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quinta-feira, 5 de março de 2026

Construtores de Mundos


Bruno Maçães (2025). Construtores de Mundos - A Tecnologia e a Nova Geopolítica. Lisboa: Temas e Debates.

Se compreendi bem a premissa deste livro, estamos a viver num progressivo período de virtualização do real, num processo que se iniciou com regras e instituições e agora se afirma nos espaços digitais. O foco está na geopolítica, na forma como os países gerem os seus espaços de influência, e a progressiva virtualização é traçada sob o ponto de vista das instituições transnacionais, da pandemia que acabou por não paralisar o mundo, e o impacto progressivo das tecnologias digitais e IA nas redes de produção, comércio, diplomacia e decisão. Mais importante do que controlar territórios físicos, é dominar os espaços de ideias subjacentes às virtualizações em que assentamos a gestão do mundo.

Há uma certa ironia em ler este livro, claramente otimista, num tempo em que para além dos tremendos desafios das alterações climáticas e do crescente fosso de desigualdades, os velhos fantasmas imperialistas parecem estar de regresso, com a sangrenta aventura militar russa, a afirmação chinesa e o  estertor senil de uma velha ordem trazido pela administração trump. 

Apesar de refletir uma pesquisa profunda, apresentando ideias intrigantes com erudição, noto algumas falhas ao nível elementar da escrita. É por vezes difícil perceber o raciocínio, e o livro está repleto de expressões e formas de estruturar frases que vêm diretamente do inglês americanizado, o que torna pouco claros os seus argumentos. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Autocracy, Inc.


Anne Applebaum (2024). Autocracy, Inc. Londres: Allen Lane.

Se se presta atenção às voltas do mundo, às questões da geopolítica global e aos contextos por detrás das notícias do dia a dia, é difícil não se sentir que vivemos em guerra. Uma guerra de múltiplas vertentes. Umas, como se vive na Ucrânia e médio oriente, de combate sangrento e destrutivo. Outras, como a que estamos agora a sentir na europa, de desafio às defesas, de adversários que tentam erodir a confiança e testar as defesas, usando dos dronos aos ciberataques e sabotagem. Mas o maior palco da guerra global é informacional, um combate pelo espaço de ideias e controle de percepções que tem um alvo nítido: o liberalismo democrático ocidental, a legalidade e os direitos humanos.

Uma guerra que se faz de teias de influência, com muitos nos países visados a ser coniventes para ganhos políticos ou financeiros. Assenta na desinformação transmitida por redes sociais e media clássicos, e visa acima de tudo proteger os interesses das autocracias, garantir-lhes liberdade de atuação e ausência de críticas, reprimindo os seus cidadãos por meios mais elegantes e eificientes do que os massacres do passado. Tem como efeito colateral primário a erosão da confiança global na democracia e liberalismo social, o que é muito conveniente aos ditatores e estados autocráticos. 

Há um pormenor muito incisivo neste livro - os autocratas de hoje não tentam disfarçar a opressão, corrupção, nepotismo e violência dos seus regimes repressivos por detrás de propagandas utópicas. Pelo contrário, assumem isso, usando o seu domínio do espaço informacional para denegrir e desinformar, mostrando que as democracias ocidentais são corruptas e decadentes, transmintindo a imagem falsa mas eficaz que mais vale o governo de um homem forte do que a decadência democrática. Os ingredientes dessa desinformação alicerçam-se no explorar do nacionalismo, sentimento anti-lgbt, racismo, masculinismo tóxico e exacerbar de uns supostos valores tradicionais que são na prática uma máscara mal feita para ocultar os piores abusos. Os espaços digitais amplificam e facilitam estas campanhas, que funcionam como um ruído contínuo que distrai atenções enquanto oa autocratas se asseguram do poder nas suas cleptocracias, enquanto as democracias se esforçam por contemporizar e lidar com o dilúvio tóxico.

Este não é um livro animador, apesar de terminar com uma nota de esperança, mostrando como até nos regimes mais repressivos como o russo ou o chinês há pessoas corajosas que procuram lutar contra este estado de coisas. Mas as barreiras são muitas, o ruído elevado, e sente-se no dia a dia um contínuo resvalar em direção aos obscurantismos contra os quais se ergueram as sociedades democráticas.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Timor entre invasores : 1941-1945


Maria Bretes (1989). Timor entre invasores : 1941-1945. Lisboa: Livros Horizonte.

Nem chega a ser um apêndice nas histórias da II Guerra (quando muito, meia frase), a história do envolvimento da então colónia de Timor no teatro de operações do Pacífico. Diga-se que não é uma história muito abonatória para o nosso lado. À época, Timor era uma colónia esquecida, colonizada por um misto de funcionários públicos descontentes por se sentirem castigados pela colocação e degredados expulsos de Portugal continental por crimes políticos. A economia era residual, e o poder manifestava-se pela manipulação dos interesses dos régulos locais. As forças de defesa mal totalizavam uma companhia mal armada. 

No quadro das operações no Pacífico, Timor foi inicialmente ocupada por forças australianas e holandesas (antes do colapso das índias orientais holandesas). A fraqueza do governo português era evidente e a ocupação deu-se sob a desculpa de auxílio à defesa da colónia. De certa forma, ajudou a precipitar o inevitável, com uma invasão japonesa que expulsou os primeiros ocupantes, e se notabilizou pela forma como mobilizava a população indígena contra os colonos. No meio disto, a ironia profunda de Portugal ser um país neutro no conflito com território ocupado pelos beligerantes, com ordens dadas aos representantes do governo português na colónia de não cooperação com ocupantes, mas também de não resistência. Havia outro caso de perigo, com o território de Macau em risco de ocupação, e uma nítida incapacidade portuguesa de projetar forças, mesmo que simbólicas, para estes territórios. Resistência houve, por parte de forças especiais australianas com auxílio de alguns dos degredados portugueses e timorenses.

