Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

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Load. Overload.

George Steiner em The New Yorker



George Steiner (2010). George Steiner em The New Yorker. Lisboa: Gradiva Publicações.

Este livro que colige ensaios sobre literatura e escritores publicados na revista New Yorker apaixona pela profunda erudição. Mais do que crítica literária ou análises à vida e obra de autores, Steiner polvilha estes ensaios com uma profunda visão crítica, cruzando detalhes reveladores de um profundo conhecimento sobre história e literatura com uma prosa que mantém o leitor agarrado à página, fascinado pelo delicioso saborear da erudição bem escrita.

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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

O Pássaro Pintado



Jerzy Kosinski (2006). O Pássaro Pintado. Viana do Castelo: Livros de Areia.

Livros de Areia | O Pássaro Pintado

Ao terminar a leitura deste livro fiquei estupefacto com o seu carácter brutal. Não um brutal enquanto espectacularidade na acepção que agora gostamos de dar à palavra, mas como um reflexo do horror das profundezas da alma humana. O Pássaro Pintado é uma obra implacável, um mito aniquilador de mitos, uma visão desapiedada sobre uma humanidade embrutecida.

A obra narra as desventuras de uma criança que no início da II Guerra se perde dos pais aquando da invasão alemã da cidade onde reside e deambula por aldeias eslavas até ser recolhido por tropas do exército vermelho. Os locais da obra nunca são desvendados, deixando-nos supor que se passam algures por entre a Polónia e a Ucrânia. O horror da guerra das grandes batalhas e movimentos estratégicos passa ao lado deste livro, onde os torcionários alemães apenas se pressentem ao longe e os soldados russos são apresentados como uma força libertadora inspirada no ideário do partido comunista. A maior parte da história desenrola-se nas aldeias e florestas eslavas, que Kosinski pinta não com o ar bucólico que habitualmente associamos à pureza da vida campestre mas como locais embrutecedores, habitadas por gentes violentas, desprovidas de moral, supersticiosas, sem horizontes, bêbadas, interesseiras e capazes das maiores atrocidades para se beneficiarem. Aqui o livro é implacável, retratando sem dar hipótese de redenção alguns dos piores aspectos do espírito humano.

O pássaro pintado que dá nome à obra surge no início do livro, ao ser narrado um hábito de um dos camponeses violentos que acolhe o personagem principal, rapaz cujo nome nunca é desvendado. Este, para atrair a atenção de uma mulher louca que é usada por todos os homens da aldeia, pinta pássaros que captura com cores garridas e depois solta-os, tendo como única consequência a patética morte destes às bicadas dos restantes pássaros do bando. É uma desapiedada metáfora de como preferimos a uniformidade do grupo e rejeitamos violentamente aquilo que nos parece diferente, mesmo que seja parte de nós.

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Domingo, 28 de Novembro de 2010

Machete



IMDB | Machete

Machete classifica-se como um dos filmes mais divertidos e delirantes que vi nos últimos tempos, apesar de não ser inesperado. Basta olhar para o nome do realizador, Robert Rodriguez, e pensar nas homenagens ao grindhouse que este fez em conjunto com Tarantino. Ou, esforçando mais os neurónios, podemos sempre pensar no para a época em que surgiu inovador El Mariachi.

Não vos vou maçar com pormenores sobre o enredo do filme. Este é uma desculpa para encadear cenas de acção fortemente violentas onde balas, sangue e tripas não são poupados. Embora com um interessante subtexto sobre os problemas da imigração nos dias de hoje, estamos a falar de um filme assumidamente camp, e notável por isso.

O elenco é de luxo, e acerta em cheio nalguns actores. Danny Trejo representa Machete, um ex-polícia mexicano que se vê envolvido numa verdadeira guerra urbana entre imigrantes e vigilantes no Texas. Ecoando o clássico Cheech and Chong, Cheech Marin encarna o irmão de Machete, padre que renuncia a violência mas não a charutos ou charros. Jessica Alba e Michelle Rodriguez representam duas persongens icónicas, a primeira uma polícia do serviço de imigração que mantém o sentido de justiça e a segunda uma versão feminina de Guevara, líder de uma rede clandestina de auxílio a imigrantes. Lindsey Lohan surge no papel de filha de ar virginal mas dependente de drogas de um dos literais maus da fita (papel paradoxal para esta actriz com ar virginal e dependência de adições). Robert DeNiro diverte-se a encarnar um político populista e corrupto, financiado por barões da droga. Don Johnson, imortalizado como o polícia canastrão da série dos anos 80 Miami Vice representa um vigilante de fronteiras apostado em travar as vagas de imigrantes a uma bala de cada vez. Steven Seagal, num raro papel em que o seu ar de canastrão lhe assenta como uma luva, representa um barão da droga seguidor da via do samurai. E tom Savini surge com um absurdo mercenário, embora alguns efeitos especiais tenham se não o seu toque pelo menos a sua inspiração.

Este filme vive de iconografias, detalhes delirantes e personagens unidimensionais que encarnam elementos mitificados pelo lado mais simplista da cultura mediática popular. E vive particularmente de situações de violência extrema mas divertida, exageros grand guignol abusivos e fetichistas, onde comédia e acção se misturam num cocktail explosivo.

Um momento do filme que não me sai da cabeça envolve a utilização das tripas de um assassino como corda para saltar entre andares de um hospital. E no apocalíptico final, a dose de fétiches é elevadíssima, com enfermeiras de saia curta a empunhar uzis, freiras assassina e automóveis que se comportam como cavalos. Fica aqui um pequeno cheirinho dos delírios deste filme imperdível.

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A perder-se na floresta.

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Sábado, 27 de Novembro de 2010

Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010

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Pó ao pó.

