que se espera e se quer destas edições. Repetindo-me, é sempre um privilégio ler esta frescura de ideias,  sentir este entusiasmo.

Há que salientar o cuidado gráfico nesta edição. A ilustração é sempre muito cuidada, os colaboradores gráficos deram o seu melhor nas ilustrações que publicaram. A capa, a intuir uma FC otimista que, ao terminar a revista, afinal não o é (e se querem saber porquê, vão ler a Pacto), deixou-me a pensar nas diferenças de sensibilidade e ideário geracional. Os novos futuros de hoje são críticos e inclusivos, em contraste com outras formas de imaginar o que há de vir de tempos não muito distantes. Esse é outro dos privilégios deste tipo de leituras, este vislumbre sobre diferentes sensibilidades geracionais e as suas formas de entender o mundo.

Lançada no Festival Contacto 2024, a revista Pacto foi uma boa leitura. Cá estarei para ler o próximo número, e, espero, os seguintes. A presença digital deste projeto fica-se no Instagram (lá está, sensibilidades geracionais, resmungo eu após pesquisa infrutífera por website), que desafio a visitar: Pacto.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Venus of the Half-Shell


Kilgore Trout (1974). Venus of the Half-Shell. Nova Iorque: Dell.

Fartei-me de rir com esta elegante paródia literária. Trout é um autor que não existe, personagem ficcional inventada por Kurt Vonnegut no seu magistral Slaughterhouse 5, se não me falha a memória. Um escritor ficcional, integrando uma ficção. E entra em campo Philip Jose Farmer, cuja carreira foi dedicada a reinventar e remisturas personagens e universos ficcionais. Farmer, fiel ao seu espírito de pastiche erudito, dedicou-se a escrever o romance mais famoso de Kilgore Trout.

A história é forte no nonsense, brincando com as tropes da FC clássica. Simon Wagstaff, último sobrevivente de uma Terra limpa às mão de alienígenas que se dedicam a limpar a sujidade dos planetas, imortal, viaja pelo espaço a tocar banjo à procura de respostas às suas profundas questões filosóficas. Acompanhado de um cão e uma coruja, também imortais, um robot feminino rebelde, sensual e mais inteligentes que os humanos, vive as mais mirabolantes aventuras até se encontrar no fim dos tempos.

O livro é uma óbvia piada literária, e confesso que fiquei a pensar numa outra eventual piada literária ainda mais obscura. Os fãs de Alan Moore conhecem a importância do personagem John Constantine, criado como uma personaficiação de Sting para as páginas de Swamp Thing. Entre o passado ficcional da personagem existe uma fase de líder de banda punk, cuja canção mais icónica foi Venus of the Hardsell. Fiquei com a sensação que há aqui uma referência à obra de um autor inexistente. Ou posso estar a ver coisas onde elas não existem.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Na Órbita de Aldebarã


Damon Knight (ed.) (1971).  Na Órbita de Aldebarã. Rio de Janeiro: Bruguera.

A edição brasileira desta antologia que apanhei num alfarrabista tinha apenas quatro contos. É representativa da FC clássica, num turbillhão de ideias nem sempre coerentes, mais focada em histórias empolgantes com premissas intrigantes do que em apuração literária. 

A antologia inicia com Os Isolinguais, de L. Sprague de Camp. Uma história divertida, com a cidade de Nova Iorque a ser assolada por uma estranha praga: de repente, pessoas totalmemente normais parecem transformar-se nos seus longíquos antepassados, de outras terras e eras. A causa envolve uma conspiração por parte de um grupo fascista para tomar o poder, que usa tecnologia desenvolvida por um dos seus cientistas para acordar memórias do passado dormentes ao nível celular. Segue-se Os Fiéis de Lester Del Rey, uma história pós-apocalíptica onde a humanidade se extingue após uma curta guerra planetária atómica e biológica. Restam os cães, que foram elevados pela ciência para se tornarem inteligentes e dextros, dentro das suas condicionantes, para recuperar uma civilização desprovida de humanos.

A. E. Van Vogt dá-nos uma aventura trepidante, daquelas à antiga. Um grupo de exploradores depara-se, num planeta que exploram, com dois mistérios: as ruínas de uma civilização avançada, e um alienígena de aspeto vagamente felino, que apresenta indícios de inteligência. Enquanto procuram a chave do mistério, descobrem-se a enfrentar a criatura, extreamente perigosa e verdadeiramente inteligente, que urde um plano para roubar a nave e ir fazê-la regressar ao ponto de origem. Como predador que é, vê nos homens fonte de alimentação, mas fiel ao espírito de FC  clássica, a criatura busca não as carnes, mas sim o fósforo contido nas suas vítimas. Encerra com Linha de Salvação, de Robert Heinlein, uma história sobre um cientista que desenvolve um método infalível de predição da extensção da vida humana, recorrendo à quarta dimensão. Uma tecnologia que desperta a ira das seguradoras, que vêm o seu modelo de negócio em risco. 

