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terça-feira, 26 de novembro de 2024

E se Angola Tivesse Proclamado a Independência em 1959?


Jonuel Gonçalves (2018). E se Angola Tivesse Proclamado a Independência em 1959?. Lisboa: Guerra e Paz.

Um intrigante exercício de especulação e história alternativa, com que me deparei naqueles acasos de papelaria. O autor, ligado à história e, pelo que percebi, alguém que esteve envolvido na luta pela independência de Angola, faz uma pergunta simples: e se, em vez dos longos anos de guerra colonial, seguidos da guerra civil, os movimentos independentistas angolanos tivessem arriscado um golpe de mão e conseguido avançar com a libertação do território?

É um curioso "e se", que assinala que o território colonizado estava defendido por forças complacentes, mal armadas e em número insuficiente para travar uma guerra, algo que na realidade histórica veio a mudar nos anos seguintes, para mal de todos. No cenário especulativo, um pequeno grupo de rebeldes angolanos consegue assaltar esquadras e lojas de armeiros, adquirindo armas suficientes para neutralizar as débeis defesas coloniais e ocupar as principais cidades angolanas. Os colonos resistem, e uma intervenção metropolitana de pára-quedistas, com apoio sul africano, conseguem segurar territórios no sul do país.  Mas as tensões geopolíticas, o risco de confrontos com a União Soviética, os novos países africanos independentes e o apoio indiano levam a discussões nas Nações Unidas, e a uma posição de força americana, que desloca soldados para a base das Lajes, num sinal ao governo salazarista que se arrisca a perder mais do que a colónia angolana caso não aceda à intervenção da ONU e  aceite os resultados de um referendo que irá decidir o futuro do território.

Esta história é contada num ritmo telegráfico, por escolha estilística do autor, que pretente simular relatos e relatórios. Não é nenhum empolgante portento narrativo, mas mantém o interesse de quem aprecia voos especulativos. O interesse aguça-se por ser uma obra de fição especulativa que olha para a história recente, quer angolana quer portuguesa.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Disaster at D-Day


Peter Tsouras (2014). Disaster at D-Day: The Germans Defeat the Allies, June 1944. Nova Iorque: Skyhorse Publishing.

O habitual nos livros de história alternativa  é focarem-se nas peripécias de alguns indivíduos, tendo como pano de fundo mundos especulativos que imaginam o que teria acontecido se a História tivesse seguindo um diferente percurso. Mas Peter Tsouras é historiador, não romancista. Não perde tempo a imaginar personagens e as suas personalidades moldadas pela vida, aventuras e desventuras. Mergulha na sua história alternativa como se fosse uma análise real de factos históricos. Não há persongens neste livro, apesar do foco em Rommel e Montgomery, mas sim descrições frias de movimentações militares e batalhas. Exatamente o que se espera de livros sobre a história da guerra, mas aqui, a implacável partida de xadrez sangrenta é especulativa, com um enorme e se... que se foca num dos acontecimentos mais icónicos do século XX, o desembarque aliado na Normandia.

Tsouras vai direto ao assunto, num livro que nos mostra como o Dia D poderia ter corrido mesmo muito mal, e ficado para a história como um desastre. Com rigor histórico, Tsouras parte de algumas premissas que incialmente se desviam um pouco dos factos reais. E se, pergunta-se, Rommel não estivesse afastado do seu quartel-general, sendo assim capaz de reagir com a sua enorme capacidade tática logo nos primeiros momentos do desembarque aliado? E se os alemães dispusessem de tropas melhor treinadas nos sectores da Normandia, especialmente unidades experientes vindas da violência da frente leste? E se, nas primeiras horas do desembarque, Hitler e o alto comando militar alemão se tivessem apercebido de que este era realmente a esperada invasão Aliada, e não uma manobra de diversão para distrair do esperado alvo de Calais, e, com isso, accionasse de imediato várias divisões que chegariam à Normandia a tempo de reforçar os defensores? E se o clima tivesse sido mais agreste, impedido os aliados de libertar a sua superioridade aérea sobre as linhas alemãs, ou os cruciais portos flutantes se tivessem afundado no mau tempo? E se algumas das decisões do alto comando aliado tivessem sido erradas, desperdiçando tropas? E se, ainda se pergunta Tsouras, os nazis dispussem de mais mísseis V1, e em vez de os gastar em ataques a cidades inglesas, também os usassem para atacar alvos estratégicos? 

