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terça-feira, 23 de junho de 2026

Atlas de Lugares em Extinção


Travis Elborough (2026). Atlas de Lugares em Extinção. Lisboa: Quetzal.

Não há nada neste livro que não se encontre nas páginas da Wikipedia. Ou, temo e suspeito, num qualquer resumo de IA sobre o tema. Mas sou uma pessoa algo antiquada, e não me é desagradável passar uma tarde primaveril a aproveitar o sol, uma cerveja bem fresquinha e um livro pouco profundo sobre o tema sempre interessante de espaços que se desvanecem.

O livro recorda-nos as cidades perdidas do passado, que em muitos casos mal deixaram traços das civilizações que as construíram. Olha para desvanecimentos da história recente, e mostra-nos como os efeitos da ação humana, entre o aquecimento global e os projetos de engenharia, estão a gerar novas geografias de desaparecimento.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Iconografias


 Uma das muitas imagens apaixonantes que a missão Artemis nos legou.


No mesmo dia, o bilionário senil legou-nos esta imagem de coelhinhos e conversas sobre destruição de nações, e quem viu isto ficou seriamente a pensar que teria tomado alucinogénicos. A realidade não anda a fazer muito sentido, nestes dias.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Construtores de Mundos


Bruno Maçães (2025). Construtores de Mundos - A Tecnologia e a Nova Geopolítica. Lisboa: Temas e Debates.

Se compreendi bem a premissa deste livro, estamos a viver num progressivo período de virtualização do real, num processo que se iniciou com regras e instituições e agora se afirma nos espaços digitais. O foco está na geopolítica, na forma como os países gerem os seus espaços de influência, e a progressiva virtualização é traçada sob o ponto de vista das instituições transnacionais, da pandemia que acabou por não paralisar o mundo, e o impacto progressivo das tecnologias digitais e IA nas redes de produção, comércio, diplomacia e decisão. Mais importante do que controlar territórios físicos, é dominar os espaços de ideias subjacentes às virtualizações em que assentamos a gestão do mundo.

Há uma certa ironia em ler este livro, claramente otimista, num tempo em que para além dos tremendos desafios das alterações climáticas e do crescente fosso de desigualdades, os velhos fantasmas imperialistas parecem estar de regresso, com a sangrenta aventura militar russa, a afirmação chinesa e o  estertor senil de uma velha ordem trazido pela administração trump. 

Apesar de refletir uma pesquisa profunda, apresentando ideias intrigantes com erudição, noto algumas falhas ao nível elementar da escrita. É por vezes difícil perceber o raciocínio, e o livro está repleto de expressões e formas de estruturar frases que vêm diretamente do inglês americanizado, o que torna pouco claros os seus argumentos. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Autocracy, Inc.


Anne Applebaum (2024). Autocracy, Inc. Londres: Allen Lane.

Se se presta atenção às voltas do mundo, às questões da geopolítica global e aos contextos por detrás das notícias do dia a dia, é difícil não se sentir que vivemos em guerra. Uma guerra de múltiplas vertentes. Umas, como se vive na Ucrânia e médio oriente, de combate sangrento e destrutivo. Outras, como a que estamos agora a sentir na europa, de desafio às defesas, de adversários que tentam erodir a confiança e testar as defesas, usando dos dronos aos ciberataques e sabotagem. Mas o maior palco da guerra global é informacional, um combate pelo espaço de ideias e controle de percepções que tem um alvo nítido: o liberalismo democrático ocidental, a legalidade e os direitos humanos.

Uma guerra que se faz de teias de influência, com muitos nos países visados a ser coniventes para ganhos políticos ou financeiros. Assenta na desinformação transmitida por redes sociais e media clássicos, e visa acima de tudo proteger os interesses das autocracias, garantir-lhes liberdade de atuação e ausência de críticas, reprimindo os seus cidadãos por meios mais elegantes e eificientes do que os massacres do passado. Tem como efeito colateral primário a erosão da confiança global na democracia e liberalismo social, o que é muito conveniente aos ditatores e estados autocráticos. 

Há um pormenor muito incisivo neste livro - os autocratas de hoje não tentam disfarçar a opressão, corrupção, nepotismo e violência dos seus regimes repressivos por detrás de propagandas utópicas. Pelo contrário, assumem isso, usando o seu domínio do espaço informacional para denegrir e desinformar, mostrando que as democracias ocidentais são corruptas e decadentes, transmintindo a imagem falsa mas eficaz que mais vale o governo de um homem forte do que a decadência democrática. Os ingredientes dessa desinformação alicerçam-se no explorar do nacionalismo, sentimento anti-lgbt, racismo, masculinismo tóxico e exacerbar de uns supostos valores tradicionais que são na prática uma máscara mal feita para ocultar os piores abusos. Os espaços digitais amplificam e facilitam estas campanhas, que funcionam como um ruído contínuo que distrai atenções enquanto oa autocratas se asseguram do poder nas suas cleptocracias, enquanto as democracias se esforçam por contemporizar e lidar com o dilúvio tóxico.

Este não é um livro animador, apesar de terminar com uma nota de esperança, mostrando como até nos regimes mais repressivos como o russo ou o chinês há pessoas corajosas que procuram lutar contra este estado de coisas. Mas as barreiras são muitas, o ruído elevado, e sente-se no dia a dia um contínuo resvalar em direção aos obscurantismos contra os quais se ergueram as sociedades democráticas.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Algoritmocracia


Adofo Nunes (2025). Algoritmocracia. Lisboa: D. Quixote.

Sou, por felicidade, um enorme distraído com as figuras públicas portuguesas. Se fosse mais atento não teria pegado neste livro, visto ter vindo das mãos de um ex-líder de um partido conservador de direita, CDS, cujos valores são diametralmente opostos aos meus. E isso teria sido um erro. Diria até que a leitura começa a valer a pena logo pelo prefácio, um belíssimo exercício de fair play político que nos recorda a importância da discussão, do equilíbrio e do respeito entre diferentes visões políticas para uma democracia saudável. Posso discordar das visões políticas do autor. E irrita-me aquela tendência direitista para meter no mesmo saco do extremismo as boçalidades do pior da direita e o progressismo de esquerda, como se houvesse um equivalente moral entre pregar o ódio, o racismo e a imbecilidade generalizada e lutar por maior igualdade social e económica, pela liberdade pessoal e de género. Uns querem um mundo pior para o seu ganho, nós (porque sim, enquadro-me nas esquerdas à esquerda do PS) queremos um mundo melhor para todos. Considerar isto extremismo é preocupante e um sintoma da acintosidade dos discursos públicos, que é o grande tema do livro.

