Provavelmente a sensação mais estranha deste filme foi chegar ao final e aperceber-me que o tinha visto numa sala anódina, vazia, só com um espetador. E sair do cinema para me deparar com a estética de centro comercial que inspira as backrooms. Se isto fosse em amarelo, sentir-me-ia como tendo caído por entre os interstícios da realidade:
O filme explora as estéticas que são bem conhecidas pelos frequentadores dos lados mais underground das redes sociais - backrooms, vaporwave, nostalgia dos anos 90, com alguns recortes de dreamcore e tiktok far lands. Se estes termos vos são desconhecidos, este filme vai-vos parecer uma monumental seca, um filme de terror muito simples que passa a maior parte do tempo a levar-nos para recantos estranhos e levemente surreais. Se estiverem dentro destes temas, a sessão é passada em busca do manancial de referências visuais a estas estéticas digitais, como um imenso e interminável meme.
Backrooms traz a estética de arrepio luminoso e surreal destas vanguardas visuais das redes sociais para o grande ecrã, e desenrola-se tal como aqueles vídeos curtos que nos caem nos feeds quando a noite já vai profunda e o nosso doomscrolling para combater o tédio e o cansaço que não nos deixa dormir deixa o algoritmo sugerir-nos vídeos verdadeiramente estranhos. Visões inquietantes de bem iluminadas anónimas arquiteturas interiores intermináveis que, ao olhar mais atento, não fazem sentido, uma extrapolação de iluminação florescente do conceito de não-lugar. Imagética utópica em tons sépia intrigante pela sua frieza. Ou vídeos que são uma colisão expressiva de cores e efeitos estroboscópicos, um assalto aos sentidos sem qualquer lógica. E, nalguns, criaturas que oscilam entre o horror visceral e uma normalidade que depressa desaba perante o olhar mais atento.
Não sendo as estéticas prevalentes entre os feeds que alimentam o doomscrolling dos normies, têm mostrado que o vídeo nas redes sociais pode também ser espaço de experimentação crua, intrigando precisamente pela forma como desconstroem o sentido.
É algo que funciona muito bem nos limites temporais dos vídeos curtos das redes sociais. Tenho visto alguns mesmo muito bons. A questão que esta longa metragem coloca é se a estética tem a capacidade de ser ampliada para as necessidades narrativas do cinema. E aí, saí da sala com as minhas dúvidas.
Como sequência de cenas estranhas e inquietantes, Backrooms funciona tal e qual como a estética de onde parte. O problema está na necessidade de lógicas narrativas do cinema clássico, de motivação para as ações da história e dos personagens, que não se coaduna com a lógica memética da sua base. Aqui o filme acaba por se tornar mais uma espécie de misto de horror psicológico com filme de monstros, mas não muito convincente. A nova estética da internet colide com a tradição narrativa do grande ecrã, e apesar das intenções, este não é o filme que faz a ponte com sucesso entre estes dois mundos visuais.
Os momentos mais arrepiantes do filme são precisamente aqueles onde menos acontece, onde o olhar da câmara se perde na imensidão labiríntica dos espaços modernistas interiores de cores quentes e iluminadas com luzes fluorescentes que rebrilham. Quando há o diálogo entre personagens, ou os monstros se revelam, perde-se o brilho memético.
Se perceberem as referências da cultura visual digital que forma a base deste filme, vão apreciá-lo, apesar do sentimento de alongamento excessivo de algo que é na sua essência uma longa colagem de memes. Se não as conhecem, poderão achar intrigante como variante do terror clássico, onde o sentimento de estranheza e os maiores arrepios de medo vêm não das criaturas, mas do vazio dos espaços banais.
Atualizando, alguns dias depois de ter escrito este texto:
O curioso é que não tendo sentido este filme como uma obra fenomenal, a verdade é que persiste na minha memória. A não linearidade da história mostra-se uma forma intrigante de transferir a lógica de narrativa curta, vinda da internet e das linguagens pensadas para responder aos fluxos de doomscrolling. É profundamente pós-modernista, quer o realizador tenha lido a fundo Baudrillard, quer não.
Persiste especialmente a sensação residual de estranheza dos backrooms. Há aqui algo a observar. O espaço do medo deixou de ser a noite, tão milenar; para trás fica a escuridão gótica de decadência que nos foi legado pelo século XIX; o terror urbano de estéticas de colapso social com zombies ou outras criaturas deixa de ser o fator que assusta. O novo horror é o vazio da arquitetura interior, transmutado nestes espaços que só se percebe que desafiam a lógica ao segundo olhar, cheios de brilhante luz artificial e artefactos banais que ganham um contexto inquietante. O novo inferno é o centro comercial vazio, o prédio de escritórios anódino, as infindas salas de espera da medicina, a uniformidade da arquitetura suburbana. Ou seja, a modernidade global, advinda da uniformização da cultura corporate. Os backrooms são a versão moderna da burocracia kafkiana, vastos desertos de realidade paralela cuja banalidade sedutora é o seu elemento mais assustador.
Um último pormenor de nota. Tem-se discutido a surpresa que é o sucesso deste filme, contrastando com o insucesso de propriedades intelectuais já estabelecidas, cujas novas estreias cinematográficas não atingem o sucesso esperado. Do meu ponto de vista, isto é um excelente sinal. A aposta recursiva de repescagem de ideias, personagens e estéticas que já foram de vanguarda mas agora são constantes repetições está a mostrar os seus limites. A paciência dos públicos tem o seu limite, e o cansaço de ver, rever e rever novamente as mesmas personagens e histórias de sempre está a revelar-se. Isso permite que, finalmente, as novas ideias que estavam sufocadas por um olhar mediático seduzido pelo marketing corporate consigam conquistar o seu merecido espaço.
É o que faz sentido, cada época ter os seus ícones culturais. Não faz sentido cultural este constante remisturar de personagens e narrativas nascidas nos anos 80, nem o argumento de nostalgia é suficiente para defender isto. Para perceberem o ridículo que é ainda estarmos a celebrar Star Wars ou outras propriedades intelectuais como novidade de vanguarda, imaginem que estaríamos a fazer o mesmo com personagens como Zorro, RinTinTin ou o Mascarilha. Até foi tentado, as maquinarias das indústrias culturais tentaram estes relançamentos, mas sem sucesso.
Backrooms, e outras obras similares, mostram que a renovação de ideias na cultura pop está, finalmente, a tornar-se visível para o grande público.