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segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Megalopolis

Saí da sala de cinema com a sensação que vi um filme daqueles que fica para a história. É tudo aquilo que dizem dele. Brilhante, pedante, literário, escandaloso, decandente, gritante, sedutor, caótico, desconexo, vulgar, elegante. Oscila entre exercício de estilo e crítica mordaz à contemporaneidade. É visualmente luxuriante. 

Não é um filme para todos. Não é acessível, simplista ou facilitista. Faz lembrar os momentos mais delirantes de Fellini (não me surpreenderia se Satyricon fosse uma das inspirações), e cruza um certo mito americano, de se imaginar como uma segunda Roma, com a decadência neoliberal contemporânea, onde conta o jugo nepotista dos bilionários. Atreve-se a sonhar utopias, enquanto desmonta a crise dos dias de hoje. É (e isso está explícito logo nos primeiros segundos), uma fábula. Mas não uma fábula discreta, o filme berra o seu ideário aos espetadores.

Este filme anda com  uma carreira maldita. Está a ser vendido como uma incursão de Coppola na FC (e, na verdade, é um maravilhoso filme de fantástico, mas não nos moldes tradicionais), o que tem o condão de desagradar a todos. À crítica porque, enfim, FC, essa mácula. Aos fãs de ficção científica, porque depressa são defraudados da expetativa de ver aventuras no espaço com tiroteios e explosões (hey, adoro FC... literária, no cinema a maior parte dos filmes do género são chiclete que nem vale a pena mastigar). Aos fãs de cinema de autor, porque não é a habitual história confortável ou o drama interior do personagem. Aos estúdios, porque não é mais uma variante de IP que requenta o mesmo conteúdo estafado de sempre. 

Eu, adorei. Saí da sala com a cabeça a zunir de ideias.

(Aplausos para a tradução do filme, que conseguiu apanhar subtilezas dos jogos de palavras, como, se não me falha a memória, traduzir "don't be so Emerson" como "não sejas tão transcendentalista").

terça-feira, 18 de outubro de 2022

O Quarto Perdido do MOTELX


João Monteiro, Filipa Rosário (org.) (2022). O Quarto Perdido do MOTELX. Lisboa: CTLX.

Tendo em conta o já de si exíguo espectro do cinema português, que embora rico, espelha um país periférico onde a expressão cultural tradicionalmente se centra nas elites, únicas capazes de ter o tempo e os recursos para se dedicarem às artes, falar de um cinema fantástico nacional é algo que se resume em poucas linhas. Alie-se a isso a visão que temos do cinema como algo de entretenimento de massas, ou seja de filmes feitos para agradar à maioria da população, mas também do cinema como eminentemente intelectual, espelho estético das grandes preocupações artísticas. Na vertente cinema popular, por cá sempre se preferiu o gosto popularucho (exemplo disso são as comédias clássicas dos anos 40, que agora estão a ser alvo de remakes visando precisamente o mesmo tipo de públicos), que garantia retornos. Na variante intelectual, com todo o seu peso cultural, temos de contar com uma atitude clássica das nossas elites culturais, sempre desdenhosa com géneros ligados ao fantástico. É um traço cultural que hoje se começa a esbater, os novos criadores já cresceram como consumidores de cultura fantástica americana, europeia, e japonesa, e isso tem-se traduzido numa maior abertura cultural, apesar do mau olhar persistente quando se tenta falar de fantástico em certos meios (na melhor das hipóteses, isso é assumido como um mero prazer culposo por parte de algumas figuras intelectuais da nossa praça).

E, no entanto, houve cinema português dedicado aos temas do fantástico e outros géneros. Ao longo da já longa história do cinema português, houve filmes que se atreveram a falar de fantasmagorias, ficções futuristas, assombrações, e até entraram nos campos mais exploitation. Portugal também foi palco de várias coproduções europeias de filmes de série B, daqueles maus mas deliciosos filmes de horror com zombies medievais, freiras marotas ou outras explorações.

Apesar do progressivo peso do lado comercial do cinema fantástico e de terror que se tem viso assumir no MOTELX, quer do comercial mainstream quer do comercial de nichos, este festival sempre fez questão de olhar para o potencial terror no cinema português. Sem dúvida, graças ao trabalho dedicado de João Monteiro, um dos seus organizadores, e talvez a única pessoa a desenvolver trabalho académico focado nas cinematografias de terror, fantástico e exploitation no cinema português (se não for o único, é o mais visível). O seu trabalho de recuperação da memória fílmica de António de Macedo é notável. Inesquecível, a sessão com a presença do realizador que lhe foi dedicada na edição de 2016, com aquela ovação em pé dos espetados na sala principal do S. Jorge apinhada. Se bem me recordo, infelizmente, foi das últimas aparições públicas de Macedo, falecido meses depois.

Como espetador deste festival, confesso que a seção Quarto Perdido é das que mais aprecio. Sei que oferece sempre filmes obscuros da história do cinema português, tornados raros pelo clássico desprezo do cinema de género pelas elites intelectuais que são, simultaneamente, aqueles que gerem os sistemas de financiamento público do qual depende o cinema português.

A recuperação desta memória é importante, não só pelo redescobrir das obras. Hoje, os espectros culturais são mais alargados, e isto mostra a novas gerações que por cá, houve precursores, cineastas que experimentaram com estes temas, de forma isolada por todas as razões já elencadas, ou, quando de forma sistemática, a custar-lhes a carreira como realizadores. 

A lista de filmes portugueses ligados ao fantástico não é muito grande. Este livro recupera a sua memória, com ensaios dedicados aos principais filmes. Recupera a memória de filmes, dos seus realizadores, temáticas e inspirações. Podemos não ter por cá um longo historial de cinema fantástico, mas o que temos merece ser descoberto. E nisso até incluo estopadas como O Cerro dos Enforcados, belíssimo apesar do ritmo teatral lírico que era marca de época. 

domingo, 20 de outubro de 2019

URL

Ficção Científica


Big orange planets: Apenas isso, como tema para mais uma recolha de ilustração clássica de FC pelo 70s SciFi Art.

"Mar de Aral" totalista dos Galardões BD Comic Con: Na semana passada apostei nos possíveis vencedores dos Galardões BD da Comic Con (uma das raras contribuições deste evento tipo plantio de eucalipto para o panorama cultural nacional). Só me enganei numa, o de melhor desenho também foi para Mar de Aral. O livro que limpou os prémios, algo que não é tão positivo quanto parece. Sem querer desmerecer o sempre excelente trabalho de José Carlos Fernandes e a surpresa que foi o trabalho de ilustração Roberto Gomes, esta falta de diversidade apoquenta um pouco. Por outro lado, é a Comic Con, que cada vez mais me parece ser um fenómeno financeiro a explorar o nicho de mercado geek, do que um evento com vontade de ganhar peso cultural.

This Video Primer Is a Perfect Introduction to Stephen King's Horror Fantasy Multiverse: Não tão complexo quando os Cthulhu Mythos desse outro escritor da Nova Inglaterra, mas a obra de Stephen King também contém locais, personagens e objetos que aparecem em histórias diferentes, criando uma ligação metaficcional.


Science Fiction Inspires the Future of Science | National Geographic: As ligações de inspiração entre Ficção Científica e a inovação em ciência e tecnologia, exploradas neste vídeo da National Geographic que olha para Inteligência Artificial, automóveis autónomos ou robótica, entre outros pontos onde as ideias da ficção alimentaram a inspiração dos cientistas.


WHO IS THE MASTER WHO MAKES THE GRASS GREEN? (ROBERT ANTON WILSON): No que toca ao cinema português, dificilmente haverá cineasta mais futurista e experimental do que Edgar Pêra. Vai colocando no YouTube alguns dos seus trabalhos clássicos, pérolas de uma cinematografia sem compromissos, que se atreve a ver o mundo de formas realmente diferentes. Nesta curta, as palavras do guru da contra-cultura Robert Anton Wilson ganham vida de formas inquietas.

Comics


The Lost Issue of Grant Morrison and Chas Truog’s Animal Man From 1988 – “Dominion”: Vestígios de uma história da temporada de Grant Morrison à frente de Animal Man, nunca publicada por confusões relativas à finalização de Invasion, um dos primeiros mega-eventos da DC, em que a Terra é cilindrada por uma força combinada de alienígenas. Pelos vestígios partilhados pelo então ilustrador de Animal Man, a história deveria valer a pena.

Brazilian Court Backs Rio Mayor’s Ban on LGBTQ Comics; YouTuber Felipe Neto Buys Them All, Gives Them Away: O nível de absurdismo desta história de um presidente de câmara ligado à IURD e da edição brasileira de uma aventura dos Vingadores editada originalmente em 2010 mostra bem o absurdo quando os extremismos ideológicos chegam ao poder. A ordem presidencial é um excelente exemplo de homofobia pura, e analfabetismo funcional na escrita de textos.