Tsouras parte destas premissas para iniciar um relato que começa na história que todos conhecemos, mas depressa começa a divergir. Na sua especulação, mostra como se o desembarque americana na praia Omaha tivesse sido um desastre, isso impediria o reforço de homens e material que, combinado com contra-ataques das melhores unidades da Wermacht e Waffen-SS, transformaria a Normandia num longo pesadelo, em que os poucos sucessos dos Aliados depressa se tornam em pesadas derrotas. 

Curiosamente, Tsouras não termina o livro com uma previsível derrota total aliada. É aqui que a sua especulação atinge o rubro, com os conspiradores que tentaram o atentado falhado contra Hitler a ser bem sucedidos, aproveitando uma visita do ditador para conhecer a sua nova vitória contra os Aliados, enquanto Rommel, farto da carnificina e desperdício da guerra e da ditadura, se aproxima de Eisenhower e Montgomery para negociar um armistício.

Aviso-vos que este livro não é uma leitura divertida, a menos que pertençam ao grupo daqueles que apreciem relatos históricos. Não é um romance, é uma intrigante inversão com um livro de análise histórica que nos conta uma história diferente, especulativa. E que nos recorda que, se do nosso ponto de vista no presente, a História parece mover-se numa sequência lógica, essa sequência é apenas a leitura do que se passou, esquecendo que se em qualquer momento, quer nos chave, quer nos restantes, tivesse havido diferentes condições, a História seria outra. Que o nosso passado é uma sucessão de acasos fixados pelo tempo, que nos conduziram aos dias de hoje

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Pavana


Keith Roberts (1991). Pavana. Lisboa: Clássica Editora.

Partimos de um grande e se. Roberts imagina um futuro alternativo onde a rainha Isabel I é assassinada, o que abre caminho para os católicos, apoiados por uma armada espanhola,  dominarem o trono inglês. E, com essa alteração, o domínio de Roma impõe-se, a Europa, e por extensão o mundo das colónias, torna-se um reduto de catolicismo puro e obediência dogmática aos papas. Aceleramos para o século XX, e a Inglaterra (tal como o resto da Europa), é essencialmente um país feudal, com um rei nominal mas dominado por grandes famílias, todos obedientes à inabalável autoridade papal. 

As tecnologias são severamente restritas, o progresso científico do iluminismo não aconteceu, mas apesar de tudo a ciência avança, rigidamente controlada por uma Igreja que utiliza bulas papais e ameaças de heresia para restringir o progresso. O mundo das pessoas comuns é pouco diferente do medievo, isolados em comunidades pequenas, com pouco contacto com um mundo exterior reservado às classes mais elevadas, sem educação ou cuidados médicos essenciais. As doutrinas da igreja tudo dominam. E, no entanto, as sementes da revolta começam a crescer.

Pavana leva-nos para este mundo através de histórias aparentemente desconexas. Um jovem condutor de locomotivas (num mundo de Pavana, as locomotivas a vapor seguem por estrada normal, porque a Igreja restringe o uso de motores de combustão interna) herda a empresa do seu pai, mas sofre um desgosto de amor. Um rapaz de curiosidade aguçada atrai a atenção de um elemento da guilda dos sinaleiros, uma corporação independente (e mais capaz de usar a tecnologia do que mostra) que assegura as comunicações por semáforo em todos os territórios obedientes ao papa. O rapaz tornar-se-á aprendiz de sinaleiro, mas no final da sua aprendizagem, colocado num posto remoto, sofrerá uma tragédia mortal que o coloca em contacto com vestígios dos antigos deuses pré-cristãos. Um frade talentoso, dedicado à gravura no seu mosteiro, é convocado para documentar sessões de interrogatório da Inquisição com a sua capacidade para o desenho realista. O que vê deixa-o tão transtornado, que ao regressar ao mosteiro acaba por se tornar monge vagueante, acometido por visões, e catalista de um movimento de revolta anti-Roma, que é severamente esmagado.

