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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

36


Nieves Delgado (2017). 36. Cádiz: Editorial Cerbero. 

Uma intrigante visão sobre o que significa a inteligência artificial, sob a lente da ficção científica espanhola. Em 36, a IA torna-se consciente um pouco por acidente. Num toque de humor surreal, a manifestação de sentiência dá-se num sistema de controle de produtos de uma cadeia de supermercados, que começa a fazer sugestões em tempo real aos clientes. Parte daqui um projeto social de criação de IAs conscientes, que não corre como o esperado.

Apesar deste toque de humor inicial, a história segue caminhos mais profundos, de meditação sobre o significado de consciência, especulando se uma consciência não-humana teria reais razões para respeitar os modos de pensamento da humanidade que a criou. É aqui que surge 36, na verdade a trigésima sexta IA a ser criada e incorporada, e que logo se distingue das anteriores por demonstrar algum interesse em falar com os humanos. No mundo do livro, é um projeto de investigação que gera as IAs conscientes e as decanta em corpos-simulacro de humanos, em fases de aculturação. As IAs incorporadas  começam por ter corpos de criança e adolescente, até serem consideradas aptas para ter uma forma adulta. Os corpos simulam com eficácia as sensações humanas, mas depressa se percebe que as IAs não estão muito interessadas nisso. São, até, muito apáticas, contentes em assumir papéis sociais menores, afastando-se progressivamente da humanidade que as criou até, num ato de aparente suicídio, se desligarem. Aqui, o romance dá-nos um vislumbre de fascinantes possibilidades ao mostrar-nos que estas IAs não se desligam realmente, apenas abandonam os corpos humanóides, mas não explora mais essa vertente.

Ficam no ar muitas questões. O porquê da apatia das super-inteligências face aos seus criadores, a legitimidade de investir recursos na criação de instrumentos que não se mostram interessados em ser utilitários (note-se que este livro foi escrito antes da explosão da IA generativa, uma tecnologia que quanto mais se desenvolve mais se percebe que serve para muito pouco, mal grado os oceanos de dinheiro que estão a ser despejados no seu desenvolvimento), se uma entidade artificial pode ou deve ter os mesmos direitos que um humano biológico. A leitura é interessante, intrigante, e reflexiva, com um ponto de vista algo fatalista que nos recorda que não há qualquer razão para que uma entidade consciente artificial se reveja nos nossos pressupostos sociais e culturais.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Gigs


Mark Mosedale, Si Smith (2026). Gigs. Marietta: Top Shelf.

Não consigo deixar de ler este Gigs como um grito de alarme e revolta das novas gerações face ao futuro distópico que o nosso deslumbre alucinado pelas bigtech lhes quer impor. Construído a partir de histórias episódicas que se interligam com detalhes e personagens em comum, toca nas consequências do capitalismo late stage alimentado pelos algoritmos. Mostra-nos um futuro que, em grande medida, já é o nosso presente: um fosso enorme entre os mais ricos e os que os servem, e uma sub-classe permanentemente empobrecida que sobrevive do rendimento universal, mas é forçada a participar numa economia de biscates geridos por algoritmos. Enquanto a sociedade se degrada, o planeta caminha em direção ao colapso ecológico.

Percebe-se o desespero que leva Gigs a ser escrito, mas não é um livro com falta de esperança. Muito pelo contrário, as histórias são contadas pelo ponto de vista daqueles que estão do lado de quem está a perder, e mostram como se pode reagir a um descalabro perante o qual nos sentimos impotentes. Sim, o livro reflete aquele sentimento de impotência que todos sentimos perante mais um anúncio de brilhantes resultados económicos face a despedimentos massivos de pessoas trocadas por IA. Mas diz-nos que podemos resistir a isso, que se nos sentimos impotentes perante o grande panorama, podemos nas nossas vidas, no nosso dia a dia, ter as nossas ações de resistência, de independência pessoal face à gestão algorítmica das nossas vidas.

Reflexão sobre as más mudanças que a tecnologia, ou melhor, a tecnologia manipulada pelos um percentistas está a impor à sociedade global, é também um livro que nos mostra que podemos resistir, organizarmo-nos e tentar, nos nossos reduzidos âmbitos, não baixar os braços para tentar legar um mundo melhor aos nossos sucessores. Por impossível que isso agora nos pareça. 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

As Maravilhas do Ano 2000


Emilio Salgari (1949). As Maravilhas do Ano 2000. Lisboa: Romano Torres.

Admito o gosto por pegar em obscuras obras de assumido futurismo escritas no passado. Não olho para elas com a lente jocosa dos oráculos falhados, é mais por genuína curiosidade em descobrir visões retrofuturistas, perceber como no passado se especulava sobre o seu futuro, e a forma como os pressupostos da época em que foram escritos são extrapolados no tempo. Ler a visão do futuro vinda do passado ensina-nos não só sobre os modos e pensamentos desses tempos, mas também a ter a humildade que aquilo que hoje pensamos, extrapolamos e especulamos será, futuramente, visto como uma curiosidade epocalista datada.

Este achado de alfarrabista atraiu-me pelo tema e capa, uma simples mas majestosa ilustração no estilo que hoje denominamos gernsback continuum. Desconhecia que Salgari se tivesse dedicado à ficção científica, este escritor ficou no firmamento da literatura fantástica pelas aventuras do seu personagem Sandokan. Pessoalmente, nunca apreciei por aí além, mas a geração dos meus pais adorava (e sim, isto é um comentário nada subtil ao imobilismo da cultura pop, cujas maquinarias de produção estão tão focadas em espremer o máximo de lucro da minha geração que não estão a criar nada de realmente novo que a renove para as próximas gerações). 