BD portuguesa na Fête de la BD: É sempre uma boa notícia saber que os artistas portugueses de banda desenhada são destacados no exterior. Desta vez, na festa da BD em Bruxelas.

Biomechanical Landscape II, by H.R. Giger: As visões proto-dark cyberpunk de um estranho artista suíço, que se tornou global graças à iconografia que criou para o clássico filme Alien.

Lost in the Time Vortex: The American Cult of ‘Doctor Who’: Uma série atípica e esquisita, mesmo nos domínios da ficção científica. Doctor Who é daqueles universos que, citando a frase batida, primeiro estranha-se e depois entranha-se.


James R Bingham - The Beast From 20,000 Fathoms, by Ray Bradbury, illustration for Saturday Evening Post, June 1951: Uma das histórias mais arrepiantes de Bradbury, ilustrada com um major spoiler.

It Chapter Two's Queer Subplot Is Too Subtextual to Be Scary Good: Eu iria mais longe. Toda a vertente narrativa queer de It parece-me uma atabalhoada tentativa de captar espetadores nesse segmento de mercado. O arranque do filme é fortíssimo nesse aspeto, com o (spoiler alert) ataque violento a um casal gay que motiva o reaparecimento de Pennywise. E ao longo do filme apercebem-nos de uma tensão não resolvida entre dois personagens masculinos, mas que se resolve de forma sacarina com a morte de um. Os elementos estão lá, mas parecem mais decorativos do que nucleares no filme. Que, diga-se, é bastante medíocre na generalidade.

Star Wars Wings, Ranked: Não me considero exatamente ignorante no universo Star Wars, mas não imaginava que existiam tantas alphabet wings. Mas, no fundo, não há wing como o mítico X-Wing.

[OP-ED] “It Chapter Two” and the Rise of the Money Driven Sequels: Já tive a oportunidade de ver este filme, e o melhor dele é o cameo de Stephen King. Se o primeiro capítulo foi interessante, este só tem alguns momentos de verdadeiro suspense, e usa demasiado a estratégia in your face com monstros de CGI questionável para arrancar reações à audiência. Pennywise, o monstro, tem tanto screen time que se torna mais fácil empatizar com ele do que com os heróis do filme. É, de facto, um daqueles filmes em que passamos o tempo a olhar para o relógio a ver quando é que aquilo acaba. Dividir It em dois filmes até faz sentido, afinal são dois livros, mas este é mais um sintoma do mal clássico de Hollywood, as vistas curtas do lucro a curto prazo.


Some Bunnies To Love: The 2019 Dragon Con Bunny Hutch!: A culpa do fetiche das meninas vestidas como coelhinhas em trajes menores vem dos tempos em que o sexismo era cool, da Playboy de Hugh Heffner. Felizmente, a sociedade evoluiu. De tal forma que esta iconografia foi apropriada por cosplayers, de formas… inesperadas, e divertidas.

Dédalo – A Short Film Tribute to Space Horror: Um tributo muito bem feito a Alien, e à cinematografia de terror, criado por portugueses. Os modelos usados são fabulosos, estiveram em exposição num dos SciFi Lx.

Tecnologia



Leonardoesque Robot Brains, the Harvard Mark I, and a Peek into the Future of Computing (1944): Num artigo de 1944 sobre o potencial de cálculo dos computadores, surge esta ilustração decididamente cyberpunk.

AI Is Coming for Your Favorite Menial Tasks: Uma análise do impacto, que já está a acontecer, dos sistemas de Inteligência Artificial no apoio a tarefas cognitivas avançadas. Intrigante, este insight: "What’s less understood is that artificial intelligence will transform higher-skill positions, too—in ways that demand more human judgment rather than less. And that could be a problem. As AI gets better at performing the routine tasks traditionally done by humans, only the hardest ones will be left for us to do. But wrestling with only difficult decisions all day long is stressful and unpleasant". Um dos grandes argumentos a favor da automação é precisamente o libertar o humano das tarefas repetitivas, permitindo foco no complexo. Mas nós não somos máquinas, e não estamos constantemente em alta rotação. Ao contrário das IAs e robots, precisamos de downtime.

7 documentales sobre inteligencia artificial y robótica que puedes ver en Internet: Excelentes sugestões para compreender melhor quer a inteligência artificial, quer a evolução da tecnologia.

STEM Is Overrated: Confesso que nunca tinha visto as STEM sobre este ponto de vista. Até porque, nos núcleos de professores inovadores em que participo, as STEM (e o ensino prático), são vistas como um dos muitos elementos integradores de uma educação para a vida, não como um espartilhar de aprendizagens limitativas. Não agimos assim, e falamos abertamente de STEAM, a integração das artes com ciências, tecnologia e matemática (é o significado do acrónimo STEM, para os eventuais não-professores entre quem estiver a ler isto). Mas, de facto, há o risco do foco nas STEM ser limitativo, e tornar-se um meio de incentivar treinos vocacionais a largos espectros da população, enquanto as dimensões de aprendizagem mais profundas ficam reservadas a elites.

Things get weird when a neural net is trained on text adventure games: Tenho de inventar tempo para experimentar isto. Algoritmos de IA que geram jogos de texto a puxar para o surreal é uma ideia irresistível.

Will Artificial Intelligence Change Our Relationship With Religion?: Soa a cenário de ficção científica, e inquieta o nosso substrato cultural vindo da mitologia judaico-cristã. Mas para culturas mais animistas, mecanizar a devoção é algo natural. No entanto, até um ateu percebe o carácter profundamente humano da religião, e artificializar com tecnologia sente-se como o ultrapassar de uma barreira milenar. Isto sem entrar em eventuais cultos à máquina inteligente. Isso será todo um outro nível.

Uber argues its drivers aren’t core to its business, won’t reclassify them as employees: Se perguntarem qual é o grande problema trazido pelas plataformas da sharing economy (uma designação enganadora, porque quem participa nela tem nesta atividade o seu trabalho principal), é este. A forma como assumem a hiper precarização laboral, é recusam o óbvio. Não é uma questão de semântica para a Uber dizer que os seus motoristas trabalham com ela e não para ela. Na prática, é a segunda hipótese. Mas insistir na primeira retira-lhes as responsabilidades sociais.

Modernidade



Masataka Nakano Has Been Photographing a Deserted Tokyo for Almost 30 Years: Não é só um trabalho de olhar fotográfico, é um de enorme paciência, de esperar pelo momento certo - e mágico, em que a cidade se parece esvaziar de pessoas.

Joi Ito resigns as MIT Media Lab head in wake of Jeffrey Epstein reporting: O que me está a deixar estarrecido nos escândalos relacionados com o caso Epstein é a extensão das pessoas deduzidas pelos lustres do um percentismo, mesmo sabendo dos crimes de pedofilia de quem os introduzia nesta espécie de Jet set intelectual. Como alguém que sempre admirou o trabalho de Jonh Brockman, Nick Negroponte ou Joi Ito, é uma desilusão vê-los associados a isto.

Someone made a version of ‘Civilization’ that runs in Microsoft Excel: Hey, finalmente um uso útil para o Excel! Devo dizer que conseguir programar um clone de um jogo clássico de estratégia para correr no Excel é um toque de génio. E, também, a desculpa perfeita para combater o tédio no escritório.

The Problem(s) with Goodreads: Sou um utilizador compulsivo do Goodreads, uso-o como forma de listar as minhas leituras. Mas tenho de concordar, quer o site quer a app parecem estar presas ao tipo de usabilidade que era de ponta no ano 2000.


B-2 Spirit Stealth Bomber Performs Hot-Pit Refueling At Lajes Field, Azores: Aposto que neste momento, todos os sofredores do mal de ser fanático de aviação estão a pensar no mesmo: bolas, adoraria ver isto ao vivo!


How “Ulysses” Became A Scandal And Changed The Definition Of Obscenity In America: Se nunca leram este romance fundamental do modernismo literário, é de facto algo maroto nalguns momentos (indeciso entre os devaneios húmidos do Senhor Bloom na praia ou o fantástico monólogo interior de Molly). Mas, na primeira metade do século XX, foi uma obra escândalo que motivou longas batalhas legais entre editores contra leis anti-obscenidade.


*Is Barbie dead enough?: Coisas not sure if… Um bom exemplo de interculturalidade, ou apropriação capitalista descarada de iconografias culturais?