A recuperação da colónia deu-se no quadro das condições de cedência da base das Lajes aos americanos. A ocupação deixou marcas, com relatos de massacres de civis timorenses e colonos, e campos de concentração. Maria Bretes traça esta história com recurso a relatos militares australianos, ao relatório que o governador do território fez para Lisboa (um documento selado e secreto, por ser uma historia humilhante para o nacionalismo salazarista, e que se viria a repetir em moldes semelhantes com o fim do Estado da Índia), e outra documentação, onde se inclui o intrigante relato Funo de Cal Brandão, que acompanhou a resistência das forças australianas nas montanhas timorenses.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Alemanha Ensanguentada


Aquilino Ribeito (1975). Alemanha Ensanguentada. Lisboa: Bertrand.

Uma visita de Aquilino à Alemanha no pós-guerra imediato, que é ao mesmo tempo literatura de viagem, reflexão sobre a sociedade de um país, e um analisar de uma história contemporânea ainda fresca nas memórias. Por pós guerra entenda-se o pós-I guerra, com a derrocada da monarquia alemã, as exigências impossíveis dos aliados vencedores e vingativos, e as convulsões sociais e políticas de um país derrotado. Não se trata do mítico ano zero do pós-II guerra, com um país em escombros e arrasado a ter de enfrentar os horrores que provocou. 

Aquilino era arguto, e na análise que faz do país que revisita observa por várias vezes que o gérmen de uma futura guerra e da liderança de homens fortes está presente no pós-guerra que visita. Note-se que a a obra foi publicada em 1935, mas a viagem do autor data de muito antes. Anota as privações de um povo, as convulsões políticas, a humilhação da derrota e a perda de caráter moral, mas também sublinha a industriosidade alemã, e a sua capacidade de recuperação. O olhar do escritor português atravessa cidades e regiões, faz-se de conversas e interações com gente de todos os níveis.

O livro termina com uma visita a algumas zonas de batalha, com especial emoção nas zonas da frente ocidental onde o CEP verteu sangue pelas terras de França e Aragança (uma daquelas deliciosas expressões hoje esquecidas que o escritor tanto usa na sua obra). A visão de Aquilino sobre a participação portuguesa na guerra é realista e crítica, embora se note um certo elogio da entrada na guerra e a observação da sua inevitabilidade face à defesa das colónias, embora observe que a perda de vidas humanas e os gastos militares não compensam "uns palmares no além mar". 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Por Ti, Portugal, Eu Juro!


Sofia Rodrigues (2024). Por Ti, Portugal, Eu Juro!. Lisboa: Tinta da China.

Uma leitura incómoda, que toca num momento ainda muito incómodo na memória portuguesa. O livro olha para o destino dos soldados africanos que foram arregimentados pelo regime colonial para combater contra os movimentos de libertação durante a guerra colonial na Guiné. Tropas essas que finda a guerra, com o 25 de abril, foram não só esquecidas como também vítimas de ardis burocráticos. Os homens que serviram nas forças armadas portuguesas foram abandonados, com as consequências óbvias que se podem esperar. Há relatos de tortura e execuções sumárias por parte das autoridades guineenses, e décadas depois, a maioria dos sobreviventes reclama em vão por apoios mínimos como pensões de sangue ou cuidados de saúde por parte de um estado, o português, que lhes prometeu benesses mas mantém firme o seu abandono.

A questão da guerra colonial é ainda muito sensível na nossa socieade, de tal forma que nas discussões públicas se cai muito ainda no binómio guerras do ultramar/libertação. É tema desconfortável, especialmente tendo em conta a visão oficial do colonialismo português como algo benéfico e suave. Algo que a realidade histórica desmente, poderemos não ter descido ao nível dos belgas no Congo, mas agimos de forma rigorosamente igual à de todas as potências que ocuparam África, explorando os seus recursos e populações. Não é um passado de que nos possamos orgulhar, mas também não pode ficar esquecido.

Admitir isto seria um ato de maturidade histórica que não vejo acontecer no discurso público. A história do destratamento dado aos africanos que combateram nas forças portuguesas faz parte de um panorama mais alargado num período que não podemos analisar de ânimo leve.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Da Monarquia à República


José Sardica (2011). Da Monarquia à República: Pequena História Política, Social e Militar. Lisboa: Aletheia.

Por ironias do acaso, estou a escrever esta resenha no dia 5 de outubro, quando se comemora a implantação da república. Nas minhas leituras sobre a história portuguesa do século XX, a conclusão algo incómoda que tiro é que as duas grandes revoluções que marcaram a nossa evolução política e social, o 5 de outubro e o 25 de abril, aconteceram não pela necessidade coletiva de um país que se sabe ser sub-desenvolvido e cujos cidadãos querem que evolua, mas pela inércia generalizada face a regimes que se tornaram tão esclerosados que para a derrocada bastaria um pequeno abalo. Notem, não quero com isto menorizar a importância destes dois momentos de charneira na nossa história, mas note-se que as grandes adesões e aclamações aconteceram depois, e não antes, destes momentos. 

O 5 de outubro mostra bem isso, quando se percebe que bastou um punhado mal armado de revolucionários deixar-se ficar numa zona de Lisboa para o regime cair, com os elementos que supostamente lhe seriam leais a mal levantar um dedo na sua defesa. O regime monárquico estava esgotado, e os próprios monárquicos compreendiam isso, exceto alguns mais ultras, caso de Paiva Couceiro, que graças a isso nos legou alguns dos quasi-acontecimentos mais ridículos da história desses tempos (há um livro de Pulido Valente absolutamente delicioso sobre essas tropelias).

A república também não trouxe estabilidade e depressa se diluiu em lutas internas, o que abriu caminho à outra revolução marcante do século XX português, que implantou a ditadura do estado novo. 

Este curioso livro é uma crónica dos últimos tempos da monarquia, mostrando o desgaste do final do regime constitucional, a quase inevatibilidade da sua mudança, a previsibilidade da revolução (quando os proto-revolucionários andam a passar armas em casas ao lado de comissariados de polícia e ningúem faz nada, percebe-se até que ponto a inércia reinava). Apesar dos clamores sobre o glorioso e nobre passado, na realidade a revolução trouxe um súbito fervor republicano por parte da maioria dos fervorosos súbditos reais, especialmente os praticantes do clássico tudo deve mudar para que se permaneça na mesma. 

