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terça-feira, 7 de julho de 2026

Lusitânia: A vida dos Cássios, uma família na Lisboa Romana


André Simões (2026).  Lusitânia: A vida dos Cássios, uma família na Lisboa Romana. Lisboa: Planeta.

Um mergulho didático e interessante no cruzamento da nossa história com a do império Romano. Através da ficcionalização da vida de uma família Olissiponense, André Simões leva-nos a conhecer a fundo os tempos áureos de Roma. Não com o foco na grande história dos imperadores e da cidade eterna, tentando sempre olhar para o nosso recanto romano à beira-tejo, com os seus modos de vida, economia e governo. 

Claro, dado que a quantidade de vestígios do império nos vem de fora e não do território português, pese embora a nossa riqueza arqueológica, boa parte da história da vida destes Cássios é extrapolada do que se sabe vindo de outras paragens. Faz sentido, dado o amplo espectro do império e a forma como a romanização enraizou os seus costumes nos povos e territórios conquistados. Tal como o prova a língua que hoje falamos, ou muitas das festas que celebramos, que nos chegam desses tempos.

O foco deste livro está na vida dos romanos, daí o uso de uma família meio imaginada (os nomes foram criados a partir dos vestígios das estelas funerárias que se encontraram em Lisboa). Este estratagema, mais pedagógico que literário, permite-nos acompanhar a vida quotidiana dos romanos, tal como se sabe hoje que eles viviam. E, no fundo, perceber que apesar das vastas diferenças entre os seus tempos e os nossos, não eram pessoas fundamentalmente diferentes do que nós somos. Através deste livro, vemos como os nossos antepassados comiam, se divertiam, socializavam, estudavam, geriam os seus negócios, quais os seus ritos religiosos e superstições.

Apesar do enorme gosto deste livro em falar-nos dos romanos, não há nele o deslumbramento cego que demasiadas vezes se vê ou lê por aí quando se fala da grandeza do império e da sabedoria dos cidadãos. Não há pejo em mostrar-nos que os modos de vida e atitudes dos romanos são radicalmente diferentes das nossas, e nalguns aspetos que hoje consideramos direitos humanos elementares, são-nos repelentes. As suas atitudes perante a mulher, vista como útero para procriar e sempre submissa aos homens da família, são um óbvio exemplo.  Ou, ainda mais gritante, a condição dos escravos, meros objetos sujeitos aos donos, em que só uma minoria poderia aspirar à condição de liberto (e mesmo assim não se livrava da tutelagem familiar dos seus antigos donos). Apesar disto, o livro tem uma perspetiva otimista, recordando que as pessoas comuns tentam vivera as suas vidas em equilíbrio.

Como nota final, registo o trabalho notável do seu autor. Não só neste livro, escrito como de divulgação histórica acessível, mas ao papel que assumiu como influenciador no TikTok. É quase um contrassenso que alguém que se dedica a falar da cultura romana, condição de neurodivergente e ativismo LGBT se tenha tornado uma figura influente graças às redes sociais, que costumam incentivar e recompensar os tipos de discurso que se encontram nos antípodas dos de André Simões. Num oceano de anti-intelecutalismo, conservadorismo extremista, proto-fascismo, masculinidade tóxica ou a promoção do mais elementar e pateta comportamento humano, é quase incrível que se tenha tornado uma voz influente e conhecida. Ainda bem que assim é, significa que apesar de toda a podridão algorítmica, as redes sociais ainda conseguem dar voz àqueles que vale mesmo a pena ouvir.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Atlas de Lugares em Extinção


Travis Elborough (2026). Atlas de Lugares em Extinção. Lisboa: Quetzal.

Não há nada neste livro que não se encontre nas páginas da Wikipedia. Ou, temo e suspeito, num qualquer resumo de IA sobre o tema. Mas sou uma pessoa algo antiquada, e não me é desagradável passar uma tarde primaveril a aproveitar o sol, uma cerveja bem fresquinha e um livro pouco profundo sobre o tema sempre interessante de espaços que se desvanecem.

O livro recorda-nos as cidades perdidas do passado, que em muitos casos mal deixaram traços das civilizações que as construíram. Olha para desvanecimentos da história recente, e mostra-nos como os efeitos da ação humana, entre o aquecimento global e os projetos de engenharia, estão a gerar novas geografias de desaparecimento.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

README: A Bookish History of Computing from Electronic Brains to Everything Machines


W. Patrick McCray (2025). README: A Bookish History of Computing from Electronic Brains to Everything Machines. Cambridge: MIT Press.

Pode parecer contra-intuitivo, olhar para a história da computação sobre a perspetiva dos livros. Afinal, computação é tecnologia, intersectada com impactos sociais, e temos o hábito de pensar mais nos elementos tecnológicos do que na literatura. O que McCray demonstra é o oposto. O venerável livro, como objeto e como meio de arquivo e divulgação de informação, tem sido um companheiro fundamental da evolução da computação. 