The Shocking Costs Of Doing Art History Research: De facto, ser investigador não é barato. Se não se tiver acesso via instituição, ler artigos de investigação fica bem caro. E de acordo com este relato, a coisa é pior para quem investiga história de arte. Porque museus, arquivos e instituições gostam de cobrar pelo acesso e registo fotográfico que os investigadores têm de fazer para melhor estudar o seu acervo. Pior, e esta surpreendeu-me. Editoras universitárias que cobram pela edição (um modelo curiosamente similar ao das vanity press).

Hidden London: New Book Explores the City’s Forgotten Underground: Há pessoas que têm empregos de meter inveja aos restantes míseros humanos. Como, por exemplo, ser responsável pelos mundos subterrâneos que sustentam os nossos espaços urbanos. Infraestruturas fascinantes, de que não nos apercebemos quando passamos por elas nos metros, e das quais só temos alguns vislumbres graças às aventuras dos fotógrafos exploradores urbanos.

A Vision of the Future: 1911 Takes a Look at 1950: É sempre interessante olhar para o retrofuturismo. Percebemos muito sobre a forma como evoluímos a partir das visões sobre o futuro vindas do passado. Nestas, há uma que me surpreende, a visão daquilo a que hoje chamamos tecnologias verdes. Infelizmente para o ambiente, ainda hoje não são o nosso principal meio de produção energética, e muito menos em 1950, como pensado em 1911.

domingo, 22 de setembro de 2019

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The Generative Portraiture of Espen Kluge: Uma intrigante utilização de algoritmos generativos nas artes visuais, que escapa ao típico abstracionismo das obras criadas com programação.

A French Chateau Hoarding the World’s Largest Private Collection of Fighter Jets: Se eu tivesse um castelo, e finanças a condizer, diria que se calhar também seria assim. A coleção é grande, e parece bem preservada.

24 of 'Internet of Sh*t's' Technological Fails That Make Reality Seem Like a Crappy Dystopia: A IoT tem a sua utilidade, especialmente em processos industriais e de gestão. Menos úteis (oscilam entre o completamente inútil, o estúpido e a vigarice pura) são os equipamentos de consumo que se ligam à rede. Chamem-me velho do Restelo, mas tenho alguma dificuldade em perceber a lógica de cafeteiras dependentes de software ou escovas ligadas à Internet. Ainda por cima, os riscos de segurança digital associados a estes dispositivos são enormes.


Animated Rendering of Space Battles With Nuclear Orion Spaceships: O conceito de propulsão do projeto Orion é daqueles que nem no papel soa bem. Este projeto clássico de desenvolvimento de naves espaciais propunha um sistema de propulsão em que as naves seriam propulsionadas por sucessivas explosões de bombas atómicas na sua traseira. É daquelas coisas que se pensa logo ah, o que é que poderia correr mal. Mas não deixa de ser parte da história da exploração espacial, e esta animação 3D mostra como é que poderiam funcionar.


Wedged Wonders: pointy concept cars of the seventies: Quando o design automóvel futurista envolvia muitos ângulos e arestas vivas.

The Pint-Size Nation off the English Coast: O mundo das micronações oscila entre a brincadeira e o bizarro. A maior parte destes territórios que se proclamam independentes são devaneios dos seus criadores. Sealand é a exceção. Uma plataforma de artilharia dos tempos da II guerra ao largo do reino unido, foi ocupada por uma figura muito colorida, que declarou o território como soberano. Sealand e as suas histórias são bizarras, e parte delas envolve ética, no mínimo, questionável.


Check Out This Sort-Of Parody “Top Gun: Maverick” Trailer Featuring Japanese F-4 Phantoms: Uma prenda para os amantes de aviação. Usando a banda sonora de Top Gun, os pilotos do esquadrão de reconhecimento da JASDF baseados em Hyakuri filmaram os seus clássicos RF-4J. E diga-se que está muito bem feito.

Morals ex Machina: Should we listen to machines for moral guidance?: O que é que poderia correr mal se se externalizar decisões éticas em algoritmos de IA? Começaria pelo problema do garbage in, garbage out, o dos enviesamentos no treino de algoritmos. Ou o carácter black box, em que poderemos não saber exactamente que pressupostos estão por detrás das decisões. O que mais arrepia é o abandono da capacidade de escolha e decisão moral, delegando essa responsabilidade numa entidade externa. Algo que até tem sido comum na história humana, os que seguem religiões e ideologias estão, essencialmente, a delegar as suas escolhas e decisões em entidades externas. Mas se há algo que herdámos do iluminismo, é a ideia que para sermos realmente livres, temos de ser capazes, e corajosos, de pensar pela nossa própria cabeça, seguindo os princípios éticos humanistas. Claro que é sempre mais confortável delegar em terceiros, é simples e alivia a responsabilidade.

Botticelli’s Venus Was Real, and the Original Blonde Bombshell: Chamava-se Simonetta Vespucci, e era a mulher mais bela da corte dos Medici. A sua beleza inspirou Botticelli, mas não só. Ficou imortalizada no nascimento de Vénus, um daqueles quadros seminais da história e da arte.

Training bias in AI "hate speech detector" means that tweets by Black people are far more likely to be censored: É mais um exemplo de garbage in, garbage out em Inteligência Artificial. Um algoritmo criado para detetar discurso de ódio nas redes sociais mostrou tendência a identificar este tipo de discurso, prevalentemente, em utilizadores não brancos. Não por o discurso ser realmente de ódio. O problema está na forma como a IA foi treinada.

Paperbacks from Hell' Go To The Movies!: Fico na dúvida. Isto é uma lista de filmes de terror trashy para ver, ou de livros de horror over the top para descobrir?

This Ain’t Walden Pond, Mate: Os detox digitais tornaram-se moda, mas na verdade quem alinha nestas coisas apenas está a sublinhar a sua incapacidade de gerir a imersão nos fluxos constantes de informação. A solução não está no corte, no encerrar contas em apps e redes sociais, mas sim encontrar estratégias de gestão, que serão sempre, necessariamente, pessoais (a minha? Por paradoxal que pareça, é não estar constantemente ligado, excepto quando estou a trabalhar na minha profissão principal. Não é detox, é inverter a necessidade de constante conexão). Algo que passa muito pelo foco nos fluxos e aplicações que realmente nos interessam.

Reddit, with wigs and ink: Estamos habituados a pensar no jornalismo como um bastião de fiabilidade e objetividade, mas na verdade só em meados do século XX é que os critérios de rigor e isenção se estabeleceram. Até lá, os jornais eram panfletários e polémicos, mais interessados em arranjar notícias sensacionais para vender (até mesmo criar acontecimentos para gerar notícias) do que em transmitir com isenção. Não sei se se recordam de Hearst, magnata dos media no princípio do século, a afirmar que a opinião pública era ele que a fazia? O artigo vale bem a leitura, nem que seja por isto: "the new medium would spread half-truths, propaganda and lies. It would encourage self-absorption and solipsism, thereby fragmenting communities. It would allow any amateur to become an author and degrade public discourse". Parece que estamos a falar da Internet, blogosfera ou redes sociais, não parece? Na verdade, era assim que se qualificavam os jornais nos séculos passados.

Human dressed as TV trolls town by leaving TVs on people’s porches: Claramente, é um fã da série de comics Saga, que levou o cosplay muito a sério.

Passenger name records (PNR) for the prevention of terrorist offences and serious crime [European Parliament impact 2014-2019]: A União Europeia é exímia em ter leis discretas que nos afetam a todos, sem nos apercebermos disso. Este é um exemplo, o registo dos passageiros de linhas aéreas, que regista não só a informação de base, como preferências manifestadas durante os voos. Percebe-se a lógica, mas o potencial para abuso de informação está lá. Se vivemos num país onde não esperamos que este tipo de informação seja abusada por sistema, recordem-se que há estados da UE perigosamente próximos do fascismo (sendo a Hungria o caso mais óbvio).

Smartphones, Except Landlocked: Uma  história dos telefones fixos com capacidades digitais de acesso a informação e aplicações. Equipamentos que permitiam fazer aquilo que os smartphones de hoje tornaram normativo.


Robert McCall: É preciso explicar? Ainda por cima 2001, essa obra magistral.

Exploiting GDPR to Get Private Information: Não demorou muito. Os mecanismos de solicitação de informação pessoal detida por entidades sobre indivíduos podem ser explorados para roubar dados. O como até é trivial, sabendo que as entidades têm de enviar a quem faça estes pedidos uma versão machine readable dos dados de que dispuser sobre o inquirente. O ponto fraco está mesmo aqui: se os mecanismos de validação da identidade de quem pede os dados forem fracos, torna-se possível um terceiro assumir a identidade de alguém, e ficar a conhecer os seus dados.