Quem vigia os vigilantes?



Dei por mim ontem já passados alguns minutos da meia noite a contemplar a adaptação do comic Watchmen para uma espécie de desenho animado. A animação era atroz e as vozes monocórdicas, mas mesmo assim fiquei agarrado ao poder do texto escrito por Alan Moore, elegante, rebuscado, intricado e cheio de referências circulares que imbricam as diferentes linhas narrativas. Recordou-me o porquê da minha paixão pelos comics.

Quando era um jovem adolescente na Lisboa do final dos anos 80, já leitor voraz, tive a sorte de em quase todas as bancas de jornais se encontrar as traduções brasileiras editadas pela Abril dos principais comics da DC e da Marvel. Depressa fiquei a gostar dos estilos visuais e das histórias de super-heróis, personagens que para um adolescente tímido, a sentir as limitações de um corpo em crescimento, permitiam sonhar com a ausência de limites físicos. Curiosamente, apesar das hormonas aos pulos, na altura não me apercebi a sensualidade e sexualidade explícitas das personagens femininas, sempre representadas com formas voluptuosas e fatos colados ao corpo. Fiquei mais fascinado pelas realidades alternativas, mundos fantásticos, e aventuras que hoje vejo como banais de personagens capazes de voar, lançar raios dos olhos, teleportar-se ou ter força sobre-humana.

Já voraz leitor de livros, depressa me viciei na banda desenhada, que me mostrava novas formas de visualizar a palavra escrita. Mas o gosto pelos comics não se alimenta só de super-heróis. Com o tempo cansei-me das histórias inverosímeis e repetitivas. De vez em quando revisito algum personagem clássico, só para ver como é que a coisa evoluiu, mas a verdade é que enquanto se vai amadurecendo essa vertente dos comics perde o interesse.

Até que por acaso descobri a obra de Alan Moore, também nessa época e naquelas edições de português brasileiro pré acordo ortográfico. O primeiro comic que li deste autor foi o seminal Watchmen. Ainda hoje tenho essa edição cuidadosamente guardada. Despertou-me a mente para as possibilidades do meio, mostrando que apesar de ser meio de comunicação de massas (em contraste com a BD francesa, que sempre se assumiu como artística) não precisava de ser simplista, desenhada sem pormenores ou estilisticamente inovadora. Levou-me literalmente à descoberta de um mundo, num equilíbrio precário entre convenções comerciais e criatividade estilística onde argumentistas e artistas brilhantes como Moore, Warren Ellis, Grant Morrison, Neil Gaiman, Bill Sienkiewicz, Dave Gibbons, Dave McKean, Alfredo Alcala, Howard Chaikyn, David Mazzuchelli ou Frank Miller, entre tantos outros, mestres na arte de contar boas histórias em arcos divididos em capítulos mensais de vinte páginas.

Tive sorte. Senão, como muitos da minha geração, continuaria a pensar que Banda Desenhada se resumia ao Asterix e ao Tio Patinhas, coisa pueril para abandonar assim que se decidisse crescer, sem qualquer seriedade. E a olhar para os fãs de BD como amantes imaturos das histórias aos quadradinhos.

(Já agora, Who Watches The Watchmen?)

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Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

Click



Há aqui uma certa ironia. Se os problemas se resolvessem com um clique...

Business as Usual

E cumpri hoje um surreal dia de greve, em que fiz greve mas fui trabalhar. Infelizmente os servidores não prestam atenção a pormenores como lutas laborais e comecei a manhã de volta do servidor principal em que tudo funcionava bem excepto pelo detalhe de não permitir acesso a mais nenhuma máquina na rede. Chato, particularmente se é a máquina responsável pelo dhcp da rede e onde residem aplicações de gestão de arquitectura cliente-servidor. Ainda mais bizarramente, nenhuma máquina lhe acedia mas o servidor acedia a todas. Após algumas horas a bater na cabeça e com ajuda da cavalaria, lá foi descoberto o culpado - a firewall do antivírus do servidor estava a bloquear todo o tráfego inbound. Problema resolvido, e lá fui cumprir o dia de greve, para espanto e alegria dos alunos que me tinham visto e já pensavam que iriam ter aula.

É raro participar em greves, a menos que sinta que tenho razões fortes. Vendo a forma como as medidas draconianas do novo orçamento me afectam - redução no salário, congelamento na carreira, aumento das contribuições sociais acoplado com uma diminuição das comparticipações do subsistema de saúde a que pertenço, pagando mais impostos com a subida no IVA e com a cereja em cima do bolo, agravamento de escalão de imposto de rendimento por ser solteiro, pensei que ao menos devia protestar. Ainda perco mais, um dia de salário por inteiro. Fazer greve é uma dádiva à minha entidade patronal. E se dúvidas tivesse, a notícia que as restrições salariais no sector público afinal não serão por igual dissipou-as.

Também sei que a situação financeira do país não é famosa, e que são necessárias medidas difíceis. Sei-o pelas leituras que faço da imprensa estrangeira, pois não ligo muito ao catastrofista panorama mediático português. Seria um case-study interessante, analisar a correlação entre as notícias divulgadas nos telejornais e as necessidades políticas - há uns tempos falava-se de retoma económica, agora, hora do orçamento, o quadro é o mais negro possível, e tenho a certeza que dentro de quinze dias aparecerão melhores notícias a tempo de convencer as pessoas a abrir os cordões à bolsa no frenesi consumista do natal. Mas vejo que apesar das medidas restritivas, os desmandos financeiros continuam, os responsáveis pelo meltdown financeiro, salvos da bancarrota pelos erários públicos, continuam a fazer business as usual e todos os outros é que têm de pagar para que o país saia deste buraco. E penso: bolas! (bem, não exactamente, são outras palavras de cinco e seis letras mas não quero deixar eventuais leitores ofendidos com a crueza da linguagem), eu que trabalho muitas vezes para lá do meu horário sem compensações monetárias, que nas funções que desempenho (professor e administrador de sistemas com o pomposo título de coordenador de plano tecnológico) tento resolver os problemas que surgem evitando gastos desnecessários, e contido quando eles são necessários, ainda tenho que ser crucificado em nome dos mercados, tal como a maior parte da população portuguesa, enquanto ao alto nível reina o business as usual? Por isso, com um certo sentimento de inutilidade, aderi à greve.

