terça-feira, 28 de julho de 2026

Branca de Neve e os 700 Anões


José Vilhena (2014). Branca de Neve e os 700 Anões.

Vilhena está a ficar injustamente esquecido, relegado para a memória dos alfarrabistas. Não surpreende. Nunca foi um membro do nosso establishment cultural. O ser criador de ilustrações, revistas e livros humoristas não lhe granjeará jamais um lugar no panteão das nossas elites culturais, onde o sisudo e portentoso imperam e o terra a terra é desprezado. Vilhena cometeu vários pecados aos olhos da nossa alta cultura: escrevia humor, para o povo, em modo pop, auto-editado ou como colaborador na imprensa popular. Pior, era um claro sensualista, anátema para os nossos meios de alta cultura, revolucionários nos discursos mas conservadores nos costumes. 

Apesar disso, ler Vilhena é mergulhar numa das mais ácidas vozes críticas da sua sociedade contemporânea, eternamente visado pelo lápis azul de censores que se escandalizavam entre as suas palavras certeiras e os seus sensuais mas decadentes desenhos. A crítica social a todos os estratos de uma sociedade portuguesa que vivia na placidez da aparência, dos conservadores bafientos que ocultavam os seus vícios sobre a capa da piedade respeitosas, os gananciosos que viviam de estratagemas, quer os das classes populares quer os da alta sociedade, os políticos, industriais, grandes senhores e clero que mantinham este pais no lamaçal da pobreza. Aqui, o crime de Vilhena foi ter sido popular e sexualista, e não um artista erudito como João Abel Manta ou poetisa rebelde como Natália Correia. Não sendo das elites, tinha de fazer pela vida, e foi num humor barato que explorou com um génio impressionante que fez uma das críticas mais duras ao Portugal do seu tempo (e que suspeito ainda estar muito atual no nosso país de hoje).

Acima de tudo, Vilhena desmontava com implacável dureza o homem - o machismo, a ganância, a lubricidade, o vício, e acima de tudo o encapotamento de todo este fervilhar de pulsões debaixo de mantos de alta respeitabilidade. Não é por acaso que nos seus desenhos encontramos sempre belas e voluptuosas mulheres às contas com homens deformados, caricaturas toscas do poder, dinheiro, religião e machismo. Talvez seja um dos pontos mais incómodos de Vilhena, a forma como desmonta o carácter masculino e demonstra que por mais que o disfarcemos, somos todos uns porcos que se perdem por um bom pedaço de mulher (não sou exceção). 

Tudo isto dentro de um humor delirante, sensualista e sexualizado, onde as mulheres são representadas como brinquedos sexuais nas mãos dos homens mas acabando sempre por se revelar mais inteligentes do que eles, capazes de perceber que estão num jogo sujo e jogá-lo a seu favor. Sem falsos moralismos.

Este Branca de Neve e os 700 Anões, originalmente editada nos anos 60, é uma dessas histórias, com um final feliz que o próprio Vilhena nos avisa, no prefácio, ser improvável. Na realidade, as histórias como esta acabam sempre em miséria. Todos os sabemos, e a ficção não o contraria. Jovem rapariga do povo, semi-letrada (porque no Portugal do passado saber ler, contar e pouco mais era o essencial) e dotada de estonteantes curvas no seu corpo demasiado juvenil para o apetite de muitos dos homens que irá saciar, cai nas más graças de uma madrasta invejosa, cujos elevados atributos corporais começam a decair.

Afastada da família por tropelias, Branca acaba nos bares onde homens endinheirados se entretém com mulheres da noite, e depressa singra nessa carreira. Inteligente e dotada, vai subindo no elevador social da vida do vício, frequentando cabarets cada vez mais luxuosos e atendendo homens progressivamente mais ricos. Vilhena dá um final feliz à história, com o casamento com um médico inocente que a conhece nas lajes frias da morgue (não é tão mau como estão a pensar, mas poderia ser). Felicidade para os noivos, infelicidade para tantos homens que se regalaram com os dotes da Branca.

O tom é jocoso, mas a desmontagem das hipocrisias sociais é profunda. Vilhena não se coíbe de ilustrar a história com fotos sugestivas e os seus desenhos, a representar o corpo da mulher de formas voluptuosas. A sensualidade é a porta de entrada para a mais ácida sátira de costumes.