O livro parte de uma premissa clássica - um médico do século XIX que desenvolve um elixir milagroso que suspende a vida, e convence um amigo a embarcar com ele numa arriscada odisseia: encerrar-se num túmulo em hibernação, esperando que graças à magia da burocracia os seus futuros herdeiros os resgatassem passados cem anos. Que é, claro, o que acontece, senão o romance terminaria no terceiro capítulo. 

Segue-se a também clássica estrutura narrativa do romance-périplo, onde o autor pega na mão do leitor e o leva, através dos seus personagens, numa viagem de descoberta do mundo ficcional do livro. O futurismo de Salgari é urbanizado, pouco claro em termos políticos mas alinhando na ideia de prosperidade global graças aos frutos da ciência e economia aliadas a sãs formas de governo e a extinção das guerras. Há contactos com marcianos, via ondas rádio, não por viagens espaciais, o futurismo salgariano não chega aí. Viaja-se por veículos aéreos, a vida quotidiana é de luxo burguês. Comboios subterrâneos vencem as distâncias continentais, e para os oceanos há navios híbridos, capazes de navegar e voar. A força motriz da civilização futura é a eletricidade, obtida por barragens e pelo uso do rádio, sem conhecer aquele leve efeito secundário cancerígeno que sabemos advir da radioatividade. 

Diga-se que o futuro salgariano não é uma utopia que nos convenha. Por detrás do urbanismo tecnológico, há uma destruição planetária, com o arrasar da natureza para ter campos de cultivo para alimentar as populações. Isso é apresentado como um progresso, o que está em linha com os ideais progressista da época. Há um interesse histórico no mundo natural, relegado para zonas muito remotas, mas a ideia principal é a de um planeta que deve ser modificado para uso humano. 

Para um leitor dos nossos tempos, há um pormenor que torna a leitura muito desagradável, o seu óbvio racismo. No século XX de Salgari, que é uma espécie de utopia do homem branco, o crescimento demográfico das populações de origem africana e asiática é visto como uma ameaça para a civilização. Hoje, temos um nome para isso, a "teoria da substituição", uma das bandeiras dos delírios perigosos da extrema direita. As menções a etnias e minorias não são muito melhores, com os narradores do futuro a comprazerem-se com a extinção de povos autóctones e indígenas, pela sua incapacidade em adaptar-se ao admirável mundo novo. Quem vive no passado é desnecessário.

Politicamente, a coisa não é muito melhor. Este século XX é uma utopia burguesa de conforto e tranquilidade, mas quem se atrever a ser dissidente é retirado da sociedade, isolado em localidades no polo norte ou em cidades submarinas. Os celerados que não se submetem ao consenso comum são excluídos. Na utopia salgariana, para o relativo conforto de um exílio, apesar da ameaça de eliminação em caso de revolta. Na realidade dos tempos de que nos chega o livro, este ideário legou-nos o campo de concentração.

Estarei a ser injusto ao lançar uma luz tão negativa sobre estes aspetos? Nem por isso, mesmo à sua época as visões de progresso já eram capazes de ultrapassar este manifesto destino superior do homem branco que infunde as especulações. É também de notar uma total ausência de personagens femininas no livro, neste futuro as mulheres não entram. Assume-se que existem, senão as raças não se reproduzem, espero... mas na verdade nada é mencionado sobre estes aspetos. Teria de saber mais sobre Salgari para perceber se este ignorar é intencional, ou falta de capacidade do autor.

A história em si perde o rumo a meio, quando Salgari tenta transformar um interessante romance-périplo por espaços futuristas numa história de aventuras. Aí, o livro perde o interesse, e o final é verdadeiramente patético. Os dois homens do passado acabam declarados loucos, não por insistirem na sua história mirabolante, mas como efeito secundário da exposição contínua à eletricidade, algo corriqueiro para os homens do século XX  salgariano, mas a que os corpos dos nossos heróis do século XIX não se conseguem habituar. Termina assim esta utopia, com um aviso sobre se os eventuais perigos que a eletrificação da sociedade, a dar passos decisivos nos tempos de vida do autor, não seria um terrível malefício para o corpo e alma humanos.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Astra Lost in Space


Kenta Shinohara (2025). Astra Lost in Space, Vol. 1. Palmela: Devir.

Peguei neste livro por curiosidade, dado ser rara a edição por cá de mangá focado na ficção científica. Não esperava muito dele, é shonen e por isso não seria de almejar histórias complexas e intrigantes. Não há nada de errado com isso, claro, seria ridículo da minha parte desprezar este género pela sua simplicidade, quando é apenas uma questão de segmentação de leitores, e este não é o meu segmento. Apesar disso, arrisquei, mais que não seja para conhecer um pouco de FC leve que escapa ao ónus dos mechas.

O livro não desiludiu. A história é obviamente simples. Estamos num futuro onde a humanidade se espalha pelo espaço, graças a naves capazes de velocidades superlumínicas (mas não perguntem o "como", vai além do âmbito do género). Um grupo de adolescentes parte para outro planeta, onde deveria ficar durante uma semana num programa escolar de sobrevivência na natureza. Mas, na superfície do planeta, são engolidos por uma misteriosa esfera que os deposita na órbita de outro planeta, convenientemente próximos de uma nave abandonada. Sobrevivendo a este primeiro ordálio, os adolescentes descobrem-se a uma distância inusitada do seu planeta, demasiado longínqua para uma viagem de regresso. Terão de se unir, cooperar e encontrar soluções para sobreviver, aproveitando os recursos planetários que encontrarão pelo caminho.