A crónica dos momentos da revolução é também detalhada, embora com um olhar mais para as manobras políticas do que um relato factual da situação no terreno. No global, permite-nos conhecer um pouco mais a fundo um dos momentos fundamentais do Portugal moderno.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Historias de la historia de España


Marcelino Lominchar (2025). Historias de la historia de España . Córdova: Sekotia. 

Um mergulho leve, embora de grande amplitude, na história espanhola. Um livro que se constrói de curiosidades e personagens, momentos históricos e conflitos. Da pré-história à atualidade, com especial foco na idade média com a reconquista, e no século de ouro, o tempo em que Espanha estava no auge do seu poder e território. É uma leitura interessante, boa para conhecer um pouco mais mas sem mergulhar na aridez a história do nosso vizinho ibérico, que tantas vezes se intersecta com a nossa. 

Há um toque ideológico no livro, depressa se nota quando o autor lamenta que dados personagens da história espanhola, especialmente combatentes, exploradores ou heróis de guerra, estejam esquecidos. Assume uma desajeitada perspetiva conservadora (mas consegue perceber a ironia da posição quando, ao falar de Pizarro, os defeitos são tantos que o autor confessa tornar-se difícil defender o seu papel na história). No entato, é uma perspetiva pessoal assumida, e não estraga o livro. Até porque há que dar razão ao autor. Cá, como lá, esquecemos demasiadas vezes as nossas personalidades do passado, ignoramos os momentos, e somos rápidos a julgar a história com padrões binários. Mas a história é complexa, e não deve ser analisada sob o ponto de vista dos absolutos. É nas suas imperfeições que está a sua riqueza.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Europeana: Uma Breve História do Século XX


Patrik Ouředník (2017). Europeana: Uma Breve História do Século XX. Lisboa: Antígona.

Torrente avassaladora é talvez a melhor qualificação que posso dar a este livro surpreendente, que nos abala durante a leitura. É uma história do século XX, mas estruturada de uma forma profundamente não linear. Não é uma sucessão cronológica de factos e acontecimentos, antes, uma deriva quasi-dadaísta pelas ideias que marcaram o século. O tom é de diálogo interior livre, um longo monólogo onde as ideias se associam segundo as suas lógicas internas. É, de certa forma, absurdista, na forma como coloca a nu os paradoxos do imenso torvelinho de ideias, comportamentos, acontecimentos e tecnologias que formaram o século XX.

Reside aí a maior força deste ensaio. Ao abandonar a mera sequenciação lógica a favor de uma associação de ideias (chega, por vezes, a repetir-se), torna-se talvez a melhor forma de retrarar o intenso e violento turbilhão que foi o século XX. O tempo em que se abandonou a placidez do velho mundo, levámos as ideologias aos pináculos destrutivos, passámos a valorizar o indivíduo comum, morremos em guerras globais, demos saltos científicos e tecnológicos incríveis, revolucionámos os usos e costumes sociais. O século XX não foi para os fracos do coração, e este livro espelha esse sentimento de forma impressionante.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Cartas da Península 1808-1812


William Warre (2009). Cartas da Península 1808-1812. Lisboa: Aletheia.

Uma visão íntima das Guerras Peninsulares. William Warre, filho de proprietários de casas vinhateiras do Douro, integrou as forças inglesas que lutaram em Portugal no tempo das invasões francesas. Warre acompanha as operações militares desde os primeiros momentos, como oficial que integrará o estado maior de Beresford, comandante dos exércitos portugueses integrados na coligação luso-britânica. Na sua correspondência, faz a narração da sua experiência da guerra, detalhado operações e observações, analisado estratégias, bem como os sucessos e insucessos nos campos de batalha.

Esta correspondência traça um documento que nos ajuda a mergulhar a fundo na história violenta das Guerras Peninsulares. Não só das Invasões Francesas por cá, mas também das violentas operações em território espanhol. Warre, como elemento do estado maior de Beresford, acompanha a guerra até 1812 quando o marechal é gravemente ferido na batalha de Salamanca, terminando aí o seu relato de uma guerra que continuará até Wellington levar as suas forças anglo-lusas, coligas com tropas espanholas, até ao interior francês.

Para lá da descrição das operações militares, as cartas também traçam um retrato das duras condições da guerra. Quanto ao nosso país, não é muito lisonjeiro, embora seja visível a admiração que sente. Elogia muito a coragem e capacidade das forças portuguesas, após serem treinadas e comandadas por oficiais britânicos, mas como soldado integrado nessas mesmas forças só tem críticas a fazer aos governantes, quer à corte exilada no Rio de Janeiro, quer aos responsáveis governamentais portugueses, que acusa de serem incompetentes e mesquinhos, péssimos gestores das necessidades de um país, mais interessados em salvaguardar as suas posições do que em administrar o que lhes compete. Temo que duzentos anos depois, isso ainda seja uma característica das gestões da administração pública.

Há também um lado humano nestas cartas, entre os constantes negócios que Warre se envolve (da compra de cavalos à salvaguarda de pipas de vinho do porto, o métier familiar) e os cosntantes temores sobre o bem estar de uma das irmãs que, vivendo num convento português, está em risco constante até a ameaça francesa ser sustida. No conjunto, um olhar muito interessante, que nos leva a descobrir mais sobre esta época violenta e determinante, para o nosso futuro e o da Europa mas algo esquecida da nossa história. Foi na península que as aparentemente invencíveis forças napoleónicas começaram a sofrer derrotas, entre a violência da população revoltosa, as táticas de terra queimada e as manobras militares regulares. E é de recordar que será Wellington, o vitorioso das guerras peninsulares, que por cá tantas vezes combateu com peso desfavorável de forças mas sempre a saber aproveitar muito bem a geografia a seu favor - as linhas de Torres são o melhor exemplo disso, o general que infligirá a derrota final a Napoleão em Waterloo. O suposto passeio que seria a anexação de Portugal acabou por se revelar um espinho doloroso.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

O Crescente Submerso


Emilio Garro (sem data). O Mediterrâneo em Chamas: O Crescente Submerso. Estoril: Editorial Salesianas.

