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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Banir a IA da Educação?


Confesso que este momento foi puro masoquismo da minha parte. Foi pior do que eu pensava. Ou  talvez não, há alguma esperança. 

Descobri super em cima da hora que o Maio, projeto que eu tenho algum respeito, tinha organizado como parte das suas jornadas um debate/discussão sobre, estão a ler bem, banir a Inteligência Artificial da educação. Estão mesmo a ver o que é que eu fiz, não estão? Arrastei-me para Lisboa e fui ver o que é que se passava. 

O esforço de ir à cidade não foi muito grande, já lá estava para participar nas Jornadas dos Mestrados em Educação do IEUL, onde me desafiaram a falar da minha experiência prática em introduzir IA nas minhas práticas pedagógicas. Saí da Cidade Universitária bem a tempo de ir ao Liceu Camões espreitar este debate. Como cheguei mais cedo, antes do painel ter começado tive o desprazer de ouvir Raquel Varela a falar de educação. E fiquei abismado com o chorrilho de falsidades, de achismos, e descontextualização do seu discurso. Uma inacreditável falta de rigor, em alguém que por ser académica, o deveria saber ter. Confesso que me leva a colocar em causa não só o que diz nas suas intervenções públicas, como o próprio teor das suas publicações académicas, porque alguém posicionada como intelectual pública e interventiva não pode apresentar-se em discurso de achismo de conversa de café, atirando óbvias falsidades para o ar ao falar do ensino especial, com tiradas brilhantes do tipo "as turmas estão cheias de crianças a dormir por estarem medicadas, são as escolas que impõem medicação às crianças (isto é tão obviamente falso!), que não há recursos para apoios (são e serão sempre escassos, mas, novamente, falso), que a tecnologia serve para mecanizar as crianças (e para quem vem da escola de pensamento construtivista, isto é mesmo patetice advinda de ignorância), e outras pérolas.

Quanto ao painel de educação, fiquei muito preocupado com as posições assumidas pelos moderadores do painel (ou proponentes da proposta, não consigui perceber muito bem, mas isso não vem agora ao caso. Um modelo de recusa total do que é tecnologia nas escolas, do que é a tecnologia em si mesmo em si própria, ignorando e rejeitando propositadamente o seu lado capacitador. E tudo muito mais acérbico em relação ao impacto da inteligência artificial. 

Como pessoa de esquerda que sou, como também professor, e como pessoa que se tem dedicado à tecnologia na educação como forma de capacitar as crianças e de dar ainda mais horizontes, fiquei chocado. Este óbvio anti-intelectualismo assente em preconceitos, numa visão bastante pouco rigorosa do que é o o estudo académico preocupa-me. 

O que me deixou mais animado foi que o debate. Foi mesmo um debate,  e as pessoas que interviram não partilhavam desta posição tão radical e tão fechada. Participavam contribuindo com observações sobre potencial das tecnologias e da IA em específico, com visões que mostraram preocupação com os seus impactos éticos e sociais, que são óbvios, mas nunca na perspectiva de a banir, restringir ou recusar. Ou seja, se os organizadores partiram numa posição obviamente obviamente radical (aliás percebi que eles estavam incomodados com o tom e com o tipo de intervenção que receberam porque não estavam a ser apoiados cegamente), os participantes foram mais abertos. 

Na verdade o o que me preocupa nisto tudo nem é tanto a rejeição da IA ou as questões da IA na educação. É que ao rejeitar tout cout, ao colocar-nos à parte, estamos a evitar intervir. Sabemos que a IA traz imensos problemas éticos, sociais, económicos, ambientais, culturais,, numa lista muito grande.

 Também sabemos que é uma tecnologia fantástica, mas se a recusarmos liminarmente e colocarmos nessa recusa um tampãozinho ideológico, um embrulhozinho de ideologia muito bonita que a justifica, demitimo-nos intervir, demitimo-nos de procurar formas de usar a IA que beneficie as pessoas, que beneficie os alunos, que beneficie a população em geral. 

Ficamos-nos naquela perspectiva de aldeia gaulesa, advogando pureza ideária enquanto o mundo nossa volta se esfrangalha. Por isto,  este tipo de visões deixa-me preocupado. Sublinhom como pessoa de esquerda que sou, é preocupante ver estes ativistas de esquerda a ser tão anti-intelectuais,  por vezes até chega a ser doloroso ver estas pessoas  proferir as suas certezas com um óbvio desconhecimento daquilo que estavam a falar

E capaciten-se de uma coisa: colocar tecnologia nas crianças não tem que ser uma alienação de ecrãs ou mergulho na toxicidade das redes sociais. Não tem de ser assim. Se querem saber como é que isso se faz, como é que podemos capacitar as crianças com tecnologia e com isso levá-las a tornarem-se adultos mais intervenientes e conscientes e criativos. falem connosco. Nós, professores de informática, já andamos há anos nistom a colocar tecnologia intermédia e avançada, nas mãos de crianças nos vários contextos de ensino. Precisamente para lhes dar mais horizontes para crescer. 

E querem mesmo combater esta visão que nos está a ser imposta, da IA  como uma obrigação, como quele sonho húmido dos CEOs, patrões e financeiros de despedir essa coisa fedorenta que são os trabalhadores para para os substituir por IAs e algoritmos que vão trabalhar por eles? Se querem mesmo combater isto, não se esquivem ao uso de tecnologia, apropriem-se dela, que é o que que é necessário. Não disfarçam também o vosso pouco conhecimento que (nítido e notório ao longo de de muitas intervenções), com uma espécie de visão idílica de um passado que nunca existiu.

Vejo a IA como uma tecnologia incrivelmente potenciadora das capacidades individuais. Rejeito publicamente a visão dos de despedirem toda a gente para meterem a IA a trabalhar por nós. Hora e meia antes de ter passado neste evento do Maio, disse isto mesmo num auditório cheio de professores e futuros professores no Instituto de Educação. Recuso e trabalho na minha sala de aula contra a visão da IA cabulista e plagiadora. Vejo a IA como tecnologia da qual temos de nos apropriar para o bem de todos. Se não o fizermos, se se finca pé num discurso de rejeição, garantimos o pior da distopia tecnologia dos bilionários. É preocupante ver esta esquerda ativista a a basear a sua intervenção na ignorância e desconhecimento, num momento em que precisamos de vozes progressistas na IA e na educação que contrariem a narrativa comercial.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Salta Pocinhas

 


Aqui há dias abro o meu email e deparo-me com esta prenda - uma aluna que se afincou a usar a IA para me retratar na aula. Aluna de dez anos, note-se. Fartei-me de rir com as piadas que a imagem tem (logo a começar pelo meu ar sóbrio e responsável, a anos luz da minha barba hirsuta e t-shirt geek debaixo do casaco, mas isso é o primeiro sintoma óbvio dos enviesamentos da IA generativa). Tenho de as explicar. Não, a aluna não se enganou, o professor está mesmo a segurar uma raposinha ao colo em vez da expectável cadela.

Não é uma raposa qualquer, é uma Salta-Pocinhas, referência ao trabalho com que finalizámos o primeiro período, sobre o elementar do processamento de texto tendo como texto base alguns excertos da obra clássica de Aquilino Ribeiro, que são um gosto de ler em voz alta às turmas (podem não aprender muito comigo, mas pelo menos sabem porque é que são fagueiros). O martelo com cara de gato é a outra piada.

Sou aquele professor horrível que nas aulas os obriga a guardar o rato na mochila e usar o trackpad, porque se não o fizer não aprendem a usar este componente e arriscam-se a crescer e ficar como aqueles adultos que vejo a torcer os pulsos com o rato em cima do chassis do computador, dizendo que não lhes dá jeito usar o trackpad e o rato é mais confortável (não é alucinação, é algo que vejo recorrente com estes olhos que a terra há de comer). Uma das consequências da minha horribilidade é o ar de surpresa generalizada quando descobrem o deslizamento nas páginas com dois dedos ou os toques para menu de contexto, geralmente acompanhados de um coro de "não sabia que se podia fazer isto". Para os assustar, aviso-os que qualquer rato que veja na sala irá conhecer o meu gato - um esmagador martelo com olhinhos.

Só não percebi a origem das luvas. Mistérios dos algoritmos.

Percebi que a miúda se esforçou imenso para conseguir a imagem que queria, com todos os alunos com o seu computador. Variantes anteriores da imagem, que me mostrou, representavam a aula com o professor a falar e os alunos a contemplar cadernos. O aspecto geral da sala vem de algo que ela ainda não conhece, mas já lida no dia a dia, o viés algorítmico e a forma como os outputs destas ferramentas perpetuam estereótipos aprendidos no treino. Afianço-vos, no entanto, que não dou aulas em estrados, o que é uma felicidade, senão estaria constantemente a meter atestados médicos por acidente em serviço.

The street finds a way, recordo muitas vezes a frase de William Gibson sobre a forma não linear como as pessoas se apropriam de tecnologias. Fico sempre a matutar nisso quando vejo os meus alunos a usar geradores de IA para explorar as suas ideias, pela relativa facilidade com que inventam o inesperado. Até me conseguem transformar num professor de aspeto responsável e cenas. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Podcast Ubuntu Portugal #366: Ensino de TIC


Diz que me raptaram para isto. Temo as consequências de confirmar ou desmentir, da próxima em vez do clorofórmio posso ser cooptado com uma pancada. E pancadas na tola já tenho mais que muitas. 

O desafio partiu do Centro Linux, para participar no podcast Ubuntu Portugal. Podem ouvir nesta ligação: Podcast Ubuntu Portugal #368: Ensino de TIC em Portugal (Ubuntu, o sistema operativo de código aberto, não aquele programa educativo que parece ter caído em esquecimento). 