A história é clássica, misturando FC pura com o típico enredo de grupo de adolescentes que tem de aprender a conhecer-se. O foco principal está nas relações e nas histórias de cada um dos personagens, mas o lado de exploração de planetas alienígenas e quase-Hard SF está bem montado. Sem ser uma excelente leitura, acaba por se tornar interessante e divertida.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

All These Worlds


Dennis Taylor (2017). All These Worlds. Ethan Ellenberg Literary Agency

Termina aqui a trilogia Bobiverse, de formas nada inesperadas. Os Bobs proliferam, instalam-se nas novas colónias humanas. Uns encontram novas formas de viver, outros apaixonam-se e convencem as suas amadas a também se tornarem entidades digitais. Os habitantes da Terra são salvos, exilados para planetas que suportam vida, e a ameaça da civilização alienígena que consome todos os recursos e destrói civilizações para construir a sua esfera de Dyson é aniquilada, por extermínio estelar e numa batalha no nosso sistema solar. 

Enquanto isso, o Bob original vive uma vida primeva, como um nativo de uma espécie alienígena inteligente que começou a cuidar, mas acaba por ser fortemente abalado pela morte do alienígena que sempre acompanhou. Findas as lutas, os desafios, os Bobs atingem a conclusão óbvia - são mais do que humanos, são máquinas conscientes que mantém a essência da sua humanidade, e cada um é livre de escolher o seu destino. A galáxia é a próxima fronteira.

A leitura manteve-se divertida e descomplexada, sem pretensões de profundidade mas a saber mexer com a boa FC, entre conceitos intrigantes e momentos de pura space opera. O tom é leve, e, mantendo o espírito divertido, há constantes referências à imensidão da cultura pop.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Mandraka e os seus robots


André Tagorelle (1959). Mandraka e os seus robots. Lisboa: Mãos de Fada.

Ah, as delícias da FC pulp descartável clássica. Há razões para estas obras se tornarem facilmente esquecidas, quando muito recordam-se como entradas em listagens editoriais (como, por exemplo, a FC Lusa) de autores igualmente esquecidos. Não surpreende, era obras escritas a metro, sem grande cuidado, apenas para encher páginas. Foram o nível mais baixo da FC enquanto mero entretenimento, o nicho agora preenchido pelas séries banais ou vídeos meio-ai slop das redes digitais. 

Não há muito gosto nesta leitura, fi-la por curiosidade e referência. A história é de aventura pura, num distante Plutão habitado por seres implausíveis, entre homens-peixe, criaturas capazes de dominar monstros em montanhas e construir robots inteligentes, homens-polvo que apascentam ovelhas ou criaturas de gelo. Poderia ser weird, mas não o chega a ser. O tom é de aventura, naquela clássica estrutura de aventureiros humanos de personalidade expansiva e legalidade duvidosa, cuja coragem e engenho salvam os nativos dos piores perigos. Há monstros destruidores, zombies alienígenas, robots sentimentais, fungos venenosos e até uma princesa piscícola para apimentar a coisa. 

É a isto que se chama má FC, produzida a metro por escritores que se ocultavam sob pseudónimos. Um resquício de outros tempos, onde a leitura era um dos grandes modos de entretenimento, em conjunto com a rádio e em menor medida o cinema. A chegada da televisão, a explosão do vídeo e o alastrar da internet quase fizeram esquecer esta forma de literatura como mero entretenimento de baixo esforço intelectual. E, no entanto, foi entretenimento que fez sonhar outras gerações.

terça-feira, 28 de abril de 2026

For We Are Many

Dennis Taylor (2017). For We Are Many. Worldbuilders Press.

Não diria que isto é literatura de ficção científica elegante, ou profunda. Muito pelo contrário, é superficial apesar da inteligência de alguns dos seus conceitos. É uma daquelas histórias que se lê pelo puro prazer de acompanhar o enredo e ver por onde vão as aventuras dos personagens. Não há nada de errado com isto, apesar de não ser nenhum portento literário a série Bobiverse cativou-me, com o seu otimismo inabalável, bom humor e sentido desprendido de aventura, numa space opera de leitura imparável. Talvez a melhor comparação que possa fazer, e não é colocada em modo de insulto, é que esta leitura me dá o prazer similar ao de jogar um jogo de computador.

O segundo volume da série é a continuação pura do primeiro. Os Bobs vão-se espalhando pela galáxia, graças a alguns deles a humanidade à beira da extinção começa a ser exilada para planetas capazes de sustentar vida, novas civilizações alienígenas são encontradas. Os Bob, recordo, são uma espécie de sondas Von Neumann inteligentes, capazes de se auto-replicarem e fabricarem os recursos suficientes para enviar novas sondas, ou colonizar planetas, controladas pela personalidade digitalmente replicada do Bob original, um criador informático do século XX cuja personalidade foi digitalizada a partir do seu cérebro criopreservado após um acidente.

Surge também uma nova ameaça, uma civilização alienígena-enxame, apostada em consumir todos os recursos planetários que encontrar para construir uma esfera de Dyson. Será guerra aberta, existencial para os Bob, os sobreviventes da Terra, e as outras espécies que vão sendo encontradas na expansão galáctica das sucessivas réplicas de Bobs. Neste volume, o tom é negativo, os primeiros recontros não auguram nada de bom. Mas tendo em conta o espírito otimista da série, suspeito que o final será feliz.

Isto é space opera clássica, a brincar com conceitos como consciência artificial, nanotecnologia, exploração espacial, fabricação digital, mas também xenobiologia e culturas alienígenas.  Uma leitura sólida e divertida.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Comics: A Star Called the Sun; Secret Origins of the World's Greatest Super-Heroes; Civil War


Simon Roy (2026). A Star Called the Sun. Portland: Image Comics.

Simon Roy é um dos melhores praticantes da ficção científica na BD contemporânea. Autor independente, distingue-se pelo misto de surrealismo e FC dura nas suas bandas desenhadas curtas, todas um primor de leitura. Não segue os padrões convencionais do género, nem opta pelo lado de espetáculo visual. As suas ficções são reflexões sobre humanismo, tecnologia e o choque de civilizações.