Confesso, são estas surpresas que me fazem gostar do vasculhar alfarrabistas em busca de obras surpreendentes. Não que este livro seja excecional, bem pelo contrário. É uma ficção histórica de pendor didático e moralista escrita para jovens leitores. O interessante é o momento histórico que retrata, a batalha de Lepanto, onde o poder naval otomano foi travado por uma armada de coligação italiana (ao tempo, os vários estados que vieram a formar a Itália) e espanhola.

Não podemos esperar uma forte e profunda abordagem a este momento histórico, estamos perante um livro para jovens de pendor cristão. Como tal, os otomanos são representados como bárbaros decadentes sedentos de sangue e poder, sempre prontos a sujeitar os cristãos às piores sevícias. Por outro lado, os nobres espanhóis e italianos que comandam as várias flotilhas que compuseram a armada católica são exemplos de piedade religiosa, coragem e sabedoria militar. 

O livro culmina numa empolgante descrição da batalha, embora se alicerçe numa história de aventuras onde dois rapazes e as suas famílias vivem peripécias ao ser capturados pelos otomanos. A sua libertação e luta contra o inimigo são o artifiício narrativo que quebra o lado didático e descritivo do livro. 

Este é um livro do seu tempo, obra para jovens onde a principal preocupação estava na abordage histórica sob um ponto de vista religioso. Uma pesquisa mostrou-me que o autor foi escritor italiano de romances didáticos para a juventude de meados do século XX, e é nessa perspetiva que fiz a leitura. Como curiosidade, ao abrir o livro deparei com o carimbo da biblioteca do Seminário de Santarém. Numa outra vida, este pequeno tomo certamente empolgou jovens seminaristas com a sua mistura de piedade e aventura.

 

terça-feira, 19 de agosto de 2025

A Mesopotâmia Antiga e o Nascimento da História


Moudhy Al-Rashid (2025). A Mesopotâmia Antiga e o Nascimento da História. Lisboa: Bertrand Editora.

Confesso um fascínio crescente com esta antiga civilização, vinda dos primórdios da história. Talvez pelo seu elevado nível de alfabetismo. O legado da antiga Suméria faz-se de muito mais do que vestígios arqueológicos e antigos monumentos, restam-nos quantidades vastas das tabuinhas de argila inscritas com os seus antigos caracteres em forma de cunhas. Essas tabuinhas são fascinantes, preservam não as memórias institucionais e religiosas, a forma como os poderosos gostam de se preservar para a posteridade, mas a vida comum, a textura de uma sociedade e da vida das pessoas.

Parte destas tabuinhas preserva a literatura, de índole religiosa, e através da sua decifração percebemos o quanto a antiga Suméria faz parte do nosso adn cultural. As suas lendas e histórias, mesmo após o esquecimento da civilização, foram incorporadas no corpus mítico que molda textos mitológicos como a bíblia. Ler o Épico de Gilgamesh é redescobrir textos esquecidos que ficaram preservados na memória, entre a busca pela imortalidade ou o mito do dilúvio. Também devemos aos sumérios as bases da matemática e astronomia.

São ideias que perduram na mente após a leitura deste muito interessante livro. A autora abandona o estilo necessariamente seco da escrita académica e faz despertar no leitor imagens vívidas das antigas Suméria e Assíria. A história constrói-se através da análise de um achado de artefactos, e só esse preâmbulo já impressiona. Fala-nos dos vestígios do palácio da última sacerdotisa da deusa tutelar da Babilónia (sabemo-lo porque o seu pai foi o último rei da cidade, antes desta ser absorvida pelos Persas), onde foi encontrado algo que foi interpretado como um antigo museu, preservando artefactos e a memória de povos que já eram milenares nesses tempos antigos.

Parte de artefactos, mas esta não é uma história de objetos, reis e sacerdotes. É uma história de profundo humanismo, que se foca no tentar recriar do que era viver naqueles tempos. É a vida, não só a das classes superiores, mas também a vida das pessoas comuns. Nisso, o legado literário sumério é um instrumento fundamental. Faz-se de ima miríade de documentos perfeitamente banais. Cartas pessoais, recibos, reclamações, registos. Através do tédio da burocracia emerge o retrato pulsante de um povo.

Como professor, fiquei particularmente intrigado pelo corpus de registos eduba - textos sobre a escola suméria e assíria, onde os futuros escribas entravam em criança para aprender as regras da escrita suméria (um pormenor, que mostra a importância história da antiga civilização, tem a ver com o perdurar da língua suméria após a absorção desta civilização pela Assíria, como língua erudita e de registo). São textos que nos mostram que há coisas que nunca mudam, os excertos partilhados pela autora mostram que as ânsias e ansiedades dos professores e estudantes eram, há mais de três mil anos, os mesmos de hoje. Algo que é tocante.

Mais do que uma história, esta é uma obra humanista que nos recorda o quer a humanidade naquela época. Recorda-nos, também, o quanto perdura a memória destas civilizações que, até ao século XIX, estavam esquecidas sobre as areias do médio oriente.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Spitfires e Hurricanes em Portugal


Mário Lopes (1994). Spitfires e Hurricanes em Portugal. Lisboa: Dinalivro.

Uma história necessariamente técnica, da introdução ao serviço português das duas mais icónicas aeronaves de combate dos anos 40. Mas que acaba por ser uma história, ou melhor, uma análise a um detalhe histórico, do envolvimento português na II Guerra Mundial. Uma neutralidade que pendia, apesar da ditadura de direita por cá reinante, para o lado inglês por razões históricas e tradicionais. Mas também uma neutralidade ameaçada, entre o medo que a Espanha franquista decidisse tornar Portugal em mais uma província espanhola (estando ou não ao lado do Eixo), e as claras pretensões americanas de ocuptar o arquipélago dos Açores, travadas pela diplomacia britânica. 

Embora o livro seja sobre aviação, a forma como Portugal obteve estas aeronaves mostra bem os jogos diplomáticos. O fortalecimento da aviação portuguesa com Spits e Hurricanes fez-se ao abrigo de acordos que expandiam a concessão de facilidades aos aliados, especialmente nos Açores, e foi constituído por aeronaves veteranas das campanhas aliadas em solo inglês e norte-africano. 

