sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Breviário para um Extermínio Silencioso



Corporate drone. Não sei traduzir esta expressão, que descreve muito bem aquelas pessoas com que nos cruzamos que parecem incorporar os ideais corporativos das empresas onde trabalham. São detectáveis à distância. Usam uma espécie de uniforme, com fato de corte e gravata de cor suavemente berrante, ou tailleur com adereços de moda, a projectar uma imagem de dinamismo conservador e próspero. Comportam-se como alfas obedientes aos ditames da alcateia, exageram num optimismo constante, e têm no olhar a indisfarçável expressão de nos considerarem descartáveis assim que os seus objectivos são atingidos. São capazes de defender o indefensável e torná-lo aceitável utilizando expressões difusas, sinónimos suaves de palavras atrozes, que disfarçam a dureza e frieza do que nos querem impor a bem da nação ou da organização, sempre com sorridentes como deve compreender ou mas repare que ou o cumprimento do disposto é o desejável ou temos de ser responsáveis. Talvez, fora das horas de expediente, regressem à normalidade e voltem a ser humanos com sentimentos e desejos. Talvez tenham no coração os chavões repetidos até à exaustão nos retiros corporativos para onde vão regularmente fazer bonding e outras palavras estrangeiradas que soam modernas. Suspeita-se que em muitos casos a infecção viral da cultura corporativista estaja demasiado entranhada no organismo e se tenha tornado incurável.

Breviário para um Extermínio Silencioso é uma peça de ironia discreta mas cortante que toca nesta despersonalização do ser face à instituição corporativa economicista, que exige a sobreposição dos seus objectivos e projecções milimetricamente traçadas nas simulações económicas às necessidades humanas. É uma pura distopia económica. Estamos no século XXI. As distopias políticas ou pós-apocalípticas já não descrevem a ansiedade que sentimos perante a sensação opressiva transmitida pelas forças que movem o mundo. Já não tememos regimes totalitários nem desertos atómicos. Agora é a submissão do indivíduo face à projecção económico-financeira, ao memorando de entendimento, ao contratualizado, o que nos aterroriza. Porque sentimos a desconexão entre a necessidade de justiça e humanismo e a bonomia que tenta disfarçar a tirania institucional. Como observa certeiro o encenador Rui Neto, "a desapropriação de todas as liberdades individuais em função de uma lógica empresarial e do lucro, é a estratégia adoptada, silenciosa, invisível, maquiavélica e não inocente (...) como uma contracção da liberdade (até de pensamento), para um futuro social de escravatura". Aspectos em evidência no texto de Mike Bartlett, levado à cena pela Escola de Mulheres - Oficina Teatro.

Carla Chambel é uma jovem funcionária a quem a sua gerente faz exigências cada vez mais desumanizadas, em nome do estrito cumprimento da regras estabelecidas. Exigências duras, colocadas sempre com um sorriso, sempre com palavras amigáveis que avisam que o que pensamos que nos faz mal afinal não faz ou que o que não queremos é realmente o que queremos. Retrato hiperbólico das relações laborais na sociedade neoliberal, onde cada vez mais as escolhas se restringem ao consumo e a necessidade de manter o emprego se sobrepõe a tudo o resto. Isabel Medina é a gerente, intencionalmente representada num misto de Alice e da lagarta azul de Alice no País das Maravilhas na versão dos Jefferson Airplane. Questionadora implacável, desumana nas suas imposições, esmagadora na forma como verga os subordinados à vontade corporativa, sempre de sorriso melífulo e voz compreensiva.  Roger Madureira é o lacaio perfeito, autómato discreto e obediente. São interpretações fortíssimas, sempre a caminhar na fronteira entre a ironia e a frieza, mantendo o dramatismo sem resvalar na caricatura.

O cenário é espartano, centrado na interacção fria entre as personagens. Tem um detalhe intrigante que remete para as problemáticas da sociedade panopticon possibilitada pela tecnologia digital. Duas televisões que nos mostram vídeos cada vez mais invasivos da privacidade da personagem, símbolos da videovigilância pervasiva e da intromissão por sistemas digitais da intimidade individual em nome da segurança e da eficiência. Um detalhe arrepiante, apropriado a esta era em que os nossos amados dispositivos encerram em si a promessa de imposição de hipervigilâncias perante as quais os piores excessos dos regimes mais totalitários empalidecem.

Para conhecedores de ficção científica, textos deste género e as reflexões que suscitam são terreno bem conhecido. Fora deste contexto de nicho surpreendem, e são levados a alguns exageros melodramáticos para impressionar leitores e espectadores. Senti isso neste texto, com algum levar da espiral de tortura psicológica sobre a personagem vitimizada a exageros melodramáticos quando a lógica das ideias e a reflexão que provocam já estava bem definida. Esta é uma refilice válida para quem conhece bem as distopias de FC mas compreende que o público mais mainstream não está habituado a reflectir em certas consequências do papel das tecnologias e organizações sobre o espírito humano na tradição iluminista. Note-se que esse melodrama está ausente das interpretações, mantidas numa continuidade de frieza e distanciamento que sublinham a falta de humanidade presente na cultura corporativa contemporânea que a peça nos quer mostrar.

Breviário para um Extermínio Silencioso está em cena no local surpreendente do Espaço Escola de Mulheres - Clube Estefânia, em Lisboa, até ao dia 14 de novembro. Podem saber mais na página facebook da peça. Zona tramada para quem vive fora da cidade e depende do automóvel para poder participar nestas actividades culturais, mas a peça faz valer bem a pena. O texto interessante, representações acutilantes, e uma ambiência imersiva fazem deste um espectáculo teatral a não perder.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Futuro 1980


 Enfim, alguns maus usos deliberados (secretos ou revelados) dos sistemas de informações, tanto por funcionários como por indivíduos privados e desenvolvimento de um sistema de protecção para os indivíduos.



Muitos trabalhadores a tempo parcial ou intermitente. Uma forma qualquer de garantia anual do rendimento (explícita, reconhecida, ambígua, intermediária). Perda das «alavancas» tradicionais (a religião, a tradição, as pressões económicas e militares). Por consequência, uma busca do fim e do significado. 


