Alan Smale (2022). Hot Moon. Rockville: CAEZIK SF & Fantasy.
Ah, sabe tão bem ler ficção científica no seu mais essencial: aventura no espaço e especulação bem urdida. Não me interpretem mal, isto não é um comentário contra as vertentes mais complexas do género, até porque se a FC se tivesse mantido neste espírito clássico não teria evoluído em termos temáticos e estilísticos, e já teria desparecido enquanto género literário. Mas a aventura de deslumbre de premissa simples (mas com complexa construção de mundo ficcional), quando bem feita, recorda-nos a base da FC.
Este é um daqueles livros que não se consegue parar de ler. Não é particularmente complexo, segue as aventuras de uma astronauta cuja primeira missão lunar, no final dos anos 70, a mete no meio de uma disputa da guerra fria que se torna quente. O sonho da astronauta que só quer ser a primeira comandante de um módulo lunar a alunar acaba por se tornar numa sucessão de peripécias quando cosmonautas e o KGB fazem um ataque às estações espaciais e base lunar americanas. O ritmo é vertiginoso, e somos mergulhados numa visão da exploração espacial que coloca soviéticos e americanos em órbita e a construir bases lunares, numa ação de guerra espacial para que a Rússia neutralize uma ameaça militar secreta, com uma base lunar militar americana capaz de lançar projéteis sobre a Terra.
A aventura segue em grande estilo, com uma sucessão inaudita de peripécias em órbita ou na superfície lunar. A especulação é destravada e temos de tudo, entre batalhas campais por entre as crateras lunares, périplos desesperados, explosões atómicas e batalhas no espaço... entre módulos Apollo e LEM soviéticos. É, como é óbvio, uma leitura muito divertida, apesar de por vezes a sucessão imparável de sevícias aventureiras em que o autor coloca a sua heroína se tornar cansativa.
O lado aventura pura cheia de adrenalina no espaço é temperado por uma excelente dose de ficção especulativa, muito bem informada. O livro é também uma história alternativa, que se pergunta o que teria acontecido se os soviéticos tivessem sido os primeiros a pousar na Lua, e os americanos não tivessem torrado dinheiro e vidas na guerra do Vietname, investindo esses recursos numa corrida espacial mantida ao rubro pela capacidades orbitais soviéticas. O autor fez muito bem o seu trabalho de casa, dando vida nesta sua ficção aos muitos projetos de veículos orbitais, estações especiais, módulos, habitats e veículos lunares que quer os engenheiros soviéticos quer os americanos propuseram, desenvolveram mas não saíram do papel.