quarta-feira, 30 de abril de 2014
Dylan Dog: Orrore Nero
Tiziano Sclavi, Luigi Mignacco (1989). Dylan Dog Speciale #03: Orrore Nero. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..
Dellamorte Dellamore é um daqueles livros que dificilmente lerei. Romance atípico de Tiziano Sclavi, tem nele os principais elementos que vieram a cristalizar-se em Dylan Dog, desde um protagonista modelado no físico do actor Rupert Everett a um ajudante caricatural, com o foco em aventuras onde o terror surreal impera. Deste livro, raro, difícil de encontrar e não traduzido, foi filmado pela mão de Michele Soavi um dos mais belos filmes de terror italiano, com o actor Rupert Everett a representar Francesco Dellamorte,personagem inspirado nele próprio, e um inesquecível Gnaghi a sublinhar o surrealismo onírico de um filme de terror que dificilmente horroriza.
A história, quer do livro quer do filme, é de uma simplicidade enganadora. Na pacata vila lombarda de Buffalora o vigilante do cemitério e o seu ajudante têm como missão manter os mortos... mortos. A cidade é vítima de uma praga. Ao cair da noite os habitantes do cemitério têm o mau hábito de sair das suas campas, obrigando os vigilantes a mantê-los no seu lugar ao tiro ou à pazada. Quer Dellamorte quer Gnaghi se apaixonam, sublinhando a relação mística entre Eros e Tanatos de uma forma muito gongórica. Dellamorte apaixona-se pela mesma mulher em três diferentes encarnações, como viúva que trai a memória do marido, foco de mortalidade necrófila e ícone sexual. Já Gnaghi tem uma relação menos problemática com a cabeça decapitada falante de uma zombie que guarda dentro do ecrã partido de um televisor. Tudo isto no espaço romântico de um cemitério classicista, cheio de monumentos fúnebres a roçar o gótico, com zombies patéticos (no filme, uma das mais hilariantes cenas é quando Dellamorte vai abatendo um por um uma infestação de escuteiros zombie) e um final de um surrealismo a fazer inveja a Dali ou Max Ernst.
Sclavi revisita Dellamorte Dellamore neste Orrore Nero, história que coloca em confronto o que poderia ter sido Dylan Dog e o que realmente se tornou. Regressamos à pacata Buffallora e à singular ocupação de Francesco Dellamorte, revendo de forma muito comprimida os momentos fulcrais do romance. Na Londres do habitante do número sete de Craven Road um assassino psicopata a soldo da máfia vai eliminando cientistas e testemunhas, até que uma das suas vítimas lhe revela o porquê do seu capo querer eliminar quaisquer vestígios. Uma das vítimas colaterais é um jovem rapaz que frequenta a casa de Dylan, para desgosto deste e muito gosto do histriónico Groucho. Furioso, Dylan embarca numa caça ao homem para vingar o jovem, e acaba por matar o seu assassino. Mas a morte não é o fim. O projecto secreto que tantas vítimas causou tinha a ver com uma fórmula química para vencer a morte, e Dylan viaja à terra onde o assassino foi sepultado para se certificar que está realmente morto. No final da aventura Dylan e Groucho colidem na estrada para Buffalloro com Dellamorte e Gnaghi, um final perfeito e surreal que mostra a génese e o padrão do mais singular e interessante personagem de banda desenhada italiana.
Se Sclavi se mantém no registo de terror surreal que tanto me encanta como leitor, o ilustrador Luigi Mignacco sabe bem puxar o lado gótico tradicional do barroquismo dos cemitérios na ilustração. Talvez não seja tão bom quanto ler o livro original, nem visualmente tão deslumbrante quanto o filme de Soavi, mas este Orrore Nero dá-nos a provar uma outra faceta do escritor. Quanto ao livro, é daqueles que está no radar e um dia hei de o ter nas estantes. E talvez nessa altura já consiga ler italiano com fluência suficiente para o saborear.
Perfeição
Apanhada nos feeds da Stan Winston School of Character Arts, esta enganadoramente simples imagem de síntese está na linha directa da mítica capa da Astounding para o conto Helen O'Loy de Lester del Rey. Uma revisão do já muito clássico tema de simulação mecânico-robótica da visão de perfeição feminina submisiva, criada com as tecnologias que hoje são exímias em enganar o olho e a fazer parecer o irreal real.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Playtime
É irritante como é sempre nas alturas de maior sobrecarga laboral que me dá vontade, pachorra e impulso para me meter a criar objectos detalhados em 3D. Neste momento a onda são os aviõezinhos. Para além de me divertir a criar, estou a afinar técnicas de trabalho mais complexas no Sketchup, a estender os limites do que sei e consigo fazer. Passo a passo, linha a linha. É a treinar que se afina a técnica.
Espero no final deste mostrar algo que tenha parecenças mínimas com um B-17. Porquê este avião? Porque comecei pelas nacelas do motor e por acaso dei com os B-17 quando comecei a pesquisar referências visuais. Calhou. O acaso tem o seu quê de sedutor.
BD: Kris Kool; Armies; Tottentanz.
Caza (1970). Kris Kool. Paris: Le Terrain Vague.
Suponho que ler esta obra clássica no silêncio da madrugada seja o mais próximo que se possa chegar de uma viagem alucinatória psicadélica sem ter de recorrer a químicos de fama incerta. Caza dispensa apresentações, sendo um dos veteranos da ilustração de BD e ficção científica de visão surreal, mas neste Kris Kool superou-se a si próprio. Se o corpo da sua obra se classifica como uma interpretação classicista do surreal, este livro ultrapassa esses limites e entra desavergonhado no campo do psicadelismo puro. Formas que se dissolvem, sombras inexistentes, exuberância de cores vivas e irreais. A história não lhe fica atrás, uma viagem de delirante futurismo com toques eróticos onde um piloto de naves espaciais se apaixona pelas mulheres-flor venusianas e acaba desterrado num mundo paralelo, rodeado de beldades vegetais e a lutar contra uma montanha carnívora. Pois. Não faz muito sentido. É delírio, com o seu quê de patético. O que torna Kris Kool interessante e de referência é o profundo assalto visual das suas pranchas, viagem alucinatória que sobrecarrega o cérebro.