Desenvolvimento de culturas pluralistas em forma de mosaicos, exibindo uma grande diversidade de estilos de vida a maior parte esotéricos, exóticos, comunais, com enclaves utópicos e subculturas, mas com uma grande mobilidade entre os enclaves e as subculturas. A roupa e o estilo de vida podem reflectir a filosofia de base, o papel, a vocação, com pouca imitação — e mesmo a rejeição— do estilo da classe superior. 

Herman Khan, o senhor termonuclear, a antever de forma muito presciente aquilo que se tornou o nosso mundo contemporâneo. A primeira citação, então, ressoa de forma incrível nesta era pós-Snowden, em que sabemos o quanto obscuras agências governamentais vigiam e observam a nossa pegada digital. As restantes não lhe ficam atrás, com o regressar da precariedade nas relações laborais ou a pulverização da ideia monolítica de uma cultura homogénea comum a todos numa míriade de fragmentos de interesse e nichos culturais. Ideias surpreendentes, que tão bem se aplicam à nossa contemporaneidade, vindas de um passado já algo distante. Estes textos são dos anos 60 e 70, e procuravam especular de forma informada sobre o que seria a vida nos anos 80.

O retro-futurismo é intrigante. Podemos aprender muito sobre o tempo em que vivemos e a forma como o projectamos nos futuros hipotéticos olhando para trás, para a forma como os que nos antecederam especularam sobre o que ia ser o seu futuro. Encontrei estes textos muito por acaso, ao vasculhar as estantes da Livraria do Mercado durante o festival Folio em Óbidos. A edição é de 1970, parte da colecção Cadernos do Século da Editorial O Século, e traduz para português uma edição especial do Le Figaro que suspeito datar dos anos 60. Naqueles tempos, 1980 parecia um futuro distante.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Dylan Dog #291: Senza trucco né inganno


Giovanni Di Gregorio, Fabio Celoni (2010). Dylan Dog #291: Senza trucco né inganno. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma aventura surpreendente e cativante. Qual será o segredo de um mago dos palcos,  cujos truques de prestidigitação parecem insondáveis aos seus rivais? Este tem de facto algum poder, não de magia, mas de materializar o impossível por fugazes momentos. Consegue até fazê-lo com a sua bela assistente, uma alma inquieta morta num terrível acidente ao ensaiar um novo número de um mago rival, que não a sabendo falecida, crê que foi trocado pelo novo e bem sucedido mago. Dylan acaba envolvido neste triângulo, e apaixona-se pela mulher cuja existência física se mede em poucas horas a cada materialização. O grafismo expressivo da ilustração também se destaca.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

The Land of the Green Man


Carolyne Larrington (2015).  The Land of the Green Man - A Journey through the Supernatural Landscapes of the British Isles. Londres: I. B. Tauris.

A leitura deste livro mostra-nos o quanto a literatura fantástica está contaminada pela visão vitoriana do folclore tradicional das ilhas britânicas.  O que não é em si surpreendente. Os autores que deram forma à visão contemporânea de fantasia, Machen, Lewis, Tolkien,  Gaiman, entre outros,  foram beber inspiração às suas raízes.  É destas raizes que a autora nos fala nesta obra que percorre um caminho periclitante entre estudo académico e divulgação literária.

Pela mão conhecedora da autora, claramente mais erudita do que faz transparecer,  somos levados num périplo pelas lendas e tradições das ilhas britânicas,  histórias passadas de geração em geração que antecedem a história da anglicidade. Terras submersas, criaturas de terror que exercem predação sobre humanos descuidados, a dualidade amoral das fadas, seres telúricos cujas interacções com os homens se saldam em tragédia,  bruxas, lendas arturianas, dragões e essa colisão entre nostalgia por um passado mitificado e as pressões ecológicas que é o homem verde, constructo relativamente recente. São alguns dos elementos que redescobrimos neste livro.

Escrevo redescobrimos porque são temas e personagens que nos são familiares da iconografia da literatura,  banda desenhada e cinema. A autora mostra muito bem os paralelismos entre as lendas tradicionais e algumas das obras mais conhecidas e marcantes da literatura fantástica. Mostra também como essas visões foram recolhidas no século XIX por uma legião de clérigos e personalidades locais que, ao preservar as narrativas tradicionais,  não resistiram a alterá-las com toques típicos da sensibilidade vitoriana, enfatizando o romantismo e eliminando a sexualização patente em muitas lendas. É difícil não reconhecer aqui um dos elementos característicos da fantasia literária contemporânea.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Comics


Clean Room #01: Um belíssimo exemplo do melhor do terror numa única vinheta. Depois de criar suspense e dar vislumbres de monstruosidades, vira-se a página e deparamos com uma prancha negra. Que seja a imaginação do leitor a construir o terror. É uma técnica que ultimamente, mercê do gosto dos ilustradores e modeladores 3D em criar intricadas criaturas de horror, anda arredada do terror na banda desenhada e cinema. Visões fantásticas, que deixam para segundo plano impacto do suspense.


Karnak #01: Warren Ellis tem andado a queixar-se no Orbital Operations de como este personagem amoral e desumano lhe anda a entrar na cabeça. Nota-se. Ellis tirou o pó às filosofias solipsistas com uma náusea humanista que deixaria Sartre deprimido. Já na construção formal da narrativa, o argumentista usa a mesma técnica cinematográfica que aprimorou em Moon Knight. Cada vinheta vê-se como um enquadramento de câmara, funcionando como cenas em sequência fílmica de ritmo marcante.


The Steam Man #01: Os conhecedores dos primórdios da ficção científica não são alheios a The Steam-Man of the Prairies, uma edisonade de Edward Ellis, escritor popular do século XIX. O desafio de recriar o personagem foi entregue a Joe R. Lansdale, que o revê em linhas de terror grimdark. O argumentista caminha numa linha sinuosa entre terror visceral e fantástico juvenil enquanto coloca em jogo as peças da narrativa. Ainda não percebi se foi bem sucedido ou não.

domingo, 25 de outubro de 2015

Insta


Durante o espectáculo a criança vira-se, corre e diz com voz alegre mamã, já sei como é que se chama o elefante. É o Solimão, disse o senhor... 