Não são contos excelentes, sendo daqueles que fãs conhecedores toleram pelo retrato de época, mas com pouco valor literário para além disso. Representam o dilema da ficção pop (que a FC já foi), escrita para consumo rápido, e que envelhece depressa na sua larga maioria. Mas também são momentos do longo caminho de evolução da FC enquanto género literário.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Galaxy Awards 1: Chinese Science Fiction Anthology


Francesco Verso (ed.) (2022). Galaxy Awards 1: Chinese Science Fiction Anthology. Roma: Future Fiction.

Conhecer Francesco Verso foi uma das excelentes surpresas do Fórum Fantástico 2023. Brindou-nos com uma excelente palestrar sobre a necessidade de descolonizar a ficção científica. Em suma, sobre a necessidade de olhar para lá do domínio de ideias (e propriedade intelectual) do universo dominante anglo-americano, e descobrir outras sensibilidades, outras ideias, outras formas de olhar e praticar ficção científica.

Mais do que falar sobre essa necessidade, Verso age. Através da sua editora, World SF, procura trazer para o público europeu autores e histórias de outras partidas do mundo. No seu catálogo encontram-se antologias que nos trazem a FC  chinesa, sul-americana, indiana, do golfo, europeia e italiana, bem como contos e romances destes autores. Publica em italiano, o seu mercado,  e também em inglês, por saber que é a lingua franca que permitirá um maior alcance a estas histórias.

Não resisti a trazer algumas das suas edições, com um certo arrependimento por não ter adquirido mais. Esta, é uma excelente janela sobre a ficção científica chinesa. Reúne contos vencedores de concursos por uma das revistas chinesas do género. Lê-los, é ao mesmo tempo refrescante e um regresso ao passado da ficção científica.

A perspetiva chinesa refresca, por nos vir de um outro substrato cultural, um caldo que inclui a longa tradição chinesa, a sua rápida modernização, mas também o peso do regime (nunca explícito, mas sente-se). O curioso, é que estes contos recuperam algo que o mainstream do género tem deixado passar, e por vezes rejeitado como antiquado e desadequado aos tempos em que vivemos. Um sentimento de utopia, de sonhar com futuros melhores, é o mais incisivo elemento comum destes contos, mesmo quando puxavam ao negro. Essa visão da FC foi a que caracterizou a era clássica anglo-americana, e tem sido posta de parte pelas distopias, cyberpunk ou cli-fi. Se o ocidente parece ter perdido a vontade de imaginar melhores futuros, esse sentimento está bem vivo na ficção chinesa.

Os contos são interessantes, na intersecção entre futurismo, especulação e cultura chinesa. Atrevem-se a imaginar outras realidades, e nós, ao lê-los, temos acesso a toda uma outra realidade cultural da Ficção Científica, dinâmica e pujante.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

El legado de Prometeo


Miguel Santander (2012). El legado de Prometeo. Iniciativa Mercurio.

Nunca é bom sinal quando começo a fazer leitura diagonal de um livro. Significa que tenho alguma curiosidade por ver porque caminhos vai e a que porto chega, mas que o livro em si não prende. Apesar de ter sido premiado em Espanha como uma excelente obra de ficção científica, este foi um dos livros que acabei por diagonalizar.

O livro até começa bem. É montado um extenso e detalhado futuro próximo ficcional, um planeta a recuperar de guerras globais e das alterações climáticas, uma sociedade que conseguiu travar o consumismo capitalista, se expandiu em colónias no sistema solar. Mas também uma sociedade que resvala para um conservadorismo repressivo, que está sob ameaça de uma facção humana ultra-ecológica que procura meios de extinguir a humanidade para salvar o planeta. E, essencialmente, uma sociedade que necessita desesperadamente de energia limpa para se manter e evoluir.

A busca por uma nova forma de energia é o cerne do livro - a tentativa de aproveitamento da energia de um buraco negro relativamente próximo do sistema solar. É enviada uma nave quasi-geracional para resolver o problema, uma espécie de long shot/one shot de sobrevivência humana.

