Mark Mosedale, Si Smith (2026). Gigs. Marietta: Top Shelf.
Não consigo deixar de ler este Gigs como um grito de alarme e revolta das novas gerações face ao futuro distópico que o nosso deslumbre alucinado pelas bigtech lhes quer impor. Construído a partir de histórias episódicas que se interligam com detalhes e personagens em comum, toca nas consequências do capitalismo late stage alimentado pelos algoritmos. Mostra-nos um futuro que, em grande medida, já é o nosso presente: um fosso enorme entre os mais ricos e os que os servem, e uma sub-classe permanentemente empobrecida que sobrevive do rendimento universal, mas é forçada a participar numa economia de biscates geridos por algoritmos. Enquanto a sociedade se degrada, o planeta caminha em direção ao colapso ecológico.
Percebe-se o desespero que leva Gigs a ser escrito, mas não é um livro com falta de esperança. Muito pelo contrário, as histórias são contadas pelo ponto de vista daqueles que estão do lado de quem está a perder, e mostram como se pode reagir a um descalabro perante o qual nos sentimos impotentes. Sim, o livro reflete aquele sentimento de impotência que todos sentimos perante mais um anúncio de brilhantes resultados económicos face a despedimentos massivos de pessoas trocadas por IA. Mas diz-nos que podemos resistir a isso, que se nos sentimos impotentes perante o grande panorama, podemos nas nossas vidas, no nosso dia a dia, ter as nossas ações de resistência, de independência pessoal face à gestão algorítmica das nossas vidas.
Reflexão sobre as más mudanças que a tecnologia, ou melhor, a tecnologia manipulada pelos um percentistas está a impor à sociedade global, é também um livro que nos mostra que podemos resistir, organizarmo-nos e tentar, nos nossos reduzidos âmbitos, não baixar os braços para tentar legar um mundo melhor aos nossos sucessores. Por impossível que isso agora nos pareça.