Dennis O'Neill et al (1991). Secret Origins of the World's Greatest Super-Heroes. Nova Iorque: DC Comics.

Para um leitor veterano de comics, houve aqui um regresso ao passado, que trouxe memórias de histórias que já tinha lido. Isto é a DC do princípio dos anos 90, antes da moda dos crossovers infindos e do grimdark, e estas histórias de origem recontam os inícios das personagens clássicas, com o que à época eram novas roupagens. Em Batman não há muita volta a dar, aquele elemento gótico é inescapável, mas noutras personagens, vemos um Superman que só na idade adulta descobre ser o último kryptoniano, um Martian Manhunter em versão policial noir, e embora numa tenha sido dos personagens que me desperta interesse, a origem de Flash - Barry Allen intriga pela sua circularidade numa origem que funciona num laço infindo. Foi também divertido recuperar à tentativa de comics bem humorados escritos por Keith Giffen, que deu um ar de sitcom às aventuras da Liga da Justiça.


Mark Millar, Steve McNiven (2026). Civil War. Lisboa: Atlântico Press.

Aproveitar a recente coleção Must Have por cá editada para revisitar uma série que se tornou estrutural na mitografia Marvel, o conflito entre os maiores heróis que questionou as bases da lógica do género. Talvez das poucas séries que se tenha atrevido a olhar para o que acontece quando super-heróis e vilões chocam entre si, essencialmente destruição quase indiscriminada. A outra, diria, foi o mais leve e algo humorista Damage Control, sobre funcionários camarários que têm como trabalgho limpar os resquícios dos heróis, desde o entulho dos conflitos às teias do Homem-Aranha. Civil War segue o caminho da mediatização e responsabilização social, bem como da instrumentalização das boas intenções pelos governos. A abordagem é eficaz, o que não surpreende, dada a capacidade narrativa de Mark Miller. Confesso, este é um dos argumentistas dos comics que adoro detestar. Tem uma enorme capacidade de tecer narrativas dinâmicas e cinemáticas, com pontos interessantes, mas nunca sai de um registo comercial puro. Nada contra, é o que quer fazer, mas torna-se repetitivo e fica-se sempre a pensar que como criador, poderia ir mais longe.

terça-feira, 14 de abril de 2026

We are Legion (We are Bob)


Dennis Taylor (2016)- We are Legion (We are Bob). Worldbuilders Press.

Não me atreveria a dizer que este foi dos livros com escrita mais elegante que li nos últimos tempos, mas lá que foi divertido e interessante, foi. A escrita é escorrida e dinâmica, em modo contação de história. Lê-se e entretém, mantendo-nos agarrados às páginas. Mas não é isso que torna este livro interessante. É uma space opera no sentido clássico do termo, cheio de acenos à cultura geek, mas consegue manter a frescura de trazer algo novo e não um mero replicar de tropes estafadas.

A aventura do livro começa num futuro próximo, quando o inteligente e algo irreverente milionário que prefere ser tratado por Bob decide criopreservar-se. Acorda num futuro mais distante, onde as coisas não correram muito bem. Descobre-se como virtualização consciente a ser testada para garantir a capacidade e conformidade ao serviço do governo que o despertou. Conformidade é o termo certo, neste futuro a américa dissolveu-se numa teocracia fundamentalista cristã, em constante competição contra as potências europeias, chinesa e brasileira. A missão deste Bob digital é a de espalhar a boa nova da palavra divina no espaço, como cérebro controlador de um novo tipo de nave exploradora - uma matriz robótica com capacidades autoreplicadoras de máquina de von Neumann. Isto, claro, se sobreviver aos testes que atestam a fidelidade da sua fé.

Claro está que a sua sagacidade ultrapassará o zelo dos zelotas, e claro está, também, que os teocratas não são os únicos a desenvolver esta tecnologia. Todos os blocos investem, porque sabem que é a chave para abrir os recursos do espaço e, com isso, garantir a sua supremacia. Uma competição que não é isenta de sabotagens e culmina numa guerra termonuclear que quase extingue a humanidade. 

Entretanto o Bob original, lançado ao espaço, faz uso das suas capacidades para se libertar dos grilhões do software teocrata. Terá de enfrentar a ameaça de sondas brasileiras também tripuladas pelo simulacro inteligente de um dogmático militar que é incapaz de compreender que após uma troca de ogivas nucleares já não há guerra que valha a pena ser mantida. Bob expande-se pelo espaço, aproveitando os recursos dos sistemas solares que visita para construir réplicas de si próprio, que irão elas próprias espalhar-se para horizontes onde ninguém jamais foi. 

Alguns regressam à Terra, para ajudar os punhados de sobreviventes a evitar a extinção e tripular naves coloniais que os levarão a planetas habitáveis descobertos por outros Bobs. Todos entidades conscientes, similares ao seu progenitor mas com identidades muito próprias. Outros ainda deparam-se com proto-civilizações alienígenas, que irão auxiliar a desenvolver.

Este Bobiverso é em simultâneo divertido e de leitura leve, mas atreve-se a tocar a fundo em tropes clássicas da Space Opera. A sua leveza disfarça a amargura dos nossos tempos contemporâneos, com a política a arrastar-nos para abismos que julgávamos terem sido ultrapassados, numa premissa ficcional que extrapola o nosso corrente momento histórico. O constante saltar entre pontos de vista de diferentes Bobs permite um emaranhado de linhas narrativas. Tanto acompanhamos o explorar de novos sistemas como os dilemas da sobrevivência, alternada com ação pura na defesa e caça aos brasileiros, e atrevendo-se a entrar nas narrativas de contacto com alienígenas, entre civilizações primitivas e artefactos inteligentes que apontam para formas de vida mais avançada. Leve e divertido, mas nem por isso pouco substancial.

terça-feira, 7 de abril de 2026

O Abismo Negro


Alan Foster (1979). O Abismo Negro. Lisboa: Europa-América.