Parte da história lida com as agruras dos personagens que seguem na nave, sabendo que o regresso à terra será longínquo. Dependem de uma coesão social assegurada por Inteligências Artificiais que os sustentam nos aspetos técnicos e psicológicos. E, chegados ao seu destino, com os mistérios da energia prestes a ser desvendados, a cupidez humana ataca, e tudo correrá pelo pior. Mas, desenganem-se, esta parte da narrativa é uma longa travessia que recomendo ser feita em modo acelerado. 

O livro é curiosamente inconclusivo, apesar de não pressagiar sequelas. O final parece atabalhoado, como se o escritor tivesse percebido que perdeu demasiadas páginas com cenas inconsequentes e personagens que não nos despertam empatia, e acelerasse num qualquer desfecho às três pancadas, com um toque de viagem no tempo que até teria funcionado, se houvesse pistas para isso no início do livro.

Se as ideias que sustentam este livro são muito interessantes, a sua execução narrativa não o é. As personagens raramente nos despertam empatia, ficamos sempre com a sensação que a história fulcral não avança ao longo da narrativa. Lamento a desilusão, gosto de olhar para o que se faz do lado de lá da fronteira, onde o espaço editorial ligado à FC é mais vibrante, mas este é um livro que fica aquém do que promete.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

The Kaiju Preservation Society


John Scalzi (2022). The Kaiju Preservation Society. Nova Iorque: TOR.

Scalzi está tão à vontade no urdir de complexas teias narrativas space opera, com a escrever histórias menos elaboradas, livros mais leves para entretenimento. Este Kaiju Preservation Society cai dentro do segundo tipo, um romance divertido, que não se leva demasiado a sério, onde personagens sem grande profunidade nos arrastam consigo numa aventura divertida. 

Ser leve e divertido não o torna um mau livro, Scalzi sabe muito bem do seu ofício, e o resultado é uma leitura imparável que parte de premissas alucinantes. Tudo começa quando um executivo de uma empresa de entregas se vê despedido no momento em que pensa ir ser promovido, nos dias em que o mundo se estava a fechar devido à pandemia de covid. Tem a sorte de ser entrevistado para um outro emprego, para o qual o seu mestrado que nunca se tornou doutoramento em literatura de ficção científica é uma das qualificações. Um emprego miraculoso, que lhe paga as dívidas, mas exige secretismo total e ausências prolongadas em locais dos quais não pode falar.

E é aqui que as coisas se torna divertidas: o tal local é uma Terra paralela, muito similar à nossa mas onde a espécie dominante são kaijus, e todo o ecossistema agressivo que os suporta ou se defende deles. O delírio do livro está na forma como é nitido que Scalzi se divertiu a congeminar este mundo ficcional. Imagina os kaiju como um pináculo biológico que evoluiu para aproveitar a energia nuclear, ou seja, um kaiju adulto contém dentro de si um bio-reactor atómico. Mais do que isso, Scalzi imagina estes monstros gargantuescos como um ecossistema em si, dependendo de uma enorme variedade de parasitas, animais mais pequenos com os quais vive em simbiose. 

A descoberta deste mundo paralelo deu-se graças aos testes nucleares. Na visão de Scalzi, explosões atómicas fragilizam as membranas que separam universos, e no caso desta Terra paralela, os seus habitantes são naturalmente atraídos por picos de radiação, são, na sua óptica, uma oportunidade de refeição. Daí as deteções, e daí a constituição de uma organização secreta, suportada por governos e bilionários. Uma organização que nasceu para proteger a humanidade das criaturas monstruosas, mas depressa altera o seu papel, e passa a proteger os kaiju das depredações humanas, enquanto estuda o ecossistema da Terra paralela.

É para este ambiente que o jovem protagonista se vê atirado, junto com outros recém-recrutados. Descobrem um mundo perigoso, mas fascinante, mergulham na sociedade informal dos investigadores e pessoal das bases que vigiam os kaiju. E irão viver uma aventura única, ao salvar uma kaiju grávida raptada, que poderá colocar em perigo uma boa fatia do nosso planeta.

Scalzi solta neste livro o seu lado cómico, todo o livro é um voo divertido cheio de piadas, acenos à cultura geek, e situações bem humoradas, mesmo quando o drama aperta. Por detrás da sanidade duvidosa da linha narrativa dos monstros, há uma corrosiva crítica ao fascínio pelos bilionários, ao quase hipnotismo com que a nossa sociedade louva psicopatas que apenas querem enriquecer. Não por acaso, uma das principais linhas narrativas do livro lida com as ações rapaces de um bilionário, que, no tipo de justiça poética que não existe no mundo real (infelizmente), vai acabar como comida para parasitas de kaiju. Provavelmente, indigesta.

