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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Nó Cego


Carlos Vale Ferraz (2008). Nó Cego. Lisboa: Casa das Letras.

A Guerra Colonial não é um tema que a sociedade portuguesa consiga discutir. Há demasiadas memórias vivas, demasiados ânimos que se exaltam quando sequer se levanta a palavra sobre esses tempos. Ainda há quem se arreigue ao mito do ultramar, do país do minho a timor. Outros focam-se no lado de guerras de libertação. O próprio termo usado para designar esta guerra é contencioso e abre espaço a discussões acintosas. Pessoalmente, prefiro o termo colonial, porque de facto o foi - um último estertor de um regime que não foi capaz de ler o espírito dos tempos, arreigado a mitos e mantendo uma guerra insustentável, com enormes custos humanos e materiais, deixando feridas que ainda hoje não sanaram. Uma guerra que, como todos os conflitos, não foi preto no branco, teve matizes muito incómodos, e foi no fundo um enorme desperdício de vidas, de recursos de um país pobre, e de tempo. 

Talvez uma das razões que leve ao afastamento da discussão sobre estes tempos da esfera pública seja mesmo uma sensação de incomodidade. Num país que projeta a imagem de moderno e acolhedor, plenamente integrado na Europa, paraíso para turistas e fazedor de unicórnios financeiros (e a pagar o preço dos baixos salários, rendas elevadas, custo de vida incomportável e uma legislatura corrente que está apostada em destruir os parcos serviços sociais que nos restam), é incómodo recordar que há não tanto tempo como isso estávamos a meter a ferro e fogo territórios africanos, combatendo uma guerra suja, contando como aliados os racistas sul-africanos e rodesianos. É uma mancha que fica mal na foto do Portugal do século XXI.

Ideias em que se fica a pensar, ao terminar a leitura deste espantoso livro. O autor, pseudónimo literário de um militar que tendo servido nos Comandos em África e participado nalgumas operações violentas, sabe o que está a romancear. A história é ficcional, mas anda desconfortavelmente próxima de algumas aventuras militares dos teatros de guerra colonial. E não é preciso ter um conhecimento muito profundo para perceber quem é caricaturado pela figura do general K, amante de grandes operações militares em modo custe o que custar.

Esta leitura não é confortável. Acompanhamos o dia a dia de uma companhia de comandos, homens que pelas mais diversas razões (na maior parte das vezes, por desespero numa vida agrilhoada na ditadura) se voluntariaram para um corpo especial preparado para as missões mais violentas. E violência não falta nas suas operações, entre as patrulhas, emboscadas e ataques a bases inimigas em que são envolvidos, como ponta de lança.

Não esperem um livro de aventura empolgante. As histórias que o compõem não são elogios ao espirito de aventura militar, heroísmos icónicos e combates valorosos. Pelo contrário. Mergulham-nos numa violência desconfortável, retratando a queda no abismo daqueles soldados. Nenhum sairá inocente da guerra, nem incólume. Os que não morrem na mata ou são feridos nas operações, levam consigo o peso da violência em que se viram envolvidos. Quer a que sofreram, quer a que infligiram nos guerrilheiros e populações civis. Por detrás de tudo, a sensação de fatalidade de viver uma guerra inútil, de arriscar a vida e matar para cumprir as vontades de oficiais e governo cuja visão da realidade não corresponde ao espírito do tempo.

O romance é brilhante e explosivo. Ao mesmo tempo um retrato da guerra colonial feito através das experiências dos soldados que nela combateram, suspeito que memória romanceada das experiências do seu autor, e uma reflexão sobre como a capa da civilização depressa desaparece na selva com uma arma na mão. 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Romance da Raposa


Aquilino Ribeiro (1979). Romance da Raposa. Lisboa: Bertrand.

De volta e meia regresso a este texto, em parte por nostalgia. Foi uma das minhas leituras formativas de infância,  mas o gosto na releitura recai sobre a elegância erudita da linguagem do livro. Hoje sei que Aquilino recriou um clássico da literatura europeia, a nossa Salta-Pocinhas pertence a uma tradição literária transgressiva que usa a imagem da raposa para falar da necessidade de rebeldia face às imposições do poder. Algo que se combate com inteligência e esperteza, qualidades que não faltam a esta raposa matreira, capaz de dar a volta e safar-se bem das mais incríveis situações. Este texto, apesar de vir de um outro tempo, mantém aquela frescura que senti aquando da primeira leitura.


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Bookhaul

Já se sabe como é. Inevitável, diria. Parte-se de viagem a pensar que se será comedido nos livros, e ao regressar, a mala só fecha por milagres. Estive uns dias em Florença a participar no simpósio COSPAR, e, claro, entre Feltrinelli (gosto especialmente da que está na estação de Santa Maria Novella, se bem que as da via Cerretani e da praça da República também tenham um bom acervo) e Libraccio, houve aquisições impossíveis de resistir.

Sim, admito, em Florença oriento-me mais depressa pela localização das livrarias do que pelas schiachaterias onde os magotes de turistas devoram porchetta.


Um achado, discretamente escondido na Feltrinelli da estação - uma série de volume antológicos, dedicados ao melhor do fumetti trash-horror italiano dos anos 70 e 80. Sublinho que aqui, bom é um conceito muito relativo, isto é pura exploitation originalmente publicada em lendas do género, como as revistas Oltretombe ou Sukia. 
  

Como resistir a este ensaio, que cruza as minhas duas grandes paixões? 


Não sou particularmente fã deste personagem, mas tenho uma amiga que o é, por isso quando vou a Itália tenho de meter um na mala. Esta é a mais recente aventura do criminoso Diabolik, o clássico fumetti giallo de estética muito retro.
 

E não é que até a Disney consegue ser mais fiel ao espírito da Odisseia que Nolan? Comprado para um amigo, com ilustrações absolutamente deliciosas.


Outro tema que me interessa muito, a história da tecnologia, aqui com um olhar o pensamento técnico e mecânico da antiguidade clássica.


Há em Portugal um fã inesperado do personagem clássico de Castelli (não, não sou eu), um antigo aluno que descobriu o fumetti numa lendária viagem Erasmus, há alguns anos atrás. Agora que ele se prepara para ingressar no Técnico (vai abalar aquela universidade, claro, eles nem sabem o que os espera), trago-lhe uma pequena recordação.


Claro. O que é que achavam? É o meu ritual favorito. Aterrar em Itália, sair do aeroporto e ir logo ao primeiro quiosque que encontro para comprar a mais recente aventura do detetive dos pesadelos. Por judas dançarino! 

Se bem que fiquei com a impressão de uma certa decadência da presença da Bonelli nas bancas. Das vezes anteriores que estive por terras italianas, era fácil encontrar bancas recheadas de vários números anteriores. Por Florença, nem por isso. Apenas as novidades, e poucas. Talvez seja uma questão geográfica, como cidade turística que é, faz mais sentido para as bancas venderem tralha para turistas do que imprensa.


Confesso, esta foi daquelas compras de impulso no aeroporto, à espera do voo de regresso. Zagor nunca me disse nada, mas esta capa em modo de salganhada verniana intrigou-me.


Um achado deveras técnico, um livro sobre programação em Scratch. Preciso mesmo dele para ampliar os meus conhecimentos sobre este ambiente de programação? Bem, nem por isso, mas tem alguns projetos muito interessantes no domínio das artes que quero experimentar, e vai ficar muito bem na minha coleção de livros sobre programação para crianças.


Finalmente, uma curiosa descoberta. Já estão a ver porque é que a comprei, não estão? A La Fine Del Mondo é uma nova revista mensal de banda desenhada, trazendo aos leitores italianos uma mistura de fumetti com bd experimental. Se alguma vez pensaram em ler uma revista que tanto publica a ilustração de estilo clássico do fumetti (e as desta história de Dylan Dog são soberbas), ao lado de Zerocalcare ou Shintaro Kago, esta é a publicação certa. Infelizmente é episódica, o que significa que nunca saberei como termina esta história de Dylan Dog, a menos que arranje forma de ir a Itália no final de agosto.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Breviário das Más Inclinações


José Riço Direitinho (2011). Breviário das Más Inclinações. Lisboa: Quetzal.

