terça-feira, 13 de outubro de 2026

Eterno Feminino


Júlio Dantas (2019). Eterno Feminino. Lisboa:  A Bela e o Monstro.

De Júlio Dantas, confesso, só conhecia a lenga lenga de "morra o Dantas, PIM" lançada por Almada Negreiros no combate cultural entre o então nascente modernismo português e o academismo do romantismo conservador que dominava a arte e cultura portuguesas do princípio do século XX. Tenho índole almadista, mas deveria mesmo olhar para a obra do alvo da ira dos modernistas. O acaso das leituras não me levou ao seu trabalho mais conhecido, A Ceia dos Cardeais. Calhou-me este Eterno Feminino, que não foi de todo o livro que esperava.

Pelo título e fama do autor, esperava um romance. No entanto, o livro é uma coleção de crónicas e apontamentos. Permitem perceber o estilo literário do autor - pesado, cheio de excessivos floreados e arcaísta mesmo em relação ao tempo em que foi escrito. Embater com os seus parágrafos quasi-gongóricos ajuda a perceber o anátema de Almada. 

A impressão piora quando lemos os seus pensamentos em relação ao tema que estrutura a coletânea. A mulher é o tema das suas crónicas e apontamentos, mas, como colocar a questão de forma elegante? Talvez a metáfora mais compreensível seja fazer uma comparação com aqueles influencers extremistas que nos entopem os feeds das redes sociais com a sua misoginia retrógrada. Eu sei, não é uma comparação rigorosa, não é correto comparar diretamente criadores de conteúdos do século XXI  e escritores do século XIX (tecnicamente XX, mas Dantas era tão arcaico que lhe assenta melhor o anterior). Mas, no que toca à forma como Dantas se exprime em relação ao papel e modo de vida da mulher no dealbar do século XX, vão por mim. O seu ponto de vista não fica em nada a dever às excreções orais dos misóginos retrógrados.

Neste livro, encontramos diatribes que explicam, muito bem explicadinho, como apesar de achar que a mulher merece todo o respeito, dar-lhe o direito de voto livre e em igualdade é um erro que faz perigar a estabilidade das famílias e impede uma vida política decente. É bom de recordar que algo que hoje tomamos por adquirido, o voto universal, só começou a ser estendido às mulheres no princípio do século XX em Inglaterra, e e sobre este acontecimento que Dantas perora. Podemos ler rasgados elogios à política de moral e bons costumes de Mussolini, a combater ataques ao bem ser como usar fatos de banho modernos na praia, cortar o cabelo em estilos garçonne, fumar ou usar os vestidos da moda dos anos 20. Ler elogios a Mussolini é motivo mais que suficiente para parar a leitura, mas tinha de ver como a coisa ia até ao fim. 

Masoquismo, bem sei.

Ainda podemos ler, mais uma vez com aquele tipo de argumento benévolo a explicar bem explicadinho que há um mundo para o sexo forte e outro para o fraco, o erro que seria admitir mulheres nas academias literárias, sugerindo até a criação de academias separadas, onde as poetisas e escritoras se pudessem dedicar a maternalizar a sociedade. 

Por esta altura, já devem ter percebido que emergi desta leitura com uma visão deste escritor como um homem profundamente misógino, conservador e elitista. O ser mau escritor é discutível, o seu estilo é classicista e arcaico, de um romantismo de século XIX pouco arrojado. Não vou, claro, negar a sua erudição, patente nas várias crónicas que compõem este livro.  Parte dele fala-nos de mulheres que tiveram impacto na história, e embora seja aquela visão tradicional e empoladora de valores cívicos antigos, está lá o vasto conhecimento.

Terminada a leitura, ecoo, agora sabendo do que estou a falar, as palavras de Almada:

PIM.