sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Visões: Motelx, 10ª Edição



O festival Motelx é a minha grande tradição de rentrée educativa. Nada melhor para celebrar as agruras e desafios de mais um ano lectivo do que mergulhar num transe induzido por filmes de terror. Saí da edição do ano passado com o firme propósito de see moar films, mas as datas do ticEduca apanharam-me e passei parte dos dias do festival a aprender e partilhar ideias sobre tecnologia educativa. O que deu origem a curiosos sincronismos, como estar de manhã a ouvir Sugata Mitra em conferência, e assistir à tarde a uma apresentação e filme de António de Macedo, e perceber que em áreas e experiências diferentes, ambos disseram o mesmo sobre o poder da felicidade individual como elemento basilar para a construção de uma melhor sociedade. Mitra expôs a ideia através de uma matriz de características a incentivar nos alunos, Macedo num diálogo do seu filme, onde um presidente de câmara comenta com um padre de aldeia que por vias ínvias (é um filme de Macedo...) vê o seu sonho de um natal cheio de brinquedos para as crianças pobres, que "mas olhe que isso não resolve o problema social". "Estão felizes, " responde, "é o primeiro passo".

Yep. Conexões entre áreas díspares sem ligação aparente ente si. É um vício, confesso.



Don't Breathe (Fede Alvarez, 2016)

Thriller procedimental muito bem estruturado e montado, apesar de bastante banal na sua premissa. É um misto de casa assombrada/de horrores com um anti-herói violento, que vai dar caça à um grupo de jovens que trespassa a santidade do seu lar, podendo revelar os segredos tenebrosos que as paredes ocultam. Há aqui umas variantes. Ninguém é inocente, as vítimas são pequenos ladrões, e o formidável e imparável adversário é cego. Imaginem um Mr. Magoo muito badass, e já perceberam o filme. Destaca-se pelo uso da paisagem suburbana de uma Detroit caída ao abandono para a sua estética do isolamento geográfico, estrutura implacável e ritmo mantido sempre elevado. A técnica cinematográfica deste filme, de excelente nível, está afinada para manter sempre o espectador intrigado com o inesperado.

Este filme abriu, e muito bem, o festival. Dispensava-se era a longa introdução (mais de uma hora, creio), dos organizadores. Sim, certo, o festival está a crescer e ainda bem, patrocinadores oblige e há que os mencionar, e claro que um simples declaro o festival aberto também não teria piada, mas era mesmo preciso passar tanto tempo a abrir o festival?


O Segredo das Pedras Vivas (António de Macedo, 2016)

Nos anos 90, António de Macedo realizou para a RTP uma série de temática natalícia, que mais de vinte anos depois, com esquecimento e bobines perdidas pelo meio, consegue realizar como o gostaria de ter feito na altura, como narrativa cinematográfica. Com este realizador, já se sabe que a abordagem seguirá caminhos de recorte misticista, na confluência da modernidade contemporânea da época filmada com tradições milenares e esoterismo. Com o seu humor e acutilância muito própria, leva-nos a um Alentejo interior onde as antigas tradições colidem com os interesses venais. Quando um arquitecto chega a uma aldeia para trabalhar na encomenda de uma casa por parte de um grande proprietário local, descobre-se num mundo ancestral, onde antigos ritos são mantidos vivos por mulheres sensíveis, a religião é uma instituição carinhosa, enriquecido pelos dramas, amores, desamores e idiossincrasias de cada um, a tensão entre lucro e tradição é muito grande. Omnipresentes, mas ameaçadas, as pedras, cromeleques e megalitos milenares espalhados pelas terras, talvez alinhados pelas linhas de força telúrica do planeta.

É o grande ponto alto do Motelx deste ano. Pelo regresso deste veterano realizador, já tão tardio e que já tanto tardava, pela homenagem à sua carreira e personalidade. Arrepiou, ver o público que enchia a Sala Manuel de Oliveira do cinema S. Jorge a aplaudir, de pé, este grande e tão esquecido mestre do cinema fantástico português.



The House on the Edge of the Park (Ruggero Deodato, 1980)

Evitei deliberadamente a sessão de Cannibal Holocaust, optando por este para preencher a lacuna na minha cultura fílmica que é não conhecer a obra de Ruggero Deodato. O exagero chocante de exploitation não me atrai. Esperava deste um filme incómodo, sangrento, perverso, a fazer jus à fama do autor. Passei a sessão com sérias dificuldades em manter-me acordado, imune à sucessão de imagens de erotismo violento desta história que parecia ser uma situação em que jovens ficam à mercê de personagens violentos mas no final se revela uma vingança perversa, com as vítimas a deixarem-se vitimizar deliberadamente para justificar um assassinato por vingança. O melhor do filme foi as dessincronização entre o som e a imagem, que nos legou momentos de comédia acidental. Com este filme coloquei um visto no nome de Deodato e pus de lado. Os prazeres viscerais do voyeurismo da exploitation não são de todo uma vertente que goste no cinema fantástico.