O livro também detalha outras situações, como o caso dos aviões internados e colocados ao nosso serviço. Por internados entenda-se aviadores que se viram forçados a aterrar num país neutral, sendo detidos e as suas aeronaves confiscadas, regras habituais nestas situações. No caso português há a notar um certo fechar de olhos ao destino dos pilotos, parece que ninguém se chateva muito se estes se conseguissem evadir e regressar às suas unidades, e alguns eram retirados de cá por ação diplomática. Parte dos aviões internados entrou nos inventários militares portugueses (o que explica a presença de P39 por cá), outros eram trocados por reforço de meios e peças sobressalentes para aeronaves já adquiridas.

Nisto dos internamentos, o autor detalha uma história particularmente rocambolesca envolvendo dois P-38 americanos forçados a aterrar em Lisboa durante voos de transferência para o Norte de África. O primeiro aterra por problemas de combustível, e o piloto, que não esperava ser internado, vê-se algo atónito com a reação portuguesa. Mas o seu avião desperta a curiosidade dos militares que o guardavam, e enquanto esperavam pelos agentes que iriam internar o piloto americano, um piloto português pede-lhe que mostre como é que o P-38 funciona. Estão a ver no que é que isto vai dar, não estão? O americano, supostamente detido, regressa ao cockpit e começa a ligar o avião, com o português empoleirado na asa a ver tudo. Entretando, nos céus aparece um outro P-38 também em apuros, o que distrai os guardas que no aeroporto de Lisboa vigiavam o primeiro P-38. O americano apercebe-se da distração e não perde a oportunidade: arranca o motor, abana o avião para o português cair da asa, e levanta voo, escapando-se ao internamento. O segundo piloto aterra, e vê-se rodeado por uma turma enfurecida, que o arranca do cockpit e o mete logo a ferros. Num daqueles pormenores tipicamente portugueses, este P-38 foi colocado ao serviço da aviação militar, mas sendo o únido do tipo e sem peças para o manter a voar, só servia para paradas militares e foi conhecido como o "avião dos generais", porque estes gostavam muito de o ver na pista quando visitavam o campo de Tancos.

Este detalhe da história portuguesa na II Guerra insere-se na génese da Força Aérea como ramo independente, e de certa forma mostra também o ocaso dos impérios europeus no mundo pós-guerra. Se durante a guerra o apoio e material militar britânicos são vistos como o desejável, no pós-guerra e entrada portuguesa na NATO o foco passa a ser decisivamente americano.

terça-feira, 22 de julho de 2025

Greek Mythology: A Traveler's Guide from Mount Olympus to Troy


David Stuttard (2016). Greek Mythology: A Traveler's Guide from Mount Olympus to Troy. Londres: Tames & Hudson.

Uma dupla viagem, pelas geografias e mitologias da herança clássica grega. O autor leva-nos num périplo pelos locais onde os mitos e a história se cruzam, entre a inevitável Atenas, a previsível Tróia, zonas mais esquecidas mas influentes como Olímpia, Delfos, Knossos, Ítaca ou os vestígios gregos na moderna Turquia. O livro termina com uma deslocação a Ephyra, um dos locais onde os gregos antigos imaginavam situar-se uma entrada para o Hades, e onde hoje se situa um mosteiro que preserva no seu subsolo uma cave que mergulha nas profundezas da terra. 

Há apontamentos sobre os locais na atualidade, bem como curtos guias de acesso, mas o cerne do livro é uma viagem pelos mitos clássicos, estruturada pela geografia.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Naufragios, Viagens, Fantasias e Batalhas


João Palma-Ferreira (1980). Naufragios, Viagens, Fantasias e Batalhas. Lisboa: INCM

Num país cuja história está fortemente ligada ao mar, a tradição literária nem sempre reflete isso. Adoramos as aventuras marítimas inglesas e francesas, mas parecemos esquecer que dos descobrimentos em diante as histórias de portugueses no mar são tão ricas e empolgantes quando as mais conhecidas. Este livro recolhe alguns textos, entre relatos, literatura de cordel, excertos literários ou histórias jornalísticas onde o mar é o maior personagem. Quer como local misterioso habitado por estranhos monstros, zona de guerra e perigosas lutas, ou os efeitos das tempestades sobre as cascas de nós em que os homens insistem em se meter para enfrentar as ondas. A qualidade dos textos é variada, mas recorda-nos uma tradição literária esquecida que nos mostra a importância do mar no relato factual e ficção literária.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Relação Do Novo Caminho Que Fêz Por Terra E Mar: Vindo Da Índia Para Portugal

 

Manuel Godinho (1974). Relação Do Novo Caminho Que Fêz Por Terra E Mar: Vindo Da Índia Para Portugal. Lisboa: INCM.

Na segunda metade do século XVII, o Padre Manuel Godinho foi imcumbido de trazer a Lisboa missivas para o rei. Não se fez ao mar, fez-se à terra, partindo da Índia numa odisseia que o levou a atravessar os desertos hoje iraquianos para chegar à Turqia e, por fim, à Europa. O livro relata o seu périplo, as rotas, cidades e gentes com que se cruzou na sua viagem. Pelas suas palavras, viajamos ao médio oriente do século XVII.

O livro é também uma crónica do declínio do domínio português na ásia, cada vez mais reduzido face à pressão das emergentes potências europeias. Ingleses e holandeses estavam a ganhar força, tendo aproveitado a união ibérica para atacar diretamente as possessões portuguesas, ou indiretamente apoiado os senhores locais. O autor lamenta este declínio, que na verdade é apenas um sintoma do clássico mal da história - tudo passa, os impérios de hoje são as vagas memórias de amanhã.

Apesar da relação ser factual, há um forte sentido de aventura neste padre que se faz aos caminhos. Visita e documenta os portos indianso do índico e os persas do golfo pérsico, vai à imensa foz do Tigre e Eufrates para chegar a Badgad (que denomina "Babilónia") e fazer o impensável, atravaessar os desertos até à moderna Jordânia e Turquia. É aqui que o livro mais brilha, com descrições da travessia e do cruzamento com os povos do deserto que são curiosamente similares, nalguns aspetos, às que T.E. Lawrence, um outro homem com uma missão, fez quando entrou na Arábia para arregimentar os árabes contra os turcos na I guerra mundial. Sente-se o deserto, sente-se o isolamento das terras, o misto de bom anfitrião e cupidez dos seus habitantes. 