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Metropolis


Osamu Tezuka (2003). Metropolis. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Scridb | Metropolis

Osamu Tezuka é uma das lenda do Manga. Percursor, foi dos primeiros desenhadores a participar na explosão do género no Japão dos anos 50 e criou Astroboy, uma das personagens mais icónicas do género. Este Metropolis, criado em 1949, é uma curiosa banda desenhada em que Tezuka, com o seu estilo muito próprio, brinca com o clássico filme de Fritz Lang e ícones da banda desenha e ficção de uma forma feérica que à sensibilidade ocidental parece estranha. Numa cidade futurista, um cientista que pesquisa vida artificial cai nas mãos de um terrorista que o obriga a criar um ser humano artificial. Animado por uma rara explosão de manchas solares, o andrógino Michi tenta procurar o seu criador enquanto se embrenha numa revolta de seres robóticos instigada por um detective que procura o terrorista.

Se a Maria de Lang serve de inspiração respeitosa encarnada na Michi de Tezuko, tudo o resto é sátira consumada no estilismo do autor. Numa cena hilariante, um detective japonês consegue prender o terrorista, mas como ainda não tinha as necessárias autorizações para agir como polícia liberta-o, cortêsmente. Noutro registo, uma invesão de animais mutantes gigantes ameaça a cidade... cujos cidadãos têm de lidar com enormes ratos Mickey. Até Popeye surge, de raspão, algures no meio das vinhetas. A belíssima sequência inicial parece recuperar os dinossauros de Winsor McKay.

Este manga ainda não é da época em que o estilo se definiu como profundamente realista e detalhado. O traço de Tezuka aproxima-se mais do cartoon e da banda desenhada humorística. Fãs de manga contemporâneo podem surpreender-se com esta estética mais clássica, mas o talento de Tezuka para contar histórias e o seu traço brincalhão continuam a cativar.

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Coisas...

... que de vez em quando me vêem à cabeça: para que é que me dou ao trabalho de praticar boas acções? Sou ateu, nunca irei ganhar um lugar no céu...

Se não existirem deuses (a hipótese segundo a qual rego a minha vida), não existem paraísos espirituais. Se existirem, certamente que se divertirão a punir-me com os mais inventivos tormentos por ser um herege incrédulo.

Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

Sci-Fi Art: A Graphic History



Steve Holland et al (2009). Sci-Fi Art: A Graphic History. Lewes: ILEX.

HarperCollins | Sci-Fi Art: A Graphic History.

Diz-se, acertadamente, que não podemos julgar um livro pela sua capa, mas é inegável a influência que uma boa capa tem sobre a percepção do livro enquanto objecto para reverenciar. Capa estilisticamente bela, textos que repercutem na mente e ilustrações interiores que ajudam o leitor a visualizar interiormente as palavras da obra, eis a minha ideia de um livro que dá prazer não só pela leitura como pela sua posse e gosto de passear os olhos pelas estantes e recordar o seu conteúdo.

Mais do que simples adorno, uma capa remete o leitor para a temática do livro e ajuda-o a visualizar na sua mente aquilo que lê. Basta pensar nas influentes ilustrações de capa e interiores das obras de Tolkien para ver até que ponto a imagem se imbrica nas palavras. Peter Jackson mostrou perceber isso ao respeitar na trilogia Senhor dos Anéis a estética dos livros, o que ajudou ao sucesso entre os fãs das obras.

Na ficção científica, as ilustrações de capa ganharam força própria, com um cultismo indicativo da forma como estas visualizações ajudaram a definir a estética da FC. As imagens icónicas que associamos ao género surgiram nas capas de livros e revistas, e repassaram para o imaginário colectivo com uma força inegável, maior do que as palavras dos autores de FC. É também de observar que em muitos casos, particularmente nos primeiros tempos do género, as ilustrações valiam muito mais do que as palavras de autores felizmente esquecidos que ilustravam.

Sci-Fi Art: A Graphic History é um livro luxuriante, repleto de imagens que entram nos olhos e excitam os centros cerebrais de prazer visual. Traça uma história da ilustração em FC desde os seus primórdios nos pulps, sem esquecer antecessores quase feéricos do século XIX, até à época contemporânea. Sublinhando o papel da ilustração na FC, destaca ilustradores que criaram alguns dos ícones da FC, como Frank Paul, Richard Powers, Chesley Bonnestell, Chris Foss, Jim Burns ou Vincent di Fate, entre muitos outros. Não se limitando a capas, olha também para a BD, Animação, Cinema, Concept Art e multimédia, exemplificando com o melhor do que se fez e se faz nestes campos. Das ilustrações feéricas de J. J. Grandville ao traço preciso de Syd Mead, das naves espaciais realistas de Chris Foss ao preto e branco apaixonante de Wally Wood, esta obra traça o percurso alucinante da iconografia de ficção científica.

Ésses

Estava na sala de aula a terminar a instalação de alguns dos programas de 3D com que os alunos irão trabalhar num computador magalhães. A dona da máquina, típica aluna de um quinto ano, confessa-me que apenas a tecla S não funcionava.
- Então não podes escrever sapato, - digo.
- Nem capacete, stor.

