Integrado no festival Dunas de S. Jacinto, já tinha ouvido falar deste espetáculo aéreo, mas nunca tinha conseguido ir espreitá-lo. Este ano, disse para mim próprio que se dane, fiz-me à estrada, mesmo sabendo que o preço do combustível não está adequado a devaneios de roadtrip.
Fui recompensado com duas horas, que souberam a muito pouco, de excelentes acrobacias aéreas sobre a ria de Aveiro, vistos desde o cais de S. Jacinto. Um espetáculo assegurado por pilotos portugueses e espanhóis. Abriu com o Extra 330LT de Luís Garção, claramente adepto das manobras de levar o avião ao pico de altitude e se "deixar cair" para recuperar o controle e empolgar quem cá em baixo assistia. Seguiu-se a patrulha Fantasma, com o Varieze de José Figueiredo, talvez a aeronave mais experimental em voo neste tipo de eventos, e o RV7 de Carlos Costa, em manobras de formação e aproximação. Outro clássico destes eventos em Portugal é o Citabria N661CP de Pedro Cunha Pereira. Clássico não só pelo espetáculo de acrobacias que nos costuma dar, mas pela idade de uma aeronave construída nos anos 60 e, como se nota pela suas performances, continua para as curvas. E, com o esquema de cores branco e vermelho, é uma aeronave lindíssima.
Um certo blast from the past, muito sublinhado pelo apresentador, dado que as aeronaves em voo foram ex-FAP e estiveram baseadas em S. Jacinto, foram os Quintana, com clássicos Cessna FTB 337G pilotados pelos espanhóis José Olias pai e José Olias filho. Após abatidos à nossa Força Aérea, foram adquiridos e restaurados por uma fundação espanhola de história aeronáutica, com marcas clássicas da USAF. Pessoalmente, recordo vê-los quando criança a sobrevoar a costa da Ericeira, em voos de treino vindos de Sintra. Diga-se que nos anos 80 a zona da Ericeira era bem frequentada por aeronaves. A minha recordação mais intensa foi ter sido sobrevoado por um A7P na praia do Norte, que voava tão baixo que quase parecia poder tocar-lhe. Hoje, de vez em quando passam algum Epsilon ou Chipmunk em voo de treino, e há sempre o risco de haver atividade aeronáutica mais intensa no verão, com o combate aos fogos.
O RV7 007 de Hélder Guerreiro finalizou as demonstrações acrobáticas. O festival terminou com um voo de formação entre os FTB Quintana e o Extra de Luís Garção, que ainda nos deu um encore de voo acrobático, provavelmente a compensar a ausência de um dos pilotos previstos no alinhamento do festival.
Como fã confesso de aviação, é muito agradável ver este crescimento dos festivais aéreos em Portugal. O de Beja, com a sua oportunidade de ver as patrulhas militares e um static show de esquadrilhas visitantes, está infelizmente em suspenso devido à situação geopolítica. Entretanto, têm surgido festivais destes um pouco por todo o país, desde o já clássico Caretos Airshow (que se efetua em Bragança, e ainda não conheço) e iniciativas como as corridas aéreas do Porto (não deu para ir, infelizmente para mim), festival de Cascais (geralmente ligado ao Air Summit de Ponte de Sor). Este ano, até Marvão terá um festival aéreo, em setembro. Claro, dado que o meio nacional é pequeno, isto significa que há uma certa repetição dos pilotos participantes. Já vi várias vezes os que revi em S. Jacinto, mas não me interpretem mal, é sempre um prazer ver estes aparentes desafiadores da gravidade, que se atrevem a puxar pelo lado de sanidade duvidosa das leis da física.