O périplo pelas costas indianas, persas e arábicas é um fervilhar de povos, vidas e costumes. As rotas comerciais assim o ditavam, os intercâmbios constantes abriam os hábitos e modos de vida. No deserto, o contraste é total, o medo constante. Medo quer da sede, quer dos povos que faziam do assalto às caravanas modo de vida. Este padre seguiu pelos caminhos mais arriscados com um guia, um criado e um companheiro de viagem.

Dava um filme, este relato. Recorda-nos que na sua diáspora pelas sete partidas do mundo, os nossos antepassados viveram experiências extraordinárias, que poucos registaram em livros que a nossa memória tende a evitar.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Andanças com Heródoto


Ryszard Kapuściński (2020). Andanças com Heródoto. Lisboa: Livros do Brasil.

Terminada a leitura, fico com um sabor de profundo humanismo no meu espírito. O livro é um diálogo mental, entre dois viajantes. Temos Kapuściński e as suas experiências de viagem, em si um olhar para um outro mundo, para o nosso passado recente já desaparecido. Crescendo na Polónia devastada na II Guerra, tornando-se jornalista no ambiente opressivo da ditadura comunista, descobre em si uma inusitada vontade de ir conhecer outros países e vê-se, um pouco por acaso, enviado pelas revistas onde trabalha para ir cobrir acontecimentos noutros países. 

Dado o clima da Guerra Fria, a sua carreira de correspondente não o leva aos grandes centros globais, mas sim aos países amigos da cortina de ferro. Dá por si na Índia, no Egipto, em África, na China. Primeiro, como jornalista duplamente inexperiente. Viver num país onde a propaganda se sobrepõe á realidade e a informação é fortemente censurada, nada o prepara para o contacto com outras culturas, das quais tudo desconhece. Kapuściński é resiliente e curioso, dá sempre a volta às mais mirabolantes barreiras com que se depara. Essas histórias formam parte do livro, e acabam por funcionar como retrato da segunda metade do século XX. Visitou uma Índia e Egipto emergentes, nos países africanos recém-independentes, e sentiu na China a dissidência e o afastamento entre estados totalitários aparentemente aliados, mas rivais. São tempos e modos que hoje recordamos na história, característicos da época mais forte da Guerra Fria.

E, no meio destas andanças, um complexo diálogo com um homem que viveu há milénios. Heródoto, pai da História, viajante consumado, que nos deixou o primeiro texto conhecido que fala de povos, de usos e costumes, das façanhas dos reis e da história das nações do mundo que conhecia - o imenso centro do mediterrâneo, com ramificação até à longínqua Índia. As histórias de Heródoto cruzam-se com as experiências de Kapuściński, graças ao livro que o acompanhou desde a sua primeira viagem ao estrangeiro, e que nunca mais largou. O faro de jornalista depressa descobre no homem da antiguidade uma espécie de alma gémea, curioso com as geografias, as pessoas e os seus costumes, mas atento aos pormenores e capaz de distanciamento, de afirmar que o que conta e descreve é a sua percepção, mas também são as visões e percepções daqueles que lhe relataram histórias e acontecimentos. Uma visão relativista, que afirma há mais de dois mil anos que a verdade histórica é condicionada pela percepção daqueles que contam. 

O livro entretece dois tempos, o passado recente de Kapuściński e o distante de Heródoto. Tanto visitamos a China maoista no dealbar da revolução cultural como a Pérsia que se prepara para invadir a Europa. Saltitamos entre os novos estados africanos e a Atenas clássica. Sempre a refletir na humanidade essencial, no humanismo das gentes, quer as pessoas anónimas do dia a dia, quer aqueles que a história imortalizou. Um diálogo entre épocas, entre tempos, mas a mostrar um fio contínuo ao longo da história.

terça-feira, 17 de junho de 2025

Despatches From The Barricades


John Simpson (1990). Despatches From The Barricades: An Eye-Witness Account Of The Revolutions That Shook The World 1989-90. Londres: Hutchinson & co..

De volta e meia apanho nas redes sociais com variantes do discurso memético anti-esquerdista que nos diz porque é que os países que foram comunistas odeiam o comunismo. São, obviamente, resmungos de extremistas de direita que mal conhecem a história e muito menos são capazes de a interpretar. Este livro, no entanto, mostra logo nas primeiras páginas a razão para essa rejeição - o que estes países viveram foi uma hipócrita apropriação dos ideiais de igualde, prosperidade e justiça social por parte de políticos ambiciosos e sem escrúpulos, que visavam apenas o domínio total do poder. Foi a lição que Orwell nos tentou ensinar em Animal Farm, da facilidade com que revoluções são transformadas em repressões. Os regimes de leste, bem como a União Soviética, alimentavam-se da mística da igualdade e triunfo do proletariado, mas na verdade todos sabiam que uns era mais iguais do que outros; que as elites partidárias beneficiavam de estilos de vida burgueses enquanto o resto da população vivia com carências e restrições, pese embora o esforço, reconhecido, de elevação da pobreza e dotação de cuidados elementares às populações que estes estados fizeram (e se não o fizessem, nada justificava o regime).  Aos apelos de liberdade juntou-se uma sensação generalizada de empobrecimento e fraco desenvolvimento económico.

Diga-se que uma ditadura do proletariado é, acima de tudo, uma ditadura. Que as migalhas de bem estar que os ditadores forneciam às suas populações eram pagas com a ausência de liberdade, repressão violenta e um clima de vigilância permanente. Os ditadores, quer sejam de direita quer de esquerda, são todos iguais nos seus métodos e objetivos. O povo, esse, sofre sempre.

Entre a queda da guerra fria e a estagnação social e económica dos países do leste, surgiram as condições para as revoluções mais ou menos sangrentas que derrubaram as ditaduras, iniciaram passos democráticos e um caminho que veio a tornar a maior parte destes países em membros da UE (algo que, à época, seria impensável). O que possibilitou esta derrocada foi o afrouxar do punho férreo com que a URSS geria o seu império. Enfraquecida pelas suas ineficiências, rigidez do regime e a despesa militar, deu sinais de abertura, e um dos mais importantes foi o fim do apoio aos líderes-fantoche dos estados de leste. 