Acompanho há bastante tempo o panorama da literatura fantástica portuguesa, e apesar das muitas leituras que tenho feito, são raros os livros que realmente exploram estéticas de um fantástico verdadeiramente português. Não que desgoste do que se faz, mas vejo na nossa literatura fantástica uma preocupação em recriar padrões externos, ou explorar as estéticas comuns ao terror e fantasia globais. Fantasmagorias, assombrações, criaturas de pesadelo, ambientes góticos, body horror, que estão tão à vontade nos becos lisboetas como nas vielas londrinas. Advém das influências que moldam os nossos criadores, e de um espírito de cosmopolitismo urbano que o desenvolvimento do país fez alastrar das grandes cidades a todo o território. Alguns criadores olham para os mitos portugueses e tentam recriá-los nestes quadros conceptuais, trazendo as especificidades da nossa cultura para os domínios do fantástico.

Mas há um outro Portugal, cada vez mais desaparecido no emaranhado de vias rápidas e infraestruturas que aproximam os lugarejos mais perdidos da modernidade contemporânea. Um país de isolamento, de superstições arreigadas, de mitos locais, de gentes que vivem em territórios agrestes, num mundo onde a pobreza, o parco alfabetismo, a religiosidade cristã, mitos e superstições milenares e as paisagens agrestes convivem. Um país que hoje recordamos mais pelos registos etnográficos que podemos visitar nos museus municipais das zonas interiores urbanizadas, que recordam os tempos de um passado mais isolado. Passado, certo, mas não tão distante quanto isso. Certamente que muitos da minha geração ainda recordam o olhar centenário e as rugas dos nossos avós e bisavós, as suas histórias estranhas e visões de um mundo rural tão distante da nossa vida urbana e suburbana. Dessa memória do passado há tantos mitos e tradições que trazem um fantástico cru, por vezes violento, telúrico e milenar, mas a que poucos escritores têm tentado pegar, e, por ironia, os que melhor olham para estas estéticas e mitografias são autores que não estão associados ao género.

Recordo livros como O Meu Mundo Não É Deste Reino de João de Melo, Como Sobreviver Depois da Morte de André Costa, ou Andam Faunos Pelos Bosques de Aquilino Ribeiro (admito, aqui estou a esticar um pouco a corda...), que mergulham o leitor num fantástico do saber rural, dos seus ritos e mezinhas. Um, com a revisão da povoação dos Açores através da história de um homem duro, outro com o congelar das memórias num tempo em que a modernidade começa a alterar a tradição, e no brilhantismo de Aquilino a colisão entre o saber do povo, a condescendência do clero e as pulsões do corpo.

Adiciono este Breviário das Más Inclinações a esta restrita lista. É um livro que nos mergulha num isolamento raiano que se começa a esboroar, entre a guerra civil espanhola e a inevitável modernização, mas que ainda se mantém como mundo de mitos e mezinhas, de saberes populares com profunda ligação à natureza, de histórias e prodígios que se contam e recontam entre as vozes das comadres e das noites nas tabernas. Onde o mundo natural, de lobos e javalis, é mortífero, e o mundo humano, feito de jogos, invejas, enganos, também o pode ser.

Há uma certa base de romance de cordel no conto cruel de José do Risso, criança que nasceu com má sina e a herdar  a sabedoria da avó para mezinhas curandeiras. A vida será trágica e curta, entrecortada com episódios de honestidade duvidosa, momentos em que o homem faz aquilo que tem de fazer, quer seja em resposta às pulsões do corpo quer do sentido pessoal de justiça. 

O que distingue a narrativa é envolver-nos num véu de misticismo tradicional e sobrenatural discreto. Não há fantasmagorias ou criaturas do demo, mas há um constante sentimento de assombro, de um mundo natural compreendido através de superstições milenares. 

A prosa é brilhante, daquelas que nos prendem às páginas, mas o que destaco da leitura é o não ter medo de tocar nas correntes subterrâneas por onde pulsa o lado mais remoto do caráter português.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Branca de Neve e os 700 Anões


José Vilhena (2014). Branca de Neve e os 700 Anões.

Vilhena está a ficar injustamente esquecido, relegado para a memória dos alfarrabistas. Não surpreende. Nunca foi um membro do nosso establishment cultural. O ser criador de ilustrações, revistas e livros humoristas não lhe granjeará jamais um lugar no panteão das nossas elites culturais, onde o sisudo e portentoso imperam e o terra a terra é desprezado. Vilhena cometeu vários pecados aos olhos da nossa alta cultura: escrevia humor, para o povo, em modo pop, auto-editado ou como colaborador na imprensa popular. Pior, era um claro sensualista, anátema para os nossos meios de alta cultura, revolucionários nos discursos mas conservadores nos costumes. 

Apesar disso, ler Vilhena é mergulhar numa das mais ácidas vozes críticas da sua sociedade contemporânea, eternamente visado pelo lápis azul de censores que se escandalizavam entre as suas palavras certeiras e os seus sensuais mas decadentes desenhos. A crítica social a todos os estratos de uma sociedade portuguesa que vivia na placidez da aparência, dos conservadores bafientos que ocultavam os seus vícios sobre a capa da piedade respeitosas, os gananciosos que viviam de estratagemas, quer os das classes populares quer os da alta sociedade, os políticos, industriais, grandes senhores e clero que mantinham este pais no lamaçal da pobreza. Aqui, o crime de Vilhena foi ter sido popular e sexualista, e não um artista erudito como João Abel Manta ou poetisa rebelde como Natália Correia. Não sendo das elites, tinha de fazer pela vida, e foi num humor barato que explorou com um génio impressionante que fez uma das críticas mais duras ao Portugal do seu tempo (e que suspeito ainda estar muito atual no nosso país de hoje).

Acima de tudo, Vilhena desmontava com implacável dureza o homem - o machismo, a ganância, a lubricidade, o vício, e acima de tudo o encapotamento de todo este fervilhar de pulsões debaixo de mantos de alta respeitabilidade. Não é por acaso que nos seus desenhos encontramos sempre belas e voluptuosas mulheres às contas com homens deformados, caricaturas toscas do poder, dinheiro, religião e machismo. Talvez seja um dos pontos mais incómodos de Vilhena, a forma como desmonta o carácter masculino e demonstra que por mais que o disfarcemos, somos todos uns porcos que se perdem por um bom pedaço de mulher (não sou exceção). 

Tudo isto dentro de um humor delirante, sensualista e sexualizado, onde as mulheres são representadas como brinquedos sexuais nas mãos dos homens mas acabando sempre por se revelar mais inteligentes do que eles, capazes de perceber que estão num jogo sujo e jogá-lo a seu favor. Sem falsos moralismos.

Este Branca de Neve e os 700 Anões, originalmente editada nos anos 60, é uma dessas histórias, com um final feliz que o próprio Vilhena nos avisa, no prefácio, ser improvável. Na realidade, as histórias como esta acabam sempre em miséria. Todos os sabemos, e a ficção não o contraria. Jovem rapariga do povo, semi-letrada (porque no Portugal do passado saber ler, contar e pouco mais era o essencial) e dotada de estonteantes curvas no seu corpo demasiado juvenil para o apetite de muitos dos homens que irá saciar, cai nas más graças de uma madrasta invejosa, cujos elevados atributos corporais começam a decair.

Afastada da família por tropelias, Branca acaba nos bares onde homens endinheirados se entretém com mulheres da noite, e depressa singra nessa carreira. Inteligente e dotada, vai subindo no elevador social da vida do vício, frequentando cabarets cada vez mais luxuosos e atendendo homens progressivamente mais ricos. Vilhena dá um final feliz à história, com o casamento com um médico inocente que a conhece nas lajes frias da morgue (não é tão mau como estão a pensar, mas poderia ser). Felicidade para os noivos, infelicidade para tantos homens que se regalaram com os dotes da Branca.

O tom é jocoso, mas a desmontagem das hipocrisias sociais é profunda. Vilhena não se coíbe de ilustrar a história com fotos sugestivas e os seus desenhos, a representar o corpo da mulher de formas voluptuosas. A sensualidade é a porta de entrada para a mais ácida sátira de costumes.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

O Homem da Nave


Aquilino Ribeiro (1968). O Homem da Nave. Lisboa: Livraria Bertrand.

