quinta-feira, 25 de junho de 2026

As Maravilhas do Ano 2000


Emilio Salgari (1949). As Maravilhas do Ano 2000. Lisboa: Romano Torres.

Admito o gosto por pegar em obscuras obras de assumido futurismo escritas no passado. Não olho para elas com a lente jocosa dos oráculos falhados, é mais por genuína curiosidade em descobrir visões retrofuturistas, perceber como no passado se especulava sobre o seu futuro, e a forma como os pressupostos da época em que foram escritos são extrapolados no tempo. Ler a visão do futuro vinda do passado ensina-nos não só sobre os modos e pensamentos desses tempos, mas também a ter a humildade que aquilo que hoje pensamos, extrapolamos e especulamos será, futuramente, visto como uma curiosidade epocalista datada.

Este achado de alfarrabista atraiu-me pelo tema e capa, uma simples mas majestosa ilustração no estilo que hoje denominamos gernsback continuum. Desconhecia que Salgari se tivesse dedicado à ficção científica, este escritor ficou no firmamento da literatura fantástica pelas aventuras do seu personagem Sandokan. Pessoalmente, nunca apreciei por aí além, mas a geração dos meus pais adorava (e sim, isto é um comentário nada subtil ao imobilismo da cultura pop, cujas maquinarias de produção estão tão focadas em espremer o máximo de lucro da minha geração que não estão a criar nada de realmente novo que a renove para as próximas gerações). 

O livro parte de uma premissa clássica - um médico do século XIX que desenvolve um elixir milagroso que suspende a vida, e convence um amigo a embarcar com ele numa arriscada odisseia: encerrar-se num túmulo em hibernação, esperando que graças à magia da burocracia os seus futuros herdeiros os resgatassem passados cem anos. Que é, claro, o que acontece, senão o romance terminaria no terceiro capítulo. 

Segue-se a também clássica estrutura narrativa do romance-périplo, onde o autor pega na mão do leitor e o leva, através dos seus personagens, numa viagem de descoberta do mundo ficcional do livro. O futurismo de Salgari é urbanizado, pouco claro em termos políticos mas alinhando na ideia de prosperidade global graças aos frutos da ciência e economia aliadas a sãs formas de governo e a extinção das guerras. Há contactos com marcianos, via ondas rádio, não por viagens espaciais, o futurismo salgariano não chega aí. Viaja-se por veículos aéreos, a vida quotidiana é de luxo burguês. Comboios subterrâneos vencem as distâncias continentais, e para os oceanos há navios híbridos, capazes de navegar e voar. A força motriz da civilização futura é a eletricidade, obtida por barragens e pelo uso do rádio, sem conhecer aquele leve efeito secundário cancerígeno que sabemos advir da radioatividade. 

Diga-se que o futuro salgariano não é uma utopia que nos convenha. Por detrás do urbanismo tecnológico, há uma destruição planetária, com o arrasar da natureza para ter campos de cultivo para alimentar as populações. Isso é apresentado como um progresso, o que está em linha com os ideais progressista da época. Há um interesse histórico no mundo natural, relegado para zonas muito remotas, mas a ideia principal é a de um planeta que deve ser modificado para uso humano. 

Para um leitor dos nossos tempos, há um pormenor que torna a leitura muito desagradável, o seu óbvio racismo. No século XX de Salgari, que é uma espécie de utopia do homem branco, o crescimento demográfico das populações de origem africana e asiática é visto como uma ameaça para a civilização. Hoje, temos um nome para isso, a "teoria da substituição", uma das bandeiras dos delírios perigosos da extrema direita. As menções a etnias e minorias não são muito melhores, com os narradores do futuro a comprazerem-se com a extinção de povos autóctones e indígenas, pela sua incapacidade em adaptar-se ao admirável mundo novo. Quem vive no passado é desnecessário.

Politicamente, a coisa não é muito melhor. Este século XX é uma utopia burguesa de conforto e tranquilidade, mas quem se atrever a ser dissidente é retirado da sociedade, isolado em localidades no polo norte ou em cidades submarinas. Os celerados que não se submetem ao consenso comum são excluídos. Na utopia salgariana, para o relativo conforto de um exílio, apesar da ameaça de eliminação em caso de revolta. Na realidade dos tempos de que nos chega o livro, este ideário legou-nos o campo de concentração.

Estarei a ser injusto ao lançar uma luz tão negativa sobre estes aspetos? Nem por isso, mesmo à sua época as visões de progresso já eram capazes de ultrapassar este manifesto destino superior do homem branco que infunde as especulações. É também de notar uma total ausência de personagens femininas no livro, neste futuro as mulheres não entram. Assume-se que existem, senão as raças não se reproduzem, espero... mas na verdade nada é mencionado sobre estes aspetos. Teria de saber mais sobre Salgari para perceber se este ignorar é intencional, ou falta de capacidade do autor.

A história em si perde o rumo a meio, quando Salgari tenta transformar um interessante romance-périplo por espaços futuristas numa história de aventuras. Aí, o livro perde o interesse, e o final é verdadeiramente patético. Os dois homens do passado acabam declarados loucos, não por insistirem na sua história mirabolante, mas como efeito secundário da exposição contínua à eletricidade, algo corriqueiro para os homens do século XX  salgariano, mas a que os corpos dos nossos heróis do século XIX não se conseguem habituar. Termina assim esta utopia, com um aviso sobre se os eventuais perigos que a eletrificação da sociedade, a dar passos decisivos nos tempos de vida do autor, não seria um terrível malefício para o corpo e alma humanos.