Foi uma oprtunidade de partilhar o que se faz por cá na educação digital com outro mundo, recordando que o que para nós, professores, é normal e bem conhecido é praticamente desconhecido para o resto da sociedade (mesmo que tenham filhos nas escolas ou paritlhem a vida com professoras). Foi uma conversa à solta, vale o que vale, espero não ter sido injusto ou esquecido colegas e projetos que deveria ter referido. Creio que é importante que partilhemos o que se faz na educação fora das nossas bolhas de informação, da mesma forma que é saber o que se passa noutros mundos culturais e profissionais. 

Por curiosidade, importei o registo audio da conversa para o Notebook LM, e fiquei intrigado com o destaque que deu a tudo o que foi conversado. Sobre o infográfico, deixo o caveat lector que sai de conversas e percepções, com todas as incorreções advindas da oralidade solta, não de achismos taxativos.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Twenty Things to Do with a Computer Forward 50


Gary Stager, et al (2022). Twenty Things to Do with a Computer Forward 50: Future Visions of Education Inspired by Seymour Papert and Cynthia Solomon’s Seminal Work. CMK Press.

Confesso. Comprei este livro ao engano. Pensava que seria uma coisa, e ao abrir o pacote da encomenda, percebi que não era o que espereva. Contextualizando: descobri este livro através de partilhas de um dos seus autores convidados, o inspirador professor Miles Berry. Foi através dele que fiquei a conhecer o texto original de 1971, que depressa se tornou uma das minhas leituras norteantes em formação, e discussão sobre o papel da tecnologia na educação. Pensei que os contributos seguiam o mesmo caminho, com projetos e ideias práticos. Não é isso o que o livro oferece, e posso-vos dizer que não defrauda o leitor.

Primeiro, um pouco de contexto. Os professores mais ligados à promoção da tecnologia na educação - promoção, no sentido sério de capacitação, de dar às crianças ferramentas avançadas que as estimulem e abram horizontes, e não promotores de gadgets educativos, sabem o quão incontornável é o trabalho de Seymour Papert. Em bom rigor, de Papert e as suas equipes de colaboradores, a começar por Cynthia Solomon. É nele que se encontra o ponto de origem dos movimentos contemporâneos de aprendizagem de programação e robótica por crianças. De uma forma superficial, podemos observar que Papert foi o criador da linguagem Logo, pensada para crianças programarem computadores. Algo que Mitchell Resnick, seu discípulo e herdeiro intelectual, fez evoluir para o ambiente de programação em blocos Scratch, que iniciou o catalisar de uma verdadeira explosão cultural. Recordo, há cerca de dez anos, de por cá se estar a dar os primeiros passos na introdução destas ferramentas na educação, e hoje, mesmo estando no meio deste trabalho, confesso que ainda me surpreende a enorme diversidade de abordagens, platagormas de programação, produtos de robótica acessível que hoje está ao dispor das nossas crianças.

Mas esta visão é redutora. Papert, como os seus seguidores, nunca propuseram que a importância de estimular as crianças a programar era uma capacidade útil para a empregabilidade num mundo progressivamente digital (é esse o argumento que sustenta algumas das maiores iniciativas de learn to code, da Code.org americana à europeia EU Codeweek). A sua visão é mais profunda, prende-se com o estímulo intelectual, o trabalhar formas de aprendizagem que não se baseiam na absorção passiva de conteúdos. A programação surge como desafio intelectual de alto nível, apesar de baseado em conceitos simples, que dá asas às crianças para evoluir com autonomia.

Diga-se que não é uma posição fácil de assumir, digo eu que estou no terreno e sinto na pele as agruras de ensinar nos constrangimentos do sistema de ensino. Não interpretem isto como lamento, qualquer professor que valha o seu sal sabe equilibrar estratégias e pontos de vista, trabalhar dentro de constrangimentos, e encontrar tempos e espaços onde pode avançar por caminhos menos convencionais. Mas noto, nos meus colegas, nalguns pais dos meus alunos (coleciono queixas por "não ensinar as coisas importantes do word"), uma total desistência face à apropriação do computador como estímulo intelectual. Tudo o que ultrapassa usos além da produção de docuementos e artefactos digitais muito básicos, é considerado excessivo, demasiado complexo para as crianças. Na verdade, essa complexidade está mais na cabeça dos adultos do que nas crianças, cuja capacidade para se apropriar deste meios nunca cessa de me surpreender, desde que saibamos como as introduzir nestes mundos (pista: desafiar os miúdos a criar programas que façam cálculos matemáticos pode não ser a melhor ideia, desafiem-nos a programar quadrados que se transformam em estrelas e vão ver como o coro de ooohs! e aaaahs! de contentamento vos aquece o coração).

A base do Logo, tal como a do Scratch, estava na criação de ambientes computacionais abertos, simples de iniciar mas com largos horizontes de exploração, que melhor se definem na metáfora papertiana de low floor, high ceiling, wide walls.  E, não transformar a exploração desses ambientes numa rotinação de exercícios sequenciais (embora haja momentos em que estes tenham o seu papel), mas sim permitir explorações abertas, livres, de acordo com os interesses das crianças.

Todo o livro parte disto, do texto clássico de Papert e Solomon Twenty Things to do With Computers. É um texto que nunca cessa de me surpreender, e também, de me deprimir. Data de 1971, fala-nos do conservadorismo extremo do uso educativo da computação, da capacidade do computador como ferramenta cognitiva de alto nível nas mãos das crianças. E sugere vinte atividades de programação, que começam por meter robots a desenhar e acabam na música. Bem, na verdade, a vigésima sugestão é recursiva, um desafio ao leitor para pensar mais vinte atividades.

Este Forward 50 (ou fd, para quem se recorda do logo) constrói-se de reflexóes e testemunhos, de práticas e ideias. Uns recordam tempos de implementação digital em escolas, outros falam do que se faz, hoje, em escolas e makerspaces. Em comum, a dedicação a uma visão construcionista da aprendizagem, indo além das bases instrucionistas, ao uso de computadores na educação como meio de empoderamento das crianças e não de consumo passivo de conteúdos.

Esperava projetos práticos, saíram-me reminiscências, reflexões e relatos. Diria que nada assenta melhor a um livro sobre este temas: não dar soluções fáceis, mas sim apontar caminhos e recordar-nos que não temos de temer os dragóes que se ocultam nos territórios náo desbravados. Porque, e aqui falo da minha experiência pessoal, quando se comelam a trilhar estes caminhos depressa percebemos que não há regressos, porque percebemos o profundo impacto que têm nos nossos alunos. E isso, é o que nos dá alento nos momentos mais espinhosos.

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Teaching Machines: The History of Personalized Learning


Audrey Walters (2021). Teaching Machines: The History of Personalized Learning. Cambridge: MIT Press.

Confesso que me senti um pouco defraudado ao longo desta leitura. Esperava uma história das várias vertentes do uso de tecnologia na aprendizagem, entre software e hardware. Mas o foco do livro é mais estreito, contando-nos a história das máquinas de aprendizagem, dispositivos (analógicos, convém sublinhar) inicalmente desenvolvidos por Sydney Pressey nos anos 20, e posteriormente por B.F. Skinner (se o nome vos é familiar, é esta figura que os Simpsons parodiam com a personagem do diretor Skinner). 

Estas máquinas eram essencialmente dispositivos analógicos de feedback automatizado para tarefas rotinadas. E é aí que reside o mais interessante neste livro, o mostrar-nos a filosofia de aprendizagem que está por detrás deste tipo de equipamentos, bem como as percepções sociais sobre educação que os sustentam. O método é sempre o de reduzir as aprendizagens a unidades essenciais, que o aluno tem de completar para ser bem sucedido. É uma forma redutora e mecanicista de encarar a aprendizagem, apesar de, claro, também ser um método com utilidade. Isto da aprendizagem não se deixa domar por visões unicistas, e quando alguém apregoa que encontrou a chave do sucesso educativo com base numa vertente, geralmente está a fazê-lo ignorando as outras vertentes possíveis.

O papel de Skinner aqui é especialmente inquietante, percebendo-se o seu princípio de condicionamento operativo aplicado aos sistemas educativos como algo essencialmente repressivo, negador de liberdades e diversidade individual.

Estas máquinas falharam, em parte pelas suas limitações tecnológicas, em parte por serem redutoras, e também por serem um tédio para os pobres alunos. A extrema mecanização educativa costuma ser contraproducente, e não é muito fácil convencer administradores escolares a comprar equipamentos cujo uso se esgota depressa. O que não significa que estas máquinas tenham sido um ramo decaído das tecnologias educativas. Bem pelo contrário, com mostra a autora, no seu capítulo final onde liga a história desta tecnologia esquecida com o panorama geral das aplicações tecnológicas educativas.

O legado destas máquinas de aprendizagem está vivo e de boa saúde, quer na tecnologia educativa, quer na sociedade digital. Muitos dos modernos sistemas de aprendizagem seguem os princípios de divisão do conhecimento em pequenas parcelas incrementais, e reforço positivo das aprendizagens. Nem o trabalho de Seymour Papert, que tem uma base conceptual totalmente oposta, o construcionismo, escapa na sua aplicação a este tipo de determinismo, primeiro na linguagem logo e agora no ambiente Scratch (embora a autora não refira que se a base de aprendizagem papertiana era, necessariamente, fragmentada, a abertura do que se faz com as ferramentas que inspirou é incomparavelmente maior ao mecanicismo da esmagadora maioria do software educativo, demasiado do qual se centra na ideia de treinar competências). Em termos sociais mais abrangentes, o behaviourismo skinneriano, com todo o seu cinismo e visão redutora do humanismo, é o que sustenta a corrente economia digital. A competição pela atenção, o constante reforço positivo dos utilizadores através de likes e outros mecanismos, que se torna aditivo e tem como objetivo último maximizar os lucros da empresa, não trazendo nada de enriqueceder à pessoa, são decalcados dos métodos de Skinner. E todos já vimos como a tirania dos likes está a correr bem, em termos psicológicos do indivíduo e na progressiva fragmentação social trazida por bolhas de informação cada vez mais extremadas.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Arqueologias da Tecnologia Educativa

 


Foi uma surpresa inesperada. Na World Robotics Olympiad, no espaço dos cursos ligados à docência de informática, programação, robótica e pensamento computacional do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, cruzei-me com esta verdadeira relíquia da arqueologia da tecnologia na educação. 