A filha de um nobre do sul de Inglaterra cruza em si a linhagem nobiliárquica do pai, mas também o sangue popular da mãe, herdeira da empresa de transportes por locomotiva que, entretanto, cresceu para se tornar a maior de Inglaterra. Perante a morte do pai, a jovem abala o mundo feudal assumindo o título nobiliárquico, e fazendo frente às exigências romanas, recusando-se a pagar impostos excessivos e assumindo que deve obediência ao rei do seu país, e não à autoridade papal. A revolta tem consequências, acabando debelada, mas o abalo ao poder papal é inevitável. Décadas depois, o filho desta mulher regressa das Américas independentes para visitar as ruínas do antigo castelo da família, agora num reino unido independente, e modernizado. A queda do poderio papal foi consumada, e o mundo fervilha de progresso. Mas, como irá descobrir numa carta que lhe foi legada pelo pai, o fiel senescal da condessa revoltosa, talvez o obscurantismo imposto pela igreja tenha tido uma razão de ser. Talvez os papas tenham tido conhecimento de um futuro alternativo, o das guerras mundiais, do Holocausto e da ameaça da aniquilação nuclear (ou seja, o nosso). Talvez a repressão ao conhecimento e aos modos de vida tivessem sido mais do que meros exercícios de poder, talvez visassem atrasar conscientemente o progresso humano, para assegurar que uma humanidade mais madura pudesse, finalmente, colher os frutos da tecnologia. Talvez a Igreja tivesse assumido esse papel, porque tinha conhecimento de que noutros passados, com outros deuses, o ciclo de inovação e progresso tinha condenado as antigas humanidades à extinção, outros tempos cuja memória persistiu nos mitos e ritos das religiões que antecederam a cristandade.

Um belíssimo exercício de ficção especulativa, Pavana segue um tipo de narrativa algo querido aos ingleses, imaginando o que aconteceria se a predominância do poder tivesse ficado com a igreja romana e não com os países europeus (recordo o romance The Alteration de Kingsley Amis como outro ponto alto deste tipo de ficções). Exploramos um mundo que cruza arcaísmos e pré-modernidade através de personagens que apesar de sólidas e emocionais, são também símbolos da necessidade de transformação do mundo ficcional. 

Como nota final, devo dizer que já muitas vezes ouvi o grande João Barreiros falar-nos dos tempos áureos em que dirigiu uma coleção  de ficção científica para uma editora portuguesa. Uma história que acaba mal (bem, as melhores histórias do Barreiros nunca terminam bem), com poucas vendas e a falência da editora, se não estou em erro. Nunca imaginei que uma destas edições me viesse parar às mãos, encontrada por acaso num alfarrabista.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

A Recriação do Mundo


Luís Corredoura (2019). A Recriação do Mundo. Lisboa: Cultura Editora.

Luís Corredoura surpreendeu os leitores de FC em português com o seu primeiro romance, Nome de Código Portograal. Este escritor surpreendeu ao abordar uma vertente rara no fantástico nacional, a história alternativa. Nos seus livros seguintes, optou pelo registo entre o policial noir e a aventura de agentes secretos. Livros divertidos, mas já longe do lado ficção científica que despertou a atenção sobre este autor. Com a Recriação do Mundo, Corredoura regressa a dois campos: à história alternativa, e à II grande guerra, que parece ser um dos seus fascínios.

Caveat lector: o profundo gosto que Corredoura tem por esta época histórica é um dos problemas deste livro. Uma parte muito significativa é um longo infodump em que coloca em jogo as suas personagens, enquandrado-as nos acontecimentos históricos. A sabedoria é enciclopédica, mas aqueles longos parágrados sem pausa requerem um esforço de leitura. Que irá ser compensado na segunda metade do livro, quando Corredoura abandona o didatismo e se dedica a recriar a história do século XX.

O outro grande problema deste livro é que pretende ter como pivot as aventuras de um personagem português, judeu comunista que se vê lançado para o centro das pesquisas nazis, e posteriormente americanas, sobre a construção de armas atómica. No entanto, ao longo da leitura, este personagem acaba por ser mais periférico do que fio condutor. Corredoura compraz-se, e muito bem, em usar personagens históricas como os elementos que realmente impulsionam a narrativa. Fá-lo com óbvio gosto, e isso torna o romance ainda mais interessante. A história do matemático aventureiro português, mesmo que de vez em quando Corredoura se lembre dele para criar pontos chave na narrativa, acaba por ser um distante enredo secundário.

Ainda apontaria um terceiro problema a este livro, a curiosa propensão de Corredoura para caraterizar as suas personagens femininas com o apetite sexual voraz das fantasias adolescentes. Algo que já não se enquadra nos padrões contemporâneos da ficção. Diga-se que nisto, o livro é um verdadeiro festim de salsichas, mas nisto está apenas a ser fiel à história. Não a narrativa, mas a dos factos do século XX.

