segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Fórum Fantástico: Leituras do Ano

Cumpriu-se a tradição. O clássico painel das Leituras, partilhando o palco com o João Campos, Cristina Alves e Rogério Ribeiro, divulgou os livros mais apreciados ao longo do ano. O João costuma divulgar a sua lista no seu Sobreiro Mecânico, e a Cristina faz o apanhado de todas as sugestões no seu Rascunhos. Quando apanhar esses links, atualizo este post.


Edit 1 (12/10): O João Campos já divulgou as suas escolhas no Sobreiro Mecânico.

Ficção Científica e Fantástico: 

O Cidadão Sem Sombra, João Ventura

João Ventura é o nosso mais exímio praticante da arte do conto curto. Quem conhece a sua longa obra já o sabe bem, e basta ler Tudo Isto Existe, a primeira antologia da sua ficção fixa em livro pela Divergência, para o sentir. Este Cidadão Sem Sombra dá continuidade ao trabalho do primeiro livro, coligindo mais excelentes exemplos das pérolas linguísticas que são os seus contos. Para além da concisão, é também dono de um espírito crítico fortíssimo. A sua ficção tanto se faz de profunda ironia, como de genais desmontagens de lugares comuns ou ideias injustas, bem como um profundo faro para desmontar o tipo de ideias feitas que o constante ruído digital nos assola.


We Are Legion (We Are Bob), Dennis Taylor

Este Bobiverso é em simultâneo divertido e de leitura leve, mas atreve-se a tocar a fundo em tropes clássicas da Space Opera. A sua leveza disfarça a amargura dos nossos tempos contemporâneos, com a política a arrastar-nos para abismos que julgávamos terem sido ultrapassados, numa premissa ficcional que extrapola o nosso corrente momento histórico. O constante saltar entre pontos de vista de diferentes Bobs permite um emaranhado de linhas narrativas. Tanto acompanhamos o explorar de novos sistemas como os dilemas da sobrevivência, alternada com ação pura, e atrevendo-se a entrar nas narrativas de contacto com alienígenas, entre civilizações primitivas e artefactos inteligentes que apontam para formas de vida mais avançada. Leve e divertido, mas nem por isso pouco substancial.

I Am AI, Ai Jiang

Uma história de futuro próximo, onde a vida económica é dominada por uma megacorporação que descarta pessoas conforme as usa. Há a sociedade da distante e próspera cidade, e o enorme enxame dos bairros de lata, daqueles que caíram do sistema, embora a fuga total não seja possível, uma vez que todos estão carregados com dívidas hereditárias que têm de trabalhar para pagar. Acompanhamos uma cyborg, que vai substituindo partes do corpo por elementos cibernéticos. Sobrevive no limiar de ser mecanizada, e com isso ter uma capacidade produtiva superior à humana, mas ainda manter uma humanidade suficiente para que o seu output mantenha cunho individual e se afaste da mediania das produções das IAs que dominam os mercados. Uma história curta e tocante, sobre a essência da imaginação humana, o sonho das capacidades aumentadas, e a distopia de mundos subjugados aos interesses económicos.

Hot Moon, Allan Smale

O lado aventura pura cheia de adrenalina no espaço é temperado por uma excelente dose de ficção especulativa, muito bem informada. O livro é também uma história alternativa, que se pergunta o que teria acontecido se os soviéticos tivessem sido os primeiros a pousar na Lua, e os americanos não tivessem torrado dinheiro e vidas na guerra do Vietname, investindo esses recursos numa corrida espacial mantida ao rubro pela capacidades orbitais soviéticas. O autor fez muito bem o seu trabalho de casa, dando vida nesta sua ficção aos muitos projetos de veículos orbitais, estações especiais, módulos, habitats e veículos lunares que quer os engenheiros soviéticos quer os americanos propuseram, desenvolveram mas não saíram do papel.


Shroud, Adrian Tchaikovsky

Shroud representa uma pedra na engrenagem de expansão. Um ambiente incrivelmente inóspito, mas que alberga vida. Formas de vida que evoluíram em condições de pressão atmosférica tremendas e escuridão total, que se adaptaram à emissão de ondas eletromagnéticas como forma de sentir o mundo ao seu redor. Um ecossistema de criaturas cegas e surdas, que vivem no que para os humanos é uma cacofonia de radiação eletromagnética. Duas inteligências, a humana e a nativa do planeta, totalmente incompatíveis e sem forma de comunicar entre si. Num pormenor muito curioso, Tchaikovsky descreve como a vida alienígena consegue compreender as máquinas humanas, mas é incapaz de sequer reconhecer a vida humana que as tripula. Descobrir vida inteligente não representa um obstáculo para a estratégia organizacional. Pelo contrário, é até vista como mais um recurso para explorar. O problema, é que o contacto com os humanos abre novas perspetivas à inteligência alienígena, com resultados catastróficos, até que a coragem de uma das investigadoras sobreviventes permite encontrar uma forma de comunicação comum. Um livro intrigante, sombrio, aviso distópico sobre os excessos do capitalismo, e reflexão sobre a complexidade da intercompreensão.