Jean-Pierre Dionnet, Jean-Claude Gal (2013). Armies. Los Angeles: Humanoids.
Se se é um fã de aventuras sanguinárias de soldadesca em eras de fantasia, adora-se este livro. Se não se é fã deste género de aventuras, resta o trabalho do ilustrador a criar um deserto de ruínas feéricas e exotismos como palco para as histórias de legiões em combate num mundo que talvez seja um esquecido passado distante ou um pós-apocalíptico futuro. Esta edição reedita um dos clássicos da BD francesa dos anos 80.
Dino Battaglia (2005). Tottentanz. Bilbau: Astiberri.
O horror de Poe, Meirynk e Hoffman revisitado pelo traço de expressividade clássica de Dino Battaglia. Livro de época, mantém-se fiel à letra das obras que são adaptadas com um grafismo expressionista quase tenebroso.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Playtime
Hoje foi assim.
Começou por isto...
E depois de acertar pormenores só restavam as texturas. Mas confesso que prefiro a pureza do barro digital a dar forma à malha poligonal ao polimento colorido final.
Comics
2000AD #1878: This won't end well, reflectiu Bruce Sterling perante um público tecnólogo espantado pelas revelações de Snowden sobre a extensão e ubiquidade da hipervigilância por agências secretas. Confesso que fiquei surpreendido em ver o habitualmente fascista Dredd a meter-se nestas águas turvas num arco narrativo que caricatura muito bem os problemas éticos da vigilância em segredo de cidadãos, as perseguições àqueles que se atrevem a contestar o estado das coisas e a revelar as maquinações de gabinete ao público, e a revolta quando o véu é destapado e se descobre que não se pode confiar no que parece confiável. Este MegaCity Confidential chega ao pormenor de ir buscar personagens decalcadas ao jornalista do Guardian e ao seu namorado, que felizmente, neste mundo real, apenas foi detido com confisco de todos os seus equipamentos electrónicos ao aterrar em Londres (leia-se este "apenas" com dose certa de ironia). Na mega cidade os juízes não são tão permissivos.
The Massive #22: Depois de uma série de arcos narrativos de interesse bocejante sobre o historial do líder da organização ambientalista armada que é o cerne de The Massive, voltamos à especulação pura informada sobre o futuro próximo num novo arco muito prometedor. Geoestratégia e controlo de recursos hídricos colidem num futuro em que a Arábia Saudita se tornou o maior detentor de reservas aquíferas do mundo. Um sedento Marrocos vai ser abastecido por uma coluna de camiões que terá de atravessar os desertos maghrebinos, protegidos por aguerridas mulheres-soldado. Promete, esta mistura de estética do desastre com terceiro-mundismo e especulação sobre um possível futuro próximo de conflitos sobre controle de recursos naturais.
Über #11: Kieron Gillen poderia ter seguido o caminho mais simples e mesmo assim manter o interesse. A ironia autofágica do seu comic que mistura guerra, super-heróis e nazismo vai-se aguentando bem nas aventuras dos übermenschen germânicos que, na décima primeira hora, quando os sinos já soavam pelo regime nazi, conseguiram salvar Hitler e inflingir pesadas derrotas aos russos e aliados ocidentais. Nesta edição explosiva Gillen muda o jogo. Sieglinde, uma das super-armas nazis, é enviada para decapitar a liderança britânica e elimina Churchill, enquanto outro dos super-seres extermina Hitler, senhor de que supostamente é vassalo, para se vingar dos horrores sofridos pelos alemães na frente leste. E nós ficamos com uma história alternativa da II guerra sem Hitler nem Churchill, com super-seres amorais à mistura e um grande ponto de interrogação sobre que caminhos a narrativa irá agora percorrer. Para ser rigoroso devo observar que a série francesa Le Gran Jeu também segue um percurso semelhante, com a Alemanha Nazi a sobreviver num pós-guerra após o assassínio de Hitler.
The Witcher #02: Diga-se que estou a admirar o humor seco mas divertido desta série. Eu sei que não é habitual em mim este deslumbre pelas fantasias com toque de oculto, mas é impossível resistir às brincadeiras com linguagem e sentidos que se estendem ao longo do intrigante argumento deste comic.
domingo, 27 de abril de 2014
Ao redor...
... de Torres Vedras, a este do oeste (ou seja, entre Dois Portos, Carmões, Merceana e Aldeia Gavinha).
sábado, 26 de abril de 2014
Playtime
A testar técnicas de modelação no Sketchup, utilizando alguns truques para criar formas por revolução ou esculpir superfícies com curvatura a partir de extrusões.
Curvas da Estrada
Quando arriscamos sair das vias principais e esquecer os protestos dos mapas automatizados, arriscamos encontrar locais que encantam o olhar. À deriva nas estradas entre Óbidos e Lourinhã.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Playtime
A modelar no Sketchup. Onde as coisas difíceis são insanamente fáceis e as fáceis irritantemente difíceis. (Um destes dias tiro um curso de modelação nisto.)
Ficções
Feathers #01: Uma belíssima surpresa da editora Ave Rara: um webcomic gratuito que, nas suas palavras, servirá de teaser para projectos de maior fôlego ou mostruário do que se faz de bom na BD portuguesa de vanguarda. É significativo que o seu primeiro número tenha sido dedicado ao horror, com Last Supper a despertar o apetite para o prometido Lugar Maldito. O argumento de André Oliveira assenta no mais clássico do terror, aquele que questiona a percepção do foco narrativo, e o traço expressionista de Pepedelrey sublinha a ambiência negra da história. Um excelente arranque para esta edição digital do trabalho dos estúdios Ave Rara.
Pele de Escrava: Um conto de requintes de dramatismo macabro, onde uma jovem escrava, objecto de desejo de um lúbrico e desprezível senhor de terrenos, é utilizada como instrumento de vingança pelas almas de escravas anteriores. Os gostos do senhor terminavam no assassínio das jovens, e esta escrava não tem uma sorte melhor, apesar de conseguir vingar os desmandos. Aprisionadas nos reflexos de um espelho, são libertadas pelo seu estilhaçar às mãos de uma velha escrava que talvez seja a verdadeira instigadora da vingança. Conto de absolutos narrado num estilo suave e intimista de Carina Portugal.