Review: The Mild Horror of “Scary Stories to Tell in the Dark”: Li os livros, vi o filme, e de facto o horror neste filme de terror acaba por ser muito leve. Mas o substrato histórico e social que carrega em cima das histórias originais é muito potente. Mas creio que o crítico da New Yorker esqueceu-se de um ponto importante: o público-alvo deste filme não são adultos, conhecedores profundos do género, mas sim jovens adolescentes. Fala-lhes diretamente à alma, entre os personagens outsiders que vivem as desventuras, quer a consciência woke de todo o filme. Suspeito que tenho alguns alunos que me vão falar, entusiasmados, de como acharam este filme fantástico. Nós, fãs conhecedores, sofremos muito deste viés. Queremos que tudo o que apareça nos seja relevante ou surpreendente, mas esquecemos que os novos públicos têm de se formar, de ser conquistados. Algo que não se faz com obras direcionadas para os fãs profundos.

Sorcerer’s toolbox found in Pompeii: Um achado arqueológico com toques de fantástico. No imenso tesouro que são as ruínas de Pompeia, foi recentemente descoberta uma caixa de amuletos, artefactos de feitiçaria e superstição dos tempos romanos.

The 100 Best Anime Movies of All Time: Mergulhem no Netflix, metam-se à caça nos torrents, peticionem a Cinemateca para prestar atenção a este género cinematográfico. 100 sugestões, a apontar a excelência, diversidade temática e estilística, do anime.

Supercomputer creates millions of virtual universes: Daquelas coisas que se lê e nos deixam com a arrepiante sensação que talvez sejamos meras variáveis num algoritmo de simulação complexo.

‘So Huge a Phallic Triumph’: Why Apollo Had Little Appeal for Auden: Há sempre quem não se deixe impressionar, ou levar por histerias coletivas. Note-se a resposta brilhante à questão sobre o que é que Armstrong poderia dizer como primeiras palavras na Lua.

A New Clue to How Life Originated: Um vislumbre revelador sobre os primórdios da vida.

The Storytelling Computer - Issue 75: Story: intrigante. Qual será a característica que realmente define o pensamento? A lógica, ou a capacidade narrativa? Privilegiamos a primeira, no entanto, é a segunda que nos tem servido como estrutura para memorizar e transmitir conhecimento, e fazer sentido do mundo. Os mesmos princípios estão a ser aplicados à inteligência artificial. E se esta for treinada na narrativa, e não na lógica (assente na análise de quantidades massivas de dados, que é a IA que temos agora?

Behold Ponyhenge, a mysterious herd of rocking horses that inexplicably multiplies and rearranges: Entre o surreal feérico e o creepy. Onde é que os cavalinhos de pau e dos carrosseis vão parar depois de abandonados? Imaginem a visão de um prado verde no nevoeiro, cheio de cavalos com tinta a descascar-se… Uma iniciativa de folk art, mas também uma bela premissa para filme de terror.

Judging Dredd: A Brit and a Yank Discuss the Legendary ‘2000 AD’ Strip: Se não conhecem Judge Dredd, estão a perder o melhor da banda desenhada pop britânica. É, talvez, dos mais subversivos personagens dos Comics. Vive num futuro distópico, onde o planeta foi destruído por uma guerra nuclear (uma preocupação vinda dos anos 70 e 80). Os sobreviventes congregam-se em gigantescas megalópoles, que não são abrigos infectos, mas sim cidades futuristas compostas por gigantescos edifícios que funcionam como quarteirões. Grande parte da população não trabalha, o que não implica pobreza, todos têm direito a um mínimo de sobrevivência. O maior problema é encher o vazio das vidas num mundo em que o trabalho é automatizado (o que tem dado o mote a belíssimas histórias que analisam com enorme ironia as nossas modas e tendências de entretenimento, dos desportos aos Reality-shows). As cidades estão rodeadas de desertos radioativos e oceano negros, povoados por mutantes. Mas não está aqui o seu lado subversivo. Está na figura dos juízes, upgrade high tech à imagem do xerife do velho oeste. A força policial que se substituiu aos políticos e governa as cidades com punho de ferro (em bom rigor, com a pistola lawgiver no punho, capaz de disparar desde balas a munições explosivas) . E não há juiz mais duro e rigoroso na aplicação da lei do que Dredd. A ironia crítica aos autoritarismos passa muitas vezes despercebida aos leitores, mas é o que dá energia ao personagem. Dredd é uma colisão entre os futurismos de Huxley e Orwell: não falta soma numa sociedade anestesiada pela tecnologia de consumo, e também há botas cardadas a esmagar os rostos.

Why China’s Army Still Rides Yaks: É sempre intrigante o cruzamento entre high e low tech. Nas remotas zonas montanhosas de Xinjiang, o melhor meio de transporte ao dispor dos soldados chineses é o venerável iaque. Cavalaria de Iaque soa tão, mas tão bizarro.


Man as Industrial Palace now in motion: devo dizer que adoro esta ilustração clássica de Fritz Kahn. Não só pela sua qualidade estética, e herança direta do modernismo, mas por mostrar a importância que colocamos nas metáforas para compreender o mundo. Tempos houve em que o corpo era visto como um mecanismo de relojoaria, insuflado por espírito ou energia. Hoje, recorremos aos algoritmos e à computação como forma de compreender quer como pensamos, quer os sistemas complexos em que estamos inseridos. No auge industrial da era moderna, a metáfora era a máquina, a linha de montagem.

It's All Greek to You and Me, So What Is It to the Greeks? : Ok, indo direto ao assunto, chinês. A expressão grega equivalente ao nosso "ver-se grego" é ver-se chinês. É curioso que esta é uma expressão transversal a todas as línguas europeias. Pessoalmente, percebo. Grécia faz-me sentir analfabeto, não só por não conhecer a língua, mas porque qualquer sinalética, texto, tudo o que envolva letras no alfabeto grego é incompreensível para quem não o conheça. É assim que se sentem os analfabetos no dia a dia, incapazes de decifrar os códigos visuais que são a base da literacia.

You Probably Haven’t Heard *Of* This Tune, But You’ve Almost Certainly Heard It. Is It History’s Most Enduring Melody?: vinda de um cancioneiro português do século XV, esta melodia manteve-se viva ao longo dos séculos, quer na música erudita quer na popular. É ao ouvir as versões quinhentistas dela, surpreende o quanto soam à música pop de hoje. Daquelas músicas que todos conhecem, mas ninguém se lembra exatamente de onde a ouviu. O perfeito, e erudito, exemplo de vírus aural.

One Family’s Story of Survival Under the Khmer Rouge, No Longer Buried: Fotografia e memória, na história de uma família que sobreviveu a um dos mais violentos e sangrentos regimes ditatoriais do século XX.

2001: A Space Odyssey pushed blockbuster cinema to a new plane of star-child brilliance: Nunca me canso de ler sobre este, que é o mais sublime dos filmes de ficção científica, talvez aquele que capte melhor a essência do género.

Swipe right for revolution: Why Hong Kong protesters are using Tinder and Pokémon Go: O que é que se faz quando se luta contra um adversário que controla todos os meios de comunicação? Improvisa-se, cooptando aplicações para usos inesperados de guerrilha urbana.

What Is the Greatest Movie Quote of All Time?: Que desilusão de escolhas. Ninguém se lembrou de Schwarzenegger no filme Erasure, a mandar crocodilos desta para melhor dizendo you're luggage.

“We are not publishing such fiction” – Sleep with Lisbon by Fausta Cardoso Pereira: Uma excelente análise das problemáticas da edição de ficção científica e fantástico por cá. Há o desinteresse, ou melhor, o desdém das editoras e ambiente cultural por este tipo de ficções. Há as comunidades de leitores, que se alimentam de ebooks ou encomendas da Amazon ou Bookdepository, porque sabem que dificilmente conseguirão ler o que gostam traduzido para português. Algo que não passa despercebido aos potenciais editores, que sabem que o seu mercado potencial já leu em inglês os livros que lhes poderiam vender. E o terrível paradoxo de um excelente romance de fantástico português, premiado e editado na Galiza, mas impossível de encontrar nas livrarias portuguesas, e rejeitado pelos nossos editores (true story: é um livro fácil de encontrar nas livrarias de Santiago de Compostela).

Concept art for the Lancia Stratos Zero, by G. Betti, 1971: Um sopro de futurismo do passado.

Navy ditches touchscreens for knobs and dials after fatal crash: A primeira reação a isto é pensar que, afinal, os interfaces analógicos são mais eficazes que os digitais. No entanto, a leitura revela que a falha aqui foi de treino de tripulações, e de design de interface mal concebido.

domingo, 18 de agosto de 2019

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MAAN/MOON: The only exhibition that sparked my enthusiasm about space exploration: Um curador a sofrer de ennui artístico vai a uma exposição que cruza arte com ciência, na celebração da exploração espacial, e sai de lá fascinado. Pela descrição, espero que seja daquelas exposições que chegue ao MAAT.

