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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Aveiro Airshow

 

Integrado no festival Dunas de S. Jacinto, já tinha ouvido falar deste espetáculo aéreo, mas nunca tinha conseguido ir espreitá-lo. Este ano, disse para mim próprio que se dane, fiz-me à estrada, mesmo sabendo que o preço do combustível não está adequado a devaneios de roadtrip.



Fui recompensado com duas horas, que souberam a muito pouco, de excelentes acrobacias aéreas sobre a ria de Aveiro, vistos desde o cais de S. Jacinto. Um espetáculo assegurado por pilotos portugueses e espanhóis. Abriu com o Extra 330LT  de Luís Garção, claramente adepto das manobras de levar o avião ao pico de altitude e se "deixar cair" para recuperar o controle e empolgar quem cá em baixo assistia. Seguiu-se a patrulha Fantasma, com o Varieze de José Figueiredo, talvez a aeronave mais experimental em voo neste tipo de eventos, e o RV7 de Carlos Costa, em manobras de formação e aproximação. Outro clássico destes eventos em Portugal é o Citabria N661CP de Pedro Cunha Pereira. Clássico não só pelo espetáculo de acrobacias que nos costuma dar, mas pela idade de uma aeronave construída nos anos 60 e, como se nota pela suas performances, continua para as curvas. E, com o esquema de cores branco e vermelho, é uma aeronave lindíssima.

Um certo blast from the past, muito sublinhado pelo apresentador, dado que as aeronaves em voo foram ex-FAP e estiveram baseadas em S. Jacinto, foram os Quintana, com clássicos Cessna FTB 337G pilotados pelos espanhóis José Olias pai e José Olias filho. Após abatidos à nossa Força Aérea, foram adquiridos e restaurados por uma fundação espanhola de história aeronáutica, com marcas clássicas da USAF. Pessoalmente, recordo vê-los quando criança a sobrevoar a costa da Ericeira, em voos de treino vindos de Sintra. Diga-se que nos anos 80 a zona da Ericeira era bem frequentada por aeronaves. A minha recordação mais intensa foi ter sido sobrevoado por um A7P na praia do Norte, que voava tão baixo que quase parecia poder tocar-lhe. Hoje, de vez em quando passam algum Epsilon ou Chipmunk em voo de treino, e há sempre o risco de haver atividade aeronáutica mais intensa no verão, com o combate aos fogos.

O RV7 007 de Hélder Guerreiro finalizou as demonstrações acrobáticas. O festival terminou com um voo de formação entre os FTB Quintana e o Extra de Luís Garção, que ainda nos deu um encore de voo acrobático, provavelmente a compensar a ausência de um dos pilotos previstos no alinhamento do festival.


Como fã confesso de aviação, é muito agradável ver este crescimento dos festivais aéreos em Portugal. O de Beja, com a sua oportunidade de ver as patrulhas militares e um static show de esquadrilhas visitantes, está infelizmente em suspenso devido à situação geopolítica. Entretanto, têm surgido festivais destes um pouco por todo o país, desde o já clássico Caretos Airshow (que se efetua em Bragança, e ainda não conheço) e iniciativas como as corridas aéreas do Porto (não deu para ir, infelizmente para mim), festival de Cascais (geralmente ligado ao Air Summit de Ponte de Sor). Este ano, até Marvão terá um festival aéreo, em setembro. Claro, dado que o meio nacional é pequeno, isto significa que há uma certa repetição dos pilotos participantes. Já vi várias vezes os que revi em S. Jacinto, mas não me interpretem mal, é sempre um prazer ver estes aparentes desafiadores da gravidade, que se atrevem a puxar pelo lado de sanidade duvidosa das leis da física.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

AeroXperience 2025












Campo aéreo de Benavente, em visita ao AeroXperience 2025, um pequeno mas simpático festival dedicado à aviação.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Cazas en acción: misiones del Ejército del Aire español


Eduardo Martínez, Juan Cerdá (2024). Cazas en acción: misiones del Ejército del Aire español. Madrid: Almena Ediciones.