Ler estas obras de Aquilino, entre a ficção, o retrato e o ensaio, é regressar a um Portugal que, apesar de relativamente recente, hoje já não existe. As descrições aquilinianas, feitas num dealbar da modernidade, falam-nos de terras e povos de carácteres, hábitos e costumes centenários, talvez milenares, apesar da intrusão progressiva de modernismos como estradas, automóveis, luz elétrica e a velada opressão política do estado novo. As paisagens ainda existem, embora irremediavalmente transformadas pela evolução que fizemos nas últimas décadas do século XX. Tempos que pese embora a sua imperfeição, alfabetizaram as populações, modernizaram a saúde e habitação, transformaram as economias de subsistência rural.

Num pormenor curioso, Aquilino ergue o dedo acusador contra a desflorestação trazida pelas monoculturas, que relata ter efeito nefasto sobre a vegetação e animais da serra. O que hoje chamamos de biodiversidade, e que o mestre Aquilino era tão genial a invocar na sua prosa complexa e sabida.

O livro leva-nos aos povoados, pessoas e paisagens serranas da Serra da Nave, um altiplano no nosso interior profundo. Todo o livro é um elogio ao homem e à natureza, feito de relatos entrecortados. Cada capítulo reserva-nos uma surpresa - pode ser um retrato, ficcional ou real, das gentes e dos seus modos. Ou pode ser uma divagação bucólica pelas invocações da natureza, das cores do outono, a vivacidade da primavera, o peso do estio. Por vezes é ensaio étnico e social, outras, apontamento sobre a intrusão da modernidade ou os choques entre as novas sensibilidades culturais urbanas e as tradições centenares dos serranos.

As geografias lá continuam, como sempre estiveram, os povos e a paisagem humanizada alteraram-se. As memórias de Aquilino tornam-se um memorial a um passado recente que muitos, hoje, não guardam memória.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Histórias da Terra e do Mar


Sophia Andresen (2002). Histórias da Terra e do Mar. Lisboa: Texto Editora.

Alguns destes contos são alegorias moralistas, inspiradas em fábulas clássicas. Outros, vinhetas de forte impressão visual e emocional. O lado de conto moral deixa-me em busca de significados, mas a sedução com a prosa é imensa. Mais do que simbolismos e parábolas, da procura de sentido lógico, o que fica desta leitura é o prazer das palavras. A escrita é poderosa e fluída, enleva-nos com o seu ritmo e a imagética que desperta na mente durante a leitura.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A Revolução da Mulher das Pevides


Isabel Ricardo (2015). A Revolução da Mulher das Pevides. Lisboa: Saída de Emergência.

A grande virtude desde romance é atrever-se a enfrentar um dos períodos mais violentos da história portuguesa recente, o das Invasões Francesas. É um tema que sinto que se fala pouco, geralmente reservado para as comemorações de algumas batalhas ou em resumo histórico. Mas quanto mais leio sobre estes tempos, mais se desenha na mente a imagem de um país a ferro e fogo, de uma invasão violenta que despoletou uma rebelião que gerou ainda mais violência. Não foi a guerra civilizada de soldadinhos de chumbo que manobravam nos campos de batalha que as reconstituições gostam de nos mostrar. Pelo contrário, foi um combate contínuo de guerrilha e insurreição em paralelo com as forças regulares, com repressão sem quartel e atos vingativos por parte dos invasores. 

Este romance centra-se na Nazaré desses tempos, logo na primeira invasão. Assistimos aos tempos da retirada da corte portuguesa para o Brasil, à ocupação francesa seguindo as ordens de não resistência do rei, à revolta surda da população que acaba por explodir em rebelião aberta. Esta, após sucesso inicial, é esmagada com violência extrema pelas tropas francesas, com um enorme custo para a população civil.

A autora  baseia-se em fontes primárias nazarenas para contar esta história, o que é outra virtude deste livro. Parte das personagens existiram, e a sua memória perdura neste romance que procura relatar um passado que já se tornou tradição. Nisto, é ambicioso, mas a tentativa que faz de retratar o máximo de personagens da terra leva a alguma dispersão literária. Seguimos os nomes, as suas aventuras, desventuras e nalguns casos finais tristes de extrema violência, mas não conseguimos estabelecer empatia com os personagens. 

Não ajuda haver alguma incoerência narrativa. A princípio o romance foca-se muito numa personagem, mulher do povo que se aproveita da sua beleza para eliminar soldados franceses com promessas de amores que acabam pelo penhasco abaixo. Depois muda de registo e tonalidade para relatar de forma romanceada a rebelião popular e o seu esmagamento. Termina com  uma outra linha narrativa, onde uma jovem sobrevivente de uma tremenda atrocidade se cruza com dois jovens, um português e outro espanhol, vivendo os tempos finais entre sede de vingança e o acompanhar das forças anglo-portuguesas. Aqui a história chega a ser inconsistente, o romance que irá desabrochar nesta fase é um óbvio artifício para prender o leitor, mas fortemente implausível dado que a personagem em questão sofreu múltiplas violações enquanto assistia a violações e atrocidades cometidas contra os pais e irmãs, tendo sido a única sobrevivente. E em resposta a este trauma, depressa se apaixona pelo português que foi um dos seus salvadores. Algo que do ponto de vista psicológico não faz muito sentido.

O romance também procura enquadrar-se a nível histórico. Fá-lo incorporando personalidades reais como Godoy, Junot, Napoleão ou Wellington como personagens, e também com infodumps expositivos que saem da boca dos personagens que seguimos. Diria até que o último quarto do romance é essencialmente uma desculpa para a autora explicar a batalha do Vimeiro. 

Apesar de interessante na sua temática, o romance beneficiaria de alguma sintetização, sente-se como uma leitura excessivamente longa que se deixa demorar em demasiados pormenores. A reconstrução histórica é muito cuidada e detalhada, mas apesar dos esforços da autora não conseguimos empatizar com as suas personagens. Em parte porque as suas falas seguem um certo romantismo patriótico, e também pela decisão de tentar transmitir o sotaque nazareno. Faz sentido, mas torna a leitura cansativa.

terça-feira, 5 de maio de 2026

O Crime do Padre Amaro


Eça de Queirós (1935). O Crime do Padre Amaro. Porto: Livraria Lello.

Não esperava ficar avassalado por esta leitura. Respirei fundo, ao virar as últimas páginas, com o absoluto brilhantismo da prosa queirosiana. Fechei o livro com um sentimento de espanto. É um defeito, admito, só agora estar a ler com atenção os clássicos canónicos da literatura portuguesa. Tenho uma razão pessoal para isso, a imposição de leitura nos tempos de escola deixou-me com uma reação de rejeição, um sentimento injusto perante a qualidade da nossa literatura. 

Num recente artigo para o Shifter,  observa-se que a  nossa insistência na leitura obrigatória de alguns autores como parte do currículo da escolaridade obrigatória não se deve a uma genuína vontade de preservar a sua memória e dar a conhecer a sua obra às novas gerações, mas a uma mais serôdia vontade de marcar leituras. Não se incentiva a ler para cultivar o gosto, mas sim para se poder afirmar que se leu. E eu, confesso, não conheço melhor maneira de destruir o gosto pela leitura do que obrigar a ler livros específicos para em seguida testar conhecimentos em provas e testes. Já agora, confessem lá, leram mesmo os livros obrigatórios que tinham de ler no secundário, ou leram as versões resumidas para estudar, porque sabiam que o que importava era responder às perguntas dos professores? Na ânsia de preservar a memória da cultura, corremos o risco de destruir o gosto e o prazer de ler. 

Assumindo a minha ignorância, esperava deste livro um dramalhão romântico ao estilo típico do século XIX, uma história trágica de amores e paixões. Há estes elementos na narrativa, mas ao ler deparei-me com uma história de crítica social corrosiva e intensa, um retrato demolidor da sociedade portuguesa. Um retrato que, suspeito, com as devidas atualizações não seria muito diferente hoje, num certo provincianismo cultural e na forma como nos relacionamos com o poder, quer seja político quer religioso ou económico. O final, magistral, é ao mesmo tempo trágico e imoral. Eça mostra-nos, ao contrário de Dostoievsky, que o crime não implica castigo, até bem pelo contrário.