Olhei para ela de soslaio, incrédulo.

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Our spirits fell at his words, in terror at his loud voice and monstrous size.

Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

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A Luz Miserável



David Soares (2010). A Luz Miserável. S. Pedro do Estoril: Saída de Emergência

SdE | A Luz Miserável.

David Soares volta às estantes com uma obra de contos com a sua inimitável marca tenebrosa. A Luz Miserável continua a sublinhar o estatuto deste autor, a melhor e mais prolífica voz do lado negro da literatura fantástica portuguesa com três contos cuidadosamente talhados.

A Sombra sem Ninguém cruza uma medium capaz de tornar visíveis espíritos de luz e um homem que se tornou invisível, numa tentativa de consequências imprevisíveis de corporalizar o invisível. A Luz Miserável, conto que dá o título e o mote ao livro, mescla memórias de atrocidades da guerra colonial com o medo de envelhecer e bruxaria escatológica africana naquele que é o conto mais perturbante do livro pela mistura de situações perversas que mostram que os monstros não estão sempre onde pensamos que estão. Rei Assobio regressa à escatalogia de O Evangelho do Enforcado, trabalhando as frustrações individuais e a violência vinda da incompreensão das massas com horrores milenares na aldeia que Soares mitifica como a Dunwich portuguesa.

Os três contos contidos neste livro socorrem-se de uma prosa pesada, quase gongórica, para estimular os sentidos numa mescla de registos surreais e tenebrosos, numa escatologia visceral tão própria deste autor. O obscurantismo intencional das palavras recorda-me a prosa de Lovecraft, também caracterizada por um registo trabalhoso que é um dos seus encantos. Ao ler A Luz Miserável dei por mim a comparar estes contos com os de J. G. Ballard, como dois lados da moeda que é o conto fantástico. Ballard era notório pela clareza brilhante das suas descrições surreais, geradora de imagens mentais precisas, e David Soares, com a sua linguagem trabalhada e rebuscada, traça imagens igualmente precisas na mente do leitor, apesar de imagens vindas das trevas. É um pouco como colocar lado a lado as cores e a luz brilhantes de Dali com o claro-escuro de Fuseli.

A voz deste autor que nos continua a deslumbrar com as suas visões precisas e negras da imaginação está firmemente estabelecida no panorama literário português.

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Éter binário

O facebook preza a amnésia digital. Em constante actualização, estamos sempre em cima de tudo o que acontece e é partilhado no fluxo de actualizações. Ao ritmo do clicar no botão "partilhar", o que num momento é importante depressa fica arquivado num passado pouco acessível, desaparecendo no éter binário. A informação está lá, mas quem se dá ao trabalho de ir ver o que se passou minutos ou horas antes do momento presente? De repente pensei numa biblioteca que alberga livros lidos uma única vez, cujo dono arruma cuidadosamente mal termina a leitura, para nunca os voltar a contemplar apesar de estarem guardados no seu local das estantes.

Domingo, 21 de Novembro de 2010

4Squares



Cubism was for squares. Do brilhante Cages de Dave McKean.

Contemplem...



... porque é sempre bom recordar.

Ghost Road Blues



John Maberry (2006). Ghost Road Blues. Nova Yorque: Pinnacle Books.

Google Books | Ghost Road Blues

Este livro daria um filme simpático, thriller a puxar para o terror para se ver numa daquelas tardes em que só apetece vegetar. E pouco mais.

Passado numa cidadezinha rural com fama de assombrada, Ghost Road Blues é uma obra confusa, onde ao longo da leitura nunca se percebe muito bem onde o autor quer chegar. Temos um criminoso perigoso à solta, um bluesman morto por engano que parece ser um espírito protector, um acontecimento tenebroso do passado que dá frutos no decorrer desta história, e personagens unidimensionais que vão prosseguindo a narrativa numa estrutura desconexa. O final do livro surpreende, não por ser surpreendente, mas porque surge sem qualquer pré-aviso ou sequer um crescendo de tensão. E fica tudo em suspenso, prontinho para a sequela.

O único ponto de interesse é o aparente gosto do autor pelos Blues, com citações que vão de Robert Johnson a Charlie Patton. Normalmente estas histórias de cidades isoladas com segredos tenebrosos costumam ser microcosmos intrigantes para o desenvolvimento de narrativas que prendem o leitor, mas até nisso este livro falha.

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Sábado, 20 de Novembro de 2010

Plus ça change...

Mais um estudo que aponta para ligação entre violência nos jogos de vídeo e comportamentos adolescentes. So what else is new? Não se trata tanto de uma questão de videojogos como elementos fomentadores de violência como de um choque McLuhanista entre diferentes culturas geracionais - uma cultura literária e audiovisual versus uma nova cultura digital. Esta história não é nova. Cresci nos anos 80. na altura não havia videojogos (pronto, eu sei, existiam, mas a sua expressão cultural era quase nula) e o debate era sobre a violência televisiva e fílmica sobre as mentes das crianças. Nos anos 50 a guerra foi com os comics (banda desenhada), apontados como influência perniciosa por causa de imagens violentas e que levou à auto-censura da indústria com a criação da comics code authorithy. Mas para mim o melhor choque mediático está exemplificado num livro que quando foi publicado foi banido pela europa fora por se ter considerado que a sua leitura pelos mais jovens os incitava ao suicídio. Que livro? Werther, de Goethe, um dos grandes clássicos da literatura mundial...