Quando falo de prefácio, note-se que me refiro ao do autor. O livro tem outro, do punho de Paulo Portas, e ler elogios da parte de um dos mais cínicos praticantes da arte da política que temos por cá, já é esticar demasiado os limites da minha tolerância. Estamos a falar de um clássico exemplo de elitismo português, homem de boas famílias e tradicionalista, que não desdenhou descer às feiras e ser lambuzado pelas velhotas do povoléu para conseguir ascender nas escadarias do poder. É o jogo, bem sei, e é alguém que o sabe jogar muito bem.

Este livro é um profundo alerta para problemáticas que já não são crescentes, são enxurradas culturais que estão a erodir profundamente o edifício da democracia liberal ocidental. Sistema que, não sendo o perfeito, é do melhor que temos e tem garantido uma liberdade e prosperidade genralizadas inagualáveis na história humana. O problema aqui identificado, e também por outros autores, está na extremação do discurso público, na incapacidade de encontrar equilíbrio entre diferentes pontos de vista, porque já se parte para as discussões a partir de premissas radicais que se tornaram surdas aos argumentos contrários. Os resultados estão à vista: o crescimento desmedido da extrema direita, novas gerações que se revêm nos valores negativos do masculinismo tóxico, revanchismo cultural, supremacia racial e retirada de direitos. Como é que foi possível chegar até aqui?

Apesar do tema, o autor tem o discernimento de não culpar unicamente a tecnologia por este mau estado do mundo. As tendências, discursos de ódio, descontentamento, egoísmo e falta de sensibilidade para vida em sociedade sempre estiveram connosco, como franja por vezes mal disfarçada. O que a tecnologia veio fazer foi amplificar estes discursos, torná-los mais visiveis, dar-lhes canais que os media tradicionais não permitiam e que os colocam em pé de igualdade com os discursos mais lógicos e factuais. Essa amplificação trouxe o efeito perverso de lhes conferir uma certa aura de legitimidade, de mero ponto de vista divergente em vez de doudice varrida, misoginia profunda ou rebarbadice assumida. 

O algoritmo, ou melhor, as diversas ferramentas algorítmicas que as plataformas mediáticas de hoje, as redes sociais, utilizam para determinar os conteúdos com que os seus utilizadores interagem, é o mais forte instrumento de enviesamento e que de certa forma, permite níveis de controle ideológico com que os mais batidos tiranos totalitários do passado nem sequer conseguiriam sonhar atingir. O que vemos quando acedemos a redes sociais, quaisquer que sejam (com a excessão do Fediverso, não analisado neste livro) é mediado por instrumentos automatizados que determinam o que vemos com base na combinação dos nossos interesses, padrões de comportamento e objetivos empresariais. Não é por acaso que nos leva aos extremos, porque mostrar o que choca é a forma mais fácil de nos captar a atenção. E é essa atenção, medida, controlada, mediada por sofisticados algoritmos, que é a base da corrente economia digital, em que nós, ou melhor, os dados providenciados pelos nossos padrões de comportamento, sustentam fluxos financeiros milionários. Não é difícil perceber que estamos a dar cabo da nossa sociedade e sistema político para enriquecer um punhado de techbros.

Este livro fala muito bem destes mecanismos, com muitos exemplos do quanto as bolhas informacionais e mediação algorítmica têm desempenhado um papel fundamental nos extremismos que correm a nossa sociedade democrática. Algo que começa a nível pessoal, através do consumo de conteúdos, mas que acaba por transvasar para a sociedade, quer pelas atitudes públicas individuais quer pela reação de responsáveis políticos e institucionais, que se sentem obrigados ou a investir recursos de desmontagem de desinformação ou a extremar o seu próprio discurso para não arriscar perder eleitorado (e isso é algo que está a ser notório na política portuguesa, da esquerda à direita). Quando mais gritamos os ecos das nossas bolhas, mais nos convencemos da sua veracidade única, e mais nos afastamos da sã convivência social, que admite e necessita de diferentes pontos de vista, mas não sobrevive a guerras entre supostos donos de verdades únicas.

O livro vai mais longe e toca numa questão que por cá anda adormecida, a da soberania digital. Enquanto nos deixamos levar pela enxurrada de reações, likes e visualizações, não reparamos o quanto esta erosão é provocada pelo sentido de lucro de empresas que não estão sediadas no espaço europeu. Sublinha o perigo de, em nome de uma ideia romântica mas falsa de liberdade de expressão, deixarmos à rédea solta empresas cujo modus operandi toca no âmago de qualquer sociedade - a forma como flui a informação. Fartamo-nos de discutir as consequências, conhecemos as causas, mas não nos atrevemos a tocar na raiz do problema. É sempre bom recordar que, mesmo quando falamos de IA, estes algoritmos não são entidades conscientes independentes que agem de moto próprio. São programados e parametrizados a partir de decisões saídas de decisores humanos. Não há ghosts in the machine ou computers that say no. Há pessoas, executivos e gestores de topo ou intermédios, que tomam decisões implementadas nas ferramentas que nos afetam a todos. É toda um novo conceito de eminence grise, sem que haja eminência mas apenas busca pelo lucro máximo. Algortimocracia é um profundo alerta para todas estas questões.

Só apontaria um problema ao livro (e não, não tem a ver com as questões ideológicas, isto não é uma recensão clickbait). Talvez advindo da dupla condição de advocacia e política do autor, o livro é demasido longo e repete muitas vezes os mesmos argumentos, enquanto explora as suas diversas vertentes. Diria que conseguira expor com profundidade os seus argumentos com metade das páginas, e com isso apenas ganharia força. De resto, não tenho dúvidas sobre a importância desta leitura nestes dias onde assistimos ao esboroar da nossa sociedade através da janela do telemóvel.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Europeana: Uma Breve História do Século XX


Patrik Ouředník (2017). Europeana: Uma Breve História do Século XX. Lisboa: Antígona.

Torrente avassaladora é talvez a melhor qualificação que posso dar a este livro surpreendente, que nos abala durante a leitura. É uma história do século XX, mas estruturada de uma forma profundamente não linear. Não é uma sucessão cronológica de factos e acontecimentos, antes, uma deriva quasi-dadaísta pelas ideias que marcaram o século. O tom é de diálogo interior livre, um longo monólogo onde as ideias se associam segundo as suas lógicas internas. É, de certa forma, absurdista, na forma como coloca a nu os paradoxos do imenso torvelinho de ideias, comportamentos, acontecimentos e tecnologias que formaram o século XX.

Reside aí a maior força deste ensaio. Ao abandonar a mera sequenciação lógica a favor de uma associação de ideias (chega, por vezes, a repetir-se), torna-se talvez a melhor forma de retrarar o intenso e violento turbilhão que foi o século XX. O tempo em que se abandonou a placidez do velho mundo, levámos as ideologias aos pináculos destrutivos, passámos a valorizar o indivíduo comum, morremos em guerras globais, demos saltos científicos e tecnológicos incríveis, revolucionámos os usos e costumes sociais. O século XX não foi para os fracos do coração, e este livro espelha esse sentimento de forma impressionante.

terça-feira, 20 de maio de 2025

The Modern Myths


Philip Ball (2021). The Modern Myths: Adventures in the Machinery of the Popular Imagination. Chicago: The Chicago University Press.