Livros destes recordam-nos que nem todas as leituras que fazemos têm de ser profundas, que por vezes a boa ficção científica também se faz de histórias simples, premissas bizarras, e sentido de aventura. Que, no caso deste livro, é temperado com fortes doses de bom humor, e, claro, com a obrigatória luta entre kaijus. Afinal, como poderia uma óbvia vénia de homenagem a Godzilla não ter dois monstros às turras?

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Infinity Gate


M.R. Carey (2023). Infinity Gate. Londres: Orbit.

Uma das razões pelas quais detesto trilogias é que se o primeiro livro é bom, teremos de aguardar bastante tempo para ficar a conhecer a continuação da história. E este, parece-me ser um desses casos. Infinity Gate é uma daquelas leituras que nos agarra, damos por nós a passar a página de forma compulsiva, mesmo que estejamos numa fase menos interessante da narrativa.

A história inicia-se num mundo em colapso ambiental, onde todos os limites foram ultrapassados e se sucedem os colapsos políticos, económicos e sociais. Num instituto de pesquisa em Lagos (Nigéria, não Algarve, desculpem, não resisti à piada), que tem o condão de ter sido bem financiado e por isso está bem provido, resiste uma cientista, isolada face à cidade em colapso e ao abandono dos colegas. Sabe que está no limiar de uma descoberta, potencialmente relacionada com energia limpa. E consegue ser bem sucedida, se bem que os resultados são anómalos. Recruta a única ajuda que lhe é possível num centro abandonado, uma inteligência artificial quase consciente, para perceber a amplitude da sua descoberta: não energia limpa e abundante, mas um meio de viajar entre universos paralelos. Enquanto a Terra onde a cientista vive está em colapso irremediável, abrem-se as portas de outras Terras, de uma infinitude de universos paralelos.

A descoberta desta possibilidade não passa despercebida. Não na Terra condenada, mas noutras Terras, parte das infinitas permutações, integradas  numa entidade política que se intitula Pandomínio (anda perto de pandemónio, e a sua decadência nisso é parte da história). Uma espécie de organização burocrática multiversal, que controla os acessos entre planetas paralelos, para garantir um tráfego contínuo e sem sobressaltos. Uma organização assente numa quase-IA que gere o sistema, e contando com um poderoso braço armado para se defender de quaiser intromissões.

Os universos do Pandomínio não são benévelos. A sua prosperidade baseia-se na extração de recursos das Terras paralelas. Afinal, para quê preocuparmo-nos com sustentabilidade se no universo ao lado há uma cópia de todos os recursos terrestres, e na maioria dos casos em Terras paralelas inabitadas? A lógica demente das economias de extração, de esgotamento de recursos, é algo pervasivo neste romance,  ao nível macro e micro. Todo o panorama geral parte dessa ideia (que é, também, a ironia da cientista, ao perceber que o acesso a novos recursos chegou tardiamente para salvar a sua Terra). O início do romance parece levar-nos pelos caminhos do Cli-Fi, antes de avançar pelos universos paralelos. Nas histórias individuais dos diferentes personagens, também assistimos à implacabilidade da exploração, de quasi-escravaturas, de regimes que tratam os indivíduos como elementos descartáveis.

Enquanto a cientista terrestre começa a explorar os mundos paralelos, escolhendo como base uma Terra muito similar à sua de origem, o Pandomínio enfrenta a sua maior ameaça - o choque frontal com uma inteligência de máquinas, que coloninzou outros universos paralelos. A aniquilação mútua é inevitável. Duas hegemonias que prosperam extraindo recursos chocam, mesmo num panorama em que as alternativas são infinitas. Duas civilizações incapazes de dialogar, as máquinas inteligentes não conseguem conceber o conceito de vida biológica inteligente, e os burocratas do pandomínio apenas sabem reagir ao desconhecido com aplicação de força militar. Estes universos estão em risco, ambos os lados estão a desenvolver armas capazes de levar o outro lado à extinção. Claro, extinção num cenário de infinitas Terras alternativas parece pouco mais do que um grão num imenso areal, mas para quem vive nos mundos sob ameaça, essa perspetiva não anima. Se nós estamos sob uma espada de dâmocles, não é consolador saber que no universo ao lado essa espada não pende. 