Este livro mosta bem como a derrocada foi rápida. Em menos de um ano, os regimes comunistas caíram. Na maioria dos casos, como a Polónia, Alemanha Democrática ou Checoeslováquia, com momentos conturbados mas sem violência militar. Sem o apoio soviético, não houve alternativa para os regimes. A exceção foi a Roménia, onde as forças repressivas de Ceausescu resistiram, com o final violento e patético de um ditador que poucos meses antes da sua execução sumária, era um todo-poderoso carrasco.

A própria China tremeu, com os acontecimentos de Tiananmen. Tremeu, mas não caiu, porque se as classes urbanas começavam a reclamar uma abertura democrática, o regime sustentou-se na enorme massa de camponeses, que pela primeira vez em milénios de história estavam a viver uma existência que não era a de mera sobrevivência em pobreza extrema. Uma lição que o regime de Pequim aprendeu bem - se se garantir prosperidade às populações, o regime não é contestado. É esse o contrato social que sustenta a China moderna.

Apesar de ser um livro sobre o fim dos regimes comunistas, não é uma obra panfletária anti-comunista (até porque, no seio de uma sociedade democrática pluralista, a mensagem comunista de justiça social é essencial). Sinaliza isso com o seu final, onde relata a queda de um outro regime, nos antípodas do Leste - o fim do extremismo de direita, racista, do regime do apartheid sul-africano. 

As histórias são-nos contadas por quem a viveu, um jornalista da BBC que acompanhou de perto estes momentos e movimentos. O livro constrói-se de relatos, da experiência de um jornalista que tanto mergulha na multidão como acompanha quer os líderes dos regimes, quer a sua nascente oposição. São relatos de um momento único na história do século XX, que derrubou o muro de Berlim, deitou abaixo a cortina de ferro, transformou ditaduras em democracias e abalou uma ordem global repressiva herdada do comportamento predatório de Estaline no pós-II guerra mundial.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Por dentro das guerras


Mário de Carvalho (2003). Por dentro das guerras. Lisboa: Prime Books.

Um livro com que me cruzei por total acaso, e que me surpreendeu. É, por um lado, parte da história de vida de um português algo aventureiro, que se tornou repórter de imagem para um dos grandes canais americanos. O livro foca-se nas suas experiências como jornalista nos mais variados conflitos, desde o Líbano da guerra civil aos campos de batalha das várias eleições presidenciais norte-americanas que cobriu. São histórias rocambolescas, que colocam em evidência a coragem e o risco constante destes profissionais, especialmente se insistem em realizar o seu trabalho de forma independente. São muitas as histórias em que a vida esteve por um fio, onde só a experiência, ou aquela capacidade portuguesa para o desenrasque ou para a comunicação safaram o repórter.

Mais do que uma história de vida, li neste livro um recordar do final violento do século XX, um revisitar dos violentos conflitos que hoje mal são recordados, mas que abriam telejornais naquela época entre os anos 80 do século XX  e a primeira década do XXI. As guerras israelo-árabes, o Líbano enquanto terra massacrada, as várias guerras do Golfo, a violência na Nicarágua ou o caos do Haiti são alguns dos locais de conflito que este livro nos recorda.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

A Malta das Trincheiras


André Brun (1983). A Malta das Trincheiras. Porto: Livraria Civilização Editora.

Tirando as comemorações anuais da batalha de La Lys, a história do CEP na I Guerra não é muito discutida por cá. Talvez em boa parte por não ser uma história honrosa. Uma jovem república à procura de reconhecimento internacional, desejosa de ombrear com os aliados mas sem reais meios para o fazer, lança um corpo expedicionário com uma preparação duvidosa nas trincheiras da Flandres. O pior chega depois, com os estertores autoritários do sidonismo, e o na prática abandono destes soldados por governos que não os rendiam, encontravam novas forças ou reforçavam os meios. La Lys, embora pintada como um momento de heroísmo, foi a marca do descalabro desta situação, com a posterior incorporação das forças sobreviventes nos comandos ingleses. Não é uma história que embeleze a nossa história do século XX, e como tal fica algo relegada para as discussões mais especializadas e a revisão simplista aquando das efemérides.

O romancista André Brun foi um dos participantes nesta amarga aventura. Comandou uma unidade de infantaria do CEP, sentiu na pele a ação nas trincheiras, acompanhou os seus homens nos ataques e defesa, viveu entre a lama e as balas. É esta a história que nos conta neste livro, que não segue uma estrutura linear romantizada, mas sim se organiza como um conjunto de vinhetas onde Brun regista memórias do que viveu, e testemunhou, na Frente Ocidental.

Brun é nitiadamente patriota e militarista, como se denota nas suas visões da guerra como espaço de honra e coragem, apesar de estar a combater numa guerra caracterizada pelo uso de uma das mais estúpidas táticas de sempre - atirar cargas de homens para invadir trincheiras inimigas, contra o fogo de defesa de metralhadoras. Uma guerra onde os combates depressa chegavam às dezenas e centenas de milhar de baixas em poucos minutos, e cujos generais persistiram neste absurdo desperdício de vidas humanas durante quatro anos. A óbvia incapacidade dos generais, que persisitiram na sua estratégia, não é mais do que aflorada por Brun, alguém que esteve na linha da frente e poderia perfeitamente ter sido ceifado numa operação.

Brun opta por mostrar um pouco da vida quotidiana dos seus soldados, entre a fatalidade das trincheiras e a retaguarda. Nas trincheiras, destaca uma certa normalização do medo e da violência, de um fatalismo perante a constante ameaça da morte, bem como a mais ideológica visão do dever. Fora das trincheiras, regista os pormenores da vida no CEP, as interações com os civis e soldados de outros países. Deixa uma série de apontamentos humorísticos corporativos sobre a relação com as burocracias militares, com pormenores que qualquer pessoa que trabalhe em sistemas com gestão burocrátia depressa compreende como transversais às épocas, contextos e organizações. 

