domingo, 4 de março de 2018

Visões



Ramiro (Manuel Mozos, 2017)

Por momentos, pensei que iria ver o filme sozinho na sala de cinema. Com a sessão quase a começar, ainda apareceram mais algumas pessoas. Dia de estreia, e na sessão da noite no cinema do El Corte Inglès sete pessoas viram este novo filme de Manuel Mozos.



Ramiro é uma comédia suave, um filme que, parafraseando a clássica série Seinfeld, é sobre coisa nenhuma. Como aponta o realizador em entrevista, não há grandes clímaxes ou dilemas, apenas uma sucessão de pequenos elementos do dia a dia das personagens. Que, ao contrário da série, não são urbanos egocentristas, mas pessoas quase normais que vivem as suas vidas numa cidade que vai desaparecendo. Ramiro é um poeta não praticante, bloqueado na sua inspiração, que ganha a vida como alfarrabista. Partilha a vida com as vizinhas, uma velhota amnésica a recuperar de um AVC e a sua neta, uma adolescente grávida para quem Ramiro é um misto de amigo e quase pai. Tem um cliente regular na livraria, que nunca lhe compra livros mas passa lá os dias, um companheiro de copos que é dono de uma gráfica, um editor que não se esquiva aos lucros mas tem um fraquinho por poetas que não editam, e uma amiga colorida com a qual tem uma relação entre a amizade e o amor, sem complicações. E, claro, um cão, com o nome de Ortigão (que lhe assenta como uma luva). A professora da adolescente ameaça entrar na vida de Ramiro como outro interesse amoroso (o argumento aqui comete duas imprecisões de quem não conhece a profissão docente, nenhum diretor de turma está tão mal informado sobre os seus alunos e o registo de morada e contatos é obrigatório para se ser diretor de turma) (percebem, se verem o filme). As rotinas do dia a dia só ameaçam alterar-se com o contacto com o pai da adolescente, preso por assassinar a mulher.

Com ingredientes destes, poderíamos esperar uma comédia romântica, daquelas banais e sensaboronas que fazem as delícias dos públicos. Não seria isso que se esperava deste realizador. O filme é uma sucessão de momentos, a verdadeira história é a das vidas que se cruzam. E nisso, é encantador.  O humor é suave, mas mordaz. Se não percebem a piada de ter um cão Ortigão num filme sobre um alfarrabista, necessitam de ler mais livros. Há um forte toque de nostalgia neste filme, não só nas aventuras dos personagens, que se sente com maior intensidade na forma como Lisboa é filmada. Não é a cidade moderna e dinâmica da política e economia que a câmara de Mozos foca, nem o parque temático de falso tradicionalismo para consumo turístico.  

Ramiro desenrola-se na Lisboa dos lisboetas, entre a Feira da Ladra e Campo dos Mártires da Pátria, onde as cervejarias servem imperiais com gambas e se pode comer um prego na tasca de nome minhoto, daquelas com mesas de mármore e sob perpétua ameaça da ASAE. Uma das minhas memórias cinéfilas nostálgicas é esperar pelas sessões no Cinema King a saborear uma ginja na leitaria minhota que ficava em frente. Nada disto existe, hoje. Apesar de não viver em Lisboa, nasci e criei-me lá, os ambientes que Mozos filma são o que para mim é a essência de Lisboa, a verdadeira cidade onde se vive, cada vez mais ameaçada pelas pressões da gentrificação e do turismo.

Entre a nostalgia, uma cidade que se desvanece e as deliciosas sucessões de nadas do dia a dia,  comédia tranquila e elegante, Ramiro é um filme especialmente satisfatório para bibliófilos. Tanto livrinho, a alimentar o fascínio pelas ideias fixadas em papel com tinta de impressão, deixa os amantes dos livros estonteados. Uma boa medida do que é um filme interessante são as sensações que perduram após o visionamento. Aquele gostinho que se recorda passado uns tempos. Uns dias passados após ter visto este filme, perdura o sentimento que é uma obra encantadora.

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