Literatura:

Nó Cego, Carlos Vale Ferraz

Esta leitura não é confortável. Acompanhamos o dia a dia de uma companhia de comandos, homens que pelas mais diversas razões (na maior parte das vezes, por desespero numa vida agrilhoada na ditadura) se voluntariaram para um corpo especial preparado para as missões mais violentas. E violência não falta nas suas operações, entre as patrulhas, emboscadas e ataques a bases inimigas em que são envolvidos, como ponta de lança. O romance é brilhante e explosivo. Ao mesmo tempo um retrato da guerra colonial feito através das experiências dos soldados que nela combateram, suspeito que memória romanceada das experiências do seu autor, e uma reflexão sobre como a capa da civilização depressa desaparece na selva com uma arma na mão.


Breviário das Más Inclinações, José Riço Direitnho

Há uma certa base de romance de cordel no conto cruel de José do Risso, criança que nasceu com má sina e a herdar a sabedoria da avó para mezinhas curandeiras. A vida será trágica e curta, entrecortada com episódios de honestidade duvidosa, momentos em que o homem faz aquilo que tem de fazer, quer seja em resposta às pulsões do corpo quer do sentido pessoal de justiça. O que distingue a narrativa é envolver-nos num véu de misticismo tradicional e sobrenatural discreto. Não há fantasmagorias ou criaturas do demo, mas há um constante sentimento de assombro, de um mundo natural compreendido através de superstições milenares. A prosa é brilhante, daquelas que nos prendem às páginas, mas o que destaco da leitura é o não ter medo de tocar nas correntes subterrâneas por onde pulsa o lado mais remoto do caráter português.


Não Ficção:

Magnifica Humanitas, Leão XIV

Provavelmente o livro mais inesperado para aparecer nestas listagens, mas depois de tanta leitura de FC a imaginar o que seriam as consequências das consciências artificiais, agora é o momento de falar do que a IA nos está a provocar. O texto não é uma negação da tecnologia, ou um apelo à paragem do desenvolvimento da IA. Bem pelo contrário. A importância da ciência e tecnologia é sublinhada, e quanto à IA, é observado o seu potencial. O foco, e aqui o papado entra na trincheira partilhada por todos os críticos conscientes da IA, está na forma como esta tecnologia está a ser apropriada pelas piores forças do capitalismo - as que buscam a primazia do lucro acima de tudo, cilindrando os trabalhadores, as famílias, a sociedade, os recursos naturais, o ambiente, a nossa casa planetária comum. É uma revolta dupla, feita contra o asco perante este novo excesso de desumanidade, mas também pela frustração de ver o potencial libertador da tecnologia a ser cooptado para a opressão, quer a financeira, quer a politico-militar.


Lusitânia: A vida dos Cássios, uma família na Lisboa Romana, André Simões

Um mergulho didático e interessante no cruzamento da nossa história com a do império Romano. Através da ficcionalização da vida de uma família Olissiponense, somos levados a conhecer a fundo os tempos, tentando sempre olhar para o nosso recanto romano à beira-tejo, com os seus modos de vida, economia e governo. Apesar do enorme gosto deste livro em falar-nos dos romanos, não há nele o deslumbramento cego que demasiadas vezes se vê ou lê por aí quando se fala da grandeza do império e da sabedoria dos cidadãos. Não há pejo em mostrar-nos que os modos de vida e atitudes dos romanos são radicalmente diferentes das nossas, e nalguns aspetos que hoje consideramos direitos humanos elementares, são-nos repelentes. As suas atitudes perante a mulher, vista como útero para procriar e sempre submissa aos homens da família, são um óbvio exemplo. Ou, ainda mais gritante, a condição dos escravos, meros objetos sujeitos aos donos, em que só uma minoria poderia aspirar à condição de liberto (e mesmo assim não se livrava da tutelagem familiar dos seus antigos donos). Apesar disto, o livro tem uma perspetiva otimista, recordando que as pessoas comuns tentam vivera as suas vidas em equilíbrio.


Exit reality: Vaporwave, backrooms, weirdcore e altri paesaggi oltre la soglia, Valentina Tanni 

O livro constrói-se como catálogo de estéticas, mas também como trabalho de sociologia digital. Num meio criativo mutável, que vive dos fluxos dos sites, agregadores e redes sociais, a autoria e o comentário dissolvem-se, há que levar em conta os múltiplos clones que se agregam em tendências, e a voz dos comentadores torna-se geradora de perspetivas sobre os conteúdos. Exit Reality leva-nos num périplo pelas estéticas do vaporwave, backrooms e espaços liminais, 'cores que vão ao âmago de estéticas intrigantes, e finalmente, os espaços de magia, onde os criadores parecem dissolver as barreiras entre a vida real e o imaginário por intermédio dos espaços digitais. Se bem que, apesar do título, estas estéticas não representam fugas à realidade. Antes, são reações à normalidade, entre a nostalgia e a procura de visões tangenciais, e no fundo representam uma fascinante ebulição criativa que usa o digital para criar novas visões, iconografias e estéticas desafiantes.