A grande razão é a nossa sede de conhecimento, e mesmo nos dias em que o livro como objeto físico se dissolve no digital, continua a ser o meio primordial e privilegiado para concentrar e sintetizar informação, mesmo em campos tecnológicos onde sabemos que o tempo que medeia entre escrever, editar e publicar um livro pode significar que quando chega aos leitores, já está desatualizado sobre a vanguarda da tecnologia que aborda. Mas há algo mais profundo em jogo - primeiro, o livro enquanto analista de grandes tendências. Da minha experiência a ler antigos livros de futurismo tecnológico, é muito interessante perceber que se as tecnologias mudam, a grande novidade futurista de hoje está amanhã obsoleta e esquecida, as tendências estruturais onde as melhores análises tecnológicas se inserem parecem estar continuamente presentes. Se antigamente se falava de computadores inteligentes com misto de deslumbre e preocupação, hoje   fazemos exatamente o mesmo, trocando computadores por inteligência artificial, dando um exemplo muito óbvio de ideias estruturais que se mantém apesar da forma como a tecnologia evolui.

McCray constrói a sua análise bibliográfica de forma cronológica, olhando para as várias etapas da evolução da computação através de obras-charneira que lhes foram contemporâneas. As surpresas começam logo no princípio, no final dos anos 40, tempo do surgimento dos primeiros livros que procuravam explicar o que era o computador para o público em geral. McCray olha em particular para um livro que na ânsia de procurar uma metáfora acessível  que facilitasse a compreensão rápida da essência do mundo da computação, nos legou uma ideia que se tornou perene. O livro foi o Giant Brains de Edmund Berkeley, e não é difícil fazer o salto conceptual  de ter sido a obra que estabeleceu na consciência global uma metáfora tão pervasiva que se hoje pedirem a um qualquer gerador de imagens por IA que mostre como é a IA, sai de certeza uma imagem de uma espécie de andróide de cérebro digital.

Este livro leva-nos a redescobrir outros autores e pensadores fundamentais. Norbert Wiener, que na sua visão de cibernética teve a preocupação de temer o potencial desumanizador da sua visão tecnológica nas mãos de tecnocratas. Joseph Weizenbaum, talvez o primeiro grande crítico da tendência humana para confiar em excesso e atribuir uma falsa humanidade ao output dos computadores. Ted Nelson, o controverso ícone contra-cultural que viu no computador um extraordinário elemento capacitador e libertador do potencial humano.

Mergulha também na importância dos manuais técnicos, coligindo o conhecimento essencial sobre os novos campos da tecnologia, e tornando-se obras de charneira ao permitir disseminação e acesso ao conhecimento. Toca no desenvolvimento da tecnologia de representação textual em ecrãs com o desenvolvimento do LaTex. 

Termina com uma nota algo amarga. Todo o livro foca-se em obras que descreveram ou alicerçaram a revolução computacional, quer entre a visão explicativa, crítica ou pedagógica.  Termina com uma ideia de colapso ideológico, descrevendo na perfeição a bolha da internet nos anos 90, rodeada do hype de autores como George Gilder ou Esther Dyson, que propalaram uma visão de otimismo comercial que colapsou quando a realidade económica não correspondeu às visões de prosperidade digital imediata.

Se  o livro termina aí, não deixa de se questionar sobre o corrente momento, com o impacto das tecnologias de Inteligência Artificial, com aquele sentimento de medo e deslumbre com algoritmos aparentemente capazes de simular consciência e sentido textual, recordando-nos que a história da construção automática de textos antecede a IA e das problemáticas de alucinações, plágio e fraude trazidas pela geração de texto.

Como bibliófilo que sou, não consigo terminar esta leitura sem a perceber como um elogio ao papel do vetusto, mas sempre eficaz, livro. Quer como meio de transmissão de conhecimento, mantendo-se relevante e essencial mesmo na nossa contemporaneidade onde há tantas outras formas de o fazer. Quer, também, como elemento de prestígio, inscrevendo a computação na profunda tradição simbólica do livro.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A Revolução da Mulher das Pevides


Isabel Ricardo (2015). A Revolução da Mulher das Pevides. Lisboa: Saída de Emergência.

A grande virtude desde romance é atrever-se a enfrentar um dos períodos mais violentos da história portuguesa recente, o das Invasões Francesas. É um tema que sinto que se fala pouco, geralmente reservado para as comemorações de algumas batalhas ou em resumo histórico. Mas quanto mais leio sobre estes tempos, mais se desenha na mente a imagem de um país a ferro e fogo, de uma invasão violenta que despoletou uma rebelião que gerou ainda mais violência. Não foi a guerra civilizada de soldadinhos de chumbo que manobravam nos campos de batalha que as reconstituições gostam de nos mostrar. Pelo contrário, foi um combate contínuo de guerrilha e insurreição em paralelo com as forças regulares, com repressão sem quartel e atos vingativos por parte dos invasores. 

Este romance centra-se na Nazaré desses tempos, logo na primeira invasão. Assistimos aos tempos da retirada da corte portuguesa para o Brasil, à ocupação francesa seguindo as ordens de não resistência do rei, à revolta surda da população que acaba por explodir em rebelião aberta. Esta, após sucesso inicial, é esmagada com violência extrema pelas tropas francesas, com um enorme custo para a população civil.

A autora  baseia-se em fontes primárias nazarenas para contar esta história, o que é outra virtude deste livro. Parte das personagens existiram, e a sua memória perdura neste romance que procura relatar um passado que já se tornou tradição. Nisto, é ambicioso, mas a tentativa que faz de retratar o máximo de personagens da terra leva a alguma dispersão literária. Seguimos os nomes, as suas aventuras, desventuras e nalguns casos finais tristes de extrema violência, mas não conseguimos estabelecer empatia com os personagens. 