(A Viagem do Elefante em Óbidos e Lego Fan Event nas Caldas da Rainha.)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Make: Design for 3D Printing


Samuel Bernier, Bertier Luyt, Tatiana Reinhard (2015). Design for 3D Printing: Scanning, Creating, Editing, Remixing, and Making in Three Dimensions. Sebastopol: Maker Media.

Já se sabe que este tipo de livros da Make: não se destacam pela profundidade, sendo guias abrangentes mas algo superficiais. Não deixam de ser bons pontos de iniciação a tecnologias e técnicas de trabalho. Este destaca-se mesmo pela sua abrangência, na forma como aborda técnicas de trabalho que permitem modelar para impressão 3D. Está cheio de boas dicas sobre modelação com apps Autodesk (com especial incidência para o 123D Design), digitalização 3D e preparação de mesh para impressão. Bom guia introdutório, que desperta a imaginação para a aprendizagem de técnicas de trabalho para impressão 3D. Inclui, habitual nos livros sobre o tema, a obrigatória introdução hiperbólica sobre o potencial desta tecnologia e uma análise às melhores impressoras FFF no mercado, onde a beethefirst ombreia com as makerbots, claramente a impressora de eleição no Fablab de origem dos autores deste guia.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Interzone #257



Mesmo com Alastair Reynolds a ancorar esta edição com um conto de hard SF pura, esta Interzone desaponta muito. Os restantes contos ou assentam em premissas interessantes mas de execução desastrosa, ou usam a FC como mero e distante adereço. Note-se que esta crítica não é uma revolta contra tendências mais literárias dentro da FC. As narrativas experimentalistas são sempre interessantes, e se nesta edição se notou um investimento em autores claramente com vontade de experimentar, não pareceu que estivessem suficientemente afinados para corresponder ao que prometiam.

A Murmuration, Alastair Reynolds: Um dos autores mais conhecidos da space opera britânica dá-nos um conto curioso, onde um cientista isolado no terreno descobre que o tipo de estudo que está a fazer, relacionado com os padrões de comportamento que regem os bandos de pássaros, tem estranhas consequências. Especialmente quando percebe que ao controlar a trajectória de alguns dos animais gera uma entidade de computação em swarm que mostra sinais de inteligência.

Songbird, Fadzlishah Johanabas: Uma belíssima capacidade narrativa, com um estilo muito imagético, não chegam para salvar um conto maculado por uma premissa patética. Numa Kuala Lumpur de futuro próximo distópico, uma rebelde envolve-se com um mercenário, extraindo-lhe informação graças à sua capacidade de... cantar. Porque, no mundo deste conto, algumas mulheres genéticamente predispostas foram manipuladas para segregar substâncias fortemente aditivas enquanto cantam. Eu avisei que a premissa era patética.

Brainwhales are Stores Too, Rick Larson: Um casal de adolescentes com mais psicotrópicos do que tino invade um laboratório de computação avançada para revelar ao mundo as condições degradantes em que vivem os computadores. Computadores biológicos, entenda-se, cachalotes que confinados em tanques conseguem fazer cálculos matemáticos complexos. Conto intrigante pelo conceito, apesar da narrativa girar mais à volta das emoções adolescentes do que aquilo que lhe dá interesse.

The Worshipful Company of Milliners, Tendai Huchu: outro conto com premissa interessante, muito poética, que falha na execução. A inspiração dos escritores vem de fantásticos chapéus invisíveis, tecidos por chapeleiras numa fábrica onde resiste a última musa literária. Premissa intrigante, de um fantástico poético, mas assente numa narrativa desconexa e difícil de seguir.

Blossoms Falling Down, Aliya Whiteley: Suspeito que a autora deste conto tenha diversas versões, prontas  enviar para revistas temáticas. Basta alterar duas ou três frases e o conto tanto fica pronto para revistas de ficção científica, romance ou de literatura de iniciais capitalizadas. Há uma ténue premissa de género, com referências muito veladas ao que me pareceu ser uma nave geracional, mas o conto mantém-se na perspectiva sentida de uma aprendiz de gueixa especializada em Haiku e a sua relação com o primeiro cliente. Lá está, alterando algumas frases, esta história muda completamente de tema e enquadramento.

aCalopsia: The Walking Dead #12


Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn (2015). The Walking Dead #15: Viver entre Eles. Palmela: Devir.

As histórias de infestações de mortos vivos tocam nos nossos tribalismos inatos. Especialmente na maneira como concebemos o outro e visualizamos aqueles que são diferentes de nós – quer por cultura ou etnia, como hordes infectas de invasores que vão aniquilar o nosso modo de vida.  Os mortos-vivos são apenas outra expressão da visceralidade transmitida pelo Perigo Amarelo, o fardo do homem branco ou os bárbaros aos portões do império. Crítica (if I may be so bold as to call it so) completa no aCalopsia: The Walkind Dead #12.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Stand on Zanzibar


John Brunner (1999). Stand on Zanzibar. Londres: Gollancz.

Devo confessar uma heresia: sempre imaginei este livro como uma sucessão de aventuras passadas numa Zanzibar dos mitos neo-coloniais africanistas. Terminada a leitura, descobrindo que o que dá título ao livro é uma frase isolada na narrativa, será que me sinto defraudado? Não, claro. Stand on Zanzibar é tido como um dos maiores expoentes da FC New Wave e é preciso lê-lo para compreender isso. O tema do livro é familiar, uma distopia futurista num mundo que enfrenta os impactos do crescimento populacional desenfreado, a par com tensões políticas e sociais fragmentárias onde não falta a fé cega nas capacidades computacionais dos super-computadores para resolverem os problemas à humanidade.

No tema não se distingue da maior parte das obras nesta vertente da FC. O que nos atinge é a forma como Brunner deixou entrar de enxurrada o cânone literário do alto modernismo pela FC dentro. É na sua estrutura narrativa deliberadamente fragmentada que o livro se revela. Leitores que conheçam a obra de John dos Passos, especialmente a trilogia U.S.A., reconhecem a técnica literária. Uma história que se constrói através recortes noticiosos, elementos narrativos puros, fragmentos de percepção cuja conjugação constrói na mente do leitor quer as peripécias da história quer o seu vasto mundo ficcional. Um experimentalismo ao mesmo tempo típico e radical para a época em que foi publicado originalmente.