Se não reconheceram imediatamente o artefacto, é uma tartaruga Logo, concebida no início dos anos 80 pela equipa de Seymour Papert, no âmbito da programação em linguagem Logo e do incentivo à programação como forma de desenvolvimento cognitivo das crianças. É a avó de todos os projetos de robótica educativa, o ponto de origem ao qual podemos traçar todos os projetos. Um artefacto de enorme significado na história da tecnologia na educação. E, como me disse o João Piedade, ainda funcional, embora com o problema de se encontrarem drivers e cablagens para o programar. 

Ainda no âmbito da WRO, tive a oportunidade de visitar o Museu da Música Mecânica no Pinhal Novo. Entre os inúmeros artefactos funcionais de máquinas musicais e primeiros reprodutores de música gravada, encontra-se esta grafonola especial de 1915. A Edison Diamond estava concebida para aprendizagem de línguas, combinando o disco com vozes gravadas e o rolo de papel que, em simultâneo, mostrava as palavras ouvidas. 

Não me é difícil imaginar, em 1915, discursos positivistas e artigos a demonstrar este artefacto como o futuro da educação, tal como hoje acontece com as ferramentas digitais mais na moda (agora, é a Inteligência Artificial, mas já passei por outras, de quadros interativos aos metaveros). Ironias à parte, a verdade é que sempre tentaremos integrar novas tecnologias ao serviço da educação, com variados níveis de eficácia, e que com a natural evolução dos tempos elas se tornarão obsoletas e esquecidas, substituídas por outras. É um processo natural, e conhecê-lo dá-nos a necessária perspetiva de longo prazo para analisar de forma crítica os deslumbres passageiros, ou o hype mercantilista que apensas visa vender gadgets.

Reparem, esta pitoresca grafonola que hoje contemplamos com ar condescente já foi a vanguarda tecnológica do seu tempo. Tempus edax rerum...

segunda-feira, 16 de maio de 2022

TEDx OeirasED 2022: O Que Faria...



Notas de suporte à apresentação na TEDxOeirasEd 2022. Poderia ter seguido um caminho mais confortável, falar de 3D na educação, mas preferi olhar para o que me faz querer ser professor de TIC, e o porquê do levar a tecnologia digital para a sala de aula. Interessa-me o lado mais criativo, e, com alguma piada, inútil, aquele em que as tecnologias podem ser usadas para estimular a criatividade artística. Eu sei que é um contra-ciclo com o utilitarismo da robótica e programação na escola, ou a utilidade de aprender ferramentas TIC, mas é o caminho que me anima. Curiosamente, a relação entre a arte e a educação esteve muito em evidência no evento, muitos dos palestrantes focaram-se nisso, na necessidade da expressão artística, no seu desvalorizar social, na importância intrínseca do design, da música, da expressão dramática. Numa educação que permite a cada um explorar mais a fundo o seu ser. Quase diria que os palestrantes na TEDx tinham em comum o terem sobrevivido ao lado rolo compressor do sistema educativo, e conseguido criar o seu nicho, onde tentam que ensinar e aprender seja mais do que memorizar conteúdos e ter bons resultados em exames.

Slide 1 - O que Faria…


E se… daVinci, ou Picasso, ou qualquer outro dos grandes nomes que admiramos nos museus, fossem vivos hoje em dia? Já se perguntaram que meios e ferramentas utilizariam para se exprimir, para levar mais longe as fronteiras das estéticas, dos modos de representar o que vemos e sentimos?

Se estivessem entre nós, hoje, o que fariam? Contentar-se-iam com os meios clássicos de expressão plástica? Desbravariam novos terrenos estéticos na pintura e escultura? Ou estariam na vanguarda tecnológica, a usar código, robótica, algoritmos de inteligência artificial, ou realidade virtual, para dar corpo às suas visões e intuições? 

Reparem que estes, tal como tantos outros artistas cujo trabalho foi marcante no enorme continuum da história de arte, se caracterizaram pela forma como exploravam as fronteiras da expressão visual. Sempre a tentar ir mais em frente, em busca de novas formas de ver. 

É uma pergunta que coloco muitas vezes, como professor de TIC, para desafiar alunos e outros professores (especialmente de artes). Vou dizer algo de muito banal, porque, apesar de acontecer de forma assimétrica, já se sente nas escolas portuguesas: vivemos em ambientes educativos mediados por tecnologias. Queremos cada vez mais que os nossos estes reflitam o impacto que a tecnologia digital está a ter na sociedade. Algo que se está a traduz no progressivo incentivo ao trabalho com tecnologia no ensino básico. Programação, robótica, 3D, manufactura aditiva, pensamento computacional, e até mesmo inteligência artificial já chegam às escolas, até aos alunos mais novos, de forma progressivamente igualitária. Os programas de algumas disciplinas incorporam diretamente estes temas (caso de TIC) ou ao serem reformulados, incorporam o potencial do pensamento computacional (caso de Matemática). Está se no meio de um ambicioso e complexo projeto de transição digital que está a colocar um computador nas mãos de cada criança, com toda a responsabilidade em termos de mudança pedagógica a que isso nos obriga enquanto professores. 

Mas, e o que se passa nas artes na educação? Esta não é uma das questões vistas como prementes no âmbito da transição digital, há um certo receio da intromissão da tecnologia, de interferência nas manualidades e aprendizagens, com valorização - legítima, de meios mais tradicionais. Enquanto os mais ligados à tecnologia vêem o papel das artes mais como decorativo e acessório.

Mas, será que podemos ir mais longe? Usar a tecnologia como linguagem artística na educação? Fará sentido no âmbito do ensino básico? Antes de falar de possíveis respostas, de vertentes de abordagem, façamos um pequeno desvio.

Slide 2 - 20 things to do with a computer


Gostaria de partilhar convosco um texto que descobri recentemente, recordado pelo investigador inglês nos domínios da programação para crianças e pensamento computacional Miles Berry. 20 things to do with a computer, escrito por Seymour Papert e Cynthia Solomon. Tal como o título indica, são vinte sugestões de atividades para desenvolver com crianças e computadores. 

É um texto com uma visão que mesmo hoje, nos dias da integração de programação e robótica nas escolas, ainda nos parece distante. O foco primário deste texto está no potencial do computador como potenciador cognitivo nas mãos das crianças. Não como meio de ensino de matérias e conteúdos, ou aprendizagem mecânica do seu uso. 

Slide 3 - 20 things to do with a computer


E como é que começa? O que contém? Se esperam sugestões de uso do computador para produzir textos e apresentações, ou realizar pesquisas - o uso esmagador da tecnologia digital que fazemos, hoje, na educação, e que se está a intensificar, irão ter uma enorme surpresa.

Entre as 20 coisas se que podem fazer com computadores encontram-se sugestões de como pode uma criança usar ambientes de programação para desenhar. Criar formas geométricas, padrões visuais. Programar música. E, mais importante, experimentar com as suas variáveis numéricas e com isso desenvolver os seus algoritmos. Ou, porque não incorporar canetas em robots, e programar os seus percursos? Ou seja, desenhar com robots?

Já vos disse que este texto vem de 1971? E aqui eu, a caminho de ancião, me confesso: ainda não era nascido. Não vos parece extraordinário, numa época em que o computador era desconhecido da esmagadora maioria da população, em que a ideia de se usar dispositivos portáteis para consultar informação e comunicar era visto como um sonho impossível da Ficção Científica, um homem se atrever a propor que ensinar uma criança a programar seria algo de fundamental para o potenciar do seu desenvolvimento cognitivo?

Foi essa a grande hipótese de Papert, que com a sua equipa de investigação criou a linguagem Logo no final dos anos 60. Este, nos anos 90, pelas mãos de Mitchell Resnick, tornou-se o ambiente visual de programação Scratch. Está na base da corrente revolução na educação, permitindo às crianças usar estes ambientes para interagir com programação, robótica, drones e outros artefactos. Sempre em perspectivas construtivistas, de mãos na massa.

Slide 4:  A importância de aprender a programar


Qual a importância de aprender a programar já na infância? Há argumentos pedagógicos, na perspectiva de desenvolvimento de capacidades ligadas ao pensamento computacional, e apropriação dos meios digitais pelas crianças para desenvolverem projetos com intencionalidade, ao descobrir de formas não superficiais muitas das tecnologias.

As muitas iniciativas existentes de incentivo à aprendizagem programação - destaco os projetos Ciências da Computação da ANPRI, e o EU Codeweek, como dois exemplos, reconhecem esse objetivo maior. Mas, nesta discussão, o argumento mais usado é utilitarista, apontando-se a necessidade de formar programadores para sustentar o crescimento de uma economia cada vez mais digital.

Em educação, o foco nas STEM tem sido imenso, reconhecendo a importância de estimular a aprendizagem nessas áreas. Recentemente, começou a falar-se nas STEAM, uma tentativa de incorporar componentes ligadas às artes. Mas, será que esta integração é feita partindo de princípios em que a tecnologia é usada como meio de expressão, em que exploram as estéticas possibilitadas pela tecnologia? Ou será algo de acessório, pensando a contribuição artística como elemento decorativo, ou uso mecânico de aplicações que geram resultados gráficos? 

A sensação que tenho, da experiência e partilha com os meus colegas, é a integração das artes com tecnologias no ensino básico faz-se criando decorações para robots, desenhando personagens para ambientes de programação, usando recursos pré-feitos em ferramentas que permitem criar bandas desenhadas, animações e outros produtos gráficos, ou experimentando edição de imagem. Não é de desvalorizar, mas sinto que se poderia ter espaço para ir mais longe.

E os professores ligados às artes, será que se sentem tentados a trazer estas tecnologias para a sua aula? Sente-se resistência, e um foco numa visão tradicional, de aprendizagem de técnicas de desenho, pintura e trabalho com materiais. 