Não ajuda haver alguma incoerência narrativa. A princípio o romance foca-se muito numa personagem, mulher do povo que se aproveita da sua beleza para eliminar soldados franceses com promessas de amores que acabam pelo penhasco abaixo. Depois muda de registo e tonalidade para relatar de forma romanceada a rebelião popular e o seu esmagamento. Termina com  uma outra linha narrativa, onde uma jovem sobrevivente de uma tremenda atrocidade se cruza com dois jovens, um português e outro espanhol, vivendo os tempos finais entre sede de vingança e o acompanhar das forças anglo-portuguesas. Aqui a história chega a ser inconsistente, o romance que irá desabrochar nesta fase é um óbvio artifício para prender o leitor, mas fortemente implausível dado que a personagem em questão sofreu múltiplas violações enquanto assistia a violações e atrocidades cometidas contra os pais e irmãs, tendo sido a única sobrevivente. E em resposta a este trauma, depressa se apaixona pelo português que foi um dos seus salvadores. Algo que do ponto de vista psicológico não faz muito sentido.

O romance também procura enquadrar-se a nível histórico. Fá-lo incorporando personalidades reais como Godoy, Junot, Napoleão ou Wellington como personagens, e também com infodumps expositivos que saem da boca dos personagens que seguimos. Diria até que o último quarto do romance é essencialmente uma desculpa para a autora explicar a batalha do Vimeiro. 

Apesar de interessante na sua temática, o romance beneficiaria de alguma sintetização, sente-se como uma leitura excessivamente longa que se deixa demorar em demasiados pormenores. A reconstrução histórica é muito cuidada e detalhada, mas apesar dos esforços da autora não conseguimos empatizar com as suas personagens. Em parte porque as suas falas seguem um certo romantismo patriótico, e também pela decisão de tentar transmitir o sotaque nazareno. Faz sentido, mas torna a leitura cansativa.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Deusa Síria


Luciano (1939). A Deusa Síria. Lisboa: Editorial Inquérito.

Como amante que sou de palavras milenares, não resisti a este achado de alfarrabista. Não será obra maior, mas isso não retira o fascínio de ler pensamentos preservados de um mundo que nos é longínquo. A descrição das prática religiosas greco-romanas foge à nossa visão estereotipada de elegância e hieratismo; as descrições dos praticantes de rituais míticos estão cheias de um certo espírito de confusão e desordem, complexos com só a vida consegue ser. É um excelente mergulho no passado, evocando uma imagética viva. Esta edição inclui um curioso ensaio sobre o luto, com  uma posição crítica e satírica (não surpreende, dado ao autor) sobre os rituais da morte.

terça-feira, 19 de maio de 2026

A Guerra Civil em Portugal


Rui Vieira (2025). A Guerra Civil em Portugal - A Luta Sangrenta entre Liberais e Absolutistas (1817-1834). Lisboa: Colibri.

Talvez um pouco esquecido das memórias institucionais, está o facto do início do século XIX ter sido por cá uma época de violência extrema. Primeiro, com os tempos duros das invasões francesas, em que todo o país se tornou um campo de batalha e guerrilha. Finda a ameaça napoleónica, veio o período de instabilidade política de uma monarquia constitucional que resvalou para o absolutismo miguelista. O resultado, uma violenta guerra civil, cheia de atrocidades, fuzilamentos, bandoleiros assassinos ao serviço dos realistas, a par dos combates mais convencionais entre os exércitos liberal e absolutista. Um tempo onde o país esteve a ferro e fogo, mergulhado no fundo do ódio e violência sem quartel.

Olhando para este período do passado recente, sempre suspeitei que deixou sequelas na mentalidade lusa que se repercutiram ao longo do século XX. A implantação da República em 1910 não foi particularmente violenta, e apesar de algumas intentonas, não resvalou para guerra civil. Sem querer branquear o legado do Estado Novo, é de notar que apesar da repressão violenta, a ditadura salazarista não mergulhou no tipo de violência assassina que caracterizou o nazismo ou o franquismo. Os nossos presos políticos eram encarcerados e torturados, não abatidos a tiro. Claro, as guerras coloniais/de independência foram violentas, com atrocidades cometidas, não podemos esquecer isso. Já o 25 de abril, apesar dos períodos conturbados, notabilizou-se pelo parco derramamento de sangue, e, tal como em momentos anteriores, as forças não se mobilizaram para guerras civis. É como se a nossa memória colectiva mantivesse arreigada o instinto de saber o pior que pode acontecer quando um povo se torna inimigo de si próprio. 

Claro, a esclerosidade e anacronismos quer da monarquia quer do estado novo nos momentos da queda também contribuíram para esta relativa paz nas nossas revoluções. No fim da coisa, quando os regimes desabavam, não havia muitos com real disposição para mexer uma palha para os manter.