Perceber qual foi o real crime do padre Amaro é questão que me irá remoer durante bastante tempo. Não há respostas lineares a esta pergunta. Será, ostensivamente, a sua profunda paixão pela jovem Amélia, um crime social e religioso. Como padre, não poderia ter mulher, muito menos apaixonar-se tão profundamente. Mas o amor não é crime, pensa-se ao ler o livro. Há amores que perduram, contra tudo e todos, e um romance entre uma jovem e um padre poderia saldar-se num final amor vincit omnia. Se é um crime religioso, não o é  em termos humanistas.

Ao longo da leitura, vamos percebendo melhor o padre, e o seu amor. Percebemos que não se trata realmente de amor profundo, mas sim aquela paixão intensa (ou, em termos vernaculares, pura "tesão") por uma mulher atraente. As esperanças de que o romance seja uma feliz história de amor desvanecem-se ao perceber que apesar da intensidade da sua paixão, Amaro nunca equaciona dar o passo lógico de largar a sotaina e construir uma vida ao lado da sua amada. Bem pelo contrário, chega a procurar formas de casar a rapariga, mantendo-a sempre sob o seu jugo sexual. 

Depressa percebemos que para este padre, a religião é um elemento secundário. Não há dúvidas que a tem, que é crente e conhecedor dos preceitos. Mas a sua vocação como padre surgiu na adolescência, ao descobrir a dureza da vida de trabalho. Educado como menino-mascote de uma aristocrata religiosa, entre velas, rezas e santinhos, tem uma fugaz experiência como marçano onde aprende que o verdadeiro valor da religião é a pertença à organização. Ser padre livra-o do trabalho braçal, dá-lhe rendimentos, abre-lhe as portas da sociedade local da paróquia, torna-se uma figura influente e come bem e muito à borla, nos jantares sociais das devotas paroquianas. É um emprego confortável, com alguns sacrifícios e muitos pequenos luxos. Nem nos maiores assomos de paixão Amaro sequer coloca a hipótese de largar esse conforto para viver livremente o seu amor.

A ironia, corrosiva, do livro é perceber que a atitude deste padre é a norma. Que todos os que o rodeiam pregam o que não praticam, vivendo vidas tranquilas entre as casas das paroquianas que os alimentam de comida, e até mais do que isso. Que muitos são os padres que partilham a vida com mulheres que em público são devotas governantas mas à noite lhes aquecem a cama, ou que educam carinhosamente sobrinhos e sobrinhas que são na verdade seus filhos. É um daqueles segredos que todos conhecem, mantido por conveniências sociais. Todos fazem, todos sabem, ninguém diz, apesar de em segredo de mexerico todos comentarem. 

A sátira queirosiana vai mais a fundo e mostra-nos padres exímios da pregação do que não praticam, que engordam à custa das paroquianas enquanto criticam a preguiça dos pobres, venais que apontam o dedo em riste à impiedade das ideias liberais, homens mesquinhos que se afadigam mais nas suas vinganças pessoais do que nos sacramentos, ou homens de vida confortável que encetam todos os esforços para que nada lhes perturbe o remanso. Em todo o romance, só um personagem clerical se distingue como real crente, um humilde abade que não quer mais da vida do que ajudar os seus paroquianos numa aldeia leiriense e refletir sobre a filosofia cristã. Um personagem que faz uma entrada tardia, tentando afastar Amélia do destino de amante manipulada, mas as circunstâncias da natureza não lhe permitem a salvação.

Todo o romance se passa numa sociedade bafienta de valores de religiosidade bacoca. O livro liberta um nítido odor a sacristia, a velas que iluminam santinhos e gravuras. Eça explora muito bem a superstição religiosa enquistada como cultura, a religiosidade das rezas contínuas, da aparência santa, da sujeição a um clero venal e moralmente corrupto.

Não consigo deixar de pensar em Amélia como uma vitima. Jovem humilde, da pequena classe média que vive em redor da sociedade eclesiástica leiriense, que vê no jovem padre vindo da capital uma luz que a apaixona. Até à chegada de Amaro, resignava-se à vida pacata de acompanhar a mãe (ela própria uma amante oculta de outro padre da paróquia) na sociedade, entre os serões com as comadres devotas ou as temporadas estivais na Vieira, percebendo que pretendentes teria para o desejável casamento respeitável. A chegada do novo pároco abala-lhe o mundo, mas a forma como a paixão é cultivada faz-me pensar mais naquilo que hoje consideramos relacionamentos tóxicos (e que já eram assim vistos à altura, sem este nome) do que em amor. Torna-se claro que Amaro usa a sua posição de poder espiritual para seduzir a jovem. As consequências serão trágicas. Mesmo nos momentos da mais profunda paixão, a jovem condena-se por saber que está a ceder a um crime, sabe que se for descoberta se tornará uma proscrita. Quando a natureza faz o que faz e engravida, começa a viver o pesadelo de ser afastada, oculta, para que o segredo não macule a imagem de probidade do senhor padre.

Se acharem que estou a cometer o erro de ler Eça com uma lente woke, só vos digo que nestes aspetos, este romance é uma lição de profundo humanismo moral. Amélia é uma vítima objetificada, Amaro a ponta de lança de uma cultura religiosa moralmente corrupta, e o retrato que faz da sociedade não lhe fica atrás. Todos pregam a virtude moral e social enquanto cobiçam a mulher do próximo (as cenas do secretário do reino em Leiria que passa os dias à janela do seu gabinete a galar a esposa de um comerciante da rua são um delírio de humor), ou vivem entre esquemas que visam manter as suas prebendas e confortos, em prejuízo de outros. Há até um laivo de cultura queer, na forma da personagem de Libaninho. Um verdadeiro rato de sacristia, pio devoto que não perde uma missa ou reza, que a páginas tantas é descoberto enrolado de forma imprópria com um camponês nos jardins da cidade. Acabará como sacristão, curiosamente.

Se o romance é um longo e tremendo retrato de hipocrisia social e moral, o final é magistral. No penúltimo capítulo, Amélia morre no parto, numa cena tremenda em que um abade religioso e um médico  ardente de ciência confrontam os limites das suas crenças. A rapariga que tinha entre os seus sonhos ascender na vida e passear de coche com criados de libré acaba por ir para o cemitério acompanhada por criados de um morgado local, graças à presença daquele que foi o único homem que a amou verdadeiramente, e pagou caro por se ter atravessado no caminho do padre. A ironia do cortejo fúnebre é pungente e corrosiva. Amaro tem um momento de lampejo humanista, tentando assumir o filho com o velho estratagema do sobrinho, mas a tecedeira de anjos a quem o entregou resolveu-lhe o problema de forma fatal. Note-se, sublinhando o caráter corrosivo da obra, que esta mulher do povo que fazia negócio de livrar o mundo das proles indesejadas foi recomendada por uma alcoviteira que estava perfeitamente integrada no santo mundo dos padres, que professava a religiosidade pura enquanto tratava dos segredos venais dos homens de sotaina. Desolado com o trágico desfecho da paixão, o padre Amaro abala para Lisboa em busca de outra colocação, fugindo do escândalo.

O livro termina em Lisboa. Ou melhor, no Chiado, centro da vida cultural da época, em cujos cafés muito se discutia e decidia. Reencontramos Amaro e um dos seus amigos padres leirienses. Pelas suas conversas, percebemos que nada mudou, que a morte infeliz da jovem não interferiu de todo com os modos de vida deste clero. Há lições aprendidas, claro, digamos que Amaro agora só se aproveita sexualmente de mulheres casadas, para não se voltar a ver embrulhado em complicações. Procura singrar na vida, com apoio de um aristocrata ligado ao governo que move influências para o nomear para lugares mais auspiciosos do que longevas paróquias de aldeia. Prosperar é o castigo para os seus crimes.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma


Irene Lisboa (1984). Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma. Porto: Livraria Figueirinhas.

