Tiziano Sclavi, et al (2025). Dylan Dog: Echi dall'Incubo. Milão: Sergio Bonelli Editore.
Porque é que Dylan Dog se tornou uma das minhas paixões culturais? Não preciso de ir mais longe do que esta pequena pérola literária que é La Piccola Biblioteca di Babele para demonstrar o porquê. Começa como uma subtil vénia borgesiana, que ganha outros contornos numa fantasia onde as bibliotecas infinitas contêm as minúcias das vidas de todos. Avança para o surreal graças a um musaranho de dentes adiados e apetite pelos pergaminhos, e um monge copista que elimina todo um livro para ocultar os danos provocados pelo roedor.
Resulta um conto belíssimo sobre memória e esquecimento, com momentos de pura irrealidade. As pessoas que se desfazem enquanto o rato rói os pergaminhos do incunábulo são um pormenor genial. Termina com um dos mais brutais pontos finais. Numa vinheta Dylan e o seu amor do momento escapam-se de uma terra que se apaga, na outra está a conduzir sozinho, a achar que está a bater mal por filosofar em voz alta sobre amores. Desaparecidas ficam as memórias das vidas, graças ao estratagema do monge.
Dylan e os amores é uma constante, o ser um eterno pinga-amor é uma das tropes da série, tal como o carocha branco, o assistente exímio em piadas secas, o tocar mal clarinete, o nunca terminar o modelo de veleiro, e a campaínha avariada no número 7 de Craven Road, que soa a gritos e não ao toque habitual. O seu quinto sentido e meio é exímio em levá-lo a aventuras onde se cruza com o sobrenatural, embora, num dos toques de profunda ironia do personagem, não acredite por aí além em assombrações e monstros, embora lide regularmente com eles.
Devemos ao génio de Tiziano Sclavi esta personagem peripatética e as suas aventuras, bizarras, surreais, oníricas e tocantes. Sclavi deu corpo ao personagem, e revelou-se sempre o seu melhor argumentista (que me perdoem os fãs de Roberto Recchioni e Paola Barbato, que também se safam muito bem com o personagem). Algo que sempre me surpreende nas histórias por ele assinadas é a mestria como consegue gerir o ritmo das vinhetas, concluindo pequenas narrativas dentro da narrativa maior, ou tocando a tecla certa do suspense, no ponto exato onde se vira a página e se pode mudar de fio narrativo ou querer continuar a história.
Echi dall'Incubo foi a minha prenda de natal para mim próprio. Colige vinte e quatro histórias curtas, escritas por Sclavi e ilustradas pelos suspeitos do costume - Bruno Brindisi, Corrado Roi, Angelo Stano ou Franco Saudelli, entre outros ilustradores da Casa Bonelli. É um mergulho no Dylan Dog clássico, revisitando pérolas da sua história editorial.