segunda-feira, 20 de abril de 2015

Kraftwerk 3-D


Não é só pela música, é a estética o que mais seduz no já longo trabalho desta banda. Pioneiros da electrónica, os Kraftwerk catalisam uma iconografia espantosa que cruza o cyberpunk puro com as grandes vertentes do abstraccionismo do século XX. Em palco, as visões de Malevich, Lissitzky, Kandinsky, Mondrian ou Picabia ganham vida digital ao ritmo electrizante de uma pop electrónica fria, seca e quase desumana. Quando os Futuristas clamavam pela primazia da máquina ou os Suprematistas a pureza da geometria apenas tinha palavras e pigmentos a aplicar sobre telas rugosas. A tecnologia permite concretizar a pureza metafísica contida nos sonhos da arte revolucionária do século XX, pouco depois esmagada pelo regime soviético (no caso do suprematismo/construtivismo russo), ou sublimada nas expressões e conceptualismos que lhe sucederam no mundo ocidental. Apenas a arquitectura manteve viva este amor pela pureza da geometria, mesmo que a leve aos limites do convuluto. 

Ver Kraftwerk ao vivo é extraordinário. Se se vai pela música, é já de si muito bom. Mas se se conhece arte e história de arte a experiência é sublime. É outra iteração, contemporânea, técnica, digital, daquele sonho da gesamtkunstwerk. O 3D estereoscópico do espectáculo deu-lhe outra dimensão, com uma audiência metamorfizada em busto retro-futurista hipnotizada pela pureza da imagem. 


Ondas ao estilo Matrix a abrir Computerworld.


Para Pocket Calculator a banda reservou-nos uma espécie de Broadway Boogie-Woogie cyberpunk.


Os hinos futuristas dos primórdios do século XX à máquina ganham vida em Man Machine numa extraordinária síntese artística.



El Lissitzky ficaria radiante ao ver este proun a hipnotizar o público.



Spacelab reservou-nos este ovni a aterrar no Rossio.


Se Neon Licht não é das mais evocativas peças do grupo, esta estética de neon weimar fascinava.


Fiquei intrigado. Este VW Carocha a circular na auto-estrada é uma referência à história alemã, com a invenção nazi da rede de auto-estradas para deslocar mais depressa forças militares, e este carro icónico, também ele legado dessa época? Ou também inclui uma referência ao primeiro objecto digitalizado em 3D, o carro da mulher de Ivan Sutherland? Seria interessante se as superfícies deste Carocha tivessem sido geradas com o modelo 3D original dos anos 70. Subline-se o realismo naif dos primórdios do 3D, com as cores vivas e o gosto pelas superfícies reflexivas.



Outro dos grandes momentos, Radioactivity, com homenagem a Fukushima.




O onirismo das linhas férreas de alta velocidade a atravessar uma Europa terraplanada pela velocidade de Trans Europe Express.



No primeiro encore, uma legião de lentes de pequenos ecrãs esforça-se por captar os míticos autómatos que a luz vai revelando.


Robots, ou o momento em que autómatos programados se mostram mais humanos do que os músicos, em aparente interacção com o público. Em contraste com os músicos, uniformizados e mecanizados nos seus gestos. Algo que também faz parte da estética da banda.



Para terminar, uma sequência imparável de Boing Boom Tschak, Techno Pop e Musique Non Stop.






Uma verdadeira festa de wireframe nestes momentos. Não consigo deixar de recordar que esta forma de conceber a representação do real vem-nos do renascimento.


O quadrado negro de Malevich regressa pela mão dos Kraftwerk em Electric Cafe.

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