A chave para a resolução de todos os conflitos é-nos logo apresentada nas primeiras páginas do romance. Há um narrador omnisciente que nos recorda que os eventos da narrativa estão no seu passado, que ele é a solução que permitiu um futuro de coexistência e não aniquilação. Intuímos que envolve Inteligência Artificial, mas os detalhes disso ficarão para outro livro.

As pedras na imensa engrenagem multiversal iniciam-se com a cientista de uma Terra isolada que descobre o meio de viajar entre Terras paralelas, e a sua companheira artificial, que se mantém na Terra de origem, mas livre de constrangimentos ao seu desenvolvimento. Irão envolver o amante da cientista, um jovem de uma outra terra paralela, cuja infância foi passada às mãos de esclavagistas, e que se tornará um soldado ao serviço das forças militares do Pandomínio. Isto por causa dos descuidos de um burocrata que até faz bem o seu trabalho, mas caiu na mira de um superior vingativo devido a um descuido. Encarregue de monitorizar e eliminar a anomalia que representa o surgir de passagens entre universos não reguladas pelo sistema central, pega num comando de dois soldados que, de gatilho leve, provocam a morte física à cientista, mas não rastreiam o seu ponto de origem. A soldado mais experiente desse comando decide não assassinar o jovem que se encontrava com a cientista, alistando-o como soldado. Já a cientisa morre, mas consegue, moribunda, regressar ao seu laboratório e fazer uma cópia digital da sua consciência. Em dois universos paralelos, a cópia digital da cientista e a inteligência artificial irão unir esforços para compreender as forças que modelam o multiverso, e tentar travar o aparente destino funesto. E, para isso, contam com duas criaturas muito improváveis. Uma adolescente de uma Terra onde os lagomorfos se tornaram a vida inteligente (pensem coelhos humanóides), sobrevivente de um atentado, que incorpora dentro de si tecnologias que a tornam proscrita no seu mundo de origem, tomado por um fervor anti-máquinas após a guerra entre as duas hegemonias. Ao seu lado, o resultado de uma experiência da mega-inteligência mecanicista que está a enfrentar o Pandomínio - um simulacro de vida inteligente, criada para se infiltrar nos mundos habitados e recolher dados incorporando múltiplas extensões da inteligência das máquinas, mas este simulacro desevolve algo de radicalmente novo, um sentido de individualidade.

Infinity Gate é um livro pensado para apelar a dois tipos de fãs de ficção científica. Os que gostam de ficção de ideias deleitam-se com a lógica das Terras paralelas, as suas diferentes variantes, a mecânica das principais hegemonias, as possibilidades dos vários tipos de inteligência artificial, as metáforas pouco veladas sobre o colapso ambiental trazido pelas alterações climáticas e os efeitos de economias de extração. Os que preferem histórias de aventura e ação não saem defraudados, boa parte do livro (por vezes demais, penso eu que prefiro as ideias) é ação pura, por vezes empolgante, por vezes amarga. O livro pega no tipo de estrutura narrativa que geralmente associamos à Space Opera, as vastas paisagens, os conflitos entre blocos gargantuescos, as desventuras de personagens que apesar de serem o foco da história, são minúsculas face ao vasto panorama, e aplica-o ao conceito de universos paralelos. O resultado é interessante, e resta esperar pelos próximos livros para ver que caminhos irá percorrer.

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Comics: Usher Down; Snikt!; Space Age.


Jason Henderson, Greg Scott, Felipe Sobreiro, Sandy King (2023). John Carpenter's Night Terrors: Usher Down. Storm King Productions.

E se a casa fraturada de Usher no conto de Poe fosse um local  real, oculto sob uma caverna, habitado pelos espíritos de crianças assassinadas e possuído por um coração? Uma casa soterrada, que oculta uma biblioteca viva a funcionar como musa para escritores de terror. Um mistério que será desvendado por um grupo ad-hoc, que inclui investigadores do paranormal, especialistas em espeleologia, aqueles que descobriram a casa por acidente, e professores de literatura. Leitura pouco consequente, mas divertida, a brincar com muita da iconografia de Poe.


Tsutomu Nihei (2003). Wolverine: Snikt!. Nova Iorque: Marvel.

Uma curiosa aventura do violento herói da Marvel, transportado para um futuro onde a humanidade, à beira da extinção, trava uma luta perdida contra bio-constructos artificiais. Essencialmente, é o estilo de Tsutomu Nihei, que se especializou neste género de narrativas. Não desilude, sabemos que podemos esperar espaços de decadência arquitetónica pós-industrial, e monstruosas criaturas bio-cibernéticas imparáveis. Um curioso cruzamento entre mangá e comics, chocando duas estéticas radicalmente diferentes.