Porque é que personagens literárias como Frankenstein ou Batman nos são tão significativas? Philip Ball argumenta nestes ensaios que estes personagens ultrapassaram os limites das suas raízes, encapsulando mitos que traduzem as nossas ânsias e angústias perante a modernidade. Representam a mitologia da nossa era, com a lente da literatura fantástica a permitir destilar as questões complexas do confronto entre indivíduo, sociedade e tecnologia de formas que a cultura mais erudita não consegue.

A ligação de Frankenstein com encarnação mítica dos medos trazidos pela ciência e tecnologia é a relação mais óbvia neste livro. A visão de Mary Shelley perdura, embora distante da sua origem, e personifica o temor e questionamento com as possibilidades trazidas pelo progresso tecnológico. Drácula mexe, e remexe, com a sexualidade e as repressões, onde o sobrenatural é metáfora para os medos e angústias de cariz sexual.  Já Jekyll e Hyde simboliza a dualidade entre o nosso mundo interior caótico, as nossas pulsões íntimas violentas e publicamente indescritíveis, com as normas sociais e morais. O livro toca na Guerra dos Mundos como forma de desmontar o sentimento de superioridade humana, relativizando eventuais epocalismos e descentrando a humanidade das narrativas de poder, sublinhando a aleatoriedade da nossa existência num cosmos indiferente. Robinson Crusoe mitifica o indíviduo, a capacidade de cada um de ir mais longe e superar obstáculos. Sherlock Holmes personifica a aridez da lógica absoluta, e Batman a visão de justiça perante a decadência, embora uma justiça dúbia vinda de um espírito pouco asisado.

Um dos pontos interessantes onde Ball toca é na imperfeição destas personagens, e como isso abre espaço à sua mitificação. A análise da sua génese é profunda, em erudita crítica literária que se complementa com as visões e revisões posteriores destas persnagens na cultura popular em todas as suas modalidades. As imperfeições literárias e incoerências dos textos originais, argumenta, tornaram estas personagens permeáveis  a interpretações latas, permitindo encarnar medos, receios, anseios e com isso enraizar-se na consciência coletiva. Na verdade, não necessitamos de conhecer ao pormenor qualquer uma destas personagens para nos vir à mente os mitos que representam, tal é o seu poder cultural. Tal não seria possível com um maior refinamento estilístico ou complexidade literária, afirma o ensaísta.

Ao longo dos ensaios, Ball mostra como estas figuras se tornaram arquétipos, personificações de conceitos e ideias dispersos, sensações despertadas pelo nosso confronto com a evolução da modernidade. Foca-se nisso o seu argumento de mitificação, as suas iconografias e abertura conceptual tornam-se metáforas que nos ajudam a compreender os medos trazidos pelo confronto com os tempos modernos, desde o espaço interior da sexualidade e pulsões ao espaço exterior do nosso lugar no universo. 

quinta-feira, 3 de abril de 2025

The Hidden Globe


Atossa Abrahamian (2024). The Hidden Globe: How Wealth Hacks the World. Riverside Books.

Uma visita aos não-lugares, espaços de transiência onde a legalidade dos estados-nação é suspensa, com acordo dos mesmos, para permitir ações e atividades que violam as leis que regem os estados. Atossa Abrahamian leva-nos numa viagem pelos palcos obscuros da globalização, os espaços que sustentam o progresso do neoliberalismo, o crescente fosso de desigualdades, a acumulação exponencial de riqueza das oligarquias transnacionais, as injustiças que contornam as boas intenções expressas na gestão de imigração.

A viagem inicia-se em Genebra, e termina nas ilhas Spitzbergen. Passamos por várias zonas geográficas. Portos livres, zonas francas, cidades-tampão, territórios sobre-exlorados, campos de detenção de imigrantes, bandeiras de conveniência. Zonas que têm em comum o permitir ao capitalismo soltar-se dos grilhões das leis financeiras, laborais, sociais e ambientais para explorar e lucrar. Os espaços visitados e descritos por Abrahamian são variados. Incluem armazéns suíços de obras de arte, onde os milionários guardam os seus investimentos da pintura aos vinhos em zonas discretas, livres de impostos. As zonas francas onde prospera a manufatura a baixo custo para as marcas globais. Paraísos fiscais que permitem os mais mirabolantes esquemas de fuga legal aos impostos - legal, porque assentam em construções legislativas fundamentalmente corruptas mas aprovadas por estados. Zonas de escape de dinheiro, especialmente chinês, que se tornam de facto colónias incrustadas noutros estados. A complexidade das relações marítimas, essa teia de bandeiras de conveniencia e armadores que consegue ofuscar o comércio marítimo dentro de uma rede complexa que dificulta a ligação de um dado navio a um país, fugindo a todas as leis laborais e ambientais. Os espaços de asilo extra-nacionais, onde estados pagam a outros estados para depositar imigrantes fora do seu território. 

O livro termina com uma visita a uma zona incongruente, onde a falta de domínio nacional tradicional não se traduz num espírito de liberdade ilegal. As ilhas Spitzbergen são nonimalmente parte da Noruega, mas o tratado que as rege abre um conceito diferente de soberania, onde as fronteiras entre estados não existem e qualquer um pode viver, dentro de um enquadramento próprio. Apesar desta conclusão diferente, a mensagem do livro é clara. Ao longo do século XX, o capitalismo investiu na construção de espaços de exceção que lhe permitem fugir, de forma legal, às leis e costumes dos estados. Os efeitos deste acumular de exceções são maus para todos, exceto para a minoria oligárquica e os seus sicofantes, que diretamente deles benificiam.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Nuclear War: A Scenario


Annie Jacobsen (2024). Nuclear War: A Scenario. Nova Iorque: Dutton.

Classifico, sem qualquer dúvida, este livro como uma das leituras mais arrepiantes e aterrorizantes que fiz nos últimos tempos. Não é uma leitura simpática, e mostra-nos a cada novo capítulo como o impensável pode acontecer, como todos os sistemas de suposta salvaguarda têm tudo para não funcionar, como um acto irreflectido pode levar ao extermínio civilizacional

Sendo criança dos anos 80, recordo os tempos do final da guerra fria, onde as superpotências dispunham de arsenais nucleares capazes de destruir várias vezes a vida na Terra, em que se temia um possível confronto, quando se sabia que em caso de guerra, em poucos minutos as cidades da América do Norte, a Europa Ocidental e a Rússia ficariam reduzidas a cinza radioativa. A queda da União Soviética e os tratados de redução de armas atómicas reduziram, aparentemente, os riscos de uma guerra atómica, mas a verdade é que enquanto estas armas existirem, o risco existe. E as consequências de um único bombardeamento são devastadoras, quanto mais os riscos trazidos pelas doutrinas militares de resposta massiva a ataques.