Vila de Cobres: Sob o brilho a cobre polido do steampunk corre uma história de desejos esmagados que culmina num acto de violência. Um engenheiro, eterno filho das classe inferiores britânicas, procura num portugal transformado por uma revolução industrial que nunca aconteceu o reconhecimento social que lhe escapa na Inglaterra de aristocracias impenetráveis. Arruína-se ao deixar-se levar pelo desejo, porque, enfim, esta não é uma história de amor. É particularmente interessante a descrição de um porto de Lisboa pejado de elegantes navios a vapor neste conto de Olinda Gil.
Demodé
Confesso que houve uma altura que pensava que havia um destaque excessivo ao 25 de Abril. Com todo o respeito à época e seus ideais, pensava, as conquistas já estavam feitas, Portugal era um país melhor, livre e virado para o futuro. Para quê, então, tanto olhar nostálgico para um tempo que passou? Hora de olhar em frente, agarrar o futuro, continuar a construir um país progressista, tecnologicamente avançado, com os pés assentes com firmeza no século XXI.
Bolas, que estava bem enganado.
Nestes últimos anos assistimos e sentimos, com um sentimento de profunda impotência, uma colisão destrutiva de crise financeira, instituições internacionais e ideologia global que deu nova energia a velhas forças revanchistas que aproveitaram muito bem a oportunidade para refazer o mundo à sua imagem ideal. Escrevo "mundo" porque o problema é global, não local, e os desmandos que por cá se passam são replicados em quase todos os países do mundo. E no que sobra do quase a situação não é melhor. O mundo avançado e progressista está a ser redesenhado com contornos que parecem saídos da época vitoriana. Bem vindos ao século XX, festejemos como se fosse a Belle Époque (não é por acaso que o economista francês Thomas Piketty a utiliza como analogia para caracterizar o fosso abismal de desigualdades que está a caracterizar este novo século).Por cá, as conquistas que se pensavam cimentadas na sociedade estão a ser pulverizadas com a eficiência de um blitzkrieg pelos novos cruzados, herdeiros de velhas ideologias.
Continuamos livres, é certo. Continuo a ter a liberdade de ler o que me apetece, escrever o que quero e expressar o que me vai na alma sem medos de ter um zeloso funcionário de uma qualquer polícia secreta a bater-me à porta para cumprir o seu dever, a bem da nação. Mas a cada dia que passo sinto as outras liberdades, tão ou mais essenciais como direitos humanos que a de expressão, a ser erodidas com uma ferocidade que causa espanto. Talvez até a própria liberdade de expressão, ameaçada por media sujeitos ao controle editorial de interesses financeiros e políticos que conseguem canalizar o espaço de ideias da opinião pública de uma forma mais elegante do que os meios clássicos de controle mediático. Ou, posto de outra forma, hoje não precisamos de prisões políticas, temos reality shows.
Em causa está a liberdade de uma vida digna, de um trabalho decente, de não ser um elemento precário para servir as necessidades fugazes dos interesses económicos, os direitos sociais elementares à educação e saúde, a liberdade de viver no país em que se nasceu sem ter de emigrar para escapar ao deserto, a liberdade de acreditar num futuro. A liberdade de viver uma vida e não ser um servo do feudalismo de uma economia de soma zero. O pior é perder a liberdade de acreditar no futuro. Se a esperança é esmagada pouco resta, e os braços perdem a força.
Hoje seria demodé imporem-nos a moral e os bons costumes, mas exigem-nos que aceitemos este inverter do progressismo em nome do progresso modernizador liberal (três grandes ideias tão desvirtuadas num tempo em que as forças retrógradas até o uso da língua apropriaram e desvirtuaram) com apelos à responsabilidade e consenso, as novas palavras-chave que mal disfarçam o conservadorismo bafiento de quem tanto as utiliza. Os últimos anos mostraram como as velhas forças continuam activas e a ferocidade com que agem mal encontram oportunidades. A crise financeira, provocada pelo aventureirismo sem escrúpulos da alta finança, permitiu o maior ataque de sempre aos direitos, liberdades e garantias, com o apoio activo de instituições globais, algumas das quais profundamente desvirtuadas, como a União Europeia liderada por políticos que traem abertamente o ideal de construção europeia.
Temos o 25 de Abril como símbolo de esperança, da construção de uma sociedade melhor, do que somos capazes de fazer e da força para enfrentar obscurantismos. Nestes dias cinzentos, não do sol que lá fora brilha mas das ideias cinzentas que nos vão na alma, é cada vez mais importante recordar, dignificar e manter viva a chama do grande momento de viragem que nos deu o Portugal moderno que, ao invés de ser melhorado, está a ser sistematicamente desmantelado. Esta crise, estes retrocessos à democracia, igualdade e liberdade, não se ficam por aqui, ou pelos países intervencionados pelas troikas. Vive-se à escala global. Diria que precisamos todos de um 25 de Abril, porque o século XXI não merece que os seus sonhos sejam traídos pelos saudosistas da Belle Époque. E quanto a nós, que não o esqueçamos. Se há algo que os últimos anos sublinharam foi a imensa dívida que temos para com os homens que ousaram inverter o estado das coisas.
(Momento nostálgico: recordo-me de ser criança e o meu pai me levar às comemorações do 25 de Abril na Alameda, que nos anos 80 era algo ao estilo Festa do Avante, cheia de barraquinhas de bifanas e muita bandeira vermelha. Arrancado aos meus livros e às minhas brincadeiras de imaginação, não achava muita piada aquilo mas recordo-me do sorriso feliz do meu pai nesses dias. Anos depois, percebi. Quando faleceu, a sua urna foi descida à cova ao som da música que mais amava. Recordo nesse dia luminoso o silêncio opressivo sobre o cemitério, quebrado pelos acordes de esperança do Grândola Vila Morena.)