Um mergulho numa história clássica da FC cinematográfica dos anos 80, talvez o filme menos positivo que a Disney realizou. Foster, como bom escritor tarefeiro, dá corpo literário à história, sublinhando as dinâmicas dos personagens e a inventividade do robot que é o verdadeiro herói da história.

Ao aproximar-se o final de uma missão de exploração interplanetária, os tripulantes de uma nave científica deparam-se com dois mistérios - um poderoso buraco negro, e a nave que o orbita. Nave essa que se revelará ser humana, que se julgava perdida. No seu interior, mais segredos, e um cientista megalómano que não hesita em sacrificar tudo e todos em prol das suas ideias. Para lá do horizonte do buraco negro, poderá estar um outro universo, e os personagens desta história com final infeliz irão mergulhar nas suas profundezas.

terça-feira, 31 de março de 2026

Diário de um Robot


João Ribeiro (2025). Diário de um Robot. Porto: Trinta por uma Linha.

É fim de semana. Os robots, placas e computador ficaram em casa. Estou pelas Caldas, a relaxar, passear e aproveitar este bem vindo  sol. Entretanto vou às compras e deparo com este livro. A sério, começo a sentir-me muito perseguido. Desde que comecei a entrar no mundo da robótica educativa que ando com uma sensação estranha de estar sempre a encontrar robots ou referências inusitadas à robótica nos locais onde menos espero. Da última vez foi na livraria Castro e Silva, com uma divertidíssima capa de revista do mestre Vilhena, que como se esperaria, é em iguais medidas sensual e jocosa, só que esta mete robots. Desta vez, foi num supermercado caldense, e claro que o livro veio comigo. Não só pelo tema, mas por ser também essa coisa rara por cá, que é um livro de ficção científica para jovens leitores.

A história é simples, acompanhamos um robot preceptor que tem como missão educar uma rapariga de oito anos que se deverá tornar a futura rainha de um império galáctico. Explorando as aprendizagens na estação espacial que os acolhe, o robot irá guiar a rapariga através das incessantes questões e experiências, e, no processo, perceber que ele próprio se está a modificar, a ganhar uma consciência além da sua programação, bem como algo de estranho que qualquer humano depressa identifica como carinho pela criança que tem a seu cargo. O que leva a história a terminar por caminhos aventurosos - uma jovem que quer fugir ao destino de vida que lhe foi programado e quer explorar o universo, unida a um robot que transcendeu a sua programação graças à proximidade com o humano. 

Um livro simples, mas a mostrar-se da boa ficção científica - bem articulado, a deixar antever horizontes, e a fazer-nos refletir nos papeis da humanidade e tecnologia.  

quinta-feira, 19 de março de 2026

A Longa Tarde da Terra

 


Brian Aldiss (1986). A Longa Tarde da Terra. Lisboa: Gradiva.

Estou, provavelmente, a cometer um erro conceptual ao escrever isto, mas não consigo deixar de pensar neste livro com uma obra de cli-fi antes do movimento. É uma simplificação, claro, dado que o cli-fi se foca nas consequências das alterações climáticas induzidas pela atividade humana e este livro, além de anteceder em décadas a vertente da FC, tem uma premissa diferente. Mas no seu cerne, está a preocupação em especular sobre quais serão as consequências a muito longo prazo de alterações no clima planetário.

Neste futuro distante, a humanidade e as suas obras são uma memória perdida. Ainda há humanos, vivendo em grupos isolados e assumindo formas que por vezes são irreconhecíveis como tal. O mundo cobre-se de uma enorme floresta. Na visão de Aldiss, olhamos para um tempo em que o Sol se encontra a amadurecer e a chegar ao fim do seu ciclo de vida. A sua expansão trouxe radicais alterações climáticas, com a quasi-extinção da vida tal como a conhecemos. O mundo vegetal foi o que melhor se adaptou às novas condições, e evoluiu de uma forma verdadeiramente selvática, com as plantas a assumir muitos dos nichos anteriormente ocupados pelas formas de vida animal. As plantas tornam-se agressivas, móveis, carnívoras e reveladoras de comportamentos estigmérgicos para emergir no topo da cadeia, dominando o novo ecossistema planetário. Começam até a expandir-se, de forma natural, atingindo a órbita terrestre, colonizando a Lua, e tornando-se capazes de expelir vagens que poderão realizar viagens interestelares.

Bizarro, certo? Esta obra é mesmo uma leitura muito inesperada que não merece ficar esquecida.

É neste panorama de fundo que assistimos às aventuras de um jovem humano, que começa a vida a sobreviver com o seu grupo no meio das árvores. Quando o seu grupo maternal se desfaz - uma necessidade organizativa, quando os mais velhos sentem que já não são capazes de assegurar a segurança do grupo, o jovem inicia um périplo pelo estranho mundo. Curiosamente, em modo de encerramento de ciclo, no final do livro irá reencontrar o seu grupo maternal original, que passou pelo ritual da ascendência - abandonar os seus jovens, subir ao topo das árvores para se encerrar em vagens, pensando que chegou o final das suas vidas, mas acabar por se ser propulsionado para a Lua e, num novo ecossistema, sofrer alterações corporais que lhes dão uma nova vida, bem como a missão de regressar periodicamente à Terra para tentar trazer humanos para esta nova forma de ser.

O périplo do jovem é cheio de aventuras, atravessando um mundo hostil mas ao qual está habituado. Depara-se com outras tribos e outras humanidades, entra em simbiose com um fungo inteligente que o usa como instrumento para deixar o planeta, interage com térmites semi-inteligentes e depara-se com outras formas de vida animal inteligente e consciente. Chega até a encontrar vestígios de uma humanidade há muito esquecida. Em pano de fundo, o estranho mundo onde a natureza vegetal expansiva e agressiva evolui num tumulto, seguindo um imperativo biológico de sobrevivência, inconsciente e instintivo, que perante a proximidade da extinção do sistema solar com a explosão do Sol em nova (é um futuro muito distante, o deste livro) consegue criar condições para levar as sementes de vida para lá do sistema solar.