Esta é uma obra que nos mostra o poder da junção do arsenal especulativo da FC com a vanguarda literária que marcou o século XX. Consequência lógica dos anseios estéticos da New Wave, levando-a quase tão longe quanto Ballard a levou (embora este tenha seguido outros caminhos), abriu a porta a uma FC que não renega outras influências, que se atreve a assumir-se como literatura, fugindo dos espartilhos impostos por visões redutoras de género. Um livro fundamental para a história da Ficção Científica. Se não conhecem, atrevam-se. Irá ser uma viagem atribulada mas recompensadora.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Almanaque Steampunk 2015



Diana Sousa et al (ed.) (2015). Almanaque Steampunk 2015. Porto: Corte do Norte.

Destacar os três contos que formam o cerne desta antologia é um acto muito injusto. Todo o Almanque é uma muito bem conseguida obra de ficção, e se o conto segue os pressupostos mais tradicionais das narrativas ficcionais tudo o resto não lhe fica atrás. Este é um dos aspectos que tem intrigado nestas antologias steampunk, a forma descontraída como se atrevem a explorar aspectos meta-ficcionais. Nesta antologia, tudo faz parte da narrativa global. É um discreto mundo partilhado, que se conta através dos contos mas que ganha vida nos detalhes entretecidos em notas, fait divers, relatos ficcionais, anúncios a replicar o estilo publicitário do século XIX, ilustrações e banda desenhada. Quase uma arte completa, no sentido wagneriano do termo.

Devo dizer que das edições deste almanaque, que tenho acompanhado, esta é a mais sólida e cativante. A evolução tem sido constante e nesta terceira edição conseguiram criar um eficaz ambiente imaginário. Cativante, intrigante, e para mal dos meus afazeres uma leitura imparável. Surpreendeu.

É uma máfia interessante, esta Corte do Norte. Pronto, máfia talvez não seja o melhor termo, mas não consigo pensar em nenhum que inclua conspiradores imaginativos, engrenagens e vapor. Mas tenho uma reclamação a fazer. As aranhas mecânicas que me prometeram incluídas neste livro escapuliram-se do pacote. Enfim. Vou ter de as imprimir em 3D, está-se mesmo a ver.

A Tomada do Palácio de Cristal, Ana Luz: Um grupo de conjurados reúne-se de madrugada numa taberna da ribeira, com o fim expresso de fazer uma espécie de tomada da bastilha aquando da inauguração do portuense Palácio de Cristal pelo rei D. Luís. No final de uma noite bem regada percebem que não são os suficientes para assegurar a revolta. Pela madrugada, a revolução é novamente adiada.

Da Arte e das Razões da Guerra, João Ventura: Neste conto corrosivo os interesses que controlam o carvão, essencial para a propulsão a vapor dos tanques e navios de guerra, mantém aceso o impasse numa guerra que opõe os impérios britânico e germânico. Quando um cientista propõe um método revolucionário de propulsão à base de urânio, que promete terminar o impasse dotando as tropas inglesas de armas mais potentes e rápidas, só há uma coisa a fazer. Assassinar os cientistas e destruir a pesquisa. Afinal, com tudo a correr tão bem nos lucros, para quê inovar?

Excertos do Diário de Miss Evelyn Lasseter, Diana Sousa: O conto de mais puro steampunk da antologia. Uma jovem descobre, entre os diários e laboratório do seu pai, uma fantástica criação. Um autómato dotado de inteligência e sentimentos, que acaba destruído às mãos de uma turba furiosa, pretensa defensora dos direitos da vida biológica.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Comics


Constantine The Hellblazer #05: Este novo Constantine acertou. Não renega a longa continuidade histórica do personagem, mas refresca-o e moderniza-o para o século XXI. E, hey, referências aos The Smiths ficam sempre bem.


 Faster Than Light #02: Esta nova série de ficção científica da Image é intrigante. Mistura pura hard SF com toques de space opera e acenos à FC clássica com monstros alienígenas. A tripulação de uma nave da incipiente exploração espacial terrestre recebe uma missão especial: partir pela galáxia em busca de civilizações alienígenas que não sejam hostis a uma Terra que se descobre na iminência de uma invasão extra-terrestre. Apesar da narrativa ser algo desconexa, tem qualquer coisa que desperta o interesse.


The Wicked and the Divine #15: A curiosa mistura de fascínio pela cultura pop com super-heroísmos de origem divina de Kieron Gillen depressa se começou a arrastar na inanidade de uma espécie de novela focada nos dilemas pessoais dos semi-deuses deste panteão efémero que revê os mitos religiosos sob as luzes da ribalta. Mas ainda consegue surpreender. Se as ilustrações de McKelvie costumam ser o ponto alto da série, neste número o grafismo é cedido a Stephanie Hans e o resultado é esplendoroso.


War Stories #13: Garth Ennis leva-nos agora aos céus japoneses do final da II Guerra nesta nova história das suas narrativas de combate. Merecia um melhor ilustrador. A série iniciou com uma história semelhante nos céus do teatro de operações europeu, cujas ilustrações a cargo de Keith Burns atingiram níveis impressionantes de espectacularidade e precisão. Imagens tão influentes que foram repetidas em todos os números seguintes da série. Thomas Aira não se tem safado tão bem. Regressando aos céus, esforça-se nos enquadramentos mas é traído pela pouca precisão do tratamento de cor. São pormenores que interessam aos g33ks da aviação. Mesmo assim, há aqui algumas vinhetas dignas de George Evans em Aces High, o grande clássico que marca este género.

sábado, 17 de outubro de 2015

Arts & Crafts


A recuperar do Dia dos Clubes de Robótica e Programação, comemoração oficial portuguesa da Europe Codeweek 2015. Um dia que reuniu no Agrupamento de Escolas D. Dinis núcleos que vieram mostrar o que andam a fazer com robótica e programação, bem como professores interessados nestas temáticas. Estive presente representando o Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro, com o projecto As TIC em 3D convidado a desenvolver actividades de live 3D printing aproveitando a mascote da iniciativa de introdução à programação no 1.º ciclo (que carinhosamente se tornou um #robotarmy). Dia produtivo, de partilha e aprendizagem.O que esteve em evidência neste evento foi mais do que pedagogia e resultados de aprendizagem. Foi o arts and crafts de Morris, o tinkering de Paper, o fazer da cultura maker, a criatividade baseada e alimentada pelo conhecimento técnico,  o experimentalismo alicerçado na tecnologia. E não vos maço mais. Se estiverem interessados nestes devaneios do Robot Intergaláctico com impressão 3D e educação, visitem o registo nas TIC em 3D.