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Hier c'etait une trop petite fête, et aujourd'hui j'ai un petit mal à la tête.. Sempre que acordo ressacado lembro-me desta inimitável expressão do cura de aldeia do filme La Chasse aux Papillons de Otar Iosseliani, que volta não volta emborcava fortes quantidades de vinho consagrável nas noites frias do presbitério e que no dia seguinte ao arrastar-se pela aldeia queixava-se sempre de uma pequena dor de cabeça.

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Tutorial Spiro

Tutorial Spiro

Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

O Elemento



Ken Robinson (2010). O Elemento. Porto: Porto Editora.

Porto Editora | O Elemento.

As ideias peculiares de Ken Robinson tornaram-se conhecidas graças às suas duas fabulosas apresentações nas conferências TED. Foi aí que tomei contacto com ele, não por estar presente na conferência (o preço de 10.000 dólares por bilhete é um pouco desencorajador) mas por ser de visualização obrigatória na cadeira de Internet na Educação da parte curricular do meu mestrado. Essa conferência, a primeira que proferiu, literalmente explodiu na minha cabeça. Não só pelo brilhantismo e capacidade comunicacional de Robinson, mas também por ressoar com muitas das minhas ideias e intuições como professor que apesar de cada vez mais espartilhado pelos constrangimentos do sistema de ensino me defino como de ensino artístico, onde cada vez mais sinto que as regras tão badaladas sobre aprendizagem (em particular a moda dos resultados estatisticamente medíveis) não se aplicam se queremos que as crianças desenvolvam a sua criatividade.

Este livro vem apresentar de forma mais detalhada as ideias do autor sobre criatividade, educação e, essencialmente, realização pessoal. Não é uma obra muito profunda, sendo claramente destinada como divulgação para audiências abrangentes. Soa de forma muito similar às suas conferências e vive de inúmeros exemplos de histórias de vidas que alcançaram sucesso de formas não convencionais.

Há um certo risco de considerarmos este livro como mais um daquelas toneladas de obras de auto-ajuda, cheias de frases bonitas mas vazios de significado, com boas doses de psicotreta à mistura. Sentimos isso quando Robinson nos define o tal elemento, aquilo que dentro de nós faz despertar a faísca criativa e leve a que nos dediquemos a algo com paixão, e urge os leitores a ultrapassarem as diferentes barreiras que descreve, do conformismo social aos espartilhos educacionais num processo de busca do seu elemento individual. Um pouco mais de profundidade nesta obra retiraria esse risco, mas por outro lado certamente diminuiria o seu apelo para as massas.

O Elemento não deve ser lido como um evangelho a ser cumprido religiosamente, mas como uma profunda reflexão sobre o corrente estado da nossa sociedade. Os progressos sociais, educativos e económicos das últimas décadas levaram a que para uma grande parte dos habitantes do mundo desenvolvido já não tenham que levar uma existência subserviente. Já não somos servos, analfabetos agarrados à enxada incapazes de ver para além do curto horizonte. Com níveis de educação e conforto económico a subir (estou a falar a longo prazo, claro) sentimos aspirações que noutras épocas estariam reservadas a classes sociais mais estratificadas. É daqui, penso, que surge o impulso que leva Robinson a debruçar-se tanto sobre criatividade e realização individual. Nas sociedades modernas, queremos viver vidas interiormente recompensadoras.

O aspecto económico também não é de desconsiderar. Vivemos neste momento na revolução pós-industrial, definida pelos teóricos que a observam (Virilio, Castells, Giddens, Lipovetsky, Toffler e outros) como a emergência (emergência de emergir, não de catástrofe) da sociedade do conhecimento. Este factor é sublinhado sempre que assistimos a deslocalizações fabris em direcção ao extremo oriente. A China pode ser uma enorme potência económica, mas é-o porque manufactura os produtos que são criados no mundo ocidental. Somos cada vez mais uma sociedade baseada na informação, onde competências críticas e criativas substituem as competências mecanicistas da era industrial. As indústrias ocidentais com maiores ganhos são indústrias criativas, quer ao nível mediático, de concepção de produtos ou financeiras (a criatividade financeira à solta tem os seus riscos, como infelizmente prova a corrente crise económica). E as pessoas que são bem sucedidas são aquelas que são mais flexíveis na gestão dos fluxos de informação.

Apesar de tudo, o sucesso pessoal é algo de relativo. Não é medível apenas em padrões financeiros ou materiais. O sentimento de realização pessoal, alicerçado nas possibilidades que o alargar da educação nos mostra, é talvez o facto mais importante na individualidade contemporânea. Tudo o que Robinson nos diz sublinha isso.

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Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

3DAlpha (III)



Terceira sessão de trabalho com os alunos. Nesta, optei por uma sessão livre, dando liberdade sobre o tipo de trabalho a realizar - cenas para renderizar em imagem fixa ou em animação. Este momentos são importantes para consolidar aprendizagens e permitir aos alunos descobertas através de exploração não estruturada. Se tiverem paciência para ver o vídeo podem visualizar a maior parte dos trabalhos produzidos na sessão de ontem. É mais de meio giga de informação, uma vez que os miúdos foram prolíficos.

A maior parte fica-se pela aplicação de elementos pré-definidos no programa, mas alguns já se atrevem a entrar na composição complexa de imagens. Alguns dos que brincaram com animação descobriram o poder dos ambientes - mudar de luminosidade e ambiente de céu durante a linha de tempo do filme produz resultados inesperados. Mostrei a um aluno como criar imagens simétricas utilizando um plano de nevoeiro manipulando as propriedades da textura para criar uma superfície espelhada e este replicou o truque por alguns colegas da turma.