Reflexões despertadas pela leitura deste estudo histórico que detalha a violência da guerra civil entre liberais e absolutistas, um período que durou entre 1817 e 1834. Nem todos esses anos foram de guerra aberta, mas os desmandos, ajustes de contas, revoltas e repressões violentas caracterizam esses tempos. O livro detalha os principais acontecimentos, com um olhar crítico sobre a forma como o poder, especialmente o absolutista, desprezava a vida humana e usava o terror sobre as populações como arma política, espalhando o medo. A leitura é factual e detalhada, com muitas citações da época, mas mais do que um estudo académico, consegue transmitir a amargura de um momento muito negro da nossa história recente.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril


Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso (1975). O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril. Lisboa: Moraes.

Um livro escrito num tempo com a memória viva do 25 de Abril, por jornalistas que acompanharam algumas das movimentações. A melhor leitura que poderia fazer no ano em que se comemoram 52 anos sobre o momento de charneira que nos permitiu evoluir como país. 

O livro não se foca apenas nos acontecimentos da revolução, analisando com atenção quer a génese do que se viria a tornar o movimento dos capitães, quer outras movimentações pró-democráticas na sociedade portuguesa amordaçada pelo estado novo. Se a questão da guerra colonial foi o catalisador que juntou os futuros revolucionários, depressa evoluiu para a necessidade de uma profunda mudança de regime. O resto, é história, e é bom recordá-la neste tempo contemporâneo, onde há tantos a querer branquear o passado totalitário e a querer que percamos a memória de uma revolução fundamental para a nossa modernidade.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Em demanda do Grão-Cataio


Beckert D'Assumpção (1973). Em demanda do Grão-Cataio. Lisboa: ENP.

Uma versão romanceada para jovens da história, admirável, do jesuíta português Bento de Góis. Nome que à primeira audição pode não ser sonante, mas foi um notável explorador, que no século XVII ligou a Índia à China por rotas terrestres, atravessando a Ásia central. Um périplo de aventura e descoberta, entre os povos e nações que medeavam Goa e a China. Disfarçando o seu papel de missionário como mercador persa, integra-se nas caravanas que atravassam o norte da Índia, Afeganistão, e chegam aos entrepostos comerciais chineses depois de circundar o temível Taklamakan. 

Esta versão está pensada para um público jovem, sublinhando o lado de epopeia aventurosa com perigosas peripécias, e está escrita num tom de uma certa exaltação nacionalista, típico da literatura educativa oficial dos tempos do estado novo.

terça-feira, 24 de março de 2026

Na Rota das Especiarias: de Malaca à Austrália


Artur Teodoro de Matos (1995). Na Rota das Especiarias: de Malaca à Austrália. Lisboa: INCM.

Registos, com um certo sabor a saudade imperial e dos velhos tempos da aventura dos Descobrimentos, da passagem portuguesa por terras do Oriente. Olha-se para a conquista de Malaca; as rotas comerciais das ilhas Molucas em conjunto com as rivalidades advindas dos esforços da coroa espanhola de contornar o tratado de Tordesilhas demandando o comércio nestas ilhas através da américa do sul; foca-se em Timor, essa curiosa colónia que sempre pareceu ser de parca utilidade, longínqua e esquecida, que durou até aos últimos estertores do império português; pega em especulações sobre o papel português na descoberta da Austrália. Não é um livro profundo, apesar de factual.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Construtores de Mundos


Bruno Maçães (2025). Construtores de Mundos - A Tecnologia e a Nova Geopolítica. Lisboa: Temas e Debates.

Se compreendi bem a premissa deste livro, estamos a viver num progressivo período de virtualização do real, num processo que se iniciou com regras e instituições e agora se afirma nos espaços digitais. O foco está na geopolítica, na forma como os países gerem os seus espaços de influência, e a progressiva virtualização é traçada sob o ponto de vista das instituições transnacionais, da pandemia que acabou por não paralisar o mundo, e o impacto progressivo das tecnologias digitais e IA nas redes de produção, comércio, diplomacia e decisão. Mais importante do que controlar territórios físicos, é dominar os espaços de ideias subjacentes às virtualizações em que assentamos a gestão do mundo.

Há uma certa ironia em ler este livro, claramente otimista, num tempo em que para além dos tremendos desafios das alterações climáticas e do crescente fosso de desigualdades, os velhos fantasmas imperialistas parecem estar de regresso, com a sangrenta aventura militar russa, a afirmação chinesa e o  estertor senil de uma velha ordem trazido pela administração trump. 

Apesar de refletir uma pesquisa profunda, apresentando ideias intrigantes com erudição, noto algumas falhas ao nível elementar da escrita. É por vezes difícil perceber o raciocínio, e o livro está repleto de expressões e formas de estruturar frases que vêm diretamente do inglês americanizado, o que torna pouco claros os seus argumentos. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Autocracy, Inc.


Anne Applebaum (2024). Autocracy, Inc. Londres: Allen Lane.

Se se presta atenção às voltas do mundo, às questões da geopolítica global e aos contextos por detrás das notícias do dia a dia, é difícil não se sentir que vivemos em guerra. Uma guerra de múltiplas vertentes. Umas, como se vive na Ucrânia e médio oriente, de combate sangrento e destrutivo. Outras, como a que estamos agora a sentir na europa, de desafio às defesas, de adversários que tentam erodir a confiança e testar as defesas, usando dos dronos aos ciberataques e sabotagem. Mas o maior palco da guerra global é informacional, um combate pelo espaço de ideias e controle de percepções que tem um alvo nítido: o liberalismo democrático ocidental, a legalidade e os direitos humanos.