Office


Dias de gabinete.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Dylan Dog #296: La Seconda Occasione

 
Paola Barbato, Giampiero Casertano (2011). Dylan Dog #296: La Seconda Occasione. Milão: Sergio Bonnelli Editore Spa.

Esta aventura surpreende-nos por girar à volta de um paradoxo temporal. Dylan, farto das agruras de uma amante bipolar, decide deixá-la apesar das ameaças repetidas de suicídio. Regressa, temendo pela vida da amante, e encontra-a já cadáver, com uma faca espetada no coração, e um vulto que foge ao longe. Crendo-a assassinada, persegue o assassino e dispara contra ele. Acreditando tê-lo morto, desesperado porque agiu contra a sua natureza, Dylan pede ajuda à viúva de um antigo inimigo para que, com poderes ocultos, vá ao passado para compreender a morte da amante. Regressa à casa da amante, assiste, impotente, ao suicídio e é surpreendido por si próprio, compreendendo finalmente que está preso num laço temporal. Descrito desta forma a história parece mais interessante do que é, mas a premissa está bem explorada e consegue surpreender o leitor.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Dylan Dog #297: Il Sortilegio

 

Giancarlo Marzano, Corrado Roi (2011). Dylan Dog #297: Il Sortilegio. Milão: Sergio Bonnelli
Editore S.p.A..

Este sortilégio não é um dos piores momentos de Dylan Dog. Diria que medíocre não chega para descrever o quão tediosa é esta aventura do Old Boy. Percebemos logo que é um mal de amores que provoca a maldição vodu que aflige Dylan com dores inesperadas. É muito óbvio que virá do triângulo amoroso formado pela nova namorada de Dylan e a sua irmã, caidinha de amores pelo investigador. Resta saber se é a irmã ou a mãe-megera das raparigas, a responsável pelos alfinetes espetados numa efígie de Dylan. Mas nem quando a história dá a volta revelando uma outra culpada pela maldição nos consegue surpreender. Nem a ilustração, apesar de estar ao cuidado de Corrado Roi, um dos grandes nomes do fumetti. Interessante capa, no entanto. Alude a um delírio sugerido por três velhotas de conversa mórbida, misto de parcas e bruxas de macbeth, que entretém os doentes  que aguardam nos consultórios com histórias edificantes sobre doenças fatais e cirurgias que deixam instrumentos dentro dos corpos dos pacientes.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

3D Printing: The Next Industrial Revolution


Christopher Barnatt (2013). 3D Printing: The Next Industrial Revolution. Explaining The Future. 

Suspeito que entre 2013 e 2015 o panorama global da impressão 3D não se tenha alterado assim tanto, embora seja provável que o directório global de empresas ligadas a esta indústria emergente teria de reflectir a explosão na impressão 3D. Apesar do título bombástico, Barnatt assenta o livro numa longa e detalhada explanação das diferentes tecnologias de impressão 3D e suas potencialidades, ancorado nas condicionantes técnicas que lhe são inerentes. Não esperem daqui previsões bombásticas e ocas sobre o futuro brilhante da impressão 3D na casas de todos. Para além de um detalhar didáctico das várias vertentes da tecnologia, o ancorar das análises de potencial na condições técnicas, sociais e económicas é um dos grandes pontos de interesse deste livro. A visão de longo prazo de Barnatt é algo deprimente, postulado um futuro próximo onde a impressão 3D pode ser a resposta aos desafios do fim de uma globalização trazida pelo esgotamento de recursos energéticos.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Visões



The Martian, Ridley Scott (2015): "I'm gonna have to science the shit out of this" é uma frase demasiado boa para não ficar na memória colectiva. Resume muito bem o espírito quer do filme quer do livro em que se baseia: perante situações inimagináveis, decompor os problemas, e usar a razão e o conhecimento para os ir ultrapassando. As condicionantes da linguagem cinematográfica significam que vemos um The Martian redux, sem os longos mas interessantes infodumps do livro original, e percebe-se bem na forma como o realizador se esforça por contextualizar alguns dos momentos a falta que as explicações fazem. Ridley Scott pega muito bem na obra de Andy Weir, sublinhado a resiliência e bom humor do astronauta abandonado em Marte, valorizando na narrativa a sua vertente de Robinson Crusoe no espaço em modo hard SF. Os detalhes estão perfeitos (fantástica, a nave Hermes), com um elevado nível de plausibilidade que, novamente, respeita bem o livro. Respeito esse que se mantém até nas partes mais fracas do mesmo. Quem leu The Martian deve, tal como eu, ter chegado a momentos em que se perguntou porque é que o autor tanto insistiu em continuar a empilhar adversidades em cima de adversidades sobre o seu astronauta. Este sofre torturas que fazem as de Job parecerem suaves. É bom ver o realizador de clássicos marcantes da Ficção Científica como Alien e Blade Runner regressar à boa forma, depois de um desastre conceptual (mas com uma estética fantástica) como o patético Prometheus. Em The Martian não há geógrafos incapazes de ler mapas ou alienígenas avançados a semear a vida no planeta. Apenas um cientista, utilizando a tecnologia de que dispõe e o seu saber para tentar sobreviver.
 