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Zakarella
A curiosidade sobre Zakarella enquanto personagem foi-me desperta pelo trabalho de Nuno Amado, que tem tentado de forma independente recriar as aventuras da personagem em BD, com resultados muito promissores. Melhor do que o que eu poderia fazer sobre a história desta publicação, seus colaboradores e personagem, está este post no Leituras de BD sobre a Zakarella. Cá por mim irei descobrindo graças ao trabalho de preservação digital, mantendo um olho atento quando passar por feiras do livro e alfarrabistas (algo que faço muito menos do que desejaria por ter um patrão que insiste em cortar-me o ordenado com regularidade avaliativa troikista, mas vejam o lado positivo, é tão bom ser moralizado nos meus gastos pela asfixia económica). Quando o livro da Zakarella chegar ao prelo, cá estarei para lhe dar um espaço nas estantes. A descoberta recomenda-se, porque esta literatura delírante retro é uma pedrada no charco do que se espera das letras nacionais.
Flash Boys
Michael Lewis (2014). Flash Boys. Nova Iorque: W. W. Norton & Company.
Quando comecei a ler sobre este livro, que despertou a atenção de vozes críticas como John Naughton ou Cory Doctorow pelo vislumbre que nos dá do mercado bolsista na era dos algoritmos de compra e venda que automatizam e aceleram os processos de mercado, assumi que se tratasse de um technothriller com o pulso na hipermodernidade tecnológica, à semelhança dos romances de Daniel Suaréz. O livro tem de facto este carácter, mas não é uma aventura ficcional entre o policial e a ficção científica. É um relato jornalístico, muito real e interventivo, que acompanha um grupo de corretores que percebeu os vícios do mercado bolsista e se dedica a construir uma bolsa que esteja ao serviço dos investidores. E no caminho é uma introdução estrondosa ao trading algorítmico e às coisas extraordinárias que se fazem para reduzir em milisegundos o tempo das transações.
Não fiquemos à espera de um livro detalhado sobre a tecnologia de base desta forma de trabalhar em mercados financeiros. Os pormenores necessários estão lá, desde o investimento em infraestruturas dedicadas ao trabalho dos programadores que afinam estratégias em programas capazes de maximizar lucros de compra e venda. O real foco deste Flash Boys é a ganância desmedida dos principais intervenientes no mercado, as agências de corretores, que afirmam ter sempre o melhor interesse dos seus clientes em mente mas procuram as estratégias mais esotéricas para os prejudicar e maximizar os seus lucros pessoais. Isto, note-se, no rescaldo da crise financeira que obrigou os estados a pagar a factura dos anteriores desmandos do grande capital. Contas pagas, e a festa continua, agora afinada e acelerada por meios tecnológicos.
Um dos primeiros mitos que Lewis destrói é a ideia da bolsa como local onde corretores executam ordens de compra e venda. A imagem romântica de filmes como Wall Street (intuam "romântico" com ironia) é hoje quase inexistente. Desregulamentação, pressões do mercado e, paradoxalmente, regulamentos que visam proteger investidores mas são tornados de forma maquiavélica fragmentaram os locais de compra e venda. Em vez de bolsas clássicas existem hoje dezenas de bolsas electrónicas, mercados digitais de altíssima velocidade onde é quase impossível perceber o que se passa no seu interior. A velocidade de transação é um dos factores, outro é a opacidade intencional colocada pelos criadores destas bolsas. É aqui que se centra o livro, na análise feita por elementos de um banco canadiano que tentavam perceber porque é que perdiam dinheiro nos investimentos e se aperceberam que em mercados opacos cuja garantia de respeito pelas regras é dada apenas pela palavra daqueles que mais têm a ganhar com o desrespeito dessas mesmas regras, e na sua luta por fazer algo diferente.
Algo que este livro sublinha muito bem é que há sempre pessoas por detrás das máquinas. Concebemos esta modernidade de algoritmos, aplicações, automatismos e robots como algo de impessoal, um mecanicismo que infecta a nossa visão do real, mas de facto por detrás destes mecanismos há pessoas que os criam, pessoas que tomam decisões, pessoas que influenciam a forma como os mecanismos agem. É confortável que estejam por detrás da ilusão da tecnologia como algo mágico, quase com vontade própria. É uma excelente forma de fugir ao escrutínio público e poderem fazer o que quiserem. É esta falta de transparência a verdadeira ameaça que enfrentamos. Neste livro Lewis mostra como estes decisores discretos conseguem manipular o mercado dito livre a seu favor mantendo a ilusão da aplicação de regras e da liberdade do mercado. Se extrapolarmos esta tendência resvalante para outras áreas onde a automatização digital se faz sentir, percebemos os perigos sociais advindos deste impulso tecnológico. São as escolhas que são feitas que determinam as suas consequências. E se não houver transparência nestas escolhas, quer por se alegarem razões de força maior, de segurança, de responsabilidade, ou outras que se vão por ai ouvindo, não temos nenhumas garantias que estas respeitem os princípios sociais consensuais da tradição equalitária democrática. Sem querer cair em teorias da conspiração, a prevalência de interesses sombrios não costumam ser saudáveis para o mundo em geral.
E sim, a infraestrutura técnica e a complexidade dos programas de computador que possibilitam os mercados digitais medidos à fracção de milisegundo são algo que parece saído de um delírio cyberpunk.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Downspiral: Prelúdio
Anton Stark (2012). Downspiral: Prelúdio. Maia: Editorial Arauto.
Tendo o trabalho deste escritor já cruzado o meu radar em contos publicados online e em revistas, tinha algumas expectativas elevadas quanto a este Prelúdio. Queria perceber se a elegância literária e a solidez da construção de mundos ficcionais que noto nos contos escalava bem para algo com mais fôlego. Uma das coisas que me intrigou ao lê-los foi o parecerem fragmentos de algo mais elaborado. Num livro há mais espaço para o desenvolvimento de ideias.