Agora que deixámos os problemas do livro de lado, falemos daquilo que o torna interessante. Demora o seu tempo, porque Corredoura peca por ser metódico, mas quando arranca e ganha voz própria, o livro desafia-nos com uma série de e ses que o autor consegue levar por caminhos inesperados. E se os cientistas alemãos se tivessem revelado capazes de criar bombas nucleares (é aqui que entra o dedinho português, forçado por ser prisioneiro de guerra)? E se as tivessem lançado sobre Moscovo, com o conhecimento de um Estaline que aproveita para gozar o espetáculo? E se a conspiração de Stauffeberg para assassinar Hitler tivesse sido bem sucedida, seguindo-se a restauração da democracia na Alemanha e um armistício com os Aliados?

E se os americanos, também na posse de armas atómicas (sim, novamente, o mesmo dedinho português), tivessem optado por se concentrar na guerra contra o Japão, praticamente abandonando os ingleses? Ainda há outros e ses. Talvez o mais inesperado, e atenção ao spoiler, é a morte de Estaline às mãos de Béria, que permite que Kruschshev assuma o poder e, pasme-se, dissolva a União Soviética e a transforme numa federação de repúblicas. Corredoura não faz por menos, e diverte-se claramente a reinventar a história da Europa. Ou melhor, do mundo.

Apesar de demorar a ganhar velocidade, graças à ênfase que o autor coloca num meticuloso enquadramento, este livro é uma excelente história alternativa. Pega nas histórias da História e atreve-se a recontá-la, na melhor tradição do género.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Winepunk - A Guerra das Pipas



Joana Neto Lima, A.M.P. Rodriguez, Rogério Ribeiro (ed.) et al (2019). Winepunk - A Guerra das Pipas. Calvão: Editorial Divergência.

Ainda recordo a sessão de apresentação desta antologia numa edição passada do Fórum Fantástico. Recordo especialmente as ilustrações que foram mostradas, que despertaram a atenção para o que me pareceu ser um bem arquitetado mundo ficcional, numa cronologia rigorosa que especulava, com muitos recortes de ficção científica, o que poderia ter acontecido se no dealbar da república portuguesa, a monarquia do norte se tivesse aguentado e desse origem a uma guerra civil. No entanto, durante muito tempo esta antologia parecia ter ficado na categoria de coisas interessantes anunciadas na literatura fantástica portuguesa que nunca vieram a acontecer. Tornou-se um daqueles objetos em que sempre que se falava nele, alguém se perguntava mas ainda não foi publicado, e se refletia na fugacidade deste tipo de projetos. Foi finalmente editado pela Divergência. Pelo resultado, valeu a pena a espera. Os contos são sólidos, com os autores participantes a dar o seu melhor. As ideias de base intrigam e despertam a imaginação. As ilustrações de Rui Alex recriam o estilo gráfico da ilustração popular de final de século, com um toque decididamente steampunk (oops, winepunk), sendo evocativas e visualmente interessantes. Não resisto a uma nota final quanto ao design gráfico do livro, muito bem conseguido exceto num pormenor. Ou estou a ficar pitosga, ou a decisão de escolher letras com um corpo pequeno e tom cinzento sobre páginas de fundo amarelado não é daquelas que facilite a legibilidade do livro. Ou então, é um convite subtil para o ir ler lá para fora, numa esplanada ao sol, bebendo uns cálices de vinho do porto enquanto se lê os contos.

A Companhia Zero: Cabe a Joel Puga o abrir das hostilidades (piada intencional) desta Guerra das Pipas. E fá-lo em grande estilo. O seu conto é interessante não só pela forma como nos transporta às trincheiras desesperadas, mas por tudo o que não nos conta e deixa intuir, levando a que o leitor construa uma visão mais alargada do mundo ficcional do que o diretamente expresso no conto. Contado como narrativa epistolar, o conto leva-nos a conhecer o desespero de um oficial monárquico subtilmente condenado à morte, por ter pais que se passaram para a república. Não terá de enfrentar um pelotão de fuzilamento, a sentença é mais maquiavélica: liderar um batalhão de estropiados, inadaptados e doentes mentais que são carne para canhão, soldados-tampão para as forças da monarquia. O seu uso no campo de batalha servirá para atrasar o invasor, e já agora, eliminar aos cofres monárquicos o peso de sustentar incapazes. Na sua única batalha, condenados à partida, terão de enfrentar inimigos que são claramente o resultado de experiências genéticas.