Há textos que se leem para seguir o rumo de uma narrativa. Outros, apenas pelo puro prazer de saborear as palavras. Neste clássico da literatura infanto-juvenil portuguesa, encontramos ambas as vertentes. São histórias curtas, algumas com princípio, meio e fim e até uma moral; outras parecem rascunhos, quase poemas em prosa. Algumas seguem a sua lógica interior, outras são palavras vagas que se cruza na página, conjurando imagens na mente do leitor. Entre o onírico e o fantástico, mas também o tradicional e a poesia pura.

terça-feira, 17 de março de 2026

A Vénus de Kazabaïka


Leopold Sacher-Masoch (1966). A Vénus de Kazabaïka. Lisboa: Afrodite.

Um belíssimo achado de alfarrabista, pensei quando deparei com a edição da lendária Afrodite. Livro em bom estado, preço convidativo, e se se associa ao autor ao masoquismo, não fiquei à espera que este fosse o livro que lhe deu a fama e o nome à parafilia. Mas sim, quando cheguei a casa e o folheei mais atentamente percebi que tinha nas mãos a tradução portuguesa do clássico Venus in Furs. A tradução do título não foi direta, talvez para não despertar à partida a ira dos censores - a edição é de 1966, em pleno estado novo, e percebe-se logo no início da leitura que as peles com que a sedutora Wanda cobre o corpo, despertando frémitos de desejo no indefeso Severin, têm um nome tradicional que foi adaptado para título.

Numa confissão que não advoga muito a favor da minha masculinidade, devo dizer que não sou particularmente fã de literatura marota. Obriguei-me a ler Sade, como parte da minha educação literária, e ao ler Henry Miller depressa percebi que me fascinavam mais os voos modernistas da sua narrativa do que as exaustivas descrições do que fazia com as suas conquistas. Quase pensei em não ler este livro, juntá-lo à minha coleção da Afrodite intocado, mas,  e porque não? Já agora, vamos descobrir porque é que o livro gerou masoquismo como adjetivo.

A surpresa foi monumental, e o livro não é de todo o que se poderia esperar. Mais do que literatura erótica, é literatura no seu melhor. A leitura é um deleite linguístico sensualista, naquela tradição de quasi-poesia e introspeção de sentimentos ao rubro em prosa das letras do século XIX. Ajuda aqui a tradução ter sido da poetisa Ana Hatherly, capaz de tratar o texto original com uma leveza linguística que torna a tradução poética. 

Quanto à história, bem, novamente, não é o que esperamos. Não é o elencar de sessões de chibatadas no lombo do sorridente Severin dadas pelo pulso firme de uma Wanda cujas vestes de pele mal cobrem as formas voluptuosas. O livro vai muito mais a fundo num retrato de um homem obcecado, que não hesita em degradar-se para manter os favores de uma mulher volúvel e implacável, que brinca com este, sujeitando-o a progressivas sevícias e destrates enquanto o atrai com fugazes demonstrações de carinho. A coisa termina mal, como não poderia deixar de ser, não há final feliz em que o casal amoroso se fustige num delírio de felicidade eterna. Bem pelo contrário.


História de obsessões com os nervos à flor da pele, decadente e de linguagem luxuriante, é de facto uma pérola literária. A edição da Afrodite que tive a sorte de desencantar vem acompanhada de um conjunto de fotos alusivas ao livro. Suspeito que escandalosas no pequenino e moralista Portugal dos anos 60, mas que hoje, francamente, já vi mais explícito em obras para públicos infanto-juvenis.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Malhadinhas


Aquilino Ribeiro (1978). O Malhadinhas. Lisboa: Bertrand.

Este livro reúne duas novelas de Aquilino, a clássica O Malhadinhas e a picaresca Mina de Diamantes. É um emparelhamento adequado, dado que apesar das aparentes diferenças temáticas, tocam no mesmo cerne - a falsidade do caráter humano, impiedosamente dissecada pela pena aquilinista.

O Malhadinhas transporta-nos ao Portugal profundo e rural da viragem do século XX, embora não se sinta muito a localização temporal. É um retrato de um caráter atemporal, rural e empobrecido, de vistas limitadas às aldeias e regiões limítrofes. Seguimos as aventuras de um homem que não é todo um herói. Senhor do seu nariz, inquieto e por isso bom almocreve e negociante, incapaz de domar as suas paixões e àgil no uso da navalha e varapau, vive num constante confronto com o mundo que o rodeia. Um mundo que é em si impiedoso, cheio de violência latente e pobreza. Apesar dos acometimentos de violência que o levam a fugas e prisões, o Malhadinhas safa-se, constrói a sua vida e amanha a sua leira. Morrerá de idade profunda, em paz, terminando os dias na beatice de quem se quer reconciliar com deus após passar uma vida a fugir das leis da igreja.

Malhadinhas não é nehum herói, mas também não é vilão. É apenas um sobrevivente, produto do substrato de pobreza, ignorância e violência de um país de paisagens bucólicas e miséria aldeã. De certa forma, este retraro impiedoso de Aquilino lê-se como o reverso de Os Meus Amores de Trindade Coelho, esse elogio de uma singeleza e humildade rurais que oculta o desaire da pobreza.

Mina de Diamantes é uma novela deveras picaresca. Seguimos aqui o regresso triunfal de um emigrante à terra natal. Mas desenganem-se se esperam uma história de benevolências e bondades. Estamos longe disso, e não há na novela nenhum personagem que não seja corrupto - aquela corrupção que é amoral, porque sistémica e condição essencial de sobrevivência social. 

O regresso não se dá por saudades da terra, mas por necessidade. O emigrante singrou na vida num Brasil graças a ser bem apessoado, bem falante e cair nos regaços das esposas entediadas de banqueiros. Tornou-se funcionário municipal, o que lhe permite meter a mão em inúmeras negociatas na cidade. Concupiscente, cede aos enquantos da jovem esposa de um rival, e percebe que um regresso temporário a Portugal é a melhor forma de escapar aos riscos de uma bala vingativa, enquando o ultrajado não se acalma. Claro que sendo uma figura que tem de dar nas vistas, a viagem transforma-se em périplo de notoriedade, com reportagens nos jornais a detalhar a partida e chegada de tão importante personalidade.

Por cá, é recebido como um grande senhor, sendo-lhe rendidas as mais profundas homenagens e condecorações. Transformado em comendador, regressa à terra natal, uma típica aldeia empobrecida das beiras profundas. Claro está que vai atrair a cobiça de todos. Não há quem se safe, não há quem não arranje esquemas ou pedidos para sacar dinheiro ao supostamente rico comendador, que na verdade é pouco mais do que um mero e mediano funcionário corrupto. Toda a região se desdobra em salamaleques e homenagens, em pedidos para que o benemérito beneficie as terras. Para piorar, o retornado não mete travão à sua alma lúbrica, e depressa seduz sobrinhas e afilhadas, o que o coloca em novas complicações morais que se resolvem com a dose certa de notas de conto.

Se em O Malhadinhas há um moralismo na violência, em que apesar de todos os sarilhos em que se mete e provoca o homem tem um fundo de bem, Mina de Diamantes não há quaisquer modos de moral. Todos são corruptos, o emigrante comendador revela a corrupção trazida pela urbanidade, mas a sociedade rural a que regressa revela-se igualmente corrupta, disfarçando a amoralidade com que espolias os outros, vende as filhas e procura amealhar trocos fáceis com a capa da religião e probidade social. A pobreza do subdesenvolvimento luso em 1922, ano de publicação de O Malhadinhas, mantém-se no país supostamente mais desenvolvido sob o jugo estadonovista de 1958, ano de publicação de Mina de Diamantes.

Está aqui o ponto que torna as duas novelas iguais. Aquilino não disfarçava a desumanidade de uma ruralidade de pobreza, ignorância e violência debaixo de romantismos de piedosa honestidade. Nas duas novelas, a sociedade é impiedosa como condição de sobrevivência, safa-se quem mais porfia, quer seja no enganar, no pedinchar ou sarrafar. No fundo, é um retrato que não sendo bonito, representa a realidade crua de um Portugal passado. Mas, quando leio esta crueza aquiliniana na forma como desmonta as falsidades do caráter humano, não deixo de olhar para a sociedade contemporânea que nos rodeia e pensar que talvez estes traços se tenham mantido, apesar da nossa modernização.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Contos Gregos


António Sérgio, Luís Abreu (1978). Contos Gregos. Lisboa: Sá da Costa. 