Um pequeno miminho de viagem, para agradar ao meu interesse específico por aviação. Um livro que nos fala da aviação de caça espanhola, desde a fundação do Ejército del Aire (os tempos da guerra civil não são abordados). Foca-se na história de aeronaves específicas, entre os biplanos Fiat Cr32 que nos céus marroquinos tinham encontros incómodos com aeronaves dos aliados na II guerra, e recontros perigosos com as forças francesas do governo de Vichy, ao contemporâneo Eurofighter. Depois da violenta guerra civil, Espanha tem sido um país que não se tem envolvido em guerras, e o livro reflete isso. Os seus perfis, especialmente relativos às aeronaves mais recentes, focam-se nas missões de defesa no âmbito da NATO, bem como a participação nas operações mandatadas pelas Nações Unidas na Jugoslávia e Líbia. Espanha também teve os seus conflitos coloniais, nos seus territóros do norte de África, e o livro aborda isso com a descrição do uso de aeronaves clássicas como o T-6 Texan (também um importente recurso para os portugueses nas nossas guerras coloniais), o clássico HA-112 Buchon, a versão espanhola do venerável Me-109, e o primeiro caça a jato de conceção espanhola, o HA-200 Saeta (que contou com o trabalho de Willy Messerchmit no seu desenvolvimento). Há ainda um capítulo dedicado às esquadras azuis, grupos de pilotos militares espanhóis enviados por Franco para combater ao lado dos alemães na frente leste, uma história pouco cómoda mas que recorda o violento passado fascista dos nossos vizinhos ibéricos.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Spitfires e Hurricanes em Portugal


Mário Lopes (1994). Spitfires e Hurricanes em Portugal. Lisboa: Dinalivro.

Uma história necessariamente técnica, da introdução ao serviço português das duas mais icónicas aeronaves de combate dos anos 40. Mas que acaba por ser uma história, ou melhor, uma análise a um detalhe histórico, do envolvimento português na II Guerra Mundial. Uma neutralidade que pendia, apesar da ditadura de direita por cá reinante, para o lado inglês por razões históricas e tradicionais. Mas também uma neutralidade ameaçada, entre o medo que a Espanha franquista decidisse tornar Portugal em mais uma província espanhola (estando ou não ao lado do Eixo), e as claras pretensões americanas de ocuptar o arquipélago dos Açores, travadas pela diplomacia britânica. 

Embora o livro seja sobre aviação, a forma como Portugal obteve estas aeronaves mostra bem os jogos diplomáticos. O fortalecimento da aviação portuguesa com Spits e Hurricanes fez-se ao abrigo de acordos que expandiam a concessão de facilidades aos aliados, especialmente nos Açores, e foi constituído por aeronaves veteranas das campanhas aliadas em solo inglês e norte-africano. 

O livro também detalha outras situações, como o caso dos aviões internados e colocados ao nosso serviço. Por internados entenda-se aviadores que se viram forçados a aterrar num país neutral, sendo detidos e as suas aeronaves confiscadas, regras habituais nestas situações. No caso português há a notar um certo fechar de olhos ao destino dos pilotos, parece que ninguém se chateva muito se estes se conseguissem evadir e regressar às suas unidades, e alguns eram retirados de cá por ação diplomática. Parte dos aviões internados entrou nos inventários militares portugueses (o que explica a presença de P39 por cá), outros eram trocados por reforço de meios e peças sobressalentes para aeronaves já adquiridas.

Nisto dos internamentos, o autor detalha uma história particularmente rocambolesca envolvendo dois P-38 americanos forçados a aterrar em Lisboa durante voos de transferência para o Norte de África. O primeiro aterra por problemas de combustível, e o piloto, que não esperava ser internado, vê-se algo atónito com a reação portuguesa. Mas o seu avião desperta a curiosidade dos militares que o guardavam, e enquanto esperavam pelos agentes que iriam internar o piloto americano, um piloto português pede-lhe que mostre como é que o P-38 funciona. Estão a ver no que é que isto vai dar, não estão? O americano, supostamente detido, regressa ao cockpit e começa a ligar o avião, com o português empoleirado na asa a ver tudo. Entretando, nos céus aparece um outro P-38 também em apuros, o que distrai os guardas que no aeroporto de Lisboa vigiavam o primeiro P-38. O americano apercebe-se da distração e não perde a oportunidade: arranca o motor, abana o avião para o português cair da asa, e levanta voo, escapando-se ao internamento. O segundo piloto aterra, e vê-se rodeado por uma turma enfurecida, que o arranca do cockpit e o mete logo a ferros. Num daqueles pormenores tipicamente portugueses, este P-38 foi colocado ao serviço da aviação militar, mas sendo o únido do tipo e sem peças para o manter a voar, só servia para paradas militares e foi conhecido como o "avião dos generais", porque estes gostavam muito de o ver na pista quando visitavam o campo de Tancos.