A Ira da Ferreirinha: Como habitual. Carlos Silva dá-nos um conto sólido, num misto de aventura e reflexão. Envolve a personagem histórica que foi D. Antónia Ferreira, nome incontornável quando se fala do vinho do porto, enquanto vai revelando pormenores sobre o milagre energético que sustenta a monarquia do norte neste mundo ficcional. Tudo é contado seguindo o ponto de vista de um homem despeitado, que para se vingar de ter sido desprezado pela Ferreirinha convence os republicanos a lançar um ataque aéreo com armas biológicas, que irá destruir a base do poder monárquico. Bom conto de Carlos Silva, que mistura um passo sólido no mundo ficcional Winepunk com elementos de história muito reais, referenciando a epidemia de filoxera que, no fina do século XIX, aniquilou a produção vitivinícula portuguesa.

In Vino Veritas: Na contribuição de João Ventura para a antologia, as videiras são instrumentalizadas como arma, graças à sabedoria de um indiano em dívida para com um dos nobres da monarquia do norte. Com as suas ministrações, o vinhedo de uma das plantações que alimenta a produção de energia sustentadora do regime aumenta, mas o sábio tem mais um truque para ensinar, com uma poção que torna as videiras numa terrível arma. Ventura conduz-nos ao longo da sua narrativa com passo ritmado, misturando intriga com aventura enquanto aprofunda as premissas do mundo ficcional winepunk.

Uma Conspiração Perigosa: Este sólido conto de João Rogaciano mergulha-nos nas intrigas conspiratórias das sociedades secretas. Nele, um agente da polícia secreta real infiltra-se num grupo de terroristas republicanos que conta com elementos ao mais alto nível do governo monárquico, e usa atentados à bomba para disfarçar os testes da sua arma secreta, uma máquina capaz de provocar terramotos.

Nunca Mais: Sem surpresas, o conto de João Barreiros é o que apresenta maior amplitude na antologia, quer em duração quer na ambição. E, novamente, sem surpresas, é uma barragem de fogo intensivo de ideias implacáveis. Sonhadores alimentados por vapores vínicos que sonham com tecnologias futuras, algo que é uma armadilha para exterminar a humanidade; criaturas bio-construídas, a genética manipulada e retalhada ao serviço das armas; todo um palco de decadência retrofuturista, naquele tom de detalhada ruína apocalíptica que Barreiros consegue fazer tão bem. Confesso que passei boa parte da leitura à espera do momento em que o Kraken iria destruir a cidade do Porto, mas o autor é malévolo, só nos mostra a cidade destruída num futuro do qual emanam tentáculos de conhecimento que irão modificar o passado. Este conto é Barreiros igual a si próprio, implacável, erudito e apocalíptico.

Os Engonços de Quionga: Na sua primeira contribuição para a antologia, Rhys Hughes recorda-nos gentilmente dos episódios esquecidos da I guerra mundial em África, com os combates entre portugueses e alemãs no norte de Moçambique. Mas a história não se passa nessa época, vai para um futuro após a queda da monarquia do norte, em que os ventos de guerra voltam a soprar na Europa. Os residentes na esquecida colónia de Quionga temem o regresso dos alemães, e viram-se para as estranhas invenções de um sábio luso-muçulmano que, utilizando as tecnologias aprimoradas na monarquia do norte, vai permitir a deslocação do território em direção a Portugal utilizando pernas mecânicas. Imaginem a jangada de pedra, mas em saltos de canguru com patas mecanizadas. Enquanto este pedaço de áfrica se escapa em direção à Europa, vai-se desagregando, e a Portugal só chegaram fragmentos. Um toque do surrealismo fantástico de Rhys Hughes no universo ficcional winepunk.

A Loja do Desejo Agridoce: Uma continuação do conto anterior do mesmo Rhys Hughes, que aqui nos mergulha num profundo irrealismo romântico, traçando o destino luso-tropicalista dos restos dos vestígios de Quionga. É um conto que tem pouco a ver com o mundo ficcional da antologia, embora lhe seja tangencial, e é-me difícil não ver nos nomes de alguns dos personagens um sorridente piscar de olhos a algumas figuras destacadas do nosso panorama literário de FC e fantástico. No fundo, o conto é uma transmutação da forma como o escritor nos vê, naquele estilo poético que lhe caracteriza a obra. E este é  um dos melhores títulos de contos que li nos últimos tempos.

Dicionário Ilustrado da Monarquia do Norte: AMP Rodriguez encerra a antologia numa imitação do estilo árido de biografia curta. Olhando para as histórias ficcionadas de mulheres reais no quadro do mundo ficcional Winpunk, alarga o espectro desta história que nunca existiu, dando-nos vislumbres sobre os acontecimentos pseudo-históricos que se desenrolaram nesta imaginária monarquia do norte.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Pirate Utopia



Bruce Sterling (2016). Pirate Utopia. São Francisco: Tachyon Publications.

