segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Motelx 2026 (II)

Com jeitinho, fazendo o esforço legítimo de ignorar quaisquer pedidos laborais que implicassem com o tempo livre, lá consegui um segundo fim de semana de Motelx. Passar a ser vilão na narrativa pessoal de outras pessoas é um preço muito apropriado a pagar para desfrutar de um festival de filmes de terror. Tive o bónus de me cruzar com a gente boa que só consigo encontrar nestes eventos. É sempre bom rever o übergeek Paulo Morgado e a mestra (em bom rigor, doutora :) ) do cosplay e cultura japonesa que é a Leo Pinela.

The Fall of the House of Usher, Roger Corman.

Tenho de me explicar. Num festival recheado de novidades, ante-estreias, filmes inesperados e obras independentes, escolho ir ver um filme antigo? Claro, não por desdém ao restante cartaz, mas porque são raras as oportunidades de ver estes filmes em cinema. Sim, eu sei que existe uma invenção recente chamada "internet" que nos permite ver estes filmes online de formas mais ou menos legais, e provavelmente também estão disponíveis em serviços de streaming. Devo confessar que sou cada vez mais avesso ao conforto do cinema em casa, mal vejo televisão e o ecrã do portátil não me seduz. Filmes, os bons filmes, é no cinema.

A série de filmes vagamente inspirada nos contos macabros de Edgar Allan Poe realizados por Roger Corman é, com muita justiça, um dos grandes momentos do cinema de terror do século XX. Sabemos que eram filmes feitos um pouco a metro por um realizador especialista nos baixos orçamentos e artimanhas para esmifrar ao máximo os trocos aos espetadores, e, no entanto, são sublimes pela sua estética e ambiência. A estética tornou-se sinónimo do que hoje consideramos o gótico cinematográfico, com vénias barrocas ao século XIX (Masque of the Red Death é nisso um portento) e o overacting explosivo dos atores. O que segura estes filmes é a capacidade inimitável de Vincent Price para puxar o exagero ao máximo sem cair no absurdo. Em cena, obriga o olhar a convergir para ele, entre a sua altura e os tiques de atuação. A adaptação do conto clássico de Poe é algo livre, mas mantém a essência, e puxa ao lado mórbido e macabro de uma história sobre obsessões e manias mentais levadas ao extremo. 

The Glorious Dead, the Adams Family.

Saí deste filme sem saber muito bem o que pensar dele. Não me agarrou por aí além durante a visualização, mas tem um forte lado quirky que me seduziu. A história é simples - a xerife de uma cidadezinha do profundo hinterland norte-americano descobre-se num dia em que tudo funciona de forma inesperada. Não há eletricidade, pessoas desaparecem misteriosamente, os mortos regressam à vida (mas catatónicos, isto não é um banal filme de zombies), todos os animais desaparecem menos os corvos, há criaturas disformes vestidas de fatos de pele humana que devoram vivos que mesmo mortos continuam vivos, e volta e meia abrem-se buracos de carne no chão. Pior que tudo, sem eletricidade não há máquinas de café a funcionar. É ao mesmo tempo uma história simples e linear, mas surreal e bizarra, com um humor muito fino. Quase um cruzamento entre Night of the Living Dead com Left Behind (não sei se se recordam da série de maus romances e pior filme onde os evangélicos exploravam o seu mito do arrebatamento, com um mundo pós-apocalipse a funcionar depois das pessoas de alma pura terem sido salvas por deus?). Nunca percebemos muito bem o que realmente se passou, mas o filme inclina-se muito para os mitos do cristianismo radical, do fim dos tempos, em que as almas puras ascendem aos céus e todos os que deus não considera dignos de salvação (o que na mente daqueles retrógrados é praticamente toda a gente) fica presa numa Terra condenada ao inferno. O filme mantém isso em pano de fundo, embora sem perder tempo com aprofundamentos. A história real é a do desconcerto de uma mulher que tem de manter alguma ordem quando tudo se torna desordenado.


Masterclass Julie Corman

Terminei sábado com a ouvir a companheira de Roger Corman a partilhar as suas experiências. A conversa não andou à volta do realizador e produtor, mas sim da carreira dela, que apesar de interconectada com a do marido é de uma longa experiência como produtora, realizadora e professora universitária. Partilhou conosco as suas experiências, e saí da sessão a pensar como, por vezes, o cinema de série B, feito a metro e baixo custo, é uma das melhores escolas para talentos. Das produções de Corman saíram muitos dos grandes cineastas americanos do final do século XX, não só realizadores como actores, diretores de fotografia e técnicos. Dezenas de oscarizados têm como ponto comum no currículo o ter trabalhado em filmes de Corman. 



A Bucket of Blood, Roger Corman

Mantendo a tradição de ir a um festival e ver filmes antigos em vez de novidades, não podia perder este Bucket Of Blood. Sendo um filme Corman de série B, o título é sugestivo em enorme grau, mas não há jorros torrenciais de hemoglobina. Título schlock, para atrair espectadores para o que é essencialmente uma comédia muito, muito negra. 

O filme goza que se farta com os beatniks, antecessores dos hippies e, com o seu forte pretensiosismo, similares aos hipsters do princípio do século XXI (ou aos correntes homens e mulheres performativos). Acompanhamos um rapaz algo inocente e lento de ideias que gostaria de ser artista. Trabalha num café beat, e é desconsiderado pelos clientes e patrão. Irá conseguir entrar no mundo das artes, graças às suas esculturas hiperrealistas, que na verdade são uma evidência de uma progressão de serial killer. Delirante, negro e com uma banda sonora deliciosa. 



American Dollhouse, John Valley

Terminei a minha visita ao festival com este filme. A forma mais simpática de o qualificar é dizer que tem alguns momentos divertidos. É um slasher, que cruza uma jovem que enfrenta traumas de infância ao ir viver na casa que herdou da mãe falecida, e uma vizinha doida varrida, que apenas quer viver um natal em família. Mesmo que isso implique raptar pessoas para as vestir de fato de cão, ter alguns cadáveres em decomposição à volta da árvore de natal, e confundir a nova vizinha com a mãe, que se suicidou explodindo a casa, matando toda a família menos a na altura jovem criança, que passa o resto da vida com terríveis marcas no corpo e uma psicopatologia violenta de que ninguém desconfia.

Pois, acabei de fazer parecer o filme mais interessante do que é.

Sandy, a slasher, merece um lugar no panteão dos assassinos de facalhão. A atriz que lhe dá corpo claramente divertiu-se a evocar os clássicos, num overacting claramente intencional e eficaz. O problema é que todo o filme não nos mergulha nas personagens, tenta um crescendo de tensão que falha por completo. E o final, é apenas pateta. 

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Para o ano há mais, espero. Já fiquei contente por este ano ter conseguido frequentar mais assiduamente as sessões deste ano. Foi, também, uma boa surpresa ter-me encontrado com um colega da minha escola. Nos mais de vinte anos que levo dela, nunca jamais tive ou conheci alguém que frequentasse este tipo de eventos (não é que os professores seja na generalidade incultos, apenas, são consumidores inveterados do tedioso mainstream cultural).