Logo nas primeiras páginas, a autora não hesita em qualificar de genocida, à escala global e civilizacional, a possibilidade de uma guerra nuclear. O livro é uma ficção, uma experiência de pensamento, mas reflete uma longa série de entrevistas com políticos e militares americanos e europeus que tiveram responsabilidades ativas no sistema nuclear americano e da NATO. Assenta também no pouco material público sobre estudos, análises, sistemas e políticas de guerra nuclear da doutrina militar americana. É, no fundo, um vislumbre construído a partir de depoimentos e documentos sobre o planeamento de uma guerra nuclear, assumindo que muitos dos detalhes são ultra-secretos e apenas se podem intuir, a partir da escassa informação pública.

O retrato de uma guerra nuclear é implacável. No cenário imaginário, o lançamento de um míssil balístico intercontinental norte-coreano tendo Washington como alvo dá início a uma reação em cadeia que culmina na destruição global. A reação americana ao ataque norte-coreano passa por uma resposta massiva com dezenas de ogivas, cuja trajetória, combinada com falhas de comunicação confunde os sistemas russos a pensar que estão a ser atacados, e a responder com um ataque massivo de centenas de ogivas sobre os Estados Unidos. Estes, seguindo as doutrinas militares, respondem à letra. As cidades europeias são também atacadas, como aliadas que são. 

Toda a lógica do livro se baseia na teoria dos dominós, quando um equilíbrio instável é abalado por um acontecimento inesperado, ativando sistemas e protocolos, e se torna impossível travar a reação em cadeia. Assusta especialmente perceber que o tempo se mede em minutos, os decisores não têm tempo para decisões bem pensadas, uma guerra nuclear global duraria duas ou três horas e devastaria o planeta, com consequências que perdurariam por dezenas de milhar de anos.

A premissa deste livro parte da análise dos planos de sobrevivência em caso de guerra nuclear. Acaba por demonstrar que não há sobrevivência possível, apesar do imaginário despertado por bunkers à prova de bombas. Podemos observar que o cenário é radical, parte da premissa que um dos actores globais, um estado-pária, decide cometer um ato de loucura suicida. As tensões entre nações costumam ser mais medidas, mais previsíveis. Talvez. Mas reparem que há tensões constantes entre estados armados com bombas atómicas e governos agressivos, caso da Índia e do Paquistão. Que estados como Israel prosseguem políticas genocidas usando armas convencionais, arriscando um cerco árabe progressivo, e que  detém armas nucleares que poderáo ser usadas em caso de desespero. E, por último mas não por fim, as constantes alusões russas ao uso de armas nucleares como forma de dissuadir, e ameaçar, a União Europeia e os Estados Unidos no apoio militar aos ucranianos invadidos. Não podemos descontar os erros e acidentes, recordando que nos tempos da guerra fria, foi o bom senso de um oficial soviético ao interpretar dados dos sistemas de aviso de ataque como o erro que se revelaram ser, que impediram uma guerra atómica. Hoje, com outras tensões, mais exacerbadas e menos bom senso, o risco é muito maior do que nos tempos da guerra fria. É este cenário de horror, impensável mas meticulosamente estudado e planeado por estrategas e analistas militares, que Jacobsen nos traz, recordando-nos que não há vencedores numa guerra que aniquila uma civilização.

terça-feira, 28 de maio de 2024

When We Cease To Understand The World


Benjamìn Labatut (2022). When We Cease To Understand The World. Nova Iorque: New York Review Books.

É um lugar comum descrever o efeito da leitura de certos livros como o ter levado um murro no estômago. Aplica-se bem a este, um tour de force de erudição que se atreve a desmontar o mito do cientista iluminado, mostrando-nos uma perspetiva visceral sobre a história da ciência. É habitual, em obras que analisam os rasgos de brilhantismo que caracterizam os cientistas cujas ideias moldaram o nosso mundo, que o ponto de vista seja otimista, positivo, mostrando os processos mentais como algo lineares. Labatut não segue esse caminho, pelo contrário, mosra-os sob uma pespetiva febril e visceral.

Esta inversão moral da faísca mental científica sublinha a facilidade com que deixamos a desumanidade tomar conta dos sistemas que construímos. Isso é fortemente sublinhado quando Labatut nos fala do trabalho de Haber, cuja maior contribuição para a humanidade foi o processo de extração de nitrogénio para fertilizante, um dos elementos da reovlução agrícola que alimenta a humanidade, mas que também coordenou o programa alemão de armas químicas na I Guerra, que nos mostrou o horror dos ataques de gás. Um cientista cuja maior preocupação era temer que a sua invenção levasse a um proliferar das plantas, e que aparentemente não se incomodava por outras das suas invenções terem despoletado carnificinas horrendas nas trincheiras.

A outra grande inversão de Labatut prende-se com a forma como mitificamos o génio científico, a sua excentricidade como expressão de brilhantismo. Os retratos que faz de personalidades como o físico Heisenberg ou o matemático  Grothendieck mostram-nos pessoas cujo foco extremo e comportamentos obsessivos estão muito para lá da barreira da loucura. De facto, se Labatut tivesse omitido os seus nomes e ofuscado os factos históricos, estaríamos a ler sobre as vidas insanas de loucos alucinados. É uma dicotomia perturbadora, perceber que não há fronteira ténue entre génio e louco.

Este livro é um romance não-ficcional, onde o autor inverte os prismas com que habitualmente se escrevem as biografias. É de uma erudição extrema, interligando a história e a ciência, mostrando as ligações, por vezes simbólicas, entre descobertas e personalidades que superficialmente não estão conectadas. É este outro dos méritos deste exercício intelectual, o mostrar o simplismo de visões focadas em factos ou personalidades isoladas, perante a complexa teia de interrelações que forma o longo devir humano.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

The Trainspotter's Notebook


Francis Bourgeois (2022). The Trainspotter's Notebook. Londres: Bantam.

Um daqueles caso de "a culpa de ter pegado neste livro foi do TikTok". Desta vez, não através das recomendações booktok, mas porque os vídeos deste amante dos comboios têm-me chegado à fyp, e encantam-me pelo notório amor pelas viaturas ferroviárias, a candura e inocência com que nos transmite o seu enorme entusiasmo.