What if your boss knew how much you slept last night?: Com toda a seriedade, investigadores desenvolvem uma aplicação que permite a empregadores monitorizar o tempo de descanso dos seus funcionários, mesmo fora do local de trabalho. Os objetivos até são bons, perceber se as pessoas não estão a ter trabalho excessivo é um deles. Mas... algo me diz que dificilmente este tipo de aplicações seria usada de forma tão benéfica. Já para não falar da enorme invasão da privacidade que isto representa.

Make-Believe in Macau: Um vislumbre da vida de luxo dos jogadores dos casinos mais exclusivos de Macau, vista pelo olhar de uma consultora que é paga para fingir que pertence ao mundo exclusivo dos luxos, por uma empresa que avalia a qualidade dos hotéis e serviços topo de gama. Há empregos piores...

Complete run of MAKE magazine on archive.org: Isto soa mal, mas há vantagens na Make: Media se ter afundado na falência. Agora, todo o arquivo da fantástica Make: Magazine está disponível online.

Your Smart Toaster Can’t Hold a Candle to the Apollo Computer: É um cliché, dizer que um telemóvel atual tem muito mais potência computacional do que a NASA dispunha quando levou o homem à Lua. Mas nestas coisas da computação, potência não é tudo. Na verdade, é uma questão de capacidades. O final do artigo diz tudo, quando o autor observa que de facto, os nossos smartphones são dispositivos computacionais poderosos, mas só os usamos para consultar apps de redes sociais.


Ray Harryhausen’s Restored Models Revealed on 99th Birthday: Conhecedores do cinema fantástico sabem o quão incontornável é o trabalho de Harryhausen do domínio dos efeitos especiais. Para celebrar o seu nonagésimo aniversário, algumas das suas mais icónicas armaturas estão a ser restauradas. E continuam espantosas.

Singapore Says It’s Fighting ‘Fake News.’ Journalists See a Ruse.: Quando o combate à propaganda e fake news é, em si mesmo, um meio de reforço dos autoritarismos. O caso de Singapura é flagrante: as leis de combate às notícias falsas podem tornar-se uma forma de silenciar o pouco jornalismo independente que sobrevive na cidade-estado. A ironia? As fake news são uma arma propagandista de eleição dos regimes autoritários, quando querem desestabilizar as democracias ocidentais.


The First Pictures From Rick and Morty Season 4 Are Uncharacteristically Blissful : E o que é Rick and Morty, perguntam-se? Talvez o best. Scif-fi. TV show. Ever (digam isto na voz do comic book guy dos Simpsons). Depois de três temporadas insanas daquela que é a série mais descarrilada, e culta, cheia de referências a toda a cultura geek, tem um regresso marcado para breve. Só digo uma coisa: wubbalubbadubdub! Quem conhece, percebe.

“Rick and Morty” Season 4: I’m Mr. Meeseeks! Here’s Your SDCC Preview!: Mais alguns detalhes sobre a nova temporada de Rick and Morty. Poicos, muitos poucos para satisfazer a curiosidade.

Here Are All the Screw Ups in the Top Gun: Maverick Trailer Already: O que é que acontece quando conhecedores da aviação militar naval norte-americana vêem o trailer do novo Top Gun? Uma lista de tudo o que está errado.

Here Are Your 2019 Eisner Awards Winners: A lista dos nomeados, e vencedores, dos prémios Eisner. Uma excelente lista do melhor que se faz atualmente nos comics.

QR is King: Um relato incrível da experiência chinesa com dinheiro digital, que se tornou tão ubíquo nas cidades que substituiu totalmente os pagamentos em dinheiro ou cartão. O telemóvel tornou-se o meio essencial de pagamentos. No entanto, não há qualquer interesse chinês em fazer alastrar estes sistemas à escala global, exceto para chineses em viajem pelo estrangeiro. Os motivos não são económicos, mas políticos. Na sociedade de hipervigilância em que a China se tornou, sistemas de transação digitais são mais uma forma do governo manter debaixo de olho o que os cidadãos estão a fazer.

Monkeywrenching the Machine: Perante uma tecnologia pervasiva, haverá sempre quem a queira - ou precise, subverter. Com inteligência artificial, é relativamente simples subverter os algoritmos. A regra é clássica: garbage in, garrbage out. As técnicas baseiam-se em subverter os parâmetros de análise dos algoritmos, distorcendo intencionalmente os seus inputs. Pode ser uma opção de revolta, tática de cibercrime, ou estratégia de defesa contra a hipervigilância em regimes autoritários.

Las 14 novelas de ciencia ficción y fantasía que han ganado el Premio Minotauro hasta el momento: Não há por cá um prémio que distinga a literatura de ficção científica e fantástico tal como do lado de lá da fronteira. Desculpem, minto. Por cá temos o Adamastor, organizado pelo Fórum Fantástico, mas que vai na sua terceira edição. Temos ainda algum caminho a percorrer, mas estamos a fazê-lo, finalmente. Em Espanha, há catorze anos que há prémios para o melhor da ficção fantástica, e os seus vencedores parecem ser uma excelente introdução ao melhor da FC em castelhano.


25 Essential Artworks of the Past 50 Years: Escolher as melhores obras de arte contemporâneas é uma daquelas discussões infindáveis. O New York Times atreveu-se a desafiar um grupo de curadores a definir quais as obras mais influentes.

Steve Bannon used location targeting to reach voters who had been in Catholic churches: Poderia comentar o crescimento dos extremismos e dos discursos polarizantes e violentos, mas creio que a verdadeira história aqui é outra. Está na forma em que mostra como os nossos dados digitais são agregados e utilizados, aqui num exemplo extremo, mas que é prática corrente na economia digital. Quando se diz que os dados são o novo petróleo, é a isto que se referem.

HOW U.S. TECH GIANTS ARE HELPING TO BUILD CHINA’S SURVEILLANCE STATE: Podia olhar para esta notícia sob a perspetiva da distorção financeira dos valores de liberdades e garantias. Mas, tal como na leitura anterior, a minha intuição diz-me que o mais importante ponto de reflexão desta notícia não é o mais óbvio. O que me deixa realmente surpreendido é a escala gargantuesca e profundo nível de intrusividade dos sistemas de hipervigilância chineses. Graças à tecnologia digital, não há recantos mais recônditos da vida privada dos cidadãos que escape à vigilância estatal.

This AI turns your headshot into a portrait painted by a master: Nada de novo aqui, mas é sempre divertido experimentar. Este algoritmo de transferência de estilos foi treinado com imagens de pintura renascentista, e transforma fotos com base nesse estilo.

ZMORPH PUBLISHES MATERIALS LIBRARY FOR ADDITIVE AND SUBTRACTIVE MANUFACTURING: Um guia útil para ficar a conhecer melhor os materiais mais comuns para impressoras 3D e CNCs,

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

MOTELX 2018


Havia um espírito diferente no ar durante este MOTELX. Notava-se uma ausência de elementos decorativos nos espaços do festival. Não houve morcegos pendurados no teto, ou enxames de balões vermelhos. Nada de sangue falso nas casas de banho. O único espaço mais decorativo foi montado pela TVCine, com props alusivas a séries  e filmes numa zona criada com o sentido estético de uma loja chinesa. Todo o ar de evento in e fashionista que se tem feito sentir no festival estava bastante discreto. De tal forma que quando correu o rumor da presença de James Franco numa das sessões não se traduziu numa multidão de selfies. Pessoalmente, quando me disseram isso e o apontaram nas pessoas que saíam da sala Manoel de Oliveira, pensei mas este não é o Jess Franco, é demasiado novo, e espera, o Jess Franco ainda é vivo?” Continuo a fazer uma ideia muito pálida de quem é James Franco. E, empinando o nariz, estou bem assim. A minha cinefilia é mais de estruturas narrativas e estéticas fílmicas.

Para grande surpresa minha, não dei com sessões esgotadas. Terão sido efeitos da sobreposição com a Comic Con? No meu caso, como  a minha experiência na convenção no Porto não foi especialmente apelativa (como alguém me disse este fim de semana, na Comic Con, pagas bilhete para gastar dinheiro, e se essa não é a melhor descrição do evento, não anda longe), escolher o MOTELX foi no brainer.

Senti que estava realmente num festival de cinema. Poucos hipsters, muitos fãs e uns polvilhos de celebridades, porque estamos em Portugal e dá-se valor a essas coisas. Ajudou ter visto uma seleção de filmes que, tirando um (spoilers: não é o musical com Zombies), eram interessantes,  consistentes e até arrepiantes, sensação rara para cinéfilos endurecidos.