Uma guerra que se faz de teias de influência, com muitos nos países visados a ser coniventes para ganhos políticos ou financeiros. Assenta na desinformação transmitida por redes sociais e media clássicos, e visa acima de tudo proteger os interesses das autocracias, garantir-lhes liberdade de atuação e ausência de críticas, reprimindo os seus cidadãos por meios mais elegantes e eificientes do que os massacres do passado. Tem como efeito colateral primário a erosão da confiança global na democracia e liberalismo social, o que é muito conveniente aos ditatores e estados autocráticos. 

Há um pormenor muito incisivo neste livro - os autocratas de hoje não tentam disfarçar a opressão, corrupção, nepotismo e violência dos seus regimes repressivos por detrás de propagandas utópicas. Pelo contrário, assumem isso, usando o seu domínio do espaço informacional para denegrir e desinformar, mostrando que as democracias ocidentais são corruptas e decadentes, transmintindo a imagem falsa mas eficaz que mais vale o governo de um homem forte do que a decadência democrática. Os ingredientes dessa desinformação alicerçam-se no explorar do nacionalismo, sentimento anti-lgbt, racismo, masculinismo tóxico e exacerbar de uns supostos valores tradicionais que são na prática uma máscara mal feita para ocultar os piores abusos. Os espaços digitais amplificam e facilitam estas campanhas, que funcionam como um ruído contínuo que distrai atenções enquanto oa autocratas se asseguram do poder nas suas cleptocracias, enquanto as democracias se esforçam por contemporizar e lidar com o dilúvio tóxico.

Este não é um livro animador, apesar de terminar com uma nota de esperança, mostrando como até nos regimes mais repressivos como o russo ou o chinês há pessoas corajosas que procuram lutar contra este estado de coisas. Mas as barreiras são muitas, o ruído elevado, e sente-se no dia a dia um contínuo resvalar em direção aos obscurantismos contra os quais se ergueram as sociedades democráticas.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Timor entre invasores : 1941-1945


Maria Bretes (1989). Timor entre invasores : 1941-1945. Lisboa: Livros Horizonte.

Nem chega a ser um apêndice nas histórias da II Guerra (quando muito, meia frase), a história do envolvimento da então colónia de Timor no teatro de operações do Pacífico. Diga-se que não é uma história muito abonatória para o nosso lado. À época, Timor era uma colónia esquecida, colonizada por um misto de funcionários públicos descontentes por se sentirem castigados pela colocação e degredados expulsos de Portugal continental por crimes políticos. A economia era residual, e o poder manifestava-se pela manipulação dos interesses dos régulos locais. As forças de defesa mal totalizavam uma companhia mal armada. 

No quadro das operações no Pacífico, Timor foi inicialmente ocupada por forças australianas e holandesas (antes do colapso das índias orientais holandesas). A fraqueza do governo português era evidente e a ocupação deu-se sob a desculpa de auxílio à defesa da colónia. De certa forma, ajudou a precipitar o inevitável, com uma invasão japonesa que expulsou os primeiros ocupantes, e se notabilizou pela forma como mobilizava a população indígena contra os colonos. No meio disto, a ironia profunda de Portugal ser um país neutro no conflito com território ocupado pelos beligerantes, com ordens dadas aos representantes do governo português na colónia de não cooperação com ocupantes, mas também de não resistência. Havia outro caso de perigo, com o território de Macau em risco de ocupação, e uma nítida incapacidade portuguesa de projetar forças, mesmo que simbólicas, para estes territórios. Resistência houve, por parte de forças especiais australianas com auxílio de alguns dos degredados portugueses e timorenses.

A recuperação da colónia deu-se no quadro das condições de cedência da base das Lajes aos americanos. A ocupação deixou marcas, com relatos de massacres de civis timorenses e colonos, e campos de concentração. Maria Bretes traça esta história com recurso a relatos militares australianos, ao relatório que o governador do território fez para Lisboa (um documento selado e secreto, por ser uma historia humilhante para o nacionalismo salazarista, e que se viria a repetir em moldes semelhantes com o fim do Estado da Índia), e outra documentação, onde se inclui o intrigante relato Funo de Cal Brandão, que acompanhou a resistência das forças australianas nas montanhas timorenses.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Alemanha Ensanguentada


Aquilino Ribeito (1975). Alemanha Ensanguentada. Lisboa: Bertrand.

Uma visita de Aquilino à Alemanha no pós-guerra imediato, que é ao mesmo tempo literatura de viagem, reflexão sobre a sociedade de um país, e um analisar de uma história contemporânea ainda fresca nas memórias. Por pós guerra entenda-se o pós-I guerra, com a derrocada da monarquia alemã, as exigências impossíveis dos aliados vencedores e vingativos, e as convulsões sociais e políticas de um país derrotado. Não se trata do mítico ano zero do pós-II guerra, com um país em escombros e arrasado a ter de enfrentar os horrores que provocou. 

Aquilino era arguto, e na análise que faz do país que revisita observa por várias vezes que o gérmen de uma futura guerra e da liderança de homens fortes está presente no pós-guerra que visita. Note-se que a a obra foi publicada em 1935, mas a viagem do autor data de muito antes. Anota as privações de um povo, as convulsões políticas, a humilhação da derrota e a perda de caráter moral, mas também sublinha a industriosidade alemã, e a sua capacidade de recuperação. O olhar do escritor português atravessa cidades e regiões, faz-se de conversas e interações com gente de todos os níveis.

