quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Arcas Encoiradas


Aquilino Ribeiro (1962). Arcas Encoiradas. Lisboa: Bertrand.

É um prazer, mergulhar na prosa rendilhada de Aquilino. A leitura é um desafio, este autor conhecia a língua como poucos e não tinha medo de se atrever a levá-la aos extremos. Este livro não é um romance, mas sim uma coletânea de textos à moda de crónicas. Soa estranho, ler e apreciar crónicas escritas no passado, a refletir sobre temas e problemas há muito esquecidas, mas estas não são crónicas de costumes ou feitos que só fazem sentido no seu momento contemporâneo.

Aquilino olha para o país profundo e antigo, analisando primeiro a rica tradição de arquitetura megalítica de uma forma que não comento. O seu saber literato estava em óbvio conflito com os estudos arqueológicos, mas não deixa de ser interessante ler a ligação que faz entre os povos de antanho com os habitantes serranos que tão bem conhecia. 

Passa daí a olhares sobre o interior português, descrevendo a riqueza cultural e de vivências das beiras e minho. Olha para as cidades e vilas, nalguns casos com elogio cultural, caso de Viseu com o seu museu hoje dedicado a Grão Vasco, noutras, temperando com as suas memórias de juventude, caso de Lamego, onde entretece recordações do seu tempo de estudante com a cidade dos seus tempos. As terras, as gentes, as paisagens duras e belas, os modos de vida e um elogio saudável ao "vom binho berde" (e como o compreendo!) ficam registadas nestas crónicas de um tempo, e de um país, que já não existe. Embora seja interessante perceber, pelas minhas próprias experiências de boa hospitlidade, melhor comida, gentes simpáticas e serranias de perder o fôlego entre o verdejante da floresta e o cinzento das penedias, que se evoluímos e mudámos, há algo no carácter que se mantém, perene. Um modo de estar e viver que Aquilino intuiu vir já desde os tempos em que erigíamos antas nos ermos e serranias.