Kenji Tsuruta (2025). Espírito da Aventura. Lisboa: Sendai.
Diria que se queremos ler manga realmente interessante em português, temos de prestar atenção ao catálogo da Sendai. Esta editora é muito consistente nas suas propostas, e traz sempre livros desafiantes para os leitores. Que me perdoe A Seita, que também tem trazido algumas leituras bem interessantes, e a Devir, que tempera o seu catálogo de mangá para adolescentes com obras de maior fôlego. Mas, para trabalhos independentes, fora da caixa, inesperados ou de estéticas inesperadas, é a Sendai que nos alimenta.
O trabalho de Tsuruta já é conhecido por cá, graças à edição da ficção científica poética e romântica dos vários volumes de Emanon, que ilustrou com argumentos de Shinji Kajio. Espírito da Aventura é um trabalho a solo, que reúne um conjunto de contos interligados entre si que foi desenhando ao longo de décadas. É ficção científica pura, mas féerica, pejada de personagens obcecadas com as suas investigações em tecnologias etéricas ou de teletransporte. Não são histórias a pensar na especulação verosímil. Podemos esperar velhotes que vão a Marte de dirigível, aventureiros obcecados em descobrir os tesouros dos avós nas cidades submersas, ou formas de projeção que permitem ir à Lua, sem na verdade ter de sair da Terra. Como podem perceber, não se trata de FC clássica, mas sim da sua apropriação poética. O traço sublinha isso, com um elegante barroquismo algo vitoriano na sua estética, sem que se tenha uma noção concreta de tempos passados ou futuros.