Confesso que este momento foi puro masoquismo da minha parte. Foi pior do que eu pensava. Ou talvez não, há alguma esperança.
Descobri super em cima da hora que o Maio, projeto que eu tenho algum respeito, tinha organizado como parte das suas jornadas um debate/discussão sobre, estão a ler bem, banir a Inteligência Artificial da educação. Estão mesmo a ver o que é que eu fiz, não estão? Arrastei-me para Lisboa e fui ver o que é que se passava.
O esforço de ir à cidade não foi muito grande, já lá estava para participar nas Jornadas dos Mestrados em Educação do IEUL, onde me desafiaram a falar da minha experiência prática em introduzir IA nas minhas práticas pedagógicas. Saí da Cidade Universitária bem a tempo de ir ao Liceu Camões espreitar este debate. Como cheguei mais cedo, antes do painel ter começado tive o desprazer de ouvir Raquel Varela a falar de educação. E fiquei abismado com o chorrilho de falsidades, de achismos, e descontextualização do seu discurso. Uma inacreditável falta de rigor, em alguém que por ser académica, o deveria saber ter. Confesso que me leva a colocar em causa não só o que diz nas suas intervenções públicas, como o próprio teor das suas publicações académicas, porque alguém posicionada como intelectual pública e interventiva não pode apresentar-se em discurso de achismo de conversa de café, atirando óbvias falsidades para o ar ao falar do ensino especial, com tiradas brilhantes do tipo "as turmas estão cheias de crianças a dormir por estarem medicadas, são as escolas que impõem medicação às crianças (isto é tão obviamente falso!), que não há recursos para apoios (são e serão sempre escassos, mas, novamente, falso), que a tecnologia serve para mecanizar as crianças (e para quem vem da escola de pensamento construtivista, isto é mesmo patetice advinda de ignorância), e outras pérolas.
Quanto ao painel de educação, fiquei muito preocupado com as posições assumidas pelos moderadores do painel (ou proponentes da proposta, não consigui perceber muito bem, mas isso não vem agora ao caso. Um modelo de recusa total do que é tecnologia nas escolas, do que é a tecnologia em si mesmo em si própria, ignorando e rejeitando propositadamente o seu lado capacitador. E tudo muito mais acérbico em relação ao impacto da inteligência artificial.
Como pessoa de esquerda que sou, como também professor, e como pessoa que se tem dedicado à tecnologia na educação como forma de capacitar as crianças e de dar ainda mais horizontes, fiquei chocado. Este óbvio anti-intelectualismo assente em preconceitos, numa visão bastante pouco rigorosa do que é o o estudo académico preocupa-me.
O que me deixou mais animado foi que o debate. Foi mesmo um debate, e as pessoas que interviram não partilhavam desta posição tão radical e tão fechada. Participavam contribuindo com observações sobre potencial das tecnologias e da IA em específico, com visões que mostraram preocupação com os seus impactos éticos e sociais, que são óbvios, mas nunca na perspectiva de a banir, restringir ou recusar. Ou seja, se os organizadores partiram numa posição obviamente obviamente radical (aliás percebi que eles estavam incomodados com o tom e com o tipo de intervenção que receberam porque não estavam a ser apoiados cegamente), os participantes foram mais abertos.
Na verdade o o que me preocupa nisto tudo nem é tanto a rejeição da IA ou as questões da IA na educação. É que ao rejeitar tout cout, ao colocar-nos à parte, estamos a evitar intervir. Sabemos que a IA traz imensos problemas éticos, sociais, económicos, ambientais, culturais,, numa lista muito grande.
Também sabemos que é uma tecnologia fantástica, mas se a recusarmos liminarmente e colocarmos nessa recusa um tampãozinho ideológico, um embrulhozinho de ideologia muito bonita que a justifica, demitimo-nos intervir, demitimo-nos de procurar formas de usar a IA que beneficie as pessoas, que beneficie os alunos, que beneficie a população em geral.
Ficamos-nos naquela perspectiva de aldeia gaulesa, advogando pureza ideária enquanto o mundo nossa volta se esfrangalha. Por isto, este tipo de visões deixa-me preocupado. Sublinhom como pessoa de esquerda que sou, é preocupante ver estes ativistas de esquerda a ser tão anti-intelectuais, por vezes até chega a ser doloroso ver estas pessoas proferir as suas certezas com um óbvio desconhecimento daquilo que estavam a falar
E capaciten-se de uma coisa: colocar tecnologia nas crianças não tem que ser uma alienação de ecrãs ou mergulho na toxicidade das redes sociais. Não tem de ser assim. Se querem saber como é que isso se faz, como é que podemos capacitar as crianças com tecnologia e com isso levá-las a tornarem-se adultos mais intervenientes e conscientes e criativos. falem connosco. Nós, professores de informática, já andamos há anos nistom a colocar tecnologia intermédia e avançada, nas mãos de crianças nos vários contextos de ensino. Precisamente para lhes dar mais horizontes para crescer.
E querem mesmo combater esta visão que nos está a ser imposta, da IA como uma obrigação, como quele sonho húmido dos CEOs, patrões e financeiros de despedir essa coisa fedorenta que são os trabalhadores para para os substituir por IAs e algoritmos que vão trabalhar por eles? Se querem mesmo combater isto, não se esquivem ao uso de tecnologia, apropriem-se dela, que é o que que é necessário. Não disfarçam também o vosso pouco conhecimento que (nítido e notório ao longo de de muitas intervenções), com uma espécie de visão idílica de um passado que nunca existiu.
Vejo a IA como uma tecnologia incrivelmente potenciadora das capacidades individuais. Rejeito publicamente a visão dos de despedirem toda a gente para meterem a IA a trabalhar por nós. Hora e meia antes de ter passado neste evento do Maio, disse isto mesmo num auditório cheio de professores e futuros professores no Instituto de Educação. Recuso e trabalho na minha sala de aula contra a visão da IA cabulista e plagiadora. Vejo a IA como tecnologia da qual temos de nos apropriar para o bem de todos. Se não o fizermos, se se finca pé num discurso de rejeição, garantimos o pior da distopia tecnologia dos bilionários. É preocupante ver esta esquerda ativista a a basear a sua intervenção na ignorância e desconhecimento, num momento em que precisamos de vozes progressistas na IA e na educação que contrariem a narrativa comercial.