É de sublinhar que não podemos desprezar o foco em medias expressivos tradicionais, não há razão para serem colocados de parte em prol de um deslumbre pelas tecnologias digitais.

Mas, volto a perguntar, será que não poderíamos ir mais longe? Incorporar programação, robótica e outras tecnologias usando-as como meio de expressão?

Slide 5 - Arte Digital e Generativa


Desviando-nos para o mundo das artes, verificamos que o uso do digital já é prática comum em vários níveis, desde os ilustradores de banda desenhada que trabalham em desenho digital às experiências multimédia e transmedia. Os artistas já experimentam o computador enquanto pincel quase desde o momento em que este surgiu. Engenheiros e artistas colaboram em projetos nos lendários Bell Labs. Desenvolveu-se todo um movimento artístico, a partir dos anos 50, discreto e não muito bem visto, no âmbito da arte moderna. Os artistas que se integram nos Algorists focaram as suas práticas no desenvolvimento de algoritmos, pegando no computador como forma de automatizar e procurar novas fronteiras estéticas. Desde os anos 60 que outros artistas a cruzam mecanismos e robótica para criar máquinas de desenho. 

Hoje, em museus, galerias e no espaço online, encontramos criadores que desenvolvem os seus robots, interagem com robots, desenvolvem algoritmos, criam linguagens de programação poéticas, experimentam com algoritmos de inteligência artificial. Talvez esteja aqui a resposta à questão inicial? 

É interessante notar que o corrente interesse por criptofinanças e NFTs está a ter o curioso efeito secundário de dar à arte digital e  algorítmica uma  nova visibilidade.

Em comum, encontramos nestes criadores a vontade de explorar as fronteiras da computação enquanto linguagem estética. É um passo mais avançado do que o usar ferramentas digitais para design 2D e 3D, ou recriar media tradicionais com a simulação digital. É afirmar que a própria essência da computação, do algoritmo, do mecanismo robótico, pode em si mesmo ser uma ferramenta de expressão com uma linguagem própria. Que a computação pode ser uma linguagem.

Slide 6 - Entretanto, na Escola…


Correndo o risco de ser injusto, sente-se que estas dimensões estão ausentes quando se abordam as artes no ensino básico. Nas aulas de artes, os alunos desenham e pintam. Nas de tecnologias, programam e soldam. Quando muito, usam aplicações para desenhar e pintar em meios digitais, ou modelar em 3D, mas sente-se que não vai além disso.

Quando falamos das STEAM, onde a contribuição das artes é muitas vezes vista como algo meramente decorativo. Criar uma decoração para um robot, tornar uma aplicação bonita, desenhar elementos para uso em ambientes de programação visual. Não vem mal ao mundo que isto aconteça. Todas as contribuições são bem vindas, no sentido de uma educação integral. 

Mas, a pergunta que faço, é se se poderia ir mais longe? Perder o medo da tecnologia, e desafiar as crianças e jovens a utilizá-la como meio de expressão, usando as suas possibilidades estéticas intrínsecas, indo mais longe do seu como elemento decorativo?

Na verdade, Papert já respondeu a essa questão em 1971… Podemos integrar melhor tecnologia com artes, se perdermos o medo das fronteiras entre disciplinas e colocarmos os informáticos e tecnológicos a conversar com os artísticos e criativos. 


Slide 7 - E, Como Fazer?


Recordam-se do texto de Papert e Solomon? As pistas para o como fazer estão lá todas, com a vantagem de que hoje, dispomos de uma enorme variedade de aplicações, ambientes visuais de programação, e hardware de baixo custo que permite desenvolver este tipo de projetos.

O ponto mais fácil por onde começar está na criação de algoritmos para programação de desenhos. Algo que soa muito complexo, mas é realmente simples de fazer, usando ambientes de programação visual e turtle graphics. Podemos desafiar os alunos a criar padrões visuais programando em ambientes de programação visual; ou ir mais a fundo e explorar linguagens de programação que foram expressamente desenvolvidas para facilitar a expressão artística, como Processing e P5JS. 

Correndo o risco de parecer injusto, os informáticos mais puros olham para isto como o resultado de meros padrões repetitivos ou funções aleatórias, algo de pouco profundo no desenvolvimento de competências digitais. Mas a minha experiência diz-me que o olhar de fascínio e contentamento de uma criança que vê o resultado do algoritmo que programou é algo de mágico. Despertar aquele brilho no olho que simboliza a faísca da curiosidade um dos objectivos maiores da educação, creio.

Tal como Papert já tinha mostrado, podemos partir daqui para a robótica. Se as crianças programam um robot para descrever percursos ou reagir perante o ambiente, porque não acoplar-lhe uma caneta, e registar o seu rasto? 

Para os educadores mais utilitaristas, uma boa razão para explorar estes campos está no cruzamento de saberes. Podemos explorar em simultâneo conhecimentos de Informática,  Artes, ou Matemática. Até se consegue incorporar expressões físico-motoras, como percebi quando, ao testar um robot desenhador controlado por sensor ultrasónico com um grupo de meninas do 5º ano, dei com elas a saltar e dançar para bloquear o caminho do robot, e obrigá-lo a desviar-se. Inadvertidamente, estavam a criar uma performance de desenho e expressão corporal improvisada, que aconteceu num pedaço de papel de cenário na biblioteca da minha escola. 


Slide 8: E, Como Fazer?


Hoje, dispomos de ferramentas digitais que o próprio Papert não anteviu (embora o seu princípio de uso como ferramenta cognitiva se aplique). Podemos levar algoritmos de Inteligência Artificial, 3D e manufactura aditiva para qualquer sala de aula.

Uma das vertentes interessantes da explosão recente das tecnologias de inteligência artificial está no seu uso para geração de imagens. Desde que o DeepDream nos mostrou as primeiras produções geradas por IA, que nos deixámos fascinar com imagens geradas por IA , e se começou a discutir se os algoritmos são capazes de criar arte. Uma discussão que daria toda uma outra TED, por isso não nos vamos meter nisso. 

A acessibilidade de interfaces que nos permitem utilizar GANs e métodos de geração de imagens por inteligência artificial, hoje, é enorme. Inclui apps para telemóveis que nos permitem gerar imagens a partir de inputs de texto e fotografia, a ambientes de programação online que nos dão acesso a processadores poderosos e à parametrização destes algoritmos. Claro, muitas destas aplicações podem ser criticadas sob a perspectiva de "clicar num botão para gerar imagens não é arte", mas se olharmos para os métodos de o fazer e os usarmos com intencionalidade, estas certezas tornam-se incertas. 

3D, com a sua extensão para as tecnologias de manufactura aditiva, é uma das tecnologias educativas mais interessantes de hoje. Permite-nos colocar nas mãos de crianças os meios de produção dos seus objetos tangíveis. O processo de modelação é um tremendo desafio mental, sendo aí que reside o cerne do potencial pedagógico do 3D

A modelação 3D é uma excelente ferramenta para cruzar artes, criatividade e tecnologia. Os processos de design em modelação 3D integram-se muito bem com o desenvolvimento de capacidades de pensamento computacional. Ao modelar em 3D, trabalhamos com abstração, algoritmos, lógica, decomposição, reconhecimento de padrões e avaliação. Uma abordagem que decorre no próprio processo de criação, com o domínio das técnicas e o seu uso intencional. E, no final do processo, as crianças podem ter a possibilidade de imprimir o resultado em 3D. Há um fascínio muito especial em ver imprimir e segurar nas mãos um objeto que nós próprios modelamos.

Estava a esquecer o hardware de baixo custo. A sua diversidade é enorme, das placas arduino e micro:bit aos inúmeros sensores e actuadores que lhes podemos conectar. Uma proposta divertida passa pelo usar leds programáveis e placas microbit para programar a luz, criando experiências de arte cinética.

Slide 9: Cultura Maker 


A cultura Maker afirmou-se nos últimos anos como um ambiente de criatividade e partilha. Uma rede difusa, onde se cruzam fablabs e criadores, onde o saber técnico se constrói em colaboração. Uma cultura que depende das tecnologias, mas onde o importante, como observam os makers, não são as ferramentas, são as pessoas. Esta cultura está a democratizar a criatividade tecnológica, onde o fazer, o projeto que se constrói, não tem de ser necessariamente útil ou pensado para mercantilizar.

De robots que, literalmente, pintam a experiências arrojadas com impressão 3D, mecanismos artísticos, ambientes multimédia, os makers seguem o impulso essencial da criatividade, que nos obriga a construir.

Este espírito está a chegar à Educação, muitos já perceberam o poder de abordagens multidisciplinares informais, focadas no desenvolvimento de projetos, cruzando diferentes vertentes. Onde o corte laser se integra com o desenho, o tear com a impressão 3D, a eletricidade com a condição física. Ou, no lema dos fablabs, How To Make (almost) Everything.

Slide 10: O Que Faria…


Como diria Cole Porter, se as abelhas o fazem, os pássaros também, até mesmo as pulgas educadas o fazem, porque não trazer a tecnologia para as artes, no ensino básico?

Podemos mostrar que a tecnologia pode ser muito mais do que um meio utilitário, que pode por si só, sem ser acessório de outras áreas, ser um meio de expressão. Porque se é importante explorar programação e robótica pelo seu lado mais útil, porque não também experimentar o lado inútil? Que talvez não seja assim tão inútil quanto isso, ao olhar para o passado, para as culturas que nos precederam, o que primordialmente recordamos são os seus artefactos artísticos, ou seja… o seu lado inútil. 

Confesso que ao preparar esta apresentação, as dúvidas foram mais que muitas. Isto é realmente relevante? Não existirão problemas pedagógicos bem mais prementes e abrangentes do que o lirismo de explorar computação artística com crianças? Claro que sim, mas uma das coisas fascinantes da Educação é que é feita de muitas vertentes, talvez o mais importante que nas escolas podemos oferecer aos nossos alunos é a diversidade de experiências, que alarguem os horizontes e contribuam para o seu desenvolvimento. Essencialmente, dar-lhes o espaço, o tempo e o conhecimento para crescerem enquanto indivíduos.