O livro termina com uma visita a algumas zonas de batalha, com especial emoção nas zonas da frente ocidental onde o CEP verteu sangue pelas terras de França e Aragança (uma daquelas deliciosas expressões hoje esquecidas que o escritor tanto usa na sua obra). A visão de Aquilino sobre a participação portuguesa na guerra é realista e crítica, embora se note um certo elogio da entrada na guerra e a observação da sua inevitabilidade face à defesa das colónias, embora observe que a perda de vidas humanas e os gastos militares não compensam "uns palmares no além mar". 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Por Ti, Portugal, Eu Juro!


Sofia Rodrigues (2024). Por Ti, Portugal, Eu Juro!. Lisboa: Tinta da China.

Uma leitura incómoda, que toca num momento ainda muito incómodo na memória portuguesa. O livro olha para o destino dos soldados africanos que foram arregimentados pelo regime colonial para combater contra os movimentos de libertação durante a guerra colonial na Guiné. Tropas essas que finda a guerra, com o 25 de abril, foram não só esquecidas como também vítimas de ardis burocráticos. Os homens que serviram nas forças armadas portuguesas foram abandonados, com as consequências óbvias que se podem esperar. Há relatos de tortura e execuções sumárias por parte das autoridades guineenses, e décadas depois, a maioria dos sobreviventes reclama em vão por apoios mínimos como pensões de sangue ou cuidados de saúde por parte de um estado, o português, que lhes prometeu benesses mas mantém firme o seu abandono.

A questão da guerra colonial é ainda muito sensível na nossa socieade, de tal forma que nas discussões públicas se cai muito ainda no binómio guerras do ultramar/libertação. É tema desconfortável, especialmente tendo em conta a visão oficial do colonialismo português como algo benéfico e suave. Algo que a realidade histórica desmente, poderemos não ter descido ao nível dos belgas no Congo, mas agimos de forma rigorosamente igual à de todas as potências que ocuparam África, explorando os seus recursos e populações. Não é um passado de que nos possamos orgulhar, mas também não pode ficar esquecido.

Admitir isto seria um ato de maturidade histórica que não vejo acontecer no discurso público. A história do destratamento dado aos africanos que combateram nas forças portuguesas faz parte de um panorama mais alargado num período que não podemos analisar de ânimo leve.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Da Monarquia à República


José Sardica (2011). Da Monarquia à República: Pequena História Política, Social e Militar. Lisboa: Aletheia.

Por ironias do acaso, estou a escrever esta resenha no dia 5 de outubro, quando se comemora a implantação da república. Nas minhas leituras sobre a história portuguesa do século XX, a conclusão algo incómoda que tiro é que as duas grandes revoluções que marcaram a nossa evolução política e social, o 5 de outubro e o 25 de abril, aconteceram não pela necessidade coletiva de um país que se sabe ser sub-desenvolvido e cujos cidadãos querem que evolua, mas pela inércia generalizada face a regimes que se tornaram tão esclerosados que para a derrocada bastaria um pequeno abalo. Notem, não quero com isto menorizar a importância destes dois momentos de charneira na nossa história, mas note-se que as grandes adesões e aclamações aconteceram depois, e não antes, destes momentos. 

O 5 de outubro mostra bem isso, quando se percebe que bastou um punhado mal armado de revolucionários deixar-se ficar numa zona de Lisboa para o regime cair, com os elementos que supostamente lhe seriam leais a mal levantar um dedo na sua defesa. O regime monárquico estava esgotado, e os próprios monárquicos compreendiam isso, exceto alguns mais ultras, caso de Paiva Couceiro, que graças a isso nos legou alguns dos quasi-acontecimentos mais ridículos da história desses tempos (há um livro de Pulido Valente absolutamente delicioso sobre essas tropelias).

A república também não trouxe estabilidade e depressa se diluiu em lutas internas, o que abriu caminho à outra revolução marcante do século XX português, que implantou a ditadura do estado novo. 

Este curioso livro é uma crónica dos últimos tempos da monarquia, mostrando o desgaste do final do regime constitucional, a quase inevatibilidade da sua mudança, a previsibilidade da revolução (quando os proto-revolucionários andam a passar armas em casas ao lado de comissariados de polícia e ningúem faz nada, percebe-se até que ponto a inércia reinava). Apesar dos clamores sobre o glorioso e nobre passado, na realidade a revolução trouxe um súbito fervor republicano por parte da maioria dos fervorosos súbditos reais, especialmente os praticantes do clássico tudo deve mudar para que se permaneça na mesma. 

A crónica dos momentos da revolução é também detalhada, embora com um olhar mais para as manobras políticas do que um relato factual da situação no terreno. No global, permite-nos conhecer um pouco mais a fundo um dos momentos fundamentais do Portugal moderno.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Historias de la historia de España


Marcelino Lominchar (2025). Historias de la historia de España . Córdova: Sekotia. 