README: A Bookish History of Computing from Electronic Brains to Everything Machines, W. Patrick McCray

Pode parecer contra-intuitivo, olhar para a história da computação sobre a perspetiva dos livros. Afinal, computação é tecnologia, intersectada com impactos sociais, e temos o hábito de pensar mais nos elementos tecnológicos do que na literatura. O que McCray demonstra é o oposto. O venerável livro, como objeto e como meio de arquivo e divulgação de informação, tem sido um companheiro fundamental da evolução da computação. A grande razão é a nossa sede de conhecimento, e mesmo nos dias em que o livro como objeto físico se dissolve no digital, continua a ser o meio primordial e privilegiado para concentrar e sintetizar informação, mesmo em campos tecnológicos onde sabemos que o tempo que medeia entre escrever, editar e publicar um livro pode significar que quando chega aos leitores, já está desatualizado sobre a vanguarda da tecnologia que aborda. Mas há algo mais profundo em jogo - primeiro, o livro enquanto analista de grandes tendências. Não consigo terminar esta leitura sem a perceber como um elogio ao papel do vetusto, mas sempre eficaz, livro. Quer como meio de transmissão de conhecimento, mantendo-se relevante e essencial mesmo na nossa contemporaneidade onde há tantas outras formas de o fazer. Quer, também, como elemento de prestígio, inscrevendo a computação na profunda tradição simbólica do livro.

Comics e Banda Desenhada:


Assorted Crisis Events, Deniz Camp, Eric Zawadzki, Jordie Bellaire, Hassan Otsmane-Elhaou

Dos comics que ainda vou lendo, este surpreendeu-me pela sua não linearidade. Passa-se num mundo onde colidem realidades alternativas, passados, presentes e futuros, mas o tom do comic não é de iminente apocalipse ou aventura surreal. Cada edição centra-se em histórias indivuais, personagens que se perdem no meio da multiplicidade, ou que saltitando entre múltiplas versões das suas vidas.


Dylan Dog: Memórias do Invisível, Tiziano Sclavi. Giampiero Casertano 

Celebrando os 40 anos de uma das personagens mais fascinantes do fumetti (sou, claro, muito suspeito e nada isento nesta caracterização), a editora A Seita traz aos leitores portugueses uma das suas grandes histórias. É um mergulho no melhor do género, à descoberta do génio narrativo de Tiziano Sclavi e do traço clássico de Giampiero Casertano. Memórias do Invisível cimentou o meu profundo gosto por Dylan Dog. Poderia ser uma simples história slasher de caça ao assassino nas ruas de Londres, mas é muito, muito mais que isso.

Atrahasis, David Soares, Sónia Oliveira

Uma história críptica, com múltiplas camadas de sentido. Somos levados à antiga mesopotâmia (como o título indica, e uma história que recria em linhas gerais as raízes do mito sumério que nos legou o mito cristão de Noé) num mergulho negro em mitos que nos escapam, sensibilidades e modos de pensamento que não compreendemos, e uma visão do tempo que não corresponde à nossa linearidade. Entre os muitos elementos brilhantes deste livro, está a percepção que ao tentar entrar na mente dos nossos antepassados longínquos, somos confrontados com a natureza quase alienígena, para nós, dos seus modos de ver e entender o mundo. Um livro que desafia o simplismo conceptual, como é habitual na obra deste autor.

Tales from Nevermore Manuel Monteiro, Pedro Nascimento

Pedro Nascimento e Manuel Monteiro oferecem-nos uma vénia profunda e excelente ao conto curto de terror gótico, bem como à estética magistral da EC comics e Warren nos anos 60 e 70 que se tornou um dos marcos maiores da iconografia do género. As histórias são curtas, incisivas na sua ironia negra, e soberbamente ilustradas. Segue o formato da antologia de terror, com um narrador que nos apresenta os contos e termina tecendo considerações morais, ou amorais, sobre o que acabámos de ler. O tom de homenagem a todo um género é total, entre a estética visual, narrativa e linguística, formato, ou vénias óbvias como apelidar um corvo de Vincent. Há um toque de intrigante humor negro no livro, especialmente quando os autores brincam com a publicidade infantil que também fazia parte dos velhos comics de terror.


Espírito da Aventura, Kenji Tsuruta

Espírito da Aventura reúne contos interligados entre si. Ficção científica pura, mas féerica, pejada de personagens obcecadas com as suas investigações em tecnologias etéricas ou de teletransporte. Não são histórias a pensar na especulação verosímil. Podemos esperar velhotes que vão a Marte de dirigível, aventureiros obcecados em descobrir os tesouros dos avós nas cidades submersas, ou formas de projeção que permitem ir à Lua, sem na verdade ter de sair da Terra. Como podem perceber, não se trata de FC clássica, mas sim da sua apropriação poética. O traço sublinha isso, com um elegante barroquismo algo vitoriano na sua estética, sem que se tenha uma noção concreta de tempos passados ou futuros.

Umbra #6,  Filipe Abranches 

O sexto número da revista Umbra mantém a elevada qualidade criativa e narrativa, trazendo-nos histórias desafiantes e bem tecidas. Uma delas recupera o trabalho de um que já não está entre nós, ficando a promessa de continuidade a estas pranchas intrigantes.