E se a arte computacional não será certamente uma das vertentes mais abrangentes, não terá por isso pouca importância? Bem, confesso que as minhas dúvidas saíram desfeitas no final de uma muito recente aula de TIC. Uma aluna pede para falar comigo, pega no seu tablet, e diz-me "professor, quero mostrar-lhe um programa que fiz". E saiu aquilo que estão a ver no vídeo. Não é uma meditação profunda sobre o impacto do digital no nosso ser. É um algoritmo simples, criado por uma criança. Mas eu não lhe ensinei isto, chegou lá por si. Imaginem uma pequena que, com os olhos a brilhar, vos diz 'eu fiz isto". Não por ser útil, por ser trabalho de casa, ou projeto de estudo. Mas pelo impulso, tão simples mas ao mesmo tempo tão profundo, de querer expressar-se, de dizer algo ao mundo.

E não é para isso que serve a Educação?

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

The Monsters of Education Technology


Audrey Watters (2014). The Monsters of Education Technology. Smashwords.

Como aperitivo para o seu livro, longamente esperado mas publicado este ano pela MIT Press, sobre a história da tecnologia educativa, a investigadora Audrey Watters coligiu um conjunto de intervenções e keynotes neste livro. O tema, são as tecnologias educativas, que Watters critica de forma profunda, bem fundamentada, e certeira. A autora situa-se declaradamente numa abordagem à educação que privilegia as competências profundas, a capacitação e desenvolvimento profundo e autónomo do indivíduo, e não a mera transmissão de conhecimentos. É com base nesta visão que desmonta os pressupostos por detrás das mais recentes tecnologias  educativas. 

Aponta aos MOOCs e LMSs o seu carácter formulaico e rígido (compreendo, uso alguns LMS e a escolha nunca é o melhor sistema, mas sim o menos pior). Questiona porque é que as iniciativas de aprendizagem de programação se focam tanto no utilitário, desvirtuando e afastando-se da visão abrangente, do programar como ato intelectual, que está no cerne da visão de Papert que deu origem a este campo. Obriga-nos a pensar na questão dos dados, que com os sistemas digitais de apoio à educação, quer na aprendizagem quer na administração escolar, são um manancial imenso, apropriado e usado por entidades e empresas, mas raramente usados pelos próprios alunos, os geradores desses dados. Critica profundamente a superficialidade das visões comerciais sobre tecnologia educativa, desmontando a sua suposta inovação e mostrando que, na maioria dos casos, não passam de empacotamento do mais primitivo que há em educação, o absorver factos e treinar a sua memorização. Obriga-nos a perguntar porque é que temos o que temos, porque é que consideramos inovadores sistemas LMS inflexíveis, softwares de drill and practice, foco no aprender por aprender, ou gadgets cujo uso prático depressa mostra a rapidez com que se esgotam. Isto, em discursos e apresentações. Imagino o livro sobre a evolução da tecnologia educativa, que já está na lista de leituras.

terça-feira, 15 de junho de 2021

AI Art: Machine Visions and Warped Dreams


Joanna Zylinska (2020). AI Art: Machine Visions and Warped Dreams. Open Humanities Press.

Zylinska não perde tempo com paninhos quentes, este ensaio critico sobre Inteligência Artficial e arte é verdadeiramente crítico. Aponta o dedo ao interesse na investigação sobre IA como uma fuga a outras problemáticas, nomeadamente as ambientais (se bem que não são campos mutuamente exclusivos).  No ponto de vista estético, denuncia como estéreis as discussões sobre se as máquinas são criativas, e as produções algorítmicas em machine learning (deepdream/daze, style transfer, GANs, entre outras) como um conforto visual, que atrai o olho mas não representa um mergulho profundo na arte e IA. 

Zylinska é claramente uma purista, que quer mergulhar a fundo na questão dos algoritmos e robots enquanto ferramentas de criatividade. Não no seu sentido mais apelativo ou de encher o olho, mas na forma como gera reflexões sobre a conexão entre sociedade e tecnologia, sobre os impactos tecnológicos, efeitos da sociedade panopticon, ou o aprofundar de estéticas próprias trazidas pelo uso de algoritmos enquanto meios de expressão. Pontua o ensaio com exemplos, que pessoalmente gostaria que fossem em maior número, de projetos que, na sua visão, fazem esse questionamento.

Talvez a reflexão mais importante que retiro deste livro tenha sido logo uma das suas primeiras ideias. A da importância do envolvimento dos artistas na tecnologia como forma de criar narrativas, de, através da sua visão pessoal e das histórias que contam, nos levarem a refletir, compreender e perceber os potenciais e impactos das tecnologias, fora do hype económico ou da linearidade científica.

Como educador, ligado às TIC no ensino básico, mas com raízes na educação artística (metade da minha carreira foi passada a lecionar Educação Visual e Tecnológica), confesso que tenho uma forte predileção pelas ferramentas que Zylinska considera estéreis e decorativas. No meu âmbito, fazem sentido, permitem-me colocar crianças a experimentar algoritmos enquanto ferramentas de expressão visual, para as levar a conhecer o campo da Inteligência Artificial de formas práticas, mexendo diretamente na massa. A rapidez com que nos dão resultados visualmente interessantes é gratificante para o nível de ensino onde trabalho, ajuda a despertar consciência, e a perceber que as estéticas trazidas pelas ferramentas digitais merecem ser exploradas. Essencialmente, tento lutar contra o factor isso é muito estranho, por isso vamos desvalorizar. Isso, creio, faz-se colocando ferramentas digitais nas mãos dos alunos como desafio criativo, mostrando que hoje, a expressão artística faz-se com uma panóplia enorme de ferramentas, e não as mais tradicionais e clássicas da pintura e desenho.


domingo, 24 de maio de 2020

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Trazemos uma boa dose de leituras, esta semana. Recordamos o trabalho de Alan Moore, descobrimos uma preciosiade de cinema exploitation. Partilhamos livros e contos de ficção científica e fantástico escritos por autores portugueses, bem como banda desenhada. Na tecnologia, exploramos os dilemas do ensino digital à distância em que milhares de alunos portugueses se estão a aventurar, por força da pandemia. Também procuramos leituras que mostram os riscos de aproveitamendo das propostas de rastreamento digital em nome da saúde pública. Visitamos virtualmente o Egipto, compreendemos o real papel social da escola, ou a necessidade de descobrir o hiperlocal no confinamento pandémico. Esperamos um futuro mais radioso. E não desesperamos, trabalhamos para isso.

Ficção Científica



Johnny Bruck, 1981, for Perry Rhodan #1051: A lendária série alemã de ficção científica sempre se pautou por um forte surrealismo.

Antes de aparecer Neil Gaiman e o seu Sandman , houve um outro autor inglês. De nome Alan Moore , quando apareceu a esc…: O Acho que Acho poderia ter mais cuidado com os títulos. Já o artigo merece a leitura, recorda a obra do argumentista que mais influência teve nos comics de sempre. Sem Alan Moore não haveria Watchmen, esse ícone do melhor do género que a DC Comics explora até ao tutano.


Flesh Gordon (1974) UNCENSORED TRAILER: Coisas que têm de ser vistas para se acreditar. Não confundir com The Original Flash Gordon, diziam. Bem, nada como voar pelo espaço numa nave em forma de pénis, salvando damas de peito generoso das garras de monstros lúbricos. Exploitation cinema, pois claro.

Ebook grátis!: Mais um contributo para a lista de leituras gratuitas de FC portuguesa. Ou melhor, uma recordação, que o projeto Improbabilidades está disponível há muito.


Chris Moore, “Alpha Centauri”: Ia lá com muito gosto, verificar se a paisagem é igual a esta.

Esfinge — Coelho Neto: Sugestões de leitura? O Projeto Adamastor, no seu esforço meritório de preservação digital da literatura fantástica, traz-nos uma nova proposta, um romance brasileiro com laivos de Frankenstein.

It’s Alive 2020: Mesmo à distância, um grupo de escritores portugueses de ficção científica e fantástico mantiveram a tradição de fazer uma maratona de escrita para comemorar a famosa dark and stormy night na Villa Diodati que deu origem a Frankenstein. Nuno Ferreira, um dos participantes, partilhou a sua contribuição, muito no domínio do fantástico.

A Gargalhada: Um conto muito curto, mas muito certeiro, de Jorge Candeias. É amargo, como os tempos que correm.


Stanislaw Fernandez: Sou só eu que vejo aqui uma piada fálica, ou algum de vós também tem uma mente perversa?

Diabolik: L'Uomo che non sapeva ridere: O criminoso ardiloso nunca foi das personagens de fumetti que me cativou (mas conheço quem o adore). No entanto, esta aventura parece intrigante, pelo olhar de humor que desfaz os pressupostos da série.

Surrealejos: o Portuguese Portal olha para este projeto que mistura tradição e fantasia, revendo a tradicional azulejaria sob um prisma surreal.


Bob Eggleton, “Gravity Well”: Como na canção dos Pixies, mas com campos gravitacionais.

Los mejores libros gratis en formato eBook disponibles para leer en esta cuarentena: Vai mais uma lista de leituras gratuitas para quem está em casa sem nada que fazer? (Bem, a malta do teletrabalho, oi os professores a aprender a ensinar através de e-learning, invejam-vos esse tempo livre. Eu mal tenho tempo para ler os artigos que partilho aqui, em dias divididos entre implementação de plataformas digitais de ensino à distância, apoio aos meus colegas, e preparação de recursos digitais para os meus alunos. Esta lista é interessante não pelos livros que sugere, mas por listar repositórios de literatura livre em castelhano. Quando tiver tempo, vou explorar, gostaria de conhecer melhor a ficção científica espanhola.