O livro faz-se de relatos de experiências de trainspotting, detalhando algumas aventuras e o deslumbre quando se deparam com os veículos mais icónicos. É um livro marcadamente pessoal, algo ingénuo na forte candura. Da leitura das aventuras e desventuras de Bourgeois, saímos sempre com um sorriso, tal como o fazemos com os seus vídeos. Este não será um grande livro, leitura incontornável, mas dá-nos um vislumbre do mundo do trainspottinge, fascinante se se fizer parte desta comunidade. Mas para todos os leitores, fica o encanto com essa rara qualidade nestes dias que é o entusiasmo honesto de um autor.

quarta-feira, 27 de março de 2024

Conteúdos Gráficos e Violentos

 


É sempre divertido aceder a uma rede social e descobrir que fomos notificados por desrespeitar as regras comunitárias numa publicação. Faz parte do dia a dia de uso de redes sociais, e tem as suas ironias.


E que publicação minha alertou os algoritmos de moderação pelo seu conteúdo escabroso? Um artigo, muito interessante, sobre o trabalho artístico de Harold Cohen com o seu sistema Aaron, o grande precursor da arte gerada por inteligência artificial. Devo confessar que me é um pouco difícil encontrar conteúdos ofensivos nas imagens geradas pelo Aaron, e há uma deliciosa ironia em algoritmos de moderação de Inteligência Artificial a esbarrar em artigos sobre a história da Inteligência Artificial. 

Entretanto, para sublinhar os anacronismos deste sistemas, e num perfeito exemplo de hipocrisia, reparem no tipo de conteúdos que os algoritmos de sugestão da mesmíssima rede social me recomendam:




A mesma plataforma que me censura por alegados conteúdos escabrosos convida-me regularmente a visualizar vídeos de jovens de busto bem dotado e levemente coberto. 

Um pequeno fait divers que mostra a extensão da forma como as redes sociais comerciais são disfuncionais gaiolas douradas, fazendo uso de todo o tipo de mecanismos para capturar a atenção dos seus utilizadores, disfarçando a falta de ética, os dark patterns, a extremação de conteúdos e a perfilagem de utilizadores por detrás de bem intencionados pronunciamentos sobre a importância da segurança online e do bem estar dos utilizadores.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Arriving Today


Christopher Mims (2021). Arriving Today: From Factory to Front Door-Why Everything Has Changed About How and What We Buy. Nova Iorque: Harper Business.

Um livro excelente para percebermos os mecanismos das cadeias de produção e distribuição da economia global. Seguindo o rasto de um objeto eletrónico de consumo desde a manufatura até à chegada a casa do comprador final, o autor leva-nos um périplo pelos sistemas que interligam o globo. Ao longo deste livro, somos levados às redes de transpores terrestres que levam os produtos dos fabricantes para os portos. Mergulhamos na logística rigorosa do transporte naval, nos complexos canais globais da navegação. Descobrimos a complexidade das operações portuárias, hoje semi-automatizadas, e as redes de distribuição do grande comércio. Analisam-se as teorias de organização laboral e gestão que sustentam a rapidez e eficiência das cadeias de distribuição, que atingem ritmos desumanos na sua busca pela plena eficiência. Um livro que nos dã um potente vislumbre da enorme rede de infraestruturas que sustenta a economia global.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Spycraft Rebooted


Edward Lucas (2018). Spycraft Rebooted: How Technology is Changing Espionage. Amazon Publishing.

Não imaginaria que o Linkedin fosse das mais profícuas fontes de dados para espionagem, mas faz sentido, é onde os agentes ao serviço das agências secretas podem muito facilmente encontrar alvos com os currículos certos. O mundo da espionagem, hoje, anda longe da mística de velhos tempos. Conta menos a audácia dos agentes, e mais o saber dar a volta às tecnologias.

Pesquisar perfis no Linkedin em busca de alvos para contactos potencialmente amorosos que depois se revelam tentativas de extorsão, analisar a imensidão de dados que o nosso mundo digital gera em busca dos padrões certos, ou usar as mais recentes tecnologias de vigilância para manter cidadãos debaixo de olho. Este livro curto dá-nos uma perspetiva sobre a forma como a tecnologia alterou a visão clássica da espionagem, tornando obsoletos os seus processos mais romantizados, e tornando-a mais eficaz e distante. O livro contém um aviso sobre a capacidade das autocracias, com a sua displicência pelos direitos mais fundamentais, em perturbar o funcionamento das democracias, e do difícil equilíbrio entre a necessária defesa sem cair nas tentações autoritaristas, tão simples de implementar num mundo de informação digitalizada.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Limbo


Dan Fox (2018). Limbo. Londres: Fitzcarraldo Editions.

Este livro é o que acontece quando um escritor não é capaz de escrever um livro, acometido por uma branca mental. Dan Fox queria escrever um livro de viagens, mas sem ser capaz, acaba por se deixar ruminar sobre os estados de suspensão. Sobre limbos, sobre estados de transiência, num longo ensaio que oscila entre a erudição, o intensamente pessoal, e o não lugar do banal.

Fox fala de limbos, entre os religiosos, mas também dos banais do dia a dia quotidiano, ou dos momentos em que sentimos a vida em suspenso. Intersecta com algumas das suas experiências pessoais como viajante, e com as memórias do irmão, que recusa a previsibilidade da vida de classe média britânica e trabalha nos sete mares, sempre à procura de novos navios e destinos. Uma leitura deliciosa, por vezes tocante, por vezes erudita, que no fundo se resume a ser um livro sobre os pequenos e grandes nadas que nos acometem a vida. 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

All of the Marvels


Douglas Wolk (2021). All of the Marvels: A Journey to the Ends of the Biggest Story Ever Told. Nova Iorque: Penguin.

O ponto de partida deste livro soa a uma espécie de piada a gozar com a cultura Geek: o autor propôs-se ler todos os comics da Marvel, desde o início até aos dias de hoje. Declaração fértil para terminar em piadas sobre danos cerebrais, ou masoquismos pop. Mas o propósito é sério, um mergulho a fundo na mitologia da editora de comics, que permite perceber que as aventuras dos seus personagens não são conjuntos isolados de histórias, mas sim uma enorme narrativa, abrangente e de renovação contínua.

Wolk assume esta continuidade pela observação, do alto da sua experiência. Que, observe-se, não recomenda; boa parte das leituras estão datadas, e num processo de mergulho profundo deste género podemos perder a lógica essencial - acima de tudo, ler comics tem de ser uma experiência divertida, é essa a sua lógica. Lê-los por obrigação não nos permite perceber o seu encanto.

Analisar o longo historial de edições Marvel como uma narrativa contínua pode, à primeira vista, levar a pensar numa intencionalidade, num arco narrativo planeado desde o início. Wolk sublinha bem que não é o caso. A estrutura evolui de forma orgânica, fruto do trabalho de um exército de argumentistas e ilustradores. Cada um traz a sua visão específica, levando os personagens pelos caminhos que decidem traçar. Mas cada criador que trabalha para a Marvel também traz a sua erudição sobre o historial das personagens, vai colocando referências e, mais vezes do que se esperaria, regressando a arcos narrativos anteriores. Os crossovers, que envolvem todos os títulos numa história única, são uma variante planificada disto, mas o que torna interessante é perceber que esta polinização cruzada ultrapassa em muito o lado editorial.