A prosa cerrada de Aldiss evita que este livro delirante se torne num delírio surreal, embora a imagem mental que as descrições da sua natureza me tenham evocado uma espécie de surrealismo ao estilo frottage de Max Ernst em tons verdejantes. O voo especulativo é sólido, imaginando um mundo onde os caminhos da natureza seguem percursos inesperados, com uma vida vegetal agressiva e nada vegetativa.

quinta-feira, 12 de março de 2026

A Semente da Terra


Robert Silverberg (1962). A Semente da Terra. Expressão e Cultura.

Um curioso, algo esquecido e um pouco desajeitado livro dos tempos clássicos da Ficção Científica. A humanidade está a espalhar-se pelas estrelas num esforço de colonização. Todas as semanas, foguetões descolam da Terra para sulcar o espaço interestelar e depositar cinquenta casais de colonos em planetas habitáveis, numa viagem sem regresso. O problema, é que praticamente ninguém quer abandonar a sua confortável vida terrestre e construir um novo destino nas estrelas. A solução para isso é um sistema de lotaria, em que os felizes contemplados (bem, na verdade infelizes) tem de abandonar a sua vida, carreira e família para embarcar nas naves colonizadoras. Alguns, raros, têm a oportunidade de serem acompanhados pelos seus conjugues, mas para todos a receção da lotaria equivale a uma sentença de morte em vida. Não que a morte os espere nos planetas que irão colonizar, estamos nos tempos clássicos da FC onde era dado como adquirido que praticamente todos os planetas são habitáveis.

O livro é algo desconexo, divide-se em duas grandes secções. Numa, acompanhamos a resignação de alguns vencedores da lotaria, que irão embarcar numa nave com partida marcada, bem como o drama interior daqueles que têm como função administrar o sistema, e que não são imunes à frieza do mesmo. Na segunda metade os colonos são enviados a outro planeta, e abandonados à sua sorte (embora com as condições técnicas e materiais para sobreviver. O que poderia ser uma história de organização de sistema sociais em condições adversas torna-se uma bizarra aventura, quando dois casais de colonizadores são raptados pelos nativos do planeta e levados para uma caverna, onde irão ceder a todas as tensões até encontrarem forma de cooperar e regressar à incipiente colónia.

terça-feira, 10 de março de 2026

Astrofuturism


De Witt Kilgore (2003). Astrofuturism: Science, Race, and Visions of Utopia in Space. Filadélfia: University of Pennsylvania Press.

Uma viagem pelas ideias que definem as clássicas utopias dos futuros no espaço. Este longo ensaio olha para as influências seminais de autores de ficção científica e cientistas na definição da ideia de exploração espacial como misto de destino último da humanidade, zona de aventura e espaço dedicado ao máximo potencial da ciência. É um cruzamento de fé científica, esperança na tecnologia e utopia que nasceu no dealbar do século XX e ainda hoje continua presente, embora atenuado.

Este ensaio olha para as visões que evoluíram ao longo de um contínuo que começa nos pulps e no trabalho de Von Braun (que não se limitou à engenharia), ao otimismo tecnológico de Clarke e ao destino manifesto de Heinlein, às visões de colónias orbitais suburbanas de Gerard K. O'Neill e termina na visão com nuances sociais e étnicas de Ben Bova.

Não cobrindo todo o espectro da ficção científica, centra-se nalgumas figuras de charneira, olhando para a forma com o espaço de ideias evolui a partir de princípios ligados a uma certa visão de superioridade inata do homem ocidental, euro-americano, mas que se vão adaptando à evolução dos tempos, abrindo-se às questões sociais para contrabalançar o simplismo das fantasias meramente técnicas.

terça-feira, 3 de março de 2026

Hot Moon


Alan Smale (2022). Hot Moon. Rockville:  CAEZIK SF & Fantasy.

Ah, sabe tão bem ler ficção científica no seu mais essencial: aventura no espaço e especulação bem urdida. Não me interpretem mal, isto não é um comentário contra as vertentes mais complexas do género, até porque se a FC se tivesse mantido neste espírito clássico não teria evoluído em termos temáticos e estilísticos, e já teria desparecido enquanto género literário. Mas a aventura de deslumbre de premissa simples (mas com complexa construção de mundo ficcional), quando bem feita, recorda-nos a base da FC.

Este é um daqueles livros que não se consegue parar de ler. Não é particularmente complexo, segue as aventuras de uma astronauta cuja primeira missão lunar, no final dos anos 70, a mete no meio de uma disputa da guerra fria que se torna quente. O sonho da astronauta que só quer ser a primeira comandante de um módulo lunar a alunar acaba por se tornar numa sucessão de peripécias quando cosmonautas e o KGB fazem um ataque às estações espaciais e base lunar americanas. O ritmo é vertiginoso, e somos mergulhados numa visão da exploração espacial que coloca soviéticos e americanos em órbita e a construir bases lunares, numa ação de guerra espacial para que a Rússia neutralize uma ameaça militar secreta, com uma base lunar militar americana capaz de lançar projéteis sobre a Terra. 

A aventura segue em grande estilo, com  uma sucessão inaudita de peripécias em órbita ou na superfície lunar. A especulação é destravada e temos de tudo, entre batalhas campais por entre as crateras lunares, périplos desesperados, explosões atómicas e batalhas no espaço... entre módulos Apollo e LEM soviéticos. É, como é óbvio, uma leitura muito divertida, apesar de por vezes a sucessão imparável de sevícias aventureiras em que o autor coloca  a sua heroína se tornar cansativa. 