Making the Future Fashionable as Hell Takes a Lot of Work: Da complexidade de criar visões de moda futurista, tarefa que para além de difícil, geralmente envelhece mal. Os vestuários futuristas dos filmes geralmente oscilam entre o kitsch e o ridículo, com raras excepções.

Leituras digitais em português: À procura de banda desenhada para ler? Ficam aqui boas sugestões de excelentes criadores portugueses.

The Profound Influence of Moebius on Cyberpunk Art and Aesthetics: Se procuramos inspirações, que sejam dos melhores. Se bem que o estilo de Moebius tenha pouco a ver com o grimdark digital do cyberpunk.



Chris Foss: Dos clássicos.

JH Williams III Was Only Alan Moore's Fourth Choice to Draw Promethea: E, no entanto, o seu traço distinto é um dos elementos que torna Promethea uma das melhores obras de Alan Moore. Mas agora não consigo deixar de pensar como P. Craig Russell daria a volta às visões mooeranas. Eu sei que estamos em crise, mas uma edição portuguesa desta série seria uma excelente adição às bibliotecas.

Milo Manara Draws Women Very Differently In Recent Weeks: Regressamos ao trabalho de Manara, e às suas partilhas de imagens que valorizam o papel das mulheres no combate à covid-19. Não consigo deixar de reparar que, mesmo longe do registo sensual que lhe é habitual, Manara consegue tornar até o varrer as ruas um ato elegante.



Art by Charles Moll. Fun fact: Eando Binder was the pen name of…: Adam Link, robot, era um personagem de FC clássica que explorava a questão dos robots inteligentes. Pensem tipo I, Robot de Asimov, mas muito mais chato.

Seven Tales of Mystery: O Portal de FC portuguesa destaca um livro fora da caixa da literatura portuguesa, com um forte toque de fantástico. Um daqueles que nunca consegui encontrar.

Kickpunch's Disney comics/horror movie mashups: Brilhantes, e hilariantes, colisões entre a estética Disney e os posters de filmes de terror clássico. Difícil de escolher qual o melhor.

Tecnologia


Wally Wood: Um dos grandes ilustradores de comics de ficção científica.

Why Telephone Companies Once Discouraged People From Chatting: Plus ça change… Se hoje discutimos o alheamento social trazido pelos ecrãs, a questão não é nova. Como se observa nesta história em que descobrimos que no auge do telefone, havia anúncios e campanhas das companhias a desencorajar o falar ao telefone, para combater o alheamento entre as pessoas.

Academics Are Advancing Digital Construction Technology—With Help From Robots: Um interessante estudo de caso, olhando para o esforço de investigação na interligação de manufatura aditiva, robótica e arquitectura. Este projeto desenvolve metodologias de fabricação digital em arquitectura.

Tele-escola em Portugal com regras pouco recomendáveis: Um típico artigo de treinador de bancada, escrito por quem compreende tecnologia mas não percebe da sua aplicação na educação. Mas não deixa de levantar pontos muito importantes, que fazem parte da reflexão feita nas escolas que estão a implementar LMS (learning management system) como uma das respostas à suspensão das atividades letivas não presenciais em situação de pandemia. O exemplo que aponta é indicador de que plataforma foi escolhida na escola em questão, e se a regra parece ridícula, na verdade é uma forma de simplificar a gestão de utilizadores. Claro que aqui a melhor solução seria a geração automatizada de emails para os alunos no domínio da escola, mas talvez esta não disponha das condições para o fazer. O que aponta sobre o Zoom passa completamente ao lado do verdadeiro problema do uso de vídeo conferência com menores. Os problemas de segurança, neste contexto, são triviais (eu sei, IT guys, é uma afirmação chocante). A principal problemática destes sistemas está no potencial uso abusivo de imagem de menores na Internet. Nada garante que um dos intervenientes na aula virtual não esteja a fazer screenshots das caras dos colegas para depois usar em ações de cyberbullying, por exemplo. Junte-se a isso que formas de expor imagem de menores na Internet vai diretamente contra os normativos da CNPD sobre este assunto (e há consequências legais para isso). Apontar que nem todas as famílias terão condições para que os seus filhos usem estes sistemas é óbvio, e na verdade os planos de ação das escolas contemplam estas situações. Mas vá, se fosse meu aluno, o autor deste artigo merecia um 4 pelas questões que levanta, mesmo que passem ao lado dos reais problemas, e opine (com todo o direito de o fazer) sem ter uma noção do panorama global. Este artigo também é sintomático das pressões a que escolas e professores irão estar sujeitos quando a fase do pânico e medo da covid-19 passar, e se instalar a do tédio e desgaste do isolamento social. Iremos ser questionados sobre o que fazemos, como e porquê, pelos pais e encarregados de educação. Alguns irão fazê-lo com espírito de ajuda e colaboração para melhorar. Infelizmente, serão uma minoria. Outros, especialmente aqueles que por fazerem comentários em redes sociais se julgam experts em informática educacional, vão levantar irritantes entraves. Os que considero perigosos são aqueles que têm interesses financeiros no assunto, por trabalharem em consultoria ou em empresas ligadas a algumas das plataformas LMS usadas pelas escolas, e que irão questionar porque razão foi escolhida uma que no ponto de vista deles não garante qualidade e segurança, quando uma solução que conhecem bem (e até conseguem descontos ou condições vantajosas) estava ao dispor. Sim, isso irá acontecer. Para aqueles professores ligados à tecnologia que nos dias iniciais da pandemia tiveram de gerir os seus medos pessoais, terminar atividades letivas em modo de crise, e ainda estudar sistemas LMS para melhor aconselhar as escolas em que trabalham a implementar soluções adequadas ao seu contexto, fica o conselho. Não esqueçam os argumentos fortes que condicionaram as escolhas feitas. Vão precisar deles.

When school is online, the digital divide grows greater: É uma questão complicada. Com as escolas fechadas como medida de combate à pandemia, como assegurar a equidade no acesso à educação? Mover para o online não é uma panaceia, aprofunda desigualdades que são mais profundas do que a dicotomia entre quem tem acesso a tecnologias e quem não tem. Há outras problemáticas. Haverá alunos que em casa terão o acompanhamento e a disciplina para seguir atividades em ambientes à distância. Mas muitos não serão capazes disso. Mesmo nas melhores condições, e-learning é exigente e requer uma forte auto-disciplina e grande motivação para se levar até ao fim as tarefas. Isto é verdade na educação de adultos, onde as taxas de desistência são elevadas. Imaginem com crianças, ou adolescentes, que não são conhecidos pelas suas características psicológicas de resiliência e auto-disciplina no estudo (o que é normal, faz parte do crescer enquanto pessoa). Por outro lado, simplesmente não fazer nada também não é solução. Neste momento de crise, a solução mista de plataformas de e-learning, tele-escola e envio de tarefas por correio é uma reação necessária que mantém uma ligação entre escola, crianças e famílias. Alguns irão aproveitar a oportunidade, outros, não. É essa a verdade mais incómoda para professores que estejam a olhar a sério para os sistemas de aprendizagem à distância. O perceber que seremos incapazes de ajudar aqueles alunos que mais precisariam de ajuda, porque não estamos ao pé deles para os aconselhar (ou ralhar, mostrando-lhes que não estão no bom caminho). Longe da sala de aula, apenas podemos fornecer conteúdos e acompanhamento. O controlo sobre as aprendizagens é totalmente perdido. E isso vai contra alguns pilares essenciais da educação, que não, não é isso que estão a pensar. Isso do debitar matéria e estudar marrando para exames já passou, felizmente, há algum tempo.

Artists Explore A.I., With Some Deep Unease: Talvez a arte seja o único contexto em que os algoritmos black box sejam menos preocupantes. Ter obras estéticas geradas por algoritmos cujos sistemas de decisão não conseguimos prever ou controlar é interessante, e o mundo da arte já ultrapassou o deslumbre com a geração de imagens por GAN, procurando formas de questionamento profundo desta tecnologia.

We need mass surveillance to fight covid-19—but it doesn’t have to be creepy: As tecnologias de rastreamento digitais que já existem - o quê, pensavam que o vosso telemóvel é totalmente anónimo, podem ser usadas como arma de combate à pandemia. Mas podem muito facilmente ser apropriadas para outros fins. Se nas nossas democracias ocidentais estáveis isso nos parece improvável, basta olhar para exemplos como a Rússia de Putin, a Turquia de Erdogan, ou outros países onde autocratas se apropriaram dos processos democráticos. Na Europa, temos um quadro legal forte que impede abusos de dados pessoais, mas é de notar que no panorama global, somos a excepção e não a regra. É com base nessas protecções que se podem conceber sistemas de rastreamento eficazes mas que não destruam as liberdades individuais. Senão, não será difícil imaginar um futuro de hipervigilância ao estilo chinês. Porque já não é futuro, é mesmo a realidade na China.

TOUCH FACE, LIGHTS CHASE, SIRENS RACE: Que ideia tão gira, pensei quando o Maurício Martins da Makers In Little Lisbon partilhou este projeto de programação por blocos, base adafruit e impressão 3D. Um wearable DIY concebido para combater aquele gesto automático de levar as mãos à cara, nascido da criatividade de um dos mais destacados Makers portugueses, que despertou a atenção do Hackaday.

We Mapped How the Coronavirus Is Driving New Surveillance Programs Around the World: Os dados pessoais são uma das armas eficazes de combate à pandemia, mas a sua agregação, a criação de sistemas de vigilância a partir do mar de informação disponibilizada pelos nossos dispositivos, pode ser apropriada para usos que fogem muito do legítimo combate à pandemia. A perfilação de indivíduos com base no rastreio dos seus movimentos pode dizer a quem analisa os padrões muito sobre a personalidade de cada um. Em sociedades autoritárias, o risco de aproveitamento para esmagar potenciais dissidências é real (e, no caso chinês, foi ao contrário, os sistemas avançados de vigilância para esmagar qualquer traço de desobediência ao regime mostraram-se úteis para combater a pandemia). Para quem vive numa democracia ocidental estável, isto pode parecer um perigo remoto, mas lembrem-se que em tempos de crise, estamos a uma eleição do potencial risco de ascensão ao poder de políticos populistas e amantes do autoritarismo. Na União Europeia, um dos bastiões da legitimidade democrática, há o caso de um país assim, a Hungria. Sabermos que este tipo de sistemas são úteis e necessários a médio prazo para combater esta pandemia global que não se resolve em meses. Temos de estar atentos, e erguer quadros legais, para evitar que estas ferramentas sejam instrumentalizadas por aqueles para quem conceitos como democracia e liberdades individuais são um anátema.