As interwebs estão a adorar o pormenor do concílio de Elrond. Pessoalmente, prefiro destacar a omnipresença de Saturn As Seen From Titan, uma das ilustrações icónicas de Chesley Bonestell que marca de forma indelével as nossas visões da exploração espacial. Não por acaso, esta visão é a base do logotipo da Titan Books. O quadro é muito visível como detalhe em fundo sempre que há reuniões na administração da NASA. A sua influência faz-se sentir na visão que Ridley Scott nos dá dos wide open spaces marcianos, que filma com o mesmo sentimento de grandiosidade que David Lean conferiu aos desertos arábicos em Lawrence of Arabia. Sente-se o espanto, a necessidade de ir lá, o coração a palpitar com a ideia de exploração. Sabemos que estamos a ver as zonas do Arizona celebrizadas em inúmeros westerns trabalhadas com VFX cuidado e verosímil, mas sentimo-nos por entre os valle e platinitia marcianos. Que Ridley Scott se inspira nas visões clássicas de FC para as suas iconografias é algo que está patente em Prometheus, e no incontornável Blade Runner. Este filme sublinha essa vertente estética, notando-se que Scott se ancora muito em Bonestell para visualizar e enquadrar esta visão da presença do homem na superfície de Marte.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Comics


Miracleman by Gaiman & Buckingham #03: Esta tardia reedição do clássico e influente comic britânico, sintomática do fim das disputas legais sobre propriedade intelectual que durante décadas, traz de regresso a revisão por Alan Moore dos estereótipos dos comics de super-heróis, que viria a levar mais longe com Watchmen e Promethea. Moore, avesso a certos costumes típicos da indústria, é creditado nesta reedição com um críptico mas muito óbvio the original artist. Finalizando a série, entramos no campo de Neil Gaiman, que contrapôs o seu estilo mais metafísico ao experimentalismo seco de Moore. Gaiman sempre foi um deslumbrado com ideias e conceitos intrigantes, e levou por aí o personagem, mais nos campos da fantasia do que da FC. De caminho lega-nos este episódio, com Mark Buckhingham a acompanhar na perfeição o fascínio pela arte contemporânea.


Starve #05: A terminar a primeira temporada, este comic afasta-se um pouco do futurismo visceral, com Brian Wood a entrar no mais banal dramalhão familiar. O que não muda é o expressionismo puro da ilustração de Danijel Zezelj, o grande ponto forte desta série, a par da premissa original que levou ao absurdo os reality shows de culinária gourmet. Ou talvez não, parece que a ideia de degolar e esquartejar animais para cozinhar ao vivo já apareceu num ou outro Masterchef.


Survival's Club #01: Não sendo uma estranha ao mundo dos comics, Lauren Beukes está claramente  a ser romancista neste novo comic da Vertigo. O lançar da premissa e colocar das peças em jogo é feito de forma muito fragmentada, claramente a tecer diversas linhas narrativas que vão muito para além do conceito-base de um jogo de computador malévolo que de alguma forma afectou a infância dos personagens. Estamos no terreno do fantástico dark, e acho que nos espera uma wild ride. Um aparte: depois de conhecer Beukes nos encontros Próximo Futuro da Gulbenkian, é-me impossível não achar que a personagem Alice não tenha sido visualmente decalcada da autora. É demasiado parecida com Lauren Beukes... e quem esteve por lá reconhece as similaridades.

domingo, 11 de outubro de 2015

Ode ao empreendedorismo


Not sure if... ironia pura ou estão mesmo a falar a sério. Indo perscrutar ao GOG dou logo na primeira página com um destaque a Lula: The Sexy Empire, um jogo antigo para Amiga, portado para Windows. Descrito como ode ao empreendedorismo e profundo e cativante simulador de negócios. Mas o texto de promoção ainda melhora:
In the age of struggling economies and high technology, the spirit of entrepreneurship is one of the greatest treasures one can ever own. (...) In Lula: The Sexy Empire you will make your path from rags to riches: you'll start up your own multimedia production empire, and you'll do it with spunk. 

Esta ode ao empreendedorismo mostra como enriquecer com prostituição e filmes pornográficos. Jogos que passam para lá das linhas para despertar o interesse nos jogadores e cativá-los apelando aos impulsos sexuais não são nada de novo, nem este jogo o é (notem: desenvolvido para Amiga). A Wikipedia é mais lacónica e informativa:

The game revolves around building a multi-million dollar pornography and erotica industry.

Adorei foi a forma como foi descrito, decaldadinha dos manuais de práticas empresariais dos proponentes empreendedores, dos bater punho e similares. Tirem a imagem sugestiva e as palavras sexy empire e tudo o resto é o tipo de texto que se encontraria num jornal económico ou coluna de opinião. Não sei se foi intencional, mas a ironia com o discurso dos neo-liberais que querem impingir a toda a força a falácia salvífica do empreendedorismo é completa.

Fui parar ao GOG através deste artigo no Ars Technica sobre jogos de simulação urbana, cuja leitura se recomenda.

Insta



Edição alegria no trabalho: #robotarmy.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

aCalopsia: H-alt #01


Diria que o saldo final desta primeira edição da H-alt é muito positivo. Traz aos leitores um conjunto heterogéneo de histórias e ilustrações, equilibrando alguns nomes mais maduros com muitos desconhecidos prometedores. Focaliza-se em géneros literários pouco explorados por cá, e pretende abrir-se ao espaço da lusofonia. Mais na crítica publicada no aCalopsia: Revista H-alt 01.

Our Robots, Ourselves: Robotics and the Myths of Autonomy


David Mindell (2015). Our Robots, Ourselves: Robotics and the Myths of Autonomy. Nova Iorque: Viking.

O ponto mais interessante dos argumentos sobre robótica autónoma deste livro é o equilíbrio que mantém entre visões de deslumbramento e apocalípticas do impacto social e histórico destas tecnologias. Coisa rara. O mas habitual é ler-se um deslumbramento total, com a robótica como mito salvífico que irá libertar a humanidade do jugo do trabalho sem sentido (pensem Hans Moravec, e todos os que postulam vidas de ócio possibilitadas por servos mecânicos). Ou, corrente mais contemporânea e influenciada pela crise global que atravessamos, visões tenebrosas onde software de automação e robots pulverizam empregos e carreiras, beneficiando elites dominantes enquanto condenam uma grande parte da humanidade à indigência. Já Mindell tem os pés mais assentes na terra, especialmente porque se torna notório ao longo do livro que não é teórico ou economista, mas sim engenheiro com uma larga experiência nalguns dos mais icónicos projectos de robótica autónoma. Quando se participa nas equipas de trabalho multidisciplinares que constroem e operam robots autónomos, a visão do omnipotente robot overlord desvanece-se face às fiabilidades, avarias, inconsistências, bugs de sistemas que obedecem primariamente às leis de Murphy.