Após a leitura o que surpreende é a notória ambição da obra. Não se trata de uma história contida nos limites de um livro, antes, é o primeiro de uma trilogia proposta. Este lado ambicioso é ao mesmo tempo uma virtude e um embaraço. A tarefa não é fácil. Stark cria e estabelece um mundo ficcional muito coerente, cheio de pormenores intrigantes e de vasta amplitude, largo panorama ou tabuleiro de jogo onde poderá dispor as peças que entender. Estabelece as diferentes linhas narrativas de uma teia complexa que, neste primeiro volume, têm poucas intersecções aparentes. E é aqui que as coisas se embaraçam um pouco. Sabemos que há aqui pano para mangas, espaço para continuidade narrativa, mas será que virão a existir um segundo e terceiro livros que sigam com as aventuras, deslindem as intrigas e nos ofereçam uma conclusão para as tribulações do azarado e levemente inepto espião Alleth, fio condutor das intrigas que torneiam a vontade de um reino em dominar os seus vizinhos?
Os ventos de guerra percorrem a terra de Eos. Dominada por um aristocrata de ambição desmedida, o reino de Amorslea move-se para dominar os seus vizinhos. São os exércitos da confederação Gunnlander quem mais tem sofrido a pressão das espadas e dos robots a vapor amorsleanos. O conflito alastra, envolvendo uma ordem monástica de cavaleiros e, através das maquinações dos nobres amorsleanos, uma raça de homens-lobo que nada mais quer do que viver em paz nas suas terras. Neste turbilhão move-se Alleth, mercenário e espião ao serviço dos serviços secretos de Amorslea, cujos objectivos nem sempre são nítidos mas que revela uma divertida inépcia nas suas missões. Está sempre em apuros e é invariavelmente capturado. Este Alleth não pode ser acusado se ser nenhum Bond.
Não sendo um livro perfeito, agradou-me muito. Mesmo para um assumido desconhecedor do que se faz em fantasia épica como eu perceberam-se no livro as influências que animaram o autor. A curiosa mistura de medievalismo com steampunk funciona, se não formos puristas dos géneros e soubermos apreciar as delicadas bizarrias das zonas de fronteira. Neste quadro conceptual o livro está muito no limite do equilíbrio entre influências literárias e a voz do imaginário do autor, como até é de esperar de uma jovem voz que está em franca formação. O anglicismo do título é um óbvio indicador desta ambivalência, que no entanto ao longo do livro se estabelece com firmeza para o lado do imaginário pessoal. O estilo literário é o que esperava do autor, mas sou obrigado a assinalar que tem bastantes momentos que precisariam de melhor afinação. Também é algo que vai melhorando ao longo do livro.
Honestamente, o que me chateia neste livro é chegar ao seu final e ficar sem conclusão. Está prevista, mas estamos em portugal, país pouco motivador para a publicação de ficção de género, e esperemos que Stark insista, melhorando, nesta trilogia. Admiro a ambição narrativa, um risco muito grande corrido pelo autor que se nem sempre se sai bem é, no cômputo geral, bem conseguida. As descrições intrigam e encantam, as das cidades, fervilhantes de vida e do exotismo que associamos a este género ficcional, ou das batalhas que formaram na minha mente um misto de soldados setecentistas com armas medievas e enormes robots a vapor. Os personagens assumem-se dentro dos estereótipos da fantasia épica, distinguindo-se um vulpino comandante pela complexidade com que está retratado. Neste primeiro volume é frustrante seguir fios narrativos que só se irão enredar na continuidade, caso dos monges marciais, que não colidem com as restantes linhas da história.
No global, foi uma leitura interessante. Ambiciosa, nem sempre bem conseguida, a mostrar o peso das influências iconográficas e a precisar de alguns retoques estilísticos. Mas, depois de terminada, as imagens mentais suscitadas pela sua leitura persistem e continuam a intrigar a imaginação. Se houver segundo volume cá estarei para apreciar a continuação das aventuras no mundo ficcional de Eos. Sublinhada fica a voz deste autor como uma das mais promissoras nas novas gerações do fantástico em Portugal.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Contos Inomináveis
Robert E. Howard (2014). Cultos Inomináveis. S. Pedro do Estoril: Saída de Emergência.
É em bom tempo que a Saída de Emergência nos traz uma antologia do horror pulp clássico de Robert E. Howard. Publica as traduções do clube de tradução literária da Lusófona no que é uma obra de referência para aqueles que desejem aprofundar o conhecimento da evolução histórica da literatura fantástica. Não sendo obras inéditas, fáceis de encontrar em edições anteriores ou online, o seu mérito está no ser uma tradução para português que as torne mais acessíveis ao público. Fica como obra de referência, mas também leitura divertida de um autor clássico que se hoje nos parece datado ainda nos oferece momentos interessantes de leituras. Nestes contos Howard andou à volta do cânone dos mythos de Cthulhu, que habitualmente associamos em sentido estrito a Lovecraft mas vão beber influências a Machen e foram visitados por autores como Derleth, Ashton-Smith e Bloch. A visão lovecraftiana tornou-se a mais prevalente mas as variantes destes autores têm o seu interesse. Estamos a falar de ficções, onde os cânones sólidos são referência mas o grande oceano de variantes é tão ou mais interessante do que o padrão literário.
A Pedra Negra recorda-nos o quanto a ficção pulp consegue ser boa. Não há palavras ao acaso neste conto onde todos os elementos são expressamente criados para despertar sensações de curiosidade ao leitor. A progressão narrativa em espiral vai-nos revelando camadas ocultas e espicaçando a curiosidade, enquanto a linguagem cerrada mistura com muita eficácia elementos da ficção de horror. Apesar de escrito por um autor pulp há mais de cinquenta anos, o conto tem um poder enorme de agarrar o leitor. Howard leva-nos por vários caminhos, desde mistérios bibliográficos a lendas daquela europa mais selvagem para lá das fronteiras do antigo império romano, até nos revelar que monstruosas criaturas com forma de sapo foram, em tempos, adoradas por tribos obscenas que a espada dos crentes se encarregou de eliminar. Os fragmentos de memória despertos pelos parcos vestígios que sobrevivem são capazes de levar os homens à loucura. Se a história nos diverte, o que realmente surpreende é a qualidade da prosa.