Confesso, não comprei este livro pelos seus textos. Por muito que goste de mitologia grega, não estou particularmente interessado em mais um recontar simplificado destas histórias que compõem o cerne da nossa cultura. Apesar de ter terminado a leitura com um sorriso, com o recontar do episódio do reencontro de Ulisses e Argos na Odisseia (amantes de cães compreendem). Por outro lado, após resumir muito bem a Argonautica, termina com um final feliz à conto de fadas para os amores de Jasão e Medeia, algo que as lendas contrariam, entre os frenesis assassinos dela e s proficiência em aproveitar-se das mulheres para alcançar o poder dele. 

O que despertou o meu interesse foi o ser uma edição, profusamente ilustrada, naquele estilo entre o expressivo e o realista que é marca estética do modernismo português. As ilustrações são assinadas por Luís Filipe de Abreu e cruzam elegãncia gráfica, remetem para os mitos e ainda têm um forte caráter expressivo. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Odisseia


Homero (2003). Odisseia. Lisboa: Livros Cotovia.

A eterna narrativa do péripo de Odysseus é uma daquelas histórias que quase todos conhecemos, nas suas linhas gerais, mas é provável que poucos a tenham lido integralmente. Alguns leram as versões simplificadas de que falamos na escola, e isso já lhes dá um vislumbre do poder deste texto milenar. Não escrevo isto como alguma forma de observar superioridade intelectual por me ter atirado a esta leitura, apenas reflito que é um texto cujas traduções originais são relativamente difíceis de encontrar, e caras. A tradução de Frederico Lourenço é excelente, erudita e cuidada, e feita de forma que contribui muito para a legibilidade, mantento o leitor envolto na poesia das palavras e nas desventuras do herói de mil ardis. Por cá, os clássicos não são muito acessíveis, penso enquanto recordo livrarias florentinas ou londrinas onde havia secções inteiras que lhes eram dedicadas, com uma profusão de obras e traduções para todos os bolsos.

Não me vou dedicar a dissecar ou analisar uma obra tão longeva e complexa, tantos outros mais habilitados já o fizeram. Apenas refiro que ao ler, finalmente, a versão integral deste texto senti na pele, nas entranhas, o poder desta história que já se conta há milénios. Uma história profundamente humana, onde o herói não é um ser perfeito (bem pelo contrário, é volúvel e violento, apesar de no seu cerne pemanecer fiel à ideia do lar e do regresso), deuses caprichosos e mesquinhos intervém, os homens se revelam em grande parte pela ganância e cobiça das riquezas dos outros ou pela fidelidade inabalável mesmo quando sentem o desprezo dos que os rodeiam - algo que também se aplica às mulheres, apesar da grande personagem feminina ser a encarnação da perfeição maternal do lar, na figura da eternamente fiel Penélope que não renega a memória do marido perante toda a pressão social para que escolha outro para casar, levando para outra casa as riquezas e o poder da ilha de Ítaca.

O texto é poderoso, e como já observei, a tradução de Frederico Lourenço é magistral, tratando-o com uma elegância literária que contribui muito para que o leitor sinta a sua empolgância, desespero e apelo.

Não resisto a uma partilha muito pessoal, que senti ao chegar àquelas estrofes da Odisseia que deixam qualquer pessoa que, como eu, adora cães com uma lágrima no olho:

"E um cão, que ali jazia, arrebitou as orelhas.

Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio

criara, mas nunca dele tirou proveito, pois antes disso partiu

para a sagrada Ilion. Em dias passados, os mancebos tinham levado

o cão à caça, para perseguir cabras selvagens, veados e lebres.

Mas agora jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente:

jazia no esterco de mulas e bois, que se amontoava junto às portas,

até que os servos de Ulisses o levassem como estrume para o campo.

Aí jazia o cão Argos, coberto das carraças dos cães.

Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto,

começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas;

só que já não tinha força para se aproximar do dono.

Então Ulisses olhou para o lado e limpou uma lágrima.

(…)

Mas Argos foi tomado pelo negro destino da morte,

depois que viu Ulisses, ao fim de vinte anos."


Quem tem cães, compreende. Quem ama ler, sente o fascínio de palavras vindas de um tempo tão longevo nos tocarem tão profundamente - notem que se o texto escrito tem mais de dois mil anos, a tradição oral é ainda mais antiga.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Alemanha Ensanguentada


Aquilino Ribeito (1975). Alemanha Ensanguentada. Lisboa: Bertrand.

Uma visita de Aquilino à Alemanha no pós-guerra imediato, que é ao mesmo tempo literatura de viagem, reflexão sobre a sociedade de um país, e um analisar de uma história contemporânea ainda fresca nas memórias. Por pós guerra entenda-se o pós-I guerra, com a derrocada da monarquia alemã, as exigências impossíveis dos aliados vencedores e vingativos, e as convulsões sociais e políticas de um país derrotado. Não se trata do mítico ano zero do pós-II guerra, com um país em escombros e arrasado a ter de enfrentar os horrores que provocou. 

Aquilino era arguto, e na análise que faz do país que revisita observa por várias vezes que o gérmen de uma futura guerra e da liderança de homens fortes está presente no pós-guerra que visita. Note-se que a a obra foi publicada em 1935, mas a viagem do autor data de muito antes. Anota as privações de um povo, as convulsões políticas, a humilhação da derrota e a perda de caráter moral, mas também sublinha a industriosidade alemã, e a sua capacidade de recuperação. O olhar do escritor português atravessa cidades e regiões, faz-se de conversas e interações com gente de todos os níveis.

O livro termina com uma visita a algumas zonas de batalha, com especial emoção nas zonas da frente ocidental onde o CEP verteu sangue pelas terras de França e Aragança (uma daquelas deliciosas expressões hoje esquecidas que o escritor tanto usa na sua obra). A visão de Aquilino sobre a participação portuguesa na guerra é realista e crítica, embora se note um certo elogio da entrada na guerra e a observação da sua inevitabilidade face à defesa das colónias, embora observe que a perda de vidas humanas e os gastos militares não compensam "uns palmares no além mar". 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Arcas Encoiradas


Aquilino Ribeiro (1962). Arcas Encoiradas. Lisboa: Bertrand.

É um prazer, mergulhar na prosa rendilhada de Aquilino. A leitura é um desafio, este autor conhecia a língua como poucos e não tinha medo de se atrever a levá-la aos extremos. Este livro não é um romance, mas sim uma coletânea de textos à moda de crónicas. Soa estranho, ler e apreciar crónicas escritas no passado, a refletir sobre temas e problemas há muito esquecidas, mas estas não são crónicas de costumes ou feitos que só fazem sentido no seu momento contemporâneo.

Aquilino olha para o país profundo e antigo, analisando primeiro a rica tradição de arquitetura megalítica de uma forma que não comento. O seu saber literato estava em óbvio conflito com os estudos arqueológicos, mas não deixa de ser interessante ler a ligação que faz entre os povos de antanho com os habitantes serranos que tão bem conhecia. 

Passa daí a olhares sobre o interior português, descrevendo a riqueza cultural e de vivências das beiras e minho. Olha para as cidades e vilas, nalguns casos com elogio cultural, caso de Viseu com o seu museu hoje dedicado a Grão Vasco, noutras, temperando com as suas memórias de juventude, caso de Lamego, onde entretece recordações do seu tempo de estudante com a cidade dos seus tempos. As terras, as gentes, as paisagens duras e belas, os modos de vida e um elogio saudável ao "vom binho berde" (e como o compreendo!) ficam registadas nestas crónicas de um tempo, e de um país, que já não existe. Embora seja interessante perceber, pelas minhas próprias experiências de boa hospitlidade, melhor comida, gentes simpáticas e serranias de perder o fôlego entre o verdejante da floresta e o cinzento das penedias, que se evoluímos e mudámos, há algo no carácter que se mantém, perene. Um modo de estar e viver que Aquilino intuiu vir já desde os tempos em que erigíamos antas nos ermos e serranias.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Grichka e o seu urso


René Guillot (1959). Grichka e o seu urso. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade. 

