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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Faltar Parafuso

 

Que o grande mestre Vilhena me perdoe. Não resisti, por causa da capa, a trazer esta peça bibliográfica para a minha coleção de robots (vá, é aquele humor picaresco do Vilhena, mas muito, muito suave) e... porque não brincar com umas trends de geração de imagem, transformando desenhos bizarros em imagens realistas? 


O Gemini foi muito fiel ao espírito original da imagem.


O ChatGPT explodiu de glamour. Tudo muito retro, como se esperaria de remisturas via IA do estilo gráfico do humor popular dos anos 60.

Suspeito que se tentasse isto com o "Criada para todo o çerviço" (o erro ortográfico não é distração)  ou outros títulos da sua lendária, provocadora e prolífica obra, acabaria com as contas suspensas, que o mundo digital mainstream não está cá para atrevimentos.

Ando a ver demasiados grupos de cursed ai, daí estas ideias manhosas, mas se me permitirem a marotice, quer o gemini quer o gpt tratam muito bem a voluptuosidade das mulheres pelo traço de Vilhena. 

Se não sabem quem foi Vilhena e sua a importância pop-cultural, a vossa vida é menos feliz por isso.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Robots


Clive Gifford (2008). Robots. Sintra: Everest. 

Bem, é um livro para crianças, mas é divertido mergulhar no barroquismo gráfico desta obra dedicada à robótica. Tem  um certo ar retro, especialmente porque os exemplos vêm todos do final do século XX e primeiros anos do XXI, e sabemos o quanto este campo tem avançado desde então. Como bónus interessante, tem elementos pop up que enriquecem a experiência.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

AI Innovation Garden BPI

 


Não perdi a oportunidade de ir visitar a segunda edição do AI Innovation Garden no BPI. Não esperava muito, este tipo de eventos são muito corporate, reina a vacuidade do marketing, a profundidade e sentido crítico são nulos. A mensagem reinante é de uma discplicência intelectual confrangedora, e de deslumbre com a superficialidade das ferramentas. Por outro lado, não é todos os dias que podemos interagir com um andróide Unitree G1, por isso enfrentei o suplício de aturar o discurso corporate delicodoce.  





"Ou até ter de pagar a alguém para fazer isto", conclui, animado, um jovem guia da exposição. Começou a sua apresentação de ferramentas de AI in business a contar-nos que era filho de donos de um restaurante de bairro e mostrou como usou a IA para recriar o design, criar um site (com críticas falsas, referiu) ou gerar uma apresentação para convencer o banco a emprestar-lhe dinheiro. Tenho por hábito nestes momentos o de não interromper, porque quem está ali a falar connosco está apenas a fazer o trabalho para o qual foi contratado, e apesar da tenra idade, suspeito que a ironia de ser pago para dizer coisas como "não é preciso pagar a ninguém" não lhe escapa, até porque deve estar a ganhar pouco menos do que o salário mínimo. Isto, caso não lhe tenham acenado com a ilusão de um voluntariado para fazer currículo.

Também não me escapou a ironia de estar na sede de um banco a ouvir um representante do banco a mostrar como fazer uma apresentação sem quaisquer dados reais para fazer um pedido de empréstimo.

Confesso, gosto muito de IA, mas é deprimente assistir a todo este discurso de deslumbre e elogio da preguiça. Faz por ti, é só pedir, não tens de te preocupar, fica logo tudo prontinho e nem sequer precisas de pagar a outros para fazer as coisas. É um discurso de profunda desresponsabilização intelectual. Uma pura sociedade do espetáculo, diria Debord, ou uma cultura de fancaria, penso eu com o calão lisboeta. É uma atitude que sempre existiu, mas com a IA, este anti-intelectualismo e cultura do esforço mínimo tornou-se moda.

A cereja em cima do bolo? O grupo onde estava atrasou-se a sair, e assisti a outro guia da exposição a fazer exatamente o mesmo discurso, para outros visitantes. Tudo tão displicentemente falso, e assumido.



Foi também algo doloroso ouvir as guias da exposição a mostrar robots educativos - daqueles que poucos usam, e a referir que já havia umas escolas no norte a trabalhar robótica, mostrando que quem organizou a exposição não se deu ao trabalho de fazer o trabalho de casa. Provavelmente, perguntou ao chatgpt. É um inacreditável tiro ao lado, falar desta forma num país com uma tradição crescente na robótica educativa, com alunos da escola pública que vencem regularmente campeonatos internacionais de robótica.


Vá, até fiquei parecido. Um dos pontos interessantes da AI innovatiion garden é o seu robot que desenha com IA. Tinha de experimentar, quando pediram um voluntário ultrapassei a minha habitual relutância e ofereci-me. 

O processo é bizarramente laborioso - implicou tirar uma foto, incorporar no Gemini para gerar um desenho à linha, que depois teve de ser manualmente editado no photoshop para ser incorporado no software de controle do braço robótico. A imagem resultante não ficou como pretendia à primeira, nem à segunda, e só não houve terceira porque não deixei que a guia da exposição perdesse mais tempo a repetir o prompt. 