O carácter pulp da ficção de Howard está patente em Vermes da Terra, outra perfeita mistura de prosa de aventuras selvagens com o gótico grotesco do horror oculto. Buscando vingança pelas acções injustas de um general romano, Bran Mak Morn, rei legítimo dos Pictos que visita incógnito as legiões de Roma, vai despertar horrores do passado que os seus antepassados, a muito custo, empurraram para as profundezas da terra. O conto torna-se mais interessante porque consegue misturar na perfeição diferentes géneros. O militarismo da história antiga em conflito com antepassados selvagens encaixa muito bem com os horrores inomináveis que se ocultam nas sombras.
Se o título O Povo Pequeno nos parece conduzir a um bucólico conto de fadas, Howard depressa nos troca as voltas. A curiosidade de duas crianças pelas criaturas míticas que se ocultam nas ruínas megalíticas leva-as a cruzar-se com os descendentes degenerados dos povos pré-neandertais que, milénios atrás, foram reduzidos às sombras pelas espadas dos homens primitivos. As criaturas de mito são aqui visões degeneradas de horror.
O mergulho nas entranhas cavernosas da terra no conto O Povo das Tervas leva os personagens a reviver dramas do passado. Para Howard a história é cíclica, repetindo os dramas numa circularidade que transcende o tempo. O amante despeitado que quer assassinar o homem amado pela mulher que ama e os leva ao interior de uma caverna descobre-se numa aventura em tempos antediluvianos. Todos reencarnam num passado bárbaro onde os motivos são os mesmos, as acções também, e a redenção final sacrificial se repete. Tempo circular com criaturas monstruosas e bárbaros à misturas.
Talvez seja um traço de época (Lovecraft, por exemplo, não era nada inocente nestas problemáticas) mas há uma forte componente de xenofobia a percorrer Os Filhos da Noite. O início do conto, com o conclave de sábios preocupados com a sua pureza racial anglo-saxónica, aponta para um forte racismo no ideário de Howard. A história depressa resvala para campos mais obscuros no domínio da ficção fantasista que nos dá vislumbres dos horrores ocultos que demolidores de sanidade e, num traço curioso patente noutros contos reunidos nesta colectânea, um acidente dissolve o tempo e leva um dos personagens a reviver outras vidas. Não incidentalmente, revive lutas contra horrendos seres primitivos, humanos degenerados cujo extermínio é visto como um dever civilizacional. É difícil ser mais xenófobo que isto. Redimindo um pouco a memória do autor note-se a profunda poesia surreal da sua visão do tempo como um fluxo circular que se toca nos momentos mais inusitados: "O tempo e as várias épocas não são mais do que as rodas de uma engrenagem, que giram cada uma por si, sem saberem da existência das outras. Por vezes, se bem que muito raramente, os dentes dessas rodas conseguem encaixar-se; as peças começam a juntar-se momentaneamente, dando ao Homem vislumbres para lá do véu da cegueira diária a que chamamos realidade". Sem querer defender o indefensável, a xenofobia explícita nestes textos é marca de época.
Entramos no lado mais lovecraftiano da ficção pulp de Howard com A Avantesma no Telhado. Aqui o horror vem de mistérios esquecidos perturbados pela curiosidade humana e o conto tem uma forte componente bibliográfica, girando à volta do conhecimento secreto contido no lendário livro dos Cultos Inomináveis. A mistura entre biblioteca bafienta e horror sangrento final remete para o mais clássico terror.
Os horrores conjurados pela literatura proibida sublinham as desventuras do herói de O Monstro com Cascos. Um plácido mas dinâmico homem suburbano trava conhecimento com o literato mas misterioso vizinho da sua noiva, enquanto que a cidade onde vivem sofre uma vaga de raptos misteriosos que começa com inocentes animais mas depressa resvala ao desaparecimento de crianças. O culpado é o pacato literato, que oculta na sua casa um pesadelo resultado das suas experiências com invocações demoníacas, criatura de horror que requer alimentação constante.
Deste tema de crimes do passado envolvendo invocações e ritos ocultos vive Não me Cavem uma Sepultura, conto em tom de gótico grotesco onde o falecimento misterioso de um aristocrata de assinalável longevidade despoleta acontecimentos macabros que culminam num demónio arábico que reclama o que é seu. Novamente, este é um conto de perfeita literatura pulp, com cada palavra pensada para arrepiar e causar estranheza no leitor.
Do pulp de horror regressamos ao pulp de aventuras exóticas, desta vez com um fortíssimo pendor yellow peril. Se nos contos sobre valentes bárbaros em luta contra sub-humanos degenerados se notam pontas de xenofobia, neste em que perigosos orientais conspiram para mergulhar o mundo em guerras nos becos recônditos de Xangai a visão do perigo amarelo é perfeitamente notória, mesmo que no final se revele que os revoltosos foram peões manipulados por um homem branco que se disfarça de lama e cujas lealdades recaem não com os indígenas mas com os horrores inomináveis do além-espaço. O Urso Preto Morde vive do extremismo pulp, com um indomitável herói capaz de travar à bala hordes de chineses armados até aos dentes e derrotar os perigosos cultistas da revolução.
