quarta-feira, 23 de abril de 2014

Downspiral: Prelúdio


Anton Stark (2012). Downspiral: Prelúdio. Maia: Editorial Arauto.

Tendo o trabalho deste escritor já cruzado o meu radar em contos publicados online e em revistas, tinha algumas expectativas elevadas quanto a este Prelúdio. Queria perceber se a elegância literária e a solidez da construção de mundos ficcionais que noto nos contos escalava bem para algo com mais fôlego. Uma das coisas que me intrigou ao lê-los foi o parecerem fragmentos de algo mais elaborado. Num livro há mais espaço para o desenvolvimento de ideias.

Após a leitura o que surpreende é a notória ambição da obra. Não se trata de uma história contida nos limites de um livro, antes, é o primeiro de uma trilogia proposta. Este lado ambicioso é ao mesmo tempo uma virtude e um embaraço. A tarefa não é fácil. Stark cria e estabelece um mundo ficcional muito coerente, cheio de pormenores intrigantes e de vasta amplitude, largo panorama ou tabuleiro de jogo onde poderá dispor as peças que entender. Estabelece as diferentes linhas narrativas de uma teia complexa que, neste primeiro volume, têm poucas intersecções aparentes. E é aqui que as coisas se embaraçam um pouco. Sabemos que há aqui pano para mangas, espaço para continuidade narrativa, mas será que virão a existir um segundo e terceiro livros que sigam com as aventuras, deslindem as intrigas e nos ofereçam uma conclusão para as tribulações do azarado e levemente inepto espião Alleth, fio condutor das intrigas que torneiam a vontade de um reino em dominar os seus vizinhos?

Os ventos de guerra percorrem a terra de Eos. Dominada por um aristocrata de ambição desmedida, o reino de Amorslea move-se para dominar os seus vizinhos. São os exércitos da confederação Gunnlander quem mais tem sofrido a pressão das espadas e dos robots a vapor amorsleanos. O conflito alastra, envolvendo uma ordem monástica de cavaleiros e, através das maquinações dos nobres amorsleanos, uma raça de homens-lobo que nada mais quer do que viver em paz nas suas terras. Neste turbilhão move-se Alleth, mercenário e espião ao serviço dos serviços secretos de Amorslea, cujos objectivos nem sempre são nítidos mas que revela uma divertida inépcia nas suas missões. Está sempre em apuros e é invariavelmente capturado. Este Alleth não pode ser acusado se ser nenhum Bond.

Não sendo um livro perfeito, agradou-me muito. Mesmo para um assumido desconhecedor do que se faz em fantasia épica como eu perceberam-se no livro as influências que animaram o autor. A curiosa mistura de medievalismo com steampunk funciona, se não formos puristas dos géneros e soubermos apreciar as delicadas bizarrias das zonas de fronteira. Neste quadro conceptual o livro está muito no limite do equilíbrio entre influências literárias e a voz do imaginário do autor, como até é de esperar de uma jovem voz que está em franca formação. O anglicismo do título é um óbvio indicador desta ambivalência, que no entanto ao longo do livro se estabelece com firmeza para o lado do imaginário pessoal. O estilo literário é o que esperava do autor, mas sou obrigado a assinalar que tem bastantes momentos que precisariam de melhor afinação. Também é algo que vai melhorando ao longo do livro.

Honestamente, o que me chateia neste livro é chegar ao seu final e ficar sem conclusão. Está prevista, mas estamos em portugal, país pouco motivador para a publicação de ficção de género, e esperemos que Stark insista, melhorando, nesta trilogia. Admiro a ambição narrativa, um risco muito grande corrido pelo autor que se nem sempre se sai bem é, no cômputo geral, bem conseguida. As descrições intrigam e encantam, as das cidades, fervilhantes de vida e do exotismo que associamos a este género ficcional, ou das batalhas que formaram na minha mente um misto de soldados setecentistas com armas medievas e enormes robots a vapor. Os personagens assumem-se dentro dos estereótipos da fantasia épica, distinguindo-se um vulpino comandante pela complexidade com que está retratado. Neste primeiro volume é frustrante seguir fios narrativos que só se irão enredar na continuidade, caso dos monges marciais, que não colidem com as restantes linhas da história.

No global, foi uma leitura interessante. Ambiciosa, nem sempre bem conseguida, a mostrar o peso das influências iconográficas e a precisar de alguns retoques estilísticos. Mas, depois de terminada, as imagens mentais suscitadas pela sua leitura persistem e continuam a intrigar a imaginação. Se houver segundo volume cá estarei para apreciar a continuação das aventuras no mundo ficcional de Eos. Sublinhada fica a voz deste autor como uma das mais promissoras nas novas gerações do fantástico em Portugal.

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