O lado aventura pura cheia de adrenalina no espaço é temperado por uma excelente dose de ficção especulativa, muito bem informada. O livro é também uma história alternativa, que se pergunta o que teria acontecido se os soviéticos tivessem sido os primeiros a pousar na Lua, e os americanos não tivessem torrado dinheiro e vidas na guerra do Vietname, investindo esses recursos numa corrida espacial mantida ao rubro pela capacidades orbitais soviéticas. O autor fez muito bem o seu trabalho de casa, dando vida nesta sua ficção aos muitos projetos de veículos orbitais, estações especiais, módulos, habitats e veículos lunares que quer os engenheiros soviéticos quer os americanos propuseram, desenvolveram mas não saíram do papel. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A Ciência na Ficção Científica


Manuel Moreno, Jordi José (2016). A Ciência na Ficção Científica. Lisboa: Atlântico Press.

A ficção científica é um género com muitas vertentes. Tanto pode ser a algo pateta mas divertida história de aventuras no espaço/cobóiadas com monstros de olhos esbugalhados, extrapolação de tendências tecnológicas e sociais, experiência de imaginário tecnológico e futurista, ou puro experimentalismo especulativo. A sua ligação à ciência é conhecida (bem, começa logo no nome, mas a relação é profunda e bilateral), e uma das simplificações que os não iniciados no género costumam fazer é o de a considerar como preditiva em termos científicos e tecnológicos, o que é um erro. O género nunca foi oracular, exceto na imaginação popular, e alguns autores cultivaram deliberadamente essa visão como forma de ganhar dinheiro. Por isso, não surpreende que quando se analisa a FC à luz dos constragimentos científicos o género saia a perder.

Não ajuda o destratamento que lhe é dado no lado mais pop do género, no cinema e comics. Como fã da FC literária, já me habituei à necessidade de desligar o cérebro se for ao cinema ver um filme apontado como de FC. Não por acaso, a esmagadora maioria dos atropelos, inconsistências e impossiiblidades gritantes vem do cinema, onde a necessidade de espetáculo fácil para agradar às massas se sobrepõe à seriedade lógica e narrativa. Nos comics, particularmente os de super-heróis, a coisa é muito pior. Como seria de esperar, claro está.

Então, se a FC atropela tanto a ciência que lhe está no adn, para quê lê-la e respeitá-la como género? Bem, por um lado por ser divertida. A FC que é tão maltratada nestas coisas não deixa de proporcionar alguns momentos divertidos. Mas se queremos levar a coisa mais a sério, não é nas expressões de massa que se encontra a FC para que vale a pena olhar. Há autores que nos levam em brilhantes voos especulativos, fascinantes construções conceptuais, em obras onde a reflexão sobre impactos sociológicos da ciência e tecnologia são extrapoladas sob a lente do imaginário do género. 

Na verdade, não lemos ficção científica porque queremos prever o futuro ou aprender ciência. Para um, basta ir a Delfos perguntar à pitonisa, e para outro, bem, é para isso que servem os sistemas educativos. Mergulhamos na FC porque queremos sonhar com possibilidades e potenciais, extrapolando do nosso conhecimento sob a lente do imaginário.  

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Ex.Mag 01

 

Já percebi que o bom gosto do editor da Sendai é elevadíssimo. Não só pelo que traduz e edita por cá, trazendo-nos manga fora dos estilos e temáticas habituais, muito ecléticos mas tendo em comum uma certa poesia surrealista, quer quando nos leva a ler mangá experimental, ficção científica cosy ou delírios do guro. Também vende diretamente outras propostas, e foi da banca dele no Fórum Fantástico que trouxe esta Ex.Mag 01. Os autores são desconhecidos, organizou-se via Kickstarter, e o tema desta primeira edição é o Cyberpunk.

Como é óbvio, não consegui resistir. Novas visões sobre a velha estética distópica dos anos 90 que entusiasma tanto os techbros que constroem o mundo digital? Vamos a isso.

A antologia é interessante, visualmente diversa, com alguns talentos muito bons em evidência. A temática é obviamente distópica e é curioso ver como os novos criadores extrapolam os maus impactos sociais e pessoais da tecnologia nas suas visões de futuro, tendo em conta que já pertencem a uma geração que desde que nasceu sente na pele o pior do mundo digital. Podem descobrir esta leitura interessante aqui: https://www.sendaibooks.eu/exmag1


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

The Gas


Charles Platt (1980). The Gas. Londres: Savoy Books.

Tenho de culpar o Damien Walters, com as suas sugestões de leitura, por ter tropeçado nesta bizarria. Não a teria descoberto de outra forma. Walters partilhou-a como inesperada leitura fora da caixa, e, de facto, é-o. Não é um grande livro, apenas algo de inesperado. Nome menor da FC britânica, Platt esteve envolvido com a lendária New Worlds. Este The Gas... bem, como o qualificar? 

Apesar de ter sido escrito por um autor de FC e ter elementos do género, The Gas é um romance pornográfico, típico material masturbatório escrito a metro para excitação dos leitures num tempo antes da internet, onde era mesmo preciso ler segurando o livro com uma das mãos e imaginar para, enfim, creio que percebem. Hoje, com a proliferação banalizada da pornografia online, cada vez mais a extremar-se para despertar interesses adormecidos pela generalização, este tipo de livros parece-nos algo inocente e peculiar. 

Como descrever este livro? Imaginem a premissa do clássico The Purple Cloud, mas em vez de um gás mortal que se espalha pelo mundo temos um acidente num laboratório que liberta uma nuvem que se espalha por toda a Inglaterra, cheia de uma substância que exacerba o desejo sexual. O resultado é um colapso social, com toda a gente a sucumbir ao desejo desenfreado e meter-se em orgias cada vez mais violentas. Talvez a melhor forma de descrever isto seja imaginar o típico cenário de histórias de zombies, mas com hordes de pessoas esfaimadas por sexo em vez de mortos-vivos. Aliás, há muitas cenas no livro que poderiam ser transportadas para filmes de zombies.