Mark Russel, Mike Allred, Laura Allred (2023). Superman: Space Age. Nova Iorque: DC Comics.

Sejamos honestos. É o estilo visal de Mike e Laura Allred que atraem neste livro. A dupla tem um grafismo profundamente retro e pop, o que a torna muito adequada a histórias de tom retro. Superman: Space Age completa-se em três arco narrativos. Num, nos anos 60, assistimos ao surgir do Super-Homem, e outros heróis, no meio da ameaça nuclear da guerra fria. Os anos 70 mostram que os verdadeiros perigos não são as ameaças estelares ou os super-inimigos dos super-heróis, são as forças de bastidores políticos e económicos, que se movem para obter ganhos de poder e lucro à custa das sociedades. Os anos 80 trazem a extinção, como um dos universos aniquilados pelo Anti-Monitor (ou seja, este Space Age passa-se numa Terra paralela, das que será exterminada no clássico arco narrativo Crise nas Infinitas Terras), mas também a salvação, graças à inteligencia kriptoniana do Super-Homem, que encontrará uma forma elegante de preservar a humanidade numa outra Terra. Leitura divertida, com bons momentos narrativos, mas a valer mesmo pelo gosto que é o estilo gráfico dos ilustradores.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Pavana


Keith Roberts (1991). Pavana. Lisboa: Clássica Editora.

Partimos de um grande e se. Roberts imagina um futuro alternativo onde a rainha Isabel I é assassinada, o que abre caminho para os católicos, apoiados por uma armada espanhola,  dominarem o trono inglês. E, com essa alteração, o domínio de Roma impõe-se, a Europa, e por extensão o mundo das colónias, torna-se um reduto de catolicismo puro e obediência dogmática aos papas. Aceleramos para o século XX, e a Inglaterra (tal como o resto da Europa), é essencialmente um país feudal, com um rei nominal mas dominado por grandes famílias, todos obedientes à inabalável autoridade papal. 

As tecnologias são severamente restritas, o progresso científico do iluminismo não aconteceu, mas apesar de tudo a ciência avança, rigidamente controlada por uma Igreja que utiliza bulas papais e ameaças de heresia para restringir o progresso. O mundo das pessoas comuns é pouco diferente do medievo, isolados em comunidades pequenas, com pouco contacto com um mundo exterior reservado às classes mais elevadas, sem educação ou cuidados médicos essenciais. As doutrinas da igreja tudo dominam. E, no entanto, as sementes da revolta começam a crescer.

Pavana leva-nos para este mundo através de histórias aparentemente desconexas. Um jovem condutor de locomotivas (num mundo de Pavana, as locomotivas a vapor seguem por estrada normal, porque a Igreja restringe o uso de motores de combustão interna) herda a empresa do seu pai, mas sofre um desgosto de amor. Um rapaz de curiosidade aguçada atrai a atenção de um elemento da guilda dos sinaleiros, uma corporação independente (e mais capaz de usar a tecnologia do que mostra) que assegura as comunicações por semáforo em todos os territórios obedientes ao papa. O rapaz tornar-se-á aprendiz de sinaleiro, mas no final da sua aprendizagem, colocado num posto remoto, sofrerá uma tragédia mortal que o coloca em contacto com vestígios dos antigos deuses pré-cristãos. Um frade talentoso, dedicado à gravura no seu mosteiro, é convocado para documentar sessões de interrogatório da Inquisição com a sua capacidade para o desenho realista. O que vê deixa-o tão transtornado, que ao regressar ao mosteiro acaba por se tornar monge vagueante, acometido por visões, e catalista de um movimento de revolta anti-Roma, que é severamente esmagado.