Um mergulho numa literatura infantil de outros tempos, onde o fascínio pela vida selvagem nos confins da civilização era a norma. Esta série leva-nos às tribos da longínqua Sibéria, e às aventuras na taiga de um jovem nativo. Rapaz inquiento e aventureiro, desafia a tribo e vive num pleno contacto com a natureza que o rodeia, com breves vislumbres de um mundo exterior mais alargado trazidos por um mercador chinês que se atreve a desbravar as lonjuras nortenhas para assegurar acesso às melgores peles.

Nesta aventura, o jovem siberiano dá por si o guardião de um pequeno urso, que é acolhido pela tribo em honra da sua tradição anual de sacrificar um destes animais como ritual que assegura abundância. Mas o urso é um companheiro para o jovem, que irá encontrar forma de desafiar a sociedade onde vive, para o conseguir salvar.

Uma aventura que nos leva a outros tempos, com o exotismo selvagem das zona esquecidas nos mapas. O livro é ilustrado com imagens numa deliciosa estética típica dos anos 50.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Caminhos Magnéticos


Branquinho da Fonseca (1959). Caminhos Magnéticos. Lisboa: Guimarães Editores.

De Branquinho da Fonseca apenas conhecia esse portentoso e violento romance que é O Barão. O mergulho nestes Caminhos Magnéticos foi curioso, em parte seduzido por um título tão reminiscente do experimetalismo do modernismo português, em parte para conhecer mais da obra deste autor. O livro reúne um conjunto de contos muito sólidos, se bem que difícesi de definir como um todo. Nalguns, o tom era claramente naturalista e até com uma vertente de sóbria crónica política. Noutros, imperava o romantismo e as emoções. Alguns pareciam tocar no expressionismo, na forma como se construíam a partir de sensações e impressões pouco claras mas fortes. Há, até, um leve toque de sobrenatural, embora mais dentro do espírito romãntico do que tentativa de conto de trevas.

A escrita é cativante, sendo um deleite de ler. Talvez a característica que defina este livro seja o olhar, por vezes desconexo mas sempre inquieto, para o mundo moderno da sua época, a sua sua sociedade e modos de vida, buscando novas formas de exprimir visões e ideias. Os personagens destes contos estão sempre em confronto com os modos sociais, impelidos no seu caminho por acontecimentos que raramente controlam.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Le Fantôme De La Rue Michel-Ange


Henry Bordeaux (1926). Le Fantôme De La Rue Michel-Ange. Paris: Fayard.

Não esperava ver-me leitor de um livro escrito por um autor que ficou imortalizado por ter sido gozado por Henry Miller no seu clássico Trópico de Cancer. Apanhei-o um pouco por acaso na Feira da Ladar, seduzido pelo formato, capa e as ilustrações anteriores desta edição de 1926. Já só falta um aninho para fazer um século.

Uma pesquisa sobre o autor revelou ser uma daquelas criaturas certamente respeitáveis e sisudas, que escrevia muito corretamente e por isso foi nomeado membro da Academie Française, instituição cuja principal função é dizer aos franceses como escrever corretamente. Advogado para lá de romancista, a sua obra centrou-se no retrato das classes sociais altas, mas de forma tão morna que depressa foi esquecido. 

Este livro até prometia alguns arrepios. Finalizada a leitura, dei com um tema interessante -  os traumas sociais e pessoais trazidos pela I Guerra, mas tratado de forma folhetinesca, ao estilo telenovela, diríamos hoje. Não que o livro se estruture assim, apenas a superficialidade das personagens e a falta de emoção na escrita parecem a narrativa a metro dos dramalhões. A história foca-se num militar que assiste à derrocada mental de um amigo, banqueiro parisiense que perdeu o filho único nos primeiros minutos da batalha de Verdun. Amante das coisas sobrenaturais, vive concencido que consegue falar com o espírito do filho, através de sessões mediúnicas. A medium é a sua sobrinha, prima distante da província que acolheu na casa paraisiense. Provinciana mas nada tapadinha de todo, a rapariga depressa percebe que o caminho para uma vida desafogada e de bem estar é ceder às fantasias do tio, chegando ao ponto de renegar um amor para não perder a vida de conforto numa alta sociedade a que não pertence. Resta a mulher do banqueiro, católica devota, que muito à francesa preferia que o marido adotasse a sobrinha como amante, ao estilo clássico, em vez de a mimar com prendas por acreditar que através dela, fala com o filho. 

Há aqui uma história que tanto poderia ser de fantasmagorias como de crítica social, ou de retrato do desespero de pais que perdem os filhos na loucura das nações. Mas, lá está, o livro está corretamente escrito, e torna-se um suplício de levar até ao fim, apesar de ser curto. Não é uma questão de choque entre a minha sensibilidade de leitor do século XXI e os modos narrativos dos princípios do século XX. É que o livro é mesmo um tédio, salvam-se as ilustrações.

Ou seja, Henry Miller tinha razão.

domingo, 5 de outubro de 2025

Fórum Fantástico 2025: As Escolhas Literárias do Ano


É aquela tradição anual do Fórum Fantástico, o painel das escolhas literárias do ano do João Campos, Cristina Alves, Rogério Ribeiro e eu. Como sempre, deixo aqui a minha lista dos livros que, neste ano, mais me marcaram. 

Ficção Científica, Fantástico, Horror

Agustina Bazterric: The Unworthy

A escritora argentina, que se destaca no conto cruel, cimenta sua reputação global com o livro The Unworthy, após o sucesso de Tender is the Flesh, mostrando sua capacidade de variar temas. Esta nova obra é um mergulho provocador num mundo pós-apocalíptico e em ruínas, onde a protagonista, refugiada num convento, se vê na verdade aprisionada numa seita profundamente violenta. The Unworthy oferece uma leitura implacável e desagradável pelas ideias de violência e subjeção que a autora constrói, apesar da sua escrita ser elegante. 

Matos Maia: A invasão dos marcianos: + 3 "Fantasías radiofónicas"

O texto recorda a lendária emissão radiofónica de A Guerra dos Mundos de Orson Welles e a proeza repetida em Portugal por Matos Maia, destacando que o sucesso de ambos se deveu à capacidade de adaptar a narrativa à gramática específica do meio radiofónico. O livro em questão compila o guião da adaptação de Matos Maia, juntamente com outras peças radiofónicas do autor, como Quando os Cientistas Sonham e Um Naufrágio... no Sara. Estes textos revelam Matos Maia não apenas como um grande radialista português, mas também como um raro criador de obras de ficção científica que usou a rádio como uma estrutura narrativa. 

M.S. Rosa: Da Luz Da Qual Nasceste

A aquisição deste livro no Festival Contacto foi motivada pela autora, cujos vídeos no TikTok considerava encantadores, demonstrando o apoio da comunidade portuguesa a novas vozes no fantástico. O livro surpreendeu o leitor ao afirmar uma voz pessoal forte, criando um mundo ficcional próprio e bem elaborado, que se afasta das habituais fantasias medievalistas ou de simples pastiches. Apesar do enredo linear, o livro ganha uma dimensão inesperada e profunda ao desconstruir a premissa de amor do ritual, transformando-se numa metáfora sobre desequilíbrios amorosos e relações tóxicas, e integrando de forma consciente temas não-heteronormativos e ativistas.

Kaliane Bradley: The Ministry of Time

O romance de Kaliane Bradley inicialmente ignora os paradoxos temporais, focando-se numa tradutora numa Londres futurista que consegue um emprego misterioso num departamento governamental. A sua missão chocante envolve acompanhar expatriados resgatados do passado antes de morrerem, o que contrasta os seus costumes com a modernidade, servindo como uma metáfora sutil sobre migração e a manipulação de deslocados. A narrativa revela-se mais complexa, culminando na descoberta de que toda a história é parte de um ciclo de paradoxos temporais manipulados por uma versão futura da protagonista para alcançar um resultado desejado. 