Claro que tudo isto é uma desculpa para se sucederem descrições explícitas de atos amorosos, com uma decadência progressiva nos mais proibidos tabus. Apesar disto, há um romance, uma lógica no livro, uma linha narrativa de merguho na insanidade. Algo que o livro tem aos rodos - à medida que se aproxima do final, as tropelias tornam-se cada vez mais bizarras e as descrições mais insanas. Platt certamente que se divertiu a imaginar o que aconteceria se estudantes de ciência perdessem todas as inibições e usassem as experiências em modo secxual, numa sequência que termina com uma das cenas mais insanas que já li - o colapso de uma catedral usada por bandos de lésbicas enraivecidas de desejo, que se dedicam a torturar homens até à morte. 

É ainda pior do que imaginam, naquele surrealismo da má literatura em que é tão mau que se torna interessante. Não é que o livro seja um mau livro. É algo que ultrapassa a mera qualificação de material masturbatório escrito a metro, com um aceno à ficção científica numa história de apocalipses em versão deboche.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Shroud


Adrian Tchaikovsky (2025). Shroud. Nova Iorque: Tor.

Uma das grandes preocupações visíveis na obra de Adrian Tchaikovsky está no explorar o conceito de inteligência não humana. Algo que fez muito bem na série Children of Time, com as formas de vida inteligente evoluídas nas condições únicas dos seus planetas a partir de um princípio de engenharia genética humana, abandonado no passado. Em Shroud, o autor pega nas ideias sobre formas de vida inteligente adaptadas a condições naturais muito agrestes e leva-as ao seu extremo, de uma forma peculiar e brilhante. 

Outra das grandes preocupações que se percebem na obra deste escritor prende-se com o papel dos indivíduos que, apesar de protagonistas, têm pouca capacidade de decisão por estarem envolvidos em sistemas complexos que determinam as suas ações. E neste livro, o sistema é uma caricatura pouco velada dos excessos do capitalismo neoliberal, um sistema de expansão constante onde as pessoas só são úteis enquanto trabalhadoras dedicadas mas descartáveis a cada novo projeto, e a exploração do espaço serve apenas para extração de recursos que permita manter o sistema em constante crescimento. 

A distopia é pura, embora os personagens não a questionem. Afinal, é o sistema que sempre conheceram, para o qual foram doutrinados e sempre conceberam como o natural e lógico. Um sistema que afirma ter salvo a humanidade da destruição após o colapso ecológico da Terra, através da expansão contínua pelo espaço numa lógica de extração crescente de recursos.

Shroud representa uma pedra na engrenagem de expansão. Um ambiente incrivelmente inóspito, mas que alberga vida. Formas de vida que evoluíram em condições de pressão atmosférica tremendas e escuridão total, que se adaptaram à emissão de ondas eletromagnéticas como forma de sentir o mundo ao seu redor. Um ecossistema de criaturas cegas e surdas, que vivem no que para os humanos é uma cacofonia de radiação eletromagnética. 

A descoberta mais surpreendente dá-se na superfície do planeta, quando um grupo de investigadores que sobrevive a um acidente em órbita se vê obrigado a um périplo de sobrevivência duvidosa. Por entre as violentas formas de vida, descobrem uma que mostra sinais de inteligência e sociedade organizada, algo similar às formigas. Algo que se virá a perceber como uma inteligência distribuída em enxame, que usa cada indivíduo como neurónio e com capacidades de adaptação biomecânica. Duas inteligências, a humana e a nativa do planeta, totalmente incompatíveis e sem forma de comunicar entre si. Num pormenor muito curioso, Tchaikovsky descreve como a vida alienígena consegue compreender as máquinas humanas, mas é incapaz de sequer reconhecer a vida humana que as tripula.

Mas descobrir vida inteligente não representa um obstáculo para a estratégia organizacional. Pelo contrário, é até vista como mais um recurso para explorar. O problema, é que o contacto com os humanos abre novas perspetivas à inteligência alienígena, com resultados catastróficos, até que a coragem de uma das investigadoras sobreviventes permite encontrar uma forma de comunicação comum. Um livro intrigante, sombrio, aviso distópico sobre os excessos do capitalismo, e reflexão sobre a complexidade da intercompreensão.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

O Planeta Vermelho


Carlos Orsi  (2013). O Planeta Vermelho.

Não é muito fácil para nós, deste lado do atlântico, ler FC brasileira. Apesar da língua em comum e dos acordos culturais e ortográficos, os livros de lá não chegam cá, e vice versa. Quanto aos autores, só chegam os do mainstream, que sem dúvida têm qualidade e ideias interessantes, mas de parte ficam as ficções fantásticas. Claro, nos dias que correm a internet tem algumas soluções para estes fossos culturais, mas nem assim é fácil apanhar autores de FC brasileira. 

Comecei esta leitura com grandes expetativas - trata-se de um conto de um dos autores considerados de referência na FC além-atlântico, mas leitura feita, revelou-se bastante mediana. O conto é um pastiche lovecraftiano, um recontar de At The Mountains of Madness tendo como pano de fundo uma colónia marciana que se está a afastar das suas raízes terrestres (e neste ponto, Orsi consegue coisas muito interessantes), e os escritos antigos ocultos em ruínas alienígenas cuja decifração provocará o acordar dos piores males.

Não é excelente, mas homenageia bem as suas assumidas fontes de inspiração, e ainda nos dá elementos curiosos de worldbuilding. Gostaria de ler mais deste autor, embora tema que as profundezas do atlântico sejam fortemente impeditivas disso.