Um mergulho leve, embora de grande amplitude, na história espanhola. Um livro que se constrói de curiosidades e personagens, momentos históricos e conflitos. Da pré-história à atualidade, com especial foco na idade média com a reconquista, e no século de ouro, o tempo em que Espanha estava no auge do seu poder e território. É uma leitura interessante, boa para conhecer um pouco mais mas sem mergulhar na aridez a história do nosso vizinho ibérico, que tantas vezes se intersecta com a nossa. 

Há um toque ideológico no livro, depressa se nota quando o autor lamenta que dados personagens da história espanhola, especialmente combatentes, exploradores ou heróis de guerra, estejam esquecidos. Assume uma desajeitada perspetiva conservadora (mas consegue perceber a ironia da posição quando, ao falar de Pizarro, os defeitos são tantos que o autor confessa tornar-se difícil defender o seu papel na história). No entato, é uma perspetiva pessoal assumida, e não estraga o livro. Até porque há que dar razão ao autor. Cá, como lá, esquecemos demasiadas vezes as nossas personalidades do passado, ignoramos os momentos, e somos rápidos a julgar a história com padrões binários. Mas a história é complexa, e não deve ser analisada sob o ponto de vista dos absolutos. É nas suas imperfeições que está a sua riqueza.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Europeana: Uma Breve História do Século XX


Patrik Ouředník (2017). Europeana: Uma Breve História do Século XX. Lisboa: Antígona.

Torrente avassaladora é talvez a melhor qualificação que posso dar a este livro surpreendente, que nos abala durante a leitura. É uma história do século XX, mas estruturada de uma forma profundamente não linear. Não é uma sucessão cronológica de factos e acontecimentos, antes, uma deriva quasi-dadaísta pelas ideias que marcaram o século. O tom é de diálogo interior livre, um longo monólogo onde as ideias se associam segundo as suas lógicas internas. É, de certa forma, absurdista, na forma como coloca a nu os paradoxos do imenso torvelinho de ideias, comportamentos, acontecimentos e tecnologias que formaram o século XX.

Reside aí a maior força deste ensaio. Ao abandonar a mera sequenciação lógica a favor de uma associação de ideias (chega, por vezes, a repetir-se), torna-se talvez a melhor forma de retrarar o intenso e violento turbilhão que foi o século XX. O tempo em que se abandonou a placidez do velho mundo, levámos as ideologias aos pináculos destrutivos, passámos a valorizar o indivíduo comum, morremos em guerras globais, demos saltos científicos e tecnológicos incríveis, revolucionámos os usos e costumes sociais. O século XX não foi para os fracos do coração, e este livro espelha esse sentimento de forma impressionante.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Cartas da Península 1808-1812


William Warre (2009). Cartas da Península 1808-1812. Lisboa: Aletheia.

Uma visão íntima das Guerras Peninsulares. William Warre, filho de proprietários de casas vinhateiras do Douro, integrou as forças inglesas que lutaram em Portugal no tempo das invasões francesas. Warre acompanha as operações militares desde os primeiros momentos, como oficial que integrará o estado maior de Beresford, comandante dos exércitos portugueses integrados na coligação luso-britânica. Na sua correspondência, faz a narração da sua experiência da guerra, detalhado operações e observações, analisado estratégias, bem como os sucessos e insucessos nos campos de batalha.

Esta correspondência traça um documento que nos ajuda a mergulhar a fundo na história violenta das Guerras Peninsulares. Não só das Invasões Francesas por cá, mas também das violentas operações em território espanhol. Warre, como elemento do estado maior de Beresford, acompanha a guerra até 1812 quando o marechal é gravemente ferido na batalha de Salamanca, terminando aí o seu relato de uma guerra que continuará até Wellington levar as suas forças anglo-lusas, coligas com tropas espanholas, até ao interior francês.

Para lá da descrição das operações militares, as cartas também traçam um retrato das duras condições da guerra. Quanto ao nosso país, não é muito lisonjeiro, embora seja visível a admiração que sente. Elogia muito a coragem e capacidade das forças portuguesas, após serem treinadas e comandadas por oficiais britânicos, mas como soldado integrado nessas mesmas forças só tem críticas a fazer aos governantes, quer à corte exilada no Rio de Janeiro, quer aos responsáveis governamentais portugueses, que acusa de serem incompetentes e mesquinhos, péssimos gestores das necessidades de um país, mais interessados em salvaguardar as suas posições do que em administrar o que lhes compete. Temo que duzentos anos depois, isso ainda seja uma característica das gestões da administração pública.

Há também um lado humano nestas cartas, entre os constantes negócios que Warre se envolve (da compra de cavalos à salvaguarda de pipas de vinho do porto, o métier familiar) e os cosntantes temores sobre o bem estar de uma das irmãs que, vivendo num convento português, está em risco constante até a ameaça francesa ser sustida. No conjunto, um olhar muito interessante, que nos leva a descobrir mais sobre esta época violenta e determinante, para o nosso futuro e o da Europa mas algo esquecida da nossa história. Foi na península que as aparentemente invencíveis forças napoleónicas começaram a sofrer derrotas, entre a violência da população revoltosa, as táticas de terra queimada e as manobras militares regulares. E é de recordar que será Wellington, o vitorioso das guerras peninsulares, que por cá tantas vezes combateu com peso desfavorável de forças mas sempre a saber aproveitar muito bem a geografia a seu favor - as linhas de Torres são o melhor exemplo disso, o general que infligirá a derrota final a Napoleão em Waterloo. O suposto passeio que seria a anexação de Portugal acabou por se revelar um espinho doloroso.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

O Crescente Submerso


Emilio Garro (sem data). O Mediterrâneo em Chamas: O Crescente Submerso. Estoril: Editorial Salesianas.