Steven L. Peck: A Short Stay in Hell

O conto é profundamente influenciado por "A Biblioteca de Babel" de Borges, estendendo a ideia de um lugar que, embora pareça um paraíso para bibliófilos, é na verdade o inferno. A condenação de um homem religioso, que acreditou na fé errada, não é um tormento tradicional, mas sim ser enviado a uma biblioteca infinita. Para alcançar o paraíso, o condenado recebe o desafio de encontrar o livro que conte a história da sua vida, uma tarefa impossível na vasta e monótona biblioteca, onde a única certeza é que nada mudará ao longo dos milénios.

Sierra Greer: Annie Bot

Esta novela de ficção científica, Annie Bot, revisita o tema do andróide feminino — comum em contos clássicos como Olympia e L'Éve Future — para explorar a fantasia masculina de ter uma mulher dócil e submissa, mas com um mergulho corajoso na violência sexual e doméstica. O livro centra-se na relação desequilibrada entre um homem e a sua andróide de companhia topo de gama, cujas funções de IA generativas lhe permitem desenvolver lentamente uma consciência e autonomia. A história funciona como uma metáfora pouco subtil sobre o abuso, a dominação e as relações tóxicas, onde a autonomia da andróide é constantemente ameaçada pela possibilidade de ser revertida pelos comandos de obediência do seu dono, refletindo o ciclo de violência doméstica.

Pedro Medina Ribeiro: A Serpente no Sótão

Esta coletânea de contos góticos de Pedro Medina Ribeiro é uma excelente surpresa que, embora beba do estilo clássico das histórias de assombrações, não se limita a ser um pastiche. O autor recupera a forma elegante e o tom literário do género, transportando o leitor para um universo de bizarrias sobrenaturais e o temor do escuro. A modernidade está sempre presente nos contos, mesmo naqueles que se passam no século XIX, demonstrando o domínio do estilo por Medina Ribeiro.

Kevin J. Anderson: Nether Station

Este livro é uma mistura perfeita e empolgante de Hard SF e horror cósmico lovecraftiano, seguindo as desventuras de uma investigadora especializada em buracos negros que se junta a uma expedição para estudar um misterioso wormhole na orla do sistema solar. Após uma longa viagem, a equipa de exploração depara-se com descobertas mirabolantes, como cadáveres alienígenas mumificados e arquitetura não-euclidiana que gradualmente mergulham a tripulação num crescente inevitável de horror e loucura. O ritmo imparável da narrativa revela uma guerra cataclísmica contra criaturas de horror cósmico, banidas para os espaços intersticiais e despertadas pela travessia do wormhole, misturando com mestria o mythos de Lovecraft com a ficção científica clássica.

Hanna Bervoets: We Had to Remove This Post

Esta novela curta e dura aborda os efeitos psicológicos e emocionais da moderação de conteúdos na economia digital, contando a história ficcional de uma jovem que lida diariamente com o pior do ser humano. A narrativa explora a dureza deste trabalho, caracterizado por baixos salários, longas horas e falta de apoio psicológico, que expõe os trabalhadores a violência extrema e traumas profundos, dos quais a sociedade prefere desviar o olhar. O livro surpreende no final, ao revelar que a espiral depressiva e traumática não se refere à ex-companheira da protagonista, mas sim à própria personagem, cuja visão do mundo foi irremediavelmente corrompida, levando-a a perder a sua humanidade.

Banda Desenhada

Maxwell Prince, Martin Morazzo: Ice Cream Man

Em formato episódico, as desventuras onde pontua um infernal vendedor de gelados, o trabalho de Maxwell Prince e Martin Morazzo tem nos dado das histórias mais intrigantes e arrepiantes do horror contemporâneo. O resultado da dupla é uma das mais brilhantes séries de BD da atualidade. Cada novo número surpreende, pelo experimentalismo narrativo, grafismo limpo e visão única do terror. Acho que nunca li nenhuma série em que todos os números surpreendem. 

Miguel Gonçalves, Damián Connelly: Nightmare Tales: A Horror Comic Anthology

Uma excelente surpresa, esta edição recentíssima (saiu em maio deste ano). Colige histórias curtas de terror muito puro e duro, com uma assombrosa ilustração a preto e branco. Miguel Gonçalves assina as histórias tenebrosas, cada qual um curto conto bem desenvolvido e eficaz. O trabalho gráfico de Damien Connelly complementa de forma excelente as histórias. O estilo é fortemente expressionista e implacável com o leitor, num efeito final muito belo sobre o leitor.

Max Bardin: Peter Pank

Fãs portugueses mais velhos recordam a revista brasileira Animal, um fenómeno underground que, nos anos 80 e 90, trazia o melhor da BD europeia e brasileira de vanguarda, com um conteúdo adulto e sem compromissos. Nas suas páginas, brilhavam personagens radicais como o robô Ranxerox, Squeak the Mouse e, em particular, Peter Pank, do espanhol Max Bardin. Bardin recriou o esqueleto de Peter Pan na perspetiva da rebeldia punk dos anos 80, transformando a Terra do Nunca numa "Terra dos Punks" habitada por toxicodependentes e ninfomaníacas, onde Peter Pank é um anti-herói assumidamente violento e punk. Esta edição de Peter Pank é um marco incontornável da iconoclastia underground da BD europeia, com o seu humor corrosivo e um traço acutilante. 

Não Ficção

Onésimo Teotónio Almeida: O Século dos Prodígios: A Ciência no Portugal da Expansão

Com prosa lúcida, Onésimo Teotónio Almeida aborda uma lacuna na história da ciência, argumentando que os Descobrimentos portugueses exigiram e promoveram um pioneirismo científico concertado na geografia, matemática e astronomia, séculos antes do Iluminismo europeu. O autor demonstra, através de tratados náuticos e matemáticos da época, o surgimento de um espírito crítico que rebatia a ciência escolástica em favor da observação empírica e da análise das novas realidades trazidas pela navegação. Este "dealbar do questionar científico" português não foi sustentado, o que explica o esquecimento do contributo ibérico para o método científico, cujas razões são analisadas no final do livro. 

André Brun: A Malta das Trincheiras

A história do Corpo Expedicionário Português (CEP) na Primeira Guerra Mundial, marcada pela precária preparação e pelo abandono dos soldados por uma jovem república, é pouco discutida em Portugal por não ser honrosa, sendo La Lys o seu momento mais trágico. O romance do participante André Brun, comandante de infantaria, não segue uma estrutura linear, mas sim reúne vinhetas de memórias que registam a vida e as ações dos soldados portugueses nas trincheiras da Flandres. O livro, embora escrito com um tom patriótico e militarista, é um documento acutilante que humaniza a experiência dos seus homens, apelidados de "lãzudos", destacando o fatalismo, a coragem e as interações no quotidiano da guerra.

Ryszard Kapuściński: Andanças com Heródoto

O livro é um profundo diálogo mental que entrelaça as experiências de viagem do jornalista Kapuściński durante a segunda metade do século XX com as de Heródoto, o "pai da História", revelando um fio contínuo de humanismo ao longo da história. Kapuściński, inexperiente e enviado a países periféricos durante a Guerra Fria, como a Índia, Egito e nações africanas recém-independentes, usa as suas memórias para retratar um passado recente já desaparecido. O jornalista estabelece um complexo diálogo com o viajante da Antiguidade através da obra de Heródoto, que o acompanha, notando um relativismo comum na busca por compreender as geografias, os povos e os seus costumes, e a verdade condicionada pela perceção de quem conta a história.

Alec Nevala-Lee: Astounding: John W. Campbell, Isaac Asimov, Robert A. Heinlein, L. Ron Hubbard, and the Golden Age of Science Fiction

Esta biografia de John W. Campbell, lendário editor da Astounding, assume o desafio de humanizar figuras de charneira da FC, reconhecendo o seu contributo fundamental para o género, mas expondo as suas falhas pessoais, como racismo e misoginia. O trabalho editorial de Campbell foi crucial para guiar escritores como Isaac Asimov e Robert Heinlein a focar-se na especulação científica, elevando a FC das simples histórias de aventura, apesar das limitações estéticas de tempo. Nevala-Lee traça ainda o retrato complexo das relações pessoais e literárias entre Campbell e seus autores, arrasando L. Ron Hubbard e revelando a cultura tóxica que contaminou o fandom desde o seu início.