quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Breviário das Más Inclinações


José Riço Direitinho (2011). Breviário das Más Inclinações. Lisboa: Quetzal.

Acompanho há bastante tempo o panorama da literatura fantástica portuguesa, e apesar das muitas leituras que tenho feito, são raros os livros que realmente exploram estéticas de um fantástico verdadeiramente português. Não que desgoste do que se faz, mas vejo na nossa literatura fantástica uma preocupação em recriar padrões externos, ou explorar as estéticas comuns ao terror e fantasia globais. Fantasmagorias, assombrações, criaturas de pesadelo, ambientes góticos, body horror, que estão tão à vontade nos becos lisboetas como nas vielas londrinas. Advém das influências que moldam os nossos criadores, e de um espírito de cosmopolitismo urbano que o desenvolvimento do país fez alastrar das grandes cidades a todo o território. Alguns criadores olham para os mitos portugueses e tentam recriá-los nestes quadros conceptuais, trazendo as especificidades da nossa cultura para os domínios do fantástico.

Mas há um outro Portugal, cada vez mais desaparecido no emaranhado de vias rápidas e infraestruturas que aproximam os lugarejos mais perdidos da modernidade contemporânea. Um país de isolamento, de superstições arreigadas, de mitos locais, de gentes que vivem em territórios agrestes, num mundo onde a pobreza, o parco alfabetismo, a religiosidade cristã, mitos e superstições milenares e as paisagens agrestes convivem. Um país que hoje recordamos mais pelos registos etnográficos que podemos visitar nos museus municipais das zonas interiores urbanizadas, que recordam os tempos de um passado mais isolado. Passado, certo, mas não tão distante quanto isso. Certamente que muitos da minha geração ainda recordam o olhar centenário e as rugas dos nossos avós e bisavós, as suas histórias estranhas e visões de um mundo rural tão distante da nossa vida urbana e suburbana. Dessa memória do passado há tantos mitos e tradições que trazem um fantástico cru, por vezes violento, telúrico e milenar, mas a que poucos escritores têm tentado pegar, e, por ironia, os que melhor olham para estas estéticas e mitografias são autores que não estão associados ao género.

Recordo livros como O Meu Mundo Não É Deste Reino de João de Melo, Como Sobreviver Depois da Morte de André Costa, ou Andam Faunos Pelos Bosques de Aquilino Ribeiro (admito, aqui estou a esticar um pouco a corda...), que mergulham o leitor num fantástico do saber rural, dos seus ritos e mezinhas. Um, com a revisão da povoação dos Açores através da história de um homem duro, outro com o congelar das memórias num tempo em que a modernidade começa a alterar a tradição, e no brilhantismo de Aquilino a colisão entre o saber do povo, a condescendência do clero e as pulsões do corpo.

Adiciono este Breviário das Más Inclinações a esta restrita lista. É um livro que nos mergulha num isolamento raiano que se começa a esboroar, entre a guerra civil espanhola e a inevitável modernização, mas que ainda se mantém como mundo de mitos e mezinhas, de saberes populares com profunda ligação à natureza, de histórias e prodígios que se contam e recontam entre as vozes das comadres e das noites nas tabernas. Onde o mundo natural, de lobos e javalis, é mortífero, e o mundo humano, feito de jogos, invejas, enganos, também o pode ser.

Há uma certa base de romance de cordel no conto cruel de José do Risso, criança que nasceu com má sina e a herdar  a sabedoria da avó para mezinhas curandeiras. A vida será trágica e curta, entrecortada com episódios de honestidade duvidosa, momentos em que o homem faz aquilo que tem de fazer, quer seja em resposta às pulsões do corpo quer do sentido pessoal de justiça. 

O que distingue a narrativa é envolver-nos num véu de misticismo tradicional e sobrenatural discreto. Não há fantasmagorias ou criaturas do demo, mas há um constante sentimento de assombro, de um mundo natural compreendido através de superstições milenares. 

A prosa é brilhante, daquelas que nos prendem às páginas, mas o que destaco da leitura é o não ter medo de tocar nas correntes subterrâneas por onde pulsa o lado mais remoto do caráter português.