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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

História Verdadeira


Luciano de Samósata (1989). Historia Verdadeira. Lisboa: Editorial Estampa.

Este é considerado com um dos livros de proto-ficção científica. Falar dele nestes termos é, talvez, querer dar o peso da antiguidade clássica ao género, cooptando trabalhos que não foram especificamente criados como obras de antecipação ou especulação com base científica. Se bem que esta História Verdadeira é fortemente especulativa, e de forma assumida. Escrita como uma sátira, brinca com as histórias de viagem da época, satirizando a propensão para descrever terras, criaturas e costumes sem que sequer se lá tenha posto os pés. E Luciano não faz por menos. Coloca-se num barco que, apanhado numa tempestade atlântica, voa e vai ter às ilhas no céu, mergulhando-o diretamente numa luta entre habitantes da Lua e seres de outras estrelas. Com a cena de batalha fantástica entre os exércitos estelares, quase dá vontade de apontar este como um exemplo de proto-space opera.

O fantástico e o imaginário, na vertente satírica, chegam-nos da antiguidade neste texto, que vale a pena conhecer. Luciano tomou liberdades imaginativas, entre a mitologia de que era contemporâneo, e as suas especulações sobre terras imaginárias e seus habitantes. As guerras lunares não fazem a história desta História Verdadeira (o título é uma piada, explicada logo nos primeiros parágrafos). Luciano e os seus companheiros são engolidos por uma baleia, escapam para se deparar nas ilhas afortunadas, o paraíso das almas gregas. O que é sempre uma boa oportunidade para Luciano nos falar dos grandes gregos e romanso do seu, e nosso, passado. Expulsos da cidade de bem venturança por Radamante (esse mesmo, ó sabedores dos mitos) depois de um dos companheiros de Luciano se ter metido com Helena (yep, essa mesma, parece que Tróia não foi lição suficiente), seguem viagem, atravessando os infernos, parando na ilha da ninfa Calíope, e quase sendo devorados por belas mulheres com pés de burro que se alimentam dos viajantes que seduzem. Chegados a outra ilha, o seu barco despedaça-se, mas as aventuras que viveram ficariam para outras histórias. Tão verdadeiras quanto esta, certamente. Ler as Histórias Verdadeiras é tomar contato com um texto proto-histórico da FC, embora a ligação seja muito ténue. Mas, essencialmente, é ler e sorrir com uma elaborada piada que atravessou milénios, e não perdeu a força.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Hécuba O Sofrimento Desmedido


Tive o privilégio de is ver esta brilhante peça no Teatro S. Luiz. A partir da peça de Eurípides, Hécuba O Sofrimento Desmedido leva-nos a redescobrir os textos da antiguidade clássica, hoje tão esquecidos e tão raros de hoje se reencontrar. Tem interpretações brilhantes, com destaque para uma brilhante Carla Galvão, um cenarismo baseado na iluminação espantoso na forma como gere a cor e as sombras, canalizando o hieratismo elegante da estatuária grega clássica. Dá-nos intensos momentos de arrepio, em que no silêncio opressivo do negro do palco, quebrado pelos toques de luz intensa iluminando estas mulheres milenares que para lá do desespero gesticulam, entretecendo fios imaginários enquanto sussurram fiapos de pensamento, como se as profundas vozes do tempo nos falassem através dos murmúrios das benevolentes euménides. É uma história trágica, profundamente feminina, tão infelizmente contemporânea, porque por mais que queiramos esquecer os antigos parecemos condenados a repetir os seus erros. Está até dia 17 de maio no S. Luiz. Recomendo vivamente.