Fraquinho, fraquito foi o spot MOTELX. O do ano passado roçava o perturbador, este ano a coisa foi mais convencional com Templários, livros envoltos e relâmpagos e esqueletos com toques de Ray Harryhausen. Visualmente bem feito, mas de uma temática banal.



Ghostland (Pascal Laugier, 2018)

Coisa estranha. Dei por mim a sentir arrepios na espinha. Este é um daqueles filmes surpreendentes, que nos troca as voltas. Começa como drama, a explorar as tensões entre duas irmãs, e segue pelo que aparenta ser um banal torture porn. Depois muda, passa pelo terror psicológico e história de fantasmas clássica, até nos atingir no estômago com um brutal regresso  à violência. A história desafia continuamente as expetativas do espetador, e a realização magistral agarra-nos à  cadeira. A premissa do argumento parece um banal episódio de policial procedimental. Duas irmãs, são raptadas  e torturadas na casa isolada para onde vão viver por dois psicopatas. Assistem à  morte da mãe e só lhes esperam horrores às mãos dos raptores. Uma das jovens, aspirante a escritora de terror e apaixonada pela obra de Lovecraft, mergulha num mundo de fantasia para não aceitar a realidade violenta. Terá de despertar, enfrentar os seus captores e junto com a irmã  sobreviver. O filme vive de uma desavergonhada estética vitoriana decadente, com uma casa envelhecida recheada de bric a brac e bonecas creepy. No fundo  foi  obra mais Grand guignol que vi nos últimos tempos.


Anna and the Apocalypse (Jon McPhail, 2017)

Uma comédia musical de zombies é o tipo de ideia que pode funcionar espetacularmente ou falhar redondamente. Este filme consegue falhar nas duas vertentes, tal a inépcia do realizador. O seu verdadeiro problema é ser inconsistente. Tenta ir à comédia, ao drama, ao musical e ao horror. Esforça-se imenso por isso, tem gags de comédia sangrenta deliciosos, mas não se sustém em linha contínua. Os momentos dramáticos são pouco convincentes e no que toca ao terror, a mesma coisa (o que, sendo comédia, faz sentido). No musical, diria que o melhor é a falta de sincronização entre os atores e a voz. Imaginem um videoclipe com cantores desfasados com a música, a abrir e fechar a boca como peixes fora de água. O realizador bem tenta usar referências irónicas à teen comedy no musical, mas a forma como filma não funciona. O argumento narra as desventuras de Anna, uma jovem a acabar o liceu e cheia de vontade de ir viajar pelo mundo, e dos seus amigos, família e tirânico diretor da escola durante um zombie outbreak. Tem premissas sólidas, ironiza e muito os filmes de adolescentes, mas não consegue chegar onde poderia. Dei por mim a passar  o tempo a combater a vontade de ir ver que horas eram. Safa-se uma cena, onde uma jovem adolescente a encarnar a iconografia de cantora sexy dos anos 50 canta uma canção muito marota numa festa de Natal na escola, completa com uma coreografia de ajudantes adolescentes de pai natal vestidos só com calçõezinhos em poses sugestivas com bengalas. Shaun of the Dead continua a ser a referência na comédia de terror zombie. Anna and the Apocalypse queria juntar-se ao clube, mas não consegue. Apesar das suas deficiências, tem momentos divertidos, e persiste na memória dos fãs do género como algo que não se leva a sério mas homenageia com ironia os pressupostos dos zombies.


The Ranger (Jenn Wexler, 2018)

Uma jovem punk e os seus amigos estão em fuga depois de uma rusga onde um polícia foi esfaqueado. O plano passa por se esconderem numa casa isolada nas montanhas, onde a jovem passou a sua infância com um tio morto em circunstâncias misteriosas (correndo o risco de spoilar, envolve a jovem, armas de fogo e memórias traumáticas suprimidas). Mas a montanha é protegida pelo guarda florestal from hell, um agente da lei que leva demasiado a sério as infrações ao código do parque florestal e as pune com extremo prejuízo. O filme demora a arrancar, passando muito tempo a explorar as tensões internas do grupo de amigos e as contradições do anarquismo punk. Quando chega o ponto certo, explode num varrimento sangrento de slasher/psychokiller. Mais thriller do que horror, é um filme eficaz filmado numa saturação suave que invoca os anos 80.


Gonjiam Haunted Asylum (Beom-sik Jeong, 2018)

Este foi o segundo filme desta edição do MOTELx que genuinamente me arrepiou. Obra sul-coreana, aplica a estratégia cinema vérité/found footage à clássica história de casa assombrada. É uma técnica que Blair Witch Project e suas imitações levaram à banalidade, e que neste filme se distingue por replicar a estética, ou falta de, do streaming para o YouTube. Todo o filme está concebido para nos colocar no papel de alguém que segue um canal, com múltiplos pontos de vista e uma sensação de improviso constante. Não o é, claro, senão o filme não seria tão eficaz, mas simula muito bem o estilo vlogger. A história é típica casa assombrada, com os personagens a visitar à noite um lendário asilo em ruínas assombrado pelos espíritos dos seus pacientes. O objetivo é filmar um evento para canais de vídeo online ganhando dinheiro com visualizações, e para isso alguns dos personagens falsificam efeitos de suposto sobrenatural. Mas o horror está lá, violento, visceral e inexplicável, e quando se manifesta fá-lo de formas completamente arrepiantes. Ver este filme, a obra mais creepy que vi nos últimos tempos, é ter garantidos saltos na cadeira e arrepios na espinha.


Ghost Stories (Jeremy Dyson, Andy Nyman, 2017)

Este é o terceiro filme que vi no MOTELx este ano que conjurou momentos de arrepio. Tem uma estética antiquada, muito literária. Há muito de MR James e Arthur Machen (com referências muito óbvias a The White People). O espírito do horror vitoriano é muito bem invocado numa história que vive de sombras onde se ocultam forças estranhas, capazes de levar os homens à loucura. Quem ler estas linhas poderá pensar que este é um filme de época. Bem pelo contrário. A história é contemporânea, sobre um investigador do paranormal que se especializa em desacreditar místicos e a mostrar que as histórias do oculto não passam de mistificações ou efabulações. Contactado pelo seu inspirador, investiga três casos arrepiantes que testam os limites do seu ceticismo, e acabam por o mergulhar em memórias aterrorizantes de adolescência. O final é um inesperado plot twist, que ata as pontas com uma lógica realista. Este tipo de artifício narrativo é em si mais um aceno à tradição literária do terror britânico.


Veronica (Paco Plaza, 2017)

Inspirado num caso real acontecido na Madrid dos anos 90, este é um daqueles filmes de pavio lento, que segue o seu caminho de forma metódica, avolumando a sensação de terror até ao final explosivo. Muito bem conseguido em termos de ritmo, sempre em suave crescendo sem dispersar a atenção do espetador. A história, apesar de pender muito para o sobrenatural clássico, não deixa para trás alguma ambiguidade. Verónia pode ser uma adolescente que atraiu espíritos malévolos após uma sessão mal concebida de espiritismo seguindo as instruções de uma enciclopédia em fascículos, durante um eclipse solar, ou uma jovem que entra em colapso mental ao sentir as pressões da puberdade. Há muito invocar da sensação de presença de espíritos imundos, uma estética que evoca muito bem os anos 90, um desempenho excelente dos atores mais jovens, que levam o filme aos ombros, e um constante remeter para a música dos Heroes del Silencio.


Aparelho Voador a Baixa Altitude (Solveig Nordlund, 2002)

Todos os anos o festival recupera um filme esquecido do cinema fantástico português (é pouco, mas existe). Confesso que é o meu momento favorito do MOTELX, por poder ver obras que só quem tem acesso aos arquivos da Cinemateca normalmente veria. Não são necessariamente bons filmes - a cinematografia de António de Macedo é a grande exceção, alguns estão muito datados, mas mostram que ao longo da história do cinema português houve muitos cineastas que se atreveram a contrariar a dicotomia entre cinema altamente erudito ou muito popular, que sempre caracterizou os nossos meios culturais.

E este é mesmo um filme inesperado. É mesmo uma ave rara no panorama cinematográfico português. É de ficção científica pura, apesar de não ter rayguns nem naves espaciais. Adapta uma obra JG Ballard, um dos maiores escritores de FC do século XX. Fá-lo transportando fielmente para o ecrã, com parcos meios, a estética literária do autor.  A FC aqui é o fantástico inner space dos autores da New Wave dos anos sessenta, com personagens solipsistas em paisagens decaídas e mundos de apocalipse lento. As ruínas inacabadas do complexo turístico de Tróia, à altura da filmagem ainda não revitalizadas e transformadas (ah, a ironia) no espaço profundamente ballardiano que são hoje (leiam Super-Cannes e percebem onde quero chegar), são o pano de fundo de uma história onde um mundo envelhecido mas que se recusa a desaparecer é obrigado a dar lugar ao seu sucessor. Num filme sem pretensões mas a ir muito longe, Solveig Nordlund canaliza na perfeição a estética própria de JG Ballard. De todas as adaptações cinematográficas da sua obra, este é, talvez, o filme que melhor transmite a visão estética de uma modernidade solitária, ostensivamente de resorts brutalistas com a água azul das piscinas a brihar sob o sol do deserto do real.