Mais do que uma análise temática e histórica, este livro é uma longa carta de amor aos comics. Ao prazer de os ler, de mergulhar em mundos ficcionais assumidamente simplistas. Mas mais complexos do que aparentam. Refletem as condicionantes, as ideias, e ideologias de cada época. Representando mundos irreais e personagens impossíveis, não se alheiam da realidade que rodeia os seus jovens leitores. Por entre as aventuras de finais previsíveis, têm-se atrevido a tocar em assuntos delicados e temas fracturantes. A corrente atenção que a Marvel dedica a temas de igualdade de género e multiculturalidade é apenas a mais recente versão dessa tendência, que já passou por temas sociais  e políticos. 

A proximidade com a vida dos seus leitores sempre foi o grande trunfo da Marvel. Os seus heróis, apesar dos extraordinários poderes, são muito humanos. Não são tão icónicos quanto os da DC, atraem os leitores precisamente pelo seu lado mais humano, frágil e sujeito ao tipo de problemas que todos sentimos. Gostamos do Homem Aranha porque é Peter Parker, sempre em busca do seu lugar na vida. Ou dos X-Men pela forma como representam o ser diferente numa sociedade. Do Capitão América não por ser um símbolo do patriotismo elementar, mas porque Steve Rogers se dedica a lutar por ideais de liberdade e igualdade. Poderia continuar, todos os personagens Marvel, até mesmo os vilões, têm esse lado de proximidade com os universos pessoais dos leitores.

Este livro celebra os comics, o longo historial da Marvel e o seu papel como força cultural. Não foge aos pontos mais delicados desta história - as relações complexas entre Stan Lee e Jack Kirby, sempre tratado com injustiça por uma editora que não existiria sem o seu trabalho,  ou ideias sociais de que, felizmente, evoluímos como sociedade (grande parte dos temas e fórmulas clássicas da Marvel chocariam o lado mais woke da cultura contemporânea, mesmo dando de barato que são facilmente chocáveis). Lê-lo ajuda a perceber o porquê de se ser fã, o saber que mesmo já com alguns anos a pesar sobre os tempos de juventude que são o público-alvo deste género, sabe bem não só regressar às histórias clássicas, como acompanhar as actuais. É entretenimento, é certo, mas por detrás do aparente simplismo há complexidade temática e narrativa, um longo historial e contínua evolução, sempre em sintonia com a evolução dos seus leitores. 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

The Perfect Police State


Geoffrey Cain (2021). The Perfect Police State: An Undercover Odyssey into China's Terrifying Surveillance Dystopia of the Future. Nova Iorque: Public Affairs.

É uma coisa ler sobre a forma como a China instrumentaliza as tecnologias digitais para construir uma prisão para as minorias das províncias mais longínquas. Outra, perceber através dos depoimentos daqueles que lá viveram, e conseguiram escapar, a real extensão da repressão exercida pelo estado chinês. 


A visão tecnológica têm o seu quê de fascínio perverso. Perceber a forma como os chineses estão a integrar a internet, video vigilância, reconhecimento facial, captura automatizada de dados de telemóveis e inteligência artificial é fascinante, de um ponto de vista técnico. Já social, é aterrador. Representa o pior pesadelo, a inversão total da promessa libertadora da tecnologia, agora usada como um instrumento repressivo perfeito: invasivos até ao âmago da pessoa individual, ubíquos e inescapáveis. E massivos, usados para condicionar a vida, reprimir, de milhões de pessoas.


Em Xinjiang, província chinesa nas suas fronteiras com a Ásia Central, terrra milenar das etnias uigures e turcomanas, o estado chinês combina tecnologias de ponta com velhos métodos repressivos para efetuar o que, na prática, é um genocídio. A repressão é profunda, desde a restrição total dos direitos mais elementares, possível com policiamento omnipresente, aos campos de reeducação, que servem quer como punição arbitrária de todos aqueles que o regime considera culpados, quer como mais uma forma de intimidação das populações. Tudo isto sustentado por um sistema digital incrivelmente invasivos.


Este livro fala-nos da infraestrutura digital da sociedade prisão chinesa, sublinhando que muitas das empresas envolvidas vão depois vender as tecnologias repressivas que desenvolvem pelo mundo fora, inclusive no ocidente. Toca nos jogos e ambições políticas chinesas, da estrutura do seu regime, da forma como usa todo o tipo de influência, especialmente financeira, para levar as suas intenções avante.


Mas o que nos toca são as histórias, construídas a partir de depoimentos de refugiados uigures que, mesmo longe da sua terra, continuam a sofrer a repressão e ameaças do estado chinês. São histórias dramáticas, de profunda repressão, de sujeição dos indivíduos à vontade de um regime, a qualquer custo. E uma visão da subtileza deste genocídio, que não precisa de pelotões de fuzilamento ou câmaras de gás  para exterminar uma população. O governo chinês é paciente, segue o caminho da esterilização forçada, repressão total e reeducação, para extinguir o indivíduo, aniquilar os sonhos, esmagar a cultura tradicional, arrasar a herança cultural. É um extermínio lento, limpo, discreto, possibilitado pelo uso de tecnologias digitais, e que é pouco falado nos palcos globais. 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Cidades do Sol


Paulo Moura (2021). Cidades do Sol. Lisboa: Objectiva.

Cruzei-me com este livro através das sugestões de leitura do Rogério Ribeiro no painel das leituras do ano. Fiquei seduzido pelo lado de busca de utopias, mas também por algo que foi observado pela forma perceptiva como o livro nos mergulha nas sociedades que visita. É literatura de viagens, mas não daquela que elenca locais pitorescos e instagramáveis, ou se foca nos roteiros e percursos. Paulo Moura partiu em viagem pela ásia em busca de uma questão profundamente humanista. Numa zona do planeta que associamos a futurismo instantâneo, entre o exotismo das suas raízes tradicionais, os focos de desenvolvimento tecnológico de ponta, e o crescimento urbano em arquitetura ultra-moderna, quais serão as aspirações da classe média, uma imensa massa humana que, pela primeira vez na história, está a ter acesso  a um estilo de vida que nós, no ocidente, consideramos o normal e desejável.

As respostas constroem-se a partir de um mosaico de percepções. Em parte, das observações da vida nas ruas, onde o autor mergulha com gosto, dos fragmentos de conversa com as pessoas comuns. Outras, advém de entrevistas com intelectuais, artistas ou ativistas. O tom leve do livro oculta um enorme trabalho de pesquisa e busca das pessoas com quem falar. O seu périplo, que nos leva quer aos becos imundos de Jakarta ou Manila, aos deprimentes urbanismos chineses, às ruas perfeitas de Seoul ou ao melting pot de Hong Kong, não é um divagar geográfico mas uma busca metódica por pessoas específicas, cujos pensamentos e intuições lhe permitam responder à questão que o lançou na estrada.