Observei que a professora titular que alinhou neste projecto algures a meio da sessão instou os alunos a partilharem as suas descobertas com uma metáfora interessante: o conhecimento é como um copo cheio e todos temos sede, por isso devemos partilhar o que sabemos... pensei com os meus botões que não só o meu copo está cheio como ainda resta muita coisa no garrafão para partilhar neste projecto. Na hora do intervalo, com a recusa geral dos alunos em sair para o recreio (porque esta actividade interessa-os) apesar dos meus esforços em contrário, outra professora veio ver o que é que estes alunos andam a fazer. Ficou surpreendida e quase me obrigou a iniciar um projecto similar com a turma dela. Como resultado, na próxima terça feira vou já dinamizar uma sessão introdutória com mais uma turma. Era este outro resultado que espero atingir com este projecto - uma propagação viral das possibilidades das TIC como ferramenta criativa. Porque uma coisa é falar, apresentar projectos e mostrar imagens. Quem vê acha interessante, mas poucos avançam daí, pensando sempre que não lhes é possível desenvolver trabalhos similares. Outra coisa é ver um projecto em andamento, e aí sim, percebe-se que é possível. E se se puder, quer-se fazer.

Encaro esta história do PTE como uma forma de contribuir para a literacia digital, que para mim é algo mais abrangente do que saber processar informação disponível online e manipular processadores de texto e ferramentas de apresentação. No despertar da criatividade, combinada com a plasticidade do ideário das crianças, ainda não contaminada pelas ideias de limitações que vão surgindo a partir da adolescência, que a utilização de TIC tem um enorme potencial. Não se trata de aprender a usar ferramentas para as saber utilizar, nem de utilizar tecnologias digitais como uma nova forma de apresentar conhecimentos (é por isto que eu detesto tanto os quadros interactivos), mas sim de as utilizar como ferramentas que são para exprimir ideias. Ninguém dá muita importância ao lápis ou ao pincel per se; o foco está nos processos de utilização, no desenho e pintura. Não vejo porque é que as ferramentas digitais possam ser diferentes.

O momento mais interessante da sessão surgiu quando alguns alunos me pediram para lhes ensinar a criar estrelas. Tinham visto exemplos e queriam fazer algo similar. Não o fiz, deixando para a próxima sessão - é um processo já mais complexo que implica trabalhar em diferentes pontos de vista e manipular formas primitivas (em 3D, primitivos são as formas geométricas simples). O que não impediu um aluno de o tentar fazer, utilizando cones e rotações. Infelizmente não gravou o trabalho, e este perdeu-se no éter digital. Mas isto já me dá o tema para a próxima sessão.

Voltagem

Frankenstein ou de monstro de Frankenstein? Tenho, nalguns momentos mais obscuros, uma certa vontade supradivina mas ainda não me deu para reanimar cadáveres com electricidade em noites de trovoada em que os raios se fractalizam alimentando geradores de van der graaf. Apreciando o acto de criação, ainda não atingi o estado em que debaixo da alta voltagem algo se mexe e grito it's alive It's Alive IT'S ALIVE como Colin Clive no inimitável Frankenstein de 1935.

The Mammoth Book of Modern Battles



Jon Lewis (2009). The Mammoth Book of Modern Battles. Philadelphia: Running Press

Este livro dá-nos precisamente o que promete: um conjunto de relatos de batalhas marcantes dos maiores conflitos do século XX, desde a guerra Boer à "pacificação" do Afeganistão após o 11 de Setembro. Mas quem pegar nesta obra para ler histórias de valor e glória, descrições empolgantes dos campos de batalha e relatos de brilhantes tácticas militares fica, provavelmente, um pouco desapontado. Esquecendo a historiografia convencional ou as versões diluídas, o livro socorre-se o mais possível de fontes primárias, relatos de jornalistas e soldados ou relatórios de combatentes para nos fornecer uma visão próxima do campo de batalha. Um exemplo, brilhante, está na narração da batalha do Atlântico vista pelo diário de um marinheiro alemão a prestar serviço nos temidos submarinos. Daqui surge uma linha narrativa coerente que espelha medo, horror, destruição patética e desperdício de vidas humanas. Sem aspirações a uma visão crítica - trata-se apenas de uma recolha de relatos, acaba por reforçar aquela ideia que Shakespeare frisou tão brilhantemente ao observar que tantas vidas se perdem por pedaços de território que mal servem para enterrar os que por eles morreram.

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Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

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E boa viagem!

A Administração da Caixa Geral de Depósitos está preocupada porque os cortes salariais no sector público poderão levar à saída de altos quadros do banco, tendo inclusivamente pedido que a CGD não seja forçada a cumprir estas medidas previstas no infamoso orçamento de estado. Bem, como funcionário do sector público, que a contra-gosto vai ver orçamento mensal diminuir, só consigo pensar que isto é um perfeito desplante. Nem merece comentário. Se realmente ficam assim tão afectados, força. Saiam do banco público e mudem-se para os privados. No fim de contas, não é isso que defendem, flexibilizações contratuais e mercado livre? Então força, já que acreditam tanto na mão invisível dos mercados, aproveitem a oportunidade. Ou será que o mercado livre só funciona para os outros?

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Acordei num sábado depois de um sonho estranho e divertido. Observava uma marina de yates de luxo a ser invadida por piratas, que se dedicavam a manietar as vítimas até que surge Elvis a afirmar que haveria destinos melhores. Dei então por mim numa cocktail party de alta sociedade repleta de zombies. Fugi, escapando para uma garagem onde me dediquei a aniquilar zombies fazendo pontaria a pescoços com a coluna vertebral exposta. Acordei quando vi um cérebro do qual saíam agulhas a debicar uma mão decepada ainda com restos de camisa e blazer...

Pois. Em relação a essa piada confesso que já frequento um psiquiatra. E estas coisas não lhe conto, não o quero assustar...

