quarta-feira, 30 de abril de 2014

Dylan Dog: Orrore Nero


Tiziano Sclavi, Luigi Mignacco (1989). Dylan Dog Speciale #03: Orrore Nero. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..



Dellamorte Dellamore é um daqueles livros que dificilmente lerei. Romance atípico de Tiziano Sclavi, tem nele os principais elementos que vieram a cristalizar-se em Dylan Dog, desde um protagonista modelado no físico do actor Rupert Everett a um ajudante caricatural, com o foco em aventuras onde o terror surreal impera. Deste livro, raro, difícil de encontrar e não traduzido, foi filmado pela mão de Michele Soavi um dos mais belos filmes de terror italiano, com o actor Rupert Everett a representar Francesco Dellamorte,personagem inspirado nele próprio, e um inesquecível Gnaghi a sublinhar o surrealismo onírico de um filme de terror que dificilmente horroriza.


A história, quer do livro quer do filme, é de uma simplicidade enganadora. Na pacata vila lombarda de Buffalora o vigilante do cemitério e o seu ajudante têm como missão manter os mortos... mortos. A cidade é vítima de uma praga. Ao cair da noite os habitantes do cemitério têm o mau hábito de sair das suas campas, obrigando os vigilantes a mantê-los no seu lugar ao tiro ou à pazada. Quer Dellamorte quer Gnaghi se apaixonam, sublinhando a relação mística entre Eros e Tanatos de uma forma muito gongórica. Dellamorte apaixona-se pela mesma mulher em três diferentes encarnações, como viúva que trai a memória do marido, foco de mortalidade necrófila e ícone sexual. Já Gnaghi tem uma relação menos problemática com a cabeça decapitada falante de uma zombie que guarda dentro do ecrã partido de um televisor. Tudo isto no espaço romântico de um cemitério classicista, cheio de monumentos fúnebres a roçar o gótico, com zombies patéticos (no filme, uma das mais hilariantes cenas é quando Dellamorte vai abatendo um por um uma infestação de escuteiros zombie) e um final de um surrealismo a fazer inveja a Dali ou Max Ernst.


Sclavi revisita Dellamorte Dellamore neste Orrore Nero, história que coloca em confronto o que poderia ter sido Dylan Dog e o que realmente se tornou. Regressamos à pacata Buffallora e à singular ocupação de Francesco Dellamorte, revendo de forma muito comprimida os momentos fulcrais do romance. Na Londres do habitante do número sete de Craven Road um assassino psicopata a soldo da máfia vai eliminando cientistas e testemunhas, até que uma das suas vítimas lhe revela o porquê do seu capo querer eliminar quaisquer vestígios. Uma das vítimas colaterais é um jovem rapaz que frequenta a casa de Dylan, para desgosto deste e muito gosto do histriónico Groucho. Furioso, Dylan embarca numa caça ao homem para vingar o jovem, e acaba por matar o seu assassino. Mas a morte não é o fim. O projecto secreto que tantas vítimas causou tinha a ver com uma fórmula química para vencer a morte, e Dylan viaja à terra onde o assassino foi sepultado para se certificar que está realmente morto. No final da aventura Dylan e Groucho colidem na estrada para Buffalloro com Dellamorte e Gnaghi, um final perfeito e surreal que mostra a génese e o padrão do mais singular e interessante personagem de banda desenhada italiana.


Se Sclavi se mantém no registo de terror surreal que tanto me encanta como leitor, o ilustrador Luigi Mignacco sabe bem puxar o lado gótico tradicional do barroquismo dos cemitérios na ilustração. Talvez não seja tão bom quanto ler o livro original, nem visualmente tão deslumbrante quanto o filme de Soavi, mas este Orrore Nero dá-nos a provar uma outra faceta do escritor. Quanto ao livro, é daqueles que está no radar e um dia hei de o ter nas estantes. E talvez nessa altura já consiga ler italiano com fluência suficiente para o saborear.

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