quinta-feira, 19 de março de 2026

A Longa Tarde da Terra

 


Brian Aldiss (1986). A Longa Tarde da Terra. Lisboa: Gradiva.

Estou, provavelmente, a cometer um erro conceptual ao escrever isto, mas não consigo deixar de pensar neste livro com uma obra de cli-fi antes do movimento. É uma simplificação, claro, dado que o cli-fi se foca nas consequências das alterações climáticas induzidas pela atividade humana e este livro, além de anteceder em décadas a vertente da FC, tem uma premissa diferente. Mas no seu cerne, está a preocupação em especular sobre quais serão as consequências a muito longo prazo de alterações no clima planetário.

Neste futuro distante, a humanidade e as suas obras são uma memória perdida. Ainda há humanos, vivendo em grupos isolados e assumindo formas que por vezes são irreconhecíveis como tal. O mundo cobre-se de uma enorme floresta. Na visão de Aldiss, olhamos para um tempo em que o Sol se encontra a amadurecer e a chegar ao fim do seu ciclo de vida. A sua expansão trouxe radicais alterações climáticas, com a quasi-extinção da vida tal como a conhecemos. O mundo vegetal foi o que melhor se adaptou às novas condições, e evoluiu de uma forma verdadeiramente selvática, com as plantas a assumir muitos dos nichos anteriormente ocupados pelas formas de vida animal. As plantas tornam-se agressivas, móveis, carnívoras e reveladoras de comportamentos estigmérgicos para emergir no topo da cadeia, dominando o novo ecossistema planetário. Começam até a expandir-se, de forma natural, atingindo a órbita terrestre, colonizando a Lua, e tornando-se capazes de expelir vagens que poderão realizar viagens interestelares.

Bizarro, certo? Esta obra é mesmo uma leitura muito inesperada que não merece ficar esquecida.

É neste panorama de fundo que assistimos às aventuras de um jovem humano, que começa a vida a sobreviver com o seu grupo no meio das árvores. Quando o seu grupo maternal se desfaz - uma necessidade organizativa, quando os mais velhos sentem que já não são capazes de assegurar a segurança do grupo, o jovem inicia um périplo pelo estranho mundo. Curiosamente, em modo de encerramento de ciclo, no final do livro irá reencontrar o seu grupo maternal original, que passou pelo ritual da ascendência - abandonar os seus jovens, subir ao topo das árvores para se encerrar em vagens, pensando que chegou o final das suas vidas, mas acabar por se ser propulsionado para a Lua e, num novo ecossistema, sofrer alterações corporais que lhes dão uma nova vida, bem como a missão de regressar periodicamente à Terra para tentar trazer humanos para esta nova forma de ser.

O périplo do jovem é cheio de aventuras, atravessando um mundo hostil mas ao qual está habituado. Depara-se com outras tribos e outras humanidades, entra em simbiose com um fungo inteligente que o usa como instrumento para deixar o planeta, interage com térmites semi-inteligentes e depara-se com outras formas de vida animal inteligente e consciente. Chega até a encontrar vestígios de uma humanidade há muito esquecida. Em pano de fundo, o estranho mundo onde a natureza vegetal expansiva e agressiva evolui num tumulto, seguindo um imperativo biológico de sobrevivência, inconsciente e instintivo, que perante a proximidade da extinção do sistema solar com a explosão do Sol em nova (é um futuro muito distante, o deste livro) consegue criar condições para levar as sementes de vida para lá do sistema solar.

A prosa cerrada de Aldiss evita que este livro delirante se torne num delírio surreal, embora a imagem mental que as descrições da sua natureza me tenham evocado uma espécie de surrealismo ao estilo frottage de Max Ernst em tons verdejantes. O voo especulativo é sólido, imaginando um mundo onde os caminhos da natureza seguem percursos inesperados, com uma vida vegetal agressiva e nada vegetativa.