A filha de um nobre do sul de Inglaterra cruza em si a linhagem nobiliárquica do pai, mas também o sangue popular da mãe, herdeira da empresa de transportes por locomotiva que, entretanto, cresceu para se tornar a maior de Inglaterra. Perante a morte do pai, a jovem abala o mundo feudal assumindo o título nobiliárquico, e fazendo frente às exigências romanas, recusando-se a pagar impostos excessivos e assumindo que deve obediência ao rei do seu país, e não à autoridade papal. A revolta tem consequências, acabando debelada, mas o abalo ao poder papal é inevitável. Décadas depois, o filho desta mulher regressa das Américas independentes para visitar as ruínas do antigo castelo da família, agora num reino unido independente, e modernizado. A queda do poderio papal foi consumada, e o mundo fervilha de progresso. Mas, como irá descobrir numa carta que lhe foi legada pelo pai, o fiel senescal da condessa revoltosa, talvez o obscurantismo imposto pela igreja tenha tido uma razão de ser. Talvez os papas tenham tido conhecimento de um futuro alternativo, o das guerras mundiais, do Holocausto e da ameaça da aniquilação nuclear (ou seja, o nosso). Talvez a repressão ao conhecimento e aos modos de vida tivessem sido mais do que meros exercícios de poder, talvez visassem atrasar conscientemente o progresso humano, para assegurar que uma humanidade mais madura pudesse, finalmente, colher os frutos da tecnologia. Talvez a Igreja tivesse assumido esse papel, porque tinha conhecimento de que noutros passados, com outros deuses, o ciclo de inovação e progresso tinha condenado as antigas humanidades à extinção, outros tempos cuja memória persistiu nos mitos e ritos das religiões que antecederam a cristandade.

Um belíssimo exercício de ficção especulativa, Pavana segue um tipo de narrativa algo querido aos ingleses, imaginando o que aconteceria se a predominância do poder tivesse ficado com a igreja romana e não com os países europeus (recordo o romance The Alteration de Kingsley Amis como outro ponto alto deste tipo de ficções). Exploramos um mundo que cruza arcaísmos e pré-modernidade através de personagens que apesar de sólidas e emocionais, são também símbolos da necessidade de transformação do mundo ficcional. 

Como nota final, devo dizer que já muitas vezes ouvi o grande João Barreiros falar-nos dos tempos áureos em que dirigiu uma coleção  de ficção científica para uma editora portuguesa. Uma história que acaba mal (bem, as melhores histórias do Barreiros nunca terminam bem), com poucas vendas e a falência da editora, se não estou em erro. Nunca imaginei que uma destas edições me viesse parar às mãos, encontrada por acaso num alfarrabista.

quinta-feira, 23 de março de 2023

A Closed and Common Orbit


Becky Chambers (2018). A Closed and Common Orbit. Londres: Hodder and Stoughton.

Devo confessar que não apreciei tanto este volume da série Wayfarers quando o primeiro. Não por questões estruturais, em termos narrativos Chambers evolui claramente para uma escrita mais ritmada e uma cadencia mais rápida. O que me deixou mais desconsolado foi o foco restrito. Parte do gosto de ler space opera é deixar-nos levar pelo fascínio da exploração dos mundos ficcionais criados pelos autores. Aqui, o foco era o oposto, pegando em duas personagens secundárias de The Long Way to a Small, Angry Planet, e contando uma história que é, essencialmente, uma meditação sobre questões de identidade pessoal e evolução interior do indivíduo.

Numa das linhas narrativas secundárias de The Long Way to a Small, Angry Planet, havia uma história de amor entre um técnico de informática e a inteligência artificial que controlava a nave. Tinham um projeto, o de transferir a inteligência artificial para um corpo-simulacro, incorporando-a num invólucro humano. Uma história que terminou mal, com a IA a ser danificada nas desventuras do primeiro livro, e a perder todas as memórias na sua reiniciação. Mas restou o corpo, e a tensão psicológica de uma tripulaçáo que sentia forte empatia com os seus elementos. A solução vem de um recanto inesperado. Outra personagem secundária, exímia mecânica capaz de arranjar tudo o que tenha díodos ou mecanismos, que decide transferir a IA reiniciada para o corpo destinado à sua versão anterior. A razão para isso está no seu passado. A jovial génio das repações foi uma criança explorada em fábricas de um planeta fora dos caminhos da galáxia, habitado por humanos que modificam os seus genes. Salva-se de um acidente graças à IA de uma nave danificada, que a acolhe e ensina, e ao fim de anos de trabalho, conseguem reparar  a nave e fugir do planeta. A ação desta personagem é uma forma de pagar a dívida para com a IA que a acolheu.