Brother’s Nest (Clayton Jacobson, 2018)

Diz muito sobre a monotonia um filme quando adormeci durante boa parte e mesmo assim não perdi o fio à meada da história. Não que este seja um mau filme. É uma história de um profundo humor negro, sobre dois irmãos que decidem matar o enteado para recuperar a herança da casa. Tudo correrá mal, e morre quase tudo, enteado, mãe e um dos irmãos . O filme vive do diálogo entre os dois irmãos, numa progressiva espiral de loucura homicida. O problema é que não passa muito disso. É daqueles filmes que se vê enquanto se faz outra coisa. Como dormitar um pouco para retemperar energias.


Errementari (Paul Urkijo Alijo, 2017)

Foi com este filme que terminei o meu MOTELX deste ano, e que final em grande! Começo pela ironia de ver um filme espanhol que os espanhóis só podem ver com legendas. Todos os diálogos estão em basco, essa língua que soa a invocação do demo. Errmentari vai buscar a sua estética ao folclore do país basco, numa história cativante sobre um ferreiro que, depois de vender a alma a um demónio, acaba por o aprisionar na sua forja. Este verdadeiro mean son of a bitch (isto tem basco deve soar melhor), tem na verdade um bom coração, que se revela com a interação com uma jovem orfã, pela qual se atreve a descer aos infernos para o salvar. Para grande azar dos demónios. História divertida, fortemente enraizada no folclore quer basco quer espanhol, e com uma fotografia fortíssima, de fazer suspender a respiração.

domingo, 4 de março de 2018

Visões



Ramiro (Manuel Mozos, 2017)

Por momentos, pensei que iria ver o filme sozinho na sala de cinema. Com a sessão quase a começar, ainda apareceram mais algumas pessoas. Dia de estreia, e na sessão da noite no cinema do El Corte Inglès sete pessoas viram este novo filme de Manuel Mozos.



Ramiro é uma comédia suave, um filme que, parafraseando a clássica série Seinfeld, é sobre coisa nenhuma. Como aponta o realizador em entrevista, não há grandes clímaxes ou dilemas, apenas uma sucessão de pequenos elementos do dia a dia das personagens. Que, ao contrário da série, não são urbanos egocentristas, mas pessoas quase normais que vivem as suas vidas numa cidade que vai desaparecendo. Ramiro é um poeta não praticante, bloqueado na sua inspiração, que ganha a vida como alfarrabista. Partilha a vida com as vizinhas, uma velhota amnésica a recuperar de um AVC e a sua neta, uma adolescente grávida para quem Ramiro é um misto de amigo e quase pai. Tem um cliente regular na livraria, que nunca lhe compra livros mas passa lá os dias, um companheiro de copos que é dono de uma gráfica, um editor que não se esquiva aos lucros mas tem um fraquinho por poetas que não editam, e uma amiga colorida com a qual tem uma relação entre a amizade e o amor, sem complicações. E, claro, um cão, com o nome de Ortigão (que lhe assenta como uma luva). A professora da adolescente ameaça entrar na vida de Ramiro como outro interesse amoroso (o argumento aqui comete duas imprecisões de quem não conhece a profissão docente, nenhum diretor de turma está tão mal informado sobre os seus alunos e o registo de morada e contatos é obrigatório para se ser diretor de turma) (percebem, se verem o filme). As rotinas do dia a dia só ameaçam alterar-se com o contacto com o pai da adolescente, preso por assassinar a mulher.

Com ingredientes destes, poderíamos esperar uma comédia romântica, daquelas banais e sensaboronas que fazem as delícias dos públicos. Não seria isso que se esperava deste realizador. O filme é uma sucessão de momentos, a verdadeira história é a das vidas que se cruzam. E nisso, é encantador.  O humor é suave, mas mordaz. Se não percebem a piada de ter um cão Ortigão num filme sobre um alfarrabista, necessitam de ler mais livros. Há um forte toque de nostalgia neste filme, não só nas aventuras dos personagens, que se sente com maior intensidade na forma como Lisboa é filmada. Não é a cidade moderna e dinâmica da política e economia que a câmara de Mozos foca, nem o parque temático de falso tradicionalismo para consumo turístico.  

Ramiro desenrola-se na Lisboa dos lisboetas, entre a Feira da Ladra e Campo dos Mártires da Pátria, onde as cervejarias servem imperiais com gambas e se pode comer um prego na tasca de nome minhoto, daquelas com mesas de mármore e sob perpétua ameaça da ASAE. Uma das minhas memórias cinéfilas nostálgicas é esperar pelas sessões no Cinema King a saborear uma ginja na leitaria minhota que ficava em frente. Nada disto existe, hoje. Apesar de não viver em Lisboa, nasci e criei-me lá, os ambientes que Mozos filma são o que para mim é a essência de Lisboa, a verdadeira cidade onde se vive, cada vez mais ameaçada pelas pressões da gentrificação e do turismo.

Entre a nostalgia, uma cidade que se desvanece e as deliciosas sucessões de nadas do dia a dia,  comédia tranquila e elegante, Ramiro é um filme especialmente satisfatório para bibliófilos. Tanto livrinho, a alimentar o fascínio pelas ideias fixadas em papel com tinta de impressão, deixa os amantes dos livros estonteados. Uma boa medida do que é um filme interessante são as sensações que perduram após o visionamento. Aquele gostinho que se recorda passado uns tempos. Uns dias passados após ter visto este filme, perdura o sentimento que é uma obra encantadora.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

aCalopsia: The Last Jedi


Cumprindo o ritual anual, a Guerra nas Estrelas regressou aos cinemas. Não resistimos ao seu fascínio e mergulhamos no mais recente filme da saga. Chegámos de novo àquela altura do ano em que media e fãs voltam a mergulhar no frenesim anual de Guerra nas Estrelas. Com os planos da Disney para a saga, este tornou-se mais um ritual anual de natal, que se prevê não ter fim à vista. As folhas de cálculos dos estúdios dificilmente ficarão satisfeitas com o nono episódio.

O impacto cultural destes filmes na cultura popular é inegável, ao qual não é alheia a bem oleada máquina de marketing e merchandising. Para fãs de Ficção Científica, esta série traz as suas agruras, especialmente porque o tipo de fantasia que forma o seu universo ficcional está conotado pelo grande público como ficção especulativa. Ir ou não ao cinema ver este filme deixou de ser uma questão. É inevitável. Resta saber se vale mesmo a pena, se compensa o valor do bilhete. Pergunta de resposta óbvia para os fãs, mas nem tanto para os restantes potenciais espectadores. Crónica completa no aCalopsia: The Last Jedi, Sem Fim no Horizonte.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

MOTELx 2017


O festival MOTELx tornou-se um ritual de fim de verão, no meu caso de arranque de ano letivo. Nada como preparar o espírito para o frio cinzendo das invernias que se avizinham com doses concentradas de cinema de terror. E nada como monstros, assombrações e baldes de tripas e sangue para me preparar para os horrores arcanos da convivência diária com professores e alunos no sistema educativo. O festival continua abrangente e eclético, talvez um bocadinho demasiado nos holofotes da moda comercial, algo inevitável e necessário à sua sobrevivência. Temos no programa um pouco de tudo, desde obscuros filmes portugueses (este ano não vi nenhum, infelizmente) aos filmes com pretensão a blockbuster (e promoção intensiva a condizer). Continua com os seus programas paralelos, com atividades para lá da cinefilia, ciclo na relutante Cinemateca, animação no espaço do cinema S. Jorge. E os gelados, claro, este ano sem os adereços de terror da IScream, mas com a deliciosa mestria dos gelados artesanais, feitos com as metodologias italianas, da Giallo. Confesso que terminei os dias do MOTELx um pouco mais anafado. E não sou caso único.



À Meia Noite Levarei A Sua Alma (José Mojica Marins, 1967)

Ainda em modo warmup, o primeiro filme da leva MOTELx deste ano. Como parte da programação, a Cinemateca organizou um mini-ciclo de cinema de terror sul-americano. Com alguma relutância, suspeito, depois de ouvir o comentário pouco convincente do responsável da Cinemateca no início da sessão. Foi uma boa oportunidade para rever este clássico do cinema de terror, o primeiro do lendário ciclo Zé do Caixão de José Mojica Marins, cineasta que, de acordo com António Monteiro, organizador do festival, se confunde com as suas personagens. Aqui encarna-a com veia, mostrando o porquê de ser um seu alter ego. É um filme deliciosamente incongruente, que transporta a iconografia do horror gótico para um cenário de tropicalismo empobrecido. Memorável pelo carácter obsessivo, cenas over the top conseguidas com efeitos mínimos e rústicos.