Matter



Iain M. Banks (2008). Matter. Londres: Orbit.

Matter

É suficientemente deprimente saber que por muita que seja a nossa grandeza, somos meros grãos de areia no profundo oceano cósmico. Mas talvez seja muito pior imaginar-se um medieval senhor magnífico de um vasto domínio que não passa de um nível num planeta artificial (e nem sequer um dos níveis superiores) rodeado de culturas galácticas vastamente mais avançadas. É esta colisão, entre a pequenez e as vastidões, que dá o tom ao penúltimo romance da série Culture de Iain M. Banks.

A narração desenvolve-se em duas linhas que necessariamente colidem. Numa, o herdeiro do trono de um reino medievalista situado num nível obscuro de um planeta artificial luta contra uma conspiração que levará ao poder o aliado mais próximo do seu pai, na verdade um traidor que assassina o rei para abrir caminho à cadeira do poder. Noutra, a irmã deste herdeiro, destacada como representante da antiquada civilização nas vastidões galácticas do conglomerado de espécies que Banks descreve como a Cultura, inicia um périplo de regresso à terra natal para averiguar o porquê da morte do pai. Por detrás, interesses políticos de espécies alienígenas manipulam as acções dos agentes da civilização inferior num jogo geoestratégico para controlar o enorme artefacto que é o mundo artificial.

Esta obra revela o melhor e o pior de Banks. No seu melhor, temos os vastos panoramas Space Opera que o conceito abrangente da Cultura permite. No seu pior temos um prolongar desnecessário da narrativa. Embora o final da obra seja um pouco inesperado, as linhas narrativas são muito claras e na leitura deste livro sentimos que o autor se alonga em demasia, enrolando excessivamente os fios narrativos.

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Happinnes is a warm gun.

Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010

Vírus Mentais



Ao aceder esta manhã ao facebook deparei-me com um desafio, que me chegou via um dos meus contactos mas impossível de verificar de onde partiu graças à intricada teia da rede: mudar a imagem do meu perfil para um personagem de desenho animado ou BD da minha infância. Pessoalmente escolhi o Ciclope dos X-Men, o menos poderoso mas o mais inteligente da equipa de mutantes, particularmente na versão clássica de Chris Claremont. O facebook depressa se encheu de wolverines, super-homens, heidis, alfs e outras personagens icónicas.

Ao longo do dia foi divertido ver as alterações às imagens de perfil na linha de tempo, enquanto cada um dos contactos aderia ao meme e o propagava. É muito interessante observar o surgir espontâneo e o propagar similar a incêndio descontrolado destes memes, que explodem como uma supernova na internet para depressa se extinguirem. Alguém se lembra do All Your Base Are Belong To Us ou do Andre The Giant? São como vírus mentais de propagação instantânea que depressa esgotam o seu organismo anfitrião e desaparecem deixando poucos rastos.

Recorda-me a edição Invasive do comic Global Frequency em que Warren Ellis explora as consequências de um vírus memético alienígena que contamina os cérebros através da visualização de uma mensagem desencriptada proveniente de uma fonte de rádio captada pelo SETI. Mas desenganem-se aqueles que acreditam que o poder organizativo da internet traga a promessa de revoluções sociais. Aderimos aos memes por estes serem imediatos, brain candy para nos distrair das rotinas do dia a dia.

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Adventures in the Rifle Brigade



Garth Ennis, Carlos Ezquerra (2000). Adventures in the Rifle Brigade. Nova Yorque: DC Comics.

DC Comics | Adventures in the Rifle Brigade

Garth Ennis é famoso pelo seu gosto pela II Guerra Mundial. Para a Dynamite comics está a assinar a série Battlefields, com um trabalho exemplar de caracterização de época, e revisitou o personagem da BD clássica britânica Battler Britton. Para a DC criou duas séries das Adventures in the Rifle Brigade. Se os trabalhos para a Dynamite primam pela correcção histórica e dramatismo, as séries da DC caracterizam-se por um humor desbragado e exagerado, tipicamente britânico, que satiriza comics de guerra clássicos. À minha mente vêem títulos como Nick Fury and the Howling Commandos, Sargent Rock ou o britânico Battler Britton como alguns dos comics clássicos satirizados nesta série.

A Rifle Brigade que dá o título à série é um exemplo distorcido dos personagens teatralizados dos comics de combate. É composta por elementos depravadamente bizarros, um oficial de comando que crê firmemente que os Estados Unidos são uma colónia britânica, um subalterno homosexual apaixonado pelo seu comandante que tenta por várias vezes simular a morte imimente para tentar convencer o comandante a realizar actos sexuais, soldados que incluem um gigântico inglês, um londrino de fala incompreensível e um americano apaixonado por bombas, e a cereja em cima do bolo, o criado escocês do oficial cuja arma mortífera é a sua gaita de foles. As suas aventuras estão na fronteira entre o absurdo e o surreal, em sátira absoluta ao género.

Nesta série tudo é grand guignol, absurdamente divertido e caricatural.

Domingo, 14 de Novembro de 2010

Fórum Fantástico 2010



Acabadinho de chegar de Lisboa onde aproveitei o fim de tarde de ontem para assistir ao Fórum Fantástico 2010. Não consegui chegar a tempo do painel sobre Lisboa Fantástica e da mostra de curtas-metragens, assisti apenas às conversas com escritores que lançaram obras nesta edição do fórum.