Há uma resposta, mas é desmoralizadora. A visão da realidade, as notas das inúmeras conversas, apontam para que as novas e influentes classes médias não partilhem do interesse pela elevação cultural e pessoal que nós, no ocidente, consideramos o desejável. As massas, e, pelas descrições do autor, percebemos que são realmente massas humanas, têm o materialismo como interesse essencial. No fundo, algo expectável, são pessoas que descenderam da extrema pobreza, que vivem em países onde muitos ainda ficam presos a formas de vida milenares. Para estes, os deprimentes espaços urbanos das cidades são locais de sonho; os empregos mal pagos e com condições de trabalho inaceitáveis pelos padrões humanistas são desejáveis, porque lhes dão o dinheiro para aceder aos símbolos da sociedade de consumo, aos telemóveis, roupas e automóveis. A utopia não é um sonho de perfeição e transcendência, mas sim trabalhar horas infindas para ter bens. E cultura não significa a tradição literária global, mas sim o imediatismo da internet.

Talvez esta visão não seja assim tão surpreendente, e nós, habitantes de um país periférico da Europa cujas massas (bem mais pequenas que as moles humanas asiáticas) saíram muito recentemente das espirais de pobreza endémica para o mundo modernos, talvez não sejamos muito diferentes daqueles que, por lá, estão agora a aceder aos adereços da modernidade. Esta visão algo deprimente, de uma utopia que não se coaduna com a nossa visão dos futuros desejáveis, levanta questões. Sociais, políticas, e ambientais - há um custo tremendo para o planeta para os estilos de vida consumista que representam o sonho de milhares de milhões de pessoas.

Para lá do fio condutor, da busca de resposta aos conceitos de utopia na zona do planeta que associamos à hipermodernidade contemporânea, há as visões e perceções de um viajante experimentado, que nos dão vislumbres sobre a realidade da vida no extremo oriente. Pelas palavras de um livro, daqueles que são de leitura compulsiva, sentimos o pulsar das gentes e das ruas das metrópoles, as contradições entre tradição e modernidade, a sensação da geografia. 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

2034: A Novel of the Next World War


Elliot Ackerman, James G. Stavridis (2020). 2034: A Novel of the Next World War. Penguin Press.

O género guerra futura é toda uma vertente da ficção científica, mas não só, também alimenta outras vertentes, como ficção politica e ideológica. Este 2034 insere-se claramente no segundo campo. Parte de uma especulação muito tida em think tanks e instituições académicas, o como seria uma guerra entre as duas potências globais do século XXI: os vetustos e algo decadentes E.U.A., e a ambiciosa China. O livro é escrito a duas mãos, com um dos autores sendo um almirante americano na reforma, o que à partida indica que por detrás das premissas da obra estão reflexões que refletem a experiência prévia do militar. 

Spoiler: quem ganha a guerra no final é... bem, a India. Perdoem o spoiler (ou não, é-me indiferente), mas tinha de o fazer para mostrar que este livro segue caminhos inesperados. A história do possível conflito mede-se por passos mal calculados, que ameaçam colocar o mundo à beira de um holocausto nuclear. Começa no habitual jogo do gato e do rato nos mares da China, com as forças chinesas a procurar expandir constantemente a sua zona de domínio, onde uma pequena força americana, ao intervir no que aparentemente é um acidente com uma traineira, se depara com operações militares, e nos céus do Irão, onde um teste a um módulo stealth instalado num F-35 corre muito mal. Na verdade, os incidentes aparentemente separados fazem parte de um elaborado plano chinês para despertar um incidente internacional que, esperam, se fique pelo brandir de espadas seguido de recuos no terreno, para evitar uma guerra com tiro real. Não é isso que irá acontecer, quando a comandante americana no terreno resiste às intimações chinesas, o que leva ao afundamento da sua pequena frota.

Apesar dos militares chineses evidenciarem uma capacidade de ciber-guerra insuspeita, capaz de paralisar os mais sofisticados sistemas de armas americanos, Washington decide escalar a situação, enviando dois porta-aviões  para a zona, em clara ação punitiva. Os resultados são desastrosos, a combinação de poder militar clássico de um grupo de porta-aviões chinês com ciberarmas e ataques dirigidos por inteligência artificial consegue o impossível, o aniquilar da frota americana. O tema da sobre dependência militar americana da tecnologia digital é bastante explorada neste tipo de livros, geralmente sob o ângulo da vulnerabilidade dos sistemas perante ciberataques - Ghost Fleet, de P.W. Singer, por exemplo, baseia-se totalmente nessa ideia. 

Segue-se uma escalada de violência. Uma intervenção russa corta os cabos submarinos que sustentam a internet americana, o que é interpretado como mais uma agressão chinesa, e leva o governo americano a retaliar com  um ataque nuclear tático sobre uma base naval chinesa, destruindo uma cidade. A resposta chinesa passa pela invasão de Taiwan e arrasa duas cidades americanas com armas atómicas, e a resposta americana faz pairar a ameaça da destruição sobre três cidades chinesas. Esta estratégia de troca de armas táticas ameaça ir às armas nucleares estratégicas, numa espiral de retaliação mútua que parece imparável, porque pará-la, implica aceitar a derrota na guerra, algo que os governos chinês, que percebeu que se meteu numa alhada mas não consegue sair dela, e americano, onde elementos adeptos da violência estão em lugares de poder, recusam. 

O travão é colocando por uma intervenção indiana, que ataca simultaneamente chineses e americanos de forma cirúrgica, destruindo a indetetável e poderosa frota chinesa que representa a sua mais potente arma, e os aviões que carregam as armas nucleares do ataque retaliatório americano que ameaça destruir três cidades chinesas. A intervenção indiana, que também se faz no domínio da diplomacia de alto nível, coloca um travão na guerra. Os caças indianos não conseguem destruir uma das aeronaves, cujo piloto desconhece as ordens para suspender o ataque, e a cidade ce Xangai será a última vítima de uma guerra onde dois gigantes se enfrentaram, mas nenhum vence. Em paralelo, há conflitos oportunistas, com a Rússia a invadir a Polónia para assegurar um corredor terrestre para Kaliningrado, e a falhar uma operação militar para ocupar ilhas iranianas no Estreito de Ormuz, e com isso controlar o fluxo global de comércio. O livro termina com uma nova potência a ocupar o espaço político ocupado pela América e pela China, com a India a exigir a transferência das Nações Unidas para Bombaim como contrapartida para ajuda financeira a uns Estados Unidos arruinados pela guerra,