Confesso, são estas surpresas que me fazem gostar do vasculhar alfarrabistas em busca de obras surpreendentes. Não que este livro seja excecional, bem pelo contrário. É uma ficção histórica de pendor didático e moralista escrita para jovens leitores. O interessante é o momento histórico que retrata, a batalha de Lepanto, onde o poder naval otomano foi travado por uma armada de coligação italiana (ao tempo, os vários estados que vieram a formar a Itália) e espanhola.

Não podemos esperar uma forte e profunda abordagem a este momento histórico, estamos perante um livro para jovens de pendor cristão. Como tal, os otomanos são representados como bárbaros decadentes sedentos de sangue e poder, sempre prontos a sujeitar os cristãos às piores sevícias. Por outro lado, os nobres espanhóis e italianos que comandam as várias flotilhas que compuseram a armada católica são exemplos de piedade religiosa, coragem e sabedoria militar. 

O livro culmina numa empolgante descrição da batalha, embora se alicerçe numa história de aventuras onde dois rapazes e as suas famílias vivem peripécias ao ser capturados pelos otomanos. A sua libertação e luta contra o inimigo são o artifiício narrativo que quebra o lado didático e descritivo do livro. 

Este é um livro do seu tempo, obra para jovens onde a principal preocupação estava na abordage histórica sob um ponto de vista religioso. Uma pesquisa mostrou-me que o autor foi escritor italiano de romances didáticos para a juventude de meados do século XX, e é nessa perspetiva que fiz a leitura. Como curiosidade, ao abrir o livro deparei com o carimbo da biblioteca do Seminário de Santarém. Numa outra vida, este pequeno tomo certamente empolgou jovens seminaristas com a sua mistura de piedade e aventura.

 

terça-feira, 19 de agosto de 2025

A Mesopotâmia Antiga e o Nascimento da História


Moudhy Al-Rashid (2025). A Mesopotâmia Antiga e o Nascimento da História. Lisboa: Bertrand Editora.

Confesso um fascínio crescente com esta antiga civilização, vinda dos primórdios da história. Talvez pelo seu elevado nível de alfabetismo. O legado da antiga Suméria faz-se de muito mais do que vestígios arqueológicos e antigos monumentos, restam-nos quantidades vastas das tabuinhas de argila inscritas com os seus antigos caracteres em forma de cunhas. Essas tabuinhas são fascinantes, preservam não as memórias institucionais e religiosas, a forma como os poderosos gostam de se preservar para a posteridade, mas a vida comum, a textura de uma sociedade e da vida das pessoas.

Parte destas tabuinhas preserva a literatura, de índole religiosa, e através da sua decifração percebemos o quanto a antiga Suméria faz parte do nosso adn cultural. As suas lendas e histórias, mesmo após o esquecimento da civilização, foram incorporadas no corpus mítico que molda textos mitológicos como a bíblia. Ler o Épico de Gilgamesh é redescobrir textos esquecidos que ficaram preservados na memória, entre a busca pela imortalidade ou o mito do dilúvio. Também devemos aos sumérios as bases da matemática e astronomia.

São ideias que perduram na mente após a leitura deste muito interessante livro. A autora abandona o estilo necessariamente seco da escrita académica e faz despertar no leitor imagens vívidas das antigas Suméria e Assíria. A história constrói-se através da análise de um achado de artefactos, e só esse preâmbulo já impressiona. Fala-nos dos vestígios do palácio da última sacerdotisa da deusa tutelar da Babilónia (sabemo-lo porque o seu pai foi o último rei da cidade, antes desta ser absorvida pelos Persas), onde foi encontrado algo que foi interpretado como um antigo museu, preservando artefactos e a memória de povos que já eram milenares nesses tempos antigos.

Parte de artefactos, mas esta não é uma história de objetos, reis e sacerdotes. É uma história de profundo humanismo, que se foca no tentar recriar do que era viver naqueles tempos. É a vida, não só a das classes superiores, mas também a vida das pessoas comuns. Nisso, o legado literário sumério é um instrumento fundamental. Faz-se de ima miríade de documentos perfeitamente banais. Cartas pessoais, recibos, reclamações, registos. Através do tédio da burocracia emerge o retrato pulsante de um povo.

Como professor, fiquei particularmente intrigado pelo corpus de registos eduba - textos sobre a escola suméria e assíria, onde os futuros escribas entravam em criança para aprender as regras da escrita suméria (um pormenor, que mostra a importância história da antiga civilização, tem a ver com o perdurar da língua suméria após a absorção desta civilização pela Assíria, como língua erudita e de registo). São textos que nos mostram que há coisas que nunca mudam, os excertos partilhados pela autora mostram que as ânsias e ansiedades dos professores e estudantes eram, há mais de três mil anos, os mesmos de hoje. Algo que é tocante.

Mais do que uma história, esta é uma obra humanista que nos recorda o quer a humanidade naquela época. Recorda-nos, também, o quanto perdura a memória destas civilizações que, até ao século XIX, estavam esquecidas sobre as areias do médio oriente.