Destaca-se, também, o carinho pelos seus "lãzudos", a alcunha ganha pelos soldados do CEP quando, para enfrentar o frio norte-europeu que é tão mais agreste que o português, receberam capotes de pele de carneiro que usavam com a lã virada para fora. Descreve a sua corajem e resignação, a capacidade de com pobreza de meios manterem as suas missões. La Lys é aflorada, em páginas que relatam a dureza dos combates, e o desespero de um comandante que vê os seus homens em risco. Não por acaso, o livro termina com um elogio ao 23º de Infantaria, a unidade que Brun comandou. É um texto escrito num tom panfletário e heróico, muito diferente do pendor naturalista de todo o livro.

Documento importante para conhecer a nossa história moderna, é também uma leitura acutilante, que nos leva aos campos de batalha da I guerra, com foco nos homens que por lá andaram.

terça-feira, 3 de junho de 2025

A Última Batalha


Cornelius Ryan (1989). A Última Batalha. Lisboa: Bertrand Editora.

De entre a vasta e crescente bibliografia sobre a II Guerra, destaco sempre os três livros seminais de Cornelius Ryan: O Dia Mais Longo, um dos melhores relatos do dia D que conheço; A Bridge Too Far, que detalha uma operação anglo-americana demasiado arriscadas para ocupar as pontes sobre o rio Arnhem; e este A Última Batalha. As obras de Ryan fazem-se com a visão de quem foi correspondente de guerra e esteve nos locais, nos tempos mais agudos. Mas também foram escritas com o distanciamento necessário para a análise histórica, de consulta documental, bem como o cruzamento de múltiplas fontes primárias, através de entrevistas aos sobreviventes destes momentos históricos. E nisto, Ryan atravessa todas as camadas, tanto inclui depoimentos de soldados e pessoas comuns, como de alguns dos comandantes militares ou personalidades com responsabilidade política. 

A Última Batalha detalha o Götterdämmerung que consumiu Hitler, com consequências devastadoras para os berlinenses. Trata-se da tomada de Berlim, essa espécie de holocausto que colocou um sangrento ponto final no regime, e na vertente europeia da guerra. Não é um livro cómodo, sabemos à partida que a causa está perdida, e só nos resta ver o acumular de más decisões que prolongam o inevitável, aumentando o derramamento de sangue. Um sacrifício final de um regime violento, que na sua fase terminal quis levar consigo o povo e o país (nisso, houve intervenientes mais sensatos que conseguiram evitar se não o pior, pelo menos a destruição total).

Esta cegueira passou-se a todos os níveis. Ryan detalha as decisões militares, entre o desesperto e o irrealismo, do alto comando alemão às ordens de um ditador acabado mas que, por despeito, queria levar tudo consigo, às ações de fanáticos que mesmo no desabar total, se batiam até à morte ou abatiam os inimigos do regime - e naquele momento, qualquer um podia ser visto como derrotista.

O livro é longo. O culminar detalha a queda de Berlim, a extrema violência de combates desesperados, o final do regime nazi, o sucídio de Hitler, a derrocada militar da Wermacht. Não esquece a vingança russa, traduzida em especial através de violência sexual sobre o corpo das mulheres alemãs. É um pormenor curioso do livro, que Ryan desvenda através dos relatos das sobreviventes, de um primeiro contacto com as linhas da frente soviéticas onde os civis, aterrados, se deparam com soldados corteses que os ajudam e tranquilizam, mas também os avisam que as próximas unidades já não lhes darão o mesmo tratamento.

Parte do livro é dedicado à questão de o que teria acontecido se tivessem sido as forças americanas e não soviéticas a capturar a capital. Certamente que com um desfecho melhor para os civis. Na verdade, seguindo um monumental trilho documental, Ryan demonstra que essa é uma questão difícil de colocar. Por um lado, porque a coesão entre os aliados ditava que iria pertencer à zona russa. Mas, nas alucinantes semanas do final da guerra, a rapidez do avanço americano era tal, que essa possibilidade se abria, à revelia da vontade política. Vontade esta que também não era muita, os gorvenos inglês e americano estavam bem cientes de que qualquer território libertado pelos soviéticos apenas trocaria uma ditadura por outra. Os acordos ditavam que seriam os exércitos de Estaline a conquistar a cidade, mas a realidade operacional do terreno encorajava os comandantes a tentar chegar lá antes dos soviéticos, com a cumplicidade tácita do SHAEF. Um ímpeto que a impossibilidade de atravessar o rio Elba travou, ao desgastar os corpos de exército ocidentais mais bem posicionados para atacar Berlim.

O destino da cidade ficou também traçado pela intensa rivalidade entre os dois comandantes supremos soviéticos, que Estaline manipulava com prazer. Konev e Zhukov levaram as suas forças numa corrida constante, atancando mesmo sem estar preparados, tentando cada um arrebatar o prémio da captura da cidade. Os caprichos de Estaline ditaram que o símbolo final, a captura do Reichstag, fosse para Zhukov mas no terreno, os defensores da cidade viram-se a braços com a avalanche dos dois exércitos em simultâneo.

Oitenta anos depois, esta história continua incómoda. Destaca-se, por um lado, as intensas manobras políticas que ditavam os movimentos militares (torna-se muito claro que a Guerra Fria já estava a decorrer, apesar da aliança entre americanos, ingleses e soviéticos). Revê-se o impressionante fanatismo do Reich, que não hesitava em consumir todo o seu povo no altar de uma ideologia hedionda. Mas o que fica da leitura é a visão do sofrimento daqueles que foram apanhados nesta armadilha, e nisto incluem-se os militares que tinham pela frente uma missão desesperada, que combatiam não pelo regime, mas pelo medo do que a derrota traria. Sobressai o sofrimento dos civis, amordaçados pelo regime ditatorial, enfrentando a vingança de soldados que lhes aplicavam exatamente o que os alemães tinha feito anos antes, na bárbara e violenta frente leste. Lê-se a derrocada total, o desperdício de vidas. 

Curiosamente, o livro termina com uma nota de esperança, ao listar todos aqueles que Ryan entrevistou para construir este retrato monumental. Nessa adenda, inclui as profissões que exerciam após a derrocada final, mostrando que a história não fica parada, e aos momentos mais negros pode seguir-se a reconstrução, se houver vontade para isso.