Este detalhe da história portuguesa na II Guerra insere-se na génese da Força Aérea como ramo independente, e de certa forma mostra também o ocaso dos impérios europeus no mundo pós-guerra. Se durante a guerra o apoio e material militar britânicos são vistos como o desejável, no pós-guerra e entrada portuguesa na NATO o foco passa a ser decisivamente americano.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Voo Nocturno


Antoine de Saint-Exupéry. Voo Nocturno. Lisboa: Livraria Bertrand.

A nu, a brutal dicotomia entre humanismo e progresso. Este romance clássico do escritor e aviador vai beber às suas experiências como piloto das linhas aeropostais, quando nos primórdios da aviação se arriscavam os primeiros voos de ligação em terras remotas, em condições que hoje considerariamos aterradoras.

No romance, acompanhamos um dedicado gestor de linhas aéreas, a braços com um dos seus piores pesadelos. O voo regular noturno entre duas cidades sul-americanas será interrompido por uma violenta tempestade, que provocará o desaparecimento dos pilotos. O gestor contacta freneticamente as estaçoes de rádio intermédias, procurando notícias, escunta com ansiedade as parcas comunicações que o radiotelegrafista a bordo do avião em risco de desaparecer envia. 

A tripulação do voo está condenada, apesar dos seus esforços em se manter no ar. A combinação da violenta tempestade com as certezas duras da duração do combustível ditam a sua sorte. Atravessam os céus sobre a floresta, sobre a tempestade, procurando manter-se vivos e chegar a um destino que se revela fatal. Em terra, sofre a jovem esposa do piloto, a sofrer as penas da dolorosa crueldade da aviação.

O destino é trágico, mas o progresso tem de continuar. Num momento negro, o gestor, homem implacável na forma minuciosa como trata os seus pilotos e mecânicos, não admitindo o mínimo erro ou compaixão por quem os comete, sabendo que os erros pagam-se com a vida, opta por não parar. As linhas continuam, os voos são retomados, mesmo os perigosos voos noturnos. Os pilotos aceitam a morte do camarada e saltam para o cockpit, dispostos a regressar aos ares.

Romance sobre o amor, mas também a dor, de voar, remete-nos para os tempos do pioneirismo da aviação, que de Saint-Exupéry fez parte. Não é difícil ler no retrato psicológico dos personagens do romance traços das suas experiências como piloto de correio. É particularmente incisivo no ponto de vista da solidão, quer a do piloto que voa pelos céus de paragens remotas, mas também a do gestor, que sabe que das suas ações dependem vidas, e não pode ser clemente com os que o rodeiam.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Le Grand Cirque


Pierre Clostermann (1958). Le Grand Cirque. Paris: Flammarion.

O relato autobiográfico das experiências deste aviador francês ao serviço da RAF durante a II Guerra Mundial. De 1942 a 1945, Pierre Clostermann combateu, como militar francês exilado, ao serviço dos aliados. Três anos que, no livro, se sentem como uma eternidade. Se esperam deste livro um relato exaltado de magníficas façanhas de combate aéreo, a leitura não mostra esse caminho. 

As experiências do autor mostram a dura realidade dos combates. As missões sucedem-se, todas momentos em que os pilotos descolam sem saber se irão regressar. Há demasiados  factores de risco, desde a aviação inimiga e às baterias anti-aéreas, aos problemas mecânicos e erros de pilotagem. As missões são uma litania de violência, vista como necessária dado o contexto de guerra, mas não abordada com recortes ideológicos. Não há honra ou valor, apenas o tentar sobreviver abatendo o inimigo.

Os relatos são factuais e desapiedados, numa frieza que traça um distanciamento psicológico do ex-combatente face às emoções que, se afirmadas, o tolheriam, e isso seria morte certa nos céus. Um registo histórico, escrito no tom amargo de um sobrevivente.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Oeiras Airshow 2024

 










Nas mãos destes pilotos, aeronaves que parecem contrariar as leis da física.