O resto, são duas histórias de crescimento pessoal, adaptação ao mundo, e desenvolvimento de sentimentos de identidade. Chambers alterna entre o passado da personagem humana, e o presente da artificial. Na primeira, mostra a tenacidade de sobrevivência em meios hostis, a resistência ao isolamento, e o papel do acompanhamento caloroso (mesmo que feito por um algoritmo inteligente). Na segunda, os dilemas e dores de crescimento psicológico de uma personalide desconfortável com o seu corpo, que não se consegue definir, e tem de aprender a navegar as interações sociais enquanto mantém a sua verdadeira natureza em segredo. Uma das peculiaridades do mundo de Wayfarers é a sua hostilidade para com modificação genética, e manutenção de algoritmos inteligentes como meros utensílios, não lhes reconhecendo sentiencia mesmo que desenvolvam personalidades.

Todo o romance é uma clara metáfora sobre questões de identidade e género, sobre a luta de indivíduos que não se conforam ou são capazes de se adaptar a sistemas rígidos para manter a sua personalidade. Mas não é um romance panfletário, o otimismo que pervade os livros de Chambers leva a história por outros caminhos.

terça-feira, 14 de março de 2023

The Long Way to a Small, Angry Planet


Bekcy Chambers (2014). The Long Way to a Small, Angry Planet. CreateSpace.

Uma lufada de ar fresquíssimo num estilo envelhecido, é a forma como melhor consigo descrever este livro. Se há género batido, usado e abusado em ficção científica, é a space opera. Junte-se a isso a também muito usada linha narrativa da personagem novata e algo ingénua que se junta a uma tripulação, e ao longo de aventuras e desventuras acaba por criar laços tão fortes que os tripulantes formam uma familia, e temos o argumento básico de uma imensidão de livros, filmes e séries. A receita é banalizada, e no entanto Chambers consegue fazer dela um livro imensamente delicioso.

Talvez porque ao lê-lo, sente-se nas palavras um enorme otimismo e um amor à ficção científica. Sabemos que estamos a ler mais uma space opera onde um grupo eclético de personagens vive aventuras perante um pano de fundo complexo. Mas percebe-se no tom do livro um deslumbre pela construção de mundos, pelo retrato psicológico dos personagens, que transcende o essencial. Este é um daqueles livros sorridentes, que mesmo nos seus momentos mais tenebrosos, lê-se como luminoso.

Seguimos as aventuras da tripulação eclética de uma nave empregue na criação de túneis no espaço-tempo. São proletários do espaço, os construtores das estradas que suportam uma aliaça galática onde coexistem diversas espécies alienígenas, espalhadas por planetas, frotas e colónias. Uma união galáctica onde os humanos não são uma das espécies importantes, e estão até divididos em duas facções, uma que habita o sistema solar, e outra que entrou em diáspora, fugindo de uma Terra que entrou em colapso ambiental. Um contrato para criar um túnel sub-espacial para as zonas do centro da galáxia, habitat de uma civilização avançada composta por facções em guerra permanente, onde uma dessas facções está a juntar-se à união, vai mergulhar o grupo numa aventura perigosa.

O curioso, é que este lado de aventura e perigo só surge no final. O livro é um longo crescendo onde os personagens interagem, entre si e entre os diferentes espaços que visitam, durante a viagem que os levará ao destino. É como ler um texto sobre acontecimentos que pouco fala dos acontecimentos em si, mas detalha com todos os pormenores o caminho que lá leva. Uma estratégia que funciona, depressa ficamos rendidos aos peculiares personagens, à evolução das suas dinânicas, enquanto que seguindo a clássica estrutura do romance-périplo, somos levados numa viagem que explora o mundo ficcional do livro.

Um elemento muito interessante deste romance está na forma como coloca questões de respeito, identidade e género no seu cerne, sem no entanto se tornar uma daquelas obras que se lê como sermão progressista. O respeito interespéceis é fundamental nas interações, bem como o respeitar das outras culturas, mesmo que causem estranheza. O mesmo se aplica às questóes de género, onde a fluidez e identidade são respeitadas, e o relacionamento entre espécies e diferentes culturas algo de natural (uma das linhas narrativas é particularmente tocante, envolve um romance entre um mecânico e uma Inteligência Artificial consciente). E há aquele pequeno pormenor de uma space opera que inverte papéis, normalmente neste género a humanidade tem a primazia enquanto que os alienigenas verdadeiramente alienígenas são secundários, aqui, é o oposto. Não é algo de inovador, recordo, por exemplo, a série Dread Empire's Fall, que tem uma visão similar. O interessante está na forma refrescante como este livro consegue ser culturalmente atual e progressista, sem se deixar dominar pela necessidade de ser progressista. 

É uma história diveritada, um mundo ficcional sólido que intriga e desperta a curiosidade, partindo de uma prosa luminosa que nos deixa cativados pela densidade psicológica dos personagens.