terça-feira, 8 de setembro de 2026

Nó Cego


Carlos Vale Ferraz (2008). Nó Cego. Lisboa: Casa das Letras.

A Guerra Colonial não é um tema que a sociedade portuguesa consiga discutir. Há demasiadas memórias vivas, demasiados ânimos que se exaltam quando sequer se levanta a palavra sobre esses tempos. Ainda há quem se arreigue ao mito do ultramar, do país do minho a timor. Outros focam-se no lado de guerras de libertação. O próprio termo usado para designar esta guerra é contencioso e abre espaço a discussões acintosas. Pessoalmente, prefiro o termo colonial, porque de facto o foi - um último estertor de um regime que não foi capaz de ler o espírito dos tempos, arreigado a mitos e mantendo uma guerra insustentável, com enormes custos humanos e materiais, deixando feridas que ainda hoje não sanaram. Uma guerra que, como todos os conflitos, não foi preto no branco, teve matizes muito incómodos, e foi no fundo um enorme desperdício de vidas, de recursos de um país pobre, e de tempo. 

Talvez uma das razões que leve ao afastamento da discussão sobre estes tempos da esfera pública seja mesmo uma sensação de incomodidade. Num país que projeta a imagem de moderno e acolhedor, plenamente integrado na Europa, paraíso para turistas e fazedor de unicórnios financeiros (e a pagar o preço dos baixos salários, rendas elevadas, custo de vida incomportável e uma legislatura corrente que está apostada em destruir os parcos serviços sociais que nos restam), é incómodo recordar que há não tanto tempo como isso estávamos a meter a ferro e fogo territórios africanos, combatendo uma guerra suja, contando como aliados os racistas sul-africanos e rodesianos. É uma mancha que fica mal na foto do Portugal do século XXI.

Ideias em que se fica a pensar, ao terminar a leitura deste espantoso livro. O autor, pseudónimo literário de um militar que tendo servido nos Comandos em África e participado nalgumas operações violentas, sabe o que está a romancear. A história é ficcional, mas anda desconfortavelmente próxima de algumas aventuras militares dos teatros de guerra colonial. E não é preciso ter um conhecimento muito profundo para perceber quem é caricaturado pela figura do general K, amante de grandes operações militares em modo custe o que custar.

Esta leitura não é confortável. Acompanhamos o dia a dia de uma companhia de comandos, homens que pelas mais diversas razões (na maior parte das vezes, por desespero numa vida agrilhoada na ditadura) se voluntariaram para um corpo especial preparado para as missões mais violentas. E violência não falta nas suas operações, entre as patrulhas, emboscadas e ataques a bases inimigas em que são envolvidos, como ponta de lança.

Não esperem um livro de aventura empolgante. As histórias que o compõem não são elogios ao espirito de aventura militar, heroísmos icónicos e combates valorosos. Pelo contrário. Mergulham-nos numa violência desconfortável, retratando a queda no abismo daqueles soldados. Nenhum sairá inocente da guerra, nem incólume. Os que não morrem na mata ou são feridos nas operações, levam consigo o peso da violência em que se viram envolvidos. Quer a que sofreram, quer a que infligiram nos guerrilheiros e populações civis. Por detrás de tudo, a sensação de fatalidade de viver uma guerra inútil, de arriscar a vida e matar para cumprir as vontades de oficiais e governo cuja visão da realidade não corresponde ao espírito do tempo.

O romance é brilhante e explosivo. Ao mesmo tempo um retrato da guerra colonial feito através das experiências dos soldados que nela combateram, suspeito que memória romanceada das experiências do seu autor, e uma reflexão sobre como a capa da civilização depressa desaparece na selva com uma arma na mão.