Mindell conduz-nos através de algumas das vertentes de investigação neste campo, passando pela automação de sistemas aeronáuticos, robots submersíveis, drones militares, veículos autónomos e exploração espacial. São retratos que tece com detalhe por vezes excessivo (há parágrafos que são melhor legíveis na diagonal, o argumento está feito, os exemplos dados, o resto é acessório, interessante mas não fundamental). A imagem que transparece é uma de simbiose entre máquinas e humanos, em vários níveis. Sublinha o quanto a dependência de sistemas automatizados pode prejudicar o sentido crítico de quem os utiliza, com consequências potencialmente fatais. Mostra que as possibilidades da telepresença criam um sentimento de imersividade nos utilizadores. E, fundamentalmente, aponta para a omnipresença do factor humano mesmo na robótica mais avançada. Somos nós que a concebemos e programamos, e as nossos pressupostos influenciam directamente a sua concepção. Este é o argumento mais pertinente de um livro intrigante, que segue um caminho sóbrio e intermédio, ancorado na experiência prática, na reflexão sobre práticas e consequências da robótica e automação.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Época Morta e (À Suivre)



José Carlos Fernandes (1997). Época Morta e (À Suivre). Lisboa: Polvo.

É daquelas coisas inesperadas. Passo pela cinemateca para ir ao cinema mas, na livraria que lá se encontra, dou com uma inesperada secção dedicada à BD cheia de fanzines e edições já antigas. Saiu de lá este livro vindo do longínquo ano de 1997, quando José Carlos Fernandes era uma promessa da BD portuguesa e não o desencantado veterano hoje afastado.

Nas aventuras do personagem Lou Velvet, Fernandes começou a revelar o surrealismo borgesiano que veio depois a desabrochar naquela que é inquestionavelmente a sua obra maior, A Pior Banda do Mundo. Os encantadores elementos de estranheza, as vénias literárias e influências de outras artes estão já aparentes nestas histórias, embora ainda sem a força e elegância que veio a desenvolver mais tarde.

Época Morta: uma história que desvirtua o policial com toque surreal, onde o prototípico detective alcoólico se vê a braços com uma epidemia de mortes misteriosas de turistas alemães no hotel que o contratou. Os turistas, disfarçados de antigos operários, eram na verdade veteranos das SS que caíram na mira de um sobrevivente de campo de concentração durante as nostálgicas celebrações anuais que organizavam todos os anos num banal hotel de estância turística massificada à beira-mar.

(À Suivre): E se... numa exposição de banda desenhada os principais autores, demasiado similares aos personagens clássicos da BD, fossem sendo assassinados por um Ignatz aliado à Krazy Kat, guerrilheiros em nome da pureza artística do género? Humor mordaz aliado a uma simpática vénia à história da BD.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Burma Banshees

 

Yann, Romain Hugault (2015). Burma Banshees. Genebra: Paquet.

Estamos em 1944 na frente birmanesa, onde uma jovem e apropriadamente escultural mulher-piloto aterra, desestabilizando o consenso machista sobre as capacidades femininas nos cockpits. Encarregue de voar aeronaves DC3 sobre os Himalaias, na perigosa rota de auxílio à China, depressa se revela uma piloto competente, capaz de se safar das situações mais complicadas graças à resiliência que adquiriu com a dependência de material de segunda linha.

Este tipo de histórias saídas do argumentista Yann para a Paquet são formulaicas e previsíveis. Divertem o leitor com fantasias passadas nos teatros míticos da guerra aérea, e é por isso mesmo que foram criadas, para alimentar o fascínio pela aviação clássica. Nestes livros, a narrativa tem um lugar terciarizado face àquilo que os leitores vão dar mais importância: a estética e iconografia da aeronáutica. Nisso, Yann tem o parceiro certo em Romain Hugault. Este ilustrador, com o seu traço elegante e preciso, invoca de forma espantosa a beleza das aeronaves em vinhetas deslumbrantes. Com tão boas ilustrações aeronáuticas, reforçadas com iconografia de pinup retro, estes livros são viciantes para aqueles que, como eu, têm um fraquinho sobre os pássaros de metal que cruzam os céus.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Sincronicidade

 

Com saudades da Cinemateca e sabendo que ia estar por Lisboa nestes dias, fui surpreendido com a projecção do filme Os Emissários de Khalôm de António de Macedo. Perfeito para alternar com o congresso dos professores de informática, pensei. Ver filmes de Macedo é evento tão raro que não se pode deixar escapar qualquer oportunidade de ver ou rever. Pensei que a sessão fosse um freak event na programação da Cinemateca, mas estava inserida no âmbito do festival Arquitecturas Film Festival numa vertente dedicada ao futuro. Sendo um dos raros filmes de ficção científica portugueses, diria que o seu visionamento é obrigatório num evento destes. Quanto ao festival, deveria ter estado mais atento. No mesmo dia, noutro cinema, organizaram uma sessão sobre 3D printing com projecção de documentários e discussão com notórios impressores 3D nacionais, que só descobri horas depois de ter sido realizada. Bolas. Daria perfeitamente para sair do congresso, continuar na onda 3D, e chegar a tempo da ficção cientifica. Azares.

O que foi de todo inesperado foi contar com a presença de António de Macedo na sessão, acompanhado de António de Sousa Dias, compositor da banda sonora do filme. Macedo, com o bom humor e humildade que o distingue, falou-nos um pouco do filme, da assumida impossibilidade da FC em antever futuros, e da tecnologia computacional. Nunca cessa de encantar ouvir Macedo terminar dizendo-nos que espera que o filme nos divirta tanto como se divertiu a fazê-lo.

A sincronicidade esteve em parte do que partilhou connosco. Ao falar do filme falou de tecnologia computacional, recordando-nos da gloriosa era da computação em linha de comandos. Depois da partilhar ideias junto de professores de informática, e falar sobre 3D printing, quem diria que o dia ainda me reservaria ouvir o sempre brilhante António de Macedo a falar sobre linhas de comando, workstations IBM que em 1987 eram a vanguarda da computação, e a vida antes dos interfaces WYSIWYG. Só para sublinhar o quanto as coisas mudaram, recordo que a IBM já não fabrica computadores. Ah, a sincronicidade, esse conceito de Jung que quando menos esperamos nos apanha a jeito e surpreende.