Digital hoarders: “Our terabytes are put to use for the betterment of mankind”: Recordam-se daquela vez que foram um site que usavam durante algum tempo, mas descobriram que ficou offline? Ou aquele vídeo ou artigo que tinham nos vossos links, desapareceu sem deixar rasto? A Internet vive num contínuo agora, e o que passa nem sempre fica guardado. Sites desaparecem, páginas são apagadas, recursos perdem-se. Mas há quem trabalhe contra isso, encontrando formas de preservação do digital.

The digital future is now: Se há algo de bom na pandemia, é a forma como fomos obrigados a deixar de arrastar os pés e a usar a sério a panóplia de ferramentas digitais que temos ao nosso dispor. A digitalização da sociedade, uma tendência de longo prazo que já estava a acontecer, deixou de ser apenas ao nível da infraestrutura (automação industrial, robotização, desmaterialização de serviços) e entrou no dia a dia, com o teletrabalho, escola à distância, e redes digitais para manter contacto social. Estas tecnologias já cá estavam, mas eram usadas de forma anémica. Agora mergulhamos à pressão nisto, e suspeito que quando acalmar a pandemia, muitos não quererão regressar ao modo normal de fazer as coisas. Se calhar, grande parte dos empregos não requer mesmo a presença física de funcionários em edifícios de escritórios. Se calhar, a escola não precisa de ser um modelo de encafuar milhares de crianças dentro de um edifício durante nove horas, pode ser um misto de atividades presenciais e à distância. Se nada há de melhor do que tomar um café (ou uma cervejinha, ou sendo snob, um aperol spritz) com um amigo, mas isso não quer dizer que as relações mediadas pelas redes não sejam menos significativas. Se calhar, o comércio electrónico pode ser tão útil à mercearia do bairro como à multinacional. Vamos ter de evoluir novos comportamentos, metodologias de uso, consensos e quadros legais. Porque há coisas que depois de percebermos o seu potencial, não queremos voltar atrás.

Indie Game Explores Utopias: Adoro interconexão entre arte e tecnologia, e ainda mais se há mundos virtuais para explorar, recantos de polígonos e pixeis criados para desafiar a percepção. Este é um jogo a descobrir, suspeito.

Bluetooth tracking and COVID-19: A tech primer: Rastrear movimentos individuais usando tecnologias móveis já se percebeu que será uma ferramenta de combate à pandemia. Como fazê-lo, sem criar sistemas que coloquem em causa as liberdades e garantias individuais? Este artigo lista o potencial do humilde Bluetooth como, provavelmente, a tecnologia que permite um rastreio eficaz mas anónimo, por não depender de geolocalização (com o correspondente risco de perfilagem e padronização de todos os movimentos de um indivíduo). Também lista as suas falhas, especialmente fraquezas de segurança.

Modernidade

European globes of the 17–18th centuries: Fascinante uso de digitalização 3D e preservação digital do património cultural e histórico. O British Museum disponibiliza cópias virtuais de alguns dos melhores exemplares da sua coleção de globos terrestres. E em 3D, para se poder percepcionar melhor como são estes artefactos. 

How Infectious Disease Defined the American Bathroom: Como é que o coronavírus irá modificar a nossa sociedade? Ainda não sabemos, apenas sabemos que a sua virulência e tempo necessário para encontrar curas e vacinas (um cálculo complicado pelo potencial de mutação) nos vai obrigar a rever alguns pressupostos sobre a forma como nos organizamos. E, olhando para o passado, temos algumas pistas. Algo que para nós é hoje banal, a casa de banho, nem sempre o foi. Em grande parte, foi adotada nas casas, entranhando-se como elemento arquitectónico fundamental, como resposta a problemas de salubridade e epidemias, que com higiene adequada seriam evitados. Impossível não pensar em que comportamentos que hoje nos parecem excessivos ou impossíveis serão, no futuro próximo, tão normalizados que já nem repararemos neles. É também de observar que a arquitectura e o urbanismo têm muito que repensar se não conseguirmos minimizar a covid-19 em tempo útil.

Trabajo "diseñando la personalidad" de una inteligencia artificial: Poderão as Inteligências Artificiais ter personalidade? Bem, se não as simularem, é para nós mais complicado interagir com algoritmos. Como mostra muito bem o artigo, um pequeno pormenor como o tom de voz no algoritmo do GPS é na verdade algo muito bem pensado para ser suave e não intrusivo, mas também não passar despercebido. É intrigante pensar que o desenvolvimento da personalidade de um algoritmo é um processo similar ao da criação de uma personagem literária.

Education was never schools' sole focus. The coronavirus pandemic has proved it: Ok, sendo professor, sou suspeito, mas é mesmo isto. Agora que milhões de crianças portuguesas estão em casa com atividades à distância, sobrecarregando as famílias, usando metodologias de EaD que requerem uma auto-disciplina que até para adultos é difícil, muitas vezes (mais do que julgávamos ser possível) sem meios técnicos ou acesso à Internet para poder participar do esforço digital da escola, todos sentimos isso. E mais. Cá, como lá, também há o problema das crianças para quem a escola é a única refeição a que têm acesso, ou todas as questões de apoio social e acompanhamento familiar: "Cancel schools, and look: who is there for children with protection orders? Who is feeding the vulnerable? Who is writing mass bereavement policies to explain to year 4 why their teacher isn’t coming back? Who is (virtually) sitting with the sobbing kid whose GCSEs have been cancelled?". A escola nunca foi apenas um lugar para aprender matérias, passar em exames, e ter um espaço para as famílias trabalhadoras deixarem os seus filhos durante a jornada de trabalho. É um dos pilares que estruturam a nossa sociedade, não só pelo papel de formação das gerações futuras, mas pelo apoio que presta às comunidades em que está inserida. Algo tão essencial mas normal que tem sido esquecido e descurado, especialmente pelas políticas austeritárias. Mas quando o impossível bate à porta, sob a forma de pandemia, é que percebemos o preço mortífero a pagar. Eu ainda juntaria mais um problema. Sabendo que a pandemia está para durar, com é que se faz regressar a escola à necessária atividade presencial mantendo o que temos hoje? Como é que se garante isolamento social no modelo 25 a 29 alunos por turma, fechados numa sala com um professor? A própria arquitectura dos espaços escolares tem de ser repensada. Um exemplo, dos enormes desafios que adaptar a nossa sociedade à covid-19 nos traz.

The Post-Pandemic Urban Future Is Already Here: A pandemia de Covid-19 trará impactos a longo prazo, e a arquitectura não lhe é imune. Sabendo que o distanciamento social é uma das medidas mais eficazes de combate ao contágio, os espaços urbanos sobrepovoados, os interiores onde se confinam muitas pessoas, terão de ser repensados. Olho para o exemplo da escola. A curto prazo, e mesmo a médio, o modelo em que 30 pessoas estão horas num mesmo espaço não é aconselhável em termos de saúde pública.

Portraits of Isolation in the Arctic: O isolamento social pesa, certo? Notem que há zonas remotas do planeta em que isolamento social é a regra, não a exceção.

Marcel-Roland, Comment on vivra dans un quart de siècle (1928): Em 1955, as refeições seriam pílulas nutritivas, trabalhar-se-ia em casa com máquinas de esteganografia, ouvir-se-iam músicas de todo o mundo em aparelhos, ou nos momentos de lazer a sala de estar ligava-se a outros lugares através de meios de visão à distância. É sempre interessante ler textos retrofuturistas, percebemos que se as visões tecnológicas nos parecem inocentes, algumas vezes patetas, as tendências de comportamento e usos que damos hoje às tecnologias, essas ideias já lá estavam no seu cerne.

New model looks at what might happen if SARS-CoV-2 is here to stay: Essencialmente, aponta para que a própria natureza deste vírus signifique que fique connosco durante tempo indeterminado. Vamos ter de aprender a viver com ele, desenvolver terapias, tornar mais forte o sistema de saúde pública.

Secção Cascais - Semana 3#: Destaco este artigo porque, para nómadas inquietos como eu, o isolamento social da pandemia obrigou à redescoberta do hiperlocal. Confinados ao bairro, à vila, evitando ativamente deslocações que eram banais, descobrimos os cantos que estão mesmo ao nosso lado. Eu, regressei às voltas nocturnas pelo perímetro urbano e caminhos rurais próximos para manter a cadela em boa forma física, enquanto aguardo condições para poder regressar aos passeios pelas praias isoladas do oeste.

What Italy’s ‘Patient One’ Teaches Us: Essencialmente, que as marcas psicológicas da pandemia nos vão moldar, como pessoas e como sociedade.

Tour 5,000 years of Egypt’s heritage: Visitar o Antigo Egipto… em 3D.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

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Ficção Científica


Jean-Claude Mézières: Recordar a espectacularidade gráfica de Valérian.

Filmes de Cordel: Todos temos aqueles momentos em que precisamos de desligar o cérebro, e de facto, estes filmes bubblegum são toda uma estética de iconografias descartáveis.


Jim Burns: Passa-se ali qualquer coisa, mas não percebo bem o quê.

How modern tech has powered our favorite superheroes through the years: Uma belíssima ligação entre ciência e tecnologia das épocas, e os super-heróis. O trabalho dos criadores e argumentistas destes personagens espelha as tecnologias revolucionárias da sua época. Um caso curioso: o Super-Homem originalmente não voava, as primeiras histórias em que voa coincidem com os primeiros voos de aviões a jato. Outro ponto curioso: qual é o herói mais high tech? Iron Man ou Batman? Há aqui motivo para discussão a chegar a vias de facto entre fãs.