Estas iniciaram-se com a apresentação de A Luz Miserável por David Soares. Este escritor, talvez o melhoro do género em Portugal, apresenta-se com uma figura imponente e ao longo da apresentação surpreendeu pelo seu ideário muito próprio. Curiosas as suas opiniões sobre o verdadeiro horror - o acaso terrível que por vezes nos surpreende no quotidiano, ao invés das visões fantásticas tidas como assustadoras, e a sua opinião do conto, particularmente pela sua capacidade de criar pérolas do conto de horror. Seguiu-se Ricardo Pinto, que me levou a matutar nas incongruências da globalização: nascido em Portugal, vive na Escócia desde os seis anos e publicou uma trilogia de fantasia épica agora traduzida para português. É curioso, ser meio português, escrever em inglês e ter livros traduzidos para a língua materna. Um pouco como John dos Passos, embora desconheça se este sabia falar português. A sua conversa sobre os dez longos anos que demorou a escrever a trilogia, com uma atenção obsessiva a todos os detalhes, descrita pelo autor como uma prisão interior, trouxe-me à memória Henry Darger, o velhote solitário em cujo apartamento, após falecer, foi encontrada uma vasta obra épica, estranha e intimista com uma mitologia pessoal concretizada em desenhos de grandes dimensões, que se tornou um dos maiores expoentes da outsider art.

Stephen Hunt, na apresentação de A Corte do Ar, falou sobre Steampunk e visões tecnológicas. Fiquei com vontade de ler o livro, com um pré-lançamento em edição limitada neste evento, mas o orçamento mensal não mo permitiu. O que não me impediu de mais tarde na Fnac adquirir o Cages completo de Dave McKean. As minhas escolhas economicistas raramente fazem sentido. Finalmente, Peter Brett falou da sua série de romances que se recusou a definir como fantásticos ou pós-apocalípticos enquanto o seu editor português justificou a mudança de nome da chancela - de Gailivros para 1001 Livros. A aposta no terror e no fantástico começa a colidir com o negócio tradicional da editora na literatura infantil e manuais escolares, surgindo a necessidade de diferenciar a chancela. Estou mesmo a imaginar uma reunião de escolha de manuais escolares onde os docentes se assustam com a possibilidade de escolha livros da Gailivros. "Mas essa não é uma editora que também tem daquelas coisas com demónios e livros que assustam? Isto não deve ser apropriado para as crianças..."

Não me surpreenderia se tal acontecesse. Já assisti a coisas mais estranhas, como aquando da escolha de um manual de EVT cujo principal argumento que o design era de Henrique Cayatte (conceituado designer gráfico, autor da imagem do jornal Público, entre outros trabalhos) mas que ao fim de um mês de utilização se revelou totalmente desadequado como material de apoio pelos docentes que o utilizaram. Como pessoalmente não recorro aos manuais na minha prática pedagógica essas guerras passam-me ao lado, mas é sempre bom observar....



Finalmente, tempo para uma sessão de autógrafos, onde aproveitei para solicitar um autógrafo na minha recém-adquirida cópia de A Luz Miserável, livro que tem um cheiro peculiar. Foi também oportunidade para conhecer David Soares in real life, já que nos havíamos previamente cruzado nos espaços virtuais. Isto é coisa que nenhum ebook pode oferecer - o prazer de ter uma obra autografada pelo escritor.

Também não deixei de reparar em João Barreiros, talvez o decano da Ficção Científica portuguesa, e o seu iPad. Se soubesse que o iria encontrar, teria trazido a minha cópia de Terrarium e do Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, da saudosa colecção de capa azul da Caminho. Tentei arranjar coragem para o cumprimentar e me confessar fã incondicional, mas enfim. Fica para uma próxima.

O Fórum Fantástico 2010 ainda continua durante o dia de hoje na Biblioteca Municipal de Telheiras. Esperemos que para o ano se renove, sinal que a massa crítica do fandom português de FC e Fantástico atingiu um dinamismo capaz de sustentar eventos deste género.

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É sempre bom chegar à Ericeira e deparar com um arco-íris que se estende da Fonte Boa à Praia do Forte.

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Sábado, 13 de Novembro de 2010

Coisas...

... que me ultrapassam: perguntarem-me "já sabes o que é que aconteceu..." quando eu não faço a mínima ideia do que aconteceu e quem me pergunta o irá contar a seguir. Get to the point, apetece-me dizer.

3DAlpha (II)



Uma imagem criada no Bryce por um dos alunos da turma de 3º ano com que estou a trabalhar. Não é uma obra prima, mas para primeira experiência, não está mal...

Ontem decorreu a segunda sessão de trabalho em 3D com os alunos de terceiro ano da EB1. Confesso que fui para a sessão indeciso. Qual seria a abordagem? Experimentar animação, consolidar o Bryce com exercícios livres, ou aprofundar conhecimentos utilizando simetrias (com planos aos quais são atribuídos materiais espelhados)? Como um dos trabalhos a longo prazo com os alunos envolve a criação de um vídeo, optei por animação. Nada de muito complicado, apenas aprender a criar uma linha de tempo no bryce e animar um objecto simples (uma esfera) reposicionando-o ao longo de fotogramas-chave.

É interessante notar que enquanto explico os passos os alunos estão em silêncio, muito concentrados. Mostra o seu nível de motivação e vontade de aprender despertada pela curiosidade.

Animar um objecto não se revelou muito difícil para eles. Tive que pontualmente reforçar a questão da linha de tempo. Ao terminar a renderização em vídeo os alunos ficavam excitados e solicitavam-me a mim ou à professora titular que viesse ver o video produzido. Depois do vídeo, muitos pediram para criar paisagens, o que me leva a pensar que na próxima sessão deverei deixar como espaço livre, sem tema a abordar, para dar tempo aos alunos de brincar com o programa e, no processo, descobrir mais recursos, desenvolver estratégias e fluxos de trabalho individualizados. É importante ter tempo para explorar.