Para encerrar o livro outro conto pulp de estrutura clássica, que põem em evidência os vícios do género. Cara de Caveira mergulha-nos na Londres do virar de século, numa aventura mirabolante às voltas com cultos afro-asiáticos, casas de ópio e os perigos de conspirações dominadas por criaturas misteriosas que traçam as suas origens à Atlântida. Howard mete dentro deste conto todos os ingredientes da ficção pulp de aventuras. Múmias que regressam à vida, mistérios do passado longínquo, beldades ameaçadas, cultos sangrentos, antros de ópio em Limehouse, valentes agentes da Scotland Yard, aventureiros caídos em desgraça que se esforçam por se libertar dos males que os algemam, hordes degeneradas de africanos e orientais determinadas em exterminar o homem branco através da invocação de terríveis divindades, combates corpo a corpo até à morte, rusgas, antros decadentes, lojas de antiguidades cheias de intrigantes artefactos, criptas a transbordar de restos humanos ressequidos e drogas capazes de atordoar os sentidos. É provável que tenha deixado algo de fora nesta longa lista. E sim. é notório que o racismo é evidente. Isto é narrativa pulp no seu mais elementar, dependendo de acção contínua cheia de peripécias em catadupa, num estilo narrativo curto e descritivo que vai levando o leitor de situação implausível a situação inacreditável até ao aparente triunfo final do mal, debelado à última da hora pela coragem dos heróis.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Comics
Batman #30: Sott Snyder poderia ter seguido o caminho mais fácil e ressuscitado o Joker como arqui-inimigo do homem-morcego nesta revisão ao clássico Batman. Mas não. Pegou no habitualmente patético Enigma e transformou-o num super-vilão de primeira linha, capaz de catástrofes de primeiro plano. Como dominar toda a Gotham, separada do continente por um exército de drones. É interessante a forma como Snyder está a revitalizar o personagem, dando vénias aos seus melhores momentos e atrevendo-se a desafiar as expectativas.
D4VE #04: Divertido e bem ilustrado, D4VE é uma belíssima sátira futurista aos robots na ficção científica. No futuro distópico em que os robots exterminam a humanidade mas depois se entretêm a recriar a sociedade humana D4VE é um inadaptado, ameaçado de exterminação por despedimento (porque máquina despedida é máquina obsoleta), e o único capaz de combater uma invasão de alienígenas insectóides. E sim, como o robot entra dentro de uma vasta mainframe que controla o mundo robótico, há um momento "d4ve, I'm afraid I cannot do that".
Frankenstein Alive Alive! #03: Dois mestres a revisitar um clássico. Steve Niles dispensa apresentações no que toca a comics de horror e Bernie Wrightson não é um estranho a adaptar a sua mestria à obra clássica de Mary Shelley. O seu Frankenstein é um dos grandes marcos gráficos na adaptação da obra original. Neste Alive Alive! a narrativa é reconstruída com toques de fantasmagoria gótica. Nada de muito inventivo, mas a mestria gráfica e o gosto puro de Wrightson são um mimo para o leitor.
Rover Red Charlie #05: O quê, Garth Ennis a dar-nos um momento bucólico de felicidade canina? Os nossos três intrépidos heróis conseguem atravessar o continente e chegar à grande água e, sendo cães, mergulham com alegria no mar. É estranho, muito estranho. Ennis a dar-nos uma edição feliz e sorridente. Suspeito que a coisa vá acabar mal.
Skinned #01: Reflectir sobre a ilusão da virtualidade é tema em alta na cultura popular. No cinema temos The Congress, e agora a Monkeybrain estreia este comic que teve um arranque interessantíssimo. Estamos num futuro distópico ultra-neoliberal onde realidade aumentada pervasiva gera um consenso alucinatório imposto pela elite reinante, que gosta de disfarçar o real com um exotismo orientalista. Tem um toque de fantástico medievalista - a elite reinante estiliza-se como família real e o resto da população como servos mas a alta tecnologia virtual e a sua distorção sobre as percepções do real são o foco do argumento. Mais uma interessante visão crítica do even better than the real thing.
The replacement of the writer by the automatic printing press!
"This will furnish me with all the future volumes of my magaine; I won't have to read manuscripts anymore. This is wonderful for both editor and publisher: the elimination of the author from the literary business! The replacement of the writer by the automatic printing press! A triumph of technology!".
Kurt Lasswitz, The Universal Library. A escrever no final do século XIX um conto sobre matemática que, diz-se, viria a inspirar Borges a escrever a sua Biblioteca de Babel. É irresistível não destacar esta passagem, que ecoa as nossas especulações contemporâneas sobre produção automatizada de textos possibilitada por algoritmos computacionais.
Kurt Lasswitz, The Universal Library. A escrever no final do século XIX um conto sobre matemática que, diz-se, viria a inspirar Borges a escrever a sua Biblioteca de Babel. É irresistível não destacar esta passagem, que ecoa as nossas especulações contemporâneas sobre produção automatizada de textos possibilitada por algoritmos computacionais.
domingo, 20 de abril de 2014
Distribuição não-uniforme
(A reciclar textos)
“Utopia” é uma palavra carregada. Está sempre um pouco além do horizonte, a fazer-nos sonhar enquanto caminhamos, porque não queremos escapar ao impulso de construir um mundo melhor e o deixarmos como legado. Podem tentar-nos convencer do oposto, mas não há utopias prontas a consumir, devidamente embrulhadas a vácuo higienizado e prontas a aplicar. Há que as construir, sabendo que são por definição inacabáveis e que o paciente colocar de peças no lugar para criar o edifício perfeito nunca termina. O progresso humano é um fluxo permanente, hoje acelerado pelas ciência e tecnologia em alta rotação, conceitos sociais evoluem, modos de viver transformam-se. Nunca conseguiremos atingir utopias. Felizmente. Se chegássemos à perfeição estagnaríamos, e num mundo pluralista a perfeição de um não tem de ser o sonho do outro. Esta alucinação consensual que é a realidade degusta-se melhor na multiplicidade de visões. Já as utopias, se são inatingíveis como um fim, como processo motivam-nos a lutar por uma contemporaneidade mais justa e avançada.
Somos professores, talvez das profissões mais amargas neste momento de profunda distopia onde os valores iluministas e progressistas estão sob assalto cerrado de forças poderosas, novas variantes de antigos poderes que apreciam um mundo maleável aos seus desejos. Este é um momento em que conquistas que acreditávamos serem já elementares nos são retiradas em nome de uma ideologia de responsabilidade financeira que mal disfarça o revanchismo dos herdeiros das antigas oligarquias dominantes.