Rever Os Emissários de Khâlom  permitiu-me reparar em elementos que me tinham escapado no primeiro visionamento do filme, no saudoso ciclo dedicado ao realizador. A forma intrigante como o esoterismo e a FC pura se unem no filme. O futurismo proto-cyberpunk das entidades algorítmicas que se encarnam em seres ao longo do tempo, assumindo faces da dualidade do bem e do mal. A hilariante expressão ameaçadora dos montanheses que tentam caçar incautas condutoras no meio da Serra da Estrela. O humor corrosivo e ainda hoje tão certeiro com o utilitarismo cego na investigação cientifica. A influência do espectro da guerra nuclear, um medo hoje esquecido nas entrelinhas da história do século XX. A atomização dos tempos que condenam as personagens a repetir paixões e temores. O utilizar um fractal de Mandelbrot como elemento gráfico da narrativa.

Quanto aos célebres computadores, que Macedo confidenciou que à época a IBM lhe pediu discrição por ser uma novidade no mercado, equipam uma sala de investigação que décadas passadas sobre a sua concepção ainda parece moderna. Apesar dos computadores com duas entradas de disquete de 5" (uma para correr o sistema operativo e outra para aplicações, diz o professor de TIC que há em mim), dos monolíticos monitores CRT, das impressoras de agulhas ou dos televisores para mostrar vídeo linha a linha. Até o lado mais fantasista, com o computador inteligente que se assemelha a um ovóide (impossível não pensar na iconografia de FC de Jodorowsky e Moebius) ladeado de painéis que vão piscando em diferentes cores não envelheceu tão mal como Macedo nos confessou que temia quando fez o filme.

Não passam filmes suficientes deste extraordinário realizador. Quando passam são raros e circunscritos a eventos que mal se dá por eles. Não há cópias disponíveis em DVD dos seus filmes para que possam ser vistos e revistos noutros contextos. Enquanto professor envolvido nas actividades do Plano Nacional de Cinema na escola onde lecciono, reflicto muitas vezes sobre a impossibilidade de mostrar a obra de Macedo aos nossos alunos. Por isso, mesmo sabendo que dificilmente será lido (no PNC sei que sou ouvido, uma das coordenadoras é também fã incondicional deste autor único), deixo aqui um recado à Cinemateca: queremos mais António de Macedo. Quer em projecção, quer transposto em DVD. Como eu gostaria de organizar uma sessão com Chá Forte com Limão, a Maldição de Marialva ou este Emissários de Khâlom para os meus alunos. Com a vantagem adicional de neste poderem rever algo que lhes falo nas aulas de TIC numa outra luz. Enfim, vamos refilando, porque se não o fizermos ajudamos a que a fantástica obra de Macedo caia no esquecimento.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Comics


2000AD #1950: Está de regresso Brass Sun, o épico clockpunk de Edginton e Culbard. Promete novos mergulhos nos mundos contidos no gigantesco planetário mecânico cujos habitantes se esqueceram que estão interligados por um intricado mecanismo de relojoaria. Agora, é impressão minha ou o simulacro de um criador desaparecido é mesmo muito parecido com Kurt Vonnegut?


Providence #05: Já percebemos o quanto o conhecimento de Moore dos contos de Lovecraft é enciclopédico. Ao revisitar a obra do autor, consegue urdir uma teia que tem tocado em praticamente todos os principais contos, integrando-os numa narrativa coerente que vai muito para além dos mythhos enquanto mundo partilhado. O desafio ao leitor é elevado, especialmente porque Moore não alude de forma óbvia aos personagens e às histórias. Quem leu Lovecraft apanha as pistas, percebe o que se esconde debaixo do véu. Os locais e os nomes são alterados, mas o cerne está lá. Neste quinto volume somos levados à universidade do Miskatonic e à velha Arkham sem que estes nomes sejam alguma vez citados. Moore transpõe a geografia real da Nova Inglaterra para a ficcional da obra de Lovecraft. Mas as pistas estão lá. Quando o incauto jornalista, aspirante a escritor (ele próprio um retrato físico fiel de Lovecraft enquanto jovem) pisa os corredores de uma universidade, sabemos que é a do Miskatonic, que as ruas da cidade são as da gótica Arkham, que a quinta que visita assolada por um estranho meteoro é The Color Out Of Space, que o médico com que cruza é Herbert West Re-Animator mal disfarçado sob o apelido de North, que a casa decrépita habitada por uma simpática velhota que raramente lá está e onde sofre estranhas alucinações  é água furtada onde forças ocultas de outras dimensões repassam para a nossa realidade de The Dreams of the Witch-House. Sendo uma revisitação de Alan Moore, não esperem facilitismos ou concessões indulgentes ao pouco conhecimento que os leitores poderão ter dos Mythos e da obra de Lovecraft. Terminado de ler este número, cada vez mais me pergunto o que é que me escapa, que referências a contos que já esqueci perdi, se o trabalho de escritores como Derleth ou Bloch também é referenciado por Moore, algo de concebível se recordarmos que o primeiro número de Providence vai beber muito aos contos de The King in Yellow de Chambers.


The Sandman: Ouverture #06: Termina como começa, o que é apropriado. Este regresso de Sandman sempre foi assumido como uma prequela do fantástico e marcante arco narrativo legado por Neil Gaiman. A aventura esotérica entre universos que colapsam conta-nos o que deixou Morpheus tão susceptível de ser capturado por ocultistas de segunda linha no início da série. E tudo o resto é história. É apropriado que encerre exactamente como iniciou, repetindo a primeira vinheta de Sam Kieth no longínquo Sandman #01. Este regresso fugaz foi uma delícia, recordando a influente série, trazendo novamente o estilo literário de Gaiman aos leitores de comics, e com um fortíssimo sentido estético de J.H. Williams III, completamente à solta e a dar o seu melhor em pranchas visualmente espantosas. Também é de sublinhar o ser um regresso comedido, curto coda adicionado ao historial do personagem, sem ambições de reboot que iria esgotar a série.