Achei um excelente exemplo de como não usar IA, pensando no longo historial de projetos de open source que fazem o mesmo com câmaras, arduino, axidraws e similares, sem ter a trabalheira manual de usar IA. Leva também a refletir na forma como a IA, ou em bom rigor, as ferramentas de interface para interacção com modelos, ajudam a aprofundar o desconhecimento. Quem não conhece, fica a pensar que esta é a maneira de executar um processo. 

Foi uma boa metáfora para os solucionistas da IA, que nos impingem automação às três pancadas de processos que de outra forma funcionariam melhor. Nisto, não conheço melhor exemplo que as labirínticas delícias kafkianas dos sistemas inteligentes de atendimento telefónico, que parecem ter sido concebidos para levar os utentes ao desespero, e são a melhor personificação da expressão de Doctorow - a IA não te tira o emprego, mas o teu patrão convence-se que lucra mais se te despedir e usar uma ia que faz mal o teu trabalho. 

Mas vá, acertou no cabelo hirsuto e barba desgrenhada. 

Apesar dos elogios à displicência, vale a pena visitar a segunda edição da AI Innovation Garden, por duas singelas razões - dá para interagir com dois robots daqueles que nos seria difícil de encontrar no dia a dia.

terça-feira, 25 de junho de 2024

Medieval Robots


E.R. Truitt (2015). Medieval Robots: Mechanism, Magic, Nature, and Art. Filadélfia: University of Pennsylvania Press.

Robótica e Idade Média não são dois conceitos que estejamos habituados a ver inteligados. Este livro muda isso, mostrando-nos como na Idade Média foram férteis os ideários que conduziram à robótica de hoje. Claro, não falamos aqui dos robots complexos que nos estimulam a imaginação e revolucionam a sociedade. A visão medieva era diferente, combinava mito e saber artesanal.

Este livro cruza diversas vertentes. Uma é eminentemente mítica e mística, com uma análise à literatura medieva que nos mostra muitas referências a seres artificiais e artefactos mecânicos maravilhosos. Textos que se encontram em obras religiosas ou no imenso manancial de gestas cavaleirescas, que descrevem maravilhas mecânicas, das quais o trono mecânico de Bizâncio é o mais icónico.

Para mostrar que há uma raiz nos mitos e fantasias, Truitt vira-se para a história da ciência, recordando-nos da tradição de criação de elaborados mecanismos que nos vem da antiguidade clássica, dos tratados mecânicos que preservaram o saber grego e romano, e o ampliaram, no mundo árabe. Fala-nos do costume oriental de criar elaborados autómatos cujo movimento simulava vida, para maravilhar os visitantes das cortes como símbolos da sabedoria, costume esse também adotado pela nobreza europeia como forma de mostrar a sua riqueza, como relatos de elaboradas decorações do que hoje consideramos animatrónica nos palácios. 

Mitos, cruzados com a evolução do saber científifico e tecnológico, que acabam por ter a sua maior expressão num objeto que raramente relacionamos com a robótica, mas que está na sua origem direta: o relógio. Primeiro, como expressão e aplicação do saber mecânico no estabelecimento de métodos de registo da passagem do tempo, mas também como artefacto de maravilha, com o desenvolvimento de dioramas animados progressivamente mais elaborados, que representavam cenas das tradições locais ou mitos religiosos. Algo que hoje ainda nos deslumbra, nos famosos relógios mecânicos que para além de registar a passagem do tempo, nos maravilham com os seus autómatos, condenados a repetir os mesmos gestos mecanizados a cada marco temporal.

A história não termina aqui, os mecanismos de relojoaria encontraram a sua máxima expressão nos autómatos do século XVII e XVIII, onde a sofisiticação evoluiu até tocar nos rudimentos do que hoje designamos por programação. Se os cartões perfurados do tear de Jacqard são considerados os antecessores do computador programável, que dizer dos autómatos de Jacquet e Drosz, com intricados mecanismos que permitiam programar diferentes ações? Mas estas, são outras histórias. Truitt detém-se na idade média, nos seus mitos, visões de maravilha, mas também na forma como o saber mecânico evoluiu nesses tempos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

The Robot Museum

 






































Visita ao The Robot Museum, a razão que me levou a tirar dois dias em Madrid, já estava com vontade de conhecer este espaço há algum tempo (mas, pandemia, não deu mais cedo). O espaço em si não é grande coisa, essencialmente uma loja média num centro comercial madrileno. Já o acervo, é incrível! A coleção inclui réplicas à escala real de robots icónicos (pensem Robbie, pensem Lost in Space), uma coleção enorme de robots Aibo, com várias versões antigas funcionais, brinquedos mecânicos japoneses, robots Pepper e ASIMO, entre muitos outros artefatos representativos da história da robótica, das suas visões na cultura popular. Só lhes faltava uma turtle bot papertiana, e um Anprino (piada, claro, mas de bom grado enviaria um dos meus para este museu). Um museu que precisava de um espaço maior e mais condigno à sua excelente coleção.