Somos professores e estamos na linha da frente do que é de facto uma guerra contra a construção de uma sociedade justa, igualitária e progressista. Tentamos mitigar as baixas que observamos nas crianças, vítimas de um empobrecimento advindo por escolhas políticas. Estamos sob constante ataque à dignidade profissional e laboral. E, de forma insidiosa, ao cerne do que realmente fazemos, com uma constante pressão normalizadora centrada num ensino nivelado pelo menor denominador comum onde só há espaço para a competência mensurável pela estatística, hoje arma afiada na guerra de ideias que sentimos estar a perder. Na tirania dos dados e do back to basics, dizem-nos, não há lugar para coisas acessórias como o sonhar ou culturas que extravasem os estreitos limites do basic. São obstáculos que prejudicam o que nos querem impor como uma bem oleada máquina de aprendizagem elementar. Vive-se um momento crítico. Velhas forças contra-atacam com uma ferocidade quase esquecida enquanto o progresso científico e tecnológico nos dão a possibilidade de um futuro melhor, vislumbrado pelos sonhadores da ficção científica mas hoje tornado possível e quase banal.
Temos responsabilidades acrescidas. Ao combate contra as velhas tiranias reformuladas com respeitabilidade metrificada temos de juntar algo que só faz sentido no dia a dia com os nossos alunos. O não baixar os braços, insistir que há mais mundo para além das visões redutoras dos programas ministeriais, que há espaço e necessidade para a cultura, ensinar-lhes que não têm de se resignar a viver numa sociedade estratificada de elites poderosas e um imenso lúmpen que lhes serve de massa para consumo ou força laboral precária. O futuro existe, mas não está uniformemente distribuído (e isso diz William Gibson, crédito a quem é devido), e temos um papel importante na possibilidade de melhor distribuição.
São estas vertentes que tornam momentos como este Utopias 2014 tão importantes. O seu carácter transdisciplinar, o assumir-se como espaço experimental de aprendizagem, a ênfase no diálogo e discussão de ideias, e, principalmente, a insistência na multiplicidade de expressões culturais e na sua importância para uma educação global. São aspectos que estão sob ameaça na escola esmagada pela pressão deste momento distópico contemporâneo mas que são elementares para a escola enquanto instituição formadora, transmissora dos valores das sociedades em que se insere. É por isto que é perigosa, é por isto que temos de a defender, e reflectir sobre a sua abrangência uma forma de atacar o peso da normalização estatística.
“Utopia” é uma palavra carregada. Está sempre um pouco além do horizonte, a fazer-nos sonhar enquanto caminhamos, porque não queremos escapar ao impulso de construir um mundo melhor e o deixarmos como legado. Podem tentar-nos convencer do oposto, mas não há utopias prontas a consumir, devidamente embrulhadas a vácuo higienizado e prontas a aplicar. Há que as construir, sabendo que são por definição inacabáveis e que o paciente colocar de peças no lugar para criar o edifício perfeito nunca termina. O progresso humano é um fluxo permanente, hoje acelerado pelas ciência e tecnologia em alta rotação, conceitos sociais evoluem, modos de viver transformam-se. Nunca conseguiremos atingir utopias. Felizmente. Se chegássemos à perfeição estagnaríamos, e num mundo pluralista a perfeição de um não tem de ser o sonho do outro. Esta alucinação consensual que é a realidade degusta-se melhor na multiplicidade de visões. Já as utopias, se são inatingíveis como um fim, como processo motivam-nos a lutar por uma contemporaneidade mais justa e avançada.
Somos professores, talvez das profissões mais amargas neste momento de profunda distopia onde os valores iluministas e progressistas estão sob assalto cerrado de forças poderosas, novas variantes de antigos poderes que apreciam um mundo maleável aos seus desejos. Este é um momento em que conquistas que acreditávamos serem já elementares nos são retiradas em nome de uma ideologia de responsabilidade financeira que mal disfarça o revanchismo dos herdeiros das antigas oligarquias dominantes.
Somos professores e estamos na linha da frente do que é de facto uma guerra contra a construção de uma sociedade justa, igualitária e progressista. Tentamos mitigar as baixas que observamos nas crianças, vítimas de um empobrecimento advindo por escolhas políticas. Estamos sob constante ataque à dignidade profissional e laboral. E, de forma insidiosa, ao cerne do que realmente fazemos, com uma constante pressão normalizadora centrada num ensino nivelado pelo menor denominador comum onde só há espaço para a competência mensurável pela estatística, hoje arma afiada na guerra de ideias que sentimos estar a perder. Na tirania dos dados e do back to basics, dizem-nos, não há lugar para coisas acessórias como o sonhar ou culturas que extravasem os estreitos limites do basic. São obstáculos que prejudicam o que nos querem impor como uma bem oleada máquina de aprendizagem elementar. Vive-se um momento crítico. Velhas forças contra-atacam com uma ferocidade quase esquecida enquanto o progresso científico e tecnológico nos dão a possibilidade de um futuro melhor, vislumbrado pelos sonhadores da ficção científica mas hoje tornado possível e quase banal.
Temos responsabilidades acrescidas. Ao combate contra as velhas tiranias reformuladas com respeitabilidade metrificada temos de juntar algo que só faz sentido no dia a dia com os nossos alunos. O não baixar os braços, insistir que há mais mundo para além das visões redutoras dos programas ministeriais, que há espaço e necessidade para a cultura, ensinar-lhes que não têm de se resignar a viver numa sociedade estratificada de elites poderosas e um imenso lúmpen que lhes serve de massa para consumo ou força laboral precária. O futuro existe, mas não está uniformemente distribuído (e isso diz William Gibson, crédito a quem é devido), e temos um papel importante na possibilidade de melhor distribuição.
São estas vertentes que tornam momentos como este Utopias 2014 tão importantes. O seu carácter transdisciplinar, o assumir-se como espaço experimental de aprendizagem, a ênfase no diálogo e discussão de ideias, e, principalmente, a insistência na multiplicidade de expressões culturais e na sua importância para uma educação global. São aspectos que estão sob ameaça na escola esmagada pela pressão deste momento distópico contemporâneo mas que são elementares para a escola enquanto instituição formadora, transmissora dos valores das sociedades em que se insere. É por isto que é perigosa, é por isto que temos de a defender, e reflectir sobre a sua abrangência uma forma de atacar o peso da normalização estatística.
sábado, 19 de abril de 2014
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