Devo confessar que este foi daqueles livros que mal consegui parar de ler. Não pela qualidade literária, é o tipo de escrita da literatura comercial, ou por qualquer empatia com os personagens, escritos com a profundidade do mais fino papel. O que cativa neste livro e, diria, neste tipo de livros, é o perceber como se movem as peças do jogo mental especulativo, comparando-as com o corrente estado das coisas. Intriga, também, pela percepção americana de si própria como fraca, vulnerável e no ocaso do seu poder global, bem como pela visão de um conflito global como algo que nunca terá vencedores claros, apenas derrotados, com um enorme desperdício de vidas, meios militares, e um abalo tremendo na economia global. Houve dois pormenores no livro que estranhei. Logo no início, sabendo que os chineses são capazes de cegar e controlar as armas americanas, não faz muito sentido enviar uma task force sem rever as ciberdefesas; e no tabuleiro global, não há qualquer menção ao papel da União Europeia, o que se estranha  ainda mais quando os autores colocam as ambições russas no tabuleiro do seu jogo especulativo. O foco do livro está num "e se" centrado num hipotético conflito na região Ásia-Pacífico, mas com repercussões globais, o que torna bizarra esta omissão. 

É de recordar que a ficção especulativa militar e geoestratégica de curto prazo sempre fez parte da ficção científica, sendo apropriada por outros géneros. Uma forma de analisar o momento contemporâneo é projetar um conflito entre potências num futuro próximo, e os tempos da guerra fria foram profícuos nisso, com obras literárias e fílmicas que anteviam uma possível guerra nuclear global. Diga-se que as suas visões dantescas, felizmente nunca concretizadas, desempenharam um papel na formação da opinião pública ocidental. Hoje, estas ficções olham para as tensões entre os poderes contemporâneos, e especulações sobre uma guerra sino-americana são o grande tema a explorar.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

This Is How They Tell Me the World Ends


Nicole Perlroth (2021). This Is How They Tell Me the World Ends: The Cyberweapons Arms Race. Nova Iorque: Bloomsbury.

Este não é um livro de leitura tranquilizante. A autora, jornalista do New York Times, especializada em cobrir a cibersegurança, traça uma história recente das ameaças cibernéticas. É um trabalho de fôlego, alicerçado em muita investigação de campo, de forma transversal. A jornalista está tão à vontade no reclusivo mundo dos hackers (confessando que conquistar a sua confiança é uma tarefa difícil), como no dos engenheiros informáticos das empresas tecnológicas, quer no dos decisores políticos e militares americanos. É uma história que emerge como discurso coerente a partir de inúmeras fontes, cruzadas com notícias e acontecimentos. E não é uma história tranquilizadora.

É claro, desde as primeiras páginas, que o interesse da autora não está no cibercrime em si. Este tema recebe alguma importância no início do livro - porque está aí a génese do problema que retrata, mas depressa se torna periférico. O que lhe interessa é detalhar, na medida do possível, o desvirtuar da cibersegurança enquanto arma de combate entre nações. Uma arma aparentemente segura, os ciberataques geralmente não têm as suas respostas em invasões ou pontas de mísseis; e relativamente barata, conseguem-se grandes resultados com investimentos que na indústria militar tradicional mal dariam para um sistema de armas moderno. E, como infelizmente já tivemos oportunidade de comprovar, com o potencial de serem extremamente devastadoras.

Perlroth traça a origem desta problemática, a partir dos mercados algo obscuros de venda de bugs, zero days e exploits em software por hackers, que depressa evoluiu para um sistema militarizado, onde agências secretas de diversos países cruzam diversas valências: o arregimentar de hackers competentes como soldados, e a procura ativa de vulnerabilidades no software (e até hardware) que lhes permitam instigar uma gama de operações secretas que vão da vigilância e roubo de dados à inutilização de sistemas dos seus adversários. Sob foco americano, a autora centra-se nas capacidades ofensivas adquiridas pela NSA, e na imparável guerra surda contra os estados mais na mira da nova guerra fria global - Rússia, China, Irão e Coreia do Norte. De acordo com a jornalista, esta última prefere o cibercrime à ciberguerra - hackear bancos e bolsas de criptomoedas, saqueando dinheiro para sustentar os seus projetos militares. Já das restantes, são notórias as suas capacidades de combate cibernético, com especial destaque para a Rússia, que tem usado com enorme eficácia a Ucrânia como principal vítima. Os ataques às infraestruturas digitais ucranianas são uma arrepiante antevisão do que poderia ser uma ciberguerra. Não estamos a falar de websites capturados, mas sim de paralisação e destruição de infraestruturas essenciais à vida moderna, desde hospitais a redes de energia.

A profunda ironia deste livro é sublinhar a vulnerabilidade americana a um problema que os próprios serviços secretos americanos criaram. Em parte, pela sua prática de guardarem segredo das vulnerabilidades encontradas em sistemas digitais, no fundo, transformando-as num arsenal secreto, não as divulgando aos criadores de software para as resolver. O problema é que se há vulnerabilidades, outros podem descobri-las, e na vasta internet, irão descobri-las. E, especialmente, por terem sido americanos a mostrar o potencial ofensivo da exploração de vulnerabilidades, com o Stuxnet, o vírus concebido para paralisar o programa nuclear iraniano. Quando alguém é precursor, cria um exemplo a seguir, e parte deste livro mostra-nos a tremenda escalada ofensiva de ciberguerra daí advinda. 

A história conta-se dos mercados de vulnerabilidades à crescente escalada surda de ciberhostilidades entre nações, com a capacidade chinesa de se infiltrar em todo o lado para roubar tecnologia, o engenho russo em cruzar ciberguerra clássica (penetração e domínio de sistemas) com desinformação. Menos detalhado, mas insinuado, está a capacidade americana e europeia de fazer exatamente o mesmo (aparentemente, a Finlândia é uma potência nestes domínios). É uma espécie de novo Grande Jogo, jogado por pessoas incrivelmente brilhantes nas suas capacidades técnicas, numa corrida de evolução constante, e de consequências potencialmente letais.

O livro tem um foco americano, mas o problema é global. Vivemos num mundo cada vez mais interligado e dependente de sistemas digitais complexos. Reparem que recentemente, um erro de navegação encalhou um navio no canal do Suez e praticamente paralisou as redes mundiais de comércio. Um ataque informático pode fazer o mesmo, ou bem pior, especialmente se direcionado a infraestruturas críticas, como centrais energéticas ou sistemas de saúde. Estamos todos vulneráveis, porque a complexidade é enorme, os sistemas nem sempre estão devidamente atualizados (no caso dos industriais, atualizar é um problema extremamente complexo), e há ainda que contar com o elo mais fraco na equação: as pessoas. Que abrem anexos maliciosos sem pensar, tornando-se fáceis vítimas de phishing ou outros esquemas, ou se revelam ser facilmente influenciáveis por desinformação e manipulação de enviesamentos em redes sociais.