Está claro que Bruce Sterling, como se costuma dizer, has gone native. Já se andava a perceber, quer pelos contos mais recentes, quer pelo fascínio no seu blog com o movimento maker e a cultura inter-fronteiriça do norte de Itália e balcãs. Este texano veterano do cyberpunk enamorou-se do espaço de ideias da europa progressista, das cidades centenárias, história e irreverência. Uma certa atração pela ideia de uma Europa como zona de progresso social, humano e técnico já se notava nalguns dos seus romances (recordo, por exemplo Holy Fire) mas agora que fincou raízes no makerspace de Turim e se divide com Belgrado, o fascínio é confesso e torneia a sua obra, por pouca que seja. Sterling, nos últimos anos, tornou-se um pós-escritor, guru da modernidade que se alicerça num poderoso currículo literário para transmitir as suas ideias, sem que tenha nos últimos produzido obras de fôlego. Longe vão os tempos de Schismatrix ou The Difference Engine.

Curiosamente, este Pirate Utopia ocupa o mesmo espaço conceptual de Difference Engine, o romance a quatro mãos (com William Gibson) que se tornou pedra basilar do steampunk. Pirate Utopia inspira-se numa época e local muito específicos da história europeia, levando o leitor a um delirante e se que mistura figuras históricas e a vertigem do futurismo. Não o de especulação informada sobre futuros, mas o movimento artístico de quebra conceptual com o passado e fascínio pela aceleração mecânica que nasceu em Itália nos primeiros anos do século XX.

Com o fascínio que só quem vem de fora consegue transmitir sobre momentos históricos e culturais a que os nativos de uma cultura sempre viram como normais, Sterling diverte-se a projectar um caldo fervente de futuristas, anarco-sindicalistas, comunistas e outros vibrantes movimentos de mudança na cidade de Fiúme, actualmente Rijeka, transformada numa zona autónoma temporária no final da I Guerra. A revolta de italianos com a entrega da cidade ao recém-fundado reino da Jugoslávia levou um grupo de ardentes patriotas liderado pelo poeta D'Annunzio a tomar a cidade. Na história real, foi coisa que durou pouco, e depressa se metastizou no fascismo de Mussolini, para onde também migraram os ideias de muitos futuristas. Aqui, nesta fantasia de Sterling, D'Annunzio consegue manter Fiúme como cidade portuária e pólo de atracção de todos os rebeldes europeus, que se juntam para criar utopias sociais. Entre estes, encontra-se um antigo engenheiro militar italiano, que depois de passar a guerra a manter as máquinas de combate operacionais no rigor da frente alpina, vai para Fiúme fundar um bando de piratas especializados no roubo de tecnologia e, detentor de uma fábrica de munições abandonada em parceria com uma rija austro-italiana cujo marido se anda a divertir pelas ruas de Viena e Munique em putschs com um certo cabo alemão de bigode inconfundível, se dedica a inventar temíveis torpedos aéreos, a arma decisiva do futurismo. É o mote para uma aventura desconexa com piratas, operárias sindicalistas, líderes rebeldes iluminados como poetas-guerreiros, comunistas que não sabem conduzir carros blindados, condessas italianas amantes de arte radical, e missões de espionagem americanas lideradas pelo ilusionista Houdini e por um escritor de Providence que largou as trevas arcanas da sua imaginação para se dedicar à publicidade, colaborando num projecto secreto místico e tecnológico desenvolvido em Manhattan.

Sterlig cruza nesta intrigante novela elementos das suas vertentes de intervenção cultural. Propriedade intelectual, progressismo social e tecnoluxúria cruzam-se com ecos de vibrantes movimentos culturais do passado, pontos absurdos da história recente e a sensação que coisas interessantes se passam nas franjas do calmo continuum do devir histórico. Não é Sterling no seu clássico melhor, é um mestre à procura de uma nova voz, e a mostrar que claramente se diverte com o processo. A completar o livro estão ilustrações de John Coulthart inspiradas nas estéticas futurista e construtivista, que replicam um pouco do fascínio pela vertigem mecânica afirmado por Marinetti no seu clássico manifesto. E se dúvidas persistem sobe Sterling se ter tornado nativo, há coligida no livro uma fantástica entrevista onde o veterano do cyberpunk discute a história turbulenta do século XX na europa meridional e a importância da fantascienza enquanto género de fusão entre FC, ficção especulativa, fantasia e fantástico.