K-Shop (Dan Pringle, 2016)

Não tinha quaisquer expectativas sobre este filme, candidato ao prémio de longa metragem do festival. A apresentação do realizador, observando que íamos ver british people behaving badly, despertou a atenção. O filme vive dessa tensão, entre filme de terror tradicional que segue as façanhas de um serial killer e a acidez do comentário social sobre a lad culture e a tradição de bebedeiras sem limites, com todos os comportamentos violentos e degradantes que lhe estão associados e a cupidez de empresários sem escrúpulos que incentivam estas culturas. Ainda toca nas tensões étnicas, com descendentes de imigrantes como alvo da xenofobia de bêbedos violentos. Apesar de algumas linhas narrativas demasiado desenvolvidas face a uma poderosa história fulcral, é um filme forte e divertido. Sem querer fazer muitos spoilers, digamos que o destino que aguarda os bêbedos que vandalizam a loja do jovem ex-estudante de uma prestigiada universidade londrina, herdada do seu pai, refugiado de guerra, nunca mais vai deixar os espectadores deste filme olhar para um kebab da mesma maneira. Tastes like chicken, diziam os antropófagos. Ah, esse é o bónus do filme. Boas lições sobre como fazer kebab caseiro, com ingredientes frescos e naturais. 



Tiaga/A Princesinha das Rosas (Noémia Delgado, 1981)

Um dois em um,  recuperando a cinematografia de Noémia Delgado através de dois episódios televisivos que dramatizam contos fantásticos de autores portugueses. Em Tiaga, adaptado de um conto de Aquilino Ribeiro, acompanhamos uma mulher idosa que revive o viço da juventude, através das artes mágicas de um peregrino tomado pelo espírito do demo. A Princesinha das Rosas mergulha-nos  num decadentismo medievalista de fin de siecle, a partir de um conto de Fialho de Almeida. Conta a história de Naíde, filha dos amores de um pescador e de uma sereia, adoptada por um rei que a encontra, quando bebé, à deriva numa barcaça pelos rios.

Filmes de uma estética notável, belos nos seus enquadramentos e iconografias. A velha e o seu bode preto nas serranias áridas, as sereias caprichosas nas águas, o peregrino a ser possuído pelo demo, a noiva defunta que se eleva da sua campa num cemitério oculto sob o céu nocturno. São imagens poderosas, compostas com um forte sentimento estético. O hieratismo dos filmes, de uma teatralidade monumental nas suas declamações, a lentidão do seu ritmo, marcam o estilo de um certo cinema português, apreciado pelos intelectuais, mas não muito adaptável aos gostos mais generalistas. Visualmente espantosos, mesmo vistos em cópia degradada, são filmes pesados e maçudos.



The Devil's Candy (Sean Byrne, 2015)

Um filme apropriado para encerrar o festival, num registo de terror clássico. Tem uma curiosa indecisão entre filme de assassino em série e possessão demoníaca, apesar de se centrar numa casa amaldiçoada por uma possessão, e na família de um pintor que tem entre os seus clientes um galerista chamado de Belial. Difícil ser mais óbvio que isto. O filme tem um forte pendor para as sonoridades e iconografia do metal, usando muito o som como elemento de tensão. Vai em crescendo até ao final deliciosamente violento e apocalíptico. Não se tornará um clássico deste género de cinema, mas garantiu um final divertido do Motelx.



The Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman, 1975)

Suspeito que se tornará tradição no festival. Depois da sessão memorável do ano passado, esta delícia de mau cinema regressou, desta vez numa sessão ao ar livre no largo de S. Carlos. Parte do warm up do festival, foi interessante ver o largo cheio de fãs, cosplayers vestidos a rigor (com especial predilecção por Magentas, já que para se encarnar como doutor Frank N Furter é preciso muita coragem), e bastante público atraído pela proposta de cinema ao ar livre numa morna noite de verão. Estes últimos de certeza que não estavam à espera deste tipo de filme.

A sessão sublinha o quanto este filme mostra que se o cinema, hoje, poder ser visto em múltiplos ecrãs e formatos, é na experiência social de ir ao cinema que está a essência desta arte. Este filme, assumidamente mau e over the top, não funciona se for visto em isolamento. É a interacção entre o público e a imagem projectada, canonizada em guiões seguidos à risca pelos fãs, que torna o seu visionamento uma experiência fantástica.

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