Super Dark Times (Kevin Phillips, 2017)

O filme de abertura do Motelx deste ano posicionou-se como um clássico instantâneo, uma espécie de novo Donnie Darko. Leva-nos à clássica small town americana no início dos anos noventa, focado num grupo de adolescentes que, após a morte acidental de um dos seus elementos mergulha numa espiral de paranóia, com um dos personagens a tornar-se serial killer. O filme é suportado pelo excelente trabalho dos actores, que conseguem criar uma enorme empatia com o espectador, e a sua estética cinzentista e revivalista. De resto, falha, arrastando-se numa história facilmente compreensível e menos misteriosa do que o anunciado. A única comparação possível com Donnie Darko é a forma eficaz como toca na nostalgia de época, com um tremendo revivalismo dos primórdios da década de 90 do século XX.


The Masque Of The Red Death (Roger Corman, 1964)

Entre a cinematografia lendária de dois gigantes do cinema, Roger Corman e Vincent Price, a série de filmes góticos adaptando contos de Edgar Allan Poe destaca-se. Neste, os talentos combinados destes monstros do cinema aliam-se ao olhar estético de Nicholas Roeg para uma adaptação barroca de um dos contos seminais de Poe. Price delicia-se claramente  no encarnar de um personagem fútil e implacável, que se compraz na corrupção moral dos que o acompanham, não descansando enquanto não recorre a todos os meios para destruir a inocência. Todo o filme é uma elegia à futilidade, mostrando que o dinheiro e o esplendor podem criar a ilusão de uma superioridade humana, facilmente aniquilada por imperativos biológicos. Nenhum luxo, ciência ou pacto demoníaco resiste ao poder da pestilência. O filme brilha num fortíssimo esplendor cromático, com um trabalho implacável de enquadramentos que tira partido do formato cinemascope para tornar quase paisagísticas as cenas de um filme de close ups e ambientes fechados. A sessão contou com a presença de Roger Corman, com visionamento prejudicado pelas condições da sala, pouco arejada e com um som demasiado estridente. Uma constante nas sessões do festival que decorreram no Tivoli.




78/52 (Alexandre Philippe, 2017)

Um documentário dedicado à sequência mais memorável do cinema de terror: a icónica cena do chuveiro no filme Psycho. O trabalho inquietante de Hitchcock é dissecado ao pormenor clínico, onde os aspecto técnicos são abordados mas o que realmente conta é a análise das influências e impactos desta cena de um filme. Neste aspecto, alguns depoimentos parecem sofrer da análise excessiva, procurando ver na cena e no filme muito mais do que o que realmente lá está. Para além do brilhantismo técnico de Hitchcock, ficou a sobressair o seu sentido muito negro de humor.




Santa Sangre(Alejandro Jodorowsky, 1989)

De Jodorowsky não esperamos banalidades. Santa Sangre é, nas suas palavras, uma tentativa de compreensão do que se passa no interior da mente de um assassino, bem como da impossibilidade de inexistência de redenção. A mente fragilizada de Fénix, traumatizado pela morte violenta dos pais e perda do seu amor precoce, transforma-o num assassino em série que, projectando a imagem mental da sua mãe desmembrada no seu inconsciente, o leva a matar qualquer mulher que lhe desperte o desejo sexual. Todo o filme é um exercício de psicadelismo, misturando o saber iniciático com uma visão arrepiante das tradições mexicanas sobre a vida e a morte. Santa Sangre é um crescendo contínuo de delírio, um filme que sempre que pensamos não poder ir mais longe, nos choca e surpreende.


Cult of Chucky (Don Mancini, 2017)

 Não vale a pena esperar muito da mais recente iteração sequencial das aventuras deste personagem diabólico. Agrada aos fãs de Chucky, como se notou pelo contentamento visível na sala e debandada quase generalizada após o final numa sessão dupla. Tem algumas mortes divertidas e apropriadamente sangrentas, muitas tiradas de humor negro dos bonecos assassinos, e uma história previsível com um twist final não muito inesperado. Um filme de terror pipoca, que dá continuidade a uma saga cinematográfica já de si pouco interessante.


Meatball Machine Kodoku (Yoshihiro Nishimura, 2017)

Não é o melhor filme que vi nesta edição do Motelx (essa distinção fica para Masque of the Red Death, Santa Sangre e o surpreendente Housewife), mas é sem dúvida o mais memorável. É difícil transmitir o quão awesomely louco é este delírio visual. A sinopse, sobre um homem não muito bem sucedido que aos cinquenta anos encontra o amor e se vê mergulhado numa luta contra cyborgs mutantes, não lhe faz justiça. Todo o filme é um delírio entre o body horror, gore e cyberpunk, com deformações insanas do corpo humano e algo que só pode ser descrito como torrentes imparáveis de sangue. Deliciosamente absurdo e divertido, em registo de exercício de estilo alucinante. Um tipo de filme só possível vindo da estranha cultura japonesa.


Animals (Greg Zglinski, 2017)

Filme na competição para o prémio Motelx, esta co-produção suíça, polaca e austríaca mergulha-nos na vida de um casal em desagregação. Ela é uma escritora a tentar criar o seu primeiro livro para um público adulto, ele é um chef cozinheiro que trai a mulher em todas as ocasiões, apesar de não ter deixado de a amar. Numa viagem de férias para uma casa isolada onde a escritora poderá escrever o seu livro, um acidente automóvel deixa-a inconsciente. O filme é notável pelo conceito, nunca nos deixando perceber qual é a sua realidade. Os acontecimentos narrados de forma não linear deixam-nos sempre na dúvida. Estaremos a ver alucinações, assombrações, delírios ou os sonhos sincopados do estado de coma. O seu visual também nos cativa. No entanto, o ritmo demasiado lento, cheio de tempos mortos, torna este filme muito soporífero.


Housewife (Can Evremol, 2017)

Começa como slasher, segue em ritmo de thriller psicológico, e termina em horror apocalíptico lovecraftiano. Este filme foi uma excelente surpresa, embora não esteja isento de problemas. Uma dona de casa, casada com um investigador do paranormal, tem no seu passado um fortíssimo trauma, causado pela morte violenta da irmã e dos pais num acesso de loucura da mãe. Um trauma que condiciona a sua maneira de viver, que será abalada pelo regresso de uma amiga há muito desaparecida, que a iniciará no culto de um guru espiritual. Este revela-se mais do que um mero charlatão, utilizando-a para trazer ao mundo um bebé ímpio, prenúncio de uma nova geração de seres malditos. É impossível não sorrir com o final do filme, profundamente lovecraftiano, com os requisitos monstros tentaculares, após momentos de parto anti-natural fortemente reminiscentes de The Brood, filme de David Cronenberg. Apesar de apostar no gore e terror psicológico, tem alguns momentos menos ritmados e um estranho defeito. Trata-se de um filme turco, com atores turcos, que pretende demasiado ser americano, mas aqueles sotaques não disfarçam.


Spot Motelx 2017 (Jerónimo Rocha, 2017)

A passar mais despercebido, embora tenha iniciado todas as sessões do festival. Foi a experiência visual mais incómoda, talvez verdadeiramente arrepiante, que retirei deste festival de cinema de terror. Os spots do Motelx são curtas metragens de direito próprio, e normalmente surpreendem pela qualidade. Têm estéticas cuidadas, focadas nas iconografias do género, e socorrem-se de adereços e efeitos visuais que pensamos serem inauditos no panorama nacional. Mas são, no fundo, experiências visuais confortáveis, por muito sangrentas ou viscerais que sejam as imagens. A barreira do ficcional nunca foi transposta. Exceto no spot deste ano. Ao invés de seguir a estética esperada do horror, com tripas e criaturas, optou pelo registo found footage e meteu-se com uma tradição totalmente nacional, a dos Diabos de Vinhais. Aqui revistos como um grupo violento que tortura e mata um casal nas matas. É forte, violento, arrepiante. E incómodo, quer na estética quer no tema, por mexer com o nosso imaginário e ser explícito na violência. Este ano não foram zombies, dons Sebastião vindos das brumas, ou naves aterrorizadas por criaturas. Foram os demónios do imaginário tradicional português, encarnados no que poderia perfeitamente ser um grupo de psicopatas matarruanos a assolar as matas do isolado interior profundo português.