NASA's Moon Habitat of the Future From 1989: E, no entanto, continuamos sem lá regressar.

The post-post-apocalyptic subgenre: Não, não é uma gralha. É uma análise a ficções passadas em futuros pós-apocalípticos, não no imediato, mas em cenários reconstruídos.


Syd Mead: Dos veículos. Não por acaso, Mead trabalhou para a indústria automóvel.


This Russian arthouse remake of The Simpsons is the most depressing thing you’ll see today: Oh my, definitivamente deprimente. Citando um personagem dos Simpsons, it's funny, because it's true.

Tecnologia


Space Photos of the Week: Postcards From a Martian Winter: A Martian winter wonderland.

Why we need to blow a Raspberry at big tech…: Esperem, é possível ter nas mãos um computador potente por menos de 100 euros? Sim, o Raspberry Pi é uma máquina de muito baixo custo e que serve para a maior parte daquilo que a maioria das pessoas usa o computador. Pensado como uma máquina para educação, requer alguma montagem, usa Linux. Mas não se limita às salas de aula, tem um importante mercado secundário como computador dedicado em serviços de controlador de dispositivos, como painéis de informação públicos, ou domótica. Só o Pi mais recente custa cerca de 40€, o que nem sequer chega perto do preço de uma máquina Windows, barebones para Linux ou a estratosfera dos sobrevalorizados Mac.

Even the Lumberjacks Were Going to be Automatic in the Future: Dá todo um outro sentido à lumberjack song dos Monty Python… mas na verdade, foi mesmo assim que evoluiu a indústria da madeira, que não fugiu à mecanização.

Boeing’s Autonomous Fighter Jet Will Fly Over the Australian Outback: Uma notícia intrigante vinda da Austrália. A área remota de Woomera está a ser usada pela Boeing para testar tecnologias de aeronaves de combate autónomas. Um projeto conjunto com a RAAF, que se destina a estudar as capacidades operacionais deste conceito, e talvez se traduza numa aeronave de combate autónoma operacional.

A Brief Literary History of Robots: Via o Close Encounters, atualmente um dos mais interessantes grupos do Facebook, uma curta história dos robôs - e andróides, na literatura de ficção científica. É curioso perceber que a palavra Robot surgiu um pouco por acaso.

Yes, An AI-Generated Blog Can Rank — And That’s Scary: Não há grande surpresa aqui. Conteúdo automatizado, optimizado para os algoritmos de agregação de conteúdos. Não varia muito do modelo de publicação digital, onde a escrita tem de ser pensada e adaptada a regras de otimização algorítmica (estas Capturas não são excepção). O que assusta é pensar em quem, para além dos motores de pesquisa, eventualmente lerá este tipo de conteúdos.

This is What Online Classes Were Supposed to Look Like in the 1930s: Umas das coisas que se aprende com olhar crítico é que as tecnologias inovadoras de hoje tiveram os seus análogos no passado. A ideia de ensino à distância em suporte eletrónico não é nova.

How The 2010s Killed The Celebrity Gossip Machine: Uma espécie de vídeo killed the radio star, versão Internet. A indústria dos paparazzi desapareceu, não porque tenhamos deixado de nos interessar pelas coscuvilhices das celebridades, mas porque estas passaram a usar em peso as redes sociais, para fazerem elas próprias o tipo de divulgação que antes era apanágio dos paparazzi. Hoje, o Dolce Vita seria a Anita Ekberg a tirar selfies dentro da fonte de Trevi, com a zona fechada para garantir que os turistas não interfeririam, autorizações para a celebridade colocar o pé dentro da fonte, e um pobre Mastroianni a pensar que a vida era bem mais interessante na Roma dos anos 50.

An elegy for cash: the technology we might never replace: Se o dinheiro digital está cada vez mais pervasivo, com  países a fazer transições naturais ou planeadas para dinheiro eletrónico, algo se perde com  o fim do papel moeda. A Noruega está tão habituada a sistemas de e-pagamento que os comerciantes já começam a não aceitar notas e moedas, e a China é um case study neste campo, com o governo a olhar para o que as suas empresas já fazem e a planear uma moeda digital oficial. Nisto, no entanto, perde-se o anonimato e privacidade do dinheiro tradicional. No eletrónico, todas as transações estão registadas e ligadas a cada utilizador. Algo que, em termos de privacidade pessoal, é catastrófico.

Inside the Fakes Factory: My Chat With a Viral Image Creator: Intrigante registo das ideias de um criador que se dedica a criar imagens intencionalmente falsas de paisagens e monumentos, que são muitas vezes partilhadas como reais por aqueles cujo sentido crítico é inexistente. Não é bem fake news ou falsa propaganda, é mais uma observação de como é fácil deixarmo-nos enganar pelas imagens.

How Smartphone Cameras Changed the Way We Document Our Lives: Daqueles artigos que leio e sinto um forte sentimento de I can relate. Também dou muito uso à lente do telemóvel. Sabendo que não é das melhores para fotografia pura, mas isso é outro desafio, o ser capaz de conseguir uma boa imagem a partir das limitações do dispositivo. Tal como o articulista, aprecio a facilidade de uso, discrição e disponibilidade. Aqueles momentos fugidios que nos encantam no dia a dia passam a fazer parte dos arquivos digitais, em que externalizámos a memória.

The internet’s last great myth is finally dead: A internet tornou-se tão parte das nossas vidas que deixou de fazer sentido em falar de ciberespaço como algo separado da vida real. Do físico ao virtual, num fluxo contínuo.

This 1924 Illustration Nails the Real Future of Drone Warfare: Não é assim tão grande façanha, usar meios remotamente controlados no combate é uma ideia bem antiga.

GALINA BALASHOVA, Space architect extraordinaire: Perfil de uma arquitecta russa que trabalhou na concepção das estações espaciais soviéticas.

MEMORIES OF THE MOON AGE A Lunar love affair: Do fascínio com as viagens à lua, de Kepler às missões Apollo.

The Futuristic Electronic Teacher Console (1967): Que se danem os quadros interativos, HMDs de realidade virtual, tablets, micro:bits, impressoras 3D ou robots. Isto, sim, é o futuro da tecnologia na educação. Com uma secretária destas, os meus alunos vão aprender mais e melhor, potenciando todas as suas capacidades. Até tem gira-discos!

If Machines Want to Make Art, Will Humans Understand It?: Parte daqui uma exploração dos campos da arte digital, com um curioso ponto de vista sobre a real autoria de obras produzidas por robots e algoritmos, que são, fundamentalmente, expressão de quem os programa, por muito aleatório e inesperado que seja o resultado.

Friend of a Friend: The Facebook That Could Have Been: Desconhecia esta, um protocolo pré-redes sociais para definir amizades na Internet. O problema? Dependia do esforço de cada utilizador em criar uma página. Algo que, honestamente, a maior parte das pessoas não está para se dar ao trabalho. É esse o grande trunfo das plataformas digitais, criam um espaço de edição simplificada. O resto são algoritmos e aproveitamentos capitalistas da informação individual.

Disinformation For Hire: How A New Breed Of PR Firms Is Selling Lies Online: Fake news como produto comercial, a prática da venda de desinformação a quem pagar, sejam políticos ou empresas. O dano que isso faz à informação necessária à formação de opinião pública é indescritível. 

NASA’s X-59 Supersonic Jet Cleared for Final Assembly: Dizem que é parecido com o avião do livro O Segredo do Espadão de E. P. Jacobs, mas a inspiração é mais do Douglas X-3 Stiletto, uma das lendárias aeronaves da série X, usadas para desenvolver a tecnologia aeronáutica. 

Modernidade


How Europe Learned to Draw: Uma galeria de imagens interessantes, saídas de antigos manuais sobre como desenhar. 

A Japanese Cafe Is Hosting Playdates, Parties for Robot Dogs: Não surpreende. Parte do fascínio dos robots passa pela forma como lhes atribuímos traços de personalidade, mesmo sabendo que são objetos inanimados cujo movimento nos dá uma ilusão de potencial vida. 

How Yellow Lost Its Good Reputation: Michel Pastoreau é um cronista da história das cores, entre significados culturais, desenvolvimentos estéticos e tecnológicos. O seu mais recente livro é sobre o amarelo. 

The Special Ops Who Rescue Special Ops: Um perfil operacional de uma unidade de operações especiais americana, especializada em missões de salvamento nas condições de combate ou em paz mais arriscadas. São a elite que vai salvar os guerreiros de elite. 

Napoleon’s vision for a new imperial Rome: Quando Napoleão conquistou Roma, declarou-a cidade imperial, estimulou o estudo arqueológico e recuperação dos monumentos romanos. E planeou uma nova cidadela imperial, para ser recebido condignamente na cidade que preserva a tradição do império romano. Infelizmente, foi derrotado e os planos para esta Roma não passaram do papel. Um docinho para amantes da especulação histórica e arquitecturas utópicas. 

The gig economy is being fuelled by exploitation, not innovation: Não é novidade. A economia das plataformas digitais de serviços é exploração laboral pura propiciada por algoritmos e interpretação da figura do trabalhador como empresário que vende os seus serviços. É hiperprecarização, desdém pelas leis laborais, baixos rendimentos, sem horários, e sujeição do trabalhador a regras arbitrárias e injustas. Em suma, um retorno às condições de trabalho revoltantes de que pensávamos ter-nos livrado no século XX. 


Shocking Images Show What It Is Like To Fly In Skies Turned Red By Deadly Australian Bushfires: Só há uma palavra adequada a isto, mas não a posso escrever, é um daqueles palavrões fortes. 

How Long Will Australia Be Livable?:E chegámos aqui, ao ponto em que questionamos a habitabilidade